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Leandro Maia Gonçalves - DRE: 112084003 Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais Licenciatura em Ciências Sociais 1º Semestre de 2013 (3º período) Questões Antropológicas Contemporâneas Prof. Fabiano Dias Monteiro Reação aos textos da segunda parte do curso: A problemática dos “índios misturados” traz à tona várias questões sobre semelhanças e diferenças entre as diversas sociedades indígenas, que tem muito em comum, mas que também apresentam importantes características distintas. Se os estudos a respeito de comunidades indígenas no Brasil se restringiam àqueles feitos sobre a cultura dos nativos da Amazônia, atualmente temos considerável material que nos esclarece um pouco sobre a antropologia e a história dos índios do Nordeste, que em parte sofreram influência econômica e cultural da civilização colonizadora local, mas que de certa forma manteve parte de seus integrantes meio que isolados das interferências modernas, mas que não deixaram de absorver parte do que outros povos podiam lhe oferecer, ainda que de forma limitada. Uma cultura indígena realmente não deixa de ser pura, legítima e verdadeira simplesmente por adquirir alguns hábitos, costumes ou comportamentos recebidos por meio do convívio com outras culturas, sejam estas indígenas ou não, e isso se constata através de autores que defendem esse ponto de vista com base em estudos, argumentos e narrativas de experiências de convívio que coerentemente trazem informações a esse respeito, embora possa haver divergências sobre isso. Afinal, em antropologia não se pode afirmar com veemência sobre determinado ponto de vista, pois, o conhecimento não é feito de acúmulo de informações, mas sim por revisão de conceitos e por uma espécie de fusão de teses e de argumentos que se completam. Nem sempre existem plena coerência e sincronismo no comportamento e na cultura de uma sociedade porque a mesma também apresenta características incorporadas de outros grupos, mas apesar disso conseguem manter uma essência e traços que a diferenciam de outras, ainda que com o passar do tempo a história possa nos revelar algo diferente disso, porque as transformações estão em curso e não se pode determinar limites para definir este ou aquele grupo social, pois, a percepção humana muda, agregando novos conceitos ou retificando antigos pensamentos, se adequando às necessidades e mudanças do cotidiano. O texto de Biersack faz uma ligação entre antropologia e história, citando Maitland: a antropologia será história, ou não será absolutamente nada. Concordo pelo ponto de vista de que um estudo antropológico, ainda que seja divergente de vários outros estudos na área, não deixa de ser histórico, porque contém informações que servem ao menos de base comparativa para estudos mais recentes. Afinal, nos livros de história também não há uma unanimidade plena, embora grande parte dos fatos mais importantes já estudados encontre aceitação da maioria. 2 O texto em questão também fala de um desvio da antropologia, levando da antropologia estrutural, não-histórica, à antropologia histórica. Essa associação de disciplinas teria influência em função de correntes intelectuais provenientes da Europa. Um autor bastante citado, e que tem seu nome no título do texto é Geertz, contestado por muitos por seu método de interpretação das culturas, que não parece apresentar bases teóricas fortes e convincentes. O próprio Geertz escreve confessando o fato de seus estudos não apresentarem afirmações fáceis de serem comprovadas ou entendidas, dizendo que o quanto mais se aprofunda em um assunto, mais incompleto este se torna. Geertz também não se agrada muito do material antropológico que encontra, contestando e até mesmo atacando algumas correntes teóricas, como o materialismo, e o estruturalismo de Lévi-Strauss. Geertz não veio para explicar, encerrar um assunto, veio para oferecer possibilidades de reflexão a respeito de temas que alguns procuravam definir, limitar. Semelhantemente a Geertz, Davis constatou a respeito de um filme no qual trabalhou no desenvolvimento dos personagens, quando disse que dispunha de seu próprio laboratório histórico, que não gerava provas, mas possibilidades. Geertz também fala a respeito de um preconceito encontrado na antropologia contemporânea, oriundo do século XIX, onde o simbólico se opõe a real, o figurativo a literário, o fantasioso a racional, o místico a mundano, etc. E esse tipo de pensamento é oposto ao que Geertz defende. Dentre as várias críticas às teorias de Geertz, a que me pareceu mais objetiva é a de Shankman, diz que “a incapacidade da teoria interpretativa tem em apresentar critérios para a avaliação de diferentes paradigmas coloca um gigantesco obstáculo em sua pretensão de ser teoricamente superior.” Isso é verdade, mas em momento algum me pareceu que Geertz propõe algo semelhante, como ele mesmo diz. Geertz me parece familiar, no sentido em que vejo algumas de suas teorias em acordo com coisas que penso, inclusive pelo fato de que nem sempre consigo ser claro e objetivo com as pessoas sobre o que penso, sinto, e percebo que poderia ser mais objetivo, preciso. Mas, como ser preciso sobre aquilo sobre o que não temos domínio? Interessante é a descrição densa, que analisa sobre o que algo nos diz, e não sobre o que algo faz, como quando faz diferença entre um abrir e fechar de olhos involuntário e uma piscadela proposital, um código, um sinal de significado específico. Outra pérola de Geertz, para mim é sobre o homem ser um animal suspenso a uma teia de significados que ele mesmo teceu. É fantástico! Falando em teia, como o texto aproxima e identifica a antropologia e a história, para mim o saber e a história local tem a ver com o artigo de Roger Keesing, que diz que culturas são teias de significado, que precisamos perguntar quem as define e com quais intenções. É como se uma análise sobre determinada cultura local dependesse tanto de quem observa quanto de que maneira as informações são repassadas ao observador. Ou seja, é subjetivo, relativo, impreciso e fala sobre a história local ser contada de maneiras 3 diferentes, dependendo do universo que a interpreta, se global ou limitado geograficamente. Vou finalizar com uma reflexão interessante sobre cultura. Seria o mundo um sistema complexo, onde as culturas se relacionam e se completam, apesar de suas divergências e linguagens por vezes impossíveis de interpretar, ou seria um conjunto de culturas distintas e nem sempre relacionáveis, mas que apesar disso se mantem conexas e interdependentes? “Estrutura e história” completa a temática da segunda parte do curso, reforçando o significado da comparação e da combinação entre antropologia histórica e história antropológica, analisando a estrutura da sociedade de uma ilha, com seus simbolismos e crenças, tabus e concepções, que sob influência da interação com uma nova cultura, a dos militares que chegavam a uma nova terra, sofre transformação comportamental e cultural, sem perder sua essência histórica, se adaptando às novas realidades de interação e de convívio, de acordo com as demandas que surgiam, procurando tirar proveito da situação que se apresentava, assim como os marujos também faziam a respeito de interesses sexuais que afloravam entre eles e as nativas, enquanto que no caso das nativas o interesse era maior no que dizia respeito aos presentes e novidades que poderiam obter dos visitantes, assim como na representação de superioridade que lhes era atribuída pelas habitantes da ilha, que sofriam opressão por parte dos chefes sacerdotais, que exerciam autoridade e domínio sobre seu povo, decidindo sobre que parte dos produtos conseguidos através do comércio com estrangeiros seria compartilhada com ele. Apesar de toda a influência e transformação sofridas através do contato do nativo com o homem moderno e vice-versa, os mesmos permanecem os mesmos em essência, apesarde suas diferenças, contradições e contrastes, pois, uma mudança pode ocorrer, sem que para isso haja descaracterização. Mudança não é oposta a estabilidade, assim como história não se opõe a estrutura, como é sugerido por algumas correntes de pensamento. Toda essa dinâmica ocorre na forma de eventos, que não surgem do nada, mas com sentido no que diz Max Weber quando afirma que “Eventos acontecem por causa de seu significado, e são dependentes na estrutura por sua existência e por seu efeito.” Para concluir, gostaria de ter tido mais tempo para ler e reler cada texto, para que pudesse assimilar melhor o conteúdo dos mesmos. Apesar disso, vi tal interligação entre os textos, que às vezes, ao escrever a respeito de um, posso estar, na verdade, escrevendo sobre um dos outros, pela contextualização dos temas. Espero ter a oportunidade de ler mais, embora exista a possibilidade de não aproveitar o tanto que eu gostaria por causa da complexidade e profundidade das análises que são feitas a respeito de variados temas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 4 PACHECO DE OLIVEIRA, João 1999. ‘A problemática dos “Índios misturados” e os limites dos estudos americanistas: um encontro entre antropologia e história’. Em: Ensaios em Antropologia Histórica. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Pp. 99-123. BIERSACK, Aletta. Saber Local, História Local: Geertz e Além. In: HUNT,Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 97-113. SAHLINS, Marshall 1990. ‘Estrutura e História’. Em: Ilhas de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Pp. 172-194.