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C A P Í T U L O 1
Quem è o acompanhante terapêutico: história e caracterização
Fabiana Guerrelhas
Os problemas graves (que de fato incapacitam as pessoas para o
cotidiano da vida) ainda estão a i Entretanto, dificilmente os tera
peutas serão bem-sucedidos nestes casos se continuarem confinados
ao espaço verbal (do mundo das regras e cognições) do consultório.
Repensar a prática clínica e inventar novos espaços que permitam
maior efetividade do mundo real do cliente é nosso grande desafio.
Guedes, 1993, p. 85
O atendimento clínico em acompanhamento terapêutico pode
ser considerado uma modalidade recente, tanto no campo da psicologia clínica
como no âmbito da análise do comportamento.
Para o desenvolvimento da trajetória histórica do acompanhamento te
rapêutico (AT) analítico-comportamental no Brasil, apresentaremos a origem
da prática no campo geral da psicologia e psiquiatria, para em seguida expor o
caminho do AT analista do comportamento.
QUEM É 0 ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO
Antes mesmo de apresentar o desenvolvimento histórico do acompanha
m ento terapêutico, é necessário caracterizar quem são os profissionais que se
denominam acompanhantes terapêuticos, ou seja, com qual definição de AT
estamos trabalhando, já que a discussão sobre esse conceito parece ainda não
estar encerrada.
Na abordagem analítico-comportamental, as referências encontradas
definem o AT ora como o profissional que trabalha no ambiente onde as con
tingências mantenedoras dos comportamentos a serem alterados operam, ora
como o auxiliar de um terapeuta comportamental ou de um psiquiatra ou,
ainda, de um a equipe multidisciplinar que identifica sua prática com a aborda
gem e que é responsável pelo atendimento. Como auxiliar, atua na coleção de
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dados e aplicação de técnicas e no manejo de contingências cuja necessidade de
mudança é determinada pelos responsáveis pelo atendimento.
Nesse m om ento, um a distinção de caráter profissional já se faz necessária.
Os profissionais que se denominam terapeutas comportamentais, de acordo
com as especificidades de cada caso, freqüentemente realizam trabalhos fora
do consultório, no ambiente do cliente. Quando o profissional é definido como
AT, fica claro que sua função é auxiliar ou complementar o trabalho de um te
rapeuta ou de um a equipe multiprofissional. Existe um a série de contingências
que determinam essa distinção, muitas delas ligadas â questões sociais, econô
micas e de formação profissional.
O local de atuação do AT não é sufidente para designar sua definição. Faz
parte de sua caracterização definir o acompanhante terapêutico como auxiliar
de um terapeuta experiente, analista do com portam ento e responsável pelo
delineamento da intervenção. Solidtar os serviços do AT pode envolver contin-
gênrias “econômicas”. Por ser estudante ou um profissional recém formado,
o AT provavelm ente apresenta disponibilidade para atendim ento intensivo
(muitas horas por semana) e em horários alternativos (fora do horário comer-
dal) a um custo reduzido. Há bastante oferta de trabalho, pois para o profissio
nal inexperiente é um a forma de especialização e aprendizagem, um a espéde
de estágio rem unerado no qual acom panha de perto o trabalho de um tera
peuta experiente que o supervisiona. Sendo assim, o trabalho de AT é um a boa
alternativa para estudantes e profissionais com pouca experiência (Zamignani,
1997), como já dito anteriormente.
Por hora, pode-se definir o AT anaíítico-comportamental por algumas
especifiddades de suas funções e pela sua posição hierárquica em um a equipe
de trabalho clínico.
Pode-se resumir o acompanhamento terapêutico como uma intervenção
clínica indicada em casos de âêficits importantes no repertório básico de com
portamentos, o que gera a necessidade de um a atenção intensiva realizada nos
locais em que o cliente vive. E o AT é, nesse contexto, o profissional ou estudante
“cuja função não compreende analisar o caso e decidir quais atividades e proce
dimentos utilizar na sua intervenção. Suas ações são, necessariamente, subordi
nadas às decisões anteriormente elaboradas pelo profissional ou equipe com o / a
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qual trabalha” (Zamignani ôí Wielenska, 1999, p. 160) e "que apresenta-se como
um elo entre terapeuta, cliente, família e demais pessoas envolvidas, levantando
dados importantes para a análise funcional*’ (Carvalho, 2002, p. 43).
BREVE HISTÓRICO DAS PUBLICAÇÕES RELACIONADAS AO TEMA NA PSICOLOGIA EM
GERAL E NA ANÁLISE 0 0 COMPORTAMENTO
A primeira publicação sobre acompanhamento terapêutico na abordagem
analítico-comportamental no país é de 1997 (Zamignani, 1977).
A bibliografia consultada enfatiza a importância da formação do acompa-
nhanteterapêutico.ApesardeoATseruminitiantenaclánica.énecessárioqueseja
treinado em habilidades específicas1. Atualmente são oferecidos cursos de forma
ção vinculados à Psiquiatria (Ambulatório de Ansiedade [Ambam], do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e cursos de
pós-graduação lato sensu (Paradigma - Núcleo de Análise de Comportamento,
na cidade de São Paulo, Psicolog, em Ribeirão Preto, entre outros).
As referências bibliográficas que tratam do assunto num a abordagem
psicodinâmicasãoinúmeras.Emumabuscacomodescritor “acompanhamento
terapêutico" em banco de dados da biblioteca virtual em saúde (www.bvs-psi.
org.br) foram encontrados 270 trabalhos sobre o tema, entre livros, teses e
artigos de periódicos. Quando a busca foi refinada para uma abordagem
analítico-comportamental foi encontrado somente um artigo, que na realidade
descrevia oprocesso de terapia comportamental aplicada a um caso deSíndrome
de Asperger (Fernandes 8í Souza, 2000). O utra fonte de busca foi a página
www.siteat.cjb.net, que reúne uma série de informações e referências sobre
acompanhamento terapêutico sem nenhuma menção de trabalhos de analistas
de com portam ento. Foram então pesquisadas referências bibliográficas
freqüentem ente consultadas pelos analistas do comportamento. O que se
encontra na literatura atualmente refere-se ao material publicado nos livros da
coleção Sobre comportamento e cognição entre outras publicações de estudiosos
e pesquisadores da terapia comportamental e cognitiva. Nos 18 volumes da
coleção, publicados até o ano de 2006, foram encontrados nove capítulos que
1 Essas habilidades serão tratadas detalhadamente neste livro.
http://www.bvs-psi
http://www.siteat.cjb.net
descrevem o tabalho de AT ou cujo título apresenta intervenções em ambiente
natural do cliente (Balvedi, 2003, 2004; Baumgarth et al., 1999; Brandão et al.,
2006; Cruz ÕC Moraes, 2003; M arinotti 3C Souza e Silva, 2001; Oliveira, 2001;
Vianna õí Sampaio, 2003; Zamignani & Wielenska, 1999).
Todos os textos expõem trabalhos ligados ao atendimento de portadores
de transtornos psiquiátricos, assumindo que essa clientela possui demandas
específicas, geralm ente ligadas à necessidade de desenvolvimento de um re
pertório com portam ental básico, o que justifica a inserção nesta modalidade
de atendimento clínico. Baumgarth é t al. (1999) discutem o trabalho que vem
sendo desenvolvido diretamente no ambiente do tratamento de casos psiquiá
tricos e a relação com a equipe multidisciplinar. Segundo os autores, esse tipo de
trabalho: facilita a identificação da função de estímulos privilegiando o acesso
aos dados sobre o cotidiano do cliente, sobre as suas relações familiares e ou
tras, o que favorece o levantamento de aspectos relevantes para planejamento
e intervenção; possibilita a explicitação da contingência no m om ento em que
está ocorrendo; ajuda na discriminação imediata e na aprendizagem de novos
elementos do repertório com portam ental do cliente; propicia a conseqüen-
ciação imediata - discriminação, reforçamento e desenvolvimento de padrões
comportamentais compatíveis com a prom oção da saúde; facilita as relações
familiares, através do feedback a respeito de episódios observados; e permitem om ento
- com exceção das relações vividas pelo cliente com o terapeuta, dentro da ses
são, que seriam semelhantes àquelas vividas fora e que, conseqüentemente, per
mitiriam observação e manipulação diretas de algumas variáveis relevantes.
Ainda sobre o segundo momento, podemos afirmar que o d iente chega
ao consultório tendo a habilidade de descrever, em algum grau, aspectos de
sua vida que, a seu ver, estão relacionados com seu sofrimento. A descrição das
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experiências vividas já é um comportamento produzido na história individual
do cliente, e uma primeira perspectiva de intervenção do terapeuta se daria so
bre a qualidade dessa descrição. Com a intervenção verbal, o terapeuta é capaz
v de modelar e /o u instruir uma resposta de auto-observação e autodescrição, de
m odo a tomá-la mais consistente e precisa.
Poderíamos dizer que a descrição do cliente foi controlada por uma regra do
^ terapeuta quando este instrui a resposta de descrever do cliente. Isto é diferente do
que ocorre quando o terapeuta modela, com suas respostas verbais, a descrição de
^contingências. Nesse sentido, não podemos afirmar que toda resposta verbal do te-
i ^apeuta funciona como uma regra - estímulo antecedente - que controla a respos
ta do cliente. É possível que uma resposta verbal do terapeuta funcione como um
estímulo conseqüente à resposta veibal de descrição do cliente, modelando-a.
Dados experimentais indicam que a resposta verbal, quando modelada,
produz um controle mais consistente sobre a resposta relatada do que quando
o mesmo relato verbal é instruído (Catania, Matthews & Shimoff, 1982).*
Antes da produção desses resultados experimentais, Skinner (1994), em
escrito de 1953 sobre psicoterapia, afirma que o terapeuta produz mudança no
diente de maneira mais eficaz quando, ao invés de descrever “qual a solução
para o problema” (idem, p. 360) favorece a percepção do próprio diente sobre o
que está errado para que ele descubra sua própria solução. Ao que tudo indica,
o autor defende a modelagem da resposta de autodescrição como mais efetiva
do que a emissão de regras pelo terapeuta - para produzir mudanças no com
portam ento não-verbal do cliente. Sobre isso, afirma:
Quando o próprio paciente vê que está errado, não é o fato de que a
soluçãopartiu de dentro dele que é importante, mas o que importa é que,
para descobrir sua própria solução, seu comportamento com relação ao
problema deve ter se alterado enormemente (...) deve ser consumada
um a mudança substancial se o indivíduo tem que identificar as variáveis
8 Pesquisas sobre a relação entre relato verbal e o responder não verbal investigam diferentes
parâmetros das contingências em vigor que podem estar relacionados a um maior ou menor
controle da resposta verbal sobre a não-verbal (Arnorim, 2001; Ceruttí, 1991; Rosenfarb, New-
land, Brannon & Howey, 1992; Torgrud 8c Holbom, 1990).
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importantes. Uma solução que parte do sujeito representa, assim, um
considerável grau de progresso. N enhum progresso semelhante está im
plícito quando o terapeuta enuncia a solução. A terapia consiste, não em
levar o paciente a descobrir a solução para o seu problema, mas em mudá-
lo de tal modo que seja capaz de descobri-la. (Skinner, 1984, p. 361)
Mesmo que o cliente descreva as contingências, não se garante que essa
descrição funcione como estímulo antecedente para uma outra resposta. Esse
seria o terceiro m om ento do processo descrito por Sério et al. (2004). Para que
qualquer estímulo antecedente (verbal ou não) afete uma resposta, é necessária
utna história de reforçamento diferencial em que o critério para o reforçamen-
to da resposta seja a sua emissão na presença tam bém desse estímulo.
Se o objetivo final da terapia analítico-comportamental não é a autocons
ciência por si só e sim a mudança no padrão compoitamental responsável pelo
sofrimento do indivíduo, toma-se relevante investigar se as descrições continua
mente aprendidas e refinadas no processo terapêutico funcionarão como uma va
riável relevante para a mudança na relação do sujeito com o mundo. Isso depende
rá de uma história pregressa de reforçamento da resposta de seguir regras, além da
relação estabelecida entre terapeuta-diente, de modo que análises elaboradas na
relação com o terapeuta controlem o responder do cliente fora do consultório.
A resposta emitida pelo cliente fora do consultório, prim eiram ente de
vido a análises produzidas na terapia, irá se m anter se os reforçadores forem
diretam ente produzidos pela resposta do cliente (regra do tipo conselho) e
se não estiverem sob poder exdusivo do terapeuta (regra do tipo mando). Se o
terapeuta não planejar sua intervenção de m odo que o cliente fique sensível
predominantemente às conseqüêndas intrínsecas do seu responder, corre-se
o risco de o responder do cliente ficar sob controle somente da "conseqüen-
ciação” provida pelo terapeuta à resposta de agir de acordo com as descrições
elaboradas. Nesse caso, as contingências extraconsultório que a regra descre
ve podem m udar e o sofrimento advindo da relação com o ambiente não, já
que tanto a descrição como o responder permanecem sob controle do reforço
social, extrínseco, liberado pelo terapeuta - fenômeno denominado insensibi
lidade às contingências.
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QUANDO A TERAPIA VERBAL É INSUFICIENTE PARA PRODUZIR MUDANÇAS
1 COMPORTAMENTAIS
Pérez-Álvarez (1996) discute se a característica verbal da terapia no con
sultório pode limitar seu alcance, principalmente nos casos de pacientes graves
? - íòra do ambiente institucional talvez porque eles apresentem problemas
v Oiais complexos, que não aparecem durante a sessão terapêutica e, portanto,
não podem ser diretamente observados ou reforçados.
O autor caracteriza o limite da terapia verbal de consultório baseado nos
critérios de gravidade do caso e na complexidade do problema; e, ainda, no
não-aparecimento dos comportamentos alvo na sessão terapêutica - o que im-
y pediria a observação e reforçamento deles.
Zamignani (1997) parece concordar com a proposta de Pérez-Álvarez
I (1996), ao defender que o relato verbal permite ao terapeuta comportamental
,1
T trabalhar de maneira eficiente no consultório, a partir da análise funcional,
i principalmente em casos menos graves e que, no atendimento de casos psiquiá-
tricos mais graves, a impossibilidade da atuação direta no ambiente do cliente
pode ser um problema.
Apesar de concordar com Pérez-Álvarez (1996) no critério de gravidade
.1 do caso, como um limite do alcance da terapia verbal, Zamignani (1997) não
considera a complexidade do problema trazido pelo cliente como um definidor
da gravidade do caso. Provavelmente, a inexistência dessa discussão deva se à
consideração de que toda e qualquer relação entre homem e ambiente é com
plexa por definição, em acordo com Banaco (1997), que retoma a multídeter-
minação do comportamento. Assim, quando Pérez-Álvarez (1996) refere-se
aos comportamentos que foram alvo de intervenção, pelos modificadores do
comportamento, como não-complexos, parece referir-se à restrição da com
preensão das muitas e intricadas variáveis relacionadas à origem e manutenção
de uma resposta e não à natureza do comportamento.
De qualquer maneira, ambos consideram a terapia verbal insuficiente, a
depender da gravidade do caso. Mas não apresentam uma definição comporta
mental acerca do que seria um caso mais ou menos grave, ou seja, quais carac
terísticas desses casos limitariam o alcance de uma terapia verbal.
Baumgarth, Guerrelhas, Kovac, Mazer & Zamignani (1999) aproximam-se
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de uma caracterização de “repertório básico de com portam ento” (p. 167) cuja
existência viabilizaria a terapia verbal, a saber-, comportamento de interação
com outros homens, habilidades de linguagem que possibilitema com uni
cação e habilidades físicas e motoras que permitam contato e exploração do
mundo. Supõe-se, portanto, que a ausência desses padrões comporta mentais
estaria relacionada com uma maior gravidade do caso em questão e justificaria
a intervenção em contingências extraconsultório.
Os autores destacam que as contingências presentes na vida cotidiana pos
suem maior variabilidade de estimulação do que aquelas do ambiente da terapia
tradicional. Essa maior gama de estímulos aumenta a probabilidade de que no
vas respostas sejam evocadas e possam ser reforçadas diferencial mente, seja pela
conseqüência diretamente produzida pela resposta do cliente, seja pela ação do
terapeuta. Nesse sentido, a atuação fora do consultório pode favorecer tanto a am
pliação na classe de estímulos antecedentes e conseqüentes que passam a afetar as
respostas como a diversidade das respostas que compõem o repertório do cliente.
Qualquer lacuna no repertório comportamental básico do cliente iden
tificada pelo terapeuta via análise de contingências, e indentificada como res
ponsável pelo sofrimento, deve ser suprida por meio do planejamento de con-
dições que favoreçam a aprendizagem de novas respostas ou novos controles
ambientais. Vale atentar que é fundamental o terapeuta destrinchar essa lacuna
comportamental e avaliar quais com portam entos serão primeiramente desen
volvidos, de m odo a facilitar a aquisição de outros. A cada etapa desse processo
contínuo, cabe ao terapeuta analisar quais as melhores condições de aprendi
zagem e como elas deveriam ocorrer.
O atendimento no consultório tem algumas desvantagens, provenientes
de déficits no repertório verbal necessário para exercer a função de ouvinte e
falante na relação terapêutica de consultório, o que pode ser minimizado se a
atuação ocorrer diretamente no ambiente do cliente.
No consultório, toda informação acerca da vida do cliente é obtida via
relato verbal. Caso a lacuna com portam ental seja exatamente no repertório
de auto-observação e descrição das experiências vividas fora do consultório, a
atuação relevante deve ocorrer com o objetivo de propiciar a aquisição de uma
resposta verbal sob controle do próprio comportamento.
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Valeria notar que o déficit em questão refere-se ao segundo momento da
história a partir da qual respostas podem ser afetadas pela descrição de contin
gências, descrito por Sério et al. (2004). A ausência de repertório autodescriti-
vo impossibilita a análise de contingências por parte do terapeuta e também
a capacidade de ser afetado pela descrição de contingências como estímulos
ambientais.
Tal intervenção poderia ser realizada dentro do consultório; no entanto, a
aprendizagem da resposta autodescritiva seria potencializada se ocorresse no am
biente do cliente, pois o terapeuta teria acesso direto às variáveis ambientais que
afetam o comportamento do sujeito e poderia favorecer, via modelagem ou m o
delação, a emissão da resposta de descrição dessa relação. Portanto, em casos de
déficit nesse repertório, o atendimento fora do consultório parece apropriado.
Baumgarth et al. (1999) apresentam um outro aspecto relevante para que
a terapia verbal de consultório seja efetiva:
Para que haja um a aprendizagem satisfatória, é necessário que o
cliente demonstre capacidade de generalizar conteúdos aprendidos no
consultório, para outros ambientes e relacionamentos (. ..) testando por
si próprio as hipóteses levantadas no consultório. Quando o cliente testa
estas hipóteses, pode estar gerando alterações nas contingências que
tragam conseqüências que poderão contribuir para aprendizagem e ma
nutenção do repertório alternativo sugerido. (Idem, pp. 167-168)
Provavelmente, os autores aqui se referem ao terceiro momento da his
tória a partir da qual alguém pode ser afetado pela descrição de contingências,
descrito por Sério et al. (2004), a saber, quando essa descrição adquire função
de estímulo antecedente capaz de controlar uma resposta.
Se o terapeuta nota que o cliente apresenta dificuldades de ser controlado
por uma descrição verbal, seja dele mesmo ou do terapeuta, então deveria
analisar quais as possíveis variáveis responsáveis por isso e atuar diretamente
sobre elas. Propomos uma primeira aproximação a essa questão com base no
olhar para a tríplice contingência descrita por Todorov(1985) nos seguintes
termos:
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Uma contingência tríplice especifica (1) um a situação presente ou
antecedente, considerada discriminativa pela função controladora que
exerce sobre o comportamento; (2) algum com portam ento do indiví
duo, que se emitido na presença de tais estímulos discriminativos, tem
como conseqüência (3) alguma alteração no ambiente, que não ocor
reria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência dos referidos
estímulos discriminativos ou (b) se o com portam ento não ocorresse.
(Idem ,p. 75)
A questão, então, seria: o que leva um cliente a não agir de acordo com as
análises feitas pelo terapeuta? Ou seja, quais seriam as variáveis relacionadas à
não-emissão da resposta de seguir as descrições verbais elaboradas no contexto
do consultório?
Uma primeira possibilidade refere-se ao segundo termo da contingência, à
não-existênda da resposta descrita no repertório do sujeito. Isto é, o cliente não
segue a regra porque não é capaz de emitir a resposta. Por exemplo: o terapeuta
discute com o cliente a respeito da possibilidade de ele conhecer novas pessoas
e ele não sabe emitir respostas de aproximação social, como fazer perguntas a
respeito dc algum assunto ou manter contato visual. Nesse caso, o déficit não
estaria no repertório de seguir regras, mas naquele relacionado à interação
social. Se assim fosse, a intervenção terapêutica deveria se dar sobre o desen
volvimento do repertório, o que seria facilitado pela modelagem ou modelação
no ambiente natural do cliente.
Outra possibilidade relaciona-se ao primeiro termo, ou seja, a um a falha
no controle pelo estímulo antecedente, sobre a resposta de seguir a descrição
e /o u sobre a resposta descrita. No primeiro caso, o terapeuta deveria avaliar
a capacidade operante de seguir uma regra, buscando investigar a história de
seguir regras do cliente e intervindo nas variáveis cruciais para o controle desta
resposta. Por exemplo, pensemos em um adolescente que é altamente refor
çado por burlar e /o u contrariar sugestões feitas por adultos. A intervenção,
nesse caso, deveria focar a relação terapêutica, de m odo que a generalização
de estímulos “adulto/terapeuta" se altere. Esse processo só seria possível se o
terapeuta "conseqüendasse" as respostas do cliente de maneira diferente dos
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membros da dasse de estímulos "adultos”. Essa é uma questão cuja superação
independe do locus no qual a terapia ocorre.
No segundo caso, o cliente teria um histórico de seguir descrições, mas o
estímulo não-verbal controlaria mais fortemente a resposta (oposta ao curso
de ação sugerido) do que o estímulo verbal. Por exemplo, um dependente quí
mico dedde evitar o consumo de drogas, mas em contato direto com esse es
tímulo o utiliza, apesar de "dizer querer” o contrário. Nesse caso, o terapeuta
poderia propor um a intervenção direta no ambiente no qual há a possibilidade
j de emissão da resposta de consumo (mais provável), com vistas a propiciar
auxílio na manipulação dos estímulos antecedentes (autocontrole) e evocar
respostas alternativas e /o u de enfrentamento. Em casos como esse, a saída
seria a intervenção fora do consultório, em virtude do fraco controle verbal
sobre a resposta não-verbai.
Uma última possibilidade refere-se ao terceiro termo da contingência, isto
é, aos estímulos conseqüentes que mantêm o responder. Nesse caso, o cliente
teria a resposta descrita em seu repertório, seria sensível à condição na qual, se
emitida, a resposta seria reforçada, mas não seguiriaas descrições: por não ser
afetado pelas conseqüêndas da resposta descrita ou por haver sinalização de pu
nição se a resposta descrita for emitida. Em relação ao primeiro caso, podemos
a ta r, por exemplo, uma pessoa deprimida, com baixa freqüênda de respostas
mantidas por reforçamento positivo (como respostas de interação social) e alta
freqüência de respostas de fuga/esquiva, geralmente passivas. Esse cliente po
deria dizer que ‘‘sabe que precisa” sair com os amigos para se sentir melhor,
que se divertia, no passado, ao sair de casa, mas que, entre sair e continuar em
casa, emite a segunda resposta. Diante dessa situação, o terapeuta poderia pri
vilegiar a atuação no ambiente natural, de modo a aumentar a probabilidade
das respostas em baixa freqüênda, garantindo m enor custo de resposta e maior
probabilidade de reforçamento, inclusive no inído, servindo como reforçador
condicionado. Devereria-se, então, planejar a passagem do controle pelo tera
peuta para o controle pelos reforçadores intrínsecos.
Esse exemplo nos indica que não é porque o terapeuta sai do setting clínico
que as variáveis a serem manipuladas são aquelas naturalmente relacionadas ao
seu responder, na ausência do terapeuta. Mesmo no ambiente extraconsultório,
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o terapeuta deveria garantir a passagem do controle arbitrário para o controle
intrínseco, além de garantir o desenvolvimento de um repertório de autonomia
do diente em relação às ações do terapeuta.
Por fim, um diente pode não agir de acordo com as descrições verbais pro
duzidas no contexto terapêutico porque, se assim o fizesse, entraria em contato
com estimulações aversivas. Nesse caso é possível a existênda de diferentes gra
dações na aversividade da situação bem com o da combinação ou não com con-
seqüêndas reforçadoras, o que estabeleceria um conflito entre conseqüências.
Esgotar, nesse m om ento, todas as possibilidades de conflito comportamental
escapa dos objetivos deste capítulo. De qualquer modo, caberia ao terapeuta
analisàr m om ento a m om ento se sua atuação no ambiente natural seria funda
mental para a promoção de mudança. Por exemplo, o terapeuta poderia consi
derar pertinente acompanhar seu cliente na realização de um exame doloroso e
urgente, mas necessário ao cuidado de sua saúde, o que teria probabilidade bem
reduzida de se realizar sem essa ajuda; porém , pode considerar impertinente
sua presença na casa do d iente quando ele tem um conflito familiar a resolver.
Nesse caso, o terapeuta poderia intervir convidando os envolvidos no conflito
a participar de uma sessão conjunta no intuito de discutir os padrões compor-
tamentais dos que geram sofrimento.
Vale ressaltar que nem sempre o que se interpõe ao trabalho do terapeuta é
de natureza da insufidênda do verbal e / ou do setting de consultório. Ainda que
se prime por uma análise cuidadosa e pertinente das contingêndas em vigor na
vida dos clientes e que se atue diretamente sobre elas, em última instânda, no
ambiente natural haverá sempre um limite de alcance da terapia, naturalmente
colocado pela multideterminação do com portam ento humano.
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75
V .
-ff
C A P I T U L O 3
O ambiente natural como fonte de dados para
a avaliação inicial e a avaliação de resultados:
suplantando o relato verbal1
Denise de Lima Oliveira e Nicodemos Batista Borges
Quando o cliente chega até nós, vem em busca de autoconheci
íento ou, o que é mais comum, em busca de alívio de um sofrimento. Diante
dessas circunstâncias, nosso papel como terapeutas analítico-comportamen-
ís é descobrir juntam ente com o cliente as contingências desencadeantes
(avaliação funcional) de seu comportamento e, quando necessário, desenvol
ver estratégias para alterá-las de modo a minimizar o sofrimento proveniente
delas (Banaco, 1999).
Mas como se dá o processo terapêutico pelo qual poderemos ajudar nos
sos clientes? O processo terapêutico consiste de três etapas: avaliação inicial,
intervenção e avaliação dos resultados. Vejamos brevemente cada uma delas.
ETAPAS 0 0 PROCESSO TERAPÊUTICO
A avaliação inicial é antes de tudo um a avaliação funcional e se dá pela
formulação do caso em termos de relações funcionais entre os comportamen-
tos-problema apresentados pelo cliente e suas interações com as variáveis am
bientais; ou seja, na compreensão do comportamento-problema e dos eventos
1 O relato de caso apresentado no presente trabalho é derivado da dissertação de Denise de
Lima Oliveira, desenvolvida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experi
mental: Análise do Comportamento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
77
que fazem com que este comportamento se mantenha, causando sofrimento
para o cliente ou seus pares.
A segunda fase do processo terapêutico é a intervenção, o período em
que o terapeuta, ou o acom panhante terapêutico, prom ove alterações nas
relações entre com portam ento-problem a e variáveis m antenedoras. Essas
alterações podem vir tanto do cliente como do ambiente. Porém, em se tra
tando de terapia, em geral essa intervenção parece se dar pela m udança da
forma como o cliente responde às situações, conseqüentem ente alterando as
interações. O terapeuta tem, portanto, o papel de auxiliar seu cliente a respon
der de modo a produzir as conseqüências necessárias, sem que estas venham
acompanhadas de sofrimento, ou seja: seu papel é otimizar as relações entre
o cliente e seu ambiente, para que ele consiga ter um a vida com qualidade, na
qual ele tenha acesso a reforçadores e consiga dim inuirão máximo as relações
por controle aversivo.
Após o processo de intervenção cabe ao terapeuta avaliar os resultados
para que se possa planejar a alta do cliente. Esta etapa da terapia faz parte de
um a avaliação final (avaliação funcional), na qual se observa se as interações do
cliente com seu ambiente foram alteradas e se as novas relações estabelecidas
estão sendo benéficas para o cliente e para o ambiente, pois só assim elas pode
rão se manter.
Quando falamos em avaliação, inicial ou final, referimo-nos à avaliação
funcional e , como veremos, ela é a ferramenta essencial para um bom processo
terapêutico. Porém, antes de falarmos sobre a avaliação funcional é im por
tante destacar que, apesar da divisão didática das etapas do tratam ento aqui
apresentada, na prática essas divisões não existem. Um processo terapêutico
vconsiste em avaliações e intervenções constantes, desde seu início até seu fim.
Ao darmos início à avaliação funcional, já estamos alterando o com portam ento
de nosso cliente e, assim como ocorre quando interviemos sobre seu compor
tamento, devemos avaliar os efeitos produzidos pelas perguntas que fazemos
ao cliente ao longo da coleta de dados e pelas descrições que fazemos de seu
com portam ento ao sintetizarmos as informações coletadas,* em outras pala
vras, o processo terapêutico é feito de avaliações e intervenções contínuas,
portanto, a divisão aqui apresentada é puram ente didática.
78
Nosso objetivo neste capítulo é tratar da importância da observação em
ambiente natural na formulação da avaliação inicial e de resultados, porém,
antes disso, é necessário abordar brevemente o que se entende por avaliação
funcional.
A AVALIAÇÃO FUNCIONAL
De acordo com Meyer (1999; 2003), a avaliação funcional é o instrumen
to básico de trabalho do analista do comportamento, que possibilita a identi
ficação de contingências (relações estabelecidas entre organismo e ambiente
- Banaco, 1999), a predição e o controle do comportamento.
Na literatura encontra-se comumente o nome análise funcional como refe
rência à etapa inicial do tratamento (Keefe, Kopel & Gordon,1980; Meyer, 1999,
2003). Entretanto, segundo Carr, Langdon ôí Yaibrough (1999), análise funcional
envolve controle experimental e manipulação de variáveis, ou seja, é um pro
cedimento análogo à execução de um experimento, o que dificilmente ocorre
num a avaliação funcional em settingclínico. Na situação clínica, freqüentemen
te, utilizamos a entrevista - e em alguns casos a observação - e interpretamos os
dados coletados com base em conceitos desenvolvidos pela análise do compor
tamento. Visto que são interpretações das relações entre o organismo (resposta)
e o ambiente (estímulo), e não manipulações de variáveis, parece mais preciso e
adequado chamar esse procedimento de avaliação funcional, conforme sugerido
em trabalhos mais recentes (Carr, Langdon & Yarbrough, 1999; Meyer, 2003).
A avaliação funcionai pode ser dividida em etapas. Meyer (2003) propõe
a seguinte divisão:
a) identificação dos comportamentos de interesse (comportamentos-pro-
blema) - levantamento junto ao cliente dos comportamentos-problema
que ele apresenta. Esse levantamento deve ser feito em termos de ação,
evitando qualificá-las. Exemplo: "P. pegou a cadeira da sala de aula e
jogou-a em outro menino que estava sentado próximo a ele”. Devemos
evitar descrições do tipo "P. foi agressivo porque estava com raiva”;
b) identificação e descrição das características dos comportamentos de in
teresse (chamadas pela autora de efeitos comportamentais) - a duração,
a freqüência com que ocorrem e seus graus de intensidade;
79
c) identificação das relações entre eventos ambientais (estímulos) e os com-
portamentos-problema (respostas do cliente) - condições antecedentes
e conseqüentes relacionadas a cada comportamento-problema (respos
ta). Dc forma resumida, as condiçõesconseqüentes (conseqüências), são
eventos subseqüentes e contingentes a um a resposta. Já os eventos ante
cedentes são condições sob controle das quais a resposta ocorre.
Geralmente, o processo de avaliação funcional é feito através de,entrevis
tas. Segundo De Rose (1997), a entrevista é a fonte de dados mais amplamente
utilizada em psicologia e, durante sua condução, o olhar do psicólogo deverá
éstar voltado para as relações estabelecidas entre eventos ambientais e as ações
do organismo.
A realização da entrevista é fundamental para se estabelecer a relação com o
cliente, obter informações e influenciar e dirigir esforços para a mudança do com
portamento-problema (Keefe, Kopel & Gordon, 1980). Além disso, a entrevista é
uma importante fonte para a seleção das variáveis a serem observadas e manipu
ladas em uma análise funcional, pois ela propicia um primeiro levantamento de
comportamentos-problema a serem avaliados e permite identificar algumas de
suas prováveis variáveis de controle (Garr, Langdon & Yarbrough, 1999).
Entretanto, a entrevista pode se mostrar insuficiente como ferramenta para
formulação da avaliação funcional, já que o relato verbal está sujeito a limita
ções, que podem ser decorrentes de falhas no processo de atenção ou memória,
de problemas com relação à acessibilidade do falante aos estímulos relevantes
ou de distorções - deliberadas ou não - por parte do cliente (De Rose, 1997).
Nos casos em que a entrevista é insuficiente para a formulação da avalia
ção funcional, é recomendada a utilização da observação em ambiente natural,
ferramenta que pode suplem entar a entrevista na obtenção de dados para a
formulação da avaliação funcional.
OBSERVAÇÃO EM AMBIENTE NATURAL COMO FERRAMENTA PARA A FORMULAÇÃO
DA AVALIAÇÃO FUNCIONAL
A observação em ambiente natural pode suplantar a entrevista clínica na
obtenção de dados. Através dela é possível levantar dados relativamente mais
80
confiáveis sobre o comportamento de interesse. O registro dos eventos na or
dem em que eles acontecem pode impedir algumas das distorções que tipica
mente envolvem o levantamento de dados por meio de entrevista. As informa
ções produzidas a partir da observação, quando somadas àquelas previamente
obtidas numa entrevista, permitem a formulação de uma avaliação funcional
mais precisa, a qual proporcionará ao terapeuta uma maior clareza na escolha
da intervenção aser feita.
De acordo com Danna & Matos (1999), o uso da observação como forma
de coleta de informações aumenta a probabilidade de que o observador fique
sob influência do que acontece na realidade, ao invés de se pautar em suposi
ções, interpretações e preconceitos.
O m étodo de observação em ambiente natural consiste no registro de
eventos por amostragem ou na obtenção de exemplos diretos de ocorrência
dos comportamentos-problema.
Através da observação em ambiente natural é possível acessar diretamen
te os comportamentos-problema que são o foco da queixa do cliente, as carac
terísticas deste comportamento problema, e as relações entre os comporta
mentos-problema e as variáveis ambientais. Por essas razões, Carr, Langdon ÕC
Yarbrough (1999) elegem a observação como uma ferramenta complementar
importante para a elaboração da avaliação funcional.
O que ocorre tipicamente é que durante a entrevista são identificados os
comportamentos-problema e suas interações com o ambiente, para posterior
m ente serem definidas as estratégias das sessões de observação de maneira mais
sistemática2, permitindo a coleta de dados em relação aos comportamentos-
problema que serão utilizados na avaliação funcional.
De acordo com Danna 8C Matos (1999), a observação permite identifi
car as deficiências existentes, as variáveis que afetam o comportamento e os
recursos disponíveis no ambiente para que eventuais mudanças sejam imple
mentadas. Esses recursos facilitam a escolha das técnicas e dos procedimentos
2 Segundo Danna & Matos (1999), uma observação é chamada de sistemática por ser planejada
e conduzida de acordo com o objetivo anteriormente definido. De acordo com as autoras,
planejar as observações significa estabelecer onde, quando, quem, o que e como elas serão
conduzidas.
«1
mais adequados para atingir os objetivos pretendidos. Além disso, ressaltam
as autoras, a observação é im portante para avaliar a eficácia das técnicas e os
procedimentos adotados.
Se, por um lado, a observação em ambiente natural é eleita como ferramen
ta importante na formulação da avaliação funcional, por outro, ela traz consigo
um problema: seu custo. Uma observação em ambiente natural exige maior
disponibilidade de tempo do terapeuta (não só para a observação, que deve acon
tecer algumas vezes na semana, como também para o deslocamento até o local
no qual o cliente convive), o que é revertido em maiores custos para o cliente.
i Por se tratar de um procedimento muitas vezes essencial para um a ava
liação funcional eficiente, alguns recursos são utilizados de m odo a diminuir os
custos. Um dos recursos utilizados por equipes de saúde mental é o trabalho de
acompanhantes terapêuticos (AT), em geral realizado por estudantes de psicologia
ou psicólogos recém-formados. Como o AT é um profissional com maior dispo
nibilidade e cujos honorários tendem a ser mais acessíveis em função de sua me
nor experiência, sua inserção em uma equipe pode viabilizar a observação em
ambiente natural para uma gama maior de casos para os quais ela é necessária.
Hoje há cursos especializados para a formação desse profissional. A con
tratação de um AT que tenha feito cursos específicos aumenta a probabilidade
de um serviço de melhor qualidade. O utro fator que pode garantir o sucesso de
uma observação em ambiente natural é a boa relação entre o AT e o profissional
responsável pela condução do caso (psicólogos e psiquiatras), pois esse profissio
nal poderá orientar o AT sobre como as observações deverão ser conduzidas.
A observação em ambiente natural, em geral, interfere no com porta
m ento dos observados (cliente e seus pares), o que pode influenciar a qualida
de dos dados registrados. Entretanto, esse problema pode ser minimizado por
meio da extensão da duração da observação. Segundo Hart & Risley (1995),
para a obtenção de informações mais fidedignas, a observação deveria durar
no m ínim o um a hora, pois é mais difícil que as pessoas m antenham com
portam entos diferentes de seu responder em situação natural por um tem po
prolongado. Além disso, a observação deveria se iniciar depois de o observa
dor conversar com os observados (ropport), e esses se envolverem em suas
atividades cotidianas.
82
ICONDUZINDO A OBSERVAÇÃO
É importante que o registro dos dados obtidos por meio da observação seja
o mais completo e preciso possível, devendo refletir o que de feto ocorreu e re-
Ipresentar todas as instâncias do comportamento-problema ocorrido no período
de observação (Johnston & Pennypacker, 1993). Os dados registrados devem in
fluendar o comportamento do terapeuta e /o u do acompanhante terapêutico,
. Servindo como estímulos que levam o terapeuta e o AT a agirem enquanto o tra
balho progride. Esses estímulos modelam as decisões de intervenção anteriores
e influenciam as interpretações a serem desenvolvidas pela equipe.
Vale ressaltar que a exigência apresentada por Johnston & Pennypacker
(1993) de que a observação seja completa é inviável em um contexto de apli-
. cação clínica, pois para isso seria necessário que a observação fosse contínua,
ou seja, feita o tempo todo - o que dificilmente ocorrerá. As observações na-
J turais que fazemos são descontínuas, todavia, artifícios podem ser utilizados
,, para sanar (pelo menos em boa parte) esse problema. As observações podem
■ ser divididas em períodos que garantam a representatividade dos comporta-
mentos-problema. Por exemplo, observações em períodos diferentes do dia
poderiam possibilitar maior representatividade desse comportamento.A estratégia de observação e o registro do comportamento do cliente de-
v vem ser definidos anteriormente entre o AT e o profissional responsável pelo
caso, que juntos tomarão a decisão de como conduzi-los baseando-se nas infor
mações levantadas na entrevista e, em alguns casos, numa revisão bibliográfica
sobre o assunto. Com base nesses achados, os profissionais delimitarão quais
informações sobre o comportamento-problema podem ser importantes e o
| que deve ser observado e registrado.
Um relato de observação precisa ser objetivo. Para tanto o observador
deve evitar:
a) termos que designem estados subjetivos: o observador deve descrever
aquilo que observou;
b) atribuição de intenções ao sujeito: ao invés de interpretar o observador
deve descrever as ações;
83
c) atribuição de finalidades à ação observada: o observador deve descre
ver o comportamento e as circunstâncias em que ela ocorre (Danna &
Matos, 1999).
Vejamos dois exemplos de relato;
Exemplo 1 - correto
João pega o controle da m ão do pai e m uda de canal, o pai pega o con
trole da m ão de João e coloca no canal anterior. João pega o controle, desliga
a televisão e sai correndo com ele para o quarto. Seu pai vai atrás e começa a
'conversar, diz em tom de voz mais alta do que as anteriorm ente observadas:
“papai não gosta que você faça isso, isso é feio e deixa o papai m uito triste,
dessa maneira o papai não vai gostar mais de você”. O pai pega o controle e
volta para a sala.
Exemplo 2 - incorreto
João, por sentir-se sozinho e querendo atenção, pega o controle da mão
do pai e muda de canal. O pai bravo pega o controle e coloca no canal anterior.
João, querendo brincar, pega o controle e corre para o quarto. O pai não agüen
ta mais o mau comportamento dejoão, briga com ele, pega o controle e volta
para a sala.
Note que no prim eiro exemplo há um a descrição das ações na ordem de
seu acontecimento; é um a observação mais "pura", pois relata com o os fatos
aconteceram, sem atribuir a eles intenção, finalidade, qualificações ou esta
dos subjetivos. N o segundo exemplo, o observador comete dois erros: supõe
as intenções que levaram às ações ("querendo atenção”) e faz julgam entos
ou registros não-descritivos (o pai “briga com ele”). O registro dos com porta
mentos observados deve ser feito de form a clara e precisa, registrando-se as
ações e evitando term os amplos, indefinidos ou vagos e expressões ambíguas.
Só depois de se observar o registro jun tam ente com o profissional respon
sável pelo caso é que serão form uladas hipóteses funcionais a respeito das
situações registradas.
84
Para uma observação ser objetiva, clara e precisa, o observador deve uti-
jtlizar verbos que descrevam a ação observada e termos que identifiquem os
H objetos ou pessoas presentes e referenciais físicos (Danna ôí Matos, 1999).
Outra decisão a ser tomada, antes de iniciar as observações, é se o registro
| |$ a s observações será feito de forma cursiva ou por categorias. O registro cur-
ilfivo consiste em anotar as observações exatamente como elas acontecem e na
|ójrdem que acontecem, de forma seqüencial, sem preocupação com categorias
||>ü funções das respostas. O primeiro exemplo descrito anteriormente caracte
r iz a um registro cursivo (outro exemplo pode ser observado no Anexo I).
No registro por categorias, o observador registrará comportamentos es
pecíficos, já anteriormente definidos (geralmente nas primeiras sessões de ob-
lliervação). Dessa forma, antes de começar a observar e registrar, o observador
Hprecisará agrupar esses comportamentos em categorias que devem ser m utua
lm e n te exclusivas (um comportamento só pode se enquadrar em uma das cate-
)rias); após essa definição, o observador registrará a ocorrência de respostas
^ de cada categoria no tempo determinado, sem precisar descrevê-las.
Independentemente da escolha pelo registro cursivo ou por categorias,
|f aconselha-se levar folhas de registro (protocolo de observação) para garantir
! uma observação mais producente. Especificamente para o registro por catego-
I rias, o observador deve levar uma folha de registro com as categorias já definidas
; anteriormente e com a forma e o tempo de registro das categorias já estabele
cidos. Esse registro pode ser realizado de diferentes maneiras, dependendo do
objetivo da observação.
Na Figura 1 apresentamos um exemplo de folha de registro, na qual é pri
vilegiada a freqüência de emissão de cada com portamentoalvo3 (categoria) no
tempo para observação de alguns comportamentos de uma criança ao interagir
com um familiar.
’ O termo "comportamento alvo" está sendo utilizado aqui em detrimento do termo “cora-
portamento-problema”, pois numa observação muitas vezes podemos querer registrar não só
comportamentos-problema como comportamentos adequados.
85
Ohsprvarãn n°- _
nata- Período.-
nhw varia (0-
C nntpxtrt-
Categoria
Período (minutos)
0-5 6-10 11-15 16-20 21-25 26-30 31-40 4V45 46-50
Nomear
Descrever
Perguntar
Repetir
Observarnpsr
FIGURA 1 - Modelo de folha de registro utilizada em coleta de dados tom observação sistemática através do registro
de categorias, privilegiando a freqüência óos romportamentos-problema.
Uma outra forma de registro pode ser desenvolvida quando o objetivo,
além de registrar freqüência, é obter informações sobre a seqüência com que
esses comportamentos-alvo (categoria) ocorrem. Conforme pode ser observa
do na Figura 2.
Para efetuar um registro de categorias adequado, o observador (terapeuta
ou acompanhante terapêutico) deve ter claro o objetivo do trabalho, pois ele
norteará a decisão do tipo de registro escolhido.
Outra variável importante para garantir uma boa observação é a familiari
zação com as categorias registradas e com a folha de registro. Para garantir que
essa variável não intervenha na observação, aconselha-se que treinos-piloto
sejam feitos ames da observação, pois assim será menor a probabilidade de
ocorrência de problemas no andamento da observação.
Um outro método utilizado para garantir ou pelo menos para minimizar
os problemas de interpretação de categorias é o teste de concordância entre
observadores. Esse método consiste na utilização de dois observadores no am
biente natural, cada um fazendo seu registro de forma independente do outro,
c o m posterior comparação entre os registros. Esse procedimento nem sempre
é possível num processo terapêutico, devido principalmente ao seu custo.
n lK P rv a rã o n°-
IMa- Pprinrto:
ppe realizada tanto para a elaboração da avaliação inicial como para
a avaliação de resultados.
CASO CLÍNICO
Um menino de cinco anos foi encaminhado para atendimento clínico por
que "não falava” - na realidade apresentava baixa freqüência de emissão de
respostas verbais mantinha pouca interação com seus pares e baixo desem
penho escolar. Além disso, apresentava comportamentos considerados "inade
quados”, tais como: bater a cabeça, gritar e jogar-se ao chão.
A família desse menino era composta por quatro membros - pai, mãe e
dois filhos - com perfil, segundo estudo socioeconômico, de classe baixa supe
rior. A mãe era uma comerciante de 44 anos, que trabalhava no período vesper
tino e ficava em casa nos demais períodos para cuidar dos filhos. O pai, com 39
anos, era técnico cm informática, trabalhava em período integral e ficava em
casa no período noturno e finais de semana, apresentando pouca disponibilida
de para brincar com os filhos. O irmão, um menino de 10 anos, freqüentava a 2a
série do çnsino fundamental, apresentava repertório verbal adequado para sua
idade e bom-desempenho escolar. E3e brincava e assistia filmes com o irmão
mais novo, sempre cedendo aos seus pedidos.
Após entrevista com a mãe, foi possível levantar a hipótese de que a baixa
freqüência na emissãode verbalizações do menino era decorrente das interações
estabelecidas entre a criança e seu núcleo familiar, ou seja, função das contin
gências de reforçamento existentes naquela família, tais como rcforçamento de
mandos, "inadequados”, extinção de respostas verbais vocais e baixa freqüência
de verbalizações em direção à criança desde a mais tenra idade.
Percebeu-se que, apenas com entrevistas e orientações dentro do set-
ting terapêutico, não seria possível distinguir quais seriam as interações res
ponsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais vocais. O
levantamento de hipóteses mais precisas a esse respeito seria fundamental
para que, posteriormente, fossem propostas para a família intervenções di
retas no ambiente natural. Além disso, ficava extremamente difícil mensu
rar, com precisão, a freqüência de verbalizações da criança, tanto no início
do trabalho, quando ela chegou ao consultório, quanto durante e após algu
mas intervenções.
Baseado no exposto acima, (Oliveira, 2005) foi proposto à família aten
dimento domiciliar (ambiente natural), com o objetivo de observar as intera
ções familiares. Tinha-se como objetivo identificar algumas das contingências
responsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais e pela alta
freqüência de comportamentos inadequados (que haviam sido relatados na
avaliação inicial com a mãe). A partir da entrevista e das observações, preten
dia-se desenvolver procedimentos de intervenção por meio de orientação aos
pais. Após o período de intervenção, ao longo do qual foram realizadas obser
vações constantes, pretendia-se avaliar se as mudanças nas interações entre os
familiares haviam provocado mudanças na freqüência de emissão de repostas
verbais da criança (avaliação de resultados).
AVALIAÇÃO INICIAL
Para a realização de uma avaliação inicial mais precisa, clara e objetiva,
foram feitas observações com todos os membros da família presentes. Na pri
meira observação, estavam presentes a mãe e a criança.
Cada observação teve duração de uma hora (tempo mínimo recomenda
do) de modo a garantir que os membros da família estivessem engajados em
suas atividades cotidianas. A observação iniciava-se depois que os familiares
conversassem com a pesquisadora e se envolvessem em suas atividades. Além
disso, as observações ocorreram sempre no mesmo período do dia, para que se
tomassem parte da rotina da família.
A forma de registro das interações foi definida com base nos objetivos da
observação. Como a meta era coletar informações sobre as interações fami
liares (principalmente as verbais), identificando contingências que pudessem
diminuir a freqüência de emissão de respostas verbais e aumentar a freqüência
de comportamentos inadequados, foram utilizadas duas formas de registro. A
observadora (terapeuta) gravou todas as verbalizações da criança e de quem
estivesse na residência e anotou em folhas de registro (Anexo II) o que a criança
estava fazendo» o material com o qual estava em contato, quem estava presen
te no ambiente e as interações dessas pessoas com a criança. Nesses registros
foram escritos trechos do diálogo para identificar os eventos no momento da
transcrição.
Como o foco principal eram as interações verbais, a gravação delas foi
fundamental, pois permitiu o levantamento ponto a ponto das verbalizações
da criança e de seus familiares, o que seria quase impossível de se obter sem a
utilização desse recurso. No entanto, apenas o registro das verbalizaçõespode-
ria deixar a observação incompleta, pois muitas verbalizações ficariam descon-
textualizadas no momento da transcrição; por isso a importância das folhas de
registro para anotar os episódios de apresentação das interações, assim como
suas consequências, contextos, duração etc. As folhas de registro no inicio das
observações eram divididas em intervalos de cinco minutos.
AVALIAÇÃO FUNCIONAL INICIAL
A coleta de informações em ambiente natural foi fundamental para a iden
tificação de contingências de reforçamento que determinavam a baixa freqüên
cia de respostas verbais da criança. Deforma concreta, foipossível quantificar e
mensurar essas verbalizações, escapando assim das conotações subjetivas que
podem estar implícitas no relato verbal, como por exemplo o significado de
"muito” ou-pouco" para cada pessoa. Para tanto as observações foram trans
critas e digitadas.
Após transcrição e digitação das observações foram feitas análises quanti'
tativa e qualitativa das verbalizações emitidas pela criança e pelos outros mem
bros da família. Foi utilizado um programa de computador - criado para o
trabalho - que permitiu comparar a quantidade de palavras emitidas por cada
membro da família, por hora de observação. Além disso, o programa catego
rizava as palavras de cada membro da família em substantivo, adjetivo, verbo,
advérbio e outros, para comparação no decorrer das observações e entre os
familiares.
Foi feita também a divisão e quantificação das verbalizações emitidas peia
família em sentenças (frases), que depois foram classificadas em categorias para
análise da função. Essas categorias foram: nomear, descrever, perguntar, re
petir, ordenar, elogiar, responder, chamar, insistir, ecoar, esquivar, interferir,
desprezar, verbalizações mínimas e outras.
A partir da avaliação dos dados coletados foi possível verificar que a crian
ça passava um longo período sozinha assistindo T V , sem que houvesse qual
quer interação com algum membro da família. Numa das observações a criança
ficou os 60 minutos da observação di ante d a TV, um período com a mãe e outro
sozinha. E quando sozinha diante da TV a criança repetia falas dos filmes, sem
produzir qualquer conseqüência social.
Foi possível observar que a criança chorava e gritava e que tais comporta
mentos eram seguidos por conseqüências reforçadoras imediatas dispensadas
pelos pais-os pais faziam o que a criança queria, impedindo que outras respos
tas tidas como "adequadas” ocorressem. A criança, de fato, não precisava falar
para obter o desejado (as conseqüências). Além disso, observou-se que o pai
mantinha poucas interações com o filho, supostamente para se esquivar dessas
respostas “inadequadas” da criança.
Os pais mostravam-se desatentos às falas do filho, permanecendo em
silêncio ou em interação com outra pessoa, o que provavelmente levava à ex
tinção das verbalizações "adequadas” da criança. Além de não responderem
às falas da criança em tom “adequado”, muitas vezes os pais respondiam ape
nas após insistência, quando a criança já estava gritando, o que caracterizava
um reforçamento diferencial de verbalizações em tom ele vado e de respostas
üidesejadas. ATabela 1 mostra um exemplo desse tipo de interação.
TABELA 1 - Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 14.12.2004. A primeira
linha indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Na cozinha, mãe fazendo comida C. grita
da sala
c. Mãe. 0h, mãe
(grifando).
Vem logo
mamãe,
vem Ioga
(gritando).
já, isso ai
(gritando).
Mae
(gritando).
Mamãe
(gritando).
Eunao
consigo, eu
não consigo
(gritando).
M, Pera aí,
deixa a
mãe fazer
a salada.
Péra aí.
Outra questão importante que foi observada refere-se ao excesso de verbali
zações da mãe, o que restringia quantidade de verbalizações da criança e do pai. A
mãe emitia muitas verbalizações em seqüência, sem “dar tempo" para a criança
responder. Além disso, conseqüenciava com elogios e carinho quando a criança
se esquivava de responder. A Tabela 2 mostra um exemplo dessas interações.
TABELA 2 - Interação entre a mãe e a criança, retiraria do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha
indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Criança olhando o gravador Mãe apontando para a TV
c. 0 que você está 0 que você está É roda roda? Olha o chapéu do Wood, C.
vendo aí, heín?. vendo aí, C.?
M.
INTERVENÇÃO
A partir da avaliação funcional, com base nas hipóteses levantadas, foram
definidos nove procedimentos de intervenção que deveriam ser realizados pe~
los pais, sob orientação da terapeuta. Esses procedimentos foram ensinados
através de orientação verbal. O principal objetivo era aumentar a freqüência
de verbalizações e interações da criança com seus familiares e a diminuição
92
dos comportamentos indesejados. De forma geral, as orientações consistiam
em: reforçamento diferencial de comportamentos alternativos e extinção de
mandos inadequados; ensino de nomeação; reforçamento de mandos vocais4;
alteração na freqüência de assistir TV ou jogar videogame; não-punição de res
postas inadequadas; não-punição de emissões de respostas verbais; alternativa
para colocação de regras e limites; conseqüenciação de emissão de comporta
mento verbal; e aumento das verbalizações.
Durante todo esse período, foram feitas sessões semanais de observa
ção que serviam para verificar a aplicação das intervenções pelos pais. Essas
observações seguiram o mesmo critério das anteriores (período de avaliação
inicial), mudando apenas o intervalo da folha de registro de cinco para um mi-
nu to5. No entanto essas observações não foram transcritas. Elas serviram para
uma intervenção pontual da terapeuta, logo após a observação, sobre algum
procedimento adotado pelos familiares. Eram destacados alguns episódios do
período de observação que exemplificassem a possibilidade de intervenção e
as mudanças já observadas, conseqiienciando com elogios os procedimentos
corretos e corrigindo os que tivessem algum erro de aplicação.
AVALIAÇÃO DE RESULTADOS
Para a avaliação de resultados foram feitas duas observações: uma com
todos os membros da família e outra com a mãe e a criança. Seguindo os mes
mos critérios do período de avaliação inicial, as observações tiveram duração
de uma hora e foram feitas no mesmo horário do dia.
O objetivo da avaliação de resultados era verificar se as intervenções rea
lizadas produziriam alterações na quantidade e qualidade da fala da criança,
realizando comparação entre o período inicial e final das intervenções. Dessa
forma, foi seguido o mesmo formato de registro das interações, mantendo a
alteração realizada durante o período de intervenção (folha de registro com
intervalo dc um minuto).
4 O capítulo 4 deste livro, de autoria de Denis Zamignani e Yara Nico, apresenta uma discussão
aprofundada sobre a importância do mando na comunicação funcional.
Essa mudança ocorreu, pois foi verificado que cinco minutos era um tempo muito iongo que
algumas vezes dificultava a conre.xuialização da fala.
Após as observações, os registros foram transcritos e passaram pelo
mesmo processo de avaliação realizado na avaliação inicial, pois isso per
mitiu a comparação dos dados entre os dois períodos.
AVALIAÇÃO FUNCIONAL PÓS-1NTERVENÇQES
Apartirdos dados coletados, foi possível verificar, de forma concreta e mais
precisa, as alterações no comportamento da criança e de seus familiares, compa
rando com os comportamentos emitidos durante o período de avaliação inicial.
Para essa análise comparativa, os dados foram agrupados em diversos grá
ficos, permitindo uma visualização rápida das alterações não só na quantidade
de. verbalizações emitidas por todos, como no tipo dessas verbalizações (ver
exemplos no Anexo III).
Foi possível observar mudanças nos comportamentos dos pais (interven
ção) que produziram alterações nos comportamentos da criança. Como exem
plo, podemos citar o aumento na conseqüenciação de mandos vocais (pedidos)
emitidos pela criança. A Tabela 3 mostra um episódio em que o pai está em
interação com a criança.
TABELA 3 - Interação entre pai e criança, retirada do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha
indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Pai e irmão sentados no sofá e criança em pé em trente à TV
C. 0 quê? Não. Nào,
papai,
quero
colo.
É,
papai.
M. E aí,
fílho,
como é
que é?
Senta Senta
aqui, ó, aqui, ó.
senta com
o papai.
Você quer
colo?
(Pega
criança
no colo)
É importante ressaltar que, além das intervenções terem produzido mudan
ças em comportamentos específicos da criança, tais como aumento de pedidos,
descrição de eventos e nomeação, houve a instalação de novos repertórios, tais
como a emissão de elogios por parte da criança supostamente em decorrência da
emissão de elogios pelos familiares (como pode ser observado nas Tabelas 4 e 5).
94
TABELA 4 intesação entre a mãe e a criança, retirada do legistro de observação do dia 3.6.2005.
Contexto Mãe e criança na cozinha, criança vai para a lavanderia e mãe vai em seguida
C. Mãe, fez cocô Olha.
[referindo-se ao
cachorro ter feito cocõ
no lugar certo].
M. Deixa eu ver. Ah, fez mesmo. Fez no lugar
certo. Parabéns, Butch. Fez
cocô no lugar certo, muito
bem! Tá de parabéns.
TABELA 5 - Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 3.6.2005.
Contexto M ãe e criança na lavanderia
c. Butch, tá de parabéns! Muito bem !
M. É, está de parabéns!
CONCLUSÃO
Como pode-se perceber, a observação enquanto estratégia para a obten
ção de dados permitiu uma intervenção baseada em informações bastante pre
cisas sobre as relações familiares que produziam e mantinham o comportamen
to problema em questão.
A intervenção em ambiente natural pôde ser feita de maneira segura e
eficaz a partir da observação durante todo o proccsso, permitindo dessa forma
a avaliação de cada etapa desenvolvida ao longo do processo terapêutico. O en
volvimento de pessoas significativas no arranjo das contingências responsáveis
pela manutenção do problema pareceu ser de fundamental importância para o
sucesso terapêutico, deixando demonstrada a eficácia da utilização dc pessoas
especialmente treinadas para a obtenção das mudanças desejadas.
ANEXO I
Lopez (2006), com o objetivo de caracterizar as práticas educativas de
professores da 5a série do Ensino Fundamental, além de aplicar questionários e
. fazer entrevistas com os professores, realizou observações em situações infor-
'•rnais (não-estruturadas) e formais (estruturadas). Segundo a autora, as obser
95
vações foram realizadas cm diferentes circunstâncias dentro da escola, e foram
identificados comportamentos e interações entre os membros da comunidade
escolar. Foram realizadas sessões de observações formais em quatro reuniões
pedagógicas,uma reunião de pais e 56 observações formais (estruturadas) nas
salas de aula, com o objetivo de identificar aspectos inerentes à prática educati
va de professores de 5* série. Todas as observações foram registradas de forma
cursiva e, em seguida, categorizadas para análise.
A seguir, um trecho do registro cursivo ocorrido em sala de aula.
Contexto: aula da professora de Ciências na 5a série B, logo após o
intervalo (das 13h25 às 14h50). Estavam presentes 23 alunos, sendo 12
meninas e 11 meninos. As carteiras, em sua maioria, estavam dispostas
em duplas.
Descrição: P entra na sala6, coloca material (livros, diários, cadernos
etc.) sobre a mesa e cumprimenta As: Bom-dia! / Asl mexem em material
e dizem; Bom-dia! As2 mexem em material e con versam em voz baixa. As3
falam em voz alta sobre alteração de lugares determinada por P na aula an
terior. / P fecha a porta, apaga a lousa e escreve a data. / Aslc As2 mexem
em material e conversam em voz baixa. As3 falam alto sobre mudança de
lugares. / P para As3; Nós vamos ficar duas aulas resolvendo problemas
dos outros? / Asl conversam em voz baixa. As2 ficam em silêncio. / P
diz: Psiu! O problema dos outros não nos diz respeito, vainos para a aula.
/ As permanecem em silêncio. / P em pé, próxima à lousa, diz: Na aula
passada (...) ainda nem começamos a corrigir os exercícios, então vamos
começar. / Al, sentado próximo à mesa deP, pergunta: Quer queeupegue
os livros, professora? / P faz sinal afirmativo com a cabeça. / A l sai da sala
e volta após alguns minutos com caixa de papelão cheia de livros didáticos
referentes à disciplina. / P pega um dos livros, abre na página X, divide a
lousa em 10 partes, sendo 5 espaços na parte superior e 5 na parte inferior,
enumera-os e começa a corrigir as questões sobre conteúdo trabalhado
em aula anterior (...) (Lopez, 2006, p. 49)
6 No registro cursivo, a letra "P” indica professor e "A(s)” indica aluno(s). As barras separam
as ações do docente e dos alunos.
96
FO
LH
A
DE
OB
SE
RV
AÇ
ÃO
ANEXO 111 - Exemplos de gráficos desenvolvidos para a visualização das mudanças
da cliente
£ 4001
13.12.2004 14.12.2004 14.2.2005 3.6.2005 10.6.2005
■ M ãe
■ Pai
FIGURA 3 - Quantidade de frases emitidas em difeção à criança por cada membro da família, nos dias
13.12.2004,14.12.2004,14.2.2005, 3.6.2005 e 10.6.2005. Nos dias 14.12.2004 e 3.6.2005, apenas a
mãe e a criança estavam presentes. A seta contínua indica a orientação para os pais aumentarem a
quantidade de verbalizações emitidas. A seta tracejada indica a orientação para que a mãe deixasse
o pai e a criança mais tempo sozinhos. A seta pontilhada indica a orientação para que o pai emitisse
elogios à criança.
FIGURA 4 - Quantidade de frases emitidas pela criança, nos dias 13.12.2004,14.12.2004,14.2.2005,
3.6.2005 e 10.6.2005. Nos dias 14.12.2004 e 3.6.2005, apenas a mãe e a aiança estavam presentes.
A seta tracejada indica o aumento das verbalizações da mãe e a seta contínua indica o aumento das
verbalizações do pai.
99
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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo-SP. 3
100a
ressocialização (diminuindo a distância entre o cliente e o m undo no qual está
inserido).
Não foram encontrados artigos em revistas científicas da área, o que pode
indicar que os trabalhos publicados atualm ente tenham como foco relatos de
experiências clínicas e não resultados de pesquisa.
Outra fonte de busca da trajetória do AT comportamental foram os Anais
dos Encontros da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental
(abpmc), já que esse é o evento mais representativo da produção científica
brasileira de analistas do com portam ento. O trabalho de Zamignani (1996)
inaugura a apresentação sobre o tema neste evento. Em seguida, Zamignani
e t al. (1997) e G uerrelhas (1997) discutem o tem a e, a partir dessas apre
sentações, alguns grupos de analistas do com portam ento de São Paulo
(Grupo Perspectiva) e Belo Horizonte (NAC - Núcleo de Análise do Com-
36
portam ento) começam a prática e divulgação do trabalho do AT na abordagem
comportamental (Carvalho, 2002).
No Encontro de 1997 da ABPMC, o tema era apresentado como uma práti
ca que se iniciava e que, portanto, necessitava ser avaliada. Sua origem também
parecia estar relacionada a uma demanda profissional de grupos de analistas do
comportamento, comprometidos com a oferta de trabalho para o atendimen
to de casos psiquiátricos, que pretendiam sistematizar sua atuação, conforme
pode ser observado no trecho da apresentação de Zamignani (1997), na época
afiliado ao Núcleo Perspectiva:
O Perspectiva, Núcleo de Estudos em Análise do Comportamento,
tem como proposta tom ar disponível o conhecimento produzido em
análise do comportamento bem como prestar serviços em terapia com
portamental e acompanhamento terapêutico, O núcleo teve como mola
propulsora de sua criação a demanda crescente do trabalho de acompa
nham ento terapêutico e a falta de subsídios para a sua prática. Alguns
membros desse grupo que vinham prestando serviços neste campo, se
depararam com a escassez de conhecimento sistematizado sobre o tema
em questão. Os poucos livros e cursos encontrados tinham como fun
damentação outras abordagens que não o behaviorismo radical. Surgiu
então a idéia de sistematizar o conhecimento já adquirido com a nossa
experiência e desenvolver novos estudos. Nossos objetivos são aperfei
çoar nossa prática assim como colocar este conhecimento a serviço da
formação de novos profissionais. O que falaremos aqui é resultado do
m odo particular com que este grupo vem estudando e trabalhando o
tem a em questão e que portanto, é um trabalho que está sendo constru
ído e não tem pretensão de se colocarcomo definitivo. Nossa equipe tem
trabalhado fundamentalmente com casos de transtornos psiquiátricos,
embora tenhamos conhecimento de outras demandas para as quais o AT
é. requisitado, como por exemplo, o treinamento de pais, acompanha
m ento de pacientes demenciados, atendimento de deficientes mentais,
entre outros. (Zamignani et al., 1997)
37
Desde então, em todos os Encontros da ARPMC diversos trabalhos, como
apresentações, cursos, palestras e simpósios têm como temática o acompanha
mento terapêutico. Ao longo desses anos, a definição do term o AT foi sofrendo
mudanças. O mesmo grupo que utilizava o term o AT por conta prioritariamen
te do trabalho no ambiente extraconsultório do cliente mudava um pòuco seu
discurso:
Deixamos de denominar o nosso trabalho de acom panham ento
terapêutico. Somos psicólogos que, quando necessário, trabalhamos no
ambiente natural do cliente. Isto, à primeira vista, parece apenas um a
mudança de nomenclatura, mas reflete um posicionamento diferente
frente à [sic] nossa atuação. Consideramos que esta modalidade de atua
ção é mais coerente com os princípios da análise do comportamento. Ir
ao ambiente é uma decorrência natural da postura behaviorista radical,
segundo a qual, o comportamento déve ser explicado e alterado a partir
de sua interação com o ambiente. (Kovac e t ah, 1998)
Após um ano de trabalho o grupo deixou de denominar seus membros como
ATs, que passaram a ser caracterizados como psicólogos que trabalham no ambiente.
Conforme discutido, essa mudança ocorreu devido ao próprio desenvolvimento
profissional e aumento da experiência dos profissionais do grupo que, de ATs,
tomaram-se terapeutas comportamentais. Portanto, o que define o AT não é o
local de trabalho e sim a função profissional, dentro de uma equipe de trabalho,
de quem exerce a atividade. Apesar de praticamente não haver AT que não traba
lhe no ambiente, também não há AT que não esteja subordinado a um terapeuta
comportamental ou a uma equipe de profissionais responsável pelo caso.
0 surgimento do acompanhante terapêutico no cenário geral da psicologia
A missão do acompanhante terapêutico encontra sua origem numa
concepção psiquiátrica dinâmica oposta à prática clássica que confina o en
fermo mental com o rótulo de louco, afastando-o de sua família e da comu
nidade. O acompanhante terapêutico, como agente da saúde, se inscreve
38
na corrente que busca restituir a possibilidade de diálogo com o irracional.
(Mauer ôC Resnizky, 1987, p. 27)
A partir da década de 1960, as áreas responsáveis pela saúde mental (psi
cologia, psiquiatria) começaram a discutir os modelos de compreensão e de
assistência disponíveis naquele momento. Foram inicialmente questionados o
modelo biológico de doença mental e a função dos hospitais psiquiátricos, que
se restringia unicamente ao confinamento de doentes. Surge então na Europa
e Estados Unidos o movimento antimanicomial, com o objetivo principal de
desospitalização, desinstitucionalização e reinserção social e que aos poucos foi
se difundindo pelo mundo. Os principais expoentes desse movimento foram
Lainge Cooperna Inglaterra, Basagliana Itália, Oury na França e Szazs nos RUA
(Barreto, 1997; Mauer õí Resnizky, 1987; A Casa, 1991; Pitiá & Santos, 2005).
No final da década de 1960 e início de 1970 essas idéias chegaram à América
Latina, especialmente à Argentina, que criou a nomenclatura acompanhamento
terapêutico. Foram necessários vinte anos de prática para o surgimento de uma
publicação que registrasse as características dessa intervenção:
O primeiro livro de que se tem referência sobre o assunto data do
ano de 1987 e foi escrito por duas psicólogas argentinas. Susana Kuras
de M auer e Silvia Resnizky cscrcvcram Acompanhamento terapêutico e
pacientes psicóticos: manual introdutório a uma estratégia clinica. (Pitiá &
Santos, 2005, p. 67)
Para que a reinserção social pudesse ocorrer, era preciso a criação de um
novo contexto e de um novo profissional. Surgem as comunidades terapêuticas
como alternativa ao isolamento dos hospitais psiquiátricos. “Nessas comuni
dades, os pacientes com diagnóstico psiquiátrico eram atendidos em regime de
internação ou de hospital-dia, dentro de uma proposta de atendimento indivi
dualizado” (Zamignani ÔC Wielenska, 1999, p. 157). Os agentes de saúde men
tal precisaram ser treinados rapidamente para suprir a demanda desse novo
contexto e passaram a ser denominados auxiliares psiquiátricos ou atendentes
terapêuticos e, posteriormente, amigo qualificado e acompanhante terapêutico.
39
De acordo com Pitiá & Santos (2005), o Brasil sofreu influências de todo esse
processo. Os auxiliares psiquiátricos com puseram as equipes das comunida
des terapêuticas em Porto Alegre (Clínica Vila Pinheiros) e no Rio de Janeiro
(Clínica Pinei). No final da década de 1970, questões sociais e políticas decor
rentes do regime militar ocasionaram o fechamento das comunidades terapêu
ticas. Entretanto, os auxiliares psiquiátricos continuaram a ser solicitados por
terapeutas e familiares como alternativa à internação. Segundo Pitiá & Santos
(2005), duas publicações da década de 1990foram o marco da produção biblio
gráfica sobre o assunto: A rua como espaço clinico: acompanhamento terapêutico
(1991) e Crise e cidade: acompanhamento terapêutico (1997), ambos de autoria da
Equipe de AcompanhantesTerapêuticos do Hospital-Dia A Casa.
Ao longo dessa trajetória, o papel do acompanhante terapêutico foi sendo
definido e atualmente mantem algumas características, independentemente da
abordagem que embasa sua prática: o atendim ento é geralmente destinado a
pacientes psiquiátricos; a função é exercida por auxiliares (estudantes e recém-
formados); o trabalho c predominantemente externo, no ambiente cotidiano
do paciente; os artigos sempre apontam a necessidade de formação e constante
supervisão; e o atendimento se dá em caráter intensivo,
0 desenvolvimento da modificação de comportamento:
um cenário propício para o trabalho do AT
A origem do trabalho do AT coincide com m omentos importantes da his
tória da análise aplicada do comportamento. No decorrer das décadas de 1960
e 1970, ou seja, na mesma época do ápice dos movimentos antimanicomiais,
também se fortalecia a prática clínica denominada modificação de comportamento,
Essa intervenção consistia na aplicação de técnicas e procedimentos provenien
tes da análise experimental do comportamento e teorias de aprendizagem na
resolução de problemas humanos ligados a saúde mental. O objetivo inicia!
da modificação de comportamento era trabalhar na eliminação de comporta
mentos indesejáveis e no rearranjo de contingências para a produção de con
dutas convenientes (Ayllon & Wright, 1972). A atuação dos modificadores de
comportamento era geralmente focalizada em comportamentos observáveis
de pacientes institucionalizados e suas técnicas eram aplicadas por profissionais,
40
familiares, professores denominados na época de paraprofissionais. Uma das
principais técnicas criadas pelos modificadores é a Economia de Fichas, criada
por Ayllon ãC Azrin (1968). Sua aplicação era realizada em instituições psiquiá
tricas, prisionais, escolares c familiares e consistia basicamente no fornecimento
de reforçadores artificiais (fichas, moedas etc.), apresentados após a emissão de
respostas adequadas. Esses reforçadores eram trocados ao final do processo por
algo importante para o indivíduo, com o intuito de assegurar a manutenção do
comportamento adquirido.
A análise experimental do comportamento produziu uma tecnologia. Era
então necessário treinar pessoas para aplicá-la. O movimento antimanicomial e
a modificação de comportamento abriam caminho para o trabalho de indivíduos
sem graduação ou especialização. Essas pessoas, na época demoninadas parapro
fissionais, representavam a alternativa para a grande demanda de trabalho com
portadores de problemas mentais ou emocionais, e eram treinadas por psicólo
gos, psiquiatras e pesquisadores. Vem daí o caráter auxiliar do AT, ou seja, a divi
são de trabalho na qual a função do AT é subordinada à de um outro profissional
tem origem na história do AT c da modificação de comportamento.
De acordo com os objetivos da análise aplicada do comportamento, con
forme difundido por seus criadores, Baer, Wolf & Risley (1968), a modificação
de comportamento sc utilizava de um modelo de laboratório em um contexto
clínico e aliava a produção de conhecimento e desenvolvimento de uma tec
nologia comportamental à prestação de serviços, no trato de problemas so
cialmente relevantes. Qualquer intervenção que se denominasse como análise
aplicada do comportamento deveria ser: aplicada; comportamental; analítica;
tecnológica; conceitualmente sistemática; efetiva; e generalizável. Ou seja, para
serem considerados aplicadores da análise do comportamento, os modificado
res precisariam: investigar problemas humanos cuja solução era caracterizada
pela sociedade como relevante e necessária; demonstrar que o comportamento
que necessitava de mudança deveria poder ser mensurado através de medidas
fidedignas; demonstrar explicitamente as relações funcionais entre as variáveis
manipuladas e o comportamento que estava sendo alterado; identificar e des
crever os procedimentos precisamente; descrever procedimentos e resultados
de acordo com a metodologia, linguagem e princípios básicos da análise do
41
comportamento; demonstrar que os resultados obtidos são unicamente decor
rentes da aplicação dos procedimentos; e produzir resultados generalizáveis.
Entretanto, as práticas desenvolvidas pelos modificadores sofreram críticas
relacionadas à artificialidade na manipulação de contingências, pouca ênfase na
subjetividade e atendimento prioritariamente das necessidades institucionais e
não dos indivíduos que eram submetidos aos procedimentos, além de criticas ao
uso de técnicas de controle aversivo do comportamento. É provável que essas
críticas tenham interferido no processo de ampliação do trabalho dos analistas
do com portam ento, que foram do hospital psiquiátrico, da escola e da prisão
para o consultório. E, aos poucos, os modificadores de comportamento toma-
ràm-se terapeutas comportamentais.
Essa transformação e ampliação do trabalho do analista do com portam en
to trouxe algumas mudanças: o foco da intervenção comportamental e das pes
quisas não era mais um comportamento a ser eliminado e sim a história de vida
do sujeito, o autoconhedm ento, a relação cliente-terapeuta, o comportamen
to verbal (Alvares, 1996; Barcellos & Haydu, 1995; Guedes, 1993; Mejias, 2001).
Nesse novo contexto, poderia-se supor que não haveria mais espaço para um
profissional que fosse responsável pela aplicação de técnicas comportamentais.
Entretanto, o modelo clínico de consultório também não se m ostrou suficiente
para a resolução de todas as demandas por atendimento psicológico (Barcellos
& Haydu, 1995; Guedes, 1993). A evolução dos fatos demonstra que o trabalho
conjugado de terapeuta comportamental e acompanhante terapêutico parece
ser uma alternativa para suprir essa insuficiência.
0 acompanhante terapêutico e o terapeuta comportamental
No final da década de 1990, conforme mencionado no início deste capí
tulo, alguns analistas do comportamento ligados ao contexto clínico começa
vam a divulgar suas intervenções fora do consultório e muitos desses trabalhos
passavam a ser denominados acompanhamento terapêutico. Esse fato resultava
principalmente do crescimento das pesquisas, especialmente na área da psi
quiatria, que enfatizavam a eficácia da aplicação de técnicas comportamentais
e cognitivas no tratam ento de transtornos psiquiátricos. Ressurgia, então, a
demanda pelo profissional que aplicasse essa técnica.
42
É importante salientar que toda intervenção clinica baseada nos pressu
postos do behaviorismo radical utiliza a análise e o manejo de contingências
responsáveis por qualquer padrão de comportamento e, portanto, o trabalho
no ambiente do cliente seria uma consequência natural dessa filosofia.
Se a teoria em que se baseia a terapia comportamental é correta, en
tão a solução para um problema comportamental não pode se restringir a
contingências especialmente arranjadas no ambiente particular da clínica.
Se o problema tem que ser corrigido, é necessário modificar as contingên
cias do ambiente natural. (Holland, 1978, p. 166)
Entretanto, como a terapia comportamental está inserida no contexto
mais amplo das psicoterapias, o trabalho no ambiente fica geralmente restrito
àquela parcela de clientes que são denominados pacientes portadores de trans
tornos psiquiátricos graves e/ou crônicos, acompanhados, portanto, por médico
psiquiatra e sob tratamento medicamentoso. Essas pessoas possuem dificul
dade de generalização dos conteúdos aprendidos verbalmente nas sessões de
terapia de consultório, por conta de déficits no repertório comportamental
básico ou por características dos próprios transtornos dos quais são portado
res, o que justifica o trabalho no ambiente.
O que se encontra atualmente nos trabalhos referentes a essa clientela é
que o atendimento é realizado por terapeutas comportamentais responsáveis
pelas avaliações funcionais, decisões clínicas e definição de procedimentos, que
podem ou não ser auxiliados por um acompanhante terapêutico.
A análise do comportamentofaz parte do contexto da psicologia assim
como a terapia comportamental, do contexto da psico terapia. Isso pressupõe a
importação de termos "psi” que muitas vezes são incompatíveis com os pres
supostos filosóficos do behaviorismo radical. Acredito que o termo AT seja um
desses exemplos. Mas como uma prática em construção, provalmente no futu
ro poderá ser conceituada de maneira que o termo que a define seja a própria
operadonalização de seus pressupostos e procedimentos.
43
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46
C A P Í T U L O 2
Qwflncío o verbal é insuficiente: possibilidades e limites
da atuação clínica dentro efora do consultório
Cássia Roberta da Cunha Thomaz e Yara Claro Nicu
Este capítulo discute lim ites e possibilidades da atuação clínica
do analista do com portam ento tanto dentro do setting terapêutico tradicional
quanto fora dele. Tais limites e possibilidades, em cada um desses contextos,
serão abordados a partir da análise do com portam ento hum ano sob controle
de especificações verbais versus controle por contingências.
Para tanto, se faz necessário: 1) a retornada dos conceitos de com porta
m ento governado por regras e com portam ento m odelado por contingências;
2) a apresentação de características da prática clínica do analista do com porta
m ento; 3) as discussões referentes ao atendim ento fora do consultório, no que
se denom ina acom panham ento terapêutico (AT), na clínica analítico-compor-
ta mental. A com preensão desses conceitos e práticas pode ajudar apensar sobre
decisões de quando, com o e porque é terapeuticamente mais relevante atender
dentro e /o u fora do gabinete de terapia.
C om o o com portam ento verbal de descrever contingências pode vir a con
trolar o com portam ento não-verbal, é importante estudar essa relação com a in
tenção de compreender os processos envolvidos na interação cliente-terapeuta.
A atuação clínica do analista do com portam ento no contexto tradicional
de gabinete tem com o principal material deanálise o com portam ento verbal do
cliente e tam bém , com o ferramenta fundamental de intervenção, o com porta
m ento verbal do terapeuta.
47
Pedro
Algumas situações trazidas por clientes justificam que a atuação do analista
do comportamento ocorra para além da interação eminentemente verbal - mais
típica da prática de consultório incidindo diretamente nas contingências natu
rais da vida do cliente, prática denominada de acompanhamento terapêutico.
Compreender a interação entre regras e contingências é fundamental para
conduzir decisões terapêuticas acerca de quando a atuação dentro e fora do
consultório é pertinente. Esses enunciados teóricos servirão de referência para
pensarmos a relação entre verbal e não-verbal na atuação clínica, em especial
para as especificidades dessas relações quando o atendimento ocorre dentro e
fora do setting tradicional.
}
COMPORTAMENTO GOVERNADO POR REGRAS E COMPORTAMENTO MODELADO POR
CONTINGÊNCIAS: DEFINIÇÕES CONCEITUAIS
No livro Verbal behavior, de 1957 (publicado no Brasil com o título Comporta
mento Verbal), Skinner define comportamento verbal como o comportamento
que altera o ambiente apenas indiretamente; seu efeito primeiro ocorre sobre o
comportamento de outras pessoas. Na medida em que o comportamento verbal é
impotente diante do mundo "físico”, sua forma não resguarda um a relação geomé
trica ou mecânica com as conseqüências por ele produzidas. É o comportamento
de outro homem, especialmente treinado pela comunidade verbal para reagir aos
padrões gerados pelo falante, que terá o efeito de produzir a conseqüência última
responsável pela manutenção do comportamento do falante.
Nessa obra, Skinner produz um a classificação do comportamento verbal
do falante em relação a possíveis variáveis envolvidas em seu controle, apre
sentando o que seriam os operantes verbais básicos: mando (comportamento
verbal sob controle de condições de privação ou de estimulação aversiva) ecói-
co; textual; ditado; cópia; eintraverbal (comportamento verbal sob controle de
estímulos verbais); autoclítico (comportamento verbal sob controle de outros
estímulos verbais e dos efeitos gerados no ouvinte); e tato (com portam ento
verbal sob controle de estímulos não-verbais).
Podemos afirmar que em Verbal behavior Skinner conduz a maior parte de
sua análise a respeito do comportamento do falante, não empregando tanta ên
fase na análise do comportamento do ouvinte. Isso quer dizer que, nesse mo
48
Pedro
Pedro
mento, a discussão ruma na direção de compreender “o que leva alguém a emitir
um comportamento verbal”. A questão “o que leva alguém a se comportar sob
controle do comportamento de um falante”, ou seja, o que leva alguém a seguir
0 que outro disse só seria aprofundada mais adiante, em textos posteriores.
Transcorridos nove anos da publicação de Verbal behavior, Skinner pu
blica, em 1966, um artigo intitulado "Uma análise operante da resolução de
problemas" (1984), no qual cunha o term o comportamento governado por regras
com o distinto a comportamento modelado por contingências.
Comportamento modelado por contingência deve ser empregado para se
referir a comportamento que é emitido, de uma certa forma, devido a conseqü
ências que a ele se seguiram no passado; ao passo que comportamento gover
nado por regras refere-se a comportamentos que são emitidos sob controle de
descrições verbais de contingências. Skinner (1984) afirma que essa descrição
- feita por outrem ou por si mesmo - funciona como um estímulo discrimi
nativo para uma determinada resposta e, portanto, a regra seria um estímulo
antecedente espedficador de contingência.
Embora existam divergências conceituais sobre a definição do termo re
gra1, há dois processos distintos na aquisição de novas respostas: viver direta
mente as contingências e emitir novas respostas em função da descrição feita
sobre as contingências.
Tal distinção é ilustrada, a seguir, por Skinner (1984):
Um cientista pode jogar bilhar intuitivamente, como resultado de
longa experiência, ou pode determinar as massas, ângulos, distâncias,
1 Após essa definição de Skinner (1984) é possível acompanhar um debate conceituai entre
os analistas do comportamento acerca do conceito de comportamento governado por regras
(Schoneherger, 1990). Há autores em consonância com a proposta de Skinner de analisar re
gras com o estímulos discriminativos (Cerutti, 1989); análises de que comportamento gover
nado por regra é comportamento envolvido era dois conjuntos de contingência (Zettle BC
Hayes, 1982); autores tais como Blakely e Schlinger (1987) e Schlinger (1990) que criticam o
conceito de regra como estímulo discriminativo e propõem que o emprego do termo "regra"
seja reservado para estímulos especiíicadores de contingências com o papel de alterar as fun
ções respondentes e operantes dos estímulos que descrevem; e Gatania (1989), que defende
uma definição funcional de regras e critica a proposta conceituai de Glenn (1987; 1989) por uma
definição topográfica.
49
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
fricções etc. e calcular cada jogada. Provavelmente optará pela primeira
alternativa, é claro, mas há circunstâncias análogas nas quais ele não
pode se subm eter às contingências de maneira análoga, e deverá adotar
a última opção. Ambos os tipos de com portam ento são plausíveis, natu
rais e eficazes; ambos demonstram “conhecimento das contingências”,
e (à parte dos cálculos pré-correntes no segundo caso) podem ter topo
grafias similares, (p. 296)
Este exemplo é especialmente interessante por m ostrar que a simples des
crição topográfica do comportamento, neste caso o de jogar bilhar, não pode
ser um critério de distinção entre o com portam ento governado por regras e o
modelado por contingências. SegundoSkinner(1984), uma análise das variáveis
controladoras nos levaria a identificar que asjogadas, apesar de muito parecidas
em suaforma, se encontram sob diferentes controles: num caso, seria resultado
do cálculo das massas, ângulos e fricções, que funcionariam como regras para o
comportamento de jogar; no outro, um produto de uma longa história passada
de jogadas ora mal ora bem-sucedidas, caracterizando-se como comporta men
to modelado por contingências. Assim, apesar do comportamento governado
por regras poder, em muitos casos, se assemelhar ao modelado por contingên
cias, eles nunca serão exatamente os mesmos. Comportamentos sob controle
de variáveis diferentes possuem, necessariamente, propriedades distintas.
A especificação da contingência, com o “evento do ambiente", pode entrar
em um a determinada relação de controle com a resposta. Segundo Skinner
(1984):
Enquanto estímulo discriminativo, [a regra] é eficaz com o parte
de um conjunto de contingências de reforçamento. Uma especificação
completa deve incluir o reforço que m odelou a topografia da resposta e
colocou-a sob controle do estímulo, (p. 283)
Decorrem dessa afirmação duas características fundamentais do conceito
de regra: uma descrição só altera a probabilidade de emissão de um dado com
portamento quando faz parte, como estímulo discriminativo, de uma contin-
50
Pedro
gênda de reforço; e devemos considerar como uma especificação completa de
contingência a descrição dos três termos que a compõe - o estímulo discrimi
nativo, a resposta e a conseqüência. Vale ressaltar que Skinner (1984) elabora
um a análise mais minuciosa, não apenas sobre a regra completa, como também a
respeito dos tipos possíveis de regras em função dos termos da contingência que
são descritos, tais como: regra incompleta, regra fragmentada e regra grosseira.
Essa consideração é importante para o entendimento da prática clínica, uma vez
que a descrição, ainda que parcial, por parte do terapeuta ou do próprio cliente,
das contingências vividas por este, pode funcionar como estímulo que afeta o
comportamento não-verbal sob análise.
Para entender as razões que levam ao controle por regras, devemos nos
perguntarsobre os motivos que levam um indivíduo a analisar as contingências
além de vivê-las. O desenvolvimento do comportamento verbal tom ou possí
vel para a espécie humana descrever as relações entre o comportamento e as
variáveis que o afetam. Tais descrições são importantes porque possibilitam ao
homem gerar comportamento novo e efetivo sem que seja necessária uma ex
posição, geralmente longa e tediosa, às contingências descritas (Skinner, 1984).
A aquisição de comportamento via regra, ao invés de via modelagem pelas
contingências, é especialmente necessária quando as conseqüências produzidas
por uma resposta são muito atrasadas ou raras e as conseqüências imediatas e
mais poderosas modelariam respostas opostas e indesej áveis, uma vez que seriam
consideradas como comportamentos de desperdício segundo o grupo (proble
mas relativos à economia de recursos naturais, por exemplo) ou colocariam o
indivíduo em perigo (fumar pode produzir, em longo prazo, câncer de pulmão).
Uma outra vantagem do controle via descrição de contingências seria ge*
rarnovas respostas no repertório de outro indivíduo, semesperar por variaçõet
na direção desejada para o reforçamento da resposta, processo característico dâ
modelagem. Assim, a emissão de uma regra possibilita a aquisição de resposta»
que, via modelagem, poderiam gerar danos imediatos (por exemplo, aprender
a atravessar um a rua movimentada) e propicia uma abreviação no tempo ne
cessário para a instalação de uma resposta via modelagem.
Ainda há uma outra vantagem no controle por regras referente à manutenção
e não à aquisição do comportamento: quando um comportamento instalado via
Pedro
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Pedro
Pedro
Pedro
modelagem já existe no repertório de um indivíduo, a especificação das contingên
cias pode complementar as contingências responsáveis pela sua manutenção.
Essas são, grosso modo, as razões existentes para que um sujeito analise as
contingências e formule descrições que controlem o comportamento.
Apesar dessas vantagens, entretanto, algumas desvantagens do controle
por regras são ressaltadas por Skinner (1984). Primeiramente, podemos identi
ficar a simplificação do com portam ento resultante, uma vez que ele é evocado
por descrições verbais que atentam, apenas,, para as dimensões relevantes d©
comportamento na produção de determinadas conseqüências. Uma outra im
plicação pode ser identificada no trecho a seguir:
A medida que uma cultura produz máximas, leis, gramática e ciên
cia, seus membros acham mais fácil comportar-se eficientemente sem
contato direto ou prolongado com as contingências de reforço assim
formuladas. (Preocupamo-nos aqui apenas com contingências estáveis.
Quando contingências mudam e as regras não o fazem, regras podem serprobíe-
máticas emvez de úteis.) (Skinner, 1984, p. 279, grifos das autoras)
Podemos notar que no inído desta dtação Skinner aponta para uma vanta
gem do comportamento governado por regras e que essa vantagem se reladona
com o fato das contingêndas serem estáveis. No final da dtação, Skinner afirma
que, caso as contingêndas sejam instáveis, o controle por regras pode se mostrar
desvantajoso. Sendo assim, caso um a determinada contingênda se altere, mas a
regra que a descreve permaneça a mesma, seguir essa regra pode ser problemático.
Quando lemos este alerta, o que imaginamos como problemático? Supomos que
problemático é a possibilidade do comportamento não se alterar, na medida em
que continua seguindo a mesma regra, mesmo que a contingênda tenha mudado.
E exatamente esta possível característica do comportamento governado por regras
que vem sendo considerada pela literatura espedalizada como insensibilidade às
contingêndas, ou seja, a não alteração do desempenho, supostamente em função
do responder sob controle de regras, quando há mudanças nas contingêndas2.
1 A presente reflexão sobre a questão de regras e insensibilidade, bem com o sobre a adequação
desse termo poderá ser encontrada pelo leitor em N ico (1999).
52
Pedro
Pedro
Pedro
REGRAS E INSENSIBILIDADE ÀS CONTINGÊNCIAS
Consideremos o exemplo de um pintor que descreve a um aprendiz a pro
porção correta de tinta e água utilizada para fazer a mistura que produz um efeito
cintilante na tinta sobre a tela. Suponha que esta descrição do mestre-pintor funcio
ne como estímulo discriminativo para a resposta do aprendiz de misturar naquela
exata proporção a tinta e a água. Tal resposta poderia produzir duas conseqüências:
uma conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita pela regra (a tinta
ficar cintilante sobre a tela) e outra conseqüência, liberada pelo emissor da regra,
contingente ao seguimento desta (a aprovação do mestre contingente à resposta de
preparar corretamente a mistura de tinta e água), conforme mostra a Tabela 1.
TABEIA 1: Exemplo de episódio envolvendo uma destricâo de contingências
ESTÍMULO DISCRIMINATIVO RESPOSTA CONSEQUÊNCIA
"Misture sempre a mesma quan- - > Fazer a mistura —► A tinta ficar cintilante sobre a tela
tidade de tinta e água para obter na proporção correta (Consequência diretamente produzida
o efeito da tinta cintilante" pela resposta)
Aprovação do mestre
(Consequência liberada pelo emissor)
Suponha que após vários quadros confeccionados com a utilização desta
proporção de tinta e água para produzir o efeito cintilante, o fabricante tenha
alterado a composição química da tinta e que, com isto, aquela quantidade de
água não mais fosse suficiente para fazer a mistura que resulta no efeito deseja
do. Assim, a alteração na qualidade do estímulo “tinta" e a manutenção do res
ponder instalado via regra - colocar exatamanete a mesma quantidade de água
e tinta - a partir dc agora não produz mais o mesmo efeito cintilante produzido
sob a contingência anterior. Imagine que apesar desta alteração contribuir para
uma grande diminuição no efeito cintilante - diminuição na magnitude do re
fo rço -o aprendiz continue realizando a mistura exatamente da mesma maneira
que seu mestre ensinou. Este seria um possível exemplo cotidiano indicando a
existência da não alteração de uma resposta a despeito da modificação nas con
tingências de reforço, em função desta resposta estar sob controle de regra.
Assim, a avaliação experimental da existência de insensibilidade requer
que se planeje as seguintes situações: 1) um sujeito sendo instruído a se com
portar sob um a dada contingência e o seguimento desta instrução levando-o,
efetivamente, a produzir conseqüências reforçadoras; 2) a alteração desta con
tingência sem um a alteração da regra^Pox exemplo, vamos suporum a situação
experimental na qual é dito para uma criança que para obterum a consequência
reforçadora (pontos que serão trocados por brinquedos) ela deve apertar um
botão bem devagar (de acordo com um esquema DRL3). Ela segue a règra e ga~
nha vários pontos. Agora, sem que se avise a criança, a contingência muda: para
ganhar pontos ela deverá apertar bem rápido (agora, o esquema em vigor é um
DRH4). Portanto, temos um a alteração de contingência e um a m anutenção da
regra. De acordo com este planejamento, se o desempenho se alterasse, apertar
mais rápido, quando a contingência fosse alterada, diríamos que o comporta
m ento foi sensível às contingências. Mas, se o comportamento permanecesse o
mesmo, apertar devagar, a despeito da mudança na contingência, diríamos que
ele foi insensível às contingências - um experimento semelhante a este foi con
duzido por Assis (1995) e parte dele replicado por Nico (1997). Podemos consi
derar que esta identificação de insensibilidade baseia-se numa comparação do
desempenho do m esm o sujeito em duas condições diversas. Dizemos que esta
é um a definição intra-sujeito. O term o insensibilidade às contingências pode ser
encontrado em vários estudos para se referir a um a não alteração de desem
penho de um mesmo sujeito quando as contingências mudam, mas as regras
não (por exemplo, Matthews, Shimoff, Catania & Salgvolden, 1977;Shimoff,
Catania, Byron 8í Matthews, 1981; Hayes, Brownstein, Haas& Greenway, 1986;
Hayes, Brownstein, Zettle, Rosenfarb & Kom, 1986).
’ DRL é sigla de dijferential reinforcement o f imv rate. N este esquema uma resposta só é reforçada
após ter transcorrido um tempo mínimo, dado pelo valor do esquema, a partir da última res
posta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida antes deste tempo mínim o, o temporiza
dor reinicia a contagem do tempo.
4 DRH é a sigla de differenaal reinforcement o f high rate. N este esquema uma resposta só é re
forçada se ocorrer antes de ter transcorrido um tem po mínimo, dado pelo valor do esquema,
a partir da última resposta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida depois deste tempo
mínimo, o temporizador reinicia a contagem do tempo.
54
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
Entretanto, segundo Madden, Chase & Joyce (1998), num artigo de re
visão da área de insensibilidade, esta definição se opõe a uma outra também
com um na literatura, a saber: uma definição baseada em comparação entre
espécies. De acordo com essa definição, o comportamento humano deve ser
Considerado sensível se apresenta um padrão semelhante ao mostrado por su
jeitos não humanos, quando ambos são expostos às mesmas contingências de
reforçamento. De modo contrário, quando o padrão humano difere do padrão
animal ele deve ser descrito como insensível (ver, por exemplo, Lowe, Harzem
& Hugues, 1978; Lowe, 1979; Lowe, Beasty & Bentall, 1983; Bentall, Lowe &
Beasty, 1985; Bentall ÕC Lowe, 1987; Madden, Chase &Joyce, 1988; Assis,1995)
Madden et al. (1998) apontam três razões básicas para a não adoção da de
finição baseada na comparação entre espécies. Em primeiro lugar, o compor
lam ento animal tomado como típico sob um dado esquema, pode não ser tão
típico quanto muitos supõem. Uma segunda razão seria a de que o padrão de
resposta produzido por certos esquemas não é consistente entre várias espécies
(por exemplo, quando submetidos a DRL, ratos apresentam taxas de respostas
mais baixas do que pombos). Neste caso, com qual espécie o responder humano
deveria ser comparado para que "sensibilidade” fosse avaliada? Finalmente, os
autores argumentam que os procedimentos empregados com humanos e não
humanos podem ser similares em termos estruturais, porém não em termos
funcionais. Aspectos do controle experimental (sistema de liberação de reforço,
custo da resposta, condições de privação etc.) podem ser mantidos os mesmos
em estudos com não humanos e humanos, garantindo similaridade estrutural
entre os procedimentos, entretanto esta similaridade não garante que as variá
veis controladoras exerçam a mesma função de modo a permitir uma compara
ção entre espécies.
Com base nestes três argumentos, os autores concluem que sensibilidade
não deveria ser definida a partir de uma comparação entre espécie. Desta for
ma, sugerem que o term o replicação entre espécies descreve mais adequadamen
te a consistência dos efeitos obtidos entre espécies do que o termo sensibilidade-,
isto é, um comportamento pode ser considerado sensível mesmo que não re
produza os dados de experimentos com não humanos.
Estando de acordo com esta conclusão, temos reduzida a quantidade de
dados experimentais sobre insensibilidade, já que não vamos considerar como
insensível um desempenho humano que difere de um desempenho animal.
Passemos, portanto, para os estudos sobre insensibilidade, como um pro
duto de comportamento governado por regras, e que se baseiam numa com
paração intra-sujeito. Uma primeira tarefa (para verificar se há insensibilidade
e quais as variáveis envolvidas) deveria ser a revisão da literatura considerando
a existência de cinco condições experimentais:
1) fornecimento de uma regra a respeito da resposta que produz conseqüên
cias reforçadoras sob a contingência à qual o sujeito será exposto;
2) estabilidade do desempenho nesta primeira condição - aum entando a
■ probabilidade de que uma eventual alteração de padrão seja função da
mudança na contingência e não um a alteração aleatória;
3) alteração efetiva das contingências de reforço, de m odo que o padrão de
resposta apresentado sob a primeira condição não mais produza reforço
e que, portanto, uma alteração do desempenho seja realmente necessá
ria para a produção de reforçador;
4) manutenção, na segunda contingência, da regra fornecida sob a primei
ra contingência;
5) dados sobre o desempenho quando gerado na ausência de regra e sub
metido a alteração de contingência - para que se possa afirmar que a não
alteração, insensibilidade, é produto do seguimento de regra e não de
qualquer outra variável presente na situação experimental.
Estando asseguradas estas condições, poderíamos começar a defender a
existência de dados experimentais sobre insensibilidade e, possivelmente, co
nhecer de quais variáveis, presentes no controle por regras, a insensibilidade às
contingências seria função.
Portanto, os problema existentes são:
1) Existem duas definições de insensibilidade, completamente diferentes,
convivendo na literatura. Mais do que isto, a defesa por um a destas defi
nições não é prática comum na literatura. Isto seria apenas um problema
de falta de debate teórico não fosse o fato de que ambas as definições são
aplicadas aos achados de pesquisa.
56
2) Um problema metodológico para avaliar experimentalmente a insensi
bilidade. Também em relação a este problema é de extrema importância
que se conduza uma revisão das metodologias empregadas pelos estudos
da área, restringindo-se àqueles que partem da definição intra-sujeito,
para que possamos mais consistentemente a) afirmar ou negar a existên
cia de evidências experimentais que suportem a conclusão de que insen
sibilidade existe e, caso identifiquemos alguma evidência; b) conseguir
dizer de quais variáveis ela é função.
Adespeito dessas questões de definição e de metodologias, fomos capazes de
fornecer um exemplo cotidiano, e com certeza muitos outros podem ser formu
lados, que parece indicar a existência de insensibilidade. Voltemos a ele para que
possamos mais claramente colocar uma última questão que se refere à adequação
do termo insensibilidade às contingências. Para realizar este questionamento é
necessário que foçamos uma análise comportamental mais minuciosa a respeito
do que fomos capazes de identificar como insensibilidade às contingências.
Parece que naquele caso estávamos considerando como insensibilidade a
característica de não alteração do comportamento (continuar a fazer a mistura
com a mesma quantidade de água e tinta) a despeito da mudança nas contin
gências implicar em perdas de reforço (drástica redução no efeito “cintilante”
da tinta sobre a tela). Sendo assim, podemos afirmar que o que estamos consi
derando como fundamental para a identificação de insensibilidade é o término
da produção do reforçador "efeito cintilante" e a continuidade de emissão da
resposta anteriormente necessária para sua produção, ou seja, mesma quanti
dade de água e tinta na confecção da mistura. Assim, estamos enfatizando, na
identificação de insensibilidade, a análise da relação entre a resposta descrita na
regra e a conseqüência diretamente por ela produzida.
Entretanto, parece razoável esperar de um psicólogo pertencente a uma
abordagem como a análise do comportamento a busca das variáveis ambientais
responsáveis pela manutenção do comportamento e não a simples afirmação
de que, surpreendentemente, o comportamento não se modifica em função
das alterações em algumas variáveis ambientais, qualificando-o, portanto,
como insensível às contingências.
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O próprio term o insensibilidade às contingências soa como um contra-senso
dentro do corpo teórico da análise do comportamento visto que esta abordagem
se edifica sobre o pressuposto de que é possível estudar o fenômeno compor-
tamental, prevê-lo e controlá-lo, a partir do conhecimento acumulado sobre
as variáveis ambientais das quais é função; de que o comportam ento “é um
processo, e não um a coisa... é mutável, fluído e evanescente" (Skinner, 1994,
p. 27) e que esta mutabilidade, fluidez e evanescência é função de alterações nas
contingências ambientais. Assim, como podemos, sem grande intranqüilidade
teórica, afirmar que um comportamento pode ser insensível às contingências
d£ reforço? Não estaríamos colocando em xeque pilares m uito sólidos dentro
de nossa abordagem?
Diante de tal inquietação, resta-nos investigar quais possíveis variáveis po
deriam ser responsáveis pela manutenção de uma resposta que, apenas aparen
temente, parece ser insensível às contingências. Serão apresentadas aqui duas
possibilidades de explicação deste padrão dito insensível. Ambas as possibilidades
implicam a constatação de que o termo insensibilidade ás contingências seja talvez
inadequado para se descrever o fenômeno comportamental em questão.
Uma primeira possibilidade se origina da suposição de que o emissor da re
gra permaneça liberando reforços contingentes ao seguimento desta, mesmo
que a conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita na regra não
mais estivesse ocorrendo. No nosso exemplo, esta possibilidade seria constata
da caso observássemos que o mestre-pintor continua reforçando seu aprendiz
a misturar a mesma quantidade de tinta e água mesmo se o efeito produzido
não seja mais o mesmo.
Frente a tal observação, poderíamos continuar a qualificar tal comporta
m ento como insensível às contingências? Caso a resposta fosse "sim, podemos
qualificá-lo como insensível às contingências já que ele não se altera m esmo
com o término da produção de reforços que eram diretamente produzidos por
ele", não estaríamos incorrendo num erro de definição da classe de resposta à
qual a resposta sob análise pertence? A continuidade de emissão da resposta
"misturar na mesma proporção tinta e água”, quando daretirada da conseqüên
cia diretamente produzida e a manutenção da conseqüência social, deveria ser
um indício de que tal resposta faz parte da classe de respostas definidas por sua
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função em comum de produzir a aprovação social e não da classe de respostas
definidas pela sua função em comum de produzir "efeitos artísticos”. Dessa
fbrma, o comportamento seria sim sensível às contingências, no caso às contifl
gências que incluem conseqüências sociais. Portanto, continuar atribuindo a tal
-comportamento a característica de insensibilidade é no mínimo negligenciar o
: poder reforçador de conseqüências fornecidas pela comunidade contingente à
obediência, sujeição, condescendência, submissão... e, no máximo, impedir o
estudo das variáveis críticas no controle deste tipo de padrão que, apenas apa
rentemente, poderia ser denominado de insensível.
Porém, podemos apresentar ainda uma segunda possibilidade de explica
ção para padrões de comportamento denominados de insensíveis. S uponha que
nossa investigação levasse à constatação de que realmente a(s) conseqüênaa(s)
responsável(eis) pela manutenção do comportamento não mais estivesse(in)
àèhdo produzida(s), fosse(m) ela(s) a conseqüência direta, a conseqüência so
cial ou ambas e, a despeito deste fato, a resposta continuasse sendo emitida.
*Fi*ente a tal constatação, poderíamos continuar a qualificar tal com portam ento
Com insensível às contingências? Mesmo estando ausentes as conseqüências
ítsponsáveis pela manutenção do comportamento e este, ainda assim, conti
nuar a ser emitido, considerar tal comportamento como insensível não implica
ilicorrer no erro de descartar toda uma literatura que investiga as variáveis que
contribuem para aumentar a resistência à extinção? Já é bem sabido, entre os
analistas do comportamento, que manipulações no nível de privação, histó
rias prévias com diferentes esquemas, tempo de exposição às contingências de
reforço, entre outras, são todas variáveis que interferem na velocidade com a
qual o comportamento deixa de ser emitido quando não mais produz as conse
qüências responsáveis pela sua manutenção. Até onde temos conhecimento,
não se tom ou prática comum na literatura sobre resistência à extinção adjetivar
comportamentos mais resistentes de insensíveis às contingências. Entretanto,
parece que quando a variável em questão é o controle por regras, deixa-se de
caracterizar o efeito observado como resistência à extinção e passa-se a atribuir
a ele como que um status especial na medida em que se reserva o termo in
sensibilidade às contingências", o qual além de tudo, como já foi dito, parece
incoerente dentro de nossa abordagem. Assim, não seria o controle por regras
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apenas mais uma possível variável que, sob algumas condições, poderia au
m entar a resistência a extinção?
REGRAS DO TIPO CONSELHO E REGRAS DO TIPO MANDO
Além de refletir a respeito das vantagens e desvantagens presentes no
controle por regras, podemos pensar sobre as razões para que alguém dê im
portância à descrição de outrem. Por que seguimos regras? Por que alguém se
comporta do modo descrito pelo outro?
Skinner (1984) responde essa questão ao fazer uma diferenciação entre
o operante seguir regra do tipo conselho e seguir regra do tipo mando}. É a análise
das relações estabelecidas entre a regra (estímulo discriminativo) e os outros
termos da contingência que permite tal distinção.
Uma regra é classificada do tipo conselho quando as conseqüências contin
gentes à resposta de seguir a regra são as mesmas que modelariam diretamente o
comportamento na ausência dessas regras. Nesse caso, as conseqüências não resul
tam de qualquer ação tomada pelo conselheiro; são intrínsecas ao comportamento
descrito pela regra. No exemplo acima, a regra seria considerada como conselho se
a conseqüência mantenedora de seu seguimento fosse o "efeito cintilante” direta
mente produzido pela resposta de “misturar na mesma proporção tinta e água".
De outro modo, devemos qualificar um a regra como mando quando algu
mas conseqüências da ação descrita na regra estão sob o poder do mandante, ou
seja, são conseqüências sociais, extrínsecas ao comportamento, em sua maioria
aversivas. Se o aprendiz de nosso exemplo emitisse a resposta descrita na regra
sob controle, apenas, da aprovação de seu mestre contingente ao seguimento
da regra, então esta seria um mando.
Assim, os termos conselhos e mandos designam diferentes variáveis rela
cionadas ao seguimento de regras.
5 Vale notar que o termo conselho e mando, nesse m om ento, é utilizado por Skinner para
se referir ao comportamento do ouvinte sob controle de regras. Anteriormente, em Verbal
behavior (1957) Skinner utiliza os mesmo termos ao se referir ao comportamento do falante.
Naquele m omento, conselho é um sub-tipo de mando no qual o beneficio maior pelo segui
mento do mando é do ouvinte e não do falante, ao contrário do mando do tipo ordem ou
súplica, casos em que o maior beneficiado é o falante.
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Seja o controle por regras do tipo conselho seja do tipo mando, o importan
te é considerar que a simples presença da regra não é suficiente para que ela
seja seguida. É necessária uma história de reforçamento por seguir regras. Seja
reforçamento diretamente produzido pela resposta, em que quem descreve a
regra não manipula as conseqüências, seja reforçamento por conseqüências
detidas pelo emissor da regra.
Um indivíduo pode seguir não apenas descrições elaboradas por outros,
mas tam bém desenvolver um repertório visando analisar contingências, for
m ular regras e se com portar de acordo com a análise feita. Para que isso
ocorra, o sujeito deve possuir um repertório de auto-observação, ou seja,
atentar para seu comportamento e as condições do ambiente que o afetam.
Essas respostas de observação podem vir a servir como estímulo discrimina
tivo para respostas de descrever essas relações. Assim, seria estabelecido um
repertório para analisar as contingências em vigor e, posteriormente, essas
análises poderiam funcionar como estímulos discriminativos para determinadas respostas.
Portanto, o processo de formular regras passa por três momentos, des
critos por Sério, Andery, Gioia & Micheletto (2004): o primeiro refere-se às
interações com o ambiente vividas pelo sujeito, o que não garante que ele as
observe e as descreva; o segundo é aquele em que o sujeito emite respostas de
auto-observação e autodescríção das relações comportamentais que estabelece
com o mundo; e, por fim, o terceiro é o momento em que o comportamento de
autodescríção afeta o comportamento descrito.
Disso conclui-se que a auto-observação e a autodescríção não são automá
ticas e que a autodescríção do comportamento pode ou não alterar a resposta
descrita. Portanto, é importante investigar por que alguém observa o próprio
comportamento e passa a descrevê-lo e em que condições a resposta de auto-
descrever altera a resposta descrita; isto é, por que a autodescríção se transfor
ma em um estímulo antecedente para a resposta descrita na contingência.
Assumir que para a autodescríção funcionar como estímulo antecedente
é necessária uma história complexa, significa assumir que a consciência-como
comportamento autodescritivo- não é produto imediatoda experiência e, além
disso, que a consciência não é suficiente para a mudança comportamental.
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Tendo apresentado os principais conceitos e discussões acerca da relação
entre descrição verbal e comportamento, podemos prosseguir com a análise
das especificidades da interação verbal terapeuta-diente que ocorre no settiwg
tradicional de consultório.
A CLÍNICA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL NO CONSULTÓRIO: ALGUMAS CONSIDE
RAÇÕES SOBRE A INTERAÇÃO VERBAL CLIENTETERAPEUTA
As primeiras tentativas de aplicação dos conceitos desenvolvidos em labo-
ratório pelos analistas do comportamento para contextos clínicos ocorreram a
partir de meados dos anos 60, prática então denominada modificação do compor-
iamento6. Naquele momento, a atuação dos modificadores de com portam ento
se desenvolveu, preponderantemente, sobre problemas específicos apresenta
dos por pessoas institucionalizadas, e as intervenções ocorriam especialmente
sobre respostas discretas cujo controle era facilitado nos ambientes institucio
nais, uma vez que se tinha acesso direto a elas para observação e manipulação
das variáveis relevantes.
De acordo com Pérez-Álvarez (1996), tais aplicações caracterizavam-se
como modificação do com portam ento e não como terapia, porque o que se
fez foi modificar respostas "discretas", o que possivelmente contribuiu para o
êxito dessa prática - "que foi mais local do que global" (idem, p. 45) aspecto que,
posteriormente, caracterizou-se como um a limitação.
Guedes (1993) afirma que, em razão de severas críticas e das limitações
dessa prática, os analistas do com portam ento -q u e objetivaram aplicar os prin
cípios da análise experimental do com portam ento para problemas de natureza
clínica-reviram seu modelo de atuação e, a partir da década de 1980, tomaram-
se terapeutas comportamentais, passando a atender, principalmente no setting
tradicional do consultório, pacientes não institucionalizados. Com a mudança
de setting e da população-alvo, as características da prática e da interação com
o cliente mudaram, uma vez que o ambiente de consultório impedia o contato
direto com as contingências vividas e dificultava o controle de variáveis no
ambiente natural.
4 Para revisão histórica do movimento da modificação do comportamento, ver Kazdin (1978).
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Essa mudança parecia acrescentar uma dificuldade na prática clínica do
finalista do comportamento: como lidar com uma terapia de cunho verbal se o
•objetivo da terapia é modificar as contingências responsáveis pelo sofrimento
/.(lo cliente (Banaco, 1997)? Se partimos do pressuposto de que todo comporta
m ento é produto de seleção filogenética, ontogenética e cultural e se algum
;comportamento existe no repertório de uma pessoa é porque ele foi instalado
;7Q está sendo mantido por variáveis ambientais, parece razoável afirmar que só
isetá possível uma mudança na conduta e, conseqüentemente, no sofrimento,
ijse houver mudança nas variáveis ambientais.
Ferster (1979), ao discutir a aplicação dos pressupostos teóricos da análise
• do comportamento, assume que a freqüência de respostas deve ser considerada
o dado básico para qualquer análise e que, a partir daí, dever-se-ia definir de
̂ maneira objetiva o comportamento individual, de forma que seja facilitada a
í investigação das variáveis responsáveis pela freqüência de respostas:
A primeira tarefa de um analista comportamental é definir o com
portam ento de maneira objetiva, dando ênfase a classes funcionais
(genéricas) de desempenho que estejam de acordo com os fatos que
prevalecem na clínica, cujos componentes comportamentais podem
ser observados, contados e classificados. Então, será possível descobrir,
através da aplicação de procedimentos comportamentais, o tipo de cir
cunstâncias que permitem aumentar ou diminuir a freqüência de certos
tipos de atuação. (Ferster, 1989, p. 700)
Pérez-Álvarez (1996) discute a terapia comportamental como a análise do
comportamento aplicada no setting de consultório, contexto esse que, no início,
não contemplava o analista do comportamento. T rabalhar neste setting significa,
para o autor, lidar com os "pacientes externos” (p. 94), ou seja, pacientes não
institucionalizados, com problemas complexos7 que ocorrem na vida cotidiana
e, conseqüentemente, fora do controle do terapeuta. Assim, afirma o autor, a
7 Vale atentar que o termo complexo utilizado por Pérez-Álvarez (1996) para caracterizar os
tipos de problemas que o paciente externo apresenta possivelmente opõe-se a respostas discre
tas, foco da intervenção do modificador do comportamento nos ambientes instiiudonais.
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prática clínica comportamental caracteriza-se por uma prática verbal, que só é
possível devido ao conhecimento produzido pela análise do comportamento so
bre aprendizagem, principalmente aquela relativa ao comportamento verbal.
O cliente, quando procura o serviço de um terapeuta, geralm ente tem
um problema, seja porque ele sofre, seja porque seus comportamentos geram
sofnmento para aqueles com os quais convive (Guedes, 1997), Desde a primeira
interação cliente-terapeuta, se estabelece um a interação verbal. Ambos falam
sobre os problemas trazidos pelo cliente com o objetivo último de minimizar-
lhe o sofrimento. Portanto, nesse setting, d iénte e terapeuta estabelecem um a
relação verbal na qual assumem os papéis de falante e de ouvinte. É essa intera
ção verbal que constitui, a um só tempo, o objeto primeiro da intervenção e a
base para a transformação das contingências vividas pelo cliente.
Considerando que o objetivo da terapia analítico-comportamental seria
alterar relações do cliente com seu ambiente de modo a diminuir seu sofrimen-
to (Banaco, 1997) e que a terapia, quando ocorre no setting tradicional de con
sultório, define-se como uma prática eminentemente verbal; a questão que se
coloca é: como interações verbais cliente-terapeuta permitiriam alterações nas
relações vividas pelo diente em sua vida cotidiana, fora do consultório?
Para responder essa questão, é necessário retomar por que ocorre a descrição
verbal de contingências e como se dá o processo que leva ao estabeledmento des
se relato como estímulo que controla as respostas descritas, seja a descrição feita
pelo próprio cliente ou pelo terapeuta. Isso equivale a retomar os três momentos
do processo envolvido no controle de um a resposta por uma (auto)descrição.
O primeiro m om ento diz respeito a viver as interações com o ambiente e,
obviamente, é experienciado por todo e qualquer cliente.
O segundo é aquele em que tais interações são descritas. Devemos conside
rar que o trabalho no consultório permite acesso, apenas, ao segundo