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CONHECENDO A PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA NO SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (SUAS) CONHECENDO A PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA NO SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (SUAS) BY NC ND GOVERNO FEDERAL MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO E ASSISTÊNCIA SOCIAL, FAMÍLIA E COMBATE À FOME SECRETARIA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DEPARTAMENTO DE GESTÃO DO SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL COORDENAÇÃO-GERAL DE GESTÃO DO TRABALHO E EDUCAÇÃO PERMANENTE Todo o conteúdo do curso Conhecendo a Proteção Social Básica no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), da Secretaria Nacional de Assistência Social, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Governo Federal - 2023, está licenciado sob a Licença Pública Creative Commons Atribuição-Não Comercial-Sem Derivações 4.0 Internacional. 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Siglas Acessuas Trabalho - Programa Nacional de Promoção do Acesso ao Mundo do Trabalho BPC - Benefício de Prestação Continuada CadÚnico - Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal CEAS - Conselho Estadual de Assistência Social Centro POP - Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua CFESS - Conselho Federal de Serviço Social CIB - Comissão Intergestores Bipartite CIT - Comissão Intergestores Tripartite CLT - Consolidação das Leis do Trabalho CMAS - Conselho Municipal de Assistência Social CNAS - Conselho Nacional de Assistência Social CONSEA - Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional CPF - Cadastro de Pessoas Físicas CRAS - Centro de Referência de Assistência Social CREAS - Centro de Referência Especializado de Assistência Social CRESS - Conselho Regional de Serviço Social IAP - Institutos de Aposentadoria e Pensões IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IGD - Índice de Gestão Descentralizada ILPI - Instituição de Longa Permanência INSS - Instituto Nacional do Seguro Social LA - Liberdade Assistida LBA - Legião Brasileira de Assistência LOAS - Lei Orgânica da Assistência Social NIS - Número de Identificação Social NOB - Norma Operacional Básica NOB/SUAS - Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social NOB-RH/SUAS - Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do Sistema Único de Assistência Social ONG - Organização Não Governamental PAA - Programa de Aquisição de Alimentos PAEFI - Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos PAIF - Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família PBF - Programa Bolsa Família PCF - Programa Criança Feliz PETI - Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAS - Política Nacional de Assistência Social PNEP/SUAS - Política Nacional de Educação Permanente do Sistema Único de Assistência Social PSB - Proteção Social Básica PSC - Prestação de Serviços à Comunidade PSE - Proteção Social Especial RG - Registro Geral RMA - Registro Mensal de Atendimento SAGICAD - Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único SCFV - Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos SIS Acessuas - Sistema de Acompanhamento do Programa Acessuas SISC - Sistema de Informações do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos SNAS - Secretaria Nacional de Assistência Social SUAS - Sistema Único de Assistência Social TSF - Trabalho Social com Famílias Sumário MÓDULO 1 1. A concepção da Proteção Social Básica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 1.1 A proteção social no campo da assistência social: alguns fragmentos históricos e conceituais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7 1.2 O sentido da proteção social para a assistência social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9 1.3 Funções da Proteção Social Básica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 1.4 A quem se destinam as ofertas da Proteção Social Básica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 1.5 O Trabalho Social com Famílias na Proteção Social Básica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 1.6 CRAS e rede socioassistencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 1.7 As funções do CRAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .23 A concepção da Proteção Social BásicaMÓDULO MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA7 Neste módulo, vamos relembrar brevemente a repercussão da assistência social como direito de cidadania na Constituição Federal de 1988 e a vinculação do entendimento e do sentido de proteção social com os fundamentos e objetivos do Trabalho Social com Famílias na Proteção Social Básica (PSB). Veremos as funções da PSB como primeiro nível de proteção do SUAS e a importância do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) na concretização das funções da PSB, na gestão e organização da rede socioassistencial nos territórios e na articulação da rede socioassistencial com as demais políticas públicas. 1.1 A proteção social no campo da assistência social: alguns fragmentos históricos e conceituais A assistência social no Brasil tem uma trajetória longa, baseada em conceitos, normativos, objetivos e modos de operacionalização que se transformaram no tempo, de acordo com o contexto histórico. Os exemplos mais citados na história, no âmbito federal, são estes apresentados na breve linha do tempo a seguir. Governo de Getúlio Vargas Criação da Legião Brasileira de Assistência (LBA), inicialmente para atender os soldados e seus familiares em função da participação do Brasil na segunda guerra mundial. Criação da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) para implementar a "Política Nacional de Bem-Estar do Menor”, transformada, em 1990, na Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (CBIA), com o objetivo de formular, normatizar e coordenar a política dos direitos da criança e do adolescente. 1964 LBA e CBIA são extintos já na vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente/1990 e da Lei Orgânica de Assistência Social/1993, ambos à época vinculados ao Ministério de Bem-Estar Social. 1996 1942 MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA8 Também ao longo da história, as atenções da assistência social pública se estruturam bastante misturadas ao conjunto de iniciativas filantrópicas da sociedade civil. A LBA, por exemplo, mantinha uma política de convênios com instituições sociais no âmbito da filantropia, especialmente para executar ações de apoio à maternidade e à infância. Nas referências históricas da LBA, o “Projeto Casulo”, ou “Creches Casulos”, destinado à educação de crianças em massa, criado em 1977, é citado como uma açãode apoio à infância espalhada pelo país sob o comando das unidades da LBA nos estados, com repercussões importantes nos debates sobre educação infantil como política pública. Vamos rapidamente conhecer a história mais recente da assistência social até chegar ao entendimento da PSB do SUAS. É notório que a Constituição Federal de 1988 consagrou novos direitos de cidadania e de princípios e diretrizes para a reestruturação das políticas sociais, impactando várias áreas, especialmente a assistência social, devido à sua integração à seguridade social brasileira. “Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.” (BRASIL, 2020). Foto: © [Appreciate] / Shutterstock. O que traz de novo essa definição? Seguridade pode ser entendida na perspectiva de dar às pessoas segurança social e jurídica para acessarem, sem discriminação alguma, os direitos assegurados na legislação brasileira quando necessitarem. Estar no campo da seguridade permitiu à assistência social transitar do caráter predominantemente assistencialista e ofertado pelas entidades ou organizações da sociedade civil de natureza privada para o campo dos direitos sociais com provisões de caráter público ofertadas como dever do Estado. Ser dever do Estado obriga os entes federados a manter órgãos públicos para realizar a gestão da política, operar as suas funções e provisões e responder administrativamente e juridicamente quando a população não é atendida, ou seja, não acessa seus direitos. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA9 Cabe aqui recordar também que, somente a partir da CF/88 e da Lei 8.742/93 – Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) –, pode-se afirmar que a assistência social é uma política pública de proteção social e direito de cidadania, garantida a todos que dela necessitam sem contribuição prévia à seguridade social. Isso faz toda a diferença na sua condução e operacionalização, pois operar direitos exige, minimamente, organização, registro do atendimento, cuidados éticos e observância pormenorizada dos normativos. 1.2 O sentido da proteção social para a assistência social Mas o que é mesmo proteção social? Para Aldaíza Sposati (2009), o sentido de proteção social, antes de tudo, supõe tomar a defesa de algo, impedir sua destruição. Contém um sentido preservacionista da vida. Esse sentido pressupõe apoio, guarda, socorro e amparo, especialmente dando certezas de atendimento à população nas situações de vulnerabilidades e riscos pessoais e sociais. Proteção social também se vincula à noção de segurança social – uma necessidade da sociedade de que se garanta um patamar de dignidade a todos os seus membros. Sposati (2009) também alerta que a proteção social indica a superação da ideia de se atuar prioritariamente depois das situações de desproteções sociais instaladas, pois proteção exige sobretudo ações preventivas, proativas e vigilantes, para não permitir a destruição de condições materiais e imateriais já alcançadas. De acordo com Di Giovanni (1998 apud BRASIL, 2005), entende-se por proteção social as formas “institucionalizadas que as sociedades constituem para proteger parte ou o conjunto de seus membros”. Pode-se dizer então que as ofertas da assistência social se constituem em formas ou ações institucionalizadas utilizadas pelo Estado brasileiro para proteger sua população, principalmente nas situações de: vulnerabilidade social, riscos pessoais e sociais, violências e violações de direitos humanos. Mas você já deve ter visto que a inserção da proteção social no debate público tem uma história, ou “várias histórias”. Direitos sociais nunca são dados, comumente são conquistados a duras penas, ou seja, com muito esforço e, às vezes, sofrimentos. Aqui cabe apenas observar que a ideia de proteção social como direito, no mundo e no Brasil, foi construída no contexto das lutas pelo reconhecimento das desigualdades sociais como questão social a ser enfrentada pelo Estado e de reivindicações populares em momentos históricos de avanços democráticos e de participação popular. Isto que dizer que proteção social, democracia e participação social andam juntas. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA10 Foto: © [Dazo] / Shutterstock. E, para a assistência social, o que é proteção social? Segundo a Política Nacional de Assistência Social (PNAS): “A proteção social de Assistência Social consiste no conjunto de ações, cuidados, atenções, benefícios e auxílios ofertados pelo SUAS para redução e prevenção do impacto das vicissitudes sociais e naturais ao ciclo da vida, à dignidade humana e à família como núcleo básico de sustentação afetiva, biológica e relacional.” (BRASIL, 2005, p. 90). Veja que a PNAS trouxe uma visão social pautada na dimensão ética de incluir “os invisíveis”, as diferenças e os diferentes na proteção social, reconhecendo que as circunstâncias, as adversidades e as questões sociais, econômicas e culturais que circundam o cotidiano dos indivíduos e de suas famílias têm enorme influência na proteção, autonomia, independência e convivência familiar e comunitária de todos. A chegada do SUAS nessa história! A organização da política de assistência social em todo o país foi desenhada por meio do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), instituído pela PNAS/2004 e pela Norma Operacional do SUAS – NOB/SUAS/2005. O SUAS, portanto, foi elevado ao patamar da lei federal em 2011, com a aprovação da Lei nº 12.435, que alterou dispositivos da Lei nº 8.742/93 – Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS). O SUAS é hoje um sistema público que, além de consolidar a gestão compartilhada da assistência social entre o governo federal, os estados, o Distrito Federal (DF) e os municípios, organiza a proteção social, no campo da assistência social, em Proteção Social Básica (PSB) e Proteção Social Especial (PSE), indicando conexões entre ambas para garantir uma atuação sistêmica. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA11 Proteção Social Básica (PSB) Proteção Social Especial (PSE) Na realidade em que você atua, a PSB costuma conversar com a PSE! Uma anotação que pode ajudar no entendimento da PSB do SUAS: quando nos referimos a “ter o básico”, costumamos olhar ou identificar aquilo que é fundamental, a exemplo de ter os alimentos necessários, um teto para abrigo, condições que não podem faltar, pois são pré-requisitos para se chegar a outro patamar de qualidade de vida. A PSB tem este papel: ofertar as provisões fundamentais do SUAS, aquelas que, a princípio, todas as famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade social devem acessar. Esse nível de proteção termina por dar a direção da universalidade da assistência social para quem dela necessitar. Todo cidadão/cidadã, ao bater à porta da PSB, tem minimamente o direito de ser informado, acolhido e escutado em relação às suas demandas. Vamos relembrar que o SUAS, ao organizar as ofertas da PSB, leva em conta principalmente as diretrizes da matricialidade sociofamiliar e da territorialização. A matricialidade sociofamiliar supõe pensar todas as ações a partir da ideia da centralidade da atenção à família e da garantia da sua proteção pelo Estado, para que aquela possa reunir as condições fundamentais de ser protetora dos seus membros. A territorialização pode ser vista como o reconhecimento de que, em larga medida, as dificuldades vividas pelas famílias e seus membros vinculam-se à realidade e à dinâmica concreta dos territórios. Afinal, não se pode negar que o território/comunidade/bairro diz muito sobre o contexto vivido pelas famílias. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA12 A organização da assistência social por meio de dois tipos ou níveis de proteção – PSB e PSE –, antes previstana PNAS/2004 e na NOB/SUAS/2005, a partir de 2011 passa a ser uma previsão inscrita na LOAS. Quando uma ação pública é configurada em uma lei, sua importância, suas atribuições, seu reconhecimento como direito e seu caráter continuado são fortemente reforçados. Do ponto de vista do direito social, isso tem um valor jurídico enorme, inclusive de busca judicial do atendimento. E, do ponto de vista da gestão pública, impõe o dever de estruturar ofertas continuadas, independente da alternância de governo e de gestores. Essa previsão potencializa a concepção de que a PSB forma a base da pirâmide da atuação da assistência social nos territórios. Por ser a base, outro nível de proteção do SUAS – a PSE de média e de alta complexidade – não deve lhe preceder. Assim, a PSB é o nível de proteção cuja atribuição primeira é abrir as portas da assistência social para o acesso da população que dela necessitar. Por isso, seus equipamentos, serviços, programas e benefícios devem funcionar em localidades próximas da população para facilitar o seu acesso. Sim, mas qual é a definição de PSB? A melhor resposta pode vir do art. 6o-A da LOAS: “Art. 6º-A. [...] I - Proteção Social Básica: conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social que visa prevenir situações de vulnerabilidade e risco social por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários.” (BRASIL, 1993). Pois bem! Você deve ter visto que as ofertas da assistência social são estruturadas a partir das seguranças: de sobrevivência – renda e autonomia – de acolhida e de convívio ou vivência familiar e comunitária. Essas seguranças estarão presentes no conjunto de ofertas da PSB, dando vida à ideia de que proteção exige sobretudo ações preventivas e proativas para não permitir que algo desfavorável ou nocivo aconteça, e de que a PSB deve cuidar da população para que ela chegue na PSE somente quando esta representar o atendimento mais adequado. 1.3 Funções da Proteção Social Básica Veja então que a PSB, enquanto parte de um sistema que trata de necessidades humanas e sociais, assume funções de caráter preventivo, protetivo e proativo que se realizam, na prática, entrelaçadamente. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA13 Funções da Proteção Social Básica Funções da Proteção Social Básica possuem caráter: Preventivo Protetivo Proativo O caráter preventivo pode ser ilustrado da seguinte maneira: Certamente, quando alguém não quer que algo aconteça – como perder o apoio de seus pais ou adoecer, por exemplo – procura fazer algo antes para evitar e não deixar acontecer, antecipando os cuidados e medidas. Na PSB o caráter preventivo não é tão diferente. O sentido é dispor de ações e serviços nos territórios, próximo das famílias, com capacidade e metodologias que possam identificar situações de vulnerabilidade sociais vividas e antecipar-se aos possíveis agravos, com pronto atendimento. Além disso, deve buscar prevenir ou interromper trajetórias de privações sociais e impedir a ocorrências de riscos sociais, violência e violação de direitos. Requer uma ação antecipada, baseada no conhecimento do território e das famílias. Inclui, ainda, a constituição de uma rede socioassistencial e a sua integração a uma rede de proteção social intersetorial, com vista a dar conta das muitas necessidades humanas. O caráter protetivo consiste em centrar esforços nas intervenções que visam amparar e resguardar os direitos assegurados às famílias e a seus membros, para não perderem os acessos e nem o patamar de dignidade conquistada. Por exemplo, manter crianças e adolescentes participando de atividades de convivência, bem como convivendo com seu núcleo familiar em ambiente seguro e sem violência. Supõe ainda empreender estratégias e medidas para apoiar e garantir o acesso dos usuários/as, conforme suas demandas, ao conjunto de ofertas socioassistenciais e defender os acessos necessários à rede intersetorial para, junto com as famílias, alcançarem o atendimento mais integral possível. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA14 O caráter proativo caracteriza-se pelas medidas, esforços e estratégias que a PSB empreende para identificar e intervir em situações que impõem barreiras sociais ou obstáculos ao acesso das famílias e de seus membros aos serviços e direitos, ou reduzem a sua autonomia e participação plena. Um exemplo típico é a realização de busca ativa, com vista à procura intencional, no território, de pessoas idosas, pessoas com deficiência e famílias em situação de extrema pobreza, com dificuldades de acesso ou mesmo de adesão às ofertas do CRAS. Às vezes, são barreiras sociais associadas a: desinformação, desconhecimento dos direitos, deslocamento, isolamento territorial, discriminações, privação de renda, de cuidados e de acompanhamento por terceiros. 1.4 A quem se destinam as ofertas da Proteção Social Básica Novamente, é importante recorrer à PNAS/2004, que assim define a PSB: “[...] destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros) e, ou, fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras).” (BRASIL, 2004, p. 33). Certamente você se recorda de que, na definição da PSB, a atuação com esse púbico deve prevenir agravos de vulnerabilidade, riscos pessoais e sociais, violências e violações de direitos. Confira, no fluxograma a seguir, o que a PSB visa desenvolver utilizando seus conteúdos e metodologias. Conteúdos e metodologias da PSB Conteúdos e metodologias da PSB voltam-se para o desenvolvimento de: Potencialidades Pessoais e territoriais Aquisições Fortalecimento de vínculos familiares e comunitários Habilidades sociais Conhecimento Condições materiais e imateriais MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA15 Pois bem, vamos refletir um pouco sobre as vulnerabilidades que afetam a população que demanda a PSB. A PNAS/2004, ao nomear os cidadãos e grupos em situação de vulnerabilidade e riscos (usuários da assistência social), orienta o olhar para o indivíduo a partir do seu contexto grupal, familiar e territorial. Chama atenção também para as vulnerabilidades relacionadas aos ciclos de vida, a questões de gênero, a identidades estigmatizadas em termos étnicos, culturais e sexuais, e à desvantagem pessoal resultante de deficiências (BRASIL, 2005). Reconhece ainda as famílias como um público plural, com diversas configurações e, em alguma medida, com acúmulo de trajetórias intergeracionais, experiências históricas e coletivas de desproteção social, o que requer intervenções muito qualificadas e interdisciplinares. Em meio às diversas dimensões das vulnerabilidades, não se pode esquecer aquelas associadas à forma como as pessoas lidam com os conflitos, separações, perdas, doenças, morte das pessoas próximas, entre outros eventos (BRASIL, 2016, p. 40) e das vulnerabilidades relacionais associadas às dinâmicas de convivência marcadas por relações conflitivas, práticas de comunicação com violência, preconceito e discriminação, confinamento e/ou isolamento de indivíduos, grupos ou famílias e comunidades (BRASIL, 2017a). 1.5 O Trabalho Social com Famílias na Proteção Social Básica É possível observar que, com a definição da assistência social como política pública, o termo Trabalho Social com Famílias (TSF) tornou-se muito usual, pois o TSF vem se consolidando em uma orientação ético-política e teórico-metodológica para o trabalho com famílias no âmbito do SUAS. Pois bem, vamos destacar alguns fundamentos importantes do TSF na assistência social. �������������������������������� ���������������������������� ������ ������� ������������������� ���������1������������������������������ ����������������������� � ������� ��� ����������������� �� ���������� ���������� ��� ����������������������3 �� ����������������������������������������� ������������ ����� ������������������� ������������������� � ������������������ ���� ��������� �������� 2 MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA16 Esses fundamentos supõem um TSF baseado em um olhar integral para as necessidades das famílias e para seus membros enquanto sujeitos de direitos inseridos em um contexto marcado por questões relacionadas às desigualdades sociais, às diversidades socioculturais, étnicas, raciais e territoriais. GESTÃO EFETIVA Trabalhar com famílias em contextos tão diversos requer diálogo e mediações com as famílias e o território para a mobilização das suas forças, potências, rede de sociabilidade e de serviços públicos de apoio à inclusão social. Rompendo, dessa forma, com quaisquer perspectivas de trabalho social que possa induzir a culpabilização das famílias pelos problemas sociais e psicológicos vividos. Na PSB, o TSF é uma referência orientadora da prática profissional de trabalho com famílias e com territórios, estruturada principalmente pelo serviço estatal ofertado obrigatoriamente no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), mais especificamente no Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF). Vamos ver agora a definição do Trabalho Social com Famílias na PSB descrita nas Orientações Técnicas sobre o PAIF: “Conjunto de procedimentos efetuados a partir de pressupostos éticos, conhecimento teórico-metodológico e técnico-operativo, com a finalidade de contribuir para a convivência, reconhecimento de direitos e possibilidades de intervenção na vida social de um conjunto de pessoas, unidas por laços consanguíneos, afetivos e/ou solidariedade — que se constitui em um espaço privilegiado e insubstituível de proteção e socialização primárias.” (BRASIL, 2012a, p. 12). A definição deixa claro que o TSF visa proteger os direitos das famílias, apoiá-las no desempenho da sua função de proteção e socialização de seus membros, bem como assegurar o convívio familiar e comunitário, a partir do reconhecimento do papel do Estado na proteção às famílias e aos seus membros mais vulneráveis. (BRASIL, 2012b, p. 12). Isso supõe garantir o acesso das famílias às ofertas do SUAS e favorecer o acesso às outras políticas públicas, a partir de uma visão de direitos, com participação social, consciência crítica e protagonismo (BRASIL, 2014). Outro ponto importante do TSF na PSB é a consideração da diversidade cultural das populações que vivem nos diversos lugares do país. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA17 O TSF recomenda um trabalho social culturalmente adequado às especificidades de cada povo, ou seja, um trabalho social que se constrói a partir das escutas das tradições, crenças, costumes e formas de organização. Ele se desenvolve com total respeito à identidade cultural e à relação de pertencimento e modos de vida de cada povo. Sobre isso, é preciso mencionar a importância do trabalho culturalmente adequado com os povos e comunidades tradicionais definidos pelo Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT). “[...] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição [...]” (BRASIL, 2007). Em relação ao TSF com esses grupos, pode-se mencionar as famílias: indígenas, quilombolas, ciganas, pertencentes às comunidades de terreiro, extrativistas, de pescadores artesanais, ribeirinhas, entre outras. Muitos desses povos já conquistaram políticas específicas, a exemplo de povos indígenas e povos quilombolas. Foto: © [Renan Martelli da Rosa] / Shutterstock. Se você já trabalha na área de assistência social, pode verificar que o Cadastro Único para Programas Sociais, o CadÚnico, lista os vários grupos e os identifica no cadastro. Vamos ver brevemente algumas considerações para implementar o TSF na PSB. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA18 PODCAST Primeiramente, a sua operacionalização se dá por meio de intervenções e práticas planejadas e baseadas em conhecimento, essencialmente gerado por informações advindas da leitura da realidade das famílias, a partir de respostas a algumas perguntas: Quem são as famílias? Como elas vivem e convivem? Como são protegidas? Como exercem a proteção social dos seus membros? A escolha das formas de abordagens, se individuais, grupais ou coletivas, se dá a partir do conhecimento dos territórios, das necessidades e particularidades das famílias e das respostas às perguntas mencionadas. A partir desse conhecimento, os profissionais definem e planejam as abordagens mais apropriadas – ações/atividades/ metodologias compatíveis com o território, com as condições das famílias e suas necessidades. A valorização de ações/ atividades coletivas com as famílias pode oportunizar a socialização, a cooperação, a troca de saberes e de experiências, a construção de vínculos interpessoais e soluções coletivas para demandas inicialmente individuais. Veja que o Trabalho Social com Famílias no SUAS tem, entre seus componentes básicos, o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Para isso, é importante fazer escolhas metodológicas que favoreçam a comunicação, a interação e a vinculação entre as pessoas. Para que o TSF na PSB aconteça nas perspectivas preventivas, protetivas e proativas, ele deve ser desenvolvido por uma equipe de referência, composta por profissionais de diferentes áreas que integram o SUAS e que terão a sua atuação pautada na interdisciplinaridade. Veja também que, para atender às especificidades culturais e territoriais, as equipes devem contar com profissionais com conhecimento na área. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA19 Ademais, a atuação desses profissionais é guiada por princípios éticos, explicitados na NOB-RH/SUAS (2006), entre eles: o compromisso em ofertar serviços, programas, projetos e benefícios de qualidade que garantam a oportunidade de convívio para o fortalecimento de laços familiares e sociais; e a proteção à privacidade dos usuários, observando o sigilo profissional, preservando sua privacidade e resgatando sua história de vida. 1.6 CRAS e rede socioassistencial O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) é a unidade de assistência social mais conhecida no Brasil. São unidades públicas estatais implantadas pelos municípios e pelo Distrito Federal com o apoio do governo federal e dos estados. O CRAS é, portanto, a unidade que coordena e estrutura a Proteção Social Básica nos territórios, dando materialidade à organização e integração das ofertas socioassistenciais no formato descentralizado e de sistema público. O CRAS, desde 2011, é uma unidade prevista na LOAS e, a partir dessa lei, ele tem sua identidade e missão assim definida: “Art. 6º-C. CRAS é a unidade pública municipal, de base territorial, localizada em áreas com maiores índices de vulnerabilidade e risco social, destinada à articulação dos serviços socioassistenciais no seu território de abrangência e à prestação de serviços, programas e projetos socioassistenciais de Proteção Social Básica às famílias.” (BRASIL, 2011). Todas as orientações inerentes ao CRAS indicam que deve ser o lugar mais próximo das famílias, localizado em áreas com maior demanda da população pelas ofertas da assistência social, de mais fácil localização e deslocamento das pessoas. Isso reforça o seu papel de principal porta de entrada e acesso ao SUAS nos territórios.Veja bem, ninguém é proibido de procurar um CREAS antes de ir ao CRAS. Todavia, para melhor organizar o acesso da população ao SUAS e assegurar-lhe um atendimento mais ágil e adequado a cada demanda, o CRAS deve estar preparado e aberto para informar, acolher, escutar, avaliar necessidades das famílias e orientar o atendimento mais apropriado: se é na própria PSB ou na PSE. Ser, então, a principal porta de entrada facilita o cumprimento da atribuição de referenciar as famílias do território, saber quem são elas, quais suas principais demandas e estar aberto e preparado para atendê-las quando necessitarem. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA20 1.7 As funções do CRAS Como unidade central da PSB, em torno da qual se organizam todas as ofertas da PSB, o CRAS tem como objetivo geral concretizar as funções preventivas, protetivas e proativas da PSB, ou seja, atua com a prevenção de agravos de vulnerabilidades e de riscos sociais nos territórios. Para isso, responde por duas funções, estratégicas e complementares, que se integram no cotidiano dos processos de trabalho das equipes e na atenção às famílias. Funções estratégicas e complementares do CRAS Oferta obrigatória do PAIF e prestação de outros serviços e ações de PSB, em acordo com as demandas de cada território. Gestão territorial da rede socioassistencial da Proteção Social Básica. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA21 No próximo módulo de aprendizagem, detalharemos sobre a oferta do PAIF. Vamos começar, então, pela compreensão de rede socioassistencial, o que pode ajudar no entendimento da função de gestão territorial dessa rede. Na PNAS/2004, essa rede é definida assim: “A rede socioassistencial é um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, que ofertam e operam benefícios, serviços, programas e projetos, o que supõe a articulação entre todas estas unidades de provisão de proteção social, sob a hierarquia de básica e especial e ainda por níveis de complexidade.” (BRASIL, 2005, p. 95). Essa definição indica que todas as ofertas definidas como sendo da PSB integram essa rede: aquelas de base nacional elencadas na Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais (2009) e aquelas definidas localmente, em complementariedade a essas ou para atender especificidades locais. Vamos ver outra definição importante também da PNAS/2004. “Os serviços de Proteção Social Básica serão executados de forma direta nos Centros de Referência da Assistência Social – CRAS e em outras unidades básicas e públicas de assistência social, bem como de forma indireta nas entidades e organizações de assistência social da área de abrangência dos CRAS.” (BRASIL, 2005, p. 35). A PSB pode, então, organizar e realizar suas ofertas, observando as demandas e aproveitando as várias possibilidades da rede nos territórios. Mas vamos agregar outras definições que podem ajudar nesse entendimento. “A execução de serviço referenciado ao CRAS não pressupõe vinculação ou subordinação administrativa da entidade ou organização de Assistência Social que executa o serviço ao CRAS, mas, sim, o desenvolvimento de um serviço sob a gestão territorial do CRAS e vinculado às normativas, às concepções e aos parâmetros de qualidade do SUAS.” (BRASIL, 2016, p. 118). O manual do Censo SUAS CRAS (2021), ao tratar da rede referenciada em relação à oferta do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, considera que toda oferta fora do espaço do CRAS, seja em espaços/unidades socioassistenciais públicas ou por Organizações da Sociedade Civil, a exemplo de Centros de Convivência, constituem-se em rede referenciada desde que mantenham alguma pactuação de fluxo para o atendimento integrado das(os) usuários encaminhados pelo CRAS do território de abrangência (CENSO SUAS, CRAS, 2021). Veja então que, além de referenciar as famílias em situação de vulnerabilidade social que moram no seu território de abrangência, o CRAS referencia todos os serviços, programas e projetos da PSB executados no território, seja de execução direta em unidades públicas da própria prefeitura e do DF ou de execução indireta pelas organizações da sociedade civil. MÓDULO 1 - A CONCEPÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA22 Resumidamente, referenciar as famílias significa saber quantas são, quem são elas, como vivem e estabelecer estratégias de contato para que mantenham um vínculo de referência e de confiança com o equipamento. Igualmente, referenciar as ofertas de PSB não ofertadas diretamente pelo CRAS implica assegurar a vinculação dessas ofertas às normas e orientações técnicas do SUAS por meio de apoio técnico, definição de fluxos, troca de informações e uso de procedimentos que reconheçam a centralidade na atenção à família pelo PAIF. Vamos relembrar: a oferta do PAIF e a gestão territorial são funções estatais exclusivas e intransferíveis. Todo CRAS, independentemente do tamanho, da localização, do porte do município, deve desempenhar essas funções. Na prática, isso significa o cumprimento da primazia da responsabilidade do Estado na condução do SUAS. O exercício dessa função inclui, portanto: O exercício dessa função inclui, portanto, a articulação da rede socioassistencial referenciada do CRAS para assegurar a complementariedade do atendimento às famílias e a seus membros. Inclui também a promoção da articulação intersetorial com outras ações e serviços das demais políticas públicas para ampliar o acesso a direitos e à rede de proteção social das famílias. Como também inclui a realização de busca ativa - ação intencional e planejada - para identificar e conhecer as famílias em situações de vunerabilidade e risco social, visando retirá-las da invisibilidade e promover a inserção nos serviços públicos. 23 Referências BAROZET, E. Relecturas de la noción de clientelismo: una forma diversificada de intermediación política y social. Ecuador Debate, Quito, n. 69, p. 77-101, dic. 2006. BARROCO, M. L. S. Ética e Serviço Social: Fundamentos Ontológicos. São Paulo: Cortez, 2001. BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. 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