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Curso de Direito Disciplina: Criminologia Professora Dra. Lidiane Moura Lopes Roteiro Esquematizado - ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS PARTE I: ESCOLA CLÁSSICA/ESCOLA POSITIVA Antes de adentrar na análise das Escolas Clássica e Positiva, importante que se faça uma breve digressão ao período mais remoto da delinquência e sua punição. Etapa evolutiva do pensamento criminológico: é possível compreender através de uma “linha do tempo”: PERÍODO PRÉ-CIENTÍFICO: VINGANÇA /ESCOLA CLÁSSICA Período da “Vingança” Humanista Positivismo Na “história” mais completa da criminologia encontramos o “período anterior Idade Média” – que caracterizou o período da VINGANÇA. No período da Vingança ainda não existia o direito positivado e se subdivide em 3 fases: 1ª) Justiça PRIVADA: orientada, por exemplo, por ideias como a da “Lei de Talião” (olho por olho e dente por dente) – é o “fazer Justiça com as próprias mãos”. O homem é um ser mais “emocional” e menos racional – falta-lhe a razão. CP. Exercício arbitrário das próprias razões. Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. Parágrafo único - Se não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa. 2ª) Justiça DIVINA: surge com o poder que é conferido à Igreja. O poder de “fazer Justiça” – passa dos particulares, no âmbito privado – para os entes religiosos/Igreja. Os membros da Igreja, pela posição que ocupavam, tinham o “discernimento” para saber se a pessoa praticara ou não uma transgressão/crime. Decidindo se a pessoa era culpada ou inocente. Existem aqui as chamadas “PROVAS DE FOGO”. Conhecidas também como “ORDÁLIAS” ou “JUÍZO DE DEUS” (prática que visava determinar a culpa ou a inocência de um acusado o submetendo a uma experiência dolorosa – exemplos: andar sobre carvão em brasa e não se queimar. Havia a chamada “águas da amargura” - onde a mulher, suspeita de adultério, deveria beber uma água contaminada, e, se ela for adúltera, morrerá, porém, se for fiel, sobreviverá e terá filhos). Outro exemplo: ficar fervendo por alguns minutos num caldeirão de água – se saísse ileso: era inocente. 3ª) Justiça PÚBLICA: ganha espaço com o Absolutismo – o Estado se confundia com a figura do rei, passando esse a ser o detentor da função de realizar a justiça. É o SISTEMA INQUISITIVO. Continuava a utilização da tortura e outros meios desumanos e cruéis. EM 1789 – SURGE O MARCO que estabelecerá uma nova concepção de Justiça – cujas ideias são construídas pela influência da REVOLUÇÃO FRANCESA e dos PENSADORES ILUMINISTAS. Pressuposto: o pensamento científico, a razão – libertam as pessoas das crenças sem comprovação (e do “Absolutismo”). Os principais autores são os “contratualistas”: a) John Locke: autor de “Dois Tratados sobre o Governo Civil” – é considerado o “pai do Iluminismo”; b) Thomas Hobbes: que escreveu o livro “Leviatã”; c) Jean-Jacques Rousseau: escritor do “Contrato Social”. Destacando-se a grande contribuição de Charles-Louis de Secondat, o Barão de La Brède e de Montesquieu, conhecido como “Montesquieu” - famoso pela sua teoria da separação dos poderes. Montesquieu foi um crítico do absolutismo e ferrenho defensor da democracia. Sua obra mais conhecida é “O Espirito das Leis”, publicada em 1748, constituindo-se num tratado de teoria política, no qual expõe a divisão dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário). Desta forma, no Iluminismo temos o “culto à razão” – o ANTROPOCENTRISMO. Implementando-se nas investigações métodos científicos de análise – a exemplo do indutivo. ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS - CLÁSSICA/POSITIVA Finalidade da análise das escolas: são correntes de pensamentos que buscam estabelecer a análise do conceito de delinquente e as consequências da prática de delitos, partindo de premissas diferenciadas. 1. Escola Clássica Representa a fase PRÉ-CIENTÍFICA da criminologia, utilizando os métodos do Direito Penal. Um dos expoentes da Escola Clássica é Cesare Beccaria, autor da obra “Dos Delitos e das Penas”. A Escola Clássica nasce no contexto do Iluminismo. Razão e Livre Arbítrio. Cabe ao homem a escolha entre praticar ou não uma conduta. O homem pensa/raciocina e escolhe o caminho que lhe é mais vantajoso. Quando analisamos os postulados de um Direito Penal de “Culpabilidade” – percebemos que nele o homem é considerado culpado quando tem a capacidade de entendimento e de autodeterminação, escolhendo observar ou não as normas de conduta sociais e legais. Logo, a pena é uma retribuição pela reprovabilidade da sua conduta – cujos patamares variarão de acordo com o grau de sua culpabilidade. Locke, Monstequieu e Rousseau – nortearam os postulados da Escola Clássica. Em síntese: não existiu uma “Escola Clássica” da criminologia, que foi assim denominada pelos positivistas em tom pejorativo (Ferri). Há quem defenda que a Criminologia nascera da Escola Positiva – sendo a Escola Clássica pré-criminológica. À Escola Clássica são creditadas as seguintes ideias: a) teoria do contrato social; b) princípio da legalidade (seleção classista dos “ilegalismos”); c) irretroatividade da lei; d) interpretação disciplinada para evitar contradições na lei e seus sentidos; e) presunção de igualdade entre as partes da relação jurídica. Observação: considera o crime como: “um comportamento definido pelo direito” e o repúdio à abordagem patológica do criminoso como um “ser diferente”, pois a Escola Clássica não rompeu totalmente com o paradigma “etiológico” da Criminologia. Outros nomes da Escola Clássica: Romagnosi (1761-1835) e Carmignani (1768-1843). Francesco Carrara (1805-1888), italiano, professor de Pisa – Obra: “Sociedade e Crime”. Na Alemanha, merecem destaque Ernest Von. Liszt, Beling e Binding. Voltando aos ensinamentos de Beccaria, este entende que o Delinquente é: a) o “pecador” que optou pelo mal (ideia bíblica do livre arbítrio). b) defendia o livre-arbítrio, ou seja: a vontade racional do homem de seguir ou não a lei. c) ao decidir pelo caminho do crime quebra o “contrato social” e deve ser “castigado”. Para Beccaria, a PENA possuía caráter meramente RETRIBUTIVO: busca apenas a repararação do mal causado pelo criminoso à sociedade. Em síntese: Beccaria defendia que, entre as penas e na maneira de aplicá-las proporcionalmente aos delitos, é necessário escolher os meios que devem causar no espírito público a impressão mais eficaz e mais durável e, ao mesmo tempo, menos cruel no corpo do culpado. Prevenção é melhor que repressão. Quanto à tortura: Beccaria não a admite em nenhuma hipótese – ainda quando utilizada para descobrir os cúmplices do crime. Relação: crime x castigo – contra a pena de morte. Em síntese, a Escola Clássica pode ser compreendida nos seguintes termos: a) o delito não é um ente de fato, mas um ente jurídico, uma relação contraditória entre o fazer do homem e a norma da lei/moral, conforme defendido por Carrara (ex: fofoca); b) o Direito Penal tem um fim de tutela, em que a pena é um meio de tutela, porque visa restabelecer a ordem alterada pelo delito; c) a pena deve ser proporcional ao delito, certa e conhecida, segura e justa; d) a responsabilidade penal se sustenta no livre arbítrio e na imputabilidade moral, ou seja: o homem possui a liberdade para decidir na escolha entre o bem e o mal, se decide por este último deve sofrer as consequências jurídicas da sua conduta, além das penalizações morais.Na Escola Clássica, os esforços do Direito Penal se dirigem à: a) Objetivação do delito (tipificação da conduta) pautado na construção do livre arbítrio (poder de escolha entre o bem e o mal); b) Os teóricos da Escola Clássica compreendem que a prática do crime, pautada na vontade livre e consciente do indivíduo em descumprir a norma de maneira arbitrária, rompe o contrato social. c) A pena é uma resposta objetiva à prática delituosa e tem de caráter retributivo e dissuasório da prática de novas condutas criminosas. Na Escola Clássicaexistiam as chamadas “PSEUDO-CIÊNCIAS” – próprias dos métodos dedutivos (não leva em consideração as experiências, o empirismo). São exemplos: a) Frenologia: propunha que as protuberâncias na cabeça de uma pessoa poderiam ser usadas para determinar seus traços e caráter. Também é trabalhada na Escola Positiva, em especial, por Lombroso. Se exterioriza por algumas ações – exemplo: vangloria-se pela impunidade de uma conduta criminosa/tom sarcástico. Estudava a expressão facial por meio da interação com o sistema nervoso central. Mas tudo ainda era muito empírico, sem uma análise científica comprovada. Hoje: o “profile” criminal (perfil criminoso) – é estudado pela neurociência, pela psicologia criminal, psiquiatria forense. b) Demonologia: o crime era atribuído à tentação demoníaca. A Demonologia é o estudo sistemático dos demônios. c) Fisionomia: Lombroso retirou algumas ideias dos fisionomistas para traçar um perfil dos criminosos, ao examinar com intensa profundidade as características fisionômicas e as comparar com os dados estatísticos de criminalidade. Cesare Lombroso: duas pranchas da obra: O Homem Delinquente, 1876 É indiscutível que algumas dessas ideias servem ainda hoje para “estigmatizar” pessoas pelos traços ou vestimentas, maneira de se portar, entre outros. Se extraem determinadas abordagens policiais, por atitudes “suspeitas”. 2. Escola Positiva Surgiu no início do século XIX na Europa – orientada pelo Iluminismo. Ideias de Auguste Comte. O CRIME não é um ente jurídico e sim um FATO HUMANO e SOCIAL. Um fato “natural” da sociedade. Utiliza o método EMPÍRICO/INDUTIVO. O homem não é um ser dotado de livre arbítrio, mas sim PRÉ-DETERMINADO ao cometimento do crime (DETERMINISMO = influência de fatores endógenos e exógenos). Num Direito Penal pautado pela “Periculosidade” – o homem é “determinado” – não possuindo capacidade de escolha. Nele a pena tem como limite a sua própria periculosidade. O Direito Penal de “Periculosidade” – é também um direito penal de “Autor” (e não do fato). Ou seja, a pessoa é punida pelas suas características ou condições pessoais e não pelo “fato” (pelo que praticou, de acordo com os modelos de conduta que são probidos). A PENA é um instrumento de DEFESA SOCIAL – afastamento do delinquente da sociedade (abandona o caráter de mero castigo). Fase científica da criminologia, para alguns foi inaugurada com a obra “O Homem Delinquente” (1876), de Cesare Lombroso – é considerado o “pai da criminologia” e trabalhava com as ideias da BIOLOGIA CRIMINAL. Lombroso escreveu ainda: Tratado antropológico Experimental do Homem Delinquente. Para elaborar sua teoria, analisou mais de 25 mil reclusos de prisões europeias. Além de 6 mil delinquentes vivos e realizou cerca de 400 autópsias de cadáveres de presos. A Escola Positiva se concentrou no estudo da fisiologia, morfologia e psicologia dos criminosos, bem como das variáveis e causas da criminalidade. Na época de Lombroso, era comum os estudos de frenologia, que como dissemos anteriormente, procurava compreender o caráter, a personalidade e a criminalidade pelo estudo da forma da cabeça. Lombroso concebia o delinquente como um “animal selvagem”, um “SER ATÁVICO”, com predisposição natural para a prática do crime. Utilizou o método empírico em suas investigações e defendeu o determinismo biológico. Ideia de Antropologia Criminal. Lombroso utilizava o método EMPÍRICO-INDUTIVO ou INDUTIVO-EXPERIMENTAL (pesquisa que parte de premissas menores para alcançar a generalização de ideias), que se ajustava ao CAUSALISMO EXPLICATIVO defendido pelo próprio positivismo. Após alguns estudos, Lombroso concluiu que havia uma “tendência” à TATUAGEM nos chamados “dementes”. Ver texto: Tatuagem e Criminalidade, de Marina Albuquerque Mendes da Silva. E ainda a Dissertação de mestrado: Tatuagem na Prisão: estigma e identidade, de Karine Belmont Chaves. Importante observar que em 1899, Lombroso publicou a obra “Le Crime, Causes et Remèdes”, na qual conferiu atenção também aos fatores socioeconômicos que causariam o crime. Mas, inegavelmente, a obra que caracterizou os estudos de Lombroso foi a já citada “L''uomo delinquente”, de 1876, na qual procurou demonstrar que os aspectos biológicos eram a causa da prática das condutas criminosas, pois nunca abandonou o pressuposto de que as raízes fundamentais do crime eram biológicas e que poderiam ser identificadas a partir dos estigmas anatômicos dos indivíduos. Em termos gerais, é possível concluir que Lombroso reduziu o crime a um fenômeno natural ao considerar o criminoso, simultaneamente, como um ser primitivo e um doente. Para Lombroso, o CLIMA também influenciaria na prática de condutas criminosas. Escreveu em 1897, com o título "L''uomo delinquente in rapporto all''antropologia, alla giurisprudenza ed alla psichiatria: (cause e rimedi)", que o calor pode atuar sobre as pessoas e conduzi-las a alterações psíquicas, enquanto que o frio traria mais tranquilidade no trato interpessoal, por uma ação direta depressiva sobre o sistema nervoso. Conclusão: pessoas que moram em climas quentes teriam mais propensão a delinquir. Mas o Positivismo também tentava atingir seus objetivos, valendo-se, principalmente, de dados estatísticos. Lombroso utilizou dados de estatísticas criminais para comparar os índices de criminalidade de países com meses/estações do ano diferentes, “concluindo” que há uma relação direta entre as influências da temperatura e até mesmo da latitude no comportamento criminoso da população. Trabalho: CLIMA E CRIME: OS EFEITOS DA SECA NAS TAXAS DE CRIMINALIDADE DE PERNAMBUCO. BRENDO LEONEL ALVES DE ALMEIDA “As condições climáticas de uma região podem exercer influências sobre alguns indicadores socioeconômicos, como, por exemplo, a criminalidade. Nesse sentido, a presente pesquisa descreve os mecanismos que podem a partir das variações de clima, expressas pelo nível de precipitação pluviométrica (através do Índice de Precipitação Padronizada, SPI), identificar como as taxas de criminalidade nos municípios pernambucanos podem ser afetadas pela ocorrência de secas. Destaca-se que o estado de Pernambuco sofreu uma severa estiagem entre os anos de 2012 a 2016, resultando em um dos mais longos períodos de seca das últimas décadas. Esse cenário de escassez levou a estresses econômicos, sociais e ambientais contundentes, que podem ter ocasionado o deslocamento das atividades rotineiras da população, inclusive a incidência de crimes. Desta forma, através de estratégias econométricas[footnoteRef:1] de painel espacial, o presente estudo contém as estimativas dos efeitos diretos e indiretos da seca sobre a criminalidade, particularmente a taxa de crimes violentos contra o patrimônio. Os resultados observados foram estatisticamente significativos e apontam que quanto maior for a intensidade da seca há um aumento na criminalidade no estado”[footnoteRef:2]. [1: A econometria faz uso de disciplinas de ciências exatas como auxiliares para descrever sistemas econômicos. Através dela, é possível testar hipóteses e prever tendências de possíveis fenômenos econômicos.] [2: Bibliografia disponibilizada e também no endereço eletrônico: https://www.padr.ufrpe.br/sites/default/files/testes-dissertacoes/Dissertacao%20final-Brendo%20Almeida-pdf.pdf. ] Lombroso estudou ainda a influência de outros fatores como causa de crimes (ETIOLOGIA DO CRIME = CAUSAS do crime), tais como: a) aspectos geológicos: estudo de caso - solo de determinadas regiões da França e sua influência na prática de crimes políticos, distribuindo os percentuais assim: 21% para departamentos predominantemente de terras legais calcário; 19% granito; 22% Cretáceo; 21% aluvial; e o mesmo se aplica aos crimes contra a propriedade. b) a raça; c) densidade demográfica; d) índices de natalidade; e) o preço da alimentação – quanto a este, comparou os números anuais dos crimes cometidos na então Prússia com os preços dos alimentos indispensáveis na época da pesquisa, concluindo que: os alimentos desempenham um papel importante, uma vez que,com o mercado de cereais mais barato, os crimes contra a propriedade diminuem, e os crimes contra as pessoas aumentam, especialmente os casos de estupro. Ao final, Lombroso classificou os criminosos em 4 grupos: 1º) os natos; 2º) por paixão; 3º) por ocasião; 4º) os loucos. Já para Enrico Ferri (“pai da moderna SOCIOLOGIA CRIMINAL” – foi o fundador da revista “La Scuola Positiva – que difundia o positivismo criminológico italiano). Defendia que o meio social é mais importante que os traços biológicos. Raphael Garofalo – o delinquente é o indivíduo prisioneiro de sua própria patologia (biológico) ou de processos causais alheios – PSICOLOGIA CRIMINAL (aliada a fatores de ordem social). Se posicionava a favor da pena de morte - aos criminosos natos/instintivos (por apresentarem um déficit moral) e era cético quanto à possibilidade de readaptação do homem criminoso. Sua principal obra: Criminologia (1905). Escreveu também com grande destaque “O Ambiente Criminal”. Enrico Ferri e Raphael Garofalo defenderam que a PENA deve ser aplicada não por retributividade, como defendia a Escola Clássica, mas sim em razão da periculosidade do agente, como meio de defesa social. Enrico Ferri destacou-se no estudo da Sociologia Criminal – que no seu nascedouro buscava associar a gênese delituosa a fatores biológicos (Teoria Clássica e Positivistas). Ferri tinha grande preocupação em trazer soluções sociais ao problema da criminalidade. Ferri publicou sua obra “Sociologia Criminal” em 1914 – apresentando um TRINÔMIO CAUSAL DO DELITO, composto por fatores: 1) ANTROPOLÓGICOS; 2) SOCIAIS; e 3) FÍSICOS. Ou seja, o delito, para Ferri, não é produto exclusivo de nenhuma patologia individual (o que contraria a tese antropológica de Lombroso), mas sim a somatória de diversos fatores: DELITO = FATORES INDIVIDUAIS + FATORES FÍSICOS + FATORES SOCIAIS Ferri defendia que o Direito Penal deveria visar principalmente à neutralização do delinquente, medida direta de Defesa Social, e não ao seu restabelecimento no seio comunitário, mas acreditava na possibilidade de restauração dos indivíduos criminosos (diferente de Lombroso). Posteriormente, a Sociologia Criminal ampliou os estudos e passou a englobar as chamadas “teorias macrossociológicas”, que não se limitavam à análise do delito segundo uma visão do indivíduo ou de pequenos grupos, mas consideravam a sociedade como um todo. Ainda na visão da Escola Positiva, a pena deveria ser a medida de segurança, porque possui caráter curativo, podendo ser imposta por prazo indeterminado. Brasil: CP. Art. 97. § 1º - A internação, ou tratamento ambulatorial, será por tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a cessação de periculosidade. O prazo mínimo deverá ser de 1 (um) a 3 (três) anos. Súmula 527-STJ: O tempo de duração da medida de segurança não deve ultrapassar o limite máximo da pena abstratamente cominada ao delito praticado. Aprovada em 13/05/2015. Outra influência: CP. Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando: III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa substituição seja suficiente. Ou seja: tanto o artigo 44, quanto o artigo 59 do Código Penal brasileiro, levam em consideração o grau de periculosidade do acusado, em nome da “defesa social”. Ademais, ao fazer a opção entre as penas restritivas de liberdade e as penas restritivas de direito (alternativas), quando o juiz decide pelas primeiras, acaba por utilizar critérios da Escola Positiva, que o auxiliam na fundamentação da decisão, que deve se mostrar necessária e suficiente para reprovação e prevenção do crime. Lembrar que o artigo 59 do CP trabalha com noções de um direito penal do “autor” – ao levar em consideração, entre as condições judiciais, os antecedentes e a personalidade do agente. Na obra de Enrico Ferri há uma contraposição entre livre arbítrio e determinismo. Para Ferri há uma grande importância do papel do ambiente familiar e social na gênese do delito. Trata-se do DETERMINISMO SOCIAL, para o qual o delito é um fenômeno social determinado por causas naturais. É de Ferri também a denominada “LEI DA SATURAÇÃO CRIMINAL”: dizia que “da mesma maneira que, em um certo líquido a tal temperatura, ocorrerá a diluição de uma certa QUANTIDADE de substância, em determinadas condições sociais, serão produzidos determinados delitos”. FERRI CLASSIFICOU OS CRIMINOSOS EM: a) NATOS: é o tipo instintivo de criminoso, descrito por Lombroso, com seus estigmas de degeneração. Já para Ferri, o seu traço característico essencial e dominante, é a completa atrofia do senso moral. b) INSANOS/LOUCOS: abrange não só o alienado mental, como, também, os semi-loucos e os fronteiriços. c) PASSIONAIS: compreende aquele que é levado à prática do crime pelo arrebatamento, pelo ímpeto momentâneo. Ferri entende que os delinquentes passionais são indivíduos de vida até então sem manchas, homens de um temperamento sanguíneo nervoso e de uma sensibilidade exagerada; têm “alguma coisa de louco”. São frequentemente mulheres e cometem o delito ainda na juventude e sob impulso de uma paixão que explode como cólera, em virtude de um amor contrariado, de uma honra ofendida, de ataques de ciúme. Geralmente cometem o crime sem premeditação. Quase sempre há um arrependimento imediato, que leva muitas vezes ao suicídio também imediato. d) OCASIONAIS: são aqueles que eventualmente cometem um delito. e) HABITUAIS: compreende o reincidente da ação delituosa. É o indivíduo que praticamente faz, do crime, a sua profissão. Ferri estudou três famosos homicidas shakespearianos (William Shakespeare): 1. MACBETH: que classificou como “criminoso nato” [footnoteRef:3]. [3: Macbeth: A história se desenrola na Escócia, no século XI. Os generais Macbeth e Banquo retornam vitoriosos de um batalha. No caminho para casa, eles se deparam com três bruxas que fazem uma profecia: Macbeth se tornará barão e depois, rei. E os filhos de Banquo serão os próximos soberanos. O tema principal de Macbeth pode ser o caráter corrupto da ambição descontrolada, que é empregada em sua luta entre sua ambição e moral. Assim que o primeiro presságio se concretiza e Macbeth é nomeado barão, a vontade de se tornar monarca ganha espaço no coração do general. Mas é Lady Macbeth, sua esposa, quem mais demonstra avidez com a possibilidade de virar rainha. Perversa e ardilosa, ela convence o marido de que o assassinato do rei é um passo imprescindível para a realização da profecia. Antes do crime, Macbeth pensa em recuar – afinal, ele é parente próximo do rei, um líder bom e justo. Porém, sua esposa consegue persuadi-lo e ele executa o monarca com um golpe de punhal. O peso da coroa, no entanto, traz apenas tormento e insônia ao novo rei. Sofrendo de dores terríveis de consciência, ele é incapaz de usufruir o que almejou.] Interessante observar que no decorrer da história, Macbeth vai se tornando cada vez mais insensível, sujando cada vez mais suas mãos de sangue. Mas é a sua esposa, Lady Macbeth, que tomada pela culpa, passa a ter alucinações perturbadoras e acaba por cometer o suicídio. Questões centrais para reflexão: A ética em Macbeth – pergunta-se: a) Quem tem a consciência pesada perde o sono? b) Quem trai, fere e trapaceia experimenta também o sofrimento por meio da culpa? 2. HAMLET: que definiu como “criminoso louco”. A peça conta a história de um príncipe, cujo nome titula a obra, que tem o objetivo de vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca. Obcecado por uma desforra ditada por um espectro, na forma imaginária do pai assassinado, Hamlet fingiu-se de alucinado, dizendo-se “não estou louco de verdade, estou louco por astúcia”; o fingimento da loucura fazia parte do plano para vingar a morte do pai. A obra mostra que um espírito vingativo é tão destrutivo quanto o motivo da vingança. Shakespeare lembra a presença do mal no universo humano e a reação a esse mal que chama de “congênito”.3. OTELO: que distinguiu como “criminoso passional”. Otelo é um general mouro a serviço do reino de Veneza, casado com Desdêmona, moça de pele clara e filha de um rico senador. Eles se uniram às escondidas e o genro só é aceito pelo sogro porque o casamento já está consumado. A peça cria reflexões sobre o amor incompreensível (que arrebata Desdêmona) , sobre o ciúme incompreensível ( que nasce em Otelo) e sobre o ódio incompreensível ( que sente Iago). Ao final temos o próprio fim de Desdémona, morta pelo alegado amor de um homem. O “crime de Otelo” é rotulado como passional ou romântico, motivado pelo ciúme. Voltando aos estudos de Ferri – este defendeu o uso de técnicas de análise científica do criminoso para o julgamento criminal, que levaria em consideração o uso de tatuagens, antropometria, condições físicas e mentais, reflexos, reações vasomotoras, amplitude da visão, identificação pessoal, entre outros. A Criminologia positivista é definida como uma Ciência causal-explicativa da criminalidade. Concebida como um fenômeno natural, causalmente determinado. A Escola Positiva exerceu grande influência em alguns países da América Latina, em especial, no Chile. CRÍTICA À ESCOLA POSITIVA: o positivismo como criminologia não questionou a ordem dada, e saiu a perseguir o que passou a se chamar de delinquentes natos, loucos morais, personalidades criminosas, desagregados sociais, inadaptados, etc. Considerando anormais ou desviados os assinalados por uma decisão política (as escolhas do legislador redigidas na Lei – que tem também possui uma função oculta – de manutenção do status quo dominante em determinado período) – tudo isso, por si, já a contradiz na sua pretensão científica. QUESTÃO: PC-SP - 2010 Complete com a alternativa correta: Considerado o principal idealizador da Sociologia Criminal ............ tem como obra principal ............... . A) Lombroso – “O Homem Delinquente” B) Garofalo – “O Ambiente Criminal” C) Ferri – “Sociologia Criminal” D) Carrara – “Sociedade e Crime” E) Lacassagne – “Sociedade e Miséria” Observação: ALEXANDRE LACASSAGNE – pertence a chamada ESCOLA DE LYON, ECLÉTICA OU TERZA ESCOLA: escreveu a obra “SOCIEDADE E MISÉRIA”. Trata-se de uma contra proposta à escola positiva sobre a delinquência nata - acreditava que o crime é enaltecido pelo meio social. A TERZA SCUOLA teve como finalidade harmonizar a escola clássica e positiva. Aderiu os conceitos da escola positiva ao negar a existência do livre arbítrio (o homem só é livre ao superar os próprios instintos de paixões). Da escola clássica trabalhou a ideia da existência de uma responsabilidade moral dos indivíduos. Defendia a prevenção geral e especial negativa como finalidades da pena. Na gênese da delinquência existem fatores predisponentes contra determinantes – pregava que “as sociedades têm os criminosos que merecem”. Outra frase de impacto: “delinquência nata que nada”. E mais: “o crime é como um micróbio e que se encontra um caldo propício se prolífero”, ou seja: o crime encontra no meio social as condições para se desenvolver – e quando propicias tende a aumentar. image1.png image2.jpeg