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A Atipicidade do Crime de 
Lavagem de Dinheiro:
Análise Crítica da Lei 12.684/12 
a partir do Emergencialismo Penal
www.lumenjuris.com.br
Editores
João de Almeida
João Luiz da Silva Almeida
Conselho Editorial
Adriano Pilatti
Alexandre Morais da Rosa
Cezar Roberto Bitencourt
Diego Araujo Campos
Emerson Garcia
Firly Nascimento Filho
Frederico Price Grechi
Geraldo L. M. Prado
Gustavo Sénéchal de Goffredo
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Daniela Villani Bonaccorsi
Doutora (PUC Minas) e Mestre (PUC Minas)
Advogada e Professora Universitária
A Atipicidade do Crime de 
Lavagem de Dinheiro:
Análise Crítica da Lei 12.684/12 
a partir do Emergencialismo Penal
Editora Lumen Juris
Rio de Janeiro
2013
Copyright © 2013 by Daniela Villani Bonaccorsi
Categoria: Direito Penal
Produção Editorial
Livraria e Editora Lumen Juris Ltda.
Diagramação: Camila Cortez 
Capa: Raquel Minelli
A LIVRARIA E EDITORA LUMEN JURIS LTDA.
não se responsabiliza pela originalidade desta obra.
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio
ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais.
A violação de direitos autorais constitui crime
(Código Penal, art. 184 e §§, e Lei nº 10.695, de 1º/07/2003),
sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações
diversas (Lei nº 9.610/98).
Todos os direitos desta edição reservados à
Livraria e Editora Lumen Juris Ltda.
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Dados internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
Para Carola
Sumário
Introdução ............................................................................. 1
| 1 |
Introdução
A presente obra analisa o crime de lavagem de dinheiro 
utilizando como pano de fundo o aparecimento de um emer-
gencialismo no âmbito penal, analisado juntamente com o cha-
mado sistema garantista (FERRAJOLI, 2006), buscando-se rela-
cionar as repercussões dos fenômenos da globalização no direi-
to penal, vinculada ao desenvolvimento de crimes de natureza 
econômica, especificamente o crime de lavagem de dinheiro.
Para possibilitar tal análise, parte-se da proposta de Sil-
va Sanchez (2002) traçando-se uma delimitação da sociedade 
pós-moderna, seus efeitos políticos e sociológicos na caracte-
rização da chamada “expansão do direito penal”. 
Dessa forma, essa sociedade pós-industrial será definida 
a partir do conceito de globalização, partindo-se do estudo de 
efeitos políticos, que possibilitarão uma compreensão do que 
hoje é destacado como um verdadeiro constitucionalismo glo-
bal, no qual se propõe um tipo de união política dos sujeitos 
que não é medida pelos estados ou pela nação. 
Há hoje uma verdadeira crise do próprio conceito de Es-
tado e soberania, daí a necessária análise dessa perda de au-
tonomia com a definição de políticas sociais e econômicas e o 
aparecimento de problemas de alcance global que vão além 
das possibilidades de resposta estatal tradicional.
Além desse aspecto político, será destacado como efeito 
sociológico da globalização o surgimento de uma verdadeira 
“sociedade de riscos”. Esse modelo social será analisado a 
partir do sociólogo Ulrich Beck, em 1986 (Risk Society) dian-
te da intensa relação hoje dessa proliferação de leis no siste-
ma penal com base em demandas sociais, que buscam um 
amparo de um risco em potencial. 
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As várias revoluções políticas e industriais, caracteri-
zadas com o processo de globalização, trouxeram riscos não 
delimitáveis, crises ecológicas e financeiras e um avanço tec-
nológico que possui efeitos benéficos e maléficos. Se, por um 
lado, a velocidade de informações, de transações, de relações, 
trouxe a possibilidade de se ter notícias quase que simultane-
amente ao ocorrido, veio juntamente o medo pela noção da 
dificuldade do aviso de que isto irá acontecer.
Por isso, é necessária a análise dessa sociedade da in-
segurança, do medo, reforçada por uma mídia que vende e 
divulga a propaganda de um direito penal rápido, urgente, 
preventivo e que possa de alguma forma garantir a sociedade 
de um porvir, de algo que nem mesmo chegou a ocorrer.
Nessa sociedade pós-industrial, que será destacada como 
um dos fenômenos da mundialização econômica, analisar-se-
-ão os fenômenos jurídicos e sua repercussão numa situação 
de “inflacionismo” penal à qual se tem assistido desde os anos 
80. Uma série de condutas até então não previstas no âmbi-
to penal, mas somente num âmbito administrativo, geraram 
inúmeras legislações extravagantes, como as leis de crime de 
sonegação fiscal (Lei nº 8137/90), Lei de lavagem de dinheiro 
(Lei nº 9613/98), de crimes contra o sistema financeiro (Lei nº 
7492/86), dentre outras. De plano podem-se perceber pontos 
em comum entre essas leis que serão imprescindíveis na pes-
quisa aqui sugerida: um perfil eminentemente econômico.
Da mesma forma que a sociedade mudou, junto com ela 
mudaram o criminoso e a conduta executada. Não há somen-
te o criminoso de um direito penal clássico que aparece como 
o sujeito que faz parte da grande massa desprivilegiada, que 
é resultado de uma sociedade com uma renda irregularmente 
distribuída e que pratica crimes relacionados à violência e que 
pode atingir bens jurídicos individuais. Enquanto a tradição 
do direito penal detinha sua preocupação no indivíduo e na 
proteção de bens eminentemente pessoais, as transformações 
que o mundo experimentou com a globalização trouxeram 
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uma realidade distinta. Toma lugar um criminoso que visa 
antes de tudo ao lucro, à vantagem econômica, e que passa a 
utilizar-se do sistema financeiro, da sonegação de impostos, 
das transações bancárias via internet, e dos meios cada vez 
mais elaborados na execução de crimes.
Não se fala de um criminoso que possui uma vida dedi-
cada ao crime, nesse âmbito econômico, mas daquele que pos-
sui uma atividade laboral lícita, uma respeitabilidade social, 
uma estabilidade econômica. 
Com todas essas características, partir-se-á para a análi-
se desse inflacionismo penal, em que a “administrativização” 
do direito penal surgiu com a incriminação de condutas rela-
cionadas a essas atividades econômicas, com penas cada vez 
mais rígidas, com a previsão de inúmeros crimes de perigo 
abstrato que trazem um risco a um bem jurídico supraindivi-
dual. Tudo em nome da “prevenção”, do “medo” de algo que 
pode vir a ocorrer, da promessa de devolução de uma “paz 
social” que na realidade nunca foi alcançada.
Para se compreender essas medidas de caráter urgente, o 
conceito e o reconhecimento do emergencialismo serão anali-
sados, sendo, no presente estudo, diretamente ligados ao ris-
co, ao expansionismo penal e à figura desse novo criminoso.
Como a prevenção do risco se torna o “foco” do direito 
penal, nada foi tão bem-vindo como a “etiquetagem” desse 
criminoso como um “inimigo”. 
A concepção do ”outro” como “inimigo” e a prioridadeda urgência de 
um inimigo que está prestes a atacar a qualquer momento, o 
muçulmano é o inimigo a partir do terrorismo, como os pre-
cessores comunistas já defendiam em teorias políticas.
Cabe destacar, também, no campo pe-
nal, que com a queda do muro de Berlim 
e o fim da guerra fria, para justificação 
da opressão, precisou-se de novo inimi-
go, não mais externo, mas interno. Neste 
contexto, o discurso de almanaque tor-
nou, por razoável tempo, a droga o gran-
de “bode expiatório” dos males mun-
diais, justificando, assim, a intervenção 
dos “ guardiães mundiais”, os Estados 
Unidos da América, na preservação do “ 
bem mundial” (rosa del omo). Entretan-
to, com os ataques de 11 de setembro, o 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
foco modificou-se para os “terroristas”. 
Essa figura oculta, de difícil compreen-
são, desde uma intolerância ocidental, 
num mundo globalizado (BECK, 2011), 
autoriza, pela necessidade, a suspensão 
do Estado Democrático de Direito. O 
desconhecido, o estrangeiro, o mito, o de-
mônio com nova roupagem, materializa-
do pelo “terrorista” que funciona como 
um estereotipo de tudo o que atrapalha 
a “paz” da nova “ordem mercadológica 
neoliberal mundial” (ROSA, 2009, p. 29).
Sem dúvida alguma, a perplexidade e o repúdio causados 
por inúmeros atentados terroristas, dos quais o ataque às torres 
do World Trade Center foi momento significativo e de imenso 
sofrimento, deixaram o mundo atônito e concederam aos mu-
çulmanos um destaque importante na discussão das questões 
de segurança nacional, o que justificou a visão de necessidade 
de um direito penal voltado aos cidadãos e outro ao inimigo. 
A partir do “11 de setembro”, o inimigo com característi-
cas de possível terrorista passa a ser perseguido e eliminado, 
diante da visão do mesmo como inimigo em potencial, e, daí, 
o interesse é um só, o resultado, pouco importando se no ca-
minho há sacrifícios por direitos ou garantias fundamentais.
No caso de Bin Laden, por exemplo, o medo e o repúdio 
reforçam ainda mais a ânsia punitiva da sociedade, que passa 
a entender que a única forma de prevenção é a destruição do 
inimigo, sua morte, pois ele não é um acusado sujeito a di-
reitos e garantias, mas um perigo em potencial. Em nenhum 
momento se questionou sobre prisão, processo e pena de Bin 
Laden, pois estavam todos ocupados em comemorar e aplau-
dir a vitória do Estado na eliminação de um risco. 
Há pouco se presenciou um caso concreto que, inclusive, 
tomou conta das telas de cinemas, quando um brasileiro, sem 
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Daniela Villani Bonaccorsi
nenhuma atitude suspeita, antes de qualquer ação, é morto à 
queima roupa no metrô de Londres, por ter sido confundido 
com um inimigo, um terrorista20:
Sono gli anni dell’emergenza contro la minac-
cia del terrorismo, per usare il gergo di comu-
ne dominio, che irrompono nella pratica degli 
apparati di prevenzione e repressione penale, 
si fanno spazio del diritto penale materiale, si 
irrompono nella pratica degli apparati di pre-
venzione e repressione penale, si fanno spazio 
nel diritto penale e processuale, si impongono 
nele regole normative di accertamento e di as-
crizione della responsabilita penale e di deter-
minazione delle sanzione ed egemonizzano il 
sistema di esecuzione delle pena. L’emergenza 
ridisegna l’ordine della dipendenza reciproca e 
delle intersecazioni tra questi diversi livelli e 
settori del controllo sociale penale e provvede 
alta formazione di una cultura dell’emergenza 
che absolve a funzioni di legittimazione21. 
(BARATTA, 1983, p. 543/592).
20 Jean Charles de Menezes (Gonzaga, Minas Gerais, 7 de janeiro de 1978 - 
Londres, 22 de julho de 2005) foi um brasileiro que ficou conhecido após ser 
morto por engano pela SO19, unidade armada da Scotland Yard dentro de 
um trem do metrô de Londres. Os policiais supostamente o confundiram 
com Hamdi Adus Isaac (ou “Hussain Osman”) suspeito de tentar fazer 
um fracassado atentado a bomba no metrô, na véspera [1]. Esses fatos 
ocorreram duas semanas após os atentados de 7 de julho, quando uma 
série de explosões atingiu o sistema de transporte público de Londres, e 
56 pessoas morreram. (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_
Jean_Charles_de_Menezes. Acesso em: 10/08/2012). 
21 “Estes têm sido os anos de emergência contra a ameaça do terrorismo, para 
usar o jargão do domínio comum, que estourou na prática de um direito 
penal preventivo e repressivo, aparecem medidas de prevenção e repressão 
criminal, no direito e processo penal, para as quais exigem regras norma-
tivas para atribuição de responsabilidade penal, determinação da sanção 
e sistema de execução da sentença. A emergência redesenha a ordem de 
dependência mútua e intersecções entre estes diferentes níveis e setores de 
controle social e fornece grande penalidade de uma cultura que absorve as 
funções de emergência de legitimidade”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Mas o inimigo não é somente o terrorista. O medo da 
“criminalidade organizada” é o principal responsável pelas 
mais radicais alterações na direção do enrijecimento do poder 
de polícia, e também do Direito penal, nos últimos tempos 
(HASSEMER, 2008, p. 271).
Pode-se citar, como na Itália, a emergência que se mostra 
presente na realidade no processo de crimes contra a crimi-
nalidade organizada, antecamorra, antiterrorista, como men-
ciona Resta (1983):
in assenta di una reforma organica e coerente 
dei codici penale e di procedera penale, il pano-
rama legislativo italiano e salto continuamen-
te acosso da numeroso interventi, che, dettati 
dalla crescita del fenomeno terroristico, sono 
satisfeita presentati come provvedimenti pro-
vvisori e di carattere eccezionale. Nè e nato un 
micro-sistema, non sempre coerente má abas-
tanza unitario, di legislazione eccezionale o di 
emergenza che há un rapporto molto specifico 
con i codici vigenti. Il carattere eccezionale 
come e stato rilevato dai giuristi piu attenti, si 
risolve piuttosto in una dimensione evocativa 
e simbolica che non tecnica; questa legislazio-
ne há in sostanza un rapporto di profonda con-
tinuita con le linee di tendenza fondamentali 
del sistema penalistico, stabilendo addirittura 
arretramenti Sul piano dele garanzie constitu-
cionalmente previste22. (RESTA, 1983, p. 41).
22 “ausente em uma reforma orgânica coerente dos códigos penais e de 
processo penal, o panorama legislativo italiano tem sido caracterizado por 
inúmeras intervenções, que são ditadas pelo crescimento do fenômeno do 
terrorismo, a partir de medidas de caráter provisório e excepcional. Surge 
um verdadeiro microsistema, nem sempre consistente, mas excepcional 
ou de emergência, que reúne uma relação específica com os códigos. Há 
características excepcionais, com uma dimensão simbólica, uma legislação 
que tem uma relação de continuidade profunda com as tendências do 
sistema fundamental penal, estabelecendo até mesmo retrocessos no plano 
de garantias prestadas constitucionalmente” (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Ferrajoli (1983), descrevendo as características emergen-
cialistas do processo penal italiano, fundamenta:
La fase del processo penale più duramente 
colpita è dalla legislazione antiterroristica 
e dalla cultura giudiziaria dell’ emergenza 
é stata senza dúbio quella dell’istruttoria. 
Questa fase del nostro processo, quale è di-
segnata dal códice di procedura, è già per sé 
contraddistinta da pesanti elementi inquisi-
tori: lenormità di poteri della pubblica accu-
sa, la sostanziale solidarietà che llegaa loro 
giudici istruttoti e pubblici ministeri, Il ca-
rattere segretod el formazione delle prove, la 
lunga carcarazione preventiva, l’irrilevante 
del ruolo della difesa e l’inesistenza di fatto 
del contradittorio. (FERRAJOLI, 1983)
Na Itália, onde além do temor terroristaa máfia ocupa 
espaço de domínio desde os anos 20 (BARATTA; SILBERNA-
GL, 1983, p. 543/592), percebe-se uma tendência emergencia-
lista em que se paga o preço de direitos fundamentais:
Le vicende legislative in matéria di crimine 
organizzato di natura mafiosa o camorristi-
ca, costituiscono ll esempio emblemático della 
stabilizzazione di uma legislazione penale 
dell’emergenza che ha contribuito alla nascita 
di uma nova cultura, radicando um fenômeno 
endêmico che poteva reovare ragioni di solu-
zione se solo vi fosse stata uma efficace ed ade-
quata política di riscatto sociale ed economico23. 
(TRONCONE, 2001, p. 176).
23 “Os eventos em matéria de natureza do crime organizado, da máfia ou 
Camorra, são emblemáticos, constituem exemplo da estabilização da lei de 
emergência humanitária criminosa, que tem contribuído para o surgimento 
de uma cultura nova, enraizamento de um fenômeno endêmico que 
poderia renovar as soluções se houvesse uma política adequada e eficaz 
aos riscos sociais e econômicos”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A criação de um sistema penal ilusório e simbólico, os 
meios de comunicação de massa, de modo – quase – inofensi-
vo introjetam na sociedade o medo e a insegurança (ZAFFA-
RONI, 2002). Hassemer (2008) menciona que, também no di-
reito penal alemão, a questão relacionada à segurança pública 
encontrou sua panaceia em um sistema punitivo: 
Essa política tende atualmente – quan-
do não consegue remover a discussão 
de seu caminho – a conformar-se com 
posições que uma vez mais defendem 
a exacerbação e ampliação dos meios de 
combate ao crime e reduzem o comple-
xo “violência e criminalidade” a duas 
questões: a investigação por meio da 
“grande escuta”, isto é, a possibilidade 
de colher eletronicamente conversas 
ocorridas no recesso do lar ou qual-
quer ambiente privado para fins inves-
tigatórios, e a autorização legal para 
que agentes policiais secretos possam 
cometer pequenos ilícitos penais típi-
cos do milieu onde buscam infiltrar-se. 
(HASSEMER, 2008, p. 264) 
Também, em tempos de globalização econômica, em que 
a intenção de lucratividade ocupa grande espaço, a criminali-
dade organizada não é característica somente de tráfico ilícito 
de entorpecentes, mas, inclusive, do criminoso econômico. 
Por se tratar de criminoso que detém o poderio econômico, o 
criminoso do colarinho branco detém uma verdadeira estru-
tura criminosa, caracterizada com a presença de advogados, 
contadores, políticos, e que o tornam, da mesma forma que o 
terrorista, um foco para o processo de emergência.
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Daniela Villani Bonaccorsi
Também, pode-se citar o histórico julgamento do esque-
ma descrito na Ação Penal 470 do STF, conhecido pela mídia 
como caso “mensalão”24. 
A denúncia descrevia um suposto esquema de compra de 
votos de parlamentares para apoio político ao governo Lula e 
pagamento de dívidas de campanhas eleitorais. A denúncia diz 
que políticos da coalizão governista recebiam pagamentos men-
sais para apoiar a gestão petista, tendo a exordial sido oferecida 
por crimes como corrupção, formação de quadrilha e lavagem 
de dinheiro, envolvendo agências de publicidade, advogados, 
políticos, instituições financeiras, por exemplo (BRASIL, 2005).
A sociedade acompanhou a mídia descrevendo o pro-
cesso, e, por óbvio, julgou e condenou, já esperando um re-
sultado que trouxesse uma sensação de punição, como: “fi-
nalmente o político vai pra cadeia”. Não importa hoje, num 
momento emergencial, se os autos descrevem provas, defesa 
ou garantias suficientes, mas, sim, depois de demonstrada a 
24 Segundo as informações publicamente fornecidas, o Procurador Geral da Re-
pública, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, na Denúncia Oficial que 
apresentou e foi acolhida pelo Supremo Tribunal Federal[27], o ex-deputado 
federal Roberto Jefferson, então Presidente do PTB, acuado, pois o esquema 
de corrupção e desvio de dinheiro público, com a divulgação do vídeo feito 
por Joel Santos Filho estava focado, em um primeiro momento, em dirigentes 
dos Correios indicados pelo PTB, resultado de sua composição política com 
integrantes do Governo, divulgou, inicialmente pela imprensa, detalhes do 
esquema de corrupção de parlamentares, do qual fazia parte, esclarecendo 
que parlamentares que compunham a chamada “base aliada” recebiam, pe-
riodicamente, recursos do Partido dos Trabalhadores em razão do seu apoio 
ao Governo Federal, constituindo o que se denominou como “mensalão”.
 O neologismo mensalão, popularizado pelo então deputado federal Ro-
berto Jefferson em entrevista que deu ressonância nacional ao escândalo, é 
uma variante da palavra “mensalidade”, usada para se referir a uma supos-
ta “mesada” paga a deputados para votarem a favor de projetos de interes-
se do Poder Executivo. Segundo o deputado, o termo já era comum nos bas-
tidores da política entre os parlamentares para designar essa prática ilegal. 
Jefferson acusou o então Ministro da Casa Civil José Dirceu de ser o mentor 
do esquema. A palavra “mensalão” foi então adotada pela mídia para se 
referir ao caso. Vale esclarecer que até a presente data – jan/2013- ainda não 
houve julgamento definitivo e, dessa forma, as informações advém de no-
tas publicadas em site oficial do Supremo Tribunal Federal. (BRASIL, 2005).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ação da justiça pela mídia, que exista a “tão esperada” conde-
nação. Diante da imensa repercussão, quando do julgamento 
em plenário, conforme palavras da própria defesa de um dos 
denunciados acusados de operacionalizar o esquema, o réu 
não poderia ser visto como “troféu ou personagem a ser sa-
crificado em altar midiático. Foi vítima de implacável publici-
dade opressiva. Tendo sido processado, julgado e condenado 
pela mídia” (...) (LEONARDO, 2012).
A repercussão é tal que o próprio estado aproveitou o seu 
momento de “show” quando “coincidentemente”, em meio a 
acusações de lavagem de dinheiro divulgadas pela mídia pela 
repercussão do caso e suposto envolvimento de publicitários, 
empresários, advogados, entra em vigor a nova lei de lavagem 
de dinheiro, que, em seu art. 9º25, passa a exigir que qualquer 
25 “CAPÍTULO V- DAS PESSOAS SUJEITAS AO MECANISMO DE CONTROLE” 
 “Art. 9º Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas 
físicas e jurídicas que tenham, em caráter permanente ou eventual, como 
atividade principal ou acessória, cumulativamente ou não:
 Parágrafo único. ..................................................................... 
 I – as bolsas de valores, as bolsas de mercadorias ou futuros e os sistemas 
de negociação do mercado de balcão organizado;
 ........................................................................................................ 
 X - as pessoas físicas ou jurídicas que exerçam atividades de promoção 
imobiliária ou compra e venda de imóveis;
 ........................................................................................................ 
 XII - as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de luxo ou de 
alto valor, intermedeiem a sua comercialização ou exerçam atividades que 
envolvam grande volume de recursos em espécie; 
 XIII - as juntas comerciais e os registros públicos; 
 XIV - as pessoas físicas ou jurídicas que prestem, mesmo que eventual-
mente, serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconse-
lhamento ou assistência, de qualquer natureza, em operações: 
 a) de compra e venda de imóveis, estabelecimentos comerciais ou indus-
triais ou participações societárias de qualquer natureza; 
 b) de gestão de fundos, valores mobiliários ou outros ativos; 
 c) de abertura ou gestão de contas bancárias, de poupança, investimento ou 
de valores mobiliários; 
 d) de criação, exploração ou gestão de sociedades de qualquer natureza, 
fundações,fundos fiduciários ou estruturas análogas; 
 e) financeiras, societárias ou imobiliárias; e 
 f) de alienação ou aquisição de direitos sobre contratos relacionados a ati-
vidades desportivas ou artísticas profissionais; 
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Daniela Villani Bonaccorsi
profissional, dentre os mencionados, passe a prestar contas de 
seus clientes, mostrando justamente a ação do estado diante 
da urgência em se punir uma conduta idêntica às que deram 
origem à acusação da mencionada ação penal. Claro exemplo 
de emergência penal. Assiste-se a um julgamento público em 
que claramente a preocupação é muito mais em dar uma sa-
tisfação à sociedade do que garantir um julgamento justo. 
Conforme a defesa descrita, numa visão emergencialis-
ta, não se pode aguardar um julgamento justo e com direi-
tos e garantias, pois a influência midiática e a demonstração 
de responsabilização dos acusados não dá espaço à defesa, 
mas a um processo penal que dá lugar a decisões políticas26 
que buscam mais a satisfação do clamor público do que de 
observância a direitos e garantias, porque o inimigo, o não 
cidadão não merece tal garantia.
Assim, a emergência reforça a compreensão de inimigo 
com uma incompatibilidade estrutural do direito penal de 
fato, dando espaço a um direito penal do autor, que passou a 
ter um tratamento diferenciado com legislações excepcionais 
e mais duras, e com um processo que busca um resultado a 
qualquer custo, ainda que se sacrifiquem direitos e garantias.
A ideia de inimigo, assim, é diretamente ligada ao emer-
gencialismo, uma vez que, originariamente, Jakobs (2008) 
justificou a ideia do inimigo27 em situações de emergência, e 
 XV - pessoas físicas ou jurídicas que atuem na promoção, intermediação, 
comercialização, agenciamento ou negociação de direitos de transferência 
de atletas, artistas ou feiras, exposições ou eventos similares; 
 XVI - as empresas de transporte e guarda de valores; 
 XVII - as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de alto valor 
de origem rural ou animal ou intermedeiem a sua comercialização; e 
 XVIII - as dependências no exterior das entidades mencionadas neste 
artigo, por meio de sua matriz no Brasil, relativamente a residentes no 
País.” (BRASIL, 2012c).
26 A noção e influência da política serão trabalhadas no item seguinte.
27 “En concreto, Jakobs identifica “enemigos” em las seguinentes áreas: según su actitud, 
em los delitos sexuales y em supuestos de criminales habituales; según su ocupación, 
los delincuentes econômicos y los de la criminalidad organizada; según su vinculación 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
excepcional direitos e garantias àqueles que se “encaixem” na 
condição de inimigo, como hoje se fala do terrorismo, do cri-
minoso organizado, do criminoso econômico28. O autor justi-
fica a teoria com o argumento de que houve grande mudança 
no direito penal e processual penal; com temores prévios, o or-
denamento tem se materializado com novas leis mais rígidas, 
novas formas de atuar, novas guerras, múltiplos fenômenos 
que servem para caracterizar a situação atual de medo. O au-
tor passa a fazer a delimitação de que, de um lado, estariam os 
cidadãos, as vítimas, e de outros, os criminosos, os inimigos:
la actividad legislativa em materia penal, de-
sarrollada a lo largo de lãs dos últimas décadas 
em los países de nuestro entorno, há puesto, 
alrededor del elenco nuclea de normas penales, 
com uma organización, terrorismo, criminalidad organizada, tráfico de drogas, complot 
para asesinar.(...) la situación de de emergencia actual, que va em incremento, se 
debería a la diminuición de fuerza vinculante de la sociedad, la cual a sua vez sería 
producto de la desintegración familiar; em cpmsecuencia la sociedad tendrá “enemigos” 
que circularán abiertamente como tales o “com piel de cordero”. (MELIÁ, 2006, p. 9).
28 “Inicialmente, Jakobs no empleaba uma posición tan radical, aunque El contenido 
de esta Idea ya estaba presente em su manual y em contribuiciones anteriores a la 
hora de tratar los “delitos de abstracto” y otros casos de punibilidad adelantada. En 
sus primeras menciones al “enemigo”, afirmaba que um Derecho Penal del enemigo, 
solamente debería tener legitimidad em um “Derecho penal de emergência que rige 
excepcionalmente”, y que ello sería, más bien, signo de uma falta de “fortaleza 
del Estado de liberdades”. El termino “Derecho penal del enemigo” era usado, 
entonces, para criticar a a doctrina tradicional y a la legislación penal basada em 
aquella, la cual, mediante algunas figuras dogmáticas tratarían al ‘ciudadano” 
como um “enemigo”. Jakobs criticaba así la teoria de “bienes jurídicos” por tratar 
supuestamente al “autor” como “enemigo del bien jurídico”, como fuente de peligro. 
Además identificaba que tal tratamiento se estaria dando ya de lege lata em algunos 
tipos penales como em la “falsificación documental” y la “producción, adquisición 
o entrega a outro de sustâncias radioactivas”, em los cuales se “desprovatizarían” 
lãs conductas para poder acceder a outro aspecto interno, El de los “planes del 
sujeto”, tratándolo así como “enemigo” (...) se habría pretendido proteger mejor 
los bienes jurídicos, pero al mismo timepo se estaria penetrando ilegítimamente 
em El “âmbito interno” de lãs personas. Por ello resume Jakobs: “(...) El Derecho 
penal de enemigos optimiza la protección de bienes jurídicos, El Derecho penal de 
ciudadanos optimiza las esferas de liberdad”.(MELIÁ, 2006, p. 3) “.
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Daniela Villani Bonaccorsi
un conjunto de tipos penales que, vistos desde 
la perspectiva de los bienes jurídicos clásicos 
constituyen hipótesis de ‘criminalización del 
estado previo’ a lesiones de bienes jurídicos 
cuyos marcos penales, además, estabelecen 
sanciones desproporcionadamente altas29. 
(JAKOBS; MELIÁ, 2005, p. 56).
Não se pretende grande aprofundamento no tema, mas a 
noção do inimigo é imprescindível na análise do emergencia-
lismo e, em seguida, do crime de lavagem de dinheiro30.
A noção de direito penal do inimigo surgiu em 1985 no 
Congresso de Professores Alemães de Direito Penal, celebra-
do em Frankfurt, em que Gunther Jakobs descreveu uma re-
flexão sobre a tendência de uma “criminalización en el es-
tadio previo a um lesión del bien jurídico31”. Jakobs trata da 
29 “A atividade penal legislativa desenvolveu-se ao longo das últimas décadas, 
assim sendo, nos países a nossa volta, tem-se inserido um elenco de normas 
penais, um conjunto de tipos penais que, visto a partir da perspectiva de 
bens jurídicos clássicos constituem hipóteses de “criminalização de estado 
prévio” a lesões a bens jurídicos dos quais os marcos penais estabelecem 
sanções desproporcionalmente altas”. (Tradução livre). 
30 Desde já, vale explicar que não se pretende relacionar a teoria do direito penal do 
inimigo com os crimes econômicos, mas sim com a noção de emergencialismo, 
tanto na sua questão material, com a adoção de crimes de perigo abstrato, com 
o enrijecimento das penas e relativização de direitos e garantias em nome da 
prevenção, quanto num caráter processual, que será analisado oportunamente.
31 A fim de justificar a terminologia “inimigo”, Jakobs recorre a inúmeros 
filósofos, afirmando que tal termo já era conhecido, mas faz uma interpretação 
própria dessas ideias filosóficas: “Kant (que hablaba del ‘enemigo’), Fichte 
(sujeto ‘sin derechos’), Hobbes (‘malos ciudadanos” y “enemigos del Estado”) y 
Rosseau (“hombres” que dejan de ser “personas Morales”). Jakobs distingue entre 
a posição dos contratualistas – Rosseau y Fichte”, que consideravam como 
inimigos todos os delinquentes- e concorda com uma posição moderada- 
Hobbes e Kant, que distinguem criminosos ordinários e inimigos (MELIÁ, 
2006, p. 7). A partir das concepções de Hobbes e Kant, Jakobs justifica a sua 
proposta distinguindo “personalidade real” e “personalidade fática”. A 
personalidade real seria a dos cidadãosque acabam por ofender normas 
num contexto considerado “normal”; no caso da fática, estaria o caso do 
inimigo que não possui garantias de que não vá seguir ofendendo as 
normas. De tal forma, conceitua o inimigo como “otro que, pese a posser todo 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ideia de que, no caso de indivíduos considerados perigosos, 
em função da natureza dos crimes, habitualidade, reincidên-
cia criminal, estilo de vida, seria excluída a condição de cida-
dão, tornando-se inimigo da sociedade. (ALLER, 2006, p. 80).
A essência do direito penal do inimigo está na sua ca-
racterística de reação de combate, do ordenamento jurídico, 
contra indivíduos especialmente perigosos:
(...) la expectativa de um comportamiento cor-
recto no puede ser mantenida contrafáctica-
mente de modo ilimitado; más aún: no debe ser 
mantenida ilimitadamente, ya que el Estado 
há de procurar uma vigência real del Derecho, 
por lo que tiene que proceder contra los que-
brantamientos del derecho cuya próxima omi-
sión se percibe. Una expectativa normativa 
dirigida hacia uma determinada person pierde 
su capacidad de orientación cuando carece del 
apoyo cognitivo prestado por parte de esa per-
sona. En tal caso, (...) la expectativa normati-
va es substituída por la orientación cognitiva, 
lo que significa que la persona- la destinatária 
de expectativas normativas- muta para con-
vertirse em fuente de peligro, em um problema 
de seguridad que debe abordarse de modo cog-
nitivo32. (JAKOBS, 1999, p. 137).
para formar parte de la comunicación normativa entre personas, se niega a hacerlo 
“de manera permanente”, com lo cual implica uma “peligrosidad” para los demás que 
si comunican y quieren comunicar”. (JAKOBS; MELIÀ, 2005, p. 33).
32 “(...) a expectativa de comportamento correto não pode ser mantida sem 
limites, já que o estado deve procurar uma vigência real de direitos, tendo 
que adotar medidas contra as violações do direito nas quais se percebe 
uma omissão. Uma expectativa normativa voltada para determinada 
pessoa perde a sua capacidade de orientação sobre quando ela não tem o 
suporte cognitivo. Neste caso, (...) a expectativa normativa é substituída por 
orientação cognitiva, o que significa que a pessoa abordada é destinatária 
de expectativas normativas - torna-se uma fonte de perigo, em um problema 
de segurança que deve ser abordado de modo cognitivo.” (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Conforme ensina Cancio Meliá (2003), o conceito de di-
reito penal do inimigo não se dá somente com as mencionadas 
ideias básicas, mas com um verdadeiro estudo desde o campo 
da psicologia social ao conceito dos chamados “inimigos”:
Aun sin llevar a cabo um estúdio de mate-
riales científicos relativos a la psicologia so-
cial, parece claro que em todos los campos 
importantes del Derecho penal del enemigo 
(‘carteles de la droga; criminalidad de la in-
migración; otras formas de criminalidad or-
ganizada y terrorismo) lo que sucede no es 
que se dirijan com prudência y comuniquen 
com frialdad operaciones de combate, sino 
que se desarrolla uma cruzada contra malhe-
dores anchimalvados. Se trata, por lo tanto, 
más de ‘enemigos’ en este sentido pseudorre-
ligioso, que en la acepción tradicional-militar 
del término.33 (MELIÁ, 2006, p. 363).
A identificação de um infrator como inimigo produz sua 
exclusão de uma determinada categoria de sujeitos do círculo 
de cidadãos. Segundo Jakobs, o direito penal do inimigo se 
caracteriza por três elementos: em primeiro lugar uma anteci-
pação da punibilidade; em segundo lugar, previsão de penas 
desproporcionalmente altas, e, em terceiro lugar, a relativiza-
ção de alguns direitos e garantias individuais (JAKOBS, 1999.)
Em Congresso celebrado em Berlin, em 1999, cujo tema 
se relacionava com os novos desafios que vêm surgindo para 
a ciência do direito penal alemão e continental frente ao novo 
33 “Mesmo sem a realização de um estudo com materiais científicos sobre 
a psicologia social, parece claro que em todos os campos importantes do 
direito penal do inimigo (cartéis de drogas, crime de imigração, outras 
formas de crime organizado e terrorismo) é necessário que se proceda com 
prudência e que as operações de combate sejam feitas com frieza, uma 
cruzada contra malfeitores. Trata-se, portanto, de inimigos, mais num sentido 
pseudorreligioso do que na acepção militar do termo.” (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
milênio, foi apresentada uma discussão em torno da exposi-
ção de Jakobs em relação ao direito penal do inimigo. Em tal, 
Jakobs afirma que a situação de “guerra” se inclui nas ideias de 
inimigo “mientras que el caráter limitado o total de esta, depende de 
cuanto se le há de temer al enemigo”. (MELIÁ, 2006, p. 3)
Ou seja, houve mudanças na teoria de Jakobs (1997), pois, 
na sua primeira explanação, o conceito de direito penal do 
inimigo tinha uma amplitude maior, incluindo setores como 
do direito penal de riscos e direito penal econômico; num se-
gundo momento, em 1999, Jakobs orienta-se com crimes mais 
graves, como o caso do terrorismo. (MELIÁ, 2003, p. 361).
en la primera exposición de su concepto de 
derecho penal del enemigo, durante el Con-
greso de 1985, e incluso em exposiciones 
posteriores em lãs cuales Jakobs se refiere al 
tema, El autor no hace alusión a la guerra: 
él hacía alusión, como se há visto, a uma 
tendência em Alemania por criminalizar el 
estádio prévio, a partir de normas que desco-
nocen que el sindicado es um ciudadano, com 
um núcleo de derechos intocable. (APONTE, 
2004, p. 174). (...) Con motivo de la Jornada 
Berlinesa de 1999, Jakobs retomo y radicalizo 
esta Idea en el sentido de que, em la situaci-
ón actual, em la que el “domínio del sistema 
econômico” y la “globalización” exigen a la 
ciência penal uma “efectividad” em la prote-
ción de bienes, uma “sociedad consciente de 
los riesgos” no tendría outra alternativa que 
construir um “Derecho penal de enemigo” 
unas “reglas” especiales distintas de las del 
Derecho penl del ciudadano- dirigidas a lãs 
“no personas” o sea aquellas que se hayan 
apartado permanentemente de Derecho. Para 
estos casos- afirma El autor alemán-, el De-
recho penal del enemigo deberia prever uma 
amplia anticipación de la punibilidad (delitos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
de peligro), uma pena reducida pero no cor-
respondiente a la anticipación, uma legislaci-
ón penal de “lucha” y la reducción de garan-
tias procesales(...)34. (MELIÁ, 2006, p. 3).
Neste primeiro trabalho, a tendência se identificava com 
as formas de crime organizado, não havendo referência ex-
pressa à guerra. No mencionado novo trabalho de 1999, Jako-
bs trata e abrange a guerra até mesmo num sentido trágico 
“esto suena chocante y ciertamente lo es, ya que se trata de la im-
posibilidad de uma juridicidad completa, es decir, que contradice la 
equivalência entre razonabilidad y personalidad” (JAKOBS citado 
por HASSEMER, 2000, p. 53):
Si bien em este trabajo se há hecho énfasis 
especial a las dos etapas relacionadas com la 
posición de Jakobs alrededor del Derecho penal 
del enemigo, podría decirse que hay uma terce-
ra que está constituída por el desarrollo que el 
autor há hecho de dicha posición después de su 
conferencia em Berlín, em 1999. Al respecto, 
hay que tener em cuenta que la radicalizaci-
ón occidental em la lucha contra el terrorismo 
34 “na primeira exposição de seu conceito de Direito Penal do Inimigo, durante 
o Congresso de 1985, e ainda em seguida em outras exposições Jakobs faz 
alusão à guerra: ele fez alusão, como visto, a uma tendência de criminalizar 
na Alemanha pela fase anterior, a partir de regras que o acusado é um 
cidadão para o qual restam desconhecidos direitos fundamentais. (APONTE, 
2004, p. 174). (...) Por ocasião da Conferência de Berlim de1999, Jakobs 
radicalizou essa ideia no sentido de que na atualidade, com o “domínio do 
sistema econômico” e a “globalização” exige-se “eficácia” para a proteção dos 
bens jurídicos contra esse criminoso. Uma “sociedade de risco consciente” 
não iria construir uma alternativa outra do que o”direito Penal do Inimigo”, 
com “regras” que não levaram a “ninguém do povo “, ou aquelas que foram 
removidas permanentemente do Direito. Para esses casos, diz o autor alemão, 
o Direito Penal do Inimigo deve fornecer antecipação de uma gama de 
criminalidade (crimes de perigo), mas não reduziu a sentença correspondente 
à antecipação de tutela, um direito penal pela “luta” contra os inimigos e 
reduzindo garantias de um devido processo (...)”. (MELIÁ, 2006, p. 3).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
y em general contra el crime organizado, há 
tenido lugar luego de los hechos del 11 de sep-
tiembre de 2000 em Nueva York e, más recien-
temente, luego de los hechos de Madrid del 11 
de marzo de 2004. Son éstos, sucesos posterio-
res a la conferencia em Berlin. El tema, desde 
esse momento, se há convertido aún más em 
tema de discución de primer orden y Gunther 
Jakobs no se há subtraído a ello35. 
Numa terceira fase, pode-se falar de uma radicalização 
das posturas de Jakobs (1999), no sentido de uma contradição 
cada vez maior com um direito penal que ampara direitos e 
garantias fundamentais (APONTE, 2004, p. 187). Em 2004, 
em uma conferência em Bogotá, intitulada “La pena estatal: 
significado y fin”, Jakobs critica modelos autoritários, mas ao 
mesmo tempo tenta demonstrar a necessidade de rigidez 
nos casos de crime organizado e terrorismo. 
Con un cambio de paradigma en la crimino-
logia, que pasó del etiológico al de la crimi-
nalización, por el cual se analiza el proceso 
de criminalización y la reacción social, más 
que la busqueda de causas o factores de la 
criminalidad. Fue Sutherland quien em um 
escrito inédito de 1944 expresó que el cri-
men es parte de um proceso del conflito, del 
cual el Derecho y la pena son los otros dos 
elementos, lo que corobora lo expresado em 
35 “Embora este trabalho tenha dado especial ênfase à posição relacionada 
com as duas etapas de Jakobs em torno do Direito Penal do Inimigo, não há 
dúvida da existência de uma terceira, que consiste no desenvolvimento da 
posição que o autor adotou depois da conferência de Berlim em 1999. A esse 
respeito, deve-se notar que a radicalização é com fulcro na criminalidade 
ocidental, combate ao terrorismo e crime global anticrime organizado, que 
teve lugar após os acontecimentos de 11 de setembro, 2000, em Nova Iorque 
e, mais recentemente, após os feitos de Madrid em 11 março, 2004. São esses 
eventos posteriores à conferência de Berlim”. (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
cuanto al sesgo crítico de Sutherland. Según 
Baratta, la citada concepción contiene los 
principales elementos del modelo criminoló-
gico del conflicto: a) um proceso de cirmina-
lización prévio al comportamento criminal; 
b) relación entre los intereses y la actividad de 
los que están inmersos em El conflicto y la ac-
tividad de los que estan inmersos em el confli-
to y el proceso de criminalización; c) el caráter 
político asumido por el fenômeno criminal36. 
(BARATTA, 2004, p. 254).
Assim, nos anos recentes, com o medo, a propalação do 
terrorismo, do crime organizado e dos crimes dos poderosos, 
percebem-se tentativas explícitas de expressar a raiva e o ressen-
timento públicos como recorrentes e que refletem numa legisla-
ção penal e na tomada de decisões. Os sentimentos das vítimas, 
das famílias das vítimas ou de um público aviltado, temeroso e 
vítima da precariedade econômica generalizada são agora roti-
neiramente invocados em apoio às novas leis e políticas penais.
Desse modo, diante da sociedade do medo, depara-
-se com o desvirtuamento da lei penal e do processo penal, 
que passam a ser reflexo de uma sociedade de risco capaz de 
aplaudir o ataque aos direitos humanos e direitos fundamen-
tais por parte de um Estado que passa a defender um pro-
cesso voltado para o resultado sensacionalista. Não se pode 
flexibilizar direitos e garantias em nome de escopos sociais 
36 “Com uma mudança de paradigma na criminologia, que passou do etiológico 
ao da criminalização, pelo qual se analiza o processo de criminalização e a 
reação social, e não a busca de causas ou fatores de crime. Foi Sutherland que 
em escrito inédito publicado em 1944 expressou que o crime é parte do processo 
de Conflito, do qual o direito e a pena são elementos diversos. Segundo Baratta, 
a concepção citada contém os elementos principais do modelo de conflito 
criminológico: a) a criminalização de processo diante de um comportamento 
criminoso, b) a relação entre o interesse e a atividade daqueles imersos no 
conflito e atividade dos que estão imersos no processo de criminalização, c) o 
carater político assumido pelo fenômeno criminal”.(Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
que nunca serão alcançados pelo direito penal. Num Estado 
Democrático de Direito, o direito à liberdade também traz ris-
cos, surpresas, impossibilidade de previsões e de se evitarem 
danos. O risco é inerente à vida do ser humano, ainda que se 
mate o “tubarão”, o traficante, o chefe de crime organizado, o 
criminoso do colarinho branco, o terrorista. 
1.4 A criminalidade da mundialização 
econômica: poder econômico x garantias
Além da característica de crimes de perigo abstrato, pela 
clara relação do suposto amparo à sociedade de risco, a pró-
pria natureza dos crimes sofreu uma transformação, com a 
implementação, também, de novos bens jurídicos, num cará-
ter coletivo, supraindividual.
As causas da provável existência desses novos bens ju-
rídicos, de caráter supraindividual (meio ambiente, sistema 
financeiro, direitos do consumidor, ordem socioeconômica), 
como visto, são inúmeras. Há novas realidades que passaram 
a fazer parte da sociedade, como as instituições econômicas 
de crédito, bens que passam a ser destacados como “escassos”, 
como no caso de meio ambiente, e valores que são consequên-
cias da própria evolução social e cultural, como a moderniza-
ção de operações financeiras.
Essa sociedade moderna, fruto da globalização, traz o 
implemento de novos riscos e, antes de mais nada, um inte-
resse cada vez maior no poderio econômico. Essas mudanças 
que a globalização e a mundialização econômica geraram 
deram lugar a novas formas de crime. Ao invés de crimes 
clássicos, relacionados à violência ou ao patrimônio, aparece 
o criminoso econômico.
Desde a Revolução Industrial toma lugar uma nova forma de 
crime, o crime econômico, como resultado do desvirtuamento de 
relações capital-trabalho-enriquecimento (BICUDO, 1998, p. 98).
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Daniela Villani Bonaccorsi
O progresso trazido pela vida moderna traz perigos e ris-
cos, como a mundialização econômica, a energia nuclear, a in-
vasão à intimidade, a ciência desses danos e as catástrofes mun-
diais pela internet. As transformações que o mundo experimen-
ta no âmbito econômico fazem surgir bens jurídicos supraindi-
viduais, como, justamente, a ordem econômica. As mudanças 
nos meios de produção e a Revolução Industrial deram espaço 
para a valorização do lucro e do capital. O fenômeno capitalista 
e a sociedade pós-industrial possibilitaram o surgimento de no-
vas classes que inegavelmente possuem um contorno econômi-
co, assumindo especial importância a transformação econômica 
pela qual a sociedade vem passando (ARAÚJO JÚNIOR, 1995).
Os conflitos sociais que acompanharam a mundialização 
da economia, pela necessidade de direção e mobilização da 
economia para os esforços da guerra “obrigaram o Estado a 
assumir o papel de responsável maior pelo curso da vida eco-
nômica, dirigindo-o, conformando-o e defendendo-o”,isso 
“obrigou ao esquecimento – que seria definitivo e irreversível 
– do modelo liberal de separação entre o direito e a economia, 
o Estado e a sociedade” (PODVAL, 2000, p. 69-70).
Percebe-se que, com o intervencionismo 
estatal do século XX, dentre as exigências 
da sociedade no campo da proteção dos 
seus valores fundamentais e precauções 
na produção de risco, apontou-se para a 
criação de um sistema penal econômico, 
a fim de obter amparo com o núcleo de 
sua formulação na Constituição Federal, 
lastreado pela efetivação de uma con-
sequente política criminal e dogmática 
jurídico-penal. Nesse contexto, é possível 
afirmar-se que a criminalidade econômi-
ca surge como uma evolução do modelo 
de Estado e de relações internacionais, 
provocados pelos desgastes da I Grande 
Guerra, pelo crescimento e pela comple-
xidade da vida econômica. (GRAU, 2006).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A globalização financeira, uma vez facilitada pelo desen-
volvimento das comunicações, pela revolução tecnológica e 
da internet, pelo desaparecimento de fronteiras da economia, 
traz a interferência do econômico no direito, associado ao cres-
cimento criminal relacionado à economia globalizada. Fato é 
que, desde a Revolução Industrial, tomam corpo os chamados 
crimes econômicos, resultados inicialmente do desvirtuamen-
to das relações capital-trabalho (BECK, 1998, p. 59). 
A defesa da ordem econômica passa a alcançar um sta-
tus jurídico, e o Direito Penal Econômico passa justamente a 
abranger condutas que lesam a ordem econômica, que colo-
cam em risco tal bem jurídico supraindividual, ou seja, vão 
além de interesses individuais:
Entende-se por Direito Penal Econômico 
o conjunto de normas jurídicas que pro-
tegem a ordem econômica, entendida 
como sendo a regulação jurídica da pro-
dução, distribuição e consumo de bens e 
serviços. No sentido estrito, trata-se do 
conjunto de normas jurídico-penais que 
protegem a ordem econômica, tida como 
regulação jurídica do intervencionismo 
estatal na economia. Pode-se afirmar 
que a primeira grande guerra mundial 
determinou o embrião do que posterior-
mente viria a ser o Direito Penal Econô-
mico. O Estado se viu obrigado a intervir 
no mercado, passando a ser instrumento 
controlador da vida econômica. Tratou-
-se, em resumo, da passagem do Estado 
liberal para o Estado social. Com isto, um 
novo tipo de criminalidade foi diagnos-
ticado, envolvendo a ordem econômica. 
(LOPES, 2011).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Uma vez que se pretende definir o bem jurídico de ordem 
econômica, a fim de se partir para a análise do delito de lavagem 
de dinheiro, é imprescindível explicar a noção aqui adotada de 
bem jurídico, pois o direito penal o toma como peça fundamen-
tal de segurança limitadora do Estado no direito de punir37. 
O conceito de bem jurídico é definido a partir de duas 
correntes. 
A corrente que defende o conceito formal, inicialmente 
elencada por Binding (citado por LOPES, 1999, p. 332), iden-
tifica-o como o bem protegido pela norma penal; o bem jurí-
dico será definido pela norma que estabelece, consequente-
mente, a sua proteção.
Os adeptos do conceito material podem ser reunidos em 
dois grupos: aqueles que entendem que o bem jurídico é ex-
terno ao ordenamento jurídico, qualificando-o como bem da 
vida, independentemente da vontade legislativa; e aqueles que 
defendem que o bem jurídico é determinado juridicamente, 
mas por meios externos ao Direito Penal, mormente pelo Di-
reito Constitucional (ARANA, 2007, p. 120). Pode-se afirmar 
que essa última vertente tem prevalecido entre os defensores 
do conceito material de bem jurídico, que o define diante da 
própria função do Direito Penal, limitando-o à tutela de bens 
jurídicos, retirando-se da competência legislativa a tipificação 
de qualquer conduta que não ofenda esses bens. 
Assim, “a noção de bem jurídico-penal corresponde à 
identificação de objetos concretos de tutela penal” (LOPES, 
37 A identificação de um conceito material de bem jurídico tem por funda-
mentação o denominado Princípio da subsidiariedade do Direito Penal. 
O Princípio da subsidiariedade no Direito Penal defende a intervenção 
penal como ultima ratio de que pode lançar mão o Estado para interferir 
na esfera de liberdade dos cidadãos em prol do interesse coletivo. Apenas 
como fundamento, nessa matriz liberal é que se podem postular limites ao 
Poder Legislativo. A acepção atual do princípio da subsidiariedade par-
te do pressuposto de que existem outros mecanismos jurídico-estatais de 
intervenção na esfera privada e também de punição, especialmente a via 
administrativa, de forma que o direito penal apenas tem legitimidade para 
atuar de forma subsidiária (ZAFFARONI, 2002, p. 488).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
1999, p.322). A incriminação de condutas passa pela identifi-
cação de um bem a ser tutelado juridicamente. 
Na evolução da teoria do crime, essa noção de bem jurí-
dico surgiu, inicialmente, como 
conjunto de substratos de conteúdo libe-
ral, para punibilidade dos atos que o ofen-
dessem, assumindo conteúdo individua-
lista, relacionado a vida, integridade física, 
liberdade, patrimônio, assumia a conota-
ção de direitos subjetivos fundamentais.38 
(PELARIN, 2002, p. 25.)
Com o iluminismo se registra um avanço na teoria do bem 
jurídico, assentando uma separação entre preocupações éticas 
e religiosas para relevar o direito subjetivo, expressão aperfei-
çoada para proteção ao bem jurídico (LUISI, 2003, p. 169). 
Vale esclarecer que, na concepção de Binding, imprescin-
dível para a caracterização de bem jurídico, o delito consiste 
na lesão de um direito subjetivo do Estado. O bem jurídico 
seria, nesse contexto positivista, tudo o que é relevante para 
a ordem jurídica, o bem, interesse ou direito protegido pela 
norma. Binding sustenta o conteúdo formal do bem jurídico. 
38 O conceito de bem jurídico se amolda aos distintos momentos da evolução da 
política criminal e do pensamento jurídico em geral (TAVARES, 2004, p. 21). 
Com o iluminismo, com o advento do Estado de Direito e a consagração da 
Constituição, tornou-se se possível o desenvolvimento de teorias que visavam 
a limitar o legislador na interferência na esfera de liberdade dos cidadãos. “No 
contexto liberal do século XIX, quando se defendia que os direitos individuais 
precediam ao Estado e eram meramente declarados por este, definiu-se 
o conteúdo do crime como lesão a direitos subjetivos do indivíduo ou da 
comunidade, possibilitando a rejeição da criminalização de condutas imorais 
ou contrárias à religião, que não causassem dano ao indivíduo ou ao Estado” 
(LOPES, 1999, p. 325). Nessa concepção, “não apenas o crime, como violação 
do direito subjetivo de outrem, violaria o contrato social, como também a 
interferência do Estado nos direitos individuais somente poderia existir na 
medida mínima necessária para garantir a coexistência social.” “Pode-se 
dizer, em conclusão, que o direito subjetivo, danosidade social e necessidade de pena 
são os pressupostos do conceito iluminista de crime.” (LOPES, 1999, p. 326).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Entende-se que a norma não cria o bem jurídico, o bem jurí-
dico é “criação da experiência e como tal é interesse vital do 
indivíduo ou da comunidade” (LUISI, 2003, p. 172). 
A partir da segunda metade do século XX, parte da dou-
trina, especialmente a alemã, tem buscado desenvolver um 
conceito substancial de bem jurídico, por entender que as con-
cepções formais legitimam abusos cometidos pelo Estado em 
face dos cidadãos (ZAFFARONI, 2002, p. 488, nota 19):
A ciência do direito penal alemão do 
pós-guerra tentou limitar o poder de 
intervenção jurídico-penal na teoria do 
bem jurídico. A ideia principal foi que 
o direito penal deve proteger somente 
bens jurídicos concretos, e não convic-ções políticas ou morais, doutrinas reli-
giosas, concepções ideológicas do mun-
do ou simples sentimentos. 
(ROXIN, 2006, p. 12).
O texto constitucional vincula a criação do bem jurídi-
co aos princípios fundamentais presentes na organização do 
Estado, constitucionalmente previstos (LUISI, 2003, p. 172). 
Quando se seleciona um bem à categoria de bem jurídico 
penal, este também deve ser previsto constitucionalmente. 
(BIANCHINI, 2002, p. 43).
A posição do bem jurídico como mecanismo de limitação 
do poder punitivo estatal é defendida também por Claus Ro-
xin. Segundo o autor, apenas a discricionariedade legislativa 
não seria suficiente para legitimar a criminalização de condu-
tas (ROXIN, 2006, p. 11).39 Ratificando tal afirmação, o autor en-
39 Amparado pelo princípio da subsidiariedade, Roxin (2006) defende que a in-
tervenção jurídico-penal somente é legítima quando tem por finalidade “asse-
gurar aos cidadãos uma coexistência pacífica e livre, sob a garantia de todos 
os direitos humanos” (p. 17): “(...) podem-se definir os bens jurídicos como 
circunstâncias reais dadas ou finalidades necessárias para uma vida segura e 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
tende que não é possível desvincular o conceito de bem jurídico 
da finalidade que se atribui ao próprio Direito Penal. Defende 
que a intervenção jurídico-penal deve resultar de uma “fun-
ção social do direito penal” que consiste em “garantir a seus 
cidadãos uma existência pacífica, livre e socialmente segura, 
sempre e quando estas metas não possam ser alcançadas com 
outras medidas político-sociais que afetem em menor medida 
a liberdade dos cidadãos”, (ROXIN, 2006, p. 18).
Assim, nesse posicionamento, o bem jurídico tem função 
de crítica à legislação, “na medida em que pretende mostrar ao 
legislador as fronteiras de uma punição legítima.” (ROXIN, 2006, 
p. 20) A partir do entendimento de condutas que não lesam bens 
jurídicos, não podem ser criminalizadas, (ROXIN, 2006, p. 20-22):
Todos esses objetos legítimos de proteção 
das normas que subjazem a estas condi-
ções eu as denomino bens jurídicos. Eles 
não são elementos portadores de sentido 
como frequentemente se supõe – se eles o 
fossem, não poderiam ser lesionados de 
nenhum modo –, mas circunstâncias reais 
dadas: a vida, a integridade corporal ou o 
poder de disposição sobre os bens mate-
riais (propriedade). Então, não é necessá-
rio que os bens jurídicos possuam realida-
de material; a possibilidade de disposição 
sobre coisas que a propriedade garante 
ou a liberdade de atuação voluntária que 
se protege com a proibição da coação não 
são objetos corporais; entretanto são parte 
integrante da realidade empírica. Tam-
livre, que garanta todos os direitos humanos e civis de cada um na sociedade 
ou para o funcionamento de um sistema estatal que se baseia nestes objetivos. 
A diferenciação entre realidades e finalidades indica aqui que os bens jurídi-
cos não necessariamente são fixados ao legislador com anterioridade, como é o 
caso, por exemplo, da vida humana, mas que eles também possam ser criados 
por ele, como é caso das pretensões no âmbito do Direito Tributário”. (p. 19).
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Daniela Villani Bonaccorsi
bém os direitos fundamentais e humanos, 
como o livre desenvolvimento da perso-
nalidade, a liberdade de opinião religiosa 
são bens jurídicos. Seu desconhecimento 
prejudica verdadeiramente a vida na so-
ciedade. De forma correspondente com o 
anterior, embora as instituições estatais 
como a administração da justiça, o sistema 
monetário ou outros bens jurídicos tam-
pouco são objetos corporais, são realidades 
vitais cuja diminuição prejudica, de forma 
duradoura, a capacidade de rendimen-
to da sociedade e da vida dos cidadãos. 
 (ROXIN, 2006, p. 18).
É importante elencar importante crítica doutrinária diri-
gida à posição clássica de que a missão do direito é a proteção 
de bens jurídicos fundamentais, atribuindo ao Direito Penal o 
“asseguramento da vigência da norma”. 
A referida teoria não obriga lesão, perigo ou sequer exis-
tência de bem jurídico. Nessa proposta, diante de uma deter-
minada norma cuja vigência se protege em uma lei penal, sua 
proposta dispensa o esforço de busca de um bem (definido 
nesse entendimento como realidade valorada positivamente) 
jurídico penal que a respalde. 
A visão da finalidade do direito penal como assegura-
mento da norma e não proteção ao bem jurídico partiu de 
Jakobs (2009). Para o autor, não há utilidade do conceito de 
bem jurídico como mecanismo de limitação ao poder legis-
lativo do Estado na esfera penal. A legitimidade do direito 
penal, de acordo com seu entendimento, diz respeito à apro-
vação de leis conforme os ditames constitucionais, de forma 
que “não existe um conteúdo genuíno das normas penais; os 
conteúdos possíveis orientam-se segundo o contexto da re-
gulação em questão. Ao contexto da regulação pertencem as 
realidades da vida social, bem como as normas, em especial 
as de caráter constitucional.” (JAKOBS, 2009, p. 61). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
O direito penal não teria a função de proteger bem jurídi-
co-penal, já que a maior parte desses “bens” também é afetada 
por eventos naturais e por processos não evitáveis, sem que 
haja interferência do Direito Penal nesses casos. Assim, segun-
do ele, “o direito penal não tem a função de garantir a estabi-
lidade dos bens mencionados em todo e qualquer caso, mas 
apenas no caso de agressões de determinado tipo.” (JAKOBS, 
2009, p. 62) Nesse sentido, não é toda e qualquer modificação 
prejudicial de um bem enquanto fato positivamente valorado 
que interessa ao Direito Penal. A modificação do bem jurídico 
deve se dirigir contra a própria valoração positiva, “somente o 
interesse público na preservação de um bem é que o transfor-
ma em bem jurídico, e o interesse público nem sempre concer-
ne apenas à preservação de bens” (JAKOBS, 2009, p. 63 e 75). 
De cualquier manera, resulta claro que para 
Jakobs el injusto se asienta sobre la violación 
de un rol, lo cual, pesa a sus esfuerzos, se tra-
duce en una relativización del bien jurídico, 
que en definitiva perecería reducirse al interés 
estatal em que no se violen las obligaciones 
emergentes de los roles o papeles normativi-
zados. No se puede ignorar que cada vez que 
se enuncia el concepto de bien jurídico por 
una generalidad, como la validez de las nor-
mas y análogas, se produce una reducción de 
todos los bienes jurídicos a un bien único en-
sayo que fue llevado a cabo por Hegel al carac-
terizarlo como lesión a la voluntad general40. 
(ZAFFARONI, 2002, p. 489).
40 “De qualquer forma, resulta claro que para Jakobs a ocorrência do injusto 
se assenta na violação de um rol, o qual se traduz em uma relativização do 
bem jurídico, que se reduz ao interesse estatal aos que violam obrigações 
definidas em lei. Não se pode ignorar que sempre que se defende um 
conceito de bem jurídico de forma genérica, como com a validade das 
regras e similares, há uma redução de todos bens jurídicos a um bem único, 
ensaio que foi conduzido por Hegel ao caracterizar o bem jurídico como 
tudo o que causa uma lesão ao interesse social”. (Tradução livre). 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Não obstante as atuais críticas à posição clássica do di-
reito penal com a proteção de bens jurídicos fundamentais, 
concorda-se com o entendimento de que a finalidade do di-
reito penal é a proteção do bem jurídico, constituindo esse 
fundamento para verdadeira limitação ao direito de punir.
Negar a proteção ao bem jurídico como limitação ao po-
der de punir e inexigir ofensa ou perigo concreto ao bem ju-
rídico seria admitir o Direito Penal como forma intimidadora. 
Utilizar-se-ia o Direito Penal em todas as situações de 
risco, e, ao invés de medida subsidiária, partir-se-ia para o 
uso das sanções penais como formade trazer uma aparente 
segurança social para toda e qualquer conduta que possa tra-
zer risco41. Diante dessa realidade, o conceito jurídico-cons-
titucional de bem jurídico é entendido como mecanismo de 
limitação estatal, ao determinar a impossibilidade de que se 
incriminem condutas que não ofendam esses bens e também 
ao postular a revogação de tipos penais pelo mesmo motivo.
Com efeito, visando à abordagem aqui objetivada, o 
conceito do bem jurídico ordem econômica não é de fácil 
alcance, justamente por se tratar de bem jurídico supraindi-
vidual, direitos que não são materialmente palpáveis e que 
vão além do âmbito individual. 
O bem jurídico ordem econômica, em sentido restrito, 
pode ser definido como a ”regulação jurídica da intervenção do 
Estado na economia”. Na modalidade ampla, a ordem econômi-
ca constitui “a regulação da produção, distribuição e consumo 
de bens e serviços” (PRADO, 2004, p. 27). Em um conceito epis-
temológico, a ordem econômica é considerada “como o conjunto 
das normas definidoras, de forma institucional, de um determi-
nado modo de produção econômica”. (GRAU, 2006, p. 72). 
A ordem econômica ainda pode ser conceituada como 
um modo de ser empírico de uma determinada economia; 
41 “hoy, el objetivo del derecho penal moderno sería alcanzar determinados resultados 
externos. Se afirma, en suma, que el derecho penal no sería más para el legislador 
ultima ratio, sino, en medida creciente, prima ratio” (ARANA, 2007, p. 117). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
refere-se à “relação entre fenômenos econômicos materiais”, 
ou seja, “de uma concreta estrutura de sujeitos e unidades 
econômicas; o conjunto de todas as normas que regulam o 
comportamento dos sujeitos econômicos, ou, ainda, a ordem 
jurídica da economia, constituída pelo ‘conjunto de regras que 
tratam da vida econômica’”. (CASTILHO, 2003, p. 83).
De qualquer maneira, entende-se que tais conceitos 
acabam por trazer uma acepção ampla, possibilitando, ain-
da, a inclusão da ordem financeira e tributária e do crime de 
lavagem de dinheiro. Por isso, a ordem econômica não abar-
ca um único tipo legal ou se relaciona somente à Lei 8137/90, 
como é comum na doutrina pátria. 
A ordem econômica abrange todas as ações ou omis-
sões relacionadas a produção, distribuição, consumo de bens, 
controle do estado no sistema financeiro e tributário e, conse-
quentemente, os crimes econômicos têm a mesma amplitude.
Assim, entendendo-se o bem jurídico ordem econômica 
dessa forma ampla, pode-se depreender que delito econômico 
é “a conduta típica sancionada penalmente pelas leis editadas 
com o fim de prover a segurança e a regularidade da política 
econômica do Estado”. (PIMENTEL, 1973, p. 25). O delito econô-
mico também pode ser conceituado num sentido estrito/limita-
do/restrito e por meio de um sentido amplo (MOURULLO, 1984, 
p. 679-680; TIEDEMANN, 1986, p. 65-74; RIGHI, 1991, p. 320-325). 
Crime econômico em sentido estrito é compreendido a 
partir de condutas que lesionam ou põem em perigo a ordem 
econômica entendida como bem jurídico-penal supraindivi-
dual. O conceito amplo o define como os fatos penais no cam-
po dos delitos patrimoniais clássicos, mas nos casos em que 
atingem patrimônios supraindividuais e quando constituem 
abuso de medidas e “instrumentos da vida econômica”:
los hechos penales en el campo de los deli-
tos patrimoniales clásicos (estafa, extorsión, 
defraudación, cohecho, etc.) cuando estos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
delitos se dirigen en la realidad contra patri-
monios supraindividuales (como en los casos 
de la obtención fraudulenta de subvenciones 
y créditos estatales) o cuando estos delitos 
constituyen abuso de medidas e instrumen-
tos de la vida económica (como en los casos 
de cheque en descubierto y de balance falso).42 
(TIEDEMANN, 1986, p. 68)
Admitindo-se essa amplitude nos crimes econômicos, 
esses podem ser constituídos a partir das seguintes legisla-
ções no Brasil: delitos contra a ordem econômica (arts. 4º e 
5º da Lei 8.137/1990 e arts. 1º e 2º da Lei 8.176/1991); delitos 
contra o sistema financeiro (arts. 2º ao 23º da Lei 7.492/1986 
e art. 10 da Lei Complementar 105/2001 e arts. 359-A a art. 
359-H do Código Penal (sistema financeiro público); delitos 
de lavagem/branqueamento de dinheiro (Lei 9.613/98); delitos 
contra o mercado de capitais: (arts. 27-C, 27-D e 27-E da Lei 
6.385/76); delitos contra a ordem tributária: (arts. 1º ao 3º da 
Lei 8.137/1990 e art. 334 do Código Penal); delitos contra a Pre-
vidência Social: (arts. 168-A e 337-A do Código Penal); delitos 
Societários (art. 177 do Código Penal); delitos contra a econo-
mia popular (arts. 2º a 4º da Lei 1.521/1951); delitos contra o 
enriquecimento ilícito (art. 9º da Lei 8.429/92); delitos contra a 
relação de consumo (arts. 63 ao 76 da Lei 8.078/1990).
Por “crime económico e financeiro” 
entende-se, de um modo geral, toda a 
forma de crime não violento que tem 
como consequência uma perda financei-
ra. Este crime engloba uma vasta gama 
42 “eventos criminais em matéria de crimes econômicos clássicos (fraude, extor-
são, fraude, suborno etc), quando esses crimes são dirigidos na realidade con-
tra patrimônios supraindividuais (como nos casos de obter fraudulentamente 
subvenções estatais e empréstimos) ou quando esses crimes constituem abuso 
de medidas e instrumentos da vida econômica”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
de actividades ilegais, como a fraude, a 
evasão fiscal e o branqueamento de ca-
pitais. É, no entanto, mais difícil definir 
a noção de “crime económico” e o seu 
conceito exacto continua a ser um de-
safio. A tarefa complicou-se ainda mais 
devido aos avanços rápidos das tecno-
logias, que proporcionam novos meios 
de perpetuar os crimes desta natureza. 
(TAILÂNDIA, 2005).
Com a abrangência do conceito de ordem econômica e 
seu amparo constitucional, percebe-se a necessidade do es-
paço de um direito penal econômico, considerando as contri-
buições das correntes ampla e restrita, dirigidas ao conceito 
de crime econômico, como objeto do direito penal econômico. 
A corrente restrita leva em consideração a existência do 
Estado como pessoa jurídica e detentor de um interesse ní-
tido a ser protegido, cujo relevo permite identificar a ordem 
econômica como o bem jurídico do direito penal econômico 
(CERVINI, 2003, p.85).
A corrente ampla abrange, além do bem jurídico tutela-
do, o dano ou risco a tal bem jurídico, mas afirmando que o 
objeto do direito penal econômico é mais abrangente, pois a 
credibilidade depositada no agente econômico pode resultar 
em ofensa a um bem individual ou à ordem econômica. (CER-
VINI, 2003, p.85).
Assim, entende-se que os crimes econômicos possuem 
um conceito amplo, no sentido de abranger todas as condutas 
que, de forma direta, ou indireta, atingem o controle do Esta-
do nas atividades econômicas e financeiras, objeto do direito 
penal econômico. O direito penal econômico abrange uma sé-
rie de fenômenos econômicos, que variam desde a sonegação 
fiscal até práticas financeiras que desestabilizam o mercado. 
O direito penal econômico é gênero (DOTTI, 1998, v. 1, p. 
295) que abrange assuntos de natureza tributária e financeira. 
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Daniela Villani Bonaccorsi
É ramo complexo, que abrange práticas fraudulentas relacio-
nadas a consumo, livre iniciativa, credibilidade e funcionali-
dade do sistema financeiro e tributário.
A natureza do crime e o contexto econômico trazem, ainda, 
a figura do novo criminoso, um perfil eminentemente econômico. 
O direito penal na globalização, caracterizado como um di-
reito penal econômico, gerou reflexo não só nas condutas que 
passaram a ser praticadas como na própria pessoa do criminoso. 
No direito penal clássico, caracterizado por condutas 
praticadas contra a pessoa ou bens individuais,cujo meio de 
execução era primordialmente a violência, hoje se vê um novo 
perfil criminógeno. 
O poderio econômico dos agentes do crime refletiram em 
sua natureza, execução, imputação e, por isso, desde o século XIX 
houve a concepção criminológica do referido sujeito ativo dos cri-
mes econômicos, a partir da terminologia “white collar crime”. 
O termo “white collar crime” – expressão inglesa a de-
signar os cognominados “crimes do colarinho branco” – foi 
cunhado por Edwin H. Sutherland em 27 de dezembro de 
1939, quando de sua exposição perante a American Sociological 
Society. (SUTHERLAND, 1969, p. 39).
Considerado um dos maiores criminalistas de sua épo-
ca nos Estados Unidos, foi eleito presidente da American So-
ciological Association. Muito de seu estudo foi influenciado 
pela aproximação da escola de Chicago ao estudo do crime, 
que enfatizou o comportamento humano como determina-
do por fatores ambientais, sociais e físicos (SUTHERLAND, 
1940, p. 7), havendo uma diferenciação nos crimes praticados 
pelas classes mais baixas, que se inseriam no sistema crimi-
nal comum, daqueles perpetrados pelas classes altas, crimes 
praticados por pessoas “respeitáveis”, que causam dano ao 
patrimônio e ordem econômica, mais extensos que a crimina-
lidade convencional, que ofende bens individuais.
Utilizando-se da denominada “teoria da associação di-
ferencial”, Sutherland (1949) questionou as teorias da Escola 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Positiva, baseadas em critérios biológicos, com a afirmação de 
que a criminalidade é resultado de um processo de aprendi-
zagem dos valores e dos meios de execução de crimes.
Os princípios do processo de associa-
ção pelo qual se desenvolve o compor-
tamento criminoso são os mesmos que 
os princípios do processo pelo qual se 
desenvolve o comportamento legal, mas 
os conteúdos dos padrões apresentados 
na associação diferem. Por essa razão, 
chama-se associação diferencial. 
(SU THERLAND, 1949, p. 13).
Há um comportamento que se torna frequente no padrão 
criminógeno, que o autor define como um processo sistemáti-
co. A associação diferencial seria esse processo, que passou a 
ser consistente e frequente, desenvolvendo um novo compor-
tamento criminoso nessa cadeia causal. A partir da ideia de 
associação social diferencial, abrange sete proposições. Em pri-
meiro lugar menciona que “os processos que resultam no com-
portamento criminoso sistemático são fundamentalmente os 
mesmos, e resultam em um comportamento legal sistemático”. 
(...); segundo, o comportamento criminoso sistemático é deter-
minado num processo de associação com aqueles que cometem 
crimes, exatamente como o comportamento legal sistemático é 
determinado num processo de associação com aqueles que são 
respeitadores da lei. (...). Como terceira proposição, afirma que 
“a associação diferencial é o processo causal específico no de-
senvolvimento do comportamento criminoso sistemático”. (...); 
em quarto lugar, “a probabilidade de participar uma pessoa do 
comportamento criminoso sistemático determina-se, grosso 
modo, pela frequência e consistência de seus contatos com os 
padrões de comportamento criminoso” (...). Ainda, como quin-
ta proposição, “as diferenças individuais entre as pessoas, com 
relação às características pessoais ou situações sociais, causam 
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Daniela Villani Bonaccorsi
o crime somente quando afetam a associação diferencial ou a 
frequência e a consistência dos contatos com padrões crimino-
sos”. (...). Segue afirmando: “o conflito cultural é a causa funda-
mental da associação diferencial e, portanto, do comportamen-
to criminoso sistemático”(...). Sétimo: “a desorganização social 
é a causa básica do comportamento criminoso sistemático”. 
(SUTHERLAND, 1949, p. 12-18). 
Da teoria da associação diferencial e com pesquisas sobre 
a violação da Lei Antitruste norte-americana por meio de mo-
nopólios, Edwin Sutherland (1949) elaborou o conceito de “cri-
me do colarinho branco” (White Collar Crime), colocando por 
água abaixo a ideia de que so mente as classes marginalizadas 
cometem delitos: “Lo significativo del delito de ‘cuello blanco’ es que 
no está asociado con la pobreza, o con patologías sociales y personales 
que acompañan la pobreza”. (SUTHERLAND, 1969, p. 14).
De trânsito comum em todos os idiomas, o termo batizou 
a clássica obra de Sutherland – “White Collar Crime” – em torno 
da delinquência do “colarinho branco”. Conquanto construída, 
em meados do século XX, a partir de uma perspectiva socioló-
gica, a tese veio a tornar-se referência no âmbito da criminolo-
gia, fixando-se como um marco científico e merecendo o aplau-
so e a respeitosa atenção da comunidade jurídica internacional.
Sutherland define os “white collar crimes” à luz de uma 
perspectiva subjetivo-profissional, identificando-os como 
sendo os delitos cometidos por pessoas dotadas de respeita-
bilidade e elevado status social, no âmbito de seu trabalho no 
curso de sua ocupação, ocorrendo, quase sempre, uma vio-
lação de confiança. São dois, portanto, os pontos de apoio do 
conceito proposto: o status do autor e a conexão da atividade 
criminosa com sua profissão. (SUTHERLAND, 1969, p. 14).
A perspectiva criminológica dos crimes de colarinho 
branco leva em conta uma situação especial do sujeito ativo. 
Embora haja algum debate a respeito do que qualifica um cri-
me do colarinho branco, o termo abrange geralmente os crimes 
sem violência cometidos geralmente em situações comerciais 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
para ganho financeiro. Muitos desses crimes são de difícil per-
cepção, pois são preparados por criminosos sofisticados, que 
usam de todos os artifícios possíveis para tentarem esconder 
suas atividades com uma série de transações complexas. 
Portanto, assim como se toma como base um conceito 
amplo de crimes econômicos, entende-se que o criminoso de 
colarinho branco, sob a mencionada perspectiva criminológi-
ca, também é abrangente. O criminoso do colarinho branco 
não pratica um determinado crime, mas justamente os crimes 
econômicos, em virtude de seu interesse diretamente relacio-
nado ao lucro e vantagem econômica, financeira, bem como 
ao acobertamento desses crimes.
Assim, a criminalidade econômica, a criminalidade das 
empresas, a macrocriminalidade dos poderosos ocupa gran-
de parte da discussão social sobre o delito. O bem jurídico 
ordem econômica, em sua forma ampla, abrange uma série de 
delitos, que se pode chamar de delitos econômicos, por atin-
girem esse bem jurídico de forma direta ou indireta. 
No momento atual, o tema não é a criminalidade dos 
possuídos, e a nova política criminal “recebe as boas-vindas 
de muitos setores sociais antes reticentes ao Direito Penal, que 
agora o acolhem como uma espécie de reação contra a crimi-
nalidade dos poderosos”. Porém, o criminoso difere do crimi-
noso clássico. O seu poder aquisitivo traz reflexo nas técnicas 
empregadas nos crimes, dificultando a investigação e sendo 
um dos motivos da limitação das garantias em nome da se-
gurança. Mas a emergência retira da sociedade tanto as ga-
rantias quanto as seguranças, pois, ao adotar medidas emer-
genciais, expcepcionais e que colocam em xeque os direitos e 
garantias, não é só o macrocriminoso, ou quem se encontra na 
posição de inimigo, que seria atingido, mas toda a sociedade, 
que perde da mesma forma seus direitos fundamentais.
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Daniela Villani Bonaccorsi
1.5 O preço da “modernidade”: emergência x 
garantias, duas faces, duas moedas
A atribuição do emergencialismo ao Direito Penal, com 
papéis relevantes na resposta aos ilícitos próprios da globali-
zação e da integração supranacional, implica uma flexibiliza-
ção e relativização de princípios. A modernização do direito 
penal vem sendo caracterizada pela expansão, com a referida 
ofensa a princípiospolítico-criminais e a regras de imputação.
Diante desse contexto originário da globalização, com 
os fenômenos políticos, culturais e econômicos, intensifica-se 
toda sorte de relações humanas. A ideia de segurança se con-
verte em uma pretensão social segundo a qual se supõe que o 
Estado e, principalmente, o direito penal devem oferecer uma 
resposta. Num conjunto de medos difusos, o da criminalida-
de passa a ser inerente às pessoas na sociedade de risco, “o 
medo do delito aparece como uma metáfora da insegurança 
vital generalizada”. (SILVA SANCHEZ, 2002, p. 40 exp.). 
Percebe-se uma tendência dominante em todas as le-
gislações no sentido da introdução de novos tipos penais, 
destacando-se os delitos socioeconômicos, assim como um 
agravamento dos já existentes, com uma interpretaçãoo das 
garantias clássicas do direito penal substantivo e do processo 
penal. Houve a criação de novos bens-jurídicos penais, a am-
pliação de riscos jurídicos-penalmente relevantes, a flexibili-
zação de regras de imputação e a relativização dos princípios 
e garantias constitucionais, pois a resposta social toma senti-
do maior do que essas garantias.
Infatti le norme penali previste in un ordena-
mento giuridico democratico per sanzionare 
atti di terrorismo o di minaccia all á democra-
zia hanno almeno de aspeti peculiari: da un 
lato sono funzionali non soltanto a prevenire e 
a reprimere eventuali lesionni ai diritti fonda-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
mentali e ai principi supremi dell órdinamento 
costituzionalmente provisti, ma anche a riso-
cializzare il reo ad uma convivenza sociale ti-
pica di ogni sistema costituzionale democrati-
co che ammete ogni azione politica purchè sai 
svolta com metodi pacifici, e dall áltro lato co-
sistono comunque in misure che limitano a loro 
volta i diritti fondamentali costituzionalmente 
garantiti di alcune persone, il che può pro-
durre però rilevanti effetti sul funzionamen-
to effettivo dell´intero sistema democrático43. 
(BONETTI, 2006, p. 45).
Com as inúmeras variações socioeconômicas na atuali-
dade, a “sociedade de riscos” trouxe essa verdadeira inflação 
legislativa. O direito penal econômico teve sua legitimidade 
assegurada pela própria sociedade pós-industrial globaliza-
da, mas a necessidade da previsão de tipos penais que pro-
tegem bens jurídicos supraindividuais não pode justificar a 
relativização de direitos e garantias fundamentais.
A ordem econômica deve ser protegida, mas de forma a 
possibilitar uma leitura constitucional em relação a essas novas 
incriminações. Uma leitura constitucional do direito penal sig-
nifica privilegiar um sistema penal de cunho personalista, des-
de os postulados de direito natural de caráter exclusivamente 
racional advindos da tradição do Iluminista. Desta forma, San-
tiago (1994a, p. 11) revê os fundamentos do Direito Penal bus-
cando acolhimento na própria constituição, inclusive revendo 
a teoria do crime, as funções e os fundamentos constitucionais 
43 “Na verdade, as disposições penais previstas por uma sanção democrática 
ordenamento jurídico para atos de terrorismo ou ameaça à democracia 
têm aspectos peculiares: de um lado são funcionais, não só para prevenir e 
reprimir quaisquer lesão a direitos ou princípios fundamentais, mas também 
para ressocializar o réu para uma vida social típica de qualquer sistema 
democrático constitucional, no qual se admitem ações pacíficas; por outro 
lado, medidas que restringem os direitos fundamentais constitucionalmente 
garantidos, mas que possam produzir efeitos significativos sobre o 
funcionamento real de todo o sistema democrático�.(Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
da pena. Luisi (2003, p. 35) explica que “as Constituições des-
de o século XVIII até as contemporâneas contêm uma série de 
princípios especificamente penais, ou pertencentes à matéria 
penal” 44, por isso não se pode falar de um direito penal emer-
gencial que visa a uma eficiência a preço de garantias.
Fundamentando a impossibilidade de relativizações de 
direitos e garantias fundamentais, é imprescindível desta-
car um modelo geral de garantismo, que partiu de Ferrajoli 
(2006), com lineamentos de um Estado Democrático de Direi-
to (YAROCHEWSKY; BONACCORSI, 2009), entendido não 
somente como a proteção dos direitos fundamentais e sociais, 
mas também como um “juspositivismo crítico contraposto ao 
juspositivismo dogmático”. (FERRAJOLI, 2006, p.10).
O modelo garantista de direito ou de responsabilidade 
penal teve origem nos séculos XVII e XVIII, quando eram 
concebidos como princípios políticos, morais ou naturais na 
limitação do poder absoluto (FERRAJOLI, 2006, p. 91). Em se-
guida, foram incorporados a constituições e ordenamentos 
desenvolvidos, convertendo-se em princípios jurídicos do 
Estado Democrático de Direito. O autor parte da teoria geral 
do direito para fundamentar a teoria do garantismo penal. 
Inicialmente, faz uma revisitação à teoria da validade, a partir 
da qual estabelece uma diferenciação entre validade/material 
e vigência/formal das normas jurídicas. Tal análise terá reper-
cussão desde a tipicidade de condutas ao âmbito processual, 
pois se justifica que o julgador deve ter uma visão diferen-
44 Sinalizando a diferença entre os “princípios de direito penal constitucional” 
e “princípios constitucionais pertinentes à matéria penal”, Palazzo (1989, 
p. 23) afirma que: “Os primeiros apresentam um conteúdo típico e 
propriamente penalístico (legalidade do crime e da pena, individualização da 
responsabilidade etc.) e, sem dúvida, delineiam a ‘feição constitucional’ de um 
determinado sistema penal, a prescindir, eventualmente, do reconhecimento 
formal num texto constitucional. Tais princípios, que fazem parte, diretamente, 
do sistema penal, em razão do próprio conteúdo, têm, ademais, características 
substancialmente constitucionais, enquanto se circunscrevam dentro dos 
limites do poder punitivo que situam a posição da pessoa humana no âmago 
do sistema penal; em seguida, vincam os termos essenciais da relação entre 
indivíduo e Estado no setor delicado do direito penal”. 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ciada de sujeição à lei. Não há uma sujeição meramente pelo 
aspecto formal do emissor, mas pelo conteúdo normativo, que 
deve observar direitos e garantias constitucionais, tanto no 
que se refere aos princípios (explícitos ou implícitos) quanto 
em relação a regras, inclusive, os Direitos Humanos aderidos 
pelo art. 5º, § 2º, da Constituição da República de 1988:
a Teoria Geral do Garantismo, entendi-
da como modelo de Direito, está base-
ada no respeito à dignidade da pessoa 
humana e seus Direitos Fundamentais, 
com sujeição formal e material das prá-
ticas jurídicas aos conteúdos constitu-
cionais, aqui trabalhados dissociados 
de uma visão essencialista. Isto porque, 
diante da complexidade contemporâ-
nea, a legitimação do Estado Democrá-
tico de Direito deve suplantar a mera 
democracia formal, para alcançar a de-
mocracia material, na qual os Direitos 
Fundamentais devem ser respeitados, 
efetivados e garantidos, sob pena da 
deslegitimação paulatina das institui-
ções estatais. Em outras palavras, tendo-
-se em vista a supremacia Constitucio-
nal dos direitos positivados no corpo 
de Constituições rígidas ou nela referi-
dos (CR, art. 5º, § 2º), como a brasileira 
de 1988, e do princípio da legalidade, a 
que todos os poderes estão submetidos, 
surge a necessidade de garantir esses 
direitos a todos os indivíduos, princi-
palmente os processados criminalmen-
te, pela peculiar situação que ocupam. 
(ROSA, 2004, p. 93).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Os princípios, sobre os quais se funda o modelo garan-
tista clássico, têm o objetivo de condicionar, vincular e limitar 
a punição e o exercício absoluto:
ser garantista é se tornarde “política criminal de segurança” sobre o jurídico, dessa 
forma, traduzem a necessidade de um estudo da noção do “ci-
dadão” e do inimigo. O direito penal do inimigo não reclama 
uma abordagem diretamente ligada aos crimes econômicos, e 
sim em relação ao emergencialismo penal, diante das medi-
das coincidentemente buscadas. 
Apesar de o destacado discurso de “segurança” e pre-
venção do “risco” “justificarem” a excepcionalidade da legis-
lação penal, identifica-se nesse argumento um autêntico pro-
| 4 |
cesso de “antecipação” da intervenção penal, pois em nome 
do emergencialismo o próprio sistema penal deflagra a viola-
ção de uma série de direitos e garantias.
Nesse sentido, como forma de abarcar esses direitos e 
garantias, parte-se para a busca de críticas quanto a esses ins-
trumentos utilizados na sociedade pós-moderna em nome da 
“prevenção” de “riscos”, como a “administrativização” do di-
reito penal, a incriminação de condutas que não atingem bem 
jurídico, a ideia do “criminoso” como “inimigo”. Diante dessa 
análise, não poderiam deixar de ser discutidos o garantismo 
penal e o direito administrativo sancionador.
Reconhece-se, desde já, que o sistema garantista proposto 
por Ferrajoli busca oferecer respostas satisfatórias ao problema 
de expansão do poder punitivo, mas, ciente de suas limitações, 
propõe-se, no âmbito dos crimes econômicos, uma análise tam-
bém do “Direito de Intervenção” proposto por Hassemer (1998).
O delito de lavagem de dinheiro foi escolhido em parale-
lo por caracterizar essa emblemática criação de novas condu-
tas incriminadas e por inúmeras peculiaridades que a sua lei 
traz. A relação do crime de lavagem de dinheiro com as ques-
tões elencadas será efetivada a partir da busca de um conceito 
do bem jurídico “ordem econômica” e justamente com a com-
preensão desse “novo criminoso econômico”.
A análise do crime de lavagem de dinheiro possui liga-
ção direta, uma vez que o criminoso da lavagem de dinheiro 
não visa somente ao lucro em si, mas à utilização desse com 
“sinais de riqueza exterior”. Dessa forma, apesar de ser im-
prescindível a análise da origem da incriminação do crime 
de lavagem de dinheiro no Brasil advinda da preocupação do 
seu uso para o fortalecimento de organizações criminosas, 
direciona-se a pesquisa ao criminoso de colarinho branco, 
àquele que não reutiliza o dinheiro para o financiamento de 
outros crimes, mas para a manutenção de um estilo de vida 
diretamente ligado ao capitalismo, aos bens de consumo, ao 
luxo, aos “sinais de riqueza exterior”.
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O crime de lavagem de dinheiro foi tipificado justamente 
nesse contexto social, elencado por Silva Sanchéz e aqui recons-
truído, o “expansionismo penal”. E, consequentemente, será 
reflexo de um emergencialismo penal, cujas relações se preten-
de alcançar com o aprofundamento do tipo penal do crime de 
lavagem de capitais, do bem jurídico previsto e do seu caráter 
“acessório”. A análise de legislações estrangeiras, diante do 
atual movimento mundial de países que aderiram ao Grupo de 
Ação Financeira (GAFI), é imprescindível, tanto pela proximi-
dade do conceito e da tipificação do crime quanto pelo distan-
ciamento com outras legislações que inicialmente abordaram 
o crime de lavagem de dinheiro como espécie de receptação.
Pela mera leitura do tipo penal do crime de lavagem de di-
nheiro percebe-se a sua complexidade, pois, ao consistir em ocul-
tar, encobrir, dissimular a origem ilícita, depende de crime ante-
cedente e de uma série de atos que garantam esse acobertamento.
Ao mesmo tempo em que hoje se percebeu uma mobi-
lização internacional para enfrentamento do tema, desde a 
Convenção de Viena de 1988 até a alteração da Lei de crimes 
de lavagem de dinheiro em inúmeros países, com maior rigi-
dez, mais medidas cautelares, maior controle no sistema fi-
nanceiro, o tipo penal traz aspectos simbólicos e uma série de 
relativizações a direitos e garantias que exigem as reflexões 
aqui enunciadas. A partir daí, imprescindível é uma compa-
ração co o delito de receptação, da qual se parte a análise da 
atipicidade da conduta do autor do crime precedente.
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1. O Emergencialismo Penal: 
Globalização, Sociedade de Risco 
e Expansão Penal
“A solidez da terra, monótona, parece-nos fraca ilusão. 
Queremos a ilusão do grande mar, 
multiplicada em suas malhas de perigo...” 
(Cecília Meireles).
O emergencialismo penal tem como pano de fundo a so-
ciedade de risco e a expansão do direito penal, reflexos do fenô-
meno da globalização num âmbito político, social e econômico.
A globalização não é de fácil definição, uma vez que se 
relaciona a esses vários fenômenos. Fala-se de uma verdadeira 
globalização de bens, pessoas e ideias modificando marcos so-
ciais de referência, o que é local ou nacional passa a ser global:
La globalización no es um hecho nuevo ni 
tampouco puede reducirse a occidentalizaci-
ón. Durante miliones de años, la globaliza-
ción há contribuído al progreso del mundo a 
través de los viajes, el comercio, las migracio-
nes, la difusión de las culturas, la disemina-
ción del saber (incluído el científico y el tec-
nológico) y el conocimiento recíproco. Cada 
tanto, el movimiento de las influencias há 
tomado direcciones distintas. Por ejemplo, a 
fines del milênio que acaba de terminar, el flo-
jo há sido, em gran medida, desde Occidente 
havia Oriente, pero al comienzo (alrededor 
del año mil) Europa estaba assimilando la ci-
ência y la tecnologia china, y la matemática 
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Daniela Villani Bonaccorsi
hindu y árabe. Estas interacciones son uma 
herecia mundial, y la tendência contemporâ-
nea es cohente com este desarrollo histórico1. 
(MARRAMAO, 2006, p. 14).
Num aspecto político, diante da globalização, o espaço 
social já não coincide com a localização, já não está defini-
do pela presença física nos limites territoriais. A noção de 
estado-povo-território sofreu transformações. A noção do 
Estado Nacional não é a mesma, com a diluição de fronteiras 
e com uma nova ideia de soberania (MARRAMAO, 2006, p. 
25). Ao invés de um Estado nacional, passa-se a se falar de 
organizações internacionais, como Banco Mundial, Fundo 
Monetário Nacional e grandes grupos econômicos. Também, 
os modelos sociais pós-industriais foram acompanhados de 
fenômenos econômicos, como eliminação de restrições às 
transações comerciais e ampliação dos mercados que deram 
lugar à aparição de novas formas de delito. 
Além desses fenômenos, grande marco é a mundializa-
ção da economia e consequente transformação econômica em 
diversos países. Com a abertura de mercados, negociações, 
fluxo de taxas cambiárias, ao mesmo tempo, surgem países 
estáveis, surgem outros com economias abaladas. Mudanças 
que trouxeram grande influência no âmbito criminal. 
A globalização financeira facilita a movimentação de va-
lores clandestinos, transações via internet, fraudes nos siste-
mas fiscais, e esses países estáveis e desenvolvidos passam a 
1 “A globalização não é um fato novo, nem tampouco se reduz ao mundo oci-
dental. Por milhares de anos, a globalização tem contribuído para o progres-
so do mundo através de viagens, do comércio, da migração, do desenvolvi-
mento das culturas, da disseminação do conhecimento (incluindo Científico 
e Tecnológico) e da compreensão mútua. Cada movimento tem influenciado 
direções diferentes. Por exemplo, no final do milênio que acaba de terminar, 
a Europa foi assimilando a ciência e a tecnologia chinesa, e a matemática 
hindu árabe. Essas interações são uma tendência do mundo contemporâneo 
e é coerente esse desenvolvimento histórico”. (Tradução Livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ser suporte ao desenvolvimento do capital, muitas vezes fun-
cionando como paraísos fiscais. Nos países abalados torna-se 
frequente a sonegação fiscal, pois, ao mesmo tempo em que 
países atingidos por grandes acontecimentos, como as guerras, 
passam a cobrarescravo dos 
princípios fundamentais da legalidade 
estrita, da culpabilidade, da lesividade, da 
presunção de inocência, do contraditório, 
do devido processo legal e, principalmen-
te, da dignidade da pessoa humana, co-
rolário do Estado democrático de Direito. 
(YAROCHEWSKY; COELHO, 2012).
Ferrajoli (2006) indica onze princípios necessários e su-
cessivos, relacionados a pena, delito, lei, necessidade, ofensa, 
ação,culpabilidade, jurisdição, acusação, prova e defesa. 
A ausência de um deles torna a resposta estatal, a partir 
do sistema garantista (SG), ilegítima, constituindo, cada um 
dos princípios, regras processuais ideais ao modelo garantista 
(FERRAJOLI, 2006, p. 74). A classificação divide-se em: a) ga-
rantias penais: “delito”, “lei”, “necessidade”, “ofensa”, “ação” e 
“culpabilidade”; b) garantias processuais: “jurisdição”, “acu-
sação”, “prova” e “defesa”. O modelo ideal45 garantista é com-
posto por dez axiomas, vertidos em latim:
A1 Nulla poena sine crimine
A2 Nullum crimen sine lege
A3 Nulla lex (poenalis) sine necessitate
A4 Nulla necessitas sine injuria
A5 Nulla injuria sine actione
A6 Nulla actio sine culpa
A7 Nulla culpa sine judicio
45 “O garantismo não é uma religião e seus defensores não são profetas ou 
pregadores utópicos. Trata-se de um sistema incompleto e nem sempre 
harmônico, mas sua principal virtude consiste em reivindicar uma renovada 
racionalidade, baseada em procedimentos que têm em vista o objetivo de 
conter os abusos do poder.” (PRADO, 2001a, p. XXI).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A8 Nullum judicium sine accusatione
A9 Nulla accusatio sine probatione
A10 Nulla probatio sine defensione. 
A partir da análise dos mencionados princípios limita-
dores, Ferrajoli (2006, p.73) assevera que esses axiomas podem 
ser também compreendidos da seguinte forma:
1) princípio da retributividade ou da 
consequencialidade da pena em re-
lação ao delito;
2) princípio da legalidade, no sentido lato 
ou no sentido estrito;
3) princípio da necessidade ou da econo-
mia do direito penal;
4) princípio da lesividade ou da ofensivi-
dade do evento;
5) princípio da materialidade ou da exte-
rioridade da ação;
6) princípio da culpabilidade ou da res-
ponsabilidade pessoal;
7) princípio da jurisdicionaridade, tam-
bém no sentido lato e no sentido estrito;
8) princípio acusatório ou da separação 
entre juiz e acusação;
9) princípio do ônus da prova ou da ve-
rificação;
10) princípio do contraditório ou da de-
fesa, ou da falseabilidade.
Dessa forma, o sistema garantista seria um sistema pró-
prio, cujos contornos são evidenciados em “garantias penais” 
e “garantias processuais”.
Na concepção garantista, desde a elaboração das leis, 
estaria limitada em seu conteúdo por fronteiras materiais, 
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Daniela Villani Bonaccorsi
não podendo se afastar do contido materialmente na Cons-
tituição. (FERRAJOLI, 2006, p. 23). Por isso, é importante ex-
plicar que o autor analise o Princípio da Legalidade a partir 
de uma legalidade formal e de uma legalidade substancial. 
O Princípio da Legalidade Formal entende a validade da 
norma desde que expedida por quem possui competência 
legislativa, independentemente de conteúdo. “Este postula-
do, a seu tempo, significou um rompimento entre Direito e 
Moral, entre Validade e Justiça, exigindo que a validade da 
norma ficasse jungida exclusivamente ao fundamento de va-
lidade formal”.(ROSA, 2004, p. 108).
Ao analisar a estrita legalidade ou legalidade substan-
cial, Ferrajoli (2006) impõe uma verdadeira revolução, enten-
dendo que a norma somente será válida se estiver de acordo 
com o conteúdo da Constituição. Dessa forma, não se pode 
mais entender a validade somente pela origem legislativa, 
mas a vigência é redefinida como elemento exclusivamente 
formal, necessário, mas não suficiente para a legitimidade 
democrática da norma:
La dimensión formal de la democracia políti-
ca, que hace referencia al quién y al cómo de 
las decisiones y que se halla garantizada por 
las normas formales que disciplinan las for-
mas de las decisiones, asegurando com ellas 
la expresión de la voluntad de la mayoría; y 
la dimensión material de la que bien podría 
llamarse democracia sustancial, puesto que 
se refiere al qué es lo que no puede decidirse 
o debe ser decidido por cualquier mayoría, y 
que está garantizado por las normas sustan-
ciales que regulan la sustancia o el significa-
do de las mismas decisiones, vinculándolas, 
sob pena de invalidez, al respeto de los de-
rechos fundamentales y de los demás prin-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
cipios axiológicos establecidos por aquella46. 
(FERRAJOLI, 2006, p. 23).
A incidência desse critério de validade garantista se dá 
no âmbito de um ordenamento jurídico em constante muta-
ção, diante das necessidades advindas de uma sociedade. 
Os diversos princípios garantistas constitucionais se 
configuram, antes de tudo, como um esquema epistemológico 
de identificação do desvio penal (BACIGALUPO, 2005. p.21).
Orientado a assegurar o máximo grau de racionalidade e 
confiabilidade do juízo e, portanto, de limitação do poder pu-
nitivo e de tutela da pessoa contra a arbitrariedade, “o mode-
lo garantista equivale a um sistema de minimização do poder 
e de maximização do saber judiciário, enquanto condicional a 
validade das decisões à verdade, empírica e logicamente con-
trolável, das suas motivações”. (FERRAJOLI, 2006, p. 16).
O modelo garantista, ao ser tratado como modelo limite, 
é garantia do cidadão contra o arbítrio e, ao contrário de mo-
delos autoritários47, exige não só a conduta proibitiva em abs-
trato, mas também seus efeitos lesivos para terceiros, o caráter 
externo ou material da ação criminosa:
O garantismo que não é apenas uma 
determinada concepção do Direito Pe-
nal, mas do próprio Estado, pressupõe 
a aceitação de duas premissas básicas: a 
46 “A dimensão formal da democracia política remete para o que e como as 
decisões sejam garantidas pelas regras formais que regulam as formas de 
decisões, garantindo com elas a expressão da vontade da maioria e a dimensão 
material, que poderia ser chamada de democracia substancial, uma vez que se 
refere ao que não pode ser decidido ou determinado por qualquer maioria. E é 
garantida pelas regras substantivas que regem a matéria ou o significado das 
mesmas decisões, sob pena de nulidade, diante dos direitos fundamentais e 
outros princípios axiológicos estabelecidos por isso”. (Tradução livre).
47 In casu, pode-se entender nos modelos autoritários a ausência de limites 
à intervenção estatal, a excessiva severidade na punição e a incerteza nas 
condenações.
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Daniela Villani Bonaccorsi
intervenção penal deve ser sempre mí-
nima, ou seja, subsidiária, somente ad-
missível quando todas as outras formas 
de controle social tiverem se revelado 
insuficientes. Há um núcleo essencial 
nos direitos fundamentais, cuja restri-
ção não pode ser objeto de deliberação. 
(BRODT, 2009).
O garantismo entende um direito penal mínimo, explican-
do a intervenção penal somente quando estritamente necessária 
para a proteção dos cidadãos, buscando-se a defesa do cidadão 
do poder coercitivo do estado. (SANTIAGO, 1994, p. 151). Assim, 
pode-se compreender o modelo garantista da seguinte forma:
um primeiro significado, designa um 
modelo normativo de direito, principal-
mente, no que se refere ao direito penal, 
modelo de estrita legalidade, próprio do 
Estado de direito, que sob o plano polí-
tico se caracteriza como “uma técnica de 
tutela idônea a minimizar a violência e a 
maximizar a liberdade e, sob o plano ju-
rídico, como um sistema de vínculos im-
postos à função punitiva do Estado em 
garantia dos direitos dos cidadãos”; em 
um segundo significado, designa “uma 
teoria jurídica da validade e da efetivi-
dade comocategorias distintas não só 
entre si mas, também, pela existência ou 
vigor das normas.” Mais adiante, Fer-
rajoli afirma que “o garantismo opera 
como doutrina jurídica de legitimação 
e, sobretudo, de perda da legitimação 
interna do direito penal, que requer dos 
juízes e dos juristas uma constante ten-
são crítica sobre as leis vigentes; em um 
terceiro significado, garantismo, para 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Luigi Ferrajoli, designa uma filosofia po-
lítica que requer do direito e do Estado 
o ônus da justificação externa com base 
nos bens e nos interesses dos quais a tu-
tela ou a garantia constituem a finalida-
de. (YAROCHEWSKY, COELHO, 2012)
No âmbito da criminalidade econômica, percebe-se o opos-
to do proposto no garantismo penal. O Estado passou a punir 
uma série de condutas, que na realidade ou prevê tão somente 
um perigo abstrato ao bem jurídico, ou nenhum bem jurídico 
chega a atingir. Trata-se de inúmeras condutas antes destacadas 
como infração administrativa, que passaram a sofrer interven-
ção penal48. Nos crimes de sonegação fiscal (como a não declara-
ção de imposto devido no prazo legal), de lavagem de dinheiro 
(como, por exemplo, movimentações financeiras clandestinas 
visando à ocultação da origem delituosa), percebe-se uma vin-
culação da norma penal com o direito administrativo.
A tutela da ordem econômica é hoje uma realidade nor-
mativa e um problema que anseia por respostas pela socieda-
de. A imprescindível tutela da ordem econômica encontra-se 
protegida num âmbito constitucional, mas com limites mate-
riais nos princípios constitucionais e garantias fundamentais. 
O direito penal possui caráter subsidiário, o que significa que 
só deve intervir quando for absolutamente necessário para 
a sobrevivência da comunidade como ultima ratio, ou seja, 
quando todos os demais ramos do direito tiverem se tornado 
inócuos. (PRADO, 2005, p. 149). 
A conveniência político-criminal da incriminação de con-
dutas inerentes a uma sociedade de risco, com características 
emergenciais, não pode prescindir de critérios que asseguram 
a intervenção mínima, a fragmentariedade e um direito penal 
constitucional. A ofensa a princípios garantistas norteadores do 
48 Como mencionado por Silva Sanchéz (2002) na denominada 
“administrativização” do direito penal como fenômeno da expansão do 
direito penal.
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Daniela Villani Bonaccorsi
direito penal se revela em construções típicas defeituosas, mo-
tivadas exclusivamente por exageradas demandas preventivas.
Ou seja, a intervenção penal em matéria econômica, embo-
ra legítima, não pode comportar qualquer limitação ou ruptura 
com os princípios gerais de garantias e direitos fundamentais. 
A elaboração desses novos tipos penais, reflexos da globaliza-
ção, não podem ser exceção à indispensável observância aos 
princípios penais constitucionais e garantias fundamentais, 
sob pena de serem reflexo de mero simbolismo penal.
O direito e o processo penal não conseguem ser a resposta 
a todos os males. Passam a ter um caráter intimidador, esse men-
cionado caráter simbólico. A partir daí, percebem-se respostas 
autoritárias como fenômeno que decorre do sentimento de ur-
gência legislativa face aos problemas apresentados na sociedade:
direito penal simbólico, uma onda propa-
gandística dirigida especialmente às mas-
sas populares por aqueles que, preocupados 
em desviar a atenção dos graves problemas 
sociais e econômicos, tentam enconbrir que 
estes fenômenos desgastantes do tecido 
social são evidentemente, entre outros, 
os principais fatores que desencadeiam o 
aumento, não tão desenfreado e incontro-
lável quanto alarmeiam, da criminalidade 
(SANTORO FILHO, 2000, p. 32).
O simbolismo do direito penal está na tutela que, em 
verdade, nada tutela; essa impressão de segurança reveste 
esse ramo do ordenamento com um caráter emergencial, 
transformando-o em uma panaceia. Infelizmente, nem to-
dos têm essa consciência e, por isso, subvertem os comandos 
do regime democrático, assemelham-se a melancólicos fan-
toches do autoritarismo. (BRODT, 2009).
O emergencialismo leva a essa ideia de simbolismo. A 
“cultura emergencialista determina preocupantes tentativas 
de misturas de papéis, de antecipação de pena, de acertos com 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
a mass media, com o resultado de realizar processos sumários, 
sem ritos e extrainstitucionais”. Nesses casos, o próprio proces-
so serve de pena, e “as necessidades coletivas de conhecimen-
to reduzem-se àquilo que, a esta altura, integra o verdadeiro 
processo, aquele cotidianamente celebrado pela mídia ‘com o 
depósito dos autos na banca de jornal’”. (MOCCIA, 2000, p. 71).
Usa-se o direito penal e a pena com escopos metajurí-
dicos como solução para os medos sociais. A eficiência e o 
sentimento de segurança são buscados, ainda que o preço seja 
direitos e garantias fundamentais. E isso se percebe desde a 
nova tipificação de condutas e, no processo penal, com a fi-
nalidade de se evitar risco da neutralização de um inimigo, 
que se tornam finalidades últimas, ainda que ocorram sem 
observância de um procedimento constitucional:
(...) espressione di normativa emergenziale, 
com tutti i difetti che conotano questo tipo di 
provvedimenti: approssimazione, caoticità, ri-
gorismo espressivo, simbolicità, caduta in ter-
mini di garanzia. Basta soltanto considerare 
che dal 1982 ad oggi, in matéria, si sono avuti 
altri cinquanta provvedimenti normativi per 
ló più sotto la forma, causata dall’emergenza, 
del decreto legge, sovente reiterato. Si é as-
sistito ad um accavalardi confuso ed incos-
ciente di interventi legislativi che, in manie-
ra del tutto scoordinata hanno corrotto um 
quadro normativo in cui appare complessa 
la stessa ricostruzione delle disposizioni49. 
(MOCCIA, 2000, p. 175)
49 “(...) A expressão de legislação de emergência, com todas as falhas da cono-
tação: aproximação, caos, simbolismo rigor expressivo, queda em termos 
de garantia. Considera-se que a partir de 1982 até o presente, na matéria, 
havia 50 outras medidas com características emergenciais e provenientes 
de reiterados decretos. Tem-se assistido a um acavalamento confuso e in-
consciente da legislação, o que, de maneira descoordenada, tem criado um 
quadro normativo no qual aparece uma reconstrução complexa dessas 
mesmas disposições.” (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Além de acabar por ter um caráter meramente simbólico, 
relativiza-se uma série de direitos e garantias fundamentais, 
incompatíveis com o momento de evolução da sociedade (BA-
RACHO, 1984, p.125), repudiando sistemas penais autoritários:
Non è possibile, pertanto, in una struttura or-
dinamentale di democrazia avanzatà, al fine 
di porre rimedio a turbative, anche gravissi-
me, della compagine sócio statuale, espressi-
ve di una profonda crisi di legalità, endo- ed 
extraistituzionale, adottare rimedi normati-
vi e prassi giurisprudenziali, che finiscono 
com Il far scivolare la struttura ordinamen-
tale verso preoccupanti forme di arbítrio, 
che hanno sempre caratterizzato i momenti 
più difficili per le ragioni dell´individuo50. 
(MOCCIA, 2000, p.2 ).
Dentre essas formas de flexibilização, o emergencialis-
mo, na busca de medidas rápidas, prevê em sua maioria cri-
mes de perigo abstrato, tipos esses que são no mínimo ques-
tionáveis, quando relacionados ao Princípio da Ofensividade 
e ao próprio Princípio da Intervenção Mínima. Na urgência, a 
eficiência tornou-se o oposto de garantias:
50 “Neste momento histórico é, ao contrário, consolidado no nível legislativo, 
mas também na prática, um costume do tipo emergencial ligado, atualmente, 
à luta contra graves e difusas formas de criminalidade, de colarinho branco e 
organizada, que desperta preocupações em relação à defesa dos direitos do 
indivíduo.Quais limites a defesa do homem contra o abuso da força estatal, 
as garantias representam, assim, a expressão mais significativa tradução 
do processo evolutivo tem caracterizado o desenvolvimento da civilização 
jurídica contemporânea. Não é possível, portanto, em uma estrutura do 
ordenamento democrático avançado, a fim de remediar a tormentosa, e 
gravíssimas expressões de uma profunda crise de legalidade, endo e 
extrainstitucional, adotar remédios normativos e práticas jurisprudenciais, 
que terminam com distância da estrutura do ordenamento e, por outro lado, 
traduzem formas de arbítrio, que têm sempre caracterizado os momentos 
mais difíceis para a razão do indivíduo.”(Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Garanzie individuali ed efficienza del controllo 
sembrano oggi costituire i termini, constras-
tanti, di uma proprosizione dialettica. Ma un 
tale assunto, in rapporto al nostro constesto 
ordinamentale, di democrazia fondata sui prin-
cipi dello stato sociale di diritto, è senz’altro 
falso e la dimostrazione è agevole (...) Garan-
zia ed efficienza, infatti, nello stato sociale di 
diritto, lugi dal porsi antiteticamente, rappre-
sentano, congiunte, degli elementi essenziali di 
riferimento a cui dev’essere informato il per-
seguimento delle legittime istanze di controllo 
sociale. In realtà, lo stato sociale di diritto- fe-
lice sintesi di componenti liberali e solidaristi-
che-, sul piano dell’impegno a favore dei diritti 
dell’individuo, tende ad assicurare, rendevole 
effetive, garanzie di tipo formale e sostanziale; 
cosi come, sul piano della tutela di beni fonda-
mentali, si preocuupa della difesa sai di tradi-
zionali interessi individuali che di emergenti 
interessi superindividuali. Cio significa, in ter-
mini di política criminale, l’adozione di strate-
gie di controllo di fatti socialmente dannosi che, 
nell’assoluto rispetto di prerogative di liberta e 
dignità della persona, risulti ispirata, contestu-
almente, a criteri di razionalità ed efficienza51. 
(MOCCIA, 2000, p.1).
51 ”Garantias individuais e eficiência do controle parecem constituir termos 
contrastantes. Mas tal afirmação, em relação ao nosso ordenamento, de 
democracia fundamentada em princípios do estado social de direito, é 
de fácil demonstração (...) Garantia e eficiência, assim, no estado social de 
direito, são antíteses, representam, conjuntamente elementos essenciais 
que refletem a procura de meios legítimos de controle social. Na realidade, 
o estado social de direito - síntese de componentes liberais e solidários - 
além de lentamente se empenhar em favor dos direitos do indivíduo, tende 
a assegurar garantias formais e substanciais; assim como se preocupa com 
a tutela dos bens fundamentais, preocupam-se com a defesa de interesses 
supraindividuais de emergência. Isto significa, em termos de política 
criminal, a adoção de estratégias de controle dos fatos socialmente danosos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Os direitos e garantias fundamentais são apresentados 
como causa de entrave ao funcionamento eficiente do sistema 
emergencial52. A produção de normas de forte conteúdo simbóli-
co em relação ao sistema repressivo é predominante na sociedade 
globalizada, chocando-se com o denominado garantismo penal: 
All’emergenza che giustifica la sospenzione 
di fondamentali principi di civilità giuridica 
all’interno del sistema penale, la critica garan-
tistica contrrapone la normatività di un sistema 
penale incentrato su principi irrinunciabili di 
garanzia per la persona dell’ imputato e di tecni-
ca de accertamento della verità: all’ eccezine se 
contrappone la normatività della normalità53. 
(BARATTA; SILBERNAGL, 1983, p. 546).
Essa tendência de criação de tipos de conteúdo emi-
nentemente de perigo abstrato também é questionável. Nos 
crimes de perigo abstrato, não há possibilidade concreta de 
dano, mas somente uma violação formal de lei por parte de 
uma ação inócua em si mesmo, como forma de responder aos 
novos possíveis riscos advindos da globalização54.
que, no respeito absoluto das prerrogativas de liberdade e dignidade da 
pessoa, inspiram critérios de racionalidade e eficiência.” (Tradução livre).
52 “Essas mudanças na legislação penal, com medidas que reduzem 
garantias, também terão repercussões num âmbito processual, com a clara 
limitação ao direito de defesa no crime de lavagem de dinheiro e com o 
aumento de tipos penais.” (Tradução livre).
53 “Emergência justifica a suspensão de princípios jurídicos fundamentais da 
civilização no sistema de justiça criminal, a crítica garantística se contrapõe 
à normatividade de um sistema de justiça criminal focada em princípios 
essenciais de garantia para o imputado e de técnicas de investigação da 
verdade: a exceção se contrapõe à lei da normalidade”. (Tradução livre).
54 Vale ilustrar, também, além da mencionada Lei nº 7.492/86, a Lei nº 8137/90, 
que, em seu texto, menciona inúmeras condutas genéricas, que independem 
de perigo concreto, como “fazer declaração falsa”, “omitir declaração sobre 
rendas para eximir-se de pagamento de tributo”.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Hoje, há uma proliferação de tipos penais classificados 
como crimes de perigo abstrato, uma vez que as condutas e as 
atividades perigosas do final do século XIX não são as mesmas. 
A substituição do ser humano por máquinas, os movimentos 
sociais, as mudanças econômicas tornaram-se a base da crise 
atual; sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, em especial 
a partir dos anos 60, assumiram papel fundamental no sistema 
penal, passando a ser característica do moderno direito penal55. 
Recorre-se ao direito penal como forma de prevenção para os 
riscos de uma sociedade moderna (MARQUES, 2005, p.98), jus-
tifica Ferrajoli (2006, p.436): “Temos assistido a uma crescente 
antecipação de tutela, mediante a configuração de delitos de 
perigo abstrato, com caráter hipotético e muitas vezes imprová-
vel do resultado lesivo e pela descrição aberta e não taxativa da 
ação”. Houve uma crescente punição de condutas, as quais re-
sultariam em perigo ao bem jurídico, não resultando em lesão 
nem tampouco em ameaça concreta de lesão ao bem jurídico.
Não é suficiente adequar a conduta punitiva à forma, 
mas “asseverar a relevância penal dos comportamentos que se 
mostrem realmente, ao menos em termos potenciais, lesivos 
ao bem-jurídico.” (SILVEIRA, 2003, p.166). Se o direito penal 
visa à tutela do cidadão e minimação da violência, as proibi-
ções penais justificadas devem ser necessárias. Impende levar 
em consideração que estão reconhecidos em nível normativo 
privilegiado não somente os clássicos princípios liberais, senão 
também outros novos (PALAZZO, 1989. p.13), como é o caso do 
princípio da necessária ofensividade no direito penal. “A ne-
cessária lesividade do resultado, qualquer que seja a concepção 
que dela tenhamos, condiciona toda justificação utilitarista do 
direito penal como instrumento de tutela e constitui seu prin-
cipal limite axiológico.” (FERRAJOLI, 2006, p. 428).
55 Em fundado receio, Winfried Hassemer chama a atenção para o conceito 
de “modernidade” no direito penal e a tendência de “modernizar” o direito 
penal, “de ampliá-lo para um instrumento funcional de política interna e 
reduzir seus limites clássicos (...)” (HASSEMER, 2003. p.144).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Apesar da justificada proteção constitucional à ordem eco-
nômica, a intervenção penal seria cabível, quando houvesse, pelo 
menos, o risco concreto ao bem jurídico. (BUERGO, 2001b, p.341).
(...) desde um punto de vista del principio del 
Estado de Derecho lo más que se puede hacer 
para restringir la punibilidade de estos delitos 
es que el legislador calcule correctamente el 
potencial peligroso inherente a la acción incri-
minada, pues en el proceso es imposiblehacer 
ninguna limitación, ya que la ley no permite 
que el juez valore o investigue el peligro real56. 
(MUÑOZ CONDE, 1998, p.146).
Há ofensa ao Princípio da Ofensividade na incriminação 
de condutas que não trazem a possibilidade concreta de dano, 
porque não basta uma constatação meramente formalista do 
delito, mas uma relevância quando o bem jurídico passa a ser 
concretamente afetado. A excessiva criação dos chamados 
crimes de perigo abstrato tornam válidas medidas punitivas 
apenas com requisitos formais. (FERRAJOLI, 2006, p. 330).
O sistema jurídico-penal não poderia, unicamente, fazer 
frente às realidades da sociedade de perigo ou dos modernos 
riscos da vida, em razão da intervenção efetiva de o direito pe-
nal significar o sacrifício de garantias essenciais. Nesse sentido:
A punição por perigo abstrato significa 
uma sanção fundamentada apenas no 
desvalor da ação, independentemente da 
presunção de qualquer resultado, pois é a 
mera presunção do perigo. A intervenção 
penal nessa seara deve ser evitada, por-
56 “A partir do ponto de vista de princípios do Estado de Direito o que pode 
ser feito para restringir a punibilidade desses crimes é o legislador calcular 
corretamente o perigo potencial inerente à conduta incriminada, pois no 
processo é impossível fazer qualquer limitação, e a lei não permite ao juiz 
avaliar ou investigar o perigo real”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
que fundamentada em mera desobediên-
cia à norma, o que, além de contrariar a 
própria razão de ser da norma penal (...) 
é cruel e vedado pelo nosso Código pe-
nal que não admite crimes sem resultado. 
(BRODT, 2005, p. 113).
Com o fundamento constitucional do direito penal, em 
conformidade com o princípio da ofensividade dos bens ju-
rídicos, o perigo concreto constitui pressuposto à tipificação 
penal e “a sanção penal só se justifica quando a conduta do 
agente tenha submetido o bem jurídico tutelado penalmente 
pelo menos a um perigo real, concreto”. (BRODT, 2005, p. 114).
Assim, buscando amparo constitucional, os riscos de-
vem ser prevenidos e contidos não só com a imposição de san-
ção penal, mas numa órbita político-administrativa, ensina o 
mais moderno posicionamento:
Em toda sociedade humana, ainda que 
“de risco”, a dignidade e a importância 
do direito penal estarão na proteção e no 
resguardo do indivíduo, do mais frágil: 
da “vítima” em relação ao “delinquente”, 
do “delinquente” em relação ao Estado. 
Por isso, não nos encanta a ideia de esten-
der o direito penal a searas que devem 
permanecer distantes. Tememos, aliás, 
que nesse caminho nossa ciência acabe 
por se descaracterizar e se transforme 
em algo muito útil à sociedade de “risco”, 
mas de pouca serventia aos indivíduos. 
(BRODT, 2005, p. 52).
É imprescindível ter a ideia de que as normas não vivem 
isoladas. As normas de perigo deveriam ter amparo nas demais 
regras, por isso, são excluídas do âmbito de proibição diante do 
princípio da ofensividade. A lesividade é uma grande lacuna 
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Daniela Villani Bonaccorsi
existente na doutrina em relação à limitação do poder punitivo 
para proteção de bens jurídicos fundamentais e, consequente-
mente, a imprescindível fundamentação do direito penal em 
Princípios Constitucionais. Assim, se faz necessário um rompi-
mento da tradição positivista, em que a validade da norma se 
identifica com sua existência jurídica, em que reconhecimentos 
empíricos dar-se-iam somente com a forma.
Essa característica de aumento de tipos penais, eminen-
temente de perigo, diante dos riscos da sociedade com medi-
das de emergência que propõem não a proteção a bens jurídi-
cos, mas a “extirpação” de um mal, a diminuição ou forma de 
evitar um risco iminente por um criminoso não querido pela 
sociedade, é diretamente ligada à ideia de inimigo, como de-
monstrado. Essa ligação foi justificada por medidas coativas, 
que, em nome da segurança, retiram a liberdade e garantias 
individuais e são claramente incompatíveis com o direito pe-
nal de um Estado Democrático de Direito: “O Direito Penal 
democrático deve tratar todo homem como pessoa responsá-
vel, e não pode ser lícito nenhum ordenamento que estabeleça 
regras e procedimentos de negação objetiva da dignidade do 
ser humano, sob hipótese nenhuma”.(MUÑOZ CONDE cita-
do por GRÁCIA MARTÍN, 2007, p. 361).
Silva Sanchéz (2002), ao destacar que a nova criminalida-
de é econômica, e ao descrevê-la com as características mencio-
nadas, afirma que “o caminho é sem volta”, os tempos muda-
ram e, junto com eles tecnologia, internet, relações econômicas, 
influência midiática, o novo perfil do crime e do criminoso. A 
partir daí, explica que o direito penal na atualidade não pode-
ria operar de forma homogênea. A solução, por ele proposta, 
por isso, é diferente para cada espécie de crime, seria um pro-
cesso de diferenciação dos ritmos do direito penal, referentes à 
agilidade, desformalização e redução de garantias. 
O autor aponta um núcleo duro do direito penal, repre-
sentado pelas infrações para as quais se impõem penas pri-
vativas de liberdade. Nessas, exigem-se procedimentos mais 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
formais e garantistas, não se podendo falar de qualquer tipo 
de relativização. Por outro lado, surgem infrações penais, in-
clusive relacionadas com condutas até então somente punidas 
administrativamente, tratando ele do termo “administrativi-
zação” do direito penal, para as quais não se cogita, via de re-
gra, penas privativas de liberdade. É nesse espaço que o autor 
desenvolve um “Direito Penal de Segunda Velocidade” 57, o 
qual comportaria certa desformalização e redução de garan-
tias. (SILVA SÁNCHEZ, 2002, p. 144 – 147).
Também, haveria uma “terceira velocidade” do direito 
penal. Neste caso, tratar-se-ia de infrações penais graves, com 
previsão de penas privativas de liberdade rigorosas, mas, 
para as quais, mesmo assim, seria admitida uma desforma-
lização e sensível redução de garantias penais e processuais:
57 Silva Sánchez propõe um sistema que diferencia o Direito Penal em três 
grandes setores, que denomina “velocidades”, segundo a intensidade da 
rigidez dos princípios de garantia e das regras de imputação. A partir dessa 
afirmação, buscando delimitá-los, o autor espanhol propõe um sistema 
que diferencia o direito penal em três grandes setores, que denomina 
“velocidades”, segundo a intensidade da rigidez dos princípios de garantia 
e das regras de imputação garantistas.
 O primeiro setor é denominado “Direito penal nuclear” ou “Direito penal 
de primeira velocidade”, que, por se valer da pena privativa de liberdade 
como instrumento fundamental, deve ser formado por princípios 
garantísticos rígidos e imutáveis, como taxatividade, proporcionalidade, 
proteção de bens jurídicos, lesividade, ultima ratio, culpabilidade, grandes 
exigências probatórias. Também caracteriza essa denominação pelas 
rigorosas e tradicionais regras de atribuição da responsabilidade.
 O segundo âmbito é um “direito penal moderno” ou “direito penal de 
segunda velocidade”, que, por se valer de penas não privativas de liberdade 
(penas pecuniárias e restritivas de direito), se caracteriza pela relativização 
daqueles princípios de garantia e pela flexibilização controlada dos elementos 
de imputação da responsabilidade (responsabilização de pessoas jurídicas, 
ampliação dos critérios de autoria e da comissão por omissão, diminuição 
das exigências no campo das condições de evitabilidade do erro etc.). 
 Já a “terceira velocidade”, terceiro setor, está autorizado a considerar o 
delinquente como um verdadeiro inimigo e a deixar de observar praticamente 
por completo o regime de garantias individuais. Esse excepcional “direito 
penal do inimigo” ou “direito penal de terceira velocidade” tem sua atuação 
condicionada aos pressupostosde “emergência” e “transitoriedade” 
(criminalidade de Estado, terrorismo e criminalidade organizada). (SILVA 
SÁNCHEZ, 2002, p. 144-147).
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Daniela Villani Bonaccorsi
O conflito entre um direito penal amplo 
e flexível (convertido em um indesejável 
Soft Law e um Direito Penal mínimo e 
rígido – certamente impossível - deve 
achar assim uma solução no “ponto mé-
dio” da configuração dualista. Com efei-
to, não aparece que a sociedade atual es-
teja disposta a admitir um Direito Penal 
orientado ao paradigma do “Direito Pe-
nal Mínimo”. Mas isso não significa que a 
situação nos conduza a um modelo de Di-
reito Penal máximo. A função racionali-
zadora do Estado sobre a demanda social 
de punição pode dar lugar a um produto 
que seja, por um lado, funcional, e, por 
outro lado, suficientemente garantista. 
Assim, trata-se de salvaguardar o mode-
lo clássico de imputação e de princípios 
para o núcleo intangível dos delitos, aos 
quais se assinala uma pena de prisão. Em 
contrapartida, a propósito do Direito Pe-
nal econômico, por exemplo, caberia uma 
flexibilização controlada de regras de 
imputação (a saber, responsabilidade pe-
nal das pessoas jurídicas, ampliação dos 
critérios de autoria ou da comissão por 
omissão, dos requisitos de vencibilidade 
do erro etc.), como também dos princí-
pios político-criminais (por exemplo de 
legalidade, o mandado de determinação 
ou o princípio da culpabilidade). Tais 
princípios, efetivamente, são suscetíveis 
de uma acolhida gradual e, da mesma 
forma que se dá hoje entre o Direito Pe-
nal e o Direito Administrativo sanciona-
dor, não teriam por que ser integrados em 
idêntica medida nos dois níveis de Direi-
to Penal, com ou sem penas de prisão. 
(SILVA SÁNCHEZ, 2002, p. 145).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Assim, o autor assume a resposta à criminalidade econô-
mica moderna, aceitando que a expansão possa resultar em fle-
xibilização de regras de imputação e princípios, limitando tal 
entendimento a crimes que não resultem em pena de prisão.
Ocorre que um direito penal amparado no paradigma 
de um Estado Democrático de Direito, em que o processo é 
constitutivo de direitos e garantias fundamentais, não pode 
falar de flexibilização desses, seja nos casos de tutela a bens 
jurídicos supraindividuais ou quaisquer que sejam. A limi-
tação a direitos e garantias é inconcebível num direito penal 
garantista e num processo constitucional, não havendo como 
amparar a conclusão ora elencada.
Hassemer (2007), ao tratar da criminalidade da globali-
zação e da evidente proximidade com o direito administra-
tivo, elenca entendimento diverso. Sugere-se que interesses 
coletivos, como drogas ilícitas, crimes econômicos e meio 
ambiente equilibrado não sejam objeto do direito penal, mas 
entre esses dois ramos. Defende um direito penal nuclear, for-
mado por delitos de lesão (clássicos) e delitos supraindividu-
ais vinculados à pessoa, delimitados como crimes de perigo 
concreto, no qual há regras de imputação rígidas, princípios e 
garantias clássicos. (HASSEMER, 2007, p. 50).
Na visão do autor alemão, a utilização do direito penal 
como meio de transformação social, asseguramento do futuro 
da sociedade, segurança social, ofende manifestadamente os 
axiomas garantistas, deixando o direito penal de exercer a sua 
função de proteção a bens jurídicos fundamentais para execu-
tar funções promocionais, simbólicas, tornando-se o direito 
penal instrumento de política criminal. (HASSEMER, 1993a).
O direito penal deve ter a finalidade de tipificar con-
dutas individuais lesivas a bens jurídicos ou que lhe provo-
quem pelo menos perigo concreto de lesão, não lhe sendo 
cabível essa promoção de segurança das futuras gerações, 
diminuição de possíveis riscos ou do sentimento de medo. 
(HASSEMER, 1993a, p. 18).
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Daniela Villani Bonaccorsi
O autor discorre sobre sua forte oposição à extensão da 
tutela penal aos bens jurídicos supraindividuais e aos novos 
perigos decorrentes da denominada sociedade de risco, e, a 
partir daí, fala de um direito penal de intervenção:
É de grande significado que se afaste 
do direito penal os problemas que nos 
tempos atuais foram nele introduzidos. 
Poder-se-ia aconselhar, quanto àqueles 
problemas da sociedade moderna, que 
provocam a modernização do direito pe-
nal e o direito da contrariedade à ordem 
pública, entre o direito civil e o direito 
público, o qual dispõe, na verdade, de ga-
rantias e de regramentos processuais me-
nos exigentes do que o direito penal, mas 
que, em contrapartida, está equipado com 
sanções menos intensas diante do indiví-
duo. Um direito de natureza “moderna” 
não seria somente menos grave norma-
tivamente, ele seria também, de fato, 
mais adequado para recepcionar os pro-
blemas especiais da sociedade moderna. 
(HASSEMER, 2007, p. 53).
O direito de intervenção estaria entre o direito penal e o 
direito administrativo, aplicável pela Administração Pública e 
livre de rigorosas exigências principiológicas e de formalida-
des para atribuição de responsabilidade. Desta forma, o mesmo 
afasta a intervenção penal clássica restrita a um núcleo mínimo 
de proteção. O direito de intervenção seria uma alternativa de 
controle para a criminalidade moderna, sem previsão de penas 
privativas de liberdade e orientado pelo perigo abstrato:
(...) o Direito penal tem que abrir mão 
dessas partes modernas que examinei. 
O Direito penal deve voltar ao aspecto 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
central, ao Direito Penal formal, a um 
campo no qual pode funcionar que são 
os bens e direitos individuais, vida, li-
berdade, propriedade, integridade físi-
ca, enfim, direitos que podem ser des-
critos com precisão, cuja lesão pode ser 
objeto de um processo penal normal. (...) 
Acredito que é necessário pensarmos 
em um novo campo do direito penal 
que não aplique as pesadas sanções do 
Direito Penal, sobretudo as sanções de 
privação de liberdade e que, ao mesmo 
tempo, possa ter garantias menores. Eu 
vou chamá-lo de Direito de Intervenção. 
(HASSEMER, 1993a, p. 18).
O direito de intervenção reduz o campo de atuação do 
direito penal nesses novos riscos e consequente descrimina-
lização de condutas nas hipóteses daquelas que somente cau-
sem um perigo abstrato a bens jurídicos supraindividuais. “O 
direito de intervenção seria uma alternativa no controle da 
criminalidade moderna. Situado entre o direito penal e o di-
reito administrativo, com um nível de garantias individuais e 
novas formas procedimentais abreviadas, mas sem cominação 
de penas provativas de liberdade.” (MACHADO, 2005, p. 197).
Os crimes econômicos, resultado da mundialização eco-
nômica, de um novo perfil criminoso e de outras variações 
elencadas em capítulo próprio, são tipificados de formas va-
gas, imprecisas, punindo condutas até amparadas num âm-
bito administrativo. Também, de forma a amparar os anseios 
de uma sociedade de risco, essa nova cirminalidade possui 
um perfil de crimes eminentemente de perigos abstratos, que 
visam à proteção a bens jurídicos supraindividuais.
Concorda-se com a visão de Hassemer no que tange a 
medidas administrativas quanto às condutas que trazem 
perigo abstrato à ordem econômica, não justificando essas 
| 94 |
Daniela Villani Bonaccorsi
serem objeto do direito penal. Se o criminoso do colarinho 
branco pratica o crime com a intenção de lucro, atingir essa 
lucratividade e o ganho econômico torna a sanção mais efi-
ciente. Para o criminoso de colarinho branco, efeitos de pena, 
como primariedade e bons antecedentes, ou substituições por 
restritivas de direitos, já que são crimes sem violência, não 
geram efeitos de forma a prevenir outros crimes. Ao empresá-
rio muitas vezes os mencionados efeitos em nada alteram sua 
atividade laboral e vida social.
Na solução elencada por Hassemer, mesmo ao Direitode 
Intervenção a partir de um Direito Administrativo Sanciona-
dor importam garantias de natureza penal e processual penal 
para seu bojo. A simples alegação da flexibilização das garan-
tias em função do caráter contingencial do Direito Penal Eco-
nômico não atende à estrutura de um Estado Democrático de 
Direito (CR/88, Art. 1º), seja com urgências de medidas, seja 
em relação ao criminoso do colarinho branco.
O direito penal só deve intervir nos casos de comprovado 
risco concreto ao bem jurídico como forma de garantir a ob-
servância de princípios garantistas como intervenção mínima 
e lesividade e a proteção de direitos e garantias fundamentais 
de segurança jurídica. Utilizar o direito penal como controle 
de riscos sociais limitando e flexibilizando direitos e garantias 
é torná-lo sinônimo de um enfrentamento simbólico a riscos e 
retirar-lhe os efeitos de proteção a bens jurídicos e trazer não 
a tão sonhada “paz social” e escopos metajurídicos, mas uma 
verdadeira ofensa a um Estado Democrático de Direito. 
| 97 |
2. O Crime de Lavagem de Dinheiro
Como crime e pecado passam a ser 
sinônimos, o processo é imaginado e 
posto em prática como um mecanismo 
terapêutico capaz de, pela punição, absolver” 
(Jacinto de Miranda Coutinho)
A globalização, com as mudanças nos fluxos comerciais 
e financeiros, facilidade em transporte e telecomunicações, ou 
seja, a proximidade econômica e cultural, foi resultado de es-
forços para a redução de barreiras comerciais e financeiras, de 
forma a buscar velocidade e segurança nas transações.
A internacionalização do setor financeiro trouxe aspec-
tos positivos na celeridade das operações, mas também aper-
feiçoou os meios de execução e expansão da lavagem de ca-
pitais. “o pano de fundo desta nova realidade e a integração, 
globalização e abertura do sistema econômico e financeiro 
global, torna extremamente fácil a movimentação internacio-
nal de fundos, mas também a dissimulação da sua verdadeira 
origem.” (GODINHO, 2004, p. 252). 
Ao mesmo tempo em que a globalização permitiu o cres-
cimento econômico, facilitou a internacionalização do crime, 
exigindo novos mecanismos de controle e novas incriminações.
Como reflexo desse contexto histórico, a já mencionada 
criminalidade econômica caracteriza-se por crimes que geram 
valores vultosos em seu resultado. A partir daí, percebeu-se a 
problemática de controle desses valores provenientes de crime. 
Ou seja, passou-se a perceber que o criminoso não só se in-
teressava pelo valor originário como em dissimular, ocultar a 
origem ilícita e, dessa forma, garantir a livre e impune fruição 
com o bem ou valor, com aparência de lícito. Diante do men-
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Daniela Villani Bonaccorsi
cionado contexto, da noção do crime de lavagem de dinheiro e 
do conceito amplo utilizado no bem jurídico ordem econômica, 
entende-se o mencionado crime como crime econômico.
Em relação à referida movimentação e ocultação de valores, 
originariamente do tráfico ilícito de entorpecentes, a resposta 
veio nos anos 80 com a Convenção das Nações Unidas contra o 
tráfico de drogas (Convenção de Viena). A Convenção de 1988 é 
marco para o crime de lavagem de dinheiro; não obstante outras 
medidas já terem sido buscadas, foi o primeiro documentos a 
propor a tipificação do crime de lavagem de dinheiro. 
A partir daí, a prevenção e o combate ao crime de lava-
gem de dinheiro tomaram nova proporção. Partiu-se da busca 
de controle uníssono junto a instituições financeiras dos paí-
ses que fizeram parte à busca de novas formas de cooperação 
jurídica e financeira internacional.
A ideia foi, já que a grande maioria dos crimes ocorre por 
interesse econômico, impedir ou dificultar o acesso a esse lucro, 
que seria uma forma de desestimular o agente. Uma vez que o 
agente do crime de lavagem de dinheiro, para buscar a aparência 
de licitude, diante do grande volume, fatalmente teria que partir 
para setores normais da economia e inserir os valores no sistema 
financeiro, uma maior rigidez no sistema seria ponto de partida.
Assim, como a presente tese possui como pano de fundo 
a globalização, a sociedade de risco e seus reflexos socioeconô-
micos e jurídicos, de forma a abranger a criminalidade econô-
mica, é nesse contexto que se pretende uma análise e crítica do 
crime de lavagem de dinheiro. Ainda, a conceituação do bem 
jurídico ordem econômica permitirá uma análise da natureza 
do crime de lavagem de dinheiro, sendo imprescindível a com-
preensão da origem, do conceito e da natureza do bem jurídico.
Diante do reflexo que trouxe para a legislação brasileira, 
tratar-se-á dessa origem do crime de lavagem de dinheiro na 
Itália e Estados Unidos. As abordagens no direito estrangeiro 
serão na conceituação, tipificação e relação com o crime de 
receptação, pontos relevantes para a presente pesquisa.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Assim, não se pretende esgotar a análise do crime de lava-
gem de dinheiro. Sem dúvida, pela sua atualidade, alterações 
legislativas e complexidade do tipo penal trazem inúmeras 
abordagens, mas serão tratados os pontos que se entende ne-
cessários para a análise da sua incriminação e dos problemas 
de imputação, que trarão reflexo também no âmbito processual.
2. 1 A origem do termo: 
As “Brigadas Vermelhas” e “Al Capone”
O contexto histórico do crime de lavagem de dinheiro é 
imprescindível para a compreensão do tema, uma vez que é 
clara a proximidade do conceito já utilizado nas legislações 
precedentes, como da Itália e dos Estados Unidos.
A titulo de ilustração, é interessante mencionar que o 
processo utilizado na lavagem de dinheiro remonta desde o 
século XVII (LILLEY, 2001), período em que a pirataria era fre-
quente e demandava altos custos. 
A tripulação necessitava de alimentação, pagamento, 
subsistência, manutenção do navio e munição. Grande parte 
da mercadoria era proveniente de roubo, e o exemplo de lava-
gem de dinheiro na pirataria seria na hipótese de os piratas 
colocarem o lote de mercadorias roubadas, como ouro, pra-
ta, para venda a americanos de boa reputação, e ser trocado 
por valores pequenos. Em seguida, por valores menores, as 
mercadorias seriam aceitas ou trocadas, possibilitando que os 
agentes arcassem com os gastos necessários. Da mesma for-
ma, sem os produtos dos roubos, como ouro e prata, evitava-
-se a perda com saques em navios.
Do ponto de vista histórico, “a receptação é o primeiro 
delito cuja objetividade jurídica se aproxima do que atual-
mente constitui escopo prescípuo para a incriminação de la-
vagem de dinheiro”. (TIGRE MAIA, 1999, p. 22). 
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Daniela Villani Bonaccorsi
No mesmo sentido, Nelson Jobim, em seminário sobre a la-
vagem de dinheiro, explicou que essa mudança de estado de valor, 
de “sujo” para “limpo”, somente existia na legislação do Brasil no 
crime de receptação, no qual o autor do crime contra o patrimônio, 
visando distanciar-se do produto direito e garantir a impunidade 
e a manutenção da res, vende, distribui, troca, por exemplo, com o 
receptador. Mas destacou que, diante do aperfeiçoamento de téc-
nicas para ocultação e meios de execução cada vez mais comple-
xos, acabou por impedir que o crime de receptação pudesse ser 
aplicável a essas novas condutas. (JOBIM, 1999, p. 18).
Em relação à terminologia e tipificação, Itália e Estados 
Unidos foram os precursores da lei e influenciaram de forma 
direta a conceituação hoje utilizada no Brasil.
Na Itália, o crime foi difundido pela ação da máfia, e o 
“riciclaggio” consistiria no complexo de meios através dos quais 
se oculta a existência, a fonte ilegal ou a utilização ilícita de 
rendimentos, transformados para terem a aparência de lícitos. 
Desde 197858, na legislação italiana, a tentativa de combate à 
ocultação e dissimulação de valores obtidos pela prática de cri-
mes, de forma bastante restrita, abrangeu condutas referentes 
à substituição de dinheiro,bens e outros valores, constituídos 
de crimes de receptação por outros bens. Passou a se configu-
rar conduta típica diante da dificuldade e obstáculo imposto na 
identificação da origem daqueles bens. (SILVA, 2001, p. 34) 
A tipificacao na Itália foi anterior aos Estados Unidos e 
teve abrangência mais limitada, pois surgiu em razão da atua-
ção de grupos mafiosos e das Brigadas Vermelhas em seques-
58 (art. 3 del d.l. 21 marzo 1978 n. 59, convertito in l. 18 maggio 1978 n. 191 in 
articolo 648 bis – “Articolo 648 bis. Riciclaggio. Fuori dei casi di concorso nel reato, 
chiunque sostituisce denaro, beni o altre utilità provenienti dai delitti di rapina 
aggravata, di estorsione aggravata, di sequestro di persona a scopo di estorsione o dai 
delitti concernenti la produzione o il traffico di sostanze stupefacenti o psicotrope, 
con altro denaro, altri beni o altre utilità, ovvero ostacola l’identificazione della loro 
provenienza dai delitti suddetti, è punito con la reclusione da quattro a dodici anni 
e con la multa da lire due milioni a lire trenta milioni. La pena è aumentata quando 
il fatto è commesso nell’esercizio di un’attività professionale”. (ITÁLIA, 2011).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
tros com fim pecuniário (CAPARROS, 1998, p. 51). De acordo 
com Cervini (1998), as Brigadas Vermelhas, importante grupo 
armado italiano, de origem ideológica no marxismo-leninis-
mo, desencadearam uma verdadeira onda de sequestros para 
desarticular o poder político estatal. 
Após uma série de sequestros praticados em geral por 
mafiosos, as Brigadas sequestraram em 16 de março de 1978 o 
político Aldo Moro, influente democrata cristão, considerado 
à época o próximo presidente da Itália (CERVINI, 1998, p. 186).
Como reação à comoção social gerada por esse e outros 
sequestros, editou-se o Decreto-Lei n. 59 de 21.03.78, que in-
troduziu o art. 648, bis. Esse artigo incriminava a substituição 
por dinheiro ou por valores econômicos de produtos prove-
nientes de roubo qualificado, extorsão qualificada e extorsão 
mediante sequestro:
O Governo italiano editou o Decreto-lei 
nº 59, de 21 de Marco de 1978, que intro-
duziu, no Código Penal Italiano, o artigo 
648 bis. Esse artigo incriminou a substi-
tuição de dinheiro ou valores provenien-
tes de roubo qualificado, extorsão qualifi-
cada ou extorsão mediante sequestro por 
outros valores ou dinheiro. Nove dias 
após o assassinato de Moro [Aldo Moro, 
influente político, considerado à época 
como o próximo presidente da Itália, se-
questrado pelas Brigadas Vermelhas], 
ocorrido em 9 de maio daquele ano, o de-
creto foi convertido em lei, com alterações 
(através da lei . 191, de 18 de maio de 1978) 
sem que houvesse, entretanto, modifica-
ção no texto do art. 3 (que criou o 648 bis). 
(DE CARLI, 2008, p. 79).
| 102 |
Daniela Villani Bonaccorsi
Diante da previsão de modificação do dinheiro, funda-
menta a lei italiana a ideia originária de lavagem de dinheiro.
Importante é traçar a origem do crime nos Estados Uni-
dos, uma vez que influenciou sobremaneira nossa legislação. 
A forma originária de disfarce de valores ilícitos e até mes-
mo a denominação “lavagem” veio exatamente de “lavanderias”. 
As máfias se utilizavam de lavanderias e locais de lava-
gem de automóveis, simulando que esses estabelecimentos 
lucravam valores exorbitantes, justificando assim o dinheiro 
gasto por ela: ao “lavarem” cinco mudas de roupas, a máfia 
declarava cinquenta. 
Nos Estados Unidos, os motivos que levaram à criminali-
zação da lavagem já tem origem no início do século XX, quando 
das primeiras aparições de grupos que podem ser considera-
dos organizações criminosas, especialmente as máfias. 
Segundo Tigre Maia (1999, p. 26), durante o período em 
que vigorava no país a chamada “Lei Seca”, que proibia a fa-
bricação e comercialização de bebidas alcoólicas, surgiu um 
mercado ilegal de fornecimento de bebidas que movimenta-
va milhões de dólares através da exploração de diversas or-
ganizações criminosas. Essas organizações movimentavam 
milhões, corrompendo fiscais, controlando o mercado ilegal e 
inserindo o lucro em outras indústrias. 
Ocorre que a lucratividade era tal que já não era suficien-
te o tratamento e literalmente a “guarda” do dinheiro de for-
ma clandestina. Essa lucratividade passou a demandar servi-
ços legais, como bancos para inserção dos valores, seguranças 
armados para embarcações, compra de rótulos, garrafas e for-
necedores de matéria-prima, por exemplo. 
Assim, no final da década de 1920, em meio a esse cenário, 
o famoso Al Capone assume o controle do crime organizado na 
cidade de Chicago, gerando grande fortuna com a comerciali-
zação de bebidas e movimentação desses valores. Mas, com-
provando a necessidade de inserção do lucro do tráfico de be-
bidas em setores legais, com os depósitos de valores, o cerco se 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
fechou. Em 1931, Al Capone foi preso por sonegação de impos-
tos, após grande mobilização das autoridades americanas. Pela 
falha de não lavar os rendimentos, terminou a sua carreira.
Como se percebe, o crime passou a ser um grande ne-
gócio nos Estados Unidos e fez surgir uma verdadeira elite 
econômica composta pelas pessoas ligadas ao crime, pelos 
membros da máfia. 
Com a grande depressão, pode-se falar de crise bancária, 
corte em linhas de credito, dificuldade de obtenção de emprés-
timos, mas as empresas continuavam precisando de dinheiro. 
Diante das dificuldades de obtenção de empréstimos, foram 
muito bem-vindas as fortunas acumuladas pela máfia. Muitas 
empresas legítimas se uniram a pessoas ligadas ao crime. Gran-
de exemplo dessa situação foi a criação do “Sindicato Nacional 
do Crime” (U.S. National Crime Sindicate – NCS), antes já criado 
por Al Capone, que foi uma verdadeira organização que prote-
gia seus líderes contra a competição, regularizava a obtenção de 
fundos e circulação de dinheiro, a fim de obter proteção política 
e literalmente “tributar” os chefes regionais do crime, de acordo 
com suas possibilidades de pagamento. (JORDAN, 1999, p. 88). 
Em 1933, revogada a proibição da comercialização de be-
bidas, o crime organizado se voltou para a exploração do jogo 
e tráfico de substâncias entorpecentes, a fim de buscar novas 
alternativas de negócio. Acredita-se que o termo lavagem 
surgiu, a partir daí, para caracterizar uma rede de lavande-
rias que tinha por objetivo facilitar a colocação em circulação 
do dinheiro oriundo de atividades ilícitas, conferindo-lhe a 
aparência de lícito (CASTELLAR, 2004), pois as quadrilhas 
aprenderam com a experiência de Al Capone. Mas o lucro 
da exploração dos jogos e do tráfico de drogas foi tal que o 
uso de lavanderias ou lavagem de automóveis – simulando 
lucros maiores que os verdadeiros, ou mesmo de fachada, os 
negócios baseados no uso de dinheiro vivo (cash) –, já não era 
suficiente para circular o dinheiro ilícito ganho, e o simples 
depósito bancário também não subsistia com a maior rigidez 
conferida às regras para depósito.
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Daniela Villani Bonaccorsi
A máfia passou a necessitar de um sistema financeiro pró-
prio, e a mudança nas operações foi atribuída a Meyer Lansky, 
em parceria com Salvatore Lucky Luciano. Lansky ficou fa-
moso como a pessoa que emprestou a Bugsy Siegel o dinheiro 
para criar estabelecimentos de jogo em Las Vegas; posterior-
mente perceberam, como hoje, que os cassinos seriam uma boa 
oportunidade de disfarçar valores de procedência ilícita. 
Ao assumirem o controle do tráfico, verificaram a viabi-
lidade de ocultar ativos ilegais, passando a efetivar depósito 
em bancos localizados em outros países, com regulamentação 
financeira mais flexível. E, em 1932, a Suíça era um dos pri-
meiros destinos escolhidos, o que deu origem à invenção dos 
offshore. (JORDAN, 1996, p. 103).
A operaçãode Lansky trouxe a técnica do loan black, tra-
duzindo-se literalmente: um empréstimo de volta. Esse proces-
so funcionava da seguinte forma: havia um primeiro estágio, 
que envolvia a movimentação dos fundos para fora dos Esta-
dos Unidos com o transporte de valores pecuniários (courriers 
cash), traveler’s check ou cashier’s check (pagáveis ao portador), 
por exemplo. Quando o dinheiro chegava ao exterior, os valo-
res eram depositados em contas secretas. Em seguida, com o 
dinheiro escondido com o sigilo bancário dos bancos Suíços, já 
era possível o retorno do dinheiro com a aparência de lícito. O 
dinheiro era “emprestado”, seja por uma companhia anônima 
que possuía um único proprietário desconhecido ou direta-
mente do banco suíço, tudo com declaração regular ao fisco e 
pagamento de juros. (NAYLOR, 2002, p. 46).
Os lucros com o jogo cresceram ainda mais com a au-
torização em 1931 e a abertura de inúmeras casas de apostas 
pela máfia, e crescia o tráfico ilícito de entorpecentes com o 
aumento de utilização na Europa de cocaína, heroína.
O crescimento do tráfico de drogas fez com que o Estado 
buscasse medidas para sua contenção. (STRANGE, 1999, p. 113). 
Assim, os Estados Unidos foram um dos primeiros pa-
íses a agir contra a lavagem de dinheiro internacional e im-
puseram uma série de normas para controlar esse problema.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Pode-se mencionar, dentre as normas preventivas, a Lei 
de Sigilo Bancário (Bank Secrecy Act) de 1970, a qual passou 
a exigir medidas legais de bancos e de outras instituições 
financeiras, obrigando-as a informar transações com valores 
superiores a U$ 10.000 (dez mil dólares), de forma a tentar 
buscar os rastros dos valores a serem lavados. Porém, a apli-
cação foi inefetiva, pois as transações passaram a ser feitas 
com valores um pouco inferiores, ou seja, sem registros, sem 
informações. (STRANGE, 1999, p. 114).
Outras medidas que também podem ser citadas é a Lei 
de Controle de Lavagem de Dinheiro (Money Laudering Con-
trol Act) de 1986, sancionada por Ronald Reagan. Na mencio-
nada Lei, dentre as medidas adotadas, havia o money launde-
ring control, medida que incluiu os dispositivos que preveem 
a lavagem de dinheiro, ainda mantidos atualmente.
 A lavagem de dinheiro foi transformada em crime, e as 
agências de repressão ao crime ganharam autoridade para apre-
ender bens criminais e apresentar processos para seu confisco.
Ainda, a Lei Contra o Abuso de Drogas (Anti Drug Abuse 
Act) de 1988; a Seção 2532 da Lei de Controle do Crime (Crime 
Control At) de 1990; a Seção 206 da Lei Federal de Aperfeiço-
amento Corporativo dos Seguros em Depósito (Federal Deposit 
Insurance Corporation Improvement At) de 1991; o Parágrafo XV da 
Lei de Desenvolvimento Habitacional e Comunitário (Housing 
and Community Development At) de 1992, chamada de Lei Annun-
zio-Wylie Contra a Lavagem de Dinheiro. (LILLEY, 2001, p. 200).
Diante da grande preocupação do caminho percorrido 
pelos valores obtidos na prática de tráfico ilícito de entorpe-
centes, jogo clandestino e sua repercussão econômica, finan-
ceira e tributária, passa-se a discutir a tipificação e tratamento 
igualitário, entre outros países, dos processos de ocultação e 
dissimulação de valores obtidos pela prática de crimes.
A tipificação e o tratamento igualitário entre vários paí-
ses se deu com a Convenção das Nações Unidas de Viena de 
1988, que teve como finalidade específica justamente o com-
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Daniela Villani Bonaccorsi
bate ao tráfico de entorpecentes e substâncias psicotrópicas, 
podendo ser considerado o principal marco legal. Vale ilus-
trar que houve diplomas anteriores, como a Convenção Úni-
ca da ONU sobre entorpecentes, de 1961, e o Convênio sobre 
substâncias psicotrópicas de 1971, que já faziam referência 
à punição de condutas semelhantes às que são previstas na 
Convenção de Viena de 1988 (STRANGE, 1999), apesar de não 
terem feito menção específica à tipificação de condutas que 
poderiam ser consideradas Lavagem de Dinheiro.
2.2 A tipificação e conceituação do 
crime de Lavagem de Dinheiro 
em legislações estrangeiras
A tipificação do crime de lavagem de dinheiro foi um 
fenômeno mundial. Desde a Convenção de Viena, de 1988, 
que propôs a incriminação dessa conduta, inúmeros países 
tiveram sua legislação alterada. 
Com efeito, diante da peculiaridade de cada legislação, in-
teressante é a análise de legislações estrangeiras, partindo-se 
da lei originária americana e analisando-se a legislação refe-
rente ao crime de lavagem de dinheiro, na Alemanha, Espanha, 
França e Portugal, diante da proximidade de influências que 
trouxeram a lei originária brasileira e a nova Lei nº 12.683/12.
Desde a tipificação do crime nos Estados Unidos, a primeira 
manifestação de uma entidade internacional em relação à lava-
gem de dinheiro foi em 1980, em uma recomendação do Con-
selho da Europa. Ainda não havia previsão do crime de forma 
autônoma, como se destacará na Convenção de Viena, mas refe-
rente às medidas a serem tomadas quanto a transferência e ocul-
tação de capitais de origem criminosa. (GALVÃO, 1999, p. 53).
 Em 1988, surge a Declaração de Basiléia, chamada de 
“Grupo dos Dez”, na qual se consagrou uma regra básica: 
“know your customer”, que serve hoje para definir a origem de 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
valores recebidos em negócios jurídicos vinculados a profis-
sionais liberais. Essa diretriz determinava a necessidade de o 
profissional conhecer a origem dos valores recebidos, de for-
ma a evitar a movimentação de valores clandestinos. A reu-
nião foi realizada no dia 12 de dezembro de 1988, destinada 
ao setor financeiro internacional.(MENDRONI, 2006, p.16). 
A Declaração foi apresentada como uma série de princípios, 
mas despida de qualquer obrigação legal. Nessa reunião, foram 
elaboradas algumas regras com o objetivo de impedir e prevenir 
o uso das transações bancárias nos processos de lavagem, como: 
“visão gerencial e formação de uma cultura de controle; avalia-
ção e risco; efetivação das atividades de controle; avaliação dos 
sistemas de controles internos”. (MENDRONI, 2006, p.16). 
Com efeito, foi a partir da Convenção de Viena que surgi-
ram as primeiras legislações sobre Lavagem de Dinheiro, consi-
derando essa prática vinculada ao tráfico ilícito de entorpecen-
tes59. A lavagem de dinheiro aparece como forma de descapita-
lizar a indústria do tráfico e dificultar seu desenvolvimento e o 
fortalecimento de organizações criminosas. (OLIVEIRA, 1999). 
59 As delegações dos seguintes 106 estados participaram da Conferência: 
Afeganistão, Albânia, Argélia, Argentina, Austrália, Áustria, Bahamas, 
Bahrein, Bangladesh, Barbados, Bélgica, Bolívia, Botswana, Brasil, Bulgária, 
Birmânia, da Bielo-Rússia Socialista Soviética República, Camarões, 
Canadá, Cabo Verde, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Costa do Marfim, 
Cuba, Chipre, Checoslováquia, Dinamarca, República Dominicana, 
Equador, Egito, Etiópia, Finlândia, França, República Democrática Alemã, 
a Alemanha, República Federal da, Gana, Grécia, Guatemala, Guiné, 
Santa Sé, Honduras, Hungria, Índia, Indonésia, Irã (República Islâmica 
do), Iraque, Irlanda, Israel, Itália, Jamaica, Japão, Jordânia, Quênia, Kuwait, 
Líbia, Luxemburgo, Madagascar, Malásia, Malta, Mauritânia, Maurícias, 
México, Mônaco, Marrocos, Nepal, Holanda, Nova Zelândia, Nicarágua, 
Nigéria, Noruega, Omã, Paquistão, Panamá, Papua Nova Guiné, Paraguai, 
Peru, Filipinas, Polônia, Portugal, Qatar, República da Coreia, Arábia 
Saudita, Senegal, espanham Sri Lanca, Sudão Suriname, Suécia, Suíça, 
Tailândia, Tunísia, Turquia, Socialista Soviética da Ucrânia República, 
a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Emirados Árabes Unidos, 
Reino Unido da Grã Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, República Unida 
da Tanzânia,Estados Unidos da América, Uruguai, Venezuela, Vietnã, 
Iêmen, Iugoslávia e Zaire. (MENDRONI, 2006, p.16).
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Daniela Villani Bonaccorsi
A Convenção de Viena, de 1988, cuja finalidade primordial 
era promover a cooperação internacional nas hipóteses de tráfico 
ilícito de entorpecentes e delitos graves, foi a primeira a prever o 
crime de lavagem de dinheiro (art. 3)60 como forma de descapitali-
zar o criminoso e, indiretamente, desencorajar a prática de crimes. 
60 “ARTIGO 3
 Delitos e Sanções
 1. Cada uma das Partes adotará as medidas necessárias para caracterizar como 
delitos penais em seu direito interno, quando cometidos internacionalmente:
 a) I - a produção, a fabricação, a extração, a preparação, a oferta , a oferta para 
venda, a distribuição, a venda, a entrega em quaisquer condições, a corretagem, 
o envio, o envio em trânsito, o transporte, a importação ou a exportação de 
qualquer entorpecente ou substância psicotrópica, contra o disposto na 
Convenção de 1961, em sua forma emendada, ou na Convenção de 1971;
 II - o cultivo de sementes de ópio, do arbusto da coca ou da planta de 
cannabis, com o objetivo de produzir entorpecentes, contra o disposto na 
Convenção de 1961 em sua forma emendada;
 III - a posse ou aquisição de qualquer entorpecente ou substância psicotrópica 
com o objetivo de realizar qualquer uma das atividades enumeradas no 
itemI - acima;
 IV - a fabricação, o transporte ou a distribuição de equipamento, material 
ou das substâncias enumeradas no Quadro I e no Quadro II, sabendo 
que serão utilizados para o cultivo, a produção ou a fabricação ilícita de 
entorpecentes ou substâncias psicotrópicas;
 V - a organização, a gestão ou o financiamento de um dos delitos enumerados 
nos itens I - II - ,III - ou IV ); b) I - a conversão ou a transferencia de bens, 
com conhecimento de que tais bens são procedentes de alguns dos delitos 
estabelecidos no inciso a) deste parágrafo, ou da prática do delito ou delitos 
em questão, com o objetivo de ocultar ou encobrir a origem ilícita dos bens, ou 
de ajudar a qualquer pessoa que participe na prática do delito ou delitos em 
questão, para fugir das consequências jurídicas de seus atos. II - a ocultação ou 
o encobrimento, da natureza, origem, localização, destino, movimentação ou 
propriedade verdadeira dos bens, sabendo que procedem de algum ou alguns 
dos delitos mencionados no inciso a) deste parágrafo ou de participação no 
delito ou delitos em questão; c) de acordo com seus princípios constitucionais 
e com os conceitos fundamentais de seu ordenamento jurídico;
 I - a aquisição, posse ou utilização de bens, tendo conhecimento, no 
momento em que os recebe, de tais bens procedem de algum ou alguns 
delitos mencionados no inciso a) deste parágrafo ou de ato de participação 
no delito ou delitos em questão;
 II - a posse de equipamentos ou materiais ou substâncias, enumeradas 
no Quadro I e no Quadro II. tendo conhecimento prévio de que são 
utilizados, ou serão utilizados, no cultivo, produção ou fabricação ilícitos 
de entorpecentes ou de substâncias psicotrópicas;
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A incriminação da lavagem de dinheiro levava em consi-
deração a gravidade do crime antecedente e visava à repressão 
ao tráfico de substâncias entorpecentes e a sua prevenção, di-
retamente. O tráfico foi considerado um delito com efeitos di-
retos, no caso a propalação da própria distribuição de drogas, 
e indiretos, a movimentação do lucro proveniente do crime e o 
fortalecimento de organizações criminosas, que se espalharam 
rapidamente pelo mundo. (TIGRE MAIA,1999, p. 35).
A Convenção de Viena, como primeiro estágio para a in-
criminação da lavagem de dinheiro, teve como ponto princi-
pal o combate ao tráfico de drogas e o lucro proveniente desse, 
já que passou a ser desenvolvido e praticado de forma trans-
nacional e fortalecendo organizações criminosas. Diante da 
propalação do tráfico, justificou-se tratar não só de um caso 
de saúde pública, de acordo com a Conferência, mas de prote-
ção a outros bens jurídicos por envolver condutas como “cri-
me organizado, conspiração, suborno, corrupção, intimidação 
de funcionários, violações da legislação bancária, transferên-
cias ilegais de dinheiro, violações das normas concernentes a 
importação e exportação (...)”.(BRASIL, 1991).
Ao propor a incriminação das formas de tráfico e de lava-
gem de dinheiro, sugere-se formas de descapitalizar o tráfico e 
controlar a movimentação do lucro, com maior rigidez do siste-
ma financeiro, confisco de bens, extradição de autores do crime. 
Assim, o objeto principal não foi a lavagem de dinhei-
ro em si, mas buscar formas de enfrentar o tráfico e o crime 
organizado. A incriminação do crime de lavagem seria uma 
maneira de se evitar o fortalecimento econômico de organi-
 III - instigar ou induzir publicamente outrem, por qualquer meio, a cometer 
alguns dos delitos mencionados neste artigo ou a utilizar ilicitamente 
entorpecentes ou substâncias psicotrópicas;
 IV - a participação em qualquer dos delitos mencionados neste artigo, a 
associação e a confabulação para cometê-los, a tentativa de cometê-los e 
a assistência, a incitação, a facilitação ou o assessoramento para a prática 
do delito.” (BRASIL, 1991).
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Daniela Villani Bonaccorsi
zações criminosas, tendo como objetivo dificultar condições 
para práticas reiteradas do crime. 
É importante explicar que, em 1989, nasceu o GAFI 
(Grupo de Ação Financeira), para tentar organizar, articular 
e definir formas de aplicação da Convenção de Viena para a 
luta contra a lavagem de dinheiro. 
O GAFI, formado inicialmente pelos membros do G-7, 
os sete países mais industrializados, e, em seguida, por mais 
oito países da Comissão da Comunidade Europeia, em 1990 
já estava com 26 países membros. Vale mencionar que, em 
1989, o GAFI publicou “40 recomendações contra a lavagem 
de dinheiro, aceitas como ponto de partida essencial na luta 
contra a lavagem”. (TIGRE MAIA, 1999, p. 69) . 
A estratégia do GAFI foi alargar o número de seus mem-
bros para países estratégicos, como Brasil, Argentina e Méxi-
co e, em paralelo, estimular a criação de organismos interna-
cionais. (GALVÃO, 1999, p. 53/57).
Em 1990, surge a Convenção do Conselho da Europa, 
abrangendo as questões de apreensão de bens provenientes 
de lavagem de dinheiro. 
Ainda, em relação às medidas contra a lavagem de di-
nheiro, a Organização dos Estados Americanos (OEA)61 esta-
beleceu a estipulação do regulamento modelo sobre lavagem 
de dinheiro, correlacionando o tráfico ilícito de entorpecen-
tes. (MENDRONI, 2006, p. 17).
Posteriormente, na cidade de Santiago no Chile, foi reali-
zada a segunda Cúpula das Américas (MENDRONI, 2006, p. 
17), na qual “aprovou-se então um sistema de avaliação mul-
61 OEA – Aspectos gerais. Disponível em: . Acesso em: 03/04/09. “A Organização dos Estados 
Americanos (OEA) aproxima as nações do Hemisfério Ocidental com vistas a 
fortalecer mutuamente os Valores Democráticos, defender interesses comuns e 
debater um grande número de temas regionais e mundiais. A OEA é o principal 
Fórum Multilateral do Hemisfério para o fortalecimento da Democracia, bem 
como para a Promoção dos Direitos Humanos e para a discussão de problemas 
comuns, tais como Pobreza, Terrorismo, Drogas e Corrupção.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
tilateral para temas relacionados ao tráfico ilícito de estupefa-
cientes e delitos conexos, entre os quais a lavagem de dinheiro.” 
A OEA criou a Comissão Internacional do Abuso de Drogas 
(CICAD) – Comissão Internacional do Abuso de Drogas – órgão 
criado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) com a 
finalidade de criar e implementar planos e estratégias eficazes 
de combate ao narcotráfico. Através delaelaborou mecanismos 
para combater o tráfico de drogas e os crimes ligados a ele, den-
tre os quais a lavagem de dinheiro. (TIGRE MAIA,1999, p. 35).
Desde o ano de 1992, nas Bahamas, a Assembleia Geral 
da OEA editou e aprovou o “Regulamento Modelo sobre Deli-
tos de Lavagem, relacionados com o Tráfico Ilícito de Drogas e 
outros Delitos Graves” 62. (CLEMENTINO, 2005, p. 35).
A tipificação do delito de lavagem de dinheiro, defendi-
da e proposta desde a Convenção de Viena, gerou inúmeras 
medidas de prevenção e controle, que abrangiam o dinheiro 
oriundo exclusivamente do narcotráfico. As legislações que uti-
lizavam o crime de tráfico de entorpecentes como crime prece-
dente vieram a se denominar legislação de primeira geração. 
Diante da necessidade de tratamento diverso para delitos ti-
dos como graves, e da utilização de outras técnicas pelos narcotra-
ficantes, aparecem as leis de lavagem de dinheiro de segunda ge-
ração, que passaram a contemplar um rol de crimes precedentes. 
A legislação tida como de terceira geração desvincula o 
crime de lavagem de dinheiro a crime anterior específico, esta-
belecendo a lavagem de dinheiro como a ocultação/dissimula-
ção sem qualquer delito específico. (MENDRONI, 2006, p. 36).
Assim, percebe-se que a incriminação da conduta de 
lavagem de dinehiro foi um movimento de inúmeros países 
62 Regulamento Modelo sobre delitos de lavagem de dinheiro relacionados 
com o tráfico ilícito de entorpecentes, cuidando, no seu artigo segundo, de 
definir quais seriam os comportamentos ensejadores de incriminação, o que 
ensejou a promulgação de diversas legislações na América Latina, como na 
Colômbia (Lei n° 333, 1996), Chile (Lei 19.366/95), Paraguai (Lei 1.015/97) e 
Venezuela, sendo que na Argentina, Equador, México e Peru, já existiam leis 
sobre Lavagem de Dinheiro antes da aprovação do Regulamento Modelo das 
Bahamas, mas posteriores à Convenção de Viena. (CLEMENTINO, 2005). 
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Daniela Villani Bonaccorsi
aderidos aos GAFI, passando a tipificar de forma autônoma a 
conduta e a buscar formas preventivas. 
A partir da proposta da Convenção de Viena, das 40 reco-
mendações do GAFI e os mencionados documentos de preven-
ção, uma série de países atenderam à proposta transnacional. 
Há países que tratam de forma diversa a lavagem de di-
nheiro. De acordo com Tigre Maia (1999, p. 69), de forma geral, 
nos países de tradição romano germânica, a lavagem de dinhei-
ro “via de regra, alicerça-se nos tipos penais de receptação e 
favorecimento real”. A legislação de alguns países fundamenta 
de forma diversa a capitulação do crime de lavagem de dinhei-
ro, como França, Portugal e Espanha, que seguem a ideia da 
inserção dos valores ilícitos na ordem econômica, focando-se 
no resultado do crime. Estados Unidos e Itália se preocupam 
com o processo de tornar limpo o dinheiro sujo, com a ação 
empregada pelo agente (SILVA SÁNCHEZ, 2000, p. 89). 
Portanto, diante das diferenças de tipificação no crime, 
bem como dos motivos que levaram à incriminação e altera-
ções atuais nas leis de crimes de lavagem de dinheiro, parte-
-se para uma análise em legislações diversas.
2.2.1 A legislação americana: lavagem de 
dinheiro e o financiamento ao terrorismo
Conforme explicado na origem histórica do crime de lava-
gem de dinheiro, Lilley (2001, p. 170) destacou que os Estados 
Unidos foram um dos primeiros países a agir contra a lavagem 
de dinheiro internacional e a impor internamente diversas nor-
mas legislativas e regulamentadoras para controlar o problema, 
a partir de institutos como a Lei de Sigilo Bancário (Bank Secrecy 
At) de 1970; a Lei de Controle de Lavagem de Dinheiro (Money 
Laudering Control At) de 1986; a Lei Contra o Abuso de Drogas ( 
Anti Drug Abuse At) de 1988; a Seção 2532 da Lei de Controle do 
Crime ( Crime Control At) de 1990; a Seção 206 da Lei Federal de 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Aperfeiçoamento Corporativo dos Seguros em Depósito (Fede-
ral Deposit Insurance Corporation Improvement At) de 1990; o Pará-
grafo XV da Lei de Desenvolvimento Habitacional e Comunitá-
rio (Housing and Community Development At) de 1992, chamada 
de Lei Annunzio-Wylie Contra a Lavagem de Dinheiro.
Os Estados Unidos previam o crime de lavagem de di-
nheiro como um processo para que o lucro proveniente de 
crime anterior passasse a ter aparência de limpo, podendo ser 
utilizado e livremente inserido na economia, porém houve 
grande mudança na legislação de 2001.
Após os eventos de ataque às Torres Gêmeas e ao Pen-
tágono, em 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a dar 
tratamento à lavagem de dinheiro com outro foco. 
A nova lei americana (USA Patriot At) foi aprovada, em 4 
de outubro de 2001, para detectar e punir a lavagem de dinhei-
ro e a utilização do crime para financiamento ao terrorismo: 
“Public Law 107–56 - 107th Congress- An Act- To deter and punish 
terrorist acts in the United States and around the world, to enhance 
law enforcement investigatory tools, and for other purposes63”.
Partiu-se do princípio de que o financiamento dos ataques 
às Torres Gêmeas e ao Pentágono teria que passar pelo siste-
ma financeiro, mas não teve controle e nem mesmo foi alvo de 
suspeitas. Diante dessa afirmação, teria ocorrido a participação 
das redes internacionais de lavagem de dinheiro nos ataques 
terroristas. O país passou a ter não só a preocupação com a 
lavagem de dinheiro tendo como crimes precedentes delitos 
graves, ideia originária, mas a utilização do financiamento des-
te para o terrorismo. Dentre as medidas, a referida lei passou 
a exigir que as instituições financeiras dos Estados Unidos to-
massem medidas especiais64, como terminar uma relação ban-
63 “Para impedir e punir atos terroristas nos Estados Unidos e ao redor do 
mundo, para melhorar as ferramentas de aplicação da lei de investigação, e 
para outros fins. “(Tradução livre).
64 As principais disposições de proteção contra a lavagem da USA Patriot At 
influenciaram sobremaneira as demais legislações internacionais. Dentre as 
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Daniela Villani Bonaccorsi
cária quando houver suspeita de lavagem de dinheiro. Tam-
bém, a lei concede mais poderes ao Secretário do Tesouro e ao 
Secretário de Justiça para desbancar a lavagem de dinheiro e o 
financiamento de grupos terroristas, conforme seu art. 30265.
Assim, a legislação americana foi grande influência para a 
incriminação da lavagem de capitais em todo o mundo, uma vez 
que foi a primeira a prever a conduta e a estabelecer medidas pre-
ventivas, tanto para o branqueamento como para o financiamento 
deste para o terrorismo. No Brasil, a lei americana trouxe influên-
influências podem-se destacar: estabelece políticas, procedimentos e contro-
les de diligências específicos com a finalidade de detectar e informar casos 
de lavagem de dinheiro através de contas bancárias cujos titulares sejam 
pessoas ou instituições não americanas (art. 312); proíbe as instituições fi-
nanceiras estrangeiras de estabelecer ou administrar contas nos Estados 
Unidos de bancos fictícios estrangeiros (art. 313); delimita a cooperação e o 
intercâmbio de informações entre as diversas entidades financeiras, agên-
cias de inteligência, autoridades reguladoras e representantes da justiça, so-
bre pessoas, instituições e organizações suspeitas de estarem relacionadas 
com o terrorismo ou com a lavagem de dinheiro (art. 314); amplia os delitos 
prévios considerados como lavagem de dinheiro para incluir a corrupção, a 
importação de armas, a falsa classificação de bens na exportação (art. 315); 
permite que as autoridades encarregadas de aplicar a lei efetuem bloqueio 
de fundos depositados em conta de um banco estrangeiro se este tiver uma 
conta interbancária nos Estados Unidos em uma instituição financeira regu-
lar (art. 319); autoriza as autoridades a vigiar os sistemas bancários clandesti-
nos ou redes de intermediários que permitem às pessoas transferirvalores maiores visando a sua recuperação, as 
empresas também passam a ter dificuldades de lucro e de arcar 
com os tributos. A prática de crimes passa a ser primordial-
mente voltada ao lucro, como os relacionados a drogas, armas, 
organizações criminosas, mas que com a globalização passam 
a trazer características de transnacionalidade (RODRIGUES, 
2003, p. 103). A globalização pode ser compreendida como uma 
verdadeira mundialização de pessoas, de bens, de economia:
En suma, si por um lado la globalización no 
debe entenderse como una homologación uni-
versal bajo el omnipotente domínio de la téc-
nica y del mercado, sino como una nueva in-
terdependência econômico-financiera y socio-
cultural despegada de las tecnologias digitales 
del “tiempo real”, por outro lado, tampoco 
puede ser leída, según una óptica diametral-
mente opuesta e igualmente reductiva, como 
un ‘choque de civilizaciones’, sino como una 
falta de tensiones conflictivas que atravier-
sa todas las civilizaciones cortando de modo 
transversal tanto lo global como lo local (desde 
este perfil), el reclamo más claro para entender 
la naturaleza de los contrastes internos de la 
modernidad-mundo- surgidos de modo reso-
nante con los atentados a las Torres Gemelas y 
al Pentagono- a lo sumo podría estar represen-
tado por el influente escenario de las guerras 
de relogión.2 (MARAMAO, 2006, p. 26). 
2 “Assim, se, por um lado, a globalização não deve ser entendida como 
uma homologação universal sob o domínio da técnica e onipotente 
mercado, mas como uma nova interdependência econômico-financeira e 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Desde os anos 60, em virtude dessas mudanças econômi-
co-tecnológicas e sociais e da abertura de mercados econômi-
cos mundiais, as condutas e as atividades que poderiam ofere-
cer perigo alastraram-se no sistema penal. A violência tomou 
proporções cada vez maiores, os medos vão além do controle 
humano e, paralelamente, viu-se uma excessiva intervenção 
estatal, verdadeiro desenvolvimento “hipertrófico”3 do direi-
to penal (LUISI, 2003, p. 42), com tendências intervencionistas 
e preventivas “(...) de utilizar el Derecho Penal como médio de 
evitar el mayor número posible de comportamientos indese-
ables gravemente perturbadores(...)”4. (BUERGO, 2001, p. 21).
Paralelamente à integração econômica mundial, pas-
sou-se a se perceber uma delinquência relacionada a inte-
resses financeiros, uma “criminalidade dos poderosos”, a 
macrocriminalidade. (SILVA SANCHES, 2002, p. 80). “O pro-
gresso técnico dá lugar, no âmbito da delinquência dolosa 
tradicional, à adoção de novas técnicas como instrumento 
que lhe permite produzir resultados especialmente lesivos 
(...)”. (SILVA SANCHES, 2002, p. 29).
sociocultural das tecnologias digitais em “tempo real”, por outro lado, não 
pode ser vista, segundo uma ótica diametralmente oposta e igualmente 
redutora, como um “choque de civilizações”, e sim como a falta de uma 
das tensões contraditórias que atravessa todas as civilizações fazendo 
um corte, de forma transversal, tanto do global como do local (a partir 
desse perfil), a mais clara pretensão para compreender a natureza desses 
contrastes da modernidade, surgidos a partir dos ataques às Torres Gêmeas 
e ao Pentágono, na melhor das hipóteses, poderia ser representado nesse 
influente cenário de guerras religiosas”.(Tradução livre).
3 O termo “hipertrofia” penal foi utilizado em artigo publicado, em 1898, por 
Reinhart Franck, salientando que o uso da pena e das tipificações das con-
dutas tem sido abusivo, e por isso perdeu parte do seu crédito e, portanto, 
de sua forma intimidadora, já que o corpo social deixa de reagir do mes-
mo modo que o organismo humano não reage a um remédio administrado 
abusivamente. (FRANCK, Reinhart citado por LUISI, 2003. p. 40). A lei pe-
nal serviria para “qualquer força hostil que se pusesse em contradição com 
a ordem jurídica”. (LUISI, 2003, p. 41). (Tradução livre). 
4 “(...) de utilizar o Direito Penal como meio de evitar o maior número possível de 
comportamentos indesejáveis gravemente perturbadores(...)”(Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A criminalidade moderna “contemporâ-
nea” transcende os direitos individuais 
universais, não é o corpo, a vida, a liber-
dade, a honra, o patrimônio das pessoas, 
como falava o direito penal clássico, mas 
a capacidade funcional do mercado de 
subsídios, por exemplo, no caso das frau-
des em subsídios; a saúde pública no caso 
de falsificação de produtos farmacêuti-
cos; a capacidade funcional das bolsas. 
Esses são os bens da criminalidade mo-
derna e do direito penal moderno “con-
temporâneo”. (HASSEMER, 1993b, p. 89).
Com o argumento de amparar a sociedade de novos ris-
cos, cada vez mais ganha espaço um verdadeiro movimento 
de política criminal, que passou a defender a incriminação de 
um número cada vez maior de condutas, o aumento de pe-
nas e medidas que relativizam uma série de direitos e garan-
tia, o emergencialismo: “dal punto di vista giuridico l émergenza 
o Il fatto emergenziale non è altro che um presupposto funzionale 
all áttivazione di particolare strumenti giuridici predisposti per tali 
evenienze.”5 (BONETTI, 2006, p. 62)
Esse movimento justifica essas medidas diante da ur-
gência de um amparo penal, medidas fundamentadas pela 
emergência de sua aplicação, já que são riscos incontroláveis 
e indelimitáveis. O movimento emergencialista tem cada vez 
mais ressonância na sociedade, com a propaganda de solu-
ções imediatas e de segurança plena (JAKOBS, 2008).
Assim, a análise dos efeitos da globalização é imprescindí-
vel para a reflexão dos crimes econômicos, dentre eles a lavagem 
de dinheiro, que será abordada como reflexo desses efeitos. 
5 “Do ponto de vista legal, a emergência ou o fato emergencial assumiu uma 
função de se utilizarem medidas uma função de se utilizarem medidas 
jurídicas particulares para essas situações emergenciais.” (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
1.1 A sociedade globalizada e a seus reflexos 
políticos: a “desterritorialização do direito”
Esse complexo de acontecimentos, processos e experiên-
cias que implicam o termo globalização, hoje, supera o âmbito 
econômico-tecnológico. A queda de barreiras políticas e eco-
nômicas, em função da globalização, não trouxe mudanças 
apenas para as populações e as empresas. 
A integração dos mercados e da cultura, através dos re-
cursos digitais, tecnológicos e da abertura do comércio, gerou 
uma crise qualitativa do poder. 
O mercado mundial resta desligado das soberanias na-
cionais e se multiplicam os conflitos. Há um constituciona-
lismo global, no qual se propõe um tipo de união política dos 
sujeitos que não é medida pelos estados ou pela nação. Há 
uma crise do próprio conceito de Estado e soberania.
A globalização de bens, pessoas e ideias modificou mar-
cos sociais de referência, como mencionado; o que é local, na-
cional e até mesmo regional passa a ser global. O espaço social 
já não está definido pela presença física nos limites territoriais. 
Marramao (2006), de forma a fundamentar esses reflexos polí-
ticos, utiliza o termo “desterritorialização do direito”, mencio-
nando o art. 6.º da Declaração Universal: “todo indivíduo tem 
direito em todo lugar” (MARRAMAO, 2006, p. 13). Esse cenário 
mudou a própria noção de Estado Nacional. Essa noção não 
mais se sustenta em termos jurídicos na delimitação por meio 
dos três elementos: povo, território e soberania A globalização 
representa uma ruptura dessas categorias clássicas:
(...) la globalización representaria uma ruptu-
ra tal como para volver obsoletas las categorias 
clásicas de la modernidad filosófica y política 
(Estado, pueblo, soberania, nación, centro/pe-
riferia, público/privado, etc.), que se habrían 
vuelto ahora palavras-zombis (...) em la edad 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Críticadinheiro 
efetivamente de um país a destinatários em outro país sem que os fundos 
cruzem as fronteiras nem as transações sejam registradas (art. 359); limita a 
responsabilidade civil pela revelação voluntária de atividades suspeitas por 
parte de uma instituição financeira ou de pessoa vinculada a uma institui-
ção semelhante (art. 351); (MORAIS, 2005). 
65 “SEC. 312. SPECIAL DUE DILIGENCE FOR CORRESPONDENT AC-
COUNTS AND PRIVATE BANKING ACCOUNTS. (a) IN GENERAL.—Sec-
tion 5318 of title 31, United States Code, is amended by adding at the end the fol-
lowing: ‘‘(i) DUE DILIGENCE FOR UNITED STATES PRIVATE BANKING 
AND CORRESPONDENT BANK ACCOUNTS INVOLVING FOREIGN PER-
SONS.— ‘‘(1) IN GENERAL.—Each financial institution that establishes, main-
tains, administers, or manages a private banking account or a correspondent account 
in the United States for a non-United States person, including a foreign individual 
visiting the United States, or a representative of a non-United States person shall es-
tablish appropriate, specific, and, where necessary, enhanced, due diligence policies, 
procedures, and controls that are reasonably designed to detect and report instances 
of money laundering through those accounts.(…) (UNITED STATES, 2011).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
cia no próprio entendimento do conceito de lavagem de capitais, 
uma vez que analisa a ação de tornar limpo, e não o resultado. 
2.2.2 O crime de lavagem de capitais 
na Alemanha
Na Alemanha, o crime de lavagem de dinheiro é pre-
visto, desde 1992, no Código Penal, Título III, referente aos 
crimes contra o Estado Democrático de Direito, na Seção XXI, 
que trata da receptação e do favorecimento real66. 
A mencionada lei prevê um rol de crimes antecedentes, 
abrangendo os cometidos contra a ordem tributária, a orga-
nização dos mercados, assim como os crimes cometidos por 
intermédio de organização criminosa:
66 § 261. Lavado de dinero; ocultamiento de bienes mal habidos (1) Quien oculte una 
cosa, encubra su origen, o impida o ponga en peligro la investigación del origen, del 
descubrimiento, del comiso, la confiscación, o el aseguramiento de un tal objeto, que 
provenga de um hecho antijurídico mencionado en la frase 2, será castigado con pena 
privativa de la libertad hasta cinco años o con multa. Hechos antijurídicos en el 
sentido de la frase 1 son: 1. Crímenes 2. delitos conforme a: a) § 332 inciso 1, también 
en conexión con el inciso 3 y el § 334 b) § 29 inciso 1 frase 1 numeral 1 de la Ley de 
Estuperfacientes (Betäubungsmittelgesetz) y el § 29 inciso 1 numeral 1 de la Ley de 
Vigilancia de Materias Básicas (Grundstoffuberwachungsgesetz), 3. Delitos según 
el § 373 y cuando el autor atúe profesionalmente según el § 374 de la Ley general 
tributaría (Abgabenordung), también en conexión con el § 12 inciso 1 de la Ley para 
la ejecución de las Organizaciones Comunes de Mercado (Gesetz zur Durchfuhrung 
der Gemeinsamen Marktorganisationen), 4. Delitos 92 a) según los § 180b, 181a, 
242, 246, 253, 258, 263 a 264, 266, 267, 269, 284, 326 inciso 1, 2 y 4 a si como el § 328 
inciso 1, 2 y 44, b) según el § 92 a de la Ley para extranjeros (Ausländergesetz) y del 
§ 1 84 de la Ley de Procedimientos para Asilados (Asylverfahrensgesetz), que hayan 
sido cometidos profesionalmente o por un miembro de la banda que se ha asociado 
para la comisión continuada de tales hechos, y 5. Delitos cometidos por un miembro 
de una asociación criminal (§ 129) En los casos de la frase 2 numeral 3 se aplica 
también la frase 1 para un objeto referente al cual se le hayan ocultado datos. (2) De 
la misma manera será castigado quien en relación con un objeto señalado en el inciso 
1 1. lo consiga para sí o para un tercero, o 2. lo guarde o utilice para si o un tercero, 
cuando haya conocido la procedencia del objeto en el momento en el cual lo haya 
obtenido. (3) La tentativa es punible”. (...) (DÍAZ, 1999, p. 91)
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Daniela Villani Bonaccorsi
A legislação alemã foi também uma das 
primeiras em regular a matéria, mas nela 
já se vê que outros delitos, além dos re-
lacionados às drogas ilícitas, aparecem 
como crimes antecedentes, sendo, pois, de 
segunda geração. A chamada de ‘ley para la 
lucha contra el comércio ilegal de estupefacien-
tes y otras formas similares de criminalidad or-
ganizada”, datada de 15/07/92, segundo RO-
XIN, se há propuesto actuar contra la crimina-
lidad organizada de relevância cresciente: desde 
um punto de vista jurídico material, especial-
mente por la introdución de la pena patrimo-
nial ( § 43,a) y el tipo de blanqueo de dinero’ ” 
( §261) (CASTELLAR, 2004, p. 140).
A lei penal alemã, ainda, destaca o crime de lavagem de di-
nheiro não só com a ocultação de lucro proveniente da produção 
e o comércio de drogas proibidas. Há um rol de infrações prévias 
capazes de suscitar o cometimento desse crime se os lucros forem 
ocultados ou dissimulados, de forma a se aproximar ao crime de 
receptação previsto no Código Penal. (CASTELLAR, 2004, p. 142). 
É importante, também, mencionar que, conforme se per-
cebe o § 261, I, na Alemanha, o autor do delito anterior está 
expressamente excluído do crime de lavagem de dinheiro. 
(CORDERO, 2011, p. 11).
Assim como os Estados Unidos, a Alemanha, desde 9 de 
janeiro de 2002, também sofreu alterações na sua legislação 
com o novo foco terrorista (DAL RI JUNIOR, 2006, p. 172). O 
país teve novas diretrizes após o ataque de 11 de setembro, dei-
xando clara a preocupação com a lavagem de dinheiro para 
financiamento do terrorismo. A nova lei alemã que visa impe-
dir fontes financeiras dos terroristas, “cria a obrigatoriedade de 
informação para imobiliárias, comerciantes de bens de alto va-
lor, advogados, tabeliãs, contabilistas e auditores sobre clientes 
suspeitos de lavagem de dinheiro” (ESSER, 2002, p. 532):
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Em 21 de setembro de 2001, poucos dias após o atentado 
ao World Trade Center, os Chefes de Estado e de Governo dos Es-
tados-membros da União Europeia, reunidos no Conselho Eu-
ropeu, adotaram um plano de ação de luta contra o terrorismo 
e seu financiamento. Em 3 de outubro do mesmo ano, a Comis-
são Europeia propôs aos Estados-membros que bloqueassem 
todos os fundos pertencentes a 27 organizações e indivíduos 
suspeitos de financiar atividades terroristas. Em 12 de dezem-
bro, a Comissão constituiu um grupo de peritos científicos em 
matéria de luta contra o terrorismo biológico e químico. Essas 
primeiras medidas foram atuadas através de diversos atos ju-
rídicos da UE em matéria, entre as quais se sobressaem as Po-
sições Comuns 2001/931/PESC e 2001/930/PESC, assim como o 
Regulamento (CE) n9 2580/2001 (ESSER, 2002, p. 532).
Nessa perspectiva, dentre os atos da União Europeia, a 
Posição Comum nº 2001/931/PESC11 foi o ponto para que a 
Alemanha adotasse definições-chave da política europeia de 
combate ao terrorismo, servindo como um dos principais pon-
tos de referência para os atos normativos posteriormente ema-
nados. Sendo assim, o parágrafo segundo do artigo primeiro 
de tal Posição Comum define como pessoas, grupos e entida-
des envolvidas em atos terroristas; pessoas que pratiquem ou 
tentem praticar atos terroristas, deles participem ou os faci-
litem; grupos e entidades direta ou indiretamente possuídas 
ou controladas por essas pessoas; e pessoas, grupos e entida-
des que atuem em nome ou sob a orientação dessas pessoas, 
grupos e entidades, incluindo fundos obtidos a partir de bens 
direta ou indiretamente possuídos ou controlados por essas 
pessoas e por pessoas, grupos e entidades a elas associadas, 
ou provenientes desses bens. (ARAÚJO JÚNIOR, 1995, p. 175)
Assim, a legislação alemã traz importante característica 
quanto à ausência de responsabilidade pelo autor do crime 
precedente no crime de lavagem de dinheiro. Ainda,como 
repercussão do próprio movimento emergencialista, diante 
da repercussão e pânico mundial com os ataques do inimigo 
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Daniela Villani Bonaccorsi
terrorista, trouxe uma nova legislação que ampara esses no-
vos medos, cada vez mais rígida.
2.2.3 O branqueamento de capitais na 
lei espanhola: inúmeras alterações 
e maior rigidez
O branqueamento de capitais foi introduzido no Código 
Penal de 1973 com a reforma de 1988, no Título XIII, que trata 
dos delitos contra o patrimônio, contra a ordem socioeconô-
mica do Capítulo XIV, referente à receptação e outras condu-
tas afins, inicialmente vinculadas ao narcotráfico. 
Em seguida, seguindo as recomendações internacionais, 
alterou-se o Código Penal em 1995 para ampliar o âmbito de 
sua aplicação a qualquer delito grave67.
67 Artículo 301. 1. El que adquiera, convierta o transmita bienes, sabiendo que 
éstos tienen su origen en un delito grave, o realice cualquier otro ato para ocultar 
o encubrir su origen ilícito, o para ayudar a la persona que haya participado en 
la infracción o infracciones a eludir las consecuencias legales de sus atos, será 
castigado con la pena de prisión de seis meses a seis años y multa del tanto al triplo 
del valor de los bienes. Las penas se impondrán en su mitad superior cuando los 
bienes tengan su origen en alguno de los delitos relacionados con el tráfico de drogas 
tóxicas, estupefacientes o sustancias psicotrópicas descritos en los artículos 368 
a 372 de este Código. 2. Con las mismas penas se sancionará, según los casos, la 
ocultación o encubrimiento de la verdadera naturaleza, origen, ubicación, destino, 
movimiento o derechos sobre los bienes o propiedad de los mismos, a sabiendas 
de que proceden de alguno de los delitos expresados en el apartado anterior o de 
un ato de participación en ellos. 3. Si los hechos se realizasen por imprudencia 
grave, la pena será de prisión de seis meses a dos años y multa del tanto al triplo. 
4. El culpable será igualmente castigado aunque el delito del que provinieren los 
bienes, o los atos penados en los apartados anteriores hubiesen sido cometidos, total 
o parcialmente, en el extranjero. (...)”.(BETTI, 2012). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A “Ley Orgânica 15/2003” ampliou o quadro de crimes pre-
cedentes e alterou a redação anterior, que mencionava crimes 
graves como os antecedentes. Passou a admitir qualquer crime 
como precedente à referida alteração. Houve um endurecimento 
na legislação também em outros aspectos, como a possibilidade 
de incriminação do autor do crime precedente no crime de la-
vagem de capitais e a incriminação daquele que recebe bens ou 
valores de forma imprudente. (CAPARROS, 1998, p. 132).
De acuerdo con el art. 1.2 de la Ley 10/2010, 
de 28 de abril, sobre prevención del blanqueo 
de capitales y financiación del terrorismo, “se 
entiende por bienes procedentes de una activi-
dad delictiva todo tipo de activos cuya adqui-
sición o posesión tenga su origen en um delito, 
tanto materiales como inmateriales, muebles o 
inmuebles, tangibles o intangibles, así como los 
documentos o instrumentos jurídicos con in-
dependencia de su forma, incluidas la electró-
nica o la digital, que acrediten la propiedad de 
dichos activos o un derecho sobre los mismos, 
con inclusión de la cuota defraudada en el caso 
de los delitos contra la Hacienda Pública68. 
(CORDERO, 2006, p. 3).
Houve uma “ampliación de las conductas delictivas incluyen-
do la posesión y utilización de bienes y el tipo cualificado de páragra-
fo 30 del artículo 301.1:
68 “De acordo com o art. 1.2 da Lei 10/2010, de 28 de Abril, relativo à prevenção do 
branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, bens provenientes 
de atividades criminosas ou bens cuja aquisição ou posse têm origem no crime, 
tanto documentos tangíveis e intangíveis, móveis ou imóveis, e ou instrumentos 
jurídicos, independentemente da sua forma, inclusive o meio eletrônico ou 
digital, evidenciando tais ativos ou respectivos direitos, incluindo o defraudado 
em partes, no caso de crimes contra o Tesouro”. (Tradução livre).
| 120 |
Daniela Villani Bonaccorsi
La nueva Ley 10/2010 modifica el régimen 
previsto en la normativa sobre prevención del 
blanqueo de capitales y prevención y bloqueo 
de la financiación del terrorismo vigente, en 
particular, en la Ley 19/1993 sobre determina-
das medidas de prevención del blanqueo de ca-
pitales, en el Real Decreto 925/1995 por el que 
se aprueba el Reglamento de la Ley 19/1993, 
y en la Ley 12/2003 de prevención y bloqueo 
de la financiación del terrorismo. El objetivo 
principal de la Ley es la transposición de la 
denominada “Tercera Directiva”, esto es, la 
Directiva 2005/60/CE del Parlamento Euro-
peo y del Consejo, de 26 de octubre de 2005, 
relativa a la prevención de la utilización del 
sistema financiero para el blanqueo de capi-
tales y para la financiación del terrorismo69. 
(GILBERT, 2011).
Atendendo a recomendações do GAFI, a Espanha tam-
bém teve um endurecimento na lei. Com as alterações da Ley 
10/2010, que já admitia qualquer atividade delituosa como 
precedente, também passou a alargar o rol de pessoas obri-
gadas a informar atividades suspeitas a órgão encarregado de 
fiscalização das atividades financeiras:
La Ley incorpora a su marco regulatorio las 
previsiones que, en materia de prevención de 
69 “A nova Lei 10/2010 altera as disposições da regulamentação sobre a 
prevenção do branqueamento de capitais e de prevenção e bloqueio 
de financiamento do terrorismo no local, nomeadamente a Lei 19/1993 
sobre certas medidas para evitar a lavagem de dinheiro, em Real Decreto 
925/1995 que aprova o Regulamento da Lei 19/1993 e Lei 12/2003 sobre 
prevenção e bloqueio de financiamento do terrorismo. O objetivo principal 
da lei é a transposição da chamada “Terceira Directiva”, ou seja, a Directiva 
2005/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 26 de outubro de 
2005, relativa à prevenção da utilização do sistema lavagem de dinheiro e 
financiamento do terrorismo financeiro”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
la financiación del terrorismo, se encontra-
ban recogidas en la Ley 12/2003.
La definición del blanqueo de capitales pre-
vista en la Ley se extiende a las activida-
des de blanqueo de capitales procedentes de 
cualquier delito, incluido el delito contra la 
Hacienda Pública.
La Ley sigue manteniendo para algunos su-
jetos obligados un régimen simplificado. Así, 
las personas físicas o jurídicas que comercien 
profesionalmente con bienes; en igual sentido, 
se mantiene para las fundaciones y asociacio-
nes un régimen muy limitado de sometimien-
to a las obligaciones de la Ley; se contempla 
también la posibilidad de excluir reglamenta-
riamente como sujetos obligados a las perso-
nas que realicen actividades financieras con 
carácter ocasional o de manera muy limitada 
cuando exista escaso riesgo de blanqueo de ca-
pitales o de financiación del terrorismo.
Se amplía la lista de los sujetos obligados por 
esta normativa, incluyéndose como nuevos 
sujetos obligados, entre otros, a los siguien-
tes: registradores de la propiedad, mercanti-
les y de bienes muebles.
Todas aquellas personas que con carácter 
profesional presten los siguientes servicios a 
terceros: constitución de sociedades u otras 
personas jurídicas ejerzan funciones de di-
rección o secretaría de una sociedad, socio de 
una asociación o funciones similares en rela-
ción con otras personas jurídicas o dispongan 
que otra persona ejerza dichas funciones70. 
(CORDERO, 2011, p. 4).
70 “A lei incorpora dispositivos do seu quadro regulamentar, em termos de 
prevenção do financiamento do terrorismo, incluídas na Lei 12/2003. A 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Assim, a legislação espanhola foi objeto de inúmeras al-
terações, todas de formaa reprimir com maior rigidez o crime 
de lavagem de dinheiro e controlar as atividades financeiras. 
Conforme perceber-se-á, a legislação espanhola teve 
grande influência no Brasil, desde a lei originária, que trazia 
o mesmo rol de condutas delitivas, com as mudanças na ge-
ração da legislação e a inclusão de novas pessoas obrigadas a 
informar atividades financeiras peculiares, entre as quais se 
destaca a questionável obrigatoriedade do advogado71.
2.2.4 As peculiaridades do riciclaggio: 
Lavagem de Dinheiro na Itália
Na Itália, a legislação também passou por várias altera-
ções. Conforme exposto no conteúdo histórico, o crime de la-
vagem de dinheiro foi inserido no Código penal italiano de 
1978, no seu art. 648 que previa o crime de receptação72. Na 
definição de branqueamento de capitais, nos termos da Lei, se estende às 
atividades de branqueamento do produto de qualquer crime, incluindo o 
processo contra o Tesouro Nacional. A lei continua mantendo para algu-
mas entidades um regime diferenciado. Assim, as pessoas singulares ou 
coletivas que mantêm comércio de bens, de forma profissional; da mesma 
forma, se mantém o regime para fundações e associações que realizem ati-
vidades financeiras de caráter ocasional, ou de maneira limitada quando 
há risco de branqueamento de capitais ou de financiamento ao terroris-
mo. Amplia-se a lista de pessoas que, de forma profissional, prestem os 
seguintes serviços a terceiros: constituição de sociedade ou outras pessoas 
jurídicas que exerçam função de direção ou secretaria de uma sociedade, 
sócio de uma associação ou funções similares, em relação a outras pessoas 
jurídicas que disponham dessas funções�. (Tradução livre).
71 Diante das profundas alterações e críticas à nova lei brasileira, datada de 
julho de 2012, esta será abordada em capítulo próprio.
72 “Art. 648 Ricettazione. 
 [I]. Fuori dei casi di concorso nel reato [ 110], chi, al fine di procurare a sè o ad altri 
un profitto, acquista, riceve od occulta denaro o cose provenienti da un qualsiasi 
delitto, o comunque si intromette nel farle acquistare, ricevere od occultare, è punito 
con la reclusione da due ad otto anni e con la multa da 516 euro a 10.329 euro [ 379, 
648-ter,649, 709, 712] (2). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Itália, a lavagem de dinheiro originariamente tinha um rol 
de crimes limitado, mas relacionado com o problema pontual 
das “brigadas vermelhas”. Em seguida, em 1990, atendendo o 
proposto pela Convenção de Viena e as recomendações inter-
nacionais, passou a incluir o tráfico ilícito de entorpecentes e, 
já no conteúdo atual, admite qualquer crime como precedente:
Emblematica è la storia di questo particolare 
crimen nell’evoluzione normativa italiana. 
Esso fu introdotto nel codice penale come fi-
gura autonoma (art. 648 bis) fin dal 1978 (art. 
3 del d.l. 21 marzo 1978 n. 59, convertito in l. 
18 maggio 1978 n. 191), in netto anticipo ris-
petto ad altri ordinamenti, come specificazio-
ne del tradizionale delitto di ricettazione (art. 
648 c.p.), in quanto riferito alla sostituzione 
di banconote frutto dei delitti di sequestro di 
persona a scopo di estorsione (il moltiplicarsi 
dei rapimenti costituì l’occasio legis), rapina 
aggravata ed estorsione aggravata. Dopo una 
modifica approvata dalla l. 19 marzo 1990 n. 
55, che estendeva i ‘delitti presupposto’ (predi-
cate crimes) a quelli concernenti la produzione 
 [II]. La pena è della reclusione sino a sei anni e della multa sino a 516 euro, se il fatto 
è di particolare tenuità [ 62 n. 4, 133]. 
 [III]. Le disposizioni di questo articolo si applicano anche quando [ 648-bis] l’autore 
del delitto, da cui il denaro o le cose provengono, non è imputabile [ 85] o non è 
punibile [ 46, 379, 649] ovvero quando manchi una condizione di procedibilità [ 
336-346 c.p.p.] riferita a tale delitto (3). 
 Art. 648-bis Riciclaggio. 
 [I]. Fuori dei casi di concorso nel reato, chiunque sostituisce o trasferisce 
denaro, beni o altre utilità provenienti da delitto non colposo, ovvero compie in 
relazione ad essi altre operazioni, in modo da ostacolare l’identificazione della 
loro provenienza delittuosa, è punito con la reclusione da quattro a dodici anni e 
con la multa da 1.032 euro a 15.493 euro (2). 
 [II]. La pena è aumentata [ 64] quando il fatto è commesso nell’esercizio di 
un’attività professionale. 
 [III]. La pena è diminuita [ 65] se il denaro, i beni o le altre utilità provengono da delitto 
per il quale è stabilita la pena della reclusione inferiore nel massimo a cinque anni. 
 [IV]. Si applica l’ultimo comma dell’articolo 648”. (ITÁLIA, 2011).
| 124 |
Daniela Villani Bonaccorsi
e il traffico di stupefacenti, il delitto è perve-
nuto alla versione attuale con l’art. 4 della l. 9 
ag. 1993 n. 328, che ratificava e dava esecuzio-
ne alla convenzione del Consiglio d’Europa 8 
nov. 1990 n. 141, la quale estendeva ulterior-
mente i delitti presupposto del riciclaggio73. 
(FEROLA, 2005, p. 18).
O conceito de lavagem de dinheiro na Itália possui pecu-
liaridades, pois consiste na conduta de substituir ou transferir 
o dinheiro proveniente de crime anterior, desde que praticada 
por aquele que não incidiu na conduta anterior. A lei italiana 
não abrange a conduta de meramente ocultar, nem tampouco 
pune o autor do crime precedente pela lavagem:
 il delitto di riciclaggio consiste oggi nella 
condotta di chi, non avendo partecipato al 
reato presupposto, «sostituisce o trasferisce 
denaro, beni o altre utilità provenienti da de-
litto non colposo, ovvero compie in relazione 
a essi altre operazioni, in modo da ostacolare 
l’identificazione della loro provenienza delit-
tuosa» (art. 648 bis c.p., 1° co)74. (grifo nosso). 
(FEROLA, 2005, p. 18).
73 “Exemplo é a história desta lei na evolução do crime na lei italiana. Ela 
foi introduzida no Código Penal como uma figura autônoma (art. 648-A), 
desde 1978 (artigo 3 º do Decreto-Lei n 21 de março de 1978. 59, convertida 
na l. 18 de maio de 1978. 191), bem à frente de outras jurisdições roubo como 
especificação do crime tradicional de receber bens roubados (art. 648 CP), 
conforme relatado à substituição das notas de resultado dos crimes de 
sequestro extorsivo (a multiplicação de sequestro constituiu a legislação 
occasio), agravado e extorsão . Após uma mudança aprovada pela 19 março 
de 1990 n. 55, que prorrogou o “pressuposto de crimes” (crimes de predicado) 
com informações sobre a produção e tráfico de drogas, o crime veio para a 
versão atual com a arte. 4 do. 9 ag. 1993 n. 328, que ratificou e deu efeito à 
Convenção do Conselho da Europa em 08 de novembro 1990 n. 141, que se 
estendeu por outros crimes de lavagem de dinheiro”. (Tradução livre).
74 “o crime de lavagem de dinheiro está agora na conduta daqueles que 
não tinham participado na infração, substitutos ou transferências de 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Assim, como Estados Unidos e Alemanha, a Itália incluiu 
a preocupação do uso da lavagem de dinheiro para financia-
mento do terrorismo, depois do episódio de 11 de setembro.
Inspirada pela “directiva 2005/60/CE75”, referente às formas 
de prevenção do crime com o maior controle do setor financei-
ro e na “directiva 2006/70/CE76”, que define os meios de execu-
dinheiro, bens ou outros ativos de intencionais atos criminosos, ou exe-
cuta em relação a outras transações, a fim de impedir a identificação da 
sua origem criminosa.” (Tradução livre).
75 “(...) Artigo 1.o- 1. Os Estados-Membros devem assegurar a proibição do 
branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo. 2. Para os 
efeitos da presente directiva, entende-se por branqueamento de capitais os 
comportamentos a seguir descritos, quando adoptados intencionalmente:
 a) A conversão ou transferência de bens, com conhecimento de que esses 
bens provêm de uma actividadecriminosa ou da participação numa ac-
tividade dessa natureza, com o fim de encobrir ou dissimular a sua ori-
gem ilícita ou de auxiliar quaisquer pessoas implicadas nessa actividade a 
furtarem-se às consequências jurídicas dos seus actos;
 b) A dissimulação ou encobrimento da verdadeira natureza, origem, localiza-
ção, utilização, circulação ou propriedade de determinados bens ou de direi-
tos relativos a esses bens, com conhecimento de que tais bens provêm de uma 
actividade criminosa ou da participação numa actividade dessa natureza;
 c) A aquisição, detenção ou utilização de bens, com conhecimento, quando 
da sua recepção, de que provêm de uma actividade criminosa ou da parti-
cipação numa actividade dessa natureza;
 d) A participação num dos actos referidos nas alíneas anteriores, a associação 
para praticar o referido acto, as tentativas de o perpetrar, o facto de ajudar, 
incitar ou aconselhar alguém a praticá-lo ou o facto de facilitar a sua execução.
 3. O branqueamento de capitais deve ser considerado como tal, mesmo que 
as actividades que estão na origem dos bens a branquear tenham sido rea-
lizadas no território de outro Estado-Membro ou de um país terceiro.
 4. Para os efeitos da presente directiva, entende-se por financiamento do 
terrorismo o fornecimento ou a recolha de fundos, por qualquer meio, di-
recta ou indirectamente, com a intenção de os utilizar, ou com conheci-
mento de que serão utilizados, no todo ou em parte, para praticar uma das 
infracções previstas nos artigos 1.o a 4.o da Decisão-Quadro 2002/475/JAI 
do Conselho, de 13 de Junho de 2002, relativa à luta contra o terrorismo (1).
 5. O conhecimento, a intenção ou a motivação, que devem ser um elemento 
das actividades referidas nos n. 2 e 4, podem ser inferidos a partir de cir-
cunstâncias factuais objectivas.
 Artigo 2.o
 1. A presente directiva é aplicável:
 1. Às instituições de crédito;
 2. Às instituições financeiras;
 3. Às seguintes pessoas colectivas ou singulares, no exercício das suas acti-
vidades profissionais:
 a) Auditores, técnicos de contas externos e consultores fiscais;
 b) Notários e outros membros de profissões jurídicas independentes, quan-
do participem, quer actuando em nome e por conta do seu cliente numa 
transacção financeira ou imobiliária, quer prestando assistência ao seu 
cliente na concepção ou execução de transacções relativamente à:
 i) Compra e venda de bens imóveis ou de entidades comerciais;
 ii) Gestão de fundos, valores mobiliários ou outros activos pertencentes 
ao cliente; L 309/20 PT Jornal Oficial da União Europeia 25.11.2005 (1) JO L 
164 de 22.6.2002, p. 3.
 iii) Abertura ou gestão de contas bancárias, de poupança ou de valores 
mobiliários;
 iv) Organização das entradas necessárias à criação, exploração ou gestão 
de sociedades;
 v) Criação, exploração ou gestão de fundos fiduciários (trusts), de socieda-
des ou de estruturas análogas;
 c) Prestadores de serviços a sociedades ou fundos fiduciários (trusts) não 
abrangidos pelo disposto nas alíneas a) ou b);
 d) Agentes imobiliários;
 e) Outras pessoas singulares ou colectivas que comercializem bens, ape-
nas quando o pagamento for efectuado em numerário e de montante 
igual ou superior a EUR 15 000, independentemente de a transacção ser 
realizada através de uma única operação ou de várias operações aparen-
temente relacionadas entre si;
 f) Casinos. 2. Os Estados-Membros podem decidir que as pessoas singulares 
e colectivas que desenvolvam actividades financeiras numa base ocasional 
ou muito limitada não fiquem, quando haja risco reduzido de branqueamen-
to de capitais ou de financiamento do terrorismo, abrangidas pelas defini-
ções dos pontos 1) ou 2) do artigo 3.o Ar” (UNIÃO EUROPEIA, 2005). 
76 “(...) 1. Para efeitos do n.o 2 do artigo 11.o da Directivav2005/60/CE, os Estados-
-Membros podem, sem prejuízo do disposto no n.o 4, considerar que os clien-
tes que sejam autoridades ou organismos públicos e que preenchem todos os 
critérios a seguir referidos constituem clientes que apresentam um reduzido 
risco de branqueamento de capitais ou de financiamento do terrorismo:
 a) O cliente foi incumbido de desempenhar funções públicas em confor-
midade com o Tratado da União Europeia, os tratados das Comunidades 
Europeias ou a legislação derivada da Comunidade Europeia;
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Daniela Villani Bonaccorsi
 b) A identidade do cliente é do conhecimento público, sendo transparente 
e não levantando dúvidas;
 c) As actividades do cliente, bem como as suas práticas contabilísticas, são 
transparentes;
 d) O cliente é responsável perante uma instituição europeia ou perante as 
autoridades de um Estado-Membro, ou existem outros procedimentos ade-
quados de verificação e salvaguarda que asseguram o controlo da activida-
de do cliente.
 2. Para efeitos do n.o 2 do artigo 11.o da Directiva 2005/60/CE, os Estados-
-Membros podem, sem prejuízo do disposto no n.o 4, considerar os clientes 
que sejam pessoas colectivas, que não têm a qualidade de autoridade ou or-
ganismo público mas que preenchem os critérios a seguir referidos, como 
clientes que apresentam um reduzido risco de branqueamento de capitais 
ou de financiamento do terrorismo:
 a) O cliente é uma entidade que desenvolve actividades financeiras não 
abrangidas pelo âmbito de aplicação do artigo 2.o da Directiva 2005/60/
CE, mas em relação às quais a legislação nacional foi tornada extensiva em 
conformidade com o artigo 4.o da referida directiva; 
 b) A identidade do cliente é do conhecimento público, sendo transparente 
e não levantando dúvidas;
 c) O cliente está obrigatoriamente sujeito pela legislação nacional à obtenção 
de uma licença para o exercício de actividades financeiras e a licença pode 
ser-lhe recusada se as autoridades competentes não se encontrarem satisfei-
tas quanto à idoneidade das pessoas responsáveis pela direcção efectiva ou 
futura das actividades dessa entidade ou do seu beneficiário efectivo; 
 d) O cliente está sujeito à supervisão, na acepção do n.o 3 do artigo 37.o da Direc-
tiva 2005/60/CE, de autoridades competentes no que se refere ao cumprimento 
da legislação nacional adoptada em conformidade com a referida directiva e, 
quando relevante, de obrigações adicionais ao abrigo da legislação nacional;
 e) O incumprimento pelo cliente das obrigações referidas na alínea (...)
 b) As transacções relevantes são realizadas através de uma conta do cliente 
junto de uma instituição de crédito abrangida pela Directiva 2005/60/CE ou 
junto de uma instituição de crédito situada num país terceiro que impõe 
requisitos equivalentes aos estabelecidos nessa directiva;
 c) O produto ou a transacção relevante não são anónimos e a sua natureza é de 
molde a permitir a aplicação atempada do disposto na alínea c) do artigo 7.o da 
Directiva 2005/60/CE; L 214/32 PT Jornal Oficial da União Europeia 4.8.2006 
 d) Vigora um limite pré-determinado quanto a um montante máximo apli-
cável ao produto;
 e) Os benefícios do produto ou da transacção relevante não podem ser reali-
zados a favor de terceiros, excepto em caso de morte, invalidez, sobrevivên-
cia até uma idade avançada pré-determinada ou em situações semelhantes;
 f) No caso de produtos ou transacções relevantes que permitem o investi-
mento de fundos em activos ou créditos financeiros, incluindo seguros ou 
outros tipos de crédito eventual, 
 i) os benefícios do produto ou da transacção relevante são apenas passíveis 
de serem realizados a longo prazo,
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ção para o mencionado controle, a lei italiana foi alterada em 
21 de novembro de 2007, prevendo formas mais articuladas de 
prevenção e buscando um conceito uniforme, diante das pecu-
liaridades da lei (DRAGHI, 2007). Dessa forma, a nova lei tam-
bém trouxe uma maior variedade de núcleos do tipo ao crime 
de branqueamento de capitais, inclusive, passando a prever a 
mera ocultação de valor provenientede crime. Assim, atual-
mente, consiste o riciclaggio nas seguintes condutas: 
a) la conversione o il trasferimento di beni 
effettuati essendo a conoscenza che essi pro-
vengono da un’attività criminosa o da una 
partecipazione a tale attività, allo scopo di oc-
cultare o dissimulare l’origine illecita dei beni 
medesimi o di aiutare chiunque sia coinvolto 
in tale attività a sottrarsi alle conseguenze 
giuridiche delle proprie azioni; 
b) l’occultamento o la dissimulazione della reale 
natura, provenienza, ubicazione, disposizione, 
movimento, proprietà dei beni o dei diritti sugli 
stessi, effettuati essendo a conoscenza che tali 
beni provengono da un’attività criminosa o da 
una partecipazione a tale attività; 
c) l’acquisto, la detenzione o l’utilizzazione di 
beni essendo a conoscenza, al momento della 
loro ricezione, che tali beni provengono da 
un’attività criminosa o da una partecipazio-
ne a tale attività; 
d) la partecipazione ad uno degli atti di cui alle 
lettere precedenti, l’associazione per commette-
re tale atto, il tentativo di perpetrarlo, il fatto di 
 ii) o produto ou a transacção relevante não pode ser utilizado a título de 
garantia e,
 iii) durante a relação contratual, não são efectuados quaisquer pagamentos 
antecipados, nem utilizadas cláusulas de resgate, também não se proceden-
do a qualquer rescisão antecipada do contrato.” (UNIÃO EUROPEIA, 2006).
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Daniela Villani Bonaccorsi
aiutare, istigare o consigliare qualcuno a com-
metterlo o il fatto di agevolarne l’esecuzione. 
2. Il riciclaggio è considerato tale anche se le 
attività che hanno generato i beni da riciclare 
si sono svolte nel territorio di un altro Stato 
comunitario o di un Paese terzo. 
3. La conoscenza, l’intenzione o la finalità, che 
debbono costituire un elemento degli atti di cui 
al comma 1, possono essere dedotte da circostan-
ze di fatto obiettive. (directiva 91/308/CEE)77. 
(UNIÃO EUROPEIA, 1991).
Atendendo, também, as recomendações do GAFI, a Itália 
possui organismo próprio para controle de informações finan-
ceiras suspeitas, inserido pelo decreto de 21 nov. 2007 n. 231, que 
define a unidade de informação financeira na Itália, a UIF “l’unità 
di informazione finanziaria cioè la struttura nazionale incaricata di rice-
vere dai soggetti obbligati, di richiedere, ai medesimi, di analizzare e di 
77 “a) a conversão ou transferência de bens feita com o conhecimento de que 
tais bens provêm de uma actividade criminosa ou da participação em tal 
atividade, com o propósito de ocultar ou dissimular a origem ilícita dos 
bens ou ajudar qualquer pessoa que está envolvida nessa atividade para 
fugir das consequências legais de suas ações;
 b) a ocultação ou dissimulação da verdadeira natureza, origem, localiza-
ção, disposição, movimentação ou propriedade de direitos de propriedade 
com respeito, feitas com conhecimento de que tais bens provêm de uma 
actividade criminosa ou da participação em tal atividade;
 c) a aquisição, posse ou utilização de bens, sabendo, no momento de recep-
ção, de que esses bens provêm de uma actividade criminosa ou da partici-
pação em tal atividade;
 d) participação em qualquer um dos actos referidos, a associação para co-
meter, tenta cometer, o fato de ajuda, a cumplicidade ou aconselhar alguém 
a cometê-lo ou o fato da facilidade de implementação.
 2. Reciclagem é considerado como tal, mesmo que as actividades que gera-
ram o produto a ser lavados foram realizadas no território de um outro país 
da União Europeia ou de um país terceiro.
 3. O conhecimento, a intenção ou a motivação, enquanto um elemento das 
actividades referidas no n º 1, pode ser inferida a partir de circunstâncias 
factuais objectivas”.(Tradução livre). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
comunicare alle autorità competenti le informazioni che riguardano ipo-
tesi di riciclaggio o di finanziamento del terrorismo78”. (ITÁLIA, 2011).
Portanto, a Itália também se adequou às recomendações 
internacionais, alterando a legislação com medidas mais se-
veras e bem mais extensivas da noção do crime de riciclaggio.
2.3 A tipificação do crime de Lavagem 
de Dinheiro no Brasil
O Brasil possui uma legislação tardia em relação à incrimi-
nação do crime de lavagem de dinheiro. Somente em 1998 entrou 
em vigor a Lei 9613, que atendeu o disposto no decreto 154, de 
26.06.1991, no qual o Brasil cumpria às recomendações da Conven-
ção de Viena de 1988. O Brasil seguiu as diretrizes internacionais, 
no sentido de que cada um dos países membros deveria adotar 
as medidas necessárias para caracterizar como delitos penais em 
seu direito interno, quando cometidos internacionalmente: 
(...) i) a conversão ou a transferência de 
bens, com conhecimento de que tais bens 
são procedentes de algum ou alguns dos 
delitos estabelecidos no inciso a) deste pa-
rágrafo, ou prática do delito (...) ou enco-
brir a origem ilícita dos bens ou de ajudar 
a qualquer pessoa que participe na prática 
do delito ou delitos em questão, para fugir 
das consequências jurídicas de seus atos; 
ii) a ocultação ou encobrimento da natu-
reza, origem, localização, destino, movi-
mentação ou propriedade verdadeira dos 
bens, sabendo que procedem de algum 
78 “a unidade de inteligência financeira é a organização nacional responsável 
por receber pelas partes responsáveis , para pedir, para eles, análise e 
divulgação às autoridades competentes as informações de que tratam de 
lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo”. (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
ou alguns dos delitos mencionados no 
inciso a) deste paragráfo ou de participa-
ção no delito pindéricos em questão (..). 
(BRASIL, 2012).
A fundamentação foi a mesma constante na Convenção de 
Viena, a de que a incriminação da lavagem seria uma forma de 
desencorajar a reiteração de crimes, diante da dificuldade que 
as medidas preventivas podem criar ao acesso a valores ilícitos, 
bem como uma forma de descapitalizar a indústria do crime:
a estratégia parece ser a de se enfrentar 
o crime sob uma perspectiva econômi-
ca, vale dizer, de se aumentar o custo do 
crime para obsequiador, já que existe a 
majoração onde penas com a prática de 
um delito que se soma ao antecedente. 
Almeja-se, assim, desestimular a prática 
do ilícito inicial, criando-se, com a amea-
ça da imposição de mais punição, condi-
ções desfavoráveis, de modo a conduzir o 
agente para outra direção que não seja a 
do crime. (OLIVEIRA, 1999, p. 143).
Originariamente, a lei brasileira optou 
por uma solução intermediária em rela-
ção à previsão dos crimes precedentes. 
Trouxe um rol de crimes antecedentes, 
mas, ao mesmo tempo, de uma forma 
abrangente, como antecedente a qualquer 
crime praticado por organização crimi-
nosa, desde a mencionada convenção às 
primeiras legislações que tipificavam os 
crimes de lavagem de dinheiro, trazendo 
de forma diversa os crimes precedentes.
De acordo com Tigre Maia (1999, p. 68), a 
classificação das leis como de primeira, 
segunda ou terceira geração foi feita por 
| 131 |
A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Gunther Artz, ao analisar a lei america-
na. O autor entendeu que na primeira 
geração ainda não se falava de tipo es-
pecífico, a repressão ao uso do produto 
era efetivada através da imputação de 
crimes, como conspiração falsa, recepta-
ção, favorecimento e, após a Convenção 
de Viena, com o tráfico ilícito de entor-
pecentes como precedente. As leis de 
segunda geração seriam marcadas pela 
vinculação a um crime anterior passível 
de punição, em rol predeterminado. De 
terceira geração seriam aquelas com a 
inexistência de crime precedente. 
Dessa forma, na lei brasileira originária, se-
ria de segunda geração, por haver um rol 
taxativo, mas, ao admitir como antecedente 
qualquer crime em organização criminosa, 
seria um sistema “misto”. (PRADO,2007).
Essa foi, inicialmente, a opção brasilei-
ra, a de ficarmos no meio do caminho 
entre a segunda e a terceira legislação. 
Essa opção foi utilizada 
porque aqui no Brasil não se tinha expe-
riência alguma na persecução, investiga-
ção e incriminação de crimes dessa na-
tureza, e se resolvêssemos tipificar como 
lavagem de dinheiro os valores oriun-
dos de todos os crimes, a dificuldade de 
aplicação e de produção de prova seria 
uma forma de banalização da legislação 
brasileira. Essa foi uma decisão política 
no sentido gradual, ou seja, o compro-
misso do legislador não era, portanto, 
com a consciência retórica e acadêmica 
do sistema, mas sim com a viabilidade 
| 132 |
Daniela Villani Bonaccorsi
prática de realização do próprio sistema. 
(JOBIM, 1999, p. 18). 
O Brasil adotou, conforme exposição de motivos 692 de 
18.12.1996, publicada em 25.11.1997, o termo “lavagem de di-
nheiro”, preocupando-se com a ação empregada, com o proces-
so de dissimulação ou ocultação dos bens, direitos ou valores 
oriundos do crime precedente. A expressão “lavagem” veio de 
uma opção política. Por um lado, havia a expressão “branqua-
mento”, como na Espanha e Portugal. Essas legislações optaram 
pela denominação e tipificação do crime com amparo no resul-
tado visado pelo agente, a “limpeza” dos valores em si. Nesses 
países a tradução seria de “branqueamento de dinheiro”. 
Por outro lado, a expressão americana e alemã (“money 
laundering” e “gueldwaschen”) tiveram sua denominação e tipi-
ficação com um enfoque na ação de lavagem e na conduta que 
produz o resultado pretendido. 
O Brasil levou em consideração a expressão utilizada no 
meio financeiro e no meio popular, adotando uma posição in-
termediária, pois abrange tanto a lavagem quanto a ocultação 
de bens e valores e, por se tratar de um país multirracial, ten-
tou-se evitar interpretações e críticas do termo branqueamento.
A legislação brasileira optou, como mencionado, inicial-
mente pelo segundo modelo, conforme Exposição de Motivos 
692 (PLS nº 209/2003 e PL nº 3443/2008), que vincula o Brasil 
nos países de segunda geração, ao exigir prévia infração pe-
nal para sua caracterização. Mas, apesar de delimitar os crimes 
precedentes, ao mesmo tempo também admite qualquer mo-
dalidade de crime praticado por organização criminosa para 
sua caracterização, de forma a trazer um rol mais abrangente. 
Adotou-se um sistema, portanto, peculiar, podendo-se utilizar 
a caracterização de sistema misto. (PRADO, 2004, p. 248)79.
79 “LEI Nº 9.613, DE 3 DE MARÇO DE 1998. Dispõe sobre os crimes de 
“lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores; a prevenção da utilização 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
O conceito de lavagem de dinheiro no Brasil seguiu, nos 
termos do GAFI - O Corpus Juris28 –, a proposta de harmoni-
zação da legislação penal e processual penal da Europa, que 
apresenta a seguinte definição de lavagem de dinheiro: 
“Define-se como infração penal a lava-
gem dos produtos ou dos ganhos prove-
nientes das infrações penais constantes 
dos arts. 1 a 6. Por lavagem se entenderá: 
(a) a conversão ou a transferência de bens 
procedentes de algumas das atividades 
contempladas no item precedente, ou a 
participação em uma dessas atividades, 
com a finalidade de dissimular ou de 
ocultar a sua origem ilícita ou de auxi-
liar qualquer pessoa implicada na citada 
atividade a elidir as consequências jurídi-
cas de seus atos; (b) a dissimulação ou a 
ocultação da natureza, origem, situação, 
disposição, movimento ou propriedade 
reais dos bens ou dos direitos a eles rela-
do sistema financeiro para os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de 
Controle de Atividades Financeiras - COAF, e dá outras providências.
 O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Faço saber que o Congresso Nacional 
decreta e eu sanciono a seguinte Lei: CAPÍTULO I- Dos Crimes de “Lavagem” 
ou Ocultação de Bens, Direitos e Valores.
 Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, 
movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta 
ou indiretamente, de crime: I - de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes 
ou drogas afins; II – de terrorismo e seu financiamento; (Redação dada pela 
Lei nº 10.701, de 9.7.2003) III - de contrabando ou tráfico de armas, munições 
ou material destinado à sua produção; IV - de extorsão mediante sequestro; 
V - contra a Administração Pública, inclusive a exigência, para si ou para 
outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição 
ou preço para a prática ou omissão de atos administrativos; VI - contra o 
sistema financeiro nacional; VII - praticado por organização criminosa. VIII – 
praticado por particular contra a administração pública estrangeira (arts. 337-
B, 337-C e 337-D do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código 
Penal). (Inciso incluído pela Lei nº 10.467, de 11.6.2002)
 Pena: reclusão de três a dez anos e multa”. (BRASIL, 1998).
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Daniela Villani Bonaccorsi
tivos procedentes de uma das atividades 
criminais contempladas no item prece-
dente ou a participação em uma delas” 
(art. 7.1). (GALVÃO; TOMI, 1999, p.9).
Como se vê, no próprio conceito utilizado como lavagem 
de dinheiro, esta constitui não um único ato, mas um con-
junto de operações comerciais ou financeiras que buscam a 
incorporação na economia dos recursos, bens ou serviços que 
se originam ou estão ligados a atos ilícitos.
Explica Dalbora: “o conjunto de atos de favorecimento, por 
ocultação, conversão ou transferência, e de aproveitamento, para 
si ou para outrem, de bens de significação econômica e que pro-
cedem de delitos graves”. (GUZMÁN DALBORA, 2000, p. 14). 
Assim, a lavagem de dinheiro é a ocultação, dissimula-
ção ou incorporação de dinheiro, bens ou capitais provenien-
tes de crime ao círculo econômico-financeiro legal ou lícito.
O lucro, de origem sempre ilícita (precedente de delitos 
que se revestem de especial gravidade, na lei originária, e atu-
almente qualquer infração penal), é investido, ocultado, substi-
tuído ou transformado e restituído aos circuitos econômico-fi-
nanceiros legais, incorporando-se em qualquer tipo de negócio 
como se fosse obtido de forma lícita. (GOMEZ, 1996, p. 50).
Em breve análise do tipo penal, o delito de lavagem de 
dinheiro, nos termos da lei brasileira, consiste em “ocultar ou 
dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movi-
mentação ou propriedade de bens, direitos ou valores prove-
nientes, direta ou indiretamente, de crime”, art. 1°, caput, Lei 
9613/98 – Lei de Lavagem de Dinheiro. 
Nessa primeira modalidade, o agente altera a natureza ilí-
cita do dinheiro, bem ou valor. Assim, a tipicidade objetiva das 
condutas trazidas no art. 1 é de ocultar ou dissimular, no sentido 
de esconder, encobrir, dificultar inconsciente de sua situação ju-
rídica e local (PRADO, 2007, p. 442), ou encobrir, disfarçar. 
Os núcleos mencionados se referem à natureza, ou seja, es-
sência, especificidade; origem, no sentido da procedência; dispo-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
sição, emprego, uso ou utilização, gratuita ou onerosa; movimen-
tação, como deslocamento, mudança, circulação ou propriedade.
O núcleo do tipo básico é aquele que “oculta ou dissimu-
la” a origem ilícita dos valores oriundos de crime antecedente.
Ocultar teria o sentido de esconder, não demonstrar, en-
cobrir (PRADO, 2007,p. 249), e a dissimulação já envolveria 
uma certa astúcia, engano, de forma a tornar imperceptível 
ou invisível a origem ilícita. (PRADO, 2007, p. 249; SIVA SÁN-
CHEZ, 2000, p. 238)
Prevê, ainda, o mencionado tipo penal, na segunda par-
te, ao tratar de formas equiparadas, a hipótese de que o agente 
se utiliza de qualidade no sistema econômico para garantir 
a ocultação ou dissimulação (art. 1º, §2º, inciso I); a conduta 
daqueleque concorre para a ocultação ou dissimulação, alte-
rando a natureza ilícita dos bens, direitos ou valores; daquele 
que se utiliza de sua privilegiada posição laboral no mercado 
financeiro ou econômico para garantir a ocultação ou dissi-
mulação de capitais e, por último, abrange o tipo penal a con-
duta de associação que se institui para a prática de crimes, de 
forma a viabilizar a lavagem de dinheiro. 
Pode ocorrer o crime, de acordo com o tipo penal, com a 
conversão em ativos para obterem a aparência de lícitos de ne-
gociação desses ativos, superfaturamento. Após a prática do cri-
me antecedente, há o “branqueamento” do produto da conduta 
delituosa, dando-lhe aparência lícita e inserindo-o na economia. 
No crime de lavagem de capitais, os núcleos do tipo ocul-
tar e dissimular restam configurados com a prática, por exem-
plo, de ocultação de bem. Independentemente de resultado 
naturalístico, estaria consumado o delito. Por isso, os teóricos 
possuem opiniões diversas quanto a sua classificação como 
crime material, formal ou de mera conduta. 
Jobim (1999), em seminário referente à lei de lavagem de 
dinheiro, justificou se tratar de crime material, dizendo que 
“a movimentação dos valores provenientes de crime, por si 
sós, trariam resultado ofensivo à administração da justiça e 
da ordem econômica”. (JOBIM, 1999, p.18). Também Nucci 
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Daniela Villani Bonaccorsi
(2007, p. 716) entende tratar-se de crime material, afirmando 
que o núcleo do tipo “ocultar”, assim como no crime de recep-
tação, previsto no art. 180 do Código Penal brasileiro, envolve-
ria uma alteração naturalística.
Tigre Maia (1999, p. 81), já entendendo de forma diversa, 
afirma que ainda que os núcleos do tipo possam implicar re-
sultado naturalístico. Ainda fundamenta que “não estariam 
dissociados cronologicamente daquelas ações em si mesmas”, 
daí, diante da possibilidade da consumação com a prática de 
uma das condutas descritas, entende ser crime formal:
No crime de lavagem de dinheiro, o iter 
criminis normalmente terá por ato inicial 
a tradição ou a disposição direta ou in-
direta de qualquer dos objetos materiais 
que o agente sabe de antemão ser produto 
de uma das categorias de crime enuncia-
das, e será consumado instantaneamente 
com a prática de quaisquer das condutas 
objetivamente habilitadas a ocultar ou 
dissimular sua natureza, origem, locali-
zação ou disposição, movimentação ou 
propriedade. Cuida-se, pois, de delito 
formal que se perfaz com a simples rea-
lização das ações de ocultar ou dissimu-
lar determinado atributos (natureza etc). 
(TIGRE MAIA, 1999, p. 93)80.
Já para Prado (2007, p. 251) seria crime de mera condu-
ta, pois a consumação se dá com a realização das condutas de 
ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, dis-
posição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou 
valores provenientes, direta ou indiretamente, de algum dos 
crimes previstos nesse artigo. 
80 Também afirmam tratar-se de crime formal Barros, 2004, p. 102; Mendroni, 
2006, p. 33; Gomes, 2002, p. 78.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Entende-se que essa é a posição mais coerente, pois a consu-
mação do crime de lavagem de dinheiro se dá desde o primeiro 
ato, no momento em que o lucro proveniente de crime anterior é, 
por exemplo, inserido no sistema financeiro, assim, não obstante 
existir um possível resultado naturalístico, entende-se que o tipo 
penal sequer o prevê e, se o há, seria em relação a bem jurídico 
previsto em lei diversa. Portanto, é possível que o agente efetue 
a colocação dos recursos com vistas à clandestinidade, introdu-
zindo-o na conta de uma pessoa fictícia no sistema financeiro 
nacional, não sendo necessário que o agente integre os valores 
na economia nacional para que se tenha por consumado o crime.
Não há necessidade de que o objeto jurídico imerso no 
tipo seja lesado; o perigo é presumido, ainda que não se tenha 
comprovação da probabilidade concreta do dano, se há a con-
sumação do delito. O tipo penal do crime de lavagem de di-
nheiro enumera inúmeros núcleos do tipo, de modo que um 
deles já seria suficiente para se ter por consumado o crime.
Na Espanha, também se entende tratar-se de crime de 
mera conduta e de perigo abstrato (ARÁNGUEZ SÁNCHEZ, 
2000, p. 251; GÓMEZ INIESTA, 1996, p. 65). A lesão a bem ju-
rídico seria presumida.
Ora, se a consumação se dá com uma das condutas, no 
momento em que o agente deposita valores ilícitos em conta de 
terceiro, mesmo em seguida interrompendo outros atos, o cri-
me já estaria configurado. Se a conduta é interrompida quan-
do o sujeito acaba por depositar os valores na conta da pessoa 
fictícia, já estará consubstanciada a conduta de “dissimular” a 
origem desses valores, de acordo com esse entendimento. 
A Lei traz expressamente a previsão da tentativa. A Con-
venção de Viena de 1988 e a Convenção da ONU (Decreto n. 
5687/2003), além de proporem a tipificação e uma unidade na 
persecução e investigação, propunham a punição da tentati-
va, o que acabou por ser mais uma questão política do que 
de configuração material, diante das mencionadas discussões 
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Daniela Villani Bonaccorsi
quanto à natureza do crime de lavagem de capitais como ma-
terial, formal ou de mera conduta.
Outra característica importante é a autonomia desse tipo 
penal perante os crimes antecedentes. Trata-se de tipo deferi-
do, ou seja, a configuração do crime de lavagem fica condicio-
nada à existência de um delito antecedente. (PRADO, 2007). 
A relação do crime de lavagem de dinheiro, tratando-se 
de tipo acessório e do crime antecedente, decorre de uma 
prática de delito anterior, ou seja, somente ocorrerá o crime 
de lavagem se anteriormente ocorrer uma conduta crimino-
sa, razão pela qual se afirma o caráter subsidiário ou acessó-
rio do branqueamento (SANTIAGO, 1994b; PODVAL, 2000). 
Os imputados pelo crime de lavagem de dinheiro podem ser 
processados, julgados e condenados pela prática da lavagem 
de dinheiro sem que o tenham sido anteriormente por qual-
quer dos delitos constantes no caput do artigo 1º, conforme 
art. 2º da mencionada Lei81. 
Ou seja, a denúncia da lavagem de dinheiro, de acordo com 
o mencionado dispositivo, seria oferecida a partir de indícios su-
ficientes da existência do crime antecedente, sendo puníveis os 
fatos previstos na Lei de Lavagem, ainda que desconhecido ou 
isento de pena o autor daquele crime (artigo 2º, §1º)82.
A grande peculiaridade é que no processo do crime de 
lavagem não há necessidade de produção de prova do crime 
81 A autonomia do crime precedente na lavagem será abordada com maior 
profundidade em capítulo referente à denúncia no crime de lavagem de 
dinheiro, em virtude da relação direta que se pretende demonstrar, da au-
tonomia do crime precedente e das imputações alternativas ou genéricas 
nas acusações do crime de lavagem de dinheiro.
82 “Art. 2º O processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei: II - 
independem do processo e julgamento dos crimes antecedentes referidos 
no artigo anterior, ainda que praticados em outro país”. (BRASIL, 2005).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
antecedente, mas apenas prova suficiente, mesmo circunstan-
cial ou indiciária. (BALTAZAR JUNIOR, 2007, p. 121) 83.
Para a presente pesquisa, entende-se que a análise apro-
fundada do tipo penal e seus elementos não teria maior sen-
tido, sendo suficiente a compreensão do conceito e da ideia 
da lavagem no Brasil, mas do bem jurídico tutelado, para que 
seja possível a visão da lavagem de dinheiro como desdobra-
mento do crime precedente.
2.4 Medidas Preventivas para Lavagem 
de Dinheiro no Brasil
Atendendo a recomendações internacionais, o Brasil as-
sim como os mencionados países trouxeram, na própria lei 
de lavagem de dinheiro, uma maior rigidez e controle nas 
atividades financeiras.No Brasil, o controle de atividades financeiras visando à 
prevenção ao crime veio com a criação do COAF - Controle de 
Atividades Financeiras. O COAF é órgão integrante do Minis-
tério da Fazenda, com a finalidade, conforme art. 14 da Lei nº 
9613/98, de coordenar mecanismos de cooperação e de troca de 
informações que viabilizem ações rápidas e eficientes no com-
bate à lavagem de dinheiro, disciplinar e aplicar penas adminis-
trativas e receber, examinar e identificar ocorrências suspeitas:
Com relação às medidas preventivas, a 
legislação brasileira, ao designar autori-
dades competentes apropriadas para su-
pervisionar as instituições financeiras, 
cumpre os requisitos para uma maior 
vigilância de atividades financeiras sus-
peitas ou incomuns, ou ainda transações 
83 A questão do delito antecedente será abordada no capítulo IV de forma 
mais aprofundada, diante da repercussão que possui no âmbito processual.
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Daniela Villani Bonaccorsi
envolvendo jurisdições com regimes 
deficientes de combate à lavagem de di-
nheiro e ao financiamento ao terrorismo. 
A conservação de documentos, os dispo-
sitivos legais, a execução da lei e a au-
toridade dos supervisores para aplicar 
sanções são bastante abrangentes, além 
de estar mostrando ótimos resultados. 
(COAF, 2012).
Uma vez que a lavagem de dinheiro, de forma geral, 
abrange a movimentação de valores vultosos84, esses fatal-
mente acabariam por passar pela economia formal, pelo sis-
tema financeiro. Com um maior controle, o objetivo é evitar 
que o valor proveniente do crime anterior possa ser bran-
queado, e, consequentemente, perdido de vista.
A lei brasileira trazia, desde a lei originária, um rol exaustivo 
de pessoas pbrigadas a informar ao COAF atividades financeiras 
suspeitas, bem como manter dados atualizados de seus clientes.
O foco foi instituições financeiras ou pessoas que pela 
natureza de suas atividades tenham acesso a valores nume-
rosos, quer sejam pagos em valor pecuniário ou não tenham 
valor fixo na prestação de serviços, uma espécie de compliance, 
ou seja, regras de cumprimento de obrigações.
Também visando à prevenção do crime, a Carta Circular 
BACEN n. 2826/9885 lista uma série de atividades suspeitas as 
84 Os meios de execução do crime de lavagem de dinheiro mais utilizados 
bem como as fases do processo serão descritas em capítulo próprio.
85 “A realização das operações ou a verificação das situações abaixo descritas, 
considerando as partes envolvidas, os valores, as formas de realização, 
os instrumentos utilizados ou a falta de fundamento econômico ou legal, 
podem configurar indício de ocorrência dos crimes previstos na Lei n. 
9.613, de 03.03.98, tendo em vista o disposto nos arts. 2., parágrafo único, 
e 4., “caput”, da Circular n. 2.852, de 03.12.98: I - situações relacionadas 
com operações em espécie ou em cheques de viagem: a) movimentação 
de valores superiores ao limite estabelecido no art. 4., inciso I, da Circular 
n. 2.852/98, ou de quantias inferiores que, por sua habitualidade e forma, 
configurem artifício para a burla do referido limite; b) saques a descoberto, 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
com cobertura no mesmo dia; c) movimentações feitas por pessoa física 
ou jurídica cujas transações ou negócios normalmente se efetivam 
por meio da utilização de cheques ou outras formas de pagamento; d) 
aumentos substanciais no volume de depósitos de qualquer pessoa 
física ou jurídica, sem causa aparente, em especial se tais depósitos são 
posteriormente transferidos, dentro de curto período de tempo, a destino 
anteriormente não relacionado com o cliente; e) depósitos mediante 
numerosas entregas, de maneira que o total de cada depósito não é 
significativo, mas o conjunto de tais depósitos o é; f) troca de grandes 
quantidades de notas de pequeno valor por notas de grande valor; g) 
proposta de troca de grandes quantias em moeda nacional por moeda 
estrangeira e vice-versa; h) depósitos contendo notas falsas ou mediante 
utilização de documentos falsificados; i) depósitos de grandes quantias 
mediante a utilização de meios eletrônicos ou outros que evitem contato 
direto com o pessoal do banco; j) compras de cheques de viagem e cheques 
administrativos, ordens de pagamento ou outros instrumentos em 
grande quantidade - isoladamente ou em conjunto -, independentemente 
dos valores envolvidos, sem evidências de propósito claro; 
l) movimentação de recursos em praças localizadas em fronteiras; 
II - situações relacionadas com a manutenção de contas correntes: a) 
movimentação de recursos incompatíveis com o patrimônio, a atividade 
econômica ou a ocupação profissional e a capacidade financeira presumida 
do cliente; b) resistência em facilitar as informações necessárias para 
a abertura de conta, oferecimento de informação falsa ou prestação 
de informação de difícil ou onerosa verificação; c) atuação, de forma 
contumaz, em nome de terceiros ou sem a revelação da verdadeira 
identidade do beneficiário; d) numerosas contas com vistas ao acolhimento 
de depósitos em nome de um mesmo cliente, cujos valores, somados, 
resultem em quantia significativa; e) contas que não demonstram ser 
resultado de atividades ou negócios normais, visto que utilizadas para 
recebimento ou pagamento de quantias significativas sem indicação clara 
de finalidade ou relação com o titular da conta ou seu negocio; f) existência 
de processo regular de consolidação de recursos provenientes de contas 
mantidas em varias instituições financeiras em uma mesma localidade 
previamente as solicitações das correspondentes transferências; g) retirada 
de quantia significativa de conta até então pouco movimentada ou de 
conta que acolheu depósito inusitado; h) utilização conjunta e simultânea 
de caixas separados para a realização de grandes operações em espécie 
ou de câmbio; i) preferência a utilização de caixas-fortes, de pacotes 
cintados em depósitos ou retiradas ou de utilização sistemática de cofres 
de aluguel; j) dispensa da faculdade de utilização de prerrogativas como 
recebimento de crédito, de altos juros remuneratórios para grandes saldos 
ou, ainda, de outros serviços bancários especiais que, em circunstâncias 
normais, seriam valiosas para qualquer cliente; l) mudança repentina e 
aparentemente injustificada na forma de movimentação de recursos e/ou 
nos tipos de transação utilizados; m) pagamento inusitado de empréstimo 
problemático sem que haja explicação aparente para a origem dos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
recursos; n) solicitações frequentes de elevação de limites para a realização 
de operações; o) atuação no sentido de induzir funcionário da instituição 
a não manter, em arquivo relatórios específicos sobre alguma operação 
realizada; p) recebimento de recursos com imediata compra de cheques 
de viagem, ordens de pagamento ou outros instrumentos para a realização 
de pagamentos a terceiros; q) recebimento de depósitos em cheques e/
ou em espécie de várias localidades, com transferência para terceiros; r) 
transações envolvendo clientes não residentes; s) solicitação para facilitar 
a concessão de financiamento - particularmente de imóveis - quando a 
fonte de renda do cliente não está claramente identificada; t) abertura e/
ou movimentação de conta por detentor de procuração ou qualquer outro 
tipo de mandato; u) abertura de conta em agência bancária localizada em 
estação de passageiros - aeroporto, rodoviária ou porto - internacional ou 
pontos de atração turística, salvo se por proprietário, sócio ou empregado 
de empresa regularmente instalada nesses locais; v) proposta de abertura 
de conta corrente mediante apresentação de documentos de identificação e 
número do Cadastro de Pessoa Física (CPF) emitidos em região de fronteira 
ou por pessoa residente, domiciliada ou que tenha atividade econômica em 
países fronteiriços; x) movimentação de contas correntes queapresentem 
débitos e créditos que, por sua habitualidade, valor e forma, configurem 
artifício para burla da identificação dos responsáveis pelos depósitos e 
dos beneficiários dos saques; III - situações relacionadas com atividades 
internacionais: a) operação ou proposta no sentido de sua realização, com 
vínculo direto ou indireto, em que a pessoa estrangeira seja residente, 
domiciliada ou tenha sede em região considerada paraíso fiscal, ou em 
locais onde é observada a prática contumaz dos crimes previstos no art. 
1. da Lei n. 9.613/98; b) solicitação de facilidades estranhas ou indevidas 
para negociação de moeda estrangeira; c) operações de interesse de pessoa 
não tradicional no banco ou dele desconhecida que tenha relacionamento 
bancário e financeiro em outra praça; d) pagamentos antecipados de 
importação e exportação por empresa sem tradição ou cuja avaliação 
financeira seja incompatível com o montante negociado; e) negociação com 
ouro por pessoas não tradicionais no ramo;
 f) utilização de cartão de credito em valor não compatível com a 
capacidade financeira do usuário; 
 g) transferências unilaterais frequentes ou de valores elevados, especialmente 
a título de doação; IV - situações relacionadas com empregados das 
instituições e seus representantes: a) alteração inusitada nos padrões de 
vida e de comportamento do empregado ou representante; b) modificação 
inusitada do resultado operacional do empregado ou representante; c) 
qualquer negócio realizado por empregado ou representante - quando 
desconhecida a identidade do último beneficiário -, contrariamente 
ao procedimento normal para o tipo de operação de que se trata. (...) II - 
deve ser considerado o conjunto de movimentações financeiras ativas e 
passivas realizadas no País, como, por exemplo: a) depósitos de qualquer 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
quais instituições financeiras devem acompanhar, registrar e co-
municar ao Banco Central como alterações substanciais na rotina 
da conta bancária; grande atividade por wire transfer; operações 
sem sentido econômico; uso de várias contas simultaneamente; 
movimentação incompatível com o negócio ou a profissão; rela-
ções com paraísos fiscais; estruturação de operações com fracio-
namento de depósitos ou remessas; recusa em informar origem 
de recursos ou a própria identidade; inconsistência documental.
Atendendo a recomendações do GAFI, em julho de 2012 
entrou em vigor a nova lei de lavagem de dinheiro, que, den-
tre as medidas preventivas, alterou o art. 9º da Lei originária, 
incluindo uma série de profissionais na obrigatoriedade de 
informações suspeitas, dentre eles, o Advogado, conforme 
será discutido no capítulo seguinte.
2.5 A nova lei de Lavagem de Dinheiro: 
“excesso” e “banalização”
Em 8 de maio de 2008, o Senado Federal aprovou o Proje-
to de Lei do Senado (PLS) n. 209/2003, que dava nova redação 
a dispositivos da Lei n. 9.613, de 3 de março de 1998, objetivan-
do tornar mais eficiente a perseguição penal dos crimes de la-
vagem de dinheiro. Poucos dias depois, o projeto seguiu para 
a Câmara dos Deputados, tendo tomado o número 3.443/2008. 
O projeto tem estreita ligação com compromissos internacio-
nais assumidos pelo Brasil, como o das recomendações do 
espécie; b) colocação de títulos de emissão própria ou de quotas de fundos 
de investimento; c) venda de metais preciosos; d) venda de cheques 
administrativos ou de viagem; e) ordens de pagamento; f) pagamento ou 
amortizações antecipadas de empréstimos; III - relativamente às operações 
que envolvam transferências internacionais, bem como aquelas relacionadas 
a pagamentos e recebimentos em decorrência da utilização de cartão de 
credito de validade internacional, devem ser observados os procedimentos 
de registro no SISBACEN e de envio de informações ao Banco Central do 
Brasil, estabelecidos nas normas cambiais em vigor. (...)”. (BRASIL, 2012).
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Daniela Villani Bonaccorsi
grupo de ação financeira internacional (GAFI). Também, vi-
sando atender a compromissos internacionais firmados pelo 
Brasil, apesar de não se destacar como Estados Unidos e ou-
tros países da Europa como alvo do terrorismo, tipificou o 
delito de financiamento a ações ou organizações terroristas.
No dia 09 de julho de 2012 foi sancionada a Lei nº 12683/12, 
que alterou a Lei nº 9613/98, a antiga lei de lavagem de dinheiro. 
A alteração, conforme a própria lei originária, foi justi-
ficada como forma de incorporar recomendações internacio-
nais acerca do tema e fortalecer o controle administrativo de 
setores visados para reciclagem de capitais. Desde o título da 
Lei, a mesma justifica o reforço na persecução penal dos cri-
mes de Lavagem de Dinheiro: 
La nueva regulacion brasilena sobre el “ la-
vagem de dinheiro” és una clara mestra de lá 
marcha inexorable del delito de blanqueo de 
capitales por los ordenamientos jurídicos de 
todo el mundo. Como el propio enunciado, lá 
ley indica, se trata de haver mas eficiente lá 
persecucion del delito de blanqueo, y preci-
samente cuando se unen ‘ eficiencia’ y ‘per-
secucion’ los Pilates del Estado del Derecho 
corren riesgo de sufrir un grave atentado. 
(DIEZ, 2012, p. 11).
Como característica das leis emergencialistas, é clara ma-
nifestação de expansionismo penal, com o escopo de combater 
a grande criminalidade, criando dispositivos exagerados, tal 
qual a punição de contravenção penal como crimes preceden-
tes e criticáveis, como a alienação antecipada e a obrigatorieda-
de do advogado para informar dados suspeitos de seus clientes 
ao COAF, conforme mencionado na nova lei espanhola “si se 
exigira a todos los particulares que reportaran directamenre al Estado 
muchas de essa actividades, se consideraria que se traspasa intolera-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
blemente el ambito de lá liberdad del ciudadano-esto és, se trataria de 
un Estado excesivamente intervencionista”. (DIEZ, 2012, p. 11)
A justificativa de alteração diante de recomendações in-
ternacionais na realidade é verdadeira crítica quanto ao Bra-
sil no relatório da última avaliação do GAFI. O Brasil teve 
uma série de críticas, dentre as quais:
1) Poucas condenações finais por lava-
gem de dinheiro;
2) Problemas sistêmicos no sistema judici-
ário dificultam seriamente a capacidade 
de se obter condenações finais e penas;
3) Pequena variedade de crimes prece-
dentes.
4) Falta de responsabilização civil ou ad-
ministrativa direta às pessoas jurídi-
cas por lavagem de dinheiro.
5) O número de confiscos é muito baixo, 
dado o tamanho da economia e o risco 
da lavagem de dinheiro.
6) Os sistemas de gerenciamento de ati-
vos são deficientes, o que deprecia os 
bens apreendidos.
7) A não colocação de advogados, tabe-
liães, outras profissões jurídicas inde-
pendentes, contadores, prestadores de 
serviços de assessoria e consultoria de 
empresas e corretores de imóveis pes-
soas físicas como “pessoas obrigadas”.
8) As instituições financeiras não são ex-
pressamente proibidas de estabelecer 
ou manter relações de correspondência 
bancária com bancos “ de fachada” e;
9) As estatísticas insuficientes sobre in-
vestigações, denúncias e condenações 
por lavagem de dinheiro, bem como 
o número de casos e valores confisca-
dos. (SAADI, 2012, p. 7).
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Daniela Villani Bonaccorsi
No marco das Nações Unidas, a convenção contra o cri-
me organizado transacional, de novembro de 2000, em seu 
art. 6º, já exigia das partes a ampliação da tipificação dos atos 
de lavagem a um maior número possível de delitos. O Brasil 
incialmente, pela falta de experiência em crimes dessa na-
tureza, optou por um rol originariamente limitado (JOBIM, 
1999), e, inicialmente, caracterizado como lei de segunda ge-
ração, apesar de alguns o caracterizarem, na realidade, como 
um sistema misto. (PRADO,2007).
Dessa forma, a primeira grande inovação foi a supres-
são da lista anterior de crimes precedentes. A abertura do 
antigo rol passou a abranger qualquer infração penal, inclu-
sive as contravenções penais. 
Ampliou-se significativamente o tipo penal de branque-
amento de capitais. Não há mais uma lista fechada de crimes 
antecedentes. Qualquer infração, e não mais crimes com po-
tencial, na visão do legislador, para gerar ativos ilícitos pode 
ser antecedente da lavagem de dinheiro.
O novo enquadramento normativo da la-
vagem de dinheiro situa o país entre as 
nações que cumprem, neste aspecto, as 40 
recomendações do GAFI, Grupo de Ação 
Financeira Internacional, que foram revi-
sadas em fevereiro de 2012, para exigir que 
os crimes fiscais (tax crimes) sejam tambem 
expressamente delitos antecedentes. Estes 
foram expressamente incluídos na lista 
mínima de infrações penais antecedentes 
a que se refere nota 40 da recomendação 3 
do GAFI. (ARAS, 2012, p. 5).
Vale mencionar que não só se eliminou o rol de crimes 
antecedentes, como se passou a admitir qualquer delito como 
antecedente, inclusive as contravenções. “As contravenções 
cujas penas são menos severas e consideradas crimes de pe-
queno potencial ofensivo, ao serem previstas como crime pre-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
cedentes, acabam por gerar uma grande contradição Haverá 
situações em que o autor do crime precedente, como a contra-
venção de jogos de azar, estará sujeito a uma pena de três a 
dez anos, quando a do crime principal seria de três meses a 
um ano. Parece não ter havido parâmetro na nova lei.
Apesar da fundamentação em atender recomendações inter-
nacionais, afastou-se a nova lei da própria Convenção de Palermo, 
que demanda crimes de especial gravidade. (ARAS, 2012, p. 5).
Além da contradição existente na contravenção, a inclusão 
dos crimes tributários também irá gerar dúvidas, pois qual será a 
consequência no crime de lavagem de dinheiro queimado extin-
ta a punibilidade pelo pagamento de imposto86? Nos termos na 
nova lei, apesar de nem mesmo ser fato punível, subsistiria a lava-
gem de capitais, nos termos do art. 2, II, “sua ação penal indepen-
de do processo e julgamento das infrações penais antecedentes”.
Também, a nova lei manteve a expressão “crime organiza-
do”, embora tenha sido suprimido seu inciso VII. O parágrafo 4º 
mantém a causa especial de aumento de pena quando se tratar 
de crime cometido por intermédio de organização criminosa. Não 
obstante a discussão quanto ao conceito de organização crimino-
sa, previsto no art. 2 da Convenção das Nações Unidas contra o 
crime organizado transacional (Convenção de Palermo), a altera-
ção evita a discussão quanto a sua tipicidade, que veio à discussão 
no HC 96.00787, no qual o STF decidiu não ser possível imputar o 
86 Art. 9º Lei 10684/03- “§ 2o Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos 
neste artigo quando a pessoa jurídica relacionada com o agente efetuar 
o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos e contribuições 
sociais, inclusive acessórios”.
87 “(...) ainda não compõe a ordem jurídica previsão normativa suficiente a 
concluir-se pela existência do crime de organização criminosa. Vale frisar 
que, no rol exaustivo do artigo 1º da Lei nº 9.613/98, não consta sequer 
menção ao de quadrilha, muito menos ao de estelionato, cuja base é a fraude. 
Em síntese, potencializa-se, a mais não poder, a Convenção das Nações 
Unidas contra o Crime Organizado para pretender-se a persecução criminal 
no tocante à lavagem ou ocultação de bens sem ter-se o crime antecedente 
passível de vir a ser empolgado para tal fim. Indago: qual o crime, como 
determina o inciso XXXIX do artigo 5º da Carta da República, cometido pelos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
crime de lavagem de dinheiro por, até o advento da lei 12694/1288, 
não haver tipificação do crime de organização criminosa.
Não obstante essa busca de homogeneidade transna-
cional, principalmente tratando-se de criminalidade organi-
zada com ramificações transnacionais, a receptividade deve 
ser unida a um posicionamento crítico do legislador e a uma 
antevisão de possível prejuízo a direitos e garantias funda-
mentais. “Das principais consequências negativas apontadas, 
‘o risco de vulgarização’ é o mais preocupante, em decorrên-
cia da possibilidade do apenamento pelo tipo de lavagem ser 
superior àquele previsto para o delito antecedente, denotando 
injustificada desproporção.” (RIOS, 2012, p. 3).
Justificando a completa ausência de parâmetros do legisla-
dor, vale mencionar a observação de Estelita e Bottini, de que, “ain-
da que bem intencionada, a norma é desproporcional, pois punirá 
com a mesma pena mínima de 3 anos o traficante de drogas que 
dissimula seu capital ilícito e o organizador de rifa ou bingo em 
acusados se, quanto à organização criminosa, a norma faz-se incompleta, 
não surtindo efeitos jurídicos sob o ângulo do que requer a cabeça do artigo 
1º da mencionada lei, ou seja, o cometimento de um crime para chegar-se à 
formulação de denúncia considerada prática, esta sim, no que completa, com 
os elementos próprios a tela como criminosa, em termos de elementos de 
lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores? Nota-se, em última análise, 
que, não cabendo a propositura da ação sob o aspecto da Lei nº 9.613/98, 
presente o crime de estelionato, evocou-se como algo concreto, efetivo, o 
que hoje, no cenário nacional, por falta de previsão quanto à pena - fosse 
insuficiente inexistir lei no sentido formal e material -, não se entende como 
ato glosado penalmente ― a organização criminosa do modo como definida 
na Convenção das Nações Unidas. Não é demasia salientar que, mesmo 
versasse a Convenção as balizas referentes à pena, não se poderia, repito, 
sem lei em sentido formal e material como exigido pela Constituição Federal, 
cogitar-se de tipologia a ser observada no Brasil. A introdução da Convenção 
ocorreu por meio de simples decreto!”(BRASIL, 2012b).
88 Art. 2o Para os efeitos desta Lei, considera-se organização criminosa 
a associação, de 3 (três) ou mais pessoas, estruturalmente ordenada e 
caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com 
objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, 
mediante a prática de crimes cuja pena máxima seja igual ou superior a 4 
(quatro) anos ou que seja de caráter transnacional. 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
quermesse que oculta seus rendimentos”. (ESTELITA; BOTTINI, 
2012, p. 2). É compreensível que depois de pouca experiência se 
tente adequar a norma às exigências internacionais e ampliar o 
rol, mas a ampliação foi por demais contraditória e abusiva:
Não é de se estranhar, portanto, que na 
doutrina estrangeira se considere ‘aber-
rante, desmesurada, radical e incompre-
ensível’ a ampliação do rol prévio dos cri-
mes antecedentes. Caberia buscar adjeti-
vos capazes de descrever a incongruência 
de sua total eliminação. Outrossim, deno-
ta, no mínimo, péssima técnica lçegislati-
va a incorporação da contravenção penal, 
que sequer reúne em seus contornos a 
dimensão do insjusto pessoal, apta a ava-
lizar os pressupostos de um fato punível. 
(RIOS, 2012, p. 3)
Na exposição de motivos da lei 9613/98, fala-se que en-
tre a prática e utilização do sistema financeiro e a utilização 
de valores dela originados, há necessidade de uma série de 
operações financeiras, para dar aparência de licitado. Por isso, 
no seu art. 14, criou-se a COAF – Controle de Atividades Fi-
nanceiras – que exige a manutenção de dados atualizados dos 
titulares de contas, e, inclusive, que seja informada no caso de 
movimentação suspeita de seus clientes.
É inevitável o trânsito dos recursos por setores regulares 
da economia para o criminoso, daí a obrigação de que esses 
setores participem doda Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
global la ‘globalización’ comienza ya a perder 
su significado de proceso histórico global.6 
(MARRAMAO, 2006, p. 14). 
Para estabelecer um marco descritivo da era global, é ne-
cessário visualizar os aspectos filosófico-políticos que se relacio-
nam ao destino do Estado, dos sujeitos políticos e dos direitos, 
diante das inúmeras transformações democráticas ocidentais. 
Essas transformações partem de duas tendências no 
modelo ocidental (próprio das realidades europeias e latino-
-americanas, diante da tradição formalista imperativa do po-
sitivismo jurídico). A primeira abrange uma convencionaliza-
ção do conceito de soberania, 
visualizado como natural punto de llega-
da de um proceso de secularización y ab-
solutización: de despegue de la autoridad 
religiosa y de autofundación de los procedi-
meintos ‘intramundamos’ racional-legales y 
técnico-jurídicos de legitimación del poder 
estatal.7(MARRAMAO, 2006, p. 106). 
A convencionalização da ideia de soberania do estado na 
sociedade moderna não seria mais que o inevitável resultado 
de sua progressiva identificação com o direito, como ordena-
mento jurídico-normativo globalmente compreendido. 
A segunda tendência abrange uma fase externa, pro-
pondo uma mudança, uma desconstrução da noção clássica 
6 “A globalização representaria uma ruptura do retorno das absoletas 
categorias clássicas da modernidade filosófica e política (Estado, povo, 
soberania, nação, centro/periferia, público/privado etc.), que teriam se 
tornado palavras “zumbis”(...) na globalização, estas começam a perder seu 
significado de processso histórico global.. (Tradução livre)
7 “visto como uma culminação natural do processo de secularização e 
absolutização: de desapego da autoridade religiosa e de autofundação 
de procedimentos ‘intramundamos’ racional-legal, técnico-jurídico e de 
legitimação do poder do Estado”. (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
de Estado “la clave de la crisis actual del estado se puede rastrear 
en la lógica que a lo largo de la historia há regido su edificación, 
si no directamente em sus elementos base, em los ‘ladrillos’ con 
los que el racionalismo moderno” (MARRAMAO, 2006, p. 107). 
Também, a noção de Estado acabara por restar indetermi-
nada com tantos enfoques teóricos e históricos tradicionais. 
Caracterizada pela perda de autonomia para definir políti-
cas sociais e econômicas, pela redução da imperatividade do 
direito estatal, pelo aparecimento de problemas de alcance 
global que transcendem as possibilidades de resposta estatal 
tradicional, pela reorganização dos espaços e tempos econô-
micos desterritorializados e carentes de um centro, pela exi-
gência de regras universais sobre direitos humanos e pelo 
terrorismo que inaugura uma espécie de violência pós-mo-
derna, é uma crise que não poderá ser enfrentada, em toda a 
sua extensão, por ações estatais isoladas (GALLI, 2001). 
O conceito moderno de soberania vai além da antí-
tese doutrinária do decisionismo e normativismo; encon-
tra seu pressuposto natural na ficção do Estado-pessoa, 
naquele nominalismo que concebe a associação política 
como pessoa ficta.
Sob essa linha de destituição estatal, apontou-se para um 
constitucionalismo em termos comunitários, sem monopólio 
do direito estatal. O Estado não seria abolido, mas assumiria 
novas funções, a fim de poder compartilhar e articular pode-
res para um efetivo pluralismo político e jurídico:
(...) esta indebida ampliación del término ha 
hecho perder de vista que el estado tal como 
lo entendemos, o sea, como asociación política 
basada a la manera weberiana en el monopólio 
de la violência física legítima, es um aconte-
cimiento no solo occidental, sino especifica-
mente moderno, cuya identidad estructural 
depende- tanto en su génesis efectiva como en 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
su actual declinación- de circunstancias histó-
ricas asmismo determinadas y específicas(...)8.
(MARRAMAO, 2006, p. 109). 
Ademais, desde o século XX, os direitos passam a ser 
vistos como princípios constitucionais, garantidos frente ao 
poder legislativo por meio de órgãos competentes para o con-
trole de legitimidade das leis “considera-se que o conteúdo 
dos direitos deva ser subtraído da competência dos Estados 
soberanos por meio do seu reconhecimento no plano interna-
cional”. (MARRAMAO, 2006). 
Por essa via é introduzido o conceito de tutela interna-
cional dos direitos individuais, além daquela dos direitos das 
minorias e dos povos. A Europa, com a União Europeia, é um 
grande exemplo disto. Após a Segunda Guerra Mundial, com a 
Carta das Nações Unidas de 1945, e, depois, com a Declaração 
Universal de 1948, a ciência jurídica europeia majoritária e de-
mocrática passa a entender um “fim do estado de natureza e o 
início do estado civil no nível da comunidade internacional”. Os 
direitos humanos são elencados nas proclamações universais e 
incorporados nas constituições e nas legislações nacionais:
Temos um vazio entre desterritorializa-
ção e re-territorialização do direito. Vale 
dizer: o direito que é desterritorializado 
nos enunciados da Declaração Universal 
só pode se re-territorializar, exatamente 
para poder conferir uma qualificação 
autenticamente democrática aos ordena-
mentos democráticos nacionais. A De-
8 “(...) esta indevida ampliação do termo tem feito perdermos de vista a noção 
de estado, tal como associação política baseada na maneira weberiana no 
monopólio da violência física legítima, é um acontecimento não só ocidental, 
mas especificamente moderno, cuja identidade estrutural depende tanto 
da sua gênese real como da sua declinação de circunstâncias históricas, 
determinadas e específicas.”(Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
claração de 1948, mesmo representando 
exclusivamente um ideal comum a ser 
alcançado por todas as nações, como um 
acordo juridicamente vinculante, não se 
limitou a universalizar a ideia dos direi-
tos humanos e a promover a sua adoção 
pelos Estados, mas também atribuiu um 
valor transterritorial tanto aos direitos 
civis e políticos quanto àqueles econô-
micos e sociais. (FARIA, 1999, p. 5).
As antigas relações hierarquizadas das estruturas de po-
der foram substituídas por uma rede de integração cultural e 
econômica assimétrica.
Houve o aprimoramento dos tratados internacionais (es-
pecialmente na área dos direitos humanos) e o surgimento 
de organismos supranacionais, com o intento de promover 
diálogos de alcance global e de encontrar soluções para os 
problemas internacionais baseando-se numa postura pós-
-nacional. (FERRAJOLI, 2002).
Também houve a criação de inúmeros organismos, como 
a OMC (World Trade Organization) e a UNESCO (United Nations 
Educational, Scientific and Cultural Organization), e organiza-
ções como o G-8 (Group of Seven and Russia), G-20, a ONU e, 
especificamente, a OMC, símbolos dessa integração mundial 
(FARIA, 1999). Assim, a soberania externa sofre uma redução 
em sua capacidade de ação, devendo respeitar órgãos, deci-
sões e normas de caráter internacional. 
A mencionada desterritorialização gera uma diluição das 
fronteiras. Esse processo promove a deslocalização das relações 
sociais e faz com que o entorno físico perca sua força enraiza-
dora, que passa a ser desempenhada por novos contornos9. Tor-
9 Em virtude da globalização hoje se concebem múltiplas cidadanias como 
garantia de efetiva integração dos povos e a constituição de uma identidade 
global. Imprescindível, nesse contexto, elencar a ideia do Direito Fraterno, ba-
seado na concepção principiológica de fraternidade como responsabilidade 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
na-se cada vez mais difícil definir os limites de cada povo e de 
cada cultura, de estrangeiro e nacional. Nessa circunstânciacombate à lavagem. Dentre as obriga-
ções, destacou-se a necessidade de pessoas físicas e jurídicas, 
sujeitas a obrigações da lei, serem obrigadas a identificar seus 
clientes e manter cadastros atualizados, e a obrigatoriedade 
de comunicar às autoridades responsáveis todas as operações 
de ativos que ultrapassem os valores fixados.
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Daniela Villani Bonaccorsi
Um ponto de destaque na nova lei é a ampliação do rol 
de pessoas sujeitas às obrigações de política de prevenção. E, 
dentre elas, a maior preocupação seria em relação aos advoga-
dos. A preocupação vem da estreita ligação dos novos deveres 
e o dever de sigilo profissional previsto em lei:
Art. 9º Sujeitam-se às obrigações referidas 
nos arts. 10 e 11 as pessoas físicas e jurí-
dicas que tenham, em caráter permanente 
ou eventual, como atividade principal ou 
acessória, cumulativamente ou não(...):
XIV - as pessoas físicas ou jurídicas que 
prestem, mesmo que eventualmente, ser-
viços de assessoria, consultoria, contado-
ria, auditoria, aconselhamento ou assistên-
cia, de qualquer natureza, em operações: 
a) de compra e venda de imóveis, estabele-
cimentos comerciais ou industriais ou par-
ticipações societárias de qualquer natureza; 
b) de gestão de fundos, valores mobiliá-
rios ou outros ativos; 
c) de abertura ou gestão de contas ban-
cárias, de poupança, investimento ou de 
valores mobiliários; 
d) de criação, exploração ou gestão de so-
ciedades de qualquer natureza, fundações, 
fundos fiduciários ou estruturas análogas; 
e) financeiras, societárias ou imobiliárias; e 
f) de alienação ou aquisição de direitos 
sobre contratos relacionados a atividades 
desportivas ou artísticas profissionais; ( 
BRASIL, 2012a).
Conforme interpretação do novo art. 9º, parágrafo único, 
inciso XIV, os advogados passam a integrar o rol daqueles que 
devem avisar às autoridades públicas qualquer ato suspeito 
de mascaramento de bens praticados por seus clientes. As 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
obrigações dos arts. 10 e 11 referem-se ao dever de manuten-
ção de cadastro da clientela, ao atendimento a requisições do 
COAF, à identificação e comunicação de atividade suspeita ao 
COAF ou ao órgão fiscalizador da atividade.
O art. 9º, dentre as medidas da nova lei, visa certamente 
atender as recomendações do GAFI, influenciado pelo contex-
to normativo vigente na Espanha, uma vez que, na comunida-
de europeia, as diretivas 91/308/CEE, 2001/97/CE, 2005/60/CE 
e 2008/20/CE, emitidas pelo Parlamento Europeu e pelo Con-
selho da Europa, referem-se à prevenção da utilização do sis-
tema financeiro para lavagem e financiamento ao terrorismo.
A constatação da comunidade internacional, ao atender 
as recomendações do GAFI, foi a de que, por se tratar de um 
crime marcado pela nota da internacionalidade, o esforço iso-
lado dos países na sua prevenção e repressão seria inútil e 
que, por seus próprios instrumentos legais, não faria frente a 
esse novo fenômeno. Daí a harmonização dos ordenamentos 
jurídicos e a uniformização das ferramentas de prevenção, re-
pressão e cooperação (GRANDIS, 2012, p. 9).
Nao obstante as mencionadas diretivas, vale explicar que 
a 2001/97 isentou profissionais forenses autônomos, advogados, 
auditores das obrigações de identificação de cientes, manutenção 
e notificação de operações suspeitas de seus clientes ao ensejo de 
determinar a situação jurídica por conta do cliente ou no exer-
cício da sua missão de defesa ou de representação desse cliente 
num processo judicial ou a respeito de um processo judicial.
A diretiva ainda justificou que a consulta jurídica per-
manece sujeita ao sigilo profissional, exceto se o consultor ju-
rídico participar de atividades de branqueamento de capitais, 
se a consulta jurídica for prestada para efeitos de branquea-
mento de capitais ou se o advogado souber que seu cliente 
pede aconselhamento jurídico para lavar dinheiro.
A diretiva 2005/60/CE foi adotada na Espanha em 2010, 
reformando os arts. 205 e seguintes do Código Penal espa-
nhol; a lei 10/2010, em seu artigo segundo, passou a adotar a 
seguinte redação:
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Daniela Villani Bonaccorsi
ñ) Los abogados, procuradores u otros profe-
sionales independientes cuando participen en 
la concepción, realización o asesoramiento de 
operaciones por cuenta de clientes relativas a 
la compraventa de bienes inmuebles o entida-
des comerciales, la gestión de fondos, valores u 
otros activos, la apertura o gestión de cuentas 
corrientes, cuentas de ahorros o cuentas de 
valores, la organización de las aportaciones 
necesarias para la creación, el funcionamien-
to o la gestión de empresas o la creación, el 
funcionamiento o la gestión de fideicomisos 
(«trusts»), sociedades o estructuras análogas, o 
cuando actúen por cuenta de clientes en cual-
quier operación financiera o inmobiliaria89. 
(DÍEZ, 2012, p. 11).
Visivelmente o texto guarda grande semelhança com a 
nova redação da lei brasileira, mas, diante dos questionamentos 
quanto ao sigilo do advogado, a lei espanhola guarda uma exce-
ção, ao contrário da lei brasileira, que não cita expressamente o 
advogado, nem mesmo excepciona a obrigatoriedade diante do 
sigilo ético-profissional e direito de defesa em seu artigo 22:
Los abogados no estarán sometidos a las obli-
gaciones establecidas en los artículos 7.3, 18 
y 21 con respecto a la información que reci-
ban de uno de sus clientes u obtengan sobre él 
al determinar la posición jurídica en favor de 
89 “Advogados, procuradores ou profissionais autônomos, quando participam 
da implementação, realização ou assessoria de transações em nome de 
clientes na compra e venda de bens imóveis ou de entidades comerciais, 
gestão de dinheiro, valores mobiliários ou outros ativos, abertura ou gestão 
de contas correntes, poupança ou de valores mobiliários, organização de 
contribuições necessárias à criação, exploração ou gestão de empresas ou 
à criação, exploração ou gestão de fundos comuns (“trusts”), empresas ou 
estruturas similares, ou quando agem em nome de clientes em qualquer 
transação financeira ou imobiliária”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
su cliente o desempeñar su misión de defen-
der a dicho cliente en procesos judiciales o en 
relación con ellos, incluido el asesoramiento 
sobre la incoación o la forma de evitar un pro-
ceso, independientemente de si han recibido 
u obtenido dicha información antes, durante 
o después de tales procesos. Sin perjuicio de 
lo establecido en la presente Ley, los aboga-
dos guardarán el deber de secreto profesional 
de conformidad con la legislación vigente. 
(DÌEZ, 2012, p. 11).
Ou seja, a discussão acerca da obrigatoriedade do advo-
gado foi sugerida pelo GAFI, e a rigidez de alterações nas leis 
de lavagem de dinheiro é uma realidade nos vários países que 
reformaram sua legislação, como Itália e a mencionada Espa-
nha: “En espana y, en general, en Europa, puede comprobar-
se una notable expansion del delito de blanqueo de capitales, 
tanto respecto de las condutas abarcadas como de los sujetos 
obrigados por la normativa”. (DÌEZ, 2012, p. 11)
Assim, a nova Lei 12.683, apesar de não delimitar os profis-
sionais, optou por obrigar pessoas que prestem serviços de “as-
sessoria, consultoria e aconselhamento de qualquer natureza”. 
Diante da possibilidade de advogados prestarem assessoria e 
consultoria na compra de imóveis, estabelecimentos comerciais 
ou industriais, participações societárias de qualquer natureza, 
gestão de fundos, valores mobiliários ou outros ativos, inter-
preta-se que estariam inseridos no mencionado art. 9º.
Assim como na Espanha, ao invés de o legislador prever 
uma série de regras visando à prevenção, passou-se a impor 
uma série de obrigações, de forma que os próprios sujeitos 
passem a analisar os riscos:
(...) hasta hace pocos anos, se adoptavaun siem 
basado en una reglas que debian seguir los suje-
tos obligados y que, de esta marcar, era relativa-
mente prefisible para el potencial blanqueador 
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Daniela Villani Bonaccorsi
de dinero. Los nuevos sistemas se basan en que 
sean los propios sujetos obligados quienes ana-
licen los riesgos de los clientes y las operaciones 
y apliquen, en consecuencia, una diligencia de-
bida genérica, o, por el contrario, reforzada90. 
(DÌEZ, 2012, p. 11).
Na espanha, é feita uma distinção de questões da obri-
gatoriedade de informações em consultas e, em questões pro-
cessuais, quando da defesa do cliente. Mas, desde já, entende-
-se que, mesmo em consulta ou simples atendimento a cliente, 
ainda que não seja caso de defesa processual, subsiste o sigilo 
ético profissional do advogado e a própria relação de confian-
ça, que vai muito além do processo:
En cualquier caso, lá conclusion mas impor-
tante a extraer del dicha problematica és lá se-
guinte: a la hora de determinar si el cobro de 
honorarios por parte de un abogado defensor 
constituye un delito de blanqueo de capitales 
debe llevarse a cabo un test en tres fases con-
secutivas. En primer lugar, debe examinarse 
el precio abonado por los honorarios presta-
dos. Si resulta conforme a mercado, no puede 
considerarse que hay blanqueo/lavado. En se-
gundo lugar, debe examinarse el grado de co-
nocimiento que pudiera tener el abogado res-
pecto de origen delictivo de los fondos con los 
que se abonan sus honorarios. Dicho grado de 
conocimiento no puede basarse en la ignoran-
cia deliberada, sino que tiene que ser un co-
nocimiento cierto y concreto. En tercer lugar 
90 “Até há poucos anos, sempre se adotava uma base em regras a serem seguidas 
por entidades reguladas e essa marca era relativamente prefisible para lavador 
de dinheiro em potencial. Os novos sistemas são baseados na ideia de que os 
próprios sujeitos obrigados analisem os riscos e as operações realizadas; essa 
diligência passa não só a ser necessária, mas obrigatória. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
debe examinar como há tenido acceso lá acu-
sacion a dicho conocimiento certo y concreto. 
(DIEZ, 2012, p. 12).
Entende-se que essa exigência claramente atinge o prin-
cípio da confidencialidade e o dever de sigilo, corolários do 
próprio exercício da ampla defesa. É impensável argumentos 
de defesa se o advogado repassa informações e cria o temor do 
cliente de que seu próprio advogado seja um verdadeiro delator.
É fato que muitas vezes o cliente procura um advogado 
com a intenção de ouvir sugestões para utilização de lucro 
proveniente de crime, como sonegação fiscal, ou seja, verda-
deira “receita” para lavar dinheiro, procurando verdadeira-
mente buscar formas seguras de ocultar esses valores. Mas, 
ora, se o advogado sugere condutas que caracterizam lava-
gem de dinheiro ao cliente, seja em consulta ou em processo, 
seja sugerindo ou mesmo auxiliando materialmente, o mesmo 
deve responder em concurso de pessoas juntamente com o 
cliente, o que, inclusive, já foi objeto de investigação criminal.
Além da questão de informações do advogado, a títu-
lo de ilustração pode-se mencionar que a nova lei impôs o 
afastamento automático do servidor público indiciado por 
lavagem de dinheiro (art. 17-D), atrelando-o ao mero indicia-
mento. Também, o art. 17-B conferiu ao Ministério Publico e 
à Polícia a atribuição para requisição direta, sem intermedia-
ção judicial, de dados cadastrais do investigado mantidos em 
base da Justiça Eleitoral. E, além do alargamento do rol de 
pessoas obrigadas a prestar declarações ao COAF, nos termos 
do parágrafo 1o, do art. 4o, do novo diploma legal, adotou-se a 
alienação antecipada de bens. Tal alteração se deu em virtude 
da morosidade que a destinação tinha de forma geral, ocor-
rendo a depreciação no valor dos bens.
A nova Lei é objeto de inúmeras críticas, e, no que se refere 
ao novo rol de pessoas obrigadas às informações junto ao COAF 
ou órgãos competente, no dia 21 de julho de 2012, a Ordem dos 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Advogados do Brasil proferiu julgamento relativo ao art. 9, XIV 
da novel Lei, e a Comissão de Assuntos Constitucionais enten-
deu que o mesmo não se aplica ao advogado (BRASIL, 2012c). 
Não obstante a menção expressa do advogado em outras legis-
lações, entendeu-se que a relação de sigilo é mais do que exer-
cício processual quando da defesa do cliente, é uma relação de 
confiança e garantia de um Estado Democrático de Direito, ga-
rantidos na própria Constituição, posição aqui compartilhada.
Mais uma vez, retorna-se à discussão emergencialista 
de que, por um lado, há profissionais que contribuem para o 
crime de lavagem dinheiro, e, por outro, a intimidade, con-
fiança e dever de sigilo são prerrogativas do advogado, mes-
mo em consulta jurídica.
Mas parece que o art. 9 exige obrigação que atenta contra 
o dever de sigilo, e na hipótese de o advogado contribuir in-
dicando formas ou sugerindo lavagem de dinheiro, ele incide 
no mesmo crime a título de concurso de pessoas, ainda que 
não tenha sido obrigado a prestar esclarecimentos ao COAF.
Ou seja, não pode a lei emergencialista, em nome de apa-
rente segurança ou mesmo de satisfação à sociedade, relativi-
zar direitos e garantias.
2.6 O Bem Jurídico no crime de Lavagem de 
Dinheiro: do Iluminismo à “escuridão”
O crime de lavagem de dinheiro no Brasil, pela sua comple-
xidade, por se tratar não de um único ato, mas de verdadeiro pro-
cedimento, de um conjunto de atos e, por não ser codificado, traz 
grande dificuldade no que tange à identificação do bem jurídico91. 
Inúmeras são as definições do bem jurídico tutelado, e serão trata-
91 Conforme capítulo anterior, utiliza-se a noção de bem jurídico de que 
“podem-se definir os bens jurídicos como circunstâncias reais dadas ou 
finalidades necessárias para uma vida segura e livre, que garanta a todos os 
direitos humanos e civis de cada um na sociedade ou para o funcionamento 
de um sistema estatal que se baseia nestes objetivos”. (ROXIN, 2006, p. 18-19).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
das aquelas relevantes para a conclusão que se propõe no caso de 
qual seria o bem jurídico tutelado na lavagem de dinheiro.
Desde sua origem, o crime é facilmente traduzido como re-
flexo do emergencialismo. Como nos crimes econômicos de forma 
geral, foi produzido como resultado de problemas vividos num 
determinado momento e com o compromisso internacional, des-
de a Convenção de Viena, de enfrentar a lavagem de dinheiro.
A lavagem de dinheiro se justificou como forma de di-
minuir a prática delitiva, descapitalizando o agente e impos-
sibilitando o refinanciamento de crimes diante da retirada 
das condições econômicas para tanto, o que por si só já torna 
dificultosa a análise do bem jurídico tutelado, pois o que se 
pretende e pretendia proteger, desde a Convenção de Viena, 
é o “risco” que pode existir com a prática de novos crimes 
precedentes e com o “possível” crescimento da criminalidade 
organizada, se desconhecidos os rastros dos valores e se cres-
cente o poderio econômico dos agentes dos crimes anteriores. 
A discussão quanto ao bem jurídico tutelado no crime 
de lavagem de dinheiro gira em torno do bem jurídico tute-
lado no crime precedente, da administração da justiça e da 
ordem econômica.
O entendimento de que o bem jurídico seria o mesmo do 
crime precedente se fundamenta na afirmação de que a lava-
gem de dinheiro representa um maior perigo ao bem jurídico, 
este determinaria o bem a ser tutelado. O delito de lavagem 
de dinheiro seria uma verdadeira forma de gradação proteto-
ra ao bem jurídico amparado no delito antecedente. Como o 
crime precedente é elementar do crime de lavagem de dinhei-
ro, justificaria a proteção jurídica pelo bem jurídico anterior: 
Desde estaperspectiva el bien jurídico protegido 
por el branqueo és identico al del delito que ori-
gina el enriquecimento ilícito, pues el blanqueo 
hace aumentar la possibilidad de que el autor o 
autores del hecho previo aproveitem los efectos 
del delito anterior para intensificar su actividad 
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Daniela Villani Bonaccorsi
delictiva y cometer nuevos hechos criminares 
de similares características al ha realizado92. 
(ARÁNGUEZ SÁNCHEZ, 2000, p. 81).
O bem jurídico seria, nesse entendimento, aquele do cri-
me anterior ou o somatório de todos os bens protegidos pelos 
crimes precedentes; seria um conjunto de todos os bens jurí-
dicos tutelados por crimes susceptíveis de gerar lucro. O bem 
jurídico do crime de lavagem de dinheiro ficará condicionado 
à delimitação do delito precedente no caso concreto.
Ainda, há o entendimento de que o bem jurídico seria 
a administração da justiça, (ANTOLISEI, 2002, p. 446), pelo 
fato de que a lavagem de dinheiro seria a utilização de meios 
para impossibilitar e ocultar a origem ilegal dos valores, ga-
rantindo a impunidade e evitando a ação da justiça. Como 
o crime de lavagem, seria uma forma de camuflar, limpar o 
crime anterior; seria uma forma de enganar a administração 
da justiça. Justifica-se, ainda, o bem jurídico administração da 
justiça, porque o crime de lavagem de dinheiro somente te-
ria tido sua tipificação para que o Estado pudesse, de alguma 
forma, responsabilizar os agentes dos crimes precedentes, e, 
desse modo, “contribuir para que esses crimes não sejam es-
quecidos e colocados no ostracismo jurídico”:
a conduta do agente que dá aparência 
de lícito a produto ilícito tem como re-
sultado principal a impossibilidade de 
a justiça punir o autor do crime antece-
dente, que se vê protegido pela lavagem. 
Com a referida conduta, tanto o prestígio 
como a eficáfia da justiça encontram-
92 “Nesta perspectiva o bem jurídico legalmente protegido pelo branqueamento 
é idêntico ao crime pelo enriquecimento ilegal, pois aumentaria a 
possibilidade de que o autor ou autores dos delitos prévios aproveitem 
os efeitos de crimes anteriores para melhorar a sua atividade criminosa e 
praticar novos crimes”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
-se em cheque, sendo seu bem jurídi-
co – administração da justiça – violado. 
(PODVAL, 1998, p. 220).
Tal concepção parte da análise de que, mesclando ou 
ocultando de qualquer forma o valor proveniente de crime, 
e com a movimentação e ações para que o dinheiro não deixe 
rastros, ocorre uma dificuldade maior na questão probatória, 
enfraquecendo e vulnerando a administração da justiça. 
A justificativa para a classificação do bem jurídico ad-
ministração da justiça também se daria porque os comporta-
mentos para a prática do delito em questão, ou seja, as ações 
para que os rastros do lucro do crime anterior desapareçam, 
podendo o agente usufruir desses, dificultam identificar a 
proveniência dos bens e os sujeitos ativos de ilícitos que os 
geraram, desestimular sua prática, reprimir a fruição de seus 
produtos e lograr a punição dos seus detentores, e dessa for-
ma podem afetar o funcionamento regular e efetivo da justiça:
O Bem jurídico seria a Administração da 
Justiça porque na medida em que visa 
suplementar a eficiência na apuração e 
punição das infrações penais que, reco-
nhecidamente pelo legislador, abalam 
sobremaneira a ordem pública e não con-
seguem encontrar por si só, a resposta 
adequada da própria administração da 
justiça com vistas à defesa da sociedade. 
(MENDRONI, 2006, p. 30). 
Seguindo o raciocínio da negativa anterior e a que se pre-
tende aqui desenvolver, entende-se que a definição do bem jurí-
dico como administração da justiça é restrito e, diante das prá-
ticas empregadas, como perceber-se-á, há condutas que podem 
atingir outros bens jurídicos, ainda que essas práticas estejam 
previstas em leis diversas, como será discutido oportunamente. 
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Daniela Villani Bonaccorsi
Ora, não se pode confundir a finalidade do delito com o 
bem jurídico tutelado. Na justificativa de se evitar a prolife-
ração, enriquecimento e controle das organizações crimino-
sas, fala-se do que se busca com a incriminação da lavagem, 
mas não do bem jurídico.
A posição hoje mais aceita, e aqui compartilhada, a fim 
de se buscar a natureza do bem juridico, é a de que o bem 
jurídico seria a ordem econômica93; diante do conceito e meio 
de execução no crime de lavagem de dinheiro pode ocorrer 
um risco às relações econômicas, ao normal andamento da 
economia e às atividades financeiras. 
A lavagem de dinheiro, da forma como é tipificada, ao tra-
zer a movimentação de valores desconhecidos, pode produzir 
efeitos que afetam o regular andamento da economia e política 
econômica do Estado, uma vez que pode gerar movimentações 
no sistema financeiro que geram instabilidade a ponto de afe-
tar juros, taxas cambiárias e controle de atividades financeiras 
de valores que circulam em instituições financeiras.
O processo de branqueamento pode produzir alterações na 
ordem econômica como com a integração no mercado financeiro 
de recursos obtidos a um custo consideravelmente inferior ao 
das atividades lícitas; a incidência massiva sobre determinados 
setores econômicos especialmente favoráveis à canalização de 
tais recursos; o controle de determinados âmbitos da economia 
e a conivência progressiva e interessada de agentes econômicos, 
profissionais e até funcionários. (DÍEZ RIPOLLÉZ, 1994, p. 60).
Os mecanismos financeiros utilizados, e que serão oportu-
namente tratados, como contas correntes fantasmas, evasão de 
divisas, criação de off-shores, visam impossibilitar o alcance da 
origem criminosa, podendo atingir juros, taxas de câmbio e valor 
de ações. Ratificando o entendimento quanto ao bem jurídico, as 
denominadas empresas de fachada ou fantasma, existentes para 
93 Nesse sentido: Barros, 2004; Cervini, 2003; Oliveira, 1998; Prado, 2004; 
Mendroni, 2006; Silva, 2001.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
mesclar recursos provenientes de crime, participam do mercado e 
influem na economia, mantendo preços mais baratos e despropor-
cionias, comprometendo a livre concorrência. (SILVA, 2001, p. 39):
o bem jurídico protegido – de caráter 
transindividual – vem a ser a ordem eco-
nômico-financeira, o sistema econômico 
e suas instituições ou a ordem socioeco-
nômica em seu conjunto (bem jurídico ca-
tegorial), em especial a licitude do ciclo ou 
tráfego econômico-financeiro (estabilida-
de, regularidade e credibilidade do mer-
cado econômico), que propicia a circula-
ção e a concorrência de forma livre e legal 
de bens, valores ou capitais (bem jurídico 
em sentido técnico).(PRADO, 2007, p. 156).
Quando se fala do bem jurídico ordem econômica, con-
forme item específico dessa pesquisa, utilizou-se de conceito 
abrangente que diz respeito à proteção da livre iniciativa, li-
vre concorrência, proteção a um mercado equilibrado. Pode o 
processo de branqueamento ser realizado com a integração no 
mercado financeiro de recursos obtidos a um custo considera-
velmente inferior ao das atividades lícitas; a incidência massiva 
sobre determinados setores econômicos especialmente favorá-
veis à canalização de tais recursos; o controle de determinados 
âmbitos da economia e a conivência progressiva e interessada 
de agentes econômicos, profissionais e até funcionários, poden-
do alterar o controle de determinados âmbitos da economia.
O fluxo normal de dinheiro e bens de toda ordem, im-
possibilitando a limpa concorrência, pode criar grupos domi-
nantes e monopólios, facilitando e tornando efetiva a corrup-
ção de agentes e funcionários de alguns segmentos da Admi-
nistração Pública. (SILVA, 2001, p.39):
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Daniela Villani Bonaccorsi
Os custos obtidos dos recursos gera-
dos pelas organizaçõescriminosas 
são notavelmente inferiores àqueles 
obtidos licitamente. As empresas le-
gais têm de recorrer às taxas de mer-
cado para financiar suas atividades, 
o que significa que na concorrência 
com as empresas ilegais há uma perda 
substancial de mercado, permitindo 
que sejam excluídas ou incorporadas. 
(CALLEGARI, 2001, p. 140).
O bem jurídico ordem econômica no crime de lavagem 
de dinheiro também se justifica com a Diretiva 91/308/CEE 
(Preâmbulo), a qual prevê a utilização das entidades de cré-
dito e das instituições financeiras. Na lavagem dos produtos 
de atividades delitivas, pode pôr em perigo a solidez, estabi-
lidade e credibilidade do sistema financeiro em seu conjunto, 
ocasionando com isso a perda de confiança do público.
Também no Código Penal Espanhol o bem jurídico tu-
telado seria a ordem econômica. Considera-se que são vul-
nerados os elementos da ordem econômica, como a livre con-
corrência, a estabilidade e a solidez do sistema financeiro, o 
que justifica se centrar na ordem socioeconômica como bem 
jurídico protegido e, da forma como o legislador brasileiro ti-
pificou e, diante dos meios de execução empregados, há influ-
ência no sistema econômico, podendo produzir uma situação 
de desigualdade entre os investidores lícitos, e aqueles alcan-
çam valores bem superiores de origem ignorada. 
Ainda que se discutam os posicionamentos do bem jurí-
dico de acordo com o crime precedente ou Administração da 
Justiça, não se perde o caráter econômico. Há repercussão no 
controle das atividades econômicas, livre concorrência, ativida-
des financeiras. Assim, entendendo-se a lavagem de dinheiro 
como espécie de crime econômico, é a ocultação, dissimulação 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ou incorporação de dinheiro, bens ou capitais provenientes de 
crime ao círculo econômico-financeiro legal ou lícito.
Ocorre que, não obstante a discussão de qual seria o bem 
jurídico tutelado, perceber-se-á pela análise dos meios de exe-
cução do crime de lavagem de dinheiro e pela análise do nú-
cleo do tipo e das técnicas empregadas que a conduta traz 
um perigo abstrato. Pode sim, conforme será descrito, haver 
transações, por exemplo, novíssima financeiro, que atinjam 
o controle de atividades financeiras, mas que são previstas e 
amparadas em lei específica, no caso a lei 7492/86.
2.7 Os meios de execução no crime 
de lavagem de dinheiro 
Conforme explanado, o tipo penal do crime de lavagem 
de dinheiro não se trata de crime que se esgota num único 
ato, trata-se de um verdadeiro processo de ocultação ou dissi-
mulação que se caracteriza por um conjunto de ações. Apesar 
de não haver meio de execução específico, destacam-se algu-
mas fases utilizadas no branqueamento de capitais. Além das 
fases do crime de lavagem de dinheiro, é interessante desta-
car os mecanismos mais utilizados no processo.
Nos Estados Unidos, como propõe o Modelo Circular 
do Departamento do Tesouro do Estados Unidos, a lavagem 
seria um meio pelo qual os valores provenientes de crime 
são inseridos na economia formal, com a finalidade de au-
mentar a própria capacidade delitiva, financiar atividades 
criminosas adquirindo bens ou financiando atos ilícitos, au-
mentando a capacidade econômica e delituosa, em consequ-
ência. (ARÁNGUEZ SÁNCHEZ, 2000, p. 39).
O referido autor destaca interessantes modelos que ex-
plicam possíveis etapas na lavagem de dinheiro. No denomi-
nado modelo naturalista de Zund (2000, p. 56/79), equipara-se 
a lavagem à forma como a água circula na natureza. 
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Daniela Villani Bonaccorsi
O início do processo dar-se-ia com a “precipitação”, sendo 
equiparada à produção do dinheiro proveniente de crime. Em 
seguida, haveria a “filtragem”, fase da transformação dos valo-
res ilícitos. Os rios subterrâneos seriam o fluxo que o dinheiro 
sujo seguiria, através de organizações criminosas e na trans-
formação em outros bens, e lagos subterrâneos o momento 
em que se reúnem os valores ilícitos para remessa ao exterior. 
Com uma nova “reunião de lagos”, os valores são efetiva-
mente recebidos no exterior, e nas chamadas “estações de bom-
beamento” os valores são introduzidos na economia por contas 
bancárias, depósitos, compra de ativos. 
Passando por uma “estação depuradora”, uma terceira pes-
soa é introduzida no processo e estaria reunindo os valores e 
selecionando meios de investimento legais. Na “evaporação”, 
os valores retornam ao país de origem e, com uma nova pre-
cipitação, são reutilizados para manutenção de organismos 
criminosos, como um processo de reutilização da água.
Ainda como exemplo das etapas de realização do delito, 
Aránguez Sánchez (2000, p. 39) menciona o modelo de duas 
fases de Bernasconi. 
Nesse modelo haveria uma lavagem de primeiro e se-
gundo grau. A lavagem de primeiro grau ou laundering tem 
como finalidade afastar a ligação dos valores com a origem 
ilícita, utilizando manobras como a troca do dinheiro por ati-
vos de fácil transporte, jóias ou metais preciosos. 
Na lavagem de segundo grau, ou recycling, os valores são 
reintroduzidos na economia formal com uma confusão do di-
nheiro ilícito com o proveniente de atividades legais.
O Modelo do GAFI- Grupo de Ação Financeira Interna-
cional) trata de três fases para a lavagem, a colocação ou inser-
ção, transformação ou estratificação e integração:
Money laundering involves the ‘cleaning’ of illegal proceeds in 
order to disguise their criminal origin. The proceeds of criminal ac-
tivity, usually cash, are introduced into the financial system where 
they are ‘laundered’ enabling them to leave the system appearing to 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
come from a legitimate sourse. There are three stages to the money 
laundering process: Placement: the disposal of the cash proceeds de-
rived from illegal activies in order to convert it into a non cash asset; 
Layering: the carrying out of a number of transactions with no pur-
pose other than to create a structure of complex layers of financial 
transactions in order to conceal the source of funds, and Integration: 
returning the proceeds to the economy; now originating from a legi-
timate source94. (NAYLOR, 2002, p. 17).
Na primeira fase busca-se ocultar a origem ilícita, de 
forma geral, inserindo-se no sistema financeiro, como depó-
sitos em conta, aplicações financeiras, conversão em moeda 
estrangeira, compra de imóveis e outros. O agente adota os 
atos capazes de afastar os bens, direitos ou valores da sua 
origem ilícita. (PINTO, 2007, p. 106). 
É a chamada etapa do placement ou conversão “nesta fase 
busca-se a escamoteação (ocultação) inicial da origem ilícita, 
com a separação física do criminoso e os produtos de seus 
crimes”. (TIGRE MAIA, 1999, p. 37). 
O mencionado autor também exemplifica, como primeira 
fase, a pré-lavagem, o momento em que, por exemplo, por meio 
de instituição financeira, efetivam-se depósitos, aplicações fi-
nanceiras, ou troca de grande número de moedas por outras de 
maior valor, ainda, a conversão em moeda por “doleiros”, para 
o posterior transporte físico para o exterior ou com a própria 
aquisição de mercadorias legítimas, mas superfaturadas. 
94 “A lavagem de dinheiro envolve a “limpeza” de rendimentos ilegais, a 
fim de disfarçar sua origem criminosa. O produto da atividade criminosa, 
geralmente em dinheiro, é introduzido no sistema financeiro, onde é 
‘lavado’, o que lhe permite sair do sistema parecendo vir de um sourse 
legítimo. Existem três etapas para o processo de lavagem de dinheiro: 
Colocação: a disposição dos recursos de caixa derivados de activies ilegais, 
a fim de convertê-lo em um ativo não caixa; Camadas: a realização de 
uma série de transações com nenhum outro propósito além de criar uma 
estrutura de camadas complexas de transações financeiras, a fim de ocultar 
a origem dos fundos, e Integração:retornar o produto para a economia, 
agora proveniente de uma fonte legítima”.(Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
A segunda fase consiste na criação de inúmeras opera-
ções financeiras para dissimular os valores, a lavagem pro-
priamente dita. 
É realizada através de uma série de negócios e ope-
rações complexas com o objetivo do distanciamento dos 
valores ilícitos, disfarçando evidências, dificultando ou im-
pedindo o rastreamento. 
Utilizam-se diversas operações e transações financei-
ras para distanciar os valores de sua origem e, quanto mais 
ações, mais difícil é de se chegar à origem inicial. O objetivo 
é cortar a cadeia de evidências, ante a possibilidade de even-
tuais investigações sobre a origem do dinheiro. Geralmente 
o dinheiro é movimentado de forma eletrônica, transferido 
para contas anônimas e, preferencialmente, em países am-
parados por lei de sigilo bancário. (MEDRONI, 2006, p. 61)95.
Nessa fase, o sujeito procura fazer com que o capital 
circule dentro e fora dos mercados financeiros, de bens e 
de capitais, de preferência por diferentes ordenamentos 
jurídicos, e para isso pode utilizar uma técnica chamada 
estruturação ou smurfing, pela qual diversos indivíduos 
(smurfs) realizam múltiplas transações em uma ou mais 
instituições, preferindo contas “fantasmas”, pertencentes 
a “laranjas” ou “testas-de-ferro, dando primazia ao meio 
eletrônico. É aqui também que os fundos ilícitos são depo-
sitados ou, simplesmente transitam por paraísos fiscais, 
através do sistema financeiro, camuflados pelos mais varia-
dos tipos de estruturas societárias”. (PINTO, 2007, p. 107).
95 Vale explicar que, de acordo com a circular 3280 de 05, que instituiu o 
RMCCI: até 29 do 06 de 95, qualquer transferência de moeda nacional ou 
estrangeira deveria ocorrer exclusivamente por transferência bancária; a 
partir de 30 do mesmo mês e ano as transferências internacionais em valo-
res inferiores a 10.000 podem ocorrer em espécie e independentemente de 
qq declaração ao Bacen, ressalvados os casos em que esses valores gerarem 
um depósito superior a 100 mil dólares. Se igual ou superior a 10 mil reais 
por tranferência em conta de instituições financeiras ou venda de câmbio. 
(Disponível em: www.bcb.gov.br. Acesso em: 14. mar. 2010).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Essa segunda etapa é a chamada lavagem propriamente 
dita, ou a “layering:
os grandes volumes de dinheiro são in-
seridos no mercado financeiro na eta-
pa anterior, para disfarçar sua origem 
ilícita e para dificultar a reconstrução 
pelas agências estatais de controle e re-
pressão da trilha do papel (papel trail), 
devem ser diluídos em incontáveis ex-
tratos, disseminados através de ope-
rações e transações financeiras varia-
das e sucessivas, no país e no exterior, 
envolvendo multiplicidade de contas 
bancárias de diversas empresas na-
cionais e internacionais, com estrutu-
ras societárias diferenciadas e sujeitas 
a regimes jurídicos os mais variados. 
(TIGRE MAIA, 1999, p. 39).
São inumeráveis os métodos de lavagem que se desen-
volvem, ainda mais com o poderio econômico dos agentes, 
com a tecnologia, as modernas técnicas de transferência ele-
trônica e cibernética. É comum a utilização de transferência 
de fundos, facilidade de países que não possuem tratado ou 
acordo de cooperação para informar dados bancários de seus 
titulares ou formas de ludibriar a investigação e, sem dúvida, 
a persecução penal torna-se cada vez mais complexa.
Na terceira fase os valores são introduzidos como ativi-
dade lícita. 
O dinheiro é incorporado formalmente aos setores regu-
lares da economia. Essa integração permite criar organizações 
de fachada que prestam serviços entre si. As organizações cri-
minosas buscam investir em negócios que facilitem suas ati-
vidades e, uma vez formada a cadeia, torna-se cada vez mais 
fácil legitimar o dinheiro ilegal. (MENDRONI, 2006, p. 61).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Na fase de integração se exaure o esquema, intencionan-
do que, sem deixar vestígios, possa se promover a disponibi-
lização do produto ilícito na economia legal. Nessa fase a per-
secução do delito torna-se mais difícil, uma vez que o capital 
já passou por outras duas fases nas quais houve o processa-
mento de seu “branqueamento” e, nesse último momento, a 
sua origem ilícita já está ocultada. 
Essa terceira fase, a pós-lavagem, a integration “se carac-
teriza pelo emprego dos ativos criminosos no sistema produ-
tivo, por intermédio da criação, aquisição e/ou investimento 
em negócios ilícitos ou pela simples compra de bens”. (TIGRE 
MAIA, 1999, p. 40). Como forma de integração desses valores 
já lavados cita-se a participação de empresas e sociedade líci-
tas, escritórios de advocacia, cambistas, compra de pedras e 
metais preciosos, concessões de empréstimos em “bancos de 
fachada”, como explica o citado autor.
Não há a obrigatoriedade de passagem por cada uma das 
etapas para a configuração do crime, nem tampouco para a 
sua consumação, como será explicitado adiante. Por se tratar 
de um processo, de um conjunto de ações para transformar o 
dinheiro proveniente de crime, o dinheiro sujo, em limpo, é 
que normalmente envolve essa série de etapas. 
Percebe-se que o processo de lavagem não envolve lu-
cro direto ao autor do crime precedente; na realidade o autor 
do crime precedente efetiva, como exemplificado, as etapas, 
para que a origem ilícita seja disfarçada, ocultada. Para isso, 
envolve-se todo um aparato que gera custos, pois não é qual-
quer criminoso que tem a possibilidade financeira e até mes-
mo intelectual de utilizar manobras financeiras, contas falsas, 
doleiros de confiança, ou de criar instituições bancárias falsas 
em paraísos fiscais. O processo gera despesas, gera descon-
trole em atividades financeiras, pode gerar sonegações de im-
postos a serem pagos, como de importação, exportação, taxas 
bancárias, mas o valor que teve origem no crime precedente 
não obteve vantagem econômica.
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Dentre as técnicas utilizadas para execução do crime, 
podem-se citar “os centros off-shore, centros bancários extra-
territoriais não submetidos ao controle das autoridades admi-
nistrativas de nenhum país e, portanto, isentos de controle”. 
(SANTOS, 2002), empresas ou filiais de empresas estabeleci-
das em outros países que restam, em tese, administrar “inves-
timentos” financeiros. 
A tradução literal de off-shore é “litoral” ou “fora da cos-
ta” . São utilizadas pelos agentes, na maioria das vezes, na 
primeira fase da lavagem e, mesmo em havendo justificação 
comercial para sua existência e legalidade no que tange à sua 
criação, estão frequentemente ligados a operações criminosas:
Os paraísos fiscais tornam-se atrativos 
aos lavadores de dinheiro não pela van-
tagem fiscal oferecida, mas fundamen-
talmente por contarem com regras ex-
tremamente atraentes de sigilo bancário, 
pouca supervisão de bancos, pouca fis-
calização de empresas e permissão para 
constituição de certos tipos de estrutu-
ras jurídicas empresariais que tornam 
muito difícil a identificação dos reais 
proprietários e beneficiários, diz Gerson 
Luís Romantini, no seu trabalho desen-
volvido na Unicamp. No Brasil, os para-
ísos fiscais representam, em 2001, 17% 
dos investimentos estrangeiros diretos, 
ou US$ 21, 239 bilhões. Dos 40 países 
que investem aqui, 17 são enquadrados 
nessa categoria, sem contar o Uruguai. A 
maior parte é dinheiro de brasileiros la-
vado em operações fraudulentas, retor-
nando ao país disfarçado como investi-
mento. No sentido contrário, os recurso 
remetidos ao exterior por brasileiros têm 
como destino preferencial as ilhas Cay-
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Daniela Villani Bonaccorsi
man, arquipélago realmente paradisíaco 
situado no Caribe. Com apenas 45 mil 
habitantes, o país tem quase600 bancos, 
com mais de US$ 460 bilhões em depó-
sitos, além de 8 mil companhias regis-
tradas. Muitas destas empresas, dizem 
especialistas, não passam de caixas pos-
tais. Os capitais verde-amarelos depo-
sitados lá chegam a US$ 19, 621 bilhões. 
(KISCHINHEVSKY citado por MEN-
DRONI, 2006, p. 71).
Os Paraísos fiscais96 são destacados como países que pro-
porcionam incentivos fiscais aos investidores, isentando ou di-
minuindo consideravelmente a carga de tributos por determina-
do período de tempo, ou para determinados tipos de aplicações 
financeiras, ou ainda diminuindo a carga tributária especifica-
mente para determinados negócios que ali venham a se estabe-
96 “Instrução Normativa SRF nº 188, de 6 de agosto de 2002- Art. 1º Para 
todos os efeitos previstos nos dispositivos legais discriminados acima, 
consideram-se países ou dependências que não tributam a renda ou que 
a tributam à alíquota inferior a 20% ou, ainda, cuja legislação interna opo-
nha sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à sua 
titularidade as seguintes jurisdições:
 I - Andorra; II - Anguilla; III - Antígua e Barbuda; IV - Antilhas Holandesas; 
V - Aruba; VI - Comunidade das Bahamas; VII - Bahrein; VIII - Barbados; 
IX - Belize; X - Ilhas Bermudas; XI -Campione D’Italia;XII - Ilhas do Canal 
(Alderney, Guernsey, Jersey e Sark);XIII - Ilhas Cayman;XIV - Chipre;XV 
- Cingapura;XVI - Ilhas Cook;XVII - República da Costa Rica;XVIII - 
Djibouti;XIX - Dominica;XX - Emirados Árabes Unidos;XXI - GibraltarX-
XII - Granada;XXIII - Hong Kong;XXIV - Lebuan;XXV - Líbano;XXVI 
- Libéria;XXVII - Liechtenstein;XXVIII - Luxemburgo (no que respeita às 
sociedades holding regidas, na legislação luxemburguesa, pela Lei de 31 de 
julho de 1929) ;XXIX - Macau;XXX - Ilha da Madeira;XXXI - Maldivas;XXXII 
- Malta;XXXIII - Ilha de Man;XXXIV - Ilhas Marshall;XXXV - Ilhas 
Maurício;XXXVI - Mônaco;XXXVII - Ilhas Montserrat;XXXVIII - Nauru;XXXIX 
- Ilha Niue;XL - Sultanato de Omã;XLI - Panamá;XLII - Federação de São 
Cristóvão e Nevis;XLIII - Samoa Americana;XLIV - Samoa Ocidental;XLV 
- San Marino;XLVI - São Vicente e Granadinas;XLVII - Santa Lúcia;XLVIII - 
Seychelles;XLIX - Tonga;L - Ilhas Turks e Caicos;LI - Vanuatu;LII - Ilhas Vir-
gens Americanas;LIII - Ilhas Virgens Britânicas”. (MENDRONI, 2006, p.59).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
lecer (MENDRONI, 2006, p. 58/59). São países ou dependências 
que não efetuam a tributação da renda ou que a atribuem à alí-
quota inferior a 20% ou possuem uma legislação que garante o 
sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à 
sua titularidade, oferecendo transações vantajosas na movimen-
tação de recursos. Também, pode-se falar de países que não pos-
suem tratados de cooperação para persecução do crime em tela. 
De acordo, ainda, com o FMI, os paraísos fiscais in-
cluem a Bahamas, Bahrain, Ilhas Cayman, Hong Kong, An-
tilhas, Panamá e Singapura. Sistema bancário alternativo 
são, também, exemplo do que alguns países da Ásia utili-
zam, de forma a permitir depósitos, saques, transferências, 
tudo sem vestígio. No caso do sistema hawala no Paquistão 
e na Índia, e do FIE shen na China. Trata-se de empresas 
pelas quais é recebido o dinheiro sujo, como pagamento por 
supostos bens e serviços que nunca existiram na prática; há 
a aparência de transações legitimas através de notas fiscais e 
balanços fraudulentos. (MENDRONI, 2006, p. 57).
Ainda dentre as técnicas utilizadas, a empresa fictícia ou 
fantasma é aquela criada apenas no papel, não há existência 
física, ou seja, checando-se a eventual existência do prédio 
naquele logradouro e número registrado na Junta Comercial, 
constatar-se-á a sua inexistência. Na lavagem de dinheiro 
em que se utiliza o investimento em empresas legítimas, nas 
quais há entrada de valor proveniente de crime, há uma mes-
cla no resultado do seu lucro. Corretoras de valores, cassinos, 
bingos, são frequentemente utilizados, uma vez que há ma-
nipulação de grandes quantias, de forma que o dinheiro sujo 
acaba por se perder. Também como exemplo da lavagem em 
“empresas”, na utilização de empresas em que há “dinheiro 
vivo”, ou em que não há um valor fixo, mas bens que de-
pendem de avaliação, como bares, e lava-rápidos, e casas no-
turnas ou lojas, casas de antiguidade, joalherias, oferecem-se 
bens e serviços legítimos, mas o seu real propósito é limpar o 
dinheiro dos criminosos. 
| 172 |
Daniela Villani Bonaccorsi
Esse método funciona de dois modos: o agente tem a pos-
sibilidade de mesclar seu dinheiro sujo com receitas limpas 
da empresa, neste caso, a empresa declara receitas maiores do 
que a real lícita; ou o agente oculta os valores provenientes de 
crime nas contas legítimas da empresa. “Assim, o agente mo-
vimenta o dinheiro em nome da empresa, mas ela na verdade 
não existe fisicamente” (...) (MENDRONI, 2006, p. 65)
Na transação imobiliária fraudulenta o agente da lavagem 
de dinheiro adquire propriedade com recursos de origem ilíci-
ta no pagamento, mas declara valor significativamente inferior 
ao valor real. A diferença ao comprador, em espécie, é ocultada 
e, com a posterior avaliação de bem superior, alegam-se reali-
zações de benfeitorias e reformas no imóvel (BARROS, 2004, p. 
70). Após a transação de compra do imóvel, este será vendido 
pelo lavador pelo seu valor real, assim, o lucro auferido através 
da prática criminosa será devidamente justificado.
Na chamada estruturação ou “smurfing”, “um ou mais in-
divíduos conduzem, com os recursos ilegais, por um período 
maior de tempo, múltiplas transações em uma outras institui-
ções financeiras”. (BARROS, 2004, p. 50):
Consiste na quebra de grandes quantias 
de dinheiro, divide-se um grande mon-
tante em pequenas quantias, dilui-se 
em inúmeras contas com titularidade, 
datas e valores diferenciados, para de-
pois encaminhá-las a uma única conta 
convergente. Quanto mais ações pratica-
das, mais se distancia o valor da origem 
delituosa. Nos EUA, esta quantia me-
nor tende a ser no máximo 10 mil U$$ 
a parte da qual os bancos americanos 
devem declarar a transação ao governo. 
O dinheiro é então depositado em uma 
ou mais contas bancárias por várias 
pessoas (smurfs) ou para uma única pes-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
soa durante um determinado período. 
 (BARROS, 2004, p. 52).
O mercado negro de câmbio colombiano vale ser mencio-
nado, uma vez que gerou grande repercussão desde 1990. Ori-
ginariamente, um oficial colombiano se reuniu com o departa-
mento do tesouro americano para discutir o problema dos pro-
dutos americanos que estavam sendo importados ilegalmente 
para a Colômbia usando o mercado negro. Quando pensaram 
sobre a questão, considerando o problema de lavagem de di-
nheiro e de drogas, os oficiais americanos e colombianos acaba-
ram por verificar que o mesmo mecanismo servia para os dois 
propósitos, o controle e a lavagem de dinheiro. 
Esse complexo meio de execução contava com o fato de 
que há empresários na Colômbia que são importadores de 
produtos internacionais, que precisam de dólares para con-
duzir seus negócios, e para passar pelos impostos do governo 
americano e para a conversão de peso para dólares e tarefas 
de importação, esses empresários podem recorrer aos corre-
tores de peso do mercado negro, que cobram uma pequena 
taxa para conduzir a transação sem a intervenção do governo. 
De forma suscinta, um traficante de drogas entrega dólares 
sujos para um corretor de pesos na Colômbia. O corretor então 
usa os dólares de droga para comprar produtos dos EUA para 
importadores colombianos. Mas, quando os importadores rece-
bem o produto sem passar pelo radar do governo, eles vendem 
em peso na Colômbia, pagam o corretor usando seus rendimen-
tos. O corretor então devolve ao traficante o equivalente ao origi-
nal em pesos (descontadasa comissão) dos dólares sujos. 
A compra de bilhetes sorteados, com o fim de lavar di-
nheiro, consiste na compra de bilhetes, com a intervenção de 
funcionários da Caixa Econômica Federal ou banco respon-
sável pelo pagamento do prêmio; dessa forma, valores decla-
rados seriam justificados como ganhos na loteria, jogos etc. 
Há uma manipulação das premiações e a realização de alto 
número de apostas em determinada modalidade e jogo, para 
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Daniela Villani Bonaccorsi
fechar as combinações. Nesse caso o funcionário paga o valor 
do bilhete para o verdadeiro ganhador, mas registra o nome 
do agente da lavagem. (MENDRONI, 2006, p. 76).
Objetos e prestação de serviços de difícil avaliação são fre-
quentemente utilizados como lavagem de dinheiro. Um objeto 
de arte, de antiguidade, a prestação de serviços de um advoga-
do, de um publicitário, são de difícil avaliação e não possuem 
tabela ou preço fixo, mas imensa variação, em que se afirma a 
aquisição de bem ou serviços por um determinado valor e, após 
declará-lo bem inferior, revende-o pelo mesmo valor da compra. 
Portanto, inúmeros são os exemplos de técnicas de lava-
gem, que, na realidade, se modernizam com os avanços tecno-
lógicos e o poderio econômico dos criminosos. Essas técnicas 
variam quando realizadas dentro ou fora de instituições fi-
nanceiras. Em instituições financeiras, são comuns, portanto, 
grandes depósitos e transferências devidos em pequenas con-
tas, o smurfing; as contas com nome falso, sejam pessoas que 
emprestam ou que sequer existem, como o uso de contas de 
amigos, parentes e cúmplices; empresas de fachada, normal-
mente offshores, para estratificar transações; movimentações 
por meio de profissionais que não possuem prestações de 
serviços com valores fixos, mas com valores muito variáveis, 
como advogados, contadores, consultores, agências de publi-
cidades, agentes fiduciários; aquisição de bancos “limpos”; 
transferências telegráficas; travelers cheques; estruturação de 
operações financeiras (frequentemente eletrônicas) para evi-
tar requerimentos; internet banking e contas eletrônicas de 
depósito; cheques administrativos, letras de câmbio e ordens 
de pagamento. Ainda, depósitos e saques em dinheiro; con-
trabando de dinheiro entre países, uma verdadeira evasão de 
divisas; transações em dinheiro relativas a negócios.
Em instituições financeiras não bancárias podem-se citar 
exemplos, como casas de câmbio; empresas de transferência 
de dinheiro; travelers cheques; bancos “impróprios”, tipo os 
“hawala” e os “hundi” no Oriente Médio e Ásia; seguros de 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
vida com prêmio único; seguros de garantia ou outros segu-
ros “financeiros”; serviços de correio (ordens de pagamento 
e pacotes contendo dinheiro). Em empresas não financeiras, 
são exemplos de lavagem o uso de facilitadores profissionais 
(advogados, contadores, agentes, os mencionados cassinos, 
apostas, sites internet de apostas e jogos, construção e empre-
endimentos ou negócios imobiliários.
Ratifica-se que a forma pela qual as etapas e operações são 
implementadas pode variar em cada meio de execução e cada 
país, dependendo dos recursos disponíveis, das “brechas” de 
cada sistema financeiro e estratégia do criminoso. Por isso, a in-
vestigação da lavagem de dinheiro é complexa; diante de tantas 
movimentações e do distanciamento da origem, pode-se chegar 
à comprovação de que o valor, por exemplo, entrou em um para-
íso fiscal, mas dificultosa é a comprovação da sua origem.
O capital a ser branqueado segue por enormes ramificações, 
assume um caráter transnacional e se moderniza com as técni-
cas e avanços tecnológicos. A dificuldade da persecução penal, 
além de se justificar pelos meios de execução, justifica-se pelo 
poder econômico do criminoso. O criminoso do colarinho bran-
co dispõe de estabilidade e poder econômico, a ponto de evitar 
prática de atos pessoalmente, de poder introduzir pessoal espe-
cializado e ter acesso aos meios e técnicas mais avançados. Daí 
as inúmeras alterações no sentido de se obrigar cada vez mais 
profissionais às informações suspeitas ao órgão competente. 
2.8 A Lavagem de Dinheiro 
e o post factum impunível 
Para possibilitar a visualização da relação do crime de 
lavagem de dinheiro e do pós-fato impunível, obrigatoria-
mente, passa-se pela análise do crime de receptação, diante 
de inúmeras características comuns a eles. O crime, até então 
previsto no Codigo Penal brasileiro, que mais se aproximava 
da lavagem de dinheiro era o crime de receptação. Tanto é 
| 176 |
Daniela Villani Bonaccorsi
que a afirmação foi feita desde o advento da Lei nº 9613/98 
(JOBIM, 2000) e, em vários países, como Espanha, França, a 
lavagem de dinheiro é espécie de receptação.
A receptação e a lavagem de dinheiro foram inseridas em 
momentos históricos diferentes, e a principal dificuldade é, sem 
dúvida, procurar um alcance do crime de receptação nos meios 
de execução hoje utilizados no crime de lavagem de dinheiro. 
Mas o foco principal na comparação dos crimes aqui elencada é 
a compreensão do motivo pelo qual o autor do crime preceden-
te, no crime de receptação, não é por ela punido. Já no crime de 
crime de lavagem, não obstante os elementos em comum nos 
tipos penais, no Brasil é punido, inclusive admitindo-se o con-
curso de crimes da lavagem de dinheiro com o anterior e outros 
delitos autônomos que possam incidir como meios de execução.
Assim, é necessário partir-se da compreensão dos moti-
vos que levaram à tipificação da conduta de branqueamento 
de capitais no Brasil, de forma autônoma, e da análise da ca-
pacidade, ou não, da receptação de absorver a conduta defini-
da como lavagem de capitais. 
2.9 As diferenças e semelhanças nos 
crimes de lavagem de dinheiro e 
no crime de receptação
A lavagem de dinheiro é reflexo direto de um movimento 
emergencialista e, apesar da complexidade do crime de lava-
gem de dinheiro, já que se trata de um conjunto de ações, e não 
de único ato, ele se aproxima do clássico delito de receptação. 
Com essa afirmação se busca a relação com o crime de 
receptação na impossibilidade de incriminação do autor da 
conduta precedente. 
De tal forma, é imprescindível uma comparação do tipo 
penal do crime de receptação, previsto no art. 180 do Código 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Penal, com a utilização de exemplos práticos e análise das di-
ferenças e semelhanças entre os mesmos.
A proximidade dos mencionados crimes é vista facil-
mente nas legislações italiana e espanhola. Na Itália, pela 
própria topografia do código, verificou-se tratar a lavagem de 
dinheiro de espécie de receptação, uma vez que foi inserido 
no art. 648 “Da ricettazione”. 
Também, o Código Penal espanhol prevê o crime de 
Lavagem de Dinheiro no mesmo capítulo que trata a recep-
tação, mas entendendo que o bem jurídico seria a ordem eco-
nômica ou sistema financeiro: Capítulo XIV, “La Recepatación 
y El Blanqueo de capitales.”.
O crime de receptação no Brasil é previsto no art. 180, 
nos seguintes termos: “Adquirir, receber, transportar, condu-
zir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe 
ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a 
adquira, receba ou oculte”. 
O bem jurídico protegido é o patrimônio das pessoas 
que, já violado por uma ação criminosa, volta a ser atingido 
com a receptação, realizada por terceiro:
O receptador é, sem dúvida, um perpe-
tuador do estado antijurídico patrimo-
nial criado pelo crime que a precede; 
mas difere, essencialmente do autor do 
último. Não é o indivíduo que já desceu 
à extrema degradação moral do gatuno, 
do rapinante, do extorsionário; mas o in-
divíduo que, para auferir lucro fácil, se 
despede dos escrúpulos que presidem, 
comumente, aos negócios honestos. Se-
ria incapaz de aventurar-seà prática 
de um furto, de um estelionato, de um 
roubo, de uma chantagem, etc. Sua ca-
pacidade de delinquir é limitada, não 
vai a arrojos de tal natureza. Cinge-se 
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Daniela Villani Bonaccorsi
a comprar, a receber ou a ocultar, lucri 
faciendi causa, coisas captadas por esses 
meios criminosos: não se abalança ao mi-
litante assalto à propriedade alheia. Tipos 
clássicos do receptador são os encontra-
dos entre os joalheiros de terceira classe 
e os donos de belchior ou ferro velho. 
(HUNGRIA, 1967, p. 315).
A norma incriminadora do art. 180, caput, reprime, as-
sim, a conduta consistente em adquirir, receber, transportar, 
conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que 
sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de 
boa-fé, a adquira, receba ou oculte. (PRADO, 2006).
Protege-se, no crime de receptação, a inviolabilidade pa-
trimonial. A receptação atinge novamente o direito de pro-
priedade já anteriormente violado, permanecendo a situação 
antijurídica criada, e obstaculizando, ainda, a recuperação 
dos produtos obtidos pelo crime anterior. Um dos motivos 
da incriminação da receptação é a intenção de inutilizar, nas 
mãos do culpado pelo delito anterior, o produto do crime, 
ademais de se buscar tornar menos difícil a recuperação da 
coisa subtraída. (PRADO, 2006, p. 480).
O primeiro pressuposto para a caracterização do presente 
delito é, portanto, a prova da existência de um crime anterior, 
que não necessita ser de natureza patrimonial. Não se exige 
também que a infração anterior já tenha sido apurada em pro-
cesso transitado em julgado, basta prova de sua ocorrência, que 
poderá ser apurada conjuntamente com o delito posterior. 
Trata-se de crime acessório, somente caracterizado quan-
do a coisa é produto do crime. Não há necessidade de exis-
tência de inquérito policial, processo e muito menos sentença 
em que se ateste a ocorrência do crime antecedente, mas se 
torna indispensável a prova da sua ocorrência. Pode-se pra-
ticar receptação de coisa produto de peculato, lenocínio, fal-
sidade, contrabando, de descaminho, e mesmo de receptação. 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
Se a coisa for adquirida por terceiro de boa-fé, que por sua vez 
a transmite a outrem, não comete este receptação, ainda que 
tenha conhecimento de que a coisa provém de crime.
Para que se possa falar em receptação, 
é imprescindível a prática de um crime 
anterior, havendo, portanto, uma aces-
soriedade objetiva entre ambas as infra-
ções. Contudo, não obstante essa acesso-
riedade no âmbito material, há plena au-
tonomia no plano processual, de forma 
que a ação penal no crime de receptação 
independe da apuração do crime ante-
rior, bastando a prova de sua existência. 
(PRADO, 2006, p. 484).
Nao obstante, se trata de crime comum, em que qualquer 
um pode ser sujeito ativo, excepciona-se o autor do crime ante-
rior, uma vez que “o dolo de usufruir do lucro direto ou indireto 
do crime, e exaurimento do crime anterior, seja este contra o pa-
trimônio, ou não” (HUNGRIA, 1967, p. 61). Se o autor do crime 
de furto, troca, vende ou oculta a coisa, não houve novo lucro ou 
novo prejuízo ao bem, mas somente nova conduta que decorreu 
da conduta anterior, de forma a possibilitar a utilização, guarda 
ou impunidade do lucro direto ou indireto do furto 
Assim, a utilização da coisa ou lucro do crime precedente 
é pós-fato impunível, pois é desdobramento da mesma conduta 
anterior. As condutas do autor do crime precedente são desdo-
bramento do dolo anterior, que já visava à vantagem ilícita:
Ocorre o post factum impunível sempre 
que, visando ao exaurimento de delito 
anterior, desenvolva o agente nova ativi-
dade tipica. Desta sorte, a verificação do 
post factum impunível está intimametlte 
atrelada ao exaurimento de um crime. 
Assevera-se acontecer o exaurimento do 
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Daniela Villani Bonaccorsi
delito quando, após sua consumação, 
obtiver seu sujeito ativo todas as van-
tagens que buscava e perseguia com 
o seu cometimento. Consumado está o 
delito quando o fato concreto reunir e se 
compuser com todos os elementos de sua 
definição legal. Todavia, exaurido estará 
se o agente lograr alcançar e obter (o que 
nem sempre necessariamente sucede) as 
vantagens que buscava com a sua perpe-
tração. (...) Nem sempre, porém, o exau-
rimento acontece naturalmente, por for-
ça do curso normal dos acontecimentos. 
Algumas vezes, para que o obtenha, terá 
o sujeito ativo que desenvolver e engen-
drar nova atividade, voltada e dirigida 
à sua obtenção. (...). A atividade típica 
subsequente voltada a este desiderato, 
por conseguinte atrelada ao crime an-
terior, por ele será diluída e absorvida, 
constituindo um post factum impunível. 
Como acima expusemos, o problema da 
consunção é de continência jurídica, e 
não (...) Post factum impunível – pode ser 
considerado um exaurimento do crime 
principal praticado pelo agente e, portan-
to, por ele o agente não pode ser punido. 
(PEDROSO, 1991, p.295).
O autor do crime precedente pratica uma nova conduta, 
que pode até mesmo incidir na ação de “ocultar” o produto 
direto ou indireto do crime. Mas, seja ocultando ou incidindo 
nas demais condutas do tipo penal do art. 180 do Código Pe-
nal, não houve lucro ou vantagem com a receptação. 
O produto do crime é o mesmo do anterior, o dolo de lu-
cro, também, o que se pretende é o exaurimento do crime an-
terior. Se o agente rouba, quer usufruir da coisa sem o risco de 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
uma prisão em flagrante, sem que seja relacionado ao crime 
precedente, ou muitas vezes, em busca do produto indireto, 
ou seja, o valor, por exemplo, de uma venda. Mas certo é que o 
agente do crime anterior não possui novo elemento subjetivo, 
e sim a mesma vontade livre e consciente de obter vantagem. 
É possível falar em post factum impunível quando o fato 
posterior se coloca na linha de desdobramento da ofensa 
(principal) do bem jurídico. Esse fato praticado contra a mes-
ma vítima ou mesmo bem jurídico, no mesmo contexto fático, 
fica absorvido, é caracterizado como exaurimento do crime.
Pode-se falar que o exaurimento ocorre quando o agente 
alcança, efetivamente, a finalidade que motivou a sua conduta 
delituosa. É uma espécie de etapa final, o esgotamento do iter 
criminis: “Em alguns casos, o delito depois de consumado tem 
um desenvolvimento posterior, suscetível de provocar um 
novo dano, até que o agente atinja o objetivo que se havia pro-
posto, quando então se considera o delito exaurido”. (BECK, 
2004, p. 67).
O exaurimento não configura um novo crime, “funciona 
como post factum não punível, que apenas exaure um delito 
já consumado” ainda que encontre tipificação autônoma na 
legislação penal, que atinja novo bem jurídico ou que gere 
vantagem ao agente. (BECK, 2004, p. 68). Conclusão diversa 
levaria à dupla punição a um mesmo fato delituoso.
O post factum impunível é considerado por muitos auto-
res até mesmo irrelevante no iter criminis, entendendo-se (ZA-
FFARONI; PIERANGELI, 1998, p. 80) que não incide na pena 
cominada ao crime a pessoa que intervém após a consumação 
do delito, em momento anterior ao exaurimento, que é impu-
nível. Nesse sentido: “Por outro lado, o concurso criminoso 
não pode ocorrer depois da consumação, a menos que a con-
duta posterior esteja relacionada com a anterior, podendo so-
brevir apenas outro delito acessório, como a receptação ou o 
favorecimento pessoal ou real”. (ZAFFARONI, PIERANGELI, 
1998).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Dessa forma o caminho do crime, aqui entendido como 
as fases de cogitação, premeditação, execução e consumação 
(no caso de crimes que dependem de resultado aturalístico, os 
crimes materiais), passa a ser punível com oinício da execu-
ção, estendendo-se a punibilidade à fase de consumação, mas 
sem atingir o exaurimento. (MIR, 1998, p. 22). O exaurimento 
é caracterizado como o pós-fato impunível e, ainda que pos-
sa muitas vezes caracterizar uma relevância na aplicação da 
pena, não constitui fato punível. (ESPINAR, 1995, p. 637-650).
Portanto, a impunibilidade do autor do crime precedente 
no crime de receptação é justificada por tratar-se de pós-fato 
ou post factum impunível. 
Analisando-se os elementos do crime de receptação, é 
importante destacar que este se relaciona em inúmeros ele-
mentos com o crime de lavagem de dinheiro. 
Em ambos os crimes há crime anterior, ou infração, e, o 
agente pratica novo ato, por exemplo, com o dolo de “ocultar” 
o produto direto ou indireto de crime antecedente. Ainda que 
na receptação a conduta se configure quando o agente aceita 
encobrir a origem delituosa do produto, e que na lavagem de 
dinheiro utiliza-se, por exemplo, dos processos de colocação, 
lavagem e inserção, o dolo dos agentes dos crimes anteriores 
é o de ter livre utilização do lucro anterior. Apesar dessa rela-
ção, há diferenças e, inclusive, justifica-se a impossibilidade 
do crime de receptação amparar condutas interpretadas como 
forma de branqueamento de capitais. (TIGRE MAIA, 1999, p. 
24; BACIGALUPO, 1996, p. 101; PODVAL, 1998, p. 218). Os au-
tores mencionam as diferenças entre os crimes de receptação 
e lavagem de dinheiro analisando-se o objeto material, meios 
de execução e bem jurídico protegido.
A primeira diferença entre os crimes de lavagem de dinhei-
ro e receptação seria em relação ao objeto material. No crime de 
receptação, o objeto material somente seria bens móveis prove-
nientes de outro delito, e já a lavagem de dinheiro admitiria como 
objeto material tanto bens móveis como imóveis. Na receptação, 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
pode haver a introdução, no patrimônio do agente do dinheiro 
ou coisa, e, na lavagem, o dolo seria a ocultação, substituição ou 
dissimulação do lucro proveniente do crime anterior.
A sucessão de atos característicos da lavagem não estaria 
abrangida no tipo penal de receptação. Ao fundamentar a in-
capacidade do crime clássico de receptação e da necessidade 
de abranger essas medidas de ocultação ou dissimulação de 
ativos, Jobim (2001) exemplifica a conduta do traficante que 
insere o ganho em conta fantasma, que movimenta pequenos 
valores em outras contas e depósitos, que remete os valores a 
offshores, até que os valores retornem como forma de emprés-
timo, por exemplo, e, justifica que essa conduta estaria muito 
distante da receptação. De forma também a negar a aplicação 
e equiparação da estrutura do tipo penal de receptação ao cri-
me de lavagem de dinheiro, conforme expõe Macedo (2006), 
seria a amplitude do delito, de forma a possibilitar a ofensa, 
não de um único bem, como patrimônio no caso da recepta-
ção, mas também da ordem socioeconômica.
No crime de receptação estar-se-ia se atingindo a mesma 
vítima do crime anterior, e na lavagem seriam vítimas diver-
sas, e a lavagem seria imprescindível para a proteção de bens 
jurídicos não protegidos no crime de receptação:
A creazione di una fattispecie speciale diversa 
dalla ricettazione era necessária per incluíres le 
modalidade di riciclaggio dei provento illeciti 
che si vogliono sanzionare. In effetti, nela sua 
formulazione tradizionale il delito di ricettazio-
ne ponte una serie di limiti che non risultano 
adequati alle finalita dela delinquenza moderna. 
 (BACIGALUPO, 1996, p. 102).
Por óbvio, o contexto em que fora criado o crime de lavagem 
de dinheiro, os modernos meios de execução hoje empregados e 
técnicas cada vez mais complexas distanciam os mencionados 
crimes, mas as diferenças propostas não são de todo válidas.
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Daniela Villani Bonaccorsi
O crime de lavagem é o processo mediante o qual o pro-
duto de infração anterior, após passar por inúmeros atos, pas-
sa a possuir a aparência de lícita, podendo livremente circular 
pela economia regular.
Como destacado, são inúmeras as técnicas empregadas 
nos meios de execução. E todas elas previstas como crime autô-
nomo. Toma-se, por exemplo, a clássica situação em que o trafi-
cando, visando ocultar e dissimular o lucro do tráfico, o insere 
no sistema financeiro utilizando inúmeras contas “fantasma”. 
Em seguida, após inúmeras movimentações, remete, por meio 
de doleiro, valores para o exterior. Com os valores em paraísos 
fiscais, podem-se criar empresas de fachada, de forma a simular 
empréstimos que são inseridos no patrimônio do agente, após 
o devido pagamento de tributos, com a aparência de licitude.
O exemplo não poderia ser absorvido unicamente pelo 
tipo penal de receptação, nem mesmo na lavagem de dinhei-
ro. Ao ter se utilizado do sistema financeiro de forma frau-
dulenta, fornecendo informações falsas como de titularidade 
da conta, incidiria o traficante no art. 6º da Lei 7492/86. Ao se 
utilizar de doleiro para a saída do valor proveniente de cri-
me, em tese estaria evadindo divisas, nos termos do art. 22 
da mesma lei. Ou seja, no processo utilizado para o branque-
amento, há a incidência em crimes autônomos e consequente 
“proteção” ao dano ou risco aos bens jurídicos.
Ratificando essa afirmação, há a previsão de tipos penais 
autônomos, que possam ser utilizados como meio de execu-
ção na lavagem de dinheiro. Se no processo de lavagem se 
atinge outro, ou outros bens, o agente da lavagem responderá 
pelos delitos em que incorrerá, como sonegação fiscal, ou cri-
mes contra o sistema financeiro.
Ou seja, entende-se que o meio de execução, por si só, 
não diferencia os mencionados crimes. O dolo é o de “ocul-
tar” produto direto de crime, coincidente em ambos os tipos 
penais. Da forma hoje prevista, os crimes não se confundem, 
pois a receptação possui meio de execução menos complexo 
e com menos ato, mas o dolo é, sim, coincidente, ao usufruir 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
do lucro obtido no crime precedente, ou, pelo menos, usufruí-
-lo de forma a não gerar suspeitas, como no caso do autor de 
crime contra o patrimônio que revende a res, para dela se dis-
tanciar, garantindo a impunidade.
Assim, entende-se que na receptação, quando o autor, 
por exemplo, de um crime de roubo vende ou troca o produ-
to, ele já havia obtido a vantagem, o produto, a lucratividade, 
tanto é que ele não incide no crime de receptação. Na lavagem 
de dinheiro, quando o agente, por exemplo, obtém vantagem 
proveniente de tráfico e pratica manobras para incorporá-la 
ao seu patrimônio, sem gerar suspeitas ou risco de perdê-las, 
também não gera lucro e, de forma idêntica, também já havia 
obtido a vantagem intensionada. 
A necessidade de tipificação e de diferenciação com o 
crime de receptação fundamentada por se tratar de vitimas 
diferentes (TIGRE MAIA, 2009; PRADO, 2007; MENDRONI, 
2006), também não justifica a incriminação do delito de lava-
gem de dinheiro. Como justificado, a natureza econômica do 
crime de lavagem de dinheiro faz com que ele pertença aos 
crimes que protegem os chamados bens supraindividuais, e, 
pode, em determinados casos, como no exemplo supracitado, 
atingir bens idênticos, não se individualizando a vítima.
Ou seja, o agente do crime de roubo que vende o produ-
to, para ocultar a origem ilícita, incide numa única conduta; o 
agente do crime de sonegação que insere o valor no sistema 
financeiro para ocultar origem ilícita incide em mais de um 
crime, apesar de atingir o mesmo bem jurídico. Àquele que é 
condenado pelo crime antecedente não se pode impor o dever 
jurídico ou espontaneamente entregar ao Estado, para ser con-
fiscado, o produto ou o proveito do crime pelo qual foi apena-
do. É contra a natureza das coisas o bom senso e até mesmo 
a lógica punir o delinquente por ter ele mesmo,sem ofender 
outros bens juridicamente tutelados, ocultado ou dissimulado 
a origem do dinheiro proveniente do crime que praticou e pelo 
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Daniela Villani Bonaccorsi
qual está sendo punido. A conduta posterior é, portanto, atípi-
ca, a sua punição, ademais, importaria inadmissível bis in idem.
Não obstante as diferenças no meio de execução e fun-
damentos dos crimes de receptação, o autor do crime prece-
dente não gera novo lucro na sua prática, com a finalidade de 
obter valor, dinheiro, ou bem, desses quer usufruir sem gerar 
suspeitas. Da mesma forma, não possui novo dolo. O dolo no 
crime de lavagem é o acobertamento, a ocultação e a busca de 
impunidade do crime precedente, de forma que o autor possa 
usufruí-lo livremente, sendo esse desdobramento do crime ou 
de infração anterior. Se o agente pratica um crime de roubo, 
certamente pretende vantagem patrimonial.
No crime de lavagem de dinheiro, da mesma forma, além 
de o agente do crime precedente não gerar lucro na lavagem, os 
modernos meios de execução utilizados são onerosos: doleiros, 
offshores, contadores, advogados, características de meios de exe-
cução de uma macrocriminalidade poderosa e que realmente não 
se equipara ao criminoso comum do crime contra o patrimônio.
Concorda-se, sim, que a definição do crime de lavagem de 
dinheiro é mais abrangente e mais complexa do que a do crime 
de receptação, mas, sem dúvida, deste é originário, e o princi-
pal na interpretação e equiparação de ambos aqui buscada é 
em relação à incriminação do sujeito ativo do crime precedente.
Desde a Convenção de Viena e consequente tipificação 
do crime, justifica-se a necessidade de incriminação de lava-
gem de dinheiro por uma preocupação não só de não se per-
der de vista o dinheiro, bens, mas de “incriminar o próprio 
emprego destes ativos pelo criminosos ou por terceiros”. (TI-
GRE MAIA, 1999, p. 24). 
As mencionadas convenções justificam as mudanças e 
alterações nas qualidades dos crimes praticados por organi-
zações criminosas, na quantidade de ganhos e consequente 
mudança do aproveitamento desses ganhos.
Sem dúvida, a evolução tecnológica, o acesso à internet, 
as transações bancárias modernas e o novo perfil do crimi-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
noso trouxeram alterações e até evoluções nas suas práticas. 
Os tempos mudaram, inclusive para o crime e o criminoso, e, 
junto com essas mudanças, procuraram-se leis emergenciais 
que demonstrassem medidas urgentes e aparentemente efeti-
vas contra a macrocriminalidade.
Os crimes relacionados a essas práticas, desde o tráfico, 
os crimes praticados por organizações criminosas, os crimes 
econômicos e até medidas contra terrorismo já eram antevis-
tas e previstas em outras leis extravagantes, mas a lavagem de 
dinheiro seria uma forma de “se tentar não perder o ganho 
ilícito de vista”.(TIGRE MAIA, 1999, p. 24). 
Mas, seja o sujeito que rouba um veículo, seja o sujeito que 
trafica, ambos querem utilizar o lucro do crime, garantindo a im-
punidade. Esse dolo já está presente desde a conduta anterior do 
agente, a venda do veículo, ou a inserção no sistema financeiro, é o 
desdobramento da intenção de usufruir do produto do crime an-
terior, sem deixar vestígios. Ou seja, há um post factum impunível.
Conforme Mendroni (2006), Pinto (2007), Baltazar Júnior 
e Moro (2007), em relação à lavagem de dinheiro, o agente do 
crime precedente que também utiliza meios para limpar o di-
nheiro “sujo” incide nos dois crimes, no crime precedente e na 
lavagem de dinheiro, e, além disso, se, para lavar o dinheiro, 
utiliza meios de execução que também são definidos como 
típicos, haveria concurso de crimes entre todos esses.
Na presente tese, entende-se de forma diversa quanto à 
responsabilidade penal do autor do crime antecedente. Quando 
o autor do crime precedente, juntamente com terceiros, como 
é mais comum, ou isoladamente, efetiva manobras para ocul-
tar ou dissimular os valores provenientes do delito anterior, 
quando tipificadas, ele já está sendo punido pelo processo de 
ocultação, em cada conduta isoladamente no tipo penal especí-
fico, como em caso de movimentações de contas clandestinas, 
evasões de divisas, manutenções de contas no exterior, offshores. 
Se as condutas utilizadas para a ocultação ou branqueamen-
to não são isoladamente tipificadas, o autor do crime precedente 
não pratica novo delito, pois o agente busca as vantagens que per-
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Daniela Villani Bonaccorsi
seguia com a prática do delito anterior. O agente visa ao exauri-
mento do delito anterior e somente incide no crime precedente:
Ocorre o post factum impunível sempre 
que, ao exaurimento de delito anterior, 
desenvolva o agente nova atividade típi-
ca. A verificação do impunível post factum 
está intimamente ligada ao exaurimento 
de um crime. Assevera-se acontecer o 
exaurimento do delito quando, após sua 
consumação, obtiver seu sujeito ativo to-
das as vantagens que buscava e perseguia 
com o seu cometimento. Posterior à con-
sumação da infração penal antecedente, 
pode ser post factum não punível. Mero 
exaurimento, ligado ao crime prévio por 
causalidade material, representando a 
obtenção do resultado pelo agente. Cui-
da-se de ato que complementa a ação típi-
ca principal cuja punição o absorve. (...) O 
agente registra a propriedade no próprio 
nome e reside no local. Impossível vislum-
brar o enquadramento do fato à previsão 
do art. 1º da Lei nº 9.613/1998, por razões, 
objetivas ou subjetivas, clarividentes. 
(PITOMBO, 2003, p.108). 
Nas legislações em que a lavagem de dinheiro é espécie de 
receptação, como no caso da Itália, predominou o entendimento 
no sentido de excluir a responsabilidade penal por receptação de 
qualquer um que possa ser tido como concorrente no crime, autor, 
coautor ou partícipe do crime precedente, do delito do qual se ori-
ginou a vantagem ilícita, desse modo, a receptação, nesse modo 
especial de reciclagem, vem enquadrada como “pós-fato impuní-
vel” para o concorrente no crime base. (ZANCHETTI, 1997, p. 352). 
Apesar da atual tendência emergencial e do enrijecimento 
dessas legislações passando a punir o autor do crime precedente, 
a questão é plenamente cabível, tendo, inclusive, a própria Con-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
venção de Palermo estabelecido em seu art. 6º, §2º, “e” que “e) Se 
assim o exigirem os princípios fundamentais do direito inter-
no de um Estado Parte, “poderá estabelecer-se que as infrações 
enunciadas no parágrafo 1 do presente Artigo não sejam aplicá-
veis às pessoas que tenham cometido a infração principal”.
Aquele que, por exemplo, oculta, transporta, vende pro-
duto direto ou indireto de crime, incidiria em receptação, o 
que não ocorre com o autor do crime precedente.
O autor do crime precedente somente responde pelo cri-
me anterior diante da própria interpretação juntamente com 
o crime de receptação. O ato de desviar a atenção, limpar, dis-
simular, visa à fruição do lucro já anteriormente obtido, e, por 
isso, trata-se de pós-fato impunível.
Nesse sentido, o Supremo Tribunal de Justiça português 
já decidiu, no processo nº 972/99, que o autor do crime de la-
vagem não pode ser o próprio traficante, mas apenas aquele 
que, com os propósitos normativamente definidos, converte, 
transfere ou dissimula bens ou produtos provenientes de prá-
ticas de tráfico. (FERRÉ OLIVÉ; ALMEIDA CABRAL; KUNI-
CKA-MICHALSKA, 2002, p. 298).
O Tribunal, em relação ao concurso de crimes e respon-
sabilidade pelo autor do crime de tráfico e crime de lavagem 
de dinheiro, analisou recurso que alegava “a existência de 
concurso real entre o crime de tráfico de estupefacientes e o 
crime de branqueamento, vertidos, respectivamente, nos arts. 
21º e 23º do Decreto-Lei nº 15/93, de 22 de janeiro”. O acórdão 
fundamento decidiu que os agentes dode 
entrecruzamento entre o local e o mundial, os Estados-Nação so-
frem uma redução na conformação das identidades individuais, 
uma vez que, para além dos tradicionais vínculos do cidadão 
nacional com o território e a nação, multiplicam-se os referen-
ciais identitários que amparam o surgimento de forças locais em 
busca de reconhecimento para as suas demandas particulares. 
política e jurídica estabelecida em uma denominada lei da amizade. A pro-
posta de um direito fraterno partiu de Resta (2002). A fraternidade, como 
termo central da sua obra, não é compatível com nenhum tipo de soberano. 
A fraternidade advém da mencionada lei da amizade, do pacto entre iguais 
e, por isso, o termo frater e não pater. No sentido da palavra latina frater, esta 
seria o “direito jurado entre irmãos”, um direito que não parte da decisão de 
um soberano (de qualquer espécie), mas é giurato insieme. Um acordo esta-
belecido entre partes iguais, acordado a partir de regras mínimas de convi-
vência. É o oposto do direito paterno, imposto por algum tipo de soberano. 
A fraternidade, na atualidade, aparece com a ideia de compartilhar, de pacto 
entre iguais, de identidade comum, de mediação. A fraternidade é um direi-
to jurado conjuntamente, é um direito livre de obsessão de uma identidade 
legitimadora. O Direito Fraterno propõe uma nova forma de análise do di-
reito atual, que depende da análise transdisciplinar dos fenômenos sociais, 
pretende buscar uma nova compreensão do cosmopolitismo, a partir de 
uma raiz iluminista, próprio da normatividade moderna, que se funda na 
compreensão dos direitos fundamentais. (RESTA, 2002, p.7): “La fraternità 
illuministica remmette una certa quota di complessità nel freddo primato 
del giusto sul buono e cerca, appunto, di alimentare di passioni calde il clima 
rigido delle relazione politiche. Ma ha nello stesso tempo bisogno di trasfe-
rire il modello dell’amicizia nella dimensione della fraternità, tipica di una 
condivisione di destini grazie alla nascita e indipendentemente delle diffe-
renze. Per questo ha bisogno di transformarla in codice, di farne regola; con 
tutti i paradossi, ma anche con tutte le aperture che comporta. Per questo è 
“diritto fraterno” che si affaccia allora, in epoca illuministica, e vive da quel 
momento in poi come condizione esclusa, ma non eliminata, accantonata 
e presente nello stesso tempo.” (RESTA, 2002, p. 7). Deste modo, o direito 
fraterno encontra-se em um espaço político mais aberto, independente das 
delimitações políticas e ou geográficas. A globalização coloca em questio-
namento a ideia de cidadania, já que esta, muitas vezes, se apresenta como 
excludente; por isso, o direito fraterno centra suas observações nos direitos 
humanos, na humanidade como um lugar comum. É um modelo de direito 
que abandona os confins fechados da cidadania e projeta para uma nova 
forma de cosmopolitismo, para uma nova forma de codivisão, de comparti-
lhamento, e um reclamo por direitos de caráter coletivos, supraindividuais.
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Daniela Villani Bonaccorsi
Assim, com a globalização, percebeu-se uma desterrito-
rialização do direito, pois se passou a buscar normas que par-
tem de organismos internacionais. Os limites não são mais 
aqueles antes delimitados pelo território físico, e, ao invés do 
individual, parte-se para o coletivo. Essas evoluções trazem 
impactos não só em noções básicas de estado-povo-território, 
mas na própria sociedade, que, ao se encontrar em meio a tais 
evoluções, percebe uma desterritorialização e impotência do 
direito, que se torna incapaz de produzir regras correspon-
dentes a cada desafio da globalização. A globalização traz um 
“vazio do poder público, diante da grandeza do novo poder e 
do novo problema”. (FERRAJOLI, 2003, p. 80).
1.2 A Sociedade globalizada e seus efeitos 
sociológicos: os novos riscos, o medo e a 
“busca” da “segurança e paz social”
Para compreensão do emergencialismo penal, impres-
cindível é a análise do contexto histórico e cultural que o pro-
piciou e do entendimento das características da “sociedade 
moderna”, caracterizada como a “sociedade de risco”.
A sociedade de risco teve origem no modelo teórico do 
sociólogo alemão Ulrich Beck, em 1986 (Risk Society), e, des-
de então, obteve grande repercussão. De acordo com o soci-
ólogo, o modelo caracterizaria e definiria a atual sociedade 
globalizada, a sociedade pós- industrial. 
O sociólogo alemão, para explicar a sociedade de risco, 
que é a sociedade pós- industrial, parte de dois conceitos: o 
conceito de primeira e segunda modernidade.
A primeira modernidade seria caracterizada como uma 
sociedade estatal e nacional, com estruturas coletivas, pleno 
emprego, rápida industrialização, exploração da natureza não 
“visível” e com riscos controláveis, a denominada sociedade 
de modelo simples ou industrial. 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
A partir do século XVIII, a segunda modernidade é con-
ceituada a partir da atual sociedade europeia, resultado de 
várias revoluções políticas e industriais, caracterizadas com 
o processo de globalização, riscos não delimitáveis, crises 
ecológicas e financeiras. O ponto central para compreensão 
da sociedade de risco se fundamenta em uma “modernidade 
reflexiva”. O termo é utilizado porque em tal processo de 
modernização, na sociedade pós-industrial, seriam postos 
em “reflexão” assuntos fundamentais, insuficiências e an-
tinomias da primeira modernidade. Ou seja, o processo de 
modernização torna-se reflexivo, convertendo-se a si mesmo 
em tema e problema. (BECK, 2011).
A modernidade reflexiva é elaborada em duas linhas ar-
gumentativas: uma primeira traçada mediante a lógica da dis-
tribuição do risco e outra num processo de individualização; 
em um processo de modernização assegurado pelo Estado se 
destradicionalizam as formas de vida instaladas na sociedade 
industrial, formas de vida no sentido de divisão de classes, ca-
madas sociais e família nucelar. (BECK, 2011, p. 220).
Para ele, a modernidade reflexiva deve enfrentar o de-
safio de cinco processos: a globalização, a individualização, o 
desemprego, o subemprego, a revolução dos gêneros, os riscos 
globais da crise ecológica e da turbulência dos mercados finan-
ceiros. Estaria se consolidando um novo tipo de capitalismo e 
um novo estilo de vida, muito diferente daquele das fases an-
teriores do desenvolvimento social. (BECK, 1999, 2/7). Ainda, 
a reflexividade do processo de modernização é explicada com 
base nas condições de riqueza e produção, ou seja, na socieda-
de de risco; ao contrário da sociedade industrial, as circunstân-
cias sociais são alteradas, não há mais a lógica de produção e 
distribuição riqueza. (BECK, 2011, p. 229). O emprego de meios 
técnicos, comercialização de produtos, negociações de valores 
em âmbito internacional trazem efeitos nocivos, mas desconhe-
cidos na sociedade, no sentido de que o cidadão conhece o ris-
co, mas não quem, como e em que ritmo o dano seria causado.
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Daniela Villani Bonaccorsi
Os avanços tecnológicos na sociedade pós-industrial são 
fontes de riscos cada vez maiores para os cidadãos, esses não só 
relacionados a fenômenos naturais, mas riscos que têm origem 
em decisões e comportamentos humanos produzidos com o uso 
das mencionadas mudanças tecnológicas (BECK, 1993, p. 19). 
A sociedade de risco, traçada como o modo social pós-in-
dustrial, também aparece caracterizada por um âmbito eco-
nômico variante e avanços tecnológicos na indústria, sistema 
financeiro, informática, genética e outros com repercussões 
diretas a cada indivíduo. A “sociedade pós-industrial é, além 
da ‘sociedade de riscos’ tecnológicos, uma sociedade com ou-
tras características individualizadoras que contribuem com 
sua caracterização como uma sociedade de insegurança” (SIL-
VA SANCHES, 2002, p.28/30). 
Três aspectos definem a denominada sociedade de risco. 
O primeiro aspecto seria a mudança nacrime previsto e puni-
do no referido artº 23º não podem ser os próprios agentes do 
crime previsto no artº 21º do mesmo diploma. 
Deste modo, concluiu:
no sentido de os agentes do crime do 
artº 23º do Decreto-Lei 15/93, de 22 
de Janeiro, a que corresponde actual-
mente o artº 368º-A do Código Penal, 
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Daniela Villani Bonaccorsi
não poderem ser os agentes do crime 
do artº 21º do mesmo diploma; ou seja, 
pela não existência de concurso real 
entre os ilícitos penais em questão. 
(PORTUGAL, 1999). 
Diante disso, entendeu-se a impossibilidade de se res-
ponsabilizar o agente do crime precedente por vários argu-
mentos, o primeiro argumento menciona o teor da própria lei 
de lavagem de dinheiro portuguesa, ao excluir o autor do cri-
me precedente do branqueamento de capitais “1.ª Do art.° 23.° 
do Decreto-Lei n.° 15/93, de 22 de janeiro, ou melhor, da sua 
previsão normativa decorre que os seus destinatários são ter-
ceiras pessoas – ainda que em proveito do próprio traficante – 
que não os agentes do crime de tráfico de estupefacientes”(...).
Também fundamentou a mencionada decisão na própria 
natureza do crime de lavagem de dinheiro, sua proximidade 
com a receptação e a definição do pós-delito, termo utilizado 
na referida decisão, ou o pós-fato impunível:
2.ª Neste sentido, veja-se que a lei por-
tuguesa, nos designados «pós-delitos», 
expressamente exclui a possibilidade do 
agente do ilícito-típico precedente poder 
ser punido em concurso efectivo pelas 
intervenções posteriores à consumação, 
quando realizadas pelo próprio.
3.ª A revogação do art.° 23.° do aludido 
Decreto-Lei n.° 15/93, de 22 de janeiro, o 
qual corresponde actualmente ao artigo 
368.°-A do Cód. Penal, não interfere, di-
recta ou indirectamente, na resolução da 
questão de direito controvertida.
4.ª Como é entendimento pacífico, o in-
tuito de evitar o confisco de bens ilici-
tamente adquiridos é conatural a todo e 
qualquer crime de cunho aquisitivo, sen-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
do os factos posteriores impunes quando 
praticados pelo agente desse crime. 
5.ª Dão-se por reproduzidos os motivos 
já referidos, nomeadamente no ponto 5 
deste recurso.
6.ª A Lei 11/2004, de 27 de março, que re-
vogou o art.° 23.° do Decreto-Lei n.° 15/93, 
o qual corresponde ao já mencionado art.° 
368.°-A do Código Penal, inseriu-o no Ca-
pítulo III – “Dos crimes contra a realiza-
rão da justiça”; clara indicação no sentido 
de apontar a realização da justiça como 
sendo o bem jurídico protegido, colocan-
do em crise o entendimento plasmado no 
Acórdão recorrido e consagrando, assim, 
a jurisprudência fixada no Acórdão do 
Supremo de 23 de março de 2000. Deve 
pois considerar-se que as condutas de 
branqueamento de capitais não lesam um 
outro bem jurídico; não devendo o trafi-
cante ser punido em concurso efectivo 
por tráfico e branqueamento de capitais.
7.ª Pelo que, em face do exposto e dos Acór-
dãos em oposição, deverá ser fixada juris-
prudência no sentido de os agentes do cri-
me do art.° 23.° do Decreto-Lei 15/93, de 22 
de janeiro, a que corresponde actualmente 
o art.° 368.º-A do Código Penal, não pode-
rem ser os agentes do crime de tráfico; ou 
seja, pela não existência de concurso real 
entre os ilícitos penais em questão.
Termos em que deve proceder o recur-
so interposto, fixando-se a jurisprudên-
cia em consonância com o Acórdão do 
Supremo Tribunal de Justiça de 23 de 
março de 2000, em detrimento do douto 
Acórdão recorrido, como é de JUSTIÇA. 
(PORTUGAL, 1999).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Assim, além de a questão ser abordada em outros países, 
apesar de os teóricos negarem a possibilidade aqui elencada 
pelos motivos mencionados, como suposta pluralidade de ví-
timas e de bens jurídicos, a presente constatação também é 
abordada no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Inclusive, 
vale ilustrar entendimento corroborando tal afirmação em jul-
gamento de Recurso de Apelação Criminal 1.0000.00.246981-
5/000 -2469815-51.2000.8.13.0000 (1), perante a 3ª Câmara Cri-
minal. Na referida decisão, fundamenta-se que não há como 
falar em dupla punição ao autor que, além de traficar, lavou 
o dinheiro, fruto do tráfico. A lavagem seria “uma finalidade 
última da conduta antecedente. Quem trafica tem por objetivo 
último o lucro. Assim, o lucro faz parte desta cadeia de atos 
que comporão o fato típico”.
Além do mais, entendo que o autor do 
crime antecedente não pode ser também 
punido pelo de lavagem, que, no caso, 
constitui mero exaurimento do primei-
ro. Segundo esclarece o autor acima: “O 
fato da existência do crime de lavagem 
de capitais não dispensar a prática dos 
delitos antecedentes, indubitavelmente 
remete o estudo à problemática do post 
factum (fatos posteriores não puníveis).
Não há falar em dupla punição ao au-
tor que, além de, e. g., traficar, lavou o 
dinheiro, fruto do tráfico. A lavagem 
não passa de uma finalidade última da 
conduta antecedente. Quem trafica tem 
por objetivo último o lucro. Assim, o 
lucro faz parte desta cadeia de atos que 
comporão o fato típico. Da mesma forma 
que, e. g., o autor da falsificação não será 
punido em concurso pelo falso e pela so-
negação ou, por fim, o ladrão que, após 
o roubo, é preso vendendo o produto do 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ilícito. Todos esses exemplos asseme-
lham-se ao caso em questão, e a solução 
não poderá ser outra, ou seja, não há 
falar em concurso, pois trata-se de post 
factum punível. 
Insustentável punir o agente duas vezes 
pelo mesmo fato (pela mesma intenção 
última). Seja em função de se utilizar 
um argumento absolutamente utilitaris-
ta - procurando, na dupla punição, dar 
ao Direito Penal um caráter simbólico, 
acreditando-se que quanto maior a pu-
nição menor será a prática delitiva - seja 
pela teoria do post factum impunível. A 
conclusão a que se chega é da impossi-
bilidade de se justificar a punição em 
forma de concurso, nos casos em que o 
autor do fato prévio seja o mesmo que o 
da lavagem” (Op. cit. p. 2101/02) 
Portanto, o fato dos acusados haverem 
adquirido bens com o produto das ações 
delituosas por eles perpetradas, não im-
portou no crime de lavagem de dinheiro.
Diante do exposto se conclui que a con-
denação pela infração do art. 1º, inc. V, 
da Lei 9.613/98, não pode ser mantida. 
(BRASIL, 2000)
Se a intenção do agente é usufruir e garantir a impuni-
dade do crime anterior, esse segundo momento é considera-
do post-factum impunível. Daí a conclusão de que a lavagem 
de dinheiro seria mero exaurimento, ou o próprio post factum 
impunível. Se o agente praticar crime visando ao lucro, quer 
usufruir desse lucro:
No Brasil, como salientado, ratificou-se o 
texto da Convenção de Palermo contra o 
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Daniela Villani Bonaccorsi
crime organizado transnacional, adotado 
em New York, em 15 de novembro de 2000, 
aprovado pelo Congresso por meio do De-
creto nº 5015, de 12 de março de 2004, que 
a promulgou, especificando: “Art. 6º, ‘2’- Se 
assim o exigirem os princípios fundamen-
tais do direito interno de um Estado Par-
te, poderá estabelecer-se que as infrações 
enunicadas no parágrafo 1 do presente 
Artigo não sejam aplicáveis às pessoas que 
tenham cometido a infração principal”. 
(BRASIL, 2004).
No mesmo sentido, o conselho da Europa, da Convenção 
de nº 141, expressa que as partes podem prever que o autor 
do crime de lavagem de dinheiro não coincida com o autor da 
infração precedente.
Apesar da possibilidade elencada na própria convenção 
o Brasil fez opção diversa. Entende-se que a opção de incri-
minar também o autor do crime precedente atinge direitos e 
garantias e é o inverso de uma visão garantista. A opção da 
conduta do autor do cirme precedente como post factum impu-
nível seria mais adequada, em nome da observância dos Prin-
cípio da lesividade, da Legalidade Substancialpotencialidade 
dos riscos em relação a outras épocas, como ameaças naturais 
ou pragas. Passa-se a falar de riscos artificiais que partem de 
condutas e decisões humanas, possuem grandes dimensões e 
podem atingir um número indeterminado de pessoas (BECK, 
1993, p. 203). “Surge a este respecto, outra faceta o dimenci-
ón que típicamente se atribuye a la sociedad actual, como es 
la globalización de muchos de los fenômenos que en ella se 
producen.”(BUERGO, 2001, p. 26). Os riscos artificiais seriam 
os surgidos na segunda metade do século XX; os riscos atômi-
cos, químicos, econômicos e ecológicos se sobrepõem àqueles 
próprios da sociedade industrial clássica. Assim, há uma mu-
dança na potencialidade dos perigos em relação a outras épo-
cas, como pragas ou desastres naturais, pois hoje são riscos 
artificiais e, por isso, imprevisíveis (BECK, 1999, p.66). 
O segundo elemento caracterizador da sociedade de ris-
co seria a complexidade nas relações de responsabilização. 
Diante da complexidade das condutas, cada vez mais se torna 
dificultosa a individualização das ações, pois, além de serem 
ramificadas, há o sistema de divisão de trabalho com a con-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
tribuição de inúmeras pessoas. Percebe-se uma dificuldade na 
individualização das condutas. Com a complexidade das ações, 
a responsabilidade por elas se ramifica cada vez mais através 
de processos – em que há a contribuição de inúmeras pessoas 
– ligados à divisão do trabalho. Quanto mais complexa a orga-
nização, mais intercambiável (BUERGO, 2001, p. 31), fazendo 
com que a conduta individual seja dificilmente reconhecida, 
que a imputação pela criação de um risco seja cada vez mais 
dificultosa, assim como se torna diferente o senso de responsa-
bilidade referente à contribuição pessoal de cada um:
Un aspecto que se destaca ya desde la per-
pectiva jurídica es el hecho de que BECK, en 
uma caracterización ulterior de estos nuevos 
riesgos, considera que éstos, al contrario de 
lo que ocurría con los riesgos “tradicionales” 
de la sociedad industrial primaria, no serían 
imputables según las reglas vigentes de la cau-
salidad, la culpabilidad y la responsabilidad, 
ni serían susceptibles de ser objeto de seguro.
(BUERGO, 2001, p. 28).
E o terceiro aspecto que caracteriza a sociedade de risco é 
o medo. O modelo de sociedade de risco acaba por trazer uma 
sensação de insegurança subjetiva que existe independente-
mente de perigos reais. Fala-se de uma sociedade da “insegu-
rança sentida ou como a sociedade do medo”, pois “é inegável 
que a população experimenta uma crescente dificuldade de 
adaptação” com os avanços tecnológicos, novas realidades 
econômicas e até ético-sociais que trazem um sentimento de 
insegurança. (SILVA SANCHÉZ, 2002).
Rosa (2012) define esse sentimento de medo da sociedade 
de forma simples, equiparando ao medo do “tubarão” e jus-
tificando o alcance da influência midiática nesse sentimento 
perante a sociedade. Ao explicar que “o terror se obtém com 
a surpresa, enquanto o suspense pelo aviso antecipado”, o 
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Daniela Villani Bonaccorsi
mesmo se percebe na sociedade de risco. O que se percebe 
no âmbito penal e processual penal na atual sociedade pós-
-industrial é um misto desses sentimentos, “que causam ter-
ror, antecedidos pelo aviso de que isto irá acontecer. O aviso 
de que isto irá acontecer está presente no discurso midiático 
do terror e se pode invocar a metáfora de filmes e livros, justa-
mente para dar sentido ao que se passa”. (ROSA, 2012).
O filme “Tubarão” contou com um recur-
so que o próprio Steven Spielberg não con-
tava nas filmagens: o efeito suspense con-
seguido somente porque o terror da sur-
presa era precedido do suspense em que 
o predador apenas era sugerido, indicado, 
como se não estivesse presente. (...) Esse 
efeito semblant que o filme proporciona, 
a saber, de se estar com medo em qual-
quer lugar, pois o “Tubarão” poderia se 
fazer presente, do nada, no efeito surpre-
sa, ocasionou o “suspense” de toda uma 
geração… Essa estrutura de se aproveitar 
de uma “surpresa” violenta para causar 
“suspense” e se usar ideologicamente, de 
fato, está presente na nossa película diária: 
a continuação incessante do medo!
Portanto, o “crime-tubarão” é utilizado como “mecanis-
mo midiático da violência constitutiva do humano e parado-
xalmente tratado como se fosse uma surpresa no cotidiano”. 
(ROSA, 2012). As diversas formas de crime hoje tipificadas, 
conforme será destacado, não decorrem, de regra, “de um ato 
de terror individual, mas sim de toda uma coletividade que 
produz e se regozija com o crime”. (ROSA, 2012). 
Finalmente, en la sociedad se há difundido 
un exagerado sentimento de inseguridad, 
que no parece guardar exclusiva correspon-
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
dência com tales riesgos, sino que se vê po-
tenciado por la intensa cobertura mediática 
de los sucesos peligrosos o lesivos, por las 
dificuldades com que tropieza el ciudadano 
médio para comprender el acelerado cambio 
tecnológico y acompasar su vida cotidiana a 
el, y por la extendida percepción social de 
que la moderna sociedad colectiva. En suma, 
todo esse conjunto de factores activa deman-
das de intervenciones socioestatales que 
permitan controlar tales riesgos y aplacar 
tales temores, y a eso se aplica, entre otros 
mecanismos sociales, la política criminal10. 
(BONETTI, 2006, p. 556)
Diante desses três aspectos, a sociedade de risco se confi-
gura com riscos provenientes da conduta humana como fenô-
meno social estrutural. Esses riscos possuem grandes dimen-
sões, colocando em ameaça um número indeterminado de pes-
soas, como, por exemplo, com a exploração de energia nuclear, 
com produtos químicos, alimentícios, explorações no âmbito 
econômico, abertura de mercado de capitais. (BECK, 1999, p. 24):
(...) según la caracterización quem el acuñador 
del término ‘sociedad del riesgo’ propone, em 
las sociedade postindustriales desarroladas 
las implicaciones negativas del desarrollo tec-
nológico y del sistema de producción y con-
sumo adquieren entidad propia y amenazan 
de froma masiva alosciudadanos,ya que ello 
10 “Finalmente, na sociedade tem-se difundido um sentimento exagerado de 
insegurança,que não parece ter relação exclusiva com tais riscos, mas que são 
potencializados por acontecimentos perigosos ou lesivos, pelas dificuldades 
deparadas pelos cidadão para compreender as rápidas mudanças tecnológicas 
e acompanhar sua vida cotidiana, e pela ampla percepção social da sociedade 
moderna. Assim, esse conjunto de fatores incentiva demandas e intervenções 
socioestatais que permitam controlar tais riscos e diminuir tais temores com 
mecanismos sociais, como a política criminal.” (Tradução livre). 
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Daniela Villani Bonaccorsi
propicia laaparición de ‘nuevos’ riesgos de-
talmagnitud – especialmente de origen tecno-
lógico –, que determina um cambio de época 
desde la sociedad industrial a un nuevo tipo 
macrosociológico: el de la sociedad del riesgo11. 
(BUERGO, 2001, p. 25).
O modelo geral desenvolvido na sociedade pós-indus-
trial e globalizada criou implicações negativas do desenvolvi-
mento tecnológico e dos sistemas de produção das sociedades 
de consumos, que determinaram uma mudança da sociedade 
industrial para um novo tipo de modelo macrosociológico, a 
sociedade de risco. A sociedade de risco é produto da globali-
zação; a possibilidade de dano vai além do indivíduo e passa 
a atingir toda uma sociedade, uma vez que há uma mudança 
do “individual” para o “geral”, fruto de divisões em classes da 
sociedade, como desempregados, pensionistas, consumido-
res. (SILVA SANCHEZ, 2002, p.54). Os indivíduos adquirem 
direitos comuns (supraindividuais), que fomentam sentimen-
tos coletivos, como uma vitimização generalizada. Essa situ-
ação reforça uma ideiade que o direito penal deve passar a 
atuar contra os poderosos, os detentores do poder econômico 
e não só os marginalizados, como na sua tradição.
Beck (1993) enfatiza que a contribuição da sua teoria da 
sociedade global de riscos consiste em demonstrar que tan-
to as sociedades ocidentais quanto as não ocidentais podem 
enfrentar, simultaneamente, os mesmos desafios, os mesmos 
riscos e medos. À medida que a sociedade pós-industrial en-
frenta novas situações, torna-se incontrolável, característica 
11 “(...) O termo “sociedade de risco”, segundo a característica elencada pelo 
seu mentor, relaciona-se a sociedades pós-industriais e a implicações 
negativas trazidas pelo desenvolvimento tecnológico e sistema de produção 
de consumo, que, ao propiciarem o surgimento de novos riscos, acabam 
por adquirir entidade diferente e ameaçam todos os cidadãos diante de 
sua magnitude – especialmente de origem tecnológica –, que determina 
uma mudança de tempo, desde a sociedade industrial para um novo tipo 
macroscópico, a sociedade de risco”. (Tradução livre). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
do próprio paradigma do Estado Democrático de Direito, 
enfrenta-se uma perspectiva de ter sempre um porvir; não há 
fatos prontos e imutáveis; não há respostas prontas para todos 
os problemas. E essa falta de controle aceita a crise como algo 
possível. (JUNGES, 2001, p.19).
tipica di tutti i momenti di crisi è l’atribuizione 
al diritto penale di ruolo e compiti primari. 
Se è vero che la giustizia penale è la punta 
dell’iceberg attraverso la quale affliorano e 
si evidenziano in forma spesso drammatica 
momente patologici della vita sociale e istitu-
tizionale che dovrebbero trovare adeguata so-
luzione attraverso altri canali, è pur vero che 
la situazione di crisi fa ravvisare nello stru-
mento penale il principale canale di ripristi-
no dell’omogeneità sociale e dell’eleminazione 
della conflittualità in antetisi al suo ruolo de 
‘ultima ratio’ e fa sì che al diritto penale si 
attribuisca, in forma spesso taumaturgica, il 
compito de realizzare i principi sanciti nella 
Costituzione e ancora innattuati nella società 
reale (BRICOLA, 1983, p. 121).
Assim, quando se fala de sociedade moderna, fala-se de 
uma sociedade pós-industrial na qual se discute o risco, algo 
que não ocorre, mas que pode surgir (BECK, 1999, p. 178). E é 
essa falta de controle que dá espaço para a sensação de inse-
gurança, em que o medo toma espaço cada vez maior e, por 
isso, a propaganda de legislações urgentes recebe cada vez 
mais apoio da sociedade, já que o risco pode se materializar. 
Assim, a sociedade pós-industrial do risco tem relação dire-
ta com o atual direito penal, no qual se presencia a tipificação de 
condutas que trazem a incriminação de riscos pontuais, porque a 
capitulação delas, ao descrever esses novos medos, traz uma apa-
rente sensação de segurança social, como se o Estado demons-
trasse que está agindo e controlando riscos incontroláveis.
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Daniela Villani Bonaccorsi
1.3 A sociedade globalizada e o reflexo jurídico: 
emergencialismo penal contra o “inimigo”, 
porque “os fins justificam os meios”
Com essa nova realidade social, propõe-se uma política 
criminal específica que dá lugar a um novo Direito Penal, a 
qual se destaca por uma tendência a um Direito Penal preven-
tivo, com verdadeira antecipação, ampliação da intervenção 
penal e com a criação de crimes de perigo que protegem bens 
jurídicos de caráter supraindividual. Ou seja, uma verdadeira 
“antecipação da intervenção penal” (HASSEMER, 1994, p. 33) 
seria justificada pela proteção a uma sociedade que teme ris-
cos incontroláveis, a surpresa. O binômio risco/incerteza apa-
rece com um desejo de segurança, faz com que os indivíduos 
cada vez mais reivindiquem ao Estado a prevenção de riscos e 
a criação de medidas que tragam segurança de forma urgente 
e emergencial (BUERGO, 2001, p. 31/32):
(...) Infatti l época della globalizzazione è 
anche l época della insicurezza quotidiana e 
della sicurezza individuale e collettiva perse-
guita con ogni mezzo, poichè calamità e ca-
tastrofi non mancano e le irrisolte situazioni 
di tensione política, etnica e religiosa diffondo 
in tutti i paese pericoli e rischi per la sicure-
zza, ma anche per la tutela dei diritti fonda-
mentali e del costituzionalismo democrático12. 
(MOCCIA, 2000, p. 34).
O direito penal aparece com a finalidade de prevenir e 
diminuir o risco de lesão a direitos, pretendendo a antecipa-
12 “Assim, a época da globalização é também a época da insegurança cotidiana e 
da segurança individual e coletiva, perseguida por vários meios, uma vez que 
fatalidades e catástrofes não faltam, e a situação não solucionada de tensão 
política, étnica e religiosa difunde em todos os países perigos e riscos, mas 
também pela tutela de direitos e garantias fundamentais”. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
ção da proteção de bem. A caracterização do direito penal na 
sociedade de risco tem um caráter preventivo, de previsão de 
crimes de perigo e, de forma geral, uma luta preventiva contra 
os novos riscos, com medidas emergenciais:
Además del potencial que se atribuye al derecho 
penal para el control de los nuevos riesgos, el 
dato que parece adquirir uma importancia deci-
siva em el surgimiento de un derecho penal del 
riesgo es que el aludido aspecto de la sensación 
de inseguridad hace surgir uma auténtica de-
manda social de control, netamente penal a la 
que el estado, por diferentes razones, no es in-
diferente ni Le da simpre la respouesta más ra-
cional. Ante la gravedad con la que se percibven 
por la opinión publica y por el Estado los nuevos 
riesgos y las situaciones que éstos provocan, que 
generan, a su vez, uma considerable sensación 
de inseguridad entre los ciudadanos, la reacción 
claramente constatable es la de acudir a la res-
puesta penal como forma decontrol que se con-
sidera la adecuada por su máxima severidad, así 
como necesaria por su hipotética efectividad13. 
(BUERGO, 2001, p. 36).
Com a proliferação da ideia de perigo, risco e verdadei-
ramente medo na sociedade, esta passa a buscar um aparente 
13 “Além do potencial que é atribuído ao direito penal para controlar os novos 
riscos, o dado que parece ter uma influência decisiva no surgimento de um 
direito penal de riscos é o aspecto da sensação de insegurança, que faz surgir 
uma verdadeira demanda social de controle, notadamente penal, e à qual 
o estado, por diferentes razões, não é indiferente, mas nem sempre oferece a 
resposta mais racional. Dada a seriedade com que esses novos riscos e essa 
sensação de insegurança são perseguidos pela opinião pública e pelo Estado, 
acaba sendo gerado, por sua vez, um considerável senso de insegurança entre 
os cidadãos, a reação é claramente evidente de se utilizar a resposta penal como 
uma forma de controle, a qual se considera adequada com a máxima severidade 
e eficácia necessárias para a sua hipotética efetividade.” (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
estado de “segurança”. O direito penal, ao incriminar as con-
dutas que são objeto de risco, e ao trazer uma pena àqueles 
que praticam o crime, se tornaria sinônimo de segurança. A 
resposta imediata à sociedade do medo foi a expansão do di-
reito penal. 
Da cio che si qui approfondito appare evi-
dente la tendenza recentemente sviluppatasi 
nell ámbito degli stato democratici ad asas-
perare l ésigenza dei cittadini di chiedere ed 
ottenere daí pubblici poteri provvedimenti 
di tutela della sicurezza, quase si tratti di un 
modo nuovo e più efficace per assicurare tutela 
ai diritti fondamentali di ogni persona messi 
in pericolo dalle incertezze della vita sociale 
ed Internazionale, daí potenziali conflitti belli-
ci, e sopprattutto, per cio che in questa sede 
interessa,daí pericoli derivanti da situazio-
ni emergenzilai o da minacce terroristiche14. 
(BONETTI, 2006, p. 47).
Hoje a sociedade vive em uma verdadeira “expansão” 
do direito penal. O termo foi tratado pelo autor Jesús-María 
Silva Sánchez em fevereiro de 1999, em obra que possui o 
título “A expansão do Direito Penal: Aspectos da política criminal 
nas sociedades pós-industriais”.
O autor parte da análise, justamente, de sociedade de 
risco e de mudanças na noção de estado-nação. Diante dos 
aspectos que geram uma “insegurança sentida” na socieda-
14 “A partir do que aqui se analisou, parece evidente a recente tendência de 
desenvolvimento no âmbito dos estados democráticos, da exasperação 
de uma exigência dos cidadãos de pedirem e obterem do poder público 
provimentos para maior tutela da segurança, quase meios novos e mais 
eficazes de se assegurar a tutela aos direitos fundamentais de cada um, 
diante da incerteza da vida social e Internacional, de potenciais conflitos 
bélicos e, sobretudo, dos perigos derivados das situações emergenciais ou 
de ameaças terroristas.” (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
de, a expansão do direito penal aparece como resposta para 
os riscos, medos e insegurança. Mas essa expansão não é a 
longo prazo; surgem legislações especiais, com bens jurídicos 
supraindividuais, não codificadas com respostas para riscos 
iminentes. Dentre as características da expansão, esta se dá 
com legislações criadas para situações urgentes e para essas 
“respostas rápidas” à sociedade, que cada vez mais endurece 
penas e reduz garantias, em nome da celeridade e eficiência:
Com a Sociedade de Risco, com o con-
junto de fenômenos sociais, jurídicos e 
políticos, vem experimentando o direito 
penal e processual penal um acúmulo 
de efeitos que configuram o que con-
vencionamos chamar “expansão”, com 
características, dentre outras, da flexibi-
lização de garantias constitucionais e de 
regras de imputação (...) “a modificação 
da própria estrutura e do conteúdo ma-
terial dos tipos penais é a sua primeira 
expressão”(...)”uma transição rápida do 
modelo de “delito de lesão a bens jurídi-
cos individuais ao modelo ‘delito de pe-
rigo presumidos para bens supra-indivi-
duais’”(..) (SILVA SANCHES, 2002, p. 113)
Essa maior intervenção trouxe o que veio a se chamar de 
expansão do direito penal, ideia imediatamente inversa à con-
cepção do direito penal que visa a uma intervenção o mínimo 
possível na liberdade do indivíduo e a um distanciamento cada 
vez maior de um direito penal garantista15. (...) “hemos entrado 
15 O garantismo penal, seu conceito e características serão abordados 
oportunamente, mas, desde já, a compreensão aqui adotada é da ideia 
de um direito penal garantista (FERRAJOLI, 1992), como um sistema 
que busca a intervenção do Estado o mínimo possível, garantindo um 
fragmetariedade, um amparo penal somente em situações imprescindíveis. 
Um direito penal com amparo em garantias constitucionalmente previstas.
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Daniela Villani Bonaccorsi
en una dinâmica que tiende a superar el hasta hace poco indiscutido 
modelo garantista y a substituirlo por outro al que he denominado el 
modelo penal de la seguridad ciudadana16” (MELIÀ, 2006, p. 553).
Silva Sanchez (2002) explica a expressão a partir da grande 
inflação a que se tem assistido no direito penal, além da modifi-
cação da própria estrutura e do conteúdo material dos crimes. 
A união da ideia do direito penal como forma de seguran-
ça social, introdução de novos objetos de proteção, trouxe uma 
transição do clássico delito de lesão a bem jurídico para delito 
de perigo abstrato, perigo presumido, que visaria à proteção de 
bens supraindividuais (SILVA SANCHEZ, 2002, p. 112). 
Também é característica do expansionismo uma verda-
deira “administratização” do direito penal. O direito penal, 
antes relacionado a lesões ou danos a bens jurídicos, passa 
a ser um direito penal de gestão, ou seja, passa a haver uma 
tipificação de condutas até então meramente administrativas.
O emergencialismo aparece como um verdadeiro movi-
mento de política criminal, em que se defende uma amplia-
ção de condutas incriminadas. A legislação penal passa a vi-
sar à prevenção de situações de risco, com medidas urgentes:
I difetti della legislazione finiscono anche per 
evidenciare i notevoli limiti di correttezza 
técnica nella formulazione del precetto della 
norme penale. Lo strumentario teórico che 
era entrato a far parte del bagaglio culturale 
del giurista, a partire dalla scuola carrariana, 
viene modellato per interventiu normativi 
che, nella incerta redazione della norma, si 
prestano ad interpretazioni incontrollate. In 
tutta legislazione penale dell’emergenza, in-
fatti, si profila um diffeto di determinatezza o 
di precisione nella descrizione delle condotte 
16 “Entramos numa dinâmica que tende a superar o até então indiscutível 
modelo garantista e a substituí-lo por outro que se denomina o modelo 
penal de segurança dos cidadãos.” (Tradução livre) 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
incriminate e Il legislatore sempre più sem-
bra allontanarsi dal diritto penal del fatto, 
per rincorrere forme di incriminazione Che 
si basano, da um lato sulla cosidderata colpa 
normativa d áutore, dall’altro sulla marca-
ta anticipazione della soglia di tutela pena-
le che coincide com Il semplice pericolo, se 
non talvolta com la prezunzione del pericolo. 
(TRONCONE, 2001, p. 178)
Além de leis esparsas, a situação de urgência justifica a ado-
ção de medidas preventivas, de resposta rápida, independente-
mente do meio empregado. Ou seja, no emergencialismo, o resul-
tado de aparente segurança a ser alcançado se torna mais impor-
tante do que o meio, daí a adoção de uma série de medidas aten-
tatórias a direitos e garantias individuais, em nome da urgência. 
Essa concepção da emergência outra coisa 
não é que a ideia do primado da razão de 
estado sobre a razão jurídica (...). Ela equi-
vale a um princípio normativo de legiti-
mação da intervenção punitiva: não mais 
jurídica, mas imediatamente política; não 
mais subordinada à lei enquanto sistema 
de vínculos e garantias, mas a essa supra-
ordenada. (FERRAJOLI, 1992, p.650).
A emergência é definida por Choukr (2002) como um esta-
do de fato. O autor fala de uma situação de fato, situações vistas 
como incontroláveis, “onde existe uma sorte de sentimento co-
mum pela necessidade de adoção de medidas extraordinárias 
em face do aumento crescente e incontrolado de criminalidade 
(sobretudo a matiz organizada) (...)”. (CHOUKR, 2002, p. 137). 
Inegavelmente remanesce, no entanto, o fundo majori-
tariamente político do tema, “cujas manipulações ideológicas 
podem chegar a traduzir determinadas situações como absoluta-
mente incontroláveis a ponto de justificar o incremento de tais re-
gras”. (CHOUKR, 2002, p. 137).
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Daniela Villani Bonaccorsi
Si può cosi tentare di definire ‘emergenza’ 
ogni situazione nella quale le norme giuri-
diche vigenti si rivelano inadeguate a rime-
diare alle lesioni o ai pericoli di lesiose grave 
ai principi fondamentali dell´ordenamento, 
che provengono da accadimenti naturali o da 
comportamenti umani imprevisti o impre-
vedibili: tra tali eventi vi sono le guerre, le 
guerre civili, le crisi economiche, le catastrofi 
naturali e i disastri ambientali, le varie forme 
di criminalità organizzata, tra le quali spic-
ca quella terroristica. Il fatto emergenciale 
non necessariamente è un fatto nuovo, ma 
comunque mette in crisi ogni ordinamento 
giuridico, quale sistema di norme destinate 
a regolare pro futuro um numero indetermi-
nato di fattispecie concrete, che pertanto si 
rivela indeguato a provvedere per prevenire 
o rimediare agli effetti da Esso prodotti che 
appaiono lesivi di beni costituzionalmente 
garantiti17. (BENETTI, 2006, p.61).
Para responder aos riscos sociais, desenvolve-se um 
entendimento de que o direito penal deve se fundamentar 
numa proteção urgente e eficaz. Baseia-se num discurso 
17 “Assim, pode-se tentar definir emergência como cada situação nas quais 
as normas jurídicas vigentes revelam-se inadequadas a evitar lesões ou 
perigo de lesões graves aos princípios fundamentais do ordenamento, que 
têm origem em acontecimentos naturais ou de comportamentos humanos 
não previstos: dentre tais eventos fala-se das guerras, das guerras civis, 
as crises econômicas, as catástrofes naturais e desastres ambientais, as 
várias formas de criminalidade organizada, dentre as quais se destaca 
o terrorismo. O fato emergencial não é necessariamente um fato novo, 
mas normalmente coloca em crise cada ordenamento jurídico, sistemas 
de normas destinadas a regulamentar de forma preventiva um numero 
indeterminado de tipos penais concretos, que, portanto, revelam-se 
inadequadas a fornecer formas para prevenir ou remediar os efeitos dos 
fatos lesivos aos bens constitucionalmente garantidos.” (Tradução livre). 
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
que parte de “(...) pressupostos ultrapassados, mas ideolo-
gicamente interessantes e bem articulados midiaticamente, 
é possível a construção de um caminho de legitimação so-
cial do discurso da urgência, do ‘terror’ calcado no “medo”. 
(ROSA, 2004, p. 228).
A legislação emergencial dá espaço para o desenvolvi-
mento de tipos penais de perigo abstrato, nos quais a punição 
é autorizada pela mera incidência no tipo penal, pela mera 
subsunção, independentemente de perigo concreto ao bem ju-
rídico tutelado, para a finalidade do direito penal de controlar 
os riscos e conflitos da sociedade.
Ligada a essa ideia de urgência, a expansão não se trata 
somente de uma ampliação quantitativa de novos compor-
tamentos penalmente relevantes, mas do desenvolvimento 
de umacaráter expansivo com uma inclinação para a ante-
cipação da intervenção penal e a busca de maior eficácia na 
resposta penal. Por isso, são legislações que buscam medi-
das preventivas e que trazem em sua grande maioria crimes 
de perigo, como forma de incriminar e tutelar esses novos 
riscos. “Os delitos de resultado se mostram crescentemente 
insatisfatórios, havendo o uso cada vez maior de tipos de 
perigo e tipos com configuração cada vez mais abstrata ou 
formalista”. (SILVA SANCHES, 2002, p.31):
In questo momento storico si è invece, con-
solidato a livello legislativo, ma anche nella 
prassi, un habitus di tipo emergenziale dalle 
origini risalenti, collegato, attualmente, all á 
lotta contro gravi e difuse forme di crimina-
lità, dei colletti Bianchi ed organizzatta, che 
non più destare preoccupazione in rapporto 
all á difesa dei diritti dell´individuo. Quali li-
miti a difesa dell´uomo contro le sopraffazio-
ni statuali, le garanzie rappresentano, infatti, 
l éspressione più significativa di que lingo e 
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Daniela Villani Bonaccorsi
tormentato processo evolutivo che ha carat-
terizzato lo svolgersi della civiltà giuridica 
contemporânea18. (MOCCIA, 2000, p. 2)
Ou seja, a expansão do direito penal não vem de reformas 
na legislação clássica e com a preocupação de observância de ga-
rantias. Mas com leis emergenciais, com medidas emergenciais:
Emergência vai significar aquilo que foge 
dos padrões tradicionais de tratamento 
pelo sistema repressivo, constituindo um 
subsistema de derrogação dos cânones 
culturais empregados na normalidade. 
Num certo sentido, a criminologia con-
temporânea dá guarida a esse subsiste-
ma, colocando-o na escala mais elevada 
de gravidade criminosa a justificar a 
adoção de mecanismos excepcionais a 
combatê-la, embora sempre defenda o 
modelo de estado democrático de direito 
como limite máximo da atividade legife-
rante nessa seara. (CHOURK, 2002, p.5.)
O medo é o fator fundamental da urgência. A sociedade 
moderna, alarmada pelo fenômeno da criminalidade, desenvol-
ve um sentimento de insegurança que autoriza o uso da força 
como forma de prevenção contra “o inimigo”. Medo potenciali-
zado pela mídia, em que a pena, o castigo, a punição são defen-
didos como resposta a esse medo social. O papel do direito penal 
18 “Neste momento histórico é, ao contrário, estabelecida em nível não só 
legislativo, mas também na prática, um hábito do tipo emergencial que data 
do início, ligado à luta contra formas graves de criminalidade, como a de 
colarinho branco, e organizada, que já não é motivo de preocupação em relação 
à defesa dos direitos individuais. Os limites para a defesa do homem contra a 
tirania do Estado são as garantias, de fato, a expressão mais significativa dessa 
linguagem tem atormentado esse processo evolutivo que tem caracterizado o 
desdobramento da cultura jurídica contemporânea�. (Tradução livre).
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A Atipicidade do Crime de Lavagem de Dinheiro: 
Análise Crítica da Lei 12.684/12 a partir do Emergencialismo Penal
seria não o de proteger bens jurídicos fundamentais, conforme 
será abordado oportunamente, mas o de “confiança institucional 
no sistema e a segurança dos cidadãos” (JAKOBS, 2003, p. 133). 
Há uma demanda de ampliação de leis penais; como res-
posta à angústia e insegurança, a sociedade passa a crer que, com 
a edição de leis penais, haverá a diminuição da prática de crimes:
En este sentido, cuanto más grave sea el daño 
temido, más justificado se considera acudir al 
derecho penal em su calidad de respuesta más 
dura del control social. Se recurre al legisla-
dor cada vez más frecuentemente y cada vez 
com mayor urgência buscando protección 
penal frente a los problemas planteados enla 
nueva sociedad del riesgo. Pero en ello influye 
tambien el hecho de que con indenpendencia 
de si se sopesa antes si realmente el derecho 
penal es el médio necesario y adecuado para 
cumplir con tal cometido, parece estar exten-
dida la impreción de que no existe ninguna 
alternativa de protección regulación ajustada 
a la gravedad que se atribuye al fenômeno19. 
(BUERGO, 2001, p. 36) 
A cultura do emergencialismo manipula o sentimento 
de proteção e preservação da sociedade, encontra na instaura-
ção generalizada do medo forte aliada na conformação social 
diante de medidas de exceção, em nome da perversa busca de 
pacificação social (CHOUKR, 2002). 
19 Nesse sentido, quanto mais grave o dano temido, mais justificada é a intervenção 
penal, como forma mais endurecida de controle social. Recorre-se ao legislador 
de forma cada vez mais frequente e cada vez com maior urgência, buscando-se 
proteção frente aos problemas surgidos com a nova sociedade de risco. Mas, 
também, deve-se sopesar se realmente o direito penal é o meio necessário e 
adequado para cumprir tal medida, que parece estar estendida a impressão de 
que não existe nenhuma alternativa de proteção e regulamentação ajustada à 
gravidade que se atribui a tal fenômeno”. (Tradução livre).
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Daniela Villani Bonaccorsi
A instauração desse temor ao outro é difundido diante 
da propagação do alarmante e vendável índice crescente de 
criminalidade, contando com o medo de inimigos criados 
pela própria sociedade. 
Diante do medo e dos sinais de ineficiência do processo 
penal ordinário, a ideológica opinião pública reforça os ideais 
de emergência, com a propaganda de leis cada vez mais du-
ras, penas mais altas, e o criminoso visto como inimigo, pro-
cessado e julgado pela mídia e pela opinião pública, o medo 
do “tubarão”, confome metáfora de Rosa (2012).
No final do século XX e início do século XXI, o medo e 
a emergência foram ainda mais reforçados com a propalação 
do terrorismo na Europa e Estados Unidos. A construção da 
imagem do “terrorista islâmico” desde 11 de setembro trouxe 
mundialmente o conhecimento não de um criminoso, mas de 
um inimigo da segurança nacional. 
Desde o ataque às torres, há um amparo cada vez maior 
na ideia de inimigo, na ideia de que, diante

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