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Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade SUMÁRIO 1. Defi nição e Epidemiologia .......................................................................................... 3 2. Importância da MFC/APS ........................................................................................... 4 3. Abordagem e Quadro Clínico ..................................................................................... 6 4. Abordagem terapêutica ............................................................................................ 11 5. Rastreamento ............................................................................................................ 15 6. Quando encaminhar .................................................................................................. 15 Referências bibliográfi cas ............................................................................................... 16 Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 3 1. DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA A ansiedade diz respeito a uma sensação de angústia e apreensão que faz parte do mecanismo natural de “luta ou fuga”, ou seja, de defesa e antecipação de ameaças comuns no cotidiano das pessoas e que em diversas ocasiões permitiu (e permite) ao ser humano lidar com o perigo ao longo do seu processo de evolução. Essa sensação difusa de apreensão costuma estar associada a sintomas autonômicos, como palpi- tações, cefaleia, inquietação, aperto no peito, dentre outros. Logo, pode-se perceber que a ansiedade é algo natural; porém, em algumas situações pode se tornar despro- porcional, trazendo prejuízos funcionais à vida do indivíduo e causando transtornos de ansiedade, que é sobre o que trataremos aqui. É importante salientar a diferença entre uma inquietação que porventura o paciente pode referir como sendo ansiedade, mas que com investigação mais pormenorizada do médico de família, podemos notar que esta sensação não está relacionada com apreensão, mas sim com uma inquietação ligada a euforia, agitação, hiperatividade, sensações as quais podem estar mais relacionadas com outros diagnósticos, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou transtornos de humor. Conceito: A ansiedade é uma resposta normal e adaptativa que permite antecipação de uma ameaça iminente. Caracteriza-se pela sensação de apreensão. Quando essa sensação se torna excessiva e causa prejuízo ocupa- cional, social ou biológico, fala-se em transtorno de ansiedade. Quando a ansiedade se torna excessiva, causando prejuízo no bom funcionamento do indivíduo, seja no trabalho, no convívio social ou nos aspectos biológicos, como o sono, aí sim fala-se em transtorno de ansiedade. Porém, é comum, sobretudo na atenção básica, a coexistência entre um transtorno de ansiedade e outros transtornos, como de humor ou síndrome de somatização, em que o paciente apresenta diversas queixas físicas sem explicação clínica. Com isso, é mais comum a existência de quadros mistos do que puramente transtorno de ansiedade. Dentre os transtornos de ansiedade, abor- daremos neste material o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e o transtorno de pânico. Além disso, conforme vimos na aula de Dra. Maitê, falaremos também de um outro grupo de transtornos, que é o transtorno obsessivocompulsivo (TOC). Os transtornos de ansiedade são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes e, segundo o Estudo Americano de Comorbidades, estão presente em 1 em cada 4 pes- soas, sendo mais prevalente em mulheres do que em homens. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país da América Latina que lidera Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 4 nos números de pessoas diagnosticadas com transtornos de ansiedade. Além disso, tais transtornos são, em sua maior parte, crônicos e causam prejuízos e desfechos ne- gativos, como: menor produtividade no trabalho, maior taxa de utilização de serviços de saúde, abuso e dependência de álcool e outras drogas, risco aumentado (independente de associação com outros transtornos psiquiátricos) de ideação suicida, tentativa de suicídio e suicídio consumado. Saiba mais! O transtorno de ansiedade é fator de risco para doen- ça coronariana e piora o prognóstico do paciente, além de piorar a aderência ao tratamento do diabetes, bem como o prognóstico desta doença. Fonte: Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 34, 2013. 2. IMPORTÂNCIA DA MFC/APS Apesar da importante prevalência citada anteriormente, os transtornos de ansiedade ainda são muito subdiagnosticados pelos profi ssionais de saúde e, por vezes, sequer são reconhecidos como problemas pelos pacientes. Neste caso, é fundamental o papel do médico de família e comunidade, o qual tem a oportunidade de ter o primeiro con- tato com o paciente dentro da rede de saúde, podendo perceber problemas que muitas vezes não são revelados em uma primeira consulta, mas que com a longitudinalidade do cuidado é possível abordar. Em boa parte das vezes, a ansiedade é relatada diretamente pelo paciente ao queixar-se de angústia diante de situações vividas, prejuízos que tem notado no seu cotidiano ou presença de sintomas que podem levar o médico a pensar em uma causa psíquica. Diante disso, é fundamental que o médico investigue bem o quadro para fa- zer o diagnóstico diferencial entre transtorno de ansiedade e outros agravos, inclusive doenças clínicas como hipertireoidismo ou arritmia cardíaca. No entanto, diversas ve- zes a ansiedade não é relatada diretamente como queixa pelo paciente, mas aparece como um problema oculto possível de ser observado pelo médico de família, como em situações de violência doméstica, bullying ou em idosos que negam ter ansiedade pelo estigma dos problemas mentais, mas que nitidamente apresentam com ansiedade. Em alguns casos ainda o paciente comparece a consulta queixando-se de problemas físicos em função de sintomas somáticos que possui, ou seja, aqueles diversos sintomas sem uma possibilidade de explicação médica ou; alguns pacientes apresentam-se com grande preocupação acerca de problemas físicos que não deveriam em si gerar tanta Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 5 preocupação. Em ambos os casos, o médico deve aproximar-se com cautela da suspeita de um fundo psicológico para o quadro, pois é preciso certifi car-se que não há nenhuma patologia vigente e auxiliar o paciente na compreensão de que pode estar sofrendo de um transtorno psíquico que pode estar gerando aqueles sintomas físicos. Além disso, é fundamental que o médico de família observe os fatores biopsicossociais envolvidos nos problemas trazidos pelo paciente, focando no método clínico centrado na pessoa que vimos na aula de Fundamentos e Estratégias da Medicina de Família. CONCEITOS GERAIS E ATUAÇÃO DA APS NA ANSIEDADE Fonte: autoria própria TRANSTORNO DE ANSIEDADE Mais prevalente em mulheres Coexistências com outros transtornos Paciente relata angústias ou problemas físicos Prejuízo no trabalho, convívio social, sono... Atenção Primária à Saúde Longitudinalidade: avaliar em diversas consultas 1º contato com o paciente Abordagem centrada na pessoa Problema oculto em: violência doméstica, bullying ou em idosos Cautela ao falar da suspeita de causa psicológica para o problema Descartar patologias vigentes Desproporcional? Excessiva? Apreensão ou angústia Mecanismo natural: “luta ou fuga” Palpitações, aperto no peito, inquietação Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 6 3. ABORDAGEM E QUADRO CLÍNICO Na anamnese, o médico deve fazer algumas diferenciações e ponderações antes de chegar no diagnóstico de transtorno de ansiedade, pois, como vimos, algumas vezes a queixa do paciente vai ser muito mais uma inquietação do que de fato uma ansiedade (ou seja, uma apreensão), sendo importante a diferenciação com outros transtornos psiquiátricos, como TDAH e transtornos de humor, que podem coexistir. Inclusive, alguns transtornospsiquiátricos vão causar ansiedade de fato, como por exemplo, dificuldades relacionadas a estressores como desemprego, ruptura conjugal, sequestro ou perda traumática de um ente querido, os quais são classificados como transtornos relacio- nados ao trauma e estressores. Além disso, deve-se atentar que inúmeras situações vivenciadas pelos pacientes sequer são consideradas transtornos psiquiátricos, pois podem estar relacionadas com uma queixa de ansiedade associada a um problema familiar, por exemplo, mas não necessariamente tais queixas emocionais estão cau- sando um prejuízo funcional que justifique o diagnóstico de um transtorno. Alguns outros problemas, ou seja, situações que causam redução da qualidade de vida do paciente, também podem causar ansiedade e por isso devem ser pesquisados, como: abuso de substâncias, efeito adverso de medicamentos (corticoides, anticonvul- sivantes, dopaminérgicos, etc.), abstinência de drogas ou retirada de psicofármacos, produzindo sintomas semelhantes (antidepressivos, benzodiazepínicos), pensamen- tos obsessivos e rituais compulsivos, depressão. Além disso, a ansiedade pode ser o pródromo de quadros psicóticos em surtos de mania ou esquizofrenia, como também pode acontecer no contexto de um transtorno de personalidade e até mesmo como uma simulação para ganhos secundários, como licença médica. PASSOS PARA ABORDAGEM Figura 1. Abordagem dos sintomas de ansiedade em 3 passos (Fonte: Tratado de Medicina de Família e Comunidade, 2019). 3- A ansiedade é o problema principal ou é parte de transtornos ou outras condições subjacentes? 2- Avaliar a repercussão da ansiedade na vida da pessoa: causa transtorno? 1- Diferenciar ansiedade de inquietação/euforia/irritabilidade Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 7 O estudo da etiopatogenia da ansiedade é de origem multifatorial, abrangendo fatores biológicos e psicossociais. No que tange os estudos biológicos, nota-se o envolvimen- to de múltiplos neurotransmissores, alterações neuro-hormonais, fatores genéticos e perturbações do sono. Já nos aspectos ambientais, a baixa escolaridade, baixa renda, estressores na infância (violência, abusos) e eventos negativos na vida estão associa- dos de modo consistente à ansiedade. Portanto, deve-se questionar acerca da história da pessoa, sua situação de vida atual, histórico familiar, seus hábitos de vida, uso de estimulantes, como cafeínas e drogas ilícitas, bem como considerar doenças orgânicas que podem simular quadro de ansiedade. No quadro clínico, o paciente apresenta-se com preocupação excessiva, difi culdade de concentração, insônia, irritabilidade, desrealização (sensação de que o mundo está distante do vivenciado pela pessoa), despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo), medos (de morrer, de perder o controle), hipervigilância. Já no exame físico, alguns sintomas físicos, são comuns, devendo ser observados para em seguida realizar diagnóstico diferencial com outras patologias clínicas, como vemos na tabela abaixo. Os principais sinais do exame físico são: palpita- ções, taquicardia, sudorese, falta de ar, tensão muscular, dor e desconforto torácico, tontura, parestesias, desconforto abdominal, epigastralgia. Com isso, os achados do exame físico, associados ou não à história clínica do paciente, podem fazer o médico desconfi ar de doenças clínicas que mimetizam transtornos de ansiedade, mais especifi camente TAG ou transtorno de pânico. Diante da suspeita de doenças clínicas podem ser solicitados alguns exames complementares, já que não há exa- mes complementares diagnósticos para os transtornos de ansiedade; logo, como vimos na aula de Dra. Maitê, deve-se sempre excluir outras doenças antes de fechar o diagnóstico de transtorno de ansiedade. Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 8 Saiba mais! Uma revisão sistemática com objetivo de avaliar al- terações em neuroimagem de ressonância magnética nos transtornos de ansie- dade observou que estudos recentes mostram anormalidades morfológicas em regiões do cérebro de pacientes com transtorno de ansiedade. De acordo com o estudo, o hipocampo e córtex cingulado parecem estar alterados no TEPT, e o córtex orbitofrontal no TOC. No entanto, tais achados estão restritos ao campo da pesquisa, não sendo ainda aplicáveis para o diagnóstico no contexto clínico. Fonte: Freitas MCF, Busatto GF, McGuire PK, Crippa JAS. Structural magnetic res- sonance imaging in anxiety disorders: an update of research findings. Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(3):251-64. Fonte: Tratado de Medicina de Família e Comunidade, 2019. CONDIÇÕES QUE PODEM MIMETIZAR TRANSTORNOS DE ANSIEDADE Doenças cardiovasculares Anemia, angina, infarto do miocárdio, hipertensão, insuficiência cardíaca, prolapso de valva mitral, taquicardia atrial paroxística Doenças respiratórias Asma, embolia pulmonar, hiperventilação Doenças neurológicas Doença cerebrovascular, epilepsia, infecção, enxaqueca, tumor Doenças endócrinas Hipoglicemia, diabetes, hipertireoidismo, doença de Addison, doença de Cushing, feocromocitoma, distúrbios da menopausa Intoxicação por drogas Anfetaminas, cocaína, maconha, nicotina, anticolinérgicos Abstinência de drogas e fármacos Álcool, opióides, sedativos/hipnóticos, anti-hipertensivos Outros Uremia, deficiência de vitamina B12, distúrbios eletrolíticos, infecções sistêmicas, intoxicação por metais pesados Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) O TAG tem início insidioso, que persiste por pelo menos 6 meses, de ansiedade ge- neralizada e persistente em diversas situações da vida do indivíduo. Envolve sintomas como: preocupações excessivas, nervosismo persistente, tremores, tensão muscular, transpiração, sensação de vazio na cabeça, palpitações, tonturas e desconforto epi- gástrico. Além disso, há um medo excessivo de que o indivíduo ou pessoas próximas irão sofrer um acidente ou ficar gravemente doente. Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 9 Este transtorno tem sua, prevalência entre 3-8% ao longo de um ano, acontecendo mais em mulheres (2:1) e sendo o mais comum entre os transtornos de ansiedade, sendo o que mais comumente coexiste com outros transtornos mentais, de modo que 50-90% dos pacientes com TAG têm outros transtornos associados. Transtorno do pânico Diferente do TAG, o transtorno do pânico acontece sob a forma de ataques recor- rentes de ansiedade, com crises súbitas e imprevisíveis que não ocorrem em apenas uma situação ou circunstâncias determinadas. A prevalência de transtorno de pânico ao longo da vida varia de 1-4%. Os sintomas consistem em palpitações, dores torácicas, sensação de asfixia, tonturas e sentimentos de despersonalização e desrealização. Além disso, a pessoa frequentemente tem medo de morrer ou de “ficar louca”. Com isso, as pessoas passam a evitar situações que podem levar a novos ataques de pânico. É importante ressaltar que os ataques de pânico duram de minutos a horas e são autolimitados. E podem estar presentes em outras condições clínicas, nem sempre estando relacionados a um comprometimento que permita classificar como um trans- torno, sendo por vezes um ataque de pânico ocasional. Os ataques de pânico podem estar presentes em pessoas que possuem fobia social, fobia específica ou transtorno de estresse pós-traumático, enquanto que o transtorno de pânico em si está presente em aproximadamente 25% dos pacientes com TAG. Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) O TOC é atualmente desmembrado em uma outra categoria de transtornos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua 5ª edição (DSM-V), sendo caracterizado por ideias obsessivas e/ou comportamentos compulsivos recorrentes. Este transtorno tem prevalência de 2-3% na população em geral e é o quarto diagnós- tico mais comum na psiquiatria. Os pensamentos e impulsos entram na consciência da pessoa de modo repetitivo e estereotipado, de modo que o indivíduo tenta resistir a essas ideias obsessivas, mas semsucesso. Quanto aos comportamentos repetitivos e estereotipados, a pessoa também tenta resistir aos mesmos e inclusive reconhece o absurdo e inutilidade destes comportamentos, já que tais rituais não levam a realização de tarefas úteis para o sujeito e este sequer tira prazer da realização das mesmas. Com isso, esses pensamentos intrusivos, obsessões e compulsões causam sofrimento grave à pessoa, interferindo na sua rotina, em seu funcionamento ocupacional, social e nos seus relacionamentos, pois esses comportamentos, além do sofrimento causado, consomem muito tempo da pessoa. A obsessão está no campo dos pensamentos e sentimentos intrusivos, enquanto que a compulsão consiste no comportamento em si que é repetitivo, como contar ou verificar algo. Este ato compulsivo costuma ser realizado como uma forma de reduzir a ansiedade relacionada à obsessão, mas nem sempre isso é alcançado, podendo não interferir ou até mesmo aumentar a ansiedade. Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 10 MAPA QUADRO CLÍNICO Fonte: Autoria própria. ANSIEDADE?Queixas físicas Pesquisar outras condições clínicas que expliquem os sintomas Mais prevalente em mulheres Transt. PânicoTAG Queixas gerais Difi culdade de concentração Desrealização: Sensação de que o mundo está distante da realidade da pessoa Despersonalização: Sensação de estar distante de si mesmo Medo de morrer ou “enlouquecer” Ideias obsessivas e compulsões Pelo menos 6 meses Ataques recorrentes, crises súbitas Interfere em todos os âmbitos da vida Causam sofrimento grave Persistente e em diversas situações Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 11 4. ABORDAGEM TERAPÊUTICA A maior parte dos transtornos de ansiedade se resolve com orientação sobre o problema, ou seja, psicoeducação, que é informar o paciente sobre sua doença e seu respectivo tratamento. Pois é preciso que o paciente compreenda sua doença como algo real e possível de ser tratada com psicoterapia e/ou com farmacoterapia. Deste modo, o paciente participa mais ativamente do seu processo de cuidado. Além disso, intervenções no estilo de vida, como prática de exercício físico, melhora nos hábitos alimentares, cessação do tabagismo e redução da cafeína são medidas custo-efetivas que benefi ciam os pacientes e auxiliam na redução da ansiedade. No entanto, alguns pacientes de fato precisarão de psicoterapia e/ou uso de fár- macos, sendo a escolha por um método e/ou outro dependente da gravidade do caso, disponibilidade da psicoterapia e preferência da pessoa. Exceto no transtorno de pânico, ainda não há evidências sufi cientes que comprovem que a associação entre ambas abordagens seja mais efi caz do que o uso de uma das duas isoladamente. Logo, cabe ao médico de família a organização deste cuidado, mostrando-se disponível e ao lado do paciente para auxiliá-lo a compreender o que está passando e fortalecendo-o para o enfrentamento do problema atual. Dentre os tratamentos psicoterápicos possíveis para abordagem dos transtor- nos de ansiedade destaca-se a terapia cognitivo comportamental (TCC), que visa corrigir os pensamentos catastrófi cos, as percepções distorcidas das reações fi sioló- gicas, a atenção excessiva e hipervigilância para sensações fóbicas e corporais. Com isso, a TCC ajuda o paciente a superar as consequências da ansiedade, como a antecipação e a hipervigilância. Na TCC também podem ser utilizadas técnicas de respiração diafragmática e relaxamento muscular, bem efetivas em alguns casos. Algumas intervenções psicossociais po- dem ser realizadas no contexto da atenção primária, como é possível ver no mapa mental a seguir. Em caso de opção pela terapia farmaco- lógica, o primeiro passo é explicar para o paciente o tempo esperado para início dos Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 12 efeitos terapêuticos, que pode variar de 2 a 6 semanas, bem como explicar os efeitos colaterais, a importância da adesão (informando que as medicações não podem ser descontinuadas de modo abrupto) e que o tratamento irá durar pelo menos um ano, com aumento gradual das doses até se encontrar uma dose ótima. A primeira escolha para tratamento é com os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e inibidores da receptação de serotonina e noradrenalina (IRSN). Como segunda esco- lha podem ser utilizados os antidepressivos tricíclicos (ADT) e inibidores da monoa- minoxidase (IMAO), mas estes últimos causam efeitos adversos mais proeminentes. Abaixo, segue tabela vista na aula de Dra. Maitê com a 1ª escolha dentre as opções farmacológicas para os3 transtornos estudados aqui: Fonte: Autoria própria. TRANSTORNO TRATAMENTO Pânico e TAG ISRS: Sertralina 50-200 mg/dia Paroxetina 40 mg/dia Escitalopram 10-20 mg/dia TOC ISRS: Sertralina 50-200 mg/dia ADT: Clomipramina 25-200 mg/dia Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 13 MAPA ABORDAGEM TERAPÊUTICA Fonte: Autoria própria. Terapia Cognitivocomportamental Psicoeducação Explicar sobre doença e tratamentos Estimular mudanças nos hábitos de vidaRedução da cafeína Cessação do tabagismo Atividade física e boa alimentação Sintomas físicos Pensamentos negativos ou desagradáveis CompulsõesTerapia Farmacológica Ajuda a superar consequências da ansiedade com antecipação e hipervigilância Comportamentos evitativos • Elaborar com o paciente uma lista das situações temidas; • Planejar conjuntamente um plano de enfrentamento gradual; • Buscar dados da realidade para lidar com pensamentos catastróficos. • Fazer um esquema de prevenção de rituais: interromper com a palavra “Pare” e distrair-se com algo que prenda atenção; • A aflição dura de minutos a horas. • Ajudar o paciente a desenvolver reflexão sobre a fundamentação lógica dos pensamentos; • Não tentar afastar pensamentos negativos, mas sim não dar importância a eles. Início do efeito terapêutico: 2-6 semanas Efeitos adversos da medicação escolhida Importância da adesão ISRS e IRSN são 1ª escolha • Respiração diafragmática: ao respirar lentamente pelo nariz, apenas a barriga pode se movimentar; • Lembrar que ansiedade é uma emoção normal, não irá ser eliminada totalmente. Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 14 5. RASTREAMENTO Alguns autores recomendam o rastreamento para transtornos de ansiedade, de modo que, para detectar casos de ansiedade com potencial terapêutico, sugerem focar em pacientes com alta probabilidade de transtornos mentais comuns, tais como: • Pacientes com sintomas somáticos sem explicação médica; • Paciente parece ansioso, sendo a queixa trazida pelo mesmo, pelos familiares ou até mesmo percebido por uma avaliação subjetiva do médico; • Quando o paciente foi submetido a estresse importante; • Em pacientes que utilizam os serviços de saúde em excesso. 6. QUANDO ENCAMINHAR A maioria dos transtornos de ansiedade se resolve no contexto da atenção primária. No entanto, em algumas situações o médico de família deve encaminhar o paciente para uma avaliação que envolva outras abordagens terapêuticas e avaliação com es- pecialista. Por exemplo, na difi culdade em realizar um diagnóstico acurado ou quando a terapia foge do seu domínio, como nos casos de necessidade de psicoterapia mais estruturada ou pouca resposta ao tratamento farmacológico. Além disso, em alguns casos pode ser necessário o auxílio de um psiquiatra para melhor discernir entre um quadro de transtorno de ansiedade x transtorno bipolar x transtorno de personalidade. E ainda, pode ser necessário referenciar o paciente para uma unidade de urgência/ emergência, pois os transtornos de ansiedade são fator de risco para suicídio e, por- tanto, cabe encaminhar alguns pacientes quando estes encontram-se em situação de planejamento ou tentativa de suicídio. Ansiedade em Medicina da Família e Comunidade 15 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Tratado de medicina de família e comunidade: princípios, formação e prática [recurso eletrônico]2. ed. –Porto Alegre: Artmed, 2019. 2. DUCAN, B. et al. Medicina ambulatorial: condutas na atenção primária baseada em evidências. 4ª ed. Ed: Artmed. 3. Sadock, Benjamin J. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2017. sanarfl ix.com.br Copyright © SanarFlix. Todos os direitos reservados. Sanar Rua Alceu Amoroso Lima, 172, 3º andar, Salvador-BA, 41820-770