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Pró - Reitoria Acadêmica Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BILÍNGUE DE SURDOS Autora: Queila Pahim Kodama Orientador: Dr. Prof. Luiz Síveres Brasília/DF 2022 QUEILA PAHIM KODAMA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BILÍNGUE DE SURDOS Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília. Orientador: Prof. Dr. Luiz Síveres BRASÍLIA/ DF 2022 AGRADECIMENTOS É um privilégio poder estudar, por isso, gostaria de agradecer de uma forma muito especial a todos que estiveram ao meu lado no decorrer desses últimos quatro anos de estudo e alguns, durante toda minha vida. Em primeiro lugar, agradeço a Deus, por sua graça, amor e fidelidade, pois sempre me cuidou e amou de uma forma muito especial, em particular nos altos e baixos destes 27 anos de diabetes. Obrigada por minha vida e de todos que a compartilham comigo. Agradeço também, Ao meu esposo, Goro Kodama, pela parceria em cada etapa desta pesquisa e de nossa caminhada como família. Obrigada pelo casamento saudável e cheio de vida que construimos juntos. Aos meus pais, Mirtes Pahim e João Batista, em especial, à minha mãe, por investir todo seu tempo e dedicação à minha educação e por ser um exemplo de superação e esforço, ao ingressar no serviço público como professora da educação infantil aos 50 anos de idade. À minha querida tia, Miriam Pahim, por seus conselhos, carinho e orações. Ao meu orientador, filósofo e educador, prof. Dr. Luiz Síveres, por compreender e apoiar minha pausa nos estudos em virtude de problemas de saúde do meu pai. Aos professores doutores Carlos Ângelo, Célio da Cunha, Kléber Aparecido, Falk Soares e especialmente, a Sylvana Santos, que foi uma mentora em muitas etapas da pesquisa. Agradeço a todos vocês que gentilmente aceitaram ler e colaborar com meu trabalho. Obrigada de coração pela generosidade das contribuições. A todos os colegas que tive a oportunidade de conhecer, com os quais pude publicar e trocar experiências durante os estudos na UCB, em especial, Bruno Costa, Sônia Carvalho, Lázaro Leonardo, Kátia Palomo e Maria Cristina, hoje uma querida amiga. Aos amigos que me deram suporte de idas e vindas para as compras durante meu isolamento total em detrimento da Covid-19 e pelo apoio quando precisei cuidar do meu pai, na fase crítica do AVC. Essa assistência foi fundamental para meu avanço nos estudos e nas publicações. À direção da Escola Bilíngue de Libras-Português escrito de Taguatinga (EBT) por sua autorização para a realização da pesquisa e a cada professora entrevistada. Às pesquisadoras que dispuseram de seu tempo e conhecimento, pois além de cooperarem com suas respostas, orientaram-me no estudo do tema escolhido. Minha admiração e respeito pela incansável luta de cada uma de vocês em prol do movimento Surdo e pelo alcance de suas pesquisas. A todos os professores que concordaram em participar dos pré-testes e a todos os intérpretes que me apoiaram durante as entrevistas e, em especial, a também pesquisadora e CODA, Núbia Mendes. Aos Surdos que conheci e me despertaram para a importância da Libras e da minha formação como docente para atuação na Educação Bilíngue Libras/Língua Portuguesa. Ao IFB, pois sem a possibilidade de concorrer a uma liberação remunerada, teria sido bem mais difícil a conclusão deste estudo. A todos que de alguma forma contribuíram para o término desta etapa acadêmica, como a professora Delenice Medeiros. [...] Falar e defender a diferença é fácil; o difícil é colocarmo- nos no lugar daquele que é diferente, reconhecendo-o em sua maneira de ser, distinta da nossa (SOBRAL, 2010). Temos direito a reivindicar a igualdade sempre que a diferença nos inferioriza e temos direito de reivindicar a diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza (SANTOS, 2003). RESUMO KODAMA, Queila Pahim. Formação inicial de professores para a educação de Surdos na perspectiva bilíngue. Tese de Doutorado em Educação. Programa de Pós- Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2022. Esta pesquisa tem por objetivo analisar a formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre dois normativos legais que orientam este modelo educacional, o Decreto nº 5626/2005 e a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008. A mesma teve como norteador o seguinte problema: por que a formação inicial de professores bilíngues, proposta a partir da perspectiva de educação de Surdos nesses normativos legais, atende de forma limitada às especificidades de Educação Bilíngue de Surdos? A relevância do estudo relaciona-se ao constante debate sobre o processo formativo de professores, ao expressivo contingente de pessoas Surdas existentes no país que precisam ter seus direitos garantidos pelas políticas públicas e ao crescente interesse pelas questões ligadas à educação de Surdos. Para a fundamentação teórica sobre as políticas de formação inicial de professores, ancorou-se nas ponderações relacionadas a sobreposição, descontinuidade e falta de diálogo entre governos, discutidas por Gatti e Barreto (2009), Gatti, Barreto e André (2011), Gatti et al (2019), Saviani (2008a, 2008c, 2009, 2011), Libâneo (2009, 2011), Brzezinski (2007, 2014, 2018), entre outros. Como arcabouço teórico sobre a diferenciação da surdez sob a perspectiva médica, que caracteriza o Surdo como Pessoa com Deficiência e alvo da Educação Especial, da visão histórica, linguística e cultural, que a compreende como diferença e, por este motivo, necessita de uma modalidade educacional própria, a bilíngue, utilizaram-se os preceitos de Quadros (1997, 2014), Vieira-Machado (2016), Stumpf (2010), Strobel (2009), Lacerda (1996, 1998, 2000), Skliar (2016), dentre outros. Esta investigação tem caráter descritivo, com abordagem qualitativa, pautada na triangulação das fontes de evidência para a geração dos dados e na análise de conteúdo proposta por Bardin (2016) para a exploração dos resultados. Os dados foram obtidos no ano de 2020 e constitui-se de entrevista semiestruturada feita com três professoras Surdas e três não surdas de uma escola bilíngue do Distrito Federal; questionários com duas pesquisadoras e entrevistas com outras três da área de educação e formação de professores para a educação de Surdos, totalizando onze respondentes, e análise documental dos instrumentos legais selecionados. Os resultados obtidos pelas inferências e interpretações evidenciaram que, apesar dos avanços e conquistas trazidas pelo reconhecimento e regulamentação da Libras como língua das pessoas Surdas brasileiras e da instituição da Educação Bilíngue de Surdos, através da alteração da LDB de 1996, pela Lei nº 14.191 de 3 de agosto de 2021, publicada na finalização desta pesquisa, ainda são necessários direcionamento e clareza para a formação inicial de professores bilíngues, como a definição e especificação dos cursos de formação inicial e continuada, instituição de material didático bilíngue e de metodologias de avaliação de estudantes Surdos bilíngues. Palavras-chave: Formação inicial de professores bilíngues. Educação de Surdos. Bilinguismo. ABSTRACT This research aims to analyze the initial training of teachers for bilingual education of the deaf students, in view of the existing dichotomy betweenmédio ou superior para a docência na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio. O Art. 62 prevê que a formação do professor, para atuar na educação básica, deverá acontecer em nível superior e em curso de licenciatura plena, admitindo a formação em nível médio, na modalidade Normal, para atuação na educação infantil e nos primeiros cinco anos do ensino fundamental. Em 2013, através da Lei nº 12.796 de 2013, foi incluída a possibilidade de formação por meio de cursos técnico-pedagógicos, tanto em nível médio ou superior, incluindo as habilitações tecnológicas (BRASIL, 2013d). O Art. 63 regulamenta que os Institutos de Educação Superior (IES) devem manter o curso normal superior, destinado aos docentes da educação infantil e para as primeiras séries do ensino fundamental, além dos programas de formação pedagógica para quem já possui graduação e queira atuar na educação básica e em programas de educação continuada. Através das orientações do CNE, os IES poderiam oferecer todas as licenciaturas e outras modalidades de formação de professores em nível superior e situar-se dentro ou fora de universidades. De acordo com Gatti et al (2019), esses institutos não lograram plena eficácia, pois poucas instituições os instalaram e as escolas normais superiores se transformaram em licenciatura em Pedagogia, com o advento das Diretrizes Curriculares Nacionais em 2006. A partir da LDB de 1996, a formação em nível superior e a formação continuada são demandas da União, estados e municípios, o que, de acordo com Gatti, Barreto e André (2011) implica o atendimento de milhares de docentes e diversificação da oferta de cursos, segundo as etapas e modalidades da educação básica e as necessidades regionais e locais. 39 Para garantir recursos para o desenvolvimento das ações destinadas aos professores da educação básica, foi regulamentado um financiamento para este fim, através da Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996 que dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). O FUNDEF, criado em 1997, destinava-se apenas aos profissionais do ensino fundamental e determinava, em seu texto original, a composição de seus recursos em 15% provenientes da cobrança do imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação (ICMS) e da disposição de, pelo menos, 60% para remuneração dos professores. Parte desse percentual poderia fomentar, nos primeiros cinco anos de publicação da Lei, a formação de professores leigos, e os outros 40% seriam destinados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino (BRASIL, 1996). Esse Fundo teve várias alterações desde sua publicação, como a revogação de 20 de junho de 2007, por meio da Lei nº 11.494, que “Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da educação básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB” (BRASIL, 2007a). A criação do FUNDEF foi um passo significativo na política de valorização e qualificação dos profissionais da educação, pois procurou equalizar os custos mínimos por aluno entre estados e seus municípios; determinou a criação de plano de cargos e carreira para os docentes e estabeleceu prazo para a formação de professores leigos sob diversos aspectos (WEBER, 2015). O Art. 5º do Decreto nº 3.276/1999, que “Dispõe sobre a formação em nível superior de professores para atuar na educação básica”, também teve representatividade para a formação de professores, pois determinou o CNE responsável pela definição das diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores para essa etapa da educação. Assim, em 19 abril de 1999, foi publicada a Resolução CNE/CEB nº 02/1999, que instituiu as “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em Nível Médio, na modalidade Normal”. No ano 2000, o Decreto nº 3.554 de 7 de agosto dá nova redação ao Parágrafo 2o do Art. 3o do Decreto nº 3.276, de 6 de dezembro de 1999, que dispõe sobre a formação em nível superior de professores para atuar na educação básica, alterando-a para a atuação multidisciplinar, destinada ao magistério na educação infantil e nos anos iniciais do ensino 40 fundamental, de exclusivamente, para preferencialmente em cursos normais superiores (BRASIL, 2000). Em 2001, foi sancionada a Lei no 10.172, de 9 de janeiro, que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE), com diretrizes e metas para os dez anos seguintes. Ele foi criado em sintonia com a Declaração Mundial sobre Educação para Todos de 1990, como sugere o Parágrafo 1º, do Art. 87 da LDB de 1996. As diretrizes para formação de professores do referido PNE colocam a implementação de políticas públicas nesse campo como condição e meio para o avanço científico e tecnológico do país (OLIVEIRA; LEIRO, 2019). Destaca-se aqui a importância da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), do Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), da Associação Nacional de Política e Administração da Educação (ANPAE), da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), do Fórum de Diretores das Faculdades de Educação das Universidades Públicas Brasileiras (FORUNDIR), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) para o debate e definição das políticas educacionais, especialmente das políticas de formação e de valorização dos profissionais da educação, inclusive na formulação dos PNEs de 2001 e de 2014. Uma das metas propostas pelo PNE de 2001 para a formação de professores da educação básica foi que, em até cinco anos, todos os professores da educação infantil tivessem o nível médio e que, em dez anos pelo menos, 70% deles tivessem formação em nível superior. Para a educação fundamental, a meta era de que em até cinco anos todos tivessem o nível superior concluído (BRASIL, 2001a). Outra determinação do PNE de 2001 foi o estabelecimento do prazo de um ano para a constituição de diretrizes e parâmetros curriculares para os cursos superiores de formação de professores e demais profissionais da educação. Assim, essas diretrizes para os cursos de licenciatura foram publicadas pelo CNE, a partir das Resoluções CNE/CP nº 01 e nº 02, em 2002. Palafox, Klinke e Silva (2013) apontam a contradição contida tanto no PNE de 2001 quanto na LDB de 1996, em relação ao local de formação de professores, pois ambos admitiam a possibilidade de formação em lugares específicos, ao invés enfocar exclusivamente as universidades, que constituem também o local defendido pela ANPEd e pela ANFOPE para esse fim. 41 Em 2006, foi aprovada a Lei nº 11.273, que “autoriza a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes de programas de formação inicial e continuada de professores para a educação básica” (BRASIL, 2006a). As bolsas são destinadas a professores em formação inicial em serviço, ainda não titulados, tanto em nível médio quanto em nível superior e em cursos de formação continuada. Ainda em 2006, foi criada a Universidade Aberta do Brasil (UAB), pelo Decreto nº 5.800, de 08 de junho de 2006, para o desenvolvimento da modalidade de educação a distância (EaD), com o objetivo de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de Educação Superior no Brasil (BRASIL, 2006c). A partir da oferta de cursos de nível superior por meio da UAB, o governo federal, em regime de colaboração com os estados, os municípios e em parceria com universidades públicas, avançou no atendimento a essa demanda, como exigido pela LDB, além de tratar do ensino e aprendizagem por meio de e para o uso de Tecnologias Digitaisda Informação e Comunicação, as TIDCs, para o professor como estudante. A instituição do sistema UAB ocorreu logo após a promulgação do Decreto nº 5.622/2005, que conferiu novo ordenamento legal à EaD, equiparando os cursos nessa modalidade aos cursos presenciais e estabelecendo a equivalência de diplomas e certificados na educação superior. De acordo com Branco e Peixoto (2018), o sistema UAB materializa-se como uma grande rede de cooperação entre entes federados com o objetivo de implementar um modelo de EaD no setor público. Em 2009, atendendo à redação dada pela Lei nº 11.947, foi incluída a participação de professores em projetos de pesquisa que busquem desenvolver metodologias educacionais para a formação docente e para a UAB (BRASIL, 2009a). Para Gatti e Barreto (2009), essa medida legal assentou- se no pressuposto de que a EaD constituía a iniciativa de maior alcance para enfrentar as novas demandas do número de egressos do ensino médio e de formação docente. Barreto (2015) discute sobre a necessidade de revisar os projetos de formação desses cursos ofertados a distância, já que carecem, assim como os presenciais, de reflexões mais profundas sobre o perfil profissional que se pretende formar. Pondera, ainda, que é necessário refletir se essa expansão de oferta de formação estaria acompanhada da qualidade que lhe é necessária ou se seria apenas uma tentativa de resolver os impasses da formação de professores no Brasil, tornando-a ainda mais frágil. 42 A despeito das posições reticentes ou mesmo contrárias a essa política pública, no ano de 2022 a UAB está completando 16 anos de existência, representando a longevidade do programa, que é amplamente interiorizado (SILVA; SILVA, 2020). De acordo com o Sistema de Gestão da UAB (SisUAB) participam dela 135 instituições públicas de ensino Superior (IPES), as quais podem ofertar cursos em 848 polos aptos em todos os estados do Brasil. No âmbito da regulamentação das diretrizes dos cursos que formam os professores da educação básica, o CNE, também em 2006, publicou a Resolução CNE/CP nº 01/2006, que “Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licenciatura”. Com isso, de acordo com Brzezinski (2007), o curso de Pedagogia, que historicamente vinha sendo objeto de discussão e reivindicação por parte da ANFOPE e de outras instituições, passou a ser reconhecido como curso com identidade ancorada nas licenciaturas, ganhando nova identidade e elementos, tais como a base nacional comum enquanto núcleo essencial da formação, concepção de docência explicitada que contempla aspectos da concepção freiriana, a formação para gestão educacional e para pesquisa, além de ter criado a possibilidade de superar a organização curricular por disciplina e instituir que a formação do pedagogo não se restrinja apenas à docência na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, como explicitado em: Formação de professores para exercer funções de magistério na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio, na modalidade Normal, de Educação Profissional na área de serviços e apoio escolar e em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos (BRASIL, 2006b). No ano de 2007, como mencionado anteriormente, foi criado o FUNDEB em substituição ao FUNDEF, que vigorou de 1998 a 2006 (MEC, 2019). Essa alteração permitiu a ampliação dos fundos para a formação de professores da educação infantil e do ensino médio, antes previstos apenas para formação de professores do ensino fundamental. Gatti, Barreto e André (2011) avaliam que tais recursos, além de criar condições para construção de políticas mais equânimes para valorização dos profissionais da educação básica, também alicerçaram nos estados e nos municípios as bases para o incremento de políticas de ampla envergadura de formação em serviço de docentes, entendidas como um direito dos profissionais da educação e como condição indispensável ao exercício da profissão (GATTI; BARRETO; ANDRÉ, 2011, p. 34). 43 O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado pelo MEC em 24 de abril de 2007, teve o objetivo de melhoria da educação e redução de desigualdades relativas às oportunidades educacionais e um de seus principais pontos foi a formação de professores e a valorização dos profissionais da educação básica (BRASIL, 2008a). Apesar de ter sido descontinuado, uma de suas iniciativas perdurou: a expansão e interiorização da oferta de cursos de educação superior através da UAB. Há de se notar que o PDE parece ser uma sobreposição ao PNE, conforme analisado por Saviani (2007), já que o plano de vigência deste foi de 10 anos, 2001 a 2010 e aquele se define como um conjunto de ações que, teoricamente, se constituíram em estratégias para a realização dos objetivos e metas previstos no PNE. Ainda em 2007, foi aprovada a Lei nº 11.502, de 11 de julho, que modifica as competências e a estrutura organizacional da CAPES. O Art. 2º determina que: A CAPES subsidiará o Ministério da Educação na formulação de políticas e no desenvolvimento de atividades de suporte para a formação de profissionais de magistério para a educação básica e superior e para o desenvolvimento científico e tecnológico do país (BRASIL, 2007b). A CAPES passou a incluir como sua finalidade, o fomento à formação inicial e continuada de professores da educação básica, em regime de colaboração com os Estados, os municípios e o Distrito Federal e somente através de convênios com as instituições de ensino superior públicas e privadas (BRASIL, 2007b). O inciso I dessa Lei define que a formação inicial deverá acontecer, preferencialmente, na modalidade presencial, associada com o uso de recursos da EaD. Já o inciso II afirma que a formação continuada utilizará, especialmente, os recursos da EaD. Oliveira e Leiro (2019) apontam que o uso desses recursos e tecnologias da EaD, apesar da indicação de preferência pela modalidade presencial na formação inicial, tem relação direta com a expansão dos programas desenvolvidos pela UAB, que a consideram um dos principais instrumentos de execução do MEC para concretizar as políticas de formação de professores em nível superior. Também em 2007, foi homologado o Decreto nº 6.316, de 20 de dezembro, que “Aprova o Estatuto e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão da CAPES”, revogado pelo Decreto nº 7.692 de 02 de março de 2012 (BRASIL, 2012) e depois novamente revogado pelo Decreto nº 8.977 de 30 de janeiro de 2017 (BRASIL, 2017). A importância do Decreto nº 44 6.316/2007 consistiu na articulação das políticas de formação de professores e na elaboração de programas de atuação setorial ou regional com essa finalidade. O primeiro programa a ser instituído pela CAPES foi o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), regulamentado primeiro por meio da Portaria do MEC nº 38, de 12 de dezembro de 2007 e, mais tarde, ampliado por meio do Decreto nº 7.219, de 24 de junho de 2010. O programa tem como objetivo proporcionar aos licenciandos da primeira metade do curso atividades de iniciação à docência, como a criação de objetos educacionais, oficinas e projetos acadêmicos. São oferecidas bolsas para os licenciandos, professores das escolas e equipe de docentes do programa IES (BRASIL, 2010a). De acordo com o estudo realizado por Gatti et al (2014), esse programa trouxe várias contribuições para as licenciaturas, pois valoriza, fortalece e revitaliza os cursos e a profissão docente para: a) os estudantes bolsistas, permitindo a aproximação com as escolas públicas e entre teoria e prática; b) os professores supervisores da escola, já que oferece a formação continuada e a reflexão sobre a prática; c) as escolas e seus alunos, uma vez que propicia o desenvolvimento de estratégias criativase motivadoras de ensino e melhoria de sua qualidade. Os autores também apontam que, como política pública de educação, a instituição do PIBID contribui para a valorização da profissão de professor, constituindo-se em rara política de atenção à formação inicial dos professores para a educação básica, como um programa que desacomoda as licenciaturas e mobiliza escolas e, por suas contribuições, deve ser institucionalizada e tornada perene como política de Estado (GATTI et al, 2014). De acordo com os dados da Diretoria de Formação de Professores da educação básica da CAPES (DEB/CAPES), em suas nove edições concluídas, o PIBID beneficiou 258.706 estudantes de iniciação à docência. Encontram-se em fase de conclusão os processos seletivos referentes à 10ª edição do programa, com a oferta de cerca de 30.000 bolsas de iniciação à docência13. Desde 2015, o PIBID tem sofrido cortes orçamentários, frutos da retração dos investimentos planejados para a CAPES, o que reflete na diminuição no número de bolsas. Esse fato faz do PIBID um exemplo de ação pública que, apesar de ter trazido inúmeras contribuições para o campo educacional, está sendo prejudicada pela diminuição de investimentos para sua execução (PANIAGO; SARMENTO; ROCHA, 2018). 13 http://www.capes.gov.br/educacao-basica/capespibid/editais-e-selecoes 45 Vale destacar ainda no Decreto nº 6.316/2007, uma das primeiras sinalizações para a construção de um Sistema Nacional de Formação de Professores, contida no Inciso I, do parágrafo 2º, do Art. 2º do referido Decreto, quando descreve as funções da CAPES: “I - fomentar programas de formação inicial e continuada de profissionais do magistério para a educação básica com vistas à construção de um sistema nacional de formação de professores” (BRASIL, 2007b). No ano de 2009, através da publicação do Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro, foi instituída a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da educação básica, que tem como finalidade organizar, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério para as redes públicas da educação básica. São dez princípios que orientam essa política, abrangendo a garantia do padrão de qualidade dos cursos de formação docente; a articulação entre teoria e prática e indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; o reconhecimento da escola como espaço de formação; a importância do professor no processo educativo escolar, dentre outros (BRASIL, 2009b). Para cumprir os objetivos dessa política, o Decreto nº 6.755/2009 cria em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, e por meio de ações e programas específicos do Ministério da Educação, os Fóruns Estaduais Permanentes de Apoio à Formação Docente, que em 16 de setembro de 2009, através da Portaria do MEC nº 883, tem suas diretrizes estabelecidas (BRASIL, 2009c). As principais funções dos fóruns são: elaborar e acompanhar a execução de planos estratégicos, de acordo com os diagnósticos realizados da formação inicial e continuada dos professores da educação básica do país; definir prioridades e metas do programa em cada estado; coordenar as ações de formação de professores; e propor ações específicas para garantia de permanência e rendimento satisfatório dos professores de educação básica (BRASIL, 2009c). Locatelli e Diniz-Pereira (2019) constatam por meio de sua pesquisa que, apesar da grande diversidade na adesão e na orientação, os fóruns surgiram e desapareceram num período de seis anos (2009 – 2015), revelando a desarticulação e a impotência que tiveram para lidar com os graves problemas da formação docente no Brasil. Dando prosseguimento a essa política, foi constituído, através da portaria normativa do MEC nº 09 de 30 de junho de 2009, o Plano Nacional de Formação de Professores da educação 46 básica (PARFOR), com o objetivo de estabelecer ações e metas para a qualificação de profissionais do magistério que ainda não possuem a formação requerida para o exercício da docência em regime de colaboração com as Secretarias de Educação dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios e com as Instituições de Ensino Superior (IES), no âmbito do PDE - Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação. O objetivo principal do PARFOR é garantir que os professores, em exercício na rede pública de educação básica, obtenham a formação exigida pela LDB, por meio de cursos superiores públicos, gratuitos e de qualidade. As modalidades de cursos oferecidos contemplam primeira, segunda ou terceira licenciatura para docentes em exercício (BRASIL, 2009d). De acordo com as informações da DEB/CAPES, até dezembro de 2019, o PARFOR contava com 354 turmas em andamento, e mais de 11.000 professores da educação básica matriculados. Ao longo de sua existência, o PARFOR formou cerca de 54 mil professores (DEB/CAPES, 2019). Para Brzezinski (2014) e Souza (2014), o PARFOR foi uma de tantas outras alternativas emergenciais do governo brasileiro, para suprir a necessidade de formação adequada aos docentes, haja vista a dificuldade de sua efetivação na prática, pois os professores não têm substitutos para ministrarem as suas aulas enquanto estudam, e, por isso, acabam por abandonar os cursos de formação. Em 2014, houve a publicação de mais uma política pública voltada à educação e relacionada à formação de professores da educação básica: o II PNE 2014-2024, sancionado pela Lei nº 13.005, em 25 de junho de 2014, que entrou em vigência com validade de dez anos, constituindo uma referência central para os entes federativos em relação às políticas educacionais a serem implantadas. Por meio de 10 diretrizes, 20 metas e 254 estratégias, o PNE define os objetivos para a educação a serem alcançados até 2024. Deste total de metas, 12 contemplam a formação de professores (HYPOLITO, 2015). Siqueira (2017) explica a relação existente entre as 20 metas do PNE e o ODS 4 da Agenda 2030, pois, apesar de independentes e de natureza distinta, ambos são compromissos feitos pelo Estado brasileiro e apresentam objetivos em comum, direta ou indiretamente, com potencial de sinergia para retroalimentar suas ações e colaborarem, assim, para a melhoria do acesso, qualidade e resultados da educação no país. 47 O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) traçou inclusive um paralelo entre as metas dos ODS e suas contrapartidas nas metas do PNE, concluindo que, das dez metas do ODS 4, sete foram previstas pelo PNE (IPEA, 2019). Especificamente em relação à formação dos profissionais da educação, a que se referem as metas 15 e 16 desse PNE e a ligação com o ODS 4.c da Agenda 2030, a porcentagem de docentes nos anos finais do ensino fundamental com formação superior na área em que lecionam foi de apenas 45,9%, em 2015 (SIQUEIRA, 2017). Para o ensino médio essa porcentagem foi de 53,8% no mesmo período, sendo que 32% não possuem formação para nenhuma disciplina que lecionam e 14% apresentam formação adequada para uma das disciplinas. Para todo o ciclo da educação básica, a porcentagem de professores com curso superior foi de 76,4%, em 201514. A meta 15 do PNE/2014 planeja que 100% dos docentes da educação básica tenham formação superior na área em que lecionam até 2024. Para Locatelli e Diniz-Pereira (2019), o PNE/2014 reproduz, em linhas gerais, o que foi determinado pelo Decreto nº 6.755, ao enfatizar que a implementação de cursos e programas especiais deverá ocorrer “nas respectivas áreas de atuação” (BRASIL, 2014a), reforçando, sobretudo, a necessária preparação no que se refere aos conteúdos a serem ensinados. Para os autores, há novamente uma oferta emergencial de cursos de licenciaturas e de cursos ou programas especiais dirigidos aos docentes em exercício, especificadana meta 15.9 do PNE/2014: Implementar cursos e programas especiais para assegurar formação específica na educação superior, nas respectivas áreas de atuação, aos docentes com formação de nível médio na modalidade normal, não licenciados ou licenciados em área diversa da de atuação docente, em efetivo exercício (BRASIL, 2014a). No referido Plano, há também outras metas que fazem referência à formação de professores para a educação básica, como a Meta 1, que trata da Educação Infantil e prevê na estratégia 1.8 “[...] promover a formação inicial e continuada dos/as profissionais da educação infantil, garantindo, progressivamente, o atendimento por profissionais com formação superior [...]” (BRASIL, 2014a). A meta 3 ocupa-se do ensino médio e aumento da taxa de matrícula 14 Dados compilados pela ONG Todos pela Educação, disponíveis em: http://www.observatoriodopne.org.br/. A plataforma Observatório do PNE funciona como um instrumento de controle social ao permitir que qualquer pessoa possa acompanhar o cumprimento das metas estabelecidas pelo PNE. http://www.observatoriodopne.org.br/ 48 neste nível de ensino, prevendo como primeira estratégia uma renovação curricular e do ensino, indicando a necessidade de uma formação continuada de professores (BRASIL, 2014a). Na Resolução CNE/CP nº 2/2015, que “Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada” (BRASIL, 2015), percebe-se novamente a pressa na formação dos profissionais já em exercício, como previsto nos Artigos 14 e 15: Art. 14. Os cursos de formação pedagógica para graduados não licenciados, de caráter emergencial e provisório, ofertados a portadores de diplomas de curso superior formados em cursos relacionados à habilitação pretendida com sólida base de conhecimentos na área estudada, devem ter carga horária mínima variável de 1.000 (mil) a 1.400 (mil e quatrocentas) horas de efetivo trabalho acadêmico, dependendo da equivalência entre o curso de origem e a formação pedagógica pretendida. Art. 15. Os cursos de segunda licenciatura terão carga horária mínima variável de 800 (oitocentas) a 1.200 (mil e duzentas) horas, dependendo da equivalência entre a formação original e a nova licenciatura (BRASIL, 2015). Em ambos os casos, determina-se carga horária reduzida, variando conforme a situação a ser atendida e, no caso do curso para segunda licenciatura, os portadores de diploma de licenciatura com exercício comprovado no magistério da educação básica poderão ter redução de até 100h da carga horária do estágio curricular supervisionado (BRASIL, 2015). No ano de 2018, um outro programa voltado à formação dos estudantes de licenciatura foi lançado pela CAPES/MEC: o Residência Pedagógica. Instituído pela Portaria CAPES nº 38/2018, o programa tem o objetivo de propiciar e intensificar a formação prática nas licenciaturas, por meio da imersão do licenciando na escola de educação básica, a partir da segunda metade do curso (BRASIL, 2018). A exemplo do PIBID, no programa Residência Pedagógica são oferecidas bolsas para os licenciandos, professores das escolas e equipe de docentes do programa/IES. Em entrevista à Revista Nova Escola, Mello (2018) destacou a relevância de programas de residência pedagógica para favorecer a compreensão, por parte dos licenciandos, da dimensão prática da profissão docente. Segundo a estudiosa, a residência pedagógica poderia ser um primeiro passo para corrigir a ausência e/ou insuficiência da formação prática dos estudantes, embora a iniciativa governamental ainda se revele pequena para o número de professores que se formarão nos próximos anos. Em dezembro de 2019, uma nova Resolução do CNE foi promulgada tratando da definição de Diretrizes Curriculares Nacionais à Formação Inicial de Professores para a 49 educação básica e também da instituição da Base Nacional Comum para essa formação (BNC- Formação). Trata-se da Resolução CNE/CP nº 2, de 20 de dezembro de 2019. No que tange à carga horária dos cursos, quando cotejada com a Resolução nº 02/2015, há, entre outras flexibilizações, a diminuição da carga horária dos cursos de formação pedagógica (de 1400 a 1000 horas para 760 horas) e nova classificação dos cursos de segunda licenciatura, as quais terão durações variadas, a depender do agrupamento em que se enquadram. No tocante ao estágio supervisionado, feito no decorrer do curso, como prescrevem as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (DCN) 2015, deve ser convertido em residência pedagógica, da mesma forma que ocorre a residência médica. Quanto à formação continuada, esta deverá ocorrer durante a evolução funcional na trajetória da carreira docente. Apesar de ser necessária a formação de professores em exercício, essas determinações legais revelam um traço persistente e problemático em nossa história de formação para o magistério, em que situações impróprias nas escolas públicas, como formação profissional inadequada e desmotivação, justificam ações aligeiradas e provisórias na preparação dos docentes da educação básica no país. Importa destacar que a lógica e dinâmica das políticas em nosso país, sobretudo na área educacional, não é linear, ou seja, não há continuidade, apenas ações fragmentadas e desarticuladas, em resposta a situações emergenciais que as próprias políticas educacionais causam com o passar dos anos. É o que Brzezinski (2018), na obra por ela organizada da coletânea sobre a LDB, intitulada “LDB/1996 Vinte anos depois: projetos educacionais em disputa”, chama de “descompasso/compasso entre a proposição, a execução e os resultados” (BRZEZINSKI, 2018, p. 8). Ela ainda sustenta que a dinâmica das políticas, no sentido de constantes reformas, planos de ação, mudanças e alterações de rotas, são fruto de um cenário fortemente pautado na “internacionalização, financeirização e pelo movimento de diversificação e diferenciação institucional”, o que altera e complexifica ainda mais os processos de gestão, financiamento e organização da educação nacional, incluindo a democratização do acesso e permanência com qualidade social (BRZEZINSKI, 2018, p. 9). A análise deste panorama de normativos legais para a formação inicial de professores para a educação básica, instituído entre 1996 e 2019, permitiu identificar alguns aspectos e contradições que caracterizam a política de formação inicial docente. 50 As ações delineadas pelo governo federal revelam uma tentativa de ações estratégicas para instituir um sistema nacional de formação de professores, mas não permitem o estabelecimento de uma sólida política de Estado, mostrando a descontinuidade em governos futuros, como se presencia na gestão de nosso país desde as últimas eleições presidenciais em 2018, com bloqueios e cortes cada vez maiores na educação (BRASIL, 2021b). Soma-se a isso o esforço de superação entre teoria e prática na formação inicial docente, através da DCN/2015 e, mais recentemente, da BNC Formação/2019, mediante sua visão sistêmica em organização do currículo pautada por uma pedagogia de competências e habilidades que se propõe a preencher diversas lacunas dessa formação. Uma delas é o uso da tecnologia, que se tornou ainda mais evidente a partir do ano de 2020, momento em que a pandemia da Covid-19 paralisou as aulas presenciais em todo o mundo e obrigou os sistemas de ensino a pensar formas alternativas para a garantia da continuidade do processo de aprendizagem. O reconhecimento do uso das tecnologias digitais no meio educacional pode ser visto como avanço da BNC-Formação, considerando o contexto altamente tecnológico em que se inserem as sociedades contemporâneas. Em especial, dada a questão da precária ou inexistente formaçãodos professores para o uso pedagógico de tecnologias, tida como uma limitação com a qual ainda lidamos na educação nacional (SILVA; SILVA; AMORIM, 2021). Há que se atentar, contudo, para o fato de que esta nova política está atrelada à Base Nacional Comum Curricular da educação básica (BNCC), a qual foi alvo de um acirrado debate entre os diversos atores da educação brasileira que buscam fazer valer sua posição como legítima e encaminhar seus desígnios (MICHETTI, 2020) e, por isso, enfrenta oposição e crítica apesar de haver sido homologada. Tal fato contribui também para ponderar sobre possíveis visões simplistas e superficiais da formação, posto que as licenciaturas não podem se abster de estar consubstanciadas em Fundamentos filosófico-sociais, histórico-psicológicos e fundamentos de práticas específicas que demandam domínio de conhecimentos integrados a conhecimentos científicos e humanistas para a ação educacional voltada às novas gerações (GATTI, 2019, p. 19). Ao considerar toda a complexidade que a temática sobre a política de formação de professores reúne, trata-se de, no horizonte que nos propõe refletir Barroso (2007), acompanhar 51 a dinâmica para as novas formas de trabalho e ensino e saber interpretar o cenário social de disputa no qual essa política é instituída em nosso país. Por fim, cabe aqui ressaltar que o intuito desse histórico dos normativos legais relacionados à formação de professores para a educação básica, foi de desenvolver reflexões iniciais sobre as políticas educacionais no país desde 1996, a fim de relacioná-las com a formação inicial docente necessária ao ensino de Surdos na perspectiva da Educação Bilíngue, que será abordada no próximo tópico. 2.2 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA E PARA A EDUCAÇÃO BILÍNGUE DE SURDOS: PONTOS E CONTRAPONTOS Este tópico tem como objetivo fazer um resgate histórico da formação inicial de professores para a Educação Especial na perspectiva inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos, constituídas por intermédio de alguns normativos legais brasileiros. A finalidade de contextualizar os dois cenários de interpretação das políticas públicas é refletir sobre a ambiguidade existente entre a implementação da proposta bilíngue de educação para Surdos e, a consequente formação de professores a ela direcionada, segundo o Decreto nº 5.626/05 e a Política de Inclusão. Considera-se importante destacar que, apesar da maioria das pessoas Surdas não se reconhecer com a representação de PcD e esta pesquisa entender o Surdo como sujeito constituinte de uma identidade própria, a partir da concepção socioantropológica da surdez, o Surdo tem sido considerado como PcD sob a perspectiva da normalização clínica e, por isso, foi incluído até o ano de 2021 nas políticas educacionais de inclusão. Este resgate, apresentação e reflexão dar-se-ão através da análise de: a) normativos legais de constituição da Educação Bilíngue e da Educação Especial Inclusiva e da formação de professores para elas; b) organização curricular dos cursos de formação para docência nessas modalidades; c) fundamentação teórica de autores do campo de formação de professores dessa temática, como Vieira-Machado (2016), Strobel (2009), Skliar (2016), Lodi (2013), Garcia (2013), Denari e Sigolo (2016) e Michels (2017) e d) teses e dissertações de programas de pós- graduação em educação e linguística, como Bueno (2020), Lima (2018), Macedo (2010), Alves (2010), Rebouças (2009), Chacon (2001), Bueno (1999), Mazzota (1993), dentre outras. 52 Também foram utilizados, como fonte de pesquisa, anais do Grupo de Trabalho (GT) 15 da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), que trata da Educação Especial, com a opção apenas por trabalhos que discutam a formação de professores para esta modalidade na perspectiva inclusiva e artigos científicos de periódicos nacionais. Utilizou-se o recorte temporal para a formação de professores bilíngues de Surdos a partir de 2005, ano em que foi publicado o Decreto nº 5.626/2005, e a Libras foi regulamentada como língua das pessoas Surdas brasileiras, passando a ser inserida nos currículos de cursos de formação de professores. Incluiu-se neste panorama, para efeito de atualização, a Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021, a qual altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDBa), para apresentar a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos retirada da Educação Especial. Para o estudo sobre a formação para a docência na Educação Especial e Inclusiva, optou-se por analisar o material da pesquisa bibliográfica desde a primeira iniciativa dessa formação, datada de 1962, para uma melhor contextualização sobre o tema. Como mostrado no tópico 2.1, com o objetivo de expor os normativos legais brasileiros relacionados ao campo de estudo, será apresentado o Quadro dos Marcos legais das políticas públicas brasileiras para a formação de professores para a Educação Especial e Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos a partir de 1994, conforme Quadro 2. Quadro 2 - Marcos legais das políticas públicas brasileiras para a formação inicial de professores para a Educação Especial e Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos nº Ano Normativo Jurídico Assunto 1 1994 Portaria Ministerial nº 1.793 Dispõe sobre recomendações para inclusão de disciplinas relacionadas à Educação Especial. 2 1996 Lei nº 9.394 Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 3 2001 Lei nº 10.172 Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. 4 2001 Resolução CNE/CEB nº 2 Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na educação básica. 5 2002 Lei nº 10.436 Dispõe sobre a Língua Brasileira de 53 Sinais - Libras e dá outras providências. 6 2005 Decreto nº 5.626 Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o Art. 18 da Lei nº 10.098 de 19 de dezembro de 2000. 7 2008 Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva 8 2008 Decreto nº 6.571 *Revogado pelo Decreto nº 7.611 9 2009 Decreto nº 6.949 Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. 10 2011 Decreto nº 7.611 *Dispõe sobre a Educação Especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. 11 2011 Decreto nº 7.612 Institui o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. 12 2013 Portaria nº 1.060 Institui Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar subsídios para a Política Nacional de Educação Bilíngue - Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. 13 2013 Portaria nº 91 Designa os membros para compor o Grupo de Trabalho definido na Portaria nº 1060, de 31 de outubro de 2013. 54 14 2014 Relatório sobre a Política Linguística de Educação Bilíngue -Língua de Sinais e Língua Portuguesa Relatório do Grupo de Trabalho, designado pelas Portarias nº1.060/2013 e nº 91/2013, contendo subsídios para a Política Linguística de Educação Bilíngue – Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. 15 2014 Lei nº 13.005 Aprova o Plano Nacional de Educação. 16 2015 Lei nº 13.146 Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). 17 2020 Decreto nº 10.502 Institui a Política Nacional de Educação Especial: equitativa, inclusiva e com aprendizado ao longo da vida 18 2021 Lei nº 14.191 Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para dispor sobre a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos. Fonte: Elaborado pela autora (2020). Como visto no tópico anterior desta revisão de literatura, a formaçãoinicial de professores para a educação básica foi marcada pelo debate entre teoria e prática, uma vez que não se pode conceber a formação de docentes para o exercício do magistério sem que lhes ofereça boa formação teórica e cultural, mas, também, não se pode dar menos importância à formação para o trabalho educacional no processo de aprendizagem escolar (GATTI, 2020). É também perceptível, a partir do tópico 2.1 deste referencial teórico, a sobreposição e descontinuidade de programas para a educação, como elucida Saviani (2008d) em sua análise sobre os prazos estipulados e não cumpridos pela política pública brasileira para a melhoria da https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394compilado.htm 55 educação básica no país, através da criação do PNE 2001 - 2011, FUNDEF, FUNDEB, PDE e PNE 2014 - 2024. Do mesmo modo, a formação dos profissionais para atuar na Educação Especial e Inclusiva e na educação de Surdos é igualmente marcada por contradições e desafios (LODI, 2013; SILVA, 2016; MELO; SILVA, 2018), mas também abarca as mudanças conceituais e estruturais pelas quais a sociedade e a educação brasileira vêm passando em relação ao público- alvo das políticas de Educação Bilíngue, que são os Surdos, e a Educação Especial para as PcD e/ou necessidades específicas15. Como mostra Mantoan (2017), a educação para todos é algo recente em nosso sistema educacional e tem sido discutida em conferências e fóruns mundiais sobre esta temática, que resultaram em documentos constituídos como marcos nas discussões políticas e práticas para a educação no mundo, como a Declaração de Jomtien (1990)16, a Declaração Nova Delhi (1993)17 e a Conferência Mundial sobre as Necessidades Educativas Especiais, realizada em 1994, na cidade de Salamanca, de onde derivou a Declaração de Salamanca18. De acordo com esse documento, para que ocorra a inclusão escolar é imprescindível que [...] todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível independente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos e parcerias com as comunidades [...] escolas inclusivas provêm um ambiente favorável à aquisição de igualdade de oportunidades e participação total [...] (UNESCO, 1994, p. 5). 15 Ao longo dos tempos, a deficiência tem assumido sentidos diferentes a partir de tratamentos sociais, científicos, filosóficos, culturais, que caminham para conotações cada vez menos depreciativas e generalizantes, e por isso, as denominações tem mudado desde inválido, incapaz, excepcional, retardado, deficiente, pessoa portadora de necessidade especial (PNE), PcD dentre outras. Neste estudo será utilizada a terminologia PcD e/ou necessidades específicas com o sentido de identificar a diferença sem taxá-la de incapacitante, de acordo com os preceitos de Mantoan (2017). 16 Também conhecida como Declaração Mundial sobre Educação para Todos, foi aprovada na Conferência com mesmo nome, realizada em Jontiem, Tailândia, de 5 a 9 de março de 1990 e constitui-se em um plano de ação para satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-mundial-sobre-educacao-para-todos-conferencia-de-jomtien-1990. Acesso em: 24 abr. 2020. 17 Foi aprovada por aclamação em Nova Delhi, Índia, em 16 de dezembro de 1993. Traz metas para atender às necessidades básicas de aprendizagem de todos os nossos povos tornando universal a educação básica e ampliando oportunidades de aprendizagem para crianças, jovens e adultos. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000139393. Acesso em: 24 abr. 2020. 18 A Declaração de Salamanca, Espanha, foi o nome dado à Declaração sobre Princípios, Política e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais. As ações indicadas para a formação de professores estão no ponto “C”: Recrutamento e Treinamento de educadores (UNESCO, 1994). https://www.unicef.org/brazil/declaracao-mundial-sobre-educacao-para-todos-conferencia-de-jomtien-1990 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000139393 56 A respeito da escolarização das pessoas Surdas, esta Declaração afirma: Políticas educacionais deveriam levar em total consideração as diferenças e situações individuais. A importância da linguagem de signos como meio de comunicação entre os surdos, por exemplo, deveria ser reconhecida e provisão deveria ser feita no sentido de garantir que todas as pessoas surdas tenham acesso à educação em sua língua nacional de signos. Devido às necessidades particulares de comunicação dos surdos e das pessoas surdas/cegas, a educação deles pode ser mais adequadamente provida em escolas especiais ou classes especiais e unidades em escolas regulares (BRASIL, 1994, p. 7). O movimento da Educação para Todos prossegue com a realização de dois outros encontros: um em 2000 em Dakar, Senegal, que se converteu no Compromisso de Dakar (2001)19, e outro, o Fórum Mundial de Educação em 2015, na cidade de Incheon, Coreia do Sul, que deu origem à Declaração de Incheon20. Através desses documentos inúmeros compromissos foram assinados pelos dirigentes dos países e propostas e metas de atuação foram estabelecidas no sentido de se construir práticas educativas que pudessem contemplar e respeitar as diferenças de todos os sujeitos (ao menos teoricamente) que compõem o espaço educacional. Fávero et al (2009), em uma das obras da coletânea “Tornar a educação inclusiva”, resultado da parceria entre a UNESCO e a ANPEd, alertam que, apesar de ter sido mundialmente discutido e debatido, não há ainda unanimidade sobre a essência do conceito de educação inclusiva, mas a formação de professores tornou-se uma importante vertente a ser considerada para que haja a inclusão, e por isso, sendo necessária sua revisão. A partir da década de 1960, foram criadas iniciativas de formação de professores para a Educação Especial em Estados do país, como por exemplo, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Estado do Rio Grande do Sul, que em 1962 iniciou o primeiro curso de extensão universitária para formação de recursos humanos para a Educação Especial (MAZZOTA, 1993). 19 Conferir definição na nota de rodapé da página 23. 20 A Declaração de Incheon foi assinada em maio de 2015 durante o Fórum Mundial de Educação e preconiza que a educação é o principal impulsionador para o desenvolvimento e para que o mundo alcance os demais ODS organizados pela ONU. Visa assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. 57 No final da década de 1960, com base no Parecer do Conselho Federal de Educação nº 252/1969, o curso de Pedagogia foi regulamentado e, a partir de então, a formação de professores para a Educação Especial passou a ser responsabilidade do ensino superior (PEREIRA, 2000). Após essa primeira iniciativa, outros cursos foram implementados por meio de quatro áreas específicas: Deficiência de audiocomunicação ou Deficiência Auditiva; Deficiência Física; Deficiência Mental e Deficiência Visual. Para Michels (2017), isso fragmentou a própria habilitação, pois não havia um currículo único para a área, mas sim currículos específicos para cada subárea da Educação Especial, o que centralizou a formação na deficiência ao desconsiderar as dificuldades políticas, sociais e históricas da educação e da sociedade como um todo e negou à pessoa então considerada deficiente suas necessidades de aluno. A formação de professores para a educaçãode Surdos, nesse contexto, era contemplada pela habilitação em Educação de Deficientes da audiocomunicação, na qual era priorizada a reabilitação da fala para as crianças Surdas para que, assim, o desenvolvimento da linguagem oral fosse trabalhado da mesma forma como se fazia com as não surdas (PEREIRA, 2000). Em 1994, em consequência da Portaria Ministerial nº 1.793, de 27 de dezembro de 1994, há a recomendação do MEC para inclusão da disciplina “aspectos ético-político-educacionais da normalização e integração da pessoa portadora de necessidades especiais”, prioritariamente, nos cursos de Pedagogia, Psicologia e em todas as licenciaturas (BRASIL, 1994). No entanto, conforme apontado por Chacon (2001) e Garcia (2013), a simples inserção de disciplinas ou conteúdos específicos não atribui à formação docente o entendimento necessário para a educação dos sujeitos da Educação Especial, quer seja no curso de Pedagogia ou nas demais licenciaturas. No ano de 1996, houve a publicação da Lei nº 9.394/1996, a LDB, que apesar de ter um capítulo destinado à Educação Especial e instituí-la como uma modalidade de educação escolar que deve ser oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, tem sido historicamente caracterizada como um subsistema ou um sistema paralelo de ensino, como reflete Michels (2017) em seu livro sobre “A Formação de Professores de Educação Especial no Brasil.” A única referência na LDB sobre a formação de professores para a modalidade especial de educação, está no Capítulo V “Da Educação Especial”, Artigo 59, inciso 3º, mas não há referência a como será feita essa capacitação, como se percebe no trecho do referido Artigo: 58 Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação: professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns (BRASIL, 1996). Os Surdos nesse contexto eram (e muitas vezes ainda são) considerados educandos com deficiência, que necessitavam da Educação Especial por serem considerados incapazes de aprender como os que ouvem, já que não se comunicam oralmente. Três anos após a promulgação da LDB de 1996, Bueno (1999) já considerava como um desafio a formação de professores para a Educação Especial, tendo em vista a necessidade de se oferecer uma qualificação teórica sólida e adequada aos diferentes processos pedagógicos. Ainda de acordo com este autor, devido às diferentes necessidades educacionais de seu público- alvo e da necessidade de se oferecer uma formação específica sobre as características comuns desses indivíduos, a formação desses profissionais representa uma das relações contraditórias entre a sociedade em geral e as minorias (BUENO, 1999). Na década de 2000, o PNE 2001, instituído pela Lei nº 10.172/2001, definiu as diretrizes, os objetivos e as metas para a gestão e o financiamento da educação, para cada nível e modalidade de ensino e para a formação e valorização do magistério e demais profissionais dessa área. Para a formação dos profissionais da Educação Especial, o PNE estabeleceu: A formação de recursos humanos com capacidade de oferecer o atendimento aos educandos especiais nas creches, pré-escolas, centros de educação infantil, escolas regulares de ensino fundamental, médio e superior, bem como em instituições especializadas e outras instituições é uma prioridade para o Plano Nacional de Educação. Não há como ter uma escola regular eficaz quanto ao desenvolvimento e aprendizagem dos educandos especiais sem que seus professores, demais técnicos, pessoal administrativo e auxiliar sejam preparados para atendê-los adequadamente (BRASIL, 2001a, p. 87). Garcia (2013) aponta que a preocupação com o atendimento aos que na época eram denominados, educandos especiais, nas escolas regulares e nas instituições especializadas, do referido documento, marca o início da compreensão da educação inclusiva nos moldes que seriam propostos ao longo da década. O PNE/2001 trouxe ainda objetivos e metas a serem cumpridas no prazo de dez anos, relacionadas à formação de professores para o atendimento dos estudantes da Educação Especial, grupo em que os Surdos estavam inseridos. Todavia, com a extinção das habilitações específicas vinculadas à Pedagogia em 2006, a meta 8.20 do PNE/2001, que previa a inclusão 59 ou ampliação da habilitação específica para formar esses profissionais em nível de graduação e de pós-graduação, em cada unidade da Federação, não foi cumprida (MUTTÃO; LODI, 2018). Este Plano instituiu também a implantação em cinco anos e propagação em dez, do ensino da Libras para estudantes Surdos e, sempre que possível, para seus familiares e comunidade escolar (BRASIL, 2001a), sem especificar, no entanto, como isso seria feito. No mesmo ano, o CNE elaborou o parecer CNE/CEB nº 17/2001 que trata das diretrizes nacionais para a Educação Especial na educação básica, definindo-as na Resolução nº 02, que foi instituída em 11 de setembro de 2001. Seu Artigo 3º aponta: Os sistemas de ensino devem constituir e fazer funcionar um setor responsável pela Educação Especial, dotado de recursos humanos, materiais e financeiros que viabilizem e deem sustentação ao processo de construção da educação inclusiva (BRASIL, 2001b). O Artigo 8º desta normativa estabelece que [...] as escolas da rede regular de ensino devem prever e prover na organização de suas classes comuns: I - professores das classes comuns e da Educação Especial capacitados e especializados, respectivamente, para o atendimento às necessidades educacionais dos alunos (BRASIL, 2001b). O Artigo 18, parágrafo 1º, declara que professores capacitados são aqueles que comprovem a inclusão de conteúdos sobre Educação Especial que em sua formação de nível médio ou superior, os quais devem ser adequados ao desenvolvimento de competências e valores que possam: a) perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos e valorizar a educação inclusiva; b) flexibilizar a ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento de modo adequado às necessidades especiais de aprendizagem; c) avaliar continuamente a eficácia do processo educativo para o atendimento de necessidades educacionais especiais; d) atuar em equipe, inclusive com professores especializados em Educação Especial (BRASIL, 2001b). De acordo com Kumada e Prieto (2019), sob a ótica da referida Resolução, docentes que tiveram a disciplina de Libras em sua formação inicial são considerados professores capacitados. Ou seja, um professor com formação em matemática poderá atuar com alunos Surdos em classe comum ou em classes e escolas bilíngues para Surdos, ensinando conteúdos curriculares da matemática, desde que tenham feito a disciplina de Libras na graduação. Tal entendimento mostra a falta de compreensão sobre a importância das diferenças sociolinguísticas para os Surdos, pois em um único semestre não é possível dominar nenhuma 60 língua, tampouco a Libras, já que esta é uma língua visuoespacial, totalmente diferente da Língua Portuguesa, que é oral auditiva. Denari e Sigolo (2016) analisam que, para a formação em Educação Especial, a Resolução CNE/CEB nº 02 traz elementos que reafirmam o papel que a escola passou a desempenhar no atendimento à diversidade dos alunos, mas assim como Muttão e Lodi (2018), questionam quais seriam os conteúdos adequados ao desenvolvimento dessas competências, nos cursos de formação de professores. Em 2002, a Libras foi reconhecida como o sistema linguístico das pessoas Surdas brasileiras, através da Lei nº 10.436/2002: Art.1o É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão aela associados. Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras - a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil [...] (BRASIL, 2002). Essa Lei é considerada um marco histórico na trajetória de construção da identidade Surda e da luta pelos direitos humanos dos Surdos no Brasil, sendo conhecida como a Lei da Libras (MARTINS; NAPOLITANO, 2017). No ano de 2005, a Educação Bilíngue foi assegurada a esse grupo sociocultural, por meio do Decreto nº 5.626/2005 que também regulamentou a Lei nº 10.436/2002 e a Libras, garantindo sua inclusão como disciplina curricular obrigatória em cursos de Pedagogia, Licenciatura, Educação Especial e Fonoaudiologia, além de dispor sobre a formação de tradutores e intérpretes de Libras (TILS), de professores bilíngues e de professores para o ensino da Libras. A carga horária e o currículo mínimo a ser trabalhado na disciplina de Libras ficaram sob a responsabilidade das instituições de ensino (BRASIL, 2005). Além dessa formação foi prevista ainda, para os pedagogos, a inclusão no currículo de uma disciplina que abordasse o ensino da modalidade escrita da Língua Portuguesa como segunda língua. Conforme a pesquisa de Muttão e Lodi (2018), dessas duas disposições, a única cumprida pelas instituições de educação superior, públicas e privadas até o ano do levantamento feito por elas em 2014, foi o ensino da Libras. No capítulo III, Arts. 4º e 5º do Decreto nº 5.626/2005 há, pela primeira vez, referência e orientações à formação de profissionais para a Educação Bilíngue, com menção à formação 61 de docentes para o ensino de Libras e da Língua Portuguesa como segunda língua. Esta deve ser feita a partir da inclusão de uma disciplina curricular específica sobre a temática, nos cursos de formação de professores para a educação infantil e anos iniciais de escolarização, por meio do curso de Pedagogia ou Normal superior e nas licenciaturas em Letras – Língua Portuguesa, para os professores que atuarão nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior, de acordo com os incisos I e II do Art. 4º: Art. 4º A formação de docentes para o ensino de Libras nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior deve ser realizada em nível superior, em curso de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa como segunda língua. Art. 5º A formação de docentes para o ensino de Libras na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental deve ser realizada em curso de Pedagogia ou curso normal superior, em que Libras e Língua Portuguesa escrita tenham constituído línguas de instrução, viabilizando a formação bilíngue (BRASIL, 2005, p. 4). O documento estabelece um diálogo no interior de seu próprio texto, de forma a assegurar o direito dos estudantes Surdos a uma educação que reconheça a Libras como a L1 dos estudantes e a Língua Portuguesa escrita como L2 (LODI, 2013). De acordo com Vieira-Machado (2016), o curso de licenciatura Letras Libras/Língua Portuguesa também representou a formação específica em nível superior do então professor especialista em deficiência auditiva, que passou a ser substituído pelo professor de Libras. No entanto, como analisa Quadros (2006a), para cumprir a decisão legal da inserção da disciplina de Libras nos cursos de graduação no início de sua vigência, seriam necessários docentes qualificados para o seu ensino, o que não havia na época. Para atender à demanda imediata por essas formações, o próprio Decreto estabeleceu um período provisório de dez anos, no qual os profissionais sem a devida formação poderiam ser admitidos para o ensino de Libras mediante a certificação obtida por meio de exame de proficiência em Libras, promovido pelo MEC. Coube ao MEC, também, a função de promover programas específicos para criação de cursos de graduação para formação de professores Surdos e não surdos habilitados para o ensino da Língua de Sinais (BRASIL, 2005). Em resposta a esta determinação, é possível observar na proposição do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência - Programa Viver sem Limite, oficializado por intermédio do Decreto nº 7.612 (BRASIL, 2011b) que, entre suas metas para o período de 2011 a 2014, previa-se a ampliação da Educação Bilíngue no país por meio 62 da criação de vinte e sete cursos de Letras/Libras, tanto de licenciatura como bacharelado, e doze cursos de Pedagogia na perspectiva bilíngue (BRASIL, 2013a). O primeiro curso de licenciatura Letras/Libras, iniciou-se no Brasil em 2006, logo após a publicação do Decreto nº 5.626/2005, sendo oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no sistema de polos de EaD espalhados em oito estados brasileiros: Amazonas, Ceará, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e no Distrito Federal, representando as cinco regiões do país (QUADROS; STUMPF, 2009). Como relatam as autoras, o público-alvo desse curso eram os Surdos e, por isso, ele foi planejado juntamente com profissionais Surdos de designer instrucional da UFSC e com outros profissionais, de forma a maximizar a valorização das experiências visuais e na Língua de Sinais, ao ponto de ser chamado de “curso surdo” (QUADROS; STUMPF, 2009, p. 170). Essas professoras do curso explicam ainda que os fóruns e e-mails trocados entre os estudantes, tutores e professores, utilizavam a Língua Portuguesa como segunda língua, conforme o conceito de Educação Bilíngue e, por isso, não havia a preocupação de correção formal. Em 2008, foi incluída a habilitação de bacharel em tradução e interpretação de Língua de Sinais nessa mesma instituição e, um ano depois, teve início o curso presencial de Letras/Libras (UFSC, 2011). De acordo com um levantamento realizado no sistema de cadastro de instituições e cursos de educação superior e-MEC21, até 2020, data limite do recorte temporal estabelecida para esta busca, foram identificados 60 cursos de licenciatura com capacitação em Libras, sob diferentes nomenclaturas, além de um curso de Pedagogia Bilíngue. O Quadro 3 a seguir, traz os referidos cursos, oferecidos tanto na modalidade presencial quanto a distância. Quadro 3 - Cursos de licenciatura com capacitação em Libras Cursos de licenciatura Quantidade Letras/Libras 38 Letras/ Língua Portuguesa com domínio em Libras 01 Letras/ Língua Portuguesa 01 Letras/ Língua Portuguesa e Libras 16 Letras/Libras/ Língua Portuguesa 02 Letras/Libras/ Língua Portuguesa 01 Letras/Libras/ Língua estrangeira 01 Pedagogia Bilíngue 01 21 Cadastro nacional de cursos e instituições de educação superior. É a base de dados oficial dos cursos e Instituições de Educação Superior - IES, independentemente do sistema de ensino. Disponível em: http://emec.mec.gov.br/. Acesso em 13 fev. 2020. http://emec.mec.gov.br/ 63 Total de Cursos 61 Fonte: Sistema e-MEC, 2020. A representação do quantitativo de cursos compreende a contagem de instituições que os oferecem, sem distinção dos campi e polos de atuação. Se contabilizados todos esses locais, o número total de cursos oferecidos, de acordo com a consulta feita em fevereiro de 2020, é de 1.180 (BRASIL, 2020). No entanto, o saldo da oferta de cursos encontrados para a educação infantil e anos iniciaisdo ensino fundamental, que devem ser formados a partir de cursos bilíngues de Pedagogia, não foi positivo se comparado à meta do Programa Viver sem Limite, constituindo- se como segmento mais fragilizado na formação de professores bilíngues. Sendo a meta do referido programa criar 12 cursos de Pedagogia Bilíngue para o período de 2011 a 2014, não foi localizado nenhum curso aberto nesse intervalo, posto que o primeiro, ofertado pelo Instituto Federal de Goiás (IFG), teve início em 2015. A diferença no quantitativo de cursos de formação de professores que atuarão nas séries iniciais e nos anos finais do ensino fundamental, médio e superior, demonstra que há menor investimento no curso de Pedagogia Bilíngue, o que acarreta grandes perdas às crianças Surdas, já que sem a presença de profissionais bilíngues neste período, elas estão sendo privadas da possibilidade de apropriação da Libras como primeira língua, o que já é uma marca de toda a história da educação de Surdos no Brasil (LODI; LACERDA, 2015). Como mostram Lodi e Lacerda (2015), a formação que tem predominado para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental é aquela realizada por meio de cursos de extensão ou de especialização em Libras de curta duração, oferecidos por instituições de educação superior, além daqueles oferecidos por organizações da sociedade civil. O Decreto nº 5.626/2005 também mostra dois profissionais que, apesar de já existirem na sociedade, não tinham visibilidade: o intérprete e o instrutor de Libras, fazendo referência à formação de ambos. Para o tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa, a formação deve ser feita por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras – Língua Portuguesa, mas também permite que ocorra em cursos de educação profissional, de extensão universitária ou ainda em cursos de formação continuada promovidos por instituições de ensino superior e instituições credenciadas por secretarias de educação (BRASIL, 2005). O instrutor 64 de Libras, por sua vez, deve ter sua formação em cursos de educação profissional ou de formação continuada, promovidos por instituições de ensino superior ou instituições credenciadas por secretarias de educação (BRASIL, 2005). Destaca-se, aqui, que a função do intérprete e do tradutor no contexto de educação de Surdos corresponde a escolas ou salas inclusivas, onde este profissional será o mediador entre estudantes e professor. Já na proposta de Educação Bilíngue de Surdos, é necessário que todos os professores tenham proficiência em Libras e Língua Portuguesa escrita, não sendo necessária a interpretação e tradução das aulas. No capítulo VI do Decreto, que trata “Da garantia do direito à educação das pessoas Surdas ou com deficiência auditiva”, Nascimento e Costa (2014), evidenciam que seu inciso I, traz uma ambiguidade geradora de uma confusão conceitual na percepção do que vem a ser uma escola bilíngue e uma sala de aula bilíngue, já que não há clareza no significado sobre os termos para a grande maioria das pessoas, que consideram escola bilíngue como aquela em que se ensina outra língua estrangeira, ou no caso de Surdos, uma escola simplesmente aberta a Surdos e não surdos. Alerta-se aqui, portanto, que educação e escola bilíngue de Surdos trata de um posicionamento político-pedagógico que ofereça instrução em Libras e em Língua Portuguesa escrita, contemplando o planejamento, a organização pedagógica e de currículo e as metodologias de avaliação. Esta definição de bilíngue aplica-se também ao curso de Pedagogia Bilíngue, desenvolvido para formar profissionais para a educação da população escolar Surda (MACHADO; TEIXEIRA; GALASSO, 2017). Ainda citando o Decreto nº 5.626/2005, no Artigo 22, há novamente referência a professores bilíngues, o que reforça a importância da formação adequada para este profissional para a escolarização bilíngue de Surdos: Art. 22. As instituições federais de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva, por meio da organização de: I - escolas e classes de Educação Bilíngue, abertas a alunos surdos e ouvintes, com professores bilíngues, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental; II - escolas bilíngues ou escolas comuns da rede regular de ensino, abertas a alunos surdos e ouvintes, para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio ou educação profissional, com docentes das diferentes áreas do conhecimento, cientes da singularidade linguística dos alunos surdos, bem como com a presença de tradutores e intérpretes de Libras - Língua Portuguesa (grifo nosso) (BRASIL, 2005, p. 8). 65 O Parágrafo 1º desse Artigo define que as escolas ou classes de Educação Bilíngue são aquelas em que a Libras e a modalidade escrita da Língua Portuguesa são línguas de instrução utilizadas no processo educativo (BRASIL, 2005, grifo nosso). Referindo-se à definição de língua de instrução dos Surdos, Lodi e Lacerda (2009), explicam que esta é a língua de constituição desses sujeitos e, por isso, deve ser desenvolvida desde os anos iniciais da escolarização. Há de se notar que ambos os documentos, a Lei nº 10.436/2002 e o Decreto nº 5.626/2005, norteiam alguns caminhos para o campo de atuação educacional bilíngue de Surdos, no entanto, conforme evidencia Bueno (2020) em sua dissertação de mestrado, a criação de tais normativos legais não cumpre de forma efetiva o papel para o qual foram designados, pois há omissões que causam dubiedade para atender às especificidades da educação dos Surdos, já que há no Brasil, segundo a autora, duas realidades na tentativa de cumprir tais Leis: as escolas inclusivas e as bilíngues. Em 2008, foi criada pelo MEC a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, considerada como parte de um momento histórico que aproxima as iniciativas e as diretrizes brasileiras de proposições internacionais, ressignificando o conceito de deficiência, através da perspectiva social de seu público-alvo e também indica um novo direcionamento para a garantia do direito à educação (BAPTISTA, 2019). Essa Política de Inclusão teve como objetivo assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino. Propunha também a transversalidade da modalidade de Educação Especial, desde a educação infantil até a educação superior, a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e formação de professores para tal. Atestava a participação da família e da comunidade, a acessibilidade arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e na informação e a articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008a). O AEE, instituído pelas diretrizes operacionais da Educação Especial, regulamentado pelo Decreto nº 6.571, de 18 de setembro de 2008 e revogado pelo Decreto nº 7.611 de 17 de novembro de 2011, é, de acordo com a Secretaria de Educação Especial (SEE/MEC), um serviço da Educação Especial que identifica, elabora, e organiza recursos pedagógicos e de acessibilidade, a fim de eliminar as barreiras físicas, de comunicação, informação e tecnologia, 66 para a “plena22” participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas (BRASIL, 2011). O atendimento oferecido pelo AEE nas salas de recursos multifuncionais deve ser complementar à escolarização dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, ou suplementar aos alunos com altas habilidades ou superdotação, e não pode caracterizar-se como um espaço de reforço escolar. Esta Política de Inclusão garante ainda que os profissionaisque atuam no AEE terão formação continuada para o trabalho com a demanda desse serviço, inclusive para o desenvolvimento da Educação Bilíngue para estudantes Surdos ou com deficiência auditiva e do ensino do Braille23 para estudantes cegos ou com baixa visão (BRASIL, 2011). De acordo com a Resolução CNE/CEB 02/2001, o professor que atua no AEE deve possuir formação do professor especializado, comprovada por cursos de licenciatura em Educação Especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para a educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental; ou mediante complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da Educação Especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas de conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio (BRASIL, 2001b). A formação desse profissional é, portanto, mais generalista para o público-alvo da Educação Especial, o que significa que o mesmo pode não possuir a formação necessária para docência de Libras, exceto aqueles que apresentem uma dupla qualificação, ou seja, em Educação Especial e na docência de Libras. Nesse contexto, destaca-se a educação de Surdos que, apesar de ser compreendida por muitos como responsabilidade da Educação Especial ou Inclusiva, é especial não no sentido de auxílio, e sim pela diferença linguística e sociocultural existente entre os não surdos e Surdos que constituem uma minoria linguística e cultural (SKLIAR, 1999). Assim, os movimentos sociais que lutam pelos direitos da pessoa Surda, reivindicam a escolarização desse público, de acordo com o que acontece com outras minorias linguísticas, como no caso da educação indígena, quilombola e de imigrantes. Esse entendimento foi 22 Utilização das aspas porque sabe-se que, apesar da legislação considerar ser possível incluir plenamente as PcD, essa máxima não é atingida de fato. 23 Sistema de escrita tátil com pontos em relevo, utilizado por pessoas privadas da visão, criado pelo francês Louis Braille em 1825. 67 permitido graças ao deslocamento da visão clínico-terapêutica da surdez como deficiência, para a perspectiva socioantropológica de identidade e diferença (SKLIAR, 2016; SILVA, OLIVEIRA, 2016). Sob tal perspectiva, as crianças Surdas devem ser alfabetizadas em escolas ou classes bilíngues e não em escolas regulares com auxílio do AEE. Na análise de Thoma (2016), pesquisadora de políticas educacionais e linguísticas para Surdos, o AEE foi instituído com base no entendimento da surdez como uma deficiência sensorial e, por esse motivo, a criança Surda deveria ser inserida na escola comum, através da Educação Inclusiva, tendo o TILS presente em sala de aula e atendimento no contraturno escolar pelo AEE. Nessa concepção, a Língua de Sinais é um recurso de acessibilidade e não a língua de instrução desse estudante. Apesar da necessidade de ruptura da educação de Surdos com a Educação Especial, para que se possa ter uma formação de professores adequada ao público Surdo, conforme defendido por parte dos estudiosos e pesquisadores da área, é válido pontuar que a Educação Especial tem avançado nos últimos anos em direção à substituição da conceituação orgânica, marcada por impedimentos corporais e cognitivos, para novas perspectivas teóricas e políticas (KUMADA; PRIETO, 2019). Esse novo olhar para a Educação Especial é evidenciado na Convenção Internacional sobre os Direitos das PcD, uma legislação internacional sobre direitos humanos, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 6.949 de 25 de agosto de 2009 (BRASIL, 2009e). Ela marca o milênio por constituir-se como o primeiro instrumento de direitos humanos a entender como o discurso dos direitos das PcD tem sido alterado, já que abandona a definição biológica da deficiência para, em seu lugar, registrar a compreensão de que essa condição decorre da interação entre os impedimentos do sujeito e as barreiras atitudinais e ambientais. Tais elementos compõem a concepção social da PcD, que deixa de ser considerada deficiente, já que este termo circunscreve a deficiência exclusivamente no sujeito como um aspecto individual da pessoa deficiente (DHANDA, 2008). Como a Política de Inclusão considera os estudantes Surdos como parte da população com deficiência, que devem ser matriculados, preferencialmente, na rede regular de ensino, independentemente de suas condições, a Educação Bilíngue para Surdos em suas especificidades linguístico-culturais não é contemplada. Todavia esse modelo de ensino não proporciona um ambiente linguístico favorável aos alunos Surdos, pois aí não há uma comunidade de sinalizantes, com pares Surdos e professores 68 bilíngues, que possibilitem a construção de uma identidade Surda como minoria linguística e cultural. Essas lacunas da Educação Bilíngue e a consequente formação de professores para nela atuarem instigaram discussões e reivindicações do movimento Surdo24 em prol de um espaço de discussão junto ao MEC sobre o assunto e, a partir desta percepção e demanda, foi criado um GT designado pelas Portarias nº 1.060/2013 e nº 91/2013 (BRASIL, 2013b, 2013c) do MEC/Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI25). O objetivo desse GT foi elaborar subsídios para a Política Nacional de Educação Bilíngue - Libras e Língua Portuguesa como segunda língua, com orientações à formação inicial e continuada de professores para o ensino dessas duas línguas, e metas operacionais para nortear a implementação da Educação Bilíngue Libras e Língua Portuguesa (BRASIL, 2014b). O GT foi composto por vários pesquisadores e colaboradores e, ao afirmar que a formação de professores de Libras, de Língua Portuguesa como L2 e de tradutores e intérpretes é fundamental para formar profissionais para atuarem na educação básica, propôs que essas formações deveriam ser garantidas em nível superior (licenciatura e bacharelado) para profissionais que ainda irão atuar nessa área. Para os professores que já estivessem atuando na educação básica e superior, deveria ser realizada formação continuada (BRASIL, 2014b). O referido Grupo sugeriu também que os cursos de graduação envolvessem a licenciatura de Pedagogia Bilíngue para o professor bilíngue que irá atuar na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental. Para os professores de Libras que irão atuar no ensino da Libras na educação básica e nível médio, recomendou a licenciatura Letras/Libras e para tradutores e intérpretes de Libras e Língua Portuguesa, indicou o curso de bacharelado. O curso de Língua Portuguesa como L2, ainda de acordo com este Grupo, deveria ser oferecido para formar os professores que fossem atuar tanto na educação básica como no nível superior (BRASIL, 2014b). Nessa proposta educacional, a Libras integra [...] “as línguas envolvidas em seu currículo e não faz parte do atendimento educacional especializado, ocorrendo em sua maioria 24 Os movimentos Surdos podem ser entendidos como movimentos sociais articulados a partir de aspirações, reivindicações e lutas das pessoas Surdas no sentido do reconhecimento de sua língua e de sua Cultura (KLEIN; SANTOS, 2015). 25 A SECADI, foi criada em 2004 com ações voltadas à valorização das diferenças e da diversidade sociocultural, à promoção da Educação Inclusiva, dos direitos humanos e da sustentabilidade socioambiental. Foi extinta em 2019, por meio do Decreto nº 9.465, de 2 de janeiro de 2019. 69 em escola para Surdos” (BRASIL, 2014b, p. 4). A educação básica, nessa perspectiva bilíngue, deve ser garantida de modo análogo às crianças não surdas e falantes da Língua Portuguesa, independentemente de onde for desenvolvida, e deve ocorrer em escolas ou classes de instrução bilíngue. Também em 2014, foi aprovado o PNE 2014, através da Lei nº 13.005/2014, com diretrizes, metas etwo legal norms that guide this educational model, Decree nº 5262/2005 and the National Policy of Special Education in the Inclusive Perspective of 2008. For this purpose, this study was guided for the following question: why does the initial training of bilingual teachers meet in a limited way to the specificities of Bilingual Education of the Deaf, as it is proposed from the perspective of deaf education in these legal norms? The significance of this study is related to the constant debate about the teacher training process, to the expressive contingent of deaf people in the country who need to have their rights guaranteed by public policies, and the growing interest in questions related to deaf education. The theoretical foundation on the policies of initial teacher training, it was based on the considerations about overlap, discontinuity, and lack of dialogue between governments, discussed by Gatti and Barreto (2009), Gatti, Barreto and André (2011), Gatti et al (2019), Saviani (2008a, 2008c, 2009, 2011), Libâneo (2009 and 2011), Brzezinski (2007, 2014, 2018), among others. As a theoretical framework on the differentiation of deafness from the medical perspective, which characterizes the Deaf as a Person with Disabilities and target of Special Education, from the historical, the linguistic and the cultural view, which understands it as a difference and, for this reason, needs a modality bilingual educational system, the guidelines used was the precepts of Quadros (1997, 2014), Vieira-Machado (2016), Stumpf (2010), Strobel (2009), Lacerda (1996, 1998, 2000), Skliar (2016), among others. This investigation has a descriptive character, with a qualitative approach. It is based on the triangulation of the sources for data collection and content analysis proposed by Bardin (2016) for the exploration of the results. Data generation was performed in 2020 and consists of semi-structured interview with three deaf teachers and three non- deaf teachers from a bilingual school in the Federal District. Researchers in teaching education training of Deaf answered questionaries and participated in interviews. Two researchers answered questionaries, and three researchers participated in interviews, totaling eleven respondents. In addition to the interviews and questionaries, legal documents were analyzed and triangulated with the data. The results obtained by the conclusions and interpretations showed that, despite the advances and achievements brought by the recognition and regulation of Libras as the language of the Brazilian Deaf people and the institution of Bilingual Education of the Deaf, through the amendment of the LDB of 1996, by Law nº 14.191 of August 3, 2021, published at the end of this research, it is still necessary direction and clarification to the bilingual teaching education training, such as the definition and specification of initial and continuing training courses, institution of bilingual teaching material and assessment methodologies for bilingual Deaf students. Keywords: Initial training of bilingual teachers. Deaf education. Bilingualism. QR code do resumo em Libras QR code das palavras-chave em Libras LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Marcos legais das políticas de formação de professores da educação básica ........... 32 Quadro 2 - Marcos legais das políticas públicas brasileiras para a formação inicial de professores para a Educação Especial e Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos ......... 52 Quadro 3 - Cursos de licenciatura com capacitação em Libras ................................................... 62 Quadro 4 - Perfil pessoal, acadêmico e profissional dos participantes dos pré-testes................. 91 Quadro 5 - Códigos utilizados na transcrição ............................................................................. 98 Quadro 6 - Perfil das professoras entrevistadas ........................................................................ 104 Quadro 7 - Perfil das pesquisadoras entrevistadas e das respondentes dos questionários ........ 102 Quadro 8 - Categoria, subcategorias, questões de pesquisa e instrumentos de geração dos dados utilizados para responder ao primeiro objetivo específico. ....................................................... 106 Quadro 9 - Respostas obtidas através das entrevistas aplicadas às professoras ........................ 128 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Objetivos globais para o Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 ................. 31 Figura 2 - Mapa de calor em formato CSV dos descritores education e deaf education ............ 77 Figura 3 - Metodologias de educação de Surdos ......................................................................... 78 Figura 4 - Objetos de estudo da pesquisa .................................................................................... 94 Figura 5 - Etapas da análise de conteúdo utilizadas no estudo ................................................... 99 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AEE - Atendimento Educacional Especializado ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva ANFOPE - Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação ANPAE - Associação Nacional de Política e Administração da Educação ANPEd - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais ASL - American Sign Language (Língua de Sinais Americana) BDTD - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações BNC- Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da educação básica CAEE - Certificado de Apresentação de Apreciação Ética CAPES - Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEB - Câmara de Educação Básica CEDES - Centro de Estudos Educação e Sociedade CEP - Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos CFE - Conselho Federal de Educação CNE - Conselho Nacional de Educação CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação CODA - Children Of Deaf Adults (Filhos de Adultos Surdos) COINES - Congresso Internacional do Instituto Nacional de Educação de Surdos CONADE - Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência ConBraSD - Conselho Brasileiro para Superdotação CONSED - Conselho Nacional de Secretários de Educação CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência CSV - Comma Separated Values EaD - Educação a Distância EAPE - Escola de Aperfeiçoamento Subsecretaria dos Profissionais da Educação da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal EBT - Escola Bilíngue de Libras e Língua Portuguesa escrito de Taguatinga DF - Distrito Federal DCN - Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior DIPEBS - Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos FBASD - Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down FENEIS- Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos FNEP - Fundo Nacional de Educação Empresarial FORUNDIR - Fórum de Diretores de Faculdades de Educação FUNDEB - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da educação básica e de Valorização dos Profissionais da Educação FUNDEF - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério GT - Grupo de Trabalho IBC - Instituto Benjamin Constant IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e prestação de Serviços de transporte interestadual e intermunicipal e comunicação IES - Instituição de Ensino Superior IFB - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília IFG - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisasestratégias para a educação básica e superior, a serem alcançadas no decênio 2014/2024 (BRASIL, 2014a). No concernente à formação inicial de professores, assegurou em sua Meta 15 a formação em nível superior para todos, obtida em cursos de licenciatura na área em que atuam, no prazo de um ano de vigência do Plano. Garantiu investimento em formação continuada, considerando as necessidades, demandas e contextos dos sistemas de ensino e assegurou formação na pós-graduação a 50% dos professores (meta 16). Nele, no entanto, nada consta sobre uma formação específica aos professores de Surdos. Há uma estratégia, a 4.13, que discorre sobre a equipe profissional que irá atender ao público-alvo da Educação Especial e Inclusiva, garantindo professores do AEE, profissionais de apoio ou auxiliares especializados, TILS, guias-intérpretes para Surdoscegos, professores de Libras, preferencialmente Surdos e professores bilíngues (BRASIL, 2014a), mas não especifica onde a formação desses profissionais será feita. Prevê-se, ainda na estratégia 4.16, o incentivo à inclusão, nos cursos de licenciatura e nos demais cursos de formação para profissionais da educação, dos referenciais teóricos, das teorias de aprendizagem e dos processos de ensino-aprendizagem para o AEE dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. Em relação à educação de Surdos, há uma estratégia específica para ela, a 4.7, que garante ao estudante Surdo de zero a dezessete anos a Educação Bilíngue em Libras como primeira língua e Língua Portuguesa como a segunda língua na modalidade escrita, em escolas bilíngues ou inclusivas (BRASIL, 2014a). Tal estratégia foi inserida no PNE 2014 após intensa mobilização do movimento Surdo26 em defesa das escolas bilíngues para Surdos, em decorrência do anúncio de possível fechamento da escola centenária do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), pelo MEC, em 2011 (CAMPELLO; REZENDE, 2014). Após questionamento sobre a importância das escolas 70 bilíngues de Surdos em relação à valorização da Cultura e identidade Surda, o MEC se posicionou: [...] do ponto de vista da educação inclusiva, o MEC não acredita que a condição sensorial institua uma cultura. As pessoas surdas estão na comunidade, na sociedade e compõem a cultura brasileira. Nós entendemos que não existe cultura surda e que esse é um princípio segregacionista. As pessoas não podem ser agrupadas nas escolas de surdos porque são surdas. Elas são diversas. Precisamos valorizar a diversidade humana (FENEIS, 2011, p. 23). Apesar dessa posição, que também constitui os princípios da Política de Inclusão, vários pesquisadores discutem as questões que permeiam a escolarização de Surdos e indicam o bilinguismo como a melhor opção: A educação inclusiva tem por objetivo incentivar a diversidade e não a educação da alteridade. Tem-se uma pedagogia que favorece a integração de todos em um único sistema de ensino. A inclusão veio exigir dos surdos a participação na experiência ouvinte, colocando-os de volta ao colonialismo e os limitando de mostrar a diferença e serem eles mesmos, tendo assim seus valores linguísticos e culturais oprimidos (SANTOS; CAMPOS, 2013, p. 20). [...] para que as crianças surdas tenham uma efetiva aquisição da Libras e um desenvolvimento linguístico e cognitivo que lhes possibilite uma escolarização de qualidade, a Educação Bilíngue para surdos em turmas específicas ou em escolas de surdos, na educação infantil e anos iniciais, segundo muitas pesquisas apontam, parece ser mais indicada (THOMA, 2011, p.139). Ainda assim, o entendimento sobre a Educação Bilíngue para os Surdos, continua equivocado, conforme revela a pesquisa de Albres (2017) sobre “Os diferentes caminhos para uma Educação Bilíngue (Libras/Língua Portuguesa) na região Sul do Brasil”. A autora mostra o impasse estabelecido pelas escolhas do governo estadual e municipal nessa região do país, para a educação efetivamente bilíngue de Surdos, devido ao entendimento da proposta da política de inclusão referendada pela Política de 2008. Ela também reforça que há pouco investimento em escolas e classes bilíngues e a falta de orientação para a formação docente adequada é recorrente (ALBRES, 2017). Em sua dissertação de mestrado, Silva (2018) explica que o texto final do PNE 2014 para a educação de Surdos não foi publicado em consonância com o defendido pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) e pelos representantes do movimento Surdo, tendo sido incluído na meta 4, que trata da Educação Especial e Inclusiva. Os estudantes Surdos, nessa perspectiva, foram circunscritos como público da Educação Especial e Inclusiva, 71 apesar das estratégias 4.7 e 4.13 tratarem especificamente da oferta de Educação Bilíngue para este grupo, bem como da qualificação dos profissionais que com ele atuarão. De acordo com a análise da autora sobre a estratégia 4.7 do PNE 2014, há também contradições em seu texto, como a utilização das palavras “alunos (as) surdos e com deficiência auditiva” como equivalentes quando, na verdade, o termo “deficiência auditiva” por reportar- se ao discurso médico da surdez, contrasta com “surdos”, defendido pelo movimento social Surdo baseado em sua diferença sociolinguística (SILVA, 2018). Lodi e Albuquerque (2016) mostram que a indicação de “escolas e classes bilíngues ou escolas inclusivas” também gera divergência de entendimento, pois as escolas bilíngues referem-se a Libras como língua de instrução, em consonância com o Decreto nº 5.626/2005 e as escolas inclusivas remetem à Política de Inclusão que, de forma velada, conferem à Libras, um caráter instrumental, já que aceitam a circulação dessa língua com a presença de TILS em todos os níveis e etapas educacionais, sem questionar sua importância, como também de uma educação realmente construída a partir dela para os estudantes Surdos. Ainda em 2014, iniciou-se a intenção de revisão da Política de Inclusão a partir da abertura de editais para contratação de [...] consultoria especializada para o desenvolvimento de estudos subsidiários ao processo de atualização da Política Nacional de Educação Especial, considerando os referenciais políticos pedagógicos e as práticas pedagógicas desenvolvidos pelos sistemas de ensino (UNESCO, 2017, p.1) A proposta de atualização foi apresentada em reunião no dia de 16 de abril de 2018 e dispôs da participação de representantes do MEC, Conselho Nacional de Educação (CNE), CONSED, Conselho Nacional de Pessoas com Deficiência (CONADE), Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD), Conselho de Organizações das Pessoas com Deficiência (CORDE), UNDIME, Instituto Benjamin Constant (IBC), INES, Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD), Federação Nacional das APAEs, Federação Nacional das Associações Pestalozzi p. 128-13227, Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) e outros (KASSAR; REBELO; OLIVEIRA, 2019). 27 As Associações Pestalozzi são responsáveis pelo desenvolvimento de programas, projetos, serviços e ações de defesa e garantia de direitos destinados às pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, na perspectiva de sua plena inclusão social. Em 2022 contabiliza 232 Associações Pestalozzi, federações estaduais e entidades análogas. Disponível em: http://fenapestalozzi.org.br/ http://fenapestalozzi.org.br/ 72 Ainda de acordo com essas autoras, o material apresentado na reunião, através de slides, foi rapidamente compartilhado nas redes sociais, gerando grande repercussão e polêmica nos diferentes segmentos sociais pelo país, pois tinha intenção de revisão da política de formação do sistema educacional inclusivo, nos moldes em que vinha sendo construído até 2016. Enquanto algumas organizaçõesdefendiam o modelo proposto pelo MEC, outras entidades denunciavam uma tentativa do órgão de mudar a visão central da proposta, que buscava inserir alunos com deficiência em classes comuns de escolas regulares. Haveria, segundo elas, uma tentativa de retomar classes e escolas especiais. O processo também foi criticado por não promover uma participação ampla do setor. O MEC, por sua vez, defendeu ser necessário atualizá-la para adequações, de acordo com a nova legislação sobre o tema, como a Lei Brasileira de Inclusão, instituída em 2015. Em relação à Educação Bilíngue de Surdos e formação específica de professores para ela, a reivindicação da Comunidade Surda e pesquisadores da área consistiu na legitimação das escolas bilíngues para este público. Segundo o então diretor de políticas educacionais e linguísticas da FENEIS, André Reichert (2019), em reunião com representantes dessa federação e o ministro da Educação, Rossieli Soares, em abril de 2019, na sede do MEC, em Brasília, Se todas as pessoas que são ouvintes podem acessar a educação na sua língua, da mesma forma, nós gostaríamos que a Comunidade Surda tivesse a opção de não somente a inclusão, mas que elas pudessem ser educadas na sua língua de instrução (BRASIL, 2019). Apesar da divergência de opinião entre os setores envolvidos, a nova política de inclusão foi estabelecida no dia 30 de setembro de 2020, a partir do Decreto nº 10.502, que institui a Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida. Logo após sua publicação, grupos de estudo e pesquisa das instituições federais de ensino, comunidade científica vinculada à Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), ao Comitê Fiocruz pela Acessibilidade e Inclusão da PcD, ao Observatório de Educação Especial e Inclusão Educacional (ObEE) e ao AcolheDown, dentre outras organizações que atuam pela inclusão das PcD, colocaram-se contra a nova política e produziram um manifesto com posicionamento contrário ao documento, pedindo sua imediata revogação (ABRASCO, 2020; PEIXE, 2020; BRASA, 2020). 73 De acordo com essas entidades, o Decreto nº 10.502/2020 fere a Constituição Brasileira de 1988, a Convenção Internacional sobre os Direitos das PcD de 2009 e a Lei Brasileira de Inclusão de 2015, pois viola um direito humano da PcD assegurado constitucionalmente, ao viabilizar e legitimar formatos educacionais na contramão das práticas inclusivas, corroborando para a segregação de tais sujeitos. Este argumento se dá fundamentado no Art. 1º, que diferencia escolas e classes especializadas de escolas regulares inclusivas e, dessa forma, possibilita a discriminação de “pessoas especiais” em “ambientes especializados” (BRASIL, 2020). No que se refere à educação de Surdos, há o reconhecimento e diferenciação de escolas e Educação Bilíngue de Surdos, apesar de ainda considerá-los público-alvo da Educação Especial por terem, de acordo com o documento, uma deficiência sensorial. Conforme o Art. 2º do Capítulo I, a Educação Bilíngue de Surdos é a modalidade de educação escolar que promove a especificidade linguística e cultural dos educandos surdos, deficientes auditivos e surdocegos que optam pelo uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras, por meio de recursos e de serviços educacionais especializados, disponíveis em escolas bilíngues de surdos e em classes bilíngues de surdos nas escolas regulares inclusivas, a partir da adoção da Libras como primeira língua e como língua de instrução, comunicação, interação e ensino, e da Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (BRASIL, 2020). Esse documento oficial considera ainda em seu Art. 2º, as escolas bilíngues de Surdos como instituições de ensino da rede regular nas quais a comunicação, a instrução, a interação e o ensino são realizados em Libras como primeira língua e em Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda. Refere-se às classes bilíngues de Surdos como espaços de adaptação para estudantes Surdos, com deficiência auditiva e surdocegueira, que optam pelo uso da Libras e, por este motivo, precisam ser organizadas em escolas regulares inclusivas, onde a Libras é reconhecida como primeira língua e utilizada como língua de comunicação, interação, instrução e ensino, em todo o processo educativo, e a Língua Portuguesa na modalidade escrita é ensinada como segunda língua (BRASIL, 2020). Tratando-se da formação de professores para esta modalidade de educação, há a proposição no inciso IX do Art. 3º que trata “Dos princípios e objetivos”, de “qualificação para professores e demais profissionais da educação” (BRASIL, 2020). Mas, assim como no PNE 2014, não há especificação de que forma será feita. 74 Há apenas no capítulo VI, Art. 8º, que trata “Dos Atores”, a identificação dos profissionais que devem atuar colaborativamente nos serviços da Educação Especial, que são os guias-intérpretes, professores bilíngues em Libras e Língua Portuguesa (BRASIL, 2020). Em seu Art. 4º, que traz os objetivos dessa Política, o inciso V visa assegurar aos profissionais da educação a formação profissional de orientação equitativa, inclusiva e com aprendizado ao longo da vida, com vistas à atuação efetiva em espaços comuns ou especializados (BRASIL, 2020). No entanto, não há nenhum direcionamento sobre a maneira como esta demanda será executada. Depreende-se, portanto, que a Educação Bilíngue de Surdos foi parcialmente instituída em concordância com os moldes almejados pela Comunidade Surda, já que o sujeito Surdo continua público-alvo da Educação Especial por ser considerado uma PcD sensorial. Os embates em relação à Educação Inclusiva culminaram com a suspensão do Decreto nº 10.502/2020 pelo Supremo Tribunal Federal, mas a decisão liminar foi proferida em ação direta de inconstitucionalidade e ainda será submetida a referendo do Plenário. O primeiro passo legal para a modificação do entendimento sobre a surdez e a pessoa Surda, foi dado por intermédio da Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021, que altera a LDB de 1996 para dispor sobre a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos dissociada da Educação Inclusiva pela primeira vez. Ela garante educação escolar bilíngue e intercultural em Libras, como L1, e em Língua Portuguesa escrita, como L2, aos educandos Surdos, Surdocegos, com deficiência auditiva sinalizantes, Surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas, optantes pela modalidade de Educação Bilíngue, a ser iniciada na educação infantil, estendendo-se ao longo da vida escolar do estudante (BRASIL, 2021a). Esta Lei assegura, também, ao público dessa modalidade de educação, “materiais didáticos e professores bilíngues com formação e especialização adequadas, em nível superior” (BRASIL, 2021a, grifo nosso). Para os processos de contratação e de avaliação periódica desses profissionais, é determinado que as entidades representativas das pessoas Surdas serão ouvidas (BRASIL, 2021a). Entretanto, não há especificação de quais cursos de formação e especialização são os adequados ou de que forma e quem fará a avaliação periódica dos professores. É garantido inclusive que a União apoiará técnica e financeiramente o desenvolvimento desses programas que devem ser planejados com participação das Comunidades Surdas, de 75 instituições de ensino superior e de entidades representativas das pessoas Surdas. Ainda, de acordo com a Lei nº 14.191/2021, os programas devem constar no PNE, com os objetivos de I - Fortalecer as práticas socioculturais dos surdos e a Língua Brasileira de Sinais; II - Manter programas de formação de pessoal especializado, destinados à Educação Bilíngue escolar dos surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas; III - Desenvolvercurrículos, métodos, formação e programas específicos, neles incluídos os conteúdos culturais correspondentes aos surdos; IV- Elaborar e publicar sistematicamente material didático bilíngue, específico e diferenciado (BRASIL, 2021a). Sendo assim, constata-se o mesmo que Vânia Rocha, TILS da DIPEBS, em sua palestra sobre o papel das diretrizes nacionais para a Educação Bilíngue de Surdos, proferida no Congresso Internacional do INES (COINES)28 em dezembro de 2021: cabe a nós, Surdos e Comunidade Surda e acadêmica, acompanhar, cobrar e fiscalizar o cumprimento da iniciativa de Educação Bilíngue de Surdos, proposta na Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021. Infere-se, portanto, a partir da exposição e exame de algumas políticas públicas para a Educação Especial e Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos, apresentadas neste tópico, que há uma amplitude de documentos internacionais e nacionais que versam sobre essas modalidades de educação e que influenciaram a criação das políticas públicas voltadas para a educação no Brasil. No que concerne à Educação Bilíngue de Surdos e à formação inicial de professores para atuação com esse público, nota-se que apesar da Política de Inclusão de 2008 trazer referência à Lei nº 10.436/2002 e ao Decreto nº 5.626/2005, no que tange ao reconhecimento legal da Libras, a inclusão desta língua aos currículos dos cursos de formação de professores e ao ensino da Língua Portuguesa na modalidade escrita como L2, tal proposta não corresponde aos anseios de Educação Bilíngue reivindicada pela Comunidade Surda. Este fato somado a outros elementos constitutivos da Educação Especial e da PcD, reverberaram na nova Política de Inclusão, lançada em 30 de setembro de 2020 e recebida com protesto por várias frentes da Educação Inclusiva e de seu público alvo. Tal medida, apesar de 28 O COINES é um evento de grande representatividade na Comunidade Surda, pois tem o objetivo de compartilhar reflexões e práticas que envolvem pessoas Surdas, suas formas de comunicação e estilos de vida em sociedade, ao debater sobre as políticas públicas que envolvem essa parcela da população. No ano de 2021 teve como tema a “educação de Surdos como modalidade: escola, formação e currículo”. Disponível em: https://www.gov.br/INES/pt-br/ciencia-e-tecnologia/COINESINES/COINESINES-2021/COINESINES-2021- edicao-virtual. Acesso em 16 jan. 2022. https://www.gov.br/ines/pt-br/ciencia-e-tecnologia/coines/coines-2021/coines-2021-edicao-virtual https://www.gov.br/ines/pt-br/ciencia-e-tecnologia/coines/coines-2021/coines-2021-edicao-virtual 76 reconhecer a Educação Bilíngue de Surdos como modalidade de educação escolar que promove a especificidade linguística e cultural dos estudantes Surdos, deficientes auditivos e Surdocegos que optam pelo uso da Libras, ainda a circunscrevia na Educação Especial. Por ser deveras incompleta nesse documento e, foco de intenso e constante debate entre a Comunidade Surda, a proposta de Educação Bilíngue foi finalmente validada como uma modalidade de educação escolar independente da Educação Especial no ano de 2021. Isto revela a potência do movimento Surdo e a constatação do poder público brasileiro sobre a importância desse desmembramento. Por acreditar que, para que haja a definição e efetivação de uma proposta de formação inicial para professores condizente com as especificidades da Educação Bilíngue, é necessário seguir algumas etapas, sendo a primeira delas a base legal, espera-se que novas medidas sejam tomadas, a exemplo da definição das diretrizes escolares. Em conclusão a esta seção, infere-se que a formação inicial de professores para atuação junto aos estudantes Surdos não foi corretamente definida devido à imprecisão de seu entendimento pelos normativos legais apresentados, e que sua regulamentação se configurou em um embate de natureza ideológica entre os atores envolvidos no processo. Constata-se também que as políticas públicas de educação, apesar de numerosas, não são implementadas em sua totalidade, haja vista suas incompletudes e possibilidades de interpretação. Neste sentido, ainda há um longo processo a ser definido e efetivado para que a Educação Bilíngue seja uma realidade em todo território nacional. Para aprofundamento no campo dos estudos sobre a educação de Surdos, serão apresentados a seguir, seus aspectos e fases, fazendo uma contextualização histórica com esse próprio público. 2.3 BILINGUISMO PARA SURDOS: IMPORTÂNCIA E PERCURSO HISTÓRICO Este tópico versa sobre o histórico da educação de Surdos no mundo e no Brasil, até o reconhecimento do bilinguismo como forma ideal de ensino para esse público, além de analisar artigos científicos, teses e dissertações e alguns dos normativos legais brasileiros que orientam a Educação Bilíngue de Surdos e a formação inicial de professores para o ensino desse grupo linguístico. Tem o intuito também de mostrar a diferença entre Surdo e PcD auditiva à luz do campo de estudos sobre a educação dessa comunidade linguística. Como fonte de pesquisa, foi realizada uma busca bibliográfica no catálogo de teses e dissertações da CAPES e nas bases de 77 dados de revistas científicas de educação e do Elsevier Scopus no ano de 2019. Fundamentada nesta última base, procedeu-se à avaliação bibliométrica com o software VOSviewer para melhor visualização da quantidade de produção científica de artigos sobre esta temática. A Figura 2 mostra o mapa de calor dos termos de busca encontrados e representados pelo arquivo em formato CSV29. Os descritores utilizados foram “education”, com 1.985.311 trabalhos encontrados e “education” AND “deaf education”, com resultado de 2.943 artigos. Figura 2 - Mapa de calor em formato CSV dos descritores education e deaf education Fonte: Recorte da autora extraído do software VOSviewer, dezembro 2019. Seguindo a busca nessa base, foi utilizado o descritor “bilingual deaf education”, que obteve apenas 80 artigos. Devido ao software VOSviewer só permitir a criação de mapas de calor a partir de 2 mil resultados, não foi possível gerar um novo mapa, o que comprova a importância na discussão e avanço da pesquisa sobre a Educação Bilíngue de Surdos. Destaca-se que, apesar da significância do ano de 2002 para a educação de Surdos, em função do reconhecimento da Libras como língua das pessoas Surdas brasileiras, esse ano não foi utilizado como início do recorte temporal devido ao ainda mais reduzido número de publicações sobre a temática nessa base de dados internacional. 29 Os arquivos Comma Separated Values, também conhecido como CSV, são arquivos de texto de formato regulamentado pelo RFC 4180, que faz uma ordenação de bytes ou um formato de terminador de linha, separando valores com vírgulas. Ele comumente é usado em softwares offices, tais como o Microsoft Excel e o LibreOffice. 78 É histórica a invisibilidade das pessoas Surdas e de sua língua, a de sinais, tanto no contexto social e econômico, quanto no educacional e linguístico, em todo o mundo e também no Brasil. Em nosso país, especificamente, a Língua Brasileira de Sinais só foi oficializada em 2002, pela Lei Federal nº 10.436, a partir de quando as políticas educacionais e linguísticas passaram a contemplar a Educação Bilíngue de Surdos e a formação de profissionais para atuarem nesse processo, como os professores, tradutores e intérpretes. Não obstante, essas pessoas sempre existiram e foram ao longo dos séculos excluídas do convívio social e até mesmo familiar. Por entender que é através do resgate histórico que podemos reconstruir e verificar a evolução de um povo, cujo sujeito neste estudo é o Surdo, serão apresentadas, nos parágrafos que se seguem, as transformações linguísticas, educacionais, sociais, políticas e culturais pelas quais a Comunidade Surda passou ao longo dos anos, com foco na educação que, por sua vez, foi direcionadapor diferentes metodologias e correntes filosóficas, conforme representado na Figura 3. Figura 3 - Metodologias de educação de Surdos Fonte: Elaborado pela autora, 2020. A surdez sempre foi pensada e definida historicamente por pessoas não surdas e que a rotulavam e, por vezes, ainda o fazem, de deficiência. Neste estudo, o Surdo é compreendido como parte de um grupo linguisticamente minoritário, que não percebe a surdez como alteração orgânica limitante e incapacitante, mas sim como uma diferença socioantropológica. Mesmo assim, para situar o processo histórico e cultural do povo Surdo, que foi narrado sob a perspectiva dos não surdos e pela linha do tempo europeia (STROBEL, 2008), será apresentada a linha histórica a seguir. Vale destacar que a visão eurocêntrica da História não retrata a História da humanidade de fato, mas sim a História da Europa que, por ser o continente que registrava e difundia sua História, foi inserida nos currículos escolares de muitos países. Ela é representada por Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A Idade Antiga contempla a Oralismo Comunicação Total Inclusão Bilinguismo 79 Antiguidade Oriental, com civilizações como Egito, Pérsia, fenícios e hebreus e a Antiguidade Clássica, com o desenvolvimento de Grécia e Roma (GUARINELLO, 2007). Nas sociedades da Antiguidade Clássica (4.000 a.C. - 476 d.C.), os Surdos eram considerados anormais, ineducáveis e irracionais, uma vez que para ser normal, educável e racional, era preciso ouvir e falar oralmente (MOURA, 2000; STROBEL, 2008). Na civilização grega, dentre todas as polis ou cidades-estados, duas se destacaram pela forma distinta como se organizaram sociopoliticamente: Esparta e Atenas. Os Surdos, nos dois contextos, eram considerados inválidos, pois segundo a crença da época, não poderiam se desenvolver. Por isso, nessa fase não havia preocupação com sua formação educacional (STROBEL, 2006). A sociedade ateniense era não militarista e valorizava o intelecto, as atividades culturais, filosóficas e artísticas. Os célebres filósofos dessa época, como Heródoto (484-424 a.C.), Sócrates (470/469-399 a.C.), Hipócrates (460-377 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), percebiam a surdez e os Surdos de diferentes maneiras. De acordo com Duarte et al (2013), os Surdos neste contexto foram vistos como castigados pelos deuses por causa do pecado de seus antecessores, como percebia Heródoto; mudos ou surdos-mudos que serviram de exemplo para não surdos se comunicar com mãos e outras partes do corpo, caso não tivessem voz, na percepção de Sócrates; incapazes de discutir, uma vez que para haver entendimento da palavra, era preciso o controle e mobilidade da língua, pela visão de Hipócrates pensar e, de acordo com Aristóteles, as pessoas Surdas eram impedidas de aprender, pois a audição era considerada o canal mais importante para o aprendizado. A eles cabia a morte, rejeição ou abandono nas praças públicas e nos campos (SACKS, 2005). Como analisam Lima e Rückert (2020), o termo surdo-mudo, por séculos utilizado e estigmatizado para se referir aos Surdos, tem sua origem na visão aristotélica de que todos que nasciam surdos eram também mudos. A audição, para o filósofo, era o mais importante dos sentidos, pois somente através dela era possível ter linguagem, que por sua vez concebia o pensamento e a razão, e estes possibilitavam a própria condição de humano (DUARTE et al, 2013). As linguagens gestuais representavam a obscuridade do pensamento e, por isso, os Surdos eram considerados seres sem raciocínio e incapazes de se integrar efetivamente na sociedade que ouvia e falava oralmente (MOURA, 2000). 80 Já Esparta, com fortes valores militares e supervalorização da perfeição física, classificava os sujeitos Surdos como deficientes, que não poderiam ser treinados para o serviço militar e por isso eram sacrificados (STROBEL, 2008). Na Roma antiga, por herança dos gregos, o corpo físico era venerado e crianças que nasciam com alguma imperfeição física eram sacrificadas. Como a surdez nem sempre era identificada no nascimento, o que ainda ocorre no século XXI, com o objetivo de eliminar os que nasciam surdos, o imperador Rômulo decretou por volta de 753 a.C. que, todos aqueles que atrapalhassem o desenvolvimento do Estado deveriam ser mortos até os três anos de idade. Os que sobreviviam, tornavam-se escravos, viviam isolados ou eram presos (STROBEL, 2006). Na Idade Média (século V ao século XV), por herança da concepção de Aristóteles sobre a surdez, os sujeitos Surdos continuaram a ser vistos como irracionais e desprovidos de pensamento, com o agravante da interpretação religiosa na figura da igreja católica, que acreditava que por não falarem oralmente, eram sem alma, pecadores e ainda proibidos de receber a comunhão e se casar (MOURA, LODI, HARRISON, 1997; STROBEL, 2009; SKLIAR, 2016). Strobel (2009) reforça ainda que, nessa época, existiam leis que os impediam de votar, receber heranças e gozar dos demais direitos de cidadãos, o que marca a exclusão da sociedade em que viviam. Na Idade Moderna (final do século XV ao século VXIII), por influência dos votos de silêncio praticados nos monastérios, originou-se o alfabeto manual para sinais monásticos utilizados por religiosos e aproveitados para o trabalho pedagógico com os Surdos (REILY, 2007). A autora elucida que a educação formal desses indivíduos se iniciou com o monge beneditino Pedro Ponce de León (1520-1584). Ele desenvolveu um método de ensino para filhos Surdos da aristocracia espanhola, através da datilologia, escrita e oralização, com o objetivo de serem reconhecidos como cidadãos perante a Lei e a sociedade, para assumirem seu papel de herdeiros (REILY, 2007). Após a morte de Léon, seu sucessor foi o professor Manuel Ramírez de Carrión (1579- 1652), que continuou a ensinar a Surdos da nobreza mas, como esclarece Carvalho (2007), como no caso de seu antecessor, não há registros sobre seu método de trabalho. A primeira publicação sobre educação de Surdos data de 1620; é de autoria do padre e educador Juan Pablo Bonet e chama-se: “Redução das letras e arte de ensinar a falar os mudos”. Esta obra se baseava no uso do alfabeto manual e da oralização (DUARTE et al, 2013; REILY, 2007). 81 O primeiro educador a valorizar a Língua de Sinais para o ensino de Surdos foi o abade Charles Michel de L'Épée (1712-1789) que, em 1750, comprometeu-se a dar continuidade ao ensino religioso de duas irmãs gêmeas Surdas, que não eram da aristocracia, por temor de que, sem instrução, elas morressem na ignorância (REILY, 2007). Moura, Lodi e Harrison (1997) complementam que, posteriormente, L'Épée foi o fundador da primeira escola para Surdos do mundo, o Instituto para surdos-mudos da França, conhecido como Instituto de Paris, que ofereceu, pela primeira vez na história, aulas coletivas, ao invés de individuais. As autoras, assim como Reily (2007), apontam também que o grande mérito do religioso foi reconhecer que os sinais e gestos facilitavam a aprendizagem e eram importantes para o crescimento da inteligência e memória visual. Os Surdos, nesse contexto, puderam se desenvolver e mostrar suas habilidades em diversos campos, tornando-se engenheiros, professores, filósofos, intelectuais e escritores (SACKS, 1998). Ainda assim, os métodos oralistas para a educação de Surdos tornaram-se cada vez mais expressivos nos demais países europeus, gerando divergências e um grande enfrentamento, o qual culminou com o Congresso Internacional de Educação de Surdos de Milão, na Itália, em 1880. Esse Congresso marcou o início da trajetória histórica da educação dos Surdos na Idade Contemporânea (século XIX aos dias atuais), por ter proibido as línguas de sinais, consideradas como mímica, gestos e destrutivas da capacidade de fala dos Surdos (STROBEL,2009). O evento foi conduzido por não surdos, defensores do oralismo que, através de uma votação, sem a participação de Surdos, deliberou pela imposição do método oral puro, ou oralismo, como ficou popularmente conhecido (FERNANDES; MOREIRA, 2014). O principal objetivo dessa metodologia é desenvolver a leitura labial e vocalização da fala, sem considerar se a estrutura fisiológica das pessoas Surdas comporta ou não esse tipo de sistema. O sujeito Surdo, nesse contexto, é enquadrado no modelo clínico da surdez que, por apresentar deficiência, precisa ser integrado na comunidade dos não surdos, a partir da reabilitação para o que é considerado normal, ouvir (GOLDFELD, 2002). Como explica Schelp (2008), os professores Surdos que trabalhavam com as línguas de sinais nessa época foram banidos das escolas e crianças Surdas eram proibidas de usar as mãos para se comunicar, sendo punidas caso o fizessem. Esse Congresso é o símbolo de um período em que a educação de Surdos foi oficialmente regulamentada pelos não surdos, o que, como afirma Skliar (2016), representou a legitimação oficial e não apenas o começo do oralismo. 82 Carlos Skliar, renomado teórico do bilinguismo e da diferença Surda, analisa um dos fatores históricos que contextualizou a proibição da Língua de Sinais na época: a conjuntura política da Itália, que estava em processo de unificação por um estado coeso, devido a sua emancipação em 1861. Nesse processo, era preciso uniformizar também a política e a língua, tendo em vista que a maioria da população era analfabeta ou se comunicava por dialetos. Assim, uma língua majoritária era um dos principais meios de afirmação identitária e a eliminação da Língua de Sinais das escolas contribuía para diminuir o desnível linguístico, obrigando as crianças Surdas a aprender a falar uma língua comum: o italiano (SKLIAR, 2016). Góes (1996) enfatiza que, apesar do oralismo ter a pretensão de propiciar a aquisição da linguagem oral como forma de integração, reforça a desigualdade de oportunidades de desenvolvimento linguístico e cognitivo entre Surdos e não surdos, já que exige do Surdo a aprendizagem apenas da língua oral, à qual este não pode ter acesso natural, além de reduzir as possibilidades de trocas sociais, uma vez que impede a comunicação visuoespacial. Ao longo do século XX, o oralismo foi aceito e praticado na educação dos Surdos como um método de normalização do corpo danificado, que deveria ser reabilitado através de terapias para a fala, pois só assim poderia haver desenvolvimento emocional, social e cognitivo (CAPOVILLA, 2000). A formação de professores nessa fase baseava-se na cura, nas práticas ortopédicas de “correção” da pessoa Surda para que pudesse ser incluída na escola e na sociedade. Segundo Vieira-Machado (2010, p. 49), A formação de profissionais especialistas na atuação com alunos Surdos tem neste momento, uma obsessão pela surdez, que é a materialidade dessa diferença e a busca à compreensão de sua superação e cura. Como mostram Souza, Silva e Buiatti (2015), no Brasil o MEC adotava cartilhas que propagavam métodos e técnicas da fala oral, na perspectiva clínica da surdez. Finalmente, em 1960, Willian Stokoe (1919 - 2000), um linguista americano defensor dos direitos linguísticos e educacionais das pessoas Surdas, conduziu estudos sobre a estrutura gramatical da Língua Americana de Sinais (ASL), revolucionando a linguística da época, pois, até então, todos os estudos linguísticos concentravam-se nas línguas faladas. 83 Stokoe desenvolveu uma intensa pesquisa em torno da vida cotidiana de um grupo de crianças Surdas, comparando duas situações: uma de filhos Surdos de pais não surdos30 e outra, de filhos Surdos de pais Surdos. Sua conclusão foi que o grupo de crianças Surdas que não conviviam com outros Surdos, não utilizavam a Língua de Sinais, nem em casa, nem na escola, pois isso era proibido. A comunicação acontecia apenas de forma oral (VELOSO; MAIA FILHO, 2009). Já o outro grupo, apesar de também haver a proibição da utilização da Língua de Sinais na escola, tinha oportunidade de crescer e se desenvolver com ela em casa. A partir desse estudo, Stokoe percebeu que a Língua de Sinais facilitava o desenvolvimento desde a mais tenra idade e conferia identidade a essas crianças. Seu trabalho culminou com uma proposta de grande alcance internacional, sobre a constituição das línguas de sinais como línguas de instrução para os Surdos (AMSTRONG, 2000). Em consonância aos seus estudos e ao insucesso do oralismo, surge, a partir de 1970, uma nova proposta para educação e interação dos Surdos com os não surdos: a comunicação total. Este método envolvia toda e qualquer forma de comunicação e postulava a utilização de gestos, mímicas, Língua de Sinais, oralização, leitura labial31, datilologia32 e outros códigos e técnicas de comunicação, para que esta possa ocorrer através da fala e de gestos simultâneos (STROBEL, 2009). A comunicação total também não surtiu resultados satisfatórios, visto que a sua abordagem defendia o uso simultâneo das duas línguas: a fala e os sinais e, por serem duas línguas distintas e com estruturas diferentes, dificultava a aprendizagem dos alunos. Assim, na década de 1980, contrapondo-se ao modelo oralista e à comunicação total, inicia-se a proposta do bilinguismo, que entende o canal visual gestual de fundamental importância para a aquisição de linguagem da pessoa Surda e defende a necessidade de precedência da Língua de Sinais em relação à língua oral (LACERDA, 1998). Essa abordagem de educação de Surdos surgiu baseada em suas próprias reivindicações, em busca do direito à sua língua e pelas pesquisas linguísticas sobre a Língua de Sinais (GUARINELLO, 2007). 30 Filhos não surdos de pais Surdos são conhecidos por CODAS (Children Of Deaf Adults) 31 Conhecida como leitura labial ou leitura da fala, consiste na interpretação visual da comunicação de um falante por meio da decodificação dos movimentos dos lábios e das expressões fornecidas pela contração dos músculos da face. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/a-camara/estruturaadm/gestao-na-camara-dos- deputados/responsabilidade-social-e-ambiental/acessibilidade/dicionario-de-Libras/l/leitura-orofacial 32 Consiste na soletração de uma palavra utilizando o alfabeto digital ou manual de Língua de Sinais. 84 A partir da metodologia bilíngue, o Surdo passa a desenvolver sua identidade e sua cultura no contato com seus pares e com os professores bilíngues, dando oportunidade à legitimação de um modelo Surdo, o que, segundo Goldfeld (2002), traduz-se em deixar de tentar seguir o modelo dos não surdos, para assumir a surdez. Essa fase marca o início de um novo debate na área da surdez, o qual defende a primazia da Língua de Sinais sobre a Língua Portuguesa, antes aprendida simultaneamente na comunicação total, ou isoladamente no oralismo (SANTANA, 2007). Para a alfabetização de Surdos é necessário que todos os elementos culturais da língua estejam presentes no processo e este fato passou a ser considerado para a proposição das políticas educacionais e linguísticas dessa população. As tecnologias alavancaram ainda mais o acesso linguístico dos Surdos aos meios de comunicação, o que repercutiu do mesmo modo no contexto escolar tanto dos Surdos, quanto dos não Surdos. A utilização das tecnologias traz uma rápida e constante transformação na sociedade e no dia a dia de seus usuários e representa uma mudança presente no comportamento de todos os estudantes que, muitas vezes, captam imagens das anotações de uma aula com a câmera do celular, ao invés de registrar no formato escrito (SILVA; MENDES; SANTOS, 2020). Da mesma forma, o professor também precisa modificar seus hábitos para alcançar um público específico, no sentido de estar sempre buscando novas tecnologias para facilitar o aprendizado,independentemente de o estudante ser Surdo ou não (STUMPF, 2010). No caso do Brasil, como os profissionais não acreditavam ser possível discutir através da Língua de Sinais os avanços científicos e tecnológicos que a escola deveria trabalhar, (QUADROS, 2004), a Língua Portuguesa foi posta como língua de prestígio, como se fosse a primeira língua dos Surdos e a Língua de Sinais, desvalorizada e estabelecida como segunda língua. E, por este motivo, apesar de haver o entendimento sobre a importância do aprendizado das e em línguas de sinais, os Surdos eram classificados como PcD e alvo da Educação Especial e Inclusiva. Inúmeros artigos científicos tratam do aluno Surdo como público dessa modalidade de educação e por isso, reforçam a necessidade da formação de professores bilíngues com foco na Educação Especial e Inclusiva (LEITE, 2015; MARQUES, 2017; MENEZES, 2020). O final do século XX é marcado pelo início dos movimentos Surdos brasileiros que debatiam sobre Língua de Sinais, bilinguismo, reflexos dos modelos clínicos-terapêuticos e socioantropológicos na educação de Surdos, necessidade do reconhecimento de uma Língua 85 Brasileira de Sinais e impactos que tudo isso traria para a constituição de políticas públicas que garantissem a participação efetiva dos Surdos na sociedade, à medida que valorizassem sua língua de instrução. Ativistas Surdos, seus familiares, profissionais da área e pesquisadores que buscavam edificar academicamente um campo epistemológico, foram os atores desses movimentos, que lutavam, assim como outros grupos minoritários, em defesa de direitos étnico-raciais, de gênero, de orientação sexual, de liberdade religiosa, entre outros. Em 1999, o Núcleo de Pesquisa em Políticas de Educação para Surdos (NUPPES) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) realizou o V Congresso Latino- Americano de Educação Bilíngue para Surdos, que se constituiu como uma mobilização política da Comunidade Surda, formada por pesquisadores, profissionais, familiares e lideranças da Comunidade Surda mundial (FERNANDES; MOREIRA, 2014). O evento discutiu temas de interesse dessa Comunidade com relação à identidade, cultura e educação de Surdos, o que resultou em um documento intitulado "A Educação que nós, Surdos, queremos" (FENEIS, 1999). O mesmo serviu como referência para a elaboração de um decreto que iria regulamentar a Lei de Libras no Brasil, posteriormente. Dentre os temas abordados, destaca-se a discussão sobre a importância e a necessidade de: 1) elaboração de uma política de educação de Surdos com escolas específicas para Surdos, que deveriam oferecer o desenvolvimento de indivíduos cidadãos tendo como base a identidade Surda; 2) substituição do termo deficiente auditivo por Surdo ao considerar que não possuem a mesma identidade, uma vez que o deficiente auditivo usa comunicação auditiva, tendo restos auditivos que podem ser corrigidos com aparelhos e o Surdo usa a comunicação visual; 3) consideração de que as Línguas de Sinais são línguas naturais das Comunidades Surdas, constituindo línguas completas e com estrutura independente das línguas orais; 4) reconhecer e regulamentar a Libras em nível federal, estadual e municipal para uso em escolas, universidades, entidades e órgãos públicos e privados e, por fim, 5) fazer da Língua de Sinais uma disciplina no currículo, envolvendo o ensino de sua morfologia, sintaxe, e semântica (FENEIS, 1999). Finalmente, em 2002, a Libras é reconhecida no Brasil como meio de comunicação dos Surdos, através da Lei nº 10.436/2002, que em seu Artigo 2º prevê a garantia, por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos, de formas institucionalizadas 86 de apoiar o uso e difusão da Libras como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das Comunidades Surdas do Brasil (BRASIL, 2002). No entanto, no Artigo 4º, em seu parágrafo único, essa Lei proíbe que se substitua a Língua Portuguesa na modalidade escrita (BRASIL, 2002). Sendo assim, os Surdos podem se expressar em Libras, mas o registro deve acontecer em sua L2. Para Quadros (2004), mesmo que os professores se esforcem para aprender a Libras, ainda assim, delega-se à escrita o papel de assumir tal função. Mais uma vez, perpassa- se a sobreposição da Língua Portuguesa (língua da maioria) à Língua de Sinais, como aconteceu ao longo da história da educação de Surdos (QUADROS, 2004, p. 3). Ora, se os fatos revelados em toda a história da educação dos Surdos mostram que a funcionalidade das línguas orais não contempla as especificidades da cultura e língua desses sujeitos, insistir no registro escrito de uma língua distante da língua visuoespacial, mostra-se como uma herança ouvintista, que ainda permeia a educação de Surdos no Brasil. Talvez porque, como mostram Machado, Teixeira e Galasso (2017), ressignificar os sujeitos Surdos como bilíngues implica um deslocamento bastante complexo, uma vez que são brasileiros natos, mas usuários de outro sistema linguístico e de outra discursividade bastante diferente da Língua Portuguesa, que é a língua majoritária da população brasileira. No que concerne à formação inicial de professores para a educação de Surdos, em 2005, por intermédio do Decreto nº 5626/2005, a Libras é regulamentada e determinada a ser incluída como disciplina curricular, inicialmente nos cursos de Educação Especial, Fonoaudiologia, Pedagogia e Letras, ampliando-se progressivamente para as demais licenciaturas (BRASIL, 2005). A partir desse Decreto, o MEC tornou-se responsável por promover programas específicos para a criação de cursos de graduação para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental e licenciatura em Letras/Libras ou em Letras/Libras/Língua Portuguesa como segunda língua. A Libras ainda foi disposta como objeto de ensino, pesquisa e extensão nos cursos de formação de professores para a educação básica, nos cursos de Fonoaudiologia e nos cursos de Tradução e Interpretação de Libras - Língua Portuguesa, cabendo às instituições de educação sua inserção. A partir de 03 de agosto de 2021, através da Lei nº 14. 191, após anos de constante e robusto movimento da Comunidade Surda, a educação de Surdos passou a ser reconhecida de modo dissociado da Educação Especial e Inclusiva (BRASIL, 2021a). 87 Diante do histórico da educação de Surdos apresentado, evidenciou-se a necessidade de políticas públicas consistentes e que representem os anseios da Comunidade Surda, especificamente no que tange à Educação Bilíngue de Surdos e à formação inicial de professores que nela atuarão. Nessa perspectiva, esta pesquisa analisou a formação desses profissionais baseada nos preceitos de educação de Surdos que constam no Decreto nº 5626/2005 e na Política de Inclusão, e examinou os desafios enfrentados por professoras bilíngues de uma escola bilíngue do DF e sua possível relação com seus cursos de formação, bem como elencou as sugestões dessas professoras e de pesquisadoras acadêmicas sobre o assunto. Para tanto, utilizou-se da análise de conteúdo proposta por Bardin (2016) para a exploração do material obtido por meio dos instrumentos de geração de dados. Todos os estágios desta seção serão apresentados no tópico em sequência. 3 METODOLOGIA Esta seção trata da opção metodológica norteadora da pesquisa para definir os caminhos percorridos, a fim de responder aos objetivos traçados de: 1) Examinar a proposta de formação inicial de professores bilíngues de Surdos, a partir das divergências no conceito de educação deste público, existentes no Decreto nº 5.626/2005 e na Política de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008; 2) Identificar os desafios enfrentados por professores bilíngues no exercício de sua docência e a possível relação com seus cursos de formação inicial; 3) Elencar as sugestões de professorese de pesquisadores acadêmicos, para a formação inicial de professores bilíngues de Surdos. De acordo com Prodanov e Freitas (2013), a metodologia, em um nível aplicado, ocupa- se dos processos de construção de conhecimento ao examinar, descrever e avaliar métodos e técnicas de pesquisa que possibilitam apurar e processar informações, visando ao encaminhamento e à resolução de problemas, questões de investigação e/ou conclusão a respeito do fenômeno investigado. Ante o exposto, será apresentada a seguir a caracterização da pesquisa, seu lócus, população e amostra, os pré-testes aplicados para aprimorar o instrumento de geração de dados, os procedimentos éticos adotados, as técnicas e instrumentos de geração de dados utilizados, bem como a técnica de análise dos dados empregada. 88 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA De acordo com Lakatos e Marconi (2003), existem três tipos de pesquisa científica, classificadas de acordo com seus objetivos, a saber: pesquisa exploratória, descritiva e explicativa ou experimental. Esta é uma pesquisa do tipo exploratória com caráter descritivo quanto aos seus objetivos, pois busca analisar a formação inicial de professores bilíngues para a Educação Bilíngue de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre dois normativos legais que orientam a educação desse público. Para atribuir maior segurança ao estudo, foi realizado um levantamento bibliográfico em bases de dados específicas - SCieLO, Web of Science, Scopus e catálogo de Teses e Dissertações da CAPES – compartilhando, desse modo, pesquisas exploratórias anteriores com informações e conceitos fundamentais para a compreensão do fenômeno. Segundo Gil (2008), a pesquisa exploratória não se preocupa com representatividade numérica, mas sim com o aprofundamento da compreensão de um grupo social ou de uma organização, que neste estudo se constituíram em dois grupos: um de estudiosas do campo da educação de Surdos e formação de professores para tal, e outro de professoras de Surdos de uma escola bilíngue do Distrito Federal. A pesquisa é descritiva, pois tem como finalidade principal a descrição das características de determinada população ou fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre variáveis, conforme orientado por Gil (2008). Neste estudo este tipo de pesquisa foi utilizado, pois analisou a formação inicial de professores bilíngues para a educação de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre dois normativos legais que a orientam. Quanto à sua natureza, trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, já que trabalhou os dados gerados a partir de seu significado, tendo como base a percepção do fenômeno dentro do seu contexto (MINAYO, 2001). O uso desta abordagem procura captar não só a aparência do fenômeno, como também suas essências, procurando explicar sua origem, relações e mudanças, tentando intuir as consequências. Dentre as características que podem ser levantadas para que uma pesquisa seja considerada qualitativa, está o fato de que ela é utilizada quando se buscam percepções e entendimentos sobre uma questão, abrindo espaço para a interpretação a partir do que os pesquisadores enxergam, ouvem e entendem (CRESWELL, 2010). 89 Vasconcelos (2010) acrescenta ainda que a pesquisa qualitativa é bastante favorável à educação, pois contém aspectos que aproximam as interações da humanidade com o meio em que vivem, através desse olhar interpretativo originado a partir do pesquisador. Como referido por Creswell (2010, p. 206), na abordagem qualitativa existem aspectos essenciais, pois ela “emprega diferentes concepções filosóficas; estratégias de investigação; e métodos de coleta, análise e interpretação dos dados”. Tal abordagem foi escolhida porque a pesquisadora optou por utilizar a triangulação na geração de dados ao empregar a investigação de dois documentos legais, entrevistas semiestruturadas e questionários. Ademais, a mesma consiste em um tipo de pesquisa que estimula os entrevistados a pensarem livremente sobre algum tema, fazendo emergir daí aspectos subjetivos de maneira espontânea. 3.2 LÓCUS, POPULAÇÃO E RESPONDENTES O lócus de pesquisa desta tese divide-se em dois grupos. Um, compreende o DF e corresponde às professoras bilíngues de uma escola bilíngue. O DF foi escolhido por ser a primeira região do Centro-Oeste a implementar uma escola bilíngue para Surdos, sendo ainda a região de residência da pesquisadora. O segundo grupo da pesquisa, composto por pesquisadoras acadêmicas, não teve lócus definido, pois elas residem em várias localidades do Brasil. A escola bilíngue para Surdos em questão é a Escola Bilíngue Libras Língua Portuguesa Escrita de Taguatinga (EBT). Trata-se de uma instituição de ensino pública e gratuita, fundada em 2013, pela Portaria nº 171 de 02 de julho de 2013, da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), em cumprimento à Lei nº 5.016 de 11 de janeiro de 2013 (DISTRITO FEDERAL, 2013). Em seu Projeto Político Pedagógico (PPP) de 2018 é previsto que a escola Atende e promove a inclusão educacional e social dos surdos, garante uma educação diferenciada, específica, cultural e bilíngue, para estudantes que têm a Língua de Sinais como sua primeira língua e o português escrito como segunda língua, sendo estas as línguas de comunicação e de instrução das atividades escolares para o ensino de todas as disciplinas curriculares, em todos os níveis de educação básica (DISTRITO FEDERAL, 2018). A referida escola oferece educação infantil, ensino fundamental (anos iniciais e finais), ensino médio, educação de jovens e adultos – EJA e educação profissional em forma de cursos de Formação Inicial Continuada – FIC técnico. Possui como público-alvo estudantes com 90 surdez de leve a profunda, com implante coclear ou não, oralizados, CODAS, filhos de intérpretes de Libras /Língua Portuguesa, alunos com dificuldade fonoarticulatória, Surdos com necessidades associadas e não surdos (DISTRITO FEDERAL, 2018). Ressalta-se que, diante da necessidade de autorização prévia da SEEDF para aplicação de pesquisas nas escolas públicas do DF, o que envolve um trâmite moroso, a solicitação foi feita de forma presencial à Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (EAPE), em fevereiro de 2020. Após a anuência desse setor, foi necessário obter a autorização da Regional de ensino da EBT, que também foi solicitada presencialmente e concedida em dez dias. Apenas após a aprovação dessas duas instâncias, tornou-se possível pedir à EBT sua participação neste estudo e obter seu consentimento. Sabendo que a população ou universo da pesquisa é a totalidade de indivíduos que possuem as mesmas características definidas para um determinado estudo e a amostra constitui uma parte da população ou do universo, é preciso definir, através de um processo de amostragem, quem serão os participantes de uma pesquisa. De acordo com Bhatacherjee (2012), a escolha de uma parcela da população de interesse permite fazer observações e inferências estatísticas sobre esse grupo, visto que é inviável estudar uma população inteira devido aos custos e a abrangência. Sendo assim, a população desta pesquisa foi composta por professoras bilíngues de Libras e Língua Portuguesa escrita e pesquisadoras com domínio na formação de professores para Educação Bilíngue de Surdos. O estrato selecionado constituiu-se de três professoras Surdas e três não surdas da EBT, identificadas com nomes de flores para garantir seu anonimato. O instrumento de geração de dados utilizado com este público consistiu na entrevista semiestruturada, aplicada por meio de plataformas digitais, devido à restrição de circulação de pessoas causada pela pandemia de Covid-19. Com relação às cinco pesquisadoras da área de formação de professores para a EducaçãoBilíngue de Surdos, empregaram-se nomes de ilustres personalidades Surdas femininas para nomeá-las. Das cinco, duas responderam através de questionários e três, via entrevista semiestruturada, realizada também de maneira virtual. Dentre elas, uma é Surda e quatro não Surdas, dentre as quais, duas são CODA. 91 3.3 PRÉ-TESTES Anteriormente à geração dos dados através das professoras e pesquisadoras que compõem a amostra desta pesquisa, aplicou-se um pré-teste em formato de entrevista a quatro professores de Libras, Surdos e não surdos. Cumpre informar que eles não compõem a amostra de entrevistados para se atingir os objetivos do estudo. O intuito da utilização desse recurso foi, como apontado por Hair et al (2005), a possibilidade de ajustes e detecção de incoerências, avaliação de aspectos funcionais, tais como pertinência e organização das questões, de modo a corrigir e/ou melhorar eventuais problemas antes da aplicação definitiva, para maior validação do instrumento. As questões dos pré-testes, constantes no apêndice A, foram aplicadas em forma de entrevista presencial a três dos participantes e via ligação telefônica para a quarta entrevistada, pois a mesma não estava na cidade de residência da pesquisadora durante essa etapa da pesquisa. Realizou-se um levantamento do perfil pessoal, acadêmico e profissional dos respondentes em ordem cronológica da realização dos testes, conforme o Quadro 4. Quadro 4 - Perfil pessoal, acadêmico e profissional dos participantes dos pré-testes Gênero Faixa Etária Curso de Formação Quanto a ser Surdo ou não Tempo na docência em anos 1 Masculino 26 a 30 anos Letras/Libras Não surdo 3 a 5 anos 2 Masculino 31 a 35 anos Letras/Libras Surdo oralizado 3 a 5 anos 3 Feminino 36 a 40 anos Letras/Libras Surda não oralizada Mais de 10 anos 4 Feminino 36 a 40 anos Letras/Libras CODA Mais de 10 anos Fonte: Elaborado pela autora, 2021. Todos os participantes foram previamente selecionados por serem ou terem sido professores em escolas ou classes consideradas bilíngues e por utilizarem a Libras sob diferentes vivências. A intenção nessa escolha foi de garantir a maior diversidade de respostas, tendo em vista a experiência de cada respondente na Cultura Surda, uma vez que todos atuavam ou já haviam atuado na Educação Bilíngue de Surdos. Aos entrevistados Surdos, os pré-testes foram traduzidos em Libras por um TILS. Os outros dois pré-testes foram executados diretamente pela pesquisadora em Língua Portuguesa. Os pré-testes aplicados aos respondentes 92 Surdos foram gravados em formato de vídeo e quando realizados com os não surdos, em formato de áudio. Essa etapa da pesquisa ocorreu entre os dias 06 e 15 de janeiro de 2020. Todos os entrevistados receberam a explicação sobre sua finalidade, quer seja diretamente pela pesquisadora ou mediante a interpretação e tradução da Língua Portuguesa para Libras, com a participação do profissional adequado para tal tarefa. O TCLE e o Termo de autorização de uso de voz e/ou imagem, que constam nos apêndices F e G, foram apresentados e assinados pelos participantes. Após essa etapa de captação dos dados, o material obtido foi transcrito pela pesquisadora para a Língua Portuguesa e analisado com vistas aos ajustes necessários. A aplicação deste recurso comprovou-se necessária e eficaz, pois duas questões foram alteradas, uma no tocante à forma de se perguntar e outra, referente ao maior detalhamento do que se pretendia compreender. O tempo de duração de aplicação do instrumento foi medido e, após os ajustes necessários, foram aplicados como entrevista na etapa de geração dos dados deste estudo. 3.4 PROCEDIMENTOS ÉTICOS Diante da necessidade de interação direta da pesquisadora com os sujeitos da pesquisa, e para assegurar a integridade e dignidade desses indivíduos, foram observadas as implicações éticas desta pesquisa, a qual foi submetida ao CEP da UCB. O projeto original foi inserido na Plataforma Brasil em abril de 2020, tendo sido aprovado em sua versão final em junho de 2020 (Apêndice H), sob o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAEE) nº 30421420.2.0000.0029. Cumpre informar que a interação da pesquisadora com as respondentes foi feita de forma não presencial, devido aos protocolos de segurança adotados por países de todos os continentes, para restrição de circulação de pessoas, como forma de conter a propagação do novo coronavírus, causador da pandemia de Covid-1933. Os instrumentos de geração dos dados (Apêndices B, C e D), os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndices E e F) e o Termo de autorização para utilização 33 https://www.unasus.gov.br/noticia/organizacao-mundial-de-saude-declara-pandemia-de-coronavirus 93 de imagem e som de voz para fins de pesquisa (Apêndice G) também foram apreciados e aprovados pelo Comitê. Todos os respondentes aceitaram participar voluntariamente deste estudo e, após a aprovação do CEP, foi iniciada a etapa de geração de dados com as participantes da pesquisa. 3.5 TÉCNICA E INSTRUMENTOS DE GERAÇÃO DOS DADOS As técnicas de geração de dados correspondem à parte prática da pesquisa (LAKATOS; MARCONI, 2003). Como existem diferentes métodos, posto que a realidade se apresenta com fenômenos distintos e típicos, para os quais se necessita de técnicas articuladas às características dos objetos de estudo, há também uma gama de mecanismos e procedimentos científicos para superar as dificuldades e os problemas no percurso da construção do conhecimento e um deles é a triangulação da geração dos dados mediante a utilização de diferentes fontes de evidências. Vários autores definem a triangulação da geração de dados como uma estratégia de pesquisa que emprega uma variedade de técnicas para o alcance dos dados, no intuito de combinar e cruzar múltiplos pontos de vista, integrando a visão de vários informantes (MINAYO, 2005). Yin (2005) recomenda o uso de múltiplas fontes de evidências para tornar as conclusões do estudo mais acuradas do que se utilizada apenas uma fonte única de informação. Para corroboração do fato investigado, sugere-se o desenvolvimento da convergência de linhas de investigação, isto é, convergência num resultado por meio dessa triangulação. Nesta pesquisa, foram utilizadas três fontes de evidência e, para cada umas delas, foi elaborado um roteiro, sendo o apêndice B, da entrevista semiestruturada aplicada às professoras da EBT, o apêndice C, do roteiro de questionário para as pesquisadoras, salientando que três delas optaram por respondê-lo via entrevista, e o apêndice D, constituído do roteiro da análise documental. A Figura 4 apresenta e justifica a escolha pela triangulação para a geração dos dados, tendo em vista os objetos de estudo da pesquisa. Os três aspectos representados - Educação Bilíngue de Surdos – políticas públicas - formação inicial de professores- são pilares conceituais desta tese. 94 Figura 4 - Objetos de estudo da pesquisa Fonte: Elaborado pela autora, 2019. 3.5.1 Entrevista semiestruturada O termo entrevista, de acordo com Richardson (2017), é construído a partir de duas palavras entre e vista, onde vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação com algo e entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Há, portanto, uma troca de pontos de vista entre os atores sociais, o entrevistador e o entrevistado, em prol da construção do significado de um conhecimento e a busca por dar sentido à realidade que os cerca (FLICK, 2002). Apesar de haver diversos materiais que podem ser utilizados, a fim de se obter os dados em estudos qualitativos, como fotografias, documentos provedores de dados secundários e observação de campo, as entrevistas são apontadas por Ritchie et al (2014) como o instrumento mais utilizado para geração dos significados atribuídosaos fenômenos e, por isso, elas foram utilizadas. As entrevistas semiestruturadas podem ser definidas como uma lista das informações que se deseja de cada entrevistado, mas a estrutura da pergunta (a forma de perguntar) e a ordem em que as questões são formuladas irão variar de acordo com as características de cada entrevistado. Geralmente, e também neste estudo, são baseadas em um roteiro constituído de “[...] uma série de perguntas abertas, feitas verbalmente em uma ordem prevista”, apoiadas no quadro teórico e nos objetivos da pesquisa (LAVILLE; DIONNE, 1999, p.188). 95 Manzini (2003) orienta que, durante a realização da entrevista, é importante seguir algumas recomendações, tais como fazer boas perguntas, interpretar as respostas e ser um bom ouvinte, não se deixando enganar por ideologias e preconceitos. A opção pela utilização de entrevistas do tipo semiestruturadas se deu pela necessidade de captação da percepção das entrevistadas sobre o processo formativo recebido nos cursos de licenciatura e sua utilização na prática docente e, também, pelo entendimento de que este instrumento de pesquisa proporciona flexibilidade para que o entrevistado possa se expressar e expor seus posicionamentos. Elas foram gravadas, pois, de acordo com Yin (2005), fornecem uma expressão mais acurada das respostas. Em virtude da pandemia de Covid-19 e das medidas de restrição de circulação de pessoas por ela ocasionada, todas as entrevistas foram feitas de forma virtual com a utilização de plataformas digitais, como o Skype, Zoom, Whatsapp ou Google Meet. As entrevistas foram gravadas em vídeo, após assinatura do TCLE e de Autorização do uso de imagem e voz (Apêndices E, F e G), e transcritas para a Língua Portuguesa pela própria pesquisadora, nos dias subsequentes a cada entrevista. Elas foram feitas considerando a primeira língua utilizada pela respondente, assim, quando aplicadas às professoras não surdas, foram conduzidas diretamente pela pesquisadora em Língua Portuguesa oral e, quando aplicadas às Surdas, foram realizadas com interpretação e tradução de uma TILS. Essa profissional foi escolhida, conforme as recomendações feitas por Mendes (2019), por ter proficiência em tradução e interpretação em Libras, ser participante da Comunidade Surda, pesquisadora da temática, licenciada em Letras/Libras, mestre, doutoranda em Estudos da Tradução, CODA e ter, ainda, experiência na docência em Libras. 3.5.2 Questionários Questionários também foram utilizados como instrumentos de geração de dados da pesquisa, pois se constituem de uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador (PRODANOV; FREITAS, 2013). Atentando-se para as características explicitadas por Gil (2008), as perguntas desse instrumento foram claras e objetivas, com vocabulário adequado ao nível de escolaridade das informantes e não sugeriram ou induziram a respostas. 96 Este recurso foi escolhido e elaborado para as pesquisadoras, mas cumpre informar que três das cinco respondentes solicitaram colaborar com a pesquisa através da interação via entrevista e por intermédio de plataformas digitais. Dessa forma, os questionários transformaram-se em entrevistas semiestruturadas, aplicadas mediante comunicação entre a pesquisadora e as partícipes. Utilizou-se o roteiro do questionário (Apêndice C), mas houve a abertura para novas pautas. 3.5.3 Análise Documental A análise documental caracteriza-se por examinar dados em fontes primárias, como documentos escritos ou não, pertencentes a arquivos públicos; arquivos particulares de instituições e domicílios, e fontes estatísticas (LAKATOS; MARCONI, 2003). Considera-se importante destacar que, segundo essas autoras, há fontes primárias e secundárias, sendo o segundo grupo constituído pela pesquisa bibliográfica, que também foi utilizada em todas as etapas deste estudo e [...] abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema estudado, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, materiais cartográficos, etc. [...] e sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 183). A análise de documentos não se trata de uma simples averiguação, e sim a utilização das fontes como indícios que respondem a perguntas que lhes são apresentadas. Ressalta-se, portanto, a importância da formulação de um questionamento a partir do material que será utilizado como fonte de pesquisa. Considera-se assim que questões formuladas frente ao documento são tão importantes quanto o próprio documento (LIMA, 2018). A referida análise foi escolhida devido à importância dos normativos legais para a regulamentação das políticas educacionais e por possuir algumas das vantagens apresentadas por Gil (2017), como não ter altos custos, não exigir contato com os sujeitos da pesquisa, constituir uma fonte repleta e estável de dados e também por ser largamente utilizada nas ciências sociais, a fim de descrever e comparar as características e tendências dos fatos sociais. Dessa forma, nesta pesquisa foram analisados dois instrumentos legais que tratam da Educação Bilíngue de Surdos e trouxeram luz e discussão sobre a formação inicial de professores para nela atuarem: o Decreto nº 5.626/2005 e a Política Nacional de Educação 97 Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008. O primeiro foi escolhido por ser, até o ano delimitado para esta fase do estudo, o documento legal de maior destaque para a educação de Surdos (LODI; LACERDA, 2015). A Política de Inclusão, por sua vez, foi selecionada por sua representatividade nos estudos de Educação Especial e Inclusiva e pela repercussão que causou na discussão de educação de Surdos, após sua publicação (LODI, 2013), e, da mesma forma, por constituir o regulamento legal mais recente no ano de geração e análise dos dados. Considera-se importante destacar que, apesar da nova Política de Educação Inclusiva ter sido sancionada em 30 de setembro de 2020 (BRASIL, 2020), sob o nome de Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, quando os dados para esta pesquisa foram gerados, ela era apenas uma proposta sem data para publicação. Ademais, por ser um novo normativo que causou grande repercussão no meio acadêmico e das entidades das PcD, o mesmo está suspenso pelo STF e ainda não foi implementado. Considera-se relevante apontar também que a análise dos dados documentais não ocorreu em um momento específico, único. Esse processo aconteceu durante todo o estudo, por meio de reflexões sobre a teoria e os dados gerados através das entrevistas e questionários. 3.6 TRANSCRIÇÕES Valendo-se da concepção de Manzini (2008) sobre o momento da transcrição se constituir em uma pré-análise do material, todas as entrevistas foram transcritas. O intuito da transcrição é minimizar as limitações associadas à mera intuição e recordação da informação, além de permitir observar repetida e detalhadamente o discurso e conteúdo da entrevista e possibilitar a partilha das informações colhidas com outras pessoas a fim de reutilizar ou reanalisar os dados, noutros projetos ou em função de outros objetivos (DAVIDSON, 2009). De acordo com Azevedo et al (2017), transcrever consiste na transformação de um discurso oral num texto escrito com significado, possível de ser analisado, que contenha as informações relevantes da entrevista e, por este motivo, requer um planejamento cuidadoso e rigoroso sobre como proceder. Os autores sugerem dividir a transcrição em seis etapas: preparar, conhecer, escrever, editar, rever e finalizar, e todas serão seguidas a fim de se atingir a maior fidedignidade possível quanto às respostas obtidas. 98 Todas as entrevistasforam transcritas para a Língua Portuguesa pela própria pesquisadora, utilizando códigos definidos pelas normas para transcrição da obra organizada por Preti (1999), as quais orientam como transformar um texto oral em texto escrito. O Quadro 5, a seguir, indica os códigos utilizados. Para a transcrição das entrevistas das participantes Surdas foi utilizado o padrão culto da Língua Portuguesa escrita. Quadro 5 - Códigos utilizados na transcrição Ocorrência Sinais Exemplo Hipótese do que se ouviu ( ) (estou) meio preocupado (com o horário para término da entrevista) Truncamento / E com/ e reinicia Pausa ou silêncio ... Faltam algumas coisas...na verdade faltam várias, para que a educação de Surdos aconteça de verdade...existe uma...rejeição Silabação - É uma luta di-á-ria Prolongamento de vogal ou consoante :: E eu decorei: “ca::lma, eu tô aprendendo ainda” Entonação enfática maiúscula e os alunos perguntavam: “como, como vc É PROFESSORA? Comentários descritivos do transcritor ((minúscula)) ((interrompeu para conversar com alguém da casa)) Fonte: Elaborado pela autora baseado em Preti, 1999, p.11. 3.7 TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS Sendo a análise dos dados a parte da pesquisa que irá nortear a apresentação dos resultados e a conclusão do trabalho acadêmico, podendo ser final ou apenas parcial, deixando margem para estudos posteriores, Lakatos e Marconi (2003) a identificam como uma das fases mais importantes da investigação. Utilizou-se neste estudo, a técnica de análise de conteúdo, desenvolvida em nível instrumental de metodologia pelo americano Harold Lasweel durante a Segunda Guerra Mundial, e amplamente difundida nas ciências sociais como metodologia acadêmica, pela francesa Laurence Bardin (CARLOMAGNO; ROCHA, 2016). Apesar de haver outros autores que abordam essa técnica (KRIPPENDORFF, 2004; MINAYO, 2001; GLAT, 2008), optou-se por Bardin (2016), que a traduz como 99 [...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2016, p. 72). A escolha por este procedimento metodológico de análise se deu devido à abordagem qualitativa da pesquisa, que permite a realização de procedimentos mais intuitivos, maleáveis e adaptáveis ao contexto de análise (BARDIN, 2016). Além disso, a pesquisa considerou que esse tipo de análise possibilita realizar inferências, conhecidas não apenas por métodos estatísticos de frequência, mas pela análise de mensagens provenientes de diferentes interlocutores, em um determinado contexto. Para alcançar os objetivos de pesquisa, fez-se necessária a organização e a compreensão dos dados, ordenados e explorados, considerando as três etapas propostas por Bardin (2016), a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados, representadas na Figura 5: Figura 5 - Etapas da análise de conteúdo utilizadas no estudo Fonte: Elaborado pela autora, baseado em Bardin, 2016. A pré análise, primeira das fases, foi desenvolvida para a organização inicial dos dados e seguiu os cinco passos sugeridos por Bardin (2016): 100 a) Leitura flutuante, ou seja, organização e primeira leitura dos dados gerados, com a finalidade de conhecer o texto, deixando-se invadir por impressões. b) Escolha dos documentos, composta por determinadas questões dos roteiros de geração dos dados. c) Formulação das hipóteses de análise, constituídas por suposições, sendo algumas utilizadas e outras modificadas. d) Elaboração de indicadores por meio de recortes de texto nos documentos, agrupados em unidades comparáveis de categorização a fim de interpretar o material obtido. e) Preparação do material em forma de documentos de texto com anotações digitadas e comentários e notas feitas em papel. Na segunda etapa, iniciou-se a exploração do material, com a construção da codificação, levando em consideração os recortes dos textos em unidades de registro, definidas por temas e unidades de contexto, correspondentes aos segmentos das mensagens do material analisado. Na terceira e última fase, houve o tratamento dos resultados, com definição das categorias e subcategorias de análise, posteriormente tratadas pelo processo de inferência e interpretação. De acordo com Bardin (2016), este é o momento de intuição, de análise reflexiva e crítica. Cada objetivo deste estudo foi respondido com base em uma das categorias e suas subcategorias, apresentadas nos tópicos 4.2.1, 4.2.2 e 4.2.3. É importante salientar que, apesar da análise de conteúdo ser uma técnica refinada, que contém diferentes fases e etapas e que exige do pesquisador disciplina, dedicação, paciência e tempo, ela não deve ser considerada e trabalhada como um modelo exato e rígido. Bardin (2016), inclusive, rejeita esta ideia de inflexibilidade e de completude, deixando claro que a sua proposta da análise de conteúdo transita entre dois polos que envolvem a investigação científica: o rigor da objetividade e a riqueza da subjetividade, pois faz-se necessário, também, certo grau de intuição, imaginação e criatividade, sobretudo na definição das categorias de análise, jamais esquecendo do rigor e da ética, que são fatores essenciais (MOZZATO; GRZYBOVSKI, 2011). 101 4 DESCRIÇÃO DA PESQUISA Tendo como cerne o objetivo desta tese de analisar a formação inicial de professores bilíngues para a educação de Surdos, considerando a dicotomia existente entre dois normativos legais, o Decreto nº 5626/2005 e a Política de Inclusão de 2008, esta seção apresenta a descrição dos resultados da etapa de geração de dados e sua discussão. Vale salientar que a referida análise foi desenvolvida entre os meses de dezembro de 2020 e dezembro de 2021. 4.1 PARTICIPANTES DO ESTUDO Este tópico refere-se à descrição das participantes do estudo, selecionadas de acordo com os objetivos da pesquisa. 4.1.1 Pesquisadoras Para responder ao primeiro e contribuir com o terceiro objetivo desta pesquisa, selecionaram-se cinco pesquisadoras que atendessem a três pré-requisitos: ser especialista na área de políticas públicas que tratam da Educação Bilíngue de Surdos, estar realizando pesquisas nessa área e ter representatividade no contexto acadêmico que trata da formação de professores bilíngues para Surdos. O critério de exclusão utilizado foi não estarem pesquisando sobre a temática e não terem uma vinculação acadêmica em instituições de ensino superior. 102 Merece destaque o mapeamento feito sobre os principais pesquisadores no campo de educação de Surdos no Brasil. Essa busca considerou a participação das mesmas nos grupos de trabalhos para formulação de políticas públicas que permeiam a educação de Surdos, a contribuição de suas pesquisas para esta área e o índice h34 da base Web of Science. Todas as pesquisadoras participantes deste estudo figuram entre esses pesquisadores. O convite para participação na pesquisa foi feito via email enviado pela autora desta tese. Esses emails foram localizados a partir de busca no currículo lattes de cada entrevistada, nos sites de filiação institucional e em suas publicações disponíveis na internet. Obteve-se a confirmação de apenas três respondentes e, por isso, a pesquisadora selecionou mais duas, que também atendessem aos pontos de exclusão e inclusão estabelecidos. Para, da mesma forma, manter o anonimato das identidades das participantes e diferenciá-las, de acordo com o compromisso ético firmado por meio do TCLE (Apêndice E), empregaram-se os nomes de personalidades femininas Surdas35 de representatividade na História e para a Comunidade Surda, conforme mostraEducacionais Anísio Teixeira INES - Instituto Nacional de Educação dos Surdos IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada L1 - Primeira Língua L2 - Segunda Língua LBI - Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Libras - Língua Brasileira de Sinais MEC - Ministério da Educação NAPNE – Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Específicas NUPPES - Núcleo de Pesquisa em Políticas de Educação para Surdos ObEE - Observatório de Educação Especial e Inclusão Educacional ODS - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável OMS - Organização Mundial de Saúde ONCB - Organização Nacional de Cegos do Brasil ONG - Organização Não Governamental PARFOR - Programa Nacional de Formação de Professores da educação básica PcD - Pessoa com Deficiência PDE - Plano de Desenvolvimento da Educação PIBID - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência PNE - Plano Nacional de Educação PPP – Plano Político Pedagógico PSLS – Português escrito como Segunda Língua para Surdos SciELO - Scientific Eletronic Library Online (Biblioteca Científica Eletrônica) SECADI - Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão SEEDF Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal SEESP - Secretaria de Educação Especial Superior SEMESP - Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação SisUAB - Sistema de Gestão da UAB TILS – Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais Brasileira UAB - Sistema Universidade Aberta do Brasil UCB - Universidade Católica de Brasília UFGRS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina UFSM - Universidade Federal de Santa Maria UnB - Universidade de Brasília UNDIME - União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura WoS - Web of Science SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 17 1.1 PROBLEMA DE PESQUISA ......................................................................... 22 1.2 OBJETIVOS .................................................................................................... 25 1.2.1 Objetivo Geral ................................................................................................ 25 1.2.2 Objetivos Específicos ..................................................................................... 25 1.3 JUSTIFICATIVA ................................................................................................. 25 2 REVISÃO DE LITERATURA .............................................................................. 28 2.1 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL DESDE A LDB DE 1996: DOCUMENTOS LEGAIS ............................... 29 2.2 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA E PARA A EDUCAÇÃO BILÍNGUE DE SURDOS: PONTOS E CONTRAPONTOS ............................................................... 51 2.3 BILINGUISMO PARA SURDOS: IMPORTÂNCIA E PERCURSO HISTÓRICO 76 3 METODOLOGIA ................................................................................................. 87 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ............................................................... 88 3.2 LÓCUS, POPULAÇÃO E RESPONDENTES .................................................... 89 3.3 PRÉ-TESTES ........................................................................................................ 91 3.4 PROCEDIMENTOS ÉTICOS .............................................................................. 92 3.5 TÉCNICA E INSTRUMENTOS DE GERAÇÃO DOS DADOS ....................... 93 3.5.1 Entrevista semiestruturada ............................................................................. 94 3.5.2 Questionários .................................................................................................. 95 3.5.3 Análise Documental ....................................................................................... 96 3.6 TRANSCRIÇÕES ................................................................................................ 97 3.7 TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS ................................................................ 98 4 DESCRIÇÃO DA PESQUISA ............................................................................. 101 4.1 PARTICIPANTES DO ESTUDO ...................................................................... 101 4.1.1 Pesquisadoras ............................................................................................... 101 4.1.2 Professoras ................................................................................................... 103 4.2 ANÁLISE DOS DADOS .................................................................................... 105 4.2.1 Formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, a partir da concepção de educação de Surdos do Decreto nº 5.626/ 2005 e da Política de Inclusão de 2008.................................................................................................... 106 4.2.2 Desafios enfrentados por professoras bilíngues de Surdos no exercício de sua docência e a possível relação com seus cursos de formação ................................. 126 4.2.3 Sugestões de professoras da EBT e de pesquisadoras acadêmicas para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos ......................... 137 5 REFLEXÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................. 146 6 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 152 APÊNDICE A – PRÉ-TESTE DE ENTREVISTA PARA PROFESSORES (SURDOS E NÃO SURDOS) .................................................................................. 177 APÊNDICE B - ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA PROFESSORES (SURDOS E NÃO SURDOS) .................................................................................. 179 APÊNDICE C – ROTEIRO DE QUESTIONÁRIO E ENTREVISTA PARA PESQUISADORES .................................................................................................. 181 APÊNDICE D - ROTEIRO DE ANÁLISE DOCUMENTAL ............................. 182 APÊNDICE E - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PESQUISADORES ...................................................................................... 183 APÊNDICE F - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PROFESSORES ........................................................................................... 186 APÊNDICE G - TERMO DE AUTORIZAÇÃO PARA UTILIZAÇÃO DE IMAGEM E SOM DE VOZ .................................................................................... 190 APÊNDICE H – PÁGINA DA PLATAFORMA BRASIL COM APROVAÇÃO DO PROJETO PELO CEP/UCB ........................................................................... 191 17 1 INTRODUÇÃO O ponto de partida deste estudo relaciona-se com minha primeira experiência como professora de Surdos,1 em um curso subsequente de nível técnico em eventos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB), local onde leciono no eixo tecnológico turismo, hospitalidade e lazer. Nessa ocasião, ocorrida em 2017, vi-me diante de um desafio profissional: alterar minha prática pedagógica para atender a uma única estudante Surda em uma turma de não surdos2. Não é comum, em meu convívio escolar, a mudança da prática profissional em prol de um aluno Surdo. De uma forma geral, acredita-se que basta a presença de um intérprete e, “problema resolvido”. No entanto, eu não agi assim e passei a aprender sobre o assunto ao conversar com a aluna Surda, com professores e com intérpretes atuantes nessa área, a fimo Quadro 6. O mesmo traz também o perfil de cada uma. Quadro 6 - Perfil das pesquisadoras entrevistadas e das respondentes dos questionários Participante Identificação correspondente Faixa Etária Quanto a ser Surda ou não Tempo na área de pesquisa deste estudo Pesquisadora 1 Hellen Keller Mais de 50 anos Não surda 25 a 30 anos Pesquisadora 2 Marlee Matlin Mais de 50 anos Não surda 30 a 35 anos Pesquisadora 3 Emmanuelle Laborit 36 a 40 anos CODA 20 a 25 anos Pesquisadora 4 Julia Brace Mais de 50 anos CODA 30 a 35 anos Pesquisadora 5 Charlotte Elizabeth 31 a 35 anos Surda não oralizada 15 a 20 anos Fonte: Entrevistas e questionários aplicados com as pesquisadoras, 2021. 34 “O índice h, ou h-index, é uma proposta para quantificar a produtividade e o impacto de pesquisas individuais ou em grupos baseando-se nos artigos (papers) mais citados. Por exemplo, um pesquisador com h=5 tem 5 artigos publicados que receberam 5 ou mais citações”. Fonte: Unesp, s/d, p.1. 35 Hellen Keller, primeira pessoa Surdocega da história a conquistar um bacharelado, foi também escritora e conferencista. Marlee Matlin, ganhadora do Oscar em 1987, Emmanuelle Laborit, escritora do célebre livro “O Vôo da Gaivota”, Julia Brace, considerada a primeira pessoa Surdocega na História a ter estudado, Charlotte Elizabeth, romancista e poeta popular no apogeu da Revolução Industrial, reconhecida por seus escritos em prol dos direitos das mulheres e de questões sociais. 103 Essas entrevistas e questionários foram aplicados entre junho e julho de 2020. As entrevistas totalizaram 2 horas, 13 minutos e 41 segundos de tempo de gravação. Como limitações, destaca-se a interrupção em uma delas, ocasionada por demandas familiares da respondente. Na ocasião foi necessário desligar a chamada para retomá-la minutos depois. Em outra entrevista, devido à incompatibilidade de horários da entrevistada e da TILS, a própria pesquisadora deste estudo, apesar de não ter proficiência em Libras, aplicou o instrumento de geração de dados nesta língua à participante Surda, mostrando as questões escritas. Todas as respostas foram dadas na primeira língua da respondente, a Libras, e, posteriormente, a TILS deu voz36 à entrevistada e a pesquisadora prosseguiu para a transcrição para a Língua Portuguesa. Todas as participantes são pesquisadoras e professoras em universidades federais brasileiras, localizadas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, e atuam em várias frentes da Educação Bilíngue de Surdos, como gramática de Libras, ensino de Língua Portuguesa como L2 para Surdos e não surdos, formação de professores para ensino bilíngue de Surdos, formação e atuação do tradutor e intérprete de Libras, lideranças Surdas e movimentos sociais Surdos. A faixa etária das respondentes e o tempo de estudo e pesquisa na área de trabalho foram solicitadas no intuito de estabelecer uma relação ou não, entre a idade e o tempo de atuação na referida área. Constatou-se que o tempo de pesquisa em anos é proporcional à idade das entrevistadas, portanto, quanto maior a faixa etária, maior o tempo de atuação na área. 4.1.2 Professoras No intuito de responder ao segundo e terceiro objetivos desta pesquisa, convidou-se seis professoras que atuam com a Educação Bilíngue de Surdos na EBT. Utilizou-se também três pré-requisitos para a escolha dessas profissionais: ter ao menos uma licenciatura como formação, ter um mínimo de três anos de experiência na docência na modalidade bilíngue de educação de Surdos e ser bilíngue em Libras e Língua Portuguesa na modalidade escrita. O critério de exclusão aplicado foi não estar atuando na Educação Bilíngue de Surdos. Para a participação neste estudo, após escolha da EBT como lócus da pesquisa, solicitou-se à direção da escola a indicação de seis docentes que atendessem aos quesitos 36 Expressão utilizada no sentido de se fazer ouvir audivelmente a comunicação em Língua de Sinais dos Surdos. É realizada por intérpretes/tradutores (ALBRES, 2010). 104 estabelecidos. A etapa de recrutamento foi realizada por meio de convite via email ou mensagem de whatsapp, enviada pela pesquisadora a cada professora. Para garantir o anonimato e diferenciação das participantes, conforme compromisso ético firmado por meio do TCLE (Apêndice F), e por todas serem mulheres, empregou-se o nome de flores para identificá-las, conforme mostra a Figura 6 e o Quadro 7. O referido Quadro também sintetiza o perfil de cada uma delas. São informações preliminares que contribuem para pensarmos em que realidade cada agente constrói sua identidade professoral e de que lugar sua voz parte nas entrevistas. Figura 6 – Nomes das flores utilizadas para identificação das participantes Girassol Violeta Tulipa Orquídea Margarida Lírio Fonte: Google imagens, jan. 2022. Quadro 7 - Perfil das professoras entrevistadas Participante Identificação corresponde nte Faixa Etária Curso de Formação concluído Início e término da licenciatura Maior titulação Tempo na docência em anos Quanto a ser Surda ou não Professora Surda 1 Girassol 20 a 25 anos Pedagogia 2014 - 2018 Especialização lato sensu 3 a 5 Surda oralizada Professora Surda 2 Violeta 31 a 35 anos Pedagogia 2008 - 2012 Especialização lato sensu 3 a 5 anos Surda não oralizada Professora Surda 3 Orquídea 46 a 50 anos Pedagogia e Letras/Libras 2002 – 2005 2006 - 2010 Especialização lato sensu Mais de 10 anos Surda oralizada Professora não surda 1 Tulipa 36 a 40 anos Língua Portuguesa 2005 - 2008 Especialização lato sensu Mais de 10 anos Não surda Professora não surda 2 Margarida 41 a 45 anos Letras com Libras e Licenciatura em Geografia 1997- 2000 2012 – não recorda Especialização lato sensu 3 a 5 anos Não surda Professora não surda 2 Lírio 41 a 45 anos História 2001-2004 Especialização lato sensu 3 a 5 anos Não surda Fonte: Entrevista aplicada com as professoras, 2021. Esta etapa da geração dos dados foi realizada entre os meses de outubro e dezembro de 2020, totalizando 3 horas, 57 minutos e 28 segundos de gravação com todas as entrevistadas e não foi uma tarefa fácil, apresentando uma série de limitações quanto à disponibilidade de horário das respondentes em virtude da conciliação entre trabalho remoto e cotidiano familiar, 105 como por exemplo, interrupções ocasionadas por demandas com filhos. Houve também falhas de conexão e queda de sinal de internet, o que demandou novas ligações, repetição de perguntas, acarretando em atrasos e descontinuidades das entrevistas. Além disso, houve necessidade de se combinar o momento da entrevista com a presença da TILS para garantir a acessibilidade e para conciliar as agendas de cada entrevistada Surda, TILS e pesquisadora, com o sinal de internet, demandando vários dias. Todas as entrevistadas lecionavam entre os níveis fundamental 1, 2 e ensino médio e estavam trabalhando de forma remota em virtude das medidas de restrição de circulação de pessoas, imposta pela pandemia de Covid-19. 4.2 ANÁLISE DOS DADOS Com base na triangulação dos dados, foi possível confirmar as informações colhidas em campo e, para examiná-las, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2016). De acordo com a autora, esse processo consiste em extrair sentido dos dados de textos, aprofundar-se em seu entendimento, fazer a sua representação e interpretá-los de forma mais ampla. Nesse tipo de análise busca-se classificar os temas ou categorias que auxiliam na compreensão do que está por trás dos discursos (BARDIN, 2016). Ao final da fase de pré-análise do material apanhado, que consiste na organização e sistematização dos dados, elaboraram-se os indicadores para orientação na interpretaçãodos mesmos. Na fase de exploração do material, a mais longa da análise, todos os dados da pesquisa foram codificados em unidades de registro e unidades de contexto. As unidades de registro contemplaram as palavras que contribuíram para a criação das categorias. As unidades de contexto foram os parágrafos ou segmentos recortados das falas, utilizados como unidades de compreensão. As categorias foram montadas a partir dos objetivos de pesquisa e representam a terceira e última fase da estrutura de análise de Bardin (2016). As subcategorias emergiram da classificação dos elementos constitutivos do texto segundo suas semelhanças e diferenças, com posterior reagrupamento, em função de características comuns. Esse processo levou em consideração a própria organização das entrevistas semiestruturadas, que já traziam consigo uma ordem estruturante, alterada algumas vezes, em virtude do desenvolvimento das respostas. 106 Desta forma, definiu-se três categorias: Formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, Desafios enfrentados por professoras bilíngues e Sugestões de professoras e de pesquisadoras acadêmicas para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos. A análise de conteúdo dos documentos e falas permitiu inferir sobre: a) a concepção de Educação Bilíngue de Surdos e formação docente que os normativos selecionados preconizam, bem como a compreensão das pesquisadoras sobre estes conceitos; b) os desafios enfrentados por professoras bilíngues no exercício de sua docência e a possível relação com seus cursos de formação inicial e c) as sugestões das participantes do estudo para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos. Estes dados serão discutidos nos tópicos a seguir. 4.2.1 Formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, a partir da concepção de educação de Surdos do Decreto nº 5.626/ 2005 e da Política de Inclusão de 2008 Para responder ao primeiro objetivo desta tese, analisaram-se trechos do Decreto nº 5626/200537 e da Política de Inclusão, os quais tratam da educação de Surdos e formação inicial de professores para nela atuarem, além de duas questões das entrevistas e questionários aplicados às cinco pesquisadoras. O Quadro 8 representa a categoria e as subcategorias de análise, bem como as questões de pesquisa utilizadas em cada instrumento de geração dos dados utilizados para responder ao primeiro objetivo específico da pesquisa. Quadro 6 - Categoria, subcategorias, questões de pesquisa e instrumentos de geração dos dados utilizados para responder ao primeiro objetivo específico. Categoria de Análise Subcategoria de Análise Questões de Pesquisa Instrumento de geração de dados 37 Doravante Decreto 107 Formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos a) Divergências no conceito de educação de Surdos Qual sua opinião sobre o Decreto nº 5626 e a Política Nacional de Educação Especial e Inclusiva de 2008, referente à Educação Bilíngue de Surdos no Brasil e a formação inicial de professores que nela atuarão? Quais são as divergências no conceito de Educação bilíngue de Surdos nesses documentos? Roteiro de entrevista semiestruturada para pesquisadoras Roteiro de questionário Formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos a) Divergências no conceito de educação de Surdos Identificar os fundamentos de Educação Bilíngue de Surdos. Destacar as divergências no conceito de educação de Surdos. Roteiro de Análise Documental b) Formação inicial de professores bilíngues Qual sua opinião sobre o Decreto nº 5626 e a Política referente à Educação Bilíngue de Surdos no Brasil e a formação inicial de professores que nela atuarão? Quais são as divergências desses documentos? Roteiro de entrevista semiestruturada para pesquisadoras. Roteiro de questionário Roteiro de Análise Documental 108 Perceber os indicativos para a formação inicial de professores bilíngues de Surdos. Examinar a proposta para a formação inicial de professores com base nos preceitos de Educação Bilíngue de Surdos. Fonte: Elaborado pela autora, 2021. a) Divergências no conceito de Educação Bilíngue de Surdos Ambos os normativos legais foram publicados na década de 2000, com o início das mobilizações dos movimentos sociais e políticos, que por eles lutaram - a comunidade Surda e organizações de PcD – na década de 1990. Eles representam conquistas destes grupos e tratam, dentre outros fatores, das orientações e fundamentos educacionais e linguísticos para a escolarização de PcD e de Surdos. No entanto, há uma diferenciação dos princípios ideológicos entre ambos no âmbito da Educação Bilíngue para o público Surdo, ocasionando uma tensão entre os defensores da educação desse grupo linguístico como atribuição da Educação Especial e Inclusiva e os que a advogam como um campo específico de conhecimento, dissociado da primeira (LODI, 2013). Tal embate reverbera no direcionamento de políticas públicas para a formação de professores que atuarão com esse público educacional. A Política de Inclusão mantém o olhar sobre o Surdo como pertencente ao grupo das PcD e tem como objetivo a mesma organização educacional e práticas pedagógicas para todos alunos, com e sem diferenças, incluindo as crianças Surdas. Ela também aponta a educação inclusiva para este público, com ênfase na garantia de acesso e de ensino de qualidade (BRASIL, 2008b). Para melhor entendimento, segue o objetivo dessa Política, conforme disposto no documento: Assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino; transversalidade da modalidade de Educação Especial desde a educação infantil até a educação superior; oferta do atendimento educacional especializado; formação de professores para o atendimento 109 educacional especializado e demais profissionais da educação para a inclusão; participação da família e da comunidade; acessibilidade arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e informação; e articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008b, p. 14). O Decreto nº 5.626/2005, por sua vez, dispõe, dentre outros quesitos, sobre processos educacionais para o público educacional Surdo, definindo as escolas ou classes de Educação Bilíngue como aquelas em que a Libras seja a primeira língua de instrução e a Língua Portuguesa na modalidade escrita, a segunda. Ambas devem ser utilizadas desde os anos iniciais de escolarização até os finais, respeitando assim a singularidade linguística deste grupo educacional e suas especificidades nos processos de ensino-aprendizagem (BRASIL, 2005). Segue o texto do capítulo VI do Decreto, denominado “Da garantia do direito à educação das pessoas surdas ou com deficiência auditiva,” com estes direcionamentos: Art. 22 As instituições federais de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva, por meio da organização de: I - Escolas e classes de Educação Bilíngue, abertas a alunos surdos e ouvintes, com professores bilíngues, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental; II - Escolas bilíngues ou escolas comuns da rede regular de ensino, abertas a alunos surdos e ouvintes, para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio ou educação profissional, com docentes das diferentes áreas do conhecimento, cientes da singularidade linguística dos alunos surdos, bem como com a presença de tradutores e intérpretesde Libras - Língua Portuguesa. Parágrafo 1º São denominadas escolas ou classes de Educação Bilíngue aquelas em que a Libras e a modalidade escrita da Língua Portuguesa sejam línguas de instrução utilizadas no desenvolvimento de todo o processo educativo (BRASIL, 2005). A Educação Bilíngue, proposta neste dispositivo legal, inclui também os processos avaliativos, que demandam “mecanismos alternativos para a avaliação de conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em vídeo ou em outros meios eletrônicos e tecnológicos” (BRASIL, 2005). Já para a escrita da Língua Portuguesa, os mecanismos de avaliação como segunda língua, devem ser “[...] coerentes com aprendizado de segunda língua, na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a singularidade linguística manifestada no aspecto formal da Língua Portuguesa” (BRASIL, 2005). Conforme disposto na Política de Inclusão, a Educação Bilíngue de Surdos é a inclusão desses indivíduos em escolas comuns com o desenvolvimento do “ensino escolar na Língua Portuguesa e na Língua de Sinais, o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua na 110 modalidade escrita para alunos Surdos, os serviços de tradutor/intérprete de Libras e Língua Portuguesa e o ensino da Libras para os demais alunos da escola” (BRASIL, 2008b, p. 17). Uma leitura rápida deste texto pode nos levar a acreditar que, a partir do ensino da Língua Portuguesa na modalidade escrita e da Libras, a Política de Inclusão atende aos anseios e às reinvindicações da Comunidade Surda para a Educação Bilíngue. No entanto, o documento não deixa claro qual língua deverá ser utilizada pelo docente nas salas de aula inclusivas. Ademais, ao considerar que o espaço escolar em escolas e classes inclusivas é partilhado entre Surdos e não surdos, que em sua maioria são filhos de pais igualmente não surdos, e sabendo que não é possível usar duas línguas concomitantemente, depreende-se que a língua de construção do conhecimento é a Língua Portuguesa na modalidade oral. Afinal, dificilmente um professor que tem a Língua Portuguesa como sua primeira língua e uma classe com crianças falantes dessa língua, usaria a Libras como língua de comunicação e instrução. A Libras assume assim, o papel de instrumento para a aprendizagem e não principal, uma vez que os processos educativos não são pensados e implementados tomando como ponto de partida a Língua de Sinais. No que se refere ao entendimento de Educação Bilíngue de Surdos nesses documentos, as falas das entrevistadas revelam as divergências no conceito de educação para este grupo linguístico. Emmanuelle Laborit destaca “o pioneirismo e a potência” do Decreto para a garantia da Educação Bilíngue das pessoas Surdas, mas completa que, mesmo assim, consegue “visualizar que há muito a se fazer para garantir a esse sujeito uma melhor e qualificada educação.” Da mesma forma que Charlote Elizabeth, Emmanuelle Laborit considera o Decreto como principal normativo legal para a Educação Bilíngue de Surdos, já que a Política de Inclusão a direciona para a educação inclusiva. Ao analisar os apontamentos desses dois documentos concernentes à Educação Bilíngue de Surdos, depreende-se que ao garantir a inclusão de todos os alunos no ensino regular e o atendimento de suas especificidades, a Política de Inclusão “busca instituir sistemas educacionais que consideram igualdade e diferença como valores indissociáveis e constitutivos de nossa sociedade”, propondo ações que pretendem ultrapassar a exclusão no ambiente escolar e na sociedade em geral (LODI, 2013, p. 3). 111 Sobre esta questão, Julia Brace assegura que o maior impasse da Política de Inclusão, é entender a inclusão como qualquer pessoa na escola regular. Para ela, esta é uma compreensão equivocada em relação aos Surdos e a todas as PcD, pois inclusão não necessariamente significa que você colocar na escola junto com os outros vai incluir, tem casos que não vai funcionar e é o caso do Surdo. Surdos por serem bilíngues, por ter uma condição bilíngue e a sua primeira língua ser a Libras, complica a situação numa escola regular que é em Português, é basicamente isso. ‘Ah, mas aí a gente coloca intérprete’. NÃO. Intérprete não quer dizer que a escola é bilíngue, a escola vai continuar a ser em português e, a escola continuando a ser em português, isso significa si::::m que os Surdos estão em desvantagem em relação aos seus pares, pois não estão com eles (Entrevistada Julia Brace). A Política de Inclusão, ao tentar reconhecer a diferença linguística desses alunos, sugere que eles estejam, na medida do possível, com outros pares Surdos em turmas comuns na escola regular (BRASIL, 2008b). O equívoco circunscreve em estar, na medida do possível, ou seja, quando for possível e não sempre. Convém destacar que, da mesma forma como em qualquer outra língua, a comunicação em Libras não ocorre sozinha ou exclusivamente com intérpretes e professores. Faz-se necessário o compartilhamento com os outros, já que é uma ação social e propicia às crianças Surdas a construção de suas identidades e subjetividades, uma vez que estimula o desenvolvimento de suas relações interpessoais, cognitivas e afetivas (GESSER, 2009). Quanto à identidade Surda, Strobel, sendo Surda, a esclarece “[...] a Língua de Sinais é uma das principais marcas da identidade de um povo surdo [...] é uma forma de comunicação que capta as experiências visuais dos sujeitos surdos” (STROBEL, 2008, p. 44). Por essa perspectiva, Quadros (2017) atesta que a Libras é uma língua com estrutura gramatical própria e elementos fonológicos, sintáticos, morfológicos e semânticos, assim como as línguas orais e como tal, se desenvolve-se através do contato entre seus falantes, isto é, entre os pares Surdos e a comunidade Surda. Quadros e Stumpf (2019) ao apresentar o primeiro artigo em Libras publicado nos periódicos de uma revista científica, certificam que a Libras é um “produto cultural” que necessita de sinalizantes para se desenvolver. Dessa forma, os Surdos perdem por estar em uma escola inclusiva. Marlee Martin acrescenta algo a esta reflexão, declarando que, embora a Política de Inclusão tenha sido escrita no que diz respeito à educação de Surdos, visando a aproximação com a Educação Bilíngue prevista no Decreto, uma “análise dos discursos que a constituem 112 mostra que nenhum diálogo é possível de ser estabelecido entre os dois documentos”. Ela destaca a organização educacional em ambos os documentos: A Política estabelece a mesma organização educacional para todos os níveis educacionais – Surdos em escolas comuns, estudando em salas mistas com não surdos acompanhados por tradutores e intérpretes de Libras – português, o Decreto, diferencia os espaços para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental dos anos finais do fundamental e ensino médio. Para os primeiros níveis de ensino: escolas ou classes de Educação Bilíngue. Para os níveis posteriores: escolas bilíngues ou escolas comuns. Julia Brace se posiciona apontando o desencontro chave entre a política de educação e a política linguística na educação de Surdos, uma vez que, em seu entendimento, ‘A escola da esquina tem que oferecer Libras’, não vai funcionar porque uma escola bilíngue não é em qualquer escola que você faz. Uma escola bilíngue exige to:::da uma estrutura, então tem que ter algumas escolas bilíngues, mas não na escola da esquina. Eu entendo que a Política quis avançar no sentido de todas as escolas terem a estrutura, só que não é assim que acontece. Como apontado por Albres (2017), torna-se simplista a conceituação de escolas e classes bilíngues presente na Política de Inclusão, dado que a configuração de uma Educação Bilíngue em qualquer escola pública não é totalmente adequada devido aos inúmeros problemas comuns às escolas brasileiras,como baixos salários dos professores, precariedade da infraestrutura e falta de qualificação e formação específica de profissionais para o ensino da Libras como L1 e Língua Portuguesa escrita como L2. Ainda no contexto da proposta da Política de Inclusão para a educação de Surdos, Julia Brace reitera: Olha só, chama de “escola inclusiva”. Tá errado. Não é assim. Se distorceu o termo inclusão porque o pensar numa escola bilíngue para Surdos é pensar numa escola inclusiva para Surdos, que vai garantir a inclusão social dos Surdos. Pode ser uma escola só de Surdos, não tem problema. É isso que vai garantir a inclusão dos Surdos. Porque ele vai conseguir ter acesso, se formar e vai aprender a se relacionar com outras pessoas a partir da sua língua. Por acreditar que escola inclusiva não é sinônimo de escola regular e sim de escola significativa, na qual o estudante tem direito a uma educação plena e significativa, ao respeitar e valorizar suas especificidades, destaca-se a importância das escolas bilíngues para Surdos, conforme Sá (1998) e Bueno (2020) apregoam. 113 Por sua vez, Charlotte Elizabeth, opina sobre ambos os normativos legais em relação a proposição de Educação Bilíngue de Surdos afirmando: Minha opinião sobre a legislação relacionada à educação de Surdos é que, na verdade, não tem uma cem por cento. A Política enfatiza a educação inclusiva com AEE no ensino de Libras e Língua Portuguesa como segunda língua e, garante o intérprete de Libras, mas nem existem profissionais em quantidade suficiente, com formação específica e fluentes em Libras de verdade. O Decreto tem muitos incisos, mas só um atende sobre a educação e também deixa aquém do que nós Surdos precisamos. É preciso lembrar que não existe tradução perfeita em nenhuma língua. Logo, parte da informação emitida pelo docente não vai chegar ao aluno Surdo. Não por culpa do intérprete, mas pela natureza do ato interpretativo. Isso sem citar que, por muitas vezes, a metodologia de aula usada em sala com maioria de alunos não surdos, não atende aos alunos Surdos. Outra questão a se considerar neste contexto é a de que, muitas vezes, o intérprete assume o papel docente no processo de escolarização dos Surdos, já que são os únicos profissionais na escola a dominar a Língua de Sinais (QUADROS; PIZZIO, 2007). Ao ter como direcionamento a presença de intérpretes nas escolas bilíngues propostas na Política de Inclusão, esse profissional poderá ficar encarregado do ensino, como constatado na dissertação de Medeiros (2017) e em diversas pesquisas publicadas em revistas acadêmicas (PINHEIRO, 2020; LACERDA, 1996; GESSER, 2019). A partir da fala dessa entrevistada e de estudos que tratam da formação e atuação dos profissionais TILS nas escolas inclusivas (DORZIAT, 2012), fica evidente a escassez de profissionais devidamente qualificados para esta proposta de educação de Surdos, ressaltando- se, também, a necessidade de qualificação específica para esses profissionais. Tal constatação amplia a percepção sobre as demandas das pessoas Surdas na sociedade, pois os intérpretes foram instituídos como facilitadores na comunicação entre Surdos e não surdos (BRASIL, 2010b). Todavia, como foco o desta pesquisa está na formação inicial de professores bilíngues de Surdos, os quais devem atuar sem a presença de intérpretes, não será discutido sobre o papel deste profissional no processo de escolarização bilíngue das crianças Surdas. Com efeito, a partir dos postulados da Política de Inclusão, indaga-se: Os Surdos têm acesso à educação em sua primeira língua, se ela é mediada por intérpretes? 114 A despeito do AEE, como apoio para a organização da Educação Bilíngue de Surdos no ensino regular, a Política de Inclusão traz como um de seus marcos históricos e normativos legais o Decreto nº 5.626/2005 e estabelece para a Educação Bilíngue de Surdos o AEE tanto, na modalidade oral e escrita, quanto na Língua de Sinais (BRASIL, 2008b). De acordo com este normativo, o AEE é realizado mediante a atuação de profissionais com conhecimentos específicos no ensino da Língua Brasileira de Sinais, da Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua, do sistema Braille, do soroban, da orientação e mobilidade, das atividades de vida autônoma, da comunicação alternativa, do desenvolvimento dos processos mentais superiores, dos programas de enriquecimento curricular, da adequação e produção de materiais didáticos e pedagógicos, da utilização de recursos ópticos e não ópticos, da tecnologia assistiva e outros (BRASIL, 2008b, p. 17). A formação do profissional que atuará no AEE será analisada na subcategoria b) que trata da formação inicial de professores bilíngues, mas, novamente, percebe-se a orientação para mediação da educação de Surdos pelos intérpretes. Seguindo com a compreensão do que seja Educação Bilíngue de Surdos conforme os documentos selecionados, Hellen Keller se posicionou afirmando que Para educação de Surdos no Brasil, o parâmetro normativo é só o Decreto 5626, porque a Política Nacional de Educação Especial é muito ampla e fala de uma maneira geral da Educação Especial e só traz um puxadinho da educação de Surdos. A Política Nacional era um documento mais amplo que vinha pra atender aos anseios da Educação Especial. O Brasil vinha sendo signatário de uma Política de Inclusão, então aquele documento precisava em alguma medida explicitar como é que as redes iriam se apoiar ou organizar em relação à inclusão. Ela veio para apoiar ou se organizar em relação à inclusão. O Decreto 5626 tinha também um compromisso com a educação inclusiva, mas ele tinha um compromisso com educação de Surdos, então eu diria que as incoerências do Decreto 5626 ficam menos visíveis e, na Política Nacional, as dicotomias e as cisões, estão mais explícitas. Na verdade, foram dois grupos que trabalharam, então um grupo trabalhou no geral da Lei e um grupo trabalhou no específico, e aí ficou aquela coisa meio bipartida né? Faz parte do mesmo documento, mas comunica coisas um pouquinho diferentes. Com base nesta afirmação, destaca-se uma informação importante a respeito da Política de Inclusão. Ela foi formulada considerando os preceitos de diversos documentos nacionais e internacionais (BRASIL, 1988, 1994, 2001; UNESCO, 1990; entre outros) e, especificamente a Declaração de Salamanca, instituída em 1994, atribui status linguístico às línguas de sinais ao reconhecer seu valor constitutivo na subjetividade das pessoas Surdas. Ela considera também que todos os alunos Surdos devam ter seu processo educacional nessas línguas como línguas de instrução. Sendo assim, a Política de Inclusão fere a Declaração, já que não reconhece a 115 diferença linguística existente neste público, apesar de afirmar o contrário. Prova disso é a proposição de inclusão da pessoa Surda em escolas regulares. Diante do exposto e, ainda pensando-se no embate traçado entre a proposição de Educação Bilíngue de Surdos, no Decreto e na Política de Inclusão, Silva e Oliveira (2016) e Lodi (2013) afirmam que esta Política tem maior aproximação com a concepção de Educação Bilíngue no contexto da Educação Especial na perspectiva da inclusão, uma vez que os processos educativos não são pensados e implementados tomando como ponto de partida a Libras. Lacerda, Albres e Drago (2013) corroboram com essa análise, tendo em vista que apesar da Libras ser oficializada e regulamentada legalmente como a língua de instrução dos Surdos brasileiros, capaz de favorecer um melhor desempenho escolar, são poucas as experiências exitosas de escolas bilíngues tal qual os Surdos necessitam, e citam como exemplo escolas do município de São Paulo, que apesar de serem bilíngues ou terem salas de atendimento para alunos Surdos, utilizam a Libras como língua de mediação e não de instrução ou interlocução. Sobre estaquestão, Marlee Matlin complementa: Na Política, a Libras assume o papel de instrumento para a aprendizagem – aceita-se discursivamente sua circulação no interior da escola/sala de aula, sem haver o questionamento de sua importância para a aprendizagem dos Surdos. No Decreto, ela tem papel central na educação dos Surdos, seja na construção do conhecimento, seja em formas de avaliação dos estudantes. A escrita do português, entendida como segunda língua, também irá requerer processos de avaliação coerentes com a aprendizagem de uma segunda língua. Na Educação Bilíngue pautada na percepção dos Surdos e estudiosos da área, a Língua de Sinais não deve ser vista como uma espécie de apoio ou adaptação que torna possível seu acesso aos conteúdos escolares. Para além disso, ela é a língua de instrução por meio da qual todos os conhecimentos, valores e hábitos devem ser transmitidos pelos professores, gestores e demais agentes escolares. A partir das divergências no conceito de Educação de Surdos existentes no Decreto e na Política de Inclusão, evidenciadas através dos documentos e das respostas das participantes da pesquisa, observou-se que o Decreto compreende Educação Bilíngue de Surdos como uma questão social que envolve a Libras e a Língua Portuguesa, em uma relação intrínseca com os aspectos culturais determinantes e determinados por cada língua. A Política de Inclusão, por sua vez, reduz a Educação Bilíngue à presença de duas línguas no interior da escola sem propiciar que cada uma assuma seu lugar de pertinência para 116 os grupos que as utilizam, mantendo a hegemonia da Língua Portuguesa nos processos educacionais. Tal concepção limita a transformação proposta para a educação de Surdos apenas ao plano discursivo e restringe a inclusão à escola, impossibilitando uma ampliação desse conceito a todas as esferas sociais, conforme defendido pelo Decreto. Essa diferença entre os sentidos dos conceitos de Educação Bilíngue e de inclusão nos dois documentos, têm alimentado velhas tensões e inviabilizado o diálogo entre as proposições da Política de Inclusão e do Decreto, especialmente no direcionamento para a formação inicial de professores bilíngues, que nela atuarão. No tópico a seguir, identificou-se e examinou-se a proposta para a formação inicial de professores bilíngues, com base nos preceitos de educação de Surdos que constam no Decreto e na Política de Inclusão. b) Formação inicial de professores bilíngues Refletindo sobre a proposição da formação inicial de professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos, apresentam-se os textos dos documentos legais selecionados que tratam dessa questão para, em seguida, analisá-los em conjunto com as respostas obtidas nas entrevistas e questionários. No Capítulo II do Decreto, intitulado “Da inclusão da Libras como disciplina curricular”, há a determinação da inserção da Libras Art. 3º [...] como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Parágrafo 1º Todos os cursos de licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o curso normal de nível médio, o curso normal superior, o curso de Pedagogia e o curso de Educação Especial são considerados cursos de formação de professores e profissionais da educação para o exercício do magistério. Parágrafo 2º A Libras constituir-se-á em disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional, a partir de um ano da publicação deste Decreto. Nota-se que não há definição da carga horária a ser trabalhada na disciplina de Libras. No entanto, pesquisas como as de Martins e Ribeiro (2015) e Santos et al (2015), apontam que a carga horária para o aprendizado da Libras em cursos superiores tem se mostrado insuficiente. 117 Segundo esses estudos, o entendimento dos estudantes de licenciatura sobre a possibilidade de aprendizado desta língua com menos de 50 horas em seus cursos de formação - o que comumente é praticado - mostra o desconhecimento desses futuros professores sobre as especificidades linguísticas e culturais imbricadas na aquisição da Libras. Além disso, trabalhos como os de Martins e Ribeiro (2015), Souza (2017) e Iachinski et al (2019) evidenciam o ensino de sinais isolados na disciplina de Libras dos cursos superiores. Tal entendimento não considera os aspectos discursivos da Língua de Sinais, não a contextualiza histórica, social e culturalmente e, portanto, não capacita os futuros docentes para as necessidades linguísticas dos estudantes Surdos. Klein e Santos (2015) e Iachinski et al (2019), argumentam ainda que essa disciplina tem sido equiparada a um curso básico de Libras, já que não há a seleção de conteúdos relacionados com situações do cotidiano da prática docente. Pode-se evidenciar, como já apontado por Martins e Ribeiro (2015), que a simples inclusão de uma disciplina no currículo da educação superior, por imposição legal, não é suficiente para o aprendizado da Libras. Outra constatação possível é que os aspectos aqui analisados convergem para a atuação do professor na educação inclusiva dos Surdos e não à Educação Bilíngue. Isso porque apenas uma disciplina não é suficiente para preparar o profissional para a Educação Bilíngue proposta no próprio Decreto. Ainda assim, é pertinente destacar que esta disciplina tem sido relevante para a desmistificação de conceitos equivocados a respeito da surdez, beneficiando a difusão e o uso da Libras nas escolas regulares e motivando os professores a utilizar estratégias e práticas de ensino diferenciadas para os alunos Surdos (SOUZA, 2017; FREITAS, SILVA, 2018). Ademais, a obrigatoriedade de inserção da disciplina de Libras nos cursos de licenciatura e de Fonoaudiologia e, de forma optativa, nos demais cursos do ensino superior, representa uma conquista para a educação de Surdos e para formação de futuros professores, posto a visibilidade que os profissionais Surdos puderam ter. Como afirmam Lodi e Lacerda (2015, p. 294), a admissão de professores Surdos para o ensino da Libras nos cursos superiores tem sido um “espaço privilegiado de atuação” destes profissionais, à medida que os mesmos têm “a oportunidade de intervir, de alguma forma, com aqueles que serão (potencialmente) os futuros professores de Surdos”. Prosseguindo às regulamentações dispostas no Decreto nº 5626/2005 sobre a formação inicial de professores de Surdos, há um capítulo inteiro dedicado ao assunto, o terceiro: “Da 118 formação do professor de Libras e do instrutor de Libras”. Ele é constituído por 13 Artigos, 12 parágrafos e 13 incisos, sendo o maior capítulo do documento. Merecem destaque seus Artigos 4º, 5º e 11º: Art. 4º A formação de docentes para o ensino de Libras nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior deve ser realizada em nível superior, em curso de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa como segunda língua. Parágrafo único. As pessoas surdas terão prioridade nos cursos de formação previstos no caput. Art. 5º A formação de docentes para o ensino de Libras na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental deve ser realizada em curso de Pedagogia ou curso normal superior, em que Libras e Língua Portuguesa escrita tenham constituído línguas de instrução, viabilizando a formação bilíngue. Parágrafo 1º Admite-se como formação mínima de docentes para o ensino de Libras na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, a formação ofertada em nível médio na modalidade normal, que viabilizar a formação bilíngue, referida no caput. Art. 11º.O Ministério da Educação promoverá, a partir da publicação deste Decreto, programas específicos para a criação de cursos de graduação: I - para formação de professores surdos e ouvintes, para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, que viabilize a Educação Bilíngue: Libras - Língua Portuguesa como segunda língua; II - de licenciatura em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa, como segunda língua para surdos; III - de formação em Tradução e Interpretação de Libras - Língua Portuguesa. A Política de Inclusão, por seu turno, tem como uma de suas diretrizes a “formação de professores para o AEE e demais profissionais da educação para a inclusão.” Para atuar na educação especial, o professor deve ter como base da sua formação, inicial e continuada, conhecimentos gerais para o exercício da docência e conhecimentos específicos da área. Essa formação possibilita a sua atuação no atendimento educacional especializado e deve aprofundar o caráter interativo e interdisciplinar da atuação nas salas comuns do ensino regular, nas salas de recursos, nos centros de atendimento educacional especializado, nos núcleos de acessibilidade das instituições de educação superior, nas classes hospitalares e nos ambientes domiciliares, para a oferta dos serviços e recursos de Educação Especial. Esta formação deve contemplar conhecimentos de gestão de sistema educacional inclusivo, tendo em vista o desenvolvimento de projetos em parceria com outras áreas, visando à acessibilidade arquitetônica, os atendimentos de saúde, a promoção de ações de assistência social, trabalho e justiça (BRASIL, 2008b). Nessa linha, a Resolução nº 4, de 2 de outubro de 2009, ao instituir as Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na educação básica, modalidade Educação Especial, define em seu Art. 12º que “para atuação no AEE, o professor deve ter formação inicial que o habilite para o exercício da docência e formação específica para a educação especial” (BRASIL, 2009f). 119 Para o atendimento aos alunos do AEE, os profissionais que atuam neste campo devem ter conhecimentos específicos no ensino da Língua Brasileira de Sinais, da Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua, do sistema Braille, do soroban, da orientação e mobilidade, das atividades de vida autônoma, da comunicação alternativa, do desenvolvimento dos processos mentais superiores, dos programas de enriquecimento curricular, da adequação e produção de materiais didáticos e pedagógicos, da utilização de recursos ópticos e não ópticos, da tecnologia assistiva e outros (BRASIL, 2008b). Nesse contexto, de acordo com os dispositivos legais citados, tem-se o professor de Libras como o profissional mais habilitado para o ensino dessa língua aos educandos Surdos da educação básica, com a definição dos cursos de formação inicial que o certificam para esta função. Qualifica-se também o professor de AEE que dentre outras funções, deve atuar na educação de Surdos, com formação inicial na Educação Especial. Convém reforçar que a Educação Bilíngue de Surdos, defendida pela Comunidade Surda, é aquela em que as diferenças linguísticas e culturais dos Surdos são consideradas e, por isso, se distanciam-se dos preceitos da educação inclusiva, como já citado anteriormente. Dito isso, é importante ressaltar a fala das entrevistadas, que expressam suas opiniões sobre a definição dos cursos de formação inicial de professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos e as divergências dessas concepções à luz do Decreto e da Política de Inclusão. Emmanuelle Laborit acredita que a principal legislação que organiza as profissões a fim de garantir a Educação Bilíngue é o Decreto. Ela não aponta divergências entre os normativos legais analisados pois, no seu entendimento, não há “convergências nem divergências nestes documentos, apenas pioneirismo e potência no Decreto para garantir a Educação Bilíngue do Surdo”. Julia Brace destaca: Realmente o Decreto é um documento importante porque ele formaliza a questão do oferecimento do curso de Letras/Libras, da Pedagogia bilíngue e da formação de tradutores e intérpretes, que são as formações chave dos profissionais que vão atuar na educação de Surdos. Eu acho que o grande problema da Política para os Surdos é entender que basta colocar na escola regular e pronto, sem considerar a Língua de Sinais. Isso reflete na formação de professores, porque para a Política, tem um professor de AEE para atender o Surdo fora da aula e tem o intérprete, na aula. Hellen Keller, por seu turno, afirma: O que eu vejo no Decreto 5626 é que ele é a primeira legislação que vai pensar de verdade na Educação Bilíngue de Surdos no Brasil e na formação de professores. Ele é 120 ousado ao criar três figuras profissionais que não existiam, o intérprete de Língua de Sinais que até então, aparecia lá na Lei de 2000, mas não definido nada sobre a formação, o professor bilíngue e o professor de ensino de Libras. E aí como ele vai falar de três figuras profissionais para o cenário da educação, ele tem um pouco que definir qual é a formação, ou quem seriam, ou como é que essa estrutura se daria. Então, ali tem um esforço de definir essas três funções, de situar né? Mas o profissional que acaba ficando melhor descrito ali é o professor de Libras, que é alguém que tem que fazer a formação de Letras/Libras, para se formar professor para ensinar Libras. Então define a licenciatura com as características da licenciatura de formação de professores para ensino de Libras, bem definida, bem circunscrita e endereçada fundamentalmente para a disciplina de Libras do ensino superior. Então eu formo esse cara porque aí ele vai poder ministrar as disciplinas de Libras que estão no mesmo Decreto apontadas e que devem fazer parte da formação do futuro licenciado. Esse eu acho que o profissional que tá melhor definido lá e é o profissional que vai assegurar não a política de Educação Bilíngue, mas a política inclusiva, porque eu formo para ensinar professor que vai dar aula na sala comum para Surdos e ouvintes. Então na verdade o Decreto todo que é para educação de Surdos, que é uma coisa bem importante, é um marco teórico, é um avanço, mas o avanço maior que ele promove é na formação do professor de Libras e esse cara vai formar ouvintes que vão dar aula para Surdo necessariamente não aprendendo Libras, porque num semestre é difícil você aprender uma língua. Então é um pouco para difundir a ideia da inclusão, de que tem uma outra língua, outro público e de que você vai ser professor da rede regular e que vai receber esse aluno lá. Marlee Matlin explica Dois documentos discutem a educação de Surdos no Brasil, o Decreto nº 5.626/05 e a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008. No entanto, o único que aborda a formação inicial para a Educação Bilíngue de Surdos é o Decreto 5.626/05, quando em seu Art. 11 prevê a promoção de programas específicos para a criação de cursos de graduação: “I - para formação de professores surdos e ouvintes, para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, que viabilize a Educação Bilíngue: Libras - Língua Portuguesa como segunda língua (...)”. Os demais Artigos restringem a formação do professor para o ensino de Libras e não uma formação que assegure os processos educacionais dos estudantes Surdos na educação infantil e nos anos iniciais do fundamental. Para os anos finais do ensino fundamental e ensino médio, a formação prevista é também a do professor de Libras, realizada em cursos de Letras/Libras. Para ministrar as disciplinas das diversas áreas do conhecimento, prevê-se licenciados que conheçam as especificidades linguísticas dos Surdos e que estarão acompanhados de tradutores e intérpretes de Libras. A Política de Inclusão, por sua vez, prevê a formação dos profissionaisda Educação Especial e, portanto, para atuarem no AEE e não nas salas comuns de ensino. Para isso, prevê- se uma formação inicial e continuada em graduação de Educação Especial visando sua atuação em diferentes espaços. Contrariamente a todas estas afirmações, Charlotte Elizabeth advoga: Minha opinião sobre a legislação relacionada à formação é que na verdade ela não é 100% na realidade. Tem muitos incisos no Decreto 5626, mas só um atende sobre a 121 educação. O Decreto fala muito de formação de Letras/Libras, pós graduação bilíngue, o ensino bilíngue, mas não fala especificamente da formação de professores. Sobre a legislação específica para formação de professores para Educação Bilíngue, na verdade não existe. O não surdo tem diretrizes específicas para o ensino, mas não para os Surdos. Depreende-se, das falas acima, que o Decreto foi apontado como relevante para a formação inicial de professores bilíngues, por quatro das cinco respondentes. Merece destaque a opinião de Charlotte Elizabeth, pois ela foi a única que defendeu não haver uma legislação específica para esta demanda. Dito isso, convém rememorar que ela é a única Surda entrevistada deste grupo selecionado para participar da pesquisa, o que permite inferir que, apesar de todas as respondentes participarem ativamente na Comunidade Surda, apenas esta entrevistada vive a surdez, o que a faz ter uma visão diferente sobre os aspectos analisados até aqui. Considerando-se as afirmações de Marlee Matlin e o Art. 4º do Decreto, percebe-se que a formação inicial de professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior, refere-se apenas à formação em Libras em nível superior e somente para o ensino de Libras. Não há menção ao ensino dos demais componentes curriculares. Logo, esta determinação do Decreto nos faz refletir: como o aluno Surdo tem acesso às demais matérias em sua primeira língua? Sempre com a intermediação de intérpretes? Ora, essa não é a proposição da educação inclusiva? Soma-se a isso a ponderação de Julia Brace, sobre o deslocamento do ensino em Libras para os espaços de AEE nas escolas inclusivas. Como afirma Lodi (2013), os professores que atuam no AEE não possuem conhecimento específico sobre a Libras, nem dominam as metodologias de ensino pensados nesta língua. Outra constatação possível se dá a partir da reflexão de Hellen Keller sobre a formação de professores ser direcionada para o ensino de Libras no ensino superior e, por conseguinte, para profissionais que atuarão em salas comuns com Surdos e não surdos. Dessa forma, novamente, privilegiam-se não os princípios da política de Educação Bilíngue de Surdos, mas sim os da educação inclusiva. Convergindo com este entendimento, Lodi e Lacerda (2015), ao analisarem sobre o impacto da formação de professores de Libras para a educação, após dez anos de publicação do Decreto, alertam sobre os impasses decorrentes deste documento legal em relação à educação de Surdos. De acordo com as autoras, a formação inicial de professores prevista no Decreto 122 enfatiza os conteúdos linguísticos em detrimento dos didáticos-pedagógicos, o que desvaloriza a Libras, distanciando-a de seu status linguístico, ao passo que ganha caráter instrumental na educação dessa parcela de nossa sociedade (LODI; LACERDA, 2015). Questiona-se, portanto: Quais os efeitos desta formação para os futuros professores de Surdos, ao destacar os conteúdos linguísticos? Em diálogo com as ponderações realizadas por Saviani (2009), observa-se que essa formação parece ser reflexo do processo de formação docente brasileiro, o qual é marcado por contínuas transformações caracterizadas por sucessivas descontinuidades nas propostas e práticas realizadas. O referido autor defende dois modelos teóricos de formação de professores que se contrapõem. Um, “o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos,” prioriza a cultura geral e o domínio específico da área de conhecimento da disciplina que o professor irá lecionar (SAVIANI, 2009, p. 148). A formação pedagógica-didática neste contexto “é adquirida na própria prática docente ou através de treinamento em serviço” (idem). O segundo modelo contrapondo-se ao primeiro, é intitulado “pedagógico-didático”, e “considera que a formação propriamente dita dos professores só se completa com o efetivo preparo pedagógico-didático” (SAVIANI, 2009, p. 149). Logo, a formação do futuro professor deve contemplar além da cultura geral e da área específica de conhecimento, a preparação pedagógico-didática. Nessa linha, Lodi e Lacerda (2015) refletem sobre a formação de professores bilíngues posta desde o Decreto e a Política de Inclusão, que está fragmentada apenas na capacitação do componente curricular Libras, o que corresponde ao modelo denominado por Saviani (2011), de conteúdos culturais-cognitivos. Apesar de o modelo pedagógico-didático ter ganhado espaço na organização dos currículos formativos, tornando-se componente curricular obrigatório nos cursos de licenciaturas, evidencia-se, nesta análise, que a mesma ainda carece de articulação entre os dois modelos de formação de professores bilíngues de Surdos. Para a formação de docentes para o ensino de Libras na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, o Decreto estabelece em seu Art. 5º o curso de “Pedagogia ou curso normal superior, em que Libras e Língua Portuguesa escrita tenham constituído línguas de instrução, viabilizando a formação bilíngue” (BRASIL, 2005, grifo nosso). Destaca-se que o referido Artigo prevê a formação desse professor sem, no entanto, mencionar detalhes desse processo para a execução de uma Educação Bilíngue, ou seja, não faz referência a aspectos da formação pedagógica para a prática de ensino no contexto daquela 123 modalidade educacional. O fato da mesma se dar em duas línguas distintas de instrução não garante a apropriação de saberes docentes necessários à Educação Bilíngue. Dessa forma, para a promoção de uma Educação Bilíngue, exige-se o conhecimento linguístico, mas não necessariamente o conhecimento pedagógico. No que tange à ação pedagógica em Educação Bilíngue, o Decreto prevê a criação de cursos de Pedagogia Bilíngue: I - Para formação de professores surdos e ouvintes, para a educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, que viabilize a Educação Bilíngue: Libras - Língua Portuguesa como segunda língua (BRASIL, 2005). Constata-se que o curso de Pedagogia Bilíngue ou o Normal superior são estabelecidos como cursos de formação para o ensino de Libras na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Ao considerar que o profissional licenciado em Pedagogia é aquele legalmente capaz para atuação na educação infantil, conforme a LDB de 1996 (BRASIL, 1996), conclui-se que somente nessa etapa da educação os alunos Surdos terão seu direito à educação garantido, já que o professor será, ao menos espera-se que seja, fluente em Libras. No entanto, de acordo com os Artigos 5º e 6º, é permitida também a formação dos profissionais que atuarão nesses níveis de educação - denominados de professores de Libras no Artigo 5º e instrutores de Libras, no Artigo 6º - em nível médio e de formação continuada, como pode-se constatar no Art. 6o A formação de instrutor de Libras, em nível médio, deve ser realizada por meio de: I - Cursos de educação profissional; II - Cursos de formação continuada promovidos por instituições de ensino superior; e III - Cursos de formação continuada promovidos por instituições credenciadas por secretarias de educação. Parágrafo 1o A formação do instrutor de Libras pode ser realizada também por organizações da sociedade civil representativa da Comunidade Surda, desde que o certificado seja convalidado por pelo menos uma das instituições referidas nos incisos IIe III. Parágrafo 2o As pessoas surdas terão prioridade nos cursos de formação previstos no caput. Ao analisar este trecho do Decreto, recorda-se o que é amplamente debatido entre estudiosos da área de formação de professores com referência à formação em nível médio, pois esta desqualifica e desvaloriza a capacitação do profissional (SAVIANI, 2009; TANURI, 2000). Soma-se a isso a diferenciação posta entre o professor e o instrutor de Libras. Enquanto para o professor de Libras há a determinação de formação pedagógica tanto no nível médio 124 como em curso de modalidade normal, em nível superior nos cursos de Pedagogia e Letras/Libras; ao instrutor, não está explícita a necessidade de formação pedagógica. O Decreto ainda estabelece, em seu Artigo 8º, que ambos os profissionais poderão exercer a função docente, desde que comprovem a proficiência em Libras após um exame: Art. 8o O exame de proficiência em Libras, referido no Art. 7o, deve avaliar a fluência no uso, o conhecimento e a competência para o ensino dessa língua. Parágrafo 2o A certificação de proficiência em Libras habilitará o instrutor ou o professor para a função docente (BRASIL, 2005, grifo nosso). Concernente à formação destes profissionais, Faria (2011) questiona qual o papel do instrutor de Libras na educação básica, já que, de acordo com o Decreto, essa denominação não identifica um profissional com formação pedagógica, sendo ele citado de forma alternativa ao papel desempenhado pelo professor de Libras. A autora problematiza a força jurídica de um Decreto, capaz de certificar a função docente através de um exame de proficiência, em detrimento da formação pedagógica garantida por uma Lei, a LDB nº 9694/1996. Ainda de acordo com a autora, o profissional Surdo é designado instrutor de Libras, mesmo quando exerce atividade peculiar à docência e possui formação pedagógica. A partir dessa reflexão, verifica-se que a formação oferecida aos instrutores, da mesma forma que os processos discutidos por Saviani (2011) para a formação de professores, privilegia o domínio da Libras em relação ao seu uso, sem uma preparação didático-pedagógica, que o capacite para o desenvolvimento da prática de ensino da língua. Com referência à formação inicial de professores que atuarão na educação básica, convém rememorar o Art. 62 da LDB nº 9.694/1996, que estabelece o nível e o local dos cursos com tal finalidade: Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal (BRASIL, 1996). Ainda nesta legislação há um Artigo para as “Disposições Transitórias”, que institui a “Década da Educação”, a partir do ano de publicação do documento (LDB 1996, Artigo 87). Em seu 4º parágrafo, determina-se que “até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço”. 125 A partir desse dispositivo legal, acirraram-se os debates sobre a política de formação dos profissionais da educação no Brasil. Como analisam Reis et al (2020), o debate traçado versa, dentre outras questões, sobre o modelo de formação de professores, as questões de aligeiramento da formação e as mudanças na educação básica. Porém, é consenso entre os estudiosos da temática, que a formação de professores em nível superior em cursos de licenciatura é essencial tanto para a qualidade da educação, quanto para a profissionalização docente. Por este motivo, reforça-se a necessidade de formação em nível superior para todos os professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos. Enfatiza-se, também, que para que haja a educação verdadeiramente bilíngue de Surdos, faz-se necessária uma formação inicial de professores que articule tanto os conteúdos culturais-cognitivos, como os pedagógico-didáticos, assim como defendem Lodi e Lacerda (2015). Neste sentido, admite-se o complexo desafio imposto, dada a falta de saber significativo acumulado sobre a temática, em virtude do início dos estudos sobre a Educação Bilíngue de Surdos datar do final da década de 1980 (ALBRES, 2013). Para finalizar, consideram-se, também, as respostas de Hellen Keller e Julia Brace sobre a definição da formação do TILS, pois ele é o profissional que irá trabalhar com o professor regente na educação de Surdos, de acordo com a Política de Inclusão e com o Decreto. Por este motivo, percebe-se mais uma vez que o modelo de formação inicial de professores bilíngues é direcionado pela concepção de educação inclusiva, não bilíngue, conforme defendido pela Comunidade Surda, como já dito anteriormente. Nas discussões realizadas até aqui foram verificadas as divergências no conceito de Educação Bilíngue de Surdos, presentes no Decreto e na Política de Inclusão e, por conseguinte, os efeitos para a formação inicial de professores que nela atuarão. As constatações tiveram como base, os documentos legais selecionados e a apreciação das respostas obtidas através das entrevistas e questionários a cinco influentes pesquisadoras sobre esta temática. No tópico a seguir, serão identificados os desafios enfrentados por professoras bilíngues da EBT, no exercício de sua docência, e a possível relação com seus cursos de formação inicial. 126 4.2.2 Desafios enfrentados por professoras bilíngues de Surdos no exercício de sua docência e a possível relação com seus cursos de formação Para responder ao segundo objetivo deste estudo, utilizaram-se respostas obtidas através das entrevistas realizadas com seis professoras da EBT, cotejadas com o material teórico estudado. Após procedimento descrito anteriormente, definiu-se a categoria: Desafios enfrentados por professoras bilíngues. Considerou-se relevante analisar os desafios de profissionais em atuação, por se acreditar, assim como Tardif (2002, p. 36), que os saberes docentes são concebidos como “um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais.” Diante do questionamento sobre ter estudado com Surdos na faculdade e que diferença este fato teria feito em suas formações (questão 9 do apêndice B), apenas duas respondentes afirmaram que sim, as mesmas estudaram com Surdos no curso de Letras/Libras. Destaca-se que ambas são Surdas, cursaram Pedagogia e apontaram a distinção em ter pares Surdos nas aulas, como comprovam os trechos das falas: “Fez muita diferença ter estudado com colegas Surdos porque tive apoio, interação e troca de conhecimento e de conceitos, foi muito, muito importante (Respondente Violeta)”. Orquídea por sua vez acrescenta: Estudar com outro Surdo foi uma mudança e experiência muito importante porque são realidades diferentes, mas que eu compreendo e foi uma interação muito rica. As pessoas que compartilhavam eram pessoas Surdas e é incomparável com o curso de Pedagogia porque em Pedagogia, eram experiências voltadas para pessoas não surdas. Então como que a experiência não surda vai fazer com que o ensino foque na educação de Surdos? Porque todos os exemplos, todas as teorias, todos os trabalhos eram voltados para a educação dos não surdos, consequentemente, a educação oralizada. É uma dificuldade que os Surdos têm na escrita da Língua Portuguesa, então mesmo eu tendo a formação em Pedagogia, foi um processo muito complexo para eu me adaptar, porque eu tive que pensar em estratégias para o ensino de Surdos. Eu confesso que foi um trabalho muito árduo porque eu não tive experiência de ensino para Surdos na licenciatura em Pedagogia. Então eu não tive êxito. Na verdade, eufui a única Surda e tive que me virar. Não foi fácil (Respondente Orquídea, grifo nosso). Para elas, essa ocorrência proporcionou troca, aprendizado e conhecimento, o que comprovam Quadros (1997) e Gesser (2009) ao ressaltar sobre a importância de pares Surdos para o fortalecimento da identidade desses indivíduos. É no contato com sua língua natural que este público tem a possibilidade de alcançar seu nível máximo de desenvolvimento. Neste contexto, Damásio (2005) ressalta: 127 A Libras possibilita o desenvolvimento linguístico, social e intelectual daquele que a utiliza enquanto instrumento comunicativo, favorecendo seu acesso ao conhecimento cultural científico, bem como a integração no grupo social ao qual pertence (DAMÁSIO, 2005, p. 61). Orquídea pontua sobre a experiência não surda sobre a Surda, referindo-se à formação do professor que atuará com a educação de Surdos. A reflexão da respondente alicerça a importância de uma preparação diferente da não surda, dadas as diferenças sociolinguísticas e culturais desse grupo educacional, como já mencionado no decorrer deste estudo. Além disso, o fato de não ter contato com Surdos no curso de Pedagogia, em conformidade com o identificado pela respondente, dificultou seu aprendizado enquanto aluna de um curso de formação de professores. A entrevistada concluiu que por não ter tido acesso a metodologias voltadas para à Cultura Surda, não obteve êxito em sua formação para a docência com Surdos nesse curso. A interação com Surdos, o domínio da Libras e o conhecimento das diferenças desses indivíduos é basilar para a formação de professores que atuarão na educação desse público, afinal, como o profissional será professor de Surdos se sequer domina sua língua e entende as especificidades e nuances da pessoa Surda na percepção e interação com o mundo? No entanto, raras vezes este profissional está capacitado com tais premissas, como mostra Margarida em seu discurso: Tinha uma professora que não usava Libras, usava muito texto. Ela não trazia imagens, geografia e atualidades precisam muito de imagem. Então eles (os alunos) reclamaram muito e ela é uma professora antiga. Eu não sei a trajetória dela, eu não a conheço, mas soube pelos próprios alunos que não conseguiam aprender porque a professora queria só escrever e não usava Libras. A falta de fluência em Libras por professores de escolas bilíngues também é retratada nas pesquisas de Jesus e Fernandes (2017) e Vedoato (2020), realizadas em escolas bilíngues do estado do Paraná. Jesus e Fernandes (2017) atestam a fragilidade no conhecimento da Libras e a ausência de critérios que considerem a fluência linguística para a atuação de professores bilíngues. Da mesma forma que o exemplificado por Margarida, a Libras é secundarizada em relação à Língua Portuguesa que figura como principal língua de interação e no currículo. Vedoato (2020) constatou a necessidade de TILS para mediar a comunicação entre alunos Surdos e professores não surdos, apesar destes terem afirmado que se comunicavam sem dificuldades com aqueles. Esses pontos levam ao questionamento: Como os professores da Educação Bilíngue de Surdos têm assumido sua relação pedagógica, considerando que o 128 conhecimento da Libras não é suficiente para o desenvolvimento do processo de ensino- aprendizagem junto a este grupo educacional? Como assegura Quadros (2006b, p. 19) [...] a Educação Bilíngue depende de professores bilíngues. Assim, pensar em ensinar uma segunda língua pressupõe a existência de uma primeira língua, o professor que assumir esta tarefa necessita aprender a Língua de Sinais Brasileira. No que se refere ao aprendizado adquirido durante a licenciatura e sua aplicabilidade na prática da docência para Surdos (questão 1 do Apêndice B), todas as respondentes declararam não haver tido nenhum aprendizado nas primeiras licenciaturas. Foi através da prática na docência e convivência com a Comunidade Surda e posteriormente do curso de Letras/Libras, que as professoras aprenderam sobre esse campo específico. As falas selecionadas, a seguir, evidenciam esse aspecto: Quadro 7 - Respostas obtidas através das entrevistas aplicadas às professoras Professora Resposta obtida Tulipa Olha, não aprendi nada sobre dar aula para Surdos porque a minha faculdade não era voltada pro ensino de Surdos, era voltada para o ensino regular. Tudo que eu aprendi para dar aula pra Surdos foi na prática e fazendo cursos. Girassol Na faculdade eu não aprendi nada relacionado a dar aula para Surdos. Mas a metodologia, a prática, didática e planejamento de ensino, criação de material didático e tudo que eu aprendi, eu adaptei para os Surdos Violeta No curso de Pedagogia o foco era ouvintes e não teve nada sobre ensino para educação de Surdos, então foi uma adaptação que eu fiz, eu busquei com a Comunidade Surda, com professores da Comunidade Surda e eu tive um conhecimento mais abrangente nesse aspecto, mas no curso de pedagogia não. Tudo que eu aprendi foi com a Comunidade Surda porque a pedagogia é um curso com foco em ouvintes. Esse curso só me valeu foi o certificado, mas experiência para educação de Surdos, não me valeu nada. Quando eu estudei Letras/Libras aí sim eu aprendi sobre metodologia do ensino voltada para a educação de Surdos para saber a questão dos parâmetros, os classificadores da língua, aí é sem comparação. Orquídea Eu fiz magistério para dar aula para crianças Surdas porque queria ser um exemplo de identidade para elas. Mas fiz Pedagogia porque fui convidada pelo GDF pelo Projeto Professor Nota 10 e não aprendi nada sobre Surdos. Já no curso Letras/Libras eu aprendi muito e profundamente sobre a língua. O Letras/Libras também é focado do sexto ao nono ano do ensino médio, então foi um curso de graduação que eu realmente internalizei a subjetividade das pessoas Surdas. Sobre a Cultura Surda, a identidade Surda, a Comunidade Surda, então até o próprio Surdo que não conhecia essa subjetividade se reconhece como protagonista da sociedade e que pode se expressar na sua primeira língua e receber as informações na sua primeira língua, bem como o conhecimento da literatura Surda, que nela você também pode focar o ensino para educação infantil. 129 Lírio Na graduação de História nem se falou que existia esse público tão carente de uma formação específica. Nem ouvi falar. Agora o Letras/Libras é totalmente focado e adaptado, por exemplo, todas as provas e exercícios vem com link para que se o aluno for Surdo, ele clica e vê a questão em Libras, para o entendimento dele. Então o português não vai ser uma barreira pra ele fazer aquele curso. Isso é um exemplo do que dá pra fazer para meus alunos. Margarida Olha, eu acho que eu aprendi tudo na prática e na faculdade Letras/Libras foi reforçado. Como eu não fiz o Letras/Libras antes de começar a lecionar, foi tudo na prática e a faculdade só reforçou o que eu já fazia em sala de aula. Na faculdade eu reforcei essa parte teórica como as Leis, mas a prática em si eu já vivenciava, eu já estava inserida no meio, já estava educando, já estava ensinando, já estava criando os meus métodos pra ensinar geografia. Fonte: Entrevistas com as professoras e organizado pela autora, 2021. Pode-se depreender, das falas acima, que nenhuma das licenciadas em Pedagogia e demais Licenciaturas que não correspondem ao curso de Letras/Libras, obteve conhecimentos sobre a educação de Surdos nessas formações. É notável que, apesar de Girassol e Violeta terem concluído seus cursos após a inserção da Libras, como matéria obrigatória nos cursos de licenciatura pelo Decreto, ambas avaliam que nada aprenderam para a Educação Bilíngue de Surdos, haja vista que o curso tinha enfoque em não surdos. Uma observação importante a respeito dessas constatações, foi a exploração feita no tópico 4.2.1 que utilizou as pesquisasacadêmicas de Iachinski et al (2019), Klein; Santos (2015) e Martins; Ribeiro (2015). Esses estudos confirmam a ineficiência da disciplina de Libras para a formação de professores que atuarão com Surdos, devido à pouca carga horária e a atenção dada a ela nas licenciaturas. A mesma é concebida em nível instrumental e enfatiza os conteúdos linguísticos em detrimento dos didático-pedagógicos (LODI; LACERDA, 2015). Outro aspecto possível de ser notado nas respostas obtidas constituiu na aplicação do modelo dos conteúdos culturais-cognitivos de formação de professores proposto por Saviani (2009), no que tange à formação pedagógico-didática ser adquirida na própria prática docente ou mediante mecanismos do tipo treinamento em serviço. Merece destaque o fato da formação nos cursos Letras/Libras ter sido mencionada em oposição à formação em Pedagogia e demais licenciaturas, no quesito importância das metodologias para o ensino de Surdos. De acordo com as entrevistadas que estavam cursando ou haviam concluído esta graduação, apenas no curso de Letras/Libras abordaram-se as especificidades de educação do público Surdo. Tais aspectos são essenciais para a formação inicial dos profissionais, Surdos ou não, que irão atuar no contexto bilíngue de educação de Surdos. 130 Em relação à opinião das respondentes sobre o que faltou ser estudado em seus cursos de formação inicial, a partir de suas práticas docentes (questão 2 do Apêndice B), todas apontaram a falta de acessibilidade em Libras, de metodologias específicas para o ensino de Surdos e falta de vivência com os próprios Surdos. Ressalta-se que todas as professoras delimitaram estes aspectos para seus cursos, sendo o de Pedagogia para as respondentes Girassol, Violeta e Orquídea, licenciatura em Língua Portuguesa para Tulipa, Geografia para Margarida e História para Lírio. Tulipa destacou que a inserção do componente curricular de Libras já poderia ter sido obrigatória em sua formação, mas como o Decreto, que instituiu esta determinação, foi publicado no mesmo ano da conclusão de sua licenciatura, ou seja, 2005, não foi possível cursá- la. Ela afirmou que Na minha época, Libras não era obrigatória. Hoje em dia é obrigatório, mas muita faculdade não oferece como obrigatória e sim como optativa. Acho importante ter Libras na faculdade, porque mesmo que o curso não seja voltado pro ensino de Surdos, a partir daí você desperta interesse em muita gente pra poder ir pra essa área que pode pensar que não conhecia e querer conhecer mais (TULIPA). A partir desse trecho, a interpretação feita é que, da mesma forma que exposto por Muttão (2017), em sua dissertação de mestrado com base em uma revisão sistemática de pesquisas de pós graduação sobre a formação de professores para a educação de Surdos, ter um conhecimento raso sobre as especificidades da educação de Surdos está muito aquém da Educação Bilíngue defendida pela Comunidade Surda e por pesquisadores atentos às necessidades de aquisição e desenvolvimento de linguagem desse público. Sobre a inserção desse componente curricular nos cursos de licenciatura, sem o direcionamento correto para as demandas deste grupo educacional, Lodi e Lacerda (2015) sinalizam a aproximação à educação inclusiva. Tal proposta é veementemente refutada nesta pesquisa. Em oposição aos itens elencados como deficitários para a Educação Bilíngue de Surdos nos cursos de formação inicial citados até aqui, Violeta, Orquídea, Margarida e Lírio, professoras formadas ou cursistas do curso de Letras/Libras, manifestaram a diferença de abordagem para o ensino de Surdos e de Libras, considerando sua formação. Orquídea concluiu o curso de Letras/Libras em 2010 e frisou que, nesta licenciatura, cumpriu diferentes estágios de ensino de Libras, tanto para o ensino de Surdos quanto para o ensino de não surdos. Ela explica: 131 Eu tive o estágio voltado para a Libras para Surdos como L1 e para não surdos como L2. Por exemplo, a metodologia de ensino de Libras para L1 é totalmente diferente da metodologia voltada para L2, porque os Surdos têm a Libras como L1 e os não surdos como L2, então eu trabalhei esses dois contextos e isso foi muito rico porque pude sentir essa diferença dando aula. Sobre isso, Margarida, que concluiu o curso de Letras/Libras em 2020, também mostrou a importância de diferentes estágios em sua formação. Ela relata que, em sua primeira graduação voltada para educação de Surdos, Letras com Libras, finalizada em 2000, faltou contato com Surdos porque na época não tinha um estágio voltado pra isso. Hoje em dia tem que fazer estágio com Surdos e também ensinando Libras pra os não surdos. Hoje é exigido isso nas faculdades. Mesma nessa que eu estou encerrando e que não tem como fazer estágio por causa da pandemia, o estágio está sendo revertido em vídeo e tem que ser os dois tipos. Eu tenho que alfabetizar Surdo em vídeo e também ensinar Libras pra não surdos. Lírio considera que o curso de Letras/Libras não foi tão teórico quanto sua primeira licenciatura de História. Ela exemplificou: “Eu já não acho que Letras/Libras foi tão teórico. Tanto porque a maioria dos professores são Surdos e eles já passam a realidade que é um lugar comum pra eles. São pessoas que tem um lugar de fala, o lugar da Libras”. Sobre essas questões, cabe aqui destacar a importância do estágio no processo de formação do aluno nos cursos de licenciatura, uma vez que se constitui como o momento de contato do futuro professor com a prática profissional no âmbito escolar, oportunizando-lhe exercitar as teorias aprendidas. Destarte, a realização do estágio mostra-se necessária para a formação inicial do professor que atuará na Educação Bilíngue de Surdos. O futuro profissional precisa entender e vivenciar em seu processo formativo, as distintas formas de ensino de Libras e compreender nesse processo suas especificidades para os Surdos. Por ser a Libras uma língua minoritária, de modalidade visuoespacial e com estrutura gramatical própria, diferente da Língua Portuguesa, de modalidade oral auditiva e majoritária em nosso país, seu ensino segue por diferentes percursos de acordo com o público pelo qual seja adquirida: como língua materna para a Comunidade Surda ou como segunda língua para a comunidade não surda (QUADROS, 2017). Lírio pontuou, ainda, como falta em sua formação, uma disciplina de psicologia aplicada ao ser Surdo e, outra, dedicada à surdez associada a deficiências. Segundo ela, Psicologia aplicada seria uma coisa nova e muito necessária porque o Surdo tem muitos problemas de tanto passar por experiências negativas. Porque quando eles 132 veem uma pessoa fluente que tem uma possível compreensão das coisas que eles passam, eles revelam muitas coisas sobre barreiras com a família pelo entrave linguístico. Muitas vezes a própria família não se aplica a estudar a língua do Surdo, então eles passam por muitos problemas, muitos traumas, muitas questões de baixa autoestima, então seria necessário ter uma matéria voltada pra psicologia. Outra coisa que falta é uma matéria de surdez com deficiências, por exemplo, Surdocegueira e Surdez com autismo. Frente ao exposto, Quadros e Cruz (2011) delineiam que apenas 5% das crianças Surdas têm acesso à sua língua natural da mesma forma que as crianças não surdas. Esse dado refletirá no momento de início da vida escolar desse aluno, pois o fato de precisar passar pela fase de aprendizado de uma língua de comunicação, o que todas as outras crianças já terão, ocasiona- lhes sofrimento. No Brasil, raras são as vezes que uma criança Surda tem contato com um Surdo adulto desde a infância. Esta interação é amplamente defendida por pesquisadores desta temática, pois proporciona o fortalecimento da identidade Surda e desenvolvimento de um modelo adulto (MOURA, 2014; STROBEL, 2009). Essa informação éde tornar minhas aulas e avaliações acessíveis para a referida aluna. Era uma turma de 35 não Surdos e minha componente curricular era oratória e tinha como principal avaliação, uma apresentação oral com a utilização de slides, figuras impressas ou objetos que fixassem o olhar e a atenção do público. Além disso, elementos como a linguagem corporal, uso dos cinco sentidos do corpo e vestimenta eram considerados. A partir da estudante Surda nesta classe, passei a relacionar a apresentação oral de não surdos com a visuoespacial dos Surdos, assim como são as línguas de sinais. E mais, houve a inclusão da utilização da Libras como quesito fundamental para a avaliação em formato de apresentação, o que foi recebido como desafio e motivação para toda a turma, pois já faz parte da grade curricular do curso, a matéria de Libras. Ademais, tive a vivência como coordenadora de inclusão dessa instituição no período de 2015 a 2017, no Núcleo de Acessibilidade às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) onde após ter a oportunidade de conhecer sobre o cotidiano de alunos Surdos em suas famílias, escolas e em sociedade, fiz cursos de Libras, participei de eventos sobre educação inclusiva e educação de Surdos e passei a mergulhar cientificamente nos estudos antropológicos 1 A palavra “Surdo” grafada com “S” maiúsculo se difere de “surdo” por representar aqueles que participam da Comunidade Surda e utilizam a Língua Brasileira de Sinais – Libras como primeira língua. Este termo é utilizado por vários autores, como Felipe (2007, p. 33), Lane (2008, p. 284), Castro Júnior (2011, p. 12) e Santos (2019, p. 19). 2 O termo “ouvinte” é usualmente utilizado por autores para designar aqueles que ouvem. Nesta pesquisa será utilizado o termo “não surdo” para denominar o oposto de Surdo. 18 e linguísticos da Cultura Surda3. Comecei a frequentar eventos promovidos pela Comunidade Surda de Brasília, com o propósito de entender melhor a pessoa Surda. Na caminhada do doutoramento participei de vários eventos sobre Educação Bilíngue de Surdos e busquei capacitação em cursos de formação continuada sobre a temática, como o curso de Práticas para o ensino de Português escrito como Segunda Língua para Surdos (PSLS), promovido pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), com duração de 180 horas, no ano de 2021. Enquanto coordenadora e professora da instituição, desenvolvi projetos de extensão e de formação inicial continuada com o propósito de incluir pessoas com deficiências e Surdas em atividades educacionais relacionadas à Libras e à acessibilidade. Tive o reconhecimento do trabalho por mim desenvolvido em parceria com os alunos e servidores que compunham a equipe no NAPNE, através do Mérito Inclusivo no ano de 2017. Ele é entregue todos os anos pelo reitor(a) do IFB e tem como objetivo reconhecer e homenagear profissionais que se destacaram ao longo de cada ano em prol à acessibilidade não só na instituição, mas também, extra muros da escola. Durante o período que estive à frente desta função, conheci as histórias de vida de vários estudantes Surdos através de seus relatos, como das relações traumáticas das crianças Surdas que nascem em famílias não surdas que não aceitam a surdez como diferença. Nesses casos, há imposição da fala oral e da cura ou reabilitação da surdez, considerada uma doença ou até mesmo defeito que precisa ser corrigido mediante os implantes cocleares.4 Além disso, tomei conhecimento, através de depoimentos de pessoas Surdas, sobre a prática dos métodos oralistas que puniam e castigavam crianças Surdas que usassem as mãos para se comunicar. Ao perceber a desinformação que tanto eu quanto alguns colegas da instituição demonstrávamos em relação à docência para Surdos, somada à contribuição que o estudo do tema traria para as discussões educacionais, dada sua relevância e a importância desse debate para a academia, passei a buscar meu crescimento profissional, emocional e ético por 3 A Cultura Surda é representada pela visualidade do sujeito Surdo e abrange sua língua, arte, costumes, crenças e demais atividades realizadas individual ou coletivamente (STROBEL, 2008). 4 Segundo Vieira et al (2014, p. 3), trata-se de um dispositivo médico “constituído por um componente externo, situado atrás da orelha que capta, processa, codifica a energia sonora e a envia ao receptor/estimulador interno via radiofrequência; e um componente interno implantado cirurgicamente sob a pele no osso da mastoide, que possui um feixe de eletrodos inserido na cóclea para estimular as fibras do nervo auditivo, que propaga impulsos neurais para a área auditiva do córtex cerebral.” 19 intermédio do aprendizado e aprofundamento no assunto, afinal o que é uma pesquisa, senão uma vontade de aprender? Ademais, de acordo com o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o quantitativo de pessoas surdas5, há no Brasil cerca de 10 milhões de brasileiros com algum tipo de perda auditiva, o que representa 5% da população do país (IBGE, 2010). O censo foi realizado em 2010 e, por isso, acredita-se que esse número tenha aumentado desde então. O acréscimo não é apenas quantitativo, mas também na proeminência de Surdos na sociedade como, por exemplo, em cargos no governo, como o da primeira diretora Surda da Diretoria de Políticas Bilíngues para Surdos (DIPEBS), Karin Strobel, sucedida pela também Surda, Crisiane Nunes Bez Batti (BRASIL, 2020). Segundo o censo escolar da educação básica, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (INEP), em 2020, havia 63.106 estudantes com perda auditiva, surdez ou Surdocegueira, matriculados na Educação Especial, grupo ao qual os Surdos eram considerados pertencentes e, por causa da crescente demanda dessas matrículas, o MEC tem pensado na melhor formação de profissionais para o ensino de Surdos, apesar das dificuldades e limitações que a educação desse público possui, ao considerar as restrições orçamentárias para gerir a educação de uma minoria populacional, que possui especificidades diferentes da maioria da população brasileira, usuária da Língua Portuguesa oral. Lacerda (2000) explica que as propostas educacionais direcionadas para o sujeito Surdo têm como objetivo proporcionar o desenvolvimento pleno de suas capacidades, mas por causa das diferentes práticas pedagógicas, isso não é alcançado. A comprovação deste fato são as evidências de que, ao final da escolarização básica, esse aluno não possui o domínio adequado dos conteúdos acadêmicos e também não lê nem escreve satisfatoriamente (LACERDA, 2000). Witkoski (2009) ao refletir em seu artigo sobre “Surdez e preconceito: a norma da fala e o mito da leitura da palavra falada” complementa que, por causa do entendimento de Surdo como um sujeito incapaz, com o qual só é possível se comunicar por intervenção da fala oralizada, é recorrente a realização de exercícios de oralização em prol da “normalização” executados nas salas de aula, prejudicando sua formação acadêmica. 5 Nesse contexto, os dados tratam de forma genérica as pessoas “surdas”, considerando tanto os “Surdos” que utilizam a Libras como primeira língua e participam da Comunidade Surda, como os “surdos” que não se identificam como tal. 20 Para balizar a educação de Surdos, vários normativos legais têm sido publicados, marcando os avanços e a valorização da Comunidade Surda, como a Lei nº 10.432/2002, que reconhece a Libras como forma de comunicação e expressão visual-motora das pessoas Surdas brasileiras; o Decreto nº 5.626/2005 que, além de regulamentar essa Lei, garante a esse grupo sociocultural a Educação Bilíngue em Libras e na Língua Portuguesa na modalidade escrita; a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008, doravante Políticaimportante para termos consciência de que a escola terá, para a maioria dos seus educandos Surdos, um papel a mais, comparando-se aos demais alunos, o de prover aquisição de linguagem. A escola será o local de contato com a Língua de Sinais para grande parcela de discentes que são Surdos em famílias não surdas. É fundamental que o docente tenha entendimento dessa situação, para contextualizar a criança Surda nos conteúdos comumente já conhecidos por crianças não surdas da mesma idade. Por essa perspectiva, considera-se na fala da respondente a demanda da componente de Psicologia aplicada, pertinente e necessária. Sobre a necessidade de uma componente curricular no curso de formação de professores bilíngues que trate da surdez relacionada a deficiências, considera-se relevante, haja vista a possibilidade de estudantes Surdos apresentarem deficiências ou transtornos agregados à surdez, bem como altas habilidades/superdotação. Para atender tal demanda, caracterizada pela diversidade, tornam-se necessárias adaptações estruturadas, para as quais o professor precisa ser orientado. Acerca das dificuldades na prática docente para a Educação Bilíngue de Surdos (questão 3 do apêndice B), todas as respondentes indicaram a escassez de materiais e recursos didáticos específicos, a insuficiência de proficiência em Libras pelos estudantes das séries finais e desprovimento de metodologias de ensino bilíngues. Nesse sentido, Violeta explicitou: 133 Eu gosto muito de ensinar português porque eu quero que os Surdos evoluam nessa língua, mas eu tenho dificuldade como por exemplo, como criar um material relacionado com redação de português para Surdos? Não tem um material didático para essas crianças, então eu sinto dificuldade nisso, é preciso buscar, estudar mais pra adaptar o ensino para essas crianças e isso é uma dificuldade muito grande que eu tenho. Um exemplo disso é no quarto e quinto ano, as crianças estão no momento de produção textual, então eu quero ensinar L2 como português para surdo, mas não tem um material específico, então eu pego material dos não surdos e adapto para os Surdos ou peço ajuda para os professores não surdos porque falta material específico pra eles, os Surdos. Como mostram Lodi e Lacerda (2015), de forma geral, têm-se constituído em um desafio as questões relativas à formação inicial do professor bilíngue, como as técnicas, metodologias de ensino, os materiais e recursos didáticos para o ensino e a aprendizagem de Libras e de Língua Portuguesa como segunda língua para estudantes Surdos e a produção de práticas pedagógicas que atendam ao grupo de pessoas interessadas nessas línguas. Frente a esta realidade, evidencia-se a elaboração da proposta curricular para o ensino de PSLS, estruturada pelo grupo de estudo e pesquisa interinstitucional para sistematização de propostas teórico-metodológico-práticas para o ensino de PSLS, em parceria com a DIPEBS da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (SEMESP/MEC) (BRASIL, 2021c). De acordo com a diretora de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos, Crisiane Nunes Bez Batti, esta proposta foi criada com o intuito de fomentar políticas públicas, educacionais e linguísticas, voltadas à Educação Bilíngue de Surdos, além do intuito de criar novas possibilidades para que a Educação Bilíngue de Surdos se efetive tal qual a Comunidade Surda sempre almejou. A Educação Bilíngue de Surdos só se concretizará com eficácia a partir da produção de novas práticas curriculares que incluam a língua, a identidade e a cultura surdas, assim como a interculturalidade, a visualidade e as demais especificidades dos estudantes (BRASIL, 2021c, p. 6). A referida proposta traz em seu bojo adaptações de acesso ao currículo, adaptações curriculares, metodológicas e didáticas e no processo avaliativo e destina-se aos estudantes Surdos, Surdocegos, com deficiência auditiva sinalizantes, Surdos com altas habilidades e superdotação e Surdos com deficiências associadas (BRASIL, 2021c). Ademais, pode ser aplicada aos estudantes Surdos matriculados em escolas bilíngues de Surdos, classes bilíngues de Surdos, assim como no serviço de AEE de escolas inclusivas. Ainda segundo os autores da proposta curricular para o ensino de PSLS, o professor deve estar atento para que os ajustes que se fizerem necessários sejam aplicados, sem esquecer 134 de valorizar o potencial dos estudantes (FARIA-NASCIMENTO et al, 2021). Assim, essa proposta curricular marca um novo tempo de avanços, conquistas e de direitos respeitados na Educação Bilíngue de Surdos, bem como na formação do professor bilíngue, que terá de ser proficiente em Libras e Língua Portuguesa escrita. Segundo Faria-Nascimento (2018), é um tempo que exige um professor diferenciado, que, além das características inerentes à sua atuação, seja um profissional holístico e ‘tecnológico’. A atualidade demanda um professor conhecedor de mais de uma área do conhecimento. Mesmo que sua formação e atuação sejam em uma disciplina específica, o conhecimento não pode se restringir aos conteúdos disciplinares. No âmbito do ensino de PSLS não é diferente, esse professor diferenciado, além do conhecimento holístico em diferentes áreas do conhecimento, deve, antes de tudo, ser um profissional intercultural (FARIA- NASCIMENTO, 2018, p. 197). A partir desta proposta, vislumbra-se a necessidade de aproximação do modelo didático- pedagógico de formação de professores anunciado por Saviani (2009), para a formação de professores bilíngues de Surdos. Constata-se, também, uma alternativa em resposta à dificuldade apontada por todas as participantes desta pesquisa, em relação à ausência de metodologias de ensino para Surdos. Em relação à escassez de recursos didáticos apresentados pelas professoras, identificam- se datashow, mapas, computadores e material concreto. Além destes, foram citados os dispositivos móveis em tempos de pandemia. De acordo com Tulipa, Eu tenho dificuldade não só no ensino remoto, mesmo no presencial, porque a questão do concreto e do visual pro Surdo é muito importante. E aí você trabalha numa escola bilíngue que não tem datashow em todas as salas, não tem mapas, não têm laboratórios ou um laboratório acessível para todos os alunos e isso é uma grande dificuldade. O governo tem a política, mas ele próprio não põe em prática, já que não te dá o recurso para desempenhar seu papel de uma maneira melhor e com mais excelência. Margarida complementa: Em se tratando de escola pública a gente tem poucos recursos porque o Surdo precisa de recursos visuais, então às vezes falta um datashow, um computador. É o professor que tem que correr atrás, então como a escola tem pouca verba, é diferente de uma escola pública para não surdos porque é difícil pro Surdo pesquisar sozinho por causa da língua. Então se ele não tiver acesso a um computador na escola, se não tiver um professor junto, ele não vai conseguir. Isso a gente percebe bem agora pelo ensino remoto porque os pais estão com muita dificuldade de auxiliar porque a maioria não conhece Libras. Então eu sinto a falta de recursos pra investir em materiais e equipamentos tecnológicos para tornar a aula mais acessível pro Surdo. 135 Lírio ainda exemplifica: Os alunos têm dificuldade com o manuseio do dispositivo agora na pandemia, porque às vezes o celular não é compatível com a tecnologia que ele precisa usar, não vou dizer inferior, mas com tecnologia aquém da que ele vai utilizar. Por exemplo, ou eu mostro uma tela ou apareço fazendo Libras e o aluno para entender bem precisa ver as duas coisas ao mesmo tempo. Eu tenho um aluno Surdocego no oitavo ano que é muito complicado fazer meet com ele porque ele não consegue enxergar, ele só vê vultos, então não dá pra fazer infelizmente um meet com ele junto com toda a turma. Ele fica prejudicado e dar aula remota para os Surdos, àsvezes é preciso você já ter um vídeo pronto e fazer um vídeo nem sempre é o complicador. O complicador é a edição porque às vezes você passa horas fazendo uma edição porque você precisa pontuar uma imagem porque o Surdo é visual. Então eu até posso explicar tudo em Libras pra ele, mas tem conceitos dentro da aula que eles não conhecem, tem sinais que são novos e eles não conhecem. Por isso eu preciso ter uma imagem bem posicionada e tudo isso faz parte da edição, então tem algumas limitações que são bastante difíceis de lidar nesse período de ensino remoto com os Surdos. A respeito dessas questões, considera-se importante, mais uma vez, enfatizar a relevância da visualidade na constituição dos sujeitos Surdos. Campelo (2008), professora e pesquisadora Surda, dedicou-se a estudar esse assunto em sua tese de doutoramento intitulada “Aspectos da visualidade na educação de Surdos.” Segundo a autora, a experiência visual possibilita constituir a subjetividade do Surdo por meio de experiências cognitivas linguísticas diversas, mediadas pela utilização da Língua de Sinais. Dessa forma, a visualidade se configura como algo inerente ao Surdo e, por esse motivo, é relevante usar materiais visuais ou concretos em suas práticas pedagógicas. Prosseguindo com a análise das respostas obtidas, o contexto de ensino remoto ocasionado pela pandemia de Covid-19, somado à falta de conhecimento da Libras tanto pelos alunos Surdos, quanto por seus familiares, também foi identificado como dificuldade na prática docente de algumas das respondentes. Tal fato foi indicado tanto no ensino remoto quanto no presencial. A fala da professora Margarida, acima, retrata essa situação, bem como a de Orquídea: Eu tenho várias dificuldades. Esse ano, por exemplo (2020), eu estou trabalhando com um aluno Surdo que também tem autismo. Ele não participa das aulas remotas porque ele não consegue se concentrar, então eu fiz alguns vídeos, mas ele fica dentro de casa e não consegue acompanhar as aulas. Se estivesse dentro da sala de aula, eu consigo chamar a atenção e consigo fazer com que ele preste atenção, mas virtualmente este trabalho não está rendendo. Bem diferente do não surdo autista que consegue acompanhar a atividade, mas não o aluno surdo autista. A pandemia está muito estressante. Por isso um dos motivos é o computador porque ele deixa muito aquém, já que nas aulas presenciais, eu consigo fazer dinâmicas, jogos e diferentes 136 metodologias. Principalmente porque a família não sabe Libras e o problema maior é esse. Os pais não conseguem acompanhar seus filhos. Por exemplo, eu posto um vídeo, mas a mãe não sabe o que eu estou falando, então como ela vai auxiliar nesse processo de ensino com seu filho com essa barreira linguística que a criança tem na sua própria casa? Então é bem complexo. Mais uma vez, destacam-se as dificuldades no desenvolvimento linguístico e educacional das crianças Surdas, filhas de pais não surdos, que não têm oportunidade de apropriação da Libras como língua materna. Ribeiro et al (2019), em um artigo relacionado ao lugar das famílias não surdas em propostas educacionais bilíngues para crianças Surdas, concluem que, apesar do papel da família ser claramente estabelecido em documentos legais, como na LDB/1996 e na Declaração de Salamanca, além das orientações específicas do MEC e da Secretaria de Educação Especial, não há programas governamentais de âmbito nacional, sistematizados e dirigidos ao ensino desta língua para os familiares. Após análise das informações colhidas no decorrer das entrevistas com as professoras, pautada no arcabouço teórico de pesquisadores e pesquisas científicas, foi possível averiguar que alguns dos desafios elencados pelas respondentes relacionam-se à sua formação inicial, tais como não haver tido contato com Surdos, com a Libras e com o aprendizado das especificidades de educação dessa população linguística minoritária. Além disso, a vivência no ensino de Surdos no contexto bilíngue através de estágios ou mediante aprendizado com professores Surdos, poderia e deveria ter sido oportunizada pelas instituições formadoras, ao invés de ser fruto apenas da busca individual de cada professora, enquanto estudante. Para os desafios decorrentes de falta de materiais e recursos didáticos, e de entendimento sobre o processo formativo de Surdos com múltiplas deficiências, os cursos de formação inicial também poderiam ter oferecido componentes curriculares que preparassem o futuro profissional para elaborar e gerir esses insumos e demandas. Não obstante, o entrave linguístico em decorrência da falta de proficiência em Libras por parte das crianças Surdas, filhas de pais não surdos, não poderia ser contemplado pelos cursos de formação inicial de professores bilíngues. Para esta causa, fazem-se necessárias políticas públicas linguísticas firmes, exequíveis e que ouçam os Surdos antes de sua formulação. Na verdade, para todas essas demandas é preciso esta medida, além de consciência e responsabilidade de toda a sociedade, frente às questões da Comunidade Surda. 137 Objetivando identificar as sugestões dessas professoras e de pesquisadoras acadêmicas para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos, esta análise segue no próximo tópico. 4.2.3 Sugestões de professoras da EBT e de pesquisadoras acadêmicas para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos Para elencar as sugestões das seis professoras da EBT e das cinco pesquisadoras acadêmicas sobre os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos, perguntou-se às pesquisadoras, quais aspectos não foram contemplados na Política de Inclusão e no Decreto, em relação a essa formação e deveriam ter sido atendidos. Esse entendimento foi necessário para prosseguir-se à questão sobre as sugestões para a formação inicial de professores bilíngues, baseadas em suas pesquisas. As cinco respondentes se posicionaram de modo semelhante, afirmando que o enfoque verdadeiramente bilíngue, tanto para a educação de Surdos, quanto para a formação inicial docente que irá atuar com este público, não foi contemplado nos referidos documentos. Na perspectiva de Educação Bilíngue proposta por documentos produzidos pela FENEIS e por representantes do movimento Surdo, a Libras assume o lugar de língua de interlocução entre alunos, alunos e professores e entre alunos e todos os envolvidos no espaço escolar, não com a mediação de intérpretes, como ocorre na maioria das escolas que se posicionam como bilíngues. Sobre este aspecto, Hellen Keller reforça sobre a falta de entendimento sobre a Educação Bilíngue nesses documentos legais e o que falta ser contemplado na legislação para a formação docente de professores bilíngues: Falta entendimento de que Educação Bilíngue não é colocar intérpretes. A presença do intérprete não garante a Educação Bilíngue de forma alguma. Ela pode ser necessária, mas não garante. Falta enfatizar que Educação Bilíngue não é apenas educação de Libras, por isso, como a formação que o Decreto melhor define é o de professor de Libras, precisa mudar o foco da formação, ela precisa ser bilíngue. A inexistência de cursos de Pedagogia Bilíngue, com propostas pedagógicas curriculares bilíngues sem analogia com práticas não surdas, também foi apontada pelas pesquisadoras como um elemento na formação inicial de professores bilíngues, que ainda precisa ser implantado. 138 Outrossim, a falta de professores Surdos para os anos iniciais foi indicada por Hellen Keller, Emmanuele Laborit e Charlotte Elizabeth como ponto relevante na formação de professores bilíngues, que precisa ser incentivada. Tais itens também foram identificados pelas professoras entrevistadas, como sugestões para os processos formativos de professores bilíngues e serão discorridos na subcategoria Currículo Bilíngue. Julia Braceacrescentou aspectos referentes às ações no âmbito da saúde para intervenção na aquisição da Língua de Sinais e da Língua Portuguesa. Dessa forma, o bilinguismo seria garantido para aos bebês Surdos e suas famílias seriam direcionadas para a valorização e o aprendizado dessa língua. Hellen Keller ponderou, também, sobre a necessidade de uma política de financiamento e de planejamento para que as propostas de formação inicial de professores bilíngues possam ser executadas. Conforme a entrevistada, “é financeira e administrativamente inviável para as universidades manter um curso de formação de profissionais que irão trabalhar com um público muito reduzido, o Surdo”. Sobre estes aspectos, de igual modo como Lodi e Lacerda (2015), Hellen Keller enfatiza que, apesar do Decreto ter instituído a formação de três profissionais que, até então, não haviam sido definidos, apenas uma foi detalhada e executada, a de professor de Libras. Comprova-se este entendimento através do excerto de sua fala: O que tá escrito e estruturado no Decreto é a ideia de fornecer os profissionais necessários para uma “Educação Bilíngue”, só que os financiamentos não colocaram em marcha todas aquelas formações com o mesmo volume de recursos. Uma foi e as outras duas é um faz de conta. Nota-se, novamente, um desencontro entre pontos na proposição da formação inicial de professores bilíngues, conforme descrito no item 4.2.1 desta tese. A partir dessas constatações, procedeu-se ao questionamento sobre as sugestões das pesquisadoras com base em suas pesquisas, e das professoras, de acordo com a experiência docente de cada uma, para os cursos de formação inicial de professores bilíngues. Em concordância com as respostas obtidas, definiram-se as subcategorias de análise: Imersão na Cultura Surda e Currículo Bilíngue. a) Imersão na Cultura Surda 139 A identidade e a diferença são marcas dos sujeitos Surdos e, por conseguinte, de sua educação. Sua interação com o mundo é essencialmente visual, e isso os constitui em uma população minoritária, com língua e cultura própria, a Cultura Surda (STROBEL, 2009). De acordo com a autora, esta Cultura engloba possibilidades e elementos próprios da vida dos sujeitos que se reconhecem como Surdos, abrangendo sua língua, ideias, artes visuais, costumes, hábitos, entre outras características desenvolvidas coletivamente (STROBEL, 2009). Assim, pondera-se sobre a necessidade de que a educação de grupos minoritários perceba a importância da diferença dos aspectos culturais e sociais dessas populações e enfatize a formação de professores com entendimento sobre eles. No caso dos Surdos, em especial, eles se constituem como um grupo diferente entre os minoritários, já que sua língua é visuoespacial (MARQUES, 2017). Sob esse prisma convém pensar a formação inicial de professores e, pelo entendimento de que não há como dissociar a educação de Surdos da Cultura Surda, uma vez que o universo escolar, além de político e social, é também cultural, destacaram-se os trechos a seguir, das respostas obtidas para verificação. A proficiência na língua dos Surdos, a Libras, mostrou-se urgente na apreciação de Marlee Matlin, Lírio e Tulipa. Marlee Matlin evidencia: “A meu ver, a formação de professores bilíngues deveria contemplar que os professores se tornem realmente ‘falantes’ de Libras”. Lírio expressa sua sugestão, comparando-a com sua própria experiência: Eu aconselho para quem está querendo entrar nessa área da surdez e da educação, o que eu fiz: estudar muito, pesquisar muito, ver vídeos, quanto mais vídeos você puder e nas mais diversas áreas, estar sempre ligado numa Comunidade Surda, conhecendo a cultura, o mundo e a forma de aprender informações. Fazer imersão na Libras, porque sem Libras não tem nem como falar com o Surdo, imagina ensinar? Tulipa por sua vez, recomenda: Eu daria a sugestão de estudar Libras. Buscar realmente se aprofundar na primeira língua dos Surdos. Eu falo muito isso que chega a ser redundante: não adianta você ter boa vontade para trabalhar com Surdos, você precisa ter a língua dele. Porque se você não tem a língua dele, você não consegue ensinar ou aprender. Então o primordial é: aprenda Libras. Tenha essa proficiência em Libras, consiga se comunicar com seu aluno. Não adianta você falar devagar e falar que ele te entende, não é assim. O primordial é a língua. Porque quando você tem a língua do Surdo, você acaba se virando. Se você não tiver o datashow ou o material didático, você pode desenhar no quadro, você planta bananeira pra explicar um conceito porque você tem a língua dele. Então é um conselho primordial de base. 140 Diante dessas falas, depreende-se que, a fluência linguística em Libras pelos professores que atuam ou atuarão na Educação Bilíngue de Surdos é condição sine qua non, já que é previsto o ensino de duas línguas nesta proposta de educação. A obviedade em dominar duas línguas em um ambiente bilíngue é inquestionável, no entanto, tal discussão é muito complexa no caso da Libras e da Língua Portuguesa, devido ao desprestígio da primeira com relação à segunda. Nessa linha, Jesus e Fernandes (2017), ao realizarem um estudo comparativo entre a fragilidade no conhecimento da Libras e a ausência de critérios que considerem a fluência nesta língua por professores de uma escola bilíngue e no AEE de uma escola inclusiva, apontam que essa desigualdade no status social da Libras, não é considerada no debate da política educacional de Surdos. Outrossim, convém destacar que, apesar do uso da Língua de Sinais na comunicação entre professores e alunos Surdos ser apontado no Decreto, Art. 14, parágrafo 1º, inciso III, quando dispõe sobre a obrigatoriedade das escolas em prover “professor regente de classe com conhecimento acerca da singularidade linguística manifestada pelos alunos Surdos”, ele não é respeitado, à medida em que há professores sem fluência em Libras. Ao entender que a comunicação entre professores e alunos Surdos só ocorre de forma plena quando o primeiro adquire a Libras como L1 ou o segundo adquire a Língua Portuguesa como L2 (LACERDA, 2000), é preciso que o professor domine a Libras. Afinal, se este profissional não tem formação linguística bilíngue, se as crianças Surdas estão em fase de aquisição da língua e não tem o input da língua em casa, como se forma o ambiente escolar bilíngue debatido como fundamental no processo de bilinguismo na educação? Percebe-se que as falas aqui explicitadas vão ao encontro dos desafios enfrentados pelas professoras em suas práticas docentes, conforme exposto no tópico 4.2.2, no que diz respeito à imprescindibilidade do domínio da língua natural dos Surdos. Infere-se, assim, que por ser um obstáculo em seu exercício profissional, as professoras recomendam a fluência em Libras para a formação inicial de professores que desejam atuar na Educação Bilíngue de Surdos, a fim de que estes não enfrentem esse empecilho. Aprofundando-se nas recomendações, Tulipa sugere Estar inserido na cultura, conhecer completamente como é a vivência, as dificuldades, se colocar no lugar do Surdo porque é totalmente diferente você estar educando um não surdo e um Surdo, então é empatia, é conhecer a cultura própria deles. 141 Emmanuele Laborit acrescentou “a criação de mais rodas de conversas para que os Surdos sejam ouvidos e acompanhados em suas necessidades. A formação que vem de cima sem conversa em geral não é muito potente.” Novamente, nota-se a necessidade do diálogo com a Comunidade Surda, a fim de entender suas especificidades educacionais expressas por sua Cultura. Ora, se o público Surdo se difere do não surdo, se a Lei máxima da educação, a LDB de 1996, garante que todos têm direito à educação de qualidade, lógico seria que a proposição da educação dessa população, bem como dos processos formativos de professores quenela atuarão, fosse feita pelos Surdos e não por líderes não surdos que, não raras vezes, exprimem seu entendimento em diálogo setorial38. A Libras constitui-se em um artefato da Cultura Surda (STROBEL, 2009) e é apropriado que ambas sejam consideradas para o real desenvolvimento da Educação Bilíngue de Surdos e da formação inicial de professores que nela atuarão. Por este motivo, o currículo dos cursos dessa capacitação deve contemplar uma proposta bilíngue, de acordo com o identificado na sequência desta análise. b) Currículo Bilíngue O currículo constitui um aspecto de destaque em todos os âmbitos da educação, pois provém e estabelece relação em tudo que é feito na prática pedagógica. Ele abrange questões de “como” e “por que” das formas de organização do conhecimento escolar (MOREIRA; SILVA, 1994) e é constantemente modificado pela ação dos valores políticos, socioeconômicos e culturais (MOREIRA; CANDAU, 2007). Ao considerar currículo como as “experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, em meio a relações sociais, e que contribuem para a construção das identidades de nossos/as estudantes” (MOREIRA; CANDAU, 2007, p. 18), discorrer-se-á sobre as respostas das pesquisadoras. Julia Brace sugere a Pedagogia Bilíngue com ênfase no currículo bilíngue para as questões culturais dos Surdos, como se observa em: Eu acho que a Pedagogia Bilíngue mesmo, ela vai ser fundamental. Contar com uma pedagogia com currículo bilíngue que forme o professor para trabalhar com letramento em Libras e com o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua desde o início, é muito importante. Incorporando também questões mais culturais, 38 Pautado em Marques (2000) e Barros; Chaves; Calixto (2020), entende-se setor como o agrupamento isolado de papéis sociais, que funcionam de forma vertical e autônoma, sob à tentativa de regulação do Estado e sem diálogo com os atores evolvidos nas políticas. 142 socioantropológicas, que têm a ver com a constituição da Comunidade Surda numa comunidade não surda, as relações, os embates, a questão do audismo, como lidar com isso, como trabalhar com a consciência Surda para romper com o audismo. Tudo isso é uma coisa que tem que ter formação para trabalhar na educação. A partir do entendimento das peculiaridades linguísticas e culturais dos Surdos e da importância e representatividade do currículo para o processo de escolarização de todos os indivíduos, considera-se necessário, da mesma forma que essa entrevistada, incluir e valorizar as características dos sujeitos Surdos na elaboração de currículos bilíngues. Em concordância com Perlin e Strobel (2008), sobre a necessidade de ambientes escolares fundamentados na diferença e na mediação cultural entre a língua dos Surdos e dos não surdos, acredita-se que, por meio de um currículo intercultural, conectado com os artefatos da Cultura Surda, será possível assegurar uma formação coerente para professores bilíngues, em prol de uma Educação Bilíngue e democrática para os Surdos. Por currículo intercultural, entende-se aquele que considera a Língua de Sinais como a língua materna dos Surdos, tendo como base conceitos, concepções, estratégias, métodos e práticas educativas fundamentadas no respeito e nas trocas de conhecimentos entre a Cultura surda e não surda (SANTIAGO et al, 2019; FARIA-NASCIMENTO, 2021). Nessa perspectiva, o currículo carrega consigo a identidade cultural e linguística de duas comunidades distintas. No que concerne à palavra audismo, ou ouvintismo mencionado por Julia Brace e defendido por Skliar (1997), considera-se importante esclarecer que ela carrega consigo a relação da imposição de poder da língua maioritária e oral sobre a Libras, considerada pelos falantes de línguas orais, como inferior e de utilização minoritária. O conhecimento dos não surdos, nessa perspectiva, constitui uma norma, não sempre visível, a partir da qual tudo é medido e julgado. De acordo com Perlin e Strobel (2008), essa concepção reflete a teoria iluminista e culturalista e, na prática escolar, resulta na marginalização do Surdo como deficiente, incapaz, que precisa aprender segundo o molde não surdo, pois este é considerado como certo. Reforça-se, assim, a necessidade de um currículo bilíngue, já que, como posto por Lunardi e Skliar (2000, p. 12), o currículo não é um artefato técnico e sim, “um dispositivo cultural e social, um território político, um objeto de permanentes manipulações e moldado de acordo com interesses específicos, pedagógicos ou não”. No caso dos Surdos, o currículo constitui um campo de disputa entre os interesses de poucos Surdos e de uma maioria não surda. Os autores defendem ainda que “o currículo é um campo privilegiado no qual se manifesta 143 o conflito cultural e se reflete o debate sobre as desigualdades sociais existentes” (LUNARDI; SKLIAR, 2000, p 12). Formozo (2008), em sua dissertação de mestrado sobre currículo e educação de Surdos, explica que o currículo não produz apenas as identidades dos alunos, mas também a dos professores. Como explicam Lunardi e Skliar (2000, p. 13), A supremacia dos professores não surdos é o resultado de uma política, historicamente determinada, de naturalização pedagógica e de estabelecimento de uma normativa não surda no processo de aprendizagem dos Surdos. Nesta relação de poder, Julia Brace complementa sua resposta e faz referências a esse tipo de questão, existente entre os falantes da Língua Portuguesa e de Libras, como se verifica neste trecho de sua fala: Se isso já fosse trabalhado nas séries iniciais de forma devida, as crianças Surdas entrariam nas séries finais e avançariam em seus estudos já com uma outra postura, podendo inclusive entrar em escolas que não sejam escolas bilíngues propriamente ditas, mas com a presença de intérprete de Língua de Sinais, conseguindo lidar melhor com essa situação. Se eles tivessem essa base nas séries iniciais, que é o que eu considero fundamental na Educação Bilíngue para Surdos, de Surdos só, sem misturar com não surdos nas séries iniciais, porque não vai funcionar direito. Depois as crianças, com o tempo, vão aprendendo a lidar mais, porque quando elas têm mais idade, elas conseguem lidar com a presença do intérprete de Língua de Sinais. Não é a melhor forma, mas quando eles são maiores, eles já conseguem entender melhor esse jogo de intermediação linguística e social. Marlee Matlin reforça, em sua sugestão, essa necessidade de rompimento da superioridade da Língua Portuguesa sobre a Libras através de Metodologias de ensino pensadas e desenvolvidas a partir da Libras. Ainda assistimos uma formação pedagógica que mantém práticas construídas a partir da Língua Portuguesa e que são traduzidas para a Libras, mantendo, desse modo, a hegemonia do Português sobre a Libras; e metodologias de ensino da Língua Portuguesa que se distanciam de um ensino realizado de forma descontextualizada e que tomam como base práticas de alfabetização. Ou seja, metodologias de ensino da escrita do Português que visem o letramento dos Surdos. Esta afirmação vai de encontro à determinação do relatório do GT designado em 2014 pelo MEC, para elaborar os subsídios para a política linguística de Educação Bilíngue - Libras e Língua Portuguesa: [...] garantir a aquisição e a aprendizagem das línguas envolvidas como condição necessária à educação do surdo, construindo sua identidade linguística e cultural em Libras e concluir a educação básica em situação de igualdade com as crianças ouvintes e falantes do português (CAMPELLO; REZENDE, 2014, p. 7). 144 Para tanto é necessário, segundo Skliar (1997, p. 144), [...] um currículo que rompa com as barreiras sociais, políticas e econômicas e passe a tratar os Surdos como cidadãos produtores de uma cultura. Os estudos mais recentes na área da Educação dos Surdos apontam para a importância da identidadecultural no desenvolvimento dos mesmos. Chalortte Elizabeth endossa a urgência de um currículo bilíngue para a formação de professores e menciona a pandemia de Covid-19: Precisa oferecer uma formação diversificada, mas com a perspectiva no currículo bilíngue de Surdos. Porque nós precisamos pensar que a formação curricular atualmente, ela não é bilíngue, porque a maioria oferta cursos de Educação Especial e tem um curso básico de Libras, mas não é esse o foco. O foco não é de Libras como língua, o foco é uma formação com currículo que tenha conteúdos voltados para educação de Surdos. Um exemplo: o momento que estamos vivendo agora de pandemia do coronavírus, ninguém se preocupou com a formação de um ensino remoto voltado para Educação Bilíngue, não teve essa formação. Aqui na Universidade, por exemplo, eu preparei um projeto com a proposta de ofertar uma formação com a temática voltada para o ensino remoto de Surdos, como trabalhar essa relação aluno/professor virtualmente e também a relação que a família tem com a criança Surda em casa. Isso é muito importante porque temos que pensar uma formação não com a perspectiva de não surdos, mas sim, de Surdos. A partir dessas falas, constata-se a constância de práticas pedagógicas baseadas na perspectiva não surda e, por isso, a imprescindibilidade de dissociação dos valores não surdos nos currículos e a valorização da Cultura Surda. A fala de Charlotte Elizabeth continua em direção à equidade de aprendizado de Surdos e não surdos, a partir de um currículo bilíngue que valorize e explore as singularidades das pessoas Surdas para além da Libras como língua. Pode-se perceber esse entendimento neste trecho: É muito importante pensar uma formação com currículo bilíngue, porque poucas pessoas têm de verdade, uma escola bilíngue. 90% das escolas bilíngues funcionam como escolas inclusivas. Essa formação do jeito que está, pensa na Libras como língua, como comunicação para os Surdos, mas não pensa na educação de Surdos. Precisa pensar num material específico para Surdos, trabalhar com a política linguística voltada pra Surdos e o ensino educacional para Surdos, porque muitas pessoas acham que uma Educação Bilíngue é colocar intérprete e pronto. As pessoas pensam que formação para ter Educação Bilíngue é só ter intérprete, mas não é bem assim. Assegurar Libras é muito importante, mas precisamos pensar numa metodologia especificamente com a perspectiva bilíngue para Surdos, então o aprendizado dos Surdos com essa perspectiva estaria em equidade com o ensino de não surdos. Os currículos precisam estar focados para o ensino bilíngue, e o que acontece é que está focado no ensino de Libras, no ensino da língua como L2 para pessoas não surdas. As pessoas precisam entender que essa formação tem que ser específica para Surdos, com as suas especificidades, com a subjetividade das pessoas Surdas. 145 Como visto no tópico anterior desta análise, a Libras é um dos artefatos da Cultura Surda, mas há outros elementos que a constituem e que também devem ser considerados ao se pensar o currículo bilíngue dos cursos de formação de professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos. O elemento da Cultura Surda no currículo bilíngue para cursos de formação inicial de professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos, também é percebido quando há a presença de professores Surdos. Violeta, professora Surda, sugere: O que é muito importante é uma equipe de professores Surdos que ensinem suas práticas para professores que vão dar aula para Surdos. Faltam discursos vindos dos professores Surdos. Nós os Surdos recebemos formação, mas não vindo de professores Surdos. Essa sugestão converge com a recomendação de diversos autores (REIS, 2007; LIMA, 2018) sobre a atuação de professores Surdos na Educação Bilíngue de Surdos, especialmente na educação infantil, como também mencionado no tópico anterior de análise. Em continuidade à entrevista semiestruturada, que permite novas perguntas (MANZINI, 2003), constatou-se que, desde a alfabetização, a entrevistada supracitada teve pouco convívio com professores Surdos. Ao ter contato com professores Surdos desde a formação inicial, os professores que atuarão na educação de Surdos, terão a perspectiva de um Surdo, o que é fundamental para o processo formativo bilíngue. Sobre esta questão, Charlotte Elizabeth reforça: Quando o professor conhece a Cultura Surda através de um professor Surdo, é melhor porque ele vai pensar num material e estratégias específicas para os Surdos, com materiais e metodologias voltados para os aspectos visuoespaciais e aí sim, vai ter a tecnologia e os vídeos. Nós precisamos quebrar o sistema tradicional, porque os Surdos precisam de uma didática diferenciada voltada pra vídeos e filmes com Língua de Sinais e imagens, então precisa oferecer e para oferecer, precisa conhecer, precisa ter uma formação básica realmente para o ensino voltado para Surdos. A partir dessas falas pode-se inferir que a presença de professores Surdos nos cursos de formação de professores de Surdos propicia a aproximação com um currículo bilíngue, já que este professor formador irá expressar sua Cultura em todo momento, e por acreditar que o currículo está imerso nas disputas de significados e na produção de regimes de verdades e que representa (a) os conteúdos a serem ensinados e aprendidos; (b) as experiências de aprendizagem escolares a serem vividas pelos alunos; (c) os planos pedagógicos elaborados por professores, escolas e sistemas educacionais; (d) os objetivos a serem alcançados por meio do processo de ensino; (e) os processos de avaliação que terminam por influir 146 nos conteúdos e nos procedimentos selecionados nos diferentes graus da escolarização (MOREIRA; CANDAU, 2007, p. 18), Evidencia-se que para além de um professor Surdo formador, convém também um currículo bilíngue e que abarque os elementos acima expressos por Moreira e Candau (2007), construídos a partir da diferença como elemento de construção cultural e histórica do povo Surdo, e não baseado na cultura e história não surda. Conforme recomendação da FENEIS desde 1999, esse currículo deveria conter as manifestações da Cultura Surda como pintura, poesia, teatro, piadas, humor, histórias em quadrinhos, cinema, dança e artes visuais, sempre expressas em Libras (FENEIS, 1999). Isto posto, delineia-se, na seção seguinte, as reflexões e considerações finais deste estudo com vistas não ao término, mas à abertura para novos questionamentos, ponderações, projetos e diálogo sobre a Educação Bilíngue de Surdos e a formação inicial de professores que nela atuarão. Da mesma forma que Síveres (2019), ao apresentar a Pegagogia Alpha, acredita- se na importância do encontro dialógico com a questão da formação de professores, neste caso, de professores bilíngues de Surdos, uma vez que os resultados apresentados representam a presença do tema em nossa sociedade, a proximidade que estabelecemos com as questões desenvolvidas após a leitura do trabalho e a partida para novas descobertas e desafios (grifo nisso). 5 REFLEXÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS O mundo está em constante transformação e a escola precisa acompanhar tais mudanças, preparando os futuros cidadãos para com elas lidarem. Esse axioma, repetidamente bradado na escola e fora dela é, para muitos, algo elementar a se concretizar. Há, contudo, um caminho repleto de desafios para tanto, em especial no processo de formação do profissional que atua em sala de aula, o professor. Diante disto, o presente estudo buscou examinar a proposta de formação inicial de professores bilíngues de Surdos, a partir das divergências no conceito de educação desse público, existentes no Decreto nº 5.626/2005 e na Política de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008. Por conseguinte, identificou os desafios enfrentados por professoras bilíngues no exercíciode sua docência em uma escola bilíngue do DF, e a possível relação com 147 seus cursos de formação inicial, elencando as sugestões dessas professoras e de pesquisadoras acadêmicas para a formação inicial de professores bilíngues de Surdos. A formação inicial docente no Brasil, em particular, e por si só, constitui-se um desafio, posto que os dados apontados anualmente por meio dos censos educacionais revelam um número significativo de professores tanto sem formação superior, quanto sem a formação superior adequada à área em que atuam (SILVA, 2020). Além disso, a dimensão territorial de nosso país, que carrega consigo as diferenças de cada localidade, os fatores complexos de cunho econômico, social e político, e a dualidade entre os aspectos didático-pedagógicos na organização curricular dos cursos (Silva, 2020; Brzezinski, 2007, 2014; Saviani, 2008), fazem dessa temática um campo multifacetado para estudos e discussões. Em relação às políticas de formação docente em nosso país, observa-se, como já constatado por Carvalho (2001), que este tema é um dos mais importantes nas linhas de pesquisa da área de ensino, sendo discutido pela sociedade educacional desde a década de 1970. Apesar do aumento significativo da produção acadêmica sobre este assunto, percebeu-se pelas produções científicas analisadas e identificadas como um dos limites deste estudo que tanto os problemas quanto as sugestões se repetem de tal forma que parece que muito pouca coisa de fato muda. Gatti et al (2014) sustentam que, em justaposição aos problemas estruturais do país, essas políticas não se desenvolvem de modo sistêmico devido à continuidade da percepção colonialista, autoritária e elitista dos governantes que as propõem e que, não raras vezes, visam seus interesses individuais. Outro limite que permanece é a falta de proficiência em Libras dos professores bilíngues e a necessidade de formação para profissionais que atuam na Educação de Surdos e se formaram anteriormente ao Decreto nº 5626/2005, o qual regulamentou a Libras e garantiu sua inserção como disciplina curricular obrigatória nos cursos de Licenciatura e Fonoaudiologia. Além disso, apesar do referido Decreto dispor sobre a formação de professores bilíngues, percebeu- se que ao enfocar a capacitação do componente curricular Libras, o mesmo a circunscreve, no modelo denominado por Saviani (2011), de conteúdos culturais-cognitivos. Apesar de o modelo pedagógico-didático ter ganhado espaço na organização dos currículos formativos, tornando-se componente curricular obrigatório nos cursos de licenciaturas, evidencia-se, nesta análise, que ainda há carência de articulação entre os dois modelos de formação de professores bilíngues de Surdos. 148 Por este motivo, reforça-se a necessidade de formação em nível superior para todos os professores que atuarão na Educação Bilíngue de Surdos. Enfatiza-se, também, que para que haja a educação verdadeiramente bilíngue de Surdos, faz-se necessária uma formação inicial de professores que articule tanto os conteúdos culturais-cognitivos, como os pedagógico-didáticos. Constatou-se ainda que a formação inicial de professores bilíngues para a Educação Bilíngue de Surdos, por sua vez, também é alvo de debates e está intrinsecamente relacionada à história da educação de Surdos, tendo sido desconstruída e reconstruída ao longo dos anos. Mediante os movimentos de resistência da Comunidade Surda e acadêmica, esta modalidade de educação vem passando por várias transformações, desde a negação e contradição, até seu reconhecimento e regulamentação no Brasil, como bilíngue em Libras e em Língua Portuguesa na modalidade escrita. Assevera-se que este fato se dá em virtude do entendimento da comunidade não surda, que utiliza as línguas orais e se constitui como uma população linguisticamente majoritária, em relação às línguas de sinais de uma população minoritária, em acréscimo às diferentes concepções sobre a pessoa Surda e a surdez. Como limitações da pesquisa, destacam-se também os desafios enfrentados em função da crise sanitária ocasionada pelo contexto pandêmico de Covid-19, como as medidas de restrição de circulação de pessoas como forma de contenção da propagação do vírus. A partir dessas diligências, houve a necessidade de modificação na forma de aplicação das entrevistas e questionários, cuja realização havia sido planejada a priori presencialmente e ocorreram remotamente, via plataformas digitais de comunicação. O emprego dessas alternativas gerou novos obstáculos e contratempos tanto para a pesquisadora quanto para as respondentes, como necessidade de aprendizagem sobre sua utilização, instabilidade de internet e interrupções frequentes pelo contexto familiar, uma vez que todas as envolvidas estavam em suas residências. No que se concerne aos avanços desta pesquisa, ressalta-se o resgate do processo histórico e o acompanhamento e registro dos mais recentes normativos legais publicados em relação ao tema de estudo. Tais documentos representam a potência dos estudos Surdos e a necessidade de sua discussão. Há duas décadas a Libras foi reconhecida pela Lei nº 10.436/2002 como “meio legal de comunicação e expressão” (BRASIL, 2002, Artigo 1º) das Comunidades Surdas brasileiras, assegurada pelo Decreto nº 5.626/2005, como disciplina obrigatória nos cursos de formação de professores para a educação básica e sua presença é garantida “em todos os níveis, etapas e modalidades da educação, desde a educação infantil até a superior (BRASIL, 149 2005, Artigo 14). Percebe-se, portanto, um entendimento da diferença linguística desse grupo social e da necessidade de formação docente para sua educação, que constituiu um campo específico de conhecimento. Por outro lado, verificou-se que a Política de Inclusão de 2008, publicada três anos após o referido Decreto, defende a inclusão dos alunos Surdos no sistema regular de ensino e reduz a Educação Bilíngue à presença de duas línguas no interior da escola, impossibilitando assim que cada uma assuma seu lugar de pertinência para os grupos que as utilizam. A Língua Portuguesa nesse contexto, continua tendo prevalência nos processos educacionais. Conforme demonstrado neste estudo, a diferença entre os sentidos dos conceitos de Educação Bilíngue e de inclusão nos dois documentos alimentou velhas tensões e inviabilizou o diálogo entre estes normativos, o que reverberou na proposição da formação inicial de professores que atuarão nessa modalidade educacional. Esse cenário fragiliza formação de profissionais que atuarão na Educação Bilíngue, pois, como verificado, embora o Decreto reconheça a importância da Libras e estabeleça essa forma educação, constata-se prevalência na formação de professores para atuação nos anos finais do ensino fundamental, médio e na educação superior e não na educação infantil, representada pelos cursos de Pedagogia Bilíngue. Dessa forma, não há destaque para a formação de profissionais que atuarão na educação infantil, base da escolarização de toda criança. Assim sendo, ao questionar-se, na situação problema desta pesquisa: Por que a formação inicial de professores bilíngues, proposta pelos normativos legais brasileiros, atende de forma limitada às especificidades da Educação Bilíngue de Surdos? percebeu-se que isso ocorre por ela estar entrelaçada à Educação Especial e não às particularidades da Educação Bilíngue. No tocante aos desafios enfrentados no exercício da docência, verificou-se a ausência de proficiência em Libras pelos estudantes, escassez de recursos didáticos específicos e inexistência de metodologias de ensino bilíngue. Considera-se que este último aspecto se relaciona com os cursos de formação inicial e seriam dirimidos se as políticas educativas e linguísticas contemplassem os princípios de uma Educação Bilíngue condizente com pesquisas científicase reivindicações da Comunidade Surda. Por outro lado, acredita-se que, à medida em que o professor recebe uma adequada formação, ele estará apto a utilizar as metodologias de ensino bilíngue aprendidas, sendo capaz de propor modificações e criar soluções em seu contexto escolar, desde que haja recursos disponíveis em sua instituição. 150 A partir das sugestões das entrevistadas para os processos formativos docentes de Educação Bilíngue de Surdos, elencadas após a identificação dos aspectos que não foram contemplados nos documentos analisados, argumenta-se mais uma vez sobre a necessidade de uma política condizente com as especificidades do público Surdo. Destacam-se também os aspectos que ainda precisam ser amparados na legislação para a formação inicial de professores bilíngues: a) enfoque verdadeiramente bilíngue; b) mais cursos de Pedagogia Bilíngue, com propostas pedagógicas curriculares bilíngues sem analogia com práticas não surdas; c) presença de professores Surdos nas séries iniciais; d) ações no âmbito da saúde para intervenção na aquisição da Língua de Sinais e da Língua Portuguesa para que o bilinguismo seja apresentado às famílias de crianças Surdas desde o seu nascimento, com vistas a valorizar o aprendizado da Língua de Sinais como L1; e) constituição de materiais bilíngues em Libras e em LP na modalidade escrita e f) criação de uma política de financiamento e de planejamento para que as propostas de formação inicial de professores bilíngues possam ser executadas. No processo de entendimento e definição de Educação Bilíngue de Surdos e seus efeitos para a formação de professores bilíngues, em justaposição à retórica de investimentos à educação e à capacitação dos profissionais que nela atuam, defende-se a força da base legal, apesar das interrupções e rupturas percebidas em alguns normativos. Nesse complicado processo jurídico, reconhece-se a importância do alicerce das políticas públicas para as modificações em nosso sistema educacional. Nesse sentido, apesar da legislação existente até o ano da análise dos dados deste estudo, não havia Lei que incluísse a Educação Bilíngue de Surdos como uma modalidade específica de educação. Essa realidade foi modificada com a aprovação da Lei nº 14.191 de 03 de agosto de 2021, que a estabelece como modalidade de educação na LDB de 1996, independente da Educação Especial. Essa concepção garante o desenvolvimento de uma estrutura organizacional de base bilíngue, a ser definida por meio das Diretrizes da Educação Bilíngue de Surdos. O documento que a orienta está sendo discutido entre o sistema e a sociedade educacional nacional, sob a supervisão do CNE, será disponibilizado para consulta pública, a partir da qual, as bases curriculares e de formação e a constituição de programas para as escolas bilíngues de Surdos, poderão se tornar uma realidade em nosso país. Dada a limitação temporal de um curso de doutorado, além da impossibilidade de avaliação dos resultados da mais nova política para a Educação Bilíngue de Surdos, devido a 151 sua publicação ocorrer ao término desta investigação, não foi possível discutir seus efeitos, apenas apresentar algumas de suas determinações. A partir desta pesquisa, da alteração da LDB de 1996 para dispor sobre a Educação Bilíngue separada da Educação Especial pela primeira vez, e com o retorno às atividades presenciais escolares em virtude da vacinação da população contra a Covid-19, percebe-se que novas questões poderão vir a ser analisadas futuramente. Indagações como: Qual o curso de formação inicial de professores bilíngues para o contexto dessa Educação? De que forma será avaliada a proficiência em Libras desses profissionais? Que formação os professores em exercício devem ter para se apropriarem dos novos regimentos? Seria por meio de formação continuada ou segunda graduação? De que forma operacionalizar a logística dos recursos financeiros para a formação profissional, criação e manutenção de escolas bilíngues para uma população minoritária no país? Houve mudança de entendimento, nas famílias não surdas de crianças Surdas, sobre a escolarização de seus filhos? Houve reestruturação das práticas docentes para essa nova modalidade de educação? Quais os impactos dessa reestruturação para a educação das pessoas Surdas? Os mecanismos administrativos, informacionais, comunicacionais, arquitetônicos, de transporte e mobilidade passaram a receber integralmente as pessoas Surdas, seus familiares e os profissionais desse sistema? Quais os impactos que o ensino remoto em virtude da pandemia de Covid-19 ocasionou no desenvolvimento linguístico, social e cultural dos estudantes Surdos? Essas e outras pautas demonstram que ainda há muito a ser pesquisado sobre a temática e, dessa forma, não se pretendeu encerrar o assunto e sim provocar novas discussões sobre suas consequências para a formação inicial de professores bilíngues. Por fim, esperança-se que este trabalho possa trazer uma reflexão acerca da diferenciação entre Educação Bilíngue de Surdos e Educação Especial e Inclusiva e sua consequente interferência na correta proposição de políticas públicas para a formação de professores bilíngues. Outrossim, esperança-se que, a partir da publicação da Lei nº 14.191/2021 e em conjunto com este trabalho, a formação de professores bilíngues delineie-se para, de fato, atender ao sujeito Surdo e que possamos viver e construir uma sociedade para todos, como defendido por Sassaki (1997). Como apregoam Silva e Silva (2021), em um diálogo com Paulo Freire, no artigo intitulado: “Educação de Surdos e Paulo Freire: o diálogo da esperança”, esperança-se por não esperar inertemente pela mudança no entendimento da Educação Bilíngue de Surdos e na 152 importância da adequada formação docente para atuação com este público. Esperança que se reflete na consciência e na ação transformadora. 6 REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. Nota de repúdio ao Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020, que institui a Política Nacional de Educação Especial. São Paulo, 06 out. 2020. Disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/noticias/nota-de- repudio-ao-decreto-no-10-502-de-30-de-setembro-de-2020-que-institui-a-politica-nacional- de-educacao-especial/52894/. Acesso em: 27 mar. 2021. ALBRES, N. A. Mesclagem de voz e tipos de discursos no processo de interpretação da língua de sinais para o Língua Portuguesa oral: Cadernos de Tradução. UFSC, v. 2, n. 26, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/index. Acesso em 01 mar. 2020. ALBRES, N. A. Relações dialógicas entre professores surdos sobre o ensino de Libras. 2013. 236f. Tese (Doutorado em Educação Especial). Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2013. ALBRES, N. A. 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O Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024) também é referência para a educação de Surdos, pois determina metas e estratégias para assegurar a Educação Bilíngue em Libras e Língua Portuguesa para crianças Surdas e com deficiência auditiva, em escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas (BRASIL, 2014a). Em 2020, o Decreto nº 10.502 institui a nova política de inclusão, denominada Política Nacional de Educação Especial, Equitativa, Inclusiva e com aprendizado ao longo da Vida, a qual reconhece a Educação Bilíngue de Surdos como aquela que promove a especificidade linguística e cultural desses estudantes, com a utilização da Libras como língua de instrução, comunicação, interação e ensino, e a Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (BRASIL, 2020), mas ainda a insere em uma política de inclusão. E ainda, a mais nova Lei aprovada em prol da Educação Bilíngue de Surdos, a Lei nº 14.191 de 03 de agosto de 2021, que altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), para dispor sobre a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos separadamente da Educação Especial e Inclusiva (BRASIL, 2021a). Além desses normativos legais, há vários outros documentos internacionais que orientam a educação de qualidade como direito do cidadão, estendendo-se aos Surdos e as PcD, como a Declaração de Salamanca de 1994 e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das PcD, de 2006. Tais documentos também contemplam a importância de programas de treinamento de um dos principais atores do processo educativo: o professor. No entanto, a despeito da relevância da adequada formação desses profissionais para a educação de qualidade recomendada por tais regulamentos jurídicos, constitui uma prática, em nosso país, a revogação de leis, decretos, portarias e resoluções e a aprovação de inúmeras emendas, o que se traduz na falta de continuidade das propostas e na sobreposição das políticas 21 públicas em todas as esferas do governo (GENTIL; COSTA, 2011), inclusive na educação. Tal fato contribui para a não efetivação das proposições regulamentadas nesses documentos. Alves e Aguilar (2018) consideram ingenuidade acreditar que uma vez publicada uma política pública em nosso país, ela irá se materializar tal como foi idealizada, desconsiderando, contudo, a existência de fatores políticos, econômicos e sociais que podem gerar interferências em seu processo de implementação. Por isso, especificamente sobre a formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, tema deste trabalho, destacam-se as lacunas dos normativos legais selecionados para análise, que atendem de forma limitada ao modelo educacional bilíngue para esse público, enfraquecendo o estabelecimento da adequada formação dos profissionais que atuarão na regência das classes bilíngues. Diante do cenário histórico brasileiro em que transformações em educação se dão uma vez que tenham sido instituídas na forma da Lei e cujo o entendimento é o de que uma nova educação se faria bastando criar uma condição de imposição legal aos sistemas educacionais (FERREIRA; FERREIRA, 2013), esta pesquisa se propõe a examinar a proposta de formação inicial de professores bilíngues para atuar na Educação Bilíngue de Surdos, a partir de dois documentos legais sobre a temática; da apreciação de pesquisadoras que atuam nessa área e de professoras regentes em uma escola de Educação Bilíngue Libras/Língua Portuguesa escrita, no Distrito Federal (DF). A organização do trabalho compreende seis seções, seguidas dos apêndices. A primeira parte é composta por esta introdução, problema da pesquisa, objetivos e justificativa para escolha do objeto de estudo. A segunda seção traz a revisão de literatura que consubstanciou a pesquisa e está subdividida nos seguintes tópicos: (1) Formação inicial de professores para a educação básica no Brasil desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996: documentos legais, (2) Formação inicial de professores para a Educação Especial na Perspectiva Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos: pontos e contrapontos e (3) Bilinguismo para Surdos: importância e percurso histórico. Não será objeto deste estudo analisar a surdez como deficiência e limitação e, por este motivo, o enfoque dado à formação inicial de professores para a educação de Surdos se dará na perspectiva bilíngue, proposta pelo Decreto nº 5.626/2005, que a compreende como uma questão social que envolve a Libras e a Língua Portuguesa na modalidade escrita em uma relação intrínseca com os aspectos culturais determinantes e determinados por cada uma. 22 Os procedimentos metodológicos adotados são apresentados na terceira seção com a caracterização da pesquisa; identificação do lócus, população e amostra; descrição dos pré- testes realizados, procedimentos éticos adotados na condução da geração dos dados; explicação das técnicas e instrumentos utilizados, da forma de transcrição adotada e da técnica de análise escolhida. A quarta seção contempla os resultados encontrados e analisados com base nos preceitos de análise de conteúdo, propostos por Bardin (2016). Na sequência, apresentam-se as considerações finais na quinta seção e, por fim, as referências consultadas. Nos apêndices constam os pré-testes de entrevista; os roteiros de entrevista, de questionário e de análise documental; além do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e de autorização de imagem e voz utilizados tanto com as pesquisadoras, quanto com as professoras entrevistadas, e ao final, a página da Plataforma Brasil com aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília (CEP/UCB). 1.1 PROBLEMA DE PESQUISA Diante do crescente número de estudantes Surdos na educação básica e do aumento da conscientização sobre a importância da Libras para a escolarização desses sujeitos, percebe-se a necessidade de formação inicial de professores para um contexto educacional bilíngue. O reconhecimento da identidade e da Cultura Surda foi conquistado mediante a luta da Comunidade Surda e é defendido por ela e pelos teóricos no campo da educação desse público. Apesar de haver políticas linguísticas que marcam o início dos avanços e da valorização dessa parcela da população norteando para a Educação Bilíngue e se estendendo à formação docente, percebem-se lacunas e ambiguidades nos documentos que as orientam. Apoiada nos normativos legais mencionados anteriormente, com foco no Decreto nº 5.626/2005 e na Política de Inclusão e no posicionamento de cinco pesquisadoras acadêmicas brasileiras e de seis professoras bilíngues de uma escola bilíngue do Distrito Federal, constatou-se que o estudo deste tema constitui uma questão social que carece ser investigada. Referenciando Quadros (2006a), estamos diante de um obstáculo para além da esfera educacional, já que diz respeito à questão entre maioria e minoria linguística. Nota-se que o entendimento sobre Educação Bilíngue de Surdos, em algumas escolas, ainda está atrelado à Política de Inclusão e, por isso, destoa da proposta preconizada pela 23 Comunidade Surda, que não concorda com a simples inclusão de intérpretes de Libras no espaço escolar. A proposta defendida pelas pessoas usuárias da Libras como primeira língua (L1), é um espaço escolar bilíngue que abarque uma política de respeito à diferença e não deficiência, bem como à história desse povo, não sendo, portanto, apenas duas línguas, Libras e Língua Portuguesa na modalidade escrita com auxílio de intérpreteshttps://www.gov.br/mec/pt-br/media/acesso_informacacao/pdf/0CADERNODEINTRODUOISBN296.pdf https://www.gov.br/mec/pt-br/media/acesso_informacacao/pdf/0CADERNODEINTRODUOISBN296.pdf 160 BRZEZINSKI, I. (Org.). LDB/1996 vinte anos depois: projetos educacionais em disputa. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2018. BUENO, J. G. S. 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Além disso, a proposição de educação feita pelos sujeitos Surdos e pesquisadores do tema, é que ela ocorra nas escolas bilíngues específicas para essa população educacional, pois nelas há uma comunidade linguística e cultural com a qual as crianças e jovens Surdos podem identificar-se e construir sua diferença política e cultural (THOMA, 2016). O professor bilíngue, neste contexto, não deve ser apenas fluente em Libras e Língua Portuguesa na modalidade escrita, necessita entender todo o processo de aquisição da Libras e sua importância para a identidade da pessoa Surda, bem como ter adquirido os conhecimentos necessários à prática pedagógica do ensino também nessas duas línguas. Sendo assim, a formação de professores bilíngues está intrinsecamente relacionada à constituição da Educação Bilíngue, pois ambas estão conceitualmente interligadas. Ao entender que há imprecisão nos normativos legais que regem a Educação Bilíngue de Surdos, percebe-se que há também inconsistências e ambivalências no conceito de formação inicial de professores bilíngues para esse contexto. Ora, se a formação inicial de professores bilíngues está diretamente relacionada à Educação Bilíngue, que deve utilizar a Libras como L1 e se ela foi reconhecida como língua oficial das comunidades Surdas brasileiras apenas em 2005, qual foi a formação de professores bilíngues no período anterior a 2005? Qual seria a correta formação inicial de professores, se há hiatos nos regimentos legais que fundamentam tal capacitação? Como haver uma formação inicial específica para professores bilíngues de Surdos, se não há entendimento das políticas públicas sobre as diferenças entre os Surdos e as PcD? Essas são algumas indagações que nortearam a escolha do tema de pesquisa e que constatam alguns dos dilemas que a formação inicial de professores para o ensino de Surdos na perspectiva bilíngue impõe. Diversos autores (SILVA, 2010; RIBEIRO, 2013; SILVA, COSTA, LOPES, 2014; LODI, LACERDA, 2015; FERREIRA, 2016; MUTTÃO, 2017; CICILINO, GIROTO, VITTA, 2018, dentre tantos outros), têm se debruçado sobre o estudo dessa problemática, e fazem apontamentos sobre como é oferecida tal capacitação nas universidades brasileiras. Muttão 24 (2017), por exemplo, em sua dissertação de mestrado em educação, analisou a formação de professores de Surdos, através de uma revisão sistemática de literatura de teses e dissertações escritas entre os anos de 2009 e 2014 e constatou que as especificidades da educação de Surdos não foram contempladas na formação inicial, que as restringia ao oferecimento da disciplina de Libras. Apesar dessas pesquisas apontarem para formas distintas de se pensar a formação inicial, e também continuada, de professores bilíngues de Surdos, é possível observar que elas não têm sido suficientes para capacitar o profissional para atuar em escolas inclusivas, quiçá bilíngues. A escrita poderia até ser uma alternativa na comunicação com o público Surdo, já que, muitas vezes, este grupo linguístico não possui problemas visuais, no entanto, a Língua Portuguesa na modalidade escrita é a segunda língua para esses indivíduos e, por isso, o grau de dificuldade de aprendizado é maior se comparado à primeira língua, assim como qualquer língua estrangeira (STREIECHEN; KRAUSE-LEMKE, 2014). Ademais, como explica Quadros (2004), a Libras é uma língua visuoespacial, com sintaxe espacial, sem flexão de gênero e escrita não alfabética, diferentemente da Língua Portuguesa, que possui sintaxe linear, flexão de gênero e escrita alfabética. Por esse motivo, as tentativas de comunicação na forma escrita podem não ser eficientes. Portanto, parece que o direito à educação não está atendendo à população Surda e, dada a importância da educação para a formação de toda a sociedade, como dito nas palavras do educador brasileiro Moacir Gadotti (2004, p. 43) “a educação é um lugar onde toda a nossa sociedade se interroga a respeito dela mesma – ela se debate e se busca”; constata-se a necessidade em priorizar a formação adequada do profissional que lida diariamente com os estudantes: o professor. Sendo assim, é importante deixar claro que esta investigação tem como compromisso discutir sobre a formação inicial de professores bilíngues para a educação de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre dois normativos legais que orientam a educação desse público, sob a ótica de estudiosos desse campo de estudo e de experiências docentes de educadores de uma escola bilíngue da capital do Brasil. Diante disso, a hipótese dessa pesquisa é: Na medida em que a formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos estiver pautada numa legislação com ela condizente, seu desempenho será mais significativo. 25 Para isso, coloca-se como situação problema a seguinte questão: Por que a formação inicial de professores bilíngues, proposta pelos normativos legais brasileiros, atende de forma limitada às especificidades de Educação Bilíngue de Surdos? Dessa forma, espera-se que a realização deste estudo contribua para a discussão sobre a necessidade de mudanças e de efetivação das políticas de formação docente para e Educação Bilíngue de Surdos, bem como fomente novas pesquisas que abarquem propostas de formação inicial de professores para esse público. 1.2 OBJETIVOS 1.2.1 Objetivo Geral Analisar a formação inicial de professores bilíngues para a educação de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre o Decreto nº 5.626/2005 e a Política de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008. 1.2.2 Objetivos Específicos 1. Examinar a proposta de formação inicial de professores bilíngues de Surdos, a partir das divergências no conceito de educação deste público, existentes no Decreto nº 5.626/2005 e na Política de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008; 2. Identificar os desafios enfrentados por professores bilíngues no exercício de sua docência e a possível relação com seus cursos de formação inicial; 3. Elencar as sugestões de professores e de pesquisadores acadêmicos, para a formação inicial de professores bilíngues de Surdos. 1.3 JUSTIFICATIVA Considerando o histórico das metodologias de ensino aplicadas às pessoas Surdas, inicialmente concentradas apenas na oralização, justifica-se inicialmente esta demanda de pesquisa. Foi somente na década de 1960, com os estudos do linguista William Stokoe (1919- 26 2000) sobre a Língua Americana de Sinais (ASL) e o sistema linguístico completo presente nas línguas de sinais, que os questionamentos sobre a formação, desenvolvimento e aprendizagem de Surdos começaram a ocorrer em vários países, inclusive no Brasil, retomando-se as discussões sobre o uso do oralismo e comunicação total6. A história da educação de Surdos também seguiu pela Educação Especial e Inclusiva até alcançar o bilinguismo, reconhecido na década de 1980, mas somente no ano de 2021 foi disposto na LDB (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), separadamente da educação inclusiva. A Lei nº 14.191 de 03 de agosto de 20217 alterou a LDB de 1996, para dispor sobre a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos, a ser oferecida em Libras, como primeira língua, e em Língua Portuguesa na modalidade escrita, como segunda língua. Ademais, apesar dessa normatização constituir um grande marco para a Comunidade Surda, a continuidade do debate nas esferas acadêmica, social e política sobre sua efetivação e efeitos é basilar para a proposição e regulamentação de novas políticas públicas para este grupo populacional. A importância deste estudo se justifica pela relevância do papel dos professores na sociedade contemporânea, que compõem uma das categorias profissionais chave para se entender as mudanças que vêm ocorrendo na sociedadebrasileira, sendo considerados por Tardif e Lessard (2005), como um dos responsáveis pelo processo de socialização das crianças e jovens realizado pela via escolar. Apesar da significância dos professores para a formação escolar e humana, eles não têm recebido ao longo dos anos uma formação inicial adequada, especialmente em relação à diversidade e singularidade dos estudantes, como os Surdos. Sabe-se que, devido às políticas públicas voltadas à população Surda, seu acesso à escolarização tem aumentado e, por isso, a demanda de formação de professores para atuarem em sua educação mostra-se cada vez maior. Assim, a ampliação ao acesso e direitos dos estudantes Surdos nas escolas evidencia a necessidade de aprofundamento no estudo da adequada formação inicial dos profissionais que atuarão nesses espaços. Os professores, muitas vezes, ao ter um aluno Surdo em sua classe, não sabem como proceder, como se dirigir a ele e como criar as possibilidades para a própria construção ou produção do conhecimento, em conformidade com Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da 6 O oralismo, comunicação total, educação inclusiva e bilinguismo serão abordados no tópico 2.3. 7 Durante o período de construção do referencial teórico desta tese, bem como da coleta dos dados, este documento ainda não havia sido aprovado, havendo apenas um forte movimento da Comunidade Surda em prol da instituição da Educação Bilíngue separada da Educação Especial. Por este motivo, este documento não foi analisado através do roteiro de análise documental, mas será comentado mais adiante. 27 Autonomia (FREIRE, 1996). Portanto, percorrer a instituição da formação inicial de professores desde a LDB de 1996, através dos normativos legais, e refletir sobre seus desafios e contradições, presentes também na formação inicial de professores para a educação de Surdos, mostra-se importante para trazer reflexões que agreguem mais elementos ao debate sobre políticas públicas educacionais voltadas para a formação inicial desse profissional. A realização do estudo justifica-se também pela relevância que esta temática exerce no contexto educacional, onde se entende que o professor, para atuar junto ao educando Surdo na proposta bilíngue, deve possuir formação bilíngue em Libras e em Língua Portuguesa na modalidade escrita e ter o conhecimento de como se processa a educação desses sujeitos. De acordo com Vieira-Machado (2016), ainda não há, no Brasil, uma geração de profissionais que tenha tido um percurso educacional sob a referência bilíngue. Em geral, os profissionais em atuação são professores que, de alguma forma, desenvolveram a fluência na Língua de Sinais, por meio do convívio social com pessoas Surdas ou pela iniciativa pessoal e informal. Há também professores que alcançaram alguma proficiência na Libras por meio da convivência com alunos nas escolas, o que não atende a proposta bilíngue, que demanda um profissional academicamente qualificado, assim como a proposta regular de ensino. Além dos fatores acima mencionados, destaca-se a relevância pedagógica para as políticas de educação, em especial, a de Surdos e relevância no plano dos direitos humanos, uma vez que se insere em uma luta histórica pela plenitude dos direitos humanos, onde a formação de professores se constitui em um capítulo importante nesta diligência. Assim, analisar a tríade constituída entre: a) a proposição de formação inicial de professores para a Educação Bilíngue de Surdos apresentada em dois documentos legais, sob a perspectiva de significativas pesquisadoras acadêmicas; b) a relação entre os desafios enfrentados por professoras bilíngues no exercício de sua docência em uma escola bilíngue, com seus cursos de formação inicial, e c) as sugestões dessas professoras e de pesquisadoras acadêmicas selecionadas com base em suas experiências, para os processos formativos docentes, revela-se uma proposta desafiadora, sendo, portanto, uma pesquisa necessária à reflexão sobre a estrutura desses cursos e a possibilidade de reformulá-los. Não se pretende, a partir do estudo, encontrar uma verdade absoluta, mas verdades presentes e vividas pelas professoras e pesquisadoras, sujeitos do mesmo. 28 2 REVISÃO DE LITERATURA Tendo em vista o objetivo principal desta tese de analisar a formação inicial de professores bilíngues para a educação de Surdos, tendo em vista a dicotomia existente entre o Decreto nº 5.626/2005 e a Política de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008, à luz destes dois normativos legais e das considerações de pesquisadoras acadêmicas e de professores bilíngues, esta seção se ocupa em discutir o material teórico utilizado para base do estudo. A seção compreende três tópicos: (1) Formação de Professores para a educação básica no Brasil desde a LDB de 1996: Documentos Legais; (2) Formação de professores para a Educação Especial na Perspectiva Inclusiva e para a Educação Bilíngue de Surdos: pontos e contrapontos; e (3) Bilinguismo para Surdos: importância e percurso histórico. Esta organização foi fundamentada em um levantamento bibliográfico realizado a partir da apreciação de livros, normativos legais, artigos científicos resultantes de pesquisa em bases de dados como o Elsevier Scopus e SciELO e, pesquisas acadêmicas de pós-graduação em educação, que constam na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e no catálogo de teses e dissertações da CAPES. O primeiro tópico aborda a ordem cronológica dos normativos legais referentes à formação inicial de professores da educação básica, desde a publicação da LDB de 1996, no intuito de fomentar a reflexão e o debate sobre a fragilidade das políticas de formação de professores devido à descontinuidade das mesmas, a partir da discussão de diversos autores e obras literárias sobre o tema. O segundo tópico apresenta alguns dos dispositivos legais que instituem a formação inicial de professores para a Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, desde o primeiro curso em 1962, e esclarece por que a formação de professores para a Educação Bilíngue de Surdos, conforme disposta do Decreto nº 5.626/05, não está contemplada nessa política. Mostra também a diferença entre Surdo e Pessoa com Deficiência à luz do campo de estudos sobre a educação de Surdos O terceiro tópico traz o histórico e a contextualização da educação de Surdos no Brasil e no mundo, a fim de apresentar o desnível de formação que esses indivíduos tiveram ao longo da História e sua luta por reconhecimento como povo Surdo, como defendido por Strobel (2009). Retrata, também, o surgimento da proposta bilíngue de educação, baseada na Língua 29 de Sinais como primeira língua para os Surdos e na língua na modalidade escrita, como segunda. No caso do Brasil, trata-se da Libras e da Língua Portuguesa. 2.1 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL DESDE A LDB DE 1996: DOCUMENTOS LEGAIS Este tópico aborda o histórico de elaboração e operacionalização das políticas públicas de formação de professores no Brasil, com recorte temporal de 1996 a 2019. O marco inicial da pesquisa é a LDB de 1996, que foi escolhida devido a sua relevância na educação do país, ao ponto de ser chamada por Saviani (2016a) de “Lei Magna da Educação Brasileira”. O limite temporal do estudo foi o ano de 2019, por ser o ano em que o levantamento foi feito. O objetivo desse recorte de normativos legais é fomentar o debate e reflexão sobre a dificuldade em se estabelecer uma sólida política para formação de professores no Brasil, desde a educação básica do ensino regular, perpassando a Educação Especial e de Surdos, devido à descontinuidade e sobreposição de tais documentos. Foi dado destaque à formação inicial para a educação básica, já que esta será analisada no tópico 2.2 da revisão de literatura no tocante à formação de professores para o ensinode Surdos na Educação Especial na Perspectiva Inclusiva e na proposta bilíngue. Utilizaram-se, como fonte de pesquisa, autores como Gatti e Barreto (2009), Gatti (2010), Gatti, Barreto e André (2011), Gatti et al (2019), Saviani (2007, 2008a, 2009, 2016a, 2016b ), Libâneo (2011), Brzezinski (2007, 2014, 2018), normativos legais brasileiros e artigos publicados em revistas científicas de educação e na base de dados Scientific Eletronic Library Online (SciELO), onde por intermédio da busca dos descritores: “formação de professores and Brasil”, obteve-se o resultado de 539 trabalhos. Após aplicação do filtro “ano de publicação”, com a escolha pelo ano de 2019 e pelos dois últimos anos anteriores ao da busca: 2017 e 2018, obteve-se o total de 131 resultados. Para refinamento da busca, utilizou-se o filtro “tipo de literatura”, com seleção da opção “artigos”, perfazendo 126. O filtro seguinte foi: “WoS8 áreas temáticas”, elegendo-se “educação e pesquisa educacional”, onde obteve-se o resultado de 81 8 WoS: Refere-se à Web of Science, uma plataforma de busca de índices bibliográficos e bibliométricos de alcance e notoriedade mundial. Desde janeiro de 2014, a base de dados SCieLO foi indexada a essa plataforma. 30 publicações. Após leitura de todos os títulos e resumos, foram selecionados 11 artigos por terem relação direta com a temática que será apresentada a seguir. A busca na base de dados SciELO foi feita em outubro de 2019 e seu uso se justifica pela sua abrangência e por incluir publicações relevantes na área de Educação, conforme o sistema Qualis-Periódicos9 da CAPES. Dado o papel essencial atribuído à educação para a transformação de nossas vidas e seu entendimento como um bem público e um direito humano fundamental, que constitui o pilar para a efetivação de outros direitos, faz-se necessário o empenho dos governos em prol da construção e atualização de políticas educativas. Pensando nisso, vários países, inclusive o Brasil, assumiram os compromissos expressos no Marco de Ação de Dakar10 e na Agenda 203011 que, devido à importância de seus 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados em todos os continentes, está apresentada na Figura 1 que segue: 9 Ferramenta usada para classificar a produção científica dos programas de pós-graduação no que se refere aos artigos publicados em periódicos científicos. A classificação é realizada pelos comitês de consultores de cada área de avaliação seguindo critérios previamente definidos pela área e procuram refletir a importância relativa dos diferentes periódicos para uma determinada área (BRASIL, 2018). 10 Compromisso coletivo firmado durante o Fórum Mundial da Educação em Dakar, em 2000, representando um esforço da comunidade internacional em avançar na realização do direito à educação no mundo, através de um conjunto de metas que vigoraram entre 2000 e 2015. Foi feito com base nos preceitos da Declaração Universal de Direitos Humanos (1948), da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) e da Declaração Mundial de Educação Para Todos (Jomtien, 1990). 11 Plano de ação global para promover o desenvolvimento sustentável composta por 17 Objetivos, com vigência entre 2015 e 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.org.br/sobre/. Acesso em 24 jan. 2020. 31 Figura 1 - Objetivos globais para o Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 Fonte: Plataforma Agenda 2030 (ONU, 2020) O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 da Agenda 2030 está diretamente voltado para o tema da educação: “Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos” (ONU, 2015). É composto por 7 metas de resultado e 3 de insumo, como a última, a 4.c, que se refere à qualificação dos professores: Até 2030, substancialmente aumentar o contingente de professores qualificados, inclusive por meio da cooperação internacional para a formação de professores, nos países em desenvolvimento, especialmente os países de menor desenvolvimento relativo e pequenos Estados insulares em desenvolvimento (ONU, 2015). Assim, como apresentado por Marlova Noleto, diretora e representante da UNESCO no Brasil em 2019, no prefácio do livro de Gatti et al (2019) sobre os novos cenários de formação dos professores do Brasil, para o alcance da qualidade educativa proposta pelo ODS 4, é necessário professores bem formados e valorizados e construção de sistemas educativos de qualidade, equitativos e inclusivos. Gatti e Barreto (2009), dez anos antes da publicação de Gatti et al (2019), já apontavam como necessário proceder à efetivação de políticas docentes que promovam atratividade à carreira, formação inicial e continuada consistente, reconhecimento e possibilidade de desenvolvimento profissional, remuneração e condições de trabalho adequadas. 32 Diferentes estudiosos e pesquisadores do campo da educação têm concentrado esforços para instigar interlocuções epistemológicas e metodológicas em torno de uma temática abrangente e multidisciplinar, com uma centralidade comum: a formação docente. Eles também analisam as tensões (BRZEZINSKI, 2007), conflitos, fragilidades (GATTI, 1997), embates (BARRETO, 2015), dilemas (SAVIANI, 2011), contradições (SAVIANI, 2009) e descontinuidade (SAVIANI, 2016a) das leis e comandos legais que instituem e fomentam essa formação de profissionais para a educação básica brasileira. Parte dos resultados desses esforços tem se transformado em aportes teórico explicativos tentando expressar uma reflexão mais apropriada sobre o ideal e necessário para uma formação de qualidade em nosso país. Para Oliveira e Leiro (2019, p. 4), a formação de professores tem sido tomada como área estratégica de intervenção, a fim de alcançar as transformações desejáveis na educação. Os autores afirmam que essa temática tem se constituído em “um contexto de inquietudes e disputas políticas”. Considerando os estudos de Coutinho (2013), que sintetizam a compreensão das políticas públicas como um entrelaçado de normas formuladas, a partir dos direitos da população e que permeia todas as suas fases ou ciclos, torna-se relevante entendê-las e estudá- las, já que representam, ou ao menos deveriam, nossos direitos. Com o propósito de analisar o curso das políticas educacionais relacionadas à formação de professores, foi realizado o levantamento do ordenamento legal instituído desde 1996 até 2019, incluindo leis, decretos, planos de desenvolvimento da educação oficializados pelo MEC, portarias específicas publicadas pela CAPES e MEC, e resoluções do Conselho Nacional de Educação (CNE), que regulamentem ou façam referência à temática deste tópico. A partir de então, foi elaborado o Quadro dos marcos legais das políticas de formação de professores da educação básica, apresentado a seguir. Quadro 1 - Marcos legais das políticas de formação de professores da educação básica nº Ano Normativo Jurídico Assunto 1 1996 Lei nº 9.394 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. 2 1996 Lei nº 9.424 Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). 33 3 1999 Decreto nº 3.276 Dispõe sobre a formação em nível superior de professores para atuar na educação básica. 4 1999 Resolução CNE/CEB nº 02 Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal. 5 2000 Decreto nº 3.554 Dá nova redação ao parágrafo 2º do Art. 3º do Decreto nº 3.276, de 6 de dezembro de 1999, que dispõe sobre a formação em nível superior de professores para atuar na educação básica. 6 2001 Lei nº 10.172 Aprova o Plano Nacional de Educação. 7 2002 Resolução/CP nº 01 Institui Diretrizes Curriculares Nacionais paraFormação de Professores da educação básica em nível superior, curso de licenciatura e de graduação plena. 8 2002 Resolução/CP nº 02 Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da educação básica em nível superior. 9 2006 Lei nº 11.273 Autoriza a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes de programas de formação inicial e continuada de professores para a educação básica. 34 10 2006 Decreto nº 5.800 Institui o Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB. 11 2006 Resolução CNE/CP nº 01 Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, licenciatura. 12 2007 Lei nº 11.494 Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da educação básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB. 13 2007 Lei nº 11.502 Modifica as competências e a estrutura organizacional da fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. 14 2007 Decreto nº 6.316 Aprova o Estatuto e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. * 15 2007 PDE Plano de Desenvolvimento da Educação 16 2007 Portaria MEC nº 38 Institui o Programa de Bolsa Institucional de Iniciação à Docência - PIBID. 17 2008 Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva Documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria nº 555/2007, prorrogada pela Portaria nº 948/2007, entregue ao Ministro da Educação em 07 de janeiro de 2008. 18 2009 Decreto nº 6.755 Institui a Política Nacional de Formação de Profissionais do 35 Magistério da educação básica. 19 2009 Lei nº 12.014 Altera o Art. 61 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, com a finalidade de discriminar as categorias de trabalhadores que se devem considerar profissionais da educação. 20 2009 Portaria MEC nº 09 Institui o Plano Nacional de Formação dos Professores da educação básica (PARFOR). 21 2009 Portaria MEC nº 883 Estabelece as diretrizes nacionais para o funcionamento dos Fóruns Estaduais Permanentes de Apoio à Formação Docente. 22 2010 Decreto nº 7.219 Dispõe sobre o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID. 23 2010 Portaria nº 119 Institui o Programa de Consolidação das licenciaturas - Prodocência no âmbito da CAPES. 24 2012 Decreto nº 7.692 * Revoga o Decreto nº 6.755 ** 25 2013 Lei nº12.796 Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para dispor sobre a formação dos profissionais da educação e dar outras providências. 26 2014 Lei nº 13.005 Aprova o PNE 2014 - 2024. 27 2015 Resolução nº 02 Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, 36 cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. 28 2017 Decreto nº 8.977 **Revoga o Decreto nº 7.692 e aprova o Estatuto e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão e das Funções de Confiança da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES e substitui cargos em comissão do Grupo - Direção e Assessoramento Superiores - DAS por Funções Comissionadas do Poder Executivo - FCPE. 29 2018 Portaria CAPES nº 38 Institui o Programa de Residência Pedagógica 30 2019 Resolução CNE/CP nº 2 Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a educação básica e institui a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da educação básica (BNC- Formação). Fonte: Elaborado pela autora, 2019/2020. O Quadro 1 revela que não houve estagnação no campo das políticas de formação de professores que se direcionam para tentativas de fomentar as articulações entre elas. Aponta também para as conquistas obtidas nas últimas décadas, mostrando o esforço do governo federal em superar a histórica fragmentação e descontinuidade das políticas de formação de professores no país. Tais medidas impactaram de forma positiva a formação inicial de professores e retratam a tentativa de evolução no padrão das políticas educacionais: “o de legitimar as medidas 37 emergenciais como permanentes (BARRETO, 2015, p. 693)”, sem obter, no entanto, sucesso, pois continuam a seguir este modelo, que será apresentado nos parágrafos seguintes. A LDB também conhecida como Lei Darcy Ribeiro12, sancionada em 20 de dezembro de 1996 (Lei nº 9.294/1996), define e regulariza a organização da educação brasileira com base nos princípios presentes na Constituição Federal de 1988. Não obstante a interferência do cenário político, como as demais leis relacionadas à educação brasileira (DEMO, 1997; SAVIANI, 2008a), a LDB constitui-se como marco nas transformações ocorridas desde então na formação de professores do Brasil, permitindo a discussão e consolidação de medidas que ampliaram o acesso e melhoraram o financiamento do ensino em nosso país, tendo passado por diversas modificações, decorrentes das 39 leis aprovadas entre 1997 e 2015 (SAVIANI, 2016b). Gatti et al (2019) apontam que a maior contribuição dessa Lei para a formação inicial de professores da educação básica foi a proposição em nível superior. No entanto, em 2013, voltou-se a admitir, sem restrições, a formação de docentes para a educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental na modalidade normal em nível médio, alteração feita pela Lei nº 12.796/2013 e reafirmada pela Lei nº 13.415/2017. A primeira LDB foi aprovada em 1961, Lei nº 4.024/1961 (BRASIL, 1961), seguida por uma versão em 1971, Lei nº 5.692/1971 (BRASIL, 1971), que ficou em vigência até a promulgação da mais recente em 1996. Ela possui 92 Artigos, organizados em nove títulos, cinco capítulos e cinco seções, os quais apontam as diretrizes gerais da educação brasileira em todas as etapas e modalidades, mas não os detalhes da sua execução. Tendo em vista o cerne desta pesquisa, será dada ênfase apenas ao último capítulo do título V, que se refere à Educação Especial e aos Artigos 61, 62 e 63 do título VI “Dos Profissionais da Educação”. O último capítulo do título V refere-se à Educação Especial e esclarece que ela é uma modalidade de educação que deve ser oferecida preferencialmente na rede regular de ensino e assegura, dentre outros quesitos, professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns. 12 Senador Darcy Ribeiro (1922 -1997), do Partido Democrático Trabalhista (PDT), autor da lei que mais tarde levou seu nome em póstuma homenagem. 38 A partir da promulgação da Lei nº 12.796 de 2013, o termo “educandos com necessidades especiais” foi alterado para “educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação”. Não há menção à diferença linguística dos Surdos, nem à especificidade de Educação Bilíngue para este grupo educacional, pois à época os mesmos ainda eram considerados PcD e, por isso, deveriam ser atendidos naquela modalidade de ensino. O título VI “Dos Profissionais da Educação” discorre, entre seus sete Artigos, sobre a formação de professores, com destaque para os Artigos 61, 62 e 63, que passaram por algumas alterações de redação ao longo dos anos. O primeiro texto da Lei apresentava no Art. 61 os fundamentos para formação, incluindo a associação entre teoria e prática (inciso I) e o aproveitamento de experiências anteriores (inciso II). Essa redação foi alterada pela Lei nº 12.014 de 2009, que passou a considerar como profissionais da educação básica aqueles formados em nível