Prévia do material em texto
Caderno de Teoria da Pena
Teorias da Sanção Penal
Transformações históricas da sanção penal
A punição evoluiu do modelo do suplício, voltado para o corpo das pessoas, para um modelo disciplinar, que foca na domesticação da alma das pessoas.
Punição e o Estado absolutista na Europa Central do século XIII: o modelo do suplício:
· Na Europa Central, século XIII, a emergência do Estado absolutista fez surgir um dos primeiros modelos de gestão centralizada das penas: o Tribunal da Inquisição.
· Foi na Idade Média, portanto, que surgiu a primeira agência de aplicação de castigos no sentido aflitivo que hoje conhecemos, já que antes disso as sociedades mantinham formas de autocomposição dos conflitos.
· Um dos principais filósofos a recuperar essa história foi Michel Foucault, que, ao analisar o período, referiu-se ao método de punição daquele tempo como “suplício”, os castigos impostos pelos Tribunais inquisitoriais tinham como elementos constitutivos: a dor corporal e o espetáculo.
Disciplina e prisão na Europa Central e a historicização do poder punitivo brasileiro:
· Ainda que não tenhamos tido nenhum tribunal de inquisição no Brasil, nossa matriz de direito, que é ibérica, veio carregada por essa localização, assim como os primeiros juristas que chegavam aqui como elite colonial e formaram as primeiras burocracias organizadas.
· Além disso, o colonialismo e as atrocidades promovidas pelo escravismo e pelo genocídio de negros africanos e indígenas historicizaram o poder punitivo brasileiro na violência do poder imperial que dava à ideia de suplício um tom bastante próprio.
· Na ambiência do iluminismo, na Europa Central, emerge, então, o contratualismo e começam a efervescer revoluções que questionavam o absolutismo, bem como passaram a entrar nas agendas políticas reivindicações por um sistema de direitos que limitasse os arbítrios do soberano.
· Nesse contexto, os sistemas de penalidades, mecanismos de coerção dos mais diversos, já não eram mais pautados no sofrimento carnal espetacularizado, mas sim nos dispositivos técnico-disciplinares que passaram a capturar o tempo das pessoas , especialmente da classe proletária:
· A prisão deve ser um aparelho disciplinar exaustivo. Em vários sentidos: deve tomar a seu cargo todos os aspectos do indivíduo, seu treinamento físico, sua aptidão para o trabalho, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições; a prisão, muito mais que a escola, a oficina ou o exército, que implicam sempre numa certa especialização, é “onidisciplinar”. Além disso a prisão é sem exterior nem lacuna; não se interrompe, a não ser depois de terminada totalmente sua tarefa; sua ação sobre o indivíduo deve ser ininterrupta: disciplina incessante.
Teorias e finalidades da pena:
· As teorias da pena buscam justificar a sanção estatal após um crime, dividindo-se em absolutas (retribuição/castigo), relativas (prevenção geral ou especial) e mistas (unificadoras). No Brasil, adota-se a teoria mista ou eclética, que combina a retribuição do mal cometido com a prevenção de novos delitos e a ressocialização do agente.
· Principais Teorias da Pena:
· Teoria Absoluta ou Retributiva (Retribuição/Castigo): Defende que a pena é uma consequência natural do crime, um "mal justo" para compensar o "mal injusto" do delito. Não possui finalidade utilitária (não se preocupa com a ressocialização), focando apenas na punição (Kant-retribuição moral/Hegel-retribuição jurídica).
· Teoria Relativa ou Preventiva (Prevenção): A finalidade é evitar a prática de novos crimes. Divide-se em:
· Prevenção Geral: A pena visa toda a sociedade. A negativa intimida a coletividade contra o crime; a positiva reforça a confiança no sistema jurídico.
· Prevenção Especial: Foca no autor do crime. A negativa neutraliza o indivíduo (prisão); a positiva busca ressocializar o condenado.
· Teoria Mista, Eclética ou Unificadora (Adotada no Brasil): Combina retribuição e prevenção. A pena deve ser justa (proporcional à culpabilidade) e útil (prevenir reincidência e educar). O art. 59 do Código Penal Brasileiro reflete essa visão ao falar em "reprovação e prevenção".
· Teoria Agnóstica:
· Negação dos Fins: Rejeita que a pena seja retribuição, prevenção geral/especial ou "bem", considerando que essas teorias não explicam a realidade do sistema penal.
· Pena como Ato de Poder Político: Enxerga a pena não como um instituto jurídico legítimo, mas como uma forma de exercício de poder político (frequentemente comparada a uma guerra declarada).
· Natureza "Agnóstica": O termo indica que não se sabe — ou se duvida — qual a real função da pena, negando as missões tradicionais.
· Contenção do Poder Punitivo: O objetivo principal é reduzir a violência e o arbítrio estatal, contendo o poder punitivo ("Estado de Polícia") e valorizando os direitos humanos ("Estado de Direito").
· Foco na Seletividade: A teoria destaca que o sistema penal é seletivo e atua majoritariamente sobre populações vulneráveis, gerando desigualdade social.
· Minimalismo Penal: Propõe uma aplicação excepcional da privação de liberdade, buscando métodos de "reintegração social" que ocorram apesar da pena, e não pela pena.
· Finalidades da Pena:
1. Retributiva: Castigar proporcionalmente a culpabilidade do agente.
2. Preventiva (Geral/Especial): Inibir novos delitos, seja assustando a sociedade ou ressocializando o preso.
3. Ressocializadora (ou Reintegrativa): Preparar o condenado para retornar à sociedade com menores chances de reincidência, através de estudo, trabalho e progressão de regime.
· O sistema brasileiro, portanto, não se satisfaz apenas com o castigo (teoria absoluta), buscando também proteger a sociedade (teoria relativa) por meio de um caráter punitivo-pedagógico.
Princípios norteadores da pena no Estado democrático de direito:
· Condições básicas centrais de tais princípios:
· Limitador: São limitadores do poder de punir, por isso jamais podem ser mobilizados para restringir direitos das pessoas acusadas ou justificar um rigor contra pessoas presas.
· Amplificador: Devem ser interpretados sempre de modo a ampliar o sentido da liberdade em um caso concreto.
· Princípios:
· Princípio da Legalidade e Anterioridade: A pena só pode ser aplicada se houver lei anterior que a defina (nulla poena sine lege), garantindo que ninguém seja punido sem base legal estrita.
· Princípio da Humanidade: Veda penas de morte (salvo guerra), perpétuas, trabalhos forçados, banimento ou cruéis, com foco na dignidade da pessoa humana e na ressocialização.
· Princípio da Individualização da Pena: A pena deve ser ajustada ao caso concreto e ao criminoso, passando por fases legislativa, judicial e administrativa.
· Princípio da Proporcionalidade: A resposta penal deve ser proporcional à gravidade da conduta e à lesão ao bem jurídico.
· Princípio da Culpabilidade: Não há pena sem dolo ou culpa, proibindo a responsabilidade objetiva.
· Princípio da Intranscendência ou Pessoalidade: A pena não pode passar da pessoa do condenado.
· Princípio da Intervenção Mínima: O Direito Penal só deve atuar quando outros ramos do direito não forem suficientes (ultima ratio).
· Princípio da Celeridade: Garante a tramitação rápida e eficiente dos processos judiciais e administrativos, assegurando uma duração razoável para a solução de conflitos. Estabelecido constitucionalmente (art. 5º, LXXVIII da CF), visa evitar decisões tardias, equilibrando a rapidez com a justiça e a segurança jurídica.
· Princípio da não discriminação: Se busca a partir desse princípio é que não haja diferença de tratamento contra pessoas aprisionadas, considerando que as distinções são motivadas pelo fato de estarem, ao longo da execução, em situação de assujeitamentos e violências diversas.