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C A P Í T U L O 1
Quem è o acompanhante terapêutico: história e caracterização
Fabiana Guerrelhas
Os problemas graves (que de fato incapacitam as pessoas para o 
cotidiano da vida) ainda estão a i Entretanto, dificilmente os tera­
peutas serão bem-sucedidos nestes casos se continuarem confinados 
ao espaço verbal (do mundo das regras e cognições) do consultório. 
Repensar a prática clínica e inventar novos espaços que permitam 
maior efetividade do mundo real do cliente é nosso grande desafio.
Guedes, 1993, p. 85
O atendimento clínico em acompanhamento terapêutico pode 
ser considerado uma modalidade recente, tanto no campo da psicologia clínica 
como no âmbito da análise do comportamento.
Para o desenvolvimento da trajetória histórica do acompanhamento te­
rapêutico (AT) analítico-comportamental no Brasil, apresentaremos a origem 
da prática no campo geral da psicologia e psiquiatria, para em seguida expor o 
caminho do AT analista do comportamento.
QUEM É 0 ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO
Antes mesmo de apresentar o desenvolvimento histórico do acompanha­
m ento terapêutico, é necessário caracterizar quem são os profissionais que se 
denominam acompanhantes terapêuticos, ou seja, com qual definição de AT 
estamos trabalhando, já que a discussão sobre esse conceito parece ainda não 
estar encerrada.
Na abordagem analítico-comportamental, as referências encontradas 
definem o AT ora como o profissional que trabalha no ambiente onde as con­
tingências mantenedoras dos comportamentos a serem alterados operam, ora 
como o auxiliar de um terapeuta comportamental ou de um psiquiatra ou, 
ainda, de um a equipe multidisciplinar que identifica sua prática com a aborda­
gem e que é responsável pelo atendimento. Como auxiliar, atua na coleção de
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dados e aplicação de técnicas e no manejo de contingências cuja necessidade de 
mudança é determinada pelos responsáveis pelo atendimento.
Nesse m om ento, um a distinção de caráter profissional já se faz necessária. 
Os profissionais que se denominam terapeutas comportamentais, de acordo 
com as especificidades de cada caso, freqüentemente realizam trabalhos fora 
do consultório, no ambiente do cliente. Quando o profissional é definido como 
AT, fica claro que sua função é auxiliar ou complementar o trabalho de um te­
rapeuta ou de um a equipe multiprofissional. Existe um a série de contingências 
que determinam essa distinção, muitas delas ligadas â questões sociais, econô­
micas e de formação profissional.
O local de atuação do AT não é sufidente para designar sua definição. Faz 
parte de sua caracterização definir o acompanhante terapêutico como auxiliar 
de um terapeuta experiente, analista do com portam ento e responsável pelo 
delineamento da intervenção. Solidtar os serviços do AT pode envolver contin- 
gênrias “econômicas”. Por ser estudante ou um profissional recém formado, 
o AT provavelm ente apresenta disponibilidade para atendim ento intensivo 
(muitas horas por semana) e em horários alternativos (fora do horário comer- 
dal) a um custo reduzido. Há bastante oferta de trabalho, pois para o profissio­
nal inexperiente é um a forma de especialização e aprendizagem, um a espéde 
de estágio rem unerado no qual acom panha de perto o trabalho de um tera­
peuta experiente que o supervisiona. Sendo assim, o trabalho de AT é um a boa 
alternativa para estudantes e profissionais com pouca experiência (Zamignani, 
1997), como já dito anteriormente.
Por hora, pode-se definir o AT anaíítico-comportamental por algumas 
especifiddades de suas funções e pela sua posição hierárquica em um a equipe 
de trabalho clínico.
Pode-se resumir o acompanhamento terapêutico como uma intervenção 
clínica indicada em casos de âêficits importantes no repertório básico de com­
portamentos, o que gera a necessidade de um a atenção intensiva realizada nos 
locais em que o cliente vive. E o AT é, nesse contexto, o profissional ou estudante 
“cuja função não compreende analisar o caso e decidir quais atividades e proce­
dimentos utilizar na sua intervenção. Suas ações são, necessariamente, subordi­
nadas às decisões anteriormente elaboradas pelo profissional ou equipe com o / a
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qual trabalha” (Zamignani ôí Wielenska, 1999, p. 160) e "que apresenta-se como 
um elo entre terapeuta, cliente, família e demais pessoas envolvidas, levantando 
dados importantes para a análise funcional*’ (Carvalho, 2002, p. 43).
BREVE HISTÓRICO DAS PUBLICAÇÕES RELACIONADAS AO TEMA NA PSICOLOGIA EM 
GERAL E NA ANÁLISE 0 0 COMPORTAMENTO
A primeira publicação sobre acompanhamento terapêutico na abordagem 
analítico-comportamental no país é de 1997 (Zamignani, 1977).
A bibliografia consultada enfatiza a importância da formação do acompa- 
nhanteterapêutico.ApesardeoATseruminitiantenaclánica.énecessárioqueseja 
treinado em habilidades específicas1. Atualmente são oferecidos cursos de forma­
ção vinculados à Psiquiatria (Ambulatório de Ansiedade [Ambam], do Hospital 
das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e cursos de 
pós-graduação lato sensu (Paradigma - Núcleo de Análise de Comportamento, 
na cidade de São Paulo, Psicolog, em Ribeirão Preto, entre outros).
As referências bibliográficas que tratam do assunto num a abordagem 
psicodinâmicasãoinúmeras.Emumabuscacomodescritor “acompanhamento 
terapêutico" em banco de dados da biblioteca virtual em saúde (www.bvs-psi. 
org.br) foram encontrados 270 trabalhos sobre o tema, entre livros, teses e 
artigos de periódicos. Quando a busca foi refinada para uma abordagem 
analítico-comportamental foi encontrado somente um artigo, que na realidade 
descrevia oprocesso de terapia comportamental aplicada a um caso deSíndrome 
de Asperger (Fernandes 8í Souza, 2000). O utra fonte de busca foi a página 
www.siteat.cjb.net, que reúne uma série de informações e referências sobre 
acompanhamento terapêutico sem nenhuma menção de trabalhos de analistas 
de com portam ento. Foram então pesquisadas referências bibliográficas 
freqüentem ente consultadas pelos analistas do comportamento. O que se 
encontra na literatura atualmente refere-se ao material publicado nos livros da 
coleção Sobre comportamento e cognição entre outras publicações de estudiosos 
e pesquisadores da terapia comportamental e cognitiva. Nos 18 volumes da 
coleção, publicados até o ano de 2006, foram encontrados nove capítulos que
1 Essas habilidades serão tratadas detalhadamente neste livro.
http://www.bvs-psi
http://www.siteat.cjb.net
descrevem o tabalho de AT ou cujo título apresenta intervenções em ambiente 
natural do cliente (Balvedi, 2003, 2004; Baumgarth et al., 1999; Brandão et al., 
2006; Cruz ÕC Moraes, 2003; M arinotti 3C Souza e Silva, 2001; Oliveira, 2001; 
Vianna õí Sampaio, 2003; Zamignani & Wielenska, 1999).
Todos os textos expõem trabalhos ligados ao atendimento de portadores 
de transtornos psiquiátricos, assumindo que essa clientela possui demandas 
específicas, geralm ente ligadas à necessidade de desenvolvimento de um re­
pertório com portam ental básico, o que justifica a inserção nesta modalidade 
de atendimento clínico. Baumgarth é t al. (1999) discutem o trabalho que vem 
sendo desenvolvido diretamente no ambiente do tratamento de casos psiquiá­
tricos e a relação com a equipe multidisciplinar. Segundo os autores, esse tipo de 
trabalho: facilita a identificação da função de estímulos privilegiando o acesso 
aos dados sobre o cotidiano do cliente, sobre as suas relações familiares e ou­
tras, o que favorece o levantamento de aspectos relevantes para planejamento 
e intervenção; possibilita a explicitação da contingência no m om ento em que 
está ocorrendo; ajuda na discriminação imediata e na aprendizagem de novos 
elementos do repertório com portam ental do cliente; propicia a conseqüen- 
ciação imediata - discriminação, reforçamento e desenvolvimento de padrões 
comportamentais compatíveis com a prom oção da saúde; facilita as relações 
familiares, através do feedback a respeito de episódios observados; e permitem om ento
- com exceção das relações vividas pelo cliente com o terapeuta, dentro da ses­
são, que seriam semelhantes àquelas vividas fora e que, conseqüentemente, per­
mitiriam observação e manipulação diretas de algumas variáveis relevantes.
Ainda sobre o segundo momento, podemos afirmar que o d iente chega 
ao consultório tendo a habilidade de descrever, em algum grau, aspectos de 
sua vida que, a seu ver, estão relacionados com seu sofrimento. A descrição das
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experiências vividas já é um comportamento produzido na história individual 
do cliente, e uma primeira perspectiva de intervenção do terapeuta se daria so­
bre a qualidade dessa descrição. Com a intervenção verbal, o terapeuta é capaz 
v de modelar e /o u instruir uma resposta de auto-observação e autodescrição, de 
m odo a tomá-la mais consistente e precisa.
Poderíamos dizer que a descrição do cliente foi controlada por uma regra do 
^ terapeuta quando este instrui a resposta de descrever do cliente. Isto é diferente do 
que ocorre quando o terapeuta modela, com suas respostas verbais, a descrição de 
^contingências. Nesse sentido, não podemos afirmar que toda resposta verbal do te-
i ^apeuta funciona como uma regra - estímulo antecedente - que controla a respos­
ta do cliente. É possível que uma resposta verbal do terapeuta funcione como um 
estímulo conseqüente à resposta veibal de descrição do cliente, modelando-a.
Dados experimentais indicam que a resposta verbal, quando modelada, 
produz um controle mais consistente sobre a resposta relatada do que quando 
o mesmo relato verbal é instruído (Catania, Matthews & Shimoff, 1982).*
Antes da produção desses resultados experimentais, Skinner (1994), em 
escrito de 1953 sobre psicoterapia, afirma que o terapeuta produz mudança no 
diente de maneira mais eficaz quando, ao invés de descrever “qual a solução 
para o problema” (idem, p. 360) favorece a percepção do próprio diente sobre o 
que está errado para que ele descubra sua própria solução. Ao que tudo indica,
o autor defende a modelagem da resposta de autodescrição como mais efetiva 
do que a emissão de regras pelo terapeuta - para produzir mudanças no com­
portam ento não-verbal do cliente. Sobre isso, afirma:
Quando o próprio paciente vê que está errado, não é o fato de que a 
soluçãopartiu de dentro dele que é importante, mas o que importa é que, 
para descobrir sua própria solução, seu comportamento com relação ao 
problema deve ter se alterado enormemente (...) deve ser consumada 
um a mudança substancial se o indivíduo tem que identificar as variáveis
8 Pesquisas sobre a relação entre relato verbal e o responder não verbal investigam diferentes 
parâmetros das contingências em vigor que podem estar relacionados a um maior ou menor 
controle da resposta verbal sobre a não-verbal (Arnorim, 2001; Ceruttí, 1991; Rosenfarb, New- 
land, Brannon & Howey, 1992; Torgrud 8c Holbom, 1990).
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importantes. Uma solução que parte do sujeito representa, assim, um 
considerável grau de progresso. N enhum progresso semelhante está im­
plícito quando o terapeuta enuncia a solução. A terapia consiste, não em 
levar o paciente a descobrir a solução para o seu problema, mas em mudá- 
lo de tal modo que seja capaz de descobri-la. (Skinner, 1984, p. 361)
Mesmo que o cliente descreva as contingências, não se garante que essa 
descrição funcione como estímulo antecedente para uma outra resposta. Esse 
seria o terceiro m om ento do processo descrito por Sério et al. (2004). Para que 
qualquer estímulo antecedente (verbal ou não) afete uma resposta, é necessária 
utna história de reforçamento diferencial em que o critério para o reforçamen- 
to da resposta seja a sua emissão na presença tam bém desse estímulo.
Se o objetivo final da terapia analítico-comportamental não é a autocons­
ciência por si só e sim a mudança no padrão compoitamental responsável pelo 
sofrimento do indivíduo, toma-se relevante investigar se as descrições continua­
mente aprendidas e refinadas no processo terapêutico funcionarão como uma va­
riável relevante para a mudança na relação do sujeito com o mundo. Isso depende­
rá de uma história pregressa de reforçamento da resposta de seguir regras, além da 
relação estabelecida entre terapeuta-diente, de modo que análises elaboradas na 
relação com o terapeuta controlem o responder do cliente fora do consultório.
A resposta emitida pelo cliente fora do consultório, prim eiram ente de­
vido a análises produzidas na terapia, irá se m anter se os reforçadores forem 
diretam ente produzidos pela resposta do cliente (regra do tipo conselho) e 
se não estiverem sob poder exdusivo do terapeuta (regra do tipo mando). Se o 
terapeuta não planejar sua intervenção de m odo que o cliente fique sensível 
predominantemente às conseqüêndas intrínsecas do seu responder, corre-se
o risco de o responder do cliente ficar sob controle somente da "conseqüen- 
ciação” provida pelo terapeuta à resposta de agir de acordo com as descrições 
elaboradas. Nesse caso, as contingências extraconsultório que a regra descre­
ve podem m udar e o sofrimento advindo da relação com o ambiente não, já 
que tanto a descrição como o responder permanecem sob controle do reforço 
social, extrínseco, liberado pelo terapeuta - fenômeno denominado insensibi­
lidade às contingências.
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QUANDO A TERAPIA VERBAL É INSUFICIENTE PARA PRODUZIR MUDANÇAS 
1 COMPORTAMENTAIS
Pérez-Álvarez (1996) discute se a característica verbal da terapia no con­
sultório pode limitar seu alcance, principalmente nos casos de pacientes graves 
? - íòra do ambiente institucional talvez porque eles apresentem problemas 
v Oiais complexos, que não aparecem durante a sessão terapêutica e, portanto, 
não podem ser diretamente observados ou reforçados.
O autor caracteriza o limite da terapia verbal de consultório baseado nos 
critérios de gravidade do caso e na complexidade do problema; e, ainda, no 
não-aparecimento dos comportamentos alvo na sessão terapêutica - o que im- 
y pediria a observação e reforçamento deles.
Zamignani (1997) parece concordar com a proposta de Pérez-Álvarez
I (1996), ao defender que o relato verbal permite ao terapeuta comportamental
,1
T trabalhar de maneira eficiente no consultório, a partir da análise funcional,
i principalmente em casos menos graves e que, no atendimento de casos psiquiá- 
tricos mais graves, a impossibilidade da atuação direta no ambiente do cliente 
pode ser um problema.
Apesar de concordar com Pérez-Álvarez (1996) no critério de gravidade 
.1 do caso, como um limite do alcance da terapia verbal, Zamignani (1997) não 
considera a complexidade do problema trazido pelo cliente como um definidor 
da gravidade do caso. Provavelmente, a inexistência dessa discussão deva se à 
consideração de que toda e qualquer relação entre homem e ambiente é com­
plexa por definição, em acordo com Banaco (1997), que retoma a multídeter- 
minação do comportamento. Assim, quando Pérez-Álvarez (1996) refere-se 
aos comportamentos que foram alvo de intervenção, pelos modificadores do 
comportamento, como não-complexos, parece referir-se à restrição da com­
preensão das muitas e intricadas variáveis relacionadas à origem e manutenção 
de uma resposta e não à natureza do comportamento.
De qualquer maneira, ambos consideram a terapia verbal insuficiente, a 
depender da gravidade do caso. Mas não apresentam uma definição comporta­
mental acerca do que seria um caso mais ou menos grave, ou seja, quais carac­
terísticas desses casos limitariam o alcance de uma terapia verbal.
Baumgarth, Guerrelhas, Kovac, Mazer & Zamignani (1999) aproximam-se
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de uma caracterização de “repertório básico de com portam ento” (p. 167) cuja 
existência viabilizaria a terapia verbal, a saber-, comportamento de interação 
com outros homens, habilidades de linguagem que possibilitema com uni­
cação e habilidades físicas e motoras que permitam contato e exploração do 
mundo. Supõe-se, portanto, que a ausência desses padrões comporta mentais 
estaria relacionada com uma maior gravidade do caso em questão e justificaria 
a intervenção em contingências extraconsultório.
Os autores destacam que as contingências presentes na vida cotidiana pos­
suem maior variabilidade de estimulação do que aquelas do ambiente da terapia 
tradicional. Essa maior gama de estímulos aumenta a probabilidade de que no­
vas respostas sejam evocadas e possam ser reforçadas diferencial mente, seja pela 
conseqüência diretamente produzida pela resposta do cliente, seja pela ação do 
terapeuta. Nesse sentido, a atuação fora do consultório pode favorecer tanto a am­
pliação na classe de estímulos antecedentes e conseqüentes que passam a afetar as 
respostas como a diversidade das respostas que compõem o repertório do cliente.
Qualquer lacuna no repertório comportamental básico do cliente iden­
tificada pelo terapeuta via análise de contingências, e indentificada como res­
ponsável pelo sofrimento, deve ser suprida por meio do planejamento de con- 
dições que favoreçam a aprendizagem de novas respostas ou novos controles 
ambientais. Vale atentar que é fundamental o terapeuta destrinchar essa lacuna 
comportamental e avaliar quais com portam entos serão primeiramente desen­
volvidos, de m odo a facilitar a aquisição de outros. A cada etapa desse processo 
contínuo, cabe ao terapeuta analisar quais as melhores condições de aprendi­
zagem e como elas deveriam ocorrer.
O atendimento no consultório tem algumas desvantagens, provenientes 
de déficits no repertório verbal necessário para exercer a função de ouvinte e 
falante na relação terapêutica de consultório, o que pode ser minimizado se a 
atuação ocorrer diretamente no ambiente do cliente.
No consultório, toda informação acerca da vida do cliente é obtida via 
relato verbal. Caso a lacuna com portam ental seja exatamente no repertório 
de auto-observação e descrição das experiências vividas fora do consultório, a 
atuação relevante deve ocorrer com o objetivo de propiciar a aquisição de uma 
resposta verbal sob controle do próprio comportamento.
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Valeria notar que o déficit em questão refere-se ao segundo momento da 
história a partir da qual respostas podem ser afetadas pela descrição de contin­
gências, descrito por Sério et al. (2004). A ausência de repertório autodescriti- 
vo impossibilita a análise de contingências por parte do terapeuta e também 
a capacidade de ser afetado pela descrição de contingências como estímulos 
ambientais.
Tal intervenção poderia ser realizada dentro do consultório; no entanto, a 
aprendizagem da resposta autodescritiva seria potencializada se ocorresse no am­
biente do cliente, pois o terapeuta teria acesso direto às variáveis ambientais que 
afetam o comportamento do sujeito e poderia favorecer, via modelagem ou m o­
delação, a emissão da resposta de descrição dessa relação. Portanto, em casos de 
déficit nesse repertório, o atendimento fora do consultório parece apropriado.
Baumgarth et al. (1999) apresentam um outro aspecto relevante para que 
a terapia verbal de consultório seja efetiva:
Para que haja um a aprendizagem satisfatória, é necessário que o 
cliente demonstre capacidade de generalizar conteúdos aprendidos no 
consultório, para outros ambientes e relacionamentos (. ..) testando por 
si próprio as hipóteses levantadas no consultório. Quando o cliente testa 
estas hipóteses, pode estar gerando alterações nas contingências que 
tragam conseqüências que poderão contribuir para aprendizagem e ma­
nutenção do repertório alternativo sugerido. (Idem, pp. 167-168)
Provavelmente, os autores aqui se referem ao terceiro momento da his­
tória a partir da qual alguém pode ser afetado pela descrição de contingências, 
descrito por Sério et al. (2004), a saber, quando essa descrição adquire função 
de estímulo antecedente capaz de controlar uma resposta.
Se o terapeuta nota que o cliente apresenta dificuldades de ser controlado 
por uma descrição verbal, seja dele mesmo ou do terapeuta, então deveria 
analisar quais as possíveis variáveis responsáveis por isso e atuar diretamente 
sobre elas. Propomos uma primeira aproximação a essa questão com base no 
olhar para a tríplice contingência descrita por Todorov(1985) nos seguintes 
termos:
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Uma contingência tríplice especifica (1) um a situação presente ou 
antecedente, considerada discriminativa pela função controladora que 
exerce sobre o comportamento; (2) algum com portam ento do indiví­
duo, que se emitido na presença de tais estímulos discriminativos, tem 
como conseqüência (3) alguma alteração no ambiente, que não ocor­
reria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência dos referidos 
estímulos discriminativos ou (b) se o com portam ento não ocorresse. 
(Idem ,p. 75)
A questão, então, seria: o que leva um cliente a não agir de acordo com as 
análises feitas pelo terapeuta? Ou seja, quais seriam as variáveis relacionadas à 
não-emissão da resposta de seguir as descrições verbais elaboradas no contexto 
do consultório?
Uma primeira possibilidade refere-se ao segundo termo da contingência, à 
não-existênda da resposta descrita no repertório do sujeito. Isto é, o cliente não 
segue a regra porque não é capaz de emitir a resposta. Por exemplo: o terapeuta 
discute com o cliente a respeito da possibilidade de ele conhecer novas pessoas 
e ele não sabe emitir respostas de aproximação social, como fazer perguntas a 
respeito dc algum assunto ou manter contato visual. Nesse caso, o déficit não 
estaria no repertório de seguir regras, mas naquele relacionado à interação 
social. Se assim fosse, a intervenção terapêutica deveria se dar sobre o desen­
volvimento do repertório, o que seria facilitado pela modelagem ou modelação 
no ambiente natural do cliente.
Outra possibilidade relaciona-se ao primeiro termo, ou seja, a um a falha 
no controle pelo estímulo antecedente, sobre a resposta de seguir a descrição 
e /o u sobre a resposta descrita. No primeiro caso, o terapeuta deveria avaliar 
a capacidade operante de seguir uma regra, buscando investigar a história de 
seguir regras do cliente e intervindo nas variáveis cruciais para o controle desta 
resposta. Por exemplo, pensemos em um adolescente que é altamente refor­
çado por burlar e /o u contrariar sugestões feitas por adultos. A intervenção, 
nesse caso, deveria focar a relação terapêutica, de m odo que a generalização 
de estímulos “adulto/terapeuta" se altere. Esse processo só seria possível se o 
terapeuta "conseqüendasse" as respostas do cliente de maneira diferente dos
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membros da dasse de estímulos "adultos”. Essa é uma questão cuja superação 
independe do locus no qual a terapia ocorre.
No segundo caso, o cliente teria um histórico de seguir descrições, mas o 
estímulo não-verbal controlaria mais fortemente a resposta (oposta ao curso 
de ação sugerido) do que o estímulo verbal. Por exemplo, um dependente quí­
mico dedde evitar o consumo de drogas, mas em contato direto com esse es­
tímulo o utiliza, apesar de "dizer querer” o contrário. Nesse caso, o terapeuta 
poderia propor um a intervenção direta no ambiente no qual há a possibilidade 
j de emissão da resposta de consumo (mais provável), com vistas a propiciar 
auxílio na manipulação dos estímulos antecedentes (autocontrole) e evocar 
respostas alternativas e /o u de enfrentamento. Em casos como esse, a saída 
seria a intervenção fora do consultório, em virtude do fraco controle verbal 
sobre a resposta não-verbai.
Uma última possibilidade refere-se ao terceiro termo da contingência, isto 
é, aos estímulos conseqüentes que mantêm o responder. Nesse caso, o cliente 
teria a resposta descrita em seu repertório, seria sensível à condição na qual, se 
emitida, a resposta seria reforçada, mas não seguiriaas descrições: por não ser 
afetado pelas conseqüêndas da resposta descrita ou por haver sinalização de pu­
nição se a resposta descrita for emitida. Em relação ao primeiro caso, podemos 
a ta r, por exemplo, uma pessoa deprimida, com baixa freqüênda de respostas 
mantidas por reforçamento positivo (como respostas de interação social) e alta 
freqüência de respostas de fuga/esquiva, geralmente passivas. Esse cliente po­
deria dizer que ‘‘sabe que precisa” sair com os amigos para se sentir melhor, 
que se divertia, no passado, ao sair de casa, mas que, entre sair e continuar em 
casa, emite a segunda resposta. Diante dessa situação, o terapeuta poderia pri­
vilegiar a atuação no ambiente natural, de modo a aumentar a probabilidade 
das respostas em baixa freqüênda, garantindo m enor custo de resposta e maior 
probabilidade de reforçamento, inclusive no inído, servindo como reforçador 
condicionado. Devereria-se, então, planejar a passagem do controle pelo tera­
peuta para o controle pelos reforçadores intrínsecos.
Esse exemplo nos indica que não é porque o terapeuta sai do setting clínico 
que as variáveis a serem manipuladas são aquelas naturalmente relacionadas ao 
seu responder, na ausência do terapeuta. Mesmo no ambiente extraconsultório,
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o terapeuta deveria garantir a passagem do controle arbitrário para o controle 
intrínseco, além de garantir o desenvolvimento de um repertório de autonomia 
do diente em relação às ações do terapeuta.
Por fim, um diente pode não agir de acordo com as descrições verbais pro­
duzidas no contexto terapêutico porque, se assim o fizesse, entraria em contato 
com estimulações aversivas. Nesse caso é possível a existênda de diferentes gra­
dações na aversividade da situação bem com o da combinação ou não com con- 
seqüêndas reforçadoras, o que estabeleceria um conflito entre conseqüências. 
Esgotar, nesse m om ento, todas as possibilidades de conflito comportamental 
escapa dos objetivos deste capítulo. De qualquer modo, caberia ao terapeuta 
analisàr m om ento a m om ento se sua atuação no ambiente natural seria funda­
mental para a promoção de mudança. Por exemplo, o terapeuta poderia consi­
derar pertinente acompanhar seu cliente na realização de um exame doloroso e 
urgente, mas necessário ao cuidado de sua saúde, o que teria probabilidade bem 
reduzida de se realizar sem essa ajuda; porém , pode considerar impertinente 
sua presença na casa do d iente quando ele tem um conflito familiar a resolver. 
Nesse caso, o terapeuta poderia intervir convidando os envolvidos no conflito 
a participar de uma sessão conjunta no intuito de discutir os padrões compor- 
tamentais dos que geram sofrimento.
Vale ressaltar que nem sempre o que se interpõe ao trabalho do terapeuta é 
de natureza da insufidênda do verbal e / ou do setting de consultório. Ainda que 
se prime por uma análise cuidadosa e pertinente das contingêndas em vigor na 
vida dos clientes e que se atue diretamente sobre elas, em última instânda, no 
ambiente natural haverá sempre um limite de alcance da terapia, naturalmente 
colocado pela multideterminação do com portam ento humano.
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75
V .
-ff
C A P I T U L O 3
O ambiente natural como fonte de dados para 
a avaliação inicial e a avaliação de resultados: 
suplantando o relato verbal1 
Denise de Lima Oliveira e Nicodemos Batista Borges
Quando o cliente chega até nós, vem em busca de autoconheci 
íento ou, o que é mais comum, em busca de alívio de um sofrimento. Diante 
dessas circunstâncias, nosso papel como terapeutas analítico-comportamen- 
ís é descobrir juntam ente com o cliente as contingências desencadeantes 
(avaliação funcional) de seu comportamento e, quando necessário, desenvol­
ver estratégias para alterá-las de modo a minimizar o sofrimento proveniente 
delas (Banaco, 1999).
Mas como se dá o processo terapêutico pelo qual poderemos ajudar nos­
sos clientes? O processo terapêutico consiste de três etapas: avaliação inicial, 
intervenção e avaliação dos resultados. Vejamos brevemente cada uma delas.
ETAPAS 0 0 PROCESSO TERAPÊUTICO
A avaliação inicial é antes de tudo um a avaliação funcional e se dá pela 
formulação do caso em termos de relações funcionais entre os comportamen- 
tos-problema apresentados pelo cliente e suas interações com as variáveis am­
bientais; ou seja, na compreensão do comportamento-problema e dos eventos
1 O relato de caso apresentado no presente trabalho é derivado da dissertação de Denise de 
Lima Oliveira, desenvolvida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experi­
mental: Análise do Comportamento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
77
que fazem com que este comportamento se mantenha, causando sofrimento 
para o cliente ou seus pares.
A segunda fase do processo terapêutico é a intervenção, o período em 
que o terapeuta, ou o acom panhante terapêutico, prom ove alterações nas 
relações entre com portam ento-problem a e variáveis m antenedoras. Essas 
alterações podem vir tanto do cliente como do ambiente. Porém, em se tra­
tando de terapia, em geral essa intervenção parece se dar pela m udança da 
forma como o cliente responde às situações, conseqüentem ente alterando as 
interações. O terapeuta tem, portanto, o papel de auxiliar seu cliente a respon­
der de modo a produzir as conseqüências necessárias, sem que estas venham 
acompanhadas de sofrimento, ou seja: seu papel é otimizar as relações entre 
o cliente e seu ambiente, para que ele consiga ter um a vida com qualidade, na 
qual ele tenha acesso a reforçadores e consiga dim inuirão máximo as relações 
por controle aversivo.
Após o processo de intervenção cabe ao terapeuta avaliar os resultados 
para que se possa planejar a alta do cliente. Esta etapa da terapia faz parte de 
um a avaliação final (avaliação funcional), na qual se observa se as interações do 
cliente com seu ambiente foram alteradas e se as novas relações estabelecidas 
estão sendo benéficas para o cliente e para o ambiente, pois só assim elas pode­
rão se manter.
Quando falamos em avaliação, inicial ou final, referimo-nos à avaliação 
funcional e , como veremos, ela é a ferramenta essencial para um bom processo 
terapêutico. Porém, antes de falarmos sobre a avaliação funcional é im por­
tante destacar que, apesar da divisão didática das etapas do tratam ento aqui 
apresentada, na prática essas divisões não existem. Um processo terapêutico 
vconsiste em avaliações e intervenções constantes, desde seu início até seu fim. 
Ao darmos início à avaliação funcional, já estamos alterando o com portam ento 
de nosso cliente e, assim como ocorre quando interviemos sobre seu compor­
tamento, devemos avaliar os efeitos produzidos pelas perguntas que fazemos 
ao cliente ao longo da coleta de dados e pelas descrições que fazemos de seu 
com portam ento ao sintetizarmos as informações coletadas,* em outras pala­
vras, o processo terapêutico é feito de avaliações e intervenções contínuas, 
portanto, a divisão aqui apresentada é puram ente didática.
78
Nosso objetivo neste capítulo é tratar da importância da observação em 
ambiente natural na formulação da avaliação inicial e de resultados, porém, 
antes disso, é necessário abordar brevemente o que se entende por avaliação 
funcional.
A AVALIAÇÃO FUNCIONAL
De acordo com Meyer (1999; 2003), a avaliação funcional é o instrumen­
to básico de trabalho do analista do comportamento, que possibilita a identi­
ficação de contingências (relações estabelecidas entre organismo e ambiente
- Banaco, 1999), a predição e o controle do comportamento.
Na literatura encontra-se comumente o nome análise funcional como refe­
rência à etapa inicial do tratamento (Keefe, Kopel & Gordon,1980; Meyer, 1999, 
2003). Entretanto, segundo Carr, Langdon ôí Yaibrough (1999), análise funcional 
envolve controle experimental e manipulação de variáveis, ou seja, é um pro­
cedimento análogo à execução de um experimento, o que dificilmente ocorre 
num a avaliação funcional em settingclínico. Na situação clínica, freqüentemen­
te, utilizamos a entrevista - e em alguns casos a observação - e interpretamos os 
dados coletados com base em conceitos desenvolvidos pela análise do compor­
tamento. Visto que são interpretações das relações entre o organismo (resposta) 
e o ambiente (estímulo), e não manipulações de variáveis, parece mais preciso e 
adequado chamar esse procedimento de avaliação funcional, conforme sugerido 
em trabalhos mais recentes (Carr, Langdon & Yarbrough, 1999; Meyer, 2003).
A avaliação funcionai pode ser dividida em etapas. Meyer (2003) propõe 
a seguinte divisão:
a) identificação dos comportamentos de interesse (comportamentos-pro- 
blema) - levantamento junto ao cliente dos comportamentos-problema 
que ele apresenta. Esse levantamento deve ser feito em termos de ação, 
evitando qualificá-las. Exemplo: "P. pegou a cadeira da sala de aula e 
jogou-a em outro menino que estava sentado próximo a ele”. Devemos 
evitar descrições do tipo "P. foi agressivo porque estava com raiva”;
b) identificação e descrição das características dos comportamentos de in­
teresse (chamadas pela autora de efeitos comportamentais) - a duração, 
a freqüência com que ocorrem e seus graus de intensidade;
79
c) identificação das relações entre eventos ambientais (estímulos) e os com- 
portamentos-problema (respostas do cliente) - condições antecedentes 
e conseqüentes relacionadas a cada comportamento-problema (respos­
ta). Dc forma resumida, as condiçõesconseqüentes (conseqüências), são 
eventos subseqüentes e contingentes a um a resposta. Já os eventos ante­
cedentes são condições sob controle das quais a resposta ocorre.
Geralmente, o processo de avaliação funcional é feito através de,entrevis­
tas. Segundo De Rose (1997), a entrevista é a fonte de dados mais amplamente 
utilizada em psicologia e, durante sua condução, o olhar do psicólogo deverá 
éstar voltado para as relações estabelecidas entre eventos ambientais e as ações 
do organismo.
A realização da entrevista é fundamental para se estabelecer a relação com o 
cliente, obter informações e influenciar e dirigir esforços para a mudança do com­
portamento-problema (Keefe, Kopel & Gordon, 1980). Além disso, a entrevista é 
uma importante fonte para a seleção das variáveis a serem observadas e manipu­
ladas em uma análise funcional, pois ela propicia um primeiro levantamento de 
comportamentos-problema a serem avaliados e permite identificar algumas de 
suas prováveis variáveis de controle (Garr, Langdon & Yarbrough, 1999).
Entretanto, a entrevista pode se mostrar insuficiente como ferramenta para 
formulação da avaliação funcional, já que o relato verbal está sujeito a limita­
ções, que podem ser decorrentes de falhas no processo de atenção ou memória, 
de problemas com relação à acessibilidade do falante aos estímulos relevantes 
ou de distorções - deliberadas ou não - por parte do cliente (De Rose, 1997).
Nos casos em que a entrevista é insuficiente para a formulação da avalia­
ção funcional, é recomendada a utilização da observação em ambiente natural, 
ferramenta que pode suplem entar a entrevista na obtenção de dados para a 
formulação da avaliação funcional.
OBSERVAÇÃO EM AMBIENTE NATURAL COMO FERRAMENTA PARA A FORMULAÇÃO 
DA AVALIAÇÃO FUNCIONAL
A observação em ambiente natural pode suplantar a entrevista clínica na 
obtenção de dados. Através dela é possível levantar dados relativamente mais
80
confiáveis sobre o comportamento de interesse. O registro dos eventos na or 
dem em que eles acontecem pode impedir algumas das distorções que tipica­
mente envolvem o levantamento de dados por meio de entrevista. As informa­
ções produzidas a partir da observação, quando somadas àquelas previamente 
obtidas numa entrevista, permitem a formulação de uma avaliação funcional 
mais precisa, a qual proporcionará ao terapeuta uma maior clareza na escolha 
da intervenção aser feita.
De acordo com Danna & Matos (1999), o uso da observação como forma 
de coleta de informações aumenta a probabilidade de que o observador fique 
sob influência do que acontece na realidade, ao invés de se pautar em suposi­
ções, interpretações e preconceitos.
O m étodo de observação em ambiente natural consiste no registro de 
eventos por amostragem ou na obtenção de exemplos diretos de ocorrência 
dos comportamentos-problema.
Através da observação em ambiente natural é possível acessar diretamen­
te os comportamentos-problema que são o foco da queixa do cliente, as carac­
terísticas deste comportamento problema, e as relações entre os comporta­
mentos-problema e as variáveis ambientais. Por essas razões, Carr, Langdon ÕC 
Yarbrough (1999) elegem a observação como uma ferramenta complementar 
importante para a elaboração da avaliação funcional.
O que ocorre tipicamente é que durante a entrevista são identificados os 
comportamentos-problema e suas interações com o ambiente, para posterior­
m ente serem definidas as estratégias das sessões de observação de maneira mais 
sistemática2, permitindo a coleta de dados em relação aos comportamentos- 
problema que serão utilizados na avaliação funcional.
De acordo com Danna 8C Matos (1999), a observação permite identifi 
car as deficiências existentes, as variáveis que afetam o comportamento e os 
recursos disponíveis no ambiente para que eventuais mudanças sejam imple­
mentadas. Esses recursos facilitam a escolha das técnicas e dos procedimentos
2 Segundo Danna & Matos (1999), uma observação é chamada de sistemática por ser planejada 
e conduzida de acordo com o objetivo anteriormente definido. De acordo com as autoras, 
planejar as observações significa estabelecer onde, quando, quem, o que e como elas serão 
conduzidas.
«1
mais adequados para atingir os objetivos pretendidos. Além disso, ressaltam 
as autoras, a observação é im portante para avaliar a eficácia das técnicas e os 
procedimentos adotados.
Se, por um lado, a observação em ambiente natural é eleita como ferramen­
ta importante na formulação da avaliação funcional, por outro, ela traz consigo 
um problema: seu custo. Uma observação em ambiente natural exige maior 
disponibilidade de tempo do terapeuta (não só para a observação, que deve acon­
tecer algumas vezes na semana, como também para o deslocamento até o local 
no qual o cliente convive), o que é revertido em maiores custos para o cliente.
i Por se tratar de um procedimento muitas vezes essencial para um a ava­
liação funcional eficiente, alguns recursos são utilizados de m odo a diminuir os 
custos. Um dos recursos utilizados por equipes de saúde mental é o trabalho de 
acompanhantes terapêuticos (AT), em geral realizado por estudantes de psicologia 
ou psicólogos recém-formados. Como o AT é um profissional com maior dispo­
nibilidade e cujos honorários tendem a ser mais acessíveis em função de sua me­
nor experiência, sua inserção em uma equipe pode viabilizar a observação em 
ambiente natural para uma gama maior de casos para os quais ela é necessária.
Hoje há cursos especializados para a formação desse profissional. A con­
tratação de um AT que tenha feito cursos específicos aumenta a probabilidade 
de um serviço de melhor qualidade. O utro fator que pode garantir o sucesso de 
uma observação em ambiente natural é a boa relação entre o AT e o profissional 
responsável pela condução do caso (psicólogos e psiquiatras), pois esse profissio­
nal poderá orientar o AT sobre como as observações deverão ser conduzidas.
A observação em ambiente natural, em geral, interfere no com porta­
m ento dos observados (cliente e seus pares), o que pode influenciar a qualida­
de dos dados registrados. Entretanto, esse problema pode ser minimizado por 
meio da extensão da duração da observação. Segundo Hart & Risley (1995), 
para a obtenção de informações mais fidedignas, a observação deveria durar 
no m ínim o um a hora, pois é mais difícil que as pessoas m antenham com ­
portam entos diferentes de seu responder em situação natural por um tem po 
prolongado. Além disso, a observação deveria se iniciar depois de o observa­
dor conversar com os observados (ropport), e esses se envolverem em suas 
atividades cotidianas.
82
ICONDUZINDO A OBSERVAÇÃO
É importante que o registro dos dados obtidos por meio da observação seja
o mais completo e preciso possível, devendo refletir o que de feto ocorreu e re- 
Ipresentar todas as instâncias do comportamento-problema ocorrido no período 
de observação (Johnston & Pennypacker, 1993). Os dados registrados devem in 
fluendar o comportamento do terapeuta e /o u do acompanhante terapêutico, 
. Servindo como estímulos que levam o terapeuta e o AT a agirem enquanto o tra­
balho progride. Esses estímulos modelam as decisões de intervenção anteriores 
e influenciam as interpretações a serem desenvolvidas pela equipe.
Vale ressaltar que a exigência apresentada por Johnston & Pennypacker 
(1993) de que a observação seja completa é inviável em um contexto de apli- 
. cação clínica, pois para isso seria necessário que a observação fosse contínua, 
ou seja, feita o tempo todo - o que dificilmente ocorrerá. As observações na- 
J turais que fazemos são descontínuas, todavia, artifícios podem ser utilizados 
,, para sanar (pelo menos em boa parte) esse problema. As observações podem 
■ ser divididas em períodos que garantam a representatividade dos comporta- 
mentos-problema. Por exemplo, observações em períodos diferentes do dia 
poderiam possibilitar maior representatividade desse comportamento.A estratégia de observação e o registro do comportamento do cliente de- 
v vem ser definidos anteriormente entre o AT e o profissional responsável pelo 
caso, que juntos tomarão a decisão de como conduzi-los baseando-se nas infor­
mações levantadas na entrevista e, em alguns casos, numa revisão bibliográfica 
sobre o assunto. Com base nesses achados, os profissionais delimitarão quais 
informações sobre o comportamento-problema podem ser importantes e o 
| que deve ser observado e registrado.
Um relato de observação precisa ser objetivo. Para tanto o observador 
deve evitar:
a) termos que designem estados subjetivos: o observador deve descrever 
aquilo que observou;
b) atribuição de intenções ao sujeito: ao invés de interpretar o observador 
deve descrever as ações;
83
c) atribuição de finalidades à ação observada: o observador deve descre­
ver o comportamento e as circunstâncias em que ela ocorre (Danna & 
Matos, 1999).
Vejamos dois exemplos de relato;
Exemplo 1 - correto
João pega o controle da m ão do pai e m uda de canal, o pai pega o con­
trole da m ão de João e coloca no canal anterior. João pega o controle, desliga 
a televisão e sai correndo com ele para o quarto. Seu pai vai atrás e começa a 
'conversar, diz em tom de voz mais alta do que as anteriorm ente observadas: 
“papai não gosta que você faça isso, isso é feio e deixa o papai m uito triste, 
dessa maneira o papai não vai gostar mais de você”. O pai pega o controle e 
volta para a sala.
Exemplo 2 - incorreto
João, por sentir-se sozinho e querendo atenção, pega o controle da mão 
do pai e muda de canal. O pai bravo pega o controle e coloca no canal anterior. 
João, querendo brincar, pega o controle e corre para o quarto. O pai não agüen­
ta mais o mau comportamento dejoão, briga com ele, pega o controle e volta 
para a sala.
Note que no prim eiro exemplo há um a descrição das ações na ordem de 
seu acontecimento; é um a observação mais "pura", pois relata com o os fatos 
aconteceram, sem atribuir a eles intenção, finalidade, qualificações ou esta­
dos subjetivos. N o segundo exemplo, o observador comete dois erros: supõe 
as intenções que levaram às ações ("querendo atenção”) e faz julgam entos 
ou registros não-descritivos (o pai “briga com ele”). O registro dos com porta­
mentos observados deve ser feito de form a clara e precisa, registrando-se as 
ações e evitando term os amplos, indefinidos ou vagos e expressões ambíguas. 
Só depois de se observar o registro jun tam ente com o profissional respon­
sável pelo caso é que serão form uladas hipóteses funcionais a respeito das 
situações registradas.
84
Para uma observação ser objetiva, clara e precisa, o observador deve uti- 
jtlizar verbos que descrevam a ação observada e termos que identifiquem os 
H objetos ou pessoas presentes e referenciais físicos (Danna ôí Matos, 1999).
Outra decisão a ser tomada, antes de iniciar as observações, é se o registro 
| |$ a s observações será feito de forma cursiva ou por categorias. O registro cur- 
ilfivo consiste em anotar as observações exatamente como elas acontecem e na 
|ójrdem que acontecem, de forma seqüencial, sem preocupação com categorias 
||>ü funções das respostas. O primeiro exemplo descrito anteriormente caracte­
r iz a um registro cursivo (outro exemplo pode ser observado no Anexo I).
No registro por categorias, o observador registrará comportamentos es­
pecíficos, já anteriormente definidos (geralmente nas primeiras sessões de ob- 
lliervação). Dessa forma, antes de começar a observar e registrar, o observador 
Hprecisará agrupar esses comportamentos em categorias que devem ser m utua­
lm e n te exclusivas (um comportamento só pode se enquadrar em uma das cate- 
)rias); após essa definição, o observador registrará a ocorrência de respostas 
^ de cada categoria no tempo determinado, sem precisar descrevê-las.
Independentemente da escolha pelo registro cursivo ou por categorias, 
|f aconselha-se levar folhas de registro (protocolo de observação) para garantir 
! uma observação mais producente. Especificamente para o registro por catego-
I rias, o observador deve levar uma folha de registro com as categorias já definidas 
; anteriormente e com a forma e o tempo de registro das categorias já estabele­
cidos. Esse registro pode ser realizado de diferentes maneiras, dependendo do 
objetivo da observação.
Na Figura 1 apresentamos um exemplo de folha de registro, na qual é pri­
vilegiada a freqüência de emissão de cada com portamentoalvo3 (categoria) no 
tempo para observação de alguns comportamentos de uma criança ao interagir 
com um familiar.
’ O termo "comportamento alvo" está sendo utilizado aqui em detrimento do termo “cora- 
portamento-problema”, pois numa observação muitas vezes podemos querer registrar não só 
comportamentos-problema como comportamentos adequados.
85
Ohsprvarãn n°- _
nata- Período.-
nhw varia (0-
C nntpxtrt-
Categoria
Período (minutos)
0-5 6-10 11-15 16-20 21-25 26-30 31-40 4V45 46-50
Nomear
Descrever
Perguntar
Repetir
Observarnpsr
FIGURA 1 - Modelo de folha de registro utilizada em coleta de dados tom observação sistemática através do registro 
de categorias, privilegiando a freqüência óos romportamentos-problema.
Uma outra forma de registro pode ser desenvolvida quando o objetivo, 
além de registrar freqüência, é obter informações sobre a seqüência com que 
esses comportamentos-alvo (categoria) ocorrem. Conforme pode ser observa­
do na Figura 2.
Para efetuar um registro de categorias adequado, o observador (terapeuta 
ou acompanhante terapêutico) deve ter claro o objetivo do trabalho, pois ele 
norteará a decisão do tipo de registro escolhido.
Outra variável importante para garantir uma boa observação é a familiari­
zação com as categorias registradas e com a folha de registro. Para garantir que 
essa variável não intervenha na observação, aconselha-se que treinos-piloto 
sejam feitos ames da observação, pois assim será menor a probabilidade de 
ocorrência de problemas no andamento da observação.
Um outro método utilizado para garantir ou pelo menos para minimizar 
os problemas de interpretação de categorias é o teste de concordância entre
observadores. Esse método consiste na utilização de dois observadores no am­
biente natural, cada um fazendo seu registro de forma independente do outro, 
c o m posterior comparação entre os registros. Esse procedimento nem sempre 
é possível num processo terapêutico, devido principalmente ao seu custo.
n lK P rv a rã o n°-
IMa- Pprinrto:
ppe realizada tanto para a elaboração da avaliação inicial como para 
a avaliação de resultados.
CASO CLÍNICO
Um menino de cinco anos foi encaminhado para atendimento clínico por­
que "não falava” - na realidade apresentava baixa freqüência de emissão de 
respostas verbais mantinha pouca interação com seus pares e baixo desem­
penho escolar. Além disso, apresentava comportamentos considerados "inade­
quados”, tais como: bater a cabeça, gritar e jogar-se ao chão.
A família desse menino era composta por quatro membros - pai, mãe e 
dois filhos - com perfil, segundo estudo socioeconômico, de classe baixa supe­
rior. A mãe era uma comerciante de 44 anos, que trabalhava no período vesper­
tino e ficava em casa nos demais períodos para cuidar dos filhos. O pai, com 39 
anos, era técnico cm informática, trabalhava em período integral e ficava em 
casa no período noturno e finais de semana, apresentando pouca disponibilida­
de para brincar com os filhos. O irmão, um menino de 10 anos, freqüentava a 2a 
série do çnsino fundamental, apresentava repertório verbal adequado para sua 
idade e bom-desempenho escolar. E3e brincava e assistia filmes com o irmão 
mais novo, sempre cedendo aos seus pedidos.
Após entrevista com a mãe, foi possível levantar a hipótese de que a baixa
freqüência na emissãode verbalizações do menino era decorrente das interações 
estabelecidas entre a criança e seu núcleo familiar, ou seja, função das contin­
gências de reforçamento existentes naquela família, tais como rcforçamento de 
mandos, "inadequados”, extinção de respostas verbais vocais e baixa freqüência 
de verbalizações em direção à criança desde a mais tenra idade.
Percebeu-se que, apenas com entrevistas e orientações dentro do set- 
ting terapêutico, não seria possível distinguir quais seriam as interações res­
ponsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais vocais. O 
levantamento de hipóteses mais precisas a esse respeito seria fundamental 
para que, posteriormente, fossem propostas para a família intervenções di­
retas no ambiente natural. Além disso, ficava extremamente difícil mensu­
rar, com precisão, a freqüência de verbalizações da criança, tanto no início 
do trabalho, quando ela chegou ao consultório, quanto durante e após algu­
mas intervenções.
Baseado no exposto acima, (Oliveira, 2005) foi proposto à família aten­
dimento domiciliar (ambiente natural), com o objetivo de observar as intera­
ções familiares. Tinha-se como objetivo identificar algumas das contingências 
responsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais e pela alta 
freqüência de comportamentos inadequados (que haviam sido relatados na 
avaliação inicial com a mãe). A partir da entrevista e das observações, preten­
dia-se desenvolver procedimentos de intervenção por meio de orientação aos 
pais. Após o período de intervenção, ao longo do qual foram realizadas obser­
vações constantes, pretendia-se avaliar se as mudanças nas interações entre os 
familiares haviam provocado mudanças na freqüência de emissão de repostas 
verbais da criança (avaliação de resultados).
AVALIAÇÃO INICIAL
Para a realização de uma avaliação inicial mais precisa, clara e objetiva, 
foram feitas observações com todos os membros da família presentes. Na pri­
meira observação, estavam presentes a mãe e a criança.
Cada observação teve duração de uma hora (tempo mínimo recomenda­
do) de modo a garantir que os membros da família estivessem engajados em 
suas atividades cotidianas. A observação iniciava-se depois que os familiares
conversassem com a pesquisadora e se envolvessem em suas atividades. Além 
disso, as observações ocorreram sempre no mesmo período do dia, para que se 
tomassem parte da rotina da família.
A forma de registro das interações foi definida com base nos objetivos da 
observação. Como a meta era coletar informações sobre as interações fami­
liares (principalmente as verbais), identificando contingências que pudessem 
diminuir a freqüência de emissão de respostas verbais e aumentar a freqüência 
de comportamentos inadequados, foram utilizadas duas formas de registro. A 
observadora (terapeuta) gravou todas as verbalizações da criança e de quem 
estivesse na residência e anotou em folhas de registro (Anexo II) o que a criança 
estava fazendo» o material com o qual estava em contato, quem estava presen­
te no ambiente e as interações dessas pessoas com a criança. Nesses registros 
foram escritos trechos do diálogo para identificar os eventos no momento da 
transcrição.
Como o foco principal eram as interações verbais, a gravação delas foi 
fundamental, pois permitiu o levantamento ponto a ponto das verbalizações 
da criança e de seus familiares, o que seria quase impossível de se obter sem a 
utilização desse recurso. No entanto, apenas o registro das verbalizaçõespode- 
ria deixar a observação incompleta, pois muitas verbalizações ficariam descon- 
textualizadas no momento da transcrição; por isso a importância das folhas de 
registro para anotar os episódios de apresentação das interações, assim como 
suas consequências, contextos, duração etc. As folhas de registro no inicio das 
observações eram divididas em intervalos de cinco minutos.
AVALIAÇÃO FUNCIONAL INICIAL
A coleta de informações em ambiente natural foi fundamental para a iden­
tificação de contingências de reforçamento que determinavam a baixa freqüên­
cia de respostas verbais da criança. Deforma concreta, foipossível quantificar e 
mensurar essas verbalizações, escapando assim das conotações subjetivas que 
podem estar implícitas no relato verbal, como por exemplo o significado de 
"muito” ou-pouco" para cada pessoa. Para tanto as observações foram trans­
critas e digitadas.
Após transcrição e digitação das observações foram feitas análises quanti' 
tativa e qualitativa das verbalizações emitidas pela criança e pelos outros mem­
bros da família. Foi utilizado um programa de computador - criado para o 
trabalho - que permitiu comparar a quantidade de palavras emitidas por cada 
membro da família, por hora de observação. Além disso, o programa catego­
rizava as palavras de cada membro da família em substantivo, adjetivo, verbo, 
advérbio e outros, para comparação no decorrer das observações e entre os 
familiares.
Foi feita também a divisão e quantificação das verbalizações emitidas peia 
família em sentenças (frases), que depois foram classificadas em categorias para 
análise da função. Essas categorias foram: nomear, descrever, perguntar, re­
petir, ordenar, elogiar, responder, chamar, insistir, ecoar, esquivar, interferir, 
desprezar, verbalizações mínimas e outras.
A partir da avaliação dos dados coletados foi possível verificar que a crian­
ça passava um longo período sozinha assistindo T V , sem que houvesse qual­
quer interação com algum membro da família. Numa das observações a criança 
ficou os 60 minutos da observação di ante d a TV, um período com a mãe e outro 
sozinha. E quando sozinha diante da TV a criança repetia falas dos filmes, sem 
produzir qualquer conseqüência social.
Foi possível observar que a criança chorava e gritava e que tais comporta­
mentos eram seguidos por conseqüências reforçadoras imediatas dispensadas 
pelos pais-os pais faziam o que a criança queria, impedindo que outras respos­
tas tidas como "adequadas” ocorressem. A criança, de fato, não precisava falar 
para obter o desejado (as conseqüências). Além disso, observou-se que o pai 
mantinha poucas interações com o filho, supostamente para se esquivar dessas 
respostas “inadequadas” da criança.
Os pais mostravam-se desatentos às falas do filho, permanecendo em 
silêncio ou em interação com outra pessoa, o que provavelmente levava à ex­
tinção das verbalizações "adequadas” da criança. Além de não responderem 
às falas da criança em tom “adequado”, muitas vezes os pais respondiam ape­
nas após insistência, quando a criança já estava gritando, o que caracterizava 
um reforçamento diferencial de verbalizações em tom ele vado e de respostas 
üidesejadas. ATabela 1 mostra um exemplo desse tipo de interação.
TABELA 1 - Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 14.12.2004. A primeira 
linha indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as 
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Na cozinha, mãe fazendo comida C. grita 
da sala
c. Mãe. 0h, mãe 
(grifando).
Vem logo 
mamãe, 
vem Ioga 
(gritando).
já, isso ai 
(gritando).
Mae
(gritando).
Mamãe
(gritando).
Eunao 
consigo, eu 
não consigo 
(gritando).
M, Pera aí, 
deixa a 
mãe fazer 
a salada. 
Péra aí.
Outra questão importante que foi observada refere-se ao excesso de verbali­
zações da mãe, o que restringia quantidade de verbalizações da criança e do pai. A 
mãe emitia muitas verbalizações em seqüência, sem “dar tempo" para a criança 
responder. Além disso, conseqüenciava com elogios e carinho quando a criança 
se esquivava de responder. A Tabela 2 mostra um exemplo dessas interações.
TABELA 2 - Interação entre a mãe e a criança, retiraria do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha 
indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as 
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Criança olhando o gravador Mãe apontando para a TV
c. 0 que você está 0 que você está É roda roda? Olha o chapéu do Wood, C.
vendo aí, heín?. vendo aí, C.?
M.
INTERVENÇÃO
A partir da avaliação funcional, com base nas hipóteses levantadas, foram 
definidos nove procedimentos de intervenção que deveriam ser realizados pe~ 
los pais, sob orientação da terapeuta. Esses procedimentos foram ensinados 
através de orientação verbal. O principal objetivo era aumentar a freqüência 
de verbalizações e interações da criança com seus familiares e a diminuição
92
dos comportamentos indesejados. De forma geral, as orientações consistiam 
em: reforçamento diferencial de comportamentos alternativos e extinção de 
mandos inadequados; ensino de nomeação; reforçamento de mandos vocais4; 
alteração na freqüência de assistir TV ou jogar videogame; não-punição de res­
postas inadequadas; não-punição de emissões de respostas verbais; alternativa 
para colocação de regras e limites; conseqüenciação de emissão de comporta­
mento verbal; e aumento das verbalizações.
Durante todo esse período, foram feitas sessões semanais de observa­
ção que serviam para verificar a aplicação das intervenções pelos pais. Essas 
observações seguiram o mesmo critério das anteriores (período de avaliação 
inicial), mudando apenas o intervalo da folha de registro de cinco para um mi- 
nu to5. No entanto essas observações não foram transcritas. Elas serviram para 
uma intervenção pontual da terapeuta, logo após a observação, sobre algum 
procedimento adotado pelos familiares. Eram destacados alguns episódios do 
período de observação que exemplificassem a possibilidade de intervenção e 
as mudanças já observadas, conseqiienciando com elogios os procedimentos 
corretos e corrigindo os que tivessem algum erro de aplicação.
AVALIAÇÃO DE RESULTADOS
Para a avaliação de resultados foram feitas duas observações: uma com 
todos os membros da família e outra com a mãe e a criança. Seguindo os mes­
mos critérios do período de avaliação inicial, as observações tiveram duração 
de uma hora e foram feitas no mesmo horário do dia.
O objetivo da avaliação de resultados era verificar se as intervenções rea­
lizadas produziriam alterações na quantidade e qualidade da fala da criança, 
realizando comparação entre o período inicial e final das intervenções. Dessa 
forma, foi seguido o mesmo formato de registro das interações, mantendo a 
alteração realizada durante o período de intervenção (folha de registro com 
intervalo dc um minuto).
4 O capítulo 4 deste livro, de autoria de Denis Zamignani e Yara Nico, apresenta uma discussão 
aprofundada sobre a importância do mando na comunicação funcional.
Essa mudança ocorreu, pois foi verificado que cinco minutos era um tempo muito iongo que 
algumas vezes dificultava a conre.xuialização da fala.
Após as observações, os registros foram transcritos e passaram pelo 
mesmo processo de avaliação realizado na avaliação inicial, pois isso per­
mitiu a comparação dos dados entre os dois períodos.
AVALIAÇÃO FUNCIONAL PÓS-1NTERVENÇQES
Apartirdos dados coletados, foi possível verificar, de forma concreta e mais 
precisa, as alterações no comportamento da criança e de seus familiares, compa­
rando com os comportamentos emitidos durante o período de avaliação inicial.
Para essa análise comparativa, os dados foram agrupados em diversos grá­
ficos, permitindo uma visualização rápida das alterações não só na quantidade 
de. verbalizações emitidas por todos, como no tipo dessas verbalizações (ver 
exemplos no Anexo III).
Foi possível observar mudanças nos comportamentos dos pais (interven­
ção) que produziram alterações nos comportamentos da criança. Como exem­
plo, podemos citar o aumento na conseqüenciação de mandos vocais (pedidos) 
emitidos pela criança. A Tabela 3 mostra um episódio em que o pai está em 
interação com a criança.
TABELA 3 - Interação entre pai e criança, retirada do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha 
indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as 
verbalizações da mãe na terceira linha.
Contexto Pai e irmão sentados no sofá e criança em pé em trente à TV
C. 0 quê? Não. Nào,
papai,
quero
colo.
É,
papai.
M. E aí, 
fílho, 
como é 
que é?
Senta Senta 
aqui, ó, aqui, ó. 
senta com 
o papai.
Você quer 
colo?
(Pega 
criança 
no colo)
É importante ressaltar que, além das intervenções terem produzido mudan­
ças em comportamentos específicos da criança, tais como aumento de pedidos, 
descrição de eventos e nomeação, houve a instalação de novos repertórios, tais 
como a emissão de elogios por parte da criança supostamente em decorrência da 
emissão de elogios pelos familiares (como pode ser observado nas Tabelas 4 e 5).
94
TABELA 4 intesação entre a mãe e a criança, retirada do legistro de observação do dia 3.6.2005.
Contexto Mãe e criança na cozinha, criança vai para a lavanderia e mãe vai em seguida
C. Mãe, fez cocô Olha. 
[referindo-se ao 
cachorro ter feito cocõ 
no lugar certo].
M. Deixa eu ver. Ah, fez mesmo. Fez no lugar 
certo. Parabéns, Butch. Fez 
cocô no lugar certo, muito 
bem! Tá de parabéns.
TABELA 5 - Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 3.6.2005.
Contexto M ãe e criança na lavanderia
c. Butch, tá de parabéns! Muito bem !
M. É, está de parabéns!
CONCLUSÃO
Como pode-se perceber, a observação enquanto estratégia para a obten­
ção de dados permitiu uma intervenção baseada em informações bastante pre­
cisas sobre as relações familiares que produziam e mantinham o comportamen­
to problema em questão.
A intervenção em ambiente natural pôde ser feita de maneira segura e 
eficaz a partir da observação durante todo o proccsso, permitindo dessa forma 
a avaliação de cada etapa desenvolvida ao longo do processo terapêutico. O en­
volvimento de pessoas significativas no arranjo das contingências responsáveis 
pela manutenção do problema pareceu ser de fundamental importância para o 
sucesso terapêutico, deixando demonstrada a eficácia da utilização dc pessoas 
especialmente treinadas para a obtenção das mudanças desejadas.
ANEXO I
Lopez (2006), com o objetivo de caracterizar as práticas educativas de 
professores da 5a série do Ensino Fundamental, além de aplicar questionários e 
. fazer entrevistas com os professores, realizou observações em situações infor- 
'•rnais (não-estruturadas) e formais (estruturadas). Segundo a autora, as obser­
95
vações foram realizadas cm diferentes circunstâncias dentro da escola, e foram 
identificados comportamentos e interações entre os membros da comunidade 
escolar. Foram realizadas sessões de observações formais em quatro reuniões 
pedagógicas,uma reunião de pais e 56 observações formais (estruturadas) nas 
salas de aula, com o objetivo de identificar aspectos inerentes à prática educati­
va de professores de 5* série. Todas as observações foram registradas de forma 
cursiva e, em seguida, categorizadas para análise.
A seguir, um trecho do registro cursivo ocorrido em sala de aula.
Contexto: aula da professora de Ciências na 5a série B, logo após o 
intervalo (das 13h25 às 14h50). Estavam presentes 23 alunos, sendo 12 
meninas e 11 meninos. As carteiras, em sua maioria, estavam dispostas 
em duplas.
Descrição: P entra na sala6, coloca material (livros, diários, cadernos 
etc.) sobre a mesa e cumprimenta As: Bom-dia! / Asl mexem em material 
e dizem; Bom-dia! As2 mexem em material e con versam em voz baixa. As3 
falam em voz alta sobre alteração de lugares determinada por P na aula an­
terior. / P fecha a porta, apaga a lousa e escreve a data. / Aslc As2 mexem 
em material e conversam em voz baixa. As3 falam alto sobre mudança de 
lugares. / P para As3; Nós vamos ficar duas aulas resolvendo problemas 
dos outros? / Asl conversam em voz baixa. As2 ficam em silêncio. / P 
diz: Psiu! O problema dos outros não nos diz respeito, vainos para a aula.
/ As permanecem em silêncio. / P em pé, próxima à lousa, diz: Na aula 
passada (...) ainda nem começamos a corrigir os exercícios, então vamos 
começar. / Al, sentado próximo à mesa deP, pergunta: Quer queeupegue 
os livros, professora? / P faz sinal afirmativo com a cabeça. / A l sai da sala 
e volta após alguns minutos com caixa de papelão cheia de livros didáticos 
referentes à disciplina. / P pega um dos livros, abre na página X, divide a 
lousa em 10 partes, sendo 5 espaços na parte superior e 5 na parte inferior, 
enumera-os e começa a corrigir as questões sobre conteúdo trabalhado 
em aula anterior (...) (Lopez, 2006, p. 49)
6 No registro cursivo, a letra "P” indica professor e "A(s)” indica aluno(s). As barras separam 
as ações do docente e dos alunos.
96
FO
LH
A 
DE 
OB
SE
RV
AÇ
ÃO
ANEXO 111 - Exemplos de gráficos desenvolvidos para a visualização das mudanças 
da cliente
£ 4001
13.12.2004 14.12.2004 14.2.2005 3.6.2005 10.6.2005
■ M ãe
■ Pai
FIGURA 3 - Quantidade de frases emitidas em difeção à criança por cada membro da família, nos dias 
13.12.2004,14.12.2004,14.2.2005, 3.6.2005 e 10.6.2005. Nos dias 14.12.2004 e 3.6.2005, apenas a 
mãe e a criança estavam presentes. A seta contínua indica a orientação para os pais aumentarem a 
quantidade de verbalizações emitidas. A seta tracejada indica a orientação para que a mãe deixasse 
o pai e a criança mais tempo sozinhos. A seta pontilhada indica a orientação para que o pai emitisse 
elogios à criança.
FIGURA 4 - Quantidade de frases emitidas pela criança, nos dias 13.12.2004,14.12.2004,14.2.2005, 
3.6.2005 e 10.6.2005. Nos dias 14.12.2004 e 3.6.2005, apenas a mãe e a aiança estavam presentes. 
A seta tracejada indica o aumento das verbalizações da mãe e a seta contínua indica o aumento das 
verbalizações do pai.
99
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OLivEjjiA, D.L. (2005). A utilização dos paradigmas de Drash e Tudor (1993) na condução M 
do desenvolvimento verbal de uma criança de cinco anos. Dissertação de mestrado, | | 
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo-SP. 3
100a 
ressocialização (diminuindo a distância entre o cliente e o m undo no qual está 
inserido).
Não foram encontrados artigos em revistas científicas da área, o que pode 
indicar que os trabalhos publicados atualm ente tenham como foco relatos de 
experiências clínicas e não resultados de pesquisa.
Outra fonte de busca da trajetória do AT comportamental foram os Anais 
dos Encontros da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental 
(abpmc), já que esse é o evento mais representativo da produção científica 
brasileira de analistas do com portam ento. O trabalho de Zamignani (1996) 
inaugura a apresentação sobre o tema neste evento. Em seguida, Zamignani 
e t al. (1997) e G uerrelhas (1997) discutem o tem a e, a partir dessas apre­
sentações, alguns grupos de analistas do com portam ento de São Paulo 
(Grupo Perspectiva) e Belo Horizonte (NAC - Núcleo de Análise do Com-
36
portam ento) começam a prática e divulgação do trabalho do AT na abordagem 
comportamental (Carvalho, 2002).
No Encontro de 1997 da ABPMC, o tema era apresentado como uma práti­
ca que se iniciava e que, portanto, necessitava ser avaliada. Sua origem também 
parecia estar relacionada a uma demanda profissional de grupos de analistas do 
comportamento, comprometidos com a oferta de trabalho para o atendimen­
to de casos psiquiátricos, que pretendiam sistematizar sua atuação, conforme 
pode ser observado no trecho da apresentação de Zamignani (1997), na época 
afiliado ao Núcleo Perspectiva:
O Perspectiva, Núcleo de Estudos em Análise do Comportamento, 
tem como proposta tom ar disponível o conhecimento produzido em 
análise do comportamento bem como prestar serviços em terapia com­
portamental e acompanhamento terapêutico, O núcleo teve como mola 
propulsora de sua criação a demanda crescente do trabalho de acompa­
nham ento terapêutico e a falta de subsídios para a sua prática. Alguns 
membros desse grupo que vinham prestando serviços neste campo, se 
depararam com a escassez de conhecimento sistematizado sobre o tema 
em questão. Os poucos livros e cursos encontrados tinham como fun­
damentação outras abordagens que não o behaviorismo radical. Surgiu 
então a idéia de sistematizar o conhecimento já adquirido com a nossa 
experiência e desenvolver novos estudos. Nossos objetivos são aperfei­
çoar nossa prática assim como colocar este conhecimento a serviço da 
formação de novos profissionais. O que falaremos aqui é resultado do 
m odo particular com que este grupo vem estudando e trabalhando o 
tem a em questão e que portanto, é um trabalho que está sendo constru­
ído e não tem pretensão de se colocarcomo definitivo. Nossa equipe tem 
trabalhado fundamentalmente com casos de transtornos psiquiátricos, 
embora tenhamos conhecimento de outras demandas para as quais o AT 
é. requisitado, como por exemplo, o treinamento de pais, acompanha­
m ento de pacientes demenciados, atendimento de deficientes mentais, 
entre outros. (Zamignani et al., 1997)
37
Desde então, em todos os Encontros da ARPMC diversos trabalhos, como 
apresentações, cursos, palestras e simpósios têm como temática o acompanha­
mento terapêutico. Ao longo desses anos, a definição do term o AT foi sofrendo 
mudanças. O mesmo grupo que utilizava o term o AT por conta prioritariamen­
te do trabalho no ambiente extraconsultório do cliente mudava um pòuco seu 
discurso:
Deixamos de denominar o nosso trabalho de acom panham ento 
terapêutico. Somos psicólogos que, quando necessário, trabalhamos no 
ambiente natural do cliente. Isto, à primeira vista, parece apenas um a 
mudança de nomenclatura, mas reflete um posicionamento diferente 
frente à [sic] nossa atuação. Consideramos que esta modalidade de atua­
ção é mais coerente com os princípios da análise do comportamento. Ir 
ao ambiente é uma decorrência natural da postura behaviorista radical, 
segundo a qual, o comportamento déve ser explicado e alterado a partir 
de sua interação com o ambiente. (Kovac e t ah, 1998)
Após um ano de trabalho o grupo deixou de denominar seus membros como 
ATs, que passaram a ser caracterizados como psicólogos que trabalham no ambiente. 
Conforme discutido, essa mudança ocorreu devido ao próprio desenvolvimento 
profissional e aumento da experiência dos profissionais do grupo que, de ATs, 
tomaram-se terapeutas comportamentais. Portanto, o que define o AT não é o 
local de trabalho e sim a função profissional, dentro de uma equipe de trabalho, 
de quem exerce a atividade. Apesar de praticamente não haver AT que não traba­
lhe no ambiente, também não há AT que não esteja subordinado a um terapeuta 
comportamental ou a uma equipe de profissionais responsável pelo caso.
0 surgimento do acompanhante terapêutico no cenário geral da psicologia
A missão do acompanhante terapêutico encontra sua origem numa 
concepção psiquiátrica dinâmica oposta à prática clássica que confina o en­
fermo mental com o rótulo de louco, afastando-o de sua família e da comu­
nidade. O acompanhante terapêutico, como agente da saúde, se inscreve
38
na corrente que busca restituir a possibilidade de diálogo com o irracional. 
(Mauer ôC Resnizky, 1987, p. 27)
A partir da década de 1960, as áreas responsáveis pela saúde mental (psi­
cologia, psiquiatria) começaram a discutir os modelos de compreensão e de 
assistência disponíveis naquele momento. Foram inicialmente questionados o 
modelo biológico de doença mental e a função dos hospitais psiquiátricos, que 
se restringia unicamente ao confinamento de doentes. Surge então na Europa 
e Estados Unidos o movimento antimanicomial, com o objetivo principal de 
desospitalização, desinstitucionalização e reinserção social e que aos poucos foi 
se difundindo pelo mundo. Os principais expoentes desse movimento foram 
Lainge Cooperna Inglaterra, Basagliana Itália, Oury na França e Szazs nos RUA 
(Barreto, 1997; Mauer õí Resnizky, 1987; A Casa, 1991; Pitiá & Santos, 2005). 
No final da década de 1960 e início de 1970 essas idéias chegaram à América 
Latina, especialmente à Argentina, que criou a nomenclatura acompanhamento 
terapêutico. Foram necessários vinte anos de prática para o surgimento de uma 
publicação que registrasse as características dessa intervenção:
O primeiro livro de que se tem referência sobre o assunto data do 
ano de 1987 e foi escrito por duas psicólogas argentinas. Susana Kuras 
de M auer e Silvia Resnizky cscrcvcram Acompanhamento terapêutico e 
pacientes psicóticos: manual introdutório a uma estratégia clinica. (Pitiá & 
Santos, 2005, p. 67)
Para que a reinserção social pudesse ocorrer, era preciso a criação de um 
novo contexto e de um novo profissional. Surgem as comunidades terapêuticas 
como alternativa ao isolamento dos hospitais psiquiátricos. “Nessas comuni­
dades, os pacientes com diagnóstico psiquiátrico eram atendidos em regime de 
internação ou de hospital-dia, dentro de uma proposta de atendimento indivi­
dualizado” (Zamignani ÔC Wielenska, 1999, p. 157). Os agentes de saúde men­
tal precisaram ser treinados rapidamente para suprir a demanda desse novo 
contexto e passaram a ser denominados auxiliares psiquiátricos ou atendentes 
terapêuticos e, posteriormente, amigo qualificado e acompanhante terapêutico.
39
De acordo com Pitiá & Santos (2005), o Brasil sofreu influências de todo esse 
processo. Os auxiliares psiquiátricos com puseram as equipes das comunida­
des terapêuticas em Porto Alegre (Clínica Vila Pinheiros) e no Rio de Janeiro 
(Clínica Pinei). No final da década de 1970, questões sociais e políticas decor 
rentes do regime militar ocasionaram o fechamento das comunidades terapêu­
ticas. Entretanto, os auxiliares psiquiátricos continuaram a ser solicitados por 
terapeutas e familiares como alternativa à internação. Segundo Pitiá & Santos 
(2005), duas publicações da década de 1990foram o marco da produção biblio 
gráfica sobre o assunto: A rua como espaço clinico: acompanhamento terapêutico 
(1991) e Crise e cidade: acompanhamento terapêutico (1997), ambos de autoria da 
Equipe de AcompanhantesTerapêuticos do Hospital-Dia A Casa.
Ao longo dessa trajetória, o papel do acompanhante terapêutico foi sendo 
definido e atualmente mantem algumas características, independentemente da 
abordagem que embasa sua prática: o atendim ento é geralmente destinado a 
pacientes psiquiátricos; a função é exercida por auxiliares (estudantes e recém- 
formados); o trabalho c predominantemente externo, no ambiente cotidiano 
do paciente; os artigos sempre apontam a necessidade de formação e constante 
supervisão; e o atendimento se dá em caráter intensivo,
0 desenvolvimento da modificação de comportamento: 
um cenário propício para o trabalho do AT
A origem do trabalho do AT coincide com m omentos importantes da his­
tória da análise aplicada do comportamento. No decorrer das décadas de 1960 
e 1970, ou seja, na mesma época do ápice dos movimentos antimanicomiais, 
também se fortalecia a prática clínica denominada modificação de comportamento, 
Essa intervenção consistia na aplicação de técnicas e procedimentos provenien­
tes da análise experimental do comportamento e teorias de aprendizagem na 
resolução de problemas humanos ligados a saúde mental. O objetivo inicia! 
da modificação de comportamento era trabalhar na eliminação de comporta­
mentos indesejáveis e no rearranjo de contingências para a produção de con­
dutas convenientes (Ayllon & Wright, 1972). A atuação dos modificadores de 
comportamento era geralmente focalizada em comportamentos observáveis 
de pacientes institucionalizados e suas técnicas eram aplicadas por profissionais,
40
familiares, professores denominados na época de paraprofissionais. Uma das 
principais técnicas criadas pelos modificadores é a Economia de Fichas, criada 
por Ayllon ãC Azrin (1968). Sua aplicação era realizada em instituições psiquiá­
tricas, prisionais, escolares c familiares e consistia basicamente no fornecimento 
de reforçadores artificiais (fichas, moedas etc.), apresentados após a emissão de 
respostas adequadas. Esses reforçadores eram trocados ao final do processo por 
algo importante para o indivíduo, com o intuito de assegurar a manutenção do 
comportamento adquirido.
A análise experimental do comportamento produziu uma tecnologia. Era 
então necessário treinar pessoas para aplicá-la. O movimento antimanicomial e 
a modificação de comportamento abriam caminho para o trabalho de indivíduos 
sem graduação ou especialização. Essas pessoas, na época demoninadas parapro 
fissionais, representavam a alternativa para a grande demanda de trabalho com 
portadores de problemas mentais ou emocionais, e eram treinadas por psicólo­
gos, psiquiatras e pesquisadores. Vem daí o caráter auxiliar do AT, ou seja, a divi­
são de trabalho na qual a função do AT é subordinada à de um outro profissional 
tem origem na história do AT c da modificação de comportamento.
De acordo com os objetivos da análise aplicada do comportamento, con 
forme difundido por seus criadores, Baer, Wolf & Risley (1968), a modificação 
de comportamento sc utilizava de um modelo de laboratório em um contexto 
clínico e aliava a produção de conhecimento e desenvolvimento de uma tec­
nologia comportamental à prestação de serviços, no trato de problemas so 
cialmente relevantes. Qualquer intervenção que se denominasse como análise 
aplicada do comportamento deveria ser: aplicada; comportamental; analítica; 
tecnológica; conceitualmente sistemática; efetiva; e generalizável. Ou seja, para 
serem considerados aplicadores da análise do comportamento, os modificado­
res precisariam: investigar problemas humanos cuja solução era caracterizada 
pela sociedade como relevante e necessária; demonstrar que o comportamento 
que necessitava de mudança deveria poder ser mensurado através de medidas 
fidedignas; demonstrar explicitamente as relações funcionais entre as variáveis 
manipuladas e o comportamento que estava sendo alterado; identificar e des­
crever os procedimentos precisamente; descrever procedimentos e resultados 
de acordo com a metodologia, linguagem e princípios básicos da análise do
41
comportamento; demonstrar que os resultados obtidos são unicamente decor­
rentes da aplicação dos procedimentos; e produzir resultados generalizáveis. 
Entretanto, as práticas desenvolvidas pelos modificadores sofreram críticas 
relacionadas à artificialidade na manipulação de contingências, pouca ênfase na 
subjetividade e atendimento prioritariamente das necessidades institucionais e 
não dos indivíduos que eram submetidos aos procedimentos, além de criticas ao 
uso de técnicas de controle aversivo do comportamento. É provável que essas 
críticas tenham interferido no processo de ampliação do trabalho dos analistas 
do com portam ento, que foram do hospital psiquiátrico, da escola e da prisão 
para o consultório. E, aos poucos, os modificadores de comportamento toma- 
ràm-se terapeutas comportamentais.
Essa transformação e ampliação do trabalho do analista do com portam en­
to trouxe algumas mudanças: o foco da intervenção comportamental e das pes­
quisas não era mais um comportamento a ser eliminado e sim a história de vida 
do sujeito, o autoconhedm ento, a relação cliente-terapeuta, o comportamen­
to verbal (Alvares, 1996; Barcellos & Haydu, 1995; Guedes, 1993; Mejias, 2001). 
Nesse novo contexto, poderia-se supor que não haveria mais espaço para um 
profissional que fosse responsável pela aplicação de técnicas comportamentais. 
Entretanto, o modelo clínico de consultório também não se m ostrou suficiente 
para a resolução de todas as demandas por atendimento psicológico (Barcellos 
& Haydu, 1995; Guedes, 1993). A evolução dos fatos demonstra que o trabalho 
conjugado de terapeuta comportamental e acompanhante terapêutico parece 
ser uma alternativa para suprir essa insuficiência.
0 acompanhante terapêutico e o terapeuta comportamental
No final da década de 1990, conforme mencionado no início deste capí­
tulo, alguns analistas do comportamento ligados ao contexto clínico começa­
vam a divulgar suas intervenções fora do consultório e muitos desses trabalhos 
passavam a ser denominados acompanhamento terapêutico. Esse fato resultava 
principalmente do crescimento das pesquisas, especialmente na área da psi­
quiatria, que enfatizavam a eficácia da aplicação de técnicas comportamentais 
e cognitivas no tratam ento de transtornos psiquiátricos. Ressurgia, então, a 
demanda pelo profissional que aplicasse essa técnica.
42
É importante salientar que toda intervenção clinica baseada nos pressu­
postos do behaviorismo radical utiliza a análise e o manejo de contingências 
responsáveis por qualquer padrão de comportamento e, portanto, o trabalho 
no ambiente do cliente seria uma consequência natural dessa filosofia.
Se a teoria em que se baseia a terapia comportamental é correta, en­
tão a solução para um problema comportamental não pode se restringir a 
contingências especialmente arranjadas no ambiente particular da clínica.
Se o problema tem que ser corrigido, é necessário modificar as contingên­
cias do ambiente natural. (Holland, 1978, p. 166)
Entretanto, como a terapia comportamental está inserida no contexto 
mais amplo das psicoterapias, o trabalho no ambiente fica geralmente restrito 
àquela parcela de clientes que são denominados pacientes portadores de trans­
tornos psiquiátricos graves e/ou crônicos, acompanhados, portanto, por médico 
psiquiatra e sob tratamento medicamentoso. Essas pessoas possuem dificul­
dade de generalização dos conteúdos aprendidos verbalmente nas sessões de 
terapia de consultório, por conta de déficits no repertório comportamental 
básico ou por características dos próprios transtornos dos quais são portado­
res, o que justifica o trabalho no ambiente.
O que se encontra atualmente nos trabalhos referentes a essa clientela é 
que o atendimento é realizado por terapeutas comportamentais responsáveis 
pelas avaliações funcionais, decisões clínicas e definição de procedimentos, que 
podem ou não ser auxiliados por um acompanhante terapêutico.
A análise do comportamentofaz parte do contexto da psicologia assim 
como a terapia comportamental, do contexto da psico terapia. Isso pressupõe a 
importação de termos "psi” que muitas vezes são incompatíveis com os pres­
supostos filosóficos do behaviorismo radical. Acredito que o termo AT seja um 
desses exemplos. Mas como uma prática em construção, provalmente no futu­
ro poderá ser conceituada de maneira que o termo que a define seja a própria 
operadonalização de seus pressupostos e procedimentos.
43
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46
C A P Í T U L O 2
Qwflncío o verbal é insuficiente: possibilidades e limites 
da atuação clínica dentro efora do consultório 
Cássia Roberta da Cunha Thomaz e Yara Claro Nicu
Este capítulo discute lim ites e possibilidades da atuação clínica 
do analista do com portam ento tanto dentro do setting terapêutico tradicional 
quanto fora dele. Tais limites e possibilidades, em cada um desses contextos, 
serão abordados a partir da análise do com portam ento hum ano sob controle 
de especificações verbais versus controle por contingências.
Para tanto, se faz necessário: 1) a retornada dos conceitos de com porta­
m ento governado por regras e com portam ento m odelado por contingências;
2) a apresentação de características da prática clínica do analista do com porta­
m ento; 3) as discussões referentes ao atendim ento fora do consultório, no que 
se denom ina acom panham ento terapêutico (AT), na clínica analítico-compor- 
ta mental. A com preensão desses conceitos e práticas pode ajudar apensar sobre 
decisões de quando, com o e porque é terapeuticamente mais relevante atender 
dentro e /o u fora do gabinete de terapia.
C om o o com portam ento verbal de descrever contingências pode vir a con ­
trolar o com portam ento não-verbal, é importante estudar essa relação com a in­
tenção de compreender os processos envolvidos na interação cliente-terapeuta.
A atuação clínica do analista do com portam ento no contexto tradicional 
de gabinete tem com o principal material deanálise o com portam ento verbal do 
cliente e tam bém , com o ferramenta fundamental de intervenção, o com porta­
m ento verbal do terapeuta.
47
Pedro
Algumas situações trazidas por clientes justificam que a atuação do analista 
do comportamento ocorra para além da interação eminentemente verbal - mais 
típica da prática de consultório incidindo diretamente nas contingências natu­
rais da vida do cliente, prática denominada de acompanhamento terapêutico.
Compreender a interação entre regras e contingências é fundamental para 
conduzir decisões terapêuticas acerca de quando a atuação dentro e fora do 
consultório é pertinente. Esses enunciados teóricos servirão de referência para 
pensarmos a relação entre verbal e não-verbal na atuação clínica, em especial 
para as especificidades dessas relações quando o atendimento ocorre dentro e 
fora do setting tradicional.
}
COMPORTAMENTO GOVERNADO POR REGRAS E COMPORTAMENTO MODELADO POR 
CONTINGÊNCIAS: DEFINIÇÕES CONCEITUAIS
No livro Verbal behavior, de 1957 (publicado no Brasil com o título Comporta­
mento Verbal), Skinner define comportamento verbal como o comportamento 
que altera o ambiente apenas indiretamente; seu efeito primeiro ocorre sobre o 
comportamento de outras pessoas. Na medida em que o comportamento verbal é 
impotente diante do mundo "físico”, sua forma não resguarda um a relação geomé­
trica ou mecânica com as conseqüências por ele produzidas. É o comportamento 
de outro homem, especialmente treinado pela comunidade verbal para reagir aos 
padrões gerados pelo falante, que terá o efeito de produzir a conseqüência última 
responsável pela manutenção do comportamento do falante.
Nessa obra, Skinner produz um a classificação do comportamento verbal 
do falante em relação a possíveis variáveis envolvidas em seu controle, apre­
sentando o que seriam os operantes verbais básicos: mando (comportamento 
verbal sob controle de condições de privação ou de estimulação aversiva) ecói- 
co; textual; ditado; cópia; eintraverbal (comportamento verbal sob controle de 
estímulos verbais); autoclítico (comportamento verbal sob controle de outros 
estímulos verbais e dos efeitos gerados no ouvinte); e tato (com portam ento 
verbal sob controle de estímulos não-verbais).
Podemos afirmar que em Verbal behavior Skinner conduz a maior parte de 
sua análise a respeito do comportamento do falante, não empregando tanta ên­
fase na análise do comportamento do ouvinte. Isso quer dizer que, nesse mo­
48
Pedro
Pedro
mento, a discussão ruma na direção de compreender “o que leva alguém a emitir 
um comportamento verbal”. A questão “o que leva alguém a se comportar sob 
controle do comportamento de um falante”, ou seja, o que leva alguém a seguir
0 que outro disse só seria aprofundada mais adiante, em textos posteriores.
Transcorridos nove anos da publicação de Verbal behavior, Skinner pu­
blica, em 1966, um artigo intitulado "Uma análise operante da resolução de 
problemas" (1984), no qual cunha o term o comportamento governado por regras 
com o distinto a comportamento modelado por contingências.
Comportamento modelado por contingência deve ser empregado para se 
referir a comportamento que é emitido, de uma certa forma, devido a conseqü­
ências que a ele se seguiram no passado; ao passo que comportamento gover­
nado por regras refere-se a comportamentos que são emitidos sob controle de 
descrições verbais de contingências. Skinner (1984) afirma que essa descrição
- feita por outrem ou por si mesmo - funciona como um estímulo discrimi 
nativo para uma determinada resposta e, portanto, a regra seria um estímulo 
antecedente espedficador de contingência.
Embora existam divergências conceituais sobre a definição do termo re­
gra1, há dois processos distintos na aquisição de novas respostas: viver direta 
mente as contingências e emitir novas respostas em função da descrição feita 
sobre as contingências.
Tal distinção é ilustrada, a seguir, por Skinner (1984):
Um cientista pode jogar bilhar intuitivamente, como resultado de 
longa experiência, ou pode determinar as massas, ângulos, distâncias,
1 Após essa definição de Skinner (1984) é possível acompanhar um debate conceituai entre 
os analistas do comportamento acerca do conceito de comportamento governado por regras 
(Schoneherger, 1990). Há autores em consonância com a proposta de Skinner de analisar re­
gras com o estímulos discriminativos (Cerutti, 1989); análises de que comportamento gover­
nado por regra é comportamento envolvido era dois conjuntos de contingência (Zettle BC 
Hayes, 1982); autores tais como Blakely e Schlinger (1987) e Schlinger (1990) que criticam o 
conceito de regra como estímulo discriminativo e propõem que o emprego do termo "regra" 
seja reservado para estímulos especiíicadores de contingências com o papel de alterar as fun­
ções respondentes e operantes dos estímulos que descrevem; e Gatania (1989), que defende 
uma definição funcional de regras e critica a proposta conceituai de Glenn (1987; 1989) por uma 
definição topográfica.
49
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
fricções etc. e calcular cada jogada. Provavelmente optará pela primeira 
alternativa, é claro, mas há circunstâncias análogas nas quais ele não 
pode se subm eter às contingências de maneira análoga, e deverá adotar 
a última opção. Ambos os tipos de com portam ento são plausíveis, natu­
rais e eficazes; ambos demonstram “conhecimento das contingências”, 
e (à parte dos cálculos pré-correntes no segundo caso) podem ter topo­
grafias similares, (p. 296)
Este exemplo é especialmente interessante por m ostrar que a simples des­
crição topográfica do comportamento, neste caso o de jogar bilhar, não pode 
ser um critério de distinção entre o com portam ento governado por regras e o 
modelado por contingências. SegundoSkinner(1984), uma análise das variáveis 
controladoras nos levaria a identificar que asjogadas, apesar de muito parecidas 
em suaforma, se encontram sob diferentes controles: num caso, seria resultado 
do cálculo das massas, ângulos e fricções, que funcionariam como regras para o 
comportamento de jogar; no outro, um produto de uma longa história passada 
de jogadas ora mal ora bem-sucedidas, caracterizando-se como comporta men 
to modelado por contingências. Assim, apesar do comportamento governado 
por regras poder, em muitos casos, se assemelhar ao modelado por contingên­
cias, eles nunca serão exatamente os mesmos. Comportamentos sob controle 
de variáveis diferentes possuem, necessariamente, propriedades distintas.
A especificação da contingência, com o “evento do ambiente", pode entrar 
em um a determinada relação de controle com a resposta. Segundo Skinner 
(1984):
Enquanto estímulo discriminativo, [a regra] é eficaz com o parte 
de um conjunto de contingências de reforçamento. Uma especificação 
completa deve incluir o reforço que m odelou a topografia da resposta e 
colocou-a sob controle do estímulo, (p. 283)
Decorrem dessa afirmação duas características fundamentais do conceito 
de regra: uma descrição só altera a probabilidade de emissão de um dado com­
portamento quando faz parte, como estímulo discriminativo, de uma contin-
50
Pedro
gênda de reforço; e devemos considerar como uma especificação completa de 
contingência a descrição dos três termos que a compõe - o estímulo discrimi­
nativo, a resposta e a conseqüência. Vale ressaltar que Skinner (1984) elabora 
um a análise mais minuciosa, não apenas sobre a regra completa, como também a 
respeito dos tipos possíveis de regras em função dos termos da contingência que 
são descritos, tais como: regra incompleta, regra fragmentada e regra grosseira. 
Essa consideração é importante para o entendimento da prática clínica, uma vez 
que a descrição, ainda que parcial, por parte do terapeuta ou do próprio cliente, 
das contingências vividas por este, pode funcionar como estímulo que afeta o 
comportamento não-verbal sob análise.
Para entender as razões que levam ao controle por regras, devemos nos 
perguntarsobre os motivos que levam um indivíduo a analisar as contingências 
além de vivê-las. O desenvolvimento do comportamento verbal tom ou possí­
vel para a espécie humana descrever as relações entre o comportamento e as 
variáveis que o afetam. Tais descrições são importantes porque possibilitam ao 
homem gerar comportamento novo e efetivo sem que seja necessária uma ex­
posição, geralmente longa e tediosa, às contingências descritas (Skinner, 1984).
A aquisição de comportamento via regra, ao invés de via modelagem pelas 
contingências, é especialmente necessária quando as conseqüências produzidas 
por uma resposta são muito atrasadas ou raras e as conseqüências imediatas e 
mais poderosas modelariam respostas opostas e indesej áveis, uma vez que seriam 
consideradas como comportamentos de desperdício segundo o grupo (proble­
mas relativos à economia de recursos naturais, por exemplo) ou colocariam o 
indivíduo em perigo (fumar pode produzir, em longo prazo, câncer de pulmão).
Uma outra vantagem do controle via descrição de contingências seria ge* 
rarnovas respostas no repertório de outro indivíduo, semesperar por variaçõet 
na direção desejada para o reforçamento da resposta, processo característico dâ 
modelagem. Assim, a emissão de uma regra possibilita a aquisição de resposta» 
que, via modelagem, poderiam gerar danos imediatos (por exemplo, aprender 
a atravessar um a rua movimentada) e propicia uma abreviação no tempo ne­
cessário para a instalação de uma resposta via modelagem.
Ainda há uma outra vantagem no controle por regras referente à manutenção 
e não à aquisição do comportamento: quando um comportamento instalado via
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
modelagem já existe no repertório de um indivíduo, a especificação das contingên­
cias pode complementar as contingências responsáveis pela sua manutenção.
Essas são, grosso modo, as razões existentes para que um sujeito analise as 
contingências e formule descrições que controlem o comportamento.
Apesar dessas vantagens, entretanto, algumas desvantagens do controle 
por regras são ressaltadas por Skinner (1984). Primeiramente, podemos identi­
ficar a simplificação do com portam ento resultante, uma vez que ele é evocado 
por descrições verbais que atentam, apenas,, para as dimensões relevantes d© 
comportamento na produção de determinadas conseqüências. Uma outra im­
plicação pode ser identificada no trecho a seguir:
A medida que uma cultura produz máximas, leis, gramática e ciên­
cia, seus membros acham mais fácil comportar-se eficientemente sem 
contato direto ou prolongado com as contingências de reforço assim 
formuladas. (Preocupamo-nos aqui apenas com contingências estáveis. 
Quando contingências mudam e as regras não o fazem, regras podem serprobíe- 
máticas emvez de úteis.) (Skinner, 1984, p. 279, grifos das autoras)
Podemos notar que no inído desta dtação Skinner aponta para uma vanta­
gem do comportamento governado por regras e que essa vantagem se reladona 
com o fato das contingêndas serem estáveis. No final da dtação, Skinner afirma 
que, caso as contingêndas sejam instáveis, o controle por regras pode se mostrar 
desvantajoso. Sendo assim, caso um a determinada contingênda se altere, mas a 
regra que a descreve permaneça a mesma, seguir essa regra pode ser problemático. 
Quando lemos este alerta, o que imaginamos como problemático? Supomos que 
problemático é a possibilidade do comportamento não se alterar, na medida em 
que continua seguindo a mesma regra, mesmo que a contingênda tenha mudado. 
E exatamente esta possível característica do comportamento governado por regras 
que vem sendo considerada pela literatura espedalizada como insensibilidade às 
contingêndas, ou seja, a não alteração do desempenho, supostamente em função 
do responder sob controle de regras, quando há mudanças nas contingêndas2.
1 A presente reflexão sobre a questão de regras e insensibilidade, bem com o sobre a adequação 
desse termo poderá ser encontrada pelo leitor em N ico (1999).
52
Pedro
Pedro
Pedro
REGRAS E INSENSIBILIDADE ÀS CONTINGÊNCIAS
Consideremos o exemplo de um pintor que descreve a um aprendiz a pro­
porção correta de tinta e água utilizada para fazer a mistura que produz um efeito 
cintilante na tinta sobre a tela. Suponha que esta descrição do mestre-pintor funcio­
ne como estímulo discriminativo para a resposta do aprendiz de misturar naquela 
exata proporção a tinta e a água. Tal resposta poderia produzir duas conseqüências: 
uma conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita pela regra (a tinta 
ficar cintilante sobre a tela) e outra conseqüência, liberada pelo emissor da regra, 
contingente ao seguimento desta (a aprovação do mestre contingente à resposta de 
preparar corretamente a mistura de tinta e água), conforme mostra a Tabela 1.
TABEIA 1: Exemplo de episódio envolvendo uma destricâo de contingências
ESTÍMULO DISCRIMINATIVO RESPOSTA CONSEQUÊNCIA
"Misture sempre a mesma quan- - > Fazer a mistura —► A tinta ficar cintilante sobre a tela
tidade de tinta e água para obter na proporção correta (Consequência diretamente produzida
o efeito da tinta cintilante" pela resposta)
Aprovação do mestre
(Consequência liberada pelo emissor)
Suponha que após vários quadros confeccionados com a utilização desta 
proporção de tinta e água para produzir o efeito cintilante, o fabricante tenha 
alterado a composição química da tinta e que, com isto, aquela quantidade de 
água não mais fosse suficiente para fazer a mistura que resulta no efeito deseja­
do. Assim, a alteração na qualidade do estímulo “tinta" e a manutenção do res­
ponder instalado via regra - colocar exatamanete a mesma quantidade de água 
e tinta - a partir dc agora não produz mais o mesmo efeito cintilante produzido 
sob a contingência anterior. Imagine que apesar desta alteração contribuir para 
uma grande diminuição no efeito cintilante - diminuição na magnitude do re­
fo rço -o aprendiz continue realizando a mistura exatamente da mesma maneira 
que seu mestre ensinou. Este seria um possível exemplo cotidiano indicando a 
existência da não alteração de uma resposta a despeito da modificação nas con­
tingências de reforço, em função desta resposta estar sob controle de regra.
Assim, a avaliação experimental da existência de insensibilidade requer 
que se planeje as seguintes situações: 1) um sujeito sendo instruído a se com­
portar sob um a dada contingência e o seguimento desta instrução levando-o, 
efetivamente, a produzir conseqüências reforçadoras; 2) a alteração desta con­
tingência sem um a alteração da regra^Pox exemplo, vamos suporum a situação 
experimental na qual é dito para uma criança que para obterum a consequência 
reforçadora (pontos que serão trocados por brinquedos) ela deve apertar um 
botão bem devagar (de acordo com um esquema DRL3). Ela segue a règra e ga~ 
nha vários pontos. Agora, sem que se avise a criança, a contingência muda: para 
ganhar pontos ela deverá apertar bem rápido (agora, o esquema em vigor é um 
DRH4). Portanto, temos um a alteração de contingência e um a m anutenção da 
regra. De acordo com este planejamento, se o desempenho se alterasse, apertar 
mais rápido, quando a contingência fosse alterada, diríamos que o comporta­
m ento foi sensível às contingências. Mas, se o comportamento permanecesse o 
mesmo, apertar devagar, a despeito da mudança na contingência, diríamos que 
ele foi insensível às contingências - um experimento semelhante a este foi con­
duzido por Assis (1995) e parte dele replicado por Nico (1997). Podemos consi­
derar que esta identificação de insensibilidade baseia-se numa comparação do 
desempenho do m esm o sujeito em duas condições diversas. Dizemos que esta 
é um a definição intra-sujeito. O term o insensibilidade às contingências pode ser 
encontrado em vários estudos para se referir a um a não alteração de desem­
penho de um mesmo sujeito quando as contingências mudam, mas as regras 
não (por exemplo, Matthews, Shimoff, Catania & Salgvolden, 1977;Shimoff, 
Catania, Byron 8í Matthews, 1981; Hayes, Brownstein, Haas& Greenway, 1986; 
Hayes, Brownstein, Zettle, Rosenfarb & Kom, 1986).
’ DRL é sigla de dijferential reinforcement o f imv rate. N este esquema uma resposta só é reforçada 
após ter transcorrido um tempo mínimo, dado pelo valor do esquema, a partir da última res­
posta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida antes deste tempo mínim o, o temporiza­
dor reinicia a contagem do tempo.
4 DRH é a sigla de differenaal reinforcement o f high rate. N este esquema uma resposta só é re­
forçada se ocorrer antes de ter transcorrido um tem po mínimo, dado pelo valor do esquema, 
a partir da última resposta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida depois deste tempo 
mínimo, o temporizador reinicia a contagem do tempo.
54
Pedro
Pedro
Pedro
Pedro
Entretanto, segundo Madden, Chase & Joyce (1998), num artigo de re­
visão da área de insensibilidade, esta definição se opõe a uma outra também 
com um na literatura, a saber: uma definição baseada em comparação entre 
espécies. De acordo com essa definição, o comportamento humano deve ser 
Considerado sensível se apresenta um padrão semelhante ao mostrado por su­
jeitos não humanos, quando ambos são expostos às mesmas contingências de 
reforçamento. De modo contrário, quando o padrão humano difere do padrão 
animal ele deve ser descrito como insensível (ver, por exemplo, Lowe, Harzem 
& Hugues, 1978; Lowe, 1979; Lowe, Beasty & Bentall, 1983; Bentall, Lowe & 
Beasty, 1985; Bentall ÕC Lowe, 1987; Madden, Chase &Joyce, 1988; Assis,1995)
Madden et al. (1998) apontam três razões básicas para a não adoção da de­
finição baseada na comparação entre espécies. Em primeiro lugar, o compor 
lam ento animal tomado como típico sob um dado esquema, pode não ser tão 
típico quanto muitos supõem. Uma segunda razão seria a de que o padrão de 
resposta produzido por certos esquemas não é consistente entre várias espécies 
(por exemplo, quando submetidos a DRL, ratos apresentam taxas de respostas 
mais baixas do que pombos). Neste caso, com qual espécie o responder humano 
deveria ser comparado para que "sensibilidade” fosse avaliada? Finalmente, os 
autores argumentam que os procedimentos empregados com humanos e não 
humanos podem ser similares em termos estruturais, porém não em termos 
funcionais. Aspectos do controle experimental (sistema de liberação de reforço, 
custo da resposta, condições de privação etc.) podem ser mantidos os mesmos 
em estudos com não humanos e humanos, garantindo similaridade estrutural 
entre os procedimentos, entretanto esta similaridade não garante que as variá­
veis controladoras exerçam a mesma função de modo a permitir uma compara­
ção entre espécies.
Com base nestes três argumentos, os autores concluem que sensibilidade 
não deveria ser definida a partir de uma comparação entre espécie. Desta for­
ma, sugerem que o term o replicação entre espécies descreve mais adequadamen­
te a consistência dos efeitos obtidos entre espécies do que o termo sensibilidade-, 
isto é, um comportamento pode ser considerado sensível mesmo que não re­
produza os dados de experimentos com não humanos.
Estando de acordo com esta conclusão, temos reduzida a quantidade de
dados experimentais sobre insensibilidade, já que não vamos considerar como 
insensível um desempenho humano que difere de um desempenho animal.
Passemos, portanto, para os estudos sobre insensibilidade, como um pro­
duto de comportamento governado por regras, e que se baseiam numa com­
paração intra-sujeito. Uma primeira tarefa (para verificar se há insensibilidade 
e quais as variáveis envolvidas) deveria ser a revisão da literatura considerando 
a existência de cinco condições experimentais:
1) fornecimento de uma regra a respeito da resposta que produz conseqüên­
cias reforçadoras sob a contingência à qual o sujeito será exposto;
2) estabilidade do desempenho nesta primeira condição - aum entando a 
■ probabilidade de que uma eventual alteração de padrão seja função da
mudança na contingência e não um a alteração aleatória;
3) alteração efetiva das contingências de reforço, de m odo que o padrão de 
resposta apresentado sob a primeira condição não mais produza reforço 
e que, portanto, uma alteração do desempenho seja realmente necessá­
ria para a produção de reforçador;
4) manutenção, na segunda contingência, da regra fornecida sob a primei­
ra contingência;
5) dados sobre o desempenho quando gerado na ausência de regra e sub­
metido a alteração de contingência - para que se possa afirmar que a não 
alteração, insensibilidade, é produto do seguimento de regra e não de 
qualquer outra variável presente na situação experimental.
Estando asseguradas estas condições, poderíamos começar a defender a 
existência de dados experimentais sobre insensibilidade e, possivelmente, co­
nhecer de quais variáveis, presentes no controle por regras, a insensibilidade às 
contingências seria função.
Portanto, os problema existentes são:
1) Existem duas definições de insensibilidade, completamente diferentes, 
convivendo na literatura. Mais do que isto, a defesa por um a destas defi­
nições não é prática comum na literatura. Isto seria apenas um problema 
de falta de debate teórico não fosse o fato de que ambas as definições são 
aplicadas aos achados de pesquisa.
56
2) Um problema metodológico para avaliar experimentalmente a insensi­
bilidade. Também em relação a este problema é de extrema importância 
que se conduza uma revisão das metodologias empregadas pelos estudos 
da área, restringindo-se àqueles que partem da definição intra-sujeito, 
para que possamos mais consistentemente a) afirmar ou negar a existên­
cia de evidências experimentais que suportem a conclusão de que insen­
sibilidade existe e, caso identifiquemos alguma evidência; b) conseguir 
dizer de quais variáveis ela é função.
Adespeito dessas questões de definição e de metodologias, fomos capazes de 
fornecer um exemplo cotidiano, e com certeza muitos outros podem ser formu­
lados, que parece indicar a existência de insensibilidade. Voltemos a ele para que 
possamos mais claramente colocar uma última questão que se refere à adequação 
do termo insensibilidade às contingências. Para realizar este questionamento é 
necessário que foçamos uma análise comportamental mais minuciosa a respeito 
do que fomos capazes de identificar como insensibilidade às contingências.
Parece que naquele caso estávamos considerando como insensibilidade a 
característica de não alteração do comportamento (continuar a fazer a mistura 
com a mesma quantidade de água e tinta) a despeito da mudança nas contin­
gências implicar em perdas de reforço (drástica redução no efeito “cintilante” 
da tinta sobre a tela). Sendo assim, podemos afirmar que o que estamos consi­
derando como fundamental para a identificação de insensibilidade é o término 
da produção do reforçador "efeito cintilante" e a continuidade de emissão da 
resposta anteriormente necessária para sua produção, ou seja, mesma quanti­
dade de água e tinta na confecção da mistura. Assim, estamos enfatizando, na 
identificação de insensibilidade, a análise da relação entre a resposta descrita na 
regra e a conseqüência diretamente por ela produzida.
Entretanto, parece razoável esperar de um psicólogo pertencente a uma 
abordagem como a análise do comportamento a busca das variáveis ambientais 
responsáveis pela manutenção do comportamento e não a simples afirmação 
de que, surpreendentemente, o comportamento não se modifica em função 
das alterações em algumas variáveis ambientais, qualificando-o, portanto, 
como insensível às contingências.
57
O próprio term o insensibilidade às contingências soa como um contra-senso 
dentro do corpo teórico da análise do comportamento visto que esta abordagem 
se edifica sobre o pressuposto de que é possível estudar o fenômeno compor- 
tamental, prevê-lo e controlá-lo, a partir do conhecimento acumulado sobre 
as variáveis ambientais das quais é função; de que o comportam ento “é um 
processo, e não um a coisa... é mutável, fluído e evanescente" (Skinner, 1994, 
p. 27) e que esta mutabilidade, fluidez e evanescência é função de alterações nas 
contingências ambientais. Assim, como podemos, sem grande intranqüilidade 
teórica, afirmar que um comportamento pode ser insensível às contingências 
d£ reforço? Não estaríamos colocando em xeque pilares m uito sólidos dentro 
de nossa abordagem?
Diante de tal inquietação, resta-nos investigar quais possíveis variáveis po­
deriam ser responsáveis pela manutenção de uma resposta que, apenas aparen­
temente, parece ser insensível às contingências. Serão apresentadas aqui duas 
possibilidades de explicação deste padrão dito insensível. Ambas as possibilidades 
implicam a constatação de que o termo insensibilidade ás contingências seja talvez 
inadequado para se descrever o fenômeno comportamental em questão.
Uma primeira possibilidade se origina da suposição de que o emissor da re­
gra permaneça liberando reforços contingentes ao seguimento desta, mesmo 
que a conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita na regra não 
mais estivesse ocorrendo. No nosso exemplo, esta possibilidade seria constata­
da caso observássemos que o mestre-pintor continua reforçando seu aprendiz 
a misturar a mesma quantidade de tinta e água mesmo se o efeito produzido 
não seja mais o mesmo.
Frente a tal observação, poderíamos continuar a qualificar tal comporta­
m ento como insensível às contingências? Caso a resposta fosse "sim, podemos 
qualificá-lo como insensível às contingências já que ele não se altera m esmo 
com o término da produção de reforços que eram diretamente produzidos por 
ele", não estaríamos incorrendo num erro de definição da classe de resposta à 
qual a resposta sob análise pertence? A continuidade de emissão da resposta 
"misturar na mesma proporção tinta e água”, quando daretirada da conseqüên­
cia diretamente produzida e a manutenção da conseqüência social, deveria ser 
um indício de que tal resposta faz parte da classe de respostas definidas por sua
58
função em comum de produzir a aprovação social e não da classe de respostas 
definidas pela sua função em comum de produzir "efeitos artísticos”. Dessa 
fbrma, o comportamento seria sim sensível às contingências, no caso às contifl 
gências que incluem conseqüências sociais. Portanto, continuar atribuindo a tal 
-comportamento a característica de insensibilidade é no mínimo negligenciar o 
: poder reforçador de conseqüências fornecidas pela comunidade contingente à 
obediência, sujeição, condescendência, submissão... e, no máximo, impedir o 
estudo das variáveis críticas no controle deste tipo de padrão que, apenas apa­
rentemente, poderia ser denominado de insensível.
Porém, podemos apresentar ainda uma segunda possibilidade de explica­
ção para padrões de comportamento denominados de insensíveis. S uponha que 
nossa investigação levasse à constatação de que realmente a(s) conseqüênaa(s) 
responsável(eis) pela manutenção do comportamento não mais estivesse(in) 
àèhdo produzida(s), fosse(m) ela(s) a conseqüência direta, a conseqüência so­
cial ou ambas e, a despeito deste fato, a resposta continuasse sendo emitida. 
*Fi*ente a tal constatação, poderíamos continuar a qualificar tal com portam ento 
Com insensível às contingências? Mesmo estando ausentes as conseqüências 
ítsponsáveis pela manutenção do comportamento e este, ainda assim, conti­
nuar a ser emitido, considerar tal comportamento como insensível não implica 
ilicorrer no erro de descartar toda uma literatura que investiga as variáveis que 
contribuem para aumentar a resistência à extinção? Já é bem sabido, entre os 
analistas do comportamento, que manipulações no nível de privação, histó­
rias prévias com diferentes esquemas, tempo de exposição às contingências de 
reforço, entre outras, são todas variáveis que interferem na velocidade com a 
qual o comportamento deixa de ser emitido quando não mais produz as conse­
qüências responsáveis pela sua manutenção. Até onde temos conhecimento, 
não se tom ou prática comum na literatura sobre resistência à extinção adjetivar 
comportamentos mais resistentes de insensíveis às contingências. Entretanto, 
parece que quando a variável em questão é o controle por regras, deixa-se de 
caracterizar o efeito observado como resistência à extinção e passa-se a atribuir 
a ele como que um status especial na medida em que se reserva o termo in­
sensibilidade às contingências", o qual além de tudo, como já foi dito, parece 
incoerente dentro de nossa abordagem. Assim, não seria o controle por regras
59
apenas mais uma possível variável que, sob algumas condições, poderia au­
m entar a resistência a extinção?
REGRAS DO TIPO CONSELHO E REGRAS DO TIPO MANDO
Além de refletir a respeito das vantagens e desvantagens presentes no 
controle por regras, podemos pensar sobre as razões para que alguém dê im­
portância à descrição de outrem. Por que seguimos regras? Por que alguém se 
comporta do modo descrito pelo outro?
Skinner (1984) responde essa questão ao fazer uma diferenciação entre 
o operante seguir regra do tipo conselho e seguir regra do tipo mando}. É a análise 
das relações estabelecidas entre a regra (estímulo discriminativo) e os outros 
termos da contingência que permite tal distinção.
Uma regra é classificada do tipo conselho quando as conseqüências contin­
gentes à resposta de seguir a regra são as mesmas que modelariam diretamente o 
comportamento na ausência dessas regras. Nesse caso, as conseqüências não resul­
tam de qualquer ação tomada pelo conselheiro; são intrínsecas ao comportamento 
descrito pela regra. No exemplo acima, a regra seria considerada como conselho se 
a conseqüência mantenedora de seu seguimento fosse o "efeito cintilante” direta­
mente produzido pela resposta de “misturar na mesma proporção tinta e água".
De outro modo, devemos qualificar um a regra como mando quando algu­
mas conseqüências da ação descrita na regra estão sob o poder do mandante, ou 
seja, são conseqüências sociais, extrínsecas ao comportamento, em sua maioria 
aversivas. Se o aprendiz de nosso exemplo emitisse a resposta descrita na regra 
sob controle, apenas, da aprovação de seu mestre contingente ao seguimento 
da regra, então esta seria um mando.
Assim, os termos conselhos e mandos designam diferentes variáveis rela­
cionadas ao seguimento de regras.
5 Vale notar que o termo conselho e mando, nesse m om ento, é utilizado por Skinner para 
se referir ao comportamento do ouvinte sob controle de regras. Anteriormente, em Verbal 
behavior (1957) Skinner utiliza os mesmo termos ao se referir ao comportamento do falante. 
Naquele m omento, conselho é um sub-tipo de mando no qual o beneficio maior pelo segui­
mento do mando é do ouvinte e não do falante, ao contrário do mando do tipo ordem ou 
súplica, casos em que o maior beneficiado é o falante.
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Seja o controle por regras do tipo conselho seja do tipo mando, o importan­
te é considerar que a simples presença da regra não é suficiente para que ela 
seja seguida. É necessária uma história de reforçamento por seguir regras. Seja 
reforçamento diretamente produzido pela resposta, em que quem descreve a 
regra não manipula as conseqüências, seja reforçamento por conseqüências 
detidas pelo emissor da regra.
Um indivíduo pode seguir não apenas descrições elaboradas por outros, 
mas tam bém desenvolver um repertório visando analisar contingências, for­
m ular regras e se com portar de acordo com a análise feita. Para que isso 
ocorra, o sujeito deve possuir um repertório de auto-observação, ou seja, 
atentar para seu comportamento e as condições do ambiente que o afetam. 
Essas respostas de observação podem vir a servir como estímulo discrimina­
tivo para respostas de descrever essas relações. Assim, seria estabelecido um 
repertório para analisar as contingências em vigor e, posteriormente, essas 
análises poderiam funcionar como estímulos discriminativos para determi­nadas respostas.
Portanto, o processo de formular regras passa por três momentos, des­
critos por Sério, Andery, Gioia & Micheletto (2004): o primeiro refere-se às 
interações com o ambiente vividas pelo sujeito, o que não garante que ele as 
observe e as descreva; o segundo é aquele em que o sujeito emite respostas de 
auto-observação e autodescríção das relações comportamentais que estabelece 
com o mundo; e, por fim, o terceiro é o momento em que o comportamento de 
autodescríção afeta o comportamento descrito.
Disso conclui-se que a auto-observação e a autodescríção não são automá­
ticas e que a autodescríção do comportamento pode ou não alterar a resposta 
descrita. Portanto, é importante investigar por que alguém observa o próprio 
comportamento e passa a descrevê-lo e em que condições a resposta de auto- 
descrever altera a resposta descrita; isto é, por que a autodescríção se transfor­
ma em um estímulo antecedente para a resposta descrita na contingência.
Assumir que para a autodescríção funcionar como estímulo antecedente 
é necessária uma história complexa, significa assumir que a consciência-como 
comportamento autodescritivo- não é produto imediatoda experiência e, além 
disso, que a consciência não é suficiente para a mudança comportamental.
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Tendo apresentado os principais conceitos e discussões acerca da relação 
entre descrição verbal e comportamento, podemos prosseguir com a análise 
das especificidades da interação verbal terapeuta-diente que ocorre no settiwg 
tradicional de consultório.
A CLÍNICA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL NO CONSULTÓRIO: ALGUMAS CONSIDE­
RAÇÕES SOBRE A INTERAÇÃO VERBAL CLIENTETERAPEUTA
As primeiras tentativas de aplicação dos conceitos desenvolvidos em labo- 
ratório pelos analistas do comportamento para contextos clínicos ocorreram a 
partir de meados dos anos 60, prática então denominada modificação do compor- 
iamento6. Naquele momento, a atuação dos modificadores de com portam ento 
se desenvolveu, preponderantemente, sobre problemas específicos apresenta­
dos por pessoas institucionalizadas, e as intervenções ocorriam especialmente 
sobre respostas discretas cujo controle era facilitado nos ambientes institucio­
nais, uma vez que se tinha acesso direto a elas para observação e manipulação 
das variáveis relevantes.
De acordo com Pérez-Álvarez (1996), tais aplicações caracterizavam-se 
como modificação do com portam ento e não como terapia, porque o que se 
fez foi modificar respostas "discretas", o que possivelmente contribuiu para o 
êxito dessa prática - "que foi mais local do que global" (idem, p. 45) aspecto que, 
posteriormente, caracterizou-se como um a limitação.
Guedes (1993) afirma que, em razão de severas críticas e das limitações 
dessa prática, os analistas do com portam ento -q u e objetivaram aplicar os prin­
cípios da análise experimental do com portam ento para problemas de natureza 
clínica-reviram seu modelo de atuação e, a partir da década de 1980, tomaram- 
se terapeutas comportamentais, passando a atender, principalmente no setting 
tradicional do consultório, pacientes não institucionalizados. Com a mudança 
de setting e da população-alvo, as características da prática e da interação com 
o cliente mudaram, uma vez que o ambiente de consultório impedia o contato 
direto com as contingências vividas e dificultava o controle de variáveis no 
ambiente natural.
4 Para revisão histórica do movimento da modificação do comportamento, ver Kazdin (1978).
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Essa mudança parecia acrescentar uma dificuldade na prática clínica do 
finalista do comportamento: como lidar com uma terapia de cunho verbal se o 
•objetivo da terapia é modificar as contingências responsáveis pelo sofrimento 
/.(lo cliente (Banaco, 1997)? Se partimos do pressuposto de que todo comporta­
m ento é produto de seleção filogenética, ontogenética e cultural e se algum 
;comportamento existe no repertório de uma pessoa é porque ele foi instalado 
;7Q está sendo mantido por variáveis ambientais, parece razoável afirmar que só 
isetá possível uma mudança na conduta e, conseqüentemente, no sofrimento, 
ijse houver mudança nas variáveis ambientais.
Ferster (1979), ao discutir a aplicação dos pressupostos teóricos da análise
• do comportamento, assume que a freqüência de respostas deve ser considerada 
o dado básico para qualquer análise e que, a partir daí, dever-se-ia definir de 
 ̂ maneira objetiva o comportamento individual, de forma que seja facilitada a 
í investigação das variáveis responsáveis pela freqüência de respostas:
A primeira tarefa de um analista comportamental é definir o com­
portam ento de maneira objetiva, dando ênfase a classes funcionais 
(genéricas) de desempenho que estejam de acordo com os fatos que 
prevalecem na clínica, cujos componentes comportamentais podem 
ser observados, contados e classificados. Então, será possível descobrir, 
através da aplicação de procedimentos comportamentais, o tipo de cir­
cunstâncias que permitem aumentar ou diminuir a freqüência de certos 
tipos de atuação. (Ferster, 1989, p. 700)
Pérez-Álvarez (1996) discute a terapia comportamental como a análise do 
comportamento aplicada no setting de consultório, contexto esse que, no início, 
não contemplava o analista do comportamento. T rabalhar neste setting significa, 
para o autor, lidar com os "pacientes externos” (p. 94), ou seja, pacientes não 
institucionalizados, com problemas complexos7 que ocorrem na vida cotidiana 
e, conseqüentemente, fora do controle do terapeuta. Assim, afirma o autor, a
7 Vale atentar que o termo complexo utilizado por Pérez-Álvarez (1996) para caracterizar os 
tipos de problemas que o paciente externo apresenta possivelmente opõe-se a respostas discre­
tas, foco da intervenção do modificador do comportamento nos ambientes instiiudonais.
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prática clínica comportamental caracteriza-se por uma prática verbal, que só é 
possível devido ao conhecimento produzido pela análise do comportamento so­
bre aprendizagem, principalmente aquela relativa ao comportamento verbal.
O cliente, quando procura o serviço de um terapeuta, geralm ente tem 
um problema, seja porque ele sofre, seja porque seus comportamentos geram 
sofnmento para aqueles com os quais convive (Guedes, 1997), Desde a primeira 
interação cliente-terapeuta, se estabelece um a interação verbal. Ambos falam 
sobre os problemas trazidos pelo cliente com o objetivo último de minimizar- 
lhe o sofrimento. Portanto, nesse setting, d iénte e terapeuta estabelecem um a 
relação verbal na qual assumem os papéis de falante e de ouvinte. É essa intera­
ção verbal que constitui, a um só tempo, o objeto primeiro da intervenção e a 
base para a transformação das contingências vividas pelo cliente.
Considerando que o objetivo da terapia analítico-comportamental seria 
alterar relações do cliente com seu ambiente de modo a diminuir seu sofrimen- 
to (Banaco, 1997) e que a terapia, quando ocorre no setting tradicional de con­
sultório, define-se como uma prática eminentemente verbal; a questão que se 
coloca é: como interações verbais cliente-terapeuta permitiriam alterações nas 
relações vividas pelo diente em sua vida cotidiana, fora do consultório?
Para responder essa questão, é necessário retomar por que ocorre a descrição 
verbal de contingências e como se dá o processo que leva ao estabeledmento des­
se relato como estímulo que controla as respostas descritas, seja a descrição feita 
pelo próprio cliente ou pelo terapeuta. Isso equivale a retomar os três momentos 
do processo envolvido no controle de um a resposta por uma (auto)descrição.
O primeiro m om ento diz respeito a viver as interações com o ambiente e, 
obviamente, é experienciado por todo e qualquer cliente.
O segundo é aquele em que tais interações são descritas. Devemos conside­
rar que o trabalho no consultório permite acesso, apenas, ao segundo

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