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ANDRESSA MARIA FREIRE DA ROCHA ARANA FERNANDA SANSÃO RAMOS LUCIANA FERREIRA FURTADO DE MENDONÇA 1ª Edição Brasília/DF - 2024 Capítulo 2 A Gestão da Escola Básica e o Princípio da Autonomia Administrativa, Financeira e Pedagógica Gestão Educacional: Orientação Educacional e Pedagógica Autoria Andressa Maria Freire da Rocha Arana Fernanda Sansão Ramos Luciana Ferreira Furtado de Mendonça Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração 3 Introdução Figura 18. Ilustração sobre a importância de diferenciar Equidade de Igualdade para a redução das desigualdades sociais e para a gestão democrática das escolas brasileiras. Fonte: https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/o-que-e-equidade/. No ano de 2022, a cidade de Sobral, interior do Ceará, se destacou por alcançar o 1º. Lugar do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), nos anos iniciais do ensino fundamental. Mesmo como todos os desafios impostos pela Pandemia COVID-19, o sucesso das estratégias adotadas e os resultados das aprendizagens, o que foi identificado como fator “chave” para essa conquista, tão desejada por todos (a) brasileiros (a), foi a gestão escolar. Uma das lições aprendidas com a experiência de Sobral é que fortalecer a gestão e a liderança escolar deve ser uma prática, uma política educacional, constante e integrada com outras estratégias. A construção dessa “nova cultura”, iniciada no ano de 1997, tem promovido bons ganhos para toda a comunidade educacional. Equidade não é igualdade. Igualdade é você querer a mesma coisa para todo mundo. Equidade é oferecer às pessoas aquilo que elas precisam, na medida das suas necessidades, para que possam usufruir dos mesmos direitos (Oliveira, p.01, 2022) 2 CAPÍTULO A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA 4 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA A escola é construída e formada por cada integrante da sua comunidade, sendo a equipe gestora da unidade de ensino, responsável pelas formas e meios de relacionamentos que se estabelecerão neste espaço. Portanto, ela não pode ser pensada somente como um espaço físico ou, exclusivamente, nos indivíduos que a compõem, pois é “tecida por uma rede de significados que se encarrega de criar os elos que ligam passado e presente, instituído e instituinte, que estabelece as bases de um processo de construção e reconstrução permanentes” (Ferreira, 2009, p. 25). A organização escolar é definida como “unidade social que reúne pessoas que reagem entre si, intencionalmente, operando por meio de estruturas e de processos organizativos próprios, a fim de alcançar objetivos educacionais” (Libâneo; Oliveira; Toschi, 2012, p. 316). A escola tem como objetivo primordial: o desenvolvimento das potencialidades físicas, cognitivas e afetivas dos alunos, por meio da aprendizagem dos conteúdos (conhecimentos, habilidades, procedimentos, atitudes, valores), para se tornarem cidadãos participativos na sociedade em que vivem (ibid., p. 300). O ensino e a aprendizagem do aluno é o objetivo principal, sendo que esta tarefa recai na atividade docente. A organização escolar necessária é aquela que favorece o trabalho dos professores, existindo interdependência entre os objetivos, as funções da escola e a organização e gestão do trabalho escolar. A partir dessa perspectiva que integra e destaca a complexidade das relações presentes no ambiente escolar, o (a) pedagogo (a) na posição de gestor (a) escolar, possui uma atuação especial que alia, entrelaça, as diretrizes pedagógicas- administrativas- financeiras às determinações e às orientações apresentadas nas inúmeras normativas legais do nosso país. Os princípios da autonomia administrativa, financeira e pedagógica, tão caros a cada docente, têm sido uma constante luta e uma prática constante de redemocratização no Brasil. A oportunidade de administrar financeiramente os recursos enviados, com responsabilidade e transparência, possibilita a comunidade escolar a realização de escolhas adequadas aos valores e aos princípios coletivos. Por exemplo, se em determinada a infraestrutura física não favorece o deslocamento das pessoas, não possui rampas, pisos táteis e banheiros adaptados, é possível o uso da verba destinada a essa finalidade para essas questões consideradas emergentes pela coletividade. A gestão democrática, para e na escola pública, é a oportunidade de implementar a “escola feita pelo povo e para o povo” como já disse Florestan Fernandes (apud Gadotti, 1990, p. 160), sendo um exercício da própria cidadania ativa, possibilitando a interação com a população que pode opinar e decidir. Portanto, nesse capítulo os seguintes objetivos compõem o nosso estudo: 5 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 Objetivos » Reconhecer a estrutura organizacional de uma unidade de ensino, identificando os papeis dos profissionais que compõem a equipe pedagógica, visando uma gestão participativa; » Identificar as características de um bom clima e cultura escolares, reconhecendo-as como fatores determinantes para o sucesso e a saúde da gestão escolar; » Compreender as competências necessárias ao pedagogo (a) para a sua atuação como gestor (a) escolar. 2.1 A estrutura organizacional de uma escola: a escolha do Diretor da escola e a constituição das equipes pedagógicas para uma gestão participativa Para Gadotti (1990, p. 04) “o termo estrutura tem aqui o sentido de ordenamento e disposição das funções que asseguram o funcionamento de um todo, no caso a escola.” Normalmente, é apresentada e representada graficamente num organograma com a finalidade de facilitar a compreensão das interrelações entre os diferentes. Figura 19. Organograma Básico de uma escola. * Setor Técnico Administrativo * Secretaria Escolar * Serviços de zeladoria, limpeza e vigilância * Multimeios (biblioteca, laboratório, videoteca, entre outros). Conselho de Escola Direção Assistente de Direção Coordenação Supervisão/Orientação Educacional e Pedagógica Professores/Estudantes Família e Comunidade Fonte: Adaptado de Libâneo, 2013, p. 05. Cada unidade de ensino pode reconfigurar o seu “organograma”, inserindo e adicionando novos setores e funções, de acordo com o que está previsto no projeto pedagógico da escola. Em nosso estudo, nos concentraremos nas pesquisas e orientações do professor Libâneo (2013), portanto, vamos descrever o a : 6 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA » Conselho de escola – possui atribuições consultivas, deliberativas e fiscais embasadas nas legislações vigentes e, também, no Regimento Escolar. As questões discutidas pelo “Conselho de Escola” podem envolver os aspectos pedagógicos, os administrativos e os financeiros. Também pode ser chamado de “colegiado”, tendo como finalidade democratizar as relações de poder. Sua composição e outras características dependerão da legislação municipal/estadual em que a unidade de ensino está inserida; » Direção – profissional responsável por gerir, organizar e coordenar as ações escolares, apoiado por cada integrante da comunidade escolar, especialmente, a equipe pedagógica. Deve zelar pelo cumprimento das legislações vigentes e regimento escolar; » Setor Técnico Administrativo – têm como atribuição garantir o atendimento e o funcionamento da escola para toda a comunidade. Pode ser composto pela secretaria escolar (documentação, escrituração, comunicação e interação com todo o público); zeladoria (responsável pelos serventes, manutenção, conservação e limpeza da infraestrutura física, cozinha e merenda escolar, entre outros); vigilância (acompanhamento dos estudantes no espaço físico da escola, orientando as normas disciplinares) e multimeios (biblioteca, laboratório, equipamentosaudiovisuais, videoteca e outros recursos didáticos); » Setor pedagógico – é o responsável pelas atividades referentes à coordenação pedagógica e a orientação educacional. O papel desempenhado por cada função é estabelecido conforme as legislações locais, municipal e estadual, podemos encontrar um profissional “acumulando” as atribuições (por exemplo, coordenador pedagógico desempenhando diferentes ações especializadas que, em outros espaços, são exercidas pelo supervisor, orientador, entre outros). Mesmo com a unificação das funções, uma recomendação generalizada, é que os profissionais desses cargos sejam graduados em Pedagogia, considerando a formação para essa finalidade. Assim, considerando as características de cada região, o setor pedagógico pode ser formado por: coordenação pedagógica; orientação educacional e pedagógica; supervisão escolar, conselho de classe ou série; » Corpo Docente – é formado por cada professor integrante da unidade de ensino, tendo como função a mediação das disciplinas, a participação na elaboração do projeto pedagógico, na realização e implementação das ações educativas propostas pela comunidade, a participação nos Conselhos de Escola/Classe/Série, atendimento aos pais, entre outras atividades de cunho pedagógico- administrativo; 7 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 » Instituições auxiliares – não está presente em todas as escolas, no entanto, possui um papel muito importante, especialmente, na gestão democrática e participativa, sendo formado pela Associação de Pais e Mestres (APM), o Grêmio Estudantil (entidade representativa dos alunos criada pela lei n. 7398/85) e a Caixa Escolar (setor de assistência social, econômica, familiar, alimentar, médica, odontológica e financeira ao estudante). A presença e o papel de cada instituição descrita, nesse tópico, devem estar previstos e discriminados no Regimentos Escolar e Projeto Pedagógico. Para Libâneo (2012) uma educação básica de qualidade deve ter como premissa a preparação para o mundo do trabalho, a formação para a cidadania crítica e a participação social, uma formação ética e emancipadora, propiciando que desde a tenra infância, cada indivíduo, possa adquirir as competências e as habilidades necessárias para o enfrentamento das exigências, necessidades, da sociedade contemporânea. Todas as pessoas que trabalham na escola participam de tarefas educativas, embora não de forma igual. Existem diversas maneiras pelas quais se pode observar as práticas educativas dentro da escola dentre alguns exemplos (Libâneo, 2013): Figura 20. Pontos a serem observados nas práticas educativas escolares que podem nos ajudar que podem nos ajudar a perceber se há uma gestão democrática. O estilo de gestão expressa o tipo de objetivos e de relações humanas que vigoram na instituição A escola pode ser organizada para funcionar cada um por si, estimulando o isolamento, a solidão e a falta de comunicação ou pode estimular o trabalho coletivo, solidário, negociado, compartilhado. O funcionamento da escola como organização, as relações humanas que vigoram nela, as decisões dos professores no cotidiano entre professores, alunos e funcionários, os valores e atitudes que os professores expressam como grupo, tudo isso afeta o trabalho na sala de aula. A percepção e as atitudes da direção e dos professores em relação aos alunos são importantes fatores de sucesso e insucesso escolar dos alunos. O comportamento dos alunos, suas atitudes, seus modos de agir dependem, em boa parte, daquilo que presenciam e vivenciam no dia a dia da escola. Fonte: Libâneo, 2013. As características organizacionais das escolas – tais como o estilo de direção, o grau de responsabilidades e nível de satisfação de seus profissionais, a liderança organizacional compartilhada, a participação coletiva, o currículo, a estabilidade profissional, o nível de preparo profissional dos professores etc. – são determinantes da sua eficácia e do aproveitamento escolar dos alunos. 8 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA Atualmente, pensa-se que uma visão globalizada que não chega à escola ou uma visão de sala de aula sem referência à estrutura social mais ampla resultam de análises incompletas e parcializadas. É assim que as escolas, enquanto organizações educativas, ganham dimensão própria, como um lugar em que também se tomam importantes decisões educativas, curriculares e pedagógicas (Nóvoa, 1999). Há pelo menos duas maneiras de ver a gestão centrada na escola. Conforme o ideário neoliberal, colocar a escola como centro das políticas significa liberar boa parte das responsabilidades do Estado, dentro da lógica do mercado, deixando às comunidades e às escolas a iniciativa de planejar, organizar e avaliar os serviços educacionais. Na perspectiva sociocrítica significa valorizar as ações concretas dos profissionais na escola, decorrentes de sua iniciativa, de seus interesses, de suas interações (autonomia e participação) em função do interesse público dos serviços educacionais prestados sem, com isso, desobrigar o estado de suas responsabilidades (Libâneo, 2013). Nessa segunda perspectiva, a escola é vista como um ambiente educativo, como espaço de formação, construído pelos seus componentes, um lugar em que os profissionais podem decidir sobre seu trabalho e aprender mais sobre sua profissão. As inquietações partilhadas pelo pesquisador reforçam a necessidade de formarmos pedagogos e pedagogas para vários campos educacionais, principalmente, para a realidade escolar brasileira. Nos aponta como avanço o reconhecimento do papel do (a) pedagogo (a) na gestão escolar e nos deixa uma instigante e incentivadora recomendação: Ser professor, ser professora é um privilégio. É cuidar da humanização e da dignidade das pessoas. Vamos lutar por melhores salários, melhores condições de trabalho, bibliotecas, prédios mais bonitos e mais adequados. Mas, juntamente com isso, vamos assumir nossa missão pedagógica, vamos investir no nosso ambiente de trabalho, vamos transformar nossas escolas em espaços de aprendizagem, de formação continuada, aprendendo, dentro da escola, as novas exigências da nossa profissão (Libâneo, 2013, p. 25). O sistema de organização e gestão da escola possui elementos constitutivos que apoiam e promovem o desenvolvimento dos objetivos escolares, sendo reconhecidos como instrumentos de ação: planejamento, organização, direção/coordenação, formação continuada e avaliação. Figura 21. Instrumentos de ação do gestor/a escolar. planejamento organização direção/coor denação formação continuada avaliação Fonte: Libâneo, 2013. 9 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 E somente alcançaremos um ambiente saudável e seguro, necessário à formação integral dos nossos estudantes, por meio de espaços escolares que se preocupem e proporcionem um clima escolar positivo que preparem a todos não para a ausência do conflito, mas para que saibamos superá-lo com estratégias e ações harmoniosas, incentivando uma cultura de paz. 2.2 O clima e a cultura da escola como fatores determinantes da gestão escolar. Figura 22. A importância do clima e da cultura organizacional saudáveis e felizes nas escolas. Fonte: https://br.freepik.com/free-ai-image/criancas-caucasianas-e-africanas-aprendem-amizade-e-sucesso-gerados-pela- ia_42131198.htm#page=2&query=escola%20feliz&position=15&from_view=search&track=ais. A cultura organizacional da escola é algo complexo, tendo em vista que reúne diferentes pessoas, crenças, valores e condutas. Nesse espaço repleto de conflitos, para que possamos construir um projeto coletivo, atendendo os anseios das necessidades educacionais e das políticas públicas, o diálogo permanente e respeitoso deve ser constante. As diferenças culturais - étnicas,de gênero, orientação sexual, religiosas, entre outras – se manifestam em todas as suas cores, sons, ritos, saberes, sabores, crenças e outros modos de expressão. As questões colocadas são múltiplas, visibilizadas principalmente pelos movimentos sociais, que denunciam injustiças, desigualdades e discriminações, reivindicando igualdade de acesso a bens e serviços e reconhecimento político e cultural. No âmbito da educação também se explicitam cada vez com maior força e desafiam visões e práticas profundamente arraigadas no cotidiano escolar. A cultura escolar dominante em nossas instituições educativas, construída fundamentalmente a partir da matriz político-social e epistemológica da modernidade, prioriza o comum, o uniforme, o homogêneo, considerados como elementos constitutivos do universal. Nesta ótica, as diferenças são ignoradas ou consideradas um “problema” a resolver (Candau,2011, p. 241). 10 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA Cada “chão de escola” possui suas características, idiossincrasias, sendo a dimensão cultural essencial para processo de aprendizagens, realmente, significativos e potentes. O termo cultura é polissêmico e complexo, somos convidados (a) por Candau (2011, p.247.) a trabalhar, nas unidades de ensino, por meio do “multiculturalismo”, concebendo “(...) as culturas em contínuo processo de construção, desestabilização e reconstrução”, pois essas relações possuem uma história e, também, relações de poder. Dessa forma, por meio do reconhecimento das múltiplas culturas existentes, valorizamos suas práticas e minimizamos as possibilidades de silenciamentos, de promoção de preconceitos, possibilitando uma vivência/experiência plural para todos (a) participantes da comunidade escolar. Luck (2007) afirma que a cultura organizacional da escola pode se formar por meio da interação de três dimensões: Figura 23. Dimensões da cultura organizacional. Os regulamentos, os valores, as políticas administrativas e a forma como se exerce o poder O conjunto de traços particulares, o modo de ser da equipe escolar. O conjunto de processos utilizados para o desenvolvimento das atividades na escola, levando em conta a divisão das tarefas, a estrutura das funções, as metodologias utilizadas Fonte: Luck, 2007. Esta cultura é a chave-mestra da análise das organizações por dois motivos importantes: primeiro, porque tanto a estrutura como a dinâmica organizacional são montadas e desenvolvidas em função dessa cultura, ou seja, das características de seus membros e do relacionamento entre ambiente interno e externo; segundo, porque é por meio da forma como as pessoas percebem essa cultura que se pode identificar e corrigir desvios, distorções ou falhas da organização (Falcão Filho, 2000, p. 293). O clima poderá sofrer alterações em função das características de cada uma das dimensões determinantes da cultura organizacional. E é o (a) gestor (a), por meio da sua liderança, que influencia o clima organizacional. O conceito de Clima Organizacional pode ser compreendido de muitas maneiras. No entanto, os autores concordam que o clima é uma 11 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 importante variável para descrever e compreender o comportamento humano. Leia, a seguir, algumas definições sobre “clima organizacional”: Quadro 3. Conceitos e autores de “Clima Organizacional”. Uma qualidade relativamente permanente do ambiente interno da organização que: a) é percebido pelos membros do grupo; b) influenciam seu comportamento; e c) pode ser descrito em termos de valores de um conjunto de características (ou atributos) da organização. Tagiuri (1969, citado por SANTOS, 1999, p. 28). Um conjunto de propriedades mensuráveis do ambiente de trabalho, percebidas direta ou indiretamente, pelos indivíduos que vivem e trabalham neste ambiente e que influencia a motivação e o comportamento. Litwing e Stringer (1968, ibid. , p. 29). Conjunto de atributos específicos de uma organização em particular, que pode ser influenciado pela forma que esta organização lida com seus membros e seu ambiente. Para cada indivíduo dentro da organização, o clima assume forma de um conjunto de atitudes e expectativas que descrevem a organização em termos tanto de características estáticas (tal como o grau de autonomia), como variáveis comportamentais de resultados ou eventos de saídas. Para Campbell e outros (1970, ibid. , p. 29). Um fenômeno resultante da interação da cultura. É a decorrência do peso de cada um dos seus elementos culturais e seu efeito sobre os outros dois (...). E, como cada um dos três elementos culturais é formado de diversos componentes, são inúmeras as combinações possíveis entre eles, criando-se climas de maior ou menor rigidez, realização ou emocionalidade. Souza (1978, ibid. , p. 32). a) enquanto realidade objetiva, no sentido em que constitui um campo de forças, que se exerce globalmente sobre todos os elementos da organização escolar, confirmada pela existência de maiores diferenças inter-organizacionais que intra-organizacionais, nas medidas das percepções de membros de organizações diversas; b) dependente da estrutura subjetiva, na medida em que é percepcionado por cada indivíduo, através das interações no decurso das práticas organizacionais. Carvalho (1992, p.36). Fonte: a autora. O Clima Organizacional, pode ser entendido, como a forma que as pessoas, a partir de sua visão de mundo, anseios e experiências, percebem e reagem às características culturais da escola. O clima poderá sofrer alterações em função das características de cada uma das dimensões determinantes da cultura organizacional. Exemplos atuais, relacionados ao Clima Escolar, determinado pela cultura e o clima organizacional, têm permeado o nosso cotidiano por meio de episódios de violência no ambiente educacional. Leia algumas características em comum, apontadas pela Miriam Abramovay, coordenadora do Programa Estudos sobre Juventudes, Educação e Gênero: Violências e Resiliências da Faculdade Latino Americana de Ciências Socias (FLACSO), sobre o perfil dos jovens que já praticaram ou participaram de algum caso de violência nas escolas brasileiras: Podemos ver que são todos homens, com perfis machistas, que sofreram micro violências no ambiente escolar e que planejaram esses atentados, às vezes por mais de um ano. Eles são alimentados por sites de ódio e refletem também essa hipervalorização das armas que ocorreu nos últimos tempos. Se somarmos com a proibição do debate sobre questões de gênero e sexualidade na escola, vemos que essas pautas influenciam de forma contundente nossa população e, evidentemente, jovens e adolescentes 12 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA também. Não é de um dia para o outro que o menino entra na escola e começa a atirar. É preciso entender essas violências pelas quais ele passou ao longo da sua vida escolar, que podem ser entre os pares, entre ele e os professores, entre ele e a instituição. O que precisamos pensar profundamente é na garantia de programas de convivência escolar que garantam espaços de discussão aberta sobre diversos temas (ABE, 2023, meio digital). O gestor escolar deve preparar-se, buscar uma formação especializada, para que possa aprender os diferentes tipos de violência presentes no espaço educacional, bem como distinguir as questões relacionadas à indisciplina das de violências. Ações de violência e/ou de indisciplina iniciam no espaço escolar a partir de algum conflito, uma expectativa não atendida, uma discussão ou desmotivação, são muitas as possibilidades e questões que podem afetar o clima escolar. O que os estudos recentes reforçam é que, quando um clima escolar é mais positivo, diminui-se a probabilidade de indisciplina e episódios de violência.Abe (2023) ressalta que um clima escolar saudável se relaciona com as seguintes premissas: Figura 24. Premissas/sugestões para um clima escolar saudável. Normas claras e consensuadas (todas e todos entendem e têm voz na discussão e definição dessas regra) Sentimento de pertencimento ao espaço escolar (docentes e estudantes se enxergam naquele espaço) Sensação de proteção pela e dentro da instituição (as pessoas se sentem expostas ou acolhidas nesse espaço, há segurança e são todas tratadas de forma justa e igualitária) Infraestrutura adequada e bem conservada Fonte: ABE, 2023. Também é papel do (a) gestor (a) e das Secretarias de Educação a promoção de ações que identifiquem situações de risco, visando apoiar os professores a mediarem e se relacionarem com essas temáticas, por meio de ações preventivas e formação continuada. Para assegurar um clima escolar saudável e uma boa convivência recomendam-se algumas estratégias oriundas de práticas exitosas, tais como: horário de planejamento coletivo, confraternização com professores, mutirão para limpeza e revitalização da escola, gestão democrática e mobilização da comunidade, diálogo com a comunidade, rodas de conversar para a revisão das metodologias, entre outros. 13 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 Como promover a cultura de paz e comunicação não violenta nas escolas A ideia de formar uma sociedade fundada sobre os princípios da não violência vem pelo menos desde a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945. A comunidade internacional estava preocupada com o futuro e desejava constituir um organismo que fosse capaz de resolver conflitos pela via do diálogo e da cooperação, a fim de evitar que os horrores da Segunda Guerra Mundial se repetissem. Mais do que um projeto geopolítico, a ONU entendeu que o sucesso da empreitada dependia diretamente da Educação. Por isso, um ano depois, ela criou a Unesco (sigla em inglês para Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), com o objetivo claro de fomentar nas futuras gerações as competências necessárias à não violência. “Os pilares da cultura de paz estão na própria origem da organização”, explica a atual diretora e representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto. Em 1999, no 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Unesco sintetizou esses princípios no Manifesto 2000, documento criado por um grupo de premiados com o Nobel da Paz, com nomes como Nelson Mandela e o Dalai Lama. O manifesto estabelece seis alicerces básicos, que passaram a orientar os programas desenvolvidos pela Unesco junto a governos do mundo inteiro: respeitar a vida, rejeitar a violência, ser generoso, ouvir para compreender, preservar o planeta e redescobrir a solidariedade. As ideias defendidas pela cultura de paz ganham formas mais ou menos semelhantes entre diferentes pensadores e regiões do mundo. A Unesco, quando se refere à aplicação desses princípios à escola, fala em “Educação Para a Paz”. Já no Brasil e em países como a Espanha, prefere-se utilizar expressões como “convivência democrática” e “convivência positiva”. A Espanha, aliás, tornou-se referência internacional, nos últimos 30 anos, na construção de políticas públicas de Educação voltadas à paz e à melhora do clima escolar. E esse fato não é mero acaso. Durante boa parte do século 20, o país foi dilacerado por revoluções, guerras e governos autoritários. De 1936 a 1975, a Espanha permaneceu sob a ditadura franquista, e mesmo após o fim do regime os conflitos eclodiam em forma de lutas separatistas, como a do ETA (Euskadi Ta Askatasuna, ou “Pátria Basca e Liberdade”, em tradução livre). “Esse empenho da Espanha veio de baixo para cima: as escolas e a população sentiram a necessidade de mudar essa realidade”, conta Telma Vinha, pesquisadora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem). Todas as escolas do país são obrigadas a formular, junto à comunidade, um plano de convivência que inclui projetos de combate ao bullying, além da formação de grupos treinados para lidar com conflitos. Em algumas instituições, uma equipe de alunos mais velhos, identificados com coletes amarelos, é preparada para mediar conflitos entre os mais novos. No Brasil, apesar de algumas semelhanças com a Espanha (aqui também passamos por um regime militar autoritário), o esforço por uma cultura de paz nas escolas ainda é escasso. Uma pesquisa realizada em 2013 por um grupo de estudiosos liderados por Suzana Menin, na Universidade Estadual de São Paulo, procurou avaliar projetos sobre convivência democrática. Mais de 1,5 mil escolas se candidataram a participar da pesquisa, mas apenas 2% delas cumpriam os requisitos mínimos exigidos. Outro número que chama atenção: 71% dos formuladores desses projetos nas escolas (professores e gestores) nunca haviam recebido formação sobre o tema. Texto adaptado de Nova Escola “Como promover a cultura de paz nas escolas?” De acordo com Santos (1978, citado por Falcão Filho, 2000, p. 297), “o clima escolar é o cimento que pode unir ou dividir os sentimentos, um estímulo ou um obstáculo à motivação e à iniciativa dos vários membros da escola”. 14 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA Representa um fator vital para o alcance ou não dos objetivos dos membros da comunidade educacional. O clima também influi na maior ou menor gravidade que os conflitos entre os diversos segmentos da escola podem adquirir e, dessa forma, ajuda ou atrapalha a consecução dos seus objetivos. Outro aspecto a considerar em relação ao clima é o seu caráter de ser, ao mesmo tempo, uma consequência e uma causa (Chiavenato, 2015). É consequência da dinâmica escolar, porque está sempre formado pelo modo como as decisões estão sendo tomadas, as políticas e os objetivos estão sendo formulados, assim como pelo modo como as relações interpessoais dentro da escola e fora com a comunidade externa estão se dando. Por outro lado, o clima é uma causa no sentido em que já existe, sempre e permanentemente, na forma como cada profissional ou grupo o percebe e se sente influenciado por ele. Figura 25. Estudantes aprendem sobre cultura de paz e validação de sentimentos no município de Diadema. Fonte: https://portal.diadema.sp.gov.br/estudantes-aprendem-sobre-cultura-de-paz-e-validacao-de-sentimentos/. Devemos lembrar também que as pessoas estão ligadas ao mesmo tempo à cultura organizacional da escola e às diversas subculturas a que pertencem. Essa dupla maneira de pertencer influencia a forma como cada pessoa percebe a cultura organizacional maior, e, consequentemente, como ela percebe o clima da escola. As complexidades das culturas e do clima organizacional são úteis para lembrar que estamos buscando qualidade em uma organização de pessoas humanas, permeáveis a ideias e ideais, que trazem memórias de sucessos e fracassos, mas que são também capazes de compartilhar visões de um futuro melhor e mais relacionado às suas próprias ações. Segundo Halpin e Croft (1963, citados por Batista, 2000, p. 10), numa tipologia centrada no comportamento dos professores e dos diretores, enumeram seis tipos de climas escolares: » Clima aberto: neste contexto, os professores gostam de trabalhar em equipe, sentem-se motivados e satisfeitos com o trabalho, o qual não é determinado pelo cumprimento burocrático das funções. O diretor não enfatiza a dimensão produtiva, adapta um 15 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 comportamento propulsivo, ou seja, dinâmico e incentivador que valoriza e reconhece o trabalho dos professores, tendo em vista a consecução dos objetivos da escola. As relações são pessoais e humanizadas. Estamos perante uma situação de elevadomoral porque os professores sentem-se satisfeitos com as suas necessidades sociais e como tal, autorrealizados pessoal e profissionalmente; » Clima autônomo: a marca distintiva deste clima é a quase completa liberdade que o diretor confere aos professores no sentido de estabelecerem as estruturas de interação que melhor satisfaçam as necessidades sociais e, desse modo, contribuam para um melhor desempenho profissional. A tendência para os professores se envolverem no projeto da escola, a moral elevado, baixo nível de impedimentos (entenda-se as percepções sentidas pelos docentes de que as rotinas, as tarefas burocráticas são um estorvo e um constrangimento para a ação pedagógica), elevado nível de distanciamento do dirigente e baixa ênfase produtiva são outros traços deste clima; » Clima controlado: caracteriza-se por uma elevada preocupação com a produtividade em detrimento da satisfação das necessidades sociais. O trabalho é do tipo individualizado, dedica-se escasso tempo às relações pessoais, existindo pouca coesão social entre os professores e baixa consideração. A ênfase é colocada no cumprimento estrito das normas, na comunicação escrita e na produção; » Clima familiar: elevada cordialidade, elevada moral, sociabilidade e consideração, baixo distanciamento e pouca ênfase produtiva são as características deste tipo de clima. A relação e comunicação informal refletem-se na sensação de se fazer parte de “uma grande e feliz família”; » Clima paternalista: neste contexto ambiental existe uma grande tendência para os professores se alhearem do projeto da escola: a ênfase é colocada na produtividade, controle e centralização de papéis; » Clima fechado: manifesta uma reduzida autonomia, impessoalidade e formalização. Registra-se uma tendência elevada para o alheamento, por parte dos professores, face ao projeto da escola, uma baixa consideração e sociabilidade e, consequentemente, uma moral muito baixa. Do exposto poder-se-á afirmar que os efeitos do clima escolar são múltiplos e importantes, o que se irá refletir e condicionar o êxito das políticas e das estratégias de desenvolvimento quando se planificam projetos de intervenção e inovação nas escolas. E, como a eficácia e o sucesso dos alunos são afetados pelo clima organizacional da escola, torna cada uma dessas organizações uma entidade com personalidade própria. O clima percebido é de fundamental importância para o indivíduo, pois é a forma como esse entende seu ambiente de trabalho e que pode ser diferente de como outros o percebem. E, convém ainda referir que o mesmo indivíduo pode, em dado momento, interpretar o ambiente de trabalho de uma forma, e tempos depois pode interpretá-lo de maneira diferente. A perspectiva interacionista, de acordo com Ferreira, Abreu e Caetano (1996, p. 311), reflete o impacto entre o meio ambiente e a personalidade dos indivíduos, ou seja, a origem do clima situa-se na “interação dos indivíduos como resposta às características organizacionais, assumindo um importante papel perceptivo com o processo comunicacional”. 16 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA Trata-se de uma perspectiva estável, pois a imagem da organização, uma vez alcançada pelo indivíduo, dificilmente será alterada. A perspectiva cultural na formação do clima resulta das interações dos indivíduos que formam a partir do nada uma estrutura de referência comum, sendo “condicionados nas interações pelos profundos e anteriores significados veiculados pela cultura organizacional, a qual se expressa sob a forma de valores, normas e mitos” (ibid., p. 313). O conceito de clima, segundo Bertrand e Guillemet (1988, p. 145), engloba todas as características psicossociais da organização que são apreendidas pelos seus membros e a quem influenciam o comportamento. O clima é, então: A resultante de todas as forças que interagem no sistema psicossocial, os comportamentos e motivações dos indivíduos, os seus papeis, a dinâmica dos grupos, os sistemas de influência e a forma e exercício e de autoridade. Para esses autores, o clima organizacional evoca toda a complexidade da organização e apresenta muitas analogias com o conceito de personalidade dos indivíduos exprimindo toda a riqueza humana do sistema psicossocial. 2.3 A escolha do Diretor da escola e a constituição das equipes pedagógicas: a gestão participativa. Figura 26. A escolha do diretor da escola pela comunidade. Fonte: https://br.freepik.com/vetores-gratis/vector-conjunto-de-pessoas-ilustradas_3238340.htm#query=eleitor&position =1&from_view=keyword&track=sph. A escola é organizada com a finalidade de atingir certos objetivos, os quais dão sentido à organização escolar e que orientam, consequentemente, a tomada de decisões no que se refere à natureza dos currículos e programas, à estrutura escolar, à qualidade do ensino, na qualificação de pessoal etc. Portanto, quem quer que se proponha a trabalhar em uma escola precisa procurar informar-se sobre seus objetivos e, na medida do possível, dar sua própria contribuição para o aperfeiçoamento destes. Essa necessidade é particularmente 17 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 relevante para o gestor educacional, os professores e a equipe pedagógica, que desempenham na escola função da mais alta responsabilidade. O gestor escolar exerce uma função muito complexa, em que se podem distinguir, segundo Dias (2002, p. 274), pelo menos três aspectos: Figura 27. Papéis do Gestor Escolar no Brasil. O gestor como autoridade escolar: o gestor possui uma grande soma de responsabilidades, na verdade, é o responsável por tudo o que se passa na escola. Em ocasiões especiais, representa a própria escola: quando comparece a solenidades a que é convidado na qualidade de diretor; quando confere certificados e diplomas; quando se dirige a outras entidades para tratar de assuntos de interesse da escola. Nessas situações, ele age como autoridade escolar, pois personifica a instituição a que pertence. O gestor como educador: todo gestor precisa ter conhecimento da atividade técnica realizada pelo grupo sob seu comando, sem que isso signifique que ele tenha que desempenhá-las pessoalmente. Na escola, em que a atividade técnica é o ensino, a educação, a situação é diferente. Um gestor escolar, antes de tudo, é um educador, ele também participa das atividades-fim de sua instituição de ensino. Sua forma de conduzir a escola tem repercussões profundas na formação dos alunos. Numa escola em que vigore um clima de repressão, os alunos podem ser induzidos a uma postura de submissão, incompatível com os objetivos de uma escola democrática e participativa. A gestão não tem como se desvincular da atividade educacional, o estilo de gestão influencia diretamente esse processo. O gestor precisa estar atento às consequências educativas de suas decisões e atos. Daí a importância de o gestor ser, antes de tudo, um educador, preocupado com o bem-estar dos alunos e não apenas um administrador em busca de eficiência. O gestor como administrador: a escola possui objetivos a atingir e compete ao diretor assumir a liderança para assegurar a consecução desses objetivos. O planejamento, a organização do trabalho, a coordenação de esforços, a avaliação de resultados fazem parte do seu cotidiano, daí a sua função de administrador de todo o processo educacional. Fonte: Dias, 2002. Existem pelo menos duas razões fundamentais para que a posição do gestor escolar não seja meramente a de administrador, mas de líder: a natureza da atividade escolar e as atribuições do gestor educacional. Vergara (2014) afirma que a liderança está associada a estímulos e incentivos que podem motivar as pessoas para a realização da missão, da visão e dos objetivos empresariais. Como funções importantes do líder ela aponta: perscrutar o ambiente externo; estar atento às mudanças;contribuir para a formação de valores e crenças organizacionais significantes para a satisfação das pessoas; ser hábil em clarificar problemas. 18 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA A liderança é um processo no qual o líder busca, sob a influência e a aceitação de seu grupo, o alcance dos objetivos e metas importantes para a organização por meio de mobilização, motivação, informação, comunicação, estabelecimento de estratégias, definição de políticas, manejo e solução de conflitos. Liderança e poder são elementos interligados no processo de influenciar pessoas. O poder é a força no direcionamento dos sistemas sociais através dos recursos organizacionais (Limongi-França, 2002, p. 261). Segundo Montana e Charnov apud Limongi-França (2002, p. 261), no ambiente organizacional o poder se classifica nos seguintes tipos: » Poder legítimo: inerente à estrutura organizacional, como um cargo ou uma função, predefinidos e compartilhados na cultura de uma instituição. » Poder de recompensa: reforço e reconhecimento de determinado comportamento ou meta atingida. » Poder coercitivo: relaciona-se com a autoridade que aplica punições visando eliminar, reduzir ou controlar comportamentos e atitudes indesejados em determinado contexto social. » Poder de especialização: é a força de influenciar derivada de talentos, conhecimento e experiência em uma ou mais áreas de informações atrativas para os liderados. » Poder de referência: também associado ao carisma pessoal, é a liderança decorrente do caráter e da legitimidade de conhecimento de uma pessoa. » Poder de informação: posse de dados estratégicos para uma situação crítica ou de informações que orientem processos decisórios e escolhas de diversas ordens. De acordo ainda com Dias (2002, p. 271), existem na escola duas estruturas: a administrativa e a total. A estrutura administrativa, ou organização formal, é constituída de elementos sujeitos à influência da administração e intencionalmente dispostos de forma a conduzir à consecução dos objetivos da escola. Segundo Cândido apud Dias (2007, p. 273): A estrutura administrativa de uma escola exprime a sua organização no plano consciente, e corresponde a uma ordenação racional deliberada pelo poder público. A estrutura total de uma escola é, todavia, algo mais amplo, compreendendo não apenas as relações ordenadas conscientemente, mas ainda todas as que derivam da sua existência enquanto grupo social. Isto vale dizer que, ao lado das relações oficialmente previstas (que o legislador toma em consideração para estabelecer as normas administrativas), há outras que escapam à sua previsão, pois nascem da própria dinâmica do grupo social escolar. Deste modo, se há uma organização administrativa igual para todas as escolas de determinados tipos, pode-se dizer que cada uma delas é diferente da outra, por apresentar características derivadas à sua sociabilidade própria. 19 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 Portanto, somente o conhecimento dessa estrutura total pode dar ao gestor educacional a possibilidade de compreender melhor a escola em que atua. Na estrutura formal, apontam-se quatro grandes áreas: corpo discente, programação, pessoal escolar e recursos materiais. Figura 28. Áreas que compõem a estrutura formal. Corpo Discente ProgramaçãoPessoal Escolar Recursos Materiais Fonte: Dias, 2022. O Corpo discente (alunos) define a natureza do estabelecimento da escola: escola de educação infantil, escola de ensino fundamental, escola de música, assim por diante. De acordo com o progresso alcançado, o corpo discente costuma ser classificado em séries didáticas. Sendo mais comuns as séries anuais. O problema de repetência tem inspirado outras soluções, como é o caso dos ciclos didáticos, abrangendo mais de um ano letivo, a matrícula por disciplina e o ensino por módulos. É em função dos alunos, que são definidos os objetivos escolares. A Programação consiste na previsão das atividades a serem realizadas e das inter-relações a serem mantidas para que os objetivos possam ser alcançados. As suas diretrizes estão contidas na legislação, geral e escolar, e no regimento da escola. Constam da programação: o mecanismo administrativo, o plano didático e os planos de trabalho. O Pessoal escolar pode ser assim classificado – administração: diretor e auxiliares de direção; corpo docente: professores; pessoal técnico: orientador, supervisor, coordenador, bibliotecário, psicólogo e outros, e pessoal de serviços auxiliares: secretário, escriturário, inspetor, servente, merendeira e outros. E os Recursos materiais: devem ser a expressão física da programação, compreendem: prédio escolar, instalações, mobiliário, equipamento didático, material permanente, material de consumo, verbas. Eles devem estar relacionados aos objetivos da programação: por exemplo, a compra de equipamentos, como computadores, não deve ser feita antes de ter uma ideia clara das atividades a serem realizadas com eles. 20 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA São diferentes as formas de compor e eleger a equipe pedagógica de uma unidade de ensino na rede básica de educação no Brasil (Paro, 2010). Os entes federados ainda registram muitas indicações políticas, desafiando os princípios de uma gestão democrática, transparente e que se alie às necessidades da comunidade, sem conexões partidárias. Outras práticas de contratos são encontradas: a) gestores (a) indicados pelos poderes públicos; b) diretor de carreira; c) diretor aprovado em concurso público; d) diretor indicado pelas listas tríplices ou sêxtuplas ou e) eleição direta para gestores (a)/ diretores (a) (MEC, 2004). Podemos definir da seguinte forma esses processos seletivos: Figura 29. Formas de ingresso/escolha do gestor (a)/ diretor (a) das escolas brasileiras públicas. Nomeação pura e simples por autoridades (governo ou não). Concursos com provas e títulos. Eleição. Fonte: MEC, 2004. Cada uma das modalidades acima representadas pode ser nomeada de outra forma, mas sempre com as mesmas características, tendo editais ou outro documento que indique as normativas de cada processo de seleção. As políticas atuais incentivam, assertivamente, a participação intensiva da comunidade escolar no processo de escolha da direção da unidade de ensino, por meio da eleição direta. O incentivo a eleição direta é uma das práticas que asseguram a gestão democrática presentes na Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases (9394/96)., sendo um princípio fundamental da Educação Nacional. Se os educadores escolares são, por característica do próprio ofício, promotores do diálogo que viabiliza a educação, parece justo e razoável que a eles caiba um papel determinante na coordenação do trabalho na escola. Por isso, parece procedente, quando se questiona a atual estrutura da escola, indagar se não seria proveitoso, sem prejuízo do atual conselho de escola, propor um conselho diretivo composto por educadores escolares, que seriam, não chefes, mas coordenadores das atividades da escola (Paro, 2008, p. 25). 21 A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA • CAPÍTULO 2 Portanto, cabe ao gestor, ao diretor escolar, definir as ações e os objetivos das funções dos profissionais que irão compor a equipe pedagógica. Pode aparentar que um manual com as definições dos papéis seria suficiente, no entanto, muitas dúvidas surgem ao longo da jornada. Sobre as merendeiras, os professores, pode ser mais fácil descrever as expectativas esperadas. Mas, se você olhar para os detalhes, notará que muitas vezes o coordenador pedagógico assume o papel do diretor, que por sua vez executa tarefas da secretária e o docente acumula a função de inspetor no intervalo (Paro,2008, p. 35). E, nessa grande “teia”, que todos (a) participantes são importantes e essenciais para o bom andamento da unidade de ensino, desponta o orientador educacional e o orientador pedagógico responsável pela mediação das relações entre os docentes, os alunos e a família. Atualmente, a composição das equipes, também, apresenta suas especificidades de acordo com as características e as normativas de cada unidade federativa. E, ao longo dos próximos capítulos teremos a oportunidade de nos aprofundarmos sobre essas abordagens. A educação é claramente um trabalho de equipe, de que participam todos os atores escolares. É um trabalho conjunto, que se torna mais produtivo quanto mais a equipe for capaz de trabalhar de forma integrada. O entrosamento do trabalho (gestão e coordenação) é basicamente uma questão administrativa, mas não é necessariamente um problema apenas do gestor; todos podem e devem participar do esforço de gerir a escola. A responsabilidade da equipe escolar como um todo deve estar presente no planejamento escolar; na tomada de decisões que afetam a vida da escola; na verificação da aprendizagem e na melhoria no processo de ensino e no contato com os pais de alunos e demais elementos da comunidade. A gestão democrática, que garanta a participação de todos, tem condições de levar a escola a um caminho de qualidade e eficiência no processo educativo. O que aprendemos nesta Aula? » As formas mais conhecidas de gestão são: a administração, a cogestão e a autogestão; » A escola é organizada com a finalidade de atingir certos objetivos, os quais dão sentido à organização escolar e que orientam, consequentemente, a tomada de decisões no que se refere à natureza dos currículos e programas, à estrutura escolar, à qualidade do ensino, na qualificação de pessoal, entre outros; » A estrutura administrativa, ou organização formal, é constituída de elementos sujeitos à influência da administração e intencionalmente dispostos de forma a conduzir à consecução dos objetivos da escola. Na estrutura formal, apontam-se quatro grandes áreas: corpo discente, programação, pessoal escolar e recursos materiais; 22 CAPÍTULO 2 • A GESTÃO DA ESCOLA BÁSICA E O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA ADMINISTRATIVA, FINANCEIRA E PEDAGÓGICA » A estrutura total de uma escola é mais ampla, compreendendo não apenas as relações ordenadas conscientemente, mas ainda todas as que derivam da sua existência enquanto grupo social; » Existem pelo menos duas razões fundamentais para que a posição do gestor escolar não seja meramente a de administrador, mas de líder: a natureza da atividade escolar e as atribuições do gestor educacional. Uma boa gestão integra-se tão completamente na atividade da escola que não pode ser percebida de forma isolada; » A liderança está associada a estímulos e incentivos que podem motivar as pessoas para a realização da missão, da visão e dos objetivos empresariais; » A escola tem, atualmente, a preocupação de conquistar o apoio da comunidade, considerando-o importante para uma atuação mais eficaz na dinâmica escolar; » O clima organizacional é uma importante variável para descrever e compreender o comportamento humano nas organizações. É uma qualidade relativamente permanente do ambiente interno da organização; ele reflete o ânimo das pessoas no ambiente de trabalho; » A cultura organizacional e o clima influenciam o comportamento dos membros da organização, podendo afetar os seus níveis de motivação e satisfação do trabalho, sendo considerado um conceito abrangente e global por ser uma forma de retratar numerosas percepções por meio de um número limitado de dimensões.