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UNIVERSIDADE METROPOLITANA 
DE SANTOS 
Núcleo de Educação a Distância 
1 LETRAS 
 
SEMESTRE 1 
 
 
UNIVERSIDADE METROPOLITANA 
DE SANTOS 
Núcleo de Educação a Distância 
2 LETRAS 
 
Créditos e Copyright 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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COELHO, Irene da Silva. 
Introdução aos Estudos Linguísticos. / Irene da Silva Coelho. 
Santos, 2013. 
83.f 
Universidade Metropolitana de Santos , Letras, 2013. 
1. Ensino a distância. 2. Letras. 3. Linguística. I. Título 
 
 CDD 417 
 
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3 LETRAS 
 
 
Sumário 
Aula 01_O que é língua e linguagem ....................................................................................................... 4 
Aula 02_Linguagem verbal e não verbal .................................................................................................. 7 
Aula 03_A língua Portuguesa - Um percurso ........................................................................................... 8 
Aula 04_Origens ..................................................................................................................................... 11 
Aula 05_Que língua é essa? ................................................................................................................... 13 
Aula 06_A questão da variação linguística ............................................................................................. 15 
Aula 07_Uma breve história do estudo da linguagem ........................................................................... 19 
Aula 08_O que é Linguística? ................................................................................................................. 21 
Aula 09_Pragmática ............................................................................................................................... 23 
Aula 10_A língua e a fala ........................................................................................................................ 26 
Aula 11_Saussure-significante e significado .......................................................................................... 28 
Aula 12_Paradigma e sintagma .............................................................................................................. 30 
Aula 13_A comunicação humana ........................................................................................................... 31 
Aula 14_As funções de linguagem ......................................................................................................... 34 
Aula 15_A interação verbal .................................................................................................................... 39 
Aula 16_Os signos .................................................................................................................................. 42 
Aula 17_Classificação dos Signos ........................................................................................................... 45 
Aula 18_A língua e a Linguística ............................................................................................................. 47 
Aula 19_Denotação e Conotação ........................................................................................................... 49 
Aula 20_A Sincronia e a Diacronia ......................................................................................................... 51 
Aula 21_A dupla articulação da linguagem ............................................................................................ 53 
Aula 22_As mudanças nas línguas ......................................................................................................... 55 
Aula 23_Semiótica e os estudos do discurso ......................................................................................... 57 
Aula 24_Contribuições de Bakhtin ......................................................................................................... 60 
Aula 25_O dialogismo de Bakhtin .......................................................................................................... 62 
Aula 26_Grice e suas máximas ............................................................................................................... 66 
Aula 27_Os atos de fala .......................................................................................................................... 69 
Aula 28_Gramática: o ponto de vista normativo / descritivo ................................................................ 71 
Aula 29_O conhecimento implícito e explícito da língua ....................................................................... 75 
 
 
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4 LETRAS 
Aula 30_Gramática e língua - o que ensinar .......................................................................................... 77 
Aula 31_O funcionalismo da língua ....................................................................................................... 79 
Aula 32_A frase na perspectiva funcionalista ........................................................................................ 82 
Aula 01_O que é língua e linguagem 
 
Esta é nossa primeira aula e veremos alguns conceitos importantíssimos para 
os estudos da linguagem como o de linguagem e de língua. 
Antes, porém, é preciso lembrar que os estudos sobre a linguagem tomaram a 
forma que têm hoje a partir de mudanças no domínio da linguística, no início do século 
XX e das contribuições de outras áreas do conhecimento. 
Geraldi (2004) aponta três concepções de linguagem: 
A primeira delas estabelece relações entre linguagem e expressão do 
pensamento, ou seja, a linguagem expressaria o pensamento – concepção associada 
aos estudos tradicionais. 
A segunda concepção está relacionada à teoria da comunicação e ao processo 
de comunicação. A língua é vista como um código que pode ser combinado segundo 
regras e é capaz de transmitir ao receptor as mensagens organizadas pelo emissor. 
A terceira concepção vai além das anteriores, pois está relacionada à interação 
entre sujeitos – a linguagem permite a troca de informações entre um eu (emissor) e 
um tu ( receptor). Por meio dela, o sujeito que fala - pratica ações. O falante age sobre 
o ouvinte, estabelecendo compromissos e vínculos que não existiam antes da ação 
de falar. 
Assim, a comunicação e interação ocorrem por meio da linguagem verbal – 
falando ou escrevendo – ou de maneira não verbal – com gestos, olhares, desenhos, 
imagens, notas musicais. 
 
 
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5 LETRAS 
Quando estamos na escola, somos colocados em contato com outros idiomas: 
inglês, francês ou espanhol. Começamos assim a nos esforçar para conseguir 
compreender o significado das palavras da outra língua, além da estrutura gramatical 
diferente e dos sons que são diferentes do português falado no Brasil. 
Os brasileiros entraram em contato no período da Copa (2014) com muitos 
estrangeiros que vieram ao Brasil par assistir aos jogos. Muitos estrangeiros usaram 
gestos parapor sua vez, tomar a palavra e dizer eu, 
colocando o outro como tu. O diálogo, ou seja, a reversibilidade ou reciprocidade da 
comunicação é a condição da linguagem do homem. 
A reciprocidade da comunicação é também a garantia da possibilidade de 
equilíbrio de poder entre os interlocutores de uma dada comunicação. Nos estudos 
linguísticos e também fora deles, foram desenvolvidos, não só nos Estados Unidos, 
estudos da interação entre sujeitos postos em comunicação. 
Bakhtin, teórico russo, foi o pioneiro nos estudos da interação ou do diálogo 
entre os interlocutores. Em seus estudos mostrou que a interação verbal é a realidade 
fundamental da linguagem. Além dos estudos precursores do dialogismo, podemos 
citar também a sociologia da comunicação, de Goffman; e a análise da conversação, 
de linha etnometodológica. 
 
 
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40 LETRAS 
Goffman examina os procedimentos da face (autoimagem), na comunicação. 
Para ele, face é a expressão social do "eu" individual. Sendo assim, a interação põe 
em risco a face, pois há estratégias tanto para ameaçar e atingir a face do outro quanto 
para protegê-la ou preservá-la, que variam de língua para língua, de cultura para 
cultura. 
A Etnometodologia examina a interação social no comportamento cotidiano, 
diário. A conversação ou interação verbal seria uma forma privilegiada de interação. 
A análise da conversação esforça-se por descrever as estruturas e mecanismos que 
organizam a conversação e por correlacioná-los com funções interacionais. 
Destacam-se no exame da comunicação como interação: 
• o processo de comunicação, pois os falantes se constroem e constroem juntos 
o texto; 
• a questão das imagens ou dos simulacros que os interlocutores constroem na 
interação; 
• a questão do caráter contratual ou polêmico da comunicação; 
• a questão de que, ao considerar a relação entre a comunicação e interação, 
não é mais possível colocar a mensagem apenas no plano dos significantes ou da 
expressão; 
• a questão do alargamento da circulação do dizer na sociedade. 
 
Os sujeitos da comunicação não são dados previamente, mas constroem-se ao 
comunicar-se. Segundo Bakhtin, no diálogo, constroem-se as relações intersubjetivas, 
mas também a subjetividade. Dessa forma, os sujeitos são substituídos por diferentes 
vozes que fazem deles sujeitos históricos e ideológicos. 
Outro aspecto é o das imagens e simulacros intersubjetivos. Pêcheux, para a 
Análise do Discurso (AD), mostra que o emissor e receptor estabelecem um jogo de 
imagens de que dependem a comunicação e a interação: a imagem que o emissor faz 
dele mesmo, a imagem que o emissor faz do receptor, a imagem que o emissor faz 
do receptor, a imagem que o receptor faz dele mesmo e a imagem que o receptor faz 
do emissor. 
Osakabe(1979) acrescenta outras imagens possíveis: a que faz o receptor ao 
perguntar o que o emissor pretende falando daquela forma, por exemplo. 
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41 LETRAS 
Já Greimas(1990), no âmbito da semiótica de linha francesa, desenvolve a questão 
da construção dos simulacros. Nesse sentido, entende-se por simulacros as 
representações das competências respectivas que se atribuem reciprocamente os 
participantes da comunicação e que intervêm como algo prévio, necessário a qualquer 
relação intersubjetiva. Os simulacros são objetos imaginários que os sujeitos 
projetam, no entanto, ainda que não tenham nenhum fundamento intersubjetivo, 
determinam de maneira eficaz o comportamento dos sujeitos e as relações entre eles. 
Portanto, as imagens dos interlocutores ou os simulacros dos sujeitos constroem e 
determinam as relações de comunicação e de interação entre sujeitos. 
 
 
 
 
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42 LETRAS 
Aula 16_Os signos 
 
Nesta aula, estudaremos a teoria dos signos. Nessa perspectiva, a realidade 
ganha existência quando é nomeada por meio da linguagem. Os signos são formas 
de representação da realidade - uma maneira de apreender a realidade. 
Essa apreensão não é perfeita, pois a atividade linguística é uma atividade 
simbólica, pois, as palavras criam conceitos e esses conceitos ordenam a realidade, 
categorizam o mundo. Exemplo: o homem criou o pôr do sol que, do ponto de vista 
científico, não existe, entretanto, esse conceito criado pela língua determina uma 
realidade encantadora. 
Segundo Saussure "psicologicamente, a abstração é feita de sua expressão 
por meio das palavras. Logo, nosso pensamento não passa de uma massa amorfa e 
indistinta. Filósofos e linguistas sempre concordaram em reconhecer que, sem o 
recurso dos signos, seríamos incapazes de distinguir duas ideias de modo claro e 
constante. Tomado em si, o pensamento é como uma nebulosa onde está 
necessariamente delimitado. Não existem ideias preestabelecidas, e nada é distinto 
antes do aparecimento da língua” (1969, p.130) 
As palavras formam um sistema autônomo que não depende do que elas 
nomeiam, o que significa que cada língua pode categorizar o mundo de forma diversa. 
Além disso, um signo é sempre interpretável por outro signo: no interior do mesmo 
sistema pelos sinônimos, pelas paráfrases, pelas definições; em outro sistema, em 
outra língua, por exemplo, pela tradução. Portanto, a dificuldade de traduzir indica que 
não há univocidade na relação entre os nomes e as coisas. 
Segundo Fiorin (2011), a mesma realidade, a partir de experiências culturais 
diversas, é categorizada diferentemente. Nenhum ser do mundo pertence a uma 
determinada categoria, os homens é que criam as categorias e põem nelas os seres. 
O significado é composto de traços funcionais, como, por exemplo, um 
animal: morde/não morde; mata serpente/não mata serpente; come cereais/não come 
cereais; e qualificacionais: com corpo grande/com corpo pequeno; com cabeça 
quadrada/com cabeça redonda; com cauda enrolada/com cauda reta. 
 
 
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43 LETRAS 
Composição e valor dos signos 
A designação dada ao signo, na Idade Média, era aliquid pro aliquo - alguma 
coisa em lugar de outra. Para tal definição, o signo não é a realidade. Segundo 
Saussure, o signo não une um nome a uma coisa, mas um conceito a uma imagem 
acústica, que não é o som material, físico, mas a impressão psíquica dos sons, 
perceptível quando pensamos em uma palavra, mas não a falamos. 
Saussure, conforme visto em aulas anteriores, denomina significado ao 
conceito e à imagem acústica, significante. Não existe significante sem significado; 
nem significado sem significante, uma vez que o significante sempre evoca um 
significado, enquanto o significado não existe fora dos sons que o veiculam. Portanto, 
o significado não é a realidade que ele designa, mas a sua representação. 
Segundo Fiorin, a definição de signo dada por Saussure é substancialista, uma 
vez que trata do signo em si, como a união de um significante e um significado. Fiorin 
associa forma ao que Saussure chama valor e que corresponde a um conjunto de 
diferenças. Nesse sentido, para estabelecer uma definição formal de um som ou de 
um sentido, é preciso estabelecer oposições entre eles por traços, pois os sentidos 
não se opõem em bloco. Por exemplo: em português, há uma oposição 
entre homem/mulher. Embora tenham o traço comum /humano/, há uma distinção por 
meio do traço /masculinidade/X/feminilidade/. Todavia, como em "português" não há 
um termo para indicar o ser humano em geral, esse conteúdo recai sobre o homem. 
Logo, a relação entre as palavras homem e mulher determina que o 
termohomem tenha dois valores diferentes: "ser humano" e "ser humano do sexo 
masculino".À substância da expressão correspondem os sons e a substância do conteúdo, 
os conceitos. Sons e conceitos são gerados pela forma e não preexistem a ela. O 
conceito de homem, em português, "ser humano" e "ser humano do sexo masculino" 
é criado pelo fato de ele se opor a mulher e não se opor a um terceiro termo, como 
em latim, por exemplo, em que o conceito de homem é apenas o de ser humano. 
Nesse sentido, para Hjelmslev, o signo une uma forma de expressão a uma do 
conteúdo. Essas duas formas geram duas substâncias, uma da expressão e uma do 
conteúdo. A forma da expressão são as diferenças fônicas e suas regras 
combinatórias; a forma do conteúdo são diferenças semânticas e suas regras 
 
 
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combinatórias; a substância da expressão são os sons; a substância do conteúdo, os 
conceitos. Para tal teórico, a Linguística deve estudar a forma tanto da expressão 
quanto do conteúdo. 
 
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45 LETRAS 
Aula 17_Classificação dos Signos 
 
Nesta aula tratamos da classificação dos signos: naturais e artificiais. Os 
conceitos apresentados estão fundamentados em Fiorin e seus precursores. 
A partir do modelo de Adam Schaff (1969, p. 158-193), Fiorin (2011) apresenta 
uma classificação que abrange todo tipo de signo, ou seja, unidade em que há uma 
relação entre uma expressão e um conteúdo, e ao mesmo tempo, procura respeitar 
as noções correntes dos termos utilizados para dar nomes aos tipos de signos, como 
símbolo, sinal, etc. 
Os signos são classificados em signos naturais e signos artificiais (ou signos 
propriamente ditos). Os primeiros são os fenômenos da natureza que servem de 
veículo para nos fazer perceber um fenômeno natural. São expressões de um dado 
conteúdo. São denominados também índices ou sintomas, por exemplo, a fumaça 
(expressão) que indica a existência de fogo (conteúdo); nuvens negras indicam que 
vai chover; a febre é um sintoma de problemas de saúde, etc. Os signos artificiais ou 
propriamente ditos são os produzidos para fins de comunicação, por exemplo, as 
palavras, os sinais de trânsito. Eles são o resultado de um acordo deliberado, em que 
uma convenção estabeleceu os signos que orientariam os homens, o trânsito, etc. 
Os signos artificiais podem ser divididos em signos verbais e signos com 
expressão derivativa, uma vez que têm funções na interpretação das diferentes 
linguagens. 
Os signos verbais são interpretantes de todas as linguagens, enquanto os 
signos de outras linguagens nem sempre podem interpretar os signos linguísticos. Um 
filme, por exemplo, pode ser contado verbalmente, todavia, nem tudo que exprime 
pode ser dito visualmente. 
Os signos com expressão derivativa distinguem-se em sinais e signos 
substitutivos. Sinais são utilizados especialmente para “suscitar uma reação pré-
combinada e acordada, quer em grupo, quer individualmente, sob a forma de 
manifestações definidas da atividade humana"(p.183). Os sinais são os signos que 
levam o homem a fazer uma ação, a fazer ou não alguma coisa. Exemplo: o apito do 
juiz em um campo de futebol paralisa o jogo; o vermelho do semáforo faz parar, etc. 
O sinal é resultado de acordo explícito, válido para um certo grupo de pessoas. Tem 
 
 
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como propósito modificar, iniciar ou sustar uma ação; só é usado quando se pretende 
provocar o comportamento humano que ele deve suscitar. Os signos substitutivos são 
usados para representar alguma coisa. Exemplos: uma foto de uma paisagem 
representa uma paisagem; uma maquete, uma construção; a bandeira, a pátria, 
etc. De acordo com a natureza do significado, os signos substitutivos distinguem-se 
em signos substitutivos stricto sensu e símbolos. 
No Stricto sensu, o significante expressa um significado concreto. Por exemplo: 
um autorretrato, cujo significado é "pessoa que pintou o quadro "uma planta de uma 
casa, cujo significado "uma determinada construção". 
O símbolo é um elemento concreto que representa um abstrato (religiões, 
sistemas sociais, noções). Exemplos: enquanto no ocidente a cor preta significa o luto; 
em algumas sociedades orientais, o branco tem esse significado; a balança significa 
a justiça; a cruz gamada, o nazismo. 
 
 
Com os signos, o homem cria universos de sentido. As línguas não são 
nomenclaturas que se aplicam a uma realidade pré-ordenada, mas são modos de 
interpretar o mundo. 
 
 
 
 
 
 
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47 LETRAS 
Aula 18_A língua e a Linguística 
 
Nesta aula, abordamos as questões da língua como objeto da Linguística e 
seus métodos – discussão que trata da aplicabilidade dos conceitos discutidos até 
agora. 
Façamos inicialmente uma retomada histórica para “visualizar” como eram 
feitos os estudos. 
Os estudos na área da Linguística utilizavam o método o histórico-
comparativo. Esse método comparava as línguas em busca de semelhanças – 
buscava-se informação sobre a história de cada uma delas à procura de possíveis 
origens comuns. 
Saussure, um dos mais importantes teóricos dessa época, além de contribuir 
para os avanços da Linguística histórica e comparativa, definiu, no início do século 
XX, um novo objeto de estudos para a Linguística. Para ele, "bem longe de dizer que 
o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que cria o objeto; 
aliás, nada nos diz de antemão que uma dessas maneiras de considerar o fato em 
questão seja anterior ou superior às outras"(Saussure, 1969:15). Portanto, para 
Saussure, de acordo com o enfoque com o qual se trata um dado linguístico, temos o 
objeto de estudo. 
A primeira edição do Curso de Linguística Geral foi em 1916, ou seja, três anos 
após a morte de Saussure, em 1913. Foram seus discípulos, Bally, Sechehaye e 
Reiedlinger, alunos que publicaram tal obra, uma vez que não foi escrita por Saussure, 
e sim, elaborada a partir de anotações de aula de seus alunos. Saussure durante sua 
vida ministrou três cursos na Universidade de Genebra em 1907, 1908 e 1910. 
No texto do Curso de Linguística Geral são apresentados os conceitos 
basilares do autor como língua x fala, significante x significado, sintagma x paradigma, 
sincronia x diacronia, conceitos apresentados em aulas anteriores. 
É preciso esclarecer que na obra, não há menção ao termo dicotomia, todavia, 
é assim que se chamam os quatro pares de conceitos, síntese das propostas de 
Saussure para a criação de um novo objeto teórico para a Linguística. Sendo assim, 
a palavra dicotomia, do grego dichotomía, quer dizer "divisão em partes iguais". 
Todavia, uma dicotomia em Saussure se refere a um par de conceitos que devem ser 
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48 LETRAS 
definidos um em relação ao outro, de modo que um só faz sentido em relação ao 
outro: sincronia versus diacronia (1969:94-116); língua versus fala (p. 26-
28), significante versus significado (p. 79-93) e paradigma versus sintagma (p. 142-
147). 
 
A língua 
De acordo com Fiorin, é difícil definir língua devido a sua complexidade, pois 
algumas definições de língua como “instrumento de comunicação”, ou mesmo “como 
um sistema ordenado com vistas à expressãodo pensamento” são pouco 
abrangentes e deixam de lado aspectos essenciais. Fiorin pensa a língua articulada à 
linguagem: “a linguagem humana é a condensação de todas as experiências 
históricas de uma dada comunidade. É nesse sentido que nós temos que ver a língua.” 
Para o autor, é preciso reconhecer que a língua tem uma gramática, um léxico, “mas 
o aspecto mais relevante é a relação entre a língua e condensação de um homem 
historicamente situado”. (FIORIN, 2003, p. 72). 
A visão de João Wanderley Geraldi também reconhece a relação da língua com 
a história do homem: a língua é “produto de um trabalho social e histórico de uma 
comunidade”. Sendo assim, é produto de um trabalho social um fenômeno 
sociológico e também histórico, que é retomado e de certa forma reinventado pela 
comunidade de falantes, ou seja está sempre em construção.(GERALDI, 2003, p. 78). 
Logo, ao estudarmos a língua, é preciso estabelecer entre os sujeitos que usam 
a língua, suas relações com a história, com a sociedade em que vive e com a atividade 
que estes sujeitos realizam. 
 
 
 
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49 LETRAS 
Aula 19_Denotação e Conotação 
 
A linguagem autoriza que façamos alterações de significado e que violemos 
regras, criando por meio da linguagem sentidos diversos. Assim, o homem comum, o 
poeta, o escritor ultrapassa as fronteiras estabelecidas entre o animado e o 
inanimado, o humano e o não humano, o concreto e o abstrato, por exemplo. 
Como signo conotado, ou seja, como conotação, entendemos não apenas que 
ocorreu uma mudança de sentido, mas, sobretudo, que houve um acréscimo ao 
significado já presente no signo denotado, ou seja, acrescentamos a este algo que 
nosso olhar permite criar por meio de relações tecidas entre os signos. Mas é preciso 
que exista um traço comum entre esses signos. 
 
Olho de gato: globo que fica na parte anterior da cabeça para ver denotação. 
Olho de gato: chapinha reluzente usada nas estradas para refletir os faróis - 
conotação. 
Os dois mecanismos principais da conotação são a metáfora e a metonímia. 
 
A metáfora é o acréscimo de um significado a outro, quando entre eles existe 
uma relação de semelhança, de intersecção. Essa relação indica que há traços 
comuns entre os dois significantes: É a vaidade, Fábio, nesta vida/Rosa, que da 
manhã lisonjeada,/ o poeta emprega a rosa para estabelecer relação entre vaidade e 
beleza que se exibe no início da manhã, da vida. 
A metonímia é o acréscimo de um significado a outro, quando entre eles há uma 
relação de contiguidade, de coexistência, de interdependência. Veja: Dudu é um resto 
de pessoa, (...) de roupa,(...) de nome. Saberá ler? Não, a fome é sempre analfabeta. 
(Murilo Mendes) Fome é empregada no lugar de miserável, relação em que a 
propriedade do ser dá nome a ele. 
A sinédoque é uma relação de inclusão, de contiguidade, de coexistência - 
quando um significado indica a parte e o outro, o todo, um expressa o conteúdo e o 
outro, o continente. Logo, a parte está incluída no todo; o conteúdo está incluído no 
continente: bebi um copo d’ água; leio Machado de Assis. 
 
 
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50 LETRAS 
A metáfora e a metonímia não aparecem apenas na linguagem poética, uma 
vez que a linguagem cotidiana também está repleta dessas conotações: batalha dos 
preços, a guerra contra a inflação, afogar-se num copo d'água, etc. De acordo com 
Fiorin (2011), se o signo é toda a produção humana dotada de sentido, a metáfora e 
a metonímia, signos conotados, podem ter a dimensão de uma palavra, de uma frase, 
de um texto. 
 
 
 
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51 LETRAS 
Aula 20_A Sincronia e a Diacronia 
 
O ramo da linguística que trabalha com mudanças que ocorrem nas línguas 
através do tempo é denominado linguística diacrônica. A esse ponto de vista, ele opõe 
uma linguística sincrônica. O termo Diacronia, do grego dia "através" e chrónos 
"tempo", isto é, "através do tempo", e sincronia, do grego syn "juntamente" e chrónos 
"tempo", significa "ao mesmo tempo". 
Fica claro que o ponto de vista sincrônico vê a língua como um sistema em que 
um elemento se define pelos demais elementos. No estudo sincrônico, um 
determinado estado de uma língua é isolado de suas mudanças através do tempo e 
passa a ser estudado como um sistema de elementos linguísticos naquela situação. 
Tais elementos são estudados não mais em suas mudanças históricas, mas nas 
relações que eles contraem, ao mesmo tempo, uns com os outros. 
A partir da dicotomia sincronia versus diacronia, Saussure determina uma 
distinção entre fatos sincrônicos e fatos diacrônicos. Os fatos sincrônicos são de 
natureza semântica, são gerais, mas não têm caráter imperativo. Isso quer dizer que 
os fatos sincrônicos estabelecem princípios de regularidade. Vemos em português 
que todo verbo possui morfemas de tempo e número. Isso é uma regularidade 
sistemática dos verbos e dos substantivos dessa língua. O verbo comer, conjugado 
na primeira pessoa do plural do pretérito mais-que-perfeito do indicativo, tem a forma 
"comêramos", em que com- é o radical, o - e é vogal temática de segunda conjugação, 
o -ra é o morfema tempo pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo e o -mos é o 
morfema de 1ª pessoa do número plural. Portanto, trata-se de um fato geral, mas não 
imperativo, o que quer dizer que essa regularidade pode ser modificada em uma 
mudança de língua. 
Os fatos diacrônicos são imperativos, pois se impõem à língua. Por exemplo: 
se compararmos o Português ao Latim, nenhum substantivo do português tem caso e 
todos os substantivos latinos o têm. Por exemplo: o caso nominativo não existe em 
Português. 
Saussure, ao definir a língua como sistema e ao pensar a sincronia como o 
estudo de um sistema num dado momento do tempo, redefine também o conceito de 
diacronia, que será entendida, a partir disso, como a sucessão de diferentes sistemas 
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52 LETRAS 
ao longo do tempo. Exemplo: na possibilidade de existir um estado de língua em cada 
século, poder-se-ia realizar um estudo sincrônico do português do século XIII, do 
século XIV, etc. A diacronia é, portanto, a sucessão dessas sincronias. 
 
 
 
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53 LETRAS 
Aula 21_A dupla articulação da linguagem 
 
As propostas de Saussure foram estudadas e expandidas por outros linguistas, 
dentre eles, Martinet. Andre Martinet, linguista francês, foi professor 
de linguística francesa que nasceu a 12 de abril de 1908, em Saint-Albans-des-
Villards (Savoie), e faleceu a 16 de julho de 1999, em Châtenay-Malabry. Desde muito 
jovem manteve correspondência com os mestres do Círculo Linguístico de Praga, 
entrando assim em contato com o estruturalismo linguístico – o que permitiu que 
chegasse ao funcionalismo, mais um paradigma em linguística. 
Para Martinet, a língua é duplamente articulada. 
Todo enunciado de uma língua apresenta dois planos de articulação: um 
primeiro plano em que se articulam as unidades dotadas de sentido, como 
os morfemas. Essa é a primeira articulação da linguagem – plano do conteúdo (léxico-
gramatical),este inclui as palavras, raízes, afixos. Já a segunda articulação - o plano 
da expressão inclui os fonemas, as sílabas, os acentos e que não têm sentido. 
As unidades são dotadas de matéria fônica e de sentido, isto é, são compostas 
de significado e de significante. Assim, nesse plano, o enunciado pode ser recortado 
em unidades menores dotadas de sentido, ouseja, morfemas, palavras que podem 
ser substituídos por outra palavra no eixo paradigmático e também pode combinar-se 
com outras no eixo sintagmático. 
Em Os pombos dançavam temos: pomb-radical; -o morfema de masculino;-s 
morfema de plural; danç - radical; -a morfema de primeira conjugação; -va morfema 
modo-temporal do pretérito imperfeito do Indicativo; -m morfema número-pessoal de 
terceira pessoa do plural. 
Os morfemas podem, por sua vez, ser divididos em unidades menores e não 
serem providos de sentido: os fonemas. 
No morfema lob-, por exemplo, temos os fonemas /l/, /o/ e /b/. Esta é a segunda 
articulação da linguagem e conhecida por apresentar elementos que se diferenciam, 
ou seja, as unidades têm um valor distintivo. Dessa forma, quando se substitui o /l/ do 
morfema lob- por /b/ se produz um outro radical, bob-, que aparece na palavra bobo e 
que altera o significado da palavra. 
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54 LETRAS 
Sendo assim, a dupla articulação da linguagem é um fator de 
economia linguística, pois com poucas dezenas de fonemas formam-se muitas 
unidades de primeira articulação. Com muitas unidades de primeira articulação forma-
se um número ilimitado de enunciados. 
 
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55 LETRAS 
Aula 22_As mudanças nas línguas 
 
Podemos perceber ao longo da história mudanças que ocorreram nas línguas 
de várias formas: 
• por meio do contato com pessoas de outras faixas etárias, pois quanto maior é a 
diferença de idade, maior a probabilidade de encontrarmos diferenças na forma de 
falar de duas pessoas - pequenas diferenças de vocabulário, construções diferentes, 
pronúncias de certas palavras ou de certos sons. 
• textos falados: gravações, filmes ou qualquer tipo de registro que permitam o recuo 
de pelo menos um século; 
• textos escritos. 
As línguas mudam, tanto em sua norma falada quanto em sua norma escrita, 
porém a língua escrita é sempre mais conservadora do que a língua falada. 
No português atual, há algum tempo vêm ocorrendo alterações no sistema dos 
pronomes pessoais como tu, nós e vós enfrentando a concorrência de formas 
como você, a gente e vocês, respectivamente. Dessas três formas, vós é a que já foi 
praticamente eliminada da língua falada, tanto no Brasil como em Portugal. O 
pronome tu foi perdido em muitas regiões do Brasil no caso reto, mas preserva ainda 
a forma te e o possessivo teu. O pronome nós enfrenta a forte concorrência da 
expressão a gente, embora se conserve sem ser ameaçado em certos contextos. 
Além disso, há também o surgimento de particípios passados formados com 
acréscimo de - o à raiz verbal, como em expressões já tinha chego, em vez de já tinha 
chegado. O caso específico de chegar provavelmente é influenciado pela existência 
do particípio irregular pego, de pegar, foneticamente muito semelhante a ele. 
Em Fiorin, encontramos alguns exemplos de mudanças ocorridas no século 
XXIII: 
• arcaísmos lexicais, ou seja, certas palavras que caíram em desuso, como 
acaeçer ("acontecer") e britamento ("naufrágio"), na linha 2; afilhar ("tomar"); 
• temos as palavras nenhuum e alguum como pronomes indefinidos usados 
substantivamente, de acordo com a terminologia gramatical corrente, ou seja, 
tendo usos correspondentes aos dos nossos ninguém e alguém atuais; 
• há também palavras que deixaram de ser usadas em certas construções, como 
o verbo haver, com o sentido de "ter", que aparecia na forma ajam (linha 4) e na 
forma ouver. É claro que a ausência do h inicial é apenas um problema de grafia 
distinta da atual, não tendo havido nenhuma mudança em relação a isso. Hoje em 
 
 
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56 LETRAS 
dia grafamos todas as formas desse verbo com h inicial, mas nunca o 
pronunciamos; 
• o pronome indefinido homem, com sentido de quantificador existencial (alguém) 
ou genérico (as pessoas em geral). Essa construção, perdida no português atual e 
em outras línguas românicas, é frequente nas línguas germânicas e no francês. 
Em francês, por exemplo, o pronome on (originariamente o caso sujeito correspon-
dente à forma regida orne, omne, todas elas formas do substantivo com o 
significado original de "homem") é utilizado em frases como on parle français ("se 
fala francês", "a gente fala francês"). Da mesma forma, em várias línguas 
germânicas, como o alemão, encontramos o pronome man com esses mesmos 
sentidos, como em man spricht Deutsch, ("fala-se alemão" - literalmente, "homem 
fala alemão"); 
• a concordância negativa em nenhuum nom leue, equivalente a que ninguém 
leve no português atual é o que chamamos dupla negação para nos referirmos a 
esse tipo de construção, atualmente esse termo é reservado para construções em 
que uma negativa cancela a outra. Quando ocorrem dois termos que isoladamente 
são negativos e o sentido global continua a ser negativo, o termo usado atualmente 
é concordância negativa. 
 
Tais exemplos indicam que as mudanças não se restringem a um nível de 
gramática, pois pode ocorrer em qualquer um deles. Há mudanças fonológicas, 
sintáticas, morfológicas, semânticas, lexicais, etc. 
 
 
 
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57 LETRAS 
Aula 23_Semiótica e os estudos do discurso 
 
A semiótica "tem" o texto, e não a palavra ou a frase, como seu objeto e 
procura explicar os sentidos do texto, ou seja, o que o texto diz, e os mecanismos e 
procedimentos que constroem os seus sentidos. 
Tais procedimentos são de dois tipos: a organização linguística e discursiva do 
texto e as relações com a sociedade e a história. Para a autora, o texto se organiza e 
produz sentidos, como um objeto de significação, e também se constrói na relação 
com os demais objetos culturais, pois está inserido em uma sociedade, em um 
momento histórico e é determinado por formações ideológicas específicas, enquanto 
objeto de comunicação. 
Nesse sentido, pode ser definido por uma organização linguístico-discursiva e 
pelas determinações sócio-históricas, e construído, dessa forma, por dois tipos de 
mecanismos e de procedimentos que muitas vezes se confundem e misturam, o texto, 
objeto da semiótica, pode ser tanto um texto linguístico, indiferentemente oral ou 
escrito, quanto um texto visual, olfativo ou gestual, ou, ainda, um texto que se 
sincretizam diferentes expressões, como nos quadrinhos, nos filmes e nas canções 
populares. 
 
Procedimentos linguístico-discursivos 
Diana Barros postula que a semiótica procura explicar os sentidos do texto e, 
para isso, examina os mecanismos e procedimentos de seu plano do conteúdo. O 
plano do conteúdo de um texto é concebido metodologicamente, sob a forma de 
um percurso gerativo. 
 
Percurso gerativo dos sentidos 
A autora elenca alguns elementos da noção de percurso gerativo: 
 a) o percurso gerativo vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto. 
Dessa forma, há um enriquecimento e concretização do sentido da etapa mais simples 
e abstrata à mais complexa e concreta, ou seja, os elementos que se manifestam na 
superfície do texto estão enriquecidos e concretizados e provêm, metodologicamente, 
de relações semânticas mais simples e abstratas; 
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58 LETRAS 
 b) são determinadas três etapas no percurso, podendo cada uma delas ser 
discutida e explicada por uma gramática autônoma, muito embora o sentido do texto 
dependa da relações entre os níveis; 
 c) a primeira etapa do percurso,a mais simples e abstrata, é o nível fundamental e 
nele a significação se apresenta s como um oposição semântica; 
 d) no segundo nível, o narrativo, organiza-se a narrativa do ponto de vista de um 
sujeito; 
 e) finalmente, a terceira etapa, a mais complexa, é a discursiva, em que a 
organização narrativa vai-se tornar discurso, graças aos procedimentos de 
temporalização, espacialização, actorialização, tematização e figurativização, que 
completam o enriquecimento e a concretização semântica já mencionados. 
Segundo a autora, no nível mais abstrato e simples, o das estruturas 
fundamentais, os sentidos do texto são entendidos como uma categoria ou oposição 
semântica, cujos termos são: 
 
1. Determinados pelas relações sensoriais do ser vivo com esses conteúdos e 
considerados atraentes ou eufóricos e repulsivos ou disfóricos; 
2. Negados ou afirmados por operações de uma sintaxe elementar; 
3. Representados e visualizados por meio de um modelo lógico de relações 
denominado quadro semiótico. 
 
A segunda etapa do percurso, postulada pela autora, é a das estruturas 
narrativas. A conversão do nível fundamental ao narrativo pode ser sintetizada em 
três pontos: 
 
1. introdução do sujeito - em lugar das operações fundamentais, ocorrem 
transformações narrativas operadas por um sujeito; 
2. as categorias semânticas fundamentais tornam-se valores do sujeito e são 
"inseridas" nos objetos e com que o sujeito se relaciona; 
3. as determinações tensivo-fóricas fundamentais convertem-se em 
modalizações que modificam as ações e os modos de existência do 
sujeito e suas relações com os valores. 
 
 
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59 LETRAS 
Na última etapa do percurso gerativo do sentido, ou seja, no nível discursivo, 
a narrativa vai ser colocada no tempo e no espaço, os sujeitos, os objetos, os 
destinatários da narrativa, os actantes, vão tornar-se atores do discurso, graças 
a investimentos semânticos e de pessoa, os valores dos objetos vão ser disseminados 
como temas e transformados, sensorialmente, em figuras. 
 
 
 
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60 LETRAS 
Aula 24_Contribuições de Bakhtin 
 
Todo homem, enquanto sujeito histórico constitui-se por meio da interação com 
o outro, em determinado contexto. Dessa forma, toda palavra procede de alguém, é 
dirigida a alguém, havendo, portanto, uma ligação entre um locutor e um ouvinte, ação 
que evidencia a natureza discursiva e dialógica da linguagem. 
O ser humano não pode se constituir fora de suas relações com o outro, pois é 
o outro que o completa, que traz a percepção do eu ou a imagem de sua totalidade. 
Assim sendo, os enunciados de um interlocutor estão impregnados pelo enunciado do 
outro, trata-se de um processo de interação verbal, realizado por meio de trocas de 
enunciados, que, segundo o contexto histórico-social, darão ao emissor a percepção 
do grau de aceitação ou rejeição daquilo que propõe. 
Assim, por meio da palavra, a comunicação social é materializada, 
transformada em fenômeno ideológico que veicula o sentido daquilo em que se 
acredita, por que se luta e que se propõe. Os sujeitos que fazem parte do processo 
de interação estão marcados pelos valores de sua época, os quais permeiam toda a 
interação e determinam a atitude compreensiva do ouvinte. Assim sendo, todo ato 
comunicativo tem caráter discursivo, por isso é inevitável que todo estudo da língua 
leve em conta o seu papel na comunidade linguística que a utiliza. Essa comunidade 
compõe-se de diversos grupos sociais, com diferentes costumes, crenças e valores 
que usam a língua – objeto que está impregnado de conteúdo ideológico. Por esta 
razão, é preciso que a consideremos em seu contexto de enunciação e em seu 
contexto histórico-social. Qualquer enunciado produzido deve ser analisado a partir 
de suas condições de produção, já que esse enunciado é constituído de/por um sujeito 
histórico, ideológico e social, que dialoga com seu tempo e com os outros sujeitos. 
Esse diálogo está presente nas situações do cotidiano e, também, se manifesta 
na obra literária: 
 
 A obra, assim como a réplica do diálogo, visa à resposta do outro (dos 
outros), uma compreensão responsiva ativa, e para tanto adota todas as 
espécies de formas: busca exercer uma influência didática sobre o leitor, 
convencê-lo, suscitar sua apreciação crítica, influir sobre êmulos e 
continuadores, etc. A obra predetermina as posições responsivas do outro 
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61 LETRAS 
nas complexas condições da comunicação verbal de uma dada esfera 
cultural. A obra é um elo na cadeia da comunicação verbal; do mesmo modo 
que a réplica do diálogo, ela se relaciona com as outras obras-enunciados: 
com aquelas a que ela responde e com aquelas que lhe respondem, e, ao 
mesmo tempo, se assemelham à réplica do diálogo, uma obra está separada 
das outras pela fronteira absoluta da alternância dos sujeitos falantes. 
(Bakhtin, 1979, p.298) 
 
Toda obra é um elo que se relaciona com obras-enunciados. Na conversação 
cotidiana, no discurso da ciência, o traço distintivo é o diálogo entre textos. As palavras 
foram de alguma forma, usadas em outros momentos e carregam em si traços de 
seus usos anteriores. 
 
 
 
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62 LETRAS 
Aula 25_O dialogismo de Bakhtin 
 
A concepção de dialogismo proposta por Bakthin deixa evidente que o discurso 
do "eu" é concebido em função do "outro", para o qual o discurso é orientado. O 
“outro” condiciona e permeia o discurso do "eu". Trata-se de um fenômeno 
social, entre parceiros discursivos, durante a interação oral ou escrita. 
O princípio do dialogismo como próprio da língua é visível na língua, nas 
marcas de interatividade com o leitor. Na análise dos gêneros encontram-se indícios 
que deixam à mostra atos de interatividade que sugerem uma relação direta e 
intencional do autor com o suposto leitor. 
Para Dias (2005), a evidência do dialogismo se dá pelo grau de definição do 
interlocutor, nos gêneros examinados e em suas formas de manifestação. Essas 
formas podem ser observadas nos indícios de orientação para um interlocutor 
determinado: perguntas diretas (incluindo as de caráter retórico); indícios em face de 
leitores definidos, por exemplo, na proposta de uma tese (uma espécie de declaração 
de intenções); na defesa ou explicitação da proposição: “Os argumentos desta tese 
são os seguintes(...)”; na antevisão de objeções: “Certamente haveria objeções a (...)”; 
na resposta a objeções: “... embora plausíveis, essas objeções podem...”; nos indícios 
de suposição de partilhamento: presença de verbos na segunda pessoa do plural, 
verbos epistêmicos (sabemos, vemos etc.); advérbios de modalização epistêmica 
(reconhecidamente; é verdade que etc.); explicitação do sentido de palavras etc.; 
indícios da fala de um interlocutor com o qual se dialoga: discurso direto em turno 
conversacional; indícios de oferta de orientação e seletividade - uso de 
dêiticos para fazer referência a algo dentro do próprio texto: leia acima, notas de 
rodapé, etc. 
Essas marcas são encontradas tanto em textos não-literários como em textos 
literários. No texto literário, ocorre um certo espelhamento do legado cultural, na 
medida em que as obras se refletem umas nas outras de diferentes formas. 
A palavra do outro se manifesta na materialidade do texto, nesse caso tem-se 
a intertextualidade. Ao falar em intertextualidade, é preciso citar também a memória 
discursiva que fornece os elementos já assinalados, que são incorporados e usados 
na formação de novos discursos. Há duas tendências na inter-relação entre os 
 
 
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63 LETRAS 
discursos do autor e o do outro: uma consiste em guardar a integridade do discurso 
do outro, nos seus limites nítidos e estáveis, por meio de esquemas linguísticos que 
isolam o discurso citado das interferências do próprio autor; a outra consiste em diluir 
o caráter fechado do discurso do outro: o locutor atenua os contornos da palavra do 
outro por meios sutis que são elaborados pelo manejo da língua: a ironia e a 
entonação, dentre outros. 
Emerge do interior de cada texto um diálogo entre os diferentes textos de uma 
cultura, entre vozes sociais diversas que afirmam a natureza polifônica dos discursos. 
Em cada enunciado há vozes que polemizam entre si, completando-se e respondendo 
umas às outras, pois a palavra traz em si a perspectiva de outras vozes. 
O sujeito, ao dividir seu espaço com o outro, reforça a subjetividade e a 
heterogeneidade do sentido. A presença do outro pode ser percebida, na linguagem 
escrita, quando o locutor, sem interromper seu discurso, inscreve as palavras do outro 
entre aspas, dentro de parênteses ou grafadas em itálico. Na modalidade oral, por 
meio da entonação e das pausas. 
Essas formas diferentes de marcar a presença do outro no enunciado, ou de 
mostrar a alternância das vozes, remetem a elementos composicionais do enunciado 
que permanecem visíveis em um texto. 
Há no enunciado três grupos diferentes desses elementos: os que se referem 
ao conteúdo temático; os que remetem ao estilo - os recursos lexicais, fraseológicos 
e gramaticais; e aqueles que sustentam a construção composicional. Esses elementos 
formam o conjunto do enunciado, influenciados pela respectiva esfera de 
comunicação. No texto literário, a diversidade dos gêneros oferece possibilidades 
diferentes, pois o locutor se ajusta a tipos de enunciados estáveis, chamados de 
gêneros do discurso, de tal modo que o interlocutor reconheça o gênero do discurso 
do qual se fez uso. 
Cada esfera de atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que 
se diferencia, à medida que a esfera se desenvolve e fica mais complexa. 
Bakhtin distingue os gêneros como primários e secundários. Os primários são 
aqueles voltados para uma comunicação espontânea: réplica do diálogo, 
cartas, etc. Os secundários são mais complexos e distantes de uma relação 
imediata com a realidade, estão cristalizados no meio cultural. (BAKHTIN,) 
 
 
 
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64 LETRAS 
No enunciado, percebe-se o intuito discursivo do locutor, elemento subjetivo 
que é combinado com o objeto do sentido, visto como elemento objetivo que forma a 
unidade de sentido que se materializa por meio do gênero que foi escolhido, 
organizado com essa finalidade. 
Nessa organização. Percebe-se a individualidade do produtor na entonação 
expressiva, nas marcas que evidenciam o conteúdo valorativo e emocional do intuito 
discursivo. As marcas de um estilo individual de enunciado são definidas pelos 
aspectos expressivos. Nesse sentido, a entonação expressiva pertence ao enunciado 
e não à língua, conforme Bakhtin. O sujeito que escreve é aquele que se dirige aos 
leitores, num dado momento e numa dada situação. 
A partir do exame realizado por Bakhtin sobre o romance, ficou evidente que 
todo sujeito absorve vozes sociais da comunidade linguística e fala sobre objetos já 
falados produz diálogos entre pontos de vista diferentes, ou mesmo tendências 
contraditórias. 
A significação do discurso é tomada como expressão da situação que a gera e 
determinada pelas formas linguísticas que a compõem: palavras, formas sintáticas e 
morfológicas, sons, entonação e aspectos extra-verbais da situação. O enunciado é 
composto de duas partes: uma verbal e uma não verbal (situação do enunciado que 
é composta de três aspectos: o tempo e o espaço do acontecimento; o tema do 
enunciado; a posição dos interlocutores em relação ao acontecimento, ou seja, sua 
avaliação). 
Para Bakhtin, um tema é carregado de valores, relacionados ao horizonte 
ideológico comum aos interlocutores. A expressão de valor pode ser perceptível no 
gesto, no movimento de cabeça, na voz, pois na linguagem há os meios semânticos 
e não semânticos (ou fônicos), como por exemplo, a entonação para expressá-los. 
Os efeitos semânticos resultam da seleção e combinação realizadas pelo 
sujeito. Os meios seletivos referem-se à escolha de material lexical de metáforas, 
epítetos, escolha temática. A combinação remete à organização de sintagmas, frases, 
orações, períodos, ordem das palavras no texto, topicalizações, opção por períodos 
mistos, coordenados ou subordinados. 
Bakhtin (1997,1999,2003) insiste no caráter social dos fatos de linguagem, 
considerando o enunciado como o produto da interação social, determinado não só por 
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65 LETRAS 
uma situação material concreta como também pelo contexto mais amplo que constitui 
o conjunto das condições de vida de uma dada comunidade linguística. Insiste sobre a 
diversidade das atividades sociais exercidas pelos diversos grupos e, 
consequentemente, sobre a diversidade das produções de linguagem a elas 
relacionadas: a língua usada no cotidiano, a língua usada no trabalho, as narrações 
literárias, as peças jurídicas, os textos políticos etc. constituem sistemas diferentes e 
atestam a necessidade de uma competência poli-linguística fundamental por parte 
de todo falante. 
A riqueza e a diversidade das produções de linguagem neste universo são 
infinitas, mas organizadas. Bakhtin estende os limites da competênciapara além da 
frase, na direção dos "tipos relativamente estáveis de enunciados” o que ele chama de 
" sintaxe das grandes massas verbais”, "os grandes comportamentos verbais", “o 
modo discursivo", isto é, os gêneros discursivos, para os quais os seres humanos 
são sensíveis desde o início de suas atividades e de linguagem. 
 
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66 LETRAS 
Aula 26_Grice e suas máximas 
 
Paul Grice ocupou-se das relações entre o significado e a intencionalidade, ou 
seja, o que um falante “sugere”, “indica”, “insinua”, quando fala. O que é “sugerido”, 
“indicado”, “insinuado”, etc. é identificado pelo ouvinte/leitor, não através da 
descodificação do significado linguístico, mas através de inferências. 
Trata-se de uma implicatura - o que é dito pode ser inferido. O que é dito e a(s) 
implicatura(s) (caso haja implicaturas) constituem a significação total de uma elocução 
em os significados que são comunicados, mas não são ditos, estão implícitos. São 
termos usados por Grice: 
• implicar (ou implicitar), 
• implicado (ou implicitado), 
• implicatura. 
 
Grice estabelece a diferença entre os enunciados que não são ditos, mas estão 
“indicados” pelo material linguístico – o que seria IMPLICATURA CONVENCIONAL. 
Exemplo de implicatura convencional seria “Ela é inteligente, mas pobre” - implica 
convencionalmente ( “mas”) - há um contraste entre o fato de ser inteligente e o fato 
de ser pobre. 
Os comunicados que não são ditos nem indicados pelo material linguístico, 
mas comunicados numa situação de conversação – seriam as IMPLICATURAS 
CONVERSACIONAIS. 
O conteúdo de verdade do enunciado, ou seja, as suas condições de verdade 
– a informação sobre o que seria o caso se o enunciado fosse verdadeiro. Assim, (1) 
“Ela é bonita e correta” e “Ela é bonita, mas correta” têm as mesmas condições de 
verdade (a conjunção é verdadeira se somente se cada uma das expressões é 
verdadeira) -“o que é dito” (no sentido de Grice) pelos dois enunciados é 
o mesmo. Mas (2)implica (convencionalmente) um contraste – contraste que não 
interfere nas condições de verdade. As implicaturas convencionais são em número 
reduzido. 
A conversação obedece a princípios gerais da ação racional quando se quer 
cooperar: “Princípio Cooperativo”. Há várias máximas: 
 
 
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67 LETRAS 
 
1. Quantidade-Faça com que a sua contribuição seja tão informativa quanto o 
requerido (pelos propósitos correntes da conversação). Não faça a sua contribuição 
mais informativa que o requerido. 
 
2. Qualidade sua contribuição deve ser verdadeira. 
(1) Não diga aquilo que acredita ser falso. 
(2) Não diga aquilo para que não tem evidência suficiente. 
 
3.Relação- seja relevante 
 
4. Modo - seja claro. 
(1) Evite obscuridade de expressão. 
(2) Evite a ambiguidade. 
(3) Seja breve. 
(4) Seja ordenado. 
 
O P.C. e as máximas orientam as expectativas dos participantes numa situação 
de comunicação verbal. 
A audiência procura identificar as implicaturas conversacionais intencionadas 
pelo comunicador. Pode-se gerar implicaturas sem violar as máximas. Mas também 
se pode fazê-lo violando ostensivamente as máximas (ou seja, “explorando” as 
máximas). 
 
Implicaturas conversacionais particularizadas (dependentes do contexto de 
comunicação). 
A: Estou sem gasolina. 
B: Há uma bomba ao virar da esquina. 
 
Implicaturas conversacionais generalizadas (não dependem do contexto) 
Pedro tem três filhos. -Implicatura: Pedro não tem mais de três filhos. 
 
 
 
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68 LETRAS 
 
Critérios para a identificação de implicaturas conversacionais: 
(1) Podem ser canceladas (é possível negar o que é implicado, sem 
contradição) 
(2) São “não destacáveis” (à exceção das implicaturas que exploram as 
máximas de modo) 
(3) São calculáveis (é possível reconstruir um raciocínio que conduz do “que é 
dito” para a implicatura). 
 
 
 
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69 LETRAS 
Aula 27_Os atos de fala 
 
A Teoria dos Atos de Fala surgiu nos anos sessenta, tendo sido posteriormente 
apropriada pela Pragmática. Os princípios da teoria foram postulados por alguns 
filósofos da Escola Analítica de Oxford, como o inglês John Langshaw Austin (1911-
1960),que foi seguido por John Searle e outros. 
Para esses estudiosos, a linguagem é uma forma de ação, por isso eles 
estudaram os processos relacionados aos diversos tipos de ações humanas que são 
produzidas a partir de enunciados. 
Austin (1962) distinguiu dois tipos de enunciados: os constativos e os 
performativos. Os enunciados constativos buscam relatar ou descrever um estado 
de coisas que são verificáveis, ou seja, que são verdadeiros ou falsos como as 
afirmações, descrições ou relatos: O Sol é um astro. 
Os enunciados performativos são produzidos na primeira pessoa do singular 
do presente do indicativo, na forma afirmativa e na voz ativa, tendo-se assim uma 
ação: Eu te perdoo; Declaro aberta a sessão. 
Quando são proferidos, esses enunciados realizam a ação denotada pelo 
verbo: condenar, perdoar, abrir uma sessão, etc.. Logo, dizer algo é fazer algo. Mas 
para que a ação do enunciado performativo seja realizada, são necessárias 
determinadas circunstâncias. Quando um enunciado performativo é pronunciado em 
circunstâncias inadequadas, ele fracassa: se uma criança numa palestra diz: Declaro 
aberta a palestra, o performativo não se realiza porque a criança não tem autoridade 
para abrir a sessão. São necessárias "condições de felicidade” para a realização de 
um enunciado performativo. 
 
As principais são: 
• ter autoridade para executar o ato; 
• as circunstâncias devem ser apropriadas. 
Austin tentou elaborar critérios gramaticais para os enunciados performativos, mas 
percebeu que não era possível estabelecer com clareza esse critério. O que ele 
 
 
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conseguiu identificar e classificar foram três atos simultâneos que se realizam nos 
enunciados: o locucionário, o ilocucionário e o perlocucionário. Quando se diz: Eu 
prometo que farei a lição de casa hoje à noite, há: o ato de enunciar os elementos 
linguísticos que compõem a frase - ato locucionário; no momento em que se enuncia 
realiza-se o ato ilocucionário: o ato que se realiza na linguagem. E por fim, o resultado 
desse ato pode ser compreendido como ameaça, agrado ou desagrado - ato 
perlocucionário- ato que se realiza pela linguagem. 
 A Teoria chamou atenção para os elementos do contexto: quem fala com quem 
se fala, para que se fala, onde se fala, o que se fala, elementos que contribuem para a 
compreensão dos enunciados. 
 
 
 
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Aula 28_Gramática: o ponto de vista normativo / descritivo 
 
A gramática tradicional fundamentou sua análise na língua escrita. Sendo 
assim, difundiu falsos conceitos sobre a natureza da linguagem, pois além de não 
reconhecer a diferença entre língua escrita e língua falada, considerou a expressão 
escrita como modelo de correção para toda e qualquer forma de expressão linguística. 
Desde sua origem, a gramática tradicional teve um caráter prescritivo: desde 
Panini, os gramáticos tinham como objetivo, além de descrever minuciosamente a 
língua, prescrever o uso correto. Dessa forma, ainda hoje, a tradição normativa é 
modelo, visto que fornece argumentos para se acreditar que existe uma maneira de 
correta de se usar a língua. Portanto, se por um lado, a norma da correção é prescrita 
por uma fonte de autoridade e, por conseguinte, as demais variedades são 
consideradas inferiores e incorretas; por outro, nas sociedades contemporâneas o 
falar certo ainda é valorizado, uma vez que a correção da linguagem está associada 
às classes altas e instruídas - uma das marcas distintivas das classes sociais 
dominantes. 
O gramático tem, portanto, o objetivo de dizer o que é a língua, descrevê-la e 
dizer como deve ser a língua. Com isso, a conjunção do descritivo e do normativo 
realizada pela gramática tradicional assume uma só forma: a do uso considerado 
correto da língua. 
De um modo geral, é o único uso que a escola apenas difunde e estuda, não 
se atendo a um conhecimento mais amplo da diversidade e variedade dos usos 
linguísticos. 
Para Margarida Petter, a abordagem da língua por meio de uma perspectiva 
normativa gera falsos conceitos. Esses conceitos são esclarecidos pela Linguística: 
- a língua escrita não pode ser modelo para a língua falada; 
- a fala precedeu a escrita; 
- verifica-se a diferença entre essas duas formas, desde sua organização até o 
seu uso social; 
- não há língua "mais lógica", melhor ou pior, rica ou pobre; 
- todas as línguas naturais possuem os recursos necessários para a 
comunicação entre os falantes; 
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- a fonologia, a sintaxe e o léxico demonstram as diferenças linguísticas. 
 
Os linguistas ressaltam ainda que não há evidências de uma língua que esteja 
próxima do princípio de uma escola evolutiva, e que possa ser considerada primitiva 
em relação a outras já evoluídas. 
As línguas estudadas constituem um sistema de comunicação estruturado, 
complexo e altamente desenvolvido. 
Não há traços que atribuam uma língua a sociedades agrícolas ou 
industrializadas. 
Linguística: o ponto de vista descritivo/explicativo 
 
Segundo Petter, os estudos linguísticos do século XIX aprofundaram a 
separação do conhecimento científico da língua da determinação de sua norma. 
A Linguísticahistórica defende que as mudanças linguísticas, de um modo geral, têm 
sua origem na fala popular, pois muitas vezes o errado de uma época passa a ser 
consagrado como a forma correta da época seguinte. 
Sabe-se que a visão prescritiva da linguagem não admite mais de uma forma 
correta, tampouco aceita a possibilidade de escolha, ou seja, que uma forma seja mais 
adequada para um uso do que outro. Logo, o formal, nessa visão, impera em relação 
ao coloquial. 
A abordagem descritiva, por sua visão, defende que as variedades do 
português não padrão são caracterizadas por um conjunto de regras gramaticais que 
diferem daqueles do uso padrão. O termo gramatical tem um valor descritivo, pois a 
gramática de uma língua ou de um dialeto é a descrição das regularidades que 
sustentam a sua estrutura. Portanto, a Linguística apenas descreve seu objeto como 
ele é, sem entrar no mérito sobre como a língua deveria ser. 
Sendo assim, com o objetivo de descrever a língua, a Linguística desenvolveu 
uma metodologia que visa analisar as frases realizadas reunidas num corpus 
representativo. Tal corpus é constituído por frases "corretas" (como a gramática 
normativa) e também de frases "erradas", que fazem parte da fala dos nativos, da 
língua sob análise. Embora a descrição dos fatos assim organizados não tenha 
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nenhuma pretensão normativa ou histórica, depreende a estrutura das frases, dos 
morfemas, dos fonemas e as regras que permitem a combinação destes. 
Para Petter, essa postura teórico-metodológica diante da língua imprime 
à Linguística um caráter científico, que, por sua vez, se fundamenta em dois 
princípios: o empirismo e a objetividade. Se por um lado, a Linguística é empírica pois 
trabalha com dados verificáveis por meio da observação; por outro, é objetiva pois 
"examina a língua de forma independente, livre de preconceitos sociais ou culturais 
associados a um visão leiga da sociedade". 
Até os anos 50, as análises linguísticas realizadas, não só pelos seguidores de 
Saussure (na Europa), como também, pelos norte americanos Bloomfield e Harris, 
eram descritivas, uma vez que julgavam a descrição dos fatos suficiente para explicá-
los. Todavia, Chomsky, a partir do final dos anos 50, propõe uma visão mais teórica e 
menos descritiva. 
Chomsky postula que, além de observar e classificar dados, é necessário 
explicar as frases produzidas pelo falante e as que potencialmente poderiam produzir. 
Chomsky e seus seguidores defendiam que um fenômeno só é explicado quando se 
pode deduzi-lo de leis gerais. Essa teoria que, denominada de gramática, passa a ser 
conhecida como teoria da gramática, trata de todas as frases gramaticais, ou seja, de 
todas as frases pertencentes à língua. Todavia, não se pode confundi-la com 
gramática normativa, pois não dita regras, apenas explica as frases realizadas e 
potencialmente realizáveis na língua proposta. "A intuição do falante é o único critério 
da gramaticalidade ou a gramaticalidade da frase, conceitos que não se confundem 
com a gramática normativa". Para Chomsky, a organização dos elementos 
linguísticos, que constituem uma sentença, é competência dos falantes. Nesse 
sentido, cabe ao falante a gramaticalidade da língua, uma vez que, a sequência de 
palavras é a gramatical quando não se respeita as regras gramaticais do sistema 
linguístico. Exemplo: Problema este muito difícil é. 
A gramática é gerativa, porque de um número limitado de regras permite gerar 
um número infinito de sentenças. Além disso, reflete o comportamento do locutor que, 
a partir de uma experiência finita e acidental da língua, pode produzir um número 
infinito de frases novas. 
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Os gerativistas preocupam-se em depreender propriedades comuns, universais 
da linguagem, que constituem a gramática universal (GU). As propriedades formais 
das línguas e a natureza das regras exigidas para descrevê-las são consideradas 
mais importantes do que a investigação das relações entre a linguagem e o mundo. 
A gramática funcional, baseada nos princípios do funcionalismo, não separa o 
sistema linguístico das funções que seus elementos preenchem. Sendo assim, leva 
em consideração o uso das expressões linguísticas na interação verbal. Para isso, 
inclui na análise da estrutura gramatical toda a situação comunicativa: o propósito do 
evento da fala, os participantes e o contexto discursivo. 
A teoria funcionalista está ligada à Escola Linguística de Praga, que teve 
origem no Círculo Linguístico de Praga, fundado em 1926. Dentro da perspectiva 
funcional da sentença consideram que a estrutura dos enunciados é determinada pelo 
uso e pelo contexto comunicativo em que ocorrem. Atualmente, os desdobramentos 
apresentados pelo funcionalismo defendem que a língua é, antes de tudo, instrumento 
de interação social usado para estabelecer relações comunicativas entre os usuários. 
Sendo assim, aproximam-se da sociolinguística, pois incluem o comportamento 
linguístico na ação mais ampla de interação social. 
Segundo Perry, as possibilidades explicativas expostas não são as únicas; ao 
contrário, "correspondem a diferentes abordagens da língua, que não se excluem, 
mas contribuem para compreender melhor o complexo fenômeno linguagem, que não 
se esgota no estudo das características internas à língua, em termos de propriedades 
formais do sistema linguístico, mas se abre para outras abordagens que considerem 
o contexto, a sociedade, a história". 
 
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Aula 29_O conhecimento implícito e explícito da língua 
 
Nesta aula, você refletirá a respeito dos tipos de conhecimento que o falante 
de língua detém. Em um ensaio em que discute a Sabedoria Gramatical Oculta ( que 
significa saber português), Mário Perini afirma que o falante traz consigo um 
conhecimento implícito da língua e que este saber é utilizado diariamente, pois, ao 
fazer uso desse conhecimento, ele é capaz de distinguir e aplicar as formas 
gramaticais de que necessita, embora não seja capaz de explicitar as razões de suas 
escolhas. Essa ideia se opõe à inculcada pelo ensino escolar de que não se conhece 
a língua, provocada por dois fatores que contribuem para que algumas pessoas 
afirmem que se fala de qualquer jeito. 
Perini diz que o primeiro fator é o de que se fala com uma facilidade muito 
grande, o segundo, inculcado pela escola, durante anos, é o de que não se conhece 
a língua. Para desfazer essa visão e defender a ideia de que se sabe, e muito bem, 
a língua, ele distingue dois tipos de conhecimento existentes sobre a língua: o 
implícito e o explícito. 
O conhecimento implícito é aquele adquirido informalmente: uma parte por 
imitação e outra, através de capacidades mais ou menos específicas herdadas 
geneticamente. 
 
Vamos partir de um exemplo: eu sou capaz de andar com razoável eficiência, 
e em geral ando bastante durante o dia. Nunca ninguém me chamou a 
atenção, insinuando que não ando corretamente, ou que deveria fazer um 
curso para aprender a andar melhor. Minha maneira de =andar atende às 
finalidades práticas às quais aplico essa atividade, e não se distingue 
notavelmente da maneira de andar da maioria dos meus conhecidos.No 
entanto, não sou capaz de explicar os processos musculares e nervosos que 
ocorrem quando ponho em prática essa minha habilidade tão corriqueira. A 
fisiologia do andar é para mim um completo mistério. Pergunta-se, então: 
tenho ou não tenho conhecimento adequado da habilidade de andar? A 
resposta é que tenho esse conhecimento em um sentido importante, ou seja, 
"sei andar" - tenho conhecimento implícito adequado da habilidade de andar. 
Já meu conhecimento explícito dessa habilidade é deficiente, pois sou 
incapaz de explicar o que acontece com meu corpo quando estou. O que nos 
 
 
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76 LETRAS 
interessa aqui é o seguinte: sou detentor de um conhecimento implícito 
altamente complexo e eficiente, e nesse sentido pode-se dizer que tenho 
muito pouco a aprender no que se refere a andar, O que eu não sei é explicitar 
o que faço para andar: não conseguiria dar uma aula a respeito ou colocar 
tudo no papel. (PERINI, 1997,p.14) 
 
O conhecimento implícito atende às finalidades práticas do falante e é 
empregado em qualquer tipo de atividade; e o explícito está associado a 
um conhecimento e uma reflexão consciente, laboriosa que permite explicar a 
língua. 
Baseando-se em seu conhecimento implícito, o falante faz uso de mecanismos 
da língua, toma decisões, julga como aceitável ou não construções como: 
1. Eu vi Raimundinho na TV. 
2. Nós vimos Marília na TV. 
3. Eu nos vi na TV. 
 
E você? Como percebe a língua? Quais conhecimentos são necessários para se 
comunicar? Para escrever? Para interagir? 
 
 
 
 
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77 LETRAS 
Aula 30_Gramática e língua - o que ensinar 
 
O que é conhecer uma língua? 
Conhecer a língua portuguesa significa dominar os conceitos da gramática 
normativa, descritiva, histórica, da linguística e de suas ramificações? 
Para o falante da língua, não há necessidade. Mas para um professor de língua 
portuguesa esses conhecimentos são necessários. Um professor de língua 
portuguesa precisa conhecer profundamente o conteúdo que leciona. Deve estar 
preparado para as necessidades dos alunos – deve ajudá-los a aperfeiçoar seus 
conhecimentos. 
O que é saber gramática? É reproduzir o que dizem os manuais - as regras 
prescritas pela Gramática? Saber as normas para o bem falar e escrever? 
E as demais variedades devem ser desconsideradas? 
As questões da língua podem ser abordadas a partir de uma outra perspectiva, 
ou seja, a descritiva: descrição de sua estrutura e funcionamento. Sendo assim, saber 
gramática significa ser capaz de distinguir nas expressões do idioma as categorias, 
as funções e as relações que entram em sua construção. 
Há, porém, outras concepções que consideram a língua como um conjunto de 
variedades utilizadas pelos usuários da língua durante a interação em dada 
situação comunicativa. Assim, saber gramática é ativar durante a 
atividade linguística as hipóteses sobre a língua, sobre seus princípios e regras. 
As gramáticas podem ser classificadas como: normativa; descritiva; 
internalizada; implícita; explícita; reflexiva; contrastiva; geral; universal; histórica e 
comparada. 
A gramática contrastiva mostra as diferenças e semelhanças entre diferentes 
variedades da mesma língua (dialetos regionais, língua oral e escrita, registro formal 
e coloquial etc.). 
Já a gramática reflexiva ajuda o aluno a construir significados por meio de 
perguntas, discussões. Logo, a gramática reflexiva pode ajudar a desenvolver 
a competência comunicativa do aluno, pois o professor deve descrever como 
funciona a língua e levá-lo a observar esses mesmos fatos. 
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De acordo com Travaglia (2002), o professor deve escolher qual tipo de ensino 
adotará: o ensino prescritivo, descritivo ou produtivo, ou os três tipos de abordagem, 
tendo em vista os objetivos que tem em vista. Se o objetivo é substituir os padrões 
de atividade linguística considerados errados, o professor opta pelo ensino prescritivo 
– utiliza-se a gramática normativa, para levar o aluno a dominar a norma padrão culto 
da língua. 
Quando o objetivo é mostrar como a linguagem funciona e suas características, 
a opção deve ser o ensino descritivo, pois o professor pode ajudar o aluno a 
desenvolver o pensamento científico, a capacidade de análise. 
Quando o objetivo é ensinar novas habilidades linguísticas, a opção é pelo 
ensino produtivo, dessa forma é possível ampliar o que o aluno já sabe. 
Nesta aula, você conheceu alguns dos tipos de gramática existentes e deve ter 
percebido a necessidade de adotar uma mudança de postura e de atitude, a fim de 
desenvolver as habilidades dos alunos. Não se esqueça de que um ensino produtivo 
deve demonstrar as diferenças entre os registros para que o aluno saiba reconhecê-
los e utilizá-los - distinguir os estilos, as diferentes variantes. 
 
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79 LETRAS 
Aula 31_O funcionalismo da língua 
 
A língua é vista na perspectiva funcionalista como um instrumento de 
comunicação que serve para estabelecer relações entre os usuários. Sendo assim, a 
expressão linguística media a intenção do falante e a interpretação do destinatário, 
pois há a intenção do falante e a recepção da informação do destinatário que também 
possui intenções. (grifos meus) 
O sujeito que fala faz escolhas que expressam uma informação que o 
destinatário deve interpretar, mas a interpretação dessa informação é feita a de 
acordo com a informação pragmática que ele já possui. Assim, nesse processo devem 
ser considerados: os papéis envolvidos nos estados de coisas designados pelas 
predicações (funções semânticas); a perspectiva selecionada para apresentação dos 
estados de coisas na expressão linguística (funções sintáticas); o estatuto 
informacional dos constituintes dentro do contexto comunicativo em que eles ocorrem 
(funções pragmáticas). 
Em Dik (1989, p.2), encontramos a seguinte afirmação: a especificação 
gramatical de uma expressão inclui a descrição semântica, não se admitindo a 
existência de uma sintaxe autônoma. Portanto, há uma relação de dependência entre 
semântica e sintaxe. Há, assim, conforme Dik camadas de organização da estrutura 
subjacente da frase. 
São três níveis de camadas: no primeiro nível está o predicador, que designa 
relações e propriedades, e os termos, que se referem a entidades; no segundo nível 
encontra-se a predicação, que designa um estado de coisas, uma 
codificação linguística que o falante faz de uma situação; no terceiro nível 
encontramos uma estrutura de ordem mais alta, a proposição, que designa um 
"conteúdo proposicional", ou seja, um fato possível; a proposição revestida de força 
ilocucionária e que constitui, no nível 4, a frase ("clause", em Dik), que corresponde a 
um ato de fala. 
Já para Halliday, há tipos de funções diferentes - metafunções: a "textual", 
a "ideacional" e a "interpessoal". Para ele, a "oração" é a "realização simultânea" de 
três "significados": uma "mensagem" (significado como relevância para o 
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80 LETRAS 
contexto), uma "representação" (significado no sentido de "conteúdo"), uma "troca" 
(significado como forma de ação). 
Assim, o sistema de transitividade tem a função de especificaros papéis dos 
elementos da oração, ou seja, codifica a experiência do mundo, e liga-se, pois, com a 
função ideacional; o sistema de modo (do qual deriva o de modalidade), especificando 
funções como "sujeito", "predicador", "complemento", "finitude", diz respeito aos 
papéis da fala, e liga-se, pois, com a função interpessoal; os sistemas de tema e de 
informação, especificando as relações dentro do próprio enunciado, ou entre o 
enunciado e a situação, dizem respeito à função linguisticamente intrínseca, a função 
textual. Dentro de cada sistema, as escolhas se fazem com respeito a um determinado 
nível gramatical. (NEVES,2007) 
Fica, portanto, evidente que no nível da frase há uma obrigatoriedade de 
escolha referente ao sistema de modo, já que toda e qualquer frase há de ser ou 
declarativa, ou interrogativa, e, assim por diante. 
Cada sistema maior implica subsistemas, nos quais o modo de operação se 
repete, levando a escolhas cada vez mais específicas. Cada elemento da língua é 
explicado por referência à sua função no sistema linguístico total. Nesse sentido, uma 
gramática funcional é aquela que constrói todas as unidades de uma língua - suas 
orações, suas expressões - como configurações orgânicas de funções, e, assim, tem 
cada parte interpretada como funcional em relação ao todo. 
Há em Hengeveld (1989) um modelo de análise da frase em dois níveis, em 
que se pode ver uma certa integração do funcionalismo da escola da Holanda (Dik e 
seguidores) com o de Halliday. Hengevald propõe: 1 - uma representação – em que 
há o evento narrado e o enunciatário compreende se esta situação (real ou não) se 
refere a algo; 2 - interpessoal – uma relação com o evento de fala, logo o 
enunciatário deve reconhecer a intenção comunicativa do enunciador. No nível 
representacional estão os estados de coisas, entidades às quais as sentenças (como 
"expressões referenciais", que ocorrem em algum tempo e lugar) se referem. No nível 
interpessoal há uma estrutura ilocucionária abstrata, que expressa a relação entre o 
falante, o destinatário e a mensagem, ou conteúdo transmitido. 
 
 
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81 LETRAS 
É preciso observar que os modelos de análise desses autores sempre 
estabelecem uma relação entre o que se fala, o modo como se fala e a intenção e a 
recepção daquele que vai dar sentido ao que foi dito. 
 
 
 
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82 LETRAS 
Aula 32_A frase na perspectiva funcionalista 
 
Quando se faz análise numa perspectiva funcionalista, é preciso compreender 
que as regras e os princípios da gramática são percebidos mais como tendências do 
que como regras absolutas com condições rígidas de aplicação. É preciso aceitar 
também a variabilidade da língua no espaço e no tempo, isto é, aceitar que as línguas 
têm um caráter dinâmico. 
Na perspectiva funcionalista, a frase, também chamada de "cláusula", expressa 
a combinação de dois eventos: aquele que é o narrado e aquele da fala. Assim, a 
predicação possui duas funções: designa o estado de coisas no nível 
representacional (a "predicação" de Dik); representa o conteúdo do ato de fala no nível 
interpessoal (a "proposição" de Dik). Quando se parte da predicação, passa-se, em 
seguida, à expressão referencial; à expressão referente à unidade de informação (ou 
conteúdo transmitido em um ato de fala); e finalmente, à fala real. 
No modelo de Halliday, há uma relação sistemática entre a análise linguística e 
o contexto de ocorrência dos enunciados. Assim, há três variáveis situacionais de 
registro associadas aos componentes metafuncionais do sistema linguístico: o 
"campo" do discurso (a atividade social implicada), ligado ao componente 
experiencial; o "teor" do discurso (a distância social entre os participantes), ligado ao 
componente interpessoal; o "modo" do discurso (o canal entre os participantes), ligado 
ao componente textual. 
Verifica-se que há duas possibilidades como base para a organização da 
teoria linguística, numa gramática funcional sistêmica, como a de Halliday: a "cadeia" 
(o sintagma) e a "escolha" (o paradigma). 
 
A gramática é o mecanismo linguístico que liga umas às outras as seleções 
significativas que derivam das várias funções da linguagem, e as realiza numa 
forma estrutural unificada. A gramática organiza as opções em alguns conjuntos 
dentro dos quais o falante faz seleções simultâneas, seja qual for o uso que esteja 
fazendo da língua (HALLIDAY, 1973, p.364). 
 
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83 LETRAS 
A questão das "escolhas" tem de ser vista, também, dentro da dicotomia 
restrições/escolhas que representa a própria duplicidade básica implicada no 
complexo em que se constitui a atividade linguística dos falantes. 
A competência linguística dos sujeitos é entendida, numa teoria funcionalista 
da linguagem, como a capacidade que os falantes têm não apenas de acionar a 
produtividade da língua (jogar com as restrições), mas também - e primordialmente - 
de proceder a escolhas comunicativamente adequadas (operar as variáveis dentro do 
condicionamento ditado pelo próprio processo de produção). As diversas modalidades 
de língua (falada e escrita) e os diversos registros (tenso, frouxo) têm as mesmas 
regularidades (tanto nas estruturas como nos processos), e a mesma gramática. As 
diversas modalidades e os diversos registros têm, entretanto, características 
diferentes e peculiares, ligadas à própria implementação das determinações do 
sistema, para a qual, em princípio, são relevantes as condições de produção. 
 
Portanto, pode-se dizer que o sistema é o mesmo, mas que o aproveitamento 
das possibilidades é dependente das condições de produção. 
 
http://campus20162.unimesvirtual.com.br/mod/book/view.php?id=33525transmitir mensagens e comunicar suas necessidades. 
A linguagem humana utiliza recursos de expressão de maneira muito mais 
complexa do que a comunicação física dos animais. 
Assim temos a linguagem matemática, a científica, a esportiva, a visual, a 
gráfica. Cada profissão possui uma linguagem própria, usada por aquele grupo, 
expressa através da língua – códigos verbais. 
 
Logo, o conceito de língua compreende o conjunto de sinais (palavras) e de 
leis combinatórias por meio do qual as pessoas de uma comunidade se comunicam 
e interagem, trata-se, portanto, de um fenômeno social, humano. 
 
Existe linguagem animal? 
Não há linguagem, apesar dos estudos do zoólogo alemão Karl von Frisch 
sobre o sistema de comunicação usado pelas abelhas demonstrarem que as abelhas 
são capazes de compreender uma mensagem com muitos dados. Esse sistema de 
comunicação possui os elementos necessários para a existência da linguagem: há 
simbolismo- capacidade de formular e interpretar um signo, há também a memória 
da experiência e aptidão para analisá-la. Assim como a linguagem humana, todos 
os membros da comunidade são aptos a empregá-lo e compreendê-lo da mesma 
forma. Todavia, há diferenças consideráveis entre a comunicação das abelhas e a 
linguagem humana: 
- não há aparelho vocal nem diálogo; 
 
 
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6 LETRAS 
- a abelha não constrói uma mensagem a partir de outra mensagem; 
- o conteúdo da mensagem da abelha é o alimento e a única variação possível refere-
se à distância e à direção; o conteúdo da linguagem humana é ilimitado; a mensagem 
da abelha não pode ser analisada, decomposta, em elementos menores. 
Portanto, a comunicação das abelhas é um código de sinais, que apresenta um 
conteúdo fixo, mensagem invariável, relação a uma só situação, transmissão unilateral 
e enunciado indecomponível. 
 
Na próxima aula, trataremos do conceito de linguagem verbal e não verbal. 
 
 
 
 
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7 LETRAS 
Aula 02_Linguagem verbal e não verbal 
 
O assunto desta aula continua sendo a linguagem. Tratamos agora do 
conceito de linguagem verbal e não verbal e de suas relações. 
Comecemos lembrando que nosso contato com os símbolos se dá desde que 
nascemos e se evidencia em diversos momentos da vida, por exemplo, quando 
falamos ou escrevemos. 
Ao falarmos ou escrevermos, podemos ser questionados ou nos 
questionarmos, buscando uma maior compreensão dos fatos ou acontecimentos e, 
assim, podemos encontrar nesse processo visões diferentes e também modificar 
nossa visão e mudar de posição. Por exemplo, podemos reformular o que falamos ou 
escrevemos durante o processo de interação,pois a compreensão da mensagem nem 
sempre ocorre, havendo assim necessidade de reformulações, esclarecimentos. 
Quando vemos a capa de um jornal, ou observamos o traçado de um desenho, 
ou o traçado de uma rodovia, ficamos curiosos ou surpresos com acontecimentos ou, 
no caso do desenho ou da rodovia, pela grandiosidade do projeto esquecemo-nos 
assim da mensagem propriamente dita e das relações de poder que regulam as 
atividades de produção e recepção dos discursos e de sua construção simbólica. 
Vários linguistas preocuparam-se em explicar a linguagem verbal e sua 
configuração. Saussure propôs que a unidade mínima da língua seja chamada 
de signo linguístico e que este é constituído de duas partes: significante e significado. 
Com relação à linguagem não verbal, Charles S. Peirce apresentou algumas 
definições associadas à cultura e às relações entre os elementos que compõem a 
linguagem. 
É preciso pensar nessas relações e nas semelhanças e diferenças entre a 
linguagem verbal e a não verbal. Uma diferença formal pode ser observada entre 
elas. 
Trata-se do tipo de suporte que é utilizado por uma ou por outra. Esse suporte 
é o som na linguagem verbal falada, o traço na linguagem verbal escrita, mas 
é muito variado nos diversos tipos de linguagem não verbal, incluindo desde 
os mais diversos grafismos das artes plásticas até a utilização de formas, 
cores e volumes. (CORRÊA, 2002, p.16) 
 
 
 
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8 LETRAS 
Portanto, é preciso observar que esses elementos revelam o trabalho simbólico 
realizado pelo sujeito, os vínculos entre a enunciação de uma proposição e um 
referente. Essa vinculação depende sempre da relação dialógica que se estabelece 
entre os interlocutores (CORRÊA, 2002). 
É preciso lembrar que na linguagem não verbal o trabalho simbólico pode ser 
mais perceptível, aparentemente mais direta – relação entre um fenômeno natural e o 
significado que se atribui: as pegadas de um animal (índices) e o significado atribuído 
pelo caçador: a caça está próxima. 
Além dos índices, os ícones apresentam um tipo especial de vinculação: com 
a coisa denotada, na medida em que mantêm uma relação de semelhança 
com o objeto que representam. E o caso dos desenhos figurativos nas placas 
de trânsito, indicando, por exemplo, um posto de serviço por meio da figura 
de uma bomba de gasolina. 
As noções de índice e de ícone diferenciam-se da noção de símbolo por 
manterem um vínculo com a coisa significada, vínculo que falta na noção de 
símbolo. (CORRÊA, 2002, p.19) 
 Um outro exemplo de linguagem não verbal é a LIBRAS – Língua Brasileira de 
Sinais, utilizada por pessoas que apresentam deficiência auditiva. 
 
 
Fonte: portal do professor MEC 
 
Na próxima aula, trataremos do conceito de linguagem verbal e não verbal. 
Aula 03_A língua Portuguesa - Um percurso 
 
Na aula anterior, vimos o que é linguagem, o que é língua. 
 
 
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9 LETRAS 
Mas quando falamos de língua, de qual língua estamos falando? Que língua 
deve ser ensinada? 
Outra pergunta pertinente é: O que se tem ensinado nas escolas brasileiras? A 
resposta tem sido: a Norma Padrão da Língua Escrita. 
Mas e a língua que se modifica, que se fala tem ficado em segundo plano. Por 
isso é preciso pensar na riqueza de nossa língua: de seus regionalismos, gírias, 
estrangeirismos e variações. 
Conforme encontramos em documentos como o PCN, o domínio da língua 
possibilita a plena participação social, pois é por meio dela que o homem se comunica, 
tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói 
visões de mundo, produz conhecimento. 
Sendo assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social 
e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de garantir a todos os seus 
alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania. 
Cabe à escola promover a sua ampliação de forma que, progressivamente, 
durante os oito anos do ensino fundamental, cada aluno se torne capaz de interpretar 
diferentes textos que circulam socialmente, de assumir a palavra e, como cidadão, de 
produzir textos eficazes nas mais variadas situações. 
 
Linguagem e atividade discursiva 
A linguagem na perspectiva do PCN é uma forma de ação interindividual 
orientada por uma finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza 
nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos 
momentos da sua história. 
Dessa perspectiva, a língua é um sistema de signos histórico e social, 
aprender a língua é aprender não só as palavras, mas também os seus significados 
culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem 
e interpretam a realidade e a si mesmas. 
Assim, a linguagem verbal possibilita ao homem representar a realidade física 
e social e, desde o momento em que é aprendida. Possibilita não só a representação 
e a regulação do pensamento e da ação, mas também comunicar ideias, pensamentos 
e intençõesde diversas naturezas. 
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10 LETRAS 
Não é possível dizer algo a alguém sem ter o que dizer. E ter o que dizer, por 
sua vez, só é possível a partir das representações construídas sobre o mundo. 
Também a comunicação com as pessoas permite a construção de novos modos de 
compreender o mundo, de novas representações sobre ele. A linguagem, por realizar-
se na interação verbal dos interlocutores, não pode ser compreendida sem que se 
considere o seu vínculo com a situação concreta de produção. É no interior do 
funcionamento da linguagem que é possível compreender o modo desse 
funcionamento. Produzindo linguagem, aprende-se linguagem. 
Produzir linguagem significa produzir discursos: dizer algo para alguém, de uma 
determinada forma, num determinado contexto histórico – escolher o que e como 
dizer, o que se acredita que o interlocutor saiba sobre o assunto, do que se supõe 
serem suas opiniões e convicções, da relação de afinidade e do grau de familiaridade 
que se tem, da posição social e hierárquica que se ocupa em relação a ele e vice-
versa. Isso tudo pode determinar as escolhas que serão feitas com relação ao gênero 
no qual o discurso se realizará a seleção de procedimentos de estruturação e, 
também, à seleção de recursos linguísticos. 
 
 
 
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11 LETRAS 
Aula 04_Origens 
 
Nesta aula, trataremos das origens da língua portuguesa. A língua portuguesa 
falada no Brasil vem do Português de Portugal, e este vem do Latim vulgar cuja origem 
é de raiz indo-europeia. 
As línguas neolatinas, como a língua portuguesa, tiveram sua origem no latim 
falado – latim originado na região do Lácio, região central da Itália antiga. 
O latim vulgar teve uma expansão bastante rápida devido ao domínio bélico e 
político de Roma. 
 
A língua portuguesa formou-se como língua específica, na Europa, pela 
diferenciação que o latim sofreu na Península Ibérica durante o processo de 
contatos entre povos e línguas que se deram a partir da chegada dos 
romanos no século II a.C., por ocasião da segunda Guerra Púnica, no ano de 
218 a.C.. Na Península Ibérica o latim entrou em contato com línguas já ali 
existentes. Depois houve o contato do latim já transformado com as línguas 
germânicas, no período de presença desses povos na península (de 409 a 
711 d.C). Em seguida, com a invasão mulçumana (árabes e berberes), esse 
latim modificado e já em processo de divisão entra em contato com o árabe. 
Na primeira fase do processo de reconquista da Península Ibérica pelos 
cristãos, que tinham resistido no norte, os romances (latim modificado por 
anos de contato com outros povos e línguas) tomaram uma feição específica 
no oeste da península, formando o galego-português e em seguida o 
português. Formou-se paralelamente o Condado Portucalense e, a partir 
dele, um novo país, Portugal. Toma-se como data de independência do 
condado do reino de Castela e Leão a batalha de São Mamede em 
1128.(GUIMARÃES,2005) 
 
Depois de um longo período de mudanças correspondente a todo o final da 
chamada Idade Média, o português é levado para o Brasil, assim como para outros 
continentes, no momento das grandes navegações do final do século XV e XVI. 
Com o início efetivo da colonização portuguesa em 1532, a língua portuguesa 
entra em contato com povos que falavam outras línguas, as línguas indígenas, e 
acaba por tornar-se a língua oficial do Brasil. 
 
 
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12 LETRAS 
O português oficial era a língua utilizada por pessoas que faziam parte da 
administração da colônia e usada nos documentos oficiais. 
A população do Brasil era formada por índios, em sua maioria, e também por 
um número crescente de portugueses que vinham para a nova colônia. Mais tarde, 
vieram os negros para realizar o trabalho que os índios se negaram a realizar. 
A presença de índios, de escravos, a vinda de portugueses de diferentes 
regiões de Portugal cria um espaço para que convivam juntas as línguas e dialetos 
diferentes. Para impedir que as línguas gerais fossem faladas nas escolas, o governo 
português proibiu o uso das línguas gerais na colônia, obrigando os índios a falarem 
português. 
O português passou a ser a língua mais falada no Brasil. 
 
 
 
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13 LETRAS 
Aula 05_Que língua é essa? 
 
Na aula anterior, você pôde ver o quanto é relevante que o professor 
contextualize o uso dos diferentes falares de uma mesma língua e que deve, sim, 
ensinar a Norma Padrão, pois é impossível negar sua existência e importância, mas 
que deve, aos poucos, inserir o que chamamos de falar brasileiro, pois é assim que a 
criança ou o adolescente com quem vai lidar aprende ou aprendeu essa língua. 
Cabe ao educador visualizar e entender o papel do educando neste contexto. 
Se é na escola que a criança aprenderá a escrever, a transformar em símbolos a sua 
fala, é preciso que o educador saiba que este processo engloba condições pré-
existentes. Segundo João Wanderley Geraldi, qualquer relação da língua e da 
linguagem como agentes de comunicação pressupõe uma reflexão sobre o ato de 
compreender o outro e ser compreendido pelo outro. 
Esta compreensão passa, de maneira clara, pelo diálogo, pelas relações 
interpessoais. Ouvir o que o aluno tem a dizer, o que sabe sobre sua língua, sobre 
seu papel como sujeito desta língua, é fundamental para o processo de aquisição da 
competência da língua escrita. Produzir textos sejam orais ou escritos, faz com que o 
educando processe reflexões sobre sua competência linguística e construa um 
conhecimento sobre a língua prática, materna, a que ele conhece e não a que lhe é 
imputada! 
O educando, então, sem fórmulas mágicas, sem recursos milagrosos passará 
de uma posição passiva para uma posição ativa em termos de usuário da língua. 
Devemos respeitar e valorizar os diferentes falares, pois isto enriquece nossa língua 
e a faz viva. Por ser viva ela possui uma história, não surgiu do nada. Vem em um 
processo evolutivo. 
É de senso comum dizer que nossa língua vem do Português de Portugal e que 
o Português de Portugal vem do Latim vulgar. Como se esse fosse um processo 
simples, rápido e direto. Mas, em termos de língua, isto não ocorre de maneira linear. 
O português falado em Portugal vem de uma raiz chamada indo-europeia e é, 
comumente, chamada também de língua neolatina. 
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14 LETRAS 
São também neolatinas o romeno, o italiano, o francês, o espanhol, dentre 
outras. Na verdade o Português padrão de Portugal segue o seguinte processo 
histórico: 
Latim Vulgar →Galaico-Português →Português Moderno 
Do Português Moderno vem a nossa língua. Oficialmente chamada de Língua 
Portuguesa, mas que, como vimos, muitos autores já chamam de Língua Brasileira 
ou de Português Brasileiro. A nossa língua foi sendo modificada, atualizada por 
diversas culturas – árabe, italiana, espanhola, japonesa, judaica, alemã e, mais 
recentemente, pela cultura norte-americana. Com isso nossa língua foi enriquecendo, 
passando por um processo de ganho das variedades de palavras e significados, a 
ponto de ser, hoje, a sétima língua mais falada do mundo, tendo uma importância 
econômica e política muito grande, um mercado ainda pouco explorado e pouco 
utilizado. 
Mas, somos apenas nós que falamos uma variante do Português de Portugal? 
Há outros países, outras culturas, outros povos... 
Valorizar essas culturas, povos, países, também é funçãonossa, educadores 
de língua materna, propondo um processo de diálogo e de troca cultural que não fica 
só no exportar novelas e música para Portugal e de lá receber um pouco de literatura 
e muito de culinária. Esta visão mitificada e estereotipada precisa ser que brada e 
cabe a nós, fazer com que esse processo seja interrompido. 
 
 
 
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15 LETRAS 
Aula 06_A questão da variação linguística 
 
Uma característica das línguas é que as diferenças que apresentam decorrem 
do fato de que os falantes de uma comunidade linguística não são considerados iguais 
pela própria sociedade. As diferenças na linguagem são uma espécie de distintivo dos 
grupos e colaboram para constituir sua identidade. As variedades (ou os dialetos) 
correspondem em grande parte a grupos sociais relativamente definidos: os que 
residem numa região ou em outra; os que pertencem a uma classe social ou a outra; 
os que são mais jovens ou mais velhos; os que são homens ou são mulheres: os que 
têm uma profissão ou outra etc. (M B M Abaurre e S Possenti). 
Você já deve ter percebido que há situações em que a língua se apresenta sob 
uma forma bastante diferente daquela que você se habituou a ouvir em seu ambiente 
doméstico ou através dos meios de comunicação. Essa diferença pode manifestar-se 
tanto em termos do vocabulário utilizado como em termos da pronúncia, da morfologia 
e da sintaxe. Essa diferenciação é perfeitamente natural e decorre do fato de que as 
línguas naturais não são sistemas invariáveis e imutáveis no espaço e no tempo, 
mas sistemas dinâmicos e extremamente sensíveis a fatores como a região 
geográfica, o sexo, a idade, a classe social dos falantes e o grau de formalidade do 
contexto. 
Para que possamos compreender bem, portanto, os aspectos envolvidos na 
chamada variação linguística, é necessário entender aonde de fato querem chegar os 
nossos professores com o ensino das formas "certas". Seu objetivo, na verdade, é o 
de ensinar a chamada norma culta da língua portuguesa, aquela variedade 
reconhecida pelos falantes como de maior prestígio social, considerada adequada 
para uso oral nas situações públicas mais formais de interlocução e para uso escrito 
nos textos acadêmicos, nos livros, nos jornais e revistas de grande circulação. 
É muito importante deixar bem claro que, do ponto de vista estritamente 
linguístico, nada há nas variedades linguísticas em si que permita considerá-las boas 
ou ruins, melhores ou piores, feias ou bonitas, primitivas ou elaboradas, e assim por 
diante. Todas as variedades constituem sistemas linguísticos perfeitamente 
adequados para a expressão das necessidades comunicativas e cognitivas dos 
falantes, dadas as práticas sociais e os hábitos culturais de suas comunidades. 
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16 LETRAS 
Considerar determinadas variedades como melhores e estigmatiza-las. Por esse 
motivo, o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que deve ser 
enfaticamente combatida. 
 
As variedades regionais e sociais 
Um dos aspectos mais conhecidos da variação linguística é a diferenciação que 
caracteriza os chamados dialetos ou variedades regionais. Sabe-se, por exemplo, que 
as variedades faladas nos estados do Nordeste são diferentes daquelas faladas nos 
estados do Sul e que, no interior dessas regiões geográficas, podem também ser 
observadas diferenças entre os estados e mesmo entre regiões e cidades dos 
estados. 
É comum, por exemplo, ouvirmos referência aos chamados "dialeto mineiro", 
"dialeto baiano", "dialeto carioca", e outros. As diferenças devidas à região 
geográfica são mais marcantes em termos da pronúncia e do vocabulário. Assim, 
cada dialeto regional passa a ser representado pelos falantes dos demais dialetos 
com base nos seus aspectos fonéticos mais salientes e com base no uso de diferentes 
palavras para designar um mesmo referente: os cariocas são conhecidos pela 
maneira peculiar de pronunciar o que na escrita vem grafado como a letra "s" no final 
das sílabas (pronúncia esta por vezes caracterizada por falantes de outros dialetos 
como "o som chiado de uma emissora de rádio fora de sintonia"); a pronúncia dos 
chamados dialetos nordestinos é reconhecida pela abertura das vogais das sílabas 
pretônicas; a pronúncia dos gaúchos caracteriza-se pela entoação particular; e assim 
por diante. Com relação a diferenças de vocabulário, usamos "mandioca" ou "aipim", 
"mosquito" ou "pernilongo", "bombeiro" ou "encanador", "lagartixa" ou "taruíra", a 
depender da nossa região de proveniência. 
Outra importante dimensão da variação linguística é a social. As chamadas 
variedades populares são aquelas faladas pelas classes sociais menos favorecidas, 
enquanto as variedades cultas são normalmente associadas às classes de maior 
prestígio social, constituindo a referência para a norma escrita. Na dinâmica relação 
que se estabelece entre as modalidades oral e escrita, verifica-se, ao longo do tempo, 
uma influência recíproca entre as variedades orais cultas e a norma escrita, de tal 
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17 LETRAS 
maneira que a escrita passa a incorporar determinados traços da oralidade culta e 
essa vai também adquirindo traços da escrita. 
A variação de natureza social costuma apresentar diferenças significativas 
em termos fonológicos ("craro" por "claro", "muié" por "mulher", etc.) e 
morfossintáticos ("nós fumu" por "nós fomos", "os menino" por "os meninos", etc.). 
São essas, na verdade, as diferenças linguísticas que costumam entrar em conflito 
com a norma oral e com a norma escrita dita culta. 
Cabe ainda apontar uma outra dimensão importante para a compreensão dos 
fenômenos associados à variação linguística: o espaço urbano ou rural em que as 
variedades são faladas. As variedades rurais costumam ser mais conservadoras 
porque relativamente mais isoladas; as variedades urbanas, por outro lado, refletem, 
nas inovações que mais frequentemente incorporam, o dinamismo das interações 
sociais que caracterizam a vida nas cidades, onde se estão sempre a criar situações 
que colocam em contato falantes de diferentes variedades. 
 
As variedades estilísticas: registros 
Por registros linguísticos ou variações de estilo entendem-se variações nos 
enunciados linguísticos que estão relacionadas aos diferentes graus de 
formalidade do contexto de interlocução, o qual se explica, por sua vez, em termos 
do maior ou menor conhecimento e proximidade entre os falantes. Em um dos 
extremos do que se pode tomar como um eixo contínuo de formalidade temos 
as situações informais em que se manifesta a linguagem (uso coloquial, em 
situações familiares). No outro extremo desse mesmo eixo, temos as situações 
formais de uso da linguagem (por exemplo, as escolhas linguísticas que caracterizam 
uma palestra feita para uma plateia desconhecida, sobre matéria científica). Assim, 
um bilhete escrito para um amigo exemplifica o contexto de uso da escrita coloquial, 
ao passo que um ensaio acadêmico exemplifica o contexto de uso formal da escrita. 
Existem, naturalmente, diversos pontos intermediários no eixo de graus de 
formalidade, tanto em termos da oralidade como da escrita. O primeiro texto transcrito 
abaixo exemplifica um registro relativamente informal de escrita. O segundo, um 
registro formal: 
Querido Papai Noel; 
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18 LETRAS 
Quebra o galho, vai... 
TutyVasques. A Caros de 97, in jornal do Brasil 
A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e 
conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas 
das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das 
formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico. (Marilena Chauí, 
Op. cit) 
 
Gíria 
A gíria ou jargão é uma forma de linguagem baseada em um vocabulário 
especialmente criado por um determinado grupo ou categoria social com o 
objetivo de servir de emblema para os membros do grupo, distinguindo-os dos 
demais falantes da língua. A gíria, ao mesmo tempo que contribui para definir 
a identidade do grupo que a utiliza, funciona como um meio de exclusão dos 
indivíduos externos a esse grupo. Ex.: "bateu no útero" (besteira); "naquela 
pule" (se divertir); "ou lá em casa" (menino bonito); "pam" (eu vou lá); "pandoca" 
(gordinha); "socorro" (menino feio ou muito bonito); "só laiá" (só festa, só 
diversão). 
 
 
 
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19 LETRAS 
Aula 07_Uma breve história do estudo da linguagem 
 
Nesta aula, apresentaremos a vocês um pequeno panorama sobre os estudos 
da linguagem. 
A linguagem, desde os primórdios da civilização, tem despertado o interesse 
do homem. Esse interesse não é novo, na verdade, é bastante antigo. Inicialmente, 
foram os hindus que procuraram estudar a língua. O objetivo deles era de que os 
textos sagrados, reunidos no livro Veda, uma compilação de hinos e preces 
(considerado como o primeiro livro sagrado da história) não fossem modificados, isto 
é, não sofressem alterações. 
Um pouco mais tarde, na Antiguidade Clássica, os gregos, sobretudo Platão, 
voltaram sua atenção para a relação entre palavra e seus significados. Outro filósofo 
grego, Aristóteles, também lança sua atenção à linguagem, mas a algumas 
especificidades da língua como os nomes, verbos e partículas, ou seja, estamos 
diante de uma primeira classificação - reconhecimento de uma diferença de categoria 
entre palavras. 
Além dos gregos, outros povos se interessavam por estudar a língua. Dentre 
os latinos, destaca-se Varrão, estudioso da gramática, no Livro VII, Varrão analisa o 
vocabulário poético e seus nomes raros e arcaicos. 
Na Idade Média, os modistas defendiam que a estrutura gramatical das línguas 
é una e universal. Segundo eles, uma categoria gramatical deve ser definida pela 
relação entre o significado e o modo como ele é expresso. 
No século XVI, com a Reforma ocorre a tradução dos livros sagrados em várias 
línguas, surgindo em 1502, surge o mais antigo dicionário poliglota, do italiano 
Ambrosio Calepino. 
Nos séculos XVII e XVIII, especificamente, em 1660, a partir da Gramática de 
Port Royal, há a continuidade dos estudos dos antigos. Sendo assim, para os 
gramáticos dessa época, os princípios de análise estabelecidos pelos estudiosos não 
se prendem a uma língua particular, mas servem a toda e qualquer língua. 
No século XIX, é desenvolvido o método histórico, instrumento importante para 
o florescimento das gramáticas comparadas e da Linguística Histórica. 
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20 LETRAS 
O estudo comparado das línguas mostra que as línguas se transformam com o 
tempo, independente da vontade do homem. Franz Bopp, estudioso da época, 
publica, em 1816, uma obra sobre o sistema de conjugação do sânscrito, comparado 
ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico - obra que é o marco 
da Linguística Histórica que evidencia que há uma relação de parentesco entre as 
línguas, uma família de línguas: a indo-europeia. O indo- europeu é a origem comum 
a qual se pode chegar por meio de um método histórico-comparativo. 
No século XIX, o progresso do século XIX, acerca das questões da linguagem, 
trouxe um aprofundamento nos estudos da língua literária. Nessa época, os 
estudiosos observaram que as mudanças ocorridas do latim para o português, para o 
espanhol, para o italiano e para o francês poderiam ser explicadas por mudanças que 
teriam acontecido na língua falada, correspondente. Modernamente, a Linguística, 
ainda que se ocupe com a expressão escrita, prioriza o estudo da língua falada. 
No início do século XX, com Ferdinand Saussure, professor da Universidade 
de Genebra, a Linguística passa a ser reconhecida como Ciência e, em 1916, dois 
alunos de Saussure, a partir de anotações de aula, publicam o Curso 
de Linguística geral, obra fundadora da nova ciência. 
A transformação ocorrida nos estudos linguísticos, no século XX, são de 
extrema relevância, uma vez que, a Linguística não era uma ciência autônoma e 
submetia-se às exigências de outros estudos, tais como: a lógica, a filosofia, a retórica, 
a história ou a crítica literária. 
 
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21 LETRAS 
Aula 08_O que é Linguística? 
 
Neste texto apresentamos os conceitos fundamentais à compreensão do objeto 
da Linguística. Também explicamos como são realizados os estudos linguísticos e 
como surgiram as disciplinas afins. 
O termo linguagem não apresenta uma definição especializada extensa, 
podendo referir-se a linguagens de seres e objetos diversos, como: a linguagem dos 
animais, da dança, da pintura, da mímica, etc.. O que é preciso esclarecer que 
a Linguística detém-se apenas na investigação científica da linguagem verbal 
humana. 
Todavia, verifica-se que as linguagens verbais ou não verbais compartilham 
uma característica importante: são sistemas de signos usados para a comunicação. 
Graças a esse aspecto, a Linguística estuda a principal modalidade dos sistemas 
sígnicos, as línguas naturais, que são a forma de comunicação mais altamente 
desenvolvida e de maior uso. 
Nesse sentido, as línguas naturais situam-se numa posição de destaque entre 
sistemas sígnicos, porque possuem também propriedades de flexibilidade e 
de adaptabilidade - essas propriedades permitem expressar emoções, sentimentos, 
ordens, perguntas, afirmações, além do passado, presente ou futuro. 
Assim, cabe a um linguista descobrir como a linguagem funciona - a fala de 
uma comunidade, e, em seguida, sua escrita. 
Todo linguista serve-se de alguns critérios de coleta, organização, seleção e 
análise dos dados linguísticos, obedecendo aos princípios de uma 
teoria linguística realizada para esse fim. Os resultados obtidos são correlacionados 
às informações disponíveis sobre outras línguas. O objetivo é elaborar uma teoria 
geral da linguagem. Sendo assim, há dois campos de estudo: a Linguística geral - que 
oferece os conceitos e modelos fundamentais à análise das línguas; e 
a Linguística descritiva - cujos dados confirmam ou refutam as teorias formuladas 
pela Linguística geral. 
No século XIX, os linguistas procuraram explicar as alterações linguísticas, ou 
seja, as mudanças que as línguas sofreram ao longo dos tempos: objeto 
da Linguística histórica ou diacrônica. 
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22 LETRAS 
Saussure, no início do século XX, introduziu o ponto de vista sincrônico, ou 
seja, a análise das línguas sob a forma que se encontravam num determinado 
momento histórico, num determinado tempo. O cientista reconheceu a importância e 
complementaridade das duas abordagens: a sincrônica e a diacrônica. Na perspectiva 
sincrônica, os fatos linguísticos são verificados quanto ao seu funcionamento, em um 
determinado momento; a perspectiva diacrônica, por sua vez, analisa os fatos e suas 
transformações, estudam-se as relações entre os fatos que o precederam e 
sucederam. 
O estudo sincrônico, que analisa as relações existentes entre os fatos 
linguísticos num estado de língua, precede o diacrônico, que são estudos realizados 
com base na análise de sucessivos estados da língua. 
Muitos linguistas tornam a separação sincronia/diacronia um rigoroso princípio 
metodológico: ou analisam o estado da língua ou a história da língua. Portanto, 
conforme já se disse, tem-se dois ramos da Linguística: a sincrônica e a histórica. 
Atualmente, a Linguística sincrônica é denominada Linguística teórica, pois dá 
ênfase à construção de modelos teóricos e não apenas à descrição de estados da 
língua. 
O estudo do fenômeno linguístico criou várias áreas interdisciplinares: 
a etnolinguística, cujo objeto de estudo é a relação entre língua e cultura; 
a sociolínguística, a qual se detém no exame da interação entre língua e sociedade; 
a psicolinguística, segundo a qual o comportamento do indivíduo participa do 
processo de aquisição da linguagem e da aprendizagem de uma segunda língua e há 
também a Pragmática. 
 
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23 LETRAS 
Aula 09_Pragmática 
 
Nesta aula você terá acesso a conceitos muito importantes. Iniciamos a aula 
tratando de um ramo da Linguística: a pragmática. A Pragmática é a ciência do uso 
linguístico, a qual estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a 
prática linguística. Para Fiorin, um dos domínios dos fatos linguísticos que exigem a 
introdução de uma dimensão pragmática nos estudos linguísticos é a enunciação, ou 
seja, o ato de produzir enunciados, que são as realizações concretas. Tal exigência 
se dá porque há certos fatos linguísticos, que só são entendidos em função do ato de 
enunciar. É o que acontece, diz o autor, com o os dêiticos, que são elementos 
linguísticos que indicam o lugar, o tempo em que um enunciado é produzido ou então 
os participantes de uma situação de produção do enunciado, isto é, de uma 
enunciação. São os dêiticos os pronomes pessoais que indicam os participantes da 
comunicação, eu/tu; os marcadores de espaço, como os advérbios de lugar e os 
pronomes demonstrativos. Um dêitico só pode ser entendido dentro da situação de 
comunicação e, quando aparece, num texto escrito, a situação enunciativa deve ser 
explicada. 
 
A enunciação 
Segundo o autor, o sentido de enunciação é o ato de produzir o enunciado. 
Benveniste diz que a enunciação é a colocação em funcionamento da língua por um 
individual de utilização, ou seja, um falante utiliza-se da língua para produzir 
enunciados. Se a enunciação é a instância constitutiva do enunciado, ela é a 
instância linguística logicamente pressuposta pela própria existência de enunciado, o 
qual comporta seus traços e suas marcas. 
 
A pessoa 
Benveniste mostra que as três pessoas não têm o mesmo estatuto. Há traços 
comuns na 1ª e na 2ª pessoa que as diferenciam da 3ª. Em primeiro lugar, 
enquanto eu e tu são sempre os participantes da comunicação, o ele designa 
qualquer ser ou não designa nenhum. Com efeito, usa-se apenas a 3ª pessoa, quando 
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24 LETRAS 
a pessoa não é determinada, notadamente na chamada expressão impessoal, em que 
um processo é relatado como puro fenômeno, cuja produção está ligada a qualquer 
agente ou causa. A 3ª pessoa é a única com que qualquer coisa é predicada 
verbalmente. Com efeito, uma vez que ela não implica nenhuma pessoa, o de 
representar qualquer sujeito ou nenhum e esse sujeito, expresso ou não, não é jamais 
instaurado como participante da situação de enunciação, por essas razões, a 
chamada categoria de pessoa possui, para Benveniste, duas correlações 1) 
da pessoalidade, em que se opõem pessoa (eu/tu) e não pessoa (ele) , ou seja, 
participantes da enunciação e elementos do enunciado; 2) a da subjetividade, em que 
se contrapõem eu vs. tu; na primeira é a pessoa subjetiva e a segunda é pessoa não 
subjetiva. 
 
O tempo 
Segundo Fiorin, o tempo presente indica a contemporaneidade entre o evento 
narrado e o momento da enunciação. Todavia, segundo Benveniste, esse presente, 
enquanto função do discurso, não pode ser localizado em nenhuma divisão particular 
do tempo cronológico, uma vez que ela as admite todas e, ao mesmo tempo, não 
exige nenhuma. Com efeito, o agora é reinventado a cada vez que o enunciador 
enuncia, é o do ato de fala um tempo novo, ainda não vivido. 
 
O espaço 
Para o autor, o espaço linguístico ordena-se a partir do lugar. Todos os objetos 
são assim localizados, sem que tenha importância seu lugar físico no mundo, pois 
aquele que os situa se coloca como centro e ponto de referência da localização. 
O espaço linguístico é expresso pelos demonstrativos e por certos advérbios 
de lugar. O espaço linguístico não é o espaço físico, analisado a partir das categorias 
geométricas, mas aquele onde se desenrola a cena enunciativa. 
 
Discursivização das categorias enunciativas 
Segundo Fiorin, os mecanismos de instauração de pessoas, espaços e tempos 
no enunciado são dois: a debreagem e a embreagem. Debreagem é a operação em 
 
 
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25 LETRAS 
que se projetam no enunciado a pessoa, o espaço e o tempo. Há, sendo assim, uma 
debreagem actancial (= de pessoa), uma debreagem espacial e uma debreagem 
temporal. 
 
Há, pois ,dois tipos bem distintos de debreagem: a enunciativa e a enunciva. 
A primeira é aquela em que se instalam no enunciado os actantes da 
enunciação {eu/tu),o espaço da enunciação (aqui) e o tempo da enunciação 
(agora),ou seja, aquela em que o não eu, o não aqui e o não agora são 
enunciados com o eu, aqui, agora (p.80) 
 
A debreagem enunciativa e a enunciva criam, em princípio, dois grandes 
efeitos de sentido: de subjetividade e de objetividade. 
A embreagem, por sua vez, é o efeito de retorno à enunciação, produzido pela 
neutralização das categorias de pessoa e/ou espaço e/ou tempo, pela denegação, 
assim da instância do enunciado. 
Dessa forma, a embreagem concerne às três categorias da enunciação, temos, 
da mesma forma que no caso da debreagem, embreagem actancial, espacial e 
temporal: 
 
-a actancial diz respeito à neutralização na categoria da pessoa. 
-a espacial concerne a neutralização na categoria de espaço. 
-a temporal diz respeito a neutralizações na categoria de tempo. 
 
 
 
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26 LETRAS 
Aula 10_A língua e a fala 
 
Esta é a primeira dicotomia apresentada por Saussure e está fundamentada na 
oposição social / individual, ou seja, a língua é social e a fala individual - o fatoda 
língua (langue) está no campo social; o ato da fala ou discurso (parole) situa-se na 
esfera do individual. “A linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo 
impossível conceber uma sem a outra” (SAUSSURE, p. 16). 
De acordo com Castelar de Carvalho (2003), em Saussure, é possível 
encontrar algumas concepções de língua: como acervo linguístico - “o conjunto dos 
hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se 
compreender” (p. 92)- seria a experiência acumulada pela humanidade, pelos povos; 
como “uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um 
dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos” 
(p. 27). 
Para Saussure, a língua “é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade 
da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social 
para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (p. 17); é “a parte social da 
linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-
la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os 
membros da comunidade” (p. 22).Para Saussure, a língua está em oposição à fala, 
porque a língua é coletiva e a fala é particular, logo, a língua é um dado social e 
a fala é um dado individual. 
A língua é também sistemática e a fala assistemática. Para o linguista 
genebrino, o objeto de estudos da Linguística é a língua e não a fala, pois para ele, 
a língua é um sistema de signos, em que um signo se define pelos demais signos do 
conjunto. Concebendo a língua como um sistema de signos, Saussure define um novo 
objeto de estudos para a Linguística. Conforme Carvalho (2003), a percepção da 
língua como uma realidade sistemática e funcional é um dos conteúdos mais 
importantes - quando se observa a língua do ponto de vista sistemático, o que se 
reconhece nela é uma estrutura. Esse conjunto de relações que as unidades 
linguísticas mantêm entre si constitui uma forma. Por isso, Saussure diz que a língua 
é forma e não substância. 
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27 LETRAS 
Sendo assim, esse conjunto de diferenças estabelece os conceitos e os sons 
no pensamento e no plano fônico indeterminado que o aparelho fonador pode 
produzir. 
Na dicotomia saussuriana língua versus fala, há a separação dos fatos de 
língua dos fatos de fala, pois enquanto os primeiros dizem respeito à estrutura; os 
segundos, por sua vez, dizem respeito ao uso desse sistema. Em tal dicotomia, os 
fatos de língua podem ser estudados separadamente dos fatos de fala. 
Portanto, "à medida que o sistema é estudado em suas relações internas, uma 
vez ocorrida a mudança oriunda da fala, ela passa das ocorrências particulares 
da fala aos domínios gerais da língua e é no sistema que ela passa, sincronicamente, 
a ser considerada". 
 
 
 
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28 LETRAS 
Aula 11_Saussure-significante e significado 
 
Saussure define signo como a relação entre uma imagem acústica, significante, 
e um conceito, significado. O significante não existe sem o significado: /g a t u/ - 
significante constituído por 4 fonemas, duas sílabas- animal vertebrado doméstico de 
quatro patas – significado que é sua representação. 
Sendo assim, um significante e um significado formam um signo, que, por sua 
vez, é definido dentro de um sistema, ou seja, um signo ganha valor na relação com 
outros signos. 
Saussure afirma que o signo é arbitrário, uma vez que não há uma relação de 
causa e efeito que motive a relação que une um significado e um significante. 
Arbitrário, logo, não motivado. O significante não é motivado pelo significado. Todavia, 
Saussure afirma que há signos absolutamente arbitrários e signos relativamente 
arbitrários. A motivação relativa é a que se estabelece entre um signo e outros signos 
do mesmo sistema. 
Jakobson (1969:98, p.117), ao tratar da questão da arbitrariedade, revela que 
motivações podem aparecer em alguns casos como a oposição de fonemas graves, 
como o /a/, e agudos, como o /i/. Elas podem sugerir: relações claro 
e escuro, arredondado e pontudo, fino grosso. Nas histórias em quadrinho, o riso 
dos homens e das mulheres, são indicados, respectivamente, ha, ha, ha e hi, hi, hi. As 
onomatopeias que indicam ruído, sons brutais e repentinos, como pancadas, 
começam sempre por consoantes oclusivas (p/b; t/d;/ k/g): pum, pá, tá. Isso não 
ocorre, segundo Jakobson, apenas nas onomatopeias. 
Na morfologia, algumas línguas fazem o comparativo e o superlativo de 
adjetivos de forma sintética e apresentam um aumento gradual no número de 
fonemas, o acréscimo do significante reflete a gradação do significado. Em latim, o 
adjetivo altus tem o comparativo altior e o superlativo altissimus. Em inglês, o adjetivo 
high tem o comparativo higher e o superlativo highest. (FIORIN,2011,p.62). 
A motivação pode ser encontrada com bastante intensidade também na poesia, 
pois o poeta busca motivar a relação entre significante e significado – o plano da 
expressão veicula conteúdos e os recria também. 
 
 
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29 LETRAS 
Os fonemas e suas combinações de alguma forma lembram ou imitam o 
conteúdo de que se fala: repetição de oclusivas sugere o som da tempestade: ”Em 
tempo de tormenta e vento esquivo”.(CAMÕES in OS LUSÍADAS). 
 
 
 
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30 LETRAS 
Aula 12_Paradigma e sintagma 
 
Para Saussure, as relações entre os elementos linguísticos podem ser 
estabelecidas em dois domínios distintos. Em virtude do caráter linear 
dos significantes, há a impossibilidade de que os signos linguísticos ocorram 
simultaneamente na cadeia da fala. Sendo assim, enunciados, um após o outro, 
formam um alinhamento que os distribui em relações de combinação entre, pelo 
menos, dois elementos. Portanto, há relações de combinação entre os signos. 
Saussure denomina tais relações de sintagmáticas, do grego syntagma, "coisa posta 
em ordem". 
Há também, além das relações baseadas na combinação, as relações 
baseadas na seleção dos elementos que são combinados. A essas relações entre os 
elementos do sistema linguístico Saussure denomina relações associativas. 
Entretanto, para se referir às relações associativas entre os signos, 
a Linguística consagrou o termo relações paradigmáticas, do grego paradéigma, 
"modelo", "exemplo". 
Dessa forma, estabelece-se a dicotomia paradigma versus sintagma. Em uma 
representação gráfica, costuma-se colocar o sintagma como o eixo horizontal e 
o paradigma como o eixo vertical. Na frase: 
João ama Teresa e na palavra amaremos, há um eixo horizontal sobre o qual 
estão dispostos os elementos linguísticos combinados em um sintagma, e há eixos 
verticais, para cada posição do sintagma, sobre o qual se dispõem os elementos 
linguísticos que podem, por meio de relações paradigmáticas, ocupar essa posição. 
Em Martelotta (2008) há um exemplo bastante esclarecedor sobre o eixo: 
na sequência “Gostaria de comprar uma fazenda”, a unidade “comprar” 
mantém relação paradigmática com “vender”, “entregar”, “olhar” e tantas 
outras unidades, mantém também relações sintagmáticas com “gostaria”, 
“de”, “uma” e “fazenda”. Da mesma maneira, no nível fonológico, em se 
tratando da sequência /bola/, o fonema /b/ estabelece relação 
paradigmática com /s/, /m/, /g/, etc e com relação sintagmática com /b/, 
/o/, /l/ e /a/. Esses fenômenos nos levam a entender a razão pela qual de a 
língua ser um sistema, uma estrutura, e não um aglomerado de elementos. 
 
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31 LETRAS 
Aula 13_A comunicação humana 
 
Nesta aula serão discutidos alguns problemas relacionados à comunicação 
humana e à língua como elemento de comunicação. 
A comunicação é um aspecto muito importante para o homem e essencial 
para os estudos da linguagem. A afirmação saussuriana, no início do século XX, de 
que a língua é fundamentalmente um instrumento de comunicação, rompeu com as 
concepções anteriores dos comparatistas e das gramáticas gerais do século XIX. Para 
esses teóricos, a língua era uma representação, isto é, representava uma estrutura 
de pensamento, que existiria independentemente da formalização linguística. A 
comunicação seria uma das causas da "desorganização" gramatical das línguas, do 
seu declínio e transformação. Sendo assim, "o português e o italiano seriam "restos" 
em decadência do latim". 
Uma das consequências da visão e da ciência linguística saussuriana, 
sobretudo entre os funcionalistas Malmberg e Jakobson, foi a introdução do exame 
da comunicação no quadro das preocupações linguísticas. 
 
A teoria da informação 
A teoria da informação exerceu, nos anos 50, forte influência na Linguística. O 
campo dessa teoria abrange desde os processos de decodificação eficiente, 
e capacidade de transmissão do canal de comunicação aos efeitos indesejáveis dos 
ruídos e a busca por soluções para os problemas concernentes à telecomunicação, 
entre outros. Um dos autores que estudou e produziu uma esquematização do 
processo de comunicação foi Sammon. A proposta de comunicação de C.F. Sammon 
foi esquematizada da seguinte forma: 
Fonte de informação→ transmissor→ receptor →destino 
Esse esquema de comunicação possui: 
- um emissor e um receptor, divididos em duas ou mais caixas, que separam a 
codificação e a decodificação da emissão e da recepção; 
- um canal, ou seja, um suporte material ou sensorial que serve para a transmissão 
da mensagem de um ponto ao outro. 
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32 LETRAS 
- uma mensagem, resultante da codificação e entendida, no momento da transmissão, 
como uma sequência de sinais. 
Antes da transmissão da mensagem, situam-se as operações de codificação, 
com as quais se constrói a mensagem, e entre a recepção e o destinatário, as 
operações de decodificações, que permitem reconhecer e identificar os elementos 
constitutivos da mensagem. Os ruídos intervêm durante todo o percurso da 
informação e fazem diminuir a eficiência da comunicação. Os ruídos podem ser 
físicos: barulhos, ruídos, problemas no canal de comunicação; psicológicos: 
desatenção, desinteresse; ou culturais: problemas de código ou de subcódigos, falta 
de conhecimento ou de crenças em comum, etc. A comunicação, nesse quadro 
teórico, é entendida como transferência de mensagens, como a transmissão de um 
emissor a um receptor, das mensagens organizadas segundo um código e 
transformadas em sequências de sinais. 
É preciso pensar a respeito e identificar alguns problemas relacionados ao 
esquema traçado... Esquematizar dessa forma a comunicação é desconsiderar alguns 
aspectos: esses esquemas da comunicação simplificam muito a questão da 
comunicação verbal; é um modelo linear, ou seja, a comunicação é concebida 
linearmente e diz respeito ao plano da expressão ou dos significantes (mensagem 
como sequência de sinais); tem caráter mecanicista enquanto modelo, ou seja, as 
propostas da teoria da informação praticamente não levam em consideração questões 
"extralinguísticas" ou do contexto sócio - histórico e cultural. 
Jakobson (p.121), outro linguista que buscou explicar a linguagem, afirma que 
a linguagem deve ser estudada em suas variedades e funções. Assim, todo ato de 
comunicação verbal, possui um remetente que uma mensagem a um destinatário. 
 
Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere (Ou 
"referente", em outra nomenclatura algo ambígua), apreensível pelo 
destinatário, e que seja verbal ou suscetível de verbalização; um CÓDIGO 
total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (ou, em outras 
palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); e, finalmente, um 
CONTACTO, um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e 
o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem e permanecerem em 
comunicação. Todos estes fatores inalienavelmente envolvidos na 
comunicação verbal podem ser esquematizados como segue: 
 
 
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33 LETRAS 
 
CONTEXTO 
REMETENTE MENSAGEM DESTINATÁRIO 
------------------------------------------------------- 
CONTACTO 
CÓDIGO 
 
Nesta aula, você viu alguns dos elementos que interferem na comunicação. Também 
teve acesso a alguns conceitos da teoria da comunicação. 
 
 
 
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34 LETRAS 
Aula 14_As funções de linguagem 
 
Conforme afirmado na aula anterior, os modelos da teoria da informação 
mostraram-se limitados. Logo, alguns linguistas procuraram ampliar esses conceitos 
seguindo caminhos diversos. 
Dois caminhos têm sido seguidos para vencer as limitações dos esquemas e 
modelos da teoria da informação: primeiro buscou-se completar ou complementar as 
propostas excessivamente simplificadoras de comunicação; depois, rever o caráter 
linear e mecanicista dos modelos anteriores propostos. 
Os linguistas Bertil Malmberg (1969) e Roman Jakobson (1969), entre outros, 
fazem parte do primeiro grupo, cujas propostas procuraram "completar" ou "ampliar" 
os modelos para que pudessem ser usados para a comunicação verbal. Para isso, 
retiraram os elementos da teoria da comunicação ou da cibernética e aproveitaram 
apenas os elementos necessários ao exame da comunicação humana. 
A proposta de "ampliação" de Jakobson (1969) é a mais conhecida. 
 
CONTEXTO 
MENSAGEM 
REMETENTE______________________________DESTINATÁRIO 
CONTACTO 
CÓDIGO 
 
Ignácio Assis Silva (1972) propõe uma representação mais detalhada do 
esquema de Jakobson, retomando os elementos da teoria da informação não 
explicitados por ele. 
As principais contribuições da proposta de Jakobson e da explicitação de Assis 
Silva foram a relação com o contexto, com a experiência comunicada ou a ser 
comunicada, tratada também por Malmberg, e a questão da representação do código 
e dos subcódigos. O termo código é utilizado em lugar de língua, e se define como o 
estoque estruturado de elementos discretos que se apresentam como um conjunto de 
alternativas de seleção para a produção de mensagem. Sendo assim, para que haja 
comunicação, é necessário um código parcialmente ou totalmente comum ao 
 
 
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35 LETRAS 
remetente e ao destinatário. Os subcódigos introduzem no esquema da comunicação 
a questão da variação linguística. 
Códigos diferentes impedem a comunicação, a não ser que ela se estabeleça 
por outro código, que não o verbal, como o gestual usado por falantes de línguas 
diferentes. Jakobson mostrou que a linguagem deve ser examinada em toda a 
variedade de suas funções, e não apenas em relação à função informativa (ou 
referencial ou denotativa ou cognitiva) que foi, durante o século XX, considerada 
dominante. 
A partir dessas noções, Jakobson retoma o esquema triádico de Karl Bühler 
(função expressiva, função apelativa e função representativa) e acrescenta-lhe mais 
três funções: fática, metalinguística e poética. Segundo Jakobson, as funções 
estariam centradas em um dos elementos do processo de comunicação proposto por 
ele, enfatizando-os, conforme o esquema que segue: 
 
REFERENCIAL 
(centrada nocontexto ou no referente) 
EMOTIVA POÉTICA CONATIVA 
(centrada no remetente) (centrada na mensagem) (centrada no 
destinatário) 
FÁTICA 
(centrada no contato) 
METALINGUÍSTICA 
(centrada no código) 
 
As mensagens (os textos) não têm apenas uma função dominante, mas várias 
ou mesmo todas, hierarquizadas, ou seja, há em cada texto uma função dominante. 
Além disso, os textos-mensagens empregam procedimentos linguísticos e discursivos 
que produzem efeitos de sentido relacionados com as diferentes funções e que nos 
permitem identificá-los. 
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36 LETRAS 
1) Função referencial: é uma função centrada no contexto, pois transmite 
conhecimentos sobre pessoas, fatos. Em seus textos: empregam a 3a pessoa, 
apresentam qualidades "objetivas" ou "concretas", nomes próprios, usam estratégias 
argumentativas "lógicas" (provas, demonstrações, etc.). Os procedimentos usados 
produzem, sobretudo dois efeitos de sentido, o de objetividade (3a pessoa) e o de 
realidade ou referente (nomes próprios, qualidades "objetivas" ou "concretas"), isto é, 
de apagamento ou distanciamento do sujeito e de verdade dos fatos. No discurso 
científico são usadas marcas de afastamento do sujeito - 3a pessoa, presente do 
indicativo - que produzem o efeito de objetividade da ciência e que caracterizam um 
texto com função referencial e informativa. 
 
2) Função emotiva — é a exteriorização da emoção do eu em relação àquilo que 
fala de modo que essa emoção transpareça no nível da mensagem. Podemos 
identificar a emoção do remetente na entonação, na escolha vocabular: “João saiu de 
casa" , "João abandonou o lar", “O canalha abandonou o lar” – o envolvimento do 
falante com a situação fica expresso na escolha verbal, no substantivo. 
 
A chamada função EMOTIVA ou "expressiva", centrada no REMETENTE, 
visa a uma expressão direta da atitude de quem fala em relação àquilo de 
que está falando. Tende a suscitar a impressão de uma certa emoção, 
verdadeira ou simulada; por isso, o termo "função emotiva", proposto e 
defendido por Marty, demonstrou ser preferível a "emocional".(...) A função 
emotiva, evidenciada pelas interjeições, colore, em certa medida, todas as 
nossas manifestações verbais, ao nível fônico, gramatical e lexical . (...) A 
diferença entre [grande] e o prolongamento enfático da vogal [gra:nde] é um 
elemento linguístico convencional, codificado, assim como em tcheco a 
diferença entre a vogal breve e a longa, em pares como [vi] "você" e [vi:] 
"sabe"; todavia, neste último par, a informação diferencial é fonológica e no 
primeiro emotiva. Na medida em que nos interessem as invariantes 
fonológicas, o /a e /a: em português parecem ser meras variantes de um só 
e mesmo fonema, mas se nos ocupamos de unidades emotivas, a relação 
entre a invariante e as variantes se inverte: longura e brevidade são 
invariantes realizadas por fonemas variáveis. (JAKOBSON,p.124) 
 
 
 
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37 LETRAS 
3) Função conativa — está centrada no destinatário, pois ele é o alvo da informação 
e deve ser persuadido de uma determinada maneira, como na propaganda, cuja 
função básica é persuadir o público a comprar um produto, votar em um político. 
a função CONATIVA, encontra sua expressão gramatical mais pura no 
vocativo e no imperativo, que sintática, morfológica e amiúde até 
fonologicamente, se afastam das outras categorias nominais e verbais. As 
sentenças imperativas diferem fundamentalmente das sentenças 
declarativas: estas podem e aquelas não podem ser submetidas à prova de 
verdade. Quando, na peça de O'Neill A Fonte (The Fountain), Nano "(numa 
voz violenta de comando)" diz "Beba!" — o imperativo não pode ser 
contestado pela pergunta "é verdadeiro ou não?", que se pode, contudo, fazer 
perfeitamente no caso de sentenças como "alguém bebeu", "alguém beberá", 
"alguém beberia". Em contraposição às sentenças imperativas, as sentenças 
declarativas podem ser convertidas em interrogativas: "bebeu alguém?" 
"beberá alguém?", "beberia alguém?"(JAKOBSON,124) 
 
4) Função fática — consiste em estabelecer contato,testar ou finalizar esse contato. 
Está centrada no canal, já que não visa propriamente à comunicação. 
 
Este pendor para o CONTATO ou, na designação de Malinowski, para a 
função FÁTICA, pode ser evidenciada por uma troca profusa de fórmulas 
ritualizadas, por diálogos inteiros cujo único propósito é prolongar a 
comunicação. Dorothy Parker apanhou exemplos eloquentes: "— Bem — 
disse o rapaz. — Bem! — respondeu ela. — Bem, cá estamos — disse ele. 
— Cá estamos — confirmou ela, — não estamos? — Pois estamos mesmo 
— disse ele, — Upa! Cá estamos. (Jakobson,126) 
 
5) Função metalinguística — consiste em usar a linguagem para se referir à própria 
linguagem aos aspetos relacionados ao código ou à linguagem utilizados para esse 
fim como em verbetes de dicionário. 
Sempre que o remetente e/ou o destinatário têm necessidade de verificar se 
estão usando o mesmo código, o discurso focaliza o CÓDIGO; desempenha 
uma função METALINGUÍSTICA (isto é, de glosa) "Não o estou 
compreendendo — que quer dizer?", pergunta quem ouve, ou, na dicção 
shakespereana, "Que é que dizeis?" E quem fala, antecipando semelhantes 
perguntas, indaga: "Entende o que quero dizer? "Imagino este diálogo 
exasperante: "O "sophomore" foi ao pau." "Mas que quer dizerir ao pau?" "A 
 
 
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mesma coisa que levar bomba." "E levar bomba?" "Levar bomba éser 
reprovado no exame." "E o que é "sophomore"?", insiste o interrogador 
ignorante do vocabulário escolar em inglês. "Um "sophomore" é (ou quer 
dizer) um estudante de segundo ano." Todas essas sentenças equacionais 
fornecem informação apenas a respeito do código lexical do idioma; sua 
função é estritamente metalinguística. (Jakobson,126) 
 
6) Função poética — centrada na mensagem, essa função caracteriza-se pelo 
enfoque na mensagem e em sua forma. Consiste na projeção do eixo da seleção 
sobre o eixo da combinação dos elementos linguísticos. 
 
Vocês entraram em contato nesta aula com as funções de linguagem que 
procuraram explicar seu funcionamento e descrever suas características. Até a 
próxima aula! 
 
 
 
 
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Aula 15_A interação verbal 
 
Os modelos da teoria da informação e comunicação, conforme visto 
anteriormente, mostraram-se limitados e, por isso, alguns linguistas procuraram 
ampliar os conceitos formulados. 
Esses modelos, essencialmente lineares, não se ocuparam da reciprocidade 
ou da circularidade característica da comunicação humana, ou seja, da capacidade 
que tem o receptor de tornar-se emissor e de "realimentar" a comunicação, ou do 
alargamento e complexidade da comunicação, uma vez que pode, por exemplo, 
dirigir-se a um, visando a outro. 
Nos Estados Unidos, a partir dos anos 50, teóricos como B. Bateson, E. Hall e 
E. Goffman propuseram um modelo "circular" para a comunicação. Sendo assim, 
surgiu a teoria da nova comunicação, com as noções de base de feedback ou de 
retroação e realimentação. 
A comunicação deve por isso ser repensada não como um fenômeno de mão 
única, do emissor ao receptor, mas como um sistema interacional. Nesse sistema 
interacional importam, além dos efeitos da comunicação sobre o receptor, os efeitos 
que a reação do receptor produz sobre o emissor. 
Benveniste (1966), em seus estudos, aponta para a questão da reversibilidade 
ou da reciprocidade da comunicação. O eu, ao dizer euinstaura o tu como 
destinatário, todavia, esse destinatário pode,

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