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Lenio Luiz Streck
COMPREENDER 
DIREITO - 
HERMENÊUTICA
1ª edição
Copyright© 2019 by Lenio Luiz Streck
Editor Responsável: Aline Gostinski
Capa e Diagramação: Carla Botto de Barros
 
S895 Streck, Lenio Luiz 
 Compreender direito - hermenêutica / Lenio Luiz Streck. 
– 1.ed. – São Paulo : Tirant lo Blanch, 2019. 
 112 p. 
 
 ISBN: 978-85-9477-394-4 
 
 1. Hermenêutica. 2. Direito. I. Título. 
 
 CDU: 340.132 
 
 
 
S895 Streck, Lenio Luiz 
 Compreender direito – hermenêutica [livro eletrônico] / 
Lenio Luiz Streck. – 1.ed. – São Paulo : Tirant lo Blanch, 
2019. 
 1Mb. ; e-book 
 
 ISBN: 978-85-9477-395-1 
 
 1. Hermenêutica. 2. Direito. I. Título. 
 
 CDU: 340.132 
 
 
 
Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch.
Avenida Nove de Julho nº 3228, sala 404, ed. First Office Flat
Bairro Jardim Paulista, São Paulo - SP
CEP: 01406-000
www.tirant.com/br - editora@tirant.com.br
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou 
editoriais.
A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à 
busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98).
Todos os direitos desta edição reservados à Tirant Empório do Direito Editoral Ltda.
Conselho Editorial Científico:
Eduardo FErrEr Mac-GrEGor Poisot
Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de 
Investigações Jurídicas da UNAM - México
JuarEz tavarEs
Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil
Luis LóPEz GuErra
Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da 
Universidade Carlos III de Madrid - Espanha
owEn M. Fiss
Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA
toMás s. vivEs antón
Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha
Compreender 
Direito
São Paulo
2019
Lenio Luiz Streck
COMPREENDER 
DIREITO - 
HERMENÊUTICA
1ª edição
Copyright© 2019 by Lenio Luiz Streck
Editor Responsável: Aline Gostinski
Capa e Diagramação: Carla Botto de Barros
 
S895 Streck, Lenio Luiz 
 Compreender direito - hermenêutica / Lenio Luiz Streck. 
– 1.ed. – São Paulo : Tirant lo Blanch, 2019. 
 112 p. 
 
 ISBN: 978-85-9477-394-4 
 
 1. Hermenêutica. 2. Direito. I. Título. 
 
 CDU: 340.132 
 
 
 
S895 Streck, Lenio Luiz 
 Compreender direito – hermenêutica [livro eletrônico] / 
Lenio Luiz Streck. – 1.ed. – São Paulo : Tirant lo Blanch, 
2019. 
 1Mb. ; e-book 
 
 ISBN: 978-85-9477-395-1 
 
 1. Hermenêutica. 2. Direito. I. Título. 
 
 CDU: 340.132 
 
 
 
Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch.
Avenida Nove de Julho nº 3228, sala 404, ed. First Office Flat
Bairro Jardim Paulista, São Paulo - SP
CEP: 01406-000
www.tirant.com/br - editora@tirant.com.br
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou 
editoriais.
A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à 
busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98).
Todos os direitos desta edição reservados à Tirant Empório do Direito Editoral Ltda.
Conselho Editorial Científico:
Eduardo FErrEr Mac-GrEGor Poisot
Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de 
Investigações Jurídicas da UNAM - México
JuarEz tavarEs
Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil
Luis LóPEz GuErra
Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da 
Universidade Carlos III de Madrid - Espanha
owEn M. Fiss
Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA
toMás s. vivEs antón
Catedrático de Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha
Compreender 
Direito
São Paulo
2019
5
SUMÁRIO
Por que estamos condenados a interpretar 7
A hermenêutica e a argumentação jurídica 21
A hermenêutica e o alerta sobre os riscos do 
pamprincipiologismo para a democracia 25
A importância da teoria dos princípios 31
As críticas à concepção de princípio de Robert Alexy 35
A Crítica Hermenêutica do Direito (CHD) como oposição à 
discricionariedade e ao ativismo judicial 39
A hermenêutica e o direito fundamental à Resposta 
Adequada à Constituição (RAC) 47
As semelhanças e diferenças entre a RAC da CHD e a tese 
de Dworkin 53
O estado da arte do Direito e da crítica do Direito 57
De como Kelsen não defendia que se aplicasse “a letra da lei” 67
Do precedentalismo brasileiro; dos enunciados, dos 
conceitos sem coisa, da tópica sem tópica 69
O “saber nenhum” que obnubila a hermenêutica 83
A angústia epistemológica e a filosofia no Direito 89
Os modelos de professor 93
Meus livros, quem sou 99
Sugestões de leitura e referências 105
5
SUMÁRIO
Por que estamos condenados a interpretar 7
A hermenêutica e a argumentação jurídica 21
A hermenêutica e o alerta sobre os riscos do 
pamprincipiologismo para a democracia 25
A importância da teoria dos princípios 31
As críticas à concepção de princípio de Robert Alexy 35
A Crítica Hermenêutica do Direito (CHD) como oposição à 
discricionariedade e ao ativismo judicial 39
A hermenêutica e o direito fundamental à Resposta 
Adequada à Constituição (RAC) 47
As semelhanças e diferenças entre a RAC da CHD e a tese 
de Dworkin 53
O estado da arte do Direito e da crítica do Direito 57
De como Kelsen não defendia que se aplicasse “a letra da lei” 67
Do precedentalismo brasileiro; dos enunciados, dos 
conceitos sem coisa, da tópica sem tópica 69
O “saber nenhum” que obnubila a hermenêutica 83
A angústia epistemológica e a filosofia no Direito 89
Os modelos de professor 93
Meus livros, quem sou 99
Sugestões de leitura e referências 105
7
Por que estamos condenados a interpretar
A palavra “Hermenêutica” deriva de “Hermes”, figura 
mitológica grega cuja principal responsabilidade era transmitir 
aos mortais o que os deuses falavam. Ocorre que nunca se 
soube o que os deuses disseram: só se soube o que Hermes 
dissera acerca do– tem a 
“força” de derrotar o Direito posto, sem que o intérprete lance 
mão da jurisdição constitucional.
O Direito, a partir do segundo pós-guerra, alcançou 
um elevado grau de autonomia5. O Direito havia fracassado. 
Exsurge, então, uma novidade: as Constituições passam 
a ser normas. Sim: um dever ser. Daí a força normativa 
das Constituições. E elas abarcam uma espécie de ideal de 
vida boa, como diriam os gregos. Portanto, a democracia 
possibilita que a moral passe a ser cooriginária ao direito, 
como bem explica Habermas.
Resultado ou consequência: não podemos admitir que 
a moral venha a corrigir o Direito depois. Mas os juristas, 
principalmente em países periféricos como o Brasil, passaram 
a fazer uma dicotomia simplista. O positivismo seria um 
sistema de regras e, portanto, expulsa a moral. O positivismo 
seria, então, o mal. Com as novas constituições, a moral teria 
5 STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso. 6. ed. revista e ampliada. São 
Paulo: Saraiva, 2017.
sido trazida de volta. Com isso, seríamos pós-positivistas. 
Eis aí o “neoconstitucionalismo”, que seria o “bem”. Todavia, 
é falso dizer isso. Outra coisa errada que os juristas fazem 
todos os dias e repetem nas salas de aula: “O juiz boca da lei 
morreu”. Porém, no lugar desse juiz “morto”, colocam o “juiz 
dos princípios”. E ele passará a construir princípios conforme 
sua consciência. Estamos, verdade, diante do eterno retorno 
aos Ângelos de Shakespeare.
Quando a regra (lei) não é justa ou não lhe agrada 
pessoalmente, o juiz “pós-positivista” passa a lançar mão de 
qualquer coisa, inclusive inventando axiomas subjetivistas 
que levam o nome de “princípio”. Resultado: uma hecatombe. 
Passou-se a utilizar os velhos princípios gerais do direito, que 
são axiomas do século XIX. E começam a surgir princípios 
líquidos ou gasosos. Fofos. Querem uma coisa mais fofinha e 
dúctil que o tal “princípio da afetividade”? Nele cabe tudo. E 
quem seria contra esse princípio? Com isso, o jurista, inserido 
no senso comum teórico, passou a ter o poder de “passar 
por cima” de leis votadas e aprovadas democraticamente. E 
passaram a moralizar as leis e o Direito. A pessoa quer ter 
três pais? Sem problemas. Em nome de vários princípios 
(afetividade, etc), tudo se torna possível. Quer manter o réu 
preso? Use o princípio da confiança do juiz da causa. Façam 
um teste. Substituam esses princípios por qualquer palavra e 
veja se faz diferença. Em vez de “confiança no juiz da causa”, 
ponham “canglingon” (que não quer dizer absolutamente 
nada). Perceberão que nada se altera. Lição: princípios não 
podem ser inventados desse modo. Eles são padrões que 
devem ser consolidados na história institucional de uma 
comunidade.
O pamprincipiologismo, por outro lado, é um 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
26 27
que sempre perturbou o Direito “o que fazer com a moral?” 
exatamente com essa resposta: “Princípios são valores e 
trazem a moral para dentro do Direito”. Tal circunstância 
fragilizou sobremodo o necessário grau de autonomia que o 
Direito necessita preservar em uma democracia. Deveria ser 
rejeitada pelos juristas uma tese ou postura que permitisse 
que um standard qualquer tenha o condão de balizar o Direito 
aprovado democraticamente pelo parlamento. Pois não foi 
isso que aconteceu e o que vem ocorrendo. 
Lamentavelmente o Direito foi inundado por uma 
produção de standards valorativos, álibis teóricos pelos quais 
se pode dizer qualquer coisa sobre a interpretação da lei. Um 
princípio – sem qualquer densidade deontológica – tem a 
“força” de derrotar o Direito posto, sem que o intérprete lance 
mão da jurisdição constitucional.
O Direito, a partir do segundo pós-guerra, alcançou 
um elevado grau de autonomia5. O Direito havia fracassado. 
Exsurge, então, uma novidade: as Constituições passam 
a ser normas. Sim: um dever ser. Daí a força normativa 
das Constituições. E elas abarcam uma espécie de ideal de 
vida boa, como diriam os gregos. Portanto, a democracia 
possibilita que a moral passe a ser cooriginária ao direito, 
como bem explica Habermas.
Resultado ou consequência: não podemos admitir que 
a moral venha a corrigir o Direito depois. Mas os juristas, 
principalmente em países periféricos como o Brasil, passaram 
a fazer uma dicotomia simplista. O positivismo seria um 
sistema de regras e, portanto, expulsa a moral. O positivismo 
seria, então, o mal. Com as novas constituições, a moral teria 
5 STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso. 6. ed. revista e ampliada. São 
Paulo: Saraiva, 2017.
sido trazida de volta. Com isso, seríamos pós-positivistas. 
Eis aí o “neoconstitucionalismo”, que seria o “bem”. Todavia, 
é falso dizer isso. Outra coisa errada que os juristas fazem 
todos os dias e repetem nas salas de aula: “O juiz boca da lei 
morreu”. Porém, no lugar desse juiz “morto”, colocam o “juiz 
dos princípios”. E ele passará a construir princípios conforme 
sua consciência. Estamos, verdade, diante do eterno retorno 
aos Ângelos de Shakespeare.
Quando a regra (lei) não é justa ou não lhe agrada 
pessoalmente, o juiz “pós-positivista” passa a lançar mão de 
qualquer coisa, inclusive inventando axiomas subjetivistas 
que levam o nome de “princípio”. Resultado: uma hecatombe. 
Passou-se a utilizar os velhos princípios gerais do direito, que 
são axiomas do século XIX. E começam a surgir princípios 
líquidos ou gasosos. Fofos. Querem uma coisa mais fofinha e 
dúctil que o tal “princípio da afetividade”? Nele cabe tudo. E 
quem seria contra esse princípio? Com isso, o jurista, inserido 
no senso comum teórico, passou a ter o poder de “passar 
por cima” de leis votadas e aprovadas democraticamente. E 
passaram a moralizar as leis e o Direito. A pessoa quer ter 
três pais? Sem problemas. Em nome de vários princípios 
(afetividade, etc), tudo se torna possível. Quer manter o réu 
preso? Use o princípio da confiança do juiz da causa. Façam 
um teste. Substituam esses princípios por qualquer palavra e 
veja se faz diferença. Em vez de “confiança no juiz da causa”, 
ponham “canglingon” (que não quer dizer absolutamente 
nada). Perceberão que nada se altera. Lição: princípios não 
podem ser inventados desse modo. Eles são padrões que 
devem ser consolidados na história institucional de uma 
comunidade.
O pamprincipiologismo, por outro lado, é um 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
28 29
subproduto das teorias axiologistas que redundaram nesse 
neoconstitucionalismo “do bem” de que falei, que acaba 
por fragilizar as efetivas conquistas que formaram o caldo 
de cultura que possibilitou a consagração da Constituição 
brasileira de 1988. Esse pamprincipiologismo faz com que 
– a pretexto de se estar aplicando princípios constitucionais 
– haja uma proliferação incontrolada de enunciados para 
resolver determinados problemas concretos, muitas vezes 
ao alvedrio da própria legalidade constitucional. Como bem 
acentua Otavio Luiz Rodrigues Júnior, no âmbito do direito 
civil essa proliferação de princípios vem comprometendo 
a sua força normativa. Essa problemática se estende aos 
demais ramos e às disciplinas jurídicas. Não mais se respeita 
os estatutos epistemológicos de cada ramo do Direito.
Argumentos consequencialistas (sem empiria, diga-
se) não podem derrubar leis. Seria como admitir que um 
pamprincípio como o da “afetividade” valha mais do que um 
dispositivo do Código Civil, para usar um dos flertes dos 
juristas para com a primazia da moral sobre o Direito. Como 
se um argumento retórico ad hoc tirado do bolso valesse mais 
que o estatuto epistemológico, autêntico e tradicional, de um 
mesmo ramo específico do Direito.
Esse é o ponto. Quando não convém, ignora-se a 
força normativa da Constituição. Agora, quando interessa, 
“constitucionaliza-se” tudo. A boa dogmática jurídica oferece 
uma resposta que não satisfaz a “consciência” do intérprete? 
Simples. “- Constitucionalize! Pamprincipie! Fica bonito”.
Tudo isso ocorre porque nos acostumamos a colocar 
argumentos morais,políticos e econômicos acima da lei e da 
Constituição. Professores em sala de aula são useiros e vezeiros 
nisso. E os livros de Direito foram sendo transformados 
em repertórios de glosas de decisões tribunalícias ad hoc. 
Resultado: uma algaravia. Uma confusão. Ganha quem tiver 
mais poder. E o Direito, que foi feito para controlar o poder, 
transforma-se em mero instrumento... do poder. 
Darcy Ribeiro disse, certa vez, que Deus é tão treteiro, faz 
as coisas tão recônditas e sofisticadas, que ainda necessitamos 
dessa classe de gente, os cientistas, para desvelar as obviedades 
do óbvio. Parafraseio, pois, o grande antropólogo: ainda 
precisamos de uma certa classe de juristas para dizer o óbvio, 
para dizer até mesmo platitudes; platitudes como a de que, em 
uma democracia, argumentos consequencialistas (morais, etc.) 
não devem valer mais do que aquilo que justamente foi feito 
para resolver os nossos desacordos: o Direito.
Definitivamente: princípios são normas. Nesse sentido, 
remeto o leitor, uma vez mais, ao meu Dicionário de Hermenêu-
tica. Normas atuam no código lícito-ilícito. O resto são argu-
mentações retórico-morais ou moralizantes.
Sem qualquer possibilidade taxonômica acerca da 
matéria, esses enunciados (com pretensão assertórica e 
performativa), que nomino como pamprincípios (por exemplo, 
afetividade, confiança no juiz da causa, razoabilidade, 
realidade, etc) cumprem a função de metarregras. São 
retóricos. Com eles, qualquer resposta pode ser correta. 
Aliás, sempre haverá um enunciado desse jaez aplicável ao 
“caso concreto”, que acaba sendo “construído” a partir de 
grau zero de significado. Sua multiplicação se deve à errônea 
compreensão da tese de que os princípios proporcionariam 
uma abertura interpretativa, quando, em verdade, sua função 
é de fechamento interpretativo.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
28 29
subproduto das teorias axiologistas que redundaram nesse 
neoconstitucionalismo “do bem” de que falei, que acaba 
por fragilizar as efetivas conquistas que formaram o caldo 
de cultura que possibilitou a consagração da Constituição 
brasileira de 1988. Esse pamprincipiologismo faz com que 
– a pretexto de se estar aplicando princípios constitucionais 
– haja uma proliferação incontrolada de enunciados para 
resolver determinados problemas concretos, muitas vezes 
ao alvedrio da própria legalidade constitucional. Como bem 
acentua Otavio Luiz Rodrigues Júnior, no âmbito do direito 
civil essa proliferação de princípios vem comprometendo 
a sua força normativa. Essa problemática se estende aos 
demais ramos e às disciplinas jurídicas. Não mais se respeita 
os estatutos epistemológicos de cada ramo do Direito.
Argumentos consequencialistas (sem empiria, diga-
se) não podem derrubar leis. Seria como admitir que um 
pamprincípio como o da “afetividade” valha mais do que um 
dispositivo do Código Civil, para usar um dos flertes dos 
juristas para com a primazia da moral sobre o Direito. Como 
se um argumento retórico ad hoc tirado do bolso valesse mais 
que o estatuto epistemológico, autêntico e tradicional, de um 
mesmo ramo específico do Direito.
Esse é o ponto. Quando não convém, ignora-se a 
força normativa da Constituição. Agora, quando interessa, 
“constitucionaliza-se” tudo. A boa dogmática jurídica oferece 
uma resposta que não satisfaz a “consciência” do intérprete? 
Simples. “- Constitucionalize! Pamprincipie! Fica bonito”.
Tudo isso ocorre porque nos acostumamos a colocar 
argumentos morais, políticos e econômicos acima da lei e da 
Constituição. Professores em sala de aula são useiros e vezeiros 
nisso. E os livros de Direito foram sendo transformados 
em repertórios de glosas de decisões tribunalícias ad hoc. 
Resultado: uma algaravia. Uma confusão. Ganha quem tiver 
mais poder. E o Direito, que foi feito para controlar o poder, 
transforma-se em mero instrumento... do poder. 
Darcy Ribeiro disse, certa vez, que Deus é tão treteiro, faz 
as coisas tão recônditas e sofisticadas, que ainda necessitamos 
dessa classe de gente, os cientistas, para desvelar as obviedades 
do óbvio. Parafraseio, pois, o grande antropólogo: ainda 
precisamos de uma certa classe de juristas para dizer o óbvio, 
para dizer até mesmo platitudes; platitudes como a de que, em 
uma democracia, argumentos consequencialistas (morais, etc.) 
não devem valer mais do que aquilo que justamente foi feito 
para resolver os nossos desacordos: o Direito.
Definitivamente: princípios são normas. Nesse sentido, 
remeto o leitor, uma vez mais, ao meu Dicionário de Hermenêu-
tica. Normas atuam no código lícito-ilícito. O resto são argu-
mentações retórico-morais ou moralizantes.
Sem qualquer possibilidade taxonômica acerca da 
matéria, esses enunciados (com pretensão assertórica e 
performativa), que nomino como pamprincípios (por exemplo, 
afetividade, confiança no juiz da causa, razoabilidade, 
realidade, etc) cumprem a função de metarregras. São 
retóricos. Com eles, qualquer resposta pode ser correta. 
Aliás, sempre haverá um enunciado desse jaez aplicável ao 
“caso concreto”, que acaba sendo “construído” a partir de 
grau zero de significado. Sua multiplicação se deve à errônea 
compreensão da tese de que os princípios proporcionariam 
uma abertura interpretativa, quando, em verdade, sua função 
é de fechamento interpretativo.
31
A importância da teoria dos princípios
Quem melhor desenvolveu esse tema foi Ronald 
Dworkin. No debate com seu professor Herbert Hart, 
Dworkin foi vencedor. Hart dizia que o Direito era um sistema 
de regras. E, nos chamados casos difíceis, isso se resolvia a 
partir da discricionariedade dos juízes. Claro: Hart havia 
lido Wittgenstein, em especial o livro Investigações Filosóficas. 
E apostou no terceiro nível da semiótica, a pragmática. Com 
isso, Wittgenstein resolvia o problema, porque apostava na 
relação “signo com seus usuários”. Como as palavras são vagas 
e ambíguas, o seu sentido se dá no contexto. Hart, ao perceber 
isso, resolveu o problema do positivismo de regras, assumindo 
que, nos casos que as regras não resolviam (nível da sintaxe e 
semântica), era o caso de apelar à pragmática. E delegou ao 
intérprete (juiz) a resolução dos casos difíceis.
A consequência disso é o sacrifício da situação concreta. 
Assim, se no interior do modelo positivista de aplicação do 
direito parece impossível impedir que os juízes decidam 
“como queiram” – porque, afinal, “obedecem” apenas à 
sua subjetividade (esquema sujeito-objeto) –, o próprio 
positivismo elabora conceitualizações prévias (espécie de 
“discursos de fundamentação prévios” elaborados sem os 
pressupostos exigidos pela teoria do discurso habermasiana) 
acerca do sentido dos textos jurídicos, buscando, desse modo, 
“combater os excessos” decorrentes do próprio modelo. Em 
outras palavras, é o positivismo travando um combate consigo 
mesmo (remeto, uma vez mais, o leitor ao meu Dicionário, nos 
31
A importância da teoria dos princípios
Quem melhor desenvolveu esse tema foi Ronald 
Dworkin. No debate com seu professor Herbert Hart, 
Dworkin foi vencedor. Hart dizia que o Direito era um sistema 
de regras. E, nos chamados casos difíceis, isso se resolvia a 
partir da discricionariedade dos juízes. Claro: Hart havia 
lido Wittgenstein, em especial o livro Investigações Filosóficas. 
E apostou no terceiro nível da semiótica, a pragmática. Com 
isso, Wittgenstein resolvia o problema, porque apostava na 
relação “signo com seus usuários”. Como as palavras são vagas 
e ambíguas, o seu sentido se dá no contexto. Hart, ao perceber 
isso, resolveu o problema do positivismo de regras, assumindo 
que, nos casos que as regras não resolviam (nível da sintaxe e 
semântica), era o caso de apelar à pragmática. E delegou ao 
intérprete (juiz) a resolução dos casos difíceis.
A consequência disso é o sacrifício da situação concreta. 
Assim, se no interior do modelo positivista de aplicação do 
direito parece impossível impedir que os juízes decidam 
“como queiram” – porque,afinal, “obedecem” apenas à 
sua subjetividade (esquema sujeito-objeto) –, o próprio 
positivismo elabora conceitualizações prévias (espécie de 
“discursos de fundamentação prévios” elaborados sem os 
pressupostos exigidos pela teoria do discurso habermasiana) 
acerca do sentido dos textos jurídicos, buscando, desse modo, 
“combater os excessos” decorrentes do próprio modelo. Em 
outras palavras, é o positivismo travando um combate consigo 
mesmo (remeto, uma vez mais, o leitor ao meu Dicionário, nos 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
32 33
verbetes Positivismo e Pós-Positivismo). 
Eis aí o paradoxo. Essa reviravolta do positivismo 
“contra si mesmo” é fruto de uma espécie de adaptação 
darwiniana, que funciona a partir da elaboração de conceitos 
jurídicos com objetivos universalizantes, utilizando, inclusive, 
os princípios constitucionais. 
Ou seja, os princípios constitucionais, que deveriam 
superar o modelo discricionário do positivismo, passaram 
a ser anulados por conceitualizações, que acabaram por 
transformá-los em regras (a conceitualização de um princípio 
petrifica seu sentido).
É por isso que, para Dworkin, ali onde Hart terminava 
ou resolvia o seu problema, tudo estava apenas começando.
A solução do problema de Hart se transformava, para 
Dworkin, no problema da solução, a partir da demonstração de 
que o poder discricionário do juiz era antidemocrático. E se o 
juiz diz o Direito de forma discricionária, ele constrói direito. 
Mas ele não tem legitimidade para isso. Dworkin, então, 
constrói a tese da resposta correta, mostrando que sempre 
existe uma resposta correta (que eu chamo de RAC – Resposta 
Adequada à Constituição), mesmo nos casos difíceis.
Aliás, para Dworkin, dizer que há uma diferença entre 
casos fáceis e casos difíceis já é um caso difícil. Ele mostra isso 
a partir da tese de que o Direito é um sistema não só de regras, 
mas de regras e princípios. E os princípios servem para resolver 
esses problemas dos casos difíceis. Princípios servirão, assim, 
para fechar a interpretação.
Os princípios, dito de outro modo – claro que quando 
entendidos em sua forma autêntica –, instituem o mundo 
prático no Direito, oferecendo o fechamento interpretativo 
quando da institucionalização daquilo que lhe constitui. 
São, portanto, elementos argumentativo-interpretativos que 
permitem o controle dos sentidos que as decisões judiciais 
articulam. Princípios são o critério a partir do qual uma decisão 
será correta ou incorreta.
Para explicar a dicotomia regra-princípio, Dworkin 
apresenta o caso do neto que matou o avô (caso Riggs 
v. Palmer). Não havia lei ou precedente que houvesse 
antecipada a hipótese de um herdeiro, após cumprir a pena 
por ter assassinado o próprio avó, retornasse e reinvindicasse 
a herança legada por esse. Em tese, o neto tinha razão: 
poderia receber a herança. Aliás, um dos juízes votou assim. 
Mas os outros dois disseram que havia um princípio capaz 
de solucionar adequadamente o caso, dentro da própria 
tradição do Direito na comunidade política norte-americana. 
Ou seja, havia um padrão instituído, i.e., institucionalizado, 
na sociedade (e isso, sim, é um princípio) que rege o 
comportamento: o de que ninguém pode se locupletar de sua 
própria torpeza. Com isso, a regra continuou valendo, mas 
não foi aplicada neste caso. 
Valeu o princípio em vez da regra. Uma coisa, 
talvez, eu tenha de divergência com Dworkin: não está 
claro nele se é possível aplicar uma regra sem princípio e 
um princípio sem regra.
Na Crítica Hermenêutica do Direito – matriz teórica 
por mim fundada - uma regra sempre será aplicada por 
intermédio de um ou vários princípios. A regra é a enunciação 
do princípio. E um princípio não pode ser aplicado sem 
uma regra, caso contrário ele seria uma super-regra. Tenho 
pequenas divergências apenas. Minhas concordâncias são 
enormes, principalmente no que diz respeito a questão da 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
32 33
verbetes Positivismo e Pós-Positivismo). 
Eis aí o paradoxo. Essa reviravolta do positivismo 
“contra si mesmo” é fruto de uma espécie de adaptação 
darwiniana, que funciona a partir da elaboração de conceitos 
jurídicos com objetivos universalizantes, utilizando, inclusive, 
os princípios constitucionais. 
Ou seja, os princípios constitucionais, que deveriam 
superar o modelo discricionário do positivismo, passaram 
a ser anulados por conceitualizações, que acabaram por 
transformá-los em regras (a conceitualização de um princípio 
petrifica seu sentido).
É por isso que, para Dworkin, ali onde Hart terminava 
ou resolvia o seu problema, tudo estava apenas começando.
A solução do problema de Hart se transformava, para 
Dworkin, no problema da solução, a partir da demonstração de 
que o poder discricionário do juiz era antidemocrático. E se o 
juiz diz o Direito de forma discricionária, ele constrói direito. 
Mas ele não tem legitimidade para isso. Dworkin, então, 
constrói a tese da resposta correta, mostrando que sempre 
existe uma resposta correta (que eu chamo de RAC – Resposta 
Adequada à Constituição), mesmo nos casos difíceis.
Aliás, para Dworkin, dizer que há uma diferença entre 
casos fáceis e casos difíceis já é um caso difícil. Ele mostra isso 
a partir da tese de que o Direito é um sistema não só de regras, 
mas de regras e princípios. E os princípios servem para resolver 
esses problemas dos casos difíceis. Princípios servirão, assim, 
para fechar a interpretação.
Os princípios, dito de outro modo – claro que quando 
entendidos em sua forma autêntica –, instituem o mundo 
prático no Direito, oferecendo o fechamento interpretativo 
quando da institucionalização daquilo que lhe constitui. 
São, portanto, elementos argumentativo-interpretativos que 
permitem o controle dos sentidos que as decisões judiciais 
articulam. Princípios são o critério a partir do qual uma decisão 
será correta ou incorreta.
Para explicar a dicotomia regra-princípio, Dworkin 
apresenta o caso do neto que matou o avô (caso Riggs 
v. Palmer). Não havia lei ou precedente que houvesse 
antecipada a hipótese de um herdeiro, após cumprir a pena 
por ter assassinado o próprio avó, retornasse e reinvindicasse 
a herança legada por esse. Em tese, o neto tinha razão: 
poderia receber a herança. Aliás, um dos juízes votou assim. 
Mas os outros dois disseram que havia um princípio capaz 
de solucionar adequadamente o caso, dentro da própria 
tradição do Direito na comunidade política norte-americana. 
Ou seja, havia um padrão instituído, i.e., institucionalizado, 
na sociedade (e isso, sim, é um princípio) que rege o 
comportamento: o de que ninguém pode se locupletar de sua 
própria torpeza. Com isso, a regra continuou valendo, mas 
não foi aplicada neste caso. 
Valeu o princípio em vez da regra. Uma coisa, 
talvez, eu tenha de divergência com Dworkin: não está 
claro nele se é possível aplicar uma regra sem princípio e 
um princípio sem regra.
Na Crítica Hermenêutica do Direito – matriz teórica 
por mim fundada - uma regra sempre será aplicada por 
intermédio de um ou vários princípios. A regra é a enunciação 
do princípio. E um princípio não pode ser aplicado sem 
uma regra, caso contrário ele seria uma super-regra. Tenho 
pequenas divergências apenas. Minhas concordâncias são 
enormes, principalmente no que diz respeito a questão da 
35
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
34
resposta correta e a aversão ao discricionarismo.
Acompanhado de Dworkin, posso dizer que os 
princípios autênticos conduzem a argumentação àquilo que dá 
o sentido mais coerente ao todo de nossa prática institucional. 
Dworkin foi quem melhor criticou o positivismo pós-exegético. 
E o que é positivismo pós-exegético? É o positivismo de 
vários matizes, como o de Hart, Kelsen, Alf Ross, Ferrajoli, 
Joseph Raz, Shapiro, Coleman, etc. Em comum, a (impossível) 
separação conceitual entre Direito e moral, que insiste em 
uma falaciosa dicotomia entre fato e valor; dicotomia que não 
se sustentano paradigma hermenêutico, exatamente pelas 
razões expostas naquilo que introduz esta obra. Interpretar é 
aplicar, aplicar é valorar, valorar é interpretar; dizer o que é é 
dizer o que deve ser. Não há fatos brutos; os fatos no Direito 
são fatos institucionais, eivados de normatividade.
As críticas à concepção de princípio de Robert 
Alexy
Existem diferenças fundamentais entre a Crítica 
Hermenêutica do Direito e as diversas Teorias Discursivas, 
mormente a Teoria da Argumentação Jurídica de Robert Alexy. 
Enquanto essas compreendem os princípios (apenas) como 
mandados de otimização, circunstância que chama à colação 
a subjetividade do intérprete, aquela parte da tese de que os 
princípios introduzem o mundo prático no Direito, “fechando” 
a interpretação, isto é, diminuindo – ao invés de aumentar – o 
espaço da discricionariedade do intérprete.
Claro que, para tanto, a CHD salta à frente para 
defender que, primeiro, os atos de interpretação e aplicação 
são incindíveis (com o que se supera o método) e, segundo, não 
há diferença estrutural entre casos que se resolvem mediante 
a mera aplicação silogística de uma regra jurídica válida e 
aqueles que, pela vagueza e ambiguidade de sua expressão, 
como os direitos fundamentais, seriam resolvidos, ao final do 
procedimento, pela lei da ponderação.
É nesse contexto que deve ser analisado o emprego 
da regra da proporcionalidade pela teoria dos princípios de 
Alexy, por exemplo. Nela, a proporcionalidade é a “chave” 
para resolver casos de colisões entre princípios a partir 
das três submáximas da adequação, da necessidade e da 
proporcionalidade em sentido estrito. 
Ou seja, na medida em que a proporcionalidade só “é 
35
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
34
resposta correta e a aversão ao discricionarismo.
Acompanhado de Dworkin, posso dizer que os 
princípios autênticos conduzem a argumentação àquilo que dá 
o sentido mais coerente ao todo de nossa prática institucional. 
Dworkin foi quem melhor criticou o positivismo pós-exegético. 
E o que é positivismo pós-exegético? É o positivismo de 
vários matizes, como o de Hart, Kelsen, Alf Ross, Ferrajoli, 
Joseph Raz, Shapiro, Coleman, etc. Em comum, a (impossível) 
separação conceitual entre Direito e moral, que insiste em 
uma falaciosa dicotomia entre fato e valor; dicotomia que não 
se sustenta no paradigma hermenêutico, exatamente pelas 
razões expostas naquilo que introduz esta obra. Interpretar é 
aplicar, aplicar é valorar, valorar é interpretar; dizer o que é é 
dizer o que deve ser. Não há fatos brutos; os fatos no Direito 
são fatos institucionais, eivados de normatividade.
As críticas à concepção de princípio de Robert 
Alexy
Existem diferenças fundamentais entre a Crítica 
Hermenêutica do Direito e as diversas Teorias Discursivas, 
mormente a Teoria da Argumentação Jurídica de Robert Alexy. 
Enquanto essas compreendem os princípios (apenas) como 
mandados de otimização, circunstância que chama à colação 
a subjetividade do intérprete, aquela parte da tese de que os 
princípios introduzem o mundo prático no Direito, “fechando” 
a interpretação, isto é, diminuindo – ao invés de aumentar – o 
espaço da discricionariedade do intérprete.
Claro que, para tanto, a CHD salta à frente para 
defender que, primeiro, os atos de interpretação e aplicação 
são incindíveis (com o que se supera o método) e, segundo, não 
há diferença estrutural entre casos que se resolvem mediante 
a mera aplicação silogística de uma regra jurídica válida e 
aqueles que, pela vagueza e ambiguidade de sua expressão, 
como os direitos fundamentais, seriam resolvidos, ao final do 
procedimento, pela lei da ponderação.
É nesse contexto que deve ser analisado o emprego 
da regra da proporcionalidade pela teoria dos princípios de 
Alexy, por exemplo. Nela, a proporcionalidade é a “chave” 
para resolver casos de colisões entre princípios a partir 
das três submáximas da adequação, da necessidade e da 
proporcionalidade em sentido estrito. 
Ou seja, na medida em que a proporcionalidade só “é 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
36 37
chamada à colação” quando necessário um juízo ponderativo 
para os casos difíceis – uma vez que para os “casos simples” 
(aqueles solucionados mediante a aplicação de uma regra) 
bastaria a dedução/subsunção – caberá ao intérprete a tarefa 
de “hierarquizar” e “decidir” qual o princípio aplicável no 
caso do conflito/colisão.
Ora, se, ao fim e ao cabo, cabe ao intérprete hierarquizar 
(e escolher) o princípio aplicável, a pergunta inexorável é: qual 
é a diferença entre o “intérprete ponderador” e o “intérprete 
do positivismo”, que, discricionariamente, escolhe qual a 
“melhor” interpretação? 
É evidente que devemos reconhecer que a teoria dos 
princípios conjugada com uma teoria da argumentação, 
como no caso da teoria de Alexy, que é a mais sofisticada e 
complexa, responderá que há um conjunto de critérios que 
deverão sempre balizar a decisão. Mas, pergunto novamente: 
qual é a diferença disso na comparação com as fórmulas 
dos velhos métodos de interpretação, cujo calcanhar de 
Aquiles é exatamente não ter um critério para definir qual 
o melhor critério, que venho denominando de “ausência ou 
impossibilidade” de um Grundmethode (método dos métodos)?
Mutatis mutandis, a lei da ponderação, que seria o 
método para resolver a colisão entre princípios, ao fim e ao cabo 
recorre a uma teoria da argumentação que aceita argumentos 
morais nas insuficiências dos padrões jurídicos. É a esse 
problema que me refiro quando critico o esquema sujeito-
objeto: entender que a discricionariedade é algo inerente à 
aplicação do Direito é, no fundo, um retorno ao paradigma da 
filosofia da consciência.
Como venho afirmando, a discricionariedade não se 
relaciona bem com a democracia. E essa questão continua 
na ordem do dia, mormente em países como o Brasil. Com 
efeito, as teorias que pretenderam resolver o problema 
da (in)determinabilidade do Direito, das vaguezas e das 
ambiguidades próprias do ordenamento jurídico, apostando 
na discricionariedade ou em discursos adjudicadores com 
pretensão de correção do Direito, vão estar tão somente 
reforçando aquilo que pretendemos criticar.
Por isso, defendo, ao lado de Dworkin e Ferrajoli, 
que os princípios não abrem a interpretação, e, sim, fecham/
limitam. Os princípios (re)inserem a facticidade no Direito, e 
espelham uma determinada tradição jurídica que permitirá 
um diálogo constante entre a decisão particular com todo o 
ordenamento. Deste modo, proporcionam que a atividade 
jurisdicional, por intermédio da fundamentação, que é 
condição de possibilidade, torne público o sentido que será, 
assim, intersubjetivamente controlado, e tenderá a manter 
ilesa a coerência e integridade do Direito.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
36 37
chamada à colação” quando necessário um juízo ponderativo 
para os casos difíceis – uma vez que para os “casos simples” 
(aqueles solucionados mediante a aplicação de uma regra) 
bastaria a dedução/subsunção – caberá ao intérprete a tarefa 
de “hierarquizar” e “decidir” qual o princípio aplicável no 
caso do conflito/colisão.
Ora, se, ao fim e ao cabo, cabe ao intérprete hierarquizar 
(e escolher) o princípio aplicável, a pergunta inexorável é: qual 
é a diferença entre o “intérprete ponderador” e o “intérprete 
do positivismo”, que, discricionariamente, escolhe qual a 
“melhor” interpretação? 
É evidente que devemos reconhecer que a teoria dos 
princípios conjugada com uma teoria da argumentação, 
como no caso da teoria de Alexy, que é a mais sofisticada e 
complexa, responderá que há um conjunto de critérios que 
deverão sempre balizar a decisão. Mas, pergunto novamente: 
qual é a diferença disso na comparação com as fórmulas 
dos velhos métodos de interpretação, cujo calcanhar de 
Aquiles é exatamente não ter um critério para definir qual 
o melhor critério, que venho denominando de “ausência ou 
impossibilidade” de um Grundmethode (método dos métodos)?Mutatis mutandis, a lei da ponderação, que seria o 
método para resolver a colisão entre princípios, ao fim e ao cabo 
recorre a uma teoria da argumentação que aceita argumentos 
morais nas insuficiências dos padrões jurídicos. É a esse 
problema que me refiro quando critico o esquema sujeito-
objeto: entender que a discricionariedade é algo inerente à 
aplicação do Direito é, no fundo, um retorno ao paradigma da 
filosofia da consciência.
Como venho afirmando, a discricionariedade não se 
relaciona bem com a democracia. E essa questão continua 
na ordem do dia, mormente em países como o Brasil. Com 
efeito, as teorias que pretenderam resolver o problema 
da (in)determinabilidade do Direito, das vaguezas e das 
ambiguidades próprias do ordenamento jurídico, apostando 
na discricionariedade ou em discursos adjudicadores com 
pretensão de correção do Direito, vão estar tão somente 
reforçando aquilo que pretendemos criticar.
Por isso, defendo, ao lado de Dworkin e Ferrajoli, 
que os princípios não abrem a interpretação, e, sim, fecham/
limitam. Os princípios (re)inserem a facticidade no Direito, e 
espelham uma determinada tradição jurídica que permitirá 
um diálogo constante entre a decisão particular com todo o 
ordenamento. Deste modo, proporcionam que a atividade 
jurisdicional, por intermédio da fundamentação, que é 
condição de possibilidade, torne público o sentido que será, 
assim, intersubjetivamente controlado, e tenderá a manter 
ilesa a coerência e integridade do Direito.
39
A Crítica Hermenêutica do Direito (CHD) 
como oposição à discricionariedade e ao 
ativismo judicial
Essa problemática exige algumas observações 
preliminares. Inicialmente, é preciso dizer que a CHD tem como 
fundamento filosófico a Filosofia Hermenêutica (Heidegger), 
a Hermenêutica Filosófica (Gadamer) e no plano da Teoria do 
Direito compartilha de/com elementos da teoria integrativa de 
Ronald Dworkin. 
Mas é necessário fazer uma ressalva: os referidos 
pensadores, cada um em seu nível de contribuição epistêmica, 
foram incorporados antropofagicamente para constituir a 
CHD. Ou seja, não é Heidegger e nem Gadamer simplesmente 
aplicados ao Direito, de modo direto/instrumental. Isso seria 
um equívoco, uma vez que ambos não trataram diretamente 
das especificidades do fenômeno jurídico. Deste modo, 
contribuem enquanto cosmovisão básica.
No mesmo sentido, a CHD apesar de se aproximar 
da ideia do Direito como integridade (law as integrity), não é 
uma teoria dworkiniana. Se assim fosse, teria que partilhar 
o todo da obra de Dworkin – o que não ocorre – assim, não 
seria outra teoria, mas apenas uma aplicação do jurista 
norte-americano à realidade brasileira. 
Assim, resultando de (des)leituras antropofágicas, a 
CHD se constitui como uma matriz autônoma, não escon-
dendo seus aportes basilares e o(s) seu(s) lugar(es) de fala.
39
A Crítica Hermenêutica do Direito (CHD) 
como oposição à discricionariedade e ao 
ativismo judicial
Essa problemática exige algumas observações 
preliminares. Inicialmente, é preciso dizer que a CHD tem como 
fundamento filosófico a Filosofia Hermenêutica (Heidegger), 
a Hermenêutica Filosófica (Gadamer) e no plano da Teoria do 
Direito compartilha de/com elementos da teoria integrativa de 
Ronald Dworkin. 
Mas é necessário fazer uma ressalva: os referidos 
pensadores, cada um em seu nível de contribuição epistêmica, 
foram incorporados antropofagicamente para constituir a 
CHD. Ou seja, não é Heidegger e nem Gadamer simplesmente 
aplicados ao Direito, de modo direto/instrumental. Isso seria 
um equívoco, uma vez que ambos não trataram diretamente 
das especificidades do fenômeno jurídico. Deste modo, 
contribuem enquanto cosmovisão básica.
No mesmo sentido, a CHD apesar de se aproximar 
da ideia do Direito como integridade (law as integrity), não é 
uma teoria dworkiniana. Se assim fosse, teria que partilhar 
o todo da obra de Dworkin – o que não ocorre – assim, não 
seria outra teoria, mas apenas uma aplicação do jurista 
norte-americano à realidade brasileira. 
Assim, resultando de (des)leituras antropofágicas, a 
CHD se constitui como uma matriz autônoma, não escon-
dendo seus aportes basilares e o(s) seu(s) lugar(es) de fala.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
40 41
Dito isso, posso então afirmar que a CHD tem como 
ponto de partida o problema de haver decisões judiciais que 
não são democráticas, ou seja, nas quais o juiz procedeu de 
modo arbitrário, conforme a sua consciência individual, e 
isso é um desrespeito ao Estado Democrático de Direito que 
estabelece as regras do jogo no qual o juiz atua. 
Em suma, o problema enfrentado é o ato interpretativo 
do juiz no momento de decidir. Por isso há a ênfase na 
necessidade de uma teoria da decisão. Assim, dentre os seus 
intentos, a CHD procura despertar a comunidade jurídica 
acerca do problema da discricionariedade (e seus derivados 
ou genéricos).
Defender que a decisão jurídica pressupõe um juízo 
discricionário de um juiz que, com seu livre convencimento 
(motivado ou não – o que dá no mesmo), pode decidir a 
partir de sua consciência, é esquecer que estamos desde 
sempre inseridos num mundo em que as significações se dão 
intersubjetivamente. 
Logo, a jurisdição não pode ser compreendida como 
uma escolha personalista. Ao contrário, deve ser entendida 
como um processo que requer responsabilidade política.
Partindo de uma teoria da decisão, como tento fazer 
a partir de Verdade e Consenso, Jurisdição Constitucional, e, em 
especial, da terceira edição de Lições de Crítica Hermenêutica do 
Direito, procuro demonstrar que o juiz encontra-se, queira ele 
ou não, submetido a um contexto intersubjetivo de significação 
e que os sentidos dos textos jurídicos (e dos fatos) com que 
lida não estão à disposição de sua livre apreciação para 
avaliá-los da maneira que ele, subjetivamente, entende mais 
conveniente. O mundo que conhecemos não é produto de uma 
razão desenraizada de sua condição fática e histórica, isto é, 
não existe um “grau zero de sentido”, como venho dizendo.
A hermenêutica não proíbe que se trabalhe em 
um nível lógico ou argumentativo, mas sabe que há uma 
dimensão interpretativa ou existencial (se quisermos chamar 
assim) que antecede e que é condição de possibilidade para 
qualquer discurso. Por essa razão que Ernildo Stein afirma, 
na apresentação do meu Verdade e Consenso, que “esse nível 
apofântico perde algo de essencial quando desconhece na linguagem 
jurídica, por exemplo, a dimensão hermenêutica, como primeira e 
antecipada em todo o enunciado”.
Aquilo que entendo como teoria da decisão judicial tem 
como pressuposto que o Direito é um sistema constituído por 
regras e princípios, em que os últimos não serão comandos 
que, por sua vagueza semântica, podem ser cumpridos em 
maior ou menor grau ou intensidade. 
A hermenêutica sabe que as regras jurídicas não 
conseguem abarcar de antemão todas as hipóteses fáticas 
que poderão ser atribuídas a sua previsão semântica, ao 
passo que para as teorias positivistas essa abertura semântica 
era/é preenchida pela discricionariedade do juiz. Aliás, essa 
é uma característica fundamental do positivismo jurídico. 
Por se tratar de uma complexa corrente teórica acabou 
recebendo muitas variações, mas a discricionariedade se faz 
presente em todas elas, seja como um pressuposto teórico, 
seja como uma consequência.
Veja-se que um positivista ético/normativo, por 
exemplo, dirá que quando as regras não são claras (sem 
adentrar no problema que é dizer quando uma regra é clara) 
é inevitável que o juízo utilize-se de critérios extrajurídicos 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
40 41
Dito isso, posso então afirmar que a CHD tem como 
ponto de partida o problema de haver decisões judiciais que 
não são democráticas, ou seja, nas quais o juiz procedeu de 
modo arbitrário, conforme a sua consciência individual, e 
isso é um desrespeito ao Estado Democrático de Direito que 
estabelece as regras do jogono qual o juiz atua. 
Em suma, o problema enfrentado é o ato interpretativo 
do juiz no momento de decidir. Por isso há a ênfase na 
necessidade de uma teoria da decisão. Assim, dentre os seus 
intentos, a CHD procura despertar a comunidade jurídica 
acerca do problema da discricionariedade (e seus derivados 
ou genéricos).
Defender que a decisão jurídica pressupõe um juízo 
discricionário de um juiz que, com seu livre convencimento 
(motivado ou não – o que dá no mesmo), pode decidir a 
partir de sua consciência, é esquecer que estamos desde 
sempre inseridos num mundo em que as significações se dão 
intersubjetivamente. 
Logo, a jurisdição não pode ser compreendida como 
uma escolha personalista. Ao contrário, deve ser entendida 
como um processo que requer responsabilidade política.
Partindo de uma teoria da decisão, como tento fazer 
a partir de Verdade e Consenso, Jurisdição Constitucional, e, em 
especial, da terceira edição de Lições de Crítica Hermenêutica do 
Direito, procuro demonstrar que o juiz encontra-se, queira ele 
ou não, submetido a um contexto intersubjetivo de significação 
e que os sentidos dos textos jurídicos (e dos fatos) com que 
lida não estão à disposição de sua livre apreciação para 
avaliá-los da maneira que ele, subjetivamente, entende mais 
conveniente. O mundo que conhecemos não é produto de uma 
razão desenraizada de sua condição fática e histórica, isto é, 
não existe um “grau zero de sentido”, como venho dizendo.
A hermenêutica não proíbe que se trabalhe em 
um nível lógico ou argumentativo, mas sabe que há uma 
dimensão interpretativa ou existencial (se quisermos chamar 
assim) que antecede e que é condição de possibilidade para 
qualquer discurso. Por essa razão que Ernildo Stein afirma, 
na apresentação do meu Verdade e Consenso, que “esse nível 
apofântico perde algo de essencial quando desconhece na linguagem 
jurídica, por exemplo, a dimensão hermenêutica, como primeira e 
antecipada em todo o enunciado”.
Aquilo que entendo como teoria da decisão judicial tem 
como pressuposto que o Direito é um sistema constituído por 
regras e princípios, em que os últimos não serão comandos 
que, por sua vagueza semântica, podem ser cumpridos em 
maior ou menor grau ou intensidade. 
A hermenêutica sabe que as regras jurídicas não 
conseguem abarcar de antemão todas as hipóteses fáticas 
que poderão ser atribuídas a sua previsão semântica, ao 
passo que para as teorias positivistas essa abertura semântica 
era/é preenchida pela discricionariedade do juiz. Aliás, essa 
é uma característica fundamental do positivismo jurídico. 
Por se tratar de uma complexa corrente teórica acabou 
recebendo muitas variações, mas a discricionariedade se faz 
presente em todas elas, seja como um pressuposto teórico, 
seja como uma consequência.
Veja-se que um positivista ético/normativo, por 
exemplo, dirá que quando as regras não são claras (sem 
adentrar no problema que é dizer quando uma regra é clara) 
é inevitável que o juízo utilize-se de critérios extrajurídicos 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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no momento de decidir. Esse é o pressuposto teórico adotado 
para resolver as “insuficiências” ônticas do Direito.
Por outro lado, um positivista descritivista (positivismo 
exclusivo) dirá que juízes não estão obrigados a decidirem de 
acordo com o Direito se este for moralmente inaceitável, sendo 
que, para isso, admite o uso de critérios extrajurídicos.
Ou seja, o positivista que pretende apenas descrever 
o Direito não está preocupado como um juiz deve decidir, 
pois recebe a decisão (e a discricionariedade) como algo 
“dado” e busca apenas descrevê-la. Eis, portanto, a aceitação 
da discricionariedade como uma consequência da sua 
metodologia teórica.
Veja-se, como observação aos alunos e profissionais do 
Direito em geral: devemos parar de tratar o positivismo por 
intermédio de caricaturas, como se houvesse apenas um tipo 
de positivismo e que este fosse apenas o velho exegetismo do 
tipo “juiz-boca-da-lei”. Pensar assim é prestar um desserviço 
ao Direito. Também sempre é preciso remeter o leitor ao 
Dicionário de Hermenêutica, verbete Positivismo.
Por isso, aqui, explico e volto à importância do papel dos 
princípios e sua normatividade no combate à discricionariedade 
proposto pela CHD. Os princípios, assim, passam a fechar – e 
não abrir – a interpretação jurídica. Da mesma maneira, nos 
casos em que deve ser aplicada a “literalidade” da regra, isso 
só é possível porque ela vem justificada por um princípio que 
lhe sustenta.
Não há uma cisão estrutural entre regras e princípios. 
A partir dessa estrutura e levando em consideração que 
o direito brasileiro é constituído sob as bases de uma 
Constituição cujo cerne prevê um extenso rol de direitos e 
garantias fundamentais, podemos concluir que o Poder 
Judiciário somente pode deixar de aplicar uma lei ou 
dispositivo de lei nas seis seguintes hipóteses. É o que reuni 
em minha proposta de teoria da decisão, uma theory of 
adjudication verdadeiramente brasileira:
a) quando a lei (o ato normativo) for inconstitucional, 
caso em que deixará de aplicá-la (controle difuso de 
constitucionalidade stricto sensu) ou a declarará incons-
titucional mediante controle concentrado; as especifici-
dades podem ser encontradas nos respectivos desdo-
bramentos da presente; 
b) quando for o caso de aplicação dos critérios de reso-
lução de antinomias. Nesse caso, há que se ter cuidado 
com a questão constitucional, pois, v.g., a lex posterioris, 
que derroga a lex anterioris, pode ser inconstitucional, 
com o que as antinomias deixam de ser relevantes; 
c) quando aplicar a interpretação conforme a Constitui-
ção (verfassungskonforme Auslegung), ocasião em que se 
torna necessária uma adição de sentido ao artigo de lei 
para que haja plena conformidade da norma à Consti-
tuição. Nesse caso, o texto de lei (entendido na sua “li-
teralidade” ou no seu significado convencional, como 
diria Victoria Iturralde Sesma) permanecerá intacto. 
O que muda é o seu sentido, alterado por intermédio 
de interpretação que o torne adequado à Constituição. 
Trabalha-se, nesse ponto, com a relação “texto-norma”. 
Como poderá ser visto amiúde mais adiante, a inter-
pretação conforme, a nulidade parcial sem redução de 
texto e as demais sentenças interpretativas são impor-
tantes elementos para confirmar a força normativa da 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
42 43
no momento de decidir. Esse é o pressuposto teórico adotado 
para resolver as “insuficiências” ônticas do Direito.
Por outro lado, um positivista descritivista (positivismo 
exclusivo) dirá que juízes não estão obrigados a decidirem de 
acordo com o Direito se este for moralmente inaceitável, sendo 
que, para isso, admite o uso de critérios extrajurídicos.
Ou seja, o positivista que pretende apenas descrever 
o Direito não está preocupado como um juiz deve decidir, 
pois recebe a decisão (e a discricionariedade) como algo 
“dado” e busca apenas descrevê-la. Eis, portanto, a aceitação 
da discricionariedade como uma consequência da sua 
metodologia teórica.
Veja-se, como observação aos alunos e profissionais do 
Direito em geral: devemos parar de tratar o positivismo por 
intermédio de caricaturas, como se houvesse apenas um tipo 
de positivismo e que este fosse apenas o velho exegetismo do 
tipo “juiz-boca-da-lei”. Pensar assim é prestar um desserviço 
ao Direito. Também sempre é preciso remeter o leitor ao 
Dicionário de Hermenêutica, verbete Positivismo.
Por isso, aqui, explico e volto à importância do papel dos 
princípios e sua normatividade no combate à discricionariedade 
proposto pela CHD. Os princípios, assim, passam a fechar – e 
não abrir – a interpretação jurídica. Da mesma maneira, nos 
casos em que deve ser aplicada a “literalidade” da regra, isso 
só é possível porque ela vem justificada por um princípio que 
lhe sustenta.
Não há uma cisão estrutural entre regras e princípios. 
A partir dessa estrutura e levando em consideraçãoque 
o direito brasileiro é constituído sob as bases de uma 
Constituição cujo cerne prevê um extenso rol de direitos e 
garantias fundamentais, podemos concluir que o Poder 
Judiciário somente pode deixar de aplicar uma lei ou 
dispositivo de lei nas seis seguintes hipóteses. É o que reuni 
em minha proposta de teoria da decisão, uma theory of 
adjudication verdadeiramente brasileira:
a) quando a lei (o ato normativo) for inconstitucional, 
caso em que deixará de aplicá-la (controle difuso de 
constitucionalidade stricto sensu) ou a declarará incons-
titucional mediante controle concentrado; as especifici-
dades podem ser encontradas nos respectivos desdo-
bramentos da presente; 
b) quando for o caso de aplicação dos critérios de reso-
lução de antinomias. Nesse caso, há que se ter cuidado 
com a questão constitucional, pois, v.g., a lex posterioris, 
que derroga a lex anterioris, pode ser inconstitucional, 
com o que as antinomias deixam de ser relevantes; 
c) quando aplicar a interpretação conforme a Constitui-
ção (verfassungskonforme Auslegung), ocasião em que se 
torna necessária uma adição de sentido ao artigo de lei 
para que haja plena conformidade da norma à Consti-
tuição. Nesse caso, o texto de lei (entendido na sua “li-
teralidade” ou no seu significado convencional, como 
diria Victoria Iturralde Sesma) permanecerá intacto. 
O que muda é o seu sentido, alterado por intermédio 
de interpretação que o torne adequado à Constituição. 
Trabalha-se, nesse ponto, com a relação “texto-norma”. 
Como poderá ser visto amiúde mais adiante, a inter-
pretação conforme, a nulidade parcial sem redução de 
texto e as demais sentenças interpretativas são impor-
tantes elementos para confirmar a força normativa da 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
44 45
Constituição. São sentenças interpretativas e perfeita-
mente legítimas, quando proferidas sob o império de 
uma adequada teoria da decisão; 
d) quando aplicar a nulidade parcial sem redução de 
texto (Teilnichtigerklarung ohne Normtextreduzierung), 
pela qual permanece a literalidade do dispositivo, sen-
do alterada apenas a sua incidência, ou seja, ocorre a 
expressa exclusão, por inconstitucionalidade, de deter-
minada(s) hipótese(s) de aplicação (Anwendungsfalle) 
do programa normativo sem que se produza alteração 
expressa do texto legal. Assim, enquanto, na interpre-
tação conforme, há uma adição de sentido, na nulidade 
parcial sem redução de texto ocorre uma abdução de 
sentido (conforme item específico no capítulo em que 
discuto esses mecanismos de aplicação do Direito); 
e) quando for o caso de declaração de inconstitucionali-
dade com redução de texto, ocasião em que a exclusão 
de uma palavra conduz à manutenção da constitucio-
nalidade do dispositivo; 
f) quando – e isso é absolutamente corriqueiro e co-
mum – for o caso de deixar de aplicar uma regra em 
face de um princípio, entendidos estes não como stan-
dards retóricos ou enunciados performativos, mas como 
padrões deontológicos, ajustados institucionalmente à 
moralidade política filtrada pelo Direito da comunida-
de em questão. Claro que isso somente tem sentido fora 
de qualquer pamprincipiologismo. É por meio da apli-
cação principiológica que será possível a não aplicação 
da regra a determinado caso (a aplicação principiológi-
ca sempre ocorrerá, já que não há regra sem princípio e 
o princípio só existe a partir de uma regra – pensemos, 
por exemplo, na regra do furto, que é “suspensa” em 
casos de “insignificância”). 
(Tal circunstância, por óbvio, acarretará um 
compromisso da comunidade jurídica, na medida em que, 
a partir de uma exceção, casos similares exigirão – mas 
exigirão mesmo – aplicação similar, graças à integridade e à 
coerência. Trata-se de entender os princípios em seu caráter 
deontológico e não meramente teleológico. Como uma regra 
só existe – no sentido da applicatio hermenêutica – a partir de 
um princípio que lhe densifica o conteúdo, a regra só persiste, 
naquele caso concreto, se não estiver incompatível com um 
ou mais princípios. A regra permanece vigente e válida; só 
deixa de ser aplicada naquele caso concreto. Se a regra é, 
em definitivo, inconstitucional, então se aplica a hipótese 1. 
Por outro lado, há que ser claro que um princípio só adquire 
existência hermenêutica por intermédio de uma regra. Logo, 
é dessa diferença ontológica [ontologische Differenz] que se 
extrai o sentido para a resolução do caso concreto.)
Esses, naturalmente, são critérios negativos. Para além 
dessas seis hipóteses, não vislumbro possibilidade de o juiz 
deixar, no exercício da jurisdição, de aplicar uma lei, quer ele 
subjetivamente concorde ou não com a sua disposição.
Ao juiz não é dado o direito, muito menos o dever, de 
gostar ou não da lei. Não é (nem deve ser) a vontade do juiz a 
atribuir normatividade e validade jurídica a um preceito legal. 
Por isso o papel decisivo que a doutrina passa a exercer, 
pois ela tem o papel não apenas de reproduzir as decisões 
produzidas pelos Tribunais, mas de prescrever como eles 
devem decidir. É o que venho chamando de Constrangimento 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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Constituição. São sentenças interpretativas e perfeita-
mente legítimas, quando proferidas sob o império de 
uma adequada teoria da decisão; 
d) quando aplicar a nulidade parcial sem redução de 
texto (Teilnichtigerklarung ohne Normtextreduzierung), 
pela qual permanece a literalidade do dispositivo, sen-
do alterada apenas a sua incidência, ou seja, ocorre a 
expressa exclusão, por inconstitucionalidade, de deter-
minada(s) hipótese(s) de aplicação (Anwendungsfalle) 
do programa normativo sem que se produza alteração 
expressa do texto legal. Assim, enquanto, na interpre-
tação conforme, há uma adição de sentido, na nulidade 
parcial sem redução de texto ocorre uma abdução de 
sentido (conforme item específico no capítulo em que 
discuto esses mecanismos de aplicação do Direito); 
e) quando for o caso de declaração de inconstitucionali-
dade com redução de texto, ocasião em que a exclusão 
de uma palavra conduz à manutenção da constitucio-
nalidade do dispositivo; 
f) quando – e isso é absolutamente corriqueiro e co-
mum – for o caso de deixar de aplicar uma regra em 
face de um princípio, entendidos estes não como stan-
dards retóricos ou enunciados performativos, mas como 
padrões deontológicos, ajustados institucionalmente à 
moralidade política filtrada pelo Direito da comunida-
de em questão. Claro que isso somente tem sentido fora 
de qualquer pamprincipiologismo. É por meio da apli-
cação principiológica que será possível a não aplicação 
da regra a determinado caso (a aplicação principiológi-
ca sempre ocorrerá, já que não há regra sem princípio e 
o princípio só existe a partir de uma regra – pensemos, 
por exemplo, na regra do furto, que é “suspensa” em 
casos de “insignificância”). 
(Tal circunstância, por óbvio, acarretará um 
compromisso da comunidade jurídica, na medida em que, 
a partir de uma exceção, casos similares exigirão – mas 
exigirão mesmo – aplicação similar, graças à integridade e à 
coerência. Trata-se de entender os princípios em seu caráter 
deontológico e não meramente teleológico. Como uma regra 
só existe – no sentido da applicatio hermenêutica – a partir de 
um princípio que lhe densifica o conteúdo, a regra só persiste, 
naquele caso concreto, se não estiver incompatível com um 
ou mais princípios. A regra permanece vigente e válida; só 
deixa de ser aplicada naquele caso concreto. Se a regra é, 
em definitivo, inconstitucional, então se aplica a hipótese 1. 
Por outro lado, há que ser claro que um princípio só adquire 
existência hermenêutica por intermédio de uma regra. Logo, 
é dessa diferença ontológica [ontologische Differenz] que se 
extrai o sentido para a resolução do caso concreto.)
Esses, naturalmente, são critérios negativos. Para além 
dessas seis hipóteses, não vislumbro possibilidade de o juiz 
deixar, no exercício da jurisdição, deaplicar uma lei, quer ele 
subjetivamente concorde ou não com a sua disposição.
Ao juiz não é dado o direito, muito menos o dever, de 
gostar ou não da lei. Não é (nem deve ser) a vontade do juiz a 
atribuir normatividade e validade jurídica a um preceito legal. 
Por isso o papel decisivo que a doutrina passa a exercer, 
pois ela tem o papel não apenas de reproduzir as decisões 
produzidas pelos Tribunais, mas de prescrever como eles 
devem decidir. É o que venho chamando de Constrangimento 
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COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
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Epistemológico (ver verbete correspondente no meu 
Dicionário de Hermenêutica), um dever de exigir que os juízes 
não fragilizem a força normativa da Constituição por meio de 
argumentos pessoais, morais (no sentido de sua moralidade 
privada), econômicos ou políticos. 
É a isso que me refiro quando digo que nessa quadra 
da história o Direito possui um acentuado grau de autonomia. 
Trata-se de uma blindagem contra-argumentos exógenos 
que, se utilizados como critérios de fundamentação das 
decisões, passam a flexibilizar e relativizar as disposições 
constitucionais, ou seja, os direitos e garantias fundamentais.
A hermenêutica e o direito fundamental à 
Resposta Adequada à Constituição (RAC)
Todos os jurisdicionados possuem o direito 
fundamental a obter uma resposta correta, isto é, uma decisão 
que esteja de acordo com a Constituição. Juiz não escolhe. Juiz 
decide. Há uma diferença entre escolher, que está no plano da 
razão prática, e decisão, que está no plano da responsabilidade 
política e da intersubjetividade. Neste ponto fica bem clara a 
necessidade de separar a pessoa do juiz no seu cotidiano do 
juiz autoridade, que possui responsabilidade política. 
Nem juiz, nem promotor são juiz e promotor vinte e 
quatro horas por dia. O juiz que dá aula é professor naquele 
momento. E quando vai ao açougue não é autoridade e não 
decide que uma picanha pode ser uma maminha ou vice-versa.
Por isso, não deve importar o que o juiz pensa sobre 
as coisas (política, economia, futebol, religião, etc). Importa 
é que, quando decide, tem de suspender seus pré-juízos, 
seus preconceitos (no sentido comum da palavra). Se ele 
não conseguir fazer isso, não pode ser juiz. Um juiz, pelo 
fato de desgostar da lei, não pode se recusar a aplicá-la. Ele 
até pode não aplicar a lei, desde que esteja alicerçado nas 
seis hipóteses já delineadas.
Uma advertência: é evidente que não quero um sistema 
jurídico no qual os juízes sejam a boca “fria” da lei. Igualmente 
não quero um sistema jurídico no qual os juízes sejam a boca 
do precedente ou a boca das súmulas. Também é óbvio que 
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COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
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Epistemológico (ver verbete correspondente no meu 
Dicionário de Hermenêutica), um dever de exigir que os juízes 
não fragilizem a força normativa da Constituição por meio de 
argumentos pessoais, morais (no sentido de sua moralidade 
privada), econômicos ou políticos. 
É a isso que me refiro quando digo que nessa quadra 
da história o Direito possui um acentuado grau de autonomia. 
Trata-se de uma blindagem contra-argumentos exógenos 
que, se utilizados como critérios de fundamentação das 
decisões, passam a flexibilizar e relativizar as disposições 
constitucionais, ou seja, os direitos e garantias fundamentais.
A hermenêutica e o direito fundamental à 
Resposta Adequada à Constituição (RAC)
Todos os jurisdicionados possuem o direito 
fundamental a obter uma resposta correta, isto é, uma decisão 
que esteja de acordo com a Constituição. Juiz não escolhe. Juiz 
decide. Há uma diferença entre escolher, que está no plano da 
razão prática, e decisão, que está no plano da responsabilidade 
política e da intersubjetividade. Neste ponto fica bem clara a 
necessidade de separar a pessoa do juiz no seu cotidiano do 
juiz autoridade, que possui responsabilidade política. 
Nem juiz, nem promotor são juiz e promotor vinte e 
quatro horas por dia. O juiz que dá aula é professor naquele 
momento. E quando vai ao açougue não é autoridade e não 
decide que uma picanha pode ser uma maminha ou vice-versa.
Por isso, não deve importar o que o juiz pensa sobre 
as coisas (política, economia, futebol, religião, etc). Importa 
é que, quando decide, tem de suspender seus pré-juízos, 
seus preconceitos (no sentido comum da palavra). Se ele 
não conseguir fazer isso, não pode ser juiz. Um juiz, pelo 
fato de desgostar da lei, não pode se recusar a aplicá-la. Ele 
até pode não aplicar a lei, desde que esteja alicerçado nas 
seis hipóteses já delineadas.
Uma advertência: é evidente que não quero um sistema 
jurídico no qual os juízes sejam a boca “fria” da lei. Igualmente 
não quero um sistema jurídico no qual os juízes sejam a boca 
do precedente ou a boca das súmulas. Também é óbvio que 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
48 49
não quero um sistema jurídico em que o juiz esteja proibido 
de interpretar. Mas também não quero um sistema jurídico em 
que o juiz interprete como quer e solte o acusado quando quer. 
Ou prenda alguém sem motivo, só porque ele, pessoalmente, 
“quer acabar com a impunidade”.
Só quero um mínimo de previsibilidade, que advém da 
aplicação do Direito, e não da moral. Quem acha que a moral 
(por exemplo, a visão individual-moral do juiz lhe dizendo “— 
Esse cara não merece ser solto”) pode vir a corrigir o Direito, 
deveria fazer o curso de filosofia moral. E assim por diante. 
Se a moral ou a política corrigem o Direito, quem vai corrigir 
esses elementos predadores?
Eis o busílis da questão. Se simplesmente olhar o 
processo e tomar a decisão com base na percepção pessoal é 
“decisão jurídica”, então qualquer pessoa pode decidir6.
E aqui surge a pergunta: afinal, aplicar a lei é ser 
positivista? Por tudo que vimos, evidente que essa é uma 
vulgata. Parece não haver dúvida de que o positivismo – 
compreendido lato sensu (ou seja, as diversas facetas do 
positivismo) – não conseguiu aceitar a viragem interpretativa 
ocorrida na filosofia do direito (invasão da filosofia pela 
linguagem) e suas consequências no plano da doutrina e da 
jurisprudência. 
Se isto é verdadeiro – e penso que é – a pergunta que 
cabe é: como é possível continuar a sustentar o positivismo 
nesta quadra da história? Como resistir ou obstaculizar o cons-
titucionalismo que revolucionou o direito no século XX? Entre 
6 STRECK, Lenio Luiz. O juiz soltou os presos; já Karl Max deixou de estudar 
e foi vender droga. Revista Eletrônica Consultor Jurídico, São Paulo, 
21 de maio, 2015. Disponível em 
tantas perplexidades, parece não restar dúvida de que uma 
resposta mínima pode e deve ser dada a essas indagações: o 
constitucionalismo – nesta sua versão social, compromissória e 
dirigente – não pode repetir equívocos positivistas, proporcio-
nando decisionismos ou discricionariedades interpretativas.
Então, finalmente, por favor, que não se venha com 
a velha história de que “cumprir a letra ‘fria’ [sic] da lei” é 
assumir uma postura positivista! Aliás, o que seria essa “letra 
fria da lei”? Haveria um sentido-em-si-mesmo da lei? 
Na verdade, confundem-se conceitos. As diversas 
formas de positivismo não podem ser colocadas no mesmo 
patamar e tampouco podemos confundir uma delas (ou as 
duas mais conhecidas) com a sua superação pelo e no interior 
do paradigma da linguagem. 
Tentarei explicar isso melhor: positivismo exegético 
(que era a forma do positivismo primitivo) separava direito 
e moral, além de confundir texto e norma, lei e direito, ou 
seja, tratava-se da velha crença – ainda muito presente no 
imaginário dos juristas – em torno da proibição de interpretar, 
corolário da vetusta separação entre fato e Direito, algo que 
nos remete ao período pós-revolução francesa e todas as 
consequências políticas que dali se seguiram. 
Depois veio o positivismo normativista, seguido 
das mais variadas formas e fórmulas que – identificando(arbitrariamente) a impossibilidade de um “fechamento 
semântico” do direito – relegou o problema da interpretação 
jurídica a uma “questão menor” (lembremos, aqui, de Kelsen). 
Atente-se: nessa nova formulação do positivismo, o problema 
do direito não está(va) no modo como os juízes decidem, mas, 
simplesmente, nas condições lógico-deônticas de validade das 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
48 49
não quero um sistema jurídico em que o juiz esteja proibido 
de interpretar. Mas também não quero um sistema jurídico em 
que o juiz interprete como quer e solte o acusado quando quer. 
Ou prenda alguém sem motivo, só porque ele, pessoalmente, 
“quer acabar com a impunidade”.
Só quero um mínimo de previsibilidade, que advém da 
aplicação do Direito, e não da moral. Quem acha que a moral 
(por exemplo, a visão individual-moral do juiz lhe dizendo “— 
Esse cara não merece ser solto”) pode vir a corrigir o Direito, 
deveria fazer o curso de filosofia moral. E assim por diante. 
Se a moral ou a política corrigem o Direito, quem vai corrigir 
esses elementos predadores?
Eis o busílis da questão. Se simplesmente olhar o 
processo e tomar a decisão com base na percepção pessoal é 
“decisão jurídica”, então qualquer pessoa pode decidir6.
E aqui surge a pergunta: afinal, aplicar a lei é ser 
positivista? Por tudo que vimos, evidente que essa é uma 
vulgata. Parece não haver dúvida de que o positivismo – 
compreendido lato sensu (ou seja, as diversas facetas do 
positivismo) – não conseguiu aceitar a viragem interpretativa 
ocorrida na filosofia do direito (invasão da filosofia pela 
linguagem) e suas consequências no plano da doutrina e da 
jurisprudência. 
Se isto é verdadeiro – e penso que é – a pergunta que 
cabe é: como é possível continuar a sustentar o positivismo 
nesta quadra da história? Como resistir ou obstaculizar o cons-
titucionalismo que revolucionou o direito no século XX? Entre 
6 STRECK, Lenio Luiz. O juiz soltou os presos; já Karl Max deixou de estudar 
e foi vender droga. Revista Eletrônica Consultor Jurídico, São Paulo, 
21 de maio, 2015. Disponível em 
tantas perplexidades, parece não restar dúvida de que uma 
resposta mínima pode e deve ser dada a essas indagações: o 
constitucionalismo – nesta sua versão social, compromissória e 
dirigente – não pode repetir equívocos positivistas, proporcio-
nando decisionismos ou discricionariedades interpretativas.
Então, finalmente, por favor, que não se venha com 
a velha história de que “cumprir a letra ‘fria’ [sic] da lei” é 
assumir uma postura positivista! Aliás, o que seria essa “letra 
fria da lei”? Haveria um sentido-em-si-mesmo da lei? 
Na verdade, confundem-se conceitos. As diversas 
formas de positivismo não podem ser colocadas no mesmo 
patamar e tampouco podemos confundir uma delas (ou as 
duas mais conhecidas) com a sua superação pelo e no interior 
do paradigma da linguagem. 
Tentarei explicar isso melhor: positivismo exegético 
(que era a forma do positivismo primitivo) separava direito 
e moral, além de confundir texto e norma, lei e direito, ou 
seja, tratava-se da velha crença – ainda muito presente no 
imaginário dos juristas – em torno da proibição de interpretar, 
corolário da vetusta separação entre fato e Direito, algo que 
nos remete ao período pós-revolução francesa e todas as 
consequências políticas que dali se seguiram. 
Depois veio o positivismo normativista, seguido 
das mais variadas formas e fórmulas que – identificando 
(arbitrariamente) a impossibilidade de um “fechamento 
semântico” do direito – relegou o problema da interpretação 
jurídica a uma “questão menor” (lembremos, aqui, de Kelsen). 
Atente-se: nessa nova formulação do positivismo, o problema 
do direito não está(va) no modo como os juízes decidem, mas, 
simplesmente, nas condições lógico-deônticas de validade das 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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“normas jurídicas”.
O ponto, então, é que positivismo não é “aplicar a letra 
‘fria’ [sic] da lei”. Talvez já tenha sido quando, na França, a Es-
cola da Exegese, baseada em Montesquieu dizia que o juiz era 
a bouche de la loi (“a boca da lei”). Lembremos, contudo, que “a 
lei” ainda era a lei do Code Napoléon. Desde então, o juiz mu-
dou, a lei mudou, a França mudou, o Brasil mudou, o mundo 
mudou. Por óbvio, mudou o positivismo também — mas, ao 
que parece, ainda insistem que sou um positivista por dizer 
que o texto legal importa, e talvez seja pelo mesmo motivo que 
ainda ressoe, nas salas de aula, que Kelsen era um exegeta. 
Positivismo é muito mais do que aquilo que foi a 
sua formulação original: o legalismo (seja ele manifestado 
pelo exegetismo francês, da jurisprudência dos conceitos na 
Alemanha, ou por meio da da jurisprudência analítica inglesa 
— inaugurada, em certa medida, por Jeremy Bentham. 
A tradição dominante do positivismo jurídico nunca 
disse que o juiz tem um dever de aplicar o texto legal. Mais: 
a tradição positivista dominante jamais disse nada sobre a 
atuação do juiz per se. Característica típica do juspositivismo é, 
justamente, não se preocupar com a decisão judicial. 
Como defender que os juízes respeitem a lei invocando 
uma teoria cuja tradição dominante nada tem a dizer sobre a 
forma como os juízes devem se comportar?
Ou seja: uma coisa todos esses positivismos têm até 
hoje em comum: a discricionariedade (que acaba não se 
fixando sequer nos limites da “moldura” semântica). E tenho 
a convicção de que isso se deve a um motivo muito simples: 
a tradição continental, pelo menos até o segundo pós-guerra, 
não havia conhecido uma Constituição normativa, invasora da 
legalidade e fundadora do espaço público democrático. Isso 
tem consequências drásticas para a concepção do direito como 
um todo! Quero dizer: saltamos de um legalismo rasteiro, 
que reduzia o elemento central do direito ora a um conceito 
estrito de lei (como no caso dos códigos oitocentistas, base 
para o positivismo primitivo), ora a um conceito abstrato-
universalizante de norma (que se encontra plasmado na ideia 
de Direito presente no positivismo normativista), para uma 
concepção da legalidade que só se constitui sob o manto da 
constitucionalidade. 
O que quero dizer – e me recordo aqui de Elias Dias – é 
que não seríamos capazes, nesta quadra da história, de admi-
tir uma legalidade inconstitucional. Isso deveria ser eviden-
te. Portanto, não devemos confundir “alhos” com “bugalhos”. 
Obedecer à risca o “texto da lei” (significado convencional 
autêntico – no sentido hermenêutico da palavra) democrati-
camente construído (já superada a questão da distinção entre 
Direito e moral) não tem nada a ver com a “exegese” à moda 
antiga (positivismo primitivo). No primeiro caso, a moral fi-
cava de fora; agora, no Estado Democrático de Direito, ela é 
cooriginária. Tão complexo, e, ao mesmo tempo, tão simples.
Digo isso porque discussão sobre a possibilidade e 
necessidade de respostas corretas no Direito tem raízes na 
história da filosofia e na própria discussão fundamental sobre 
a verdade. Não por acaso, o debate jurídico contemporâneo 
retoma a luta contra os diversos tipos de ceticismo, tentando não 
reincidir no seu oposto ingênuo que defenderia fundamentos 
últimos e absolutos para o conhecimento (“formalismos”, 
“jurisprudência mecânica”... alguns “jusnaturalismos” – sempre 
de ocasião, sem uma epistemologia – e etc.).
Em qualquer teoria que defenda a discricionariedade, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
50 51
“normas jurídicas”.
O ponto, então, é que positivismo não é “aplicar a letra 
‘fria’ [sic] da lei”. Talvez já tenha sido quando, na França, a Es-
cola da Exegese, baseada em Montesquieu dizia que o juiz era 
a bouche de la loi (“a boca da lei”). Lembremos, contudo, que “a 
lei” ainda era a lei do Code Napoléon. Desde então, o juiz mu-
dou, a lei mudou, a França mudou, o Brasil mudou, o mundomudou. Por óbvio, mudou o positivismo também — mas, ao 
que parece, ainda insistem que sou um positivista por dizer 
que o texto legal importa, e talvez seja pelo mesmo motivo que 
ainda ressoe, nas salas de aula, que Kelsen era um exegeta. 
Positivismo é muito mais do que aquilo que foi a 
sua formulação original: o legalismo (seja ele manifestado 
pelo exegetismo francês, da jurisprudência dos conceitos na 
Alemanha, ou por meio da da jurisprudência analítica inglesa 
— inaugurada, em certa medida, por Jeremy Bentham. 
A tradição dominante do positivismo jurídico nunca 
disse que o juiz tem um dever de aplicar o texto legal. Mais: 
a tradição positivista dominante jamais disse nada sobre a 
atuação do juiz per se. Característica típica do juspositivismo é, 
justamente, não se preocupar com a decisão judicial. 
Como defender que os juízes respeitem a lei invocando 
uma teoria cuja tradição dominante nada tem a dizer sobre a 
forma como os juízes devem se comportar?
Ou seja: uma coisa todos esses positivismos têm até 
hoje em comum: a discricionariedade (que acaba não se 
fixando sequer nos limites da “moldura” semântica). E tenho 
a convicção de que isso se deve a um motivo muito simples: 
a tradição continental, pelo menos até o segundo pós-guerra, 
não havia conhecido uma Constituição normativa, invasora da 
legalidade e fundadora do espaço público democrático. Isso 
tem consequências drásticas para a concepção do direito como 
um todo! Quero dizer: saltamos de um legalismo rasteiro, 
que reduzia o elemento central do direito ora a um conceito 
estrito de lei (como no caso dos códigos oitocentistas, base 
para o positivismo primitivo), ora a um conceito abstrato-
universalizante de norma (que se encontra plasmado na ideia 
de Direito presente no positivismo normativista), para uma 
concepção da legalidade que só se constitui sob o manto da 
constitucionalidade. 
O que quero dizer – e me recordo aqui de Elias Dias – é 
que não seríamos capazes, nesta quadra da história, de admi-
tir uma legalidade inconstitucional. Isso deveria ser eviden-
te. Portanto, não devemos confundir “alhos” com “bugalhos”. 
Obedecer à risca o “texto da lei” (significado convencional 
autêntico – no sentido hermenêutico da palavra) democrati-
camente construído (já superada a questão da distinção entre 
Direito e moral) não tem nada a ver com a “exegese” à moda 
antiga (positivismo primitivo). No primeiro caso, a moral fi-
cava de fora; agora, no Estado Democrático de Direito, ela é 
cooriginária. Tão complexo, e, ao mesmo tempo, tão simples.
Digo isso porque discussão sobre a possibilidade e 
necessidade de respostas corretas no Direito tem raízes na 
história da filosofia e na própria discussão fundamental sobre 
a verdade. Não por acaso, o debate jurídico contemporâneo 
retoma a luta contra os diversos tipos de ceticismo, tentando não 
reincidir no seu oposto ingênuo que defenderia fundamentos 
últimos e absolutos para o conhecimento (“formalismos”, 
“jurisprudência mecânica”... alguns “jusnaturalismos” – sempre 
de ocasião, sem uma epistemologia – e etc.).
Em qualquer teoria que defenda a discricionariedade, 
53
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
52
nenhuma das partes tem realmente direito a algo, devendo 
o Judiciário reconhecer esse direito por meio da melhor 
interpretação. O problema? O direito em questão será 
puramente dependente da interpretação que o juiz escolher. 
E isso não é democrático, porque desloca o polo de sentido do 
Direito em direção à discricionariedade judicial.
As semelhanças e diferenças entre a RAC da 
CHD e a tese de Dworkin
Para diferenciarmos minimamente as duas teses, há que 
se dizer que uma é feita para o common law e a outra para o civil 
law. A de Dworkin tem a hermenêutica filosófica implícita. A 
minha é explícita e agrega Dworkin. Há muitas parecenças 
entre Dworkin e Gadamer7. Veja: eu não estou dizendo – e 
nunca disse – que Dworkin é gadameriano. Sempre disse que 
há coisas em comum e existem algumas coisas que Dworkin 
buscou em Gadamer. Há apenas duas menções de Dworkin a 
Gadamer. Mas o conceito de direito de Dworkin se aproxima 
sobremodo da hermenêutica. A coerência e a integridade têm 
relação com a tradição e a autoridade da tradição propostas 
por Gadamer. 
Para além disso, veja-se: uma leitura apressada de 
Dworkin – e isso também ocorre com quem lê Gadamer 
como um filólogo, fato que ocorre não raras vezes no Direito 
– dá a falsa impressão de que Hércules, o juiz ideal tal como 
postulado em O Império do Direito, representa o portador de 
uma “subjetividade assujeitadora”. 
Ora, como já referido, enquanto as múltiplas teorias 
que pretendem justificar o conhecimento buscam “superar” 
o sujeito do esquema sujeito-objeto, eliminando-o ou 
substituindo-o por estruturas comunicacionais, redes ou 
sistemas e, algumas de forma mais radical, até mesmo por 
7 STRECK, L. L.. Hermenêutica e Jurisdição: diálogos com Lenio Streck. 1. 
ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2017.
53
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
52
nenhuma das partes tem realmente direito a algo, devendo 
o Judiciário reconhecer esse direito por meio da melhor 
interpretação. O problema? O direito em questão será 
puramente dependente da interpretação que o juiz escolher. 
E isso não é democrático, porque desloca o polo de sentido do 
Direito em direção à discricionariedade judicial.
As semelhanças e diferenças entre a RAC da 
CHD e a tese de Dworkin
Para diferenciarmos minimamente as duas teses, há que 
se dizer que uma é feita para o common law e a outra para o civil 
law. A de Dworkin tem a hermenêutica filosófica implícita. A 
minha é explícita e agrega Dworkin. Há muitas parecenças 
entre Dworkin e Gadamer7. Veja: eu não estou dizendo – e 
nunca disse – que Dworkin é gadameriano. Sempre disse que 
há coisas em comum e existem algumas coisas que Dworkin 
buscou em Gadamer. Há apenas duas menções de Dworkin a 
Gadamer. Mas o conceito de direito de Dworkin se aproxima 
sobremodo da hermenêutica. A coerência e a integridade têm 
relação com a tradição e a autoridade da tradição propostas 
por Gadamer. 
Para além disso, veja-se: uma leitura apressada de 
Dworkin – e isso também ocorre com quem lê Gadamer 
como um filólogo, fato que ocorre não raras vezes no Direito 
– dá a falsa impressão de que Hércules, o juiz ideal tal como 
postulado em O Império do Direito, representa o portador de 
uma “subjetividade assujeitadora”. 
Ora, como já referido, enquanto as múltiplas teorias 
que pretendem justificar o conhecimento buscam “superar” 
o sujeito do esquema sujeito-objeto, eliminando-o ou 
substituindo-o por estruturas comunicacionais, redes ou 
sistemas e, algumas de forma mais radical, até mesmo por 
7 STRECK, L. L.. Hermenêutica e Jurisdição: diálogos com Lenio Streck. 1. 
ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2017.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
54 55
um pragmatismo fundado na Wille zur Macht (por todas, vale 
referir as teorias desconstrutivistas e o realismo dos Critical 
Legal Studies), Dworkin e Gadamer, cada um ao seu modo, 
cada um à sua maneira, procuram controlar esse subjetivismo 
e essa subjetividade solipsista a partir da tradição, do não-
relativismo, do círculo hermenêutico, da diferença ontológica, 
do respeito à integridade e da coerência do Direito, de maneira 
que, fundamentalmente, ambas as teorias são antimetafísicas, 
porque rejeitam, peremptoriamente, os diversos dualismos 
que a tradição (metafísica) nos legou desde Platão (a principal 
delas é a incindibilidade entre interpretação e aplicação, 
pregadas tanto por Dworkin como por Gadamer). 
Vejam o que diz Dworkin sobre seu modelo de juiz (o 
único desses constructos teóricos que me agrada!). Um cético 
teimoso poderia insistir que se trata de um mito, mas, como 
Dworkin adverte, sua obstinação e seu êxito valem como 
argumentos de que não se trata de um mito. Trata-se de uma 
força observável que coordena as práticas jurídicas. 
Assim, tentando oferecer umaque os deuses disseram. Que podemos nós, 
contemporâneos, compreender do modo como os gregos 
enxergavam a relação do homem com os sentidos? Primeiro, 
que existir e interpretar são duas faces de uma mesma moeda. 
Não há escapatória. O ser humano, enquanto ser no mundo, 
está condenado a interpretar. Como no mito de Sísifo, levamos 
a pedra todos os dias ao alto da montanha e a pedra rola de 
volta. No dia seguinte começa tudo de novo. A pedra não fica 
no alto porque não existe o significado final, perfeito, acabado. 
Não existe o “sentido último”. Jamais alcançaremos um sentido 
que contenha todas as respostas de antemão. Pelo contrário.
Portanto, retornemos, Hermes e Sísifo nos legaram 
lições importantes. Chamamos a esse fenômeno circular de 
hermenêutica. E é justamente a ausência, ou impossibilidade 
de acesso aos sentidos últimos que faz do homem Homem, 
e não Deus. Tivéssemos acesso direto ao sentido, Hermes 
teria sido desnecessário. Na medida em que não temos 
acesso direto às coisas e aos seus sentidos, temos de “nos 
contentar” com o que sobra. E o que sobra? Sobra aquilo que 
conseguimos desvelar. Por isso a palavra grega Aletheia quer 
dizer desvelamento (a-letheia, onde o “a” é a antítese de velar; 
logo, des-velar, descobrir, descortinar).
7
Por que estamos condenados a interpretar
A palavra “Hermenêutica” deriva de “Hermes”, figura 
mitológica grega cuja principal responsabilidade era transmitir 
aos mortais o que os deuses falavam. Ocorre que nunca se 
soube o que os deuses disseram: só se soube o que Hermes 
dissera acerca do que os deuses disseram. Que podemos nós, 
contemporâneos, compreender do modo como os gregos 
enxergavam a relação do homem com os sentidos? Primeiro, 
que existir e interpretar são duas faces de uma mesma moeda. 
Não há escapatória. O ser humano, enquanto ser no mundo, 
está condenado a interpretar. Como no mito de Sísifo, levamos 
a pedra todos os dias ao alto da montanha e a pedra rola de 
volta. No dia seguinte começa tudo de novo. A pedra não fica 
no alto porque não existe o significado final, perfeito, acabado. 
Não existe o “sentido último”. Jamais alcançaremos um sentido 
que contenha todas as respostas de antemão. Pelo contrário.
Portanto, retornemos, Hermes e Sísifo nos legaram 
lições importantes. Chamamos a esse fenômeno circular de 
hermenêutica. E é justamente a ausência, ou impossibilidade 
de acesso aos sentidos últimos que faz do homem Homem, 
e não Deus. Tivéssemos acesso direto ao sentido, Hermes 
teria sido desnecessário. Na medida em que não temos 
acesso direto às coisas e aos seus sentidos, temos de “nos 
contentar” com o que sobra. E o que sobra? Sobra aquilo que 
conseguimos desvelar. Por isso a palavra grega Aletheia quer 
dizer desvelamento (a-letheia, onde o “a” é a antítese de velar; 
logo, des-velar, descobrir, descortinar).
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
8 9
Ao nascer, o homem depara-se com um mundo já 
posto, desconhecido ainda a ele. Um lugar onde existem 
sentidos anteriores à sua própria existência. Os nomes já 
foram dados. Resta ao homem “correr atrás” para capturar 
os sentidos. Compreendê-los. Heidegger diz que o ato de 
interpretar é um roubo (Das Raub). Sim, apropriamo-nos dos 
sentidos que estão no mundo. George Steiner dirá que esse é 
um ato comparativo: hermenêutica é situar o objeto diante de 
nós em um contexto inteligível capaz de conferir-lhe sentido. 
Vejam a feliz semelhança no francês entre as palavras raison e 
comparaison. No paradigma hermenêutico-interpretativo, razão 
e comparação andam juntas. Esse(s) sentido(s) não está(ão) nem 
na essência das coisas e nem na nossa consciência ou mente. 
Assim, no Direito, podemos dizer que as palavras da lei não são 
unívocas. E que as palavras não refletem a essência das coisas. 
E ainda podemos dizer que as palavras não são propriedade 
do intérprete. Ele não pode fazer o que quiser com as palavras.
Portanto, não basta a palavra da lei. Ela precisa também 
das coisas a que se refere. Lei, apenas, não se iguala ao Di-
reito. Consequentemente, o texto da lei, sem facticidade, não 
contém a norma, como bem disse Friedrich Müller. Por isso, 
acrescento1, entre o texto da lei e a norma (o seu sentido) existe 
uma diferença, que eu chamei, a partir de Heidegger, de “dife-
rença ontológica”. Não há uma cisão entre aplicar e interpretar; 
porque, afinal, “interpretar” é (também) apreender, explicar, 
traduzir, comparar, aplicar, representar; interpretar pressupõe 
uma interação de significados, de possibilidades. Em todos os 
momentos, aplicamos a diferença. Quando olhamos para algo, 
essa coisa já nos aparece “enquanto algo”. Assim acontece na 
1 STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica e(m) crise. 11. ed. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2013.
interpretação/aplicação do Direito. Quando me refiro a uma 
lei, o seu sentido – que me é sempre antecipado pela pré-com-
preensão – já me proporciona o sentido, que me é possibilitado 
pela diferença ontológica. Não percebo um texto sem “coisa”. 
Não me deparo com conceitos sem coisas. Sustentar que 
há uma diferença (ontológica) entre texto e norma não significa 
que haja uma cisão estrutural entre ambos (o mesmo valendo 
para a dualidade vigência-validade). O que se quer dizer é que 
o texto não subsiste como texto (algo como “um conceito em 
abstrato”). Não há texto sem contexto, assim como não há texto 
jurídico isolado da norma que se atribui a esse texto. O texto já 
nos aparece com alguma norma, que é produto da atribuição 
de sentido do intérprete. O intérprete não é livre para atribuir 
qualquer sentido ao texto. Ele sempre estará inserido em uma 
determinada tradição, que sobre ele exerce constrangimento.
Tudo para mostrar que nem o “juiz boca da lei” (o exe-
geta) e nem o “juiz dono da lei” (aquele que decide como quer 
e disfarça seus dribles na lei) estão certos. Longe disso. Acredi-
tem: o sentido da lei só existe no seu contexto. O texto da lei só 
existe na sua norma; e a norma só existe a partir do seu texto.
Nesse contexto, o intérprete-juiz – inserido em uma 
tradição jurídica que, em uma democracia, impõe-lhe 
responsabilidade política – tem um papel de mediação; o 
papel de realizar o devido ajuste institucional. É uma questão 
de applicatio, que, no Direito, explico como a norma(tização) do 
texto jurídico. A Constituição é o resultado de sua interpretação. 
A língua fala, diria Heidegger; e a fonte ontológica é anterior 
ao homem-enquanto-homem; ao juiz-enquanto-juiz.
É impossível reproduzir sentidos. E é por isso que não se pode 
mais falar em Auslegung – extrair sentido –, e, sim, em Sinngebung 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
8 9
Ao nascer, o homem depara-se com um mundo já 
posto, desconhecido ainda a ele. Um lugar onde existem 
sentidos anteriores à sua própria existência. Os nomes já 
foram dados. Resta ao homem “correr atrás” para capturar 
os sentidos. Compreendê-los. Heidegger diz que o ato de 
interpretar é um roubo (Das Raub). Sim, apropriamo-nos dos 
sentidos que estão no mundo. George Steiner dirá que esse é 
um ato comparativo: hermenêutica é situar o objeto diante de 
nós em um contexto inteligível capaz de conferir-lhe sentido. 
Vejam a feliz semelhança no francês entre as palavras raison e 
comparaison. No paradigma hermenêutico-interpretativo, razão 
e comparação andam juntas. Esse(s) sentido(s) não está(ão) nem 
na essência das coisas e nem na nossa consciência ou mente. 
Assim, no Direito, podemos dizer que as palavras da lei não são 
unívocas. E que as palavras não refletem a essência das coisas. 
E ainda podemos dizer que as palavras não são propriedade 
do intérprete. Ele não pode fazer o que quiser com as palavras.
Portanto, não basta a palavra da lei. Ela precisa também 
das coisas a que se refere. Lei, apenas, não se iguala ao Di-
reito. Consequentemente, o texto da lei, sem facticidade, não 
contém a norma, como bem disse Friedrich Müller. Por isso, 
acrescento1, entre o texto da lei e a norma (o seu sentido)melhor explicação filosó-
fica para o fenômeno fenômeno jurídico, Dworkin demonstra 
como ele mobiliza a identificação das práticas jurídicas com 
sua leitura sob a melhor luz, atendendo na decisão a uma ade-
quação institucional e a uma melhor justificativa substantiva: 
“qualquer juiz obrigado a decidir uma demanda 
descobrirá, se olhar nos livros adequados, registros de 
muitos casos plausivelmente similares, decididos há 
décadas ou mesmo séculos por muitos outros juízes, 
de estilos e filosofias judiciais e políticas diferentes, em 
períodos nos quais o processo e as convenções judiciais 
eram diferentes. Ao decidir o novo caso, cada juiz deve 
considerar-se como um complexo empreendimento em 
cadeia, do qual essas inúmeras decisões, estruturas, 
convenções e práticas são a história; é seu trabalho 
continuar essa história no futuro por meio do que ele 
faz agora. Ele deve interpretar o que aconteceu antes 
porque tem a responsabilidade de levar adiante a 
incumbência que tem em mãos e não partir em alguma 
nova direção. Portanto, deve determinar, segundo seu 
próprio julgamento, o motivo das decisões anteriores, 
qual realmente é, tomando como um todo, o propósito 
ou o tema da prática até então”. 8
 Veja-se, então, o modo como Dworkin foge à 
determinação causal do Direito pelas práticas jurídicas 
convencionais, como foge também da sua “invenção” pelas 
preferências pessoais do juiz ou por metas políticas. Ter um 
direito deve ser algo diferente disso tudo, algo que não se 
legitima por um teste mecânico de pedigree, nem é uma espécie 
de “direito sem direitos” em que tudo é negociável a cada 
momento. Cada juiz se posiciona na história institucional, 
devendo interpretar o que aconteceu e dar-lhe continuidade 
da melhor maneira possível. 
Cada tomada de decisão deve se articular ao todo 
coerente do Direito, mantendo uma consistência com 
os princípios constitutivos da comunidade. Dworkin se 
compromete com decisões judiciais corretas por intermédio 
da da coerência e integridade normativas.
Em relação ao que eu digo, Dworkin coloca a questão da 
8 DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2005, 
p. 235.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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um pragmatismo fundado na Wille zur Macht (por todas, vale 
referir as teorias desconstrutivistas e o realismo dos Critical 
Legal Studies), Dworkin e Gadamer, cada um ao seu modo, 
cada um à sua maneira, procuram controlar esse subjetivismo 
e essa subjetividade solipsista a partir da tradição, do não-
relativismo, do círculo hermenêutico, da diferença ontológica, 
do respeito à integridade e da coerência do Direito, de maneira 
que, fundamentalmente, ambas as teorias são antimetafísicas, 
porque rejeitam, peremptoriamente, os diversos dualismos 
que a tradição (metafísica) nos legou desde Platão (a principal 
delas é a incindibilidade entre interpretação e aplicação, 
pregadas tanto por Dworkin como por Gadamer). 
Vejam o que diz Dworkin sobre seu modelo de juiz (o 
único desses constructos teóricos que me agrada!). Um cético 
teimoso poderia insistir que se trata de um mito, mas, como 
Dworkin adverte, sua obstinação e seu êxito valem como 
argumentos de que não se trata de um mito. Trata-se de uma 
força observável que coordena as práticas jurídicas. 
Assim, tentando oferecer uma melhor explicação filosó-
fica para o fenômeno fenômeno jurídico, Dworkin demonstra 
como ele mobiliza a identificação das práticas jurídicas com 
sua leitura sob a melhor luz, atendendo na decisão a uma ade-
quação institucional e a uma melhor justificativa substantiva: 
“qualquer juiz obrigado a decidir uma demanda 
descobrirá, se olhar nos livros adequados, registros de 
muitos casos plausivelmente similares, decididos há 
décadas ou mesmo séculos por muitos outros juízes, 
de estilos e filosofias judiciais e políticas diferentes, em 
períodos nos quais o processo e as convenções judiciais 
eram diferentes. Ao decidir o novo caso, cada juiz deve 
considerar-se como um complexo empreendimento em 
cadeia, do qual essas inúmeras decisões, estruturas, 
convenções e práticas são a história; é seu trabalho 
continuar essa história no futuro por meio do que ele 
faz agora. Ele deve interpretar o que aconteceu antes 
porque tem a responsabilidade de levar adiante a 
incumbência que tem em mãos e não partir em alguma 
nova direção. Portanto, deve determinar, segundo seu 
próprio julgamento, o motivo das decisões anteriores, 
qual realmente é, tomando como um todo, o propósito 
ou o tema da prática até então”. 8
 Veja-se, então, o modo como Dworkin foge à 
determinação causal do Direito pelas práticas jurídicas 
convencionais, como foge também da sua “invenção” pelas 
preferências pessoais do juiz ou por metas políticas. Ter um 
direito deve ser algo diferente disso tudo, algo que não se 
legitima por um teste mecânico de pedigree, nem é uma espécie 
de “direito sem direitos” em que tudo é negociável a cada 
momento. Cada juiz se posiciona na história institucional, 
devendo interpretar o que aconteceu e dar-lhe continuidade 
da melhor maneira possível. 
Cada tomada de decisão deve se articular ao todo 
coerente do Direito, mantendo uma consistência com 
os princípios constitutivos da comunidade. Dworkin se 
compromete com decisões judiciais corretas por intermédio 
da da coerência e integridade normativas.
Em relação ao que eu digo, Dworkin coloca a questão da 
8 DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2005, 
p. 235.
57
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
56
resposta correta como one right answer, traduzida por muitos 
como única resposta certa. Eu digo que o que devemos buscar 
é “a” resposta correta, nem a única, nem uma entre várias. A 
melhor interpretação. Eis, então, uma questão relevante: o 
papel da Constituição e sua força normativa. Dworkin não 
pensou em uma Constituição como a nossa. Por isso, por aqui 
é até mais fácil fazer a reconstrução da história institucional e 
fazer a parametricidade constitucional. 
O que fica, afinal, é isso: a partir de um modelo her-
menêutico (Crítica Hermenêutica do Direito) ou integrativo 
(dworkiniano), sentenças e acórdãos são atos de decisão e 
não de escolha. São atos de poder em nome do Estado. Esse 
é o ponto.
O estado da arte do Direito e da crítica do 
Direito
A crítica à dogmática jurídica já vem sendo feita de há 
muito. A dogmática jurídica confunde-se com o senso comum 
teórico dos juristas. É um mix de diversas teses, posturas, 
ideologias, etc. Vou me fixar, aqui, no plano da crítica que 
também não conseguiu superar as armadilhas da dogmática 
jurídica, que somente podem ser ultrapassadas por intermédio 
de uma crítica que leve em conta os paradigmas filosóficos.
Como algumas correntes críticas percebem o Direi-
to? Tudo se resume à decisão ou a doutrina – no sentido 
de “doutrina que deve doutrinar” – tem alguma “chance”? 
Venho trabalhando há anos em uma Teoria da Decisão. Sei 
que esse assunto desagrada parcela considerável de juristas. 
Alguns, por ignorância (no sentido de ignorare, portanto, 
sem ofensa), não se dão conta de que o problema do prota-
gonismo judicial (vitaminado por discricionariedades, livre 
convencimento, etc) é um problema d(à) própria democra-
cia; outros se dispersam no entremeio de diversas posturas, 
algumas críticas (sem, no entanto, enfrentar o problema da 
decisão) e outras reprodutoras de velhas fórmulas, com a 
aposição de ornamentos discursivos como ponderação, teo-
ria de precedentes, etc., podendo ser subdivididos em gru-
pos (sempre com o risco de fazer algum reducionismo ou 
até mesmo supervalorizações).
De minha parte, a partir da CHD, permito-me insistir 
57
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
56
resposta correta como one right answer, traduzida por muitos 
como única resposta certa. Eu digo que o que devemos buscar 
é “a” resposta correta, nem a única, nem uma entre várias. A 
melhor interpretação. Eis, então, uma questão relevante: o 
papel da Constituição e sua forçanormativa. Dworkin não 
pensou em uma Constituição como a nossa. Por isso, por aqui 
é até mais fácil fazer a reconstrução da história institucional e 
fazer a parametricidade constitucional. 
O que fica, afinal, é isso: a partir de um modelo her-
menêutico (Crítica Hermenêutica do Direito) ou integrativo 
(dworkiniano), sentenças e acórdãos são atos de decisão e 
não de escolha. São atos de poder em nome do Estado. Esse 
é o ponto.
O estado da arte do Direito e da crítica do 
Direito
A crítica à dogmática jurídica já vem sendo feita de há 
muito. A dogmática jurídica confunde-se com o senso comum 
teórico dos juristas. É um mix de diversas teses, posturas, 
ideologias, etc. Vou me fixar, aqui, no plano da crítica que 
também não conseguiu superar as armadilhas da dogmática 
jurídica, que somente podem ser ultrapassadas por intermédio 
de uma crítica que leve em conta os paradigmas filosóficos.
Como algumas correntes críticas percebem o Direi-
to? Tudo se resume à decisão ou a doutrina – no sentido 
de “doutrina que deve doutrinar” – tem alguma “chance”? 
Venho trabalhando há anos em uma Teoria da Decisão. Sei 
que esse assunto desagrada parcela considerável de juristas. 
Alguns, por ignorância (no sentido de ignorare, portanto, 
sem ofensa), não se dão conta de que o problema do prota-
gonismo judicial (vitaminado por discricionariedades, livre 
convencimento, etc) é um problema d(à) própria democra-
cia; outros se dispersam no entremeio de diversas posturas, 
algumas críticas (sem, no entanto, enfrentar o problema da 
decisão) e outras reprodutoras de velhas fórmulas, com a 
aposição de ornamentos discursivos como ponderação, teo-
ria de precedentes, etc., podendo ser subdivididos em gru-
pos (sempre com o risco de fazer algum reducionismo ou 
até mesmo supervalorizações).
De minha parte, a partir da CHD, permito-me insistir 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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na tese de que hermenêutica quer dizer responsabilidade e 
compromisso com a Constituição. Portanto, textos jurídicos 
(leis) são mais importantes que o “sentimento pessoal” do 
intérprete. Princípios não são valores; juiz não tem poder de 
livre convencimento; moral não corrige o Direito; é o Direito 
que corrige a moral; princípios não podem ser inventados; 
direito não pode se resumir à construção de estratégias; há 
algo a mais na Teoria do Direito do que discutir argumentação 
jurídica.
Em síntese, do modo como diversos juristas deslocam o 
polo de tensão do Direito em direção ao juiz, cabe a pergunta: 
por que ainda existem pesquisas no e sobre o Direito, se tudo 
se transformou em “relações de poder”?
Poderíamos, na visão de parcela dos (próprios) juristas, 
transformar os cursos de direito em cursos de economia 
política, relações de poder, gestão, estratégia, etc. O problema 
é que, ao fazerem isso, correm o risco de se transformarem em 
profetas do passado, como se o tempo fosse uma sucessão de 
“agoras”.
É certo que não podemos desconsiderar a práxis. Afinal, 
o Direito não é “um aglomerado de conceitos sem coisas”. 
Também é certo que a falta de pesquisas empíricas tende a 
gerar uma doutrina vazia, puramente especulativa.
Mas o outro extremo, a “empiricização”, pode levar a 
um direito cego, sem imaginação institucional, sem horizonte. 
Uma pessoa sem horizontes é aquela que não consegue ver 
nada além das coisas imediatas. Ela diz: “é assim mesmo”.
A CHD que fundei é uma das matrizes jurídicas que 
tenta acabar com esse abismo entre teoria (vazia) e prática 
(cega). A Teoria não nasce do céu dos conceitos, desenhada 
numa prancheta, pois é desde sempre mergulhada no mundo 
prático. Só que a prática também não existe “em si”, mas 
articulada num universo interpretativo.
Sendo assim, a Teoria também importa! Precisamos 
dela para organizar os sentidos, para projetar um horizonte. 
Para resumir de um modo simples: a ambição descritiva não 
pode sufocar a prescritiva. Fundamentalmente, devemos 
evitar que a decisão seja dada por ideologia, subjetividade 
ou por interesses pessoais (espaço em que entra o sujeito 
solipsista mais especificamente — sim, aquele “sujeito-viciado-
em-si-mesmo” e que continua infernizando o que resta da 
modernidade).
Mas tranquilizemo-nos: o juiz não é uma figura 
inerte, neutra. Se permitir que juízes decidam conforme sua 
consciência é um ataque a democracia, proibir os juízes do 
ato de interpretar, como alguns, equivocadamente, vivem 
apregoando, é, além de impossível, equivalente a sufocar a 
própria democracia, esquecer, inclusive, a diferença ontológica 
entre lei-norma, na linha do que foi abordado anteriormente. 
Veja-se que nem os positivistas contemporâneos 
proíbem os juízes de interpretar (embora nas salas de aula pelo 
Brasil afora os professores ensinem que “positivismo é o juiz 
boca da lei” – isto que denominei anteriormente de “caricatura 
do positivismo”).
Portanto, não há dúvida de que pulsa um coração no 
peito dos juízes. Não é disso que trata a temática da teoria 
da decisão e da hermenêutica. Tenha-se claro que discutir 
teoria da decisão não tem absolutamente nada a ver com a 
repristinação do juiz boca da lei ou outras coisas rasas como 
essa. E não percamos mais tempo com essas aleivosias.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
58 59
na tese de que hermenêutica quer dizer responsabilidade e 
compromisso com a Constituição. Portanto, textos jurídicos 
(leis) são mais importantes que o “sentimento pessoal” do 
intérprete. Princípios não são valores; juiz não tem poder de 
livre convencimento; moral não corrige o Direito; é o Direito 
que corrige a moral; princípios não podem ser inventados; 
direito não pode se resumir à construção de estratégias; há 
algo a mais na Teoria do Direito do que discutir argumentação 
jurídica.
Em síntese, do modo como diversos juristas deslocam o 
polo de tensão do Direito em direção ao juiz, cabe a pergunta: 
por que ainda existem pesquisas no e sobre o Direito, se tudo 
se transformou em “relações de poder”?
Poderíamos, na visão de parcela dos (próprios) juristas, 
transformar os cursos de direito em cursos de economia 
política, relações de poder, gestão, estratégia, etc. O problema 
é que, ao fazerem isso, correm o risco de se transformarem em 
profetas do passado, como se o tempo fosse uma sucessão de 
“agoras”.
É certo que não podemos desconsiderar a práxis. Afinal, 
o Direito não é “um aglomerado de conceitos sem coisas”. 
Também é certo que a falta de pesquisas empíricas tende a 
gerar uma doutrina vazia, puramente especulativa.
Mas o outro extremo, a “empiricização”, pode levar a 
um direito cego, sem imaginação institucional, sem horizonte. 
Uma pessoa sem horizontes é aquela que não consegue ver 
nada além das coisas imediatas. Ela diz: “é assim mesmo”.
A CHD que fundei é uma das matrizes jurídicas que 
tenta acabar com esse abismo entre teoria (vazia) e prática 
(cega). A Teoria não nasce do céu dos conceitos, desenhada 
numa prancheta, pois é desde sempre mergulhada no mundo 
prático. Só que a prática também não existe “em si”, mas 
articulada num universo interpretativo.
Sendo assim, a Teoria também importa! Precisamos 
dela para organizar os sentidos, para projetar um horizonte. 
Para resumir de um modo simples: a ambição descritiva não 
pode sufocar a prescritiva. Fundamentalmente, devemos 
evitar que a decisão seja dada por ideologia, subjetividade 
ou por interesses pessoais (espaço em que entra o sujeito 
solipsista mais especificamente — sim, aquele “sujeito-viciado-
em-si-mesmo” e que continua infernizando o que resta da 
modernidade).
Mas tranquilizemo-nos: o juiz não é uma figura 
inerte, neutra. Se permitir que juízes decidam conforme sua 
consciência é um ataque a democracia, proibir os juízes do 
ato de interpretar, como alguns, equivocadamente, vivem 
apregoando, é, além de impossível, equivalente a sufocar a 
própria democracia, esquecer, inclusive, a diferença ontológica 
entre lei-norma, na linha do que foi abordado anteriormente. 
Veja-se que nemos positivistas contemporâneos 
proíbem os juízes de interpretar (embora nas salas de aula pelo 
Brasil afora os professores ensinem que “positivismo é o juiz 
boca da lei” – isto que denominei anteriormente de “caricatura 
do positivismo”).
Portanto, não há dúvida de que pulsa um coração no 
peito dos juízes. Não é disso que trata a temática da teoria 
da decisão e da hermenêutica. Tenha-se claro que discutir 
teoria da decisão não tem absolutamente nada a ver com a 
repristinação do juiz boca da lei ou outras coisas rasas como 
essa. E não percamos mais tempo com essas aleivosias.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
60 61
Como sofro de LEER (Lesão por Esforço Epistêmico 
Repetitivo), digo: se o Direito tem um grau de autonomia e 
se temos uma Constituição normativa — portanto, ela é lei 
— então temos que construir as condições epistêmicas para 
que uma decisão não seja fruto de opiniões pessoais ou de 
influências políticas, econômicas ou da mídia.
Trata-se de discutir a democracia. Não creio que 
Habermas, Dworkin, Hart, entre tantos outros, tenham 
escrito inutilmente sobre o Direito e mereçam o desprezo de 
um certo imaginário refém do senso comum teórico ou até 
mesmo caudatário de teorias críticas “espertas”, que trazem a 
novidade tipo “direito é poder; direito é superestrutura; direito 
é valor”. Dou o meu irônico parabéns pela descoberta de que o 
Direito não é neutro e que é composto de elementos políticos, 
econômicos, sociológicos e morais.
Tudo o que escrevo é para mostrar que é possível fazer 
a coisa certa no Direito. Se quisermos brincar com a filosofia 
moral exercitada por autores como Michael Sandel, que 
pergunta acerca de como se pode fazer a coisa certa, podemos 
afirmar que, sim, é possível colocar a moral pública acima da 
moral privada. Aliás, Wittgenstein já dissera de há muito que 
não há linguagem privada. Ou seja: minha opinião privada não 
pode tiranizar ou pautar a esfera pública, mormente se eu for 
um agente do Estado com responsabilidade política.
Mas qual é a origem disso tudo? Esse é o ponto. É 
preciso identificar o paciente zero. O ovo da serpente.
Vamos tomar um exemplo da medicina. Numa epide-
mia, você busca o paciente zero. Ao fazer o diagnóstico do 
estado do Direito hoje, o equivalente ao paciente zero são as 
faculdades de Direito. Ministros, juízes, promotores, rábulas, 
advogados, estagiários, bacharéis dos mais variados (tem 
cerca de um milhão e meio no Brasil), todos eles vieram de 
um lugar comum: a faculdade. 
Qual é o problema? As faculdades vão mal. O ensino 
jurídico vai muito mal porque ele não ensina direito o Direito. 
Parece paradoxal isso. O que ele ensina é uma duvidosa teoria 
política do poder. Não se discute o Direito mas como ele deve 
ou deveria ser na opinião pessoal do professor. Além disso se 
descrevem simplesmente decisões dos tribunais, ficando numa 
espécie de glosa. Neste sentido, o Direito ajudou a produzir 
essa onda reacionária. 
Há duas frases fortes que tenho utilizado. Uma é “Se 
os juristas fossem médicos, eles fariam passeatas contra 
antibióticos e vacinas”. A segunda: “Defender o Direito e a 
legalidade hoje é uma atitude revolucionária”. 
Ministrar aulas de Direito Constitucional de forma 
ortodoxa é quase ser subversivo. Nós temos que voltar ao 
paciente zero. Mas vai demorar.
Porque tudo isso está interligado: é o Direito que filtra 
a política, e não o contrário. Logo, se estamos em uma crise 
política desde sempre (o discurso não é sempre esse?), muito 
disso é porque o Direito vai mal. E se o Direito vai mal é porque 
não se ensina Direito... direito.
Como dizia a Rainha Vermelha, de Alice no País das 
Maravilhas, é preciso correr muito para ficar no mesmo 
lugar. Com efeito, como tudo no Brasil chega tardiamente, 
sobrevinda a Constituição, em um primeiro momento foi 
necessário desmi(s)tificar as posturas formalistas ainda 
sustentadas no positivismo clássico, o tradicional juiz boca 
da lei. Só que isso não estava claro no âmbito da dogmática 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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Como sofro de LEER (Lesão por Esforço Epistêmico 
Repetitivo), digo: se o Direito tem um grau de autonomia e 
se temos uma Constituição normativa — portanto, ela é lei 
— então temos que construir as condições epistêmicas para 
que uma decisão não seja fruto de opiniões pessoais ou de 
influências políticas, econômicas ou da mídia.
Trata-se de discutir a democracia. Não creio que 
Habermas, Dworkin, Hart, entre tantos outros, tenham 
escrito inutilmente sobre o Direito e mereçam o desprezo de 
um certo imaginário refém do senso comum teórico ou até 
mesmo caudatário de teorias críticas “espertas”, que trazem a 
novidade tipo “direito é poder; direito é superestrutura; direito 
é valor”. Dou o meu irônico parabéns pela descoberta de que o 
Direito não é neutro e que é composto de elementos políticos, 
econômicos, sociológicos e morais.
Tudo o que escrevo é para mostrar que é possível fazer 
a coisa certa no Direito. Se quisermos brincar com a filosofia 
moral exercitada por autores como Michael Sandel, que 
pergunta acerca de como se pode fazer a coisa certa, podemos 
afirmar que, sim, é possível colocar a moral pública acima da 
moral privada. Aliás, Wittgenstein já dissera de há muito que 
não há linguagem privada. Ou seja: minha opinião privada não 
pode tiranizar ou pautar a esfera pública, mormente se eu for 
um agente do Estado com responsabilidade política.
Mas qual é a origem disso tudo? Esse é o ponto. É 
preciso identificar o paciente zero. O ovo da serpente.
Vamos tomar um exemplo da medicina. Numa epide-
mia, você busca o paciente zero. Ao fazer o diagnóstico do 
estado do Direito hoje, o equivalente ao paciente zero são as 
faculdades de Direito. Ministros, juízes, promotores, rábulas, 
advogados, estagiários, bacharéis dos mais variados (tem 
cerca de um milhão e meio no Brasil), todos eles vieram de 
um lugar comum: a faculdade. 
Qual é o problema? As faculdades vão mal. O ensino 
jurídico vai muito mal porque ele não ensina direito o Direito. 
Parece paradoxal isso. O que ele ensina é uma duvidosa teoria 
política do poder. Não se discute o Direito mas como ele deve 
ou deveria ser na opinião pessoal do professor. Além disso se 
descrevem simplesmente decisões dos tribunais, ficando numa 
espécie de glosa. Neste sentido, o Direito ajudou a produzir 
essa onda reacionária. 
Há duas frases fortes que tenho utilizado. Uma é “Se 
os juristas fossem médicos, eles fariam passeatas contra 
antibióticos e vacinas”. A segunda: “Defender o Direito e a 
legalidade hoje é uma atitude revolucionária”. 
Ministrar aulas de Direito Constitucional de forma 
ortodoxa é quase ser subversivo. Nós temos que voltar ao 
paciente zero. Mas vai demorar.
Porque tudo isso está interligado: é o Direito que filtra 
a política, e não o contrário. Logo, se estamos em uma crise 
política desde sempre (o discurso não é sempre esse?), muito 
disso é porque o Direito vai mal. E se o Direito vai mal é porque 
não se ensina Direito... direito.
Como dizia a Rainha Vermelha, de Alice no País das 
Maravilhas, é preciso correr muito para ficar no mesmo 
lugar. Com efeito, como tudo no Brasil chega tardiamente, 
sobrevinda a Constituição, em um primeiro momento foi 
necessário desmi(s)tificar as posturas formalistas ainda 
sustentadas no positivismo clássico, o tradicional juiz boca 
da lei. Só que isso não estava claro no âmbito da dogmática 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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jurídica. Aliás, até hoje, nas salas de aula, em parcela da 
doutrina e nas práticas jurisprudenciais, ainda se pensa que 
positivismo é igual a juiz boca da lei. Esquecem-se de que o 
próprio Kelsen foi um positivista pós-exegético, olvidam o que 
foi produzido pelos positivistas pós-hartianos, que apontaram 
suas baterias para longe do velho exegetismo — isto porque 
o positivismo da era pós-Hart já não obriga(va) os juízes. Só 
que os juristas brasileiros (e falo apenas destes paranão criar 
incidentes internacionais) não se deram conta deste “pequeno” 
detalhe, porque continua(ra)m a pensar que positivismo é(ra) 
cumprir a letra da lei. 
Talvez por causa desses detalhes nebulosos é que, 
em um segundo momento, parte da doutrina se enebriou 
com certas teorias argumentativas e com uma vulgata da 
ponderação — essa de que falei há pouco, que provocou um 
verdadeiro estado de natureza interpretativo —, tornando 
necessário, então, que os juristas críticos começássemos a 
elaborar críticas aos diversos voluntarismos. 
Dito de outro modo, a crítica do Direito não poderia 
ser uma crítica fora de ordem. Tão grave é essa questão 
que, passados mais de 30 anos da Constituição, ainda há 
forte resistência à tese de que os juízes não possuem livre 
convencimento. 
E o protagonismo judicial foi se tornando cada dia 
mais intenso. As fragilidades do presidencialismo de coalizão 
(Sérgio Abranches) foram ajudando a tornar o judiciário cada 
vez mais proativo, passando a ditar “políticas” ad hoc, sem 
a devida preocupação com os requisitos da judicialização, 
dentro da diferença entre essa e o ativismo – a primeira, 
contingencial e necessária num país de modernidade tardia; 
o segundo, sempre deletério, porque antidemocrático. Para 
a diferença, remeto às três perguntas da minha teoria da 
decisão que explano também aqui neste livro.
Inserido em um habitus dogmaticus, o jurista não se 
dá conta das contradições do sistema jurídico. Estas não 
“aparecem” aos olhos do jurista, uma vez que há um processo 
de justificação/fundamentação da “coerência” do seu próprio 
discurso. 
Por isso, esse processo de justificação não 
prescinde, para sua elucidação, do entendimento acerca do 
funcionamento da ideologia. Em outras palavras, ainda é 
necessário estudar o (velho) conceito de ideologia, que parece 
ter sido esquecido nas salas de aula das tantas faculdades de 
Direito existentes pelo país afora. 
Ideologia, sempre brinco, é pedir segunda opinião 
quando alguém diz que está chovendo. E o Direito no Brasil 
é ideológico no pior dos sentidos. Porque é ensinado como 
teoria política do poder, assentada em má metafísica. 
Só que é ainda mais grave: o que ocorre é que não 
queremos nem admitir que ideologizamos — para usar uma 
palavra suave — a aplicação da lei no país. 
Daí a pergunta que deve ser respondida: o Direito, ao 
fim e ao cabo, é o que dele se diz por aí ou, melhor, ele é o que 
o Judiciário diz que ele é? 
Mas se isso é assim, se já se “naturalizou” essa concepção, 
por que continuamos a estudar ou escrever sobre o Direito? 
Não seria melhor deixar que “quem decide é quem sabe”?
Nestes (mais de) 30 anos da Constituição, ainda há um 
déficit considerável acerca do verdadeiro papel do Estado. As 
faculdades de Direito colaboraram enormemente para que o 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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jurídica. Aliás, até hoje, nas salas de aula, em parcela da 
doutrina e nas práticas jurisprudenciais, ainda se pensa que 
positivismo é igual a juiz boca da lei. Esquecem-se de que o 
próprio Kelsen foi um positivista pós-exegético, olvidam o que 
foi produzido pelos positivistas pós-hartianos, que apontaram 
suas baterias para longe do velho exegetismo — isto porque 
o positivismo da era pós-Hart já não obriga(va) os juízes. Só 
que os juristas brasileiros (e falo apenas destes para não criar 
incidentes internacionais) não se deram conta deste “pequeno” 
detalhe, porque continua(ra)m a pensar que positivismo é(ra) 
cumprir a letra da lei. 
Talvez por causa desses detalhes nebulosos é que, 
em um segundo momento, parte da doutrina se enebriou 
com certas teorias argumentativas e com uma vulgata da 
ponderação — essa de que falei há pouco, que provocou um 
verdadeiro estado de natureza interpretativo —, tornando 
necessário, então, que os juristas críticos começássemos a 
elaborar críticas aos diversos voluntarismos. 
Dito de outro modo, a crítica do Direito não poderia 
ser uma crítica fora de ordem. Tão grave é essa questão 
que, passados mais de 30 anos da Constituição, ainda há 
forte resistência à tese de que os juízes não possuem livre 
convencimento. 
E o protagonismo judicial foi se tornando cada dia 
mais intenso. As fragilidades do presidencialismo de coalizão 
(Sérgio Abranches) foram ajudando a tornar o judiciário cada 
vez mais proativo, passando a ditar “políticas” ad hoc, sem 
a devida preocupação com os requisitos da judicialização, 
dentro da diferença entre essa e o ativismo – a primeira, 
contingencial e necessária num país de modernidade tardia; 
o segundo, sempre deletério, porque antidemocrático. Para 
a diferença, remeto às três perguntas da minha teoria da 
decisão que explano também aqui neste livro.
Inserido em um habitus dogmaticus, o jurista não se 
dá conta das contradições do sistema jurídico. Estas não 
“aparecem” aos olhos do jurista, uma vez que há um processo 
de justificação/fundamentação da “coerência” do seu próprio 
discurso. 
Por isso, esse processo de justificação não 
prescinde, para sua elucidação, do entendimento acerca do 
funcionamento da ideologia. Em outras palavras, ainda é 
necessário estudar o (velho) conceito de ideologia, que parece 
ter sido esquecido nas salas de aula das tantas faculdades de 
Direito existentes pelo país afora. 
Ideologia, sempre brinco, é pedir segunda opinião 
quando alguém diz que está chovendo. E o Direito no Brasil 
é ideológico no pior dos sentidos. Porque é ensinado como 
teoria política do poder, assentada em má metafísica. 
Só que é ainda mais grave: o que ocorre é que não 
queremos nem admitir que ideologizamos — para usar uma 
palavra suave — a aplicação da lei no país. 
Daí a pergunta que deve ser respondida: o Direito, ao 
fim e ao cabo, é o que dele se diz por aí ou, melhor, ele é o que 
o Judiciário diz que ele é? 
Mas se isso é assim, se já se “naturalizou” essa concepção, 
por que continuamos a estudar ou escrever sobre o Direito? 
Não seria melhor deixar que “quem decide é quem sabe”?
Nestes (mais de) 30 anos da Constituição, ainda há um 
déficit considerável acerca do verdadeiro papel do Estado. As 
faculdades de Direito colaboraram enormemente para que o 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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ensino do Direito viesse a ser substituído por péssimas teorias 
políticas do poder. 
Resultado: na hora em que precisamos de resistência 
constitucional, o debate é tomado por posições ideológicas, 
em que soçobra(ra)m as garantias constitucionais, mormente 
no âmbito do processo penal. Com efeito, além de invocações 
de argumentos morais, políticos e econômicos, parcela 
considerável dos tribunais ainda inverte o ônus da prova nas 
ações penais; sequer conseguimos implementar o artigo 212 
do CPP, por uma equivocada compreensão acerca do sentido 
do que seja um sistema acusatório.
A teoria do Direito, inserida em um senso comum 
teórico (sempre homenageando o mestre Luis Alberto Warat) 
insiste em abstrações. Insiste em desexistencializar o Direito, 
um fenômeno que só se dá em sua facticidade. Talvez o 
problema, em um país como o Brasil, seja, efetivamente, o 
excesso de realidade...!
A cultura calcada em manuais, muitos de duvidosa 
cientificidade, ainda predomina na maioria das faculdades 
de Direito. Forma-se, assim, um imaginário que simplifica 
o ensino jurídico, torna o ensino algo “técnico”, a partir da 
construção de standards e lugares comuns, repetidos nas 
salas de aula e, posteriormente, nos cursos de preparação 
para concursos (hoje já existem cursinhos de preparação para 
ingresso nos cursinhos!), bem como nos fóruns e Tribunais. 
Os próprios exemplos utilizados em sala de aula ou 
em determinadas obras jurídicas estão desconectados do 
que acontece no cotidiano da sociedade. Isto decorre de uma 
cultura estandardizada, no interior da qual a dogmática 
jurídica trabalha com prêt-à-porters significativos. Há uma 
proliferação de manuais, que procuram “explicar” o direito a 
partir de verbetes jurisprudenciais ahistóricose atemporais 
(portanto, metafísicos). De novo: realidade demais... A 
dogmática é cronofóbica e factumfóbica. 
Essa cultura, então, alicerça-se em casuísmos didáticos. 
O positivismo, de que tanto já falei, ainda é a regra, calcado, 
de um lado, em um objetivismo que não diferencia texto e 
norma e, de outro, em um subjetivismo que ignora os limites 
semânticos do texto jurídico.
Leitor: desconfie tanto do professor que diz que a lei 
contém um sentido em si mesmo como daquele que, pensando 
ser crítico, diz para os alunos: “a lei não importa muito, pois 
ela é apenas a ponta do iceberg...” – os dois são positivistas. A 
única dúvida é saber qual é mais positivista! 
A doutrina que sustenta o saber jurídico resume-se a 
um conjunto de comentários resumidos de ementários de 
jurisprudência, desacompanhados dos respectivos contextos. 
Cada vez mais, a doutrina doutrina menos; isto é, a doutrina 
não mais doutrina – é, sim, doutrinada pelos tribunais! É nisso 
que se baseia o casuísmo didático: a partir da construção de 
“categorias”, produzem-se raciocínios “dedutivos”, como se a 
realidade pudesse ser aprisionada no paraíso dos conceitos do 
pragmatismo positivista dominante.
A dogmática jurídica trabalhada nas salas de aula (e 
reproduzida em boa parte dos manuais) considera o Direito 
como sendo uma mera racionalidade instrumental. Em termos 
metodológicos, predomina esse “dedutivismo” [sic]. Nesse 
contexto, o próprio ensino jurídico é encarado como uma 
terceira coisa, no interior da qual o professor é nada mais que 
um outsider do sistema.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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ensino do Direito viesse a ser substituído por péssimas teorias 
políticas do poder. 
Resultado: na hora em que precisamos de resistência 
constitucional, o debate é tomado por posições ideológicas, 
em que soçobra(ra)m as garantias constitucionais, mormente 
no âmbito do processo penal. Com efeito, além de invocações 
de argumentos morais, políticos e econômicos, parcela 
considerável dos tribunais ainda inverte o ônus da prova nas 
ações penais; sequer conseguimos implementar o artigo 212 
do CPP, por uma equivocada compreensão acerca do sentido 
do que seja um sistema acusatório.
A teoria do Direito, inserida em um senso comum 
teórico (sempre homenageando o mestre Luis Alberto Warat) 
insiste em abstrações. Insiste em desexistencializar o Direito, 
um fenômeno que só se dá em sua facticidade. Talvez o 
problema, em um país como o Brasil, seja, efetivamente, o 
excesso de realidade...!
A cultura calcada em manuais, muitos de duvidosa 
cientificidade, ainda predomina na maioria das faculdades 
de Direito. Forma-se, assim, um imaginário que simplifica 
o ensino jurídico, torna o ensino algo “técnico”, a partir da 
construção de standards e lugares comuns, repetidos nas 
salas de aula e, posteriormente, nos cursos de preparação 
para concursos (hoje já existem cursinhos de preparação para 
ingresso nos cursinhos!), bem como nos fóruns e Tribunais. 
Os próprios exemplos utilizados em sala de aula ou 
em determinadas obras jurídicas estão desconectados do 
que acontece no cotidiano da sociedade. Isto decorre de uma 
cultura estandardizada, no interior da qual a dogmática 
jurídica trabalha com prêt-à-porters significativos. Há uma 
proliferação de manuais, que procuram “explicar” o direito a 
partir de verbetes jurisprudenciais ahistóricos e atemporais 
(portanto, metafísicos). De novo: realidade demais... A 
dogmática é cronofóbica e factumfóbica. 
Essa cultura, então, alicerça-se em casuísmos didáticos. 
O positivismo, de que tanto já falei, ainda é a regra, calcado, 
de um lado, em um objetivismo que não diferencia texto e 
norma e, de outro, em um subjetivismo que ignora os limites 
semânticos do texto jurídico.
Leitor: desconfie tanto do professor que diz que a lei 
contém um sentido em si mesmo como daquele que, pensando 
ser crítico, diz para os alunos: “a lei não importa muito, pois 
ela é apenas a ponta do iceberg...” – os dois são positivistas. A 
única dúvida é saber qual é mais positivista! 
A doutrina que sustenta o saber jurídico resume-se a 
um conjunto de comentários resumidos de ementários de 
jurisprudência, desacompanhados dos respectivos contextos. 
Cada vez mais, a doutrina doutrina menos; isto é, a doutrina 
não mais doutrina – é, sim, doutrinada pelos tribunais! É nisso 
que se baseia o casuísmo didático: a partir da construção de 
“categorias”, produzem-se raciocínios “dedutivos”, como se a 
realidade pudesse ser aprisionada no paraíso dos conceitos do 
pragmatismo positivista dominante.
A dogmática jurídica trabalhada nas salas de aula (e 
reproduzida em boa parte dos manuais) considera o Direito 
como sendo uma mera racionalidade instrumental. Em termos 
metodológicos, predomina esse “dedutivismo” [sic]. Nesse 
contexto, o próprio ensino jurídico é encarado como uma 
terceira coisa, no interior da qual o professor é nada mais que 
um outsider do sistema.
67
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
66
Repito: o professor é nada mais que um outsider do 
sistema. Foi pensando nisso que, tal como se fez por aí na 
doutrina (Dworkin, Sunstein, Ost) com os modelos de juiz, 
eu imaginei os modelos de professor. Para entender de onde 
surgiu a epidemia que assola a área jurídica.
De como Kelsen não defendia que se aplicasse 
“a letra da lei”
 Falei de como positivismo nada tem a ver com aplicar 
“a letra” da lei. E, mais adiante, falarei sobre os modelos de 
professor. Obrigatório, então, desmi(s)tificar a vulgata de 
Kelsen, tão repristinada pelas Faculdades de Direito que não 
ensinam Direito direito. Serei muito direto. 
A ideia de que Kelsen defendia que os juízes deviam 
aplicar a lei é tão difundida quanto equivocada. Kelsen não 
separou Direito e moral; Kelsen jamais preconizou uma aplicação 
legalista do Direito. 
Dizer o contrário é mal compreender o título da obra 
mais lida de Kelsen quando o assunto é este: Teoria Pura do 
Direito. É a teoria que é pura, não o Direito; como (muito) bem 
dizia o saudoso Luis Alberto Warat, que compreendeu Kelsen 
como poucos, a pureza está no olhar, e não no objeto olhado. 
Como bem ressalta Leonel Severo Rocha, que, com Warat, 
sabe dizer que, em Kelsen, “[o] Direito é a linguagem-objeto, a 
ciência do Direito é a metalinguagem: dois planos distintos e 
incomunicáveis” 9. 
Ou seja: em Kelsen, há uma cisão, não entre Direito e 
Moral, mas pelo contrário, há uma cisão entre Direito e Ciência 
do Direito. Para Kelsen, o Direito, linguagem objeto, deve ser 
9 DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 
2005, p. 235.
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Repito: o professor é nada mais que um outsider do 
sistema. Foi pensando nisso que, tal como se fez por aí na 
doutrina (Dworkin, Sunstein, Ost) com os modelos de juiz, 
eu imaginei os modelos de professor. Para entender de onde 
surgiu a epidemia que assola a área jurídica.
De como Kelsen não defendia que se aplicasse 
“a letra da lei”
 Falei de como positivismo nada tem a ver com aplicar 
“a letra” da lei. E, mais adiante, falarei sobre os modelos de 
professor. Obrigatório, então, desmi(s)tificar a vulgata de 
Kelsen, tão repristinada pelas Faculdades de Direito que não 
ensinam Direito direito. Serei muito direto. 
A ideia de que Kelsen defendia que os juízes deviam 
aplicar a lei é tão difundida quanto equivocada. Kelsen não 
separou Direito e moral; Kelsen jamais preconizou uma aplicação 
legalista do Direito. 
Dizer o contrário é mal compreender o título da obra 
mais lida de Kelsen quando o assunto é este: Teoria Pura do 
Direito. É a teoria que é pura, não o Direito; como (muito) bem 
dizia o saudoso Luis Alberto Warat, que compreendeu Kelsen 
como poucos, a pureza está no olhar, e não no objeto olhado. 
Como bem ressalta Leonel Severo Rocha, que, com Warat, 
sabe dizer que, em Kelsen, “[o] Direito é a linguagem-objeto, a 
ciência do Direito é a metalinguagem: dois planos distintos e 
incomunicáveis” 9. 
Ou seja: em Kelsen,há uma cisão, não entre Direito e 
Moral, mas pelo contrário, há uma cisão entre Direito e Ciência 
do Direito. Para Kelsen, o Direito, linguagem objeto, deve ser 
9 DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 
2005, p. 235.
69
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
68
descrito pela Ciência do Direito, metalinguagem. No primeiro, 
as normas, que exsurgem de um ato de vontade (do legislador 
na elaboração das leis, do juiz na interpretação e na sentença), 
carregam, em si, um espaço de mobilidade sob o qual se 
movimenta o intérprete, em razão dos problemas semânticos 
que se verificam na aplicação de um signo linguístico. 
Agora, no segundo, a interpretação é ato de 
conhecimento: na descrição do Direito, em metalinguagem, 
a Ciência do Direito produz proposições inter-relacionáveis, 
de maneira lógico-formal. Daí fica muito claro que Kelsen não 
só nunca separou Direito e moral como, inclusive, entendia 
completamente o contrário; em Kelsen, o Direito é política 
jurídica, envolve moral, subjetivismos. Isso é muito claro. 
Kelsen teve seu célebre debate constitucional com Carl 
Schmitt no ano de 1933; em 1934 escreve Teoria Pura do Direito. 
No conhecido Capítulo VIII, Kelsen desenvolve pela primeira 
vez a questão da interpretação, onde prevê que a norma — que 
é sempre o sentido objetivo de um ato de vontade — opera 
sempre de uma determinada “moldura”, metáfora esta que 
representa bem a ideia de limites semânticos do texto. Na 
segunda versão de Teoria Pura do Direito, porém, lançada em 
1960, Kelsen abandona a ideia de moldura, determinando que a 
norma pode ser produzida ainda que “se situe completamente 
fora da moldura”. Com isso, fica claro que até mesmo Kelsen 
abandona a ideia de que os limites semânticos do texto servem 
para impor uma limitação nos tribunais.
Do precedentalismo brasileiro; dos enunciados, 
dos conceitos sem coisa, da tópica sem tópica
Com o advento do Código de Processo Civil de 2015, 
parte da doutrina brasileira passou a falar sobre uma suposta 
criação de um “sistema brasileiro de precedentes”, ou “sistema 
de criação de teses judiciais”, chegando a se falar até de sta-
re decisis como coroamento de um common law à brasileira.10 
Querem transformar o nosso direito em um “sistema” de pre-
cedentes e teses. 
O Ministro Roberto Barroso, do STF, é entusiasta das 
“teses”. Como se precedente fosse uma tese ou uma tese fos-
se igual a um precedente. Na verdade, por trás disso, há uma 
tese, consciente ou inconsciente, de cunho realista: querem 
substituir o Direito posto (leis, Constituição Federal) por teses 
feitas pelas Cortes Superiores. Ou “decretar” que já vivemos, 
com o novo CPC, no common law porque adotamos o stare de-
cisis. Resultado: o Direito é aquilo que as Cortes Superiores 
dizem que é. E as decisões são resultantes de um ato de von-
tade. É o que sustentam os adeptos da tese de que os tribunais 
superiores devem ser Tribunais de Precedentes. Ou Cortes de 
Vértice. Realismo-de-precedentes.
Vejam que não questiono, obviamente, a necessidade 
de se dar maior racionalidade ao sistema de justiça brasileiro. 
Batalho por isso há anos. É claro que algo vai mal quando se 
admitem, por exemplo, muito mais recursos extraordinários 
10 ROCHA, Leonel Severo. Epistemologia Jurídica e Democracia. 2. ed. São 
Leopoldo: Unisinos, 2003, p. 72.
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descrito pela Ciência do Direito, metalinguagem. No primeiro, 
as normas, que exsurgem de um ato de vontade (do legislador 
na elaboração das leis, do juiz na interpretação e na sentença), 
carregam, em si, um espaço de mobilidade sob o qual se 
movimenta o intérprete, em razão dos problemas semânticos 
que se verificam na aplicação de um signo linguístico. 
Agora, no segundo, a interpretação é ato de 
conhecimento: na descrição do Direito, em metalinguagem, 
a Ciência do Direito produz proposições inter-relacionáveis, 
de maneira lógico-formal. Daí fica muito claro que Kelsen não 
só nunca separou Direito e moral como, inclusive, entendia 
completamente o contrário; em Kelsen, o Direito é política 
jurídica, envolve moral, subjetivismos. Isso é muito claro. 
Kelsen teve seu célebre debate constitucional com Carl 
Schmitt no ano de 1933; em 1934 escreve Teoria Pura do Direito. 
No conhecido Capítulo VIII, Kelsen desenvolve pela primeira 
vez a questão da interpretação, onde prevê que a norma — que 
é sempre o sentido objetivo de um ato de vontade — opera 
sempre de uma determinada “moldura”, metáfora esta que 
representa bem a ideia de limites semânticos do texto. Na 
segunda versão de Teoria Pura do Direito, porém, lançada em 
1960, Kelsen abandona a ideia de moldura, determinando que a 
norma pode ser produzida ainda que “se situe completamente 
fora da moldura”. Com isso, fica claro que até mesmo Kelsen 
abandona a ideia de que os limites semânticos do texto servem 
para impor uma limitação nos tribunais.
Do precedentalismo brasileiro; dos enunciados, 
dos conceitos sem coisa, da tópica sem tópica
Com o advento do Código de Processo Civil de 2015, 
parte da doutrina brasileira passou a falar sobre uma suposta 
criação de um “sistema brasileiro de precedentes”, ou “sistema 
de criação de teses judiciais”, chegando a se falar até de sta-
re decisis como coroamento de um common law à brasileira.10 
Querem transformar o nosso direito em um “sistema” de pre-
cedentes e teses. 
O Ministro Roberto Barroso, do STF, é entusiasta das 
“teses”. Como se precedente fosse uma tese ou uma tese fos-
se igual a um precedente. Na verdade, por trás disso, há uma 
tese, consciente ou inconsciente, de cunho realista: querem 
substituir o Direito posto (leis, Constituição Federal) por teses 
feitas pelas Cortes Superiores. Ou “decretar” que já vivemos, 
com o novo CPC, no common law porque adotamos o stare de-
cisis. Resultado: o Direito é aquilo que as Cortes Superiores 
dizem que é. E as decisões são resultantes de um ato de von-
tade. É o que sustentam os adeptos da tese de que os tribunais 
superiores devem ser Tribunais de Precedentes. Ou Cortes de 
Vértice. Realismo-de-precedentes.
Vejam que não questiono, obviamente, a necessidade 
de se dar maior racionalidade ao sistema de justiça brasileiro. 
Batalho por isso há anos. É claro que algo vai mal quando se 
admitem, por exemplo, muito mais recursos extraordinários 
10 ROCHA, Leonel Severo. Epistemologia Jurídica e Democracia. 2. ed. São 
Leopoldo: Unisinos, 2003, p. 72.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
70 71
do que se consegue julgar em um ano (para fazer referência, 
aqui, a outra tese do Ministro Barroso). E, lido adequadamente, 
parece-me que o CPC/2015 poderia oferecer, com seu 
contraditório e seu dever de fundamentação fortalecidos, 
uma mudança efetiva do modelo deliberativo dos tribunais, 
que viabilizaria, com integridade e coerência, uma estabilidade 
legítima e a inibição da litigiosidade aventureira. Nesse sentido, 
veio muito bem o novo CPC a exigir que a jurisprudência seja 
íntegra, estável e coerente (artigo 926), para que se gerem 
expectativas aos cidadãos sobre suas reais chances e se possa 
vislumbrar o uso de recursos meramente protelatórios. 
Esse é o ponto. Batalhei pela inclusão da coerência e da 
integridade no CPC exatamente porque acredito na coerência 
e na integridade como a solução que dispensa um suposto 
sistema de precedentes que, sem epistemologia, funciona 
como prótese para fantasmas.
Precedentes, quando legítimos, não fixam teses 
obrigatórias, gerais e generalizantes, para o futuro. O 
precedente é uma concreta decisão jurisprudencial, vinculada 
como tal ao caso historicamente concreto que decidiu e que se 
toma como padrão normativo casuístico em decisões análogas 
ou para casos de aplicação concretamente analógica. 
O que isso quer dizer? Simples. Que o precedente, 
autêntico, não ultrapassa o plano da facticidade; seu 
padrão será sempre do particular (caso) para o particular 
(caso). O que pretende fazer o precedentalismo brasileiroé 
desexistencializar o Direito: do geral e abstrato (tese) para o 
particular e concreto (caso). Nesse sentido, fica muito claro que 
o (suposto) “precedente” brasileiro está muito mais próximo do 
velho (e inconstitucional) instituto dos assentos portugueses 
do que do stare decisis legítimo. Cheguei a essa conclusão em 
exaustivas pesquisas que levei a cabo com pesquisadores por 
mim orientados, Raatz e Morbach11. Sintetizo aqui. 
Historicamente, em Portugal, desenvolveu-se o ins-
tituto dos assentos, por meio dos quais a Corte responsável, 
supostamente, “interpretaria autenticamente a lei”, fixando o 
entendimento para os juízes posteriores. A prática de emitir 
assentos normativos perdurou em Portugal até 1993, data na 
qual, em sede de controle concreto de constitucionalidade, o 
Tribunal Constitucional português declarou a prática inconsti-
tucional, uma vez que esses assentos não constituíam fonte le-
gítima de Direito e implicavam, na prática, em poderes legisla-
tivos exercidos pelo Judiciário. Valendo-se dos ensinamentos 
de Castanheira Neves, o Tribunal Constitucional português 
tomou, como base para a sua decisão, o entendimento de que 
o legislador teria atribuído aos assentos uma obrigatoriedade 
jurídica geral, uma vinculação normativo-jurídica própria das 
normas gerais do sistema jurídico. Desse modo, os assentos 
apresentar-se-iam com caráter prescritivo, constituindo verda-
deiras normas jurídicas com o valor de quaisquer outras nor-
mas do sistema, revestidas de caráter imperativo e força obri-
gatória geral, obrigando não apenas os tribunais, mas todas as 
restantes autoridades, a comunidade jurídica na sua expressão 
global. As semelhanças com o Brasil são óbvias. 
A diferença? Aqui, não se declarou a 
inconstitucionalidade do precedentalismo, abraçado pelo 
Supremo (sem uma epistemologia clara, diga-se; a doutrina 
é adotada sem que se explique seus fundamentos). Vejam: 
O Tribunal Constitucional português, amparado na doutrina 
11 STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da genealogia 
dos mecanismos vinculantes brasileiros: dos assentos portugueses às ‘teses’ 
dos Tribunais Superiores. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM, 
vol 14,, n. 01, artigo eletrônico 07, 2019.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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do que se consegue julgar em um ano (para fazer referência, 
aqui, a outra tese do Ministro Barroso). E, lido adequadamente, 
parece-me que o CPC/2015 poderia oferecer, com seu 
contraditório e seu dever de fundamentação fortalecidos, 
uma mudança efetiva do modelo deliberativo dos tribunais, 
que viabilizaria, com integridade e coerência, uma estabilidade 
legítima e a inibição da litigiosidade aventureira. Nesse sentido, 
veio muito bem o novo CPC a exigir que a jurisprudência seja 
íntegra, estável e coerente (artigo 926), para que se gerem 
expectativas aos cidadãos sobre suas reais chances e se possa 
vislumbrar o uso de recursos meramente protelatórios. 
Esse é o ponto. Batalhei pela inclusão da coerência e da 
integridade no CPC exatamente porque acredito na coerência 
e na integridade como a solução que dispensa um suposto 
sistema de precedentes que, sem epistemologia, funciona 
como prótese para fantasmas.
Precedentes, quando legítimos, não fixam teses 
obrigatórias, gerais e generalizantes, para o futuro. O 
precedente é uma concreta decisão jurisprudencial, vinculada 
como tal ao caso historicamente concreto que decidiu e que se 
toma como padrão normativo casuístico em decisões análogas 
ou para casos de aplicação concretamente analógica. 
O que isso quer dizer? Simples. Que o precedente, 
autêntico, não ultrapassa o plano da facticidade; seu 
padrão será sempre do particular (caso) para o particular 
(caso). O que pretende fazer o precedentalismo brasileiro é 
desexistencializar o Direito: do geral e abstrato (tese) para o 
particular e concreto (caso). Nesse sentido, fica muito claro que 
o (suposto) “precedente” brasileiro está muito mais próximo do 
velho (e inconstitucional) instituto dos assentos portugueses 
do que do stare decisis legítimo. Cheguei a essa conclusão em 
exaustivas pesquisas que levei a cabo com pesquisadores por 
mim orientados, Raatz e Morbach11. Sintetizo aqui. 
Historicamente, em Portugal, desenvolveu-se o ins-
tituto dos assentos, por meio dos quais a Corte responsável, 
supostamente, “interpretaria autenticamente a lei”, fixando o 
entendimento para os juízes posteriores. A prática de emitir 
assentos normativos perdurou em Portugal até 1993, data na 
qual, em sede de controle concreto de constitucionalidade, o 
Tribunal Constitucional português declarou a prática inconsti-
tucional, uma vez que esses assentos não constituíam fonte le-
gítima de Direito e implicavam, na prática, em poderes legisla-
tivos exercidos pelo Judiciário. Valendo-se dos ensinamentos 
de Castanheira Neves, o Tribunal Constitucional português 
tomou, como base para a sua decisão, o entendimento de que 
o legislador teria atribuído aos assentos uma obrigatoriedade 
jurídica geral, uma vinculação normativo-jurídica própria das 
normas gerais do sistema jurídico. Desse modo, os assentos 
apresentar-se-iam com caráter prescritivo, constituindo verda-
deiras normas jurídicas com o valor de quaisquer outras nor-
mas do sistema, revestidas de caráter imperativo e força obri-
gatória geral, obrigando não apenas os tribunais, mas todas as 
restantes autoridades, a comunidade jurídica na sua expressão 
global. As semelhanças com o Brasil são óbvias. 
A diferença? Aqui, não se declarou a 
inconstitucionalidade do precedentalismo, abraçado pelo 
Supremo (sem uma epistemologia clara, diga-se; a doutrina 
é adotada sem que se explique seus fundamentos). Vejam: 
O Tribunal Constitucional português, amparado na doutrina 
11 STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da genealogia 
dos mecanismos vinculantes brasileiros: dos assentos portugueses às ‘teses’ 
dos Tribunais Superiores. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM, 
vol 14,, n. 01, artigo eletrônico 07, 2019.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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de Castanheira Neves, tinha plena ciência de que os assentos 
não se confundem com os precedentes judiciais do common 
law, exatamente pela razão por mim acima elencada: o 
precedente revela-se em uma relação particular-particular, 
nunca geral-particular. Embora originados de um acórdão do 
Tribunal Pleno, os assentos não eram o próprio acórdão, mas 
estritamente as proposições normativas de estrutura geral 
e abstrata que se autonomizam, formal e normativamente, 
desses acórdãos. O TC Português disse ser isso incompatível 
com o princípio da separação de poderes, sepultando de vez 
os assentos.
Aqui? Insiste-se em ignorar que precedentes não 
são teses. Que, no common law, não apenas há uma série de 
abordagens doutrinárias que sugerem distintas maneiras 
de identificação da ratio decidendi12, em nenhum desses 
entendimentos é possível equiparar a ratio de um caso a uma 
tese generalizante, enunciada pelo Tribunal previamente 
com esse fim. 
Ilustro com uma provocação. Em março de 2019, o STJ 
divulgou 11, onze, teses, sobre prisão em flagrante. Onze te-
ses. Sobre um assunto. Em um mês. Teses, gerais e abstratas, 
sobre prisão em flagrante. Pois é. E estou falando de um só 
exemplo ilustrativo. 
“No flagrante esperado, a polícia tem notícias de que 
uma infração penal será cometida e passa a monitorar 
a atividade do agente de forma a aguardar o melhor 
momento para executar a prisão, não havendo que se 
12 STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da complexidade 
à simplificação na identificação da ratio decidendi: será mesmo que estamos a 
falar de precedentes no Brasil?. Revista Jurídica Unicuritiba, vol. 01, n. 54, 
pp. 317-341, 2019.
falar em ilegalidade do flagrante”. 
“Não há nulidade da audiência de custódia por suposta 
violação da Súmula Vinculante 11 do STF, quando 
devidamente justificada a necessidade do uso de 
algemas pelo segregado”.Vejamos este: “O tipo penal descrito no artigo 33 da 
Lei 11.343/2006 é de ação múltipla e de natureza permanente, 
razão pela qual a prática criminosa se consuma, por exemplo, 
a depender do caso concreto, nas condutas de ‘ter em 
depósito’, ‘guardar’, ‘transportar’ e ‘trazer consigo’, antes 
mesmo da atuação provocadora da polícia, o que afasta a 
tese defensiva de flagrante preparado.” A depender do caso 
concreto! Exatamente! A tese é autoimplosiva. Quer dizer 
que só essa depende do caso concreto? As outras não? Mas e 
se depende do caso concreto, como devem ser encarados os 
tais exemplos? O rol é taxativo? 
Sigo. Falei há pouco que, em Portugal – e no Brasil – a 
proposta vai muito claramente do geral e abstrato para o par-
ticular. No common law, ao contrário, onde a relação é particu-
lar-particular, caso-caso, ainda assim há, repito, uma série de 
interpretações distintas acerca do que constitui a força vincu-
lante do precedente. Há quem diga que a ratio constitui uma 
regra: regra extraída do caso A, a ter seus fundamentos apli-
cáveis no caso B. Do caso para o caso. Há quem sustente um 
modelo de analogia particular, no qual cada caso é tratado 
como um exemplo de decisão acertada, considerados todos 
os fatos, servindo então de modelo aos casos subsequentes. 
Do caso para o caso. E há, finalmente, quem sugira que o 
que há mesmo de vinculante num precedente são os princí-
pios que sustentam a razão de decidir no caso concreto. Do 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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de Castanheira Neves, tinha plena ciência de que os assentos 
não se confundem com os precedentes judiciais do common 
law, exatamente pela razão por mim acima elencada: o 
precedente revela-se em uma relação particular-particular, 
nunca geral-particular. Embora originados de um acórdão do 
Tribunal Pleno, os assentos não eram o próprio acórdão, mas 
estritamente as proposições normativas de estrutura geral 
e abstrata que se autonomizam, formal e normativamente, 
desses acórdãos. O TC Português disse ser isso incompatível 
com o princípio da separação de poderes, sepultando de vez 
os assentos.
Aqui? Insiste-se em ignorar que precedentes não 
são teses. Que, no common law, não apenas há uma série de 
abordagens doutrinárias que sugerem distintas maneiras 
de identificação da ratio decidendi12, em nenhum desses 
entendimentos é possível equiparar a ratio de um caso a uma 
tese generalizante, enunciada pelo Tribunal previamente 
com esse fim. 
Ilustro com uma provocação. Em março de 2019, o STJ 
divulgou 11, onze, teses, sobre prisão em flagrante. Onze te-
ses. Sobre um assunto. Em um mês. Teses, gerais e abstratas, 
sobre prisão em flagrante. Pois é. E estou falando de um só 
exemplo ilustrativo. 
“No flagrante esperado, a polícia tem notícias de que 
uma infração penal será cometida e passa a monitorar 
a atividade do agente de forma a aguardar o melhor 
momento para executar a prisão, não havendo que se 
12 STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da complexidade 
à simplificação na identificação da ratio decidendi: será mesmo que estamos a 
falar de precedentes no Brasil?. Revista Jurídica Unicuritiba, vol. 01, n. 54, 
pp. 317-341, 2019.
falar em ilegalidade do flagrante”. 
“Não há nulidade da audiência de custódia por suposta 
violação da Súmula Vinculante 11 do STF, quando 
devidamente justificada a necessidade do uso de 
algemas pelo segregado”.
 Vejamos este: “O tipo penal descrito no artigo 33 da 
Lei 11.343/2006 é de ação múltipla e de natureza permanente, 
razão pela qual a prática criminosa se consuma, por exemplo, 
a depender do caso concreto, nas condutas de ‘ter em 
depósito’, ‘guardar’, ‘transportar’ e ‘trazer consigo’, antes 
mesmo da atuação provocadora da polícia, o que afasta a 
tese defensiva de flagrante preparado.” A depender do caso 
concreto! Exatamente! A tese é autoimplosiva. Quer dizer 
que só essa depende do caso concreto? As outras não? Mas e 
se depende do caso concreto, como devem ser encarados os 
tais exemplos? O rol é taxativo? 
Sigo. Falei há pouco que, em Portugal – e no Brasil – a 
proposta vai muito claramente do geral e abstrato para o par-
ticular. No common law, ao contrário, onde a relação é particu-
lar-particular, caso-caso, ainda assim há, repito, uma série de 
interpretações distintas acerca do que constitui a força vincu-
lante do precedente. Há quem diga que a ratio constitui uma 
regra: regra extraída do caso A, a ter seus fundamentos apli-
cáveis no caso B. Do caso para o caso. Há quem sustente um 
modelo de analogia particular, no qual cada caso é tratado 
como um exemplo de decisão acertada, considerados todos 
os fatos, servindo então de modelo aos casos subsequentes. 
Do caso para o caso. E há, finalmente, quem sugira que o 
que há mesmo de vinculante num precedente são os princí-
pios que sustentam a razão de decidir no caso concreto. Do 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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caso para o caso, e isso fica muito claro na medida em que, 
em caso de distinguishing, essa interpretação entende que um 
caso subsequente é passível da prática quando a justificativa 
para o resultado atingido na decisão precedente não é capaz 
de ser razoavelmente aplicada aos fatos distintos que estive-
rem em questão, ainda que presente na ratio da decisão13. 
Ao que tudo indica, o precedente no common law 
funciona sempre como o STJ pareceu entender com relação a 
só uma de suas “teses”. Depende do caso concreto. 
Por vezes devemos desocultar o óbvio. Com relação a 
esses enunciados todos – teses de Tribunais, enunciados de 
workshops de magistrados – é possível apresentar uma pro-
posta de especificação de quatro categorias no sentido de que, 
invariavelmente, todos estarão acomodados em uma delas. 
Trabalho com esse modelo desde o início dos anos 90 na classi-
ficação das súmulas. Assim: quando os enunciados não forem 
(i) inconstitucionais, (ii) contra legem ou (iii) extra legem, serão... 
(iv) tautológicos. Porque se referem às leis. E, por vezes, são 
enunciados inseridos nessa quarta categoria que surgem para, 
vejam só, corrigir aqueles que estiverem inseridos nas outras
Mas isso é secundário. Por incrível que pareça. O mais 
importante: um sistema jurídico que respeita as exigências do 
ideal de coerência e integridade dispensa as teses gerais e abs-
tratas tribunalícias. Primeiro, porque respeitar a integridade 
confere estabilidade decisória e segurança jurídica ao sistema; 
segundo, porque uma vinculação cega, rígida, mecânica pode 
contrariar o próprio ideal de integridade, consagrado no Códi-
13 BANKOWSKI, Zenon; MACCORMICK, Neil; MORAWSKI, Lech; RUIZ 
MIGUEL, Alfonso. Rationales for Precedent. In: MACCORMICK, Neil; 
SUMMERS, Robert S. GOODHART, Arthur L. Interpreting Precedents. Nova 
York: Routledge, 2016.
go de Processo Civil de 2015. 
É óbvio que um sistema jurídico deve garantir um 
mínimo grau de previsibilidade aos jurisdicionados. Mas 
não existe maior segurança jurídica que a certeza de que a 
atividade decisória será exercida num contexto de respeito aos 
princípios da tradição jurídico-institucional. 
Não há melhor maneira de respeitar a lei do que 
interpretá-la à (melhor) luz dos princípios que lhe dão forma. 
Não há vinculação mais autêntica que respeitar as demandas e 
as exigências a que deve atender aquele que respeita o ideal de 
coerência e a integridade do Direito. 
Guardar coerência com o Direito exige respeito aos 
seus princípios próprios, e não uma vinculação mecanicista às 
respostas pretensamente vinculantes que surgem de cima pra 
baixo. Esse é o ponto. Assim:
 Primeiro: um precedente legítimo nunca vai do geral 
para o particular. 
Segundo: Tribunais não têm a competência de fixar 
normas gerais e abstratas, sob pena de inconstitucionalidade. 
Terceiro: vinculante, no civil law, jamais poderá ser um 
precedente, mas a lei a que ele se refere.
Quarto: o ideal de coerência e integridade, quando 
respeitado, já garante tudo que se quer quando se pede 
segurança jurídica.Quinto: teses mecânicas, rígidas, tornam um sistema 
hermético e, atreladas a um paradigma já superado, podem 
contrariar o próprio ideal de integridade. 
Dizem que o Brasil tem um sistema de precedentes a par-
tir do qual teremos segurança jurídica. Ora, o que temos é uma 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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caso para o caso, e isso fica muito claro na medida em que, 
em caso de distinguishing, essa interpretação entende que um 
caso subsequente é passível da prática quando a justificativa 
para o resultado atingido na decisão precedente não é capaz 
de ser razoavelmente aplicada aos fatos distintos que estive-
rem em questão, ainda que presente na ratio da decisão13. 
Ao que tudo indica, o precedente no common law 
funciona sempre como o STJ pareceu entender com relação a 
só uma de suas “teses”. Depende do caso concreto. 
Por vezes devemos desocultar o óbvio. Com relação a 
esses enunciados todos – teses de Tribunais, enunciados de 
workshops de magistrados – é possível apresentar uma pro-
posta de especificação de quatro categorias no sentido de que, 
invariavelmente, todos estarão acomodados em uma delas. 
Trabalho com esse modelo desde o início dos anos 90 na classi-
ficação das súmulas. Assim: quando os enunciados não forem 
(i) inconstitucionais, (ii) contra legem ou (iii) extra legem, serão... 
(iv) tautológicos. Porque se referem às leis. E, por vezes, são 
enunciados inseridos nessa quarta categoria que surgem para, 
vejam só, corrigir aqueles que estiverem inseridos nas outras
Mas isso é secundário. Por incrível que pareça. O mais 
importante: um sistema jurídico que respeita as exigências do 
ideal de coerência e integridade dispensa as teses gerais e abs-
tratas tribunalícias. Primeiro, porque respeitar a integridade 
confere estabilidade decisória e segurança jurídica ao sistema; 
segundo, porque uma vinculação cega, rígida, mecânica pode 
contrariar o próprio ideal de integridade, consagrado no Códi-
13 BANKOWSKI, Zenon; MACCORMICK, Neil; MORAWSKI, Lech; RUIZ 
MIGUEL, Alfonso. Rationales for Precedent. In: MACCORMICK, Neil; 
SUMMERS, Robert S. GOODHART, Arthur L. Interpreting Precedents. Nova 
York: Routledge, 2016.
go de Processo Civil de 2015. 
É óbvio que um sistema jurídico deve garantir um 
mínimo grau de previsibilidade aos jurisdicionados. Mas 
não existe maior segurança jurídica que a certeza de que a 
atividade decisória será exercida num contexto de respeito aos 
princípios da tradição jurídico-institucional. 
Não há melhor maneira de respeitar a lei do que 
interpretá-la à (melhor) luz dos princípios que lhe dão forma. 
Não há vinculação mais autêntica que respeitar as demandas e 
as exigências a que deve atender aquele que respeita o ideal de 
coerência e a integridade do Direito. 
Guardar coerência com o Direito exige respeito aos 
seus princípios próprios, e não uma vinculação mecanicista às 
respostas pretensamente vinculantes que surgem de cima pra 
baixo. Esse é o ponto. Assim:
 Primeiro: um precedente legítimo nunca vai do geral 
para o particular. 
Segundo: Tribunais não têm a competência de fixar 
normas gerais e abstratas, sob pena de inconstitucionalidade. 
Terceiro: vinculante, no civil law, jamais poderá ser um 
precedente, mas a lei a que ele se refere.
Quarto: o ideal de coerência e integridade, quando 
respeitado, já garante tudo que se quer quando se pede 
segurança jurídica. 
Quinto: teses mecânicas, rígidas, tornam um sistema 
hermético e, atreladas a um paradigma já superado, podem 
contrariar o próprio ideal de integridade. 
Dizem que o Brasil tem um sistema de precedentes a par-
tir do qual teremos segurança jurídica. Ora, o que temos é uma 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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proposta de fixação de teses gerais e abstratas tribunalícias que 
desexistencializam o Direito, ignorando que o fenômeno jurídi-
co, interpretativo por essência, só se dá na facticidade.
O que dizer, então, do recente fenômeno dos enuncia-
dos no direito brasileiro, produzidos em workshops de magis-
trados que, por vezes, chegam a dispor contra legem? Veja-se 
até que ponto chega o caos do decisionismo brasileiro. Juízes 
reunindo-se para elaborar conceitos abstratos, com a preten-
são de responder antes mesmo de a pergunta surgir, que po-
dem ser aplicados à self service. Como os precedentes [sic]. 
Ora, Heidegger já destruiu isso de há muito: a proposi-
ção não é o lugar da verdade; ao contrário, a verdade é o lugar da 
proposição. E veja: trata-se de verdade como tal, verdade trans-
cendental. Não acredito que verdade seja consenso, menos 
ainda que seja algo subjetivo, apenas uma palavra sem sentido 
da linguagem ordinária. Falo de uma verdade fundamentada, 
para a qual se tem critérios por meio dos quais será possível 
dizê-la ou não. 
Afinal, então, como se pode fazer, ou mesmo pretender 
fazer, proposições “adivinhatórias”, prospectivas? Critérios, 
critérios. Essa é a chave.
 Quando a proposição se desprende do contexto, seu 
fundamento único (e último) é, precisamente, o sujeito que 
põe a proposição (seja ela o enunciado, o precedente, a súmu-
la). É ou não um verdadeiro retorno à relação sujeito-objeto? 
Pura personificação da filosofia da consciência e seu problema 
da semântica. Um sujeito propõe. Pois bem. Mas de que lugar? 
Qual é a fundamentação? Uma outra palavra ou um conjunto 
de palavras. Uma analítica que se autofunda. Como diz Rose-
miro Leal, uma Tópica sem Tópica. 
Trata-se do fetichismo das palavras, que, de um lado, 
cai no problema semântico, de outro, cai no convenciona-
lismo. Algo como “antes dos conceitos, nada existe ou, se 
existe, não tem relevância suficiente para alterar o conceito 
que formularei”. 
Percebem o paradoxo comum a esses problemas to-
dos? Precedentes (que não o são genuinamente, diga-se), 
enunciados, súmulas, enfim... a velha busca pela verdade 
correspondencial. Mas como buscar essa verdade correspon-
dencial quando sequer explicito o que exatamente desejo 
fazer corresponder? Ignora-se a facticidade, produz-se um 
conceito sem coisa. 
Ernildo Stein lembra – e bem, como de costume – que 
não é a realidade que é contraditória; os nossos discursos so-
bre a realidade é que são contraditórios. É precisamente por 
isso que temos de ter cuidado para não confundir a estrutura 
dos nossos discursos com a estrutura da realidade. 
Como dizia Heráclito: o logos das coisas é um; o logos 
dos filósofos – intérpretes –, outro. Por isso a simetria entre os 
dois logos será sempre ideal. Ou... ilusória. 
Veja-se, ilustrando, o personagem Roquentin, de 
La Nausée (A Náusea), de Sartre. Roquentin espera que a 
realidade, para ser descrita, já deveria possuir as próprias 
estruturas da própria linguagem. Genial, porque isso também 
estava em Wittgenstein (o primeiro, no Tratactus), de maneira 
que a comunidade, de forma lógica, seria a precondição para a 
adequação representacional. Ou seja, resta que a pretensão de 
isomorfia é ilusória. Impossível. 
Assim, quando afirmo que é o caso concreto que definirá 
o sentido de uma determinada lei e que, no direito, não pode 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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proposta de fixação de teses gerais e abstratas tribunalícias que 
desexistencializam o Direito, ignorando que o fenômeno jurídi-
co, interpretativo por essência, só se dá na facticidade.
O que dizer, então, do recente fenômeno dos enuncia-
dos no direito brasileiro, produzidos em workshops de magis-
trados que, por vezes, chegam a dispor contra legem? Veja-se 
até que ponto chega o caos do decisionismo brasileiro. Juízes 
reunindo-se para elaborar conceitos abstratos, com a preten-
são de responder antes mesmo de a pergunta surgir, que po-
dem ser aplicados à self service. Como os precedentes [sic]. 
Ora, Heidegger já destruiu isso de há muito: a proposi-
ção não é o lugar da verdade; ao contrário, a verdade é o lugar da 
proposição. E veja: trata-se de verdade como tal, verdade trans-
cendental. Não acredito que verdade seja consenso,menos 
ainda que seja algo subjetivo, apenas uma palavra sem sentido 
da linguagem ordinária. Falo de uma verdade fundamentada, 
para a qual se tem critérios por meio dos quais será possível 
dizê-la ou não. 
Afinal, então, como se pode fazer, ou mesmo pretender 
fazer, proposições “adivinhatórias”, prospectivas? Critérios, 
critérios. Essa é a chave.
 Quando a proposição se desprende do contexto, seu 
fundamento único (e último) é, precisamente, o sujeito que 
põe a proposição (seja ela o enunciado, o precedente, a súmu-
la). É ou não um verdadeiro retorno à relação sujeito-objeto? 
Pura personificação da filosofia da consciência e seu problema 
da semântica. Um sujeito propõe. Pois bem. Mas de que lugar? 
Qual é a fundamentação? Uma outra palavra ou um conjunto 
de palavras. Uma analítica que se autofunda. Como diz Rose-
miro Leal, uma Tópica sem Tópica. 
Trata-se do fetichismo das palavras, que, de um lado, 
cai no problema semântico, de outro, cai no convenciona-
lismo. Algo como “antes dos conceitos, nada existe ou, se 
existe, não tem relevância suficiente para alterar o conceito 
que formularei”. 
Percebem o paradoxo comum a esses problemas to-
dos? Precedentes (que não o são genuinamente, diga-se), 
enunciados, súmulas, enfim... a velha busca pela verdade 
correspondencial. Mas como buscar essa verdade correspon-
dencial quando sequer explicito o que exatamente desejo 
fazer corresponder? Ignora-se a facticidade, produz-se um 
conceito sem coisa. 
Ernildo Stein lembra – e bem, como de costume – que 
não é a realidade que é contraditória; os nossos discursos so-
bre a realidade é que são contraditórios. É precisamente por 
isso que temos de ter cuidado para não confundir a estrutura 
dos nossos discursos com a estrutura da realidade. 
Como dizia Heráclito: o logos das coisas é um; o logos 
dos filósofos – intérpretes –, outro. Por isso a simetria entre os 
dois logos será sempre ideal. Ou... ilusória. 
Veja-se, ilustrando, o personagem Roquentin, de 
La Nausée (A Náusea), de Sartre. Roquentin espera que a 
realidade, para ser descrita, já deveria possuir as próprias 
estruturas da própria linguagem. Genial, porque isso também 
estava em Wittgenstein (o primeiro, no Tratactus), de maneira 
que a comunidade, de forma lógica, seria a precondição para a 
adequação representacional. Ou seja, resta que a pretensão de 
isomorfia é ilusória. Impossível. 
Assim, quando afirmo que é o caso concreto que definirá 
o sentido de uma determinada lei e que, no direito, não pode 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
78 79
existir “conceito sem coisa”, quero apenas insistir na tese de que 
não há essências ou conceitos universais. Mas, se os sentidos se 
dão a partir da concretude, enfim, das situações de aplicação 
(applicatio), isto não significa que não haja algo antes do caso 
concreto. 
Ou seja, não basta dizer que a lei não contém o direito. 
Não basta “descolar” a norma do texto ou a palavra da coisa. 
Por sinal, isso não é novo. Os sofistas sofreram uma 
crítica contundente de Sócrates, no diálogo Crátilo, escrito 
por Platão. Crátilo acreditava na perfeição das palavras, por 
acreditar que os nomes tinham origens divinas — o que os 
tornaria necessariamente corretos. Sócrates, porém, traz à sua 
atenção a imperfeição de várias palavras, incapazes de capturar 
verdadeiramente os objetos que pretendiam significar. 
O descontentamento de Crátilo com isso que, para 
ele, significava uma verdadeira ausência de estabilidade do 
mundo, levou-o a defender... que não mais falássemos, mas 
apenas levantássemos um dedo quando desejássemos nos 
expressar. 
Pronto. Ora, se o simples convencionalismo (a não 
imanência entre palavras e coisas, entre significantes e 
significados) bastasse, os bravos sofistas já teriam resolvido 
esse problema mais de cinco séculos antes de Cristo.
Vejam o genial Swift, em Gulliver: é em Lagado, capital 
da nação de Balnibarbi, que Gulliver encontra a Academia de 
Projetistas. Entre seus diversos projetos, destaco, aqui, uma de 
suas salas, na qual os sábios locais discutiam as possibilidades 
de se simplificar a linguagem. Era um consenso em Balnibarbi 
que o discurso, além de complexo, fazia mal à saúde — afinal, 
o simples ato de falar poderia, a longo prazo, trazer malefí-
cios aos pulmões e, consequentemente, diminuir a expectativa 
de vida da população. Trabalhando a partir dessa lógica, um 
dos professores sugeria que todas as palavras, especialmente 
as longas, fossem suprimidas, de forma que comunicássemo-
-nos apenas recorrendo apenas ao uso de sílabas. A solução 
não agradou a todos: outro acadêmico de Lagado sugeria que 
a empreitada fosse mais além, abolindo as palavras de uma 
vez por todas. Em vez de palavras — essas coisinhas tão incon-
venientes, que variam de idioma para idioma —, usássemos... 
objetos. Se eu pretendo falar de um livro, diz o professor, por 
que não mostrar um livro? Livro, libro, book, Buch, livre... objeti-
ficar a palavra é muito mais simples.
Não precisávamos de nada disso... tivéssemos 
compreendido as exigências da coerência e da integridade. 
Exatamente porque, quando se tem coerência e integridade, 
não há que se falar em mecanismos vinculantes da forma 
como esses existem no ordenamento brasileiro. 
Por uma série de fatores: (i) temos um sistema de civil 
law, no qual, por razões tão óbvias que são quase autoexplicati-
vas, o que há de vinculante não é a súmula, a decisão, o enun-
ciado, o precedente, mas a(s) lei(s) a que esses todos referem-se; (ii) 
o respeito à coerência e à integridade já, de pronto, resolve(ria)
m aquilo que a atribuição de efeito vinculante às “teses” tribu-
nalícias tem como sua razão de ser; notadamente, a estabilidade 
decisória, a previsibilidade, a segurança jurídica; e, somando-se 
esses dois elementos, temos que (iii) uma vez positivado – exa-
tamente porque o Brasil é um país na tradição do civil law, e 
porque a lei é o que há de vinculante numa democracia –, o ide-
al de coerência e integridade simplesmente deve ser respeitado, 
por uma questão deontológica. A lei exige, e o Direito é uma 
questão de respeito à lei.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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existir “conceito sem coisa”, quero apenas insistir na tese de que 
não há essências ou conceitos universais. Mas, se os sentidos se 
dão a partir da concretude, enfim, das situações de aplicação 
(applicatio), isto não significa que não haja algo antes do caso 
concreto. 
Ou seja, não basta dizer que a lei não contém o direito. 
Não basta “descolar” a norma do texto ou a palavra da coisa. 
Por sinal, isso não é novo. Os sofistas sofreram uma 
crítica contundente de Sócrates, no diálogo Crátilo, escrito 
por Platão. Crátilo acreditava na perfeição das palavras, por 
acreditar que os nomes tinham origens divinas — o que os 
tornaria necessariamente corretos. Sócrates, porém, traz à sua 
atenção a imperfeição de várias palavras, incapazes de capturar 
verdadeiramente os objetos que pretendiam significar. 
O descontentamento de Crátilo com isso que, para 
ele, significava uma verdadeira ausência de estabilidade do 
mundo, levou-o a defender... que não mais falássemos, mas 
apenas levantássemos um dedo quando desejássemos nos 
expressar. 
Pronto. Ora, se o simples convencionalismo (a não 
imanência entre palavras e coisas, entre significantes e 
significados) bastasse, os bravos sofistas já teriam resolvido 
esse problema mais de cinco séculos antes de Cristo.
Vejam o genial Swift, em Gulliver: é em Lagado, capital 
da nação de Balnibarbi, que Gulliver encontra a Academia de 
Projetistas. Entre seus diversos projetos, destaco, aqui, uma de 
suas salas, na qual os sábios locais discutiam as possibilidades 
de se simplificar a linguagem. Era um consenso em Balnibarbi 
que o discurso, além de complexo, fazia mal à saúde — afinal, 
o simples ato de falar poderia, a longo prazo, trazer malefí-
cios aos pulmões e, consequentemente, diminuir a expectativa 
de vida da população. Trabalhando a partirexiste 
uma diferença, que eu chamei, a partir de Heidegger, de “dife-
rença ontológica”. Não há uma cisão entre aplicar e interpretar; 
porque, afinal, “interpretar” é (também) apreender, explicar, 
traduzir, comparar, aplicar, representar; interpretar pressupõe 
uma interação de significados, de possibilidades. Em todos os 
momentos, aplicamos a diferença. Quando olhamos para algo, 
essa coisa já nos aparece “enquanto algo”. Assim acontece na 
1 STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica e(m) crise. 11. ed. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2013.
interpretação/aplicação do Direito. Quando me refiro a uma 
lei, o seu sentido – que me é sempre antecipado pela pré-com-
preensão – já me proporciona o sentido, que me é possibilitado 
pela diferença ontológica. Não percebo um texto sem “coisa”. 
Não me deparo com conceitos sem coisas. Sustentar que 
há uma diferença (ontológica) entre texto e norma não significa 
que haja uma cisão estrutural entre ambos (o mesmo valendo 
para a dualidade vigência-validade). O que se quer dizer é que 
o texto não subsiste como texto (algo como “um conceito em 
abstrato”). Não há texto sem contexto, assim como não há texto 
jurídico isolado da norma que se atribui a esse texto. O texto já 
nos aparece com alguma norma, que é produto da atribuição 
de sentido do intérprete. O intérprete não é livre para atribuir 
qualquer sentido ao texto. Ele sempre estará inserido em uma 
determinada tradição, que sobre ele exerce constrangimento.
Tudo para mostrar que nem o “juiz boca da lei” (o exe-
geta) e nem o “juiz dono da lei” (aquele que decide como quer 
e disfarça seus dribles na lei) estão certos. Longe disso. Acredi-
tem: o sentido da lei só existe no seu contexto. O texto da lei só 
existe na sua norma; e a norma só existe a partir do seu texto.
Nesse contexto, o intérprete-juiz – inserido em uma 
tradição jurídica que, em uma democracia, impõe-lhe 
responsabilidade política – tem um papel de mediação; o 
papel de realizar o devido ajuste institucional. É uma questão 
de applicatio, que, no Direito, explico como a norma(tização) do 
texto jurídico. A Constituição é o resultado de sua interpretação. 
A língua fala, diria Heidegger; e a fonte ontológica é anterior 
ao homem-enquanto-homem; ao juiz-enquanto-juiz.
É impossível reproduzir sentidos. E é por isso que não se pode 
mais falar em Auslegung – extrair sentido –, e, sim, em Sinngebung 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
10 11
– atribuir sentido. O processo hermenêutico é sempre produtivo. 
Não há grau zero de sentido. Ponto. Por isso, applicatio quer dizer 
que desde sempre já estou operando com esse conjunto de 
elementos e categorias que me levam à compreensão. Mesmo 
quando Mesmo quando raciocino com exemplos abstratos, 
estou aplicando.
Dessa forma, o texto jurídico (uma lei, a Constituição) 
só pode ser entendido a partir de sua aplicação, isto é, diante 
de uma coisa, um fato, um caso concreto.
Portanto, nós não inventamos os sentidos. Temos 
responsabilidade diante da tradição e daquilo que chamamos 
de “mundo”. O modo como vamos lidar com o mundo é que 
fará a diferença. Como dizer corretamente o nome das coisas? 
Ou: como não dar respostas equivocadas, arbitrárias? De que 
modo podemos nos livrar da tentação de dar “chutes”, palpites, 
opiniões pessoais? A hermenêutica responde, e, no Direito, a 
saída está na interpretação construtiva.
Antes, um passo atrás. Há muito utilizo uma metáfora 
para ilustrar essa responsabilidade que nos deve (e é) ser 
imposta diante do mundo ao interpretar os fenômenos que 
nele (e por nós) passam. A metáfora do Hermeneuta2 na ilha 
dos peixes sem cabeça. O Hermeneuta, ao chegar em uma ilha 
habitada, constata que aqueles que la viviam, apesar da fome 
e escassez de alimentos, tinham o contraintuitivo costume 
de cortar o rabo e a cabeça dos peixes, que, de tão pequenos, 
sequer ocupavam por inteiras as frigideiras. Intrigado, 
revolveu o chão linguístico em que estava assentada a tradição 
e reconstruiu a história institucional daquele “instituto”, e, ao 
entrar em contato com o membro mais velho da comunidade 
2 STRECK, Lenio Luiz. Lições de crítica hermenêutica do direito. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
de ilhéus, descobriu que, no início do povoamento da ilhota, 
os peixes eram grandes e abundantes, não cabendo nas 
frigideiras. Consequentemente, cortavam a cabeça e o rabo. 
O Hermeneuta, assim, compreendeu o fenômeno que se 
encobria aos moradores mais jovens da ilha, os quais, ao serem 
questionados do porquê de agirem dessa maneira, respondiam: 
“Não sei… Mas as coisas sempre foram assim por aqui”! Eis o 
senso comum. Eis a naturalização de uma prática. Desse pro-
cesso – que é como se o fenômeno fosse “descascado aos pou-
cos” – exsurge “o sentido da coisa”, que já não será aquela que 
o intérprete vislumbrou no início. Com o revolvimento do chão 
linguístico, o fenômeno exsurgiu “como ele é”, por assim dizer. 
Num exemplo jurídico: remeto a um caso de furto qua-
lificado por escalada (como se sabe, a pena do furto qualifica-
do é o dobro da do furto simples). O acusado (apelante no pro-
cesso) fora condenado a três anos porque (comprovadamente) 
pulara o muro para chegar até à res furtivae. Os manuais de di-
reito penal dirão apenas que escalada é subir em alguma coisa. 
Fazendo a reconstrução da história institucional do instituto 
penal em pauta, ver-se-á que o tipo penal qualificado é dos 
anos 40. Construíam-se altos muros para proteger as casas. E 
como o CP protege mais a propriedade do que a vida, a pena 
do furto dobra se alguém escalar o obstáculo. E o caso concre-
to? Neste processo, a foto juntada aos autos mostrava que o 
muro não tinha mais de um metro e sessenta, além de ter uma 
caixinha com relógio marcador da conta d’água da companhia 
que vende água, que serviu de apoio à “escalada”. Olhando o 
problema a partir da simples semântica e dos manuais – enfim, 
do senso comum teórico – estava caracterizada, subsuntiva-
mente, a qualificadora da escalada. Mas o fenômeno, recons-
truído, já não era o da “primeira vista”. Aquilo, obviamente, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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– atribuir sentido. O processo hermenêutico é sempre produtivo. 
Não há grau zero de sentido. Ponto. Por isso, applicatio quer dizer 
que desde sempre já estou operando com esse conjunto de 
elementos e categorias que me levam à compreensão. Mesmo 
quando Mesmo quando raciocino com exemplos abstratos, 
estou aplicando.
Dessa forma, o texto jurídico (uma lei, a Constituição) 
só pode ser entendido a partir de sua aplicação, isto é, diante 
de uma coisa, um fato, um caso concreto.
Portanto, nós não inventamos os sentidos. Temos 
responsabilidade diante da tradição e daquilo que chamamos 
de “mundo”. O modo como vamos lidar com o mundo é que 
fará a diferença. Como dizer corretamente o nome das coisas? 
Ou: como não dar respostas equivocadas, arbitrárias? De que 
modo podemos nos livrar da tentação de dar “chutes”, palpites, 
opiniões pessoais? A hermenêutica responde, e, no Direito, a 
saída está na interpretação construtiva.
Antes, um passo atrás. Há muito utilizo uma metáfora 
para ilustrar essa responsabilidade que nos deve (e é) ser 
imposta diante do mundo ao interpretar os fenômenos que 
nele (e por nós) passam. A metáfora do Hermeneuta2 na ilha 
dos peixes sem cabeça. O Hermeneuta, ao chegar em uma ilha 
habitada, constata que aqueles que la viviam, apesar da fome 
e escassez de alimentos, tinham o contraintuitivo costume 
de cortar o rabo e a cabeça dos peixes, que, de tão pequenos, 
sequer ocupavam por inteiras as frigideiras. Intrigado, 
revolveu o chão linguístico em que estava assentada a tradição 
e reconstruiu a história institucional daquele “instituto”, e, ao 
entrar em contato com o membro mais velho da comunidade 
2 STRECK, Lenio Luiz. Lições de crítica hermenêutica do direito. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
de ilhéus, descobriu que, no início do povoamento da ilhota, 
os peixesdessa lógica, um 
dos professores sugeria que todas as palavras, especialmente 
as longas, fossem suprimidas, de forma que comunicássemo-
-nos apenas recorrendo apenas ao uso de sílabas. A solução 
não agradou a todos: outro acadêmico de Lagado sugeria que 
a empreitada fosse mais além, abolindo as palavras de uma 
vez por todas. Em vez de palavras — essas coisinhas tão incon-
venientes, que variam de idioma para idioma —, usássemos... 
objetos. Se eu pretendo falar de um livro, diz o professor, por 
que não mostrar um livro? Livro, libro, book, Buch, livre... objeti-
ficar a palavra é muito mais simples.
Não precisávamos de nada disso... tivéssemos 
compreendido as exigências da coerência e da integridade. 
Exatamente porque, quando se tem coerência e integridade, 
não há que se falar em mecanismos vinculantes da forma 
como esses existem no ordenamento brasileiro. 
Por uma série de fatores: (i) temos um sistema de civil 
law, no qual, por razões tão óbvias que são quase autoexplicati-
vas, o que há de vinculante não é a súmula, a decisão, o enun-
ciado, o precedente, mas a(s) lei(s) a que esses todos referem-se; (ii) 
o respeito à coerência e à integridade já, de pronto, resolve(ria)
m aquilo que a atribuição de efeito vinculante às “teses” tribu-
nalícias tem como sua razão de ser; notadamente, a estabilidade 
decisória, a previsibilidade, a segurança jurídica; e, somando-se 
esses dois elementos, temos que (iii) uma vez positivado – exa-
tamente porque o Brasil é um país na tradição do civil law, e 
porque a lei é o que há de vinculante numa democracia –, o ide-
al de coerência e integridade simplesmente deve ser respeitado, 
por uma questão deontológica. A lei exige, e o Direito é uma 
questão de respeito à lei.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
80 81
 O que isso tudo quer dizer? Sintetizo com um quarto 
elemento: (iv) respeitar as exigências da integridade, por vezes, 
é antitético a uma aplicação mecânica de mecanismos vinculantes. 
Da soma de todos esses quatro fatores por mim elencados, 
meu ponto torna-se muito simples: não apenas o respeito 
à coerência e à integridade do ordenamento dispensam a 
atribuição de efeito vinculante a enunciados produto dos 
Tribunais e Cortes Superiores e Supremas (para usar os termos 
dos precedentalistas), a atribuição própria desse efeito pode 
contrariar as exigências que a integridade impõe. 
Por uma razão muito simples: coerência e integridade 
é uma questão de respeito à lei interpretada sob sua melhor 
luz; a decisão judicial íntegra e coerente é aquela que se man-
tém fiel às exigências que o Direito impõe em uma democra-
cia, e essas exigências impõem ao intérprete os limites colo-
cados pela tradição jurídica. Muito mais do que uma rigidez 
interpretativa; aliás, pelo contrário. 
Dou um passo atrás para tornar isso tudo mais claro. Não 
é difícil imaginar por que defino os mecanismos vinculantes 
como a pretensão de respostas antes das perguntas: são 
enunciados que se pretendem aplicáveis ex ante, dado que – 
supostamente – aplicáveis a casos posteriores. 
Só que, vejam: se as respostas vêm antes das perguntas, 
assim que essas perguntas surgirem, essas respostas podem 
estar erradas. E a aplicação de respostas erradas contraria as 
exigências da integridade. E, por essa razão, não se encaixam 
em nossa prática jurídica; porque é a nossa prática jurídica 
que diz que se deve respeitar a coerência e a integridade do 
sistema. 
Não há nada mais contrário ao ideal de coerência e 
integridade do que a repetição de erros pretéritos simplesmente 
porque o Tribunal que errou tinha o condão de atribuir efeito 
vinculante ao próprio erro.
Aplicação mecânica, seja de leis, de rationes decidendi, de 
enunciados, de teses, de súmulas, seja do que for – aplicação me-
cânica é ignorar que a integridade está para muito além de uma 
rigidez ainda atrelada a um paradigma que não se abriu à facti-
cidade. 
Veja-se: o que é isto – o Direito? É um fenômeno interpre-
tativo; e porque interpretativo, é um fenômeno que se insere em 
uma dada tradição. Atribuir efeito vinculante, ou pretender fazê-
-lo, a “teses” que exsurgem da atividade decisória dos Tribunais, 
e (pretender) exigir uma aplicação subsequente por parte dos 
tribunais ditos “inferiores” é desexistencializar o Direito. Esse é 
o ponto.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
80 81
 O que isso tudo quer dizer? Sintetizo com um quarto 
elemento: (iv) respeitar as exigências da integridade, por vezes, 
é antitético a uma aplicação mecânica de mecanismos vinculantes. 
Da soma de todos esses quatro fatores por mim elencados, 
meu ponto torna-se muito simples: não apenas o respeito 
à coerência e à integridade do ordenamento dispensam a 
atribuição de efeito vinculante a enunciados produto dos 
Tribunais e Cortes Superiores e Supremas (para usar os termos 
dos precedentalistas), a atribuição própria desse efeito pode 
contrariar as exigências que a integridade impõe. 
Por uma razão muito simples: coerência e integridade 
é uma questão de respeito à lei interpretada sob sua melhor 
luz; a decisão judicial íntegra e coerente é aquela que se man-
tém fiel às exigências que o Direito impõe em uma democra-
cia, e essas exigências impõem ao intérprete os limites colo-
cados pela tradição jurídica. Muito mais do que uma rigidez 
interpretativa; aliás, pelo contrário. 
Dou um passo atrás para tornar isso tudo mais claro. Não 
é difícil imaginar por que defino os mecanismos vinculantes 
como a pretensão de respostas antes das perguntas: são 
enunciados que se pretendem aplicáveis ex ante, dado que – 
supostamente – aplicáveis a casos posteriores. 
Só que, vejam: se as respostas vêm antes das perguntas, 
assim que essas perguntas surgirem, essas respostas podem 
estar erradas. E a aplicação de respostas erradas contraria as 
exigências da integridade. E, por essa razão, não se encaixam 
em nossa prática jurídica; porque é a nossa prática jurídica 
que diz que se deve respeitar a coerência e a integridade do 
sistema. 
Não há nada mais contrário ao ideal de coerência e 
integridade do que a repetição de erros pretéritos simplesmente 
porque o Tribunal que errou tinha o condão de atribuir efeito 
vinculante ao próprio erro.
Aplicação mecânica, seja de leis, de rationes decidendi, de 
enunciados, de teses, de súmulas, seja do que for – aplicação me-
cânica é ignorar que a integridade está para muito além de uma 
rigidez ainda atrelada a um paradigma que não se abriu à facti-
cidade. 
Veja-se: o que é isto – o Direito? É um fenômeno interpre-
tativo; e porque interpretativo, é um fenômeno que se insere em 
uma dada tradição. Atribuir efeito vinculante, ou pretender fazê-
-lo, a “teses” que exsurgem da atividade decisória dos Tribunais, 
e (pretender) exigir uma aplicação subsequente por parte dos 
tribunais ditos “inferiores” é desexistencializar o Direito. Esse é 
o ponto.
83
O “saber nenhum” que obnubila a 
hermenêutica
MacIntyre abre After Virtue, sua magnum opus, com uma 
metáfora “perturbadora” (“a disquieting suggestion”): ele pede 
que imaginemos, hipoteticamente, um cenário absolutamente 
catastrófico nas ciências naturais, no qual a população em 
geral passa a culpar os cientistas por uma série de desastres 
naturais. Essa responsabilização acaba por gerar uma série de 
revoltas populares — laboratórios são queimados, físicos são 
linchados, livros são queimados. 
Mais do que isso, as revoltas acabam por levar ao 
poder um movimento político chamado Know-Nothing (algo 
que poderia ser traduzido como “Saber-Nenhum”, “Nada-
Saber”), que, além de proibir o ensino científico nas escolas 
e universidades, prende e executa os cientistas que ainda 
exerciam a função.
Algum tempo depois, há uma reação contra o Know-
Nothing: um grupo de pessoas pretende trazer a ciência de 
volta à tona. O problema é que esse grupo, embora iluminado, 
esqueceu grande parte do que a ciência realmente era; havia 
como ser diferente? Tudo que eles ainda tinham consigo era 
nadamais que “fragmentos”: um certo “conhecimento sobre 
alguns experimentos do passado”, mas completamente 
“apartado de qualquer conhecimento acerca do contexto 
teórico que a eles conferia significado”; “meios capítulos de 
livros”; “páginas individuais de alguns artigos, nem sempre 
83
O “saber nenhum” que obnubila a 
hermenêutica
MacIntyre abre After Virtue, sua magnum opus, com uma 
metáfora “perturbadora” (“a disquieting suggestion”): ele pede 
que imaginemos, hipoteticamente, um cenário absolutamente 
catastrófico nas ciências naturais, no qual a população em 
geral passa a culpar os cientistas por uma série de desastres 
naturais. Essa responsabilização acaba por gerar uma série de 
revoltas populares — laboratórios são queimados, físicos são 
linchados, livros são queimados. 
Mais do que isso, as revoltas acabam por levar ao 
poder um movimento político chamado Know-Nothing (algo 
que poderia ser traduzido como “Saber-Nenhum”, “Nada-
Saber”), que, além de proibir o ensino científico nas escolas 
e universidades, prende e executa os cientistas que ainda 
exerciam a função.
Algum tempo depois, há uma reação contra o Know-
Nothing: um grupo de pessoas pretende trazer a ciência de 
volta à tona. O problema é que esse grupo, embora iluminado, 
esqueceu grande parte do que a ciência realmente era; havia 
como ser diferente? Tudo que eles ainda tinham consigo era 
nada mais que “fragmentos”: um certo “conhecimento sobre 
alguns experimentos do passado”, mas completamente 
“apartado de qualquer conhecimento acerca do contexto 
teórico que a eles conferia significado”; “meios capítulos de 
livros”; “páginas individuais de alguns artigos, nem sempre 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
84 85
legíveis”; enfim, fragmentos, e nada além disso.
Esse saber, embora fragmentado, passou a ser reutilizado 
em práticas que (re)levavam nomes como “física”, “química” e 
“biologia”. A partir desses novos-velhos, velhos-novos tópicos, 
ressignificados a partir dos fragmentos, “adultos discutiam 
entre si acerca dos méritos da teoria da relatividade, teoria 
da evolução, teoria da combustão”, “possuindo apenas um 
conhecimento muito parcial sobre cada uma delas”. Crianças 
aprendiam e “decoravam as parcelas sobreviventes da tabela 
periódica”, e “recitavam como palavras mágicas alguns dos 
teoremas de Euclides”. O problema? “Ninguém, ou quase 
ninguém, percebia que aquilo que se fazia não era, de forma 
alguma, ciência natural em qualquer sentido autêntico”.
Nessa hipotéticas (e catastróficas) circunstâncias de 
um saber fragmentado — que era o saber disponível —, os 
cidadãos “utilizam expressões como ‘neutrino’, ‘massa’, ‘gra-
vidade específica’, ‘massa atômica’, de modo sistemático e, 
geralmente, inter-relacionado”, de um modo que, em algum 
sentido, “em maior ou menor grau”, “parecia-se com os meios 
pelos quais tais expressões eram empregadas e utilizadas an-
tes que o conhecimento científico tivesse sido tão grandiosa-
mente perdido”. 
Ainda assim, “muitas das crenças outrora pressupostas 
pelo uso dessas expressões foram perdidas”, de modo que, no 
cenário do saber fragmentado, havia um “elemento de arbitra-
riedade e até de escolha em sua aplicação” que pareceria, a nós, 
muito surpreendente. “Premissas aparentemente rivais e anta-
gônicas pelas quais nenhum tipo de argumento seria possível 
tornar-se-iam abundantes”, de modo que “teorias subjetivistas 
da ciência surgiriam”, e seriam “criticadas por aqueles que sus-
tentavam que a noção de verdade subjacente àquilo que toma-
vam como ciência era incompatível com o subjetivismo”.
Avancemos a partir da pergunta colocada pelo próprio 
MacIntyre: qual seria a justificativa para construir hipotetica-
mente esse mundo distópico, em “grave estado de desordem”, 
similar àquele que “alguns autores de ficção científica já cons-
truíram”? O próprio autor responde, sustentando que a hipó-
tese que planeja desenvolver é a de que “no mundo real, que 
habitamos, a linguagem moral está no mesmo estado de grave 
desordem que aquele pelo qual passava a linguagem da ciên-
cia natural no mundo imaginário que descrevi”. 
Tudo o que temos hoje, para MacIntyre, são nada 
mais que “fragmentos de um sistema conceitual, partes que 
agora carecem dos contextos dos quais seus significados 
originalmente derivam”; temos “simulacra” da moralidade, 
utilizamos muitas de seus conceitos centrais, mas “perdemos 
— em grande parte, senão completamente — nossa 
compreensão, prática e teórica, da moralidade”. 
Se os conceitos de massa, gravidade, etc., eram 
utilizados de forma fragmentária — e, portanto, afastados de 
seus sentidos originais (e autênticos) — na distopia das ciências 
naturais, MacIntyre diz que é exatamente isso que ocorre, de 
fato, com relação aos conceitos próprios da linguagem moral 
em nosso debate moral contemporâneo: conceitos como 
“virtude”, “justiça”, “dever”, todos tornaram-se outra coisa, 
com um significado distinto daquele que se identificava na 
variedade de contextos em que se originavam. 
“Kant deixa de ser parte da história da Prússia”, “Hume 
já não é mais um escocês”: tratamos “Platão e Hume e Mill” 
como contemporâneos um do outro e de nós próprios, abstra-
ímos suas obras de seu contexto cultural e social e conferimos 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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legíveis”; enfim, fragmentos, e nada além disso.
Esse saber, embora fragmentado, passou a ser reutilizado 
em práticas que (re)levavam nomes como “física”, “química” e 
“biologia”. A partir desses novos-velhos, velhos-novos tópicos, 
ressignificados a partir dos fragmentos, “adultos discutiam 
entre si acerca dos méritos da teoria da relatividade, teoria 
da evolução, teoria da combustão”, “possuindo apenas um 
conhecimento muito parcial sobre cada uma delas”. Crianças 
aprendiam e “decoravam as parcelas sobreviventes da tabela 
periódica”, e “recitavam como palavras mágicas alguns dos 
teoremas de Euclides”. O problema? “Ninguém, ou quase 
ninguém, percebia que aquilo que se fazia não era, de forma 
alguma, ciência natural em qualquer sentido autêntico”.
Nessa hipotéticas (e catastróficas) circunstâncias de 
um saber fragmentado — que era o saber disponível —, os 
cidadãos “utilizam expressões como ‘neutrino’, ‘massa’, ‘gra-
vidade específica’, ‘massa atômica’, de modo sistemático e, 
geralmente, inter-relacionado”, de um modo que, em algum 
sentido, “em maior ou menor grau”, “parecia-se com os meios 
pelos quais tais expressões eram empregadas e utilizadas an-
tes que o conhecimento científico tivesse sido tão grandiosa-
mente perdido”. 
Ainda assim, “muitas das crenças outrora pressupostas 
pelo uso dessas expressões foram perdidas”, de modo que, no 
cenário do saber fragmentado, havia um “elemento de arbitra-
riedade e até de escolha em sua aplicação” que pareceria, a nós, 
muito surpreendente. “Premissas aparentemente rivais e anta-
gônicas pelas quais nenhum tipo de argumento seria possível 
tornar-se-iam abundantes”, de modo que “teorias subjetivistas 
da ciência surgiriam”, e seriam “criticadas por aqueles que sus-
tentavam que a noção de verdade subjacente àquilo que toma-
vam como ciência era incompatível com o subjetivismo”.
Avancemos a partir da pergunta colocada pelo próprio 
MacIntyre: qual seria a justificativa para construir hipotetica-
mente esse mundo distópico, em “grave estado de desordem”, 
similar àquele que “alguns autores de ficção científica já cons-
truíram”? O próprio autor responde, sustentando que a hipó-
tese que planeja desenvolver é a de que “no mundo real, que 
habitamos, a linguagem moral está no mesmo estado de grave 
desordem que aquele pelo qual passava a linguagem da ciên-
cia natural no mundo imaginário que descrevi”. 
Tudo o que temos hoje, para MacIntyre, são nada 
mais que “fragmentos de um sistema conceitual, partes que 
agora carecem dos contextos dos quais seus significados 
originalmente derivam”; temos “simulacra” da moralidade, 
utilizamos muitas de seus conceitos centrais, mas “perdemos— em grande parte, senão completamente — nossa 
compreensão, prática e teórica, da moralidade”. 
Se os conceitos de massa, gravidade, etc., eram 
utilizados de forma fragmentária — e, portanto, afastados de 
seus sentidos originais (e autênticos) — na distopia das ciências 
naturais, MacIntyre diz que é exatamente isso que ocorre, de 
fato, com relação aos conceitos próprios da linguagem moral 
em nosso debate moral contemporâneo: conceitos como 
“virtude”, “justiça”, “dever”, todos tornaram-se outra coisa, 
com um significado distinto daquele que se identificava na 
variedade de contextos em que se originavam. 
“Kant deixa de ser parte da história da Prússia”, “Hume 
já não é mais um escocês”: tratamos “Platão e Hume e Mill” 
como contemporâneos um do outro e de nós próprios, abstra-
ímos suas obras de seu contexto cultural e social e conferimos 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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a elas uma falsa independência. Esse (ainda) não é o diagnós-
tico (completo) oferecido por MacIntyre; é, em verdade, uma 
das causas e um dos sintomas que nos remete ao diagnóstico 
per se: o debate moral contemporâneo tem sido, segundo Ma-
cIntyre, dominado pelo emotivismo, “a doutrina segundo a 
qual juízos valorativos” — ou, mais especificamente, “todos 
os juízos morais” — “são nada mais que expressões de prefe-
rência, de atitude, de sentimentos, na medida em que tenham 
caráter moral ou valorativo”.
Por que digo, por que trago tudo isso a este livro que 
trata de hermenêutica jurídica?
Porque, no Direito, estamos vivendo a era do 
emotivismo. A era do saber nenhum. A era da distopia de 
MacIntyre. E isso é muito grave.
É grave porque, na era do emotivismo, o Direito 
deveria ser exatamente o critério para resolver os 
desacordos. Pois é: emotivizaram o critério. Direito virou 
questão de opinião, de juízo subjetivo. Trocaram o Direito 
pelo emotivismo da auctoritas. 
Como na distopia de MacIntyre, como em seu diagnóstico 
acerca do discurso moral contemporâneo, também o discurso 
jurídico brasileiro de nosso tempo parece convencido (ou, no 
mínimo, condescendente) diante da ideia que não há uma 
objetividade autêntica naquilo que se diz no Direito. 
Se, para MacIntyre, o discurso moral contemporâneo 
pode ser caracterizado por uma miríade de enunciados que, 
na mesma medida em que se pretendem teorias éticas, são 
nada mais que ficções que servem meramente a conferir uma 
espécie de verniz filosófico a posturas subjetivistas, pensamos 
que o direito brasileiro pode ser igualmente caracterizado 
por um sem-número de abordagens, propostas, posturas, 
institutos e “métodos” que, igualmente, servem tão somente 
de justificativas fictícias para o decisionismo judicial.
Se não é possível um consenso em uma sociedade 
dominada pelo emotivismo, se há uma rejeição à objetividade 
moral domina a raiz dos desacordos, a resposta, objetiva, deve 
vir a partir da objetividade da tradição do próprio Direito. 
Vivemos em tempos nos quais o pluralismo tornou-
se um relativismo raso que permite que se diga qualquer 
coisa sobre qualquer coisa. Um pesadelo para um ouriço 
como Dworkin, que visualizava um Direito capaz de 
prover aos cidadãos respostas institucionalmente justas, 
justamente institucionais, equânimes, íntegras, e dentro da 
ordem constitucional, observados os limites semânticos e as 
possibilidades interpretativas do texto. 
Ora, não se admitem mais posturas solipsistas e já 
aprendemos no passado que isso não dá certo. O processo 
de decisão deve ser compartilhado de forma transparente e 
fundamentada, respeitando a coerência e a integridade do Direito 
– o que já foi, no Brasil, institucionalizado de forma até mesmo 
positivada, com muita luta, no Código de Processo Civil 2015. 
Jürgen Habermas é sábio quando diz que é por 
intermédio do procedimento argumentativo que se busca 
uma cooperação verdadeira, e que existe uma relação de 
dependência nos processos democráticos das decisões 
públicas, legislativas e judiciais. Aliado ao pensamento de 
Dworkin, percebemos que um empreendimento político dessa 
magnitude está em constante desenvolvimento.
 Este reconhecimento é ainda mais necessário no 
contexto brasileiro, caracterizado pela intensa judicialização, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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a elas uma falsa independência. Esse (ainda) não é o diagnós-
tico (completo) oferecido por MacIntyre; é, em verdade, uma 
das causas e um dos sintomas que nos remete ao diagnóstico 
per se: o debate moral contemporâneo tem sido, segundo Ma-
cIntyre, dominado pelo emotivismo, “a doutrina segundo a 
qual juízos valorativos” — ou, mais especificamente, “todos 
os juízos morais” — “são nada mais que expressões de prefe-
rência, de atitude, de sentimentos, na medida em que tenham 
caráter moral ou valorativo”.
Por que digo, por que trago tudo isso a este livro que 
trata de hermenêutica jurídica?
Porque, no Direito, estamos vivendo a era do 
emotivismo. A era do saber nenhum. A era da distopia de 
MacIntyre. E isso é muito grave.
É grave porque, na era do emotivismo, o Direito 
deveria ser exatamente o critério para resolver os 
desacordos. Pois é: emotivizaram o critério. Direito virou 
questão de opinião, de juízo subjetivo. Trocaram o Direito 
pelo emotivismo da auctoritas. 
Como na distopia de MacIntyre, como em seu diagnóstico 
acerca do discurso moral contemporâneo, também o discurso 
jurídico brasileiro de nosso tempo parece convencido (ou, no 
mínimo, condescendente) diante da ideia que não há uma 
objetividade autêntica naquilo que se diz no Direito. 
Se, para MacIntyre, o discurso moral contemporâneo 
pode ser caracterizado por uma miríade de enunciados que, 
na mesma medida em que se pretendem teorias éticas, são 
nada mais que ficções que servem meramente a conferir uma 
espécie de verniz filosófico a posturas subjetivistas, pensamos 
que o direito brasileiro pode ser igualmente caracterizado 
por um sem-número de abordagens, propostas, posturas, 
institutos e “métodos” que, igualmente, servem tão somente 
de justificativas fictícias para o decisionismo judicial.
Se não é possível um consenso em uma sociedade 
dominada pelo emotivismo, se há uma rejeição à objetividade 
moral domina a raiz dos desacordos, a resposta, objetiva, deve 
vir a partir da objetividade da tradição do próprio Direito. 
Vivemos em tempos nos quais o pluralismo tornou-
se um relativismo raso que permite que se diga qualquer 
coisa sobre qualquer coisa. Um pesadelo para um ouriço 
como Dworkin, que visualizava um Direito capaz de 
prover aos cidadãos respostas institucionalmente justas, 
justamente institucionais, equânimes, íntegras, e dentro da 
ordem constitucional, observados os limites semânticos e as 
possibilidades interpretativas do texto. 
Ora, não se admitem mais posturas solipsistas e já 
aprendemos no passado que isso não dá certo. O processo 
de decisão deve ser compartilhado de forma transparente e 
fundamentada, respeitando a coerência e a integridade do Direito 
– o que já foi, no Brasil, institucionalizado de forma até mesmo 
positivada, com muita luta, no Código de Processo Civil 2015. 
Jürgen Habermas é sábio quando diz que é por 
intermédio do procedimento argumentativo que se busca 
uma cooperação verdadeira, e que existe uma relação de 
dependência nos processos democráticos das decisões 
públicas, legislativas e judiciais. Aliado ao pensamento de 
Dworkin, percebemos que um empreendimento político dessa 
magnitude está em constante desenvolvimento.
 Este reconhecimento é ainda mais necessário no 
contexto brasileiro, caracterizado pela intensa judicialização, 
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COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
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que coloca o Judiciário no centro do debate político e pela 
dificuldade de se fazer cumprir a Constituição.
Hermeneuticamente, é possível afirmar que há sempre 
um chão linguístico no qual está assentada a tradição que 
envolve um determinado conceito ou enunciado. A resposta 
nunca pode vir antes das perguntas; perguntas, por sua vezimplicam o necessário estabelecimento de critérios a partir dos 
quais se pode encontrar respostas adequadas. 
Esse é o ponto. Em um cenário de predomínio 
subjetivista subjacente aos desacordos que nos definem 
enquanto sociedade, o Direito deve resolvê-los para além 
dessa fatalidade emotivista. A resposta correta, portanto, está 
na tradição do próprio Direito enquanto fenômeno; não está 
na preferência, na atitude, na vontade do intérprete.
As respostas não vêm antes das perguntas e o Direito 
é um fenômeno interpretativo; não encerraríamos questões 
tão complexas aqui nem mesmo se quiséssemos. Ainda assim, 
é possível dizer que só há saída democrática a partir de um 
fenômeno jurídico compreendido em consonância com nossa 
facticidade, nossas próprias circunstâncias que definem as 
instituições do país. 
Nesse sentido, é papel da doutrina engajar-se na 
busca de uma teoria da decisão judicial, fiel ao Direito e aos 
sentidos que a tradição da própria pratica impõe; uma teoria 
responsável, ela, sim, por estabelecer esses critérios que 
definem as diretrizes de uma resposta institucional adequada 
e democrática, a única que pode resolver nossos desacordos 
para além do emotivismo que nos tem derrotado.
O Direito tem sido já de há muito o lócus privilegiado 
do Saber Nenhum.
A angústia epistemológica e a filosofia no 
Direito
Dia desses lia sobre a angústia e o seu surgimento. A 
angústia é um fenômeno moderno. Tinha-se a angústia mas 
não se sabia que se tinha. 
A partir de Kierkegaard, que podemos chamar de 
primeiro filósofo de cunho mais existencial, e depois com 
Sartre e Heidegger, é que a temática da angústia teve o lugar 
central. Freud entendeu bem isso e buscou explicar o papel da 
angústia. Pois bem. A hermenêutica tem um caráter existencial. 
Claro, falo da hermenêutica filosófica, herdeira 
da filosofia hermenêutica. Warat, embora não fosse um 
hermeneuta, bem falava que seu objetivo como professor era 
provocar angústia nos alunos. Ele chamava a isso de angústia 
epistemológica. Eu tinha acabado de ter a primeira aula com 
Warat. Saí esburacado. Warat abriu um rombo nas minhas 
parcas certezas. Isso foi em 1983. 
Pois a hermenêutica e a psicanálise fazem isso: 
desconcertam. Tiram as certezas das cartografias pré-
modernas. Pascal olha para o firmamento e vê todas aquelas 
estrelas e diz: como fico angustiado. Dasein, o ser-aí de 
Heidegger, vem a ser saber que sabemos. Por que estou 
dizendo isso? Simples. E complexo. 
A literatura tem esse mesmo papel que é exercido pela 
hermenêutica e pela psicanálise. Pela ficção ou pelo realismo, 
ou seja, por qualquer corrente literária que for, nossas certezas 
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COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
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que coloca o Judiciário no centro do debate político e pela 
dificuldade de se fazer cumprir a Constituição.
Hermeneuticamente, é possível afirmar que há sempre 
um chão linguístico no qual está assentada a tradição que 
envolve um determinado conceito ou enunciado. A resposta 
nunca pode vir antes das perguntas; perguntas, por sua vez 
implicam o necessário estabelecimento de critérios a partir dos 
quais se pode encontrar respostas adequadas. 
Esse é o ponto. Em um cenário de predomínio 
subjetivista subjacente aos desacordos que nos definem 
enquanto sociedade, o Direito deve resolvê-los para além 
dessa fatalidade emotivista. A resposta correta, portanto, está 
na tradição do próprio Direito enquanto fenômeno; não está 
na preferência, na atitude, na vontade do intérprete.
As respostas não vêm antes das perguntas e o Direito 
é um fenômeno interpretativo; não encerraríamos questões 
tão complexas aqui nem mesmo se quiséssemos. Ainda assim, 
é possível dizer que só há saída democrática a partir de um 
fenômeno jurídico compreendido em consonância com nossa 
facticidade, nossas próprias circunstâncias que definem as 
instituições do país. 
Nesse sentido, é papel da doutrina engajar-se na 
busca de uma teoria da decisão judicial, fiel ao Direito e aos 
sentidos que a tradição da própria pratica impõe; uma teoria 
responsável, ela, sim, por estabelecer esses critérios que 
definem as diretrizes de uma resposta institucional adequada 
e democrática, a única que pode resolver nossos desacordos 
para além do emotivismo que nos tem derrotado.
O Direito tem sido já de há muito o lócus privilegiado 
do Saber Nenhum.
A angústia epistemológica e a filosofia no 
Direito
Dia desses lia sobre a angústia e o seu surgimento. A 
angústia é um fenômeno moderno. Tinha-se a angústia mas 
não se sabia que se tinha. 
A partir de Kierkegaard, que podemos chamar de 
primeiro filósofo de cunho mais existencial, e depois com 
Sartre e Heidegger, é que a temática da angústia teve o lugar 
central. Freud entendeu bem isso e buscou explicar o papel da 
angústia. Pois bem. A hermenêutica tem um caráter existencial. 
Claro, falo da hermenêutica filosófica, herdeira 
da filosofia hermenêutica. Warat, embora não fosse um 
hermeneuta, bem falava que seu objetivo como professor era 
provocar angústia nos alunos. Ele chamava a isso de angústia 
epistemológica. Eu tinha acabado de ter a primeira aula com 
Warat. Saí esburacado. Warat abriu um rombo nas minhas 
parcas certezas. Isso foi em 1983. 
Pois a hermenêutica e a psicanálise fazem isso: 
desconcertam. Tiram as certezas das cartografias pré-
modernas. Pascal olha para o firmamento e vê todas aquelas 
estrelas e diz: como fico angustiado. Dasein, o ser-aí de 
Heidegger, vem a ser saber que sabemos. Por que estou 
dizendo isso? Simples. E complexo. 
A literatura tem esse mesmo papel que é exercido pela 
hermenêutica e pela psicanálise. Pela ficção ou pelo realismo, 
ou seja, por qualquer corrente literária que for, nossas certezas 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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caem por terra. Veja o papel das distopias. Como elas acabam 
se realizando, para desgraça da humanidade. É claro que, 
no Direito, falar em utopias e distopias provoca ruídos. Isso 
angustia o jurista. 
O problema é que por vezes ele sequer sabe que está 
angustiado. Por vezes ele nem quer enfrentar isso. Não quer o 
estranhamento. Por que os juristas gostam tanto de conceitos 
prontos, enunciados, súmulas? Porque isso lhes dá uma tran-
quilidade. É como voltar ao ventre da pré-modernidade, em 
que tudo está posto. Todas as cartografias asseguram a certeza. 
Respostas antes das perguntas, eis a terra prometida 
pelo pensamento dogmático do direito, herdeiro do velho 
positivismo. A literatura ajuda a existencializar o direito. 
Por isso, o que está sempre mais próximo da literatura 
é a hermenêutica. A angústia, para ser “tratada”, exige 
intermediação. Exige o outro. Não dá mais para fazer 
sacrifícios aos deuses. Agora estamos frente a frente com nós 
mesmos. Com nossos fantasmas. Com a existência nossa e 
dos outros. Deus morreu, e agora é que não podemos fazer 
tudo. Ou qualquer coisa.
 Pois o Direito trata dessa nossa relação com o mundo, 
com as coisas. Democracia, direitos sociais, cidadania: isso 
ocorre como uma conquista intermediada. Literatura faz 
intermediação existencial. Hermenêutica, no sentido que a 
trabalho na minha Crítica Hermenêutica do Direito, também. 
Não é por nada que a tese central de Dworkin é o 
romance em cadeia para descrever a resposta-sentença no 
Direito: uma atividade construtivo-interpretativa conjunta, na 
qual cada autor-juiz dá continuidade à prática, em respeito ao 
que veio antes, colocando-a sob sua melhor luz em nome do 
que vem depois.
O papel do intérprete-juiz é o de fazer ajustes (fit). 
Esse é o ponto em que se encontram Direito e literatura: no 
tratamento da angústia epistemológica. O jurista, inserido 
no senso comum teórico, não sabe que não sabe. A literatura 
metaforiza essa relação inconclusa. Nomina coisas. Faz coisas 
com palavras, como diria Austin – não o do positivismo, mas o 
da linguagem ordinária. J. L. Austin.
Por isso, no princípio era a angústia epistemológica, 
pode-se dizer. Nada que Shakespeare, Machado, 
Cervantes e Swift nãopossam tratar. Por fim, com relação 
à desconfiança de Ernildo Stein em relação à questão 
metodológica da relação direito e literatura, eu posso dizer 
que a compreendo, no mesmo modo que eu desconfio da 
Filosofia do Direito. Talvez ele não aceite que a literatura 
seja apenas um ornamento no discurso jurídico, assim 
como eu não quero que a filosofia seja apenas ornamental 
no direito. Nisso estamos juntos. A filosofia tem de ser no 
Direito. E não “do”. E a literatura está no cerne existencial 
do Direito. E não apenas para fazer erudição ou retórica
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
90 91
caem por terra. Veja o papel das distopias. Como elas acabam 
se realizando, para desgraça da humanidade. É claro que, 
no Direito, falar em utopias e distopias provoca ruídos. Isso 
angustia o jurista. 
O problema é que por vezes ele sequer sabe que está 
angustiado. Por vezes ele nem quer enfrentar isso. Não quer o 
estranhamento. Por que os juristas gostam tanto de conceitos 
prontos, enunciados, súmulas? Porque isso lhes dá uma tran-
quilidade. É como voltar ao ventre da pré-modernidade, em 
que tudo está posto. Todas as cartografias asseguram a certeza. 
Respostas antes das perguntas, eis a terra prometida 
pelo pensamento dogmático do direito, herdeiro do velho 
positivismo. A literatura ajuda a existencializar o direito. 
Por isso, o que está sempre mais próximo da literatura 
é a hermenêutica. A angústia, para ser “tratada”, exige 
intermediação. Exige o outro. Não dá mais para fazer 
sacrifícios aos deuses. Agora estamos frente a frente com nós 
mesmos. Com nossos fantasmas. Com a existência nossa e 
dos outros. Deus morreu, e agora é que não podemos fazer 
tudo. Ou qualquer coisa.
 Pois o Direito trata dessa nossa relação com o mundo, 
com as coisas. Democracia, direitos sociais, cidadania: isso 
ocorre como uma conquista intermediada. Literatura faz 
intermediação existencial. Hermenêutica, no sentido que a 
trabalho na minha Crítica Hermenêutica do Direito, também. 
Não é por nada que a tese central de Dworkin é o 
romance em cadeia para descrever a resposta-sentença no 
Direito: uma atividade construtivo-interpretativa conjunta, na 
qual cada autor-juiz dá continuidade à prática, em respeito ao 
que veio antes, colocando-a sob sua melhor luz em nome do 
que vem depois.
O papel do intérprete-juiz é o de fazer ajustes (fit). 
Esse é o ponto em que se encontram Direito e literatura: no 
tratamento da angústia epistemológica. O jurista, inserido 
no senso comum teórico, não sabe que não sabe. A literatura 
metaforiza essa relação inconclusa. Nomina coisas. Faz coisas 
com palavras, como diria Austin – não o do positivismo, mas o 
da linguagem ordinária. J. L. Austin.
Por isso, no princípio era a angústia epistemológica, 
pode-se dizer. Nada que Shakespeare, Machado, 
Cervantes e Swift não possam tratar. Por fim, com relação 
à desconfiança de Ernildo Stein em relação à questão 
metodológica da relação direito e literatura, eu posso dizer 
que a compreendo, no mesmo modo que eu desconfio da 
Filosofia do Direito. Talvez ele não aceite que a literatura 
seja apenas um ornamento no discurso jurídico, assim 
como eu não quero que a filosofia seja apenas ornamental 
no direito. Nisso estamos juntos. A filosofia tem de ser no 
Direito. E não “do”. E a literatura está no cerne existencial 
do Direito. E não apenas para fazer erudição ou retórica
93
Os modelos de professor
Se juízes, integrantes do Ministério Público e advogados 
passaram pela Faculdade de Direito, talvez seja lá que esteja 
o paciente zero da epidemia do direito brasileiro. Então, 
em contraposição aos modelos de juiz, tracei seis tipos de 
professores. 
Professor neoconstitucionalista: faz show para os 
alunos. Comunica, de forma espetacular, que o juiz boca 
da lei morreu e em seu lugar está o juiz dos princípios. 
Ele também leciona Direito fofinho. É o professor 
pamprincipiologista. Tem um caso difícil? Use um princípio. 
Ele se diz pós-positivista. Por exemplo, uma regra do Código 
Civil que trata do direito sucessório pode ser derrotada 
por um “princípio” como o da afetividade. Esse modelo 
de professor parece usar o fator Groucho Marx: esses são 
os meus princípios; mas se você não gosta deles, eu tenho 
outros! Sempre tem chance de ser o paraninfo da turma. 
Professor realista-retrô: diz para os alunos que o Direito 
é o que o Judiciário diz que é. Usa preferentemente livros com 
prêt-à-porters jurisprudenciais e ementários. Também se diz 
pós-positivista. O Direito será sempre o que algum verbete 
jurisprudencial ou súmula disser que é. Gosta também de 
usar enunciados feitos em workshops jurídicos. Também 
gosta de usar a pesquisa dos juízes de Israel, que “constatou” 
que os juízes com fome são mais rígidos. Conclusão: o Direito 
é o que a fome dos juízes diz que é. E coisas desse gênero. 
A única coisa que o professor realista retrô não explica é o 
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Os modelos de professor
Se juízes, integrantes do Ministério Público e advogados 
passaram pela Faculdade de Direito, talvez seja lá que esteja 
o paciente zero da epidemia do direito brasileiro. Então, 
em contraposição aos modelos de juiz, tracei seis tipos de 
professores. 
Professor neoconstitucionalista: faz show para os 
alunos. Comunica, de forma espetacular, que o juiz boca 
da lei morreu e em seu lugar está o juiz dos princípios. 
Ele também leciona Direito fofinho. É o professor 
pamprincipiologista. Tem um caso difícil? Use um princípio. 
Ele se diz pós-positivista. Por exemplo, uma regra do Código 
Civil que trata do direito sucessório pode ser derrotada 
por um “princípio” como o da afetividade. Esse modelo 
de professor parece usar o fator Groucho Marx: esses são 
os meus princípios; mas se você não gosta deles, eu tenho 
outros! Sempre tem chance de ser o paraninfo da turma. 
Professor realista-retrô: diz para os alunos que o Direito 
é o que o Judiciário diz que é. Usa preferentemente livros com 
prêt-à-porters jurisprudenciais e ementários. Também se diz 
pós-positivista. O Direito será sempre o que algum verbete 
jurisprudencial ou súmula disser que é. Gosta também de 
usar enunciados feitos em workshops jurídicos. Também 
gosta de usar a pesquisa dos juízes de Israel, que “constatou” 
que os juízes com fome são mais rígidos. Conclusão: o Direito 
é o que a fome dos juízes diz que é. E coisas desse gênero. 
A única coisa que o professor realista retrô não explica é o 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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que foi ou é efetivamente a teoria do realismo jurídico (norte 
americano ou escandinavo). 
Professor TPP (teórico político do poder): esse é mix 
dos dois primeiros modelos. Prefere fazer teoria política do 
ser possível. Direito para ele é Poder. E pronto. Fica falando 
em ponderação a todo momento, embora não saiba o que seja 
a teoria alexyiana. Passa um semestre ou ano inteiro falando 
em ponderar, mas não explica, com o cuidado necessário, o 
que Alexy propõe. Sustenta que, sem ponderar, é impossível 
decidir. Também critica o positivismo, que, para ele, está 
morto, anunciando essa “boa nova” do mesmo modo como 
o professor neoconstitucionalista.
Professor dualista-metodológico: ele é um adepto 
do dualismo, só não sabe que é. Diz-se pós-positivista, 
só que nunca explicou por quê. Para ele, vale mais a voz 
das ruas que a Constituição. Se há uma dúvida entre um 
juízo moral e o Direito, ele fica com os juízos morais. Sem 
se dar conta de que quem disse isso foi Jellinek, fala todo 
tempo que as Constituições escritas rígidas não podem 
evitar que se desenvolva junto a elas e contra elas um 
Direito Constitucional não escrito, que vem das ruas e da 
consciência social. Assim, o professor dualista contrapõe 
a realidade social à Constituição e fica, obviamente, com a 
realidade social, pouco importando a força normativa da 
Constituição. Até acha que existem direitos demais e poucos 
deveres na Constituição. Faz piada com a Constituição, algo 
como “o peso da Constituiçãose sente quando alguém a atira 
em nossa cabeça” e coisas “engraçadas” assim. Quando fala 
da presunção da inocência, diz que tem muita violência por 
aí e por isso a interpretação do STF deve ser a que manda 
prender desde logo. Esse modelo de professor viola o tempo 
todo a lei de Hume: do “é” ele tira um “deve ser”. Só o que 
ele não explica é o que, de fato, é o dualismo metodológico. 
E nunca ouviu falar de David Hume. É consequencialista, 
mas nunca leu nada sobre isso.
Professor macete: acha que está dando aula no cursinho 
de preparação para concursos. Confunde os dois mundos: da 
faculdade e do cursinho. Por isso usa resumos, resuminhos, 
livros facilitados e coisas do gênero. O forte dele é o decoreba. 
Para isso, usa macetes. Fala mal de quem escreve de forma 
sofisticada. Diz que não lê textão. Faz muito sucesso junto aos 
alunos. Mais um que sempre tem chance de ser paraninfo.
E finalmente...
O sexto modelo é o mais tradicional e ao mesmo 
tempo simples: é o professor que ensina uma coisa velha 
chamada Direito. Pode-se chamá-lo de Maestro. Já desde 
o primeiro dia diz a que vem. Mostra as Eumênides, da 
trilogia Oresteia. Faz isso para ensinar que a vingança não 
pode se sobrepor ao Direito o Direito. Apresenta para os 
alunos um combo epistêmico que extrai da Oresteia: Direito 
Penal, Processual, Teoria do Direito e Direito Constitucional. 
O primeiro julgamento da história é da mitologia. Mas o 
professor Maestro demonstra como esse julgamento marca a 
história civilizacional do Direito. O modelo Maestro dispensa 
resumos e não gosta que os alunos fiquem usando celular em 
sala de aula. Cobra questões dissertativas nas provas. Usa da 
interdisciplinaridade. Quase nunca é escolhido paraninfo. E 
seu emprego sempre está em risco. Comparado aos modelos 
de juiz, o Maestro se assemelha ao minimalista de Cass 
Sunstein ou de Hermes, de Ost (guardadas as minhas reservas 
ao conceito que o autor belga deu ao modelo Hércules).
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
94 95
que foi ou é efetivamente a teoria do realismo jurídico (norte 
americano ou escandinavo). 
Professor TPP (teórico político do poder): esse é mix 
dos dois primeiros modelos. Prefere fazer teoria política do 
ser possível. Direito para ele é Poder. E pronto. Fica falando 
em ponderação a todo momento, embora não saiba o que seja 
a teoria alexyiana. Passa um semestre ou ano inteiro falando 
em ponderar, mas não explica, com o cuidado necessário, o 
que Alexy propõe. Sustenta que, sem ponderar, é impossível 
decidir. Também critica o positivismo, que, para ele, está 
morto, anunciando essa “boa nova” do mesmo modo como 
o professor neoconstitucionalista.
Professor dualista-metodológico: ele é um adepto 
do dualismo, só não sabe que é. Diz-se pós-positivista, 
só que nunca explicou por quê. Para ele, vale mais a voz 
das ruas que a Constituição. Se há uma dúvida entre um 
juízo moral e o Direito, ele fica com os juízos morais. Sem 
se dar conta de que quem disse isso foi Jellinek, fala todo 
tempo que as Constituições escritas rígidas não podem 
evitar que se desenvolva junto a elas e contra elas um 
Direito Constitucional não escrito, que vem das ruas e da 
consciência social. Assim, o professor dualista contrapõe 
a realidade social à Constituição e fica, obviamente, com a 
realidade social, pouco importando a força normativa da 
Constituição. Até acha que existem direitos demais e poucos 
deveres na Constituição. Faz piada com a Constituição, algo 
como “o peso da Constituição se sente quando alguém a atira 
em nossa cabeça” e coisas “engraçadas” assim. Quando fala 
da presunção da inocência, diz que tem muita violência por 
aí e por isso a interpretação do STF deve ser a que manda 
prender desde logo. Esse modelo de professor viola o tempo 
todo a lei de Hume: do “é” ele tira um “deve ser”. Só o que 
ele não explica é o que, de fato, é o dualismo metodológico. 
E nunca ouviu falar de David Hume. É consequencialista, 
mas nunca leu nada sobre isso.
Professor macete: acha que está dando aula no cursinho 
de preparação para concursos. Confunde os dois mundos: da 
faculdade e do cursinho. Por isso usa resumos, resuminhos, 
livros facilitados e coisas do gênero. O forte dele é o decoreba. 
Para isso, usa macetes. Fala mal de quem escreve de forma 
sofisticada. Diz que não lê textão. Faz muito sucesso junto aos 
alunos. Mais um que sempre tem chance de ser paraninfo.
E finalmente...
O sexto modelo é o mais tradicional e ao mesmo 
tempo simples: é o professor que ensina uma coisa velha 
chamada Direito. Pode-se chamá-lo de Maestro. Já desde 
o primeiro dia diz a que vem. Mostra as Eumênides, da 
trilogia Oresteia. Faz isso para ensinar que a vingança não 
pode se sobrepor ao Direito o Direito. Apresenta para os 
alunos um combo epistêmico que extrai da Oresteia: Direito 
Penal, Processual, Teoria do Direito e Direito Constitucional. 
O primeiro julgamento da história é da mitologia. Mas o 
professor Maestro demonstra como esse julgamento marca a 
história civilizacional do Direito. O modelo Maestro dispensa 
resumos e não gosta que os alunos fiquem usando celular em 
sala de aula. Cobra questões dissertativas nas provas. Usa da 
interdisciplinaridade. Quase nunca é escolhido paraninfo. E 
seu emprego sempre está em risco. Comparado aos modelos 
de juiz, o Maestro se assemelha ao minimalista de Cass 
Sunstein ou de Hermes, de Ost (guardadas as minhas reservas 
ao conceito que o autor belga deu ao modelo Hércules).
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
96 97
Defender a legalidade constitucional — conceito 
que aprendi há décadas com o grande constitucionalista 
espanhol Elias Diaz — é, como falei, um ato revolucionário, 
a ponto de poder afirmar que Professor Bingo é, hoje, um 
subversivo, se trabalhar, efetivamente, com a força normativa 
da Constituição. Esse professor, se estiver acompanhado de 
outros pesquisadores (quatro ou mais), corre sempre o risco de 
ser processado pelo crime de obstrução epistêmica da justiça.
Aqui, uma advertência: a “classificação” dos modelos 
de professor que lancei acima pretende apenas metaforizar 
o problema da crise do Direito. Uma crítica sempre corre o 
risco de provocar generalizações e até mesmo exageros. Não 
é minha intenção. Minhas críticas ao ensino jurídico vêm de 
mais de duas décadas. Warat ensinava que o ensino jurídico era 
responsável pela reprodução de uma dogmática jurídica que 
produzia próteses para fantasmas. Carlos Cárcova chamava 
a essa reprodução de “opacidade do Direito”. Isso ocorre 
graças ao senso comum teórico que predomina no imaginário 
jurídico. Com toda a lhaneza e fidalguia acadêmica, é possível 
dizer, face ao estado da arte da doutrina e da jurisprudências 
pátrias, que precisamos de professores que perfazem o perfil 
do sexto modelo. A vantagem é que ele não é excludente. E 
nem epistemicamente discriminatório. 
O que importa referir, ao fim e ao cabo, é que o deci-
sionismo se dá porque o Direito ensinado nas Faculdades se 
confunde com a moral, a economia e a política. Em vez de o Di-
reito filtrar a moral, a política e a economia, acaba, ele próprio, 
sendo filtrado por estes seus predadores naturais (de novo, é 
preciso dizer que a afirmação de que o Direito não pode ser 
corrigido por argumentos morais não significa, sob qualquer 
hipótese, que isto seja uma assertiva positivista). Por isso, fa-
zendo uma blague, pode-se dizer que as consequências vêm 
sempre depois, como “lecionava” o Conselheiro Acácio, carica-
to personagem do romance Primo Basílio, de Eça de Queiroz. 
Porque nada é por acaso, porque sempre há um paciente zero. 
Se se ensinasse Direito direito, a crise não seria tão grave. Não 
se insistiria, para dar um exemplo, em coisas como “Kelsen era 
um exegeta” ou “temos um sistema de precedentes”...!
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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Defender a legalidade constitucional — conceito 
que aprendi há décadas com o grande constitucionalista 
espanhol Elias Diaz— é, como falei, um ato revolucionário, 
a ponto de poder afirmar que Professor Bingo é, hoje, um 
subversivo, se trabalhar, efetivamente, com a força normativa 
da Constituição. Esse professor, se estiver acompanhado de 
outros pesquisadores (quatro ou mais), corre sempre o risco de 
ser processado pelo crime de obstrução epistêmica da justiça.
Aqui, uma advertência: a “classificação” dos modelos 
de professor que lancei acima pretende apenas metaforizar 
o problema da crise do Direito. Uma crítica sempre corre o 
risco de provocar generalizações e até mesmo exageros. Não 
é minha intenção. Minhas críticas ao ensino jurídico vêm de 
mais de duas décadas. Warat ensinava que o ensino jurídico era 
responsável pela reprodução de uma dogmática jurídica que 
produzia próteses para fantasmas. Carlos Cárcova chamava 
a essa reprodução de “opacidade do Direito”. Isso ocorre 
graças ao senso comum teórico que predomina no imaginário 
jurídico. Com toda a lhaneza e fidalguia acadêmica, é possível 
dizer, face ao estado da arte da doutrina e da jurisprudências 
pátrias, que precisamos de professores que perfazem o perfil 
do sexto modelo. A vantagem é que ele não é excludente. E 
nem epistemicamente discriminatório. 
O que importa referir, ao fim e ao cabo, é que o deci-
sionismo se dá porque o Direito ensinado nas Faculdades se 
confunde com a moral, a economia e a política. Em vez de o Di-
reito filtrar a moral, a política e a economia, acaba, ele próprio, 
sendo filtrado por estes seus predadores naturais (de novo, é 
preciso dizer que a afirmação de que o Direito não pode ser 
corrigido por argumentos morais não significa, sob qualquer 
hipótese, que isto seja uma assertiva positivista). Por isso, fa-
zendo uma blague, pode-se dizer que as consequências vêm 
sempre depois, como “lecionava” o Conselheiro Acácio, carica-
to personagem do romance Primo Basílio, de Eça de Queiroz. 
Porque nada é por acaso, porque sempre há um paciente zero. 
Se se ensinasse Direito direito, a crise não seria tão grave. Não 
se insistiria, para dar um exemplo, em coisas como “Kelsen era 
um exegeta” ou “temos um sistema de precedentes”...!
99
Meus livros, quem sou 
Sendo este um livro que quer, afinal, Compreender 
Direito direito, e, nisso, ultrapassar o senso comum teórico, 
nada mais adequado que, além de referências, recomendar 
livros que ajudam o leitor a... Compreender Direito direito, e, 
nisso, ultrapassar o senso comum teórico.
Abaixo, o leitor encontra uma série de referências, no 
sentido mais próprio do termo. Mas, antes, retomo aqui coisas 
que disse ainda em 2014, quando, em depoimento, falei sobre 
os livros de minha vida e a importância que tem a literatura 
para mim. Então, é claro, falei sobre mim e sobre minha vida. 
Falando sobre meus livros, falei sobre quem sou. 
Foi na escola que tive o primeiro contato com a leitura. 
Li e reli a cartilha que contava o cotidiano de Olavo e Élida e 
seu cachorro Bodoque. Depois vieram os livros do Monteiro 
Lobato, que falava do personagem Jeca Tatu. O livro era Urupês, 
com várias narrativas. Jeca era a representação do sujeito 
abandonado pelo Estado, um lumpen sujeito à enfermidades 
tropicais e explorado ao extremo. Claro que eu não entendia 
isso na época.
Paradoxalmente, ao lado do realismo de Lobato, ao 
mesmo tempo me deliciava com a figura do caboclo idealizado, 
retratado pelas músicas sertanejas. Lia todos os livrinhos que 
tinham as letras das músicas das duplas caipiras, como Jacó 
e Jacozinho, Liu e Leo, Tião Carreiro e Pardinho, Silveira e 
Silveirinha, Tonico e Tinoco e mais duas dezenas de duplas. 
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Meus livros, quem sou 
Sendo este um livro que quer, afinal, Compreender 
Direito direito, e, nisso, ultrapassar o senso comum teórico, 
nada mais adequado que, além de referências, recomendar 
livros que ajudam o leitor a... Compreender Direito direito, e, 
nisso, ultrapassar o senso comum teórico.
Abaixo, o leitor encontra uma série de referências, no 
sentido mais próprio do termo. Mas, antes, retomo aqui coisas 
que disse ainda em 2014, quando, em depoimento, falei sobre 
os livros de minha vida e a importância que tem a literatura 
para mim. Então, é claro, falei sobre mim e sobre minha vida. 
Falando sobre meus livros, falei sobre quem sou. 
Foi na escola que tive o primeiro contato com a leitura. 
Li e reli a cartilha que contava o cotidiano de Olavo e Élida e 
seu cachorro Bodoque. Depois vieram os livros do Monteiro 
Lobato, que falava do personagem Jeca Tatu. O livro era Urupês, 
com várias narrativas. Jeca era a representação do sujeito 
abandonado pelo Estado, um lumpen sujeito à enfermidades 
tropicais e explorado ao extremo. Claro que eu não entendia 
isso na época.
Paradoxalmente, ao lado do realismo de Lobato, ao 
mesmo tempo me deliciava com a figura do caboclo idealizado, 
retratado pelas músicas sertanejas. Lia todos os livrinhos que 
tinham as letras das músicas das duplas caipiras, como Jacó 
e Jacozinho, Liu e Leo, Tião Carreiro e Pardinho, Silveira e 
Silveirinha, Tonico e Tinoco e mais duas dezenas de duplas. 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
100 101
Meu tio Leonel fazia dupla com seu amigo Xará. Tudo o que 
existia de caderninhos de letras ele tinha. As músicas caipiras, 
em muitos casos, contam tragédias, como que a repetir o que 
as óperas retratam. Mas ópera só vim a conhecer depois que 
casei. Tenho até hoje uma vitrola para escutar vinis. Escutar 
Fidélio tomando um bom vinho na Dacha de São José do 
Herval não tem preço. Com aquele chiadinho que só o disco 
de vinil possui.
Ainda menino, durante o ensino fundamental, devorava 
a Revista do Esporte e o jornal da época que meu pai assinava 
(e que vinha atrasado), o Correio do Povo. Lá onde eu nasci, 
na Várzea do Agudo (terra do Bagualossauro, o mais antigo 
dinossauro do mundo!), onde o mato não tem fecho, como 
diria Guimarães Rosa, tudo chegava tarde. Acho que até eu, 
porque muito cedo me mudei para tentar a sorte na cidade.
Na escola, o livro que mais me influenciou foi o 
Compêndio de História do Brasil. Ele me influenciou tanto que, 
terminada a graduação em Direito, fiz dois cursos de pós-
graduação em História, uma da América Latina e outra do Rio 
Grande do Sul.
Um pouco mais velho, passei a me interessar mais por 
gibis. Tinha inveja dos meninos que tinham coleções de gibis. 
No colegial morava com minha irmã e era obrigado a ser o 
primeiro da classe. Lia o que os professores indicavam. No 
colegial, lia sobre a história do Brasil, além de José Lins do 
Rego e Machado de Assis.
Eu cursei a Faculdade de Direito com meia dúzia de 
livros. Era o que se tinha, além das xerox que desbotavam. 
Cursei Direito com muita dificuldade. Ouvi falar de Kelsen 
quando fiz pós-graduação em Teoria Geral do Direito, antes do 
mestrado. Quando fui apresentado à Teoria Pura do Direito, 
em 1983, pensei: impossível entender isso...
Larguei o futebol para estudar e trabalhar. Queria 
mesmo era jogar futebol. Tive uma breve experiência semi-
profissional no ludopedismo. Optei pelo Direito, que me 
pareceu adequado ao que eu pensava sobre a sociedade, a 
ditadura militar.
 Achava que o Direito era o modo de enfrentar isso. 
Quando menino, vi meu pai ser levado pelo exército, logo 
após o golpe militar. Aquilo me marcou profundamente. E, é 
claro, queria cursar direito para ganhar algum dinheiro, já que 
vinha de um périplo de sobrevivência. Quando eu era criança, 
meu pai me ensinou a dizer, em alemão, que eu queria ser 
advogado para tirar o dinheiro dos trouxas. Em todo lugar – o 
que me envergonha às pampas - ele me chamava e perguntava: 
o que tu vais ser quando crescer? E eu declinava a ladainha. 
“Quando eu for grande...”. Decorei e era mais ou menos assim: 
Wenn ich gross bin, möchte ich ein Avokat sein, zu die Dummen das 
Geld abnehmen. Dizia “Avokat” em vez de Anwalt. E a frase nem 
estava bem correta. Mas foi a que decorei.
Meus livros. Fui salvo pelos livros. A literatura narra o 
mundo melhor que o direito e a própriahistória. A certidão de 
nascimento do Brasil é um texto literário, A Carta de Pero Vaz de 
Caminha. E quem poderia contar melhor o Brasil que Machado 
de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Monteiro 
Lobato? Como entender o Direito Penal sem ler o conto Suje-
se Gordo, de Machado? Ou entender o patrimonialismo e o 
estamentismo sem ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo 
maior feito foi o de não ter deixado herdeiros, de tão pilantra 
e patife que era? 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
100 101
Meu tio Leonel fazia dupla com seu amigo Xará. Tudo o que 
existia de caderninhos de letras ele tinha. As músicas caipiras, 
em muitos casos, contam tragédias, como que a repetir o que 
as óperas retratam. Mas ópera só vim a conhecer depois que 
casei. Tenho até hoje uma vitrola para escutar vinis. Escutar 
Fidélio tomando um bom vinho na Dacha de São José do 
Herval não tem preço. Com aquele chiadinho que só o disco 
de vinil possui.
Ainda menino, durante o ensino fundamental, devorava 
a Revista do Esporte e o jornal da época que meu pai assinava 
(e que vinha atrasado), o Correio do Povo. Lá onde eu nasci, 
na Várzea do Agudo (terra do Bagualossauro, o mais antigo 
dinossauro do mundo!), onde o mato não tem fecho, como 
diria Guimarães Rosa, tudo chegava tarde. Acho que até eu, 
porque muito cedo me mudei para tentar a sorte na cidade.
Na escola, o livro que mais me influenciou foi o 
Compêndio de História do Brasil. Ele me influenciou tanto que, 
terminada a graduação em Direito, fiz dois cursos de pós-
graduação em História, uma da América Latina e outra do Rio 
Grande do Sul.
Um pouco mais velho, passei a me interessar mais por 
gibis. Tinha inveja dos meninos que tinham coleções de gibis. 
No colegial morava com minha irmã e era obrigado a ser o 
primeiro da classe. Lia o que os professores indicavam. No 
colegial, lia sobre a história do Brasil, além de José Lins do 
Rego e Machado de Assis.
Eu cursei a Faculdade de Direito com meia dúzia de 
livros. Era o que se tinha, além das xerox que desbotavam. 
Cursei Direito com muita dificuldade. Ouvi falar de Kelsen 
quando fiz pós-graduação em Teoria Geral do Direito, antes do 
mestrado. Quando fui apresentado à Teoria Pura do Direito, 
em 1983, pensei: impossível entender isso...
Larguei o futebol para estudar e trabalhar. Queria 
mesmo era jogar futebol. Tive uma breve experiência semi-
profissional no ludopedismo. Optei pelo Direito, que me 
pareceu adequado ao que eu pensava sobre a sociedade, a 
ditadura militar.
 Achava que o Direito era o modo de enfrentar isso. 
Quando menino, vi meu pai ser levado pelo exército, logo 
após o golpe militar. Aquilo me marcou profundamente. E, é 
claro, queria cursar direito para ganhar algum dinheiro, já que 
vinha de um périplo de sobrevivência. Quando eu era criança, 
meu pai me ensinou a dizer, em alemão, que eu queria ser 
advogado para tirar o dinheiro dos trouxas. Em todo lugar – o 
que me envergonha às pampas - ele me chamava e perguntava: 
o que tu vais ser quando crescer? E eu declinava a ladainha. 
“Quando eu for grande...”. Decorei e era mais ou menos assim: 
Wenn ich gross bin, möchte ich ein Avokat sein, zu die Dummen das 
Geld abnehmen. Dizia “Avokat” em vez de Anwalt. E a frase nem 
estava bem correta. Mas foi a que decorei.
Meus livros. Fui salvo pelos livros. A literatura narra o 
mundo melhor que o direito e a própria história. A certidão de 
nascimento do Brasil é um texto literário, A Carta de Pero Vaz de 
Caminha. E quem poderia contar melhor o Brasil que Machado 
de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Monteiro 
Lobato? Como entender o Direito Penal sem ler o conto Suje-
se Gordo, de Machado? Ou entender o patrimonialismo e o 
estamentismo sem ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo 
maior feito foi o de não ter deixado herdeiros, de tão pilantra 
e patife que era? 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
102 103
Quantos Conselheiros Acácios, personagem de Primo 
Basílio, de Eça de Queiroz, encontramos por ai todos os 
dias? Sua máxima: “As consequências vêm sempre depois”! E 
quando vemos neonéscios por ai, como explicá-los sem ler A 
Teoria do medalhão, de Machado, em que o pai dá conselhos ao 
filho com inópia mental, como “Em vez de fazer um tratado 
sobre carneiros, compre um e asse para os amigos que você 
quer influenciar”. 
É demais, não? Livros «à mancheias”, como dizia 
Castro Alves. Quer estudar hermenêutica? Como não, para 
tanto, ignorar Medida por Medida, de Shakespeare? E a noção 
de imaginário, adiantada em cem anos por Machado de Assis, 
com o conto Ideias de Canário?
Tenho os meus livros favoritos, como Antígona, de Sófo-
cles, onde se discute pela primeira vez a relação “lei-Direito”; 
Hécuba, de Eurípedes, em que se mostra a tragédia da guerra 
pela voz das mulheres; Oresteia, de Ésquilo, onde aparece pela 
primeira vez a autonomia do Direito; O Nome da Rosa, de Um-
berto Eco, em que podemos aprender o papel do nominalis-
mo e da semiótica; O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, 
maior romance do século XX, que mostra, antes de começar, o 
declínio do homem na era da técnica; As Vinhas da Ira, roman-
ce político de engajamento de John Steinbeck; As Aventuras 
de Gulliver, de Swift, pelo qual podemos aprender a relação 
regra-princípio; Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, em 
que o personagem Humpty Dumpty é a própria encarnação 
do juiz solipsista — que decide pela própria vontade. A Novela 
do Curioso Impertinente, de Cervantes. Por ali podemos apreen-
der o que é a verdade real, na qual acreditava o personagem 
Alcelmo, buscando uma espécie de “fidelidade essencialista”. 
Veremos, ali, a “trampa” que é a tal “verdade real”. E gosto de 
todos do Bertolt Brecht, especialmente A Santa Joana dos Ma-
tadouros e o O Círculo de Giz Caucasiano. E quem resiste a Cem 
Anos de Solidão? “Naquela pequena Macondo, as coisas ainda 
eram tão recentes, que, para dirigirmo-nos a elas tínhamos que 
apontar com o dedo, porque ainda não tinham nome.”
Li várias vezes o livro 1984, de George Orwell, para en-
tender o papel do passado, presente e futuro e o valor da lin-
guagem. Além desse, também tive de reler O Senhor das Mos-
cas, de William Golding, para revisitar a teoria contratualista 
de Hobbes e O Nome da Rosa, de Eco, para entender o nomina-
lismo e de como este é uma forma de positivismo. 
Tenho muito interesse por filosofia. Acho que não 
há mundo sem filosofia, e não há Direito sem filosofia. Os 
juristas acham que é possível estudar direito blindando-o 
da filosofia. Tem até autores importantes como Alexy que, 
ao que parece, acredita ser possível fazer teoria do direito 
sem filosofia. Mas não dá.
Gosto também de poemas. Meus preferidos são 
Manoel de Barros e cito de cor um pedaço de O Apanhador de 
Desperdícios: 
“Uso as palavras para compor meus silêncios; não 
gosto das palavras fatigadas de informar; queria que 
minha voz tivesse um formato de canto; porque eu não 
sou da informática; eu sou da invencionática: só uso as 
palavras para compor meus silêncios”. 
Não é lindo? E o que dizer de Stephen Georg: “Que nada 
seja onde fracassa a palavra”, de onde eu tirei uma espécie de 
poema meu, em que digo: “A palavra é pá-que-lavra, porque 
vai abrindo sulcos na imaginação, onde nascem as sementes 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
102 103
Quantos Conselheiros Acácios, personagem de Primo 
Basílio, de Eça de Queiroz, encontramos por ai todos os 
dias? Sua máxima: “As consequências vêm sempre depois”! E 
quando vemos neonéscios por ai, como explicá-los sem ler A 
Teoria do medalhão, de Machado, em que o pai dá conselhos ao 
filho com inópia mental, como “Em vez de fazer um tratado 
sobre carneiros, compre um e asse para os amigos que você 
quer influenciar”. 
É demais, não? Livros «à mancheias”, como dizia 
Castro Alves. Quer estudar hermenêutica? Como não, para 
tanto, ignorar Medida por Medida, de Shakespeare? E a noção 
de imaginário, adiantada em cem anos por Machadode Assis, 
com o conto Ideias de Canário?
Tenho os meus livros favoritos, como Antígona, de Sófo-
cles, onde se discute pela primeira vez a relação “lei-Direito”; 
Hécuba, de Eurípedes, em que se mostra a tragédia da guerra 
pela voz das mulheres; Oresteia, de Ésquilo, onde aparece pela 
primeira vez a autonomia do Direito; O Nome da Rosa, de Um-
berto Eco, em que podemos aprender o papel do nominalis-
mo e da semiótica; O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, 
maior romance do século XX, que mostra, antes de começar, o 
declínio do homem na era da técnica; As Vinhas da Ira, roman-
ce político de engajamento de John Steinbeck; As Aventuras 
de Gulliver, de Swift, pelo qual podemos aprender a relação 
regra-princípio; Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, em 
que o personagem Humpty Dumpty é a própria encarnação 
do juiz solipsista — que decide pela própria vontade. A Novela 
do Curioso Impertinente, de Cervantes. Por ali podemos apreen-
der o que é a verdade real, na qual acreditava o personagem 
Alcelmo, buscando uma espécie de “fidelidade essencialista”. 
Veremos, ali, a “trampa” que é a tal “verdade real”. E gosto de 
todos do Bertolt Brecht, especialmente A Santa Joana dos Ma-
tadouros e o O Círculo de Giz Caucasiano. E quem resiste a Cem 
Anos de Solidão? “Naquela pequena Macondo, as coisas ainda 
eram tão recentes, que, para dirigirmo-nos a elas tínhamos que 
apontar com o dedo, porque ainda não tinham nome.”
Li várias vezes o livro 1984, de George Orwell, para en-
tender o papel do passado, presente e futuro e o valor da lin-
guagem. Além desse, também tive de reler O Senhor das Mos-
cas, de William Golding, para revisitar a teoria contratualista 
de Hobbes e O Nome da Rosa, de Eco, para entender o nomina-
lismo e de como este é uma forma de positivismo. 
Tenho muito interesse por filosofia. Acho que não 
há mundo sem filosofia, e não há Direito sem filosofia. Os 
juristas acham que é possível estudar direito blindando-o 
da filosofia. Tem até autores importantes como Alexy que, 
ao que parece, acredita ser possível fazer teoria do direito 
sem filosofia. Mas não dá.
Gosto também de poemas. Meus preferidos são 
Manoel de Barros e cito de cor um pedaço de O Apanhador de 
Desperdícios: 
“Uso as palavras para compor meus silêncios; não 
gosto das palavras fatigadas de informar; queria que 
minha voz tivesse um formato de canto; porque eu não 
sou da informática; eu sou da invencionática: só uso as 
palavras para compor meus silêncios”. 
Não é lindo? E o que dizer de Stephen Georg: “Que nada 
seja onde fracassa a palavra”, de onde eu tirei uma espécie de 
poema meu, em que digo: “A palavra é pá-que-lavra, porque 
vai abrindo sulcos na imaginação, onde nascem as sementes 
105
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
104
da significação”.
Gosto também de Hilde Domin, que diz: “Palavras 
e coisas jaziam juntos, tinham a mesma temperatura”. E 
eu acrescentei: “E depois se separaram e nunca mais se 
encontraram”. O próprio Heidegger tem poemas, como: “A 
linguagem é a casa do ser, nessa casa mora o homem, os poetas 
e os pensadores são os vigilantes dessa morada”. Ou T.S. Eliot: 
“Em um país de fugitivos, quem anda na contramão parece 
que está fugindo”.
“Em um país de fugitivos, quem anda na contramão 
parece que está fugindo”. É isso. Finalmente, então, deixo o 
leitor com aquilo que serviu mais diretamente de referência 
expressa a estes escritos. E que o caro leitor não se esqueça 
que, em um país de fugitivos, quem anda na contramão parece 
estar fugindo; que, em um país de voluntaristas e realistas, 
quem defende a legalidade é taxado de “positivista” — o que 
não apenas significa ignorância, como também um sintoma 
dos efeitos deletérios que uma má teoria do Direito provocou, 
e continua provocando, no seio do direito brasileiro.
Mas há cura: a boa leitura. Então, com saudações 
acadêmicas,
Boa leitura! Que se angustiem! Como diria Dworkin, 
apenas assim correrão o perigo de se tornarem interessantes.
Do Lenio Streck, escrito na Dacha de São José do 
Herval, no inverno de 2019, ilhado por forte nevoeiro 
– que insiste em coçar as costas no janelão que dá vista 
ao vale que se estende entre as montanhas –, sorvendo, 
com Rosane, goles generosos de uma bela infusão de 
Ilex Paraguaienses.
Sugestões de leitura e referências:
ABBOUD, Georges. Processo Constitucional Brasileiro. 2. ed. 
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018.
BANKOWSKI, Zenon; MACCORMICK, Neil; MORAWSKI, 
Lech; RUIZ MIGUEL, Alfonso. Rationales for Precedent. In: 
MACCORMICK, Neil; SUMMERS, Robert S. GOODHART, Arthur 
L. Interpreting Precedents. Nova York: Routledge, 2016. 
BOBBIO, Norberto. O Positivismo Jurídico: Lições de Filosofia 
do Direito. Tradução e notas de Márcio Pugliesi, Edson Bini, e 
Carlos E. Rodrigues. São Paulo: Ícone, 1995. 
BIX, Brian. Law, Language, and Legal Determinacy. Oxford: 
Clarendon Press, 2003.
BIX, Brian. Jurisprudence. 8 ed. Londres: Sweet & Maxwell, 
2019. 
BUSTAMANTE, Thomas da Rosa. A Breve História do Positivismo 
Descritivo: O que Resta do Positivismo Jurídico Depois de H. L. A. 
Hart? Novos Estudos Jurídicos, Itajaí, vol. 20, n. 1, jan.-abr. 
2015, pp. 309-327.
CATTONI DE OLIVEIRA, Marcelo Andrade. Contribuições para 
uma teoria crítica da Constituição. Belo Horizonte, Arraes Editores, 
2017.
DALLA BARBA, Rafael Giorgio. Nas fronteiras da 
argumentação: a discricionariedade judicial na teoria discursiva 
de Robert Alexy. Salvador: Juspodivm, 2016. 
105
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
104
da significação”.
Gosto também de Hilde Domin, que diz: “Palavras 
e coisas jaziam juntos, tinham a mesma temperatura”. E 
eu acrescentei: “E depois se separaram e nunca mais se 
encontraram”. O próprio Heidegger tem poemas, como: “A 
linguagem é a casa do ser, nessa casa mora o homem, os poetas 
e os pensadores são os vigilantes dessa morada”. Ou T.S. Eliot: 
“Em um país de fugitivos, quem anda na contramão parece 
que está fugindo”.
“Em um país de fugitivos, quem anda na contramão 
parece que está fugindo”. É isso. Finalmente, então, deixo o 
leitor com aquilo que serviu mais diretamente de referência 
expressa a estes escritos. E que o caro leitor não se esqueça 
que, em um país de fugitivos, quem anda na contramão parece 
estar fugindo; que, em um país de voluntaristas e realistas, 
quem defende a legalidade é taxado de “positivista” — o que 
não apenas significa ignorância, como também um sintoma 
dos efeitos deletérios que uma má teoria do Direito provocou, 
e continua provocando, no seio do direito brasileiro.
Mas há cura: a boa leitura. Então, com saudações 
acadêmicas,
Boa leitura! Que se angustiem! Como diria Dworkin, 
apenas assim correrão o perigo de se tornarem interessantes.
Do Lenio Streck, escrito na Dacha de São José do 
Herval, no inverno de 2019, ilhado por forte nevoeiro 
– que insiste em coçar as costas no janelão que dá vista 
ao vale que se estende entre as montanhas –, sorvendo, 
com Rosane, goles generosos de uma bela infusão de 
Ilex Paraguaienses.
Sugestões de leitura e referências:
ABBOUD, Georges. Processo Constitucional Brasileiro. 2. ed. 
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018.
BANKOWSKI, Zenon; MACCORMICK, Neil; MORAWSKI, 
Lech; RUIZ MIGUEL, Alfonso. Rationales for Precedent. In: 
MACCORMICK, Neil; SUMMERS, Robert S. GOODHART, Arthur 
L. Interpreting Precedents. Nova York: Routledge, 2016. 
BOBBIO, Norberto. O Positivismo Jurídico: Lições de Filosofia 
do Direito. Tradução e notas de Márcio Pugliesi, Edson Bini, e 
Carlos E. Rodrigues. São Paulo: Ícone, 1995. 
BIX, Brian. Law, Language, and Legal Determinacy. Oxford: 
Clarendon Press, 2003.
BIX, Brian. Jurisprudence. 8 ed. Londres: Sweet & Maxwell, 
2019. 
BUSTAMANTE, Thomas da Rosa. A Breve História do Positivismo 
Descritivo: O que Resta do Positivismo Jurídico Depois de H. L. A. 
Hart? Novos Estudos Jurídicos, Itajaí, vol. 20, n. 1, jan.-abr. 
2015, pp. 309-327.
CATTONI DE OLIVEIRA, Marcelo Andrade. Contribuições para 
uma teoria crítica da Constituição. Belo Horizonte, ArraesEditores, 
2017.
DALLA BARBA, Rafael Giorgio. Nas fronteiras da 
argumentação: a discricionariedade judicial na teoria discursiva 
de Robert Alexy. Salvador: Juspodivm, 2016. 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
106 107
DE MORAIS, Fausto Santos. Ponderação e arbitrariedade: a 
inadequada recepção de Alexy pelo STF. Salvador: Juspodivm, 
2016.
DUXBURY, Neil. English Jurisprudence between Austin 
and Hart. Virginia Law Review, vol. 91, n. 01, mar. 2005, pp. 02-
91. 
DWORKIN, Ronald. A Justiça de Toga. São Paulo: Martins 
Fontes, 2010.
DWORKIN, Ronald. Freedom’s Law: The Moral Reading of the 
American Constitution. Oxford: Oxford University Press, 2005.
DWORKIN, Ronald. Justiça para ouriços. Lisboa: Almedina, 
2016.
DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. São Paulo: 
Martins Fontes, 1999.
DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins 
Fontes, 2005.
DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: 
Martins Fontes, 2001.
FERREIRA NETO, Arthur Maria. Metaética e a Fundamentação 
do Direito. Porto Alegre: Elegantia Juris, 2015. 
FULLER, Lon L. The Law in Quest of Itself. Boston: Beacon 
Press, 1940.
FULLER, Lon L. The Morality of Law. Edição revisada. New 
Haven: Yale University Press, 1964. 
GUEST, Stephen. Ronald Dworkin. 3. ed. Stanford: Stanford 
University Press, 2013.
HART, H. L. A. O conceito de direito. 3 ed. Lisboa: Fundação 
Calouste, 1994.
HEIDEGGER, Martin. Introdução à filosofia. Tradução de 
Marco Antônio Casanova. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. 
KELSEN, Hans. Jurisdição constitucional. São Paulo: Martins 
Fontes, 2007.
KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 8. ed. São Paulo: 
Martins Fontes, 2009.
KRAMER, Matthew. H.L.A. Hart. Cambridge: Polity, 2018.
MACINTYRE, Alasdair. After Virtue: A Study in Moral Theory. 
Londres: Bloomsbury, 2007.
MORAIS DA ROSA, Alexandre. Procedimentos e Nulidades no 
Jogo Processual Penal. Florianópolis: Emais, 2018.
ROCHA, Leonel Severo. Epistemologia Jurídica e Democracia. 
2. ed. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
RODRIGUES JUNIOR, Otavio Luiz. Estatuto epistemológico 
do Direito civil contemporâneo na tradição de civil law 
em face do neoconstitucionalismo e dos princípios. O 
Direito 143.º (2011), II, 43-66. 
RODRÍGUEZ, Ramón. Del sujeto y la verdad. Madrid, ES: Ed. 
Sintese, 2004. 
RODRÍGUEZ, Ramón. Hermenéutica y subjetividad. 2. ed. 
Madrid, ES: Editorial Trotta, 2010. 
RODRÍGUEZ, Ramón. La pretensión de verdad de la 
tradición y la experiencia hermenéutica. Fundacion Dialnet. 
La Rioja, ES, t. 14, fasc. 28, p. 335-345, 2011.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
106 107
DE MORAIS, Fausto Santos. Ponderação e arbitrariedade: a 
inadequada recepção de Alexy pelo STF. Salvador: Juspodivm, 
2016.
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and Hart. Virginia Law Review, vol. 91, n. 01, mar. 2005, pp. 02-
91. 
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Fontes, 2010.
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American Constitution. Oxford: Oxford University Press, 2005.
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2016.
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Martins Fontes, 1999.
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do Direito. Porto Alegre: Elegantia Juris, 2015. 
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Calouste, 1994.
HEIDEGGER, Martin. Introdução à filosofia. Tradução de 
Marco Antônio Casanova. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. 
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Martins Fontes, 2009.
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MACINTYRE, Alasdair. After Virtue: A Study in Moral Theory. 
Londres: Bloomsbury, 2007.
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Jogo Processual Penal. Florianópolis: Emais, 2018.
ROCHA, Leonel Severo. Epistemologia Jurídica e Democracia. 
2. ed. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
RODRIGUES JUNIOR, Otavio Luiz. Estatuto epistemológico 
do Direito civil contemporâneo na tradição de civil law 
em face do neoconstitucionalismo e dos princípios. O 
Direito 143.º (2011), II, 43-66. 
RODRÍGUEZ, Ramón. Del sujeto y la verdad. Madrid, ES: Ed. 
Sintese, 2004. 
RODRÍGUEZ, Ramón. Hermenéutica y subjetividad. 2. ed. 
Madrid, ES: Editorial Trotta, 2010. 
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tradición y la experiencia hermenéutica. Fundacion Dialnet. 
La Rioja, ES, t. 14, fasc. 28, p. 335-345, 2011.
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
108 109
STEIN, Ernildo; STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e 
Epistemologia: 50 anos de Verdade e Método. 2. ed. rev. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
STRECK, Lenio Luiz. 30 Anos da CF em 30 Julgamentos - Uma 
Radiografia do STF. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
STRECK, Lenio Luiz. Aplicar a letra da lei é uma atitude positivista? 
Revista Novos Estudos Jurídicos, vol. 15, n. 1, pp. 158-173, jan./abr. 
2010. 
STEIN, Ernildo. A caminho de uma fundamentação 
pósmetafísica. Porto Alegre: Edipucrs, 1997. 
STEIN, Ernildo. A questão do método na filosofia: Um estudo 
do modelo heideggeriano. Porto Alegre: Movimento, 1983. 
STEIN, Ernildo. Apresentação: Novos caminhos para uma 
filosofia da constitucionalidade. Jurisdição Constitucional e 
Hermenêutica – Uma Nova Crítica do Direito, 3. ed. Rio de 
Janeiro: Forense, 2004. 
STEIN, Ernildo. Aproximações sobre hermenêutica. 2. ed. 
Porto Alegre: Edipucrs, 2010. 
STEIN, Ernildo. Às voltas com a metafísica e a fenomenologia. Ijuí: 
Unijuí, 2014. 
STEIN, Ernildo. Compreensão e finitude: estrutura e 
movimento da interrogação heideggeriana. 1. ed. Ijuí: Unijuí, 2001. 
STEIN, Ernildo. Diferença e metafísica: Ensaios sobre a 
desconstrução. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2008. 
STEIN, Ernildo. Exercícios de fenomenologia: Limites de um 
paradigma. Ijuí: Unijuí, 2004. 
STEIN, Ernildo. Introdução ao pensamento de Martin 
Heidegger. Porto Alegre: Edipucrs, 2011. 
STEIN, Ernildo. Nota do tradutor. In: HEIDEGGER, Martin. Que é 
Metafísica? São Paulo: Duas Cidades, 1969. 
STEIN, Ernildo. Pensar é pensar a diferença. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 
2006.
STRECK, Lenio Luiz. Dicionário de Hermenêutica. São Paulo, 
Editora Casa do Direito, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e Decisão Jurídica: questões 
epistemológicas. Hermenêutica e Epistemologia. 50 anos de 
Verdade e Método. 2. ed. revista. STEIN, Ernildo. e STRECK, Lenio 
Luiz. (Orgs.). Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2015.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica e(m) crise: 11. 
ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013.
STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição Constitucional. 6. ed. Belo 
Horizonte: GEN, 2019.
STRECK, Lenio Luiz. Lições de crítica hermenêutica do 
direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015. 
STRECK, Lenio Luiz. The models of Judges. Between judicial 
activism and fundamental rights. Saarbrücken, Lambert Academic 
Publishing, 2016.
STRECK, Lenio Luiz. O fator Julia Roberts ou quando o Supremo 
Tribunal erra. Consultor Jurídico, São Paulo, 25 out. 2012. 
Disponível em: http://www.conjur.com.br/2012-out-25/senso-
incomum-fatorjulia- roberts-ou-quando-supremo-erra. Acesso em: 
29 ago. 2015. 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
108 109
STEIN, Ernildo; STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e 
Epistemologia: 50 anos de Verdade e Método. 2. ed. rev. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
STRECK, Lenio Luiz. 30 Anos da CF em 30 Julgamentos - Uma 
Radiografia do STF. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
STRECK,eram grandes e abundantes, não cabendo nas 
frigideiras. Consequentemente, cortavam a cabeça e o rabo. 
O Hermeneuta, assim, compreendeu o fenômeno que se 
encobria aos moradores mais jovens da ilha, os quais, ao serem 
questionados do porquê de agirem dessa maneira, respondiam: 
“Não sei… Mas as coisas sempre foram assim por aqui”! Eis o 
senso comum. Eis a naturalização de uma prática. Desse pro-
cesso – que é como se o fenômeno fosse “descascado aos pou-
cos” – exsurge “o sentido da coisa”, que já não será aquela que 
o intérprete vislumbrou no início. Com o revolvimento do chão 
linguístico, o fenômeno exsurgiu “como ele é”, por assim dizer. 
Num exemplo jurídico: remeto a um caso de furto qua-
lificado por escalada (como se sabe, a pena do furto qualifica-
do é o dobro da do furto simples). O acusado (apelante no pro-
cesso) fora condenado a três anos porque (comprovadamente) 
pulara o muro para chegar até à res furtivae. Os manuais de di-
reito penal dirão apenas que escalada é subir em alguma coisa. 
Fazendo a reconstrução da história institucional do instituto 
penal em pauta, ver-se-á que o tipo penal qualificado é dos 
anos 40. Construíam-se altos muros para proteger as casas. E 
como o CP protege mais a propriedade do que a vida, a pena 
do furto dobra se alguém escalar o obstáculo. E o caso concre-
to? Neste processo, a foto juntada aos autos mostrava que o 
muro não tinha mais de um metro e sessenta, além de ter uma 
caixinha com relógio marcador da conta d’água da companhia 
que vende água, que serviu de apoio à “escalada”. Olhando o 
problema a partir da simples semântica e dos manuais – enfim, 
do senso comum teórico – estava caracterizada, subsuntiva-
mente, a qualificadora da escalada. Mas o fenômeno, recons-
truído, já não era o da “primeira vista”. Aquilo, obviamente, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
12 13
não podia ser enquadrado como “escalada”.
O trabalho, portanto, do intérprete comprometido com o 
ato de interpretar, dentro do contexto da metáfora apresentada, 
é detectar o DNA do problema decorrente da ingenuidade dos 
ilhéus que desperdiçam proteína, cortando a cabeça e o rabo 
dos peixes. Nessa linha, tem-se como responsabilidade do 
Hermeneuta livrar-se da tentação de “chutar uma resposta”. O 
mundo não é um quiz show. A realidade também não.
Se o Hermeneuta não buscar a melhor resposta, ficará 
jogando pérolas aos porcos. Sequer adianta levar um(a) 
nutricionista para explicar aos ilhéus que é errado o que eles 
fazem, principalmente levando em conta a escassez de peixes. 
Não adiantará explicar o fenômeno a partir dos nutrientes 
desperdiçados, porque não há racionalidade no ato dos ilhéus 
(raison, comparaison).
Só a partir do revolvimento do chão linguístico em que 
está assentada a tradição (inautêntica, equivocada) dos ilhéus 
é que o fenômeno poderá ser compreendido. E, uma vez 
compreendido o fenômeno, o equívoco poderá ser desfeito. 
Não é por menos que Coleridge dirá que a linguagem do poeta 
permite que reconheçamos aquilo que não sabíamos conhecer.
O Hermeneuta terá que buscar a resposta, investigando 
a raiz do problema. Ele terá que fazer isso de um modo que 
o próprio fenômeno fique descascado e que ele se “desvele”. 
No caso da metáfora foi necessário ir em busca da pessoa 
mais velha da ilha. E ver que a “velha” – metaforicamente 
ela representa o tempo e a história – conta que “no início, 
haviam peixes em abundância e eles eram enormes. Não 
cabiam nas frigideiras. Por isso, cortavam a cabeça e rabo 
dos peixes, descartando os restos. Hoje há falta de peixes e 
esses são pequenos. Mesmo que as frigideiras sejam maiores 
que os peixes, os ilhéus continuam a cortar a cabeça e o rabo. 
Sempre foi assim... E assim continuam”. Essa estória se repete 
no nosso cotidiano. E na interpretação do Direito.
Qual é o sentido dos fenômenos? Esse é o trabalho do 
intérprete. Pode-se atribuí-lo simplesmente dando palpites? 
Pode-se “chutar” uma das alternativas? Para a infelicidade de 
muitos, a resposta é não. O jurista, ao se deixar levar por uma 
doutrina rasa e por uma “jurisprudência” prêt-à-porter, prêt-à-
parler e prêt-à-penser, comporta-se como alguém que mora na 
ilha. Ignora a própria ignorância.
Direito é um fenômeno complexo. Não há respostas 
antes das perguntas. Aqui, introduzo um conceito importante: 
intersubjetividade. A grande descoberta da intersubjetividade 
(Heidegger, Gadamer, Wittgenstein e, no Brasil, principalmente 
por Ernildo Stein) é a seguinte: há sempre um a priori que 
compartilhamos mesmo sem nos darmos conta. Isso só é 
possível porque vivemos em tempos de relação sujeito-sujeito.
Nossa linguagem é pública. Muito mais ainda a 
linguagem do Direito. Não há espaço para uma linguagem 
privada. Hermenêutica, no modo como a trabalhamos, é 
antisolipsista. O solipsista, cuja tradução é Selbstsüchtiger 
(o viciado em si mesmo, que também quer dizer egoísmo, 
em-si-mesmamento), interpreta o mundo a partir de si. 
Os limites dele (do juiz solipsista, para ficar na área da 
interpretação do Direito) são os limites da linguagem dele 
mesmo (do juiz). Por isso, o sentido do Direito será o que 
ele diz que é. E isso fere preceitos fundamentais do que 
compreendemos como “Democracia”. Wittgenstein derrubou 
o solipsismo do sujeito-que-assujeita com o argumento da 
linguagem privada: só pode dizer que pensa, e que por isso 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
12 13
não podia ser enquadrado como “escalada”.
O trabalho, portanto, do intérprete comprometido com o 
ato de interpretar, dentro do contexto da metáfora apresentada, 
é detectar o DNA do problema decorrente da ingenuidade dos 
ilhéus que desperdiçam proteína, cortando a cabeça e o rabo 
dos peixes. Nessa linha, tem-se como responsabilidade do 
Hermeneuta livrar-se da tentação de “chutar uma resposta”. O 
mundo não é um quiz show. A realidade também não.
Se o Hermeneuta não buscar a melhor resposta, ficará 
jogando pérolas aos porcos. Sequer adianta levar um(a) 
nutricionista para explicar aos ilhéus que é errado o que eles 
fazem, principalmente levando em conta a escassez de peixes. 
Não adiantará explicar o fenômeno a partir dos nutrientes 
desperdiçados, porque não há racionalidade no ato dos ilhéus 
(raison, comparaison).
Só a partir do revolvimento do chão linguístico em que 
está assentada a tradição (inautêntica, equivocada) dos ilhéus 
é que o fenômeno poderá ser compreendido. E, uma vez 
compreendido o fenômeno, o equívoco poderá ser desfeito. 
Não é por menos que Coleridge dirá que a linguagem do poeta 
permite que reconheçamos aquilo que não sabíamos conhecer.
O Hermeneuta terá que buscar a resposta, investigando 
a raiz do problema. Ele terá que fazer isso de um modo que 
o próprio fenômeno fique descascado e que ele se “desvele”. 
No caso da metáfora foi necessário ir em busca da pessoa 
mais velha da ilha. E ver que a “velha” – metaforicamente 
ela representa o tempo e a história – conta que “no início, 
haviam peixes em abundância e eles eram enormes. Não 
cabiam nas frigideiras. Por isso, cortavam a cabeça e rabo 
dos peixes, descartando os restos. Hoje há falta de peixes e 
esses são pequenos. Mesmo que as frigideiras sejam maiores 
que os peixes, os ilhéus continuam a cortar a cabeça e o rabo. 
Sempre foi assim... E assim continuam”. Essa estória se repete 
no nosso cotidiano. E na interpretação do Direito.
Qual é o sentido dos fenômenos? Esse é o trabalho do 
intérprete. Pode-se atribuí-lo simplesmente dando palpites? 
Pode-se “chutar” uma das alternativas? Para a infelicidade de 
muitos, a resposta é não. O jurista, ao se deixar levar por uma 
doutrina rasa e por uma “jurisprudência” prêt-à-porter, prêt-à-
parler e prêt-à-penser, comporta-se como alguém que mora na 
ilha. Ignora a própria ignorância.
Direito é um fenômeno complexo. Não há respostas 
antes das perguntas. Aqui, introduzo um conceito importante: 
intersubjetividade. A grande descoberta da intersubjetividade 
(Heidegger, Gadamer, WittgensteinLenio Luiz. Aplicar a letra da lei é uma atitude positivista? 
Revista Novos Estudos Jurídicos, vol. 15, n. 1, pp. 158-173, jan./abr. 
2010. 
STEIN, Ernildo. A caminho de uma fundamentação 
pósmetafísica. Porto Alegre: Edipucrs, 1997. 
STEIN, Ernildo. A questão do método na filosofia: Um estudo 
do modelo heideggeriano. Porto Alegre: Movimento, 1983. 
STEIN, Ernildo. Apresentação: Novos caminhos para uma 
filosofia da constitucionalidade. Jurisdição Constitucional e 
Hermenêutica – Uma Nova Crítica do Direito, 3. ed. Rio de 
Janeiro: Forense, 2004. 
STEIN, Ernildo. Aproximações sobre hermenêutica. 2. ed. 
Porto Alegre: Edipucrs, 2010. 
STEIN, Ernildo. Às voltas com a metafísica e a fenomenologia. Ijuí: 
Unijuí, 2014. 
STEIN, Ernildo. Compreensão e finitude: estrutura e 
movimento da interrogação heideggeriana. 1. ed. Ijuí: Unijuí, 2001. 
STEIN, Ernildo. Diferença e metafísica: Ensaios sobre a 
desconstrução. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2008. 
STEIN, Ernildo. Exercícios de fenomenologia: Limites de um 
paradigma. Ijuí: Unijuí, 2004. 
STEIN, Ernildo. Introdução ao pensamento de Martin 
Heidegger. Porto Alegre: Edipucrs, 2011. 
STEIN, Ernildo. Nota do tradutor. In: HEIDEGGER, Martin. Que é 
Metafísica? São Paulo: Duas Cidades, 1969. 
STEIN, Ernildo. Pensar é pensar a diferença. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 
2006.
STRECK, Lenio Luiz. Dicionário de Hermenêutica. São Paulo, 
Editora Casa do Direito, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e Decisão Jurídica: questões 
epistemológicas. Hermenêutica e Epistemologia. 50 anos de 
Verdade e Método. 2. ed. revista. STEIN, Ernildo. e STRECK, Lenio 
Luiz. (Orgs.). Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2015.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica e(m) crise: 11. 
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STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição Constitucional. 6. ed. Belo 
Horizonte: GEN, 2019.
STRECK, Lenio Luiz. Lições de crítica hermenêutica do 
direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015. 
STRECK, Lenio Luiz. The models of Judges. Between judicial 
activism and fundamental rights. Saarbrücken, Lambert Academic 
Publishing, 2016.
STRECK, Lenio Luiz. O fator Julia Roberts ou quando o Supremo 
Tribunal erra. Consultor Jurídico, São Paulo, 25 out. 2012. 
Disponível em: http://www.conjur.com.br/2012-out-25/senso-
incomum-fatorjulia- roberts-ou-quando-supremo-erra. Acesso em: 
29 ago. 2015. 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
110 111
STRECK, Lenio Luiz. O juiz soltou os presos; já Karl Marx deixou 
de estudar e foi vender droga. Revista Eletrônica Consultor 
Jurídico, São Paulo, 21 de maio, 2015. Disponível em 
STRECK, Lenio Luiz. O que é isto – a exigência de coerência 
e integridade No novo Código de Processo Civil. In: STRECK, 
Lenio Luiz; ARRUDA ALVIM, Eduardo; SALOMÃO, George 
Leite. Hermenêutica e Jurisprudência no Novo Código de 
Processo Civil: coerência e integridade. São Paulo: Saraiva, 2016
STRECK, Lenio Luiz. O que é isto – decido conforme minha 
consciência? 6. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Precedentes judiciais e hermenêutica. 
2. ed. Salvador: Juspodivm, 2019.
STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso. 6. ed. revista e 
ampliada. São Paulo: Saraiva, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e jurisdição: diálogos com 
Lenio Streck. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2017.
STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da 
complexidade à simplificação na identificação da ratio decidendi: 
será mesmo que estamos a falar de precedentes no Brasil?. Revista 
Jurídica Unicuritiba, vol. 01, n. 54, pp. 317-341, 2019.
STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da 
genealogia dos mecanismos vinculantes brasileiros: dos assentos 
portugueses às ‘teses’ dos Tribunais Superiores. Revista 
Eletrônica Do Curso de Direito da UFSM, vol. 14, n. 01, artigo 
eletrônico 07, 2019.
TASSINARI, Clarissa. Jurisdição e ativismo judicial: Limites 
da atuação do Judiciário. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013. 
TOMAZ DE OLIVEIRA, Rafael. Decisão judicial e o conceito 
de princípio. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008.
VAN CAENEGEM, R. C. Juízes, legisladores e professores. 
Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. 
WALDRON, Jeremy. A Dignidade da Legislação. São Paulo: 
Martins Fontes, 2003.
WALDRON, Jeremy. Law and disagreement. Oxford: Oxford 
University Press, 1999. 
WALUCHOW, W. J. Inclusive Legal Positivism. Oxford: Oxford 
University Press, 2003. 
WARAT, Luís Alberto. A pureza do poder: Uma análise crítica de 
teoria jurídica. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983. 
WARAT, Luís Alberto. O direito e sua linguagem. 2. ed. Porto 
Alegre: S. A. Fabris, 1995. 
WARAT, Luiz Alberto. Introdução geral ao direito. Porto 
Alegre: S. A. Fabris, 1994. v. I.
WARAT, Luiz Alberto. Saber crítico e senso comum teórico dos 
juristas. Revista Sequência, Florianópolis, v. 03, n. 05, 1982.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Trad. de 
José Carlos Bruni. São Paulo: Editora Nova Cultura, 2000. 
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. 
Trad. de Luiz Henrique Lopes dos Santos. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 
2010.
https://www.conjur.com.br/2015-mai-21/senso-incomum-juiz-solta-21-karl-max-deixou-estudar-foi-vender-droga
https://www.conjur.com.br/2015-mai-21/senso-incomum-juiz-solta-21-karl-max-deixou-estudar-foi-vender-droga
https://www.conjur.com.br/2015-mai-21/senso-incomum-juiz-solta-21-karl-max-deixou-estudar-foi-vender-droga
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
110 111
STRECK, Lenio Luiz. O juiz soltou os presos; já Karl Marx deixou 
de estudar e foi vender droga. Revista Eletrônica Consultor 
Jurídico, São Paulo, 21 de maio, 2015. Disponível em 
STRECK, Lenio Luiz. O que é isto – a exigência de coerência 
e integridade No novo Código de Processo Civil. In: STRECK, 
Lenio Luiz; ARRUDA ALVIM, Eduardo; SALOMÃO, George 
Leite. Hermenêutica e Jurisprudência no Novo Código de 
Processo Civil: coerência e integridade. São Paulo: Saraiva, 2016
STRECK, Lenio Luiz. O que é isto – decido conforme minha 
consciência? 6. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Precedentes judiciais e hermenêutica. 
2. ed. Salvador: Juspodivm, 2019.
STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso. 6. ed. revista e 
ampliada. São Paulo: Saraiva, 2017.
STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica e jurisdição: diálogos com 
Lenio Streck. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2017.
STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da 
complexidade à simplificação na identificação da ratio decidendi: 
será mesmo que estamos a falar de precedentes no Brasil?. Revista 
Jurídica Unicuritiba, vol. 01, n. 54, pp. 317-341, 2019.
STRECK, Lenio Luiz; RAATZ, Igor; MORBACH, Gilberto. Da 
genealogia dos mecanismos vinculantes brasileiros: dos assentos 
portugueses às ‘teses’ dos Tribunais Superiores. Revista 
Eletrônica Do Curso de Direito da UFSM, vol. 14, n. 01, artigo 
eletrônico 07, 2019.
TASSINARI, Clarissa. Jurisdição e ativismo judicial: Limites 
da atuação do Judiciário. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013. 
TOMAZ DE OLIVEIRA, Rafael. Decisão judicial e o conceito 
de princípio. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008.
VAN CAENEGEM, R. C. Juízes, legisladores e professores. 
Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. 
WALDRON, Jeremy. A Dignidade da Legislação. São Paulo: 
Martins Fontes, 2003.
WALDRON, Jeremy. Law and disagreement. Oxford: Oxford 
University Press, 1999. 
WALUCHOW, W. J. Inclusive Legal Positivism. Oxford: Oxford 
University Press, 2003. 
WARAT, Luís Alberto. A pureza do poder: Uma análise crítica de 
teoria jurídica. Florianópolis: Editora da UFSC, 1983. 
WARAT, Luís Alberto. O direito e sua linguagem. 2. ed. Porto 
Alegre: S. A. Fabris, 1995. 
WARAT, Luiz Alberto. Introdução geral ao direito. Porto 
Alegre: S. A. Fabris, 1994. v. I.
WARAT, LuizAlberto. Saber crítico e senso comum teórico dos 
juristas. Revista Sequência, Florianópolis, v. 03, n. 05, 1982.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Trad. de 
José Carlos Bruni. São Paulo: Editora Nova Cultura, 2000. 
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. 
Trad. de Luiz Henrique Lopes dos Santos. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 
2010.e, no Brasil, principalmente 
por Ernildo Stein) é a seguinte: há sempre um a priori que 
compartilhamos mesmo sem nos darmos conta. Isso só é 
possível porque vivemos em tempos de relação sujeito-sujeito.
Nossa linguagem é pública. Muito mais ainda a 
linguagem do Direito. Não há espaço para uma linguagem 
privada. Hermenêutica, no modo como a trabalhamos, é 
antisolipsista. O solipsista, cuja tradução é Selbstsüchtiger 
(o viciado em si mesmo, que também quer dizer egoísmo, 
em-si-mesmamento), interpreta o mundo a partir de si. 
Os limites dele (do juiz solipsista, para ficar na área da 
interpretação do Direito) são os limites da linguagem dele 
mesmo (do juiz). Por isso, o sentido do Direito será o que 
ele diz que é. E isso fere preceitos fundamentais do que 
compreendemos como “Democracia”. Wittgenstein derrubou 
o solipsismo do sujeito-que-assujeita com o argumento da 
linguagem privada: só pode dizer que pensa, e que por isso 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
14 15
existe, o sujeito que já está inserido em uma comunidade cuja 
linguagem permite que esse sujeito articule a cogitatio em... 
linguagem. No público-privado, o público vem antes. 
O problema, em síntese, nem é o da aparente opção 
(ou permanência) pelo paradigma da filosofia da consciên-
cia (um exemplo para compreender o que é o paradigma da 
filosofia da consciência é a “tese” de que o juiz decide con-
forme sua consciência ou que ele possui livre convencimen-
to). A questão a ser debatida é a vulgata deste paradigma 
feita pela dogmática jurídica. 
Nesse momento, a vulgata da filosofia da consciência 
aparece como um sintoma da discricionariedade judicial, 
como algo que está recrudescido no imaginário gnosiológico 
dos juristas, que é a percepção de que a “liberdade de decisão 
do juiz” está ligada a uma ideia de irresponsabilidade 
institucional, sempre baseada na subjetividade do magistrado. 
Algo como dizer que o-juiz-constrói-sua-decisão-a-partir-de-
uma-simbiose-de-razões-e-sentimentos que são apenas seus 
(vale dizer, um juiz solipsista — um Selbstsüchtiger). 
Ora, dizer que o juiz decide conforme sua consciência 
retira o caráter institucional e político que reveste as decisões 
do Poder Judiciário. Desse modo, o atrelamento a esse tipo de 
concepção acaba por permitir que, por exemplo, juízes ainda 
acreditem na possibilidade de tomarem para si a condução 
da prova no processo, como se a produção da prova pudesse 
ser gerida a partir de sua consciência. Portanto, no Direito, 
quando alguém diz que o juiz decide por livre convencimen-
to ou que só obedece a sua consciência ou coisas do gênero, é 
possível afirmar que ali ainda está presente o sujeito autori-
tário da modernidade. 
Não esqueçamos que, afinal, o sujeito da modernidade 
sempre se apresentou “consciente-de-si-e-de-sua-certeza- 
pensante”. E ele continua por aí. Forte. Não é um mero 
fantasma. Ele é a barbárie interior, que os constrangimentos 
exteriores deveriam controlar e não o fazem, mormente no 
campo jurídico. Ocorre que, em uma dogmática jurídica como 
a brasileira, com reforço de diversas teorias jurídicas, esse 
sujeito, em vez de ser constrangido/controlado, é incentivado 
a agir. E contra ele, qual é a nossa proteção?
A literatura, como sempre, oferece um auxílio. Machado 
de Assis, no conto “Ideias de Canário”, expõe de forma magistral 
a postura filósofica do ser-solipsista diante dos sentidos. O 
Canário, por sua vez, é o exemplo anti-hermenêutico; ele é o 
próprio “solipsista”. Ler este conto é um excelente modo de 
compreender direito–a hermenêutica, a partir do seu oposto 
exposto por Assis, quando da demonstração do significado 
da linguagem e dos perigos do solipsismo. Lendo esse conto 
machadiano, compreendemos os perigos da linguagem 
privada e o acerto de Wittgenstein, Heidegger e Gadamer, 
para falar apenas desses, que forjaram o giro ontológico-
linguístico. Vejam: quando Machado escreveu o conto, não 
se sabia ainda do valor da linguagem como condição de 
possibilidade. O linguistic turn estava ainda muito distante. A 
genialidade de Machado fez um adiantamento de sentido na 
história da filosofia da linguagem e na hermenêutica.
Observemos a noção de imaginário no conto: 
Um homem, Sr. Macedo, vê um canário em uma gaiola, 
pendurada em uma loja de quinquilharias. Ao indagar em 
voz alta quem teria aprisionado a pobre ave, esta responde 
que ele estava enganado. Ninguém o prendera. O Sr. Macedo 
perguntou-lhe se não tinha saudade do espaço azul e infinito, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
14 15
existe, o sujeito que já está inserido em uma comunidade cuja 
linguagem permite que esse sujeito articule a cogitatio em... 
linguagem. No público-privado, o público vem antes. 
O problema, em síntese, nem é o da aparente opção 
(ou permanência) pelo paradigma da filosofia da consciên-
cia (um exemplo para compreender o que é o paradigma da 
filosofia da consciência é a “tese” de que o juiz decide con-
forme sua consciência ou que ele possui livre convencimen-
to). A questão a ser debatida é a vulgata deste paradigma 
feita pela dogmática jurídica. 
Nesse momento, a vulgata da filosofia da consciência 
aparece como um sintoma da discricionariedade judicial, 
como algo que está recrudescido no imaginário gnosiológico 
dos juristas, que é a percepção de que a “liberdade de decisão 
do juiz” está ligada a uma ideia de irresponsabilidade 
institucional, sempre baseada na subjetividade do magistrado. 
Algo como dizer que o-juiz-constrói-sua-decisão-a-partir-de-
uma-simbiose-de-razões-e-sentimentos que são apenas seus 
(vale dizer, um juiz solipsista — um Selbstsüchtiger). 
Ora, dizer que o juiz decide conforme sua consciência 
retira o caráter institucional e político que reveste as decisões 
do Poder Judiciário. Desse modo, o atrelamento a esse tipo de 
concepção acaba por permitir que, por exemplo, juízes ainda 
acreditem na possibilidade de tomarem para si a condução 
da prova no processo, como se a produção da prova pudesse 
ser gerida a partir de sua consciência. Portanto, no Direito, 
quando alguém diz que o juiz decide por livre convencimen-
to ou que só obedece a sua consciência ou coisas do gênero, é 
possível afirmar que ali ainda está presente o sujeito autori-
tário da modernidade. 
Não esqueçamos que, afinal, o sujeito da modernidade 
sempre se apresentou “consciente-de-si-e-de-sua-certeza- 
pensante”. E ele continua por aí. Forte. Não é um mero 
fantasma. Ele é a barbárie interior, que os constrangimentos 
exteriores deveriam controlar e não o fazem, mormente no 
campo jurídico. Ocorre que, em uma dogmática jurídica como 
a brasileira, com reforço de diversas teorias jurídicas, esse 
sujeito, em vez de ser constrangido/controlado, é incentivado 
a agir. E contra ele, qual é a nossa proteção?
A literatura, como sempre, oferece um auxílio. Machado 
de Assis, no conto “Ideias de Canário”, expõe de forma magistral 
a postura filósofica do ser-solipsista diante dos sentidos. O 
Canário, por sua vez, é o exemplo anti-hermenêutico; ele é o 
próprio “solipsista”. Ler este conto é um excelente modo de 
compreender direito–a hermenêutica, a partir do seu oposto 
exposto por Assis, quando da demonstração do significado 
da linguagem e dos perigos do solipsismo. Lendo esse conto 
machadiano, compreendemos os perigos da linguagem 
privada e o acerto de Wittgenstein, Heidegger e Gadamer, 
para falar apenas desses, que forjaram o giro ontológico-
linguístico. Vejam: quando Machado escreveu o conto, não 
se sabia ainda do valor da linguagem como condição de 
possibilidade. O linguistic turn estava ainda muito distante. A 
genialidade de Machado fez um adiantamento de sentido na 
história da filosofia da linguagem e na hermenêutica.
Observemos a noção de imaginário no conto: 
Um homem, Sr. Macedo, vê um canário em uma gaiola, 
pendurada em uma loja de quinquilharias. Ao indagar em 
voz alta quem teria aprisionado a pobre ave, esta responde 
que ele estava enganado. Ninguém o prendera.O Sr. Macedo 
perguntou-lhe se não tinha saudade do espaço azul e infinito, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
16 17
ao que o canário perguntou:–“que coisa é essa de azul e infinito”? 
Então o homem afinou a pergunta:–“que pensas do mundo, oh 
canário”? E este respondeu, com ar professoral: “o mundo é 
uma loja de quinquilharias, com uma pequena gaiola de taquara, 
quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que 
habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão”. E acrescentou: 
“Aliás, o homem da loja é, na verdade, o meu criado, servindo-me 
comida e água todos os dias”. Encantado com a cena, o Sr. Macedo 
comprou o canário e uma gaiola nova. Levou-o para a sua casa 
para estudar o canário, anotando a experiência. Três semanas 
depois da entrada do canário na casa nova, pediu-lhe que lhe 
repetisse a definição do mundo.
“O mundo”, respondeu ele, “é um jardim assaz largo 
com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, 
ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do 
mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o 
resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.”
Dias depois, o canário fugiu. Triste, o homem foi passear 
na casa de um amigo. Passeando pelo vasto jardim, eis que deu 
de cara com o canário.
“Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu”?
“Eu desapareci?”, pergunta surpreso o Sr. Macedo.
De todo modo, aproveitou para perguntar ao canário a 
definição de mundo. “O mundo” concluiu solenemente “é um 
espaço infinito e azul, com o sol por cima”
Indignado, o Sr. Macedo retorquiu-lhe: “Sim, o mundo 
era tudo, inclusive a gaiola e a loja de quinquilharias...”.
Resposta do canário:
“Que loja? Que gaiola? Estás louco?”
O conto dá uma tese. Todos os alunos (e professores) 
deveriam ler esse conto machadiano. Com isso aprenderiam 
a diferença entre linguagem privada e linguagem pública. 
Vejam a linguagem privada do nosso preclaro “Dr. Canário”. 
Eis aí o solipsismo. O mundo está limitado pela linguagem 
que o Canário possui. O mundo para o canário é o que ele 
vê. O tamanho do mundo é o tamanho da linguagem que ele 
adquiriu até o momento. A realidade existe a partir de sua 
percepção. Para o canário, o mundo era exclusivamente a 
sua gaiola e o brechó. O resto era pura ilusão e mentira. Na 
metáfora de Machado de Assis, o canário representa o sujeito 
solipsista na medida em que o mundo se torna aquilo que ele 
privadamente diz que é.
Pergunto: quantos juristas se comportam como o 
canário? 
Antes de Wittgenstein, Machado já mostrava a 
impossibilidade e os limites da linguagem privada. Como 
diria Carlos Drummond de Andrade, “mundo, mundo, vasto 
mundo... Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não 
seria uma solução”.
Ou seja, nem as coisas tem uma essência e nem as 
coisas são como eu quero; as coisas existem porque eu tenho 
linguagem. E essa linguagem não é minha; não é privada; ela é 
pública; é adquirida. A linguagem vai surgindo na medida em 
que ela nos faz falta. Por que (não) o nada? Vamos apontando 
o mundo assim como a criança aponta as coisas que ela ainda 
não sabe dizer. Outra obra da literatura nacional, capaz de 
proporcionar-nos uma melhor compreensão do fenômeno 
linguístico, é Vidas Secas do Graciliano Ramos: os filhos 
de Fabiano chegam à cidade. Lá eles veem tantas coisas e 
perguntam: quem fez isso? Se foi gente, quem dá nome a tudo 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
16 17
ao que o canário perguntou:–“que coisa é essa de azul e infinito”? 
Então o homem afinou a pergunta:–“que pensas do mundo, oh 
canário”? E este respondeu, com ar professoral: “o mundo é 
uma loja de quinquilharias, com uma pequena gaiola de taquara, 
quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que 
habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão”. E acrescentou: 
“Aliás, o homem da loja é, na verdade, o meu criado, servindo-me 
comida e água todos os dias”. Encantado com a cena, o Sr. Macedo 
comprou o canário e uma gaiola nova. Levou-o para a sua casa 
para estudar o canário, anotando a experiência. Três semanas 
depois da entrada do canário na casa nova, pediu-lhe que lhe 
repetisse a definição do mundo.
“O mundo”, respondeu ele, “é um jardim assaz largo 
com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, 
ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do 
mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o 
resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.”
Dias depois, o canário fugiu. Triste, o homem foi passear 
na casa de um amigo. Passeando pelo vasto jardim, eis que deu 
de cara com o canário.
“Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu”?
“Eu desapareci?”, pergunta surpreso o Sr. Macedo.
De todo modo, aproveitou para perguntar ao canário a 
definição de mundo. “O mundo” concluiu solenemente “é um 
espaço infinito e azul, com o sol por cima”
Indignado, o Sr. Macedo retorquiu-lhe: “Sim, o mundo 
era tudo, inclusive a gaiola e a loja de quinquilharias...”.
Resposta do canário:
“Que loja? Que gaiola? Estás louco?”
O conto dá uma tese. Todos os alunos (e professores) 
deveriam ler esse conto machadiano. Com isso aprenderiam 
a diferença entre linguagem privada e linguagem pública. 
Vejam a linguagem privada do nosso preclaro “Dr. Canário”. 
Eis aí o solipsismo. O mundo está limitado pela linguagem 
que o Canário possui. O mundo para o canário é o que ele 
vê. O tamanho do mundo é o tamanho da linguagem que ele 
adquiriu até o momento. A realidade existe a partir de sua 
percepção. Para o canário, o mundo era exclusivamente a 
sua gaiola e o brechó. O resto era pura ilusão e mentira. Na 
metáfora de Machado de Assis, o canário representa o sujeito 
solipsista na medida em que o mundo se torna aquilo que ele 
privadamente diz que é.
Pergunto: quantos juristas se comportam como o 
canário? 
Antes de Wittgenstein, Machado já mostrava a 
impossibilidade e os limites da linguagem privada. Como 
diria Carlos Drummond de Andrade, “mundo, mundo, vasto 
mundo... Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não 
seria uma solução”.
Ou seja, nem as coisas tem uma essência e nem as 
coisas são como eu quero; as coisas existem porque eu tenho 
linguagem. E essa linguagem não é minha; não é privada; ela é 
pública; é adquirida. A linguagem vai surgindo na medida em 
que ela nos faz falta. Por que (não) o nada? Vamos apontando 
o mundo assim como a criança aponta as coisas que ela ainda 
não sabe dizer. Outra obra da literatura nacional, capaz de 
proporcionar-nos uma melhor compreensão do fenômeno 
linguístico, é Vidas Secas do Graciliano Ramos: os filhos 
de Fabiano chegam à cidade. Lá eles veem tantas coisas e 
perguntam: quem fez isso? Se foi gente, quem dá nome a tudo 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
18 19
isso? Como as coisas têm um nome?
Transportemos tudo isso para o Direito. Pensemos na 
hermenêutica. O juiz não é dono dos sentidos. E nem os cria. 
Ele não é nem o escravo dos sentidos e nem o seu dono. Um 
modo mais simples ainda para compreender isso é a peça 
Medida por Medida de Shakespeare3. O juiz não pode equi-
parar-se ao Ângelo I, que condena Cláudio à morte porque 
considera-se “escravo” de uma antiga lei que diz “aquele que 
fornicar antes do casamento será condenado à morte”, e nem 
o Ângelo II, que, em troca da liberdade de Cláudio, propõe 
que a irmã do acusado ceda aos seus desejos sexuais. Ou seja, 
em um primeiro momento, o “juiz Ângelo” é um “puro exe-
geta” (escravo da lei), para, no dia seguinte, se transformar 
no “dono da lei”.
O que isto quer dizer? Simples: do extremo objetivismo 
– a partir do qual a realidade e os sentidos são “entificados” e 
estratificados–Ângelo vai ao completo subjetivismo, no qual 
os sentidos das coisas estão na sua mente, na sua consciência. 
Qual é o pior dos Ângelos? O “primeiro” ou o “segundo”? 
Minha resposta: Os dois são péssimos. Tenho usado muito 
essa peça de 1604 nas aulas. Já há várias dissertações por 
mim orientadas que tratam de Medida porMedida. Todas elas 
buscam desvendar esse mistério entre o “mito do dado” e o 
“voluntarismo”, entre concepções objetivistas e subjetivistas 
e, fundamentalmente, buscando construir respostas para 
esse dilema entre Ângelo I e II. Sim, a Teoria do Direito tem 
respostas para isso.
De um modo mais simples, pode-se dizer que, 
se nos autos do processo (e no fórum ou tribunal) o juiz 
3 Venho tratando sobre temas e obras como esta em um programa televisonado 
pela TV Unisinos e TV Justiça semanalmente denominado Direito e Literatura. 
troca o significado dos significantes, já no seu cotidiano 
não pode agir do mesmo modo. Interessante isso, não? Por 
consequência, o solipsismo judicial (jurídico-interpretativo) 
só pode acontecer em uma dada institucionalidade. 
Procurando ser mais claro ainda: Gadamer diz que, se queres 
compreender um texto – e texto são eventos, fenômenos – 
deves deixar que o texto te diga algo. Isto quer dizer que 
não devemos ignorar esse grau mínimo de objetividade. É o 
que chamo de “o mínimo (que) é”. 
Nesse sentido, a realidade constrange. A estrutura, a 
intersubjetividade, a tradição, enfim, essa linguagem públi-
ca constrange a todos nós cotidianamente para evitar que 
saiamos por aí fazendo coisas solipsistas. Não se pode tro-
car o nome das coisas. Experimente fazer isso e você sentirá 
na pele as consequências. Não se pode “assujeitar” as coisas. 
O solipsismo judicial se coloca na contramão desses cons-
trangimentos cotidianos, do mundo vivido. No Direito, em 
face do lugar da fala e da sua autoridade, por vezes o juiz 
pensa que pode – e, ao fim e ao cabo, assim o faz – assujeitar 
os sentidos dos textos e dos fatos. Por vezes, nem a Cons-
tituição constrange o aplicador (juiz ou tribunal). Por isso 
o lema hermenêutico é: deixemos que os textos nos digam 
algo. Deixemos que a Constituição dê o seu recado. Ela é 
linguagem pública. Que deveria constranger epistemica-
mente o seu destinatário, o juiz. 
Todo ato de recepção, em linguagem, em arte e em 
música é um ato de interpretação. Ler e aplicar é interpretar. 
Quando lemos – prosa, poesia, texto de lei –, procuramos com-
preender aquilo que temos diante de nós — a prosa, a poesia, o 
texto de lei — dando-lhe um contexto que seja a nós inteligível, 
atribuindo-lhe um lugar naquele mundo que já nos era mun-
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
18 19
isso? Como as coisas têm um nome?
Transportemos tudo isso para o Direito. Pensemos na 
hermenêutica. O juiz não é dono dos sentidos. E nem os cria. 
Ele não é nem o escravo dos sentidos e nem o seu dono. Um 
modo mais simples ainda para compreender isso é a peça 
Medida por Medida de Shakespeare3. O juiz não pode equi-
parar-se ao Ângelo I, que condena Cláudio à morte porque 
considera-se “escravo” de uma antiga lei que diz “aquele que 
fornicar antes do casamento será condenado à morte”, e nem 
o Ângelo II, que, em troca da liberdade de Cláudio, propõe 
que a irmã do acusado ceda aos seus desejos sexuais. Ou seja, 
em um primeiro momento, o “juiz Ângelo” é um “puro exe-
geta” (escravo da lei), para, no dia seguinte, se transformar 
no “dono da lei”.
O que isto quer dizer? Simples: do extremo objetivismo 
– a partir do qual a realidade e os sentidos são “entificados” e 
estratificados–Ângelo vai ao completo subjetivismo, no qual 
os sentidos das coisas estão na sua mente, na sua consciência. 
Qual é o pior dos Ângelos? O “primeiro” ou o “segundo”? 
Minha resposta: Os dois são péssimos. Tenho usado muito 
essa peça de 1604 nas aulas. Já há várias dissertações por 
mim orientadas que tratam de Medida por Medida. Todas elas 
buscam desvendar esse mistério entre o “mito do dado” e o 
“voluntarismo”, entre concepções objetivistas e subjetivistas 
e, fundamentalmente, buscando construir respostas para 
esse dilema entre Ângelo I e II. Sim, a Teoria do Direito tem 
respostas para isso.
De um modo mais simples, pode-se dizer que, 
se nos autos do processo (e no fórum ou tribunal) o juiz 
3 Venho tratando sobre temas e obras como esta em um programa televisonado 
pela TV Unisinos e TV Justiça semanalmente denominado Direito e Literatura. 
troca o significado dos significantes, já no seu cotidiano 
não pode agir do mesmo modo. Interessante isso, não? Por 
consequência, o solipsismo judicial (jurídico-interpretativo) 
só pode acontecer em uma dada institucionalidade. 
Procurando ser mais claro ainda: Gadamer diz que, se queres 
compreender um texto – e texto são eventos, fenômenos – 
deves deixar que o texto te diga algo. Isto quer dizer que 
não devemos ignorar esse grau mínimo de objetividade. É o 
que chamo de “o mínimo (que) é”. 
Nesse sentido, a realidade constrange. A estrutura, a 
intersubjetividade, a tradição, enfim, essa linguagem públi-
ca constrange a todos nós cotidianamente para evitar que 
saiamos por aí fazendo coisas solipsistas. Não se pode tro-
car o nome das coisas. Experimente fazer isso e você sentirá 
na pele as consequências. Não se pode “assujeitar” as coisas. 
O solipsismo judicial se coloca na contramão desses cons-
trangimentos cotidianos, do mundo vivido. No Direito, em 
face do lugar da fala e da sua autoridade, por vezes o juiz 
pensa que pode – e, ao fim e ao cabo, assim o faz – assujeitar 
os sentidos dos textos e dos fatos. Por vezes, nem a Cons-
tituição constrange o aplicador (juiz ou tribunal). Por isso 
o lema hermenêutico é: deixemos que os textos nos digam 
algo. Deixemos que a Constituição dê o seu recado. Ela é 
linguagem pública. Que deveria constranger epistemica-
mente o seu destinatário, o juiz. 
Todo ato de recepção, em linguagem, em arte e em 
música é um ato de interpretação. Ler e aplicar é interpretar. 
Quando lemos – prosa, poesia, texto de lei –, procuramos com-
preender aquilo que temos diante de nós — a prosa, a poesia, o 
texto de lei — dando-lhe um contexto que seja a nós inteligível, 
atribuindo-lhe um lugar naquele mundo que já nos era mun-
21
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
20
do. George Steiner definia a interpretação como uma câma-
ra de ecos, ecos de pressupostos históricos, sociais e técnicos 
que informam o reconhecimento do novo, relacionando-o com 
aquilo que já lemos ou ouvimos antes e as nossas expectativas 
em relação a essa forma de expressão nova que temos diante 
de nós. Vale para a arte, para a literatura, vale para o Direito. 
Estamos condenados a interpretar.
A hermenêutica e a argumentação jurídica
A interpretação é a explicitação daquilo que compreen-
demos. É o compreendido exposto ao mundo; o intercâmbio 
entre a palavra e o mundo. Se compreendo algo, tenho de co-
municar isso. Sem falsear. Por isso a hermenêutica não nega a 
importância da argumentação. Sempre interpretamos. Sempre 
argumentamos. Precisamos argumentar.
Entretanto, é errado pensar que basta argumentar. No 
Direito, há uma coisa antes da argumentação: a compreensão. 
Se compreendo mal, argumentarei de forma equivocada. 
Qual é o ponto fraco das teorias da argumentação? É que 
elas se preocupam em justificar o que o juiz decidiu de forma 
discricionária. As teorias argumentativas não se importam se 
o juiz decide de forma discricionária ou até mesmo, arbitrária, 
desde que bem argumente.
Mesmo que as teorias argumentativas neguem, ainda 
estão presas ao paradigma da subjetividade. Mesmo que 
algumas teorias da argumentação digam que estão lidando 
com racionalidade discursiva, isso não está comprovado. 
E, pior, as teorias argumentativas não sobrevivem sem a 
ponderação. No entanto, a ponderação depende de escolhas 
discricionárias. O “ponderador” escolhe os princípios a 
ponderar. Isso é antidemocrático. A ponderação faz parte da 
crise da filosofia da consciência (subjetivismo). Quer se salvar 
dos estertores do sujeito da modernidade.
Aqui é necessário chamar a atenção para algo 
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COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA
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do. George Steiner definia a interpretação como uma câma-
ra de ecos, ecos de pressupostos históricos, sociais e técnicos 
que informam o reconhecimento do novo,relacionando-o com 
aquilo que já lemos ou ouvimos antes e as nossas expectativas 
em relação a essa forma de expressão nova que temos diante 
de nós. Vale para a arte, para a literatura, vale para o Direito. 
Estamos condenados a interpretar.
A hermenêutica e a argumentação jurídica
A interpretação é a explicitação daquilo que compreen-
demos. É o compreendido exposto ao mundo; o intercâmbio 
entre a palavra e o mundo. Se compreendo algo, tenho de co-
municar isso. Sem falsear. Por isso a hermenêutica não nega a 
importância da argumentação. Sempre interpretamos. Sempre 
argumentamos. Precisamos argumentar.
Entretanto, é errado pensar que basta argumentar. No 
Direito, há uma coisa antes da argumentação: a compreensão. 
Se compreendo mal, argumentarei de forma equivocada. 
Qual é o ponto fraco das teorias da argumentação? É que 
elas se preocupam em justificar o que o juiz decidiu de forma 
discricionária. As teorias argumentativas não se importam se 
o juiz decide de forma discricionária ou até mesmo, arbitrária, 
desde que bem argumente.
Mesmo que as teorias argumentativas neguem, ainda 
estão presas ao paradigma da subjetividade. Mesmo que 
algumas teorias da argumentação digam que estão lidando 
com racionalidade discursiva, isso não está comprovado. 
E, pior, as teorias argumentativas não sobrevivem sem a 
ponderação. No entanto, a ponderação depende de escolhas 
discricionárias. O “ponderador” escolhe os princípios a 
ponderar. Isso é antidemocrático. A ponderação faz parte da 
crise da filosofia da consciência (subjetivismo). Quer se salvar 
dos estertores do sujeito da modernidade.
Aqui é necessário chamar a atenção para algo 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
22 23
importante. Sempre há uma pré-compreensão sobre o que 
falamos e interpretamos. Mas essa pré-compreensão não 
equivale a opinião pessoal, a ideologia ou crença política. Este 
é um equívoco que cometem vários de meus críticos. Acham 
que a hermenêutica é relativista, isto é, que, a partir dela, o 
intérprete se libera das amarras da lei. Isto é absolutamente 
falso. Pré-compreensão (Vorverständnis) não é algo do tipo 
“cada um tem a sua opinião”. Se olho para um fuzil e reconheço 
o fuzil enquanto fuzil, só consigo fazê-lo porque antes já sabia 
o que era uma arma. Só que não fui eu que disse isso; não foi 
minha consciência. Só que tampouco eu reconheci o fuzil como 
arma em razão de uma essência; não existe um essencialismo 
que torna essa arma uma arma. Hermenêutica é isso: entre o 
objetivismo e o subjetivismo. 
O que os críticos da hermenêutica não entendem é que a 
hermenêutica atua em um nível de racionalidade de primeiro 
nível, que é estruturante; um transcendental não clássico, como 
bem diz Ernildo Stein; já as teorias da argumentação atuam a 
partir de um vetor de racionalidade de segundo nível, ficando, 
portanto, no plano lógico, e não filosófico (é a contraposição 
entre o como apofântico, wie, e o como hermenêutico, als). 
Ou seja: existe um “como hermenêutico” e um “como 
apofântico”. Mas essas são realidades interdependentes, isto é, não 
excludentes. Eu nunca desprezei a argumentação. O problema é 
que muitas teorias discursivas no/do Direito acreditam que a 
decisão judicial se resolverá num conjunto de regras que possam 
dirigir o processo argumentativo. Ficam no plano da analítica. 
Entendo que esta tendência esquece o que se esconde 
por detrás na tentativa de formalizar/racionalizar o discurso. 
Penso que os argumentativistas ou os analíticos, neste aspecto, 
contentam-se com o menos. 
Perguntaria, por exemplo, para um positivista exclusi-
vo ou normativista (sobre o conceito de positivismo, ver meu 
Dicionário de Hermenêutica), de que modo a teoria lida com 
juízes que “não cumprem o direito”? Já que o direito não obri-
ga ao juiz (de novo, para compreender melhor esse ponto, é 
necessário entender o conceito de positivismo jurídico), de 
que modo posso estabelecer critérios para ele decidir? Diria 
que são as teorias positivistas que não se preocupam e não 
possuem uma teoria da decisão. A Crítica Hermenêutica do 
Direito – que venho construindo há duas décadas - tem na 
decisão sua principal preocupação. Mais adiante, mostrarei.
De todo modo, em todas as vezes em que falo da CHD 
- Crítica Hermenêutica do Direito - remeto o leitor às diver-
sas obras em que desenvolvo essa minha teoria. Desenvolvo 
a CHD ao longo de Verdade e Consenso, Lições de Crítica do 
Direito e Dicionário de Hermenêutica (que já tem versão em 
língua castelhana). A CHD é uma construção teórica que re-
sulta da imbricação da hermenêutica de Gadamer e Heidegger 
(que podemos chamar de fenomenologia hermenêutica) com 
a teoria interpretativa de Ronald Dworkin. Faço apropriações 
desses autores e de suas teses. O ponto central é minha forte 
oposição a qualquer relativismo interpretativo; crítico forte-
mente o pamprincipiologismo; faço uma forte oposição às teo-
rias objetivistas e subjetivistas (o que quer dizer, de um modo 
mais simples, que afasto tanto o literalismo na interpretação 
quanto qualquer postura voluntarista) e defendo a tese de que 
decidir não é um ato de escolha (há um verbete sobre o concei-
to de VERDADE no Dicionário de Hermenêutica). Portanto, 
aposto em uma teoria da decisão, justamente aquilo que as te-
orias positivistas sempre deixaram de lado. Consequentemen-
te, a CHD trabalha com a possibilidade de respostas corretas, 
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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importante. Sempre há uma pré-compreensão sobre o que 
falamos e interpretamos. Mas essa pré-compreensão não 
equivale a opinião pessoal, a ideologia ou crença política. Este 
é um equívoco que cometem vários de meus críticos. Acham 
que a hermenêutica é relativista, isto é, que, a partir dela, o 
intérprete se libera das amarras da lei. Isto é absolutamente 
falso. Pré-compreensão (Vorverständnis) não é algo do tipo 
“cada um tem a sua opinião”. Se olho para um fuzil e reconheço 
o fuzil enquanto fuzil, só consigo fazê-lo porque antes já sabia 
o que era uma arma. Só que não fui eu que disse isso; não foi 
minha consciência. Só que tampouco eu reconheci o fuzil como 
arma em razão de uma essência; não existe um essencialismo 
que torna essa arma uma arma. Hermenêutica é isso: entre o 
objetivismo e o subjetivismo. 
O que os críticos da hermenêutica não entendem é que a 
hermenêutica atua em um nível de racionalidade de primeiro 
nível, que é estruturante; um transcendental não clássico, como 
bem diz Ernildo Stein; já as teorias da argumentação atuam a 
partir de um vetor de racionalidade de segundo nível, ficando, 
portanto, no plano lógico, e não filosófico (é a contraposição 
entre o como apofântico, wie, e o como hermenêutico, als). 
Ou seja: existe um “como hermenêutico” e um “como 
apofântico”. Mas essas são realidades interdependentes, isto é, não 
excludentes. Eu nunca desprezei a argumentação. O problema é 
que muitas teorias discursivas no/do Direito acreditam que a 
decisão judicial se resolverá num conjunto de regras que possam 
dirigir o processo argumentativo. Ficam no plano da analítica. 
Entendo que esta tendência esquece o que se esconde 
por detrás na tentativa de formalizar/racionalizar o discurso. 
Penso que os argumentativistas ou os analíticos, neste aspecto, 
contentam-se com o menos. 
Perguntaria, por exemplo, para um positivista exclusi-
vo ou normativista (sobre o conceito de positivismo, ver meu 
Dicionário de Hermenêutica), de que modo a teoria lida com 
juízes que “não cumprem o direito”? Já que o direito não obri-
ga ao juiz (de novo, para compreender melhor esse ponto, é 
necessário entender o conceito de positivismo jurídico), de 
que modo posso estabelecer critérios para ele decidir? Diria 
que são as teorias positivistas que não se preocupam e não 
possuem uma teoria da decisão. A Crítica Hermenêutica do 
Direito – que venho construindo há duas décadas - tem na 
decisão sua principal preocupação. Mais adiante, mostrarei.
De todo modo, em todas as vezesem que falo da CHD 
- Crítica Hermenêutica do Direito - remeto o leitor às diver-
sas obras em que desenvolvo essa minha teoria. Desenvolvo 
a CHD ao longo de Verdade e Consenso, Lições de Crítica do 
Direito e Dicionário de Hermenêutica (que já tem versão em 
língua castelhana). A CHD é uma construção teórica que re-
sulta da imbricação da hermenêutica de Gadamer e Heidegger 
(que podemos chamar de fenomenologia hermenêutica) com 
a teoria interpretativa de Ronald Dworkin. Faço apropriações 
desses autores e de suas teses. O ponto central é minha forte 
oposição a qualquer relativismo interpretativo; crítico forte-
mente o pamprincipiologismo; faço uma forte oposição às teo-
rias objetivistas e subjetivistas (o que quer dizer, de um modo 
mais simples, que afasto tanto o literalismo na interpretação 
quanto qualquer postura voluntarista) e defendo a tese de que 
decidir não é um ato de escolha (há um verbete sobre o concei-
to de VERDADE no Dicionário de Hermenêutica). Portanto, 
aposto em uma teoria da decisão, justamente aquilo que as te-
orias positivistas sempre deixaram de lado. Consequentemen-
te, a CHD trabalha com a possibilidade de respostas corretas, 
25
que denomino de RAC (Respostas Adequadas a Constituição). 
Em todos os meus livros e artigos, procuro resgatar o papel da 
Doutrina, que deve voltar a doutrinar. A CHD, nesse sentido, 
é uma tese que se coloca frontalmente contra o realismo jurídi-
co. Há critérios para alcançar a RAC. A CHD também aposta 
em Constrangimentos Epistemológicos (há um verbete com 
esse título no Dicionário de Hermenêutica). A defesa de um 
elevado grau de autonomia do Direito é um dos pontos cen-
trais da CHD, com o que afasto as possibilidades de que juízos 
morais possam corrigir o Direito, o que não quer dizer, por 
óbvio, que defendo a separação entre Direito e moral. Afinal, 
a CHD é uma teoria não-positivista. Este talvez seja um ponto 
central da CHD: o Direito está indissociavelmente entrelaçado 
com a moral, com a política e com a economia. Seu processo de 
formação inexoravelmente envolve essa conjuminação, enfim, 
essa cooriginariedade. No entanto, em um segundo momento, 
o Direito não pode ser corrigido por juízos morais. A pergun-
ta que faço por meio da CHD é: se a moral corrige o Direito, 
quem corrigirá a moral? Eis a complexidade: qual é o conceito 
de Direito? Um ponto para entender essa problemática do pa-
pel do juiz é perceber o modo como a CHD se apropria desses 
autores (Gadamer, Heidegger e Dworkin - mormente esses). 
Nesse sentido, basta ver a importância do que diz Dworkin: 
juiz julga elaborando argumentos de princípio e não por argu-
mento de política(s). Daí a importância de o leitor consultar a 
lista de obras que indico no final deste livro.
A hermenêutica e o alerta sobre os riscos do 
pamprincipiologismo para a democracia
O pamprincipiologismo – expressão que cunhei 
há alguns anos – está ligado à fragilização da autonomia 
do Direito. Se princípios são normas – e, com exceção dos 
positivistas, não vejo ninguém falando o contrário – então eles 
são deontológicos, isto é, são normativos.
Princípios valem. Logo, não é qualquer coisa que pode 
ser “um princípio”. Se fosse possível qualquer coisa ser um 
princípio, esvaziaríamos a função do legislador. Bastaria o 
juiz ou advogado inventar um princípio (como, de fato, fazem 
todos os dias). Espanta-me ver que um princípio inventado 
tenha o condão de revogar uma regra jurídica.
O que está por trás deste fenômeno denominado 
pamprincipiologismo é a velha tese de que “princípios 
são valores”. Ora, se são valores, não são normas. Se são 
normas, não podem ser valores. Valores são contingenciais. 
Estão ligados à moral. E a moral é contingente. Moral não 
corrige o Direito. Esse é um problema sério. Se princípios são 
valores e os valores estão ligados à moral (ou moralização 
do Direito), então a moral corrige o Direito. Pergunto, então: 
quem corrige a moral?4. 
Parcela da comunidade jurídica respondeu à pergunta 
4 STRECK, Lenio Luiz. Dicionário de Hermenêutica: quarenta temas 
fundamentais da teoria do direito à luz da crítica hermenêutica do direito. São 
Paulo, Editora Casa do Direito, 2017, p. 159 a 210
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que denomino de RAC (Respostas Adequadas a Constituição). 
Em todos os meus livros e artigos, procuro resgatar o papel da 
Doutrina, que deve voltar a doutrinar. A CHD, nesse sentido, 
é uma tese que se coloca frontalmente contra o realismo jurídi-
co. Há critérios para alcançar a RAC. A CHD também aposta 
em Constrangimentos Epistemológicos (há um verbete com 
esse título no Dicionário de Hermenêutica). A defesa de um 
elevado grau de autonomia do Direito é um dos pontos cen-
trais da CHD, com o que afasto as possibilidades de que juízos 
morais possam corrigir o Direito, o que não quer dizer, por 
óbvio, que defendo a separação entre Direito e moral. Afinal, 
a CHD é uma teoria não-positivista. Este talvez seja um ponto 
central da CHD: o Direito está indissociavelmente entrelaçado 
com a moral, com a política e com a economia. Seu processo de 
formação inexoravelmente envolve essa conjuminação, enfim, 
essa cooriginariedade. No entanto, em um segundo momento, 
o Direito não pode ser corrigido por juízos morais. A pergun-
ta que faço por meio da CHD é: se a moral corrige o Direito, 
quem corrigirá a moral? Eis a complexidade: qual é o conceito 
de Direito? Um ponto para entender essa problemática do pa-
pel do juiz é perceber o modo como a CHD se apropria desses 
autores (Gadamer, Heidegger e Dworkin - mormente esses). 
Nesse sentido, basta ver a importância do que diz Dworkin: 
juiz julga elaborando argumentos de princípio e não por argu-
mento de política(s). Daí a importância de o leitor consultar a 
lista de obras que indico no final deste livro.
A hermenêutica e o alerta sobre os riscos do 
pamprincipiologismo para a democracia
O pamprincipiologismo – expressão que cunhei 
há alguns anos – está ligado à fragilização da autonomia 
do Direito. Se princípios são normas – e, com exceção dos 
positivistas, não vejo ninguém falando o contrário – então eles 
são deontológicos, isto é, são normativos.
Princípios valem. Logo, não é qualquer coisa que pode 
ser “um princípio”. Se fosse possível qualquer coisa ser um 
princípio, esvaziaríamos a função do legislador. Bastaria o 
juiz ou advogado inventar um princípio (como, de fato, fazem 
todos os dias). Espanta-me ver que um princípio inventado 
tenha o condão de revogar uma regra jurídica.
O que está por trás deste fenômeno denominado 
pamprincipiologismo é a velha tese de que “princípios 
são valores”. Ora, se são valores, não são normas. Se são 
normas, não podem ser valores. Valores são contingenciais. 
Estão ligados à moral. E a moral é contingente. Moral não 
corrige o Direito. Esse é um problema sério. Se princípios são 
valores e os valores estão ligados à moral (ou moralização 
do Direito), então a moral corrige o Direito. Pergunto, então: 
quem corrige a moral?4. 
Parcela da comunidade jurídica respondeu à pergunta 
4 STRECK, Lenio Luiz. Dicionário de Hermenêutica: quarenta temas 
fundamentais da teoria do direito à luz da crítica hermenêutica do direito. São 
Paulo, Editora Casa do Direito, 2017, p. 159 a 210
COMPREENDER DIREITO - HERMENÊUTICA LENIO LUIZ STRECK
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que sempre perturbou o Direito “o que fazer com a moral?” 
exatamente com essa resposta: “Princípios são valores e 
trazem a moral para dentro do Direito”. Tal circunstância 
fragilizou sobremodo o necessário grau de autonomia que o 
Direito necessita preservar em uma democracia. Deveria ser 
rejeitada pelos juristas uma tese ou postura que permitisse 
que um standard qualquer tenha o condão de balizar o Direito 
aprovado democraticamente pelo parlamento. Pois não foi 
isso que aconteceu e o que vem ocorrendo. 
Lamentavelmente o Direito foi inundado por uma 
produção de standards valorativos, álibis teóricos pelos quais 
se pode dizer qualquer coisa sobre a interpretação da lei. Um 
princípio – sem qualquer densidade deontológica

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