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pág. 1 Resumo Seção 3 Capítulo 3. Escolha do consumidor: restrição orçamentária e preferências A oferta e a demanda são determinadas a partir da tomada de decisões de produção e consumo, tomadas pelas diversas firmas e pelos inúmeros indivíduos que participam do mercado. 3.1. Restrição orçamentária A restrição orçamentária é o conjunto de cestas de consumo que o indivíduo pode adquirir se gastar toda a sua renda disponível. O conjunto orçamentário é o conjunto de cestas de consumo que o indivíduo pode adquirir com sua renda, dispondo de toda ela ou não. As cestas de consumo são definidas por diferentes quantidades dos bens que o indivíduo está escolhendo consumir. Tabela 3.1. Menu degustação e Carta de vinhos Vinhos(harmonização) Preço (R$) Menu Preço (R$) 1 taça (Casa Zurra merlot) 100,00 2 pratos 100,00 2 taças (Casa Zurra merlot e blend) 200,00 4 pratos (inclui entradas) 200,00 3 taças (Casa Zurra merlot e blend + El Favorito merlot) 300,00 6 pratos (inclui sobremesa) 300,00 4 taças (Casa Zurra e El Favorito merlot e blend) 400,00 8 pratos (menu degustação bronze) 400,00 5 taças (inclui Chateau Armand) 500,00 10 pratos (menu degustação prata) 500,00 6 taças (inclui Grand Chateau Armand) 600,00 12 pratos (menu degustação ouro) 600,00 Figura 3.1 Figura 3.1 alternativa p1x1 + p2x2 = R pág. 2 A inclinação da linha de orçamento é definida por , que expressa os preços relativos dos dois bens. A inclinação da linha de orçamento possui uma interpretação econômica bastante útil: ela mostra a quantidade do bem 2 de que o indivíduo precisará abrir mão caso queira consumir uma unidade adicional do bem 1 no mercado. Assim, para aumentar o consumo do bem 1 em uma unidade, o consumidor precisaria dispor de $=10; logo, precisaria reduzir seu consumo em unidade do bem 2: (Figura 3.2(a)). Figura 3.2(a). Restrição orçamentária. A restrição orçamentária do consumidor pode se alterar diante de mudanças em sua renda. Caso a renda do consumidor aumente, haverá um deslocamento paralelo para a direita da linha de orçamento, ampliando o conjunto orçamentário do consumidor. Isso ocorre porque, com uma renda maior, as quantidades máximas que poderão ser consumidas de cada um dos bens aumentarão, alterando os interceptos. No entanto, a inclinação da linha de orçamento não é afetada. Por exemplo, se a renda aumentar para R’ = 1.200, os interceptos dos eixos horizontal e vertical mudarão para Por outro lado, se a renda diminuir, haverá um deslocamento paralelo da linha de orçamento para a esquerda, de forma a reduzir o conjunto orçamentário do consumidor. Por exemplo, se a renda diminuir para R’’ = 800, os interceptos se alterarão para (Figura 3.2(b)). Figura 3.2(b). Mudanças na renda pág. 3 A restrição orçamentária do consumidor também é afetada por mudanças nos preços dos bens que ele consome. Quando o preço de um bem aumenta (diminui), a quantidade máxima que pode ser consumida desse bem com a mesma renda reduz (aumenta). Além disso, a inclinação da linha de orçamento é afetada. Suponha que o preço do bem 1 aumente para p’1 = 20. Nesse caso, o intercepto horizontal se reduzirá para x1’ = 50, e a inclinação da linha de orçamento mudará para . Por outro lado, se o preço do bem 1 diminuir para p’1 = 5, o intercepto horizontal amentará para x1’ = 200, e a inclinação da linha de orçamento mudará para (Figura 3.2(c)). Note que o aumento do preço reduz o conjunto orçamentário do consumidor, enquanto a redução do preço o amplia. Figura 3.2(c). Mudanças nos preços 3.2. Preferências Os economistas descrevem formalmente as preferências dos indivíduos a partir de funções de utilidade. Para facilitar a análise, vamos descrever as preferências de um indivíduo por dois bens – os bens 1 e 2. Denotando as quantidades consumidas desses dois produtos por x1 e x2, respectivamente, diremos que a satisfação do indivíduo em consumir esses bens é expressa pela função U(x1, x2). Preferências são completas. Isso quer dizer que, quando o consumidor se depara com duas cestas de consumo A e B, ele é capaz de dizer se prefere A a B (A > B), se prefere B a A (B > A) ou se é indiferente entre A e B (A ~ B). Isso exige que o consumidor seja capaz de ordenar as cestas de consumo de acordo com as suas preferências. A segunda premissa é a de que as preferências são transitivas, ou seja, se o consumidor prefere a cesta A à cesta B e se prefere a cesta B à cesta C, então certamente prefere a cesta A à cesta C, ou seja, se A > B e A > C, então A > C. Isso fornece consistência às preferências do consumidor. A função de utilidade U(x1, x2) resume, em um número que não tem significado próprio, a satisfação do indivíduo (a utilidade) quando ele consome uma cesta de bens. Assim, diremos que, se a cesta é preferida à cesta , então, a função de utilidade deve refletir essa preferência da seguinte forma: pág. 4 Uma curva de indiferença inclui todas as cestas de consumo que geram a mesma satisfação para o indivíduo, ou seja, que estão associadas ao mesmo nível de utilidade. Neste caso, as cestas B e C são indiferentes para o consumidor, já que estão na mesma curva de indiferença (U = 10). Já a cesta A é preferida às cestas B e C, por estar numa curva de indiferença mais alta (U = 12). Na verdade, qualquer cesta na área sombreada do gráfico é preferida às cestas B e C. Por outro lado, o consumidor prefere todas essas cestas à cesta D, uma vez que a utilidade para ela é menor (U = 6). Figura 3.3. Mapa de indiferenças Cobb-Douglas. As preferências descritas pela função de utilidade e pelo mapa de indiferenças da figura são chamadas de preferências bem-comportadas. Isso porque elas são capazes de descrever as preferências das pessoas pela maioria dos bens que consumimos. Talvez você se convença disso depois de examinar as duas principais características das preferências bem-comportadas. As Figuras 3.4 e 3.5 reproduzem o mapa de indiferenças da Figura 3.3, ressaltando essas características. Figura 3.4. Mapa de indiferenças Cobb-Douglas e monotonicidade Note que o nível de utilidade de cada curva de indiferença cresce à medida que nos afastamos da origem (quando as quantidades consumidas são nulas). Isso representa a monotonicidade das preferências bem-comportadas, ou seja, a ideia de que mais é sempre melhor do que menos. Consideramos que o indivíduo sempre preferirá uma quantidade maior de cada bem que consome do que quantidades menores. Em outras palavras, dizemos que o consumidor nunca está plenamente satisfeito ou saciado. Na Figura 3.4, vemos que todas as cestas de consumo que possuem quantidades maiores do bem 1 (linha tracejada horizontal) ou quantidades maiores do bem 2 (linha tracejada vertical) do que as quantidades que compõem a cesta B são preferíveis a essa cesta de consumo. pág. 5 Mais formalmente: e com ∆x1 > 0 e ∆x2 > 0. Obviamente, cestas que são mais abundantes nos dois bens também são preferidas: . Além disso, as preferências bem-comportadas também assumem que os indivíduos preferem a diversificação à especialização no consumo, ou seja, as preferências são convexas. Na Figura 3.5, vemos que a cesta E é preferida às cestas B e C. A cesta B é abundante no bem 2, mas contém uma pequena quantidade do bem 1. Por outro lado, a cesta C é abundante no bem 1, mas contém uma pequena quantidade do bem 2. Figura 3.5. Mapa de indiferenças Cobb-Douglas e convexidade A cesta E, por sua vez, possui quantidades moderadas de cada um dos bens, tornando o consumo mais equilibrado. De fato, as quantidades disponíveis em E são uma média ponderada das quantidades de B e C. Formalmente, temos que: Os fatores t e (1 – t) representam, respectivamente, os pesos das cestas A e B na composição da cesta E.1 Parece razoável supor que o consumidor está mais propenso a preferir um carrinho de supermercado que tenha três quilos de carnee quatro latas de cerveja do que outro carrinho que tenha um quilo de carne a menos. Também parece razoável que o consumidor prefira um carrinho que tenha carne e cerveja do que outro carrinho que tenha só carne ou só cerveja (ou uma quantidade muito desbalanceada desses bens). De fato, a monotonicidade se aplica aos bens de que o consumidor gosta ou que deseja. Isso não deve ser verdade para o caso dos bens que, no fundo, são males, como lixo ou poluição, para a maioria das pessoas (se não todas!), ou cigarros, para os não fumantes. Também não deve ser verdade para aqueles bens para os quais o consumidor não liga, ou bens neutros, como a azeitona na pizza (se você não ama azeitonas de paixão ou as detesta fortemente, é provável que não se importa muito se a pizza vem com ou sem azeitona). Da mesma maneira, a convexidade não se aplica a todos os casos. Não parece muito razoável que alguém consuma três ou quatro marcas de xampu diferentes, em vez de escolher comprar sua marca preferida, desde que ela caiba no bolso. De todo modo, a 1 Diz-se que as preferências são convexas porque as cestas formadas por uma média ponderada das cestas de consumo A e B estão no conjunto fracamente preferido à curva de indiferença de A e B, que é um conjunto convexo. pág. 6 monotonicidade e a convexidade parecem ser características presentes na maioria dos casos, quando estamos falando de consumo. Avaliaremos as exceções logo mais. Antes disso, vamos nos ater a um conceito bastante importante da teoria do consumidor – a taxa marginal de substituição. Queremos compreender de que maneira os indivíduos trocam um bem pelo outro, ou seja, qual é o valor relativo que cada consumidor atribui aos diferentes bens que consome. Para isso, vamos entender um movimento ao longo de uma mesma curva de indiferença, ou seja, o que ocorre quando o indivíduo troca uma cesta de consumo por outra, mas seu nível de utilidade não muda. Suponha que a hipótese de monotonicidade apresentada seja válida e imagine que o indivíduo consuma inicialmente a cesta F. Se a quantidade consumida do bem 1 aumentar, mas a quantidade consumida do bem 2 se mantiver inalterada, a utilidade do consumidor se elevará. Mas, para manter o nível de utilidade inicial e, ao mesmo tempo, permitir o consumo mais elevado do bem 1, o indivíduo deverá abrir mão do consumo de algumas unidades do bem 2. Esse movimento pode ser observado na Figura 3.6(a) a seguir, quando o indivíduo troca a cesta F pela cesta G. Note que a relação entre as variações nas quantidades consumidas dos bens 2 e 1 representa a inclinação desta curva de indiferença. Assim, podemos dizer que a inclinação das curvas de indiferença em determinado ponto representa a propensão do indivíduo entre trocar um bem pelo outro, de forma a permanecer com o mesmo nível de satisfação inicial. Chamamos essa relação de taxa marginal de substituição. Essa taxa se relaciona às mudanças que ocorrem na utilidade do indivíduo diante da variação no consumo desses dois bens, e, por essa razão, ela é algo particular de cada consumidor. Imagine que, quando o indivíduo está consumindo a cesta F, sua satisfação aumentaria em 10 se seu consumo do bem 1 aumentasse em uma unidade. Se nesse ponto, cada unidade do bem 2 gerasse uma satisfação de 5, ele estaria disposto a abrir mão de duas unidades do bem 2 para adquirir a unidade adicional do bem 1. Denote a mudança na utilidade do consumidor devida exclusivamente à variação no consumo do bem i, quando o consumo do bem j é dado por utilidade marginal2 do bem i (UMgi). Então, podemos expressar a taxa marginal de substituição da seguinte forma: se temos uma variação das quantidades consumidas dos bens 1 e 2 , que mantém a utilidade do indivíduo constante, podemos escrever: . Então, a inclinação da curva de indiferença é: .Perceba que, se as preferências são bem-comportadas, esta taxa é negativa. Isso porque se a variação da quantidade do bem 1 é positiva, a variação da quantidade do bem 2 tem que ser negativa, para compensar o ganho de utilidade de consumir mais o bem1. Figura 3.6(a). Taxa marginal de substituição 2 A palavra marginal faz referência a uma pequena variação no consumo do bem 1. A utilidade marginal do bem i pode ser obtida por meio do cálculo diferencial: UMGi=∂U/∂xi. pág. 7 Figura 3.6(b). TMS decrescente. Outra característica da taxa marginal de substituição de preferências bem-comportadas é que ela é decrescente ao longo da curva de indiferença. Isso reflete o fato de que, em geral, nossa satisfação em consumir um pouco mais de um bem que é escasso é muito maior do que a satisfação que temos em consumir a mesma quantidade desse bem quando ele é abundante. Vamos examinar o exemplo da Figura 3.6(b). Suponha que os bens em questão sejam água (bem 1) e alimento (bem 2). Imagine que o indivíduo esteja consumindo a cesta A, que é abundante em alimento, mas possui uma quantidade irrisória de água. Quanto ele estaria disposto a trocar de alimento por água? Provavelmente muito. Pois bem, a mudança da cesta A para a cesta B mostra que o indivíduo abriria mão de uma boa quantidade de alimento para beber um copo a mais de água. Entretanto, à medida que se adquire mais e mais água, a quantidade de alimento da qual o indivíduo está propenso a dispor para adquirir um copo a mais de água se reduz drasticamente, já que agora o alimento é o bem escasso e a água passa a ser o bem abundante. A taxa marginal de substituição nem sempre será negativa ou decrescente como no caso das preferências bem-comportadas. Vamos examinar as exceções ao final do capítulo. Antes disso, é útil compreender o processo de escolha do consumidor para o caso mais geral. 3.3. Escolha do consumidor Vamos retomar o exemplo do início deste capítulo. Rafael dispõe de R$500,00 para o jantar. No restaurante que escolheu, cada prato custa R$50,00 e cada taça de vinho custa R$100,00. A Figura 3.7 mostra a restrição orçamentária desse consumidor, bem como seu mapa de indiferença.3 Queremos compreender qual é a melhor escolha de consumo para Rafael, ou sua escolha ótima. Para os economistas, uma decisão racional ou ótima de consumo é aquela que maximiza a satisfação ou utilidade do consumidor, respeitando suas restrições de orçamento. Imagine que Rafael decida escolher a cesta de consumo G, que inclui quatro pratos e uma taça de vinho. Ele pode adquirir essa opção, já que ela custa apenas R$300,00. No entanto, não faz sentido que Rafael a escolha se há outras cestas disponíveis que o deixam mais feliz.4 É o caso, por exemplo, da cesta I. Nessa opção de quatro pratos e três taças de vinho, Rafael esgota sua renda e está mais satisfeito do que se escolhesse a cesta G. Mas é possível melhorar? Sim! A cesta N, que inclui o menu de seis pratos e duas taças de vinho, está disponível para o consumidor e o leva para um nível ainda maior de utilidade. Na realidade, ela configura a escolha ótima de Rafael. Não há outra cesta que o deixe mais feliz e esteja acessível para ele. Note que a cesta de consumo Z, que inclui o menu de doze pratos e a harmonização de seis taças de vinho, é 3 O mapa de indiferença está baseado na função de utilidade Cobb-Douglas , sendo que o bem 1 representa o vinho e o bem 2 representa os pratos do menu. A taxa marginal de substituição em (x1,x2) é dada por . 4 Você pode estar se perguntando por que ele gasta todo o dinheiro que tem ou porque não usa o limite do cartão de crédito. Por enquanto, vamos considerar que só o presente importa para o consumidor e não há mercado de capitais. Logo, não há razão para poupar e não existe a possibilidade de tomar emprestado. pág. 8 aquela que conferiria a maior satisfação a Rafael. Entretanto, essa opção não cabe em seu orçamento (na verdade, ela custaria R$1.200,00).Quando estamos analisando preferências bem-comportadas, existe uma única escolha ótima de consumo, que é definida a partir da igualdade entre a inclinação da reta orçamentária e a taxa marginal de substituição (note que a cesta N está localizada no ponto de tangência entre a reta orçamentária e a curva de indiferença). Isso está longe de ser uma coincidência. Na verdade, quando a relação entre os preços e a taxa marginal de substituição do consumidor são diferentes, ainda há espaço para melhorar suas escolhas. De fato, vimos que Rafael trocaria a cesta I pela cesta N. Em I, a relação entre os preços dos bens 1 e 2 é maior, em módulo, do que a taxa marginal de substituição . Isso significa que, neste ponto, ele estaria satisfeito em trocar uma unidade de x1 por apenas unidades de x2. No entanto, ao abrir mão de uma unidade de x1, ele é capaz de obter duas unidades de x2. Então, a troca é vantajosa para ele, uma vez que sua utilidade aumenta. Isso mostra que a cesta I não poderia ser a escolha ótima. O mesmo ocorre quando Rafael troca a cesta S pela cesta N.5 Figura 3.7(a). Escolha ótima 5 Tente fazer as contas para verificar se entendeu o raciocínio. Escolha de consumo ótima: ótimo interior O consumidor está no ponto de escolha ótima quando maximiza sua utilidade e respeita sua restrição orçamentária. No caso de preferências bem-comportadas, a cesta de consumo ótima está localizada no ponto em que a taxa marginal de substituição é igual à relação entre os preços dos bens. Este ponto é chamado de ótimo interior, refletindo a preferência por diversificação (a cesta é composta por quantidades positivas dos dois bens). pág. 9 Figura 3.7(b). Diferenças da TMS e relativo de preços 3.4. Outros tipos de preferências e escolhas Quando estamos pensando no consumo de Rafael entre os pratos e a bebida do jantar, parece razoável que as preferências bem-comportadas expliquem adequadamente seu comportamento: mais comida ou bebida deve ser melhor do que menos; além disso, ele deve preferir uma cesta equilibrada em quantidades desses dois bens a uma cesta que contenha só comida ou só bebida. De fato, vimos que a escolha ótima de Rafael é uma cesta de consumo que inclui o menu de seis pratos e duas taças de vinho. Mas será que é sempre assim? Imagine que estivéssemos analisando as escolhas de Rafael entre dois diferentes tipos de bebida. Suponha, por exemplo, que ele se encontrasse com seus amigos sábado à tarde num bar que oferece deliciosas caipirinhas e uma boa seleção de cervejas artesanais. Nesse caso, seria razoável supor que Rafael escolhesse uma ou a outra bebida. É verdade que o indivíduo pode consumir um pouco de cada uma das bebidas ao mesmo tempo, mas esse não é o comportamento típico, quando estamos analisando bens substitutos perfeitos. Dois bens são substitutos quando a taxa marginal de substituição entre eles é constante, não importando quais são as quantidades consumidas de cada um deles. Suponha, por exemplo, que Rafael goste duas vezes mais de cerveja do que de caipirinha. Ele estará sempre disposto a trocar uma dose de caipirinha por meia garrafa de cerveja, de que ele gosta mais – isso quer dizer que essa disposição de troca não depende de quantas doses de caipirinha ou quantas garrafas de cerveja Rafael está consumindo no momento. As curvas de indiferença típicas de bens substitutos estão representadas na Figura 3.8. A hipótese de monotonicidade permanece válida nesse caso. A hipótese de convexidade é apenas um pouco mais fraca: aqui, uma cesta de consumo C que possua uma média ponderada das quantidades de duas cestas indiferentes A e B também é indiferente a elas. Vejamos como fica a escolha do consumidor neste caso. Suponha que o preço da caipirinha seja R$12,00 e a garrafa de cerveja artesanal custe R$30,00. Ele dispõe de R$36,00 para gastar com bebida. Ao representar a quantidade de cerveja no eixo horizontal e a quantidade de caipirinha no eixo vertical, a inclinação das curvas de indiferença equivale a TMS = 2, enquanto que a relação entre os preços corresponde a . Uma vez que as curvas de indiferença têm sempre a mesma inclinação, essa desigualdade sempre ocorrerá. A escolha ótima também ocorre no ponto em que a restrição orçamentária encontra a curva de indiferença mais alta do consumidor, mas, no caso de bens substitutos perfeitos, esse ponto representa um ótimo de fronteira, pois o consumidor se especializará no consumo de um dos bens, ou seja, gastará toda a sua renda para comprar um dos bens e não consumirá o outro. pág. 10 Nesse caso, Rafael consumirá toda a sua renda em caipirinha e poderá tomar três doses da bebida. Mas, por que ele escolhe caipirinha se gosta mais de cerveja? Ora, ele gosta duas vezes mais de cerveja, mas ela custa 2,5 vezes o preço da caipirinha. Então, Rafael opta pela bebida que lhe oferece melhor relação custo-benefício. Figura 3.8. Substitutos: curvas de indiferenças, restrição orçamentária e escolha No final da tarde, Rafael e seus amigos estão com fome e decidem ir a uma pizzaria, que cobra por fatia. É uma boa decisão, porque ele só reservou R$50,00 para o jantar desta noite. As opções do cardápio são: muçarela, calabresa, allici, pepperoni, portuguesa e frango com requeijão. Cada pedaço de pizza custa R$7,00, não importando o sabor, e o refrigerante custa R$4,00 a lata. Sempre que Rafael come pizza, toma refrigerante para acompanhar, e ele só toma refrigerante quando come pizza. Nesse caso, podemos dizer que pizza e refrigerante são bens complementares perfeitos, pois são sempre consumidos juntos, numa proporção fixa. Para Rafael, as quantidades ideais são: para cada três pedaços de pizza, uma latinha de refrigerante. No caso dos complementares, valem as hipóteses de monotonicidade (mais é melhor) e convexidade (a média é preferida aos extremos). Escolha de consumo ótima: ótimo de fronteira No caso de preferências por bens substitutos, neutros e males, a cesta de consumo ótima representa um ótimo de fronteira, pois o consumidor aloca toda a sua renda em um dos bens e não consome nada do outro bem (o bem neutro, o bem mal e o substituto que apresenta menor relação custo-benefício). No ótimo de fronteira, não há igualdade entre a taxa marginal de substituição e a relação de preços dos bens. pág. 11 Figura 3.9. Complementares: curvas de indiferenças, restrição orçamentária e escolha A Figura 3.9 mostra as curvas de indiferença de bens complementares. O formato dessas curvas reflete o fato de que a satisfação do consumidor só muda quando se alteram as quantidades dos dois bens, na sua proporção preferida de consumo. O eixo horizontal representa a quantidade de refrigerante, e o eixo vertical representa a quantidade de pedaços de pizza. A cesta de consumo A possui três pedaços de pizza e uma lata de refrigerante. Perceba que a cesta de consumo B está na mesma curva de indiferença, indicando que a utilidade de Rafael não se altera com quantidades maiores de refrigerante, se ele continuar consumindo três pedaços de pizza. A taxa marginal de substituição na porção horizontal da curva de indiferença é zero, indicando que não há disposição a trocar pizza por refrigerante. De fato, entre bens complementares perfeitos, não há relações de substituição (e, se você pensar bem, entre bens substitutos perfeitos, não há relação de complementariedade). A escolha ótima, nesse caso, é uma cesta de consumo que contém pizza e refrigerante (ótimo interior). Nesse caso, o ponto que satisfaz a restrição orçamentária de Rafael é a cesta com seis pedaços de pizza e duas latas de refrigerante. Repare que o cardápio oferece seis sabores diferentes de pizza. É razoável assumirmos que Rafael escolheu, então, experimentar um de cada, correto? Depende. Vimos que, uma vez que os preços de cada pedaço são iguais, isso só será verdade se ele gostar igualmentede todos os sabores. Mas não é o caso. Rafael detesta allici, não gosta de sentir o cheiro. Ele até pagaria para não ter que comer esse ingrediente. Quando um consumidor não gosta de um bem, dizemos que esse produto é um bem mal. Por outro lado, Rafael não liga para azeitonas. Isso quer dizer que, se a pizza vier com azeitonas, ele comerá, mas não se importará se a pizza vier sem. Ele não pagaria mais caro para acrescentá-las, por exemplo. Quando o consumidor é indiferente a um bem, dizemos que esse produto é um bem neutro. As Figuras 3.10(a) e (b) mostram as curvas de indiferença típicas desses bens. Nesses casos, as hipóteses que estabelecemos acima não se aplicam. Para o bem mal, na verdade, menos é melhor: compare as cestas A e B, que possuem as mesmas quantidades de pizzas de outros sabores, a cesta A é preferida à cesta B e ela possui menos pizza de allici. A taxa marginal de substituição é positiva, indicando que o consumidor exigiria mais do bem que gosta para consumir o bem que não gosta. Para o bem neutro, mais ou menos, tanto faz: as cestas C e D possuem a mesma quantidade de pedaços de pizza e quantidades distintas de azeitona e são indiferentes entre si. A taxa marginal de substituição é zero, ou seja, o consumidor também não troca o bem de que gosta para consumir o bem neutro. Assim, nos dois casos, as cestas de consumo ótima são pontos de fronteira, uma vez que o indivíduo se especializa no consumo do bem de que gosta e não consome o bem mal (a menos que seja recompensado) ou o bem neutro (a menos que seja de graça). pág. 12 Figura 3.10. Males e neutros: curvas de indiferenças, restrição orçamentária e escolha Figura 3.10(a). Pizzas de allici Figura 3.10(b). Azeitona na pizza