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Fundamentos do direito processual penal Prof. Edison Burlamaqui Descrição Fundamentos do direito processual penal, nomeadamente seus princípios fundamentais, as fontes, os sujeitos e a lei processual no tempo e no espaço. Propósito O estudo dos fundamentos do processo penal é de extrema relevância, pois estabelecem as bases que organizam todo o sistema, tanto na criação das leis como em sua aplicação, isto é, determinam como será a investigação, a acusação, o procedimento, como o juiz sentenciará e como as partes devem se comportar. Preparação Antes de iniciar o estudo, tenha em mãos o Código de Processo Penal. Objetivos Módulo 1 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 1 de 68 Mobile User Princípios fundamentais Identificar os princípios fundamentais do processo penal. Módulo 2 Sistemas processuais penais Distinguir os sistemas penais. Módulo 3 Lei processual no tempo e no espaço, fontes e sujeitos Analisar as características da lei processual no tempo e no espaço, as fontes e os sujeitos. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 2 de 68 Introdução Como já dito, o estudo dos fundamentos do direito processual penal é de extrema relevância, pois estabelecem as bases de todo o sistema. Assim, para compreender o funcionamento das instituições, as regras e, até mesmo, os diversos posicionamentos doutrinários e jurisprudenciais, é essencial conhecer os alicerces do sistema processual penal atual, bem como parte de sua história. Iniciaremos nosso estudo com a análise dos principais princípios do direito processual penal, cujo conhecimento é de grande importância por funcionarem como um “norte” para a legislação e para a jurisprudência, auxiliando na aplicação do direito. Em seguida, passaremos a analisar os sistemas processuais penais, para que possamos compreender a evolução do direito processual penal, bem como um pouco de sua história. Por fim, vamos verificar como se dá a aplicação da lei processual penal no tempo e no espaço, sendo de grande importância tal estudo para que possamos definir a legislação aplicável. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 3 de 68 Mobile User 1 - Princípios fundamentais Ao final deste módulo, você será capaz de identificar os princípios fundamentais do processo penal. Ligando os pontos Você conhece os princípios do direito processual penal? Para entendermos melhor tais conceitos, vamos analisar um caso fictício. João foi denunciado pela prática do crime de homicídio qualificado em razão de motivo torpe (art. 121, §2º, I do CP). A denúncia foi recebida, sendo João devidamente citado para apresentar defesa prévia. A defesa de João, por sua vez, alegou preliminares e refutou a acusação, requerendo, ao final, a impronúncia do acusado, inclusive arrolando testemunhas e juntando documentos. Após a instrução processual, João foi pronunciado nos termos da denúncia, tendo tal decisão transitado em julgado. João então foi levado a plenário do júri. No dia do julgamento, foi feito o pregão, estando presentes o acusado, as testemunhas de acusação e de defesa, os jurados, o juiz presidente, o promotor de justiça e o advogado de defesa. O juiz então declarou aberta a sessão de julgamento e, após cumpridas as formalidades iniciais, passou ao sorteio dos jurados, sendo formado o conselho https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 4 de 68 Mobile User formalidades iniciais, passou ao sorteio dos jurados, sendo formado o conselho de sentença. Foi então iniciada a sessão, tendo sido ouvidas as testemunhas e colhido o interrogatório do acusado. Após os debates, o juiz questionou os jurados se estes estavam aptos a realizar a votação. Com a resposta positiva, a leitura e a explicação dos quesitos, foram todos para a sala secreta. Finalizada a votação, o acusado foi condenado a 17 anos de reclusão, sendo sua sentença lida em plenário, tendo o juiz determinado o recolhimento do condenado ao cárcere, mesmo tendo este respondido o processo em liberdade, e, após, foi encerrada a sessão de julgamento. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 O processo penal brasileiro é regido por uma série de princípios previstos na Constituição e na legislação. Aponte qual princípio não é aplicável ao julgamento realizado no tribunal do júri pelo conselho de sentença. A Presunção de inocência https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 5 de 68 Parabéns! A alternativa D está correta. No tribunal do júri, há mitigação da obrigatoriedade de motivação, pois o conselho de sentença, formado por juízes leigos, não pode motivar nem fundamentar o seu entendimento, vigorando o princípio da incomunicabilidade dos jurados e da íntima convicção. Questão 2 Como vimos no caso, a Constituição Federal, em seu art. 5º, XXXVIII, “d” determina que é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurada a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, sendo este o juiz natural para julgar tais crimes. Nesse sentido, analise as afirmativas a seguir sobre os desdobramentos do princípio do juiz natural em um tribunal do júri. I. Somente aqueles investidos legalmente de jurisdição podem exercê-la. II. É vedado o tribunal de exceção. III. Deve haver uma distribuição específica e taxativa da B Ampla defesa C Devido processo legal D Motivação E Contraditório https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 6 de 68 Mobile User III. Deve haver uma distribuição específica e taxativa da competência para o julgamento. IV. O promotor natural há de ser sempre aquele previamente estatuído em lei. Está correto o que afirma em Parabéns! A alternativa D está correta. O princípio do juiz natural, decorrente da Constituição (art. 5º, XXXVII e LIII), apresenta três facetas: i) somente aqueles investidos legalmente de jurisdição podem exercê-la; ii) ninguém será processado e julgado por um órgão instituído após o fato (vedação ao juízo de exceção); e iii) deve haver uma distribuição específica e taxativa da competência para o julgamento. Entretanto, parte da doutrina fala ainda no princípio do promotor natural. Para essa parte, esses princípios vedam a designação arbitrária, pela chefia da instituição, de promotor para patrocinar caso específico, ou seja, o promotor natural há de ser sempre aquele previamente estatuído em lei. A I e II apenas. B II e III apenas. C IV apenas. D I, II e III apenas. E II, III e IV apenas. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 7 de 68 Questão 3 Após a leitura do caso, foi possível verificar que, ao final do processo, o juiz determinou o recolhimento do acusado ao cárcere, mesmo este se encontrando em liberdade. Considerando as recentes alterações no Código de Processo Penal, discorra sobre a legalidade de tal decisão. Digite sua resposta aqui Chave de resposta No que se refere ao tribunal do júri, a Lei nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019, trouxe uma importante previsão acerca das apelações oriundas dos julgamentos plenários. Atualmente, admite-se a execução provisória da pena nos casos de condenação no tribunal do júri a uma pena igual ou superior a 15 anos de reclusão. Dessa forma, segundo o art. 492, § 4º do CPP, a apelação nesses casos não terá efeito suspensivo, salvo determinadas exceções. Logo, poderia o magistrado ter determinado a prisão do acusado. Conceituação de princípios Segundo Miguel Reale (1986, p. 60), “princípios são, pois, verdades ou juízos fundamentais, que servem de alicerce ou de garantia de certeza a umOutra hipótese indicada expressamente é aquela em que devem ser aplicadas as prerrogativas constitucionais do presidente da República, dos ministros de Estado, nos crimes conexos com os do presidente da República, e dos ministros do STF, nos crimes de responsabilidade. Essa hipótese se refere aos crimes de natureza político-administrativa, e não aos delitos comuns, sendo o julgamento dessas infrações realizado pelo Poder Legislativo e não pelo Judiciário. Atenção! Os processos de competência da Justiça Militar, isto é, os crimes militares, seguem os ditames do Código de Processo Penal Militar (Decreto-lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969), e não da legislação processual comum. Quanto aos processos por crimes da imprensa, vale destacar que o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADPF 130-7/DF, declarou que tal norma não foi recepcionada pela Constituição, de modo que, atualmente, os antigos crimes da Lei de Imprensa (Lei nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967) deverão ser enquadrados, quando possível, na legislação comum, e a apuração ocorrerá nos termos do Código de Processo Penal. Por fim, importante indicar que o art. 5º, §4º, da CF prevê que o Brasil se submete à jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Dessa forma, ainda que um delito seja cometido em território nacional, havendo denúncia a esse tribunal, o agente deverá ser entregue para que lá seja julgado, aplicando-se as regras de direito internacional. Aplicação da lei processual penal https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 58 de 68 Mobile User Aplicação da lei processual penal no tempo Como regra geral, aplica-se o princípio do efeito imediato ou princípio da aplicação imediata ou sistema do isolamento dos atos processuais. Assim dispõe o CPP: Art. 2º - A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior. (CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Dessa forma, o art. 2º do CPP adotou o princípio da imediata aplicação da lei processual penal, também chamado de princípio tempus regit actum. De acordo com esse princípio, os novos dispositivos processuais podem ser aplicados a crimes praticados antes de sua entrada em vigor. Assim, para a definição da lei aplicável, considera-se a data da realização do ato e não a data da infração penal. Ante o exposto, a lei processual será aplicada imediatamente, ainda que prejudicial ao réu. Destaca-se que não há violação ao art. 5º, XL, da CF, pois a vedação incorporada nesse dispositivo constitucional não se refere às normas puramente processuais penais, mas apenas às normas de natureza penal. Vale ressaltar que o art. 3º da Lei de Introdução ao CPP dispõe que “o prazo já iniciado, inclusive o estabelecido para a interposição de recurso, será regulado pela lei anterior, se esta não prescrever prazo menor do que o fixado https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 59 de 68 Mobile User regulado pela lei anterior, se esta não prescrever prazo menor do que o fixado no CPP”. Assim, se um determinado prazo já estiver em andamento, incluindo o prazo recursal, valerá o prazo da lei anterior se o prazo da nova lei for menor do que aquele outro. Tal situação apresenta uma hipótese de ultratividade da lei processual penal. É importante, contudo, diferenciar as chamadas normas processuais heterotópicas e normas processuais mistas ou híbridas: Normas processuais heterotópicas https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 60 de 68 Mobile User Como sabemos, normas processuais são aquelas que regulamentam aspectos relacionados ao procedimento ou à forma dos atos processuais, possuindo aplicações imediatas. Já as normas materiais são aquelas que objetivam assegurar direitos ou garantias, possuindo efeitos retroativos nas hipóteses que beneficiam o réu, mas jamais retroagindo para prejudicá-lo. Ocorre que existem determinadas regras que, apesar de inseridas em diplomas processuais penais, possuem conteúdo material, retroagindo para beneficiar o réu. Outras, ao revés, incorporadas a leis materiais, apresentam um conteúdo processual, regendo-se pelo critério tempus regit actum. Essas são chamadas de normas heterotópicas. São aquelas que possuem preceitos de direito material e de direito processual. Nessas hipóteses, prevalece o conteúdo material da norma, assim devem respeitar o princípio que veda a aplicação retroativa da lei penal quando seu conteúdo for prejudicial ao réu. Ou seja, a regra de irretroatividade não se aplica às normas processuais que também possuem em seu conteúdo natureza de direito material. Eficácia da lei processual penal no tempo e espaço Veja mais sobre a eficácia da lei processual no tempo e no espaço. Normas processuais híbridas https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 61 de 68 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 62 de 68 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 (Pefoce - Auxiliar de perícia - 2021 - Idecan) Em caso de alteração legislativa no Código de Processo Penal, que traga apenas disposições de direito processual, é correto afirmar que referida alteração legislativa será aplicada A com ressalvas, respeitando-se a irretroatividade maligna. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 63 de 68 Parabéns! A alternativa E está correta. Segundo o art. 2º do Código de Processo Penal, a lei processual penal será aplicada desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior. Questão 2 (Instituto AOCP - 2021 - PC-PA - Investigador de polícia civil) De acordo com o Código de Processo Penal, assinale a alternativa correta. B apenas quando se iniciar uma nova fase processual, sendo certo que as fases são: postulatória, instrutória, decisória e recursal. C a depender do caso concreto, podendo as partes solicitar a manutenção do regramento anterior se este se revelar mais eficiente ao caso já em andamento. D apenas para os delitos praticados após a entrada em vigor de referida lei processual, exceto se a lei nova se revelar mais benéfica, ocasião em que deverá retroagir. E desde logo, sem prejuízo dos atos praticados sob a égide de lei processual penal anterior. A A lei processual penal veda expressamente o uso de interpretação extensiva e analógica. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 64 de 68 Parabéns! A alternativa B está correta. O Código de Processo Penal, em seu art. 1º, adotou o princípio da territorialidade, ou seja, a lei processual penal só se aplica no âmbito do território nacional. Considerações finais interpretação extensiva e analógica. B O princípio processual penal da territorialidade é regra que assegura a soberania nacional, pois não convém ao Estado brasileiro aplicar normas procedimentais estrangeiras para apurar e punir um delito ocorrido dentro do território brasileiro. C A nova lei processual penal não se aplica desde logo, mas aguarda o término do processo já instaurado. D O processo penal rege-se em todo o território brasileiro, excetuados os territórios da União. E O processo penal terá estrutura inquisitória, permitida a iniciativa do juiz na fase de investigação. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 65 de 68 Considerações finais Conforme visto, os fundamentos do processo penal são de grande importância para a compreensão do nosso sistema e do ordenamento jurídico vigente atual. Verificamos que os princípios de direito processual penal funcionam como verdadeirasgarantias para os investigados, possuindo a finalidade de conter eventuais abusos por parte do Estado. Prosseguindo, por meio da análise dos sistemas processuais penais, foi possível verificar a evolução do direito processual penal e perceber que tais sistemas possuem relação direta com os regimes políticos vigentes. Da mesma forma, verificamos que o sistema brasileiro possui características do sistema inquisitório e do sistema acusatório, o que é objeto de muitas críticas pela doutrina. Por fim, analisamos os sujeitos e as fontes do processo, bem como a aplicação da lei processual penal no tempo e no espaço. Tal estudo se mostra de grande relevância para a definição da norma aplicável. Podcast Para encerrar, ouça uma revisão geral dos princípios, abordando aspectos de maior relevo. Explore + https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 66 de 68 Explore + Confira a indicação que separamos especialmente para você! Leia o Título 1 do livro Manual de processo penal – volume único de Renato Brasileiro de Lima, publicado pela JusPodivm. Referências BARROSO, L. R. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma dogmática constitucional transformadora. São Paulo: Saraiva, 1999. BRASILEIRO DE LIMA, R. Manual de processo penal: volume único. 10. ed. rev., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2021. CARVALHO, L. G. G. Castanho de. Momentos entre o passado e o presente do processo penal no contexto do sistema criminal. Revista Eletrônica de Direito Processual, ano 13, v. 20, n. 1, p. 288-314, jan./abr. 2019. DINAMARCO, C. R. A instrumentalidade do processo. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1993. FERRAJOLI, L. Direito e razão: teoria do garantismo penal. Tradução de Ana Paula Zomer Sica e outros. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2002. GRECO, L. O princípio do contraditório. Revista Dialética de Direito Processual, n. 24, p. 71-79, mar. 2005. LOPES JUNIOR, A. Direito processual penal. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. MARQUES, J. F. Elementos de direito processual penal. V. I. São Paulo: Bookseller, 1998. NUCCI, G. de S. Curso de direito processual penal. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 67 de 68 Forense, 2021. PRADO, G. Sistema acusatório. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. REALE, M. Filosofia do direito. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 1986. RODRIGUES, M. A. dos S. A modificação do pedido e da causa de pedir no processo civil. Rio de Janeiro: GZ, 2014. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material O que você achou do conteúdo? Relatar problema https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 68 de 68conjunto de juízos, ordenados em um sistema de conceitos relativos à dada porção da https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 8 de 68 Mobile User de juízos, ordenados em um sistema de conceitos relativos à dada porção da realidade. Às vezes também se denominam princípios certas proposições, que, apesar de não serem evidentes ou resultantes de evidências, são assumidas como fundantes da validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus pressupostos necessários”. Para Luís Roberto Barroso (1999, p. 147), princípios "são o conjunto de normas que espelham a ideologia da Constituição, seus postulados básicos e seus fins. Dito de forma sumária, os princípios constitucionais são as normas eleitas pelo constituinte como fundamentos ou qualificações essenciais da ordem jurídica que institui". Ante o exposto, os princípios possuem duas funções principais: normativa e interpretativa. Com efeito, os princípios são normas jurídicas, possuindo força coercitiva e podendo ser invocados para a solução de casos concretos. Além disso, na hipótese de dúvida na interpretação das normas, os princípios podem ser utilizados para eventual esclarecimento na sua aplicação. Os princípios característicos do processo penal funcionam ainda como garantias dos investigados, possuindo a finalidade de conter eventuais abusos por parte do Estado. Dessa forma, sua análise é essencial para o estudo e a compreensão do direito processual penal brasileiro. Passemos agora a analisar os principais princípios aplicáveis ao direito processual penal. Princípios ligados diretamente ao processo Princípio do devido processo legal https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 9 de 68 Mobile User O princípio do devido processo legal é uma garantia basilar do processo penal, e que abarca outras tantas garantias constitucionais. Trata-se de uma forma de assegurar a todos um julgamento justo. O julgamento justo, por sua vez, pressupõe o respeito as regras do processo penal e a observância de garantias constitucionais, como o mencionado devido processo legal, por exemplo. Busca- se, com isso, proteger o cidadão contra o uso arbitrário do poder punitivo estatal. Esse princípio está previsto no art. 5º, LIV da Constituição Federal, que determina que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. O exame desse princípio, originário do due process of law, nos permite identificar alguns direitos ou prerrogativas essenciais à sua configuração como garantia da ordem constitucional. São exemplos de tais prerrogativas: O direito ao processo ou garantia de acesso ao Poder Judiciário. O direito à citação e ao conhecimento prévio do teor da acusação. O direito a um julgamento público e célere. O direito ao contraditório e à plenitude de defesa. O direito de não ser processado e julgado com base em leis ex post facto. O direito à igualdade entre as partes. O direito de não ser processado com base em provas ilícitas. O direito à gratuidade de justiça. O direito à observância do princípio do juiz natural. O direito ao silêncio ou a não autoincriminação. O direito à prova. O direito de presença e de participação ativa nos atos de interrogatório judicial. Assim, o devido processo legal garante ao acusado um processo justo, em que todas as garantias previstas na Constituição e nas leis sejam observadas e, ao final, a prolação de uma sentença por um juiz imparcial. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 10 de 68 Mobile User Mobile User Mobile User Mobile User Mobile User final, a prolação de uma sentença por um juiz imparcial. Princípio da busca da verdade real Também chamado de princípio da verdade material ou da verdade substancial, determina que, no processo penal, devem ser realizadas as diligências necessárias e adotadas todas as providências cabíveis para tentar descobrir como os fatos realmente se passaram, de forma que o jus puniendi seja exercido com efetividade em relação àquele que praticou ou concorreu para a infração penal. No entanto, é necessário ter em vista que a procura da verdade real não pode implicar violação de direitos e garantias estabelecidos na legislação. Assim, temos como exemplos de exceções à verdade real: a inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos (art. 5º, LVI, da CF) e a impossibilidade de revisão criminal contra a sentença absolutória transitada em julgado. Importante destacar que muitos criticam a ideia de que se deve buscar a verdade real. Confira o que pensa Aury Lopes Junior: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 11 de 68 Mobile User A visão de que o processo penal busca a mitológica verdade real é um ranço inquisitório superado há séculos. Trata-se de uma concepção vinculada ao sistema inquisitório e aos sistemas autoritários, que em nome da busca da verdade legitimaram as maiores atrocidades que a história da humanidade conheceu. Ademais é uma tese absurda, na medida em que confunde o real com o imaginário, pois o crime é sempre passado, logo, nunca é real. É memória, história, imaginação. É sempre imaginário, nunca é real. (LOPES JUNIOR, 2019, p. 513) Dessa forma, a crítica a tal noção se encontra no fato de que nunca se irá alcançar a verdade real, servindo esse princípio, muitas vezes, para justificar a atuação de ofício do magistrado, violando o sistema acusatório previsto na Constituição. Princípio da publicidade O princípio da publicidade determina que o Estado garanta a transparência a seus atos, reforçando, com isso, a ideia de independência, imparcialidade e responsabilidade do juiz. A publicidade surge como uma garantia individual, determinando que os processos civis e penais sejam, em regra, públicos, para evitar abusos dos órgãos julgadores, limitar formas opressivas de atuação da justiça criminal e facilitar o controle social sobre o Judiciário e o Ministério Público. Esse princípio está previsto expressamente na Constituição: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 12 de 68 Mobile User Art. 93, IX - Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988) E também no Código de Processo Penal: Art. 792 - As audiências, sessões e os atos processuais serão, em regra, públicos e se realizarão nas sedes dos juízos e tribunais, com assistência dos escrivães, do secretário, do oficial de justiça que servir de porteiro, em dia e hora certos, ou previamente designados. (CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Dessa forma, como visto, tal princípio se consagra como uma verdadeira garantia para o acusado, que estará menos suscetível a eventuais violências ou arbitrariedades por parte do Estado. Princípio do contraditório (art. 5º, LV, CF) https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 13 de 68 Mobile User O princípio do contraditório é considerado um dos princípios centrais do processo judicial moderno, sendo elemento substancial do acesso à Justiça, possuindo diversos desdobramentos. Nas palavras de Leonardo Greco: Numa noção elementar poderia ele ser definido como o princípio que impõe ao juiz a prévia audiência de ambas as partes antes de adotar qualquer decisão (auditur et altera pars) e o oferecimento a ambas das mesmas oportunidades de acesso à justiça e de exercício do direito de defesa. (GRECO, 2005,p. 71) Assim sendo, trata-se do direito assegurado às partes de serem cientificadas de todos os atos e fatos havidos no curso do processo, podendo manifestar-se e produzir as provas necessárias antes de o magistrado decidir. Tal princípio possui expressa previsão na Constituição Federal que afirma, em seu art. 5º, LV, que aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. Logicamente, tal concepção não determina um total distanciamento do magistrado, pelo contrário, este deve efetivamente integrar o contraditório, ordenando e equilibrando a atuação das partes de maneira a garantir a isonomia processual. Na realidade, no exercício do contraditório, o magistrado assume uma posição de controle, a partir da qual pode e deve agir para equacionar a ação dos envolvidos, garantindo um tratamento igualitário, sempre com o cuidado de não afetar a sua parcialidade, tema a ser tratado no tópico seguinte. Atenção! Esse princípio é mitigado em determinados casos, como ocorre no denominado contraditório diferido ou postergado, no qual a ciência ou impugnação do https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 14 de 68 Mobile User contraditório diferido ou postergado, no qual a ciência ou impugnação do investigado ou acusado ocorre em momento posterior. Em tais situações, a urgência da medida ou a sua natureza exige um provimento imediato, sob pena de prejuízo ao processo ou, no mínimo, de ineficácia da determinação judicial. Princípio da ampla defesa A ampla defesa traduz o dever do Estado de facultar ao acusado toda a defesa possível quanto à imputação que lhe foi realizada. É bem verdade que grande parte da doutrina entende que o contraditório e o direito de defesa são distintos. Entretanto, mesmo esta concorda que são indissolúveis, afinal é do contraditório que surge o exercício da ampla defesa. Não é outro o entendimento de Marco Antonio Rodrigues: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 15 de 68 Mobile User Para que se possa definir o conteúdo do contraditório, é preciso primeiro verificar sua relação com a ampla defesa, já que ambos estão previstos no artigo 5º, LV da Lei Maior. Com efeito, não se trata de sinônimos, até porque não seria útil que o legislador estabelecesse em um mesmo dispositivo duas previsões de sentido idêntico. Assim, a ampla defesa se constitui num elemento do contraditório, pois aquele significa permitir às partes que apresentem adequadamente as alegações que embasem sua pretensão ou defesa, com a consequente possibilidade de provar seus argumentos, bem como de interpor os recursos cabíveis em face das decisões proferidas. (RODRIGUES, 2014, p. 159) O exercício da ampla defesa é de fundamental importância na concretização do contraditório e da justiça. Afinal, o que fundamenta o acesso à justiça é a busca pela verdade — seja real ou processual — e somente por meio da garantia às partes dos meios para reconstruir os fatos é que se torna possível aplicar o direito de forma legítima. Na realidade, a própria essência do contraditório se consubstancia em uma fórmula para buscar a verdade. A concepção moderna da garantia da ampla defesa reclama, para a sua verificação, seja qual for o objeto do processo, a conjugação de três realidades procedimentais, genericamente consideradas, a saber: a) o direito à informação; b) a bilateralidade da audiência; e c) o direito à prova legalmente obtida ou produzida. É importante destacar ainda que, para a doutrina, a ampla defesa pode ser exercida de duas formas distintas: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 16 de 68 Mobile User defesa pode ser exercida de duas formas distintas: autodefesa e defesa técnica. A autodefesa é realizada facultativamente pelo próprio agente, sendo permitido calar-se ou trazer qualquer elemento de convicção, ainda que não jurídico, o que pode ser bastante útil perante os jurados no tribunal do júri, que decidem de acordo com a íntima convicção. Já a defesa técnica é realizada obrigatoriamente por advogado habilitado, conforme o art. 261 do CPP, não podendo o réu se autorrepresentar no processo penal, a não ser que seja advogado (art. 263 do CPP), sendo esta defesa irrenunciável. A falta de defesa técnica, no processo penal, nos termos da Súmula nº 523 do STF, constitui nulidade absoluta, mas, se for deficiente apenas, só anulará o processo caso exista prova do prejuízo do réu. Por fim, é preciso ressaltar que não é suficiente garantir à parte, como exercício da legítima defesa, o direito à prova e a possibilidade de participar do processo, sendo essencial a efetiva capacidade de influenciar o julgador na tomada de sua decisão. Assim, de nada adianta a parte produzir provas e evidências se o magistrado não está inclinado ou obrigado a considerá-las. Princípios ligados diretamente às partes Princípio do in dubio pro reo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 17 de 68 Mobile User Também chamado de princípio da prevalência do interesse do réu, favor rei, favor libertatis ou favor inocente, esse princípio privilegia a garantia da liberdade em detrimento da pretensão punitiva do Estado, decorrendo diretamente da presunção de inocência. Segundo tal princípio, a dúvida deve militar em favor do acusado. Dessa forma, na ponderação entre o direito de punir do Estado e o status libertatis do imputado, este último deve prevalecer. A doutrina indica que tal princípio está previsto implicitamente no art. 386, VII do Código de Processo Penal, que determina que o juiz absolverá o réu quando não existir prova suficiente para condenação. Destaca-se que esse princípio é mitigado em determinados momentos, como na decisão de pronúncia, em que não se exige a certeza da autoria do crime, mas apenas a existência de indícios suficientes e prova da materialidade, imperando, nessa fase final da formação da culpa, o chamado in dubio pro societate. Da mesma forma, tal princípio também é mitigado na decisão de recebimento da denúncia, ou seja, caso haja dúvida sobre a pertinência da ação penal, deve ela ser admitida. Princípio da presunção de inocência Esse princípio está previsto no art. 5º, LVII da Constituição Federal que determina que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Também chamado de princípio do estado de inocência ou da situação jurídica de inocência ou da não culpabilidade, esse princípio deve ser considerado em três momentos distintos: Na instrução processual, como presunção legal relativa de não culpabilidade, invertendo-se o https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 18 de 68 Mobile User O princípio de presunção de inocência é de extrema importância no direito processual penal, pois impõe que o réu deve ser considerado inocente até a última decisão. Da mesma forma, também permite ao réu o uso de todos os meios para que prove sua inocência. Comentário Vale destacar que, até 2009, o Supremo Tribunal Federal entendia ser possível a execução provisória da pena desde a prolação da sentença condenatória em primeiro grau. Entretanto, houve uma mudança de posicionamento, passando a Corte Suprema a entender que a execução provisória da pena era inconstitucional, devendo ser aguardado o trânsito em julgado, em razão do princípio da presunção de inocência. Ocorre que tal entendimento somente prevaleceu até 2016, quando, no julgamento do HC 126292, o STF decidiu que era possível a execução provisória da pena, desde que proferido acórdão condenatório em segundo grau. Contudo, relativa de não culpabilidade, invertendo-se o ônus da prova. Naavaliação da prova, impondo-se a valoração das provas em favor do acusado quando houver dúvidas sobre a existência de responsabilidade pelo fato imputado. No curso do processo penal, como parâmetro de tratamento ao acusado, em especial no que concerne à análise quanto à necessidade ou não de sua segregação provisória. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 19 de 68 Mobile User da pena, desde que proferido acórdão condenatório em segundo grau. Contudo, em novo julgamento, a Corte revisou seu entendimento sobre o tema e decidiu nas ADC 43/DF, 44/DF e 54/DF, em 7 de novembro de 19, que a execução provisória da pena ofende o princípio da presunção de inocência, sendo este o entendimento mais atual. Cabe ressaltar que, no que se refere ao tribunal do júri, a Lei nº 13.964/2019 trouxe uma importante previsão acerca das apelações oriundas dos julgamentos plenários. Atualmente, admite-se a execução provisória da pena nos casos de condenação no tribunal do júri a uma pena igual ou superior a 15 anos de reclusão. Dessa forma, segundo o art. 492, §4º do CPP, a apelação nesses casos não terá efeito suspensivo, salvo determinadas exceções. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 20 de 68 Mobile User Art. 492 §4º - A apelação interposta contra decisão condenatória do Tribunal do Júri a uma pena igual ou superior a 15 (quinze) anos de reclusão não terá efeito suspensivo. §5º Excepcionalmente, poderá o tribunal atribuir efeito suspensivo à apelação de que trata o §4º deste artigo, quando verificado cumulativamente que o recurso: I - não tem propósito meramente protelatório; e II - levanta questão substancial e que pode resultar em absolvição, anulação da sentença, novo julgamento ou redução da pena para patamar inferior a 15 (quinze) anos de reclusão. §6º O pedido de concessão de efeito suspensivo poderá ser feito incidentemente na apelação ou por meio de petição em separado dirigida diretamente ao relator, instruída com cópias da sentença condenatória, das razões da apelação e de prova da tempestividade, das contrarrazões e das demais peças necessárias à compreensão da controvérsia. (CÓDIGO DO PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Por fim, importante destacar que a decisão do STF que firmou o entendimento de que é inconstitucional a execução provisória da pena deve ser aplicada às penas restritivas de direitos. Não é outro o entendimento do STJ sobre o tema, com forme a Súmula nº 643: “A execução da pena restritiva de direitos depende do trânsito em julgado da condenação.” Princípio ne procedat judex ex o!cio https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 21 de 68 Mobile User Também conhecido como princípio da ação, princípio da demanda ou princípio da iniciativa das partes, consolida a regra da inércia da jurisdição e produz consequências práticas importantes em relação ao desenvolvimento do processo. Esse princípio se desenvolveu no direito romano e busca estabelecer a independência e imparcialidade da magistratura, determinando que o juiz não deve agir de ofício, ou seja, sem a provocação das partes. Com base nesse princípio, o STF editou a Súmula nº 160, que determina: “É nula a decisão do Tribunal que acolhe, contra o réu, nulidade não arguida no recurso da acusação, ressalvados os casos de recurso de ofício”. Importante destacar que, mesmo sendo aplicável tal princípio ao direito processual penal brasileiro, tanto o Código de Processo Penal, quanto leis penais extravagantes preveem diversas hipóteses em que o juiz pode agir de ofício. Cite-se, como exemplo, o art. 156 do CPP e o art. 4º da Lei de Lavagem de Dinheiro. Princípios ligados diretamente ao juiz Princípio da imparcialidade do juiz https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 22 de 68 Mobile User A imparcialidade significa que o magistrado, situando-se no vértice da relação processual triangulada entre ele, a acusação e a defesa, deve possuir capacidade objetiva e subjetiva para solucionar a demanda, isto é, julgar de forma equidistante, vinculando-se apenas às leis, aos fatos e às provas. A imparcialidade do julgador é princípio basilar do processo e imprescindível para que seu desenvolvimento conduza a uma sentença justa. Afinal, a ideia de um terceiro alheio aos interesses das partes é essencial para um processo legítimo. Como afirma Renato Brasileiro: [...] a necessidade de um terceiro imparcial é a razão de ser da própria existência do processo, enquanto forma de heterocomposição de conflitos, sendo inviável conceber a existência de um processo em que a decisão do feito fique a cargo de um terceiro interessado em beneficiar ou prejudicar uma das partes. (BRASILEIRO DE LIMA, 2021, p. 68) O juiz imparcial é aquele que ocupa a posição do Estado no processo, ou seja, de um terceiro supraordenado às partes. Assim, deve ser aquele que não possui qualquer interesse na causa, senão a resolução do conflito em conformidade https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 23 de 68 Mobile User qualquer interesse na causa, senão a resolução do conflito em conformidade com o sistema jurídico vigente. Para evitar a contaminação da imparcialidade do juiz que atua na fase da investigação, a Lei nº 13.964/2019 trouxe a figura do juiz das garantias, que, em suma, é o juiz que atua da fase das investigações até o recebimento da inicial acusatória, quando então dá lugar ao juiz da instrução e julgamento. No entanto, vale lembrar que o STF, por meio de medida cautelar proferida monocraticamente pelo min. Luiz Fux no bojo das Ações Diretas de Inconstitucionalidade 6300, 6305, 6299 e 6298, decidiu suspender, até o julgamento do mérito da ação penal, todos os dispositivos da nova legislação que versam sobre o juiz das garantias. Atenção! Embora prezem pela imparcialidade do juiz, diversos dispositivos do Código de Processo Penal permitem a atuação de ofício do magistrado, o que, para muitos doutrinadores, representa uma clara violação a tal princípio. Princípio do juiz natural O princípio do juiz natural, decorrente da Constituição (art. 5º, XXXVII e LIII), apresenta três facetas: i) somente aqueles investidos legalmente de jurisdição podem exercê-la; ii) ninguém será processado e julgado por um órgão instituído após o fato (vedação ao juízo de exceção); e iii) deve haver uma distribuição específica e taxativa da competência para o julgamento. Assim, esse princípio consiste objetivamente no direito que cada cidadão possui de conhecer previamente o juiz ou tribunal responsável por julgá-lo, caso pratique uma conduta em dissonância com o ordenamento jurídico estabelecido. Dessa forma, é verdadeiro fundamento do Estado democrático de direito. Parte da doutrina fala ainda no princípio do promotor natural. Para esse princípio, veda-se a designação arbitrária, pela chefia da instituição, de promotor para patrocinar caso específico, ou seja, o promotor natural há de ser sempre https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 24 de 68 Mobile User para patrocinar caso específico, ou seja, o promotor natural há de ser sempre aquele previamente estatuído em lei. Princípio da motivação A exigência de motivação, prevista no art. 93, IX, da CF e no art. 381 do CPP, tem a finalidade de permitir às partes a impugnação das decisões tomadas no âmbito do Poder Judiciário, conferindo, ainda, à sociedade a garantia de que essas não resultam de posturas arbitrárias. Destaca-se que, no tribunal do júri, há mitigação da obrigatoriedade de motivação, pois o conselho de sentença, formado por juízes leigos, não pode motivar nem fundamentar o seu entendimento, vigorando o princípio da incomunicabilidadedos jurados e da íntima convicção. Com base no princípio da motivação, a Lei nº 13.964/2019 trouxe a determinação de que decisões que decretem medidas cautelares diversas da prisão deverão ser justificadas e fundamentadas. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 25 de 68 Mobile User Art. 282, §3º - Ressalvados os casos de urgência ou de perigo de ineficácia da medida, o juiz, ao receber o pedido de medida cautelar, determinará a intimação da parte contrária, para se manifestar no prazo de 5 (cinco) dias, acompanhada de cópia do requerimento e das peças necessárias, permanecendo os autos em juízo, e os casos de urgência ou de perigo deverão ser justificados e fundamentados em decisão que contenha elementos do caso concreto que justifiquem essa medida excepcional. (CÓDIGO DO PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Da mesma forma, o legislador determinou expressamente a necessidade de motivação das decisões que decretam a prisão preventiva e indicou ainda o que não se deve considerar como decisão devidamente fundamentada. Art. 312 §2º - A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada. [...] Art. 315 - A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão preventiva será sempre motivada e fundamentada. §1º Na motivação da decretação da prisão preventiva ou de qualquer outra cautelar, o juiz deverá indicar concretamente a existência de fatos novos ou https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 26 de 68 Mobile User concretamente a existência de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada. §2º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I - limitar-se à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V - limitar-se a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. (CÓDIGO DO PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Por fim, a ausência de motivação por parte do magistrado leva ao reconhecimento da nulidade das decisões proferidas, conforme determina a Constituição Federal em seu art. 93, IX. Princípios processuais penais https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 27 de 68 Princípios processuais penais Veja os princípios que regem o processo penal. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 28 de 68 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 (Cespe/Cebraspe - 2022 - PC-PB - Delegado de polícia civil) No processo penal brasileiro, a revisão pro societate A permite que o réu seja indiciado e processado mais de uma vez pelo mesmo fato. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 29 de 68 Parabéns! A alternativa B está correta. No processo penal, a revisão criminal somente pode ser oferecida em favor do réu (pro reo), em proteção ao seu estado de liberdade, atendendo ao favor rei e à verdade real, não sendo possível, portanto, o manejo dessa ação pro societate. Questão 2 (FAPEC - 2021 - PC-MS - Delegado de polícia) Em relação aos princípios do direito processual penal abordados pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, marque a alternativa correta. vez pelo mesmo fato. B não é admitida, mesmo que o réu tenha sido absolvido injustamente por decisão já transitada em julgado. C é admitida quando a sentença absolutória for proferida por juízo incompetente. D não admite o reexame de sentença que extingue a punibilidade com base em falsa certidão de óbito do réu. E é assegurada devido à possibilidade do Poder Judiciário de rever os próprios atos de ofício quando eivados de nulidade. Viola as garantias do juiz natural, da ampla defesa e do devido processo legal a atração por continência ou conexão do https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 30 de 68 Parabéns! A alternativa B está correta. Segundo a Súmula nº 523 do STF, no processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu. A processo legal a atração por continência ou conexão do processo do corréu ao foro por prerrogativa de função de um dos denunciados. B No processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu. C A renúncia do réu ao direito de apelação, manifestada sem a assistência do defensor, impede o conhecimento da apelação por este interposta. D No mandado de segurança impetrado pelo Ministério Público contra decisão proferida em processo penal, é dispensável a citação do réu como litisconsorte passivo. E Constitui nulidade a falta de intimação do denunciado para oferecer contrarrazões ao recurso interposto da rejeição da denúncia, salvo se houver nomeação de defensor dativo. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 31 de 68 2 - Sistemas processuais penais Ao final deste módulo, você será capaz de distinguir os sistemas penais. Ligando os pontos Você conhece os sistemas processuais penais? Para entendermos melhor tais sistemas, vamos analisar um caso fictício. Pedro foi denunciado pela prática do crime de roubo majorado pelo uso de arma de fogo (art. 157, §2º-A, I do CP). A denúncia foi recebida, sendo Pedro devidamente citado para apresentar defesa prévia. A defesa de Pedro alegou preliminares e refutou a acusação, requerendo, ao final, a absolvição do acusado, inclusive arrolando testemunhas e juntando documentos. Não tendo o juiz absolvido sumariamente o acusado, foi designada audiência de instrução e julgamento. No dia da audiência de instrução e julgamento, foi certificado que a vítima não foi encontrada para prestar depoimento, tendo o Ministério Público desistido de sua oitiva. O juiz então, sem qualquer requerimento das partes, determinou a oitiva dos policiais responsáveis pela prisão em flagrante de Pedro, sendo designada nova audiência. Nesse novo ato, os policiais confirmaram a prisão do acusado na posse dos bens subtraídos e da arma de fogo, indicando que a https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 32 de 68 Mobile User acusado na posse dos bens subtraídos e da arma de fogo, indicando que a vítima o reconheceu como autor do crime. As testemunhas de defesa apresentaram informações sobre a conduta do acusado e este, por sua vez, permaneceu em silêncio. Após a audiência, o juiz concedeu prazo para que as partes apresentassem alegações finais por memoriais, sendo, posteriormente, proferida sentença, na qual entendeu pela condenação de Pedro pela prática do crime de roubo majorado, fundamentando sua sentença no depoimento dos policiais, no laudo da arma de fogo apreendida e no reconhecimento da vítima realizado em sede policial. Após a leitura do case, é hora deaplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 Conformemente delineado no caso, o juiz — sem qualquer iniciativa probatória das partes — determinou a oitiva de testemunhas necessárias para o deslinde do caso, afinal o juiz ainda não estava suficientemente convencido (racionalmente) para proferir sua decisão final. À vista disso, analise os itens a seguir, que indicam características do sistema inquisitório: I. Prova tarifada. II. Imparcialidade do órgão julgador. III. Gestão da prova pelo juiz. IV. Ampla defesa. Está correto o que se afirma em A I e II apenas. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 33 de 68 Parabéns! A alternativa D está correta. A marca central do sistema inquisitório é a gestão da prova pelo próprio juiz, havendo a exclusão da participação do réu no processo. Adicionalmente, com a inserção do sistema inquisitório, passou a vigorar o sistema da valoração ou da chamada prova tarifada, em que as sentenças não faziam coisa julgada e a regra geral era de que o acusado responderia ao processo preso. Questão 2 Considerando que o caso tratou do poder probatório do juiz no processo penal, marque a alternativa que você julgue incorreta sobre o sistema acusatório: B I apenas. C III apenas. D I e III apenas. E II e IV apenas. A O sistema acusatório caracteriza-se pela clara distinção entre as funções de julgar e de acusar. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 34 de 68 Mobile User Parabéns! A alternativa C está correta. No sistema acusatório, a iniciativa probatória deve ser das partes, mantendo-se o juiz afastado, apenas como um terceiro imparcial, sem interferir de qualquer modo na investigação e na coleta da prova. Em tal sistema, ambas as partes (acusação e defesa) têm tratamento igualitário, predominando o procedimento oral, a publicidade dos atos, o contraditório e a ampla defesa. Assim, o sistema acusatório possui estrutura e mecanismos de zelar pela imparcialidade do julgador. Questão 3 Após a leitura do caso, foi possível verificar que o juiz determinou de ofício a oitiva de duas testemunhas. Considerando tal fato, discorra sobre o sistema processual penal estabelecido no Brasil e sobre a possibilidade da produção de distinção entre as funções de julgar e de acusar. B No sistema acusatório, a iniciativa probatória deve ser das partes, mantendo-se o juiz afastado, apenas como um terceiro imparcial. C No sistema acusatório, predomina o procedimento escrito. D No sistema acusatório, os julgamentos são públicos. E No sistema acusatório, aplica-se o contraditório e a ampla defesa em todas as suas fases. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 35 de 68 processual penal estabelecido no Brasil e sobre a possibilidade da produção de provas de ofício pelo magistrado. Digite sua resposta aqui Chave de resposta Atualmente, há quem defenda no Brasil a existência de um sistema misto, decorrente da composição do sistema inquisitório e acusatório, sendo assim um sistema que possui características de ambos. Grande parte da doutrina afirma que o Brasil adota tal sistema, predominando na fase pré- processual (fase de investigação) o modelo inquisitorial e na fase processual (instrução e julgamento) o modelo acusatório. Destaca-se que o CPP, em seu art. 156, possibilita ao juiz determinar, no curso da instrução ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. Da mesma forma, o art. 209 afirma que o juiz, quando julgar necessário, poderá ouvir outras testemunhas, além das indicadas pelas partes. Estrutura do processo penal: sistemas penais A estrutura do processo penal sofreu grandes alterações ao longo dos séculos, sempre acompanhando os dogmas, as ideologias e a estrutura social e política vigente, se mais punitiva ou libertária. Dessa maneira, é possível associar o https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 36 de 68 vigente, se mais punitiva ou libertária. Dessa maneira, é possível associar o sistema processual penal estabelecido com o viés democrático ou autoritário de determinado governo ou nação. Como dito, o processo funciona como garantia, instrumento de controle do poder do Estado. Assim, pela forma que este é conduzido, é possível verificar-se maior ou menor o grau de proteção dos direitos humanos fundamentais do sujeito submetido a ele. Não é outra a opinião de José Frederico Marques: O processo é instrumento de atuação estatal vinculado, quase sempre, às diretrizes políticas que plasmam a estrutura do Estado. Impossível, por isso, subtrair a norma processual dos princípios que constituem a substância ética do Direito e a exteriorização de seus ideais de justiça. No processo penal, então, em que as formas processuais se destinam a garantir direitos imediatamente tutelados pela Constituição, das diretrizes políticas desta é que partem os postulados informadores da legislação e da sistematização doutrinária. (MARQUES, 1998, p. 37) No mesmo sentido, Cândido Rangel Dinamarco afirma o seguinte: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 37 de 68 Mobile User O processualista moderno adquiriu a consciência de que, como instrumento a serviço da ordem constitucional, o processo precisa refletir as bases do regime democrático, nela proclamadas; ele é, por assim dizer, o microcosmo democrático do Estado de direito, com as conotações da liberdade, igualdade e participação (contraditório), em clima de legalidade e responsabilidade. (DINAMARCO, 1993, p. 27) Como veremos nos tópicos seguintes, o sistema acusatório possui características democráticas, observando os direitos e as garantias das partes envolvidas. Já o sistema inquisitório, mais próximo de modelos autoritários, apresenta características que, muitas vezes, colidem com os direitos fundamentais dos acusados. Sistema inquisitório O sistema processual penal inquisitório teve sua gênese nos tribunais eclesiásticos. Nesse modelo, o processo penal apresenta características autoritárias, não havendo uma objetiva separação de funções. A marca central de tal sistema é a gestão da prova pelo próprio juiz, havendo a exclusão da participação do réu no processo. Dessa forma, tal modelo vai de encontro a garantias e direitos fundamentais dos acusados, que são sujeitos de um processo em que a produção probatória é conduzida pelo órgão responsável pelo julgamento. Nesse sentido, Gustavo Grandinetti aponta: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 38 de 68 Mobile User No sistema inquisitório, a busca é pela perseguição penal, pela realização do direito penal material, ou seja, a punição é o elemento central, pouco importando qual o custo do alcance do resultado. Desse modo, o juiz, cumprindo função de segurança pública, deve adotar medidas que soem compatíveis com o múnus que exerce. Em sua gênese, o discurso dos que defendem o sistema inquisitorial, está relacionado à sacralização da figura do Juiz, fiador da justiça social, e possível agente capaz de evitar a perpetração de injustiças, especialmente porque na conformação moderna, trata-se de um agente que exerce a função de julgar, que é divina. (CARVALHO, 2019, p. 428) Com a inserção do sistema inquisitório, passou a vigorar o sistema da valoração ou da chamada prova tarifada, em que as sentenças não faziam coisa julgada e a regra geral era de que o acusado responderia ao processo preso. Esse sistema foi amplamente aplicado no chamado Tribunal da Inquisição, que tinha como finalidade básica reprimir aqueles que se opusessem aos dogmas da Igreja Católica. Com a Inquisição, foram abolidos direitos e garantias,tais como a separação de atribuições e a publicidade dos atos. Dessa forma, em tal sistema predominava a concentração de funções, sendo os responsáveis por julgar os mesmos que investigavam, acusavam e instruíam o processo. Logo, no sistema inquisitório, o juiz atua de ofício, muitas vezes buscando uma condenação, em razão da busca de uma suposta verdade, sendo assim violadas as garantias do investigado, entre elas o contraditório e a ampla defesa. Sistema acusatório https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 39 de 68 Mobile User Sistema acusatório Em oposição ao sistema inquisitorial, o sistema acusatório caracteriza-se pela clara distinção entre as funções de julgar e de acusar. Da mesma forma, a iniciativa probatória deve ser das partes, mantendo-se o juiz afastado, apenas como um terceiro imparcial, sem interferir de qualquer modo na investigação e na coleta da prova. Este é o entendimento de Geraldo Prado: A construção teórica do princípio acusatório há de consumar-se mediante oposição ao princípio inquisitivo. São antagônicas as funções que os sujeitos exercem nos dois modelos de processo. É desse antagonismo, portanto, que as diferenças devem ser extraídas. Assim, se na estrutura inquisitória o juiz ‘acusa’, na acusatória a existência de parte autônoma, encarregada da tarefa de acusar, funciona para deslocar o juiz para o centro do processo, cuidando de preservar a nota de imparcialidade que deve marcar a sua atuação. (PRADO, 2005, p. 175) Em tal sistema, ambas as partes — acusação e defesa — têm tratamento igualitário, predominando o procedimento oral, a publicidade dos atos, o contraditório e a ampla defesa. Assim, o sistema acusatório possui estrutura e mecanismos de zelar pela imparcialidade do julgador. Nesse sentido, veja o que afirma Aury Lopes Junior: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 40 de 68 Mobile User É importante destacar que a posição do ‘juiz’ é fundante da estrutura processual. Quando o sistema aplicado mantém o juiz afastado da iniciativa probatória (da busca de ofício da prova), fortalece-se a estrutura dialética e, acima de tudo, assegura-se a imparcialidade do julgador. O estudo dos sistemas processuais penais na atualidade tem que ser visto com o ‘olhar da complexidade’ e não mais com o ‘olhar da Idade Média’. Significa dizer que a configuração do ‘sistema processual’ deve atentar para a garantia da ‘imparcialidade do julgador’, a eficácia do contraditório e das demais regras do devido processo penal, tudo isso à luz da Constituição. Assegura a imparcialidade e a tranquilidade psicológica do juiz que irá sentenciar, garantindo o trato digno e respeitoso com o acusado, que deixa de ser um mero objeto para assumir sua posição de autêntica parte passiva do processo penal. Em última análise, é a separação de funções e, por decorrência, a gestão da prova na mão das partes e não do juiz (juiz-espectador), que cria as condições de possibilidade para que a imparcialidade se efetive. Somente no processo acusatório-democrático, em que o juiz se mantém afastado da esfera de atividade das partes, é que podemos ter a figura do juiz imparcial, fundante da própria estrutura processual. (LOPES JUNIOR, 2019, p. 48) Assim, conforme dito, o processo acusatório tem como uma de suas principais características a separação entre o juiz e as partes, não interferindo o julgador na investigação e na instrução processual, sendo efetivamente garantida sua https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 41 de 68 Mobile User na investigação e na instrução processual, sendo efetivamente garantida sua imparcialidade até o julgamento final. Não é outro o entendimento de Luigi Ferrajoli ao diferenciar os dois modelos: Está claro que aos dois modelos são associáveis sistemas diferentes de garantias, sejam orgânicas ou procedimentais: se o sistema acusatório favorece modelos de juiz popular e procedimentos que valorizam o contraditório como método de busca da verdade, o sistema inquisitório tende a privilegiar estruturas judiciárias burocratizadas e procedimentos fundados nos poderes instrutórios do juiz, compensados talvez pelos vínculos das provas legais e pela pluralidade dos graus de juízo (instâncias). (FERRAJOLI, 2002, p. 452-453) Em suma, no sistema acusatório, existe separação entre os órgãos incumbidos de realizar a acusação e o julgamento, o que garante a imparcialidade do julgador e, por conseguinte, assegura a plenitude de defesa e o tratamento igualitário das partes. > Sistema brasileiro Atualmente, há quem defenda a existência de um sistema misto, decorrente da composição dos sistemas inquisitório e acusatório. Seria, assim, um sistema que possui características de ambos. Grande parte da doutrina afirma que o https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 42 de 68 Mobile User que possui características de ambos. Grande parte da doutrina afirma que o Brasil adota tal sistema, predominando na fase pré-processual (fase de investigação) o modelo inquisitorial e na fase processual (instrução e julgamento) o modelo acusatório. É importante mencionar a crítica que parte da doutrina faz à qualificação de um sistema processual penal como misto, em razão da impossibilidade de existirem sistemas inteiramente puros, sendo todos mistos, uns se aproximando do inquisitorial e outros do acusatório. Também é importante sublinhar a crítica que sustenta a impossibilidade de um sistema misto, apoiado em dois princípios que se excluem reciprocamente: o inquisitorial e o acusatório. Analisando o sistema processual penal brasileiro atual, é possível perceber claramente de que modelo ele se aproxima. Evidente tal proximidade com o modelo inquisitório, quando, apesar de muitas reformas, ainda permanecem dispositivos que dão amplos poderes ao julgador para intervir na produção probatória: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 43 de 68 Mobile User Art. 156 - A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: I - ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; II - determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. [...] Art. 209 - O juiz, quando julgar necessário, poderá ouvir outras testemunhas, além das indicadas pelas partes. [...] Art. 234 - Se o juiz tiver notícia da existência de documento relativo a ponto relevante da acusação ou da defesa, providenciará, independentemente de requerimento de qualquer das partes, para sua juntada aos autos, se possível. (CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Um dos fundamentos mais utilizados para a concessão de tais “poderes” é o de que caberia ao magistrado a busca pela “verdade real”. Entretanto, sob o manto de tal justificativa, permite-se que o juiz, supostamente imparcial, atue de https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 44 de 68 de tal justificativa, permite-se que o juiz, supostamente imparcial, atue de maneira ativa na investigação e na instrução. É preciso destacar que a interpretação sistemática da Constituição Federal do Brasil estabelece a garantia de que o processo penal deve seguir o sistema acusatório. Tal constatação decorre dos próprios princípios estabelecidos, como a dignidade da pessoa humana, a valorização do homem, bem como a própria transição de um regime autoritário para um regime democrático. Adicionalmente, diversos são os institutos e as garantias previstas constitucionalmenteque decorrem do sistema acusatório: i) contraditório e ampla defesa; ii) devido processo legal; iii) presunção de inocência; iv) publicidade dos atos; e v) titularidade do Ministério Público sobre a ação penal pública. Comentário É possível perceber que a nossa Constituição estabeleceu um sistema em que a responsabilidade pela produção probatória deve ser regida pelas partes envolvidas, sendo o juiz desprovido de tal iniciativa. Entretanto, não é o que se verifica da legislação que rege o processo penal brasileiro. Sistemas inquisitório e acusatório Saiba mais sobre os sistemas inquisitório e acusatório. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 45 de 68 Mobile User Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 46 de 68 (Idecan - 2021 - PC-CE - Escrivão de polícia civil - adaptada) A Lei 13.964/2019, entre as várias alterações na legislação, incluiu o artigo 3º-A no Código de Processo Penal, com a seguinte redação: “O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação.” Portanto, desde a alteração supracitada, está expressa na legislação processual a escolha pelo sistema processual acusatório. Nas alternativas a seguir, enumeraram-se algumas características desse sistema, assinale a correta: Parabéns! A alternativa A está correta. Algumas das principais características do procedimento de acusação são a separação do juiz e das partes; a não ingerência na investigação e orientação processual do juiz; e a garantia efetiva de sua imparcialidade até o julgamento final. Questão 2 (FCC - 2021 - DPE-BA - Defensor público) Endossa o sistema inquisitivo a A Separação entre as funções de acusar, julgar e defender. B Os princípios do contraditório e da ampla defesa não informam todo o processo, mas apenas algumas fases. C A possibilidade de o juiz produzir provas para dirimir dúvidas. D A publicidade dos atos processuais como exceção. E A imparcialidade do julgador, entretanto o juiz fica próximo do conflito de interesses instaurado entre partes. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 47 de 68 (FCC - 2021 - DPE-BA - Defensor público) Endossa o sistema inquisitivo a seguinte disposição vigente no Código de Processo Penal: Parabéns! A alternativa C está correta. A marca central do sistema inquisitório é a gestão da prova pelo próprio juiz, havendo a exclusão da participação do réu no processo. Dessa forma, a possibilidade de o juiz determinar a oitiva de testemunhas de ofício é uma A Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, de ofício, se no curso da ação penal, ou a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. B As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa ou importarem na repetição de outra já respondida. C O juiz, quando julgar necessário, poderá ouvir outras testemunhas além das indicadas pelas partes. D Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de prisão cautelar ou em virtude de condenação criminal transitada em julgado. E O réu não poderá apelar sem recolher-se à prisão ou prestar fiança, salvo se for primário e de bons antecedentes, assim reconhecido na sentença condenatória, ou condenado por crime que se livre solto. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 48 de 68 possibilidade de o juiz determinar a oitiva de testemunhas de ofício é uma das características de tal sistema. 3 - Lei processual no tempo e no espaço, fontes e sujeitos Ao final deste módulo, você será capaz de analisar as características da lei processual no tempo e no espaço, as fontes e os sujeitos. Ligando os pontos Você conhece as regras que regem a aplicação da lei processual penal no tempo e no espaço? Para entendermos melhor tais regras, vamos analisar um caso fictício. João foi denunciado pela prática do crime de homicídio qualificado em razão do uso de meio cruel torpe (art. 121, §2º, III do CP), praticado no ano de 2017. A denúncia foi recebida, sendo João devidamente citado para apresentar defesa https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 49 de 68 Mobile User denúncia foi recebida, sendo João devidamente citado para apresentar defesa prévia. A defesa de João alegou preliminares e refutou a acusação, requerendo, ao final, a impronúncia do acusado, inclusive arrolando testemunhas e juntando documentos. Após a instrução processual, João foi pronunciado nos termos da denúncia, tendo tal decisão transitado em julgado. João, então, foi levado a plenário do júri. No dia do julgamento, foi feito o pregão, estando presentes o acusado, as testemunhas de acusação e de defesa, os jurados, o juiz presidente, o promotor de justiça e o advogado de defesa. O juiz então declarou aberta a sessão de julgamento e, após cumpridas as formalidades iniciais, passou ao sorteio dos jurados, sendo formado o conselho de sentença. Foi, então, iniciada a sessão, tendo sido ouvidas as testemunhas e colhido o interrogatório do acusado. Após os debates, o juiz questionou os jurados se estes estavam aptos a realizar a votação. Com a resposta positiva, a leitura e a explicação dos quesitos, foram todos para a sala secreta. Finalizada a votação, o acusado foi condenado a 20 anos de reclusão, sendo sua sentença lida em plenário, tendo o juiz determinado o recolhimento do condenado ao cárcere, mesmo tendo este respondido o processo em liberdade, com fundamento no art. 492, §4º do CPP. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 Considere os itens abaixo: I. Os tratados, as convenções e regras de direito internacional. II. Os processos da competência da Justiça Militar. III. Os processos de competência da Justiça Eleitoral. IV. Os crimes praticados fora do território nacional e julgados no Brasil. Não há aplicação das regras do Código de Processo Penal, conforme disposição expressa do referido diploma legal, na situação que consta em https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 50 de 68 situação que consta em Parabéns! A alternativa A está correta. Segundo o art. 1º do CPP, o processo penal será regido, em todo o território brasileiro, pelas regras do CPP, ressalvados: I – os tratados, as convenções e regras de direito internacional; II – as prerrogativas constitucionais do presidente da República, dos ministros de Estado, nos crimes conexos com os do presidente da República, e dos ministros do STF, nos crimes de responsabilidade; III – os processos da competência da Justiça Militar; IV – os processos da competência do tribunal especial; V – os processos por crimes da imprensa. Ainda, cabe destacar que o art. 364 do Código Eleitoral determina que, no processo e julgamento dos crimes eleitorais e dos comuns que lhes forem conexos, assim como nos recursos e na execução que lhes digam respeito, o Código de Processo Penal será aplicado como lei subsidiária ou supletiva. Questão 2 A I e II apenas. B I apenas. C III apenas. D I e III apenas. E II e IV apenas. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 51 de 68 Sobre a aplicação da lei processual penal no tempo, considere os itens abaixo: I. O CPP adotouo princípio da imediata aplicação da lei processual penal, também chamado de princípio tempus regit actum. II. Para a definição da lei aplicável, considera-se a data da realização do ato e não a data da infração penal. III. O prazo já iniciado, inclusive o estabelecido para a interposição de recurso, será regulado pela lei anterior, se esta não prescrever prazo menor do que o fixado no CPP. Está correto o que se afirma em Parabéns! A alternativa D está correta. O art. 2º do CPP adotou o princípio da imediata aplicação da lei processual penal, também chamado de princípio tempus regit actum. De acordo com esse princípio, os novos dispositivos processuais podem ser aplicados a crimes praticados antes de sua entrada em vigor. Assim, para a definição da lei aplicável, considera-se a data da realização do ato e não a data da A I e II apenas. B I apenas. C III apenas. D I, II e III. E II e III apenas. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 52 de 68 considera-se a data da realização do ato e não a data da infração penal. Vale ressaltar que o art. 3º da Lei de Introdução ao CPP dispõe que “o prazo já iniciado, inclusive o estabelecido para a interposição de recurso, será regulado pela lei anterior, se esta não prescrever prazo menor do que o fixado no CPP”. Questão 3 Na leitura do caso, foi possível verificar que o magistrado determinou o recolhimento à prisão do acusado, fundamentando sua decisão no art. 492, §4º do CPP. Discorra sobre as chamadas normas híbridas e sobre a legalidade da decisão do magistrado. Digite sua resposta aqui https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 53 de 68 Chave de resposta Normas híbridas são aquelas que possuem preceitos de direito material e de direito processual. Nessas hipóteses, prevalece o conteúdo material da norma, devendo respeitar o princípio que veda a aplicação retroativa da lei penal quando seu conteúdo for prejudicial ao réu. Ou seja, a regra de irretroatividade não se aplica às normas processuais que também possuem em seu conteúdo natureza de direito material. Diante disso, considerando que o crime foi praticado no ano de 2017 e que o art. 492, §4º do CPP foi incluído pela Lei nº 13.964 de 2019, sendo norma diretamente relacionada à liberdade do acusado e possuindo conteúdo material e processual, não poderia ser aplicada ao caso em análise, pois é prejudicial ao réu. Fontes e sujeitos Podemos definir como fonte do direito tudo aquilo de que provém um preceito jurídico. Sabemos que o processo penal é um meio necessário para a aplicação do direito material. Ele é representado por um conjunto de procedimentos que https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 54 de 68 Mobile User do direito material. Ele é representado por um conjunto de procedimentos que vinculam os sujeitos e as partes do processo a fim de trazer legitimidade ao exercício do poder punitivo do Estado, buscando evitar eventuais abusos. Dessa forma, as fontes são pilares que servem de suporte para a interpretação precisa do sistema. As fontes do direito processual são divididas basicamente em duas: É a fonte de produção, refere-se ao ente que tem competência para elaborar as normas, ou seja, é aquela que cria o direito. No que se refere às fontes materiais, o art. 22, inciso I, dispõe que compete privativamente à União legislar sobre direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho. Assim, no caso do direito processual penal, o poder constituinte originário definiu que cabe à União legislar sobre sua estrutura e seus pilares fundamentais. É aquela que revela o direito. As fontes formais se subdividem em fontes primárias ou imediatas, que são as leis, a Constituição Federal, as emendas à constituição, os tratados, convenções e regras de direito internacional, e fontes secundárias ou mediatas, que são a analogia, os costumes, a jurisprudência, a doutrina e os princípios gerais do direito. Sujeito processual, por sua vez, é definido como toda pessoa que intervém na relação jurídico-processual, ou seja, aqueles que atuam no processo. Tal sujeito pode ser classificado como principal ou secundário. Fonte material Fonte formal https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 55 de 68 Mobile User pode ser classificado como principal ou secundário. Os sujeitos principais participam da relação em caráter de obrigatoriedade, de modo que, sem eles, não se constitui um processo. São sujeitos processuais principais: juiz; acusado; Ministério Público; querelante. Deles, forma-se a relação angular-processual, estando o juiz acima e entre as partes em decorrência de sua imparcialidade. Sujeitos processuais secundários (acessórios ou colaterais), por sua vez, integram a relação processual sem caráter de obrigatoriedade. Em suma, sua presença é facultativa. É chamado também de colateral, haja vista que se agregam ao polo ativo ou passivo processual. Fazem parte desse grupo o assistente de acusação, o fiador do réu e os auxiliares da justiça. Aplicação da lei processual penal no espaço O processo penal, em todo o território nacional, rege-se pelo Código de Processo Penal. Tal regra está prevista em seu art. 1º, caput, que adotou, quanto ao alcance de suas normas, o princípio da territorialidade, segundo o qual seus dispositivos se aplicam a todas as ações penais que tramitem pelo território brasileiro. Destaca-se que o Código de Processo Penal adota o princípio da territorialidade absoluta (locus regit actum), no sentido de que, no Brasil, não se admite a aplicação de direito processual estrangeiro, apesar de se admitir https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 56 de 68 Mobile User se admite a aplicação de direito processual estrangeiro, apesar de se admitir a aplicação de regras de direito internacional. Da mesma forma, o CPP adota, ainda, o princípio da territorialidade estrita, pois a lei processual penal brasileira, ao contrário do que ocorre com a lei penal, não possui extraterritorialidade. Entretanto, isso não significa que ela não possa ser aplicada a crimes cometidos fora do território nacional, para isso, basta que o crime seja julgado em território nacional. Assim dispõe o Código de Processo Penal sobre o tema: Art. 1º - O processo penal reger-se-á, em todo o Território Brasileiro, por este Código, ressalvados: I - os tratados, as convenções e regras de direito internacional; II - as prerrogativas constitucionais do Presidente da República, dos ministros de Estado, nos crimes conexos com os do Presidente da República, e dos ministros do STF, nos crimes de responsabilidade (Constituição, arts. 86, 89, §2º, e 100); III - os processos da competência da Justiça Militar; IV - os processos da competência do tribunal especial (Constituição, art. 122, nº 17); V - os processos por crimes da imprensa. (CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, DECRETO-LEI Nº 3.689/1941) Diante disso, é possível verificar que o próprio Código de Processo Penal elenca hipóteses em que este não terá aplicação, ainda que o fato tenha ocorrido em território nacional. https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04146/index.html?brand=wyden# 18/08/2024, 11:54 Página 57 de 68 Mobile User território nacional. Os tratados, as convenções e as regras de direito internacional, firmados pelo Brasil, mediante aprovação por decreto legislativo e promulgação por decreto presidencial, afastam a jurisdição brasileira, ainda que o fato tenha ocorrido no território nacional, de modo que o infrator será julgado em seu país de origem. É o que ocorre, por exemplo, com agentes diplomáticos aqui acreditados, como embaixadores e secretários de embaixadas.