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1 INTRODUÇÃO À MORFOLOGIA O trecho a seguir foi retirado da Oração ao Cadáver Desconhecido, de Carl Rokitansky, e é direcionado aos estudantes de anatomia humana. Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra‑te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o agasalhou. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens. Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram. Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome, só Deus sabe. Mas o destino inexorável deu‑lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade. A humanidade que por ele passou indiferente (CAPELLI, 2016, p. 4). A história da anatomia humana é análoga à da medicina. De fato, a preocupação com a estrutura do corpo humano foi estimulada pelo anseio dos profissionais da área de saúde em esclarecer uma disfunção orgânica do corpo. Em contrapartida, diversas religiões reprimiram o estudo da anatomia por meio das restrições atribuídas à dissecação humana e das evidências nas explanações não científicas para as doenças e fraquezas. Durante séculos, o interesse inato dos indivíduos em seus próprios corpos e capacidades físicas se deparou com diversas maneiras de demonstração. Os gregos, por exemplo, estimulavam as provas atléticas e apregoavam a perfeição do corpo em suas esculturas, conforme ilustra a figura a seguir. Figura 1 – Discóbolo, de Mirón ANATOMIA HUMANA Do escultor grego Mirón, produzida em torno de 455 a.C., a obra da figura anterior representa um atleta momentos antes de lançar um disco. Os gregos antigos já tinham o conhecimento do nu artístico e apreciavam a boa forma física, logo davam destaque ao retratar a musculatura dos corpos, principalmente o corpo masculino16 Posteriormente, muitos dos grandes mestres do Renascimento costumavam retratar na arte figuras humanas. Alguns destes artistas eram magníficos anatomistas, pois a apreensão deles com as minúcias pedia que o fossem. Michelangelo foi um desses artistas que captou o luxo da forma humana em esculturas como David, conforme ilustra a figura a seguir, e em pinturas como as da Capela Sistina. O estudo da história da anatomia nos auxilia a contemplar a ciência que se tornou tão importante atualmente. Figura 2 – David, de Michelangelo 1.1 Período pré‑científico É possível que um tipo de anatomia comparada prática seja a ciência mais antiga. Os primórdios do conhecimento anatômico mediante elementos e inscrições datam da pré‑história, então, é possível deduzir que já nesse período haviam algumas informações anatômicas circulando. Essas informações foram eternizadas ao longo da história como, por exemplo, por meio de desenhos que representam partes da anatomia humana encontrados nas montanhas de Tassili n’Ajjer, no Saara argelino, datadas de aproximadamente 3000 a.C., conforme ilustra a figura a seguir. Unidade I 17 Figura 3 – Pinturas rupestres 1.2 Período científico O período científico se iniciou com os registros de observações anatômicas feitas na antiga Mesopotâmia em cerca de 3000 a.C., em blocos de argila, por meio da escrita cuneiforme, e continua até hoje. Obviamente, todas as colaborações do passado para a ciência da anatomia não podem ser especificadas, contudo, certos indivíduos e culturas tiveram grande impacto, que serão comentados brevemente nesta unidade. 1.2.1 Mesopotâmia e Egito Na Mesopotâmia, o olho era a parte constituinte do corpo humano que se expressava para o mundo, sendo tal fato destacado nas pinturas. Em contrapartida, o tronco permanecia na posição frontal, enquanto a cabeça, as pernas e os pés encontravam‑se de perfil. As esculturas produzidas não incluíam muitos detalhes anatômicos, entretanto, demonstravam um corpo sólido. Já no Antigo Egito o progresso das técnicas de embalsamamento obrigou e motivou o estudo da anatomia humana. Apesar de suas carências, os médicos egípcios julgavam que o coração era o centro motor do corpo humano, pois descreviam que o coração falava, batia e pulsava. Começo do segredo do médico: conhecimento da anatomia do coração. Há neles vasos (indo) a todos os membros. Quando qualquer médico da deusa Sekhmet [...], ou qualquer mágico coloca seus dedos na testa, na nuca, ou nas mãos ou sobre o próprio coração, ou sobre os 2 braços, ou sobre as 2 pernas, ou em qualquer parte do corpo humano, sente qualquer vestígio do coração, porque os vasos deste vão a todos os territórios do corpo humano (PAULA, 1962, p. 37). ANATOMIA HUMANA Os grandes discípulos dos egípcios seriam os gregos, que se saciaram nos conhecimentos daqueles que habitavam as regiões do Nilo desde Hipócrates até Galeno. Unidade I 1.2.2 Grécia Antiga Figura 4 – Deusa Sekhmet 18 Para os gregos o conhecer – o espetáculo, a inteligência – tem prioridade sobre o operar – a ação, o prático. A propriedade básica do pensamento grego está no dualismo das relações entre a realidade empírica e um absoluto que a esclareça, na separação entre Deus e o mundo. O resultado desse dualismo é o irracionalismo, que produz sustentação à serena compreensão grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos depende de Deus, porém, nunca se pode chegar até Ele, porque dele não deriva. Deus é o absoluto racional, todavia, ele não cuida do mundo e da humanidade, a qual não criou, não distingue e nem governa. Para os gregos, ela era governada pelo acaso, isto é, pela necessidade irracional. Essa concepção de mundo era, assim, marcada pelo pessimismo desesperado, razão pela qual foi considerado como período trágico. Aristóteles, conforme ilustra a figura a seguir, ao longo da vida escreveu mais de mil obras. Alguns de seus trabalhos mais relevantes são: História dos Animais, Das Partes dos Animais e A Geração dos Animais. Nesses trabalhos desenvolveu teorias coesas sobre a geração e a hereditariedade e sugeriu a anatomia comparada, embora nunca tivesse dissecado um corpo humano. 19 Figura 5 – Escola de Atenas, de Rafael. O ponto central de fuga fica entre Platão e Aristóteles Conforme mencionados anteriormente, Aristóteles dá belas descrições de alguns órgãos sob o ponto de vista da anatomia comparada. Tais descrições foram fortuitamente ilustradas com desenhos, que são as primeiras figuras anatômicas de que se tem conhecimento. Dentre seus erros anatômicos merece destaque a sua rejeição em dar grande relevância ao cérebro. A superioridade, segundo ele, reside no coração, sede também da inteligência, conceito contrário ao da maioria dos médicos escritores de seu período. Não é de todo incerto que Aristóteles tenha efetuado experimentos sobre o cérebro e observado tal falta de sensibilidade. Assim, considerou‑o simplesmente um meio para resfriar o coração e impedir seu superaquecimento. Segundo ele, esse processo de resfriamento era motivado pela secreção da fleuma. Aristóteles era, via de regra, muito mais fraco em fisiologia do que em anatomia. Portanto, não sabia as diferenças entre artérias e veias, e cria que as artérias contivessem ar, além de sangue. Por mais de 2 mil anos, a filosofia aristotélica, de forma mais ou menos modificada, estabeleceu a principal referência intelectual da humanidade. Segundo Galeno, foi Alcmeão de Crotona, conforme ilustra a figura a seguir, quem escreveu a primeira obra de anatomia. Ele dissecou a trompas auditivas, os nervos ópticos e o olho, o qual propunha ser feito de água (oriunda do cérebro e encontrada facilmente ao dissecá‑lo) e fogo (notado quando o olho é ferido). Assim, sugeriu uma teoria da visão, segundo a qual existiria no olho um fogo interno. Figura 6 – Busto de Alcmeão datado do séc. XIX ANATOMIA HUMANA 20 Saiba mais Vários anatomistas imortalizaram seus nomes criando uma série de epônimos, ou seja, diversas estruturas anatômicas receberam denominações em homenagem aos primeiros anatomistas que as descreveram. Por exemplo, o polígono de Willise a trompa de Eustáquio, as glândulas de Bartholin, o fundo de saco de Douglas e as trompas de Falópio, essas últimas sendo as seguintes estruturas anatômicas: as glândulas vestibulares, a escavação retouterina e as tubas uterinas. Para saber mais sobre o assunto: BEZERRA, A. J. C.; BEZERRA, R. F. A. Epônimos de uso corrente em anatomia humana: um glossário para educadores físicos. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 8, n. 3, 2000. Disponível em: . Acesso em: 9 maio 2019. Alcmaéon considerava o cérebro a sede das sensações e o centro da vida intelectual, informações essas que mais tarde foram resgatadas na medicina. Todos os órgãos dos sentidos estariam ligados ao cérebro – o centro da memória e centro do saber. Acreditava‑se também que era no cérebro que o espermatozoide se originava, a partir dos 14 anos de idade. Hipócrates, conforme ilustra a figura a seguir, é considerado o pai da medicina ocidental, entretanto, na área da anatomia nada alcançou de importante, mas foi provavelmente o precursor do estudo da anatomia constitucional. O médico acreditava que o encéfalo não só estava compreendido nas sensações, mas seria a sede da inteligência. Ele foi o primeiro a estabelecer uma relação entre o cérebro e a doença sagrada, a epilepsia. Figura 7 – Escultura facial de Hipócrates Unidade I Embora Hipócrates supostamente tivesse só restrita a orientação em dissecações humanas, ele foi bem conduzido na afamada teoria humoral de organização do corpo. Por meio dessa teoria eram identificados quatro humores no corpo e cada um deles era agregado a um órgão em especial: sangue com o fígado; cólera, ou bile amarela, com a vesícula biliar; fleuma com os pulmões; e melancolia, ou bile preta, com o baço. Acreditava‑se que um indivíduo teria o equilíbrio dos quatro humores conforme ilustra a figura a seguir.21 Vale notar que os quatro humores ainda hoje fazem parte da linguagem e da clínica médica. Melancolia é um termo utilizado para descrever depressão ou desânimo de um indivíduo, enquanto “melano”, que significa preto, alude a um semblante obscuro ou pálido. Cólera é uma patologia intestinal que causa diarreia e vômito. Fleuma, no interior do sistema respiratório, é sinal de diversas doenças pulmonares. Cabeça Pulmão Alma Sangue VD SIV VE Fígado Bíle amarela Baço Membros inferiores Figura 8 – Esquema do sistema cardiovascular de acordo com os gregos antigos Na figura anterior há a presença de dois vasos paralelos oriundos do fígado e do baço, interligados ao coração, no tórax, aos membros inferiores e à cabeça. No coração, há um poro no septo interventricular conectando o VD (ventrículo esquerdo) e o VE (ventrículo direito), dois vasos conectados ao VD e um vaso conectado ao VE vindo dos pulmões. O VD é maior do que o esquerdo, ao passo que o VE é mais espesso do que o direito. O VD contém sangue, ao passo que o VE é preenchido com ar e bile amarela, de acordo com o Corpus Hippocraticum. ANATOMIA HUMANA Quando Atenas perdeu sua liberdade, o centro científico passou para Alexandria, no Egito, onde pela primeira vez a anatomia tornou‑se uma disciplina. Os dois primeiros e maiores professores dela foram Herófilo e Erasístrato, que iniciaram o chamado período alexandrino da anatomia.22 Herófilo, conforme ilustra a figura a seguir, é visto como o “açougueiro de homens”, pois realizava vivissecção em criminosos da prisão real. Acredita‑se que ele tenha dissecado vários seres humanos, muitas vezes em demonstrações públicas – “sem dúvida, o melhor método para aprender”, escreveu Celsius, aprovando (TERÇARIOL, 2018, p.18). Foi ele também que fez a primeira distinção clara entre as artérias e as veias e ampliou os estudos sobre a pulsação, que considerava um processo ativo das próprias artérias. Foi Herófilo definitivamente que reconheceu o cérebro como o órgão central do sistema nervoso e a sede da inteligência. O médico dividiu os nervos em motores e sensitivos e descreveu as meninges. Ampliou, ainda, o conhecimento sobre outras partes do cérebro, distinguindo o cérebro, o cerebelo e o quarto ventrículo. Os termos próstata e duodeno são derivados dos que foram usos por ele. Ele fez também a primeira descrição dos vasos quilíferos do intestino. Lembrete A vivissecção é a dissecação ou operação cirúrgica em animais vivos para estudo de alguns fenômenos anatômicos e fisiológicos. Figura 9 – Herófilo, em A Primeira Dissecação, na entrada principal da Nouvelle Faculté de Médecine de Paris Nouvelle Faculté de Médecine de Paris Erasístrato, conforme ilustra a figura a seguir, atentava‑se mais pelas funções do corpo humano do que pela estrutura, e comumente é chamado de pai da fisiologia. O anatomista aperfeiçoou os dados sobre o cérebro e o cerebelo, considerando tais órgãos como a sede da alma. Dentre suas diversas descrições determinou a substância cerebral, e não a dura‑máter, como sendo a origem dos nervos cranianos. Além disso, estabeleceu o cérebro e o cerebelo como órgãos parenquimatosos e descreveu os ventrículos encefálicos. Juntamente com Herófilo, determinou que o número de giros está relacionado image3.jpeg image4.png image5.jpeg image6.png image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.png image13.png image14.png image15.png image16.png image17.png image18.png image19.png image20.png image21.png image1.jpeg image2.jpeg