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1 HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL1 4a EDIÇÃO/2024 1. NOÇÕES GERAIS 3 1.1. O QUE É HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL? 3 1.2. DUAS INDAGAÇÕES DE HERMENÊUTICA 4 1.3 APOSTASIA CONSTITUCIONAL 4 1.3 CLASSIFICAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO 5 1.3.1. QUANTO AO SUJEITO 5 1.3.2. QUANTO AOS EFEITOS 6 1.4. CORRENTES INTERPRETATIVAS NORTE-AMERICANAS 8 1.4.1. INTERPRETATIVISMO E NÃO INTERPRETATIVISMO 8 1.4.2. PROCEDIMENTALISMO DE JOHN HART ELY (PROCEDIMENTALISMO X SUBSTANCIALISMO) 9 1.4.3. MINIMALISMO DE CASS R. SUSTEIN 10 1.4.4. O CONSTITUCIONALISMO POPULAR DE MARK TUSHNET 11 1.4.5. CONSTITUCIONAL CHOICES E A DEFESA DO SUBSTANCIALISMO DE LAWRENCE TRIBE 12 1.4.6. ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO DE RICHARD POSNER 12 1.4.7. SOCIEDADE FECHADA DOS INTÉRPRETES DA CONSTITUIÇÃO (GUSTAVO BINENBOJM) 13 1.4.8. PROTESTANTISMO CONSTITUCIONAL (JACK BALKIN) 13 1.4.9. LIBERTARIANISMO E COMUNITARISMO 13 1.4.10. PRAGMATISMO CONSTITUCIONAL (POSNER) E TEORIA DA INTEGRIDADE OU TEORIA DO ROMANCE EM CADEIA OU CHAIN NOVEL (DWORKIN) 14 1.4.11. CRIPTOCONSEQUENCIALISMO 1Lenza, Pedro Direito Constitucional esquematizado / Pedro Lenza. – Coleção esquematizado® / coordenador Pedro Lenza – 24. ed. – São Paulo : Saraiva Educação, 2020. pags. 125-150 14 1.4.13. TEORIA DO PENSAMENTO JURÍDICO DO POSSÍVEL (OU DAS POSSIBILIDADES) 14 1.4.14. TOTALITARISMO CONSTITUCIONAL 15 1.4.15. REPUBLICANISMO 15 1.4.16. TERRAPLANISMO CONSTITUCIONAL 15 1.4.17. ORIGINALISMO E LIVING CONSTITUTION 16 2. MUTAÇÕES CONSTITUCIONAIS X REFORMAS CONSTITUCIONAIS 16 2.1. MECANISMOS DE MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL 17 3. DISTINÇÃO ENTRE REGRAS E PRINCÍPIOS 18 3.1. SEGUNDO HUMBERTO ÁVILA 18 3.2. SEGUNDO CANOTILHO 18 19 3.3. SEGUNDO BARROSO 19 3.4. SEGUNDO DWORKIN 19 3.5. SEGUNDO ALEXY 19 4. DERROTABILIDADE (DEFEASIBILITY) 20 5. MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO 22 5.1. MÉTODO JURÍDICO OU HERMENÊUTICO CLÁSSICO (Ernest Forsthoff) 22 5.2. MÉTODO TÓPICO-PROBLEMÁTICO OU MÉTODO DA TÓPICA (Theodor Viehweg) 23 5.3. MÉTODO HERMENÊUTICO-CONCRETIZADOR (Konrad Hesse) 23 5.4. MÉTODO CIENTÍFICO-ESPIRITUAL (Rudolf Smend) 24 5.5. MÉTODO NORMATIVO-ESTRUTURANTE (Friedrich Müller) OU CONCRETISTA (Paulo Bonavides) 24 5.6. MÉTODO DA COMPARAÇÃO CONSTITUCIONAL (Peter Häberle) 24 5.7. MÉTODO CONCRETISTA DA CONSTITUIÇÃO ABERTA (Peter Häberle) 24 5.8. LEITURA MORAL DA CONSTITUIÇÃO (Ronald Dworkin) 24 5.9. RESUMINDO 24 2 6. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 25 6.1. PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO 25 6.2. PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE CONSTITUCIONALIDADE DAS LEIS E DOS ATOS DO PODER PÚBLICO 26 7. PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 27 7.1. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO 27 7.1.1. LIMITES NA UTILIZAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO CONFORME 28 7.2. PRINCÍPIO DA UNIDADE DA CONSTITUIÇÃO 28 7.3. PRINCÍPIO DO EFEITO INTEGRADOR OU DA EFICÁCIA INTEGRADORA 28 7.4. PRINCÍPIO DA MÁXIMA EFETIVIDADE OU PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA OU DA INTERPRETAÇÃO EFETIVA 29 7.5. PRINCÍPIO DA FORÇA NORMATIVA 29 7.6. PRINCÍPIO DA JUSTEZA OU DA CONFORMIDADE (EXATIDÃO OU CORREÇÃO) FUNCIONAL 29 7.7. PRINCÍPIO DA CONCORDÂNCIA PRÁTICA OU HARMONIZAÇÃO 30 7.8. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE OU RAZOABILIDADE 30 7.9. RESUMO 31 8. LIMITES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 32 8.1. DECISÕES INTERPRETATIVAS EM SENTIDO ESTRITO 32 8.2. DECISÕES MANIPULADORAS (MANIPULATIVAS OU NORMATIVAS) 32 9. PAPEL DO JUIZ NA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 33 10. RONALD DWORKIN E A TEORIA DA INTEGRIDADE 34 10.1. A METÁFORA DO ROMANCE NA CADEIA 34 11. A CRÍTICA DE JEREMY WALDRON AO JUDICIAL REVIEW 34 12. VERDADE E CONSENSO - LENIO STRECK 35 13. TEORIA DA DECISÃO JUDICIAL 35 14. INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO 36 3 1. NOÇÕES GERAIS 1.1. O QUE É HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL?2 Segundo o professor Flávio Martins, “prevalece o entendimento na doutrina de que existe uma hermenêutica constitucional, diferenciada da hermenêutica do Direito, por ter métodos próprios e princípios próprios”3 Defendem essa posição juristas como Celso Ribeiro Bastos, Konrad Hesse, José Joaquim Gomes Canotilho, Jorge Miranda, Luís Roberto Barroso etc. 📌Fatores que Justificam a Hermenêutica Constitucional: 1) Supremacia da Constituição: ◾A interpretação de leis e atos normativos deve considerar a existência de uma norma superior, geralmente a Constituição. ◾No caso da interpretação constitucional, não há normas superiores, ressalvada a teoria da supraconstitucionalidade em casos de tratados internacionais. 2) Abstração e Princípios nas Normas Constitucionais: ◾Diferentemente de leis infraconstitucionais, as constituições contêm normas abstratas, vagas e amplas, muitas vezes baseadas em princípios. ◾As leis infraconstitucionais, por outro lado, são frequentemente compostas por regras mais precisas e 3 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 184 2 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 184 delimitadas. 3) Caráter Político e Programático: ◾Normas constitucionais frequentemente possuem caráter político, programático e ideológico. ◾Isso demanda métodos de interpretação adaptados para lidar com a natureza específica dessas normas. 📌Métodos e Princípios da Hermenêutica Constitucional: 1) Métodos Específicos: ◾A Hermenêutica Constitucional emprega métodos específicos para lidar com a abstração e a◾natureza principiológica das normas constitucionais. ◾Métodos como interpretação conforme a Constituição, interpretação teleológica e interpretação histórico-evolutiva são comuns nesse contexto. 2) Princípios Norteadores: ◾Princípios como a unidade da Constituição, a máxima efetividade das normas constitucionais e a ponderação são essenciais na Hermenêutica Constitucional. ◾Esses princípios orientam o intérprete na busca por significados que promovam a harmonia e a eficácia das normas constitucionais. 4 1.2. DUAS INDAGAÇÕES DE HERMENÊUTICA4 A hermenêutica, enquanto disciplina que se ocupa da interpretação de textos, desempenha um papel fundamental no estudo do Direito. Nesse contexto, surgem duas indagações essenciais que permeiam as reflexões dos estudiosos: “A primeira delas refere-se à necessidade de interpretação quando um texto é efetivamente claro (in claris cessat interpretatio?). Outra indagação refere-se à meta que deve ser buscada pelo intérprete: a busca pela vontade da lei (mens legis) ou pela vontade do legislador (mens legislatoris")5 Vamos analisar cada uma delas: 📌In claris cessat interpretatio? Quando um texto legal é claro não é necessária a interpretação? Konrad Hesse que "onde não existem dúvidas, não se interpreta e, muitas vezes, também não é necessária a interpretação." No entanto, essa premissa se mostra equivocada, pois para identificar a clareza de um texto é necessário interpretá-lo e buscar o sentido mais apropriado da norma. Conforme Carlos Maximiliano destaca, o conceito de clareza é subjetivo, variando de acordo com a perspectiva de cada intérprete. Mesmo em situações aparentemente claras, a interpretação se faz necessária ao considerar elementos históricos, sistemáticos e valores jurídico-sociais. Um exemplo prático é o art. 5º, XI, da Constituição Federal, que menciona a violação da casa durante o "dia". A definição de "dia" pode variar, exigindo interpretação para estabelecer seus limites horários. 📌 Mens legis ou mens legislatoris? Ao interpretar uma norma legal, surge o dilema: buscar a vontade do legislador (mens legislatoris) ou a vontade 5 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 184 4 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 184 da lei (mens legis)? Defensores do subjetivismo argumentam que a vontade do legislador é mais certa, evitando poder excessivo ao intérprete. Já os objetivistasEstudo da norma através de um problema. HERMENÊUTICO CONCRETIZADOR Hesse Norma-proble ma. Parte-se de pré-compreen sões para se chegar ao sentido da norma. Interpretação concretizador a. A Constituição tem força para compreender e alterar a realidade. NORMATIVO ESTRUTURANTE OU CONCRETISTA Frederic Muller Parte-se do direito positivo para se chegar à norma. Colhe elementos da realidade social para se chegar à norma. CIENTÍFICO-ESPIRIT UAL Ruldof Smend Não utiliza-se apenas valores consagrados na Constituição, mas também valores extra-constitu cionais, como a realidade social e cultural do povo. Interpretação sistêmica. CONCRETISTA DA CONSTITUIÇÃO ABERTA Peter Häberle Interpretação por todo o povo, não apenas pelos juristas COMPARAÇÃO Peter Häberle Comparação entre diversos textos constitucionai s. 6. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 6.1. PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO Toda interpretação constitucional se assenta no pressuposto da superioridade jurídica da Constituição sobre os demais atos normativos no 26 âmbito do Estado. Assim, em razão da supremacia constitucional, nenhum ato jurídico ou manifestação de vontade pode subsistir validamente se for incompatível com a Lei Fundamental. Nesse contexto, em razão da superlegalidade formal (Constituição como fonte primária da produção normativa, identificando competências e procedimentos para a elaboração dos atos normativos inferiores) e material da Constituição (subordina o conteúdo de toda a atividade normativa estatal à conformidade com os princípios e regras da Constituição), surge o controle de constitucionalidade (judicial review), que nada mais é do que uma técnica de atuação da supremacia da Constituição. Para facilitar a compreensão, segue o desenho da pirâmide de Kelsen: Conforme a visualização da pirâmide, a Constituição está no topo e dela decorre a validade dos atos normativos primários e secundários. Ou seja, em decorrência da supremacia da Constituição, os atos normativos devem ser, com ela, compatíveis, sob pena de serem considerados inconstitucionais. 6.2. PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE CONSTITUCIONALIDADE DAS LEIS E DOS ATOS DO PODER PÚBLICO Não sendo evidente a inconstitucionalidade, havendo dúvida ou a possibilidade de razoavelmente se considerar a norma como válida, deve o órgão competente abster-se da declaração de inconstitucionalidade. Havendo alguma interpretação possível que permita afirmar-se a compatibilidade da norma com a Constituição, em meio a outras que carreiam para ela um juízo de invalidade, deve o intérprete optar pela interpretação legitimadora, mantendo o preceito em vigor. O princípio da presunção de constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público (presunção juris tantum) é uma decorrência do princípio geral da separação dos Poderes e funciona como fator de autolimitação da atividade do Judiciário que, em reverência à atuação dos demais Poderes, somente deve invalidar os atos diante de casos de inconstitucionalidade flagrante e incontestável. 🚩 IMPORTANTE: No caso de superação legislativa da jurisprudência (reação legislativa), como fica a aplicação do princípio da presunção de constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público?33 Segundo o STF (ADI 5.105, Info 801), a aplicação do princípio irá variar de acordo com a espécie de norma utilizada pelo Poder Legislativo quando da reação legislativa: ◾ Reversão jurisprudencial (reação legislativa) proposta por meio de emenda constitucional: a invalidação somente ocorrerá nas restritas hipóteses de violação aos limites previstos no art. 60, CF. Conclusão: aplica-se normalmente o princípio da presunção de constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público. 33https://www.dizerodireito.com.br/2015/10/superacao-legislativa-da-juris prudencia.html 27 ◾ Reversão jurisprudencial proposta por lei ordinária: a lei que frontalmente colidir com a jurisprudência do STF nasce com presunção relativa de inconstitucionalidade, de forma que caberá ao legislador o ônus de demonstrar, argumentativamente, que a correção do precedente se afigura legítima. A novel legislação que frontalmente colidir com a jurisprudência (leis in your face) se submete a um controle de constitucionalidade mais rigoroso. Para ser considerada válida, o Congresso Nacional deverá comprovar que as premissas fáticas e jurídicas sobre as quais se fundou a decisão do STF no passado não mais subsistem. O Poder Legislativo promoverá verdadeira hipótese de mutação constitucional pela via legislativa. Conclusão: não se aplica o princípio da presunção de constitucionalidade das leis e dos atos. 7. PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 7.1. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO Diante de normas plurissignificativas ou polissêmicas (que possuem mais de uma interpretação), deve-se preferir a exegese que mais se aproxime da Constituição (ainda que não seja a que mais obviamente decorra de seu texto) e, portanto, que não seja contrária ao texto constitucional. Tal princípio decorre da confluência dos princípios da supremacia da Constituição e da presunção de constitucionalidade das leis e atos do poder público. Daí surgirem várias dimensões a serem consideradas, seja pela doutrina, seja pela jurisprudência, destacando-se que a interpretação conforme será implementada pelo Judiciário e, em última instância, de maneira final, pela Suprema Corte, sendo elas: a. Prevalência da Constituição: deve-se preferir a interpretação não contrária à Constituição. b. Conservação de normas: percebendo o intérprete que uma lei pode ser interpretada em conformidade com a Constituição, ele deve assim aplicá-la para evitar a sua não continuidade. c. Exclusão da interpretação contra legem: o intérprete não pode contrariar o texto literal e o sentido da norma para obter a sua concordância com a Constituição. d. Espaço de interpretação: só se admite a interpretação conforme a Constituição se existir um espaço de decisão e, dentre as várias a que se chegar, deverá ser aplicada aquela em conformidade com a Constituição. e. Rejeição ou não aplicação de normas inconstitucionais: uma vez realizada a interpretação da norma, pelos vários métodos, se o juiz chegar a um resultado contrário à Constituição, em realidade, deverá declarar a inconstitucionalidade da norma, proibindo a sua correção contra a Constituição. f. Intérprete não pode atuar como legislador positivo: não se aceita a interpretação conforme a Constituição quando, pelo processo de hermenêutica, se obtiver uma regra nova e distinta daquela objetivada pelo legislador e com ela contraditória, em seu sentido literal ou objetivo. Deve-se, portanto, afastar qualquer interpretação em contradição com os objetivos pretendidos pelo legislador. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RJ - Delegado de Polícia, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: O direito constitucional reclama a existência de princípios específicos, que compõem a denominada 28 metodologia constitucional, para que a Constituição Federal de 1988 seja interpretada. Um dos referidos princípios prevê que, sempre que possível, deve o intérprete buscar a interpretação menos óbvia do enunciado normativo, fixando-a como norma, de modo a salvar a sua constitucionalidade. Trata-se do princípio de: “c) interpretação conforme a Constituição”. 7.1.1. LIMITES NA UTILIZAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO CONFORME a) Sentido claro do texto legal: não é permitido ao intérprete contrariar o sentido literal da lei (interpretação contra legem). b) Fim contemplado pelo legislador: não é permitido ao intérprete contrariar o objetivo inequivocamente pretendido pelo legislador com a regulamentação, pois a finalidade da lei não deve ser desprezada. 7.2. PRINCÍPIO DA UNIDADE DA CONSTITUIÇÃO A Constituiçãodeve ser sempre interpretada em sua globalidade, como um todo, e, assim, as aparentes antinomias deverão ser afastadas. As normas devem ser vistas como preceitos integrados (interpretação sistêmica) em um sistema unitário de regras e princípios. 📌 OBSERVAÇÕES ■ Todas as normas contidas numa Constituição formal têm igual dignidade: não há hierarquia ou subordinação entre os dispositivos da Lei Maior. ■ Não existem normas constitucionais originárias inconstitucionais: devido à ausência de hierarquia entre os diferentes dispositivos constitucionais, não se pode reconhecer a inconstitucionalidade de uma norma constitucional em face de outra, ainda que uma delas constitua cláusula pétrea. 📌O Supremo Tribunal Federal admite a tese das normas constitucionais inconstitucionais (Otto Bachof)? Não. A jurisprudência do Supremo34 Tribunal Federal não admite a tese das normas constitucionais inconstitucionais, ou seja, de normas contraditórias advindas do poder constituinte originário. Assim, se o intérprete da Constituição se deparar com duas ou mais normas aparentemente contraditórias, caber-lhe-á compatibilizá-las, de modo que ambas continuem vigentes. Não há que se falar em controle de constitucionalidade de normas constitucionais, produto do trabalho do poder constituinte originário. O Supremo Tribunal Federal apenas admite a possibilidade de controle de constitucionalidade em relação ao poder constituinte derivado, apreendendo-se, portanto, que as revisões e as emendas devem estar balizadas pelos parâmetros estabelecidos na Carta Magna. ■ Não existem antinomias verdadeiras entre os dispositivos constitucionais: o texto constitucional deverá ser lido e interpretado de modo harmônico e com ponderação de seus princípios, eliminando-se com isso eventuais antinomias aparentes. 7.3. PRINCÍPIO DO EFEITO INTEGRADOR OU DA EFICÁCIA INTEGRADORA Na resolução dos problemas jurídico-constitucionais deve dar-se primazia aos critérios ou pontos de vista que favoreçam a integração política e social e o reforço da unidade política, ou seja, o intérprete deve dar prevalência aos significados que promovam a integração política e a 34https://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/2564231/o-supremo-tribunal-federal -admite-a-tese-das-normas-constitucionais-inconstitucionais-denise-cristi na-mantovani-cera 29 paz social. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova FCC - 2021 - DPE-RR - Defensor Público, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: Dentre os princípios de interpretação constitucional, aquele que indica a necessidade de se dar preferência aos critérios de interpretação que favoreçam a integração política e social e o reforço da unidade política é chamado de princípio: ”do efeito integrador”. 7.4. PRINCÍPIO DA MÁXIMA EFETIVIDADE OU PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA OU DA INTERPRETAÇÃO EFETIVA A norma constitucional tem a mais ampla efetividade social. Segundo Canotilho, "é um princípio operativo em relação a todas e quaisquer normas constitucionais, e embora a sua origem esteja ligada à tese da atualidade das normas programáticas (THOMA), é hoje sobretudo invocado no âmbito dos direitos fundamentais (no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais)”. Em outras palavras, deve-se interpretar a norma constitucional no sentido que lhe conceda maior eficácia. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova FUNDEP (Gestão de Concursos) - 2019 - DPE-MG - Defensor Público, tendo sido considerada correta a seguinte assertiva: “III. Na interpretação dos direitos fundamentais, o princípio da “máxima efetividade das normas constitucionais” orienta o intérprete constitucional à aplicação do sentido normativo que confira o maior grau de efetividade social à norma constitucional aplicável ao caso concreto.” 7.5. PRINCÍPIO DA FORÇA NORMATIVA Os aplicadores da Constituição, entre as interpretações possíveis, devem adotar aquela que garanta maior eficácia, aplicabilidade e permanência das normas constitucionais, conferindo-lhes sentido prático e concretizador, em clara relação com o princípio da máxima efetividade ou eficiência. 7.6. PRINCÍPIO DA JUSTEZA OU DA CONFORMIDADE (EXATIDÃO OU CORREÇÃO) FUNCIONAL O STF, ao concretizar a norma constitucional, será responsável por estabelecer a força normativa da Constituição, não podendo alterar a repartição de funções constitucionalmente estabelecidas pelo constituinte originário, como é o caso da separação de poderes, no sentido de preservação do Estado de Direito. O seu intérprete final não pode chegar a um resultado que subverta ou perturbe o esquema organizatório-funcional constitucionalmente estabelecido. Desse modo, justeza está ligada à ideia de exatidão, precisão, de “perfeito caimento” da interpretação ao significado da norma. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova FUNDEP (Gestão de Concursos) - 2021 - MPE-MG - Promotor de Justiça Substituto, tendo sido considerada incorreta a seguinte alternativa: a) O princípio da justeza, ou da conformidade funcional, exige do intérprete a busca da maior efetividade social possível na aplicação da norma constitucional. 30 Na prova para o cargo de Advogado da Prefeitura de Cambé-PR (Banca: FAUEL; Ano: 2023), a banca apresentou o seguinte enunciado: “A doutrina admite que não há norma jurídica, senão norma interpretada. Essa assertiva, com efeito, tem aplicação em relação às normas constitucionais, não raro dotadas de vagueza e amplitude semântica. Sobre o tema, assinale a alternativa CORRETA”. E considerou correta a seguinte assertiva: “Conforme o princípio da correção funcional, na interpretação das normas constitucionais deve-se procurar respeitar e manter o sistema de repartição de funções estabelecido constitucionalmente, sendo, portanto, tal princípio, corolário do princípio da separação de poderes”. 7.7. PRINCÍPIO DA CONCORDÂNCIA PRÁTICA OU HARMONIZAÇÃO O princípio da harmonização tem como finalidade evitar o sacrifício (total) de um bem jurídico em relação ao outro. Este princípio decorre do princípio da unidade da Constituição e fundamenta-se na igualdade de valor dos bens constitucionais. Assim, os bens jurídicos constitucionalizados deverão coexistir de forma harmônica, contudo, na hipótese de eventual conflito ou concorrência entre eles, buscando, evitar o sacrifício (total) de um princípio em relação a outro, usar-se-á o critério da ponderação. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RJ - Delegado de Polícia, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: ”Em razão do que preceitua o princípio da concordância prática, pode-se dizer que, na ocorrência de conflito entre bens jurídicos garantidos por normas constitucionais, o intérprete deve priorizar a decisão que melhor os harmonize, de forma a conceder a cada um dos direitos a maior amplitude possível, sem que um deles acabe por impor a supressão do outro”. 7.8. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE OU RAZOABILIDADE Consubstancia uma pauta de natureza axiológica que emana diretamente das ideias de justiça, equidade, bom senso, prudência, moderação, justa medida, proibição de excesso, direito justo e valores afins; precede e condiciona a positivação jurídica, inclusive de âmbito constitucional; e, ainda, enquanto princípio geral do direito, serve de regra de interpretação para todo o ordenamento jurídico. Tal princípio exige a tomada de decisões racionais, não abusivas, e que respeitem os núcleos essenciais de todos os direitos fundamentais. Como parâmetro, é possível destacar a necessidade de preenchimento de 3 importantes elementos: ● Necessidade (exigibilidade): a adoção da medida que possa restringir direitos só se legitima se indispensável para o caso concreto e não se puder substituí-la por outra menos gravosa. ● Adequação (pertinência ou idoneidade): o meio escolhido deve atingir o objetivoperquirido. ● Proporcionalidade em sentido estrito: sendo a medida necessária e adequada, deve-se investigar se o ato praticado, em termos de realização do objetivo pretendido, supera a restrição a outros valores constitucionalizados. Podemos falar em máxima efetividade e mínima restrição. O princípio da proporcionalidade não tem assento expresso na Constituição Federal, mas decorre do devido processo legal, em sua acepção substantiva (art. 5º, LIV, CF). 31 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova MPE-GO - 2019 - MPE-GO - Promotor de Justiça Substituto - Anulada, tendo sido considerada incorreta a seguinte alternativa: “Na aplicação da técnica de ponderação de interesses, a medida restritiva não será desproporcional se, ausente peso suficiente dos motivos que justificaram a restrição, esta não afetar o núcleo essencial do direito fundamental ou bem constitucionalmente protegido, em rota de colisão”. Na prova para o cargo de Titular de Serviços de Notas e de Registros do TJ-PE (Banca: FCC; Ano: 2013), a banca apresentou o seguinte enunciado: “O principal debate teórico na seara do constitucionalismo, aqui considerado sintética e amplamente como técnica jurídica de tutela de direitos e garantias fundamentais do cidadão através de constituições escritas, reside na discussão se houve ou não a evolução para um novo paradigma denominado neoconstitucionalismo. A interpretação constitucional passou a ter uma gama de técnicas e princípios específicos de exegese. Independentemente da polêmica acadêmica, vem sendo aplicado, reiteradamente, em decisões importantes do Supremo Tribunal Federal, o Princípio da Proporcionalidade, com o seguinte sentido:”. E considerou correta a seguinte assertiva: “advém dos princípios gerais do direito e serve de regra de interpretação para todo o ordenamento jurídico. Acolhido na área do Direito Constitucional por estar vinculado a ideia de Estado de Direito e direitos fundamentais, especialmente quando há colisão de bens ou valores igualmente protegidos pela Constituição”. 7.9. RESUMO PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO Nas normas que admitem mais de uma interpretação, é dada a preferência para a interpretação que é compatível com a Constituição. PRINCÍPIO DA UNIDADE DA CONSTITUIÇÃO A Constituição deve ser interpretada como um todo. Não há hierarquia entre normas constitucionais, os conflitos são meramente aparentes. PRINCÍPIO DO EFEITO INTEGRADOR OU DA EFICÁCIA INTEGRADORA A interpretação, decorrente das normas constitucionais, deve gerar paz social e integração política. PRINCÍPIO DA MÁXIMA EFETIVIDADE OU EFICIÊNCIA A norma constitucional deve ser interpretada de forma a extrair maior efetividade possível. Aproximação entre o dever-ser e o ser. PRINCÍPIO DA FORÇA NORMATIVA A partir dos valores sociais, extrai a maior eficiência e aplicabilidade às normas constitucionais, conferindo sentido prático e concretizador. PRINCÍPIO DA JUSTEZA OU DA CONFORMIDADE Deve-se respeitar o equilíbrio entre a separação dos Poderes. 32 PRINCÍPIO DA CONCORDÂNCIA PRÁTICA OU HARMONIZAÇÃO Os bens jurídicos devem coexistir de forma harmônica. No caso de conflito deve-se evitar o sacrifício total de um bem em relação ao outro. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALID ADE OU RAZOABILIDADE Está implícito na Constituição Federal. Veda interpretações absurdas, exageradas, exorbitantes. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova FCC - 2021 - DPE-GO - Defensor Público, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: Segundo J.J. Gomes Canotilho são princípios e regras interpretativas das normas constitucionais, entre outros, c) a unidade da constituição, o efeito integrador e a conformidade constitucional. 8. LIMITES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 8.1. DECISÕES INTERPRETATIVAS EM SENTIDO ESTRITO a) Sentença interpretativa de rechaço: Segundo Lenza, diante de duas possíveis interpretações que determinado ato normativo possa ter, por meio das sentenças interpretativas de rechaço, a Corte Constitucional adota aquela que se conforma à Constituição, repudiando qualquer outra que contrarie o texto constitucional. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova VUNESP - 2019 - TJ-AC - Juiz de Direito Substituto, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: [...] assinale a alternativa que aponta, corretamente, um tipo de decisão judicial interpretativa pela qual, diante de duas possíveis interpretações que podem ser extraídas de um ato normativo, o STF adota aquela que se conforma à Constituição e repudia qualquer outra que contrarie o texto constitucional. c) Sentença interpretativa de rechaço.. b) Sentença interpretativa de aceitação: a Corte Constitucional anula decisão tomada pela instâncias ordinária, que adotou interpretação ofensiva à Constituição. O preceito questionado continua válido, mas a norma extraída da sua interpretação inconstitucional é anulada em caráter definitivo e com eficácia erga omnes.35 8.2. DECISÕES MANIPULADORAS (MANIPULATIVAS OU NORMATIVAS) A corte não se limita a declarar a inconstitucionalidade das normas que lhe são submetidas, mas agindo como legislador positivo modifica diretamente o ordenamento jurídico, adicionando ou substituindo normas, a pretexto ou com propósito de adequá-lo à Constituição. a) Sentenças aditivas (ou sentenças manipulativas de efeito aditivo), Declaração de inconstitucionalidade com efeito acumulativo ou aditivo: A corte declara inconstitucional certo dispositivo, não pelo que expressa, mas pelo que omite, alargando o texto da lei ou seu âmbito de incidência. Assim a decisão se mostra aditiva, pois cria uma norma autônoma estendendo a situação não prevista. Pedro Lenza (2020) ressalta que Canotilho denomina “de declaração de inconstitucionalidade com efeito acumulativo (aditivo), na medida em que a 35https://projetotcmrj.jusbrasil.com.br/artigos/901940475/metodos-de-int erpretacao-constitucional-e-seus-limites 33 sentença do Tribunal “alarga o âmbito normativo de um preceito, declarando inconstitucional a disposição na ‘parte em que não prevê’, contempla uma ‘exceção’ ou impõe uma ‘condição’ a certas situações que deveria prever (sentenças aditivas)”. b) Sentenças aditivas de garantia (ou de prestação): a Corte Constitucional acrescenta à norma um dispositivo que diz respeito ao exercício de um direito fundamental, de cunho negativo (direito de liberdade) ou social. c) Sentenças aditivas de princípio (ou dispositivo) genérico: são proferidas quando a inconstitucionalidade pode ser sanada pela criação de vários dispositivos, não cabendo à Corte escolher o mais adequado. Assim, a Corte declara a inconstitucionalidade por omissão e ressaltando a necessidade de supri-la, mas deixa a escolha a critério do juiz da causa. d) Sentenças substitutivas (declaração de inconstitucionalidade com efeito substitutivo): a corte anula norma e substitui por outra, essencialmente diferente, criada pelo próprio tribunal8. Lenza , citando36 Branco, ressalta que “atuando dessa forma, a Corte não apenas anula a norma impugnada como também a substitui por outra, consentânea com o parâmetro constitucional e essencialmente diferente, criada pelo próprio tribunal, o que implica a produção heterônoma de atos legislativos ou de um direito judicial.”. 36Lenza (2020), pag. 141. 9. PAPEL DO JUIZ NA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL37 Há duas correntes doutrinárias que se posicionam de maneira diversa com relação à atuação do juiz na interpretação constitucional: a) Interpretativistas: o aplicador do texto constitucional não deve se prender à literalidade do texto normativo, mas não é admitido qualquer forma de interpretação que ultrapasse o alcance do seu significado linguístico possível, pois entendem que interpretar não é criar, é simplesmente aplicar a norma jurídica com o sentido ealcance que foi atribuído na sua criação. A interpretação extensiva ao texto de leis violaria o princípio democrático, atribuindo ao intérprete, membro do poder judiciário, uma legitimidade privativa do legislativo. b) Não-interpretativistas: levando em consideração ser o texto constitucional fortemente impregnado de princípios jurídicos abertos e indeterminados, que só se materializam com a interpretação do aplicador do direito, é legítima a inovação de outros valores substantivos, como justiça, igualdade e liberdade, e não apenas o valor democracia. Defendem que se, por um lado, os parlamentares ostentam uma legitimidade ordinária conferida pelo sufrágio, os Juízes possuem uma legitimidade adquirida pelo modo como exercem a jurisdição, ou seja, todos as decisões judiciais, ampliando ou não o texto normativo devem ser devidamente justificadas, e nenhum caso deverá ficar sem o amparo do judiciário, que tampouco poderá decidir maneira injusta e desatualizada com a 37http://www.conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/4694 2/hermeneutica-e-interpretacao-constitucional 34 evolução social, em decorrência da negligência do poder legislativo em atualizar as normas para acompanhar a mutação social. 10. RONALD DWORKIN E A TEORIA DA INTEGRIDADE Conforme o professor Bernardo Gonçalves ,38 Dworkin entende que o Direito deve ser lido como parte de um empreendimento coletivo e compartilhado por toda a sociedade. Assim, os direitos seriam frutos da HISTÓRIA e da MORALIDADE, no sentido de que observam uma construção histórico-institucional, a partir do compartilhamento em uma mesma sociedade de um mesmo conjunto de princípios e o reconhecimento de iguais direitos e liberdades subjetivas a todos os seus membros. É o que Dworkin chama de “comunidade de princípios”. Diante disso, destaque-se que Dworkin entende que ninguém - nem mesmo os magistrados - seria livre para decidir casos concretos levados ao judiciário. ⚠ ATENÇÃO Com isso, Dworkin nega a existência da discricionariedade na solução de um caso sub judice. Ainda, conforme o mencionado autor, a construção da decisão do caso e da própria interpretação constitucional, se revela como sendo algo coletivo e aberto a uma evolução constante. 10.1. A METÁFORA DO ROMANCE NA CADEIA Dworkin imagina a metáfora do romance na 38 FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional - 9ª ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 197 cadeia, onde cada juiz é apenas o autor de um capítulo em uma longa obra coletiva sobre um determinado direito/princípio. O juiz se encontra vinculado ao passado e comprometido a ler tudo o que já foi feito por seus antecessores para buscar continuar sua tarefa e redigir um esquema melhor dos princípios existentes e reconhecidos pela comunidade (FERNANDES, Op. Cit. 197). Conforme Bernardo Gonçalves, a teoria de Dworkin nos traz 4 pontos que são merecedores de destaque: a. Negativa da discricionariedade judicial; b. Negativa de que decisões judiciais possam se apoiar em diretrizes políticas; c. Importância da noção de devido processo para a dimensão da integridade; d. A própria noção de integridade, que levanta a exigência de que cada caso seja compreendido como parte de uma história encadeada. Por fim, o autor defende que os magistrados, independentemente de suas convicções pessoais e morais, devem ser dotados de moralidade política e tomar através de uma interpretação criativa a melhor decisão para o caso, que é evento único e irrepetível. 11. A CRÍTICA DE JEREMY WALDRON AO JUDICIAL REVIEW Waldron afirma que a prática do Judicial Review, que concede aos juízes o poder de invalidar normas oriundas do poder legislativo e de decidir questões de fundo (dar a última palavra sobre questões fulcrais de direitos fundamentais), não estaria em consonância com as sociedades plurais em que vivemos (FERNANDES, Op. Cit. p. 214). O professor Bernardo Gonçalves aponta que Waldron defende que as premissas que sustentam o controle jurisdicional de constitucionalidade (judicial 35 review) devem ser postas em xeque. Vejamos: ● Determinados direitos devem ser assegurados por um documento jurídico que deve ser uma proteção contra a atuação e vontade das maiorias. ● O judiciário, por ser um poder apartado da influência da maioria, deve ser o encarregado por zelar pelo respeito aos direitos assegurados no documento jurídico. Ponto de grande relevância nas digressões de Waldron é que para ele a única forma de justificar moralmente a autoridade do direito é através da democracia mediante um PROCESSO LEGISLATIVO DEMOCRÁTICO. Assim, Waldron aponta que a legislação possui uma “dignidade” especial. O mais importante dos direitos é o direito à participação na elaboração das leis. Diante disso, para o autor, qualquer outro mecanismo utilizado para responder questões centrais (a exemplo do judiciário não eleito) padeceria de um vício grave, qual seja, não respeitar as capacidades morais e políticas dos cidadãos. f Por fim, Waldron entende que, no caso da Suprema Corte, esta deve ficar adstrita a enfrentar questões técnico-jurídicas, que não se remetem a temas de moralidade política (a exemplo de aborto, ações afirmativas, tolerância religiosa, direitos de minorias). 12. VERDADE E CONSENSO - LENIO STRECK Inicialmente, Lenio apresenta a chamada "tríplice questão”, que movimenta toda a teoria jurídica em tempos de pós-positivismo e do constitucionalismo contemporâneo, qual seja: ● Como se interpreta o Direito; ● Como se aplica o Direito; e ● Se é possível alcançar condições interpretativas que sejam capazes de garantir uma resposta correta diante do fenômeno da indeterminabilidade do direito e da crise de efetividade da Constituição (STRECK, Lenio Luiz, Verdade e Consenso, 2011, p.58). Para o mencionado autor, na medida em que aumentam as demandas por direitos fundamentais e que o constitucionalismo invade, cada vez mais, a liberdade de conformação do legislador, cresce a necessidade de se colocar limites ao “poder hermenêutico” dos juízes (FERNANDES, 2017, p. 254). O autor ressalta que para levar o Direito a sério é necessário enfrentar o que o positivismo desconsiderou: o espaço de discricionariedade do juiz e o que isso representa na confrontação com o direito produzido democraticamente (STRECK, p. 46). O autor não nega que o intérprete sempre atribui sentido ao texto, mas isso não pode significar a possibilidade de o aplicador atribuir sentido de forma arbitrária/discricionária. 📌Qual a questão central da hermenêutica crítica do direito? Conforme bem aponta Bernardo Gonçalves, a questão central, seria justamente a de como enfrentar o arbítrio do aplicador que produz o inexorável déficit democrático e, portanto, desestima a constituição. 13. TEORIA DA DECISÃO JUDICIAL Diante disso, Streck desenvolve uma Teoria da Decisão Judicial, trabalhando a necessidade de impor limites ao hermenêutico dos magistrados. O autor parte de uma imbricação entre a hermenêutica filosófica de Gadamer e a teoria da integridade de Dworkin. Streck então vai optar por uma “hermenêutica ontológica (da faticidade) e não por uma hermenêutica epistemológica (metodológica). Assim, a hermenêutica não se apresenta como um instrumental (externo) para algo; ou seja, como conjunto de métodos (critérios, regras ou técnicas) 36 que levam a compreender um objeto (algo no mundo) adequadamente” (FERNANDES, 2017, p. 256). Conforme Bernardo Gonçalves (2017, p. 257), na construção de uma Teoria da decisão adequada ao constitucionalismo contemporâneo, temos alguns princípios que terão como função estabelecer padrões hermenêuticos que visam a: A. Preservar a autonomia do Direito; B. Estabelecer condições hermenêuticas para a realização de um controle da interpretação constitucional; C. Garantir o respeito à integridade e coerência no direito; D. Estabelecer que a fundamentação das decisões é um DEVER fundamental dos juízes e tribunais;E. Garantir que cada cidadão tenha sua causa julgada a partir da constituição e que haja condições para aferir se essa resposta está ou não constitucionalmente adequada O juiz, portanto, só poderia deixar de aplicar as leis em determinados casos específicos (STRECK, 2011, p.605-606) . Vejamos: ● Em face do controle de constitucionalidade, ou seja, se a lei ou o ato normativos for inconstitucional (seja no controle difuso ou concentrado); ● Em face do clássico problema das antinomias; ● Em face da interpretação conforme a Constituição; ● Em face da inconstitucionalidade parcial sem redução de texto; ● Quando for o caso da declaração de inconstitucionalidade com redução de texto; ● Em face de uma questão concreta em torno de regras e princípios. 14. INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO 📌 Presunção de Constitucionalidade: A39 Interpretação Conforme à Constituição tem suas raízes na presunção de constitucionalidade das leis. Em outras palavras, presume-se que as leis são compatíveis com a Constituição. Isso implica que, quando há duas ou mais interpretações razoáveis de uma mesma lei, o intérprete ou julgador deve escolher aquela que a considera constitucional. Essa abordagem foi adotada pela primeira vez no Supremo Tribunal Federal na Representação 1.417, relatada pelo Ministro Moreira Alves, em 1987. Para ilustrar esse princípio na prática, consideremos a Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006). No momento de sua criação, surgiram interpretações conflitantes sobre sua constitucionalidade, especialmente em relação ao tratamento diferenciado entre homens e mulheres. O Supremo Tribunal Federal, ao aplicar a Interpretação Conforme à Constituição, decidiu que a lei é constitucional, pois busca corrigir desigualdades históricas e proteger a mulher contra a violência doméstica. 📌Origens e Aplicações Internacionais: Esse princípio não é exclusivo do Brasil. Teve sua primeira aplicação no Tribunal Constitucional alemão e na Suprema Corte do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, ambos em 1953. A ideia central é que uma lei não deve ser declarada nula se for possível interpretá-la de maneira compatível com a Constituição. 📌Método de Julgamento e Controle de Constitucionalidade: A interpretação Conforme à Constituição não se limita a ser apenas um método de interpretação, mas também se estende como um método de julgamento, contribuindo para o controle de constitucionalidade. Isso é evidenciado pelo art. 28, 39 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 204. 37 parágrafo único, da Lei n. 9.868/99, que confere eficácia vinculante às decisões sobre constitucionalidade. 📌Limites do Método: Dois limites essenciais são impostos à Interpretação Conforme à Constituição: a) não pode contrariar a expressão literal do texto; b) não pode perverter a vontade do legislador. Esses limites garantem a integridade do sistema jurídico. 📌Modalidades da Interpretação Conforme à Constituição: a) Com redução de texto: O Judiciário, mesmo considerando a norma constitucional, entende que uma parte dela é inconstitucional e a suprime. Este é o tradicional controle de constitucionalidade. b) Sem redução de texto: O Judiciário considera a lei constitucional, sem eliminar parte dela. Existem duas subespécies: 1. com fixação da interpretação constitucional; 2. com exclusão da interpretação inconstitucional. 📌Exemplos Práticos: Controle de Constitucionalidade: ◾Com redução de texto: O STF, na ADI 1.127/DF, considerou constitucional a imunidade profissional do advogado, mas excluiu a palavra "desacato" como inconstitucional. ◾Sem redução de texto: Na ADI 1.371/DF, o STF fixou uma interpretação constitucional para a filiação partidária de membros do Ministério Público afastados de suas funções.defendem a busca pela vontade da lei, uma vez que há múltiplos legisladores e a lei deve adaptar-se à evolução da sociedade. O objetivismo, favorecido pelo princípio da legalidade, permite a adaptação evolutiva da lei a novas realidades. Barroso destaca que a lei, ao entrar em vigor, se desvincula dos pensamentos dos autores. Na interpretação constitucional, o STF, embora considere a vontade do legislador, baseia-se no objetivismo, especialmente em interpretações evolutivas. Exemplificando, na ADPF 132/RJ, o STF reconheceu a união homoafetiva como família, aplicando uma interpretação evolutiva da Constituição. O tribunal destaca que o direito segue a evolução social. Na ADPF 153, sobre a "Lei da Anistia", o STF afirma que o significado válido dos textos varia no tempo e espaço. Essa abordagem também é preferida pelo Tribunal Constitucional alemão, conforme Konrad Hesse. Em resumo, a busca pela mens legis, a vontade objetivada da lei, prevalece na interpretação jurídica, permitindo adaptações à evolução da sociedade. 1.3 APOSTASIA CONSTITUCIONAL6 A apostasia constitucional envolve a atitude do intérprete que, ao analisar dispositivos constitucionais, os ignora e os interpreta de maneira distinta do que foi originalmente pensado pelo constituinte. Trata-se, portanto, de uma renúncia parcial à fidelidade à Constituição, podendo ter implicações sérias para o Estado de Direito e para a Democracia. ◾ Exemplo Prático: Interpretação do art. 57, § 4º, da Constituição: Um exemplo de apostasia 6 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 185 5 constitucional é a interpretação dada pelo Supremo Tribunal Federal ao art. 57, § 4º, da Constituição, que trata da recondução para o mesmo cargo nas eleições subsequentes na composição das Mesas da Câmara e do Senado. A interpretação conferida a esse dispositivo ignorou sua redação, permitindo situações de recondução em legislaturas diferentes. Isso representa uma forma de ignorar o texto constitucional, resultando em decisões que não refletem a intenção do constituinte. ◾Repúdio à Apostasia Constitucional: O professor Flávio Martins destaca que é fundamental repudiar a apostasia constitucional, pois ela implica em traição ao texto constitucional e sua supremacia. Samuel Fonteles destaca que essa postura representa uma renúncia à humildade necessária para aceitar as convenções jurídico-sociais. A Constituição, como expressão máxima da vontade do povo, não pode ser simplesmente desprezada por vontade ou convicção do intérprete. ◾Implicações e Desafios: A apostasia constitucional apresenta desafios significativos para a estabilidade do ordenamento jurídico e para a preservação do Estado de Direito. Ignorar determinadas normas constitucionais por conveniência pode comprometer a coerência e a integridade do sistema jurídico, abrindo espaço para interpretações arbitrárias. 1.3 CLASSIFICAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO7 1.3.1. QUANTO AO SUJEITO8 INTERPRETAÇÃO DOUTRINÁRIA ◾A interpretação doutrinária é realizada pela doutrina, tanto nacional quanto estrangeira, através de 8 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 185 7 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 185 obras, artigos, pareceres, entre outros. ◾ Segundo Luís Roberto Barroso, é resultado do trabalho intelectual de jurisconsultos, professores e escritores, incluindo advogados que elaboram teses jurídicas. Essa contribuição é essencial para o desenvolvimento e aprimoramento do entendimento constitucional. INTERPRETAÇÃO JUDICIAL ◾Efetuada pelos magistrados e Tribunais na aplicação direta de preceitos constitucionais (questões constitucionais) e na verificação da compatibilidade de normas frente à Constituição (controle de constitucionalidade). ◾Desempenha papel fundamental na efetivação dos princípios constitucionais, sendo responsável por moldar a interpretação em situações práticas. 6 INTERPRETAÇÃO AUTÊNTICA ◾ Realizada pelo próprio legislador através de leis interpretativas, sendo amplamente aceita no Direito brasileiro. ◾Exemplo: O Código Tributário Nacional, no art. 106, prevê que a lei interpretativa em matéria tributária tem efeitos retroativos. ◾Controvérsias: Surge a pergunta se é possível a interpretação autêntica em normas constitucionais. Enquanto parte da doutrina, como Paulo Bonavides e Celso Bastos, a admite, outros, como Luís Roberto Barroso, discordam. INTERPRETAÇÃO ABERTA ◾ Proposta pela teoria de Peter Häberle, da Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição. ◾ Envolvimento da Sociedade: Todos são considerados intérpretes da Constituição, não limitando-se ao Poder Judiciário. Cidadãos, partidos políticos e outros atores políticos têm papel ativo na interpretação. ◾ Legislação Brasileira: Inspirou alterações legislativas no Brasil, como a introdução do amicus curiae e a realização de audiências públicas em processos de controle de constitucionalidade. ◾ Defesa da Doutrina: A doutrina, representada por juristas como Daniel Sarmento, defende a ampliação dos métodos de interpretação aberta, reconhecendo que a Constituição é interpretada não apenas nos tribunais, mas em diversos espaços de exercício da cidadania. 1.3.2. QUANTO AOS EFEITOS9 INTERPRETAÇÃO DECLARATIVA ◾Na interpretação declarativa, o intérprete não amplia nem reduz o sentido da norma legal ou constitucional. O texto permanece compatível com a realidade existente. ◾ Exemplo: O art. 12, I, “a”, da Constituição 9 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 186 7 Federal, ao mencionar a hipótese de brasileiro nato nascido na "República Federativa do Brasil", poderia ser interpretado de forma declarativa como "nascidos no território brasileiro", esclarecendo, sem ampliar ou restringir seu sentido INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA ◾ Na interpretação restritiva, o legislador constituinte expressou mais do que pretendia, e cabe ao intérprete restringir o sentido da norma. ◾Exemplos: O Supremo Tribunal Federal já utilizou interpretação restritiva em casos como no MS 30.578/DF, onde restringiu a atuação do STF como instância ordinária revisora do Conselho Nacional de Justiça. Da mesma forma, no RE 915.014/SE, o STF interpretou de forma restritiva a imunidade tributária, não a abrangendo completamente. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA ◾Na interpretação extensiva, quando o legislador disse menos do que pretendia, cabe ao intérprete ampliar o sentido da norma. ◾ Exemplos: O STF interpretou extensivamente o conceito de "casa" no art. 5º, XI, da Constituição, incluindo aposentos de habitação coletiva. No caso do art. 60, § 4º, IV, da CF, o STF adotou uma interpretação extensiva ao incluir os direitos sociais como cláusulas pétreas. 📌Sobreinterpretação Constitucional: ◾Uma modalidade de interpretação extensiva do próprio texto constitucional, buscando extrair normas constitucionais implícitas para evitar lacunas normativas. ◾Proposta por Riccardo Guastini, a sobreinterpretação constitucional recusa a interpretação literal e constrói normas implícitas para preencher lacunas. ◾ Exemplos: O STF, em algumas decisões, aplicou a sobreinterpretação constitucional para 8 preencher espaços normativos, evitando lacunas e garantindo a efetividade da Constituição. 1.4. CORRENTES INTERPRETATIVAS NORTE-AMERICANAS10 🚩APROFUNDANDO O ESTUDO: Para aprofundarmos o estudo na interpretação, estudaremos a seguir as correntes interpretativas norte-americanas. 1.4.1. INTERPRETATIVISMO E NÃO INTERPRETATIVISMO11 📌Interpretativismo: Limites da Interpretação Formal: A corrente interpretativistapreconiza uma abordagem mais restrita à interpretação constitucional. Segundo esta perspectiva, o intérprete está estritamente vinculado aos dispositivos expressos na Constituição, na lei constitucional e aos princípios claramente implícitos. Isso implica que o papel do intérprete é principalmente o de desvendar o significado literal do texto. ◾Limitação e Conservadorismo: Grandes expoentes interpretativistas, como o juiz Robert Bork e o Justice Antonin Scalia, argumentam que os juízes devem limitar-se a captar os sentidos dos preceitos expressos ou implicitamente claros. Essa visão conservadora busca restringir a interpretação constitucional ao texto, evitando expansões que possam substituir decisões legislativas majoritárias. ◾Princípio Democrático: De acordo com Bernardo Gonçalves Fernandes e José Joaquim Gomes 11 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 187 10 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 187 Canotilho, os interpretativistas alegam que a limitação é necessária para preservar o princípio democrático. A decisão judicial não deve sobrepor-se à vontade política legislativa da maioria democrática. 📌 Não Interpretativismo: Busca por Valores Substantivos: Por outro lado, a corrente não interpretativista concede maior autonomia ao intérprete na interpretação normativa. Nesse enfoque, o intérprete tem a liberdade de aplicar valores e princípios substantivos, como os de liberdade e justiça, buscando os ideais constitucionais fundamentais. ◾Autonomia do Intérprete: Ao contrário do interpretativismo, o não interpretativismo permite ao intérprete uma maior autonomia na interpretação da norma. Os valores constitucionais, como igualdade e justiça, tornam-se mais cruciais do que a estrita vontade do legislador constitucional. ◾Concretização dos Direitos Constitucionais: Bernardo Gonçalves Fernandes destaca que o não interpretativismo, em ascensão, preza pela concretização dos direitos consagrados no texto constitucional. A busca por princípios de justiça, liberdade e igualdade é central para a compreensão do "projeto" constitucional em uma sociedade democrática. ◾Defesa contra Atos Legislativos Contrários: José Joaquim Gomes Canotilho argumenta que as posições não interpretativas defendem a aplicação de 'valores e princípios substantivos' contra atos legislativos que contrariam o 'projeto' da Constituição. Isso destaca a importância de garantir a conformidade com os princípios fundamentais, mesmo quando em conflito com a vontade legislativa. 📌 Críticas e Divergências Internas: Embora amplamente difundida, a classificação bipartida enfrenta críticas, inclusive de estudiosos norte-americanos como John Hart Ely. Essas críticas 9 sugerem que a realidade da interpretação constitucional pode ser mais complexa do que a simples dicotomia entre interpretativismo e não interpretativismo. 1.4.2. PROCEDIMENTALISMO DE JOHN HART ELY (PROCEDIMENTALISMO X SUBSTANCIALISMO)12 📌 John Hart Ely: Biografia e Críticas ao Interpretativismo e Não Interpretativismo: ◾Formação e Carreira: John Hart Ely, nascido em Nova York, formou-se na Universidade de Princeton em 1960 e concluiu seus estudos na Yale Law School em 1963. Com uma carreira acadêmica notável, lecionou em instituições prestigiadas como Yale, Harvard e Stanford. ◾Obra Notável - "Democracy and Distrust": Em sua obra de destaque, Ely critica o interpretativismo, exemplificado por expoentes como Hugo Black, argumentando que o textualismo exagerado não captura a textura aberta de muitas disposições constitucionais. Da mesma forma, ele repreende o não interpretativismo, alegando que ao conceder poder exagerado aos juízes para invocar valores morais e constitucionais, torna-se antidemocrático. 📌Críticas às Correntes Interpretativistas e Não Interpretativistas: ◾Limitações do Interpretativismo: Ely argumenta que o interpretativismo, por ser excessivamente legalista e literal, é limitado, especialmente ao tratar de normas vagas e abstratas, como os princípios constitucionais. ◾Antidemocracia do Não Interpretativismo: Ele critica o não interpretativismo por dar poder excessivo aos juízes, órgãos não eleitos pelo povo, interferindo nas decisões políticas dos 12 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 187 representantes eleitos. 📌Procedimentalismo de John Hart Ely: ◾Concepção Procedimental: Ely adota uma abordagem procedimental, comparando o papel do juiz ao de um árbitro em uma partida de futebol. O juiz, assim como o árbitro, não determina o vencedor, mas age para garantir que o jogo democrático seja jogado de maneira justa e em igualdade de condições. ◾Defesa da Democracia: Para Ely, os juízes devem garantir e proteger o direito dos cidadãos de participarem das decisões políticas, independentemente do mérito ou conteúdo das opções políticas. A intervenção judicial é justificada apenas em caso de falha no processo democrático. ◾Soluções em Caso de Cláusulas Abertas: Quando o dispositivo constitucional apresenta cláusulas abertas, como os princípios, Ely propõe que o Judiciário proteja os direitos ligados à democracia, como voto, eleição, organizações políticas, liberdade de manifestação, verificando a representação dos eleitores pelos eleitos e protegendo os direitos das minorias. 📌 Consequências da Teoria Procedimentalista de Ely: ◾Visão Meramente Procedimental do Devido Processo Legal: Uma das consequências da teoria procedimentalista de Ely é a visão meramente procedimental do devido processo legal, em contraste com a abordagem substancial adotada pela Suprema Corte norte-americana e pelo Supremo Tribunal Federal no Brasil. ◾Organização e Procedimentos na Constituição: Ely sustenta que a Constituição regula em primeira ordem os problemas de organização e procedimentos, não sendo destinada a distinguir, estabelecer e implementar valores fundamentais. 📌Oposição ao Substancialismo e Críticas ao Procedimentalismo: 10 ◾Substancialismo e Defesa de Valores Fundamentais: Em oposição ao procedimentalismo, o substancialismo, defendido por juristas como Laurence Tribe, busca incorporar valores fundamentais na interpretação constitucional. ◾Críticas a Ely por Negligenciar Valores Substantivos: Críticos, como Tribe, argumentam que o procedimentalismo de Ely negligencia a importância de valores substantivos consagrados na Constituição, focando exclusivamente em garantir procedimentos democráticos. 📌Contextualização no Âmbito Constitucional Brasileiro: ◾Posicionamento Favorável ao Substancialismo no Brasil: Considerando a amplitude da Constituição brasileira, juristas como André Ramos Tavares defendem o substancialismo, argumentando que a Carta Magna é também um instrumento de defesa dos direitos fundamentais, não limitando-se apenas às condições procedimentais da democracia. 1.4.3. MINIMALISMO DE CASS R. SUSTEIN13 📌Biografia e Obras de Cass R. Sunstein: ◾Formação e Carreira: Cass R. Sunstein graduou-se na Universidade de Harvard em 1975 e lecionou em instituições prestigiadas, como a University of Chicago Law School, Columbia Law School e Harvard. Publicou diversas obras notáveis, incluindo "After the Rights Revolution" (1990) e "Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth and Happiness" (2008). 📌Crítica ao Judicial Review e Conceito de Minimalismo Judicial: ◾Crítica ao Judicial Review: Sunstein critica o judicial review, processo pelo qual o Judiciário 13 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 188 controla a constitucionalidade das leis, alegando que os juízes não devem oferecer respostas conclusivas, deixando questões em aberto para o Poder Legislativo decidirdemocraticamente. ◾Minimalismo Judicial: O minimalismo judicial, segundo Sunstein, sugere que os tribunais não devem decidir questões que não sejam essenciais para a resolução do caso concreto. Evita-se a apreciação de casos complexos que ainda não alcançaram maturidade na sociedade. 📌Características da Decisão Minimalista: ◾Superficialidade e Estreiteza: Sunstein destaca duas características essenciais de uma decisão minimalista: superficialidade (shallowness) e estreiteza (narrowness). As decisões devem ser estreitas, decidindo apenas o caso em questão, e rasas, evitando justificações baseadas em princípios constitucionais amplos. ◾Evitar Regras Gerais: Ao contrário de estabelecer regras gerais aplicáveis a casos futuros, o minimalismo preconiza que os tribunais decidam apenas o caso imediato, sem antecipar resoluções para situações semelhantes. 📌 Justificativas e Vantagens do Minimalismo Judicial: ◾Redução de Custos: Sunstein argumenta que decisões estreitas e rasas reduzem os custos da decisão e os custos do erro, abrindo espaço para a participação democrática em questões fundamentais. ◾Norma de Respeito Cívico: A superficialidade e estreiteza refletem uma norma de respeito cívico, permitindo que questões importantes sejam decididas pelo Legislativo, órgão democraticamente eleito. ◾Diferenças entre Superficialidade e Estreiteza: Sunstein destaca que ““é importante ver que em muitos domínios, inclusive no direito, superficialidade e estreiteza são muito diferentes. Nós poderíamos imaginar uma decisão que é superficial 11 mas ampla. Considere, por exemplo, que a visão de que a segregação racial é sempre proibida, desacompanhada de uma análise profunda dos motivos pelos quais é errada a segregação racial. Nós poderíamos também imaginar que uma decisão profunda mas estreita. Considere, por exemplo, a proibição de censura de um protesto político particular, acompanhada de uma decisão teoricamente ambiciosa do princípio da liberdade de expressão, mas limitada à situação particular”. 📌Exemplos Práticos e Aplicações: Caso norte-americano de 1995: Utilizando um exemplo norte-americano de 1995 sobre discriminação sexual no Instituto Militar da Virgínia, Sunstein argumenta que a Suprema Corte, adotando uma abordagem minimalista, não estabeleceria uma regra geral, mas decidiria estritamente no caso específico. ◾Exemplo brasileiro na ADPF 54: Sunstein sugere que, no contexto brasileiro, o Supremo Tribunal Federal não deveria estabelecer normas gerais sobre a interrupção da gravidez do feto anencéfalo na ADPF 54, mas decidiria apenas sobre os casos concretos apresentados. 📌Conclusão e Relevância do Minimalismo Judicial: ◾Importância do Minimalismo Judicial: A abordagem minimalista de Sunstein destaca a importância de evitar decisões judiciais amplas e substanciais, preservando a autonomia do Poder Legislativo e promovendo a participação democrática. ◾Desafios e Críticas: Embora o minimalismo judicial apresente vantagens, também enfrenta críticas e desafios, especialmente quanto à sua aplicabilidade em diferentes contextos jurídicos e constitucionais. 1.4.4. O CONSTITUCIONALISMO POPULAR DE MARK TUSHNET14 📌Biografia e Obras de Mark Tushnet: ◾Formação e Carreira: Mark Victor Tushnet nasceu em 18 de novembro de 1945, graduou-se por Harvard e pela Yale Law School, tornando-se professor na Harvard Law School. Suas obras incluem "The New Constitutional Order" (2003) e "Weak Courts, Strong Rights: Judicial Review and Social in Comparative Constitutional Law" (2010). 📌Crítica ao Judicial Review e Constitucionalismo Popular: ◾Crítica ao Judicial Review: Tushnet compartilha a crítica ao judicial review, argumentando que a interpretação constitucional feita pelas cortes não deveria ter um peso normativo significativo, uma vez que isso concederia uma superioridade excessiva ao Judiciário. ◾Constitucionalismo Popular: Tushnet propõe o constitucionalismo popular, uma teoria que busca ampliar as opiniões sobre questões constitucionais, questionando o monopólio da Suprema Corte na definição do direito constitucional. 📌Ampliação das Opiniões Constitucionais: ◾Crítica à Suprema Corte: Tushnet critica a Suprema Corte por monopolizar a definição do direito constitucional, retirando importância das opiniões fora desse tribunal. Ele defende a ampliação das opiniões em torno das questões constitucionais. ◾Relevância das Opiniões: Segundo Bernardo Gonçalves Fernandes, ““Tushnet apresenta-se como um crítico da Suprema Corte no que tange ao monopólio da mesma em dizer o que é 14 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 188 12 direito constitucional. Nesse sentido entende que essa postura, acaba por retirar a importância das opiniões que são prolatadas fora da Suprema Corte. Assim sendo, a definição do que é direito constitucional e de como devemos entender a Constituição só tem relevância se é emitida pela Suprema Corte. A defesa, então, é pela ampliação das opiniões em torno das questões constitucionais”. 1.4.5. CONSTITUCIONAL CHOICES E A DEFESA DO SUBSTANCIALISMO DE LAWRENCE TRIBE15 📌Críticas às Teorias Procedimentalistas: Tribe é reconhecido por suas críticas veementes às teorias procedimentalistas, notadamente aquela proposta por John Hart Ely. Em sua obra seminal, "American Constitutional Law," assim como na coletânea "Constitutional Choices," Tribe argumenta contra abordagens que enfatizam meramente os mecanismos de participação democrática. Para ele, tais teorias são limitadas, pois negligenciam o caráter axiológico da Constituição. 📌A Perspectiva Substancialista: Ao contrário das teorias procedimentalistas, Tribe advoga pela consideração do caráter substantivo das constituições, enfatizando os valores intrínsecos a elas. Bernardo Gonçalves Fernandes destaca que, para Tribe, os direitos fundamentais devem ocupar o cerne do debate constitucional, não podendo ser desconsiderado seu caráter substantivo. 📌Posicionamento em Relação ao Judicial Review: É importante notar que, diferentemente de outros pensadores como Tushnet, defensor do constitucionalismo popular, Tribe não abraça o fim do judicial review. Pelo contrário, ele sustenta a importância da Suprema Corte na proteção das minorias, na análise do conteúdo axiológico da 15 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 190 Constituição e no equilíbrio entre os poderes, mantendo assim a saúde da democracia constitucional. 📌 Ativismo Constitucional e Identificação de Valores: Segundo Tribe, a institucionalização de processos de decisão democratizados na jurisdição constitucional, conforme defendido pelo procedimentalismo de Ely, é improvável sem uma referência clara a valores objetivos. Portanto, Tribe apoia o ativismo judicial, fundamentado na identificação desses valores objetivos da Constituição. 1.4.6. ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO DE RICHARD POSNER16 📌 Fundamentos da Análise Econômica do Direito: Posner, formado em Direito em Harvard, sustenta que a Economia é a ciência das escolhas racionais. Em sua visão, o Direito, sendo um instrumento para atingir fins sociais, tem como objetivo central a eficiência econômica. A tese central da análise econômica do direito pode ser resumida em uma perspectiva utilitarista, onde as decisões judiciais devem ser guiadas por uma relação custo-benefício. Para Posner, o direito é perspectivo quando promove a maximização das relações econômicas, com a maximização da riqueza orientando a atuação do magistrado. 📌 Aplicação Prática: A Controversa Decisão na Eleição de 2000: A teoria de Posner foi aplicada de maneira notável na polêmica decisão que convalidou a eleição de George Bush sobre Al Gore em 2000. Posner, no livro "Breaking the Deadlock: the 2000 Election, the Constitution and the Courts,"argumenta que a decisão da Suprema Corte de não recontar os votos foi baseada na avaliação das consequências práticas. Ele sustenta que a decisão 16 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 190 13 contrária, que envolveria a recontagem dos votos, causaria prejuízo às instituições do país e instabilidade devido à incerteza sobre o futuro presidente. 📌 A Perspectiva Pragmática de Posner: Para Posner, a avaliação das consequências é mais crucial do que o conteúdo normativo e valorativo da decisão. Ele enfatiza a importância de uma abordagem pragmática com a lei, defendendo que as decisões judiciais devem ser guiadas pelas implicações práticas e pelos resultados esperados. A decisão na eleição de 2000, na visão de Posner, é um exemplo notável dessa abordagem pragmática, louvável pela consideração das consequências práticas e pela resolução eficiente de uma disputa eleitoral controversa. 1.4.7. SOCIEDADE FECHADA DOS INTÉRPRETES DA CONSTITUIÇÃO (GUSTAVO BINENBOJM)17 Essa expressão critica modelos que se afastam da "sociedade aberta dos intérpretes da Constituição". Na sociedade fechada, poucos, ou até mesmo um único órgão (como o Supremo Tribunal Federal), são encarregados da interpretação constitucional. A constitucionalidade, por sua vez, pode ser questionada por um grupo seleto, como no caso da Ação Direta de Inconstitucionalidade, cuja legitimidade era exclusiva do Procurador-Geral da República antes da Constituição de 1988. Binenbojm destaca a importância da busca por uma "sociedade aberta da Constituição", ressaltando sua visão democrática, apontando para desafios como a exclusividade do Procurador-Geral da República e decisões recentes do STF relacionadas à competência do Tribunal de Contas da União. 17 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 190 1.4.8. PROTESTANTISMO CONSTITUCIONAL (JACK BALKIN)18 Inspirado no conceito de "protestantismo" original, que promovia a interpretação do texto bíblico por qualquer fiel, Jack Balkin argumenta que a Constituição não deve ser interpretada exclusivamente por um Tribunal Constitucional, mas por todas as pessoas. Essa ideia é uma variação da "sociedade aberta dos intérpretes da constituição" proposta por Peter Häberle. O "protestantismo constitucional" destaca a importância de uma interpretação inclusiva da Constituição, permitindo que todos os cidadãos participem desse processo fundamental. 1.4.9. LIBERTARIANISMO E COMUNITARISMO19 📌Libertarianismo: É uma corrente idealizada por Friedrich A. Hayek e Robert Nozick. Segundo essa perspectiva, a atividade estatal deve focar principalmente na economia e na proteção dos direitos patrimoniais, evitando intervenções em questões sociais, como políticas públicas de redistribuição de renda. Os defensores do libertarianismo propugnam por um Estado Mínimo, resistindo à interferência estatal na esfera econômica. 📌Comunitarismo: Contrapondo-se ao libertarianismo, temos o comunitarismo, que valoriza a comunidade em detrimento dos direitos individuais. Enquanto o libertarianismo se preocupa com as liberdades individuais, especialmente na esfera patrimonial, o comunitarismo destaca que as pessoas nascem em comunidades impregnadas de valores compartilhados. Portanto, para os comunitaristas, os 19 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 191 18 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 190 14 direitos individuais podem ceder em favor dos interesses da comunidade. Essa abordagem se tornou evidente durante a pandemia de Covid-19, quando princípios fundamentais foram restringidos em prol da saúde pública. 1.4.10. PRAGMATISMO CONSTITUCIONAL (POSNER) E TEORIA DA INTEGRIDADE OU TEORIA DO ROMANCE EM CADEIA OU CHAIN NOVEL (DWORKIN)20 📌Pragmatismo Constitucional: O pragmatismo constitucional, proposto por Posner, concentra-se nas consequências práticas das decisões judiciais ou interpretações constitucionais. Ao contrário de se apegar a valores jurídicos abstratos, essa abordagem prioriza os efeitos práticos das decisões, alinhando-se com a análise econômica do direito. No Brasil, vemos essa abordagem refletida no artigo 20 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, que destaca a importância de considerar as consequências práticas nas esferas administrativa, controladora e judicial. 📌Teoria da Integridade (Dworkin): A Teoria da Integridade, de Dworkin, diverge do pragmatismo. Dworkin compara o juiz a um escritor contribuindo para um "romance em cadeia". Cada decisão judicial é um capítulo nesse romance, conectado aos capítulos anteriores e influenciando os futuros. A Teoria da Integridade rejeita visões simplistas do direito, argumentando que as decisões judiciais não são meros relatos factuais ou programas instrumentais. Dworkin destaca a importância de justificar as práticas jurídicas por princípios atrativos que oferecem um futuro honrado. 📌Críticas ao Pragmatismo: Contudo, o pragmatismo também enfrenta críticas, especialmente a objeção de que pode assumir um 20 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 191 caráter utilitarista, levando à relativização de direitos fundamentais em favor de metas coletivas, contrariando o imperativo categórico kantiano. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova para o cargo de Defensor Público da DPE-SP (Banca: FCC, Ano: 2015), foi considerada correta a seguinte assertiva em relação à hermenêutica e interpretação constitucional:: “As consequências práticas das decisões remetem ao pragmatismo norte-americano, em que a justiça é medida pelas consequências, e não pelo direito. A grande vantagem é a percepção de que determinada interpretação pode gerar resultados indesejáveis na prática. Entretanto, a extrema flexibilização do direito e o antiformalismo do pragmatismo conduzem à insegurança jurídica”. 1.4.11. CRIPTOCONSEQUENCIALISMO21 Essa abordagem envolve considerações sobre as consequências de uma decisão judicial ou interpretação, mas sem que essas considerações sejam explicitamente declaradas na decisão. Diferentemente do pragmatismo, o criptoconsequencialismo é combativo, pois não permite o contraditório, a dialética ou a refutação dos argumentos pragmáticos, já que eles não são expressos de forma clara na decisão proferida. Vamos examinar como essa teoria é aplicada na prática, especialmente em casos em que as consequências são essenciais, mas mantidas implicitamente. 1.4.13. TEORIA DO PENSAMENTO JURÍDICO DO POSSÍVEL (OU DAS POSSIBILIDADES)22 Essa abordagem preconiza a abertura para 22 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 192 21 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 192 15 diversas possibilidades na interpretação constitucional. Similar à ideia da "sociedade aberta dos intérpretes da Constituição", essa teoria alemã proposta por Peter Häberle enfatiza que a interpretação constitucional deve ser receptiva a várias alternativas. O pensamento do possível significa pensar em alternativas, estar aberto a terceiras ou quartas possibilidades, bem como a compromissos. Essa abordagem indagativa é crucial para lidar com as complexidades das sociedades pluralistas, que apresentam uma diversidade de grupos com diferentes interesses e projetos. 📌Aplicações Práticas: O Supremo Tribunal Federal, em várias decisões, incorporou a teoria do pensamento jurídico do possível. Exemplos incluem a decisão que permitiu, de forma excepcional, que a autoridadepolicial afastasse do lar os autores de violência doméstica ou familiar contra a mulher, bem como a análise da regra do quinto constitucional diante da inexistência de membros do Ministério Público com 10 anos de atividade. Essas decisões refletem a abertura para diversas possibilidades e a adaptação da norma às necessidades do tempo, fundamentais em sociedades pluralistas. 📌Relação com a Constituição Dúctil:A teoria do pensamento jurídico do possível está conectada à noção de constituição dúctil, proposta por Gustav Zagrebelsky. Em sociedades pluralistas, onde não há grupos dominantes, a Constituição deve criar condições de possibilidade para a coexistência de soluções diversas, princípios e ideias. Em vez de impor um projeto rígido, a Constituição defende o pluralismo, promovendo um compromisso de possibilidades. 1.4.14. TOTALITARISMO CONSTITUCIONAL23 O termo "totalitarismo constitucional" refere-se a uma situação em que a Constituição 23 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 192 impõe múltiplos deveres, a elaboração de normas legais e a implementação de políticas públicas detalhadas. Quando a Constituição atua como uma constituição programática ou dirigente, estabelecendo um amplo sistema de normas que orienta o legislador em inúmeros assuntos, temos o totalitarismo constitucional. Isso ocorre quando a liberdade do legislador ordinário é reduzida, pois a Constituição abrange diversos temas e estabelece parâmetros detalhados para a legislação. Ao classificar as constituições, referimo-nos à "constituição total" que exerce forte controle sobre o legislador ordinário. 1.4.15. REPUBLICANISMO24 O republicanismo, presente na Constituição brasileira, vai além de representar a forma de governo escolhida (República). Ele é um princípio interpretativo que demanda que os atos do poder público visem o interesse público. Legisladores, juízes e administradores atuam como representantes do povo, e seus atos devem ser pautados pela moralidade, evitando qualquer confusão entre o público e o privado. O republicanismo também promove a participação cidadã nas decisões do Estado, incentivando o controle e a fiscalização dos atos dos governantes. 1.4.16. TERRAPLANISMO CONSTITUCIONAL25 O termo "terraplanismo constitucional" é usado de forma metafórica para descrever interpretações constitucionais absurdas, irrazoáveis e injustificáveis. No contexto brasileiro contemporâneo, alguns juristas propuseram a ideia absurda de um "Poder Moderador" exercido pelas Forças Armadas, uma visão prontamente rejeitada pelo Supremo 25 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 193 24 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 193 16 Tribunal Federal (STF). O STF, ao reiterar que a Constituição não submete o poder civil ao militar e desaprovar tal interpretação, utilizou a expressão "terraplanismo constitucional." Isso destaca a rejeição de interpretações constitucionais que ignoram valores e princípios básicos da teoria constitucional, assim como a absurda crença de que a Constituição legitimaria o descumprimento de decisões judiciais por determinação das Forças Armadas. 1.4.17. ORIGINALISMO E LIVING CONSTITUTION26 O originalismo, defendido pelo juiz norte-americano Antonin Scalia, propõe que a interpretação da norma constitucional deve sempre buscar a intenção do constituinte originário, aqueles que elaboraram a Constituição. Contrariamente à ideia de uma "living constitution" que pode ser adaptada para refletir as mudanças sociais sem alterações formais, o originalismo mantém uma visão estática, argumentando que a Constituição deve ser interpretada conforme a intenção dos autores no momento de sua criação. Existem quatro correntes no originalismo: a) original intent (intenção original); b) original public meaning (sentido público das palavras); c) original methods (originalismo dos métodos originais); d) framework originalismo (originalismo de moldura). ◾Original Intent: Defendido por Robert Bork, esta corrente busca a intenção dos constituintes originários, conhecidos nos EUA como "pais fundadores". ◾Original Public Meaning: Advocado por Antonin Scalia, concentra-se na interpretação do significado objetivo das palavras no momento de sua elaboração. ◾Original Methods: Neste modelo, o intérprete baseia-se nos métodos interpretativos majoritários existentes à época da promulgação da 26 Martins, Flávio. Curso de direito constitucional. Disponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 193 Constituição. ◾Framework Originalismo: Proposto por Jack Balkin, tenta conciliar o originalismo com a ideia de uma Constituição viva, defendendo que as novas construções teóricas devem ocorrer dentro dos limites constitucionais. 📌Living Constitution: Contrapondo-se ao originalismo, a "living constitution" defende que a Constituição é flexível e pode evoluir para refletir as mudanças sociais ao longo do tempo, mesmo sem alterações formais. Esta abordagem reconhece a necessidade de interpretações dinâmicas para adaptar princípios constitucionais às realidades contemporâneas. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova para o cargo de Defensor Público da DPE-SP (Banca: FCC, Ano: 2015), foi considerada incorreta a seguinte assertiva em relação à hermenêutica e interpretação constitucional:: “O originalismo norte-americano consagra a living Constitution, ou seja, a abertura das normas constitucionais à realidade e às mutações da sociedade para a contínua evolução do texto constitucional”. 2. MUTAÇÕES CONSTITUCIONAIS X REFORMAS CONSTITUCIONAIS 27 Segundo Lenza, as Constituições devem ser interpretadas a fim de se buscar o real significado dos termos constitucionais e, a partir disso, verificar a validade das normas do ordenamento jurídico (Kelsen). A interpretação deverá levar em consideração 27 Lenza, Pedro. Direito constitucional. (Coleção esquematizado®). Disponível em: Minha Biblioteca, (27th edição). Editora Saraiva, 2023. p. 80. 17 todo o sistema. Em caso de antinomia de normas, deve-se buscar a solução do aparente conflito por meio de uma interpretação sistemática, orientada pelos princípios constitucionais. Colocadas essas premissas, o sentido da Constituição interpretada pode mostrar-se inadequado. Nessas circunstâncias, dentro dos limites colocados pelo Constituinte originário, poderão ser observadas alterações tanto do ponto de vista formal (reforma constitucional) como do informal (mutações constitucionais). 🚩 NÃO CONFUNDA ◾ REFORMA CONSTITUCIONAL: modificação do texto constitucional, mediante mecanismos definidos pelo poder constituinte originário (emendas), alterando, suprimindo ou acrescentando artigos ao texto original. ◾ MUTAÇÕES CONSTITUCIONAIS: não são alterações materialmente perceptíveis, mas sim alterações no significado e sentido interpretativo de um texto constitucional. Exteriorizam o caráter dinâmico e de prospecção das normas jurídicas, por meio de processos informais. Informais, segundo Lenza, no sentido de não serem previstos dentre aquelas mudanças formalmente estabelecidas no texto constitucional. Tema relacionado com o Poder Constituinte Difuso : é o que realiza o papel de criação e28 transformação das normas constitucionais sem modificação formal do texto delineado na Constituição Federal. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova FCC - 2021 - DPE-RR - Defensor Público, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: A modificação constitucional em que não há vontade de alterar o texto, mas é reflexo da 28BERNARDES, Juliano Taveira; FERREIRA, Olavo Augusto Vianna Alves. Direito constitucional. 4. ed.Salvador: JusPodivm, 2014. t. I. (Coleção Sinopses para Concurso)sociedade sobre a qual este incide, é conhecida como: d) mutação constitucional. Igualmente, veja como o tema foi cobrado na prova CESPE / CEBRASPE - 2021 - MPE-AP - Promotor de Justiça Substituto, tendo sido consideradas corretas a seguintes assertivas: Com relação ao fenômeno da mutação constitucional, julgue os itens a seguir. “I Esse fenômeno é um meio informal de se alterar a Constituição sem se modificar seu texto formal. II Esse fenômeno é uma manifestação do poder constituinte difuso, entendido como aquele voltado à alteração do significado e do alcance dos enunciados normativos constitucionais, para adaptá-los à nova realidade social. III O STF admite o uso da mutação constitucional como fundamento da interpretação judicial em sede de controle difuso.” 2.1. MECANISMOS DE MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL29 Segundo a doutrina clássica, são 4 os mecanismos de mutação constitucional. a) INTERPRETAÇÃO JUDICIAL: por meio de interpretação, judicial, poderá haver a superação de um entendimento até então consolidado, assumindo o exegeta um relevante papel de criação do direito. Nesse sentido, mormente no tocante à interpretação judicial, assume o Poder Judiciário a nobre função de adequar o Direito às novas necessidades sociais resultantes das alterações dos paradigmas que formavam o arcabouço fático-realístico do organismo social. b) INTERPRETAÇÃO ADMINISTRATIVA: por meio da interpretação administrativa, poderá 29BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional, 2ª Edição, p. 126-127 e http://www.conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/46355/mutacao-co nstitucional#_ftnref16 18 ser verificada a evolução interpretativa, como exemplo, o reconhecimento de novas perspectivas aos princípios da moralidade e da impessoalidade e suas influências no novo e restrito sentido ao nepotismo. c) ATUAÇÃO DO LEGISLADOR: verifica-se a mutação constitucional por atuação do legislador quando, por ato normativo primário, procura-se alterar o sentido já dado a alguma norma constitucional. Logo, nada impede que o Poder legislativo edite um ato normativo primário contrário a um entendimento, por exemplo, do Supremo Tribunal Federal – STF, em uma verdadeira reação legislativa, com Ativismo Congressual, já que o legislativo não fica vinculado, em sua função típica de legislar, aos efeitos das decisões prolatadas pelo STF, ainda que decorrentes de controle abstrato de constitucionalidade. d) POR VIA DE COSTUMES CONSTITUCIONAIS: o autor aduz não ser pacífica a existência de costumes em países de Constituição escrita e rígida. Porém, admite que certas práticas reiteradas ensejem mudanças no sentido interpretativo da Constituição. Exemplos: possibilidade de o Chefe do Poder Executivo negar a aplicação de lei que de modo fundamentado considere inconstitucional; voto de liderança no Parlamento, sem a submissão da matéria ao Plenário; evolução da interpretação em relação aos poderes da CPI, passando o STF a admitir a quebra de sigilo bancário e fiscal. Naturalmente, a mutação e a nova interpretação não poderão afrontar os princípios estruturantes da Constituição, sob pena de serem inconstitucionais. Nesse contexto, como bem esclarece Barroso, os princípios constitucionais fundamentais, os quais contêm as decisões políticas estruturais do Estado (ex: forma de Estado, forma de governo, etc.), compõem o núcleo imodificável do sistema e servem como limite às mutações constitucionais, pois sua superação exige um novo momento constituinte originário. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE / CEBRASPE - 2022 - DPE-RS - Defensor Público, tendo sido considerada errada a seguinte assertiva: “As mutações constitucionais são consideradas expressão do poder constituinte difuso e, por ausência de mecanismos de controle, não estão submetidas às limitações materiais do texto constitucional.” 3. DISTINÇÃO ENTRE REGRAS E PRINCÍPIOS Regras e princípios são espécies de normas e, como referenciais para o intérprete, não guardam entre si hierarquia, especialmente diante da ideia de unidade da Constituição. 3.1. SEGUNDO HUMBERTO ÁVILA A interpretação e a aplicação de princípios e regras se dá com base nos postulados normativos inespecíficos, quais sejam, a ponderação (atribuindo-se pesos), a concordância prática e a proibição de excesso (garantindo a manutenção de um mínimo de eficácia dos direitos fundamentais), e específicos, destacando-se o postulado da igualdade, o da razoabilidade e o da proporcionalidade. 3.2. SEGUNDO CANOTILHO ◾a) Grau de abstração: os princípios são normas com um grau de abstração relativamente elevado, enquanto as regras possuem uma abstração relativamente reduzida. ◾b) Grau de determinabilidade na 19 aplicação do caso concreto: os princípios, por serem vagos e indeterminados, carecem de mediações concretizadoras (do legislador, do juiz), enquanto as regras são suscetíveis de aplicação direta. ◾c) Caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito: os princípios são normas de natureza ou com um papel fundamental no ordenamento jurídico devido à sua posição hierárquica no sistema das fontes (ex: princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante dentro do sistema jurídico (ex: princípio do Estado de Direito). ◾d) “Proximidade" da ideia de direito: os princípios são standards juridicamente vinculantes radicados nas exigências de “justiça” (DWORKIN) ou na “ideia de direito” (LARENZ), enquanto as regras podem ser normas vinculativas com um conteúdo meramente funcional. ◾e) Natureza normogenética: os princípios são fundamentos de regras, isto é, são normas que estão na base ou constituem a ratio de regras jurídicas, desempenhando, por isso, uma função normogenética fundamentante. 3.3. SEGUNDO BARROSO Identifica uma distinção qualitativa ou estrutural entre regras e princípios. Para ele, a Constituição passa a ser encarada como um sistema aberto de princípios e regras, permeável a valores jurídicos suprapositivos, no qual as ideias de justiça e de realização dos direitos fundamentais desempenham um papel central. 3.4. SEGUNDO DWORKIN ◾Regras: relatos descritivos de condutas a partir dos quais, mediante subsunção, havendo enquadramento do fato à previsão abstrata, chega-se à conclusão. Diante do conflito entre regras, apenas uma prevalece dentro da ideia do tudo ou nada (all or nothing). A regra somente deixará de incidir sobre a hipótese de fato que contempla se for inválida, se houver outra mais específica ou se não estiver em vigor (critério hierárquico, da especialidade ou cronológico). ◾Princípios: a previsão de situações se dá de maneira mais abstrata, sem se determinar a conduta correta, já que cada caso concreto deverá ser analisado para que o intérprete dê o exato peso entre os eventuais princípios em choque (colisão). Assim, a aplicação dos princípios não será no esquema tudo ou nada, mas graduada à vista das circunstâncias representadas por outras normas ou por situações de fato. Destaca-se, assim, a técnica da ponderação e do balanceamento, sendo, portanto, os princípios valorativos ou finalísticos. 3.5. SEGUNDO ALEXY ◾Regras: são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas. Se uma regra vale deve-se fazer exatamente aquilo que ela exige, nem mais, nem menos. Regras contêm, portanto, determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível. Isso significa que a distinção entre regras e princípios é uma distinção qualitativa, e não uma distinção de grau. Toda norma é ou uma regra ou um princípio. ◾Princípios: normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes. Princípios são, por conseguinte, mandamentos de otimização, que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não depende somente das possibilidades fáticas, mastambém das possibilidades jurídicas. O âmbito das possibilidades jurídicas é determinado pelos princípios e regras colidentes. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE - 2019 - TJ-BA - Juiz de Direito Substituto, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: e) Os 20 princípios são mandamentos de otimização, como critério hermenêutico, e implicam o ideal regulativo que deve ser buscado pelas diversas respostas constitucionais possíveis. REGRAS30 PRINCÍPIOS Dimensão da validade, especificidade e vigência. Dimensão da importância, peso e valor. Conflito entre regras: uma das regras em conflito ou será afastada pelo princípio da especialidade, ou será declarada inválida - cláusula de exceção, que também pode ser entendida como "declaração parcial de invalidade". Colisão entre princípios: não haverá declaração de invalidade de qualquer dos princípios em colisão. Diante das condições do caso concreto, um princípio prevalecerá sobre o outro. Tudo ou nada. Ponderação, balanceamento, sopesamento entre princípios colidentes. Mandamentos ou mandados de definição. Mandamentos ou mandados de otimização. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE / CEBRASPE - 2020 - MPE-CE - Promotor de Justiça de Entrância Inicial, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: Acerca de regras e princípios, consoante Robert Alexy, assinale a opção correta. b) O sopesamento pode solucionar a colisão entre princípios. No ponto, vale mencionar as alternativas que 30LENZA (2020), pág. 129. foram consideradas incorretas, as quais também dizem respeito (ainda que de maneira errônea) à diferenciação feita por Alexy. São elas: a) Entre regras há colisão; entre princípios, conflito. c) A colisão entre princípios ocorre na dimensão da validade. d) Quando há colisão entre princípios, um deles será invalidado. e) Quando há conflito entre regras, uma delas deverá, necessariamente, ser invalidada. 4. DERROTABILIDADE (DEFEASIBILITY)31 A derrotabilidade (“defeseability”) consiste na superação da lei, de forma justificada e casuística, diante de um caso ímpar que reclama uma análise que encontra resposta fora do texto legal para se buscar o valor da justiça. Humberto Ávila observa que as regras não devem ser obedecidas somente por serem regras e serem editadas por uma autoridade. Elas devem ser obedecidas, de um lado, porque sua obediência é moralmente boa e, de outro, porque produzem efeitos relativos a valores prestigiados pelo próprio ordenamento jurídico, como segurança, paz e igualdade. Ao contrário do que a atual exaltação dos princípios poderia fazer pensar, as regras não são normas de segunda categoria. Bem ao contrário, elas desempenham uma função importantíssima de solução previsível, eficiente e geralmente equânime de solução de conflitos sociais. Apesar dessa constatação, muitos autores começam a reconhecer a derrotabilidade (defeasibility) das regras, superando o modelo "tudo ou nada" de Dworkin. A ideia de derrotabilidade (Ávila se refere a ela como superabilidade), historicamente, vem sendo atribuída a Hart, na seguinte passagem: "quando o 31 LENZA (2020), pág. 130. 21 estudante aprende que na lei inglesa existem condições positivas exigidas para a existência de um contrato válido, ele ainda tem que aprender o que pode derrotar a reivindicação de que há um contrato válido, mesmo quando todas essas condições são satisfeitas", daí por que "o estudante tem ainda que aprender o que pode seguir as palavras 'a menos que', as quais devem acompanhar a indicação dessas condições". Ávila , reconhecendo que as regras não são32 superáveis com facilidade, propõe algumas condições necessárias, destacando-se: a) REQUISITOS MATERIAIS (OU DE CONTEÚDO): a superação da regra pelo caso individual não pode prejudicar a concretização dos valores inerentes à regra. Explica o autor que há casos em que a decisão individualizada, ainda que incompatível com a hipótese da regra geral, não prejudica nem a promoção da finalidade subjacente à regra, nem a segurança jurídica que suporta as regras, em virtude da pouca probabilidade de aparecimento frequente de situação similar, por dificuldade de ocorrência ou comprovação. b) REQUISITOS PROCEDIMENTAIS (OU DE FORMA): a superação de uma regra deve ter: ● Justificativa condizente: deve haver a demonstração de incompatibilidade entre a hipótese da regra e sua finalidade subjacente, e, ainda, a demonstração de que o afastamento da regra não provocará expressiva insegurança jurídica. ● Fundamentação condizente: a fundamentação deve ser escrita, juridicamente fundamentada e logicamente estruturada. ● Comprovação condizente: não sendo necessárias, notórias ou presumidas, a ausência do aumento excessivo das controvérsias, da incerteza e da 32 H. Ávila, Teoria dos princípios, p. 123-181. arbitrariedade e a inexistência de problemas de coordenação, altos custos de deliberação e graves problemas de conhecimento devem ser comprovadas por meios de provas adequados, como documentos, perícias ou estatísticas. A mera alegação não pode ser suficiente para superar uma regra. Por fim, salienta-se que o STF, no ARE 954858, analisou a derrotabilidade de regra imunizante de jurisdição em relação a atos de império praticados por Estado soberano, por conta de graves delitos ocorridos em confronto à proteção internacional da pessoa natural , nos termos do art. 4º, II e V, do Texto Constitucional: 1. Controvérsia inédita no âmbito desta Suprema Corte, estando em questão a derrotabilidade de regra imunizante de jurisdição em relação a atos de império praticados por Estado soberano, por conta de graves delitos ocorridos em confronto à proteção internacional da pessoa natural , nos termos do art. 4º, II e V, do Texto Constitucional. 2. A imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro no direito brasileiro é regida pelo direito costumeiro. A jurisprudência do STF reconhece a divisão em atos de gestão e atos de império, sendo os primeiros passíveis de cognoscibilidade pelo Poder Judiciário e, mantida, sempre, a imunidade executória, à luz da Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas (Dec. 56.435/1965). Precedentes. 3. O artigo 6, “b”, do Estatuto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg, reconhece como “crimes de guerra” as violações das leis e costumes de guerra, entre as quais, o assassinato de civis, inclusive aqueles em alto-mar. Violação ao direito humano à vida, incluído no artigo 6, do Pacto sobre Direitos Civis e Políticos. Assim, os atos praticados em períodos de guerra contra civis em território nacional, ainda que sejam atos de império, são ilícitos e ilegítimos. 4. O caráter absoluto da regra de imunidade da 22 jurisdição estatal é questão persistente na ordem do dia do direito internacional, havendo notícias de diplomas no direito comparado e de cortes nacionais que afastaram ou mitigaram a imunidade em casos de atos militares ilícitos. 5. A Corte Internacional de Justiça, por sua vez, no julgamento do caso das imunidades jurisdicionais do Estado (Alemanha Vs. Itália), manteve a doutrina clássica, reafirmando sua natureza absoluta quando se trata de atos jure imperii. Decisão, no entanto, sem eficácia erga omnes e vinculante, conforme dispõe o artigo 59, do Estatuto da própria Corte, e distinta por assentar-se na reparação global. 6. Nos casos em que há violação à direitos humanos, ao negar às vítimas e seus familiares a possibilidade de responsabilização do agressor, a imunidade estatal obsta o acesso à justiça, direito com guarida no art. 5º, XXXV, da CRFB; nos arts. 8 e 10, da Declaração Universal; e no art. 1, do Pacto sobre Direitos Civis e Políticos. 7. Diante da prescrição constitucional que confere prevalência aos direitos humanos como princípio que rege o Estado brasileiro nas suas relações internacionais (art. 4º, II), devem prevalecer os direitos humanos- à vida, à verdade e ao acesso à justiça -, afastada a imunidade de jurisdição no caso. 8. Possibilidade de relativização da imunidade de jurisdição estatal em caso de atos ilícitos praticados no território do foro em violação à direitos humanos. 9. Fixação de tese jurídica ao Tema 944 da sistemática da repercussão geral: “Os atos ilícitos praticados por Estados estrangeiros em violação a direitos humanos não gozam de imunidade de jurisdição.” 10. Recurso extraordinário com agravo a que se dá provimento. (ARE 954858, Relator(a): EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 23/08/2021, PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-191 DIVULG 23-09-2021 PUBLIC 24-09-2021) 5. MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO A interpretação das normas constitucionais é realizada através da aplicação de um conjunto de métodos, quais sejam: 5.1. MÉTODO JURÍDICO OU HERMENÊUTICO CLÁSSICO (Ernest Forsthoff) A Constituição deve ser encarada como uma lei e, assim, todos os métodos tradicionais de hermenêutica deverão ser utilizados na tarefa interpretativa. Utiliza-se os seguintes elementos de exegese (Critérios de Savigny): ● Elemento genético: busca a origem dos conceitos empregados no texto da Constituição. ● Elemento gramatical ou filológico: análise literal do texto. ● Elemento lógico: análise da lógica das normas. ● Elemento sistemático: análise do todo. ● Elemento histórico: análise do contexto, momento histórico, em que se desenvolveu o trabalho do constituinte. ● Elemento teleológico ou sociológico: análise da finalidade da norma. ● Elemento popular: análise da participação do povo na produção da norma. ● Elemento doutrinário: análise da interpretação feita pela doutrina. ● Elemento evolutivo: segue a linha da mutação constitucional. O papel do intérprete resume-se a descobrir o verdadeiro significado da norma, o seu sentido, contudo, sem ir além do teor literal dos seus preceitos e menos ainda contrariá-los. Este método atribui grande importância ao texto da norma constitucional. 23 🔔 Crítica: a utilização isolada do método hermenêutico clássico revela-se insuficiente para uma interpretação adequada, sobretudo diante de casos difíceis (hard cases). 5.2. MÉTODO TÓPICO-PROBLEMÁTICO OU MÉTODO DA TÓPICA (Theodor Viehweg) Trata-se de uma teoria de argumentação jurídica em torno do problema. Parte-se de um problema concreto para a norma, atribuindo-se à interpretação um caráter prático na busca da solução dos problemas concretizados. A Constituição é, assim, um sistema aberto de regras e princípios. 🔔 Crítica: ausência de uma investigação jurisprudencial séria e profunda; possibilidade de conduzir a um casuísmo ilimitado e, por consequência, a uma insegurança interpretativa, tendo em vista que os métodos clássicos de interpretação, assim como a norma e o sistema, são tratados como simples topoi; e o fato de que a interpretação deve partir da norma para a solução do problema, e não do problema para a busca de uma norma que justifique o resultado desejado pelo intérprete. 5.3. MÉTODO HERMENÊUTICO-CONCRETIZADOR (Konrad Hesse) Parte da Constituição para o problema. Pressupostos interpretativos: a) Subjetivos: o intérprete vale-se de suas pré-compreensões sobre o tema para obter o sentido da norma. b) Objetivos: o intérprete atua como mediador entre a norma e a situação concreta, tendo como "pano de fundo" a realidade social. c) Círculo hermenêutico: é o "movimento de ir e vir" do subjetivo para o objetivo, até que o intérprete chegue a uma compreensão da norma. 🔔 Crítica: o fato de se partir das pré-compreensões do intérprete pode distorcer não somente a realidade, como também o próprio sentido da norma. 🚨 JÁ CAIU Veja como o tema foi cobrado na prova CESPE - 2019 - MPE-PI - Promotor de Justiça Substituto, tendo sido considerada correta a seguinte alternativa: Assinale a opção que apresenta o método conforme o qual a leitura do texto constitucional inicia-se pela pré-compreensão do aplicador do direito, a quem compete efetivar a norma a partir de uma situação histórica para que a lide seja resolvida à luz da Constituição, e não de acordo com critérios subjetivos de justiça: b) hermenêutico-concretizador Na prova para o cargo de Analista da DPE-RS (Banca: FGV; Ano: 2023), foi apresentado o seguinte enunciado: “Em determinado feito, patrocinado pela Defensoria Pública, no qual se discutia matéria constitucional, foi proferida sentença julgando improcedente o pedido formulado. Na ocasião, o juíz de direito argumentou que compete ao intérprete identificar o sentido imanente ao texto constitucional, não se arvorar em Constituinte. Ao insurgir-se contra essa assertiva em sede de recurso de apelação, sustentou o defensor público inexistir uma sobreposição entre texto e norma. Afinal, isto é perceptível ao se constatar que o intérprete, a partir do texto constitucional, deve decidir uma série de incidentes argumentativos, condensador na concepção de confiabilidades intrínsecas da norma constitucional, com sensibilidade à realidade”. E considerada correta a seguinte assertiva: “defensor público se ajusta ao método concretizador, encampado a dicotomia entre programa da norma e 24 âmbito da norma;”. 5.4. MÉTODO CIENTÍFICO-ESPIRITUAL (Rudolf Smend) Não utiliza-se apenas valores consagrados na Constituição, mas também valores extra-constitucionais, como a realidade social e cultural. A Constituição deve ser interpretada como algo dinâmico e que se renova constantemente, no compasso das modificações da vida em sociedade. Tem como finalidade alcançar a integração do texto constitucional com a realidade espiritual da comunidade. 🔔 Crítica: método desenvolvido em termos muito vagos, sem um fundamento filosófico-jurídico claro, além da indeterminação e mutabilidade dos possíveis resultados obtidos. 5.5. MÉTODO NORMATIVO-ESTRUTURANTE (Friedrich Müller) OU CONCRETISTA (Paulo Bonavides) Inexistência de identidade entre a norma jurídica e o texto normativo. O teor literal da norma (elemento literal da doutrina clássica), que será considerado pelo intérprete, deve ser analisado à luz da concretização da norma em sua realidade social, a qual estruturará aquela em sua aplicação. 5.6. MÉTODO DA COMPARAÇÃO CONSTITUCIONAL (Peter Häberle) A interpretação dos institutos se implementa mediante comparação nos vários ordenamentos. Através dessa comparação, é possível estabelecer uma comunicação entre vários textos constitucionais e encontrar critérios passíveis de aplicação em um problema concreto. 5.7. MÉTODO CONCRETISTA DA CONSTITUIÇÃO ABERTA (Peter Häberle) A Constituição deve ser interpretada por todos e em quaisquer espaços (abertura interpretativa), não apenas pelos juristas no bojo de procedimentos formais. 5.8. LEITURA MORAL DA CONSTITUIÇÃO (Ronald Dworkin) A leitura moral da Constituição elucida que a interpretação jurídica deve valer-se de uma teoria política, sem que isso signifique uma corrupção da interpretação. Os princípios e valores dos julgadores tendem a desvelar das normas jurídicas. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Advogado da União - AGU (Banca: CESPE/CEBRASPE; Ano: 2023), a banca apresentou o seguinte enunciado: “( ... ) representa a tentativa de superar o contraste rígido entre norma e fato, deslocando o problema para o debate sobre estática e dinâmica na teoria do Estado. Nessa teoria, a Constituição é uma realidade integrante. Paulo Bonavides. Curso de direito constitucional. 17.ª ed. São Paulo: Editora Malheiros, p. 178 (com adaptações). O fragmento de texto apresentado diz respeito ao método interpretativo”. E considerou correta a seguinte assertiva: “científico-espiritual”. 5.9. RESUMINDO 25 MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL JURÍDICO HERMENÊUTICO CLÁSSICO Ernest Fosthoff Identidade entre a Constituição e as leis. Utiliza critérios de Savigny. TÓPICO PROBLEMÁTICO Theodor Viehweg Problema-nor ma.