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Aspectos Distributivos do IPTU e do Patrimônio
Imobiliário das Famı́lias Brasileiras
Resumo Detalhado
1 Caṕıtulo 1: Introdução
A desigualdade de renda no Brasil é um problema social persistente e profundo,
com ráızes que se intensificaram durante o regime militar (1964-1985). Du-
rante esse peŕıodo, o páıs adotou um modelo de crescimento econômico que,
apesar de gerar avanços em infraestrutura e industrialização, resultou em maior
concentração de renda. Mesmo após a redemocratização e a promulgação da
Constituição Federal de 1988, a desigualdade de renda se manteve elevada e
estável, sendo impactada tanto pelos ciclos econômicos de crescimento quanto
pelos peŕıodos de recessão.
Ao longo dos anos, diversos programas sociais foram implementados, prin-
cipalmente em ńıvel federal, com o intuito de mitigar essa desigualdade. Entre
esses programas, destacam-se os focados em transferência de renda, como o
Bolsa Famı́lia, que promoveram uma diminuição significativa nos ı́ndices de de-
sigualdade de renda a partir dos anos 2000. Esses programas refletem a tentativa
do Estado brasileiro de ampliar a proteção social e de reduzir a concentração
de renda em curto prazo. Contudo, esses mecanismos têm limitações, especial-
mente quanto à sua sustentabilidade financeira no médio e longo prazo. Isso gera
um debate sobre a necessidade de mecanismos tributários que possam atuar de
maneira mais eficiente e duradoura na redistribuição de renda e patrimônio.
Embora o gasto público, sobretudo por meio de transferências de renda,
tenha sido um fator relevante para a desconcentração da renda, estudos mostram
que a tributação no Brasil continua a ter um caráter regressivo. O sistema
tributário brasileiro depende fortemente de impostos indiretos, que tendem a
onerar proporcionalmente mais os pobres do que os ricos. No entanto, dois
impostos diretos apresentam potencial de progressividade dentro do atual ar-
cabouço constitucional: o Imposto de Renda (IR) e o Imposto Predial e Terri-
torial Urbano (IPTU).
A Constituição Federal de 1988, em consonância com o entendimento do
Supremo Tribunal Federal (STF), admite a progressividade do IPTU como uma
ferramenta capaz de reduzir desigualdades, além de seu potencial para desem-
penhar um papel extrafiscal, ou seja, um papel que vai além da arrecadação pura
e simples, contribuindo para a organização e uso adequado do espaço urbano.
A progressividade do IPTU foi expressamente permitida por meio da Emenda
1
Constitucional nº 29 de 2000, que incluiu essa possibilidade no artigo 156 da
Constituição. Essa emenda trouxe inovações importantes, como a possibilidade
de se aplicar aĺıquotas diferenciadas conforme o valor do imóvel ou de acordo
com o cumprimento da função social da propriedade.
Contudo, a implementação da progressividade do IPTU enfrenta desafios
consideráveis. Apesar das inovações constitucionais, o conservadorismo nas in-
terpretações do Judiciário e os obstáculos administrativos têm dificultado a efe-
tiva aplicação desse prinćıpio. O STF, por exemplo, havia declarado inconstitu-
cional a progressividade do IPTU até a promulgação da Emenda Constitucional
nº 29. Mesmo com a regulamentação, a resistência juŕıdica e poĺıtica continua a
dificultar o uso mais amplo desse imposto como um mecanismo de justiça social.
Outro aspecto a ser considerado é a complexidade de medir a concentração
de patrimônio no Brasil, particularmente no que se refere à propriedade imo-
biliária. Enquanto a renda pode ser medida com base em dados mais acesśıveis,
como os da Pesquisa Nacional por Amostra de Domićılios (PNAD) e da Pesquisa
de Orçamentos Familiares (POF), a avaliação do patrimônio imobiliário envolve
um grau maior de subjetividade e volatilidade. Elementos como a flutuação dos
preços de mercado, a rentabilidade dos aluguéis e as variáveis macroeconômicas
afetam as avaliações dos imóveis, dificultando a estimativa de sua real con-
tribuição para a concentração de riqueza no páıs.
Nesse sentido, o IPTU surge como um imposto de grande relevância para
discutir os aspectos distributivos da tributação sobre o patrimônio no Brasil.
Ele é um imposto direto, que incide sobre o valor do imóvel, e possui uma base
de cálculo viśıvel e menos sujeita à evasão fiscal. Além disso, o IPTU é o imposto
com o maior número de contribuintes no Brasil, sendo que sua arrecadação é
de competência dos munićıpios, o que confere maior proximidade com a base
tributária. Seu potencial progressivo, aliado à dificuldade de sonegação e à
possibilidade de aplicação de aĺıquotas diferenciadas, torna-o uma ferramenta
importante para a promoção de uma tributação mais equitativa.
O desafio central está em garantir que o IPTU seja realmente progressivo,
isto é, que os imóveis de maior valor sejam mais fortemente tributados do que os
de menor valor. Isso depende de uma série de fatores, como a atualização correta
dos valores venais dos imóveis, as avaliações imobiliárias oficiais e as poĺıticas de
isenção e descontos aplicadas por cada munićıpio. Se a carga tributária do IPTU
estiver distribúıda de maneira justa, ele pode atuar como um imposto progres-
sivo; caso contrário, ele será regressivo e acabará por perpetuar a concentração
de riqueza.
A distribuição da carga tributária do IPTU também deve ser analisada de
forma regional e entre diferentes grupos de contribuintes. Isso é importante
para entender se o sistema tributário está cumprindo seu papel de redistribuir a
riqueza ou se, pelo contrário, está aumentando as disparidades. A análise desses
aspectos se torna ainda mais relevante no contexto de debates sobre reformas
tributárias no Brasil, em que o IPTU pode desempenhar um papel central não
apenas na arrecadação de receitas para os munićıpios, mas também como um
instrumento de poĺıtica urbana e distributiva.
2
2 Caṕıtulo 2: Evolução e Estágio Atual dos Im-
postos Imobiliários no Brasil e no Mundo
2.1 Histórico dos Impostos Imobiliários no Brasil
No Brasil, os impostos sobre a propriedade imobiliária têm uma longa trajetória,
remontando à Constituição de 1891, que delegava aos estados a competência
para tributar imóveis rurais e urbanos. Essa competência foi posteriormente
alterada pela Constituição de 1937, que transferiu aos munićıpios a respons-
abilidade pela tributação dos imóveis urbanos. Essa mudança marcou o ińıcio
do que viria a ser o papel central dos munićıpios na arrecadação de tributos
imobiliários, consolidando o IPTU como uma das principais fontes de receita
municipal no Brasil.
Com a promulgação do Código Tributário Nacional (CTN) em 1966, a trib-
utação imobiliária passou a ser regulamentada de forma mais detalhada. O
CTN estabeleceu que a propriedade situada em zonas urbanas seria tributada
pelo IPTU, definindo critérios para qualificar uma área como zona urbana para
fins tributários. Os critérios inclúıam a oferta de, pelo menos, dois dos cinco
serviços públicos: pavimentação com drenagem de águas pluviais, abasteci-
mento de água, esgotamento sanitário, iluminação pública e proximidade de
escola primária ou posto de saúde a menos de três quilômetros do imóvel. Esses
critérios, porém, têm sido alvo de debates ao longo dos anos, especialmente
no que diz respeito à classificação de imóveis situados em áreas urbanas, mas
destinados a atividades agŕıcolas ou extrativistas.
2.2 A Constituição de 1988 e as Inovações no IPTU
A Constituição de 1988 consolidou ainda mais o papel do IPTU, estabelecendo-
o como um tributo de grande potencial fiscal para os munićıpios. Entretanto,
a maior inovação trazida pela Carta Magna foi a inclusão do conceito de pro-
gressividade, associado a objetivos extrafiscais. A progressividade foi prevista
no artigo 156, que passou a permitir a aplicação de aĺıquotas diferenciadas com
base no valordo imóvel ou na função social da propriedade. Além disso, o artigo
182 da Constituição Federal prevê a progressividade do IPTU no tempo, com o
objetivo de promover o uso adequado da propriedade, conforme os parâmetros
definidos pelo plano diretor de cada munićıpio.
Essa progressividade visava não apenas a arrecadação, mas também o cumpri-
mento da função social da propriedade, incentivando a utilização produtiva dos
terrenos urbanos. Isso possibilitou o uso do IPTU como uma ferramenta de
poĺıtica urbana, particularmente em cidades onde a especulação imobiliária con-
tribui para a manutenção de imóveis ociosos ou subutilizados. A progressividade
do IPTU no tempo, por exemplo, permite o aumento anual das aĺıquotas até um
limite, forçando os proprietários a utilizarem adequadamente suas propriedades
ou enfrentarem uma crescente carga tributária.
3
2.3 O Conservadorismo Juŕıdico e os Desafios de Imple-
mentação
Embora a Constituição de 1988 tenha introduzido o conceito de progressividade,
sua efetivação encontrou sérios obstáculos no Judiciário brasileiro. O conser-
vadorismo das interpretações juŕıdicas, especialmente pelo Supremo Tribunal
Federal (STF), tem limitado a aplicação plena do IPTU progressivo. Até a pro-
mulgação da Emenda Constitucional (EC) nº 29, de 2000, o STF frequentemente
considerava inconstitucional a progressividade do IPTU. O argumento central
era que o IPTU, sendo um imposto ”real” (incidente sobre a propriedade), não
deveria ser baseado na capacidade contributiva do proprietário, mas sim no valor
da propriedade.
Mesmo após a EC nº 29/2000, que modificou o artigo 156 da Constituição
para permitir expressamente a progressividade do IPTU, a resistência à aplicação
desse conceito continuou em várias instâncias judiciais. Diversas iniciativas mu-
nicipais de aplicar aĺıquotas progressivas ou utilizar o IPTU como instrumento
de poĺıtica urbana foram contestadas nos tribunais, resultando, muitas vezes, na
necessidade de devolução de valores cobrados aos contribuintes. Essa resistência
judicial tem enfraquecido o potencial do IPTU como um instrumento eficaz de
redistribuição de riqueza e controle urbano.
2.4 Comparação Internacional: O IPTU no Mundo
Comparando o Brasil a outros páıses, observa-se que os impostos sobre a pro-
priedade têm desempenhado um papel fundamental nas finanças locais ao redor
do mundo. De acordo com dados do **Government Finance Statistics** do
Fundo Monetário Internacional (FMI), páıses como Argentina, Boĺıvia, África
do Sul, Ĺıbano, Israel, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Austrália, Nova
Zelândia, Canadá e Estados Unidos registraram receitas provenientes de impos-
tos sobre a propriedade que representavam mais de 2
No entanto, no Brasil, o IPTU representa uma parcela muito menor do PIB
– em torno de 0,46
2.5 Desafios Administrativos e Aĺıquotas Progressivas
No Brasil, o IPTU é cobrado por cerca de 96
Além disso, apenas 26,9
No entanto, o imposto sobre a propriedade imobiliária continua a ser uma
fonte essencial de receita para os munićıpios, especialmente em páıses como
Canadá, França, Nova Zelândia e Austrália, onde os impostos imobiliários rep-
resentam uma parcela significativa das receitas locais, chegando a mais de 25
4
2.6 A Baixa Eficiência Administrativa e as Isenções Fis-
cais
A baixa arrecadação do IPTU no Brasil, em comparação com outros páıses, não
pode ser atribúıda às aĺıquotas aplicadas, que, como mencionado, são semel-
hantes às de muitos páıses desenvolvidos. A questão está mais relacionada à
ineficiência administrativa e à extensão das isenções fiscais. As isenções são fre-
quentemente concedidas a imóveis localizados em áreas periféricas ou de baixa
renda, ou ainda a imóveis pequenos, em um esforço para aliviar a carga sobre
as famı́lias mais pobres. No entanto, essas isenções também são utilizadas como
instrumentos poĺıticos, o que pode reduzir significativamente a base tributária,
minando a capacidade dos munićıpios de arrecadar o suficiente para financiar
serviços públicos essenciais.
Além disso, as avaliações imobiliárias, que deveriam refletir os valores reais
de mercado dos imóveis, estão muitas vezes desatualizadas, especialmente em
cidades maiores. Isso significa que muitos imóveis são tributados com base em
valores muito inferiores aos de mercado, reduzindo ainda mais o potencial arreca-
datório do IPTU. Diferentemente de outros páıses, como a França e os Estados
Unidos, onde as avaliações são atualizadas regularmente, no Brasil, a planta
genérica de valores, que define o valor venal dos imóveis, é frequentemente de-
sconsiderada pelos gestores municipais, resultando em grandes distorções entre
o valor de mercado e o valor tributado.
Caṕıtulo 3: Desigualdade e Tributação do Patrimônio
Imobiliário no Brasil
3.1 A Complexidade de Medir a Desigualdade do Patrimônio
Imobiliário
A estimativa da desigualdade do patrimônio imobiliário das famı́lias brasileiras
é um processo complexo, principalmente devido à falta de dados abrangentes
e atualizados sobre a propriedade imobiliária no Brasil. Enquanto a concen-
tração de renda pode ser medida de maneira mais direta por meio de pesquisas
como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domićılios (PNAD) e a Pesquisa de
Orçamentos Familiares (POF), a avaliação do patrimônio imobiliário envolve
uma série de desafios adicionais.
Os dados dispońıveis não capturam com precisão a totalidade do patrimônio
imobiliário das famı́lias, principalmente porque muitas dessas pesquisas se con-
centram no domićılio principal e não incluem propriedades adicionais. Isso sig-
nifica que as estimativas acabam refletindo mais o usufruto do imóvel – isto
é, o conforto e bem-estar que a famı́lia obtém do imóvel onde reside, seja ele
próprio, alugado ou cedido – do que a posse juŕıdica de imóveis. Além disso,
o valor dos imóveis é subjetivo e pode variar significativamente em função de
fatores econômicos, poĺıticos e sociais, como a variação dos preços de mercado,
a poĺıtica de financiamento e a implementação de obras públicas.
5
As pesquisas utilizadas para medir a desigualdade do patrimônio imobiliário
incluem a POF de 2002-2003 e a PNAD de 2003, ambas conduzidas pelo IBGE.
A POF traz informações sobre o valor de aluguel efetivamente pago pelos domićılios
alugados e o valor estimado de aluguel nos casos de domićılios próprios. Já a
PNAD permite que os moradores declarem o valor de mercado de suas pro-
priedades. Essas informações são essenciais para estimar o valor de mercado
dos imóveis das famı́lias brasileiras, o que permite avaliar a participação desse
valor na carga tributária do IPTU.
3.2 A Concentração do Patrimônio Imobiliário e a Progres-
sividade do IPTU
Estudos indicam que a concentração de patrimônio imobiliário no Brasil é ainda
mais acentuada do que a concentração de renda. As famı́lias mais ricas detêm
uma parcela desproporcional do patrimônio imobiliário do páıs, o que reforça a
necessidade de um imposto sobre propriedade progressivo, como o IPTU, para
atuar como instrumento de redistribuição de riqueza.
Com base nos dados da POF de 2002-2003, estima-se que os 10% mais ricos
da população brasileira detinham cerca de 46,4% do total do patrimônio imo-
biliário residencial do páıs. Isso evidencia uma desigualdade estrutural na dis-
tribuição de bens imobiliários. A análise da concentração de patrimônio indica
que, enquanto a renda está distribúıda de forma relativamente mais igualitária
entre as famı́lias de baixa e média renda, o patrimônio imobiliário se concentra
de maneira muito mais acentuada nas famı́lias de alta renda.
Além disso, o uso do IPTU como ferramenta para combater essa desigualdade
enfrenta desafios significativos, particularmente no que diz respeito à avaliação
dos imóveis e à definição das aĺıquotas decobrança. Em muitos casos, os imóveis
mais valorizados estão sujeitos a avaliações defasadas, o que significa que a
aĺıquota efetiva cobrada sobre esses imóveis acaba sendo menor do que a cobrada
sobre imóveis de menor valor. Essa distorção contribui para a regressividade do
sistema tributário, uma vez que as famı́lias mais ricas, que possuem os imóveis
mais valorizados, acabam pagando proporcionalmente menos imposto do que as
famı́lias de menor renda.
3.3 Rentabilidade dos Aluguéis e Seu Impacto na Trib-
utação Imobiliária
Outro fator que agrava a desigualdade na tributação do patrimônio imobiliário
é a variação na rentabilidade dos aluguéis. De acordo com estudos anteriores,
a rentabilidade dos aluguéis tende a ser mais alta em imóveis localizados em
áreas periféricas ou de menor valorização, enquanto os imóveis em áreas mais
valorizadas apresentam uma rentabilidade menor. Isso se deve ao fato de que
os valores de aluguel nem sempre acompanham a valorização dos imóveis, o que
significa que, conforme os imóveis se tornam mais caros, sua rentabilidade tende
a diminuir.
6
Esse fenômeno tem implicações importantes para a tributação imobiliária,
já que muitos munićıpios utilizam a rentabilidade dos aluguéis como base para
estimar o valor de mercado dos imóveis e, por conseguinte, para determinar o
montante de IPTU a ser cobrado. Como resultado, imóveis localizados em áreas
mais pobres, onde os aluguéis são proporcionalmente mais altos em relação ao
valor de mercado dos imóveis, acabam sendo tributados de forma mais pesada
do que imóveis em áreas mais valorizadas, mas com menor rentabilidade de
aluguel.
Além disso, a dificuldade em atualizar os valores venais dos imóveis para
fins de cobrança do IPTU agrava esse quadro. Estudos realizados na década
de 1970 mostraram que os valores venais estabelecidos para os imóveis urbanos
frequentemente ficam defasados em relação aos preços de mercado, o que resulta
em uma tributação regressiva. Isso significa que os imóveis mais valorizados,
que deveriam ser tributados mais fortemente, acabam pagando menos IPTU em
termos proporcionais do que os imóveis de menor valor.
3.4 Dados Regionais e a Desigualdade no Uso do IPTU
Os dados regionais mostram que a desigualdade na distribuição do patrimônio
imobiliário varia significativamente entre as diferentes regiões do Brasil. Nas
regiões Norte e Nordeste, por exemplo, a proporção de famı́lias que pagam
aluguel é relativamente baixa, especialmente nos estratos de renda mais altos,
onde muitas famı́lias possuem imóveis próprios. Já nas regiões Sudeste e Sul, a
proporção de famı́lias que pagam aluguel é mais alta, o que reflete tanto a maior
valorização dos imóveis nessas regiões quanto o maior grau de urbanização.
A POF de 2002-2003 também revela que, em termos de concentração de
renda, os 10% mais ricos da população brasileira detinham 44,15% da renda fa-
miliar total, o que é um reflexo da concentração da propriedade imobiliária entre
as famı́lias de maior renda. Esse ńıvel elevado de concentração de renda e de
patrimônio imobiliário é um indicativo da necessidade de uma poĺıtica tributária
mais progressiva, que inclua a atualização dos valores venais dos imóveis e uma
aplicação mais equitativa do IPTU em todo o páıs.
3.5 A Regressividade do Sistema Tributário Imobiliário
A regressividade do sistema tributário imobiliário brasileiro se reflete principal-
mente na forma como o IPTU é aplicado. Como mencionado, os imóveis de
maior valor frequentemente são subavaliados para fins de cobrança do imposto,
enquanto os imóveis de menor valor sofrem com avaliações mais realistas ou
até superestimadas. Isso cria um viés regressivo, onde as famı́lias mais pobres
acabam arcando com uma carga tributária proporcionalmente maior.
Estudos realizados com base na PNAD de 2001 a 2006 mostram que a pro-
porção de famı́lias que pagam aluguel aumenta progressivamente até o ter-
ceiro décimo de renda familiar, estabilizando-se entre 15% e 18% do total de
domićılios. Isso indica que, embora a maioria das famı́lias mais ricas pos-
sua imóveis próprios, uma parcela significativa das famı́lias de classe média
7
e média baixa depende do aluguel, o que impacta diretamente a forma como
essas famı́lias são afetadas pela tributação sobre a propriedade imobiliária.
Além disso, a evasão fiscal relacionada ao IPTU é outro fator que con-
tribui para a regressividade do sistema. Embora os imóveis de menor valor
muitas vezes estejam isentos do IPTU ou recebam descontos significativos, a
inadimplência e a evasão do pagamento do imposto são mais frequentes entre
as famı́lias de baixa renda, que enfrentam dificuldades em arcar com os custos
da tributação.
Caṕıtulo 4: Progressividade do IPTU no Patrimônio
Imobiliário das Famı́lias
4.1 Carga Tributária Global e Carga Tributária dos Pa-
gantes
Este caṕıtulo faz uma distinção crucial entre dois conceitos relacionados ao im-
pacto do IPTU sobre as famı́lias: a carga tributária global e a carga tributária
dos pagantes. A carga tributária global é definida como a média do valor do
IPTU aplicado sobre todo o patrimônio imobiliário, incluindo tanto os imóveis
que pagam o imposto quanto aqueles que estão isentos ou inadimplentes. Esse
conceito fornece uma visão macroeconômica de como o IPTU afeta o conjunto
da sociedade, independentemente de os proprietários serem efetivamente con-
tribuintes.
Por outro lado, a carga tributária dos pagantes refere-se à média do valor
pago por aqueles que efetivamente contribuem com o IPTU, ou seja, os pro-
prietários que estão dentro do sistema de arrecadação. Esse conceito permite
uma análise mais microeconômica do impacto do imposto, focando nos con-
tribuintes reais e nas distorções que podem existir no sistema tributário.
De acordo com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-
2003, o IPTU parece ser um imposto progressivo quando analisada a carga
tributária global. Isso ocorre porque os imóveis de menor valor frequentemente
estão isentos do imposto ou são de dif́ıcil arrecadação, e a maior parte do valor
arrecadado provém de imóveis de maior valor. No entanto, quando analisada
a carga tributária apenas entre os pagantes, verifica-se que o IPTU tem carac-
teŕısticas regressivas, ou seja, os imóveis de menor valor acabam pagando, pro-
porcionalmente, mais imposto do que os imóveis de maior valor. Isso se deve,
em parte, à defasagem nas avaliações imobiliárias e à subtributação de imóveis
de maior valor, o que impede que o IPTU cumpra seu papel de redistribuir a
riqueza.
4.2 Progressividade da Carga Tributária do IPTU
A análise da progressividade do IPTU é fundamental para entender como esse
imposto impacta diferentes grupos econômicos. Idealmente, um imposto pro-
gressivo deve tributar mais pesadamente os imóveis de maior valor, garantindo
8
que aqueles com maior capacidade contributiva paguem uma parcela propor-
cionalmente maior de imposto. No entanto, o que se observa no Brasil é que,
em muitos casos, essa progressividade é comprometida por distorções no sistema
de avaliação e pelas poĺıticas de isenção.
As avaliações imobiliárias oficiais, muitas vezes defasadas em relação ao valor
real de mercado dos imóveis, fazem com que os imóveis de maior valor sejam
subtributados. Por outro lado, os imóveis de menor valor, que tendem a ter
avaliações mais próximas do valor de mercado, acabam pagando uma parcela
maior de imposto. Esse fenômeno gera o que se chama de regressividade do
imposto: aqueles com menor capacidade contributiva acabam pagando mais,
proporcionalmente, do que os proprietários de imóveis de maior valor.
Outro ponto importante é a poĺıtica de isenções e descontos. Em muitos
munićıpios brasileiros, imóveis de menor valor estão isentos do pagamento do
IPTU ou recebem descontos significativos. Emboraessa poĺıtica tenha como
objetivo aliviar a carga sobre os mais pobres, na prática ela contribui para
uma distribuição desigual do imposto. Os dados da POF mostram que a baixa
proporção de pagantes nas faixas mais baixas de valor de imóvel cria uma ilusão
de progressividade quando se olha para a carga tributária global, mas entre os
que efetivamente pagam o imposto, a distribuição é regressiva.
4.3 Diferenças Regionais na Carga Tributária do IPTU
A análise regional revela grandes disparidades na aplicação e progressividade do
IPTU. Nas regiões Norte e Nordeste, a proporção de domićılios que efetivamente
pagam o IPTU é extremamente baixa. Apenas cerca de 12
No entanto, entre os que pagam o IPTU nas regiões Norte e Nordeste, a carga
tributária é altamente regressiva. Os imóveis de menor valor são tributados
proporcionalmente mais do que os imóveis de maior valor, criando uma distorção
que prejudica a progressividade do imposto. Isso é especialmente problemático,
pois indica que qualquer ampliação da base de contribuintes nessas regiões, sem
correção das distorções atuais, poderia piorar ainda mais a regressividade do
IPTU.
Nas regiões Sudeste e Sul, a situação é um pouco mais equilibrada em termos
de cobertura do IPTU, mas a progressividade do imposto também é compro-
metida pelas avaliações defasadas e pela poĺıtica de isenções. Mesmo nas capitais
mais ricas, como São Paulo, a regressividade do IPTU é evidente entre os pa-
gantes, com imóveis de maior valor sendo subtributados devido às avaliações
desatualizadas.
O estado de São Paulo é um exemplo interessante, pois, apesar de ter uma
das maiores proporções de pagantes de IPTU, a carga tributária global foi con-
siderada regressiva. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que as avaliações
imobiliárias no estado tendem a subavaliar os imóveis de maior valor, resultando
em uma tributação menor para esses imóveis em comparação aos de menor valor.
9
4.4 Regressividade Horizontal: Avaliação Deficiente dos
Imóveis
Um outro tipo de regressividade que afeta a justiça tributária do IPTU é a
regressividade horizontal, que se refere às diferenças na tributação entre imóveis
de valores de mercado semelhantes, mas que acabam pagando diferentes valores
de IPTU devido a problemas na avaliação imobiliária.
De acordo com os dados do estudo, a regressividade horizontal é mais preva-
lente entre os imóveis de menor valor. Isso ocorre porque os erros nas avaliações
tendem a ter um impacto maior sobre os imóveis de menor valor. Por exemplo, se
um imóvel com valor de mercado de R10milforavaliadoemR 15 mil, o impacto
percentual do erro é muito maior do que em um imóvel de R200milavaliadoemR
250 mil. Dessa forma, os imóveis de menor valor acabam sendo sobreavaliados
com mais frequência, o que aumenta sua carga tributária proporcionalmente
mais do que os imóveis de maior valor.
Estudos anteriores, como os de De Cesare (2004) e Varsano (1977), também
apontaram que imóveis com valores de mercado mais baixos tendem a sofrer
erros maiores no processo de avaliação para fins de cobrança do IPTU. Isso cria
uma distorção no sistema, onde os imóveis de menor valor pagam uma aĺıquota
efetiva maior do que deveriam, enquanto os imóveis de maior valor, que são
menos propensos a erros de avaliação, pagam menos do que deveriam.
4.5 Impacto da Progressividade do IPTU no Patrimônio
Imobiliário das Famı́lias
Por fim, o caṕıtulo também discute o impacto da progressividade do IPTU no
patrimônio das famı́lias brasileiras. A tributação eficiente e progressiva sobre a
propriedade pode ser uma importante ferramenta para reduzir a desigualdade
de riqueza no páıs, especialmente considerando que o patrimônio imobiliário
está altamente concentrado entre os estratos mais ricos da população.
Os dados mostram que os 10
Em conclusão, a progressividade do IPTU no Brasil enfrenta sérios de-
safios. Embora a carga tributária global aparente ser progressiva, a análise
detalhada entre os pagantes revela uma forte regressividade, particularmente
entre os imóveis de menor valor. A falta de atualização das avaliações imo-
biliárias, as poĺıticas desiguais de isenção e os problemas administrativos em
muitas regiões do páıs contribuem para esse quadro, exigindo uma reforma no
sistema de tributação imobiliária para que o IPTU possa cumprir seu papel
como um instrumento de justiça fiscal e redistribuição de riqueza.
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Caṕıtulo 5: Progressividade do IPTU no Rendi-
mento das Famı́lias
5.1 A Relação entre IPTU e a Capacidade Contributiva das
Famı́lias
Este caṕıtulo discute a progressividade do IPTU em relação ao rendimento das
famı́lias, focando na participação do imposto nas despesas familiares. O con-
ceito de progressividade tributária sugere que famı́lias com maior capacidade
contributiva (isto é, famı́lias com rendimentos mais altos) deveriam pagar pro-
porcionalmente mais imposto em relação às suas despesas ou à sua renda. No
entanto, no caso do IPTU, a análise de sua progressividade revela distorções
que, em muitos casos, tornam o imposto regressivo, ou seja, famı́lias com menor
capacidade contributiva acabam pagando proporcionalmente mais.
Neste caṕıtulo, a POF de 2002-2003 é utilizada para medir a participação
do IPTU nas despesas das famı́lias brasileiras. Os resultados indicam que o
IPTU tem uma distribuição progressiva em termos globais, mas, ao se analisar
somente o universo dos pagantes, a situação se inverte, e o imposto mostra-se
regressivo. Isso significa que, no conjunto da sociedade, as famı́lias mais ricas
contribuem mais com o imposto, mas, quando se considera apenas as famı́lias
que efetivamente pagam o IPTU, o peso do imposto é maior sobre as famı́lias
de menor renda.
5.2 Análise da Participação do IPTU nas Despesas Famil-
iares
O gráfico da POF 2002-2003 revela a distribuição do IPTU nas despesas famil-
iares. O gráfico distingue duas situações: a participação do IPTU nas despesas
de todas as famı́lias (incluindo tanto pagantes quanto não pagantes do imposto)
e a participação do IPTU nas despesas das famı́lias que efetivamente pagam o
imposto. As barras escuras no gráfico representam a participação do IPTU no
total das despesas de todas as famı́lias, enquanto as barras claras mostram a
participação do IPTU nas despesas somente dos pagantes.
Em termos globais, a participação do IPTU nas despesas familiares é pro-
gressiva. As famı́lias no quintil mais pobre pagam, em média, cerca de 0,5% de
suas despesas em IPTU, enquanto as famı́lias no quintil mais rico destinam cerca
de 1,8% de suas despesas para o pagamento do imposto. Esse resultado indica
uma progressividade moderada, na qual as famı́lias mais ricas estão contribuindo
com uma parcela maior de suas despesas para o pagamento do imposto.
No entanto, ao se analisar apenas o universo das famı́lias pagantes, a situação
muda. Entre os pagantes, a participação do IPTU nas despesas das famı́lias mais
pobres chega a 4%, enquanto para as famı́lias mais ricas, essa participação cai
para 2,9%. Isso significa que, dentro do grupo de pagantes do IPTU, as famı́lias
de menor renda estão sendo proporcionalmente mais oneradas pelo imposto do
que as de maior renda, configurando uma situação de regressividade.
11
5.3 Proporção de Pagantes do IPTU e Suas Implicações
A progressividade ou regressividade do IPTU depende, em grande parte, da
proporção de famı́lias que pagam o imposto em cada faixa de rendimento. O
gráfico 6 da POF mostra que a proporção de famı́lias que pagam IPTU aumenta
conforme o aumento das despesas familiares. Entre os 10% mais pobres, apenas
10% das famı́lias pagam o imposto, enquanto entre os 10% mais ricos, cerca de
70% das famı́lias são contribuintes.
Esse padrão reflete, em parte, as poĺıticas de isenção adotadas por muitos
munićıpios brasileiros, que isentam do IPTU os imóveis de menorvalor, geral-
mente ocupados por famı́lias de baixa renda. No entanto, esse fator também
está relacionado à informalidade no mercado imobiliário e à dificuldade dos mu-
nićıpios em cadastrar e tributar propriedades de baixa renda, especialmente em
regiões mais pobres do páıs, como o Norte e Nordeste.
A maior abrangência do IPTU entre as famı́lias de maior renda ajuda a ex-
plicar por que, em termos globais, o imposto parece ser progressivo. No entanto,
a baixa participação de pagantes entre as famı́lias de menor renda significa que,
dentro do grupo que efetivamente paga o imposto, a carga tributária é mais alta
para os mais pobres, o que compromete a justiça do sistema tributário.
5.4 Diferenças Regionais na Participação do IPTU nas De-
spesas Familiares
As diferenças regionais também desempenham um papel importante na análise
da progressividade do IPTU em relação ao rendimento das famı́lias. Nas regiões
Norte e Nordeste, a participação do IPTU nas despesas familiares é relativa-
mente progressiva quando se considera o conjunto de todas as famı́lias. Isso
ocorre porque a proporção de pagantes é extremamente baixa nessas regiões
(cerca de 12% das famı́lias), especialmente entre as famı́lias de menor renda.
No entanto, ao se considerar apenas o universo dos pagantes, a situação
muda. A participação do IPTU nas despesas das famı́lias pagantes é relativa-
mente neutra nessas regiões, variando entre 2,5% e 3,5% da despesa familiar.
Isso indica que, embora poucas famı́lias paguem o imposto, aquelas que o fazem,
independentemente de sua renda, destinam uma parcela semelhante de suas de-
spesas para o pagamento do IPTU, o que resulta em uma distribuição neutra
ou levemente regressiva.
Nas regiões Sudeste e Sul, onde a proporção de pagantes é maior, a partic-
ipação do IPTU nas despesas familiares globais é mais alta. No Sudeste, por
exemplo, a participação do IPTU varia de 0,8% entre os 10% mais pobres para
2,1% entre os 10% mais ricos. No entanto, quando se considera apenas os pa-
gantes, a regressividade é clara: as famı́lias mais pobres pagam, em média, 4%
de suas despesas em IPTU, enquanto as famı́lias mais ricas pagam 2,8%.
Esse padrão também é observado na região Centro-Oeste, onde apenas 27%
das famı́lias pagam IPTU. Entre as famı́lias pagantes, as mais pobres destinam
cerca de 3,6% de suas despesas para o pagamento do imposto, enquanto as mais
ricas destinam apenas 1,9%. Esse dado reforça a necessidade de poĺıticas que
12
corrijam as distorções no sistema de arrecadação do IPTU, especialmente em
regiões onde a base de contribuintes é baixa e a regressividade é acentuada.
5.5 Impacto da Poĺıtica de Isenções nas Capitais Estaduais
As poĺıticas de isenção do IPTU, adotadas por muitas capitais estaduais, de-
sempenham um papel importante na progressividade do imposto. Em algumas
capitais, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as isenções são
amplamente aplicadas a imóveis de menor valor, resultando em uma menor par-
ticipação das famı́lias mais pobres no pagamento do imposto. Essas isenções
ajudam a explicar por que, em termos globais, o IPTU parece ser progressivo
nessas cidades.
No entanto, a concessão de isenções também cria distorções. Em muitas capi-
tais, a base de contribuintes é relativamente pequena, com o imposto concentrando-
se nas famı́lias de maior renda. Isso faz com que a carga tributária dos pagantes
seja maior, e, como vimos, dentro do grupo de pagantes, o IPTU tende a ser
regressivo, sobrecarregando as famı́lias de menor renda.
5.6 Implicações para a Justiça Tributária
A análise da progressividade do IPTU no rendimento das famı́lias revela im-
portantes implicações para a justiça tributária no Brasil. Embora o IPTU, em
termos globais, apresente caracteŕısticas progressivas, sua aplicação entre os pa-
gantes é claramente regressiva, especialmente nas regiões mais pobres do páıs.
As famı́lias de menor renda que pagam o imposto destinam uma parcela maior
de suas despesas para o IPTU do que as famı́lias mais ricas, o que compromete
o prinćıpio da equidade tributária.
Além disso, as poĺıticas de isenção, embora importantes para aliviar a carga
sobre os mais pobres, também criam distorções, pois limitam a base de con-
tribuintes e aumentam a carga sobre aqueles que efetivamente pagam o im-
posto. Essas distorções são agravadas pela informalidade e pela falta de atual-
ização das avaliações imobiliárias, que subavaliam os imóveis de maior valor e
sobrecarregam os de menor valor.
Caṕıtulo 6: Contexto e Objetivo
Este caṕıtulo se dedica à análise da situação do IPTU nas principais capitais
estaduais e no Distrito Federal, utilizando os dados da Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF) de 2002-2003. O objetivo central é examinar a discrepância
entre a carga tributária efetiva do IPTU (aĺıquota efetiva) e as aĺıquotas pre-
vistas na legislação de cada munićıpio, tanto no total das famı́lias quanto en-
tre aquelas que efetivamente pagam o imposto. Essa análise busca entender o
quanto as avaliações imobiliárias defasadas e...
13
6.1: Capitais do Norte e Nordeste: Fortaleza, Recife e Sal-
vador
As capitais do Norte e Nordeste, como Fortaleza, Recife e Salvador, apresen-
tam um cenário t́ıpico de baixa arrecadação e baixa cobertura do IPTU. Nessas
cidades, apenas uma pequena parcela dos imóveis está sujeita ao pagamento do
imposto, sendo a maior parte dos domićılios isenta ou não registrada. Em For-
taleza, por exemplo, os dados da POF mostram que apenas 12% dos domićılios
estão cadastrados para pagar o IPTU, o que reflete a dificuldade da adminis-
tração local em alcançar a totalidade dos imóveis, es...
Recife tem um desempenho um pouco melhor em relação às outras capitais
nordestinas, particularmente na tributação dos imóveis de maior valor. No
último quintil de valor dos imóveis, a carga tributária efetiva foi superior à de
outras cidades da região, indicando um esforço de arrecadação mais eficaz entre
os imóveis mais valorizados. No entanto, a tributação dos imóveis de menor
valor continua sendo problemática, tanto pela dificuldade de avaliação quanto
pelas poĺıticas de isenção.
Em Salvador, a situação é semelhante à de Fortaleza, com baixa arrecadação
e cobertura limitada do IPTU. A carga tributária é particularmente baixa nos
quintos intermediários de valor dos imóveis, o que sugere que a administração
municipal enfrenta dificuldades em tributar de forma eficiente imóveis de valor
médio, que muitas vezes não são adequadamente cadastrados.
6.2 Capitais do Sudeste: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte
As capitais do Sudeste apresentam um quadro mais complexo, com altos ńıveis
de urbanização e grandes disparidades na distribuição da carga tributária. São
Paulo, por exemplo, possui uma das maiores arrecadações de IPTU do páıs, mas
a tributação efetiva é regressiva, especialmente entre os imóveis de maior valor.
O dado mais alarmante em São Paulo é que, apesar de a cidade aplicar várias
faixas de aĺıquotas progressivas, a carga tributária efetiva sobre os imóveis mais
caros foi de apenas 0,5%, uma das m...
Rio de Janeiro apresenta uma caracteŕıstica peculiar: a carga tributária está
altamente concentrada nos imóveis de maior valor, especialmente no último
quintil. A cidade tem uma poĺıtica de isenções e descontos bastante ampla,
que isenta uma parte significativa dos imóveis de menor valor, concentrando
a arrecadação nos imóveis mais caros. Isso resultou em uma carga tributária
efetiva de 1,4% no último quintil, um dos valores mais altos entre as capitais
estudadas. No entanto, essa concentração da carga ...
Em Belo Horizonte, o IPTU é a principal fonte de receita tributária da
cidade, superando até o Imposto Sobre Serviços (ISS). A aĺıquota legal de 0,8%
não é particularmente alta, mas a arrecadação per capita é umadas maiores
do páıs. Os dados indicam que a carga tributária efetiva em Belo Horizonte é
superior à aĺıquota legal em todos os quintos de valor de imóvel, o que sugere
que muitos imóveis estão sendo superavaliados para fins de tributação. Isso
14
pode refletir uma tentativa da administração local ...
6.3 Capitais do Sul: Porto Alegre e Curitiba
Nas capitais do Sul, a arrecadação do IPTU é relativamente eficiente, com maior
abrangência de pagantes e melhor distribuição da carga tributária. Em Cu-
ritiba, por exemplo, o sistema de aĺıquotas progressivas está bem estabelecido,
e a cidade tem um número de pagantes maior do que em outras capitais. No
entanto, o estudo revela que, apesar do sistema progressivo de aĺıquotas, há
regressividade na carga tributária a partir do último pentil de valor de imóveis,
o que indica que os imóveis mais caros não es...
Porto Alegre apresenta um cenário semelhante, com uma boa distribuição
da carga tributária entre os quintos de valor de imóveis. No entanto, a cidade
enfrenta desafios semelhantes aos de Curitiba, com regressividade no último
pentil. Isso sugere que, embora a administração municipal tenha maior controle
sobre o cadastro e a avaliação dos imóveis, ainda há uma subavaliação dos
imóveis de maior valor, resultando em uma carga tributária menor do que seria
ideal.
6.4 Capitais do Centro-Oeste: Braśılia e Goiânia
Nas capitais do Centro-Oeste, Braśılia e Goiânia, o número de domićılios pa-
gantes de IPTU é relativamente baixo, apesar do alto potencial arrecadatório.
Em Braśılia, por exemplo, apenas 27% dos imóveis estão cadastrados para o
pagamento do imposto, o que reflete a grande quantidade de imóveis isentos ou
irregulares, especialmente nas áreas periféricas e informais. No entanto, a carga
tributária efetiva sobre os imóveis que pagam IPTU é superior à aĺıquota legal
de 0,3%, o que indica que os imóveis cada...
Goiânia apresenta uma situação semelhante, com uma boa cobertura do
IPTU entre os imóveis cadastrados, mas uma aĺıquota efetiva relativamente
baixa, principalmente devido às avaliações imobiliárias defasadas. A cidade
também possui um sistema de aĺıquotas progressivas, mas, como em outras
capitais, os imóveis de maior valor tendem a ser subavaliados, o que compromete
a progressividade do imposto.
65 Capitais do Norte: Manaus e Belém
Nas capitais da região Norte, Manaus e Belém, a arrecadação do IPTU é ex-
tremamente baixa, com uma cobertura muito limitada do imposto. Em Man-
aus, apenas 3,3% dos imóveis residenciais pagam IPTU, o que reflete a grande
quantidade de imóveis não cadastrados ou isentos. A cidade também adota
uma poĺıtica de isenção para contribuintes com renda inferior a três salários
mı́nimos, o que reduz ainda mais a base de pagantes e torna o imposto ineficaz
como ferramenta de arrecadação.
Em Belém, a situação é um pouco melhor, com 15,3% dos imóveis cadastra-
dos para o pagamento do imposto. No entanto, a tributação está concentrada
15
nos imóveis mais valiosos, com pouca arrecadação entre os imóveis de menor
valor. Isso reflete um problema comum em muitas cidades brasileiras: a difi-
culdade em avaliar adequadamente os imóveis de menor valor e integrar esses
imóveis no sistema de arrecadação do IPTU.
6.6 Impacto das Avaliações Imobiliárias Defasadas e da
Poĺıtica de Isenções
Um dos principais problemas identificados neste caṕıtulo é a defasagem nas
avaliações imobiliárias, que compromete a progressividade do IPTU em muitas
capitais brasileiras. Em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, as
avaliações desatualizadas fazem com que os imóveis de maior valor sejam sub-
tributados, resultando em uma carga tributária efetiva menor do que a aĺıquota
legal. Essa defasagem também afeta a aplicação de sistemas de aĺıquotas pro-
gressivas, pois, se os imóveis são subavaliados, a...
Outro fator importante é a poĺıtica de isenções, que, embora tenha o objetivo
de aliviar a carga tributária sobre os mais pobres, muitas vezes resulta em
distorções. Em algumas capitais, como Rio de Janeiro e Salvador, a concessão
de isenções é tão ampla que acaba concentrando a arrecadação do IPTU nos
imóveis mais valiosos, criando uma base de contribuintes limitada e gerando
iniquidades no sistema tributário.
6.7 Conclusões e Recomendações
A análise das capitais estaduais revela que a progressividade do IPTU é com-
prometida por dois fatores principais: a defasagem nas avaliações imobiliárias
e a concessão excessiva de isenções. Embora algumas capitais tenham sistemas
progressivos de aĺıquotas e uma base de contribuintes relativamente ampla, o
IPTU continua sendo um imposto regressivo em muitas cidades brasileiras, es-
pecialmente entre os pagantes.
Para melhorar a progressividade do IPTU, é fundamental que as adminis-
trações municipais atualizem regularmente as avaliações imobiliárias, garantindo
que os imóveis de maior valor sejam tributados de forma adequada.
Caṕıtulo 7: Conclusão
7.1 Śıntese dos Principais Achados
Ao longo do estudo sobre os Aspectos Distributivos do IPTU e do Patrimônio
Imobiliário das Famı́lias Brasileiras, ficou claro que o Imposto Predial e Ter-
ritorial Urbano (IPTU) desempenha um papel central nas finanças públicas
municipais e na tributação do patrimônio no Brasil. Entretanto, a aplicação
do IPTU enfrenta diversos desafios que comprometem sua progressividade e
equidade, tornando-o, em muitos casos, um imposto regressivo, especialmente
entre os contribuintes de menor renda.
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Os principais achados do estudo podem ser resumidos em três pontos cen-
trais:
1. Regressividade do IPTU entre os Pagantes: A análise dos dados da
Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003 revelou que, enquanto
a carga tributária global do IPTU aparenta ser progressiva, a situação entre
os pagantes do imposto é inversa. As famı́lias de menor renda, que possuem
imóveis de menor valor, acabam pagando proporcionalmente mais IPTU do que
as famı́lias de maior renda. Isso acontece devido à defasagem nas avaliações
imobiliárias e à subtributação de imóveis de maior valor, o que impede que o
IPTU cumpra seu papel de redistribuir a riqueza.
2. Distorções nas Avaliações Imobiliárias: As avaliações imobiliárias
no Brasil estão, em grande parte, defasadas em relação ao valor real de mercado
dos imóveis, especialmente nas grandes capitais. Isso resulta em uma carga
tributária desigual, na qual os imóveis de maior valor são subtributados. A
falta de atualização dos valores venais impede a aplicação correta das aĺıquotas
progressivas, prejudicando a arrecadação e criando iniquidades no sistema de
tributação imobiliária.
3. Poĺıtica de Isenções e Baixa Cobertura do IPTU: Outro problema
identificado foi a ampla poĺıtica de isenções adotada por muitos munićıpios,
que afeta a progressividade do imposto. Embora as isenções sejam justificadas
para aliviar a carga tributária das famı́lias mais pobres, sua aplicação excessiva
resulta em uma base de contribuintes reduzida, concentrando a arrecadação nos
imóveis de maior valor e aumentando a carga tributária sobre as famı́lias de
menor renda que pagam o imposto.
7.2 Impactos Regionais e Desigualdades
As desigualdades regionais no Brasil também têm impacto direto na progressivi-
dade do IPTU. As regiões Norte e Nordeste apresentam uma baixa proporção
de pagantes do imposto, com muitas famı́lias vivendo em imóveis isentos ou não
cadastrados. Nessas regiões, a tributação acaba sendo altamente regressiva entre
os pagantes, uma vez que as famı́lias de menor renda pagam proporcionalmente
mais imposto em relação ao valor de seus imóveis.
Nas regiões Sudeste e Sul, a situação é um pouco mais equilibrada em
termos de cobertura do IPTU, mas a progressividade do imposto também é
comprometida pelas avaliações defasadas e pela poĺıticade isenções. Mesmo
nas capitais mais ricas, como São Paulo, a regressividade do IPTU é evidente
entre os pagantes, com imóveis de maior valor sendo subtributados devido às
avaliações desatualizadas.
Essa análise regional reforça a necessidade de poĺıticas diferenciadas para
cada região, levando em conta as peculiaridades locais e os diferentes ńıveis de
desenvolvimento urbano e capacidade de arrecadação. No entanto, os problemas
estruturais na administração do IPTU são comuns em todo o Brasil, exigindo
reformas amplas no sistema de tributação imobiliária.
17
7.3 Propostas para Reformas no Sistema de Tributação
Imobiliária
Diante dos problemas identificados, o estudo sugere algumas diretrizes para
reformar o sistema de tributação imobiliária no Brasil, com o objetivo de tornar
o IPTU um imposto mais justo e progressivo:
1. Atualização das Avaliações Imobiliárias: Uma das medidas mais
urgentes é a atualização dos valores venais dos imóveis para refletir com mais
precisão o valor de mercado. Isso garantiria que os imóveis de maior valor
sejam tributados de acordo com sua capacidade contributiva, aumentando a
arrecadação de forma mais equitativa e corrigindo a subtributação atualmente
existente.
2. Revisão das Poĺıticas de Isenção: Embora as isenções sejam necessárias
para proteger as famı́lias de baixa renda, elas devem ser revisadas para evitar dis-
torções no sistema tributário. Uma poĺıtica de isenções mais equilibrada poderia
expandir a base de contribuintes sem sobrecarregar as famı́lias de menor renda
que já pagam o IPTU.
3. Fortalecimento da Administração Tributária Municipal: Muitos
munićıpios brasileiros enfrentam dificuldades administrativas para manter cadas-
tros imobiliários atualizados e para fiscalizar a aplicação correta do IPTU. In-
vestimentos na capacitação das administrações municipais e na modernização
dos sistemas de gestão tributária são essenciais para melhorar a eficiência na
arrecadação e garantir uma aplicação mais justa do imposto.
4. Progressividade Real do IPTU: A implementação de aĺıquotas pro-
gressivas de forma efetiva deve ser uma prioridade para os munićıpios brasileiros.
A progressividade real depende da capacidade das administrações de aplicar
aĺıquotas mais altas aos imóveis de maior valor, o que só será posśıvel com
avaliações precisas e atualizadas. Além disso, deve-se considerar a inclusão de
mecanismos que garantam a tributação dos imóveis de maior valor, como um
controle mais rigoroso sobre o cumprimento da função social da propriedade.
7.4 O Papel do IPTU na Redistribuição de Renda e Patrimônio
O IPTU tem potencial para ser uma ferramenta importante de redistribuição
de renda e patrimônio no Brasil. Sendo um imposto direto, sua base de cálculo
– o valor do imóvel – está diretamente relacionada à capacidade econômica do
contribuinte. Se aplicado de maneira justa e progressiva, o IPTU pode contribuir
para a redução das desigualdades socioeconômicas no páıs, especialmente em
um contexto de grande concentração de riqueza imobiliária nas mãos de uma
pequena parcela da população.
Os dados analisados no estudo mostram que os 10% mais ricos concentram
cerca de 46,4% do patrimônio imobiliário residencial no Brasil. Isso indica que
há uma oportunidade clara para que o IPTU, se reformado adequadamente,
funcione como um imposto progressivo, cobrando mais daqueles que possuem
mais. No entanto, as distorções atuais no sistema tributário impedem que o
imposto cumpra plenamente esse papel.
18
A reforma do IPTU, portanto, deve ser vista não apenas como uma medida
técnica ou fiscal, mas como uma ação de justiça social, capaz de melhorar a
distribuição de riqueza no Brasil e reduzir as desigualdades que historicamente
marcam a estrutura socioeconômica do páıs.
7.5 Considerações Finais
Em conclusão, o estudo mostra que o IPTU, embora tenha potencial para ser
um imposto progressivo e redistributivo, atualmente enfrenta sérios desafios que
comprometem sua eficácia. As avaliações imobiliárias defasadas, a concessão de
isenções indiscriminadas e a baixa cobertura do imposto em muitas regiões são
os principais obstáculos para a progressividade do IPTU.
As propostas de reforma do IPTU devem focar na modernização das avaliações,
na revisão das poĺıticas de isenção e no fortalecimento da administração tributária
municipal. Essas reformas são necessárias para que o IPTU possa cumprir seu
papel constitucional de promover a justiça fiscal e a função social da propriedade,
contribuindo para a redução das desigualdades de renda e patrimônio no Brasil.
O IPTU pode, de fato, ser uma ferramenta poderosa na promoção da justiça
social, mas para isso, é imperativo que o sistema de tributação imobiliária seja
reformado com base nos prinćıpios da equidade, da eficiência e da capacidade
contributiva.
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