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CRIMES DE TRÂNSITO APRESENTAÇÃO................................................................................................................................ 2 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS ....................................................................................................... 3 DENOMINAÇÕES IMPORTANTES ..................................................................................... 3 BEM JURÍDICO ..................................................................................................................... 4 CRIMES DE DANO X CRIMES DE PERIGO ....................................................................... 5 2. DISPOSIÇÕES GERAIS .............................................................................................................. 5 ARTIGO 291 DO CTB ........................................................................................................... 5 2.1.1. Exemplo de aplicação do CP ......................................................................................... 6 2.1.2. Exemplo de aplicação do CPP ...................................................................................... 6 2.1.3. Exemplo de aplicação da Lei nº 9.099/95 ..................................................................... 6 SUSPENSÃO OU PROIBIÇÃO: PERMISSÃO OU HABILITAÇÃO (COMO PENA) ........... 7 2.2.1. Duração e cumprimento das penas de suspensão e proibição .................................... 8 2.2.2. Suspensão ou proibição como medida cautelar ........................................................... 9 2.2.3. Aplicação aos motoristas profissionais........................................................................ 10 EFEITO EXTRAPENAL E AUTOMÁTICO DA CONDENAÇÃO ........................................ 11 MULTA REPARATÓRIA ..................................................................................................... 12 2.4.1. Natureza jurídica .......................................................................................................... 12 2.4.2. Necessidade do pedido expresso da multa reparatória .............................................. 12 2.4.3. Multa reparatória: 3ª via do Direito Penal .................................................................... 13 2.4.4. Multa reparatória e os prejuízos imateriais ................................................................. 14 2.4.5. Valor da multa reparatória ........................................................................................... 14 2.4.6. Procedimento de execução da multa reparatória ....................................................... 15 3. AGRAVANTES DOS CRIMES DE TRÂNSITO ......................................................................... 15 4. PERDÃO JUDICIAL.................................................................................................................... 17 5. IMUNIDADE AO FLAGRANTE .................................................................................................. 19 CABIMENTO DE PRISÃO TEMPORÁRIA ......................................................................... 19 CABIMENTO DE PRISÃO PREVENTIVA EM CRIME CULPOSO .................................... 19 6. HOMICÍDIO CULPOSO DE TRÂNSITO .................................................................................... 19 ELEMENTOS DO CRIME CULPOSO ................................................................................ 21 VIAS TERRESTRES ........................................................................................................... 21 ELEMENTO SUBJETIVO ................................................................................................... 22 CAUSAS DE AUMENTO DE PENA ................................................................................... 23 7. LESÃO CORPORAL CULPOSA DE TRÂNSITO ...................................................................... 27 8. OMISSÃO DE SOCORRO ......................................................................................................... 28 ATIPICIDADE ...................................................................................................................... 28 SUJEITO ATIVO ................................................................................................................. 28 CONSUMAÇÃO .................................................................................................................. 29 9. CRIME DO ARTIGO 305 DO CTB ............................................................................................. 29 CRÍTICAS ............................................................................................................................ 29 10. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE ................................................................................................ 30 FORMAS DE CONSTATAÇÃO .......................................................................................... 30 IMPORTÂNCIA DO DIREITO À CONTRAPROVA ............................................................ 31 11. CRIME DO ARTIGO 307 DO CTB ......................................................................................... 32 12. RACHA .................................................................................................................................... 32 FORMAS QUALIFICADAS ................................................................................................. 33 13. DIREÇÃO PERIGOSA ............................................................................................................ 34 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 1 14. CRIME DE PESSOA QUE NÃO ESTÁ NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR .......... 35 15. CRIME DO ARTIGO 311 DO CTB ......................................................................................... 36 16. FORMA ESPECIAL DE FRAUDE PROCESSUAL ................................................................ 36 17. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE .................................................................. 37 18. VEDAÇÃO À SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS .................................................................................................................................... 37 19. JURISPRUDÊNCIA EM TESE ............................................................................................... 38 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 2 APRESENTAÇÃO Olá! Inicialmente gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja útil na sua preparação, em todas as fases. Quanto mais contato temos com uma mesma fonte de estudo, mais familiarizados ficamos, o que ajuda na memorização e na compreensão da matéria. O Caderno Legislação Penal Especial – Crimes de Trânsito possui como base as aulas do professor Vinícius Marçal, do Curso G7 Jurídico, complementadas com as aulas do Professor Marcos Paulo, do Curso Fórum. Três livros foram utilizados para complementar nosso CS de Legislação Penal Especial: a) Legislação Criminal para Concursos (Fábio Roque, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar), ano 2019, b) Legislação Criminal Comentada (Renato Brasileiro), ano 2022, ambos da Editora Juspodivm e c) Esquematizado - Legislação Penal Especial (Victor Eduardo Rios Gonçalves), ano 2022, da Editora Saraiva. Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito (www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito), bem como com a Jurisprudência em Tese do STJ. Destacamos: é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um dia da semana para ler no site doDizer o Direito. Ademais, no Caderno constam os principais artigos da lei, mas, ressaltamos, que é necessária leitura conjunta do seu Vade Mecum, muitas questões são retiradas da legislação. Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina + informativos + súmulas + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você faça uma boa prova. Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito importante! As bancas costumam repetir certos temas. Vamos juntos! Bons estudos! Equipe Cadernos Sistematizados. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 3 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS A maioria esmagadora dos crimes previstos no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é praticada através de veículos automotores. Sua definição, conforme prevê o art. 4º do CTB, encontra-se no Anexo I do Código: Art. 4º Os conceitos e definições estabelecidos para os efeitos deste Código são os constantes do Anexo I. De acordo com o conceito extraído do Anexo, veículo automotor é “todo veículo a motor de propulsão que circule por seus próprios meios, e que serve normalmente para transporte viário de pessoas e coisas, ou para a tração viária de veículos utilizados para o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os veículos conectados a uma linha elétrica e que não circulam sobre trilhos (ônibus elétrico).” Desse modo, tem-se que: ABRANGE NÃO ABRANGE Automóveis Caminhões Caminhonetes Tratores Vans Motocicletas Ônibus Ônibus elétricos Veículos de propulsão humana (bicicleta) Veículos de tração animal (carroças) Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RR - Delegado - VUNESP - 2022): Configura crime previsto na Lei nº 9.503/1997 – Código de Trânsito Brasileiro a conduta de praticar homicídio culposo na condução de bicicleta. Errado. (PC-RR - Delegado - VUNESP - 2022): Configura crime previsto na Lei nº 9.503/1997 – Código de Trânsito Brasileiro a conduta de conduzir veículo de tração animal com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência. Errado. DENOMINAÇÕES IMPORTANTES http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 4 1) Crime em trânsito: segundo Cléber Masson, são aqueles em que somente uma parte da conduta ocorre em um país, sem lesionar ou expor a situação de perigo bens jurídicos de pessoas que nele vivem. Não possuem relação com os crimes de trânsito. Ex.: “A”, da Argentina, envia para os Estados Unidos uma missiva com ofensas a “B”, e essa carta passa pelo território brasileiro. 2) Crime de circulação: consoante Masson, é o praticado com o emprego de veículo automotor, a título de dolo ou de culpa, com a incidência do Código Penal (CP) ou do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Trata-se de gênero que abrange os delitos praticados com dolo e com culpa. Destaca-se, contudo, que CTB cuidará, tão somente, dos crimes de trânsito praticados com culpa. 3) Crime de trânsito: de acordo com Nucci, são os delitos cometidos na direção de veículos automotores, sejam de perigo – abstrato ou concreto – ou dano, desde que o elemento subjetivo constitua culpa. Não se admite a nomenclatura de crime de trânsito para o crime de dano, cometido com dolo. Portanto, aquele que utiliza seu veículo para, propositalmente, atropelar e matar seu inimigo comete homicídio – e não simples crime de trânsito. BEM JURÍDICO Não há um único bem jurídico protegido pelo CTB. O artigo 302 do CTB, por exemplo, tutela a vida: Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Penas - detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1o No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada; III - deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente; IV - no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. § 3o Se o agente conduz veículo automotor sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Já o artigo 303 do CTB protege a integridade física: Art. 303. Praticar lesão corporal culposa na direção de veículo automotor: Penas - detenção, de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1o Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) à metade, se ocorrer qualquer das hipóteses do § 1o do art. 302. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm#art302%C2%A72 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm#art302%C2%A71 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 5 § 2o A pena privativa de liberdade é de reclusão de dois a cinco anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo, se o agente conduz o veículo com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência, e se do crime resultar lesão corporal de natureza grave ou gravíssima. Todavia, há um bem jurídico comum previsto para todos os tipos do CTB: a proteção da segurança viária, conforme preveem os arts. 1º, § 2º e 28 do CTB: Art. 1º O trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional, abertas à circulação, rege-se por este Código § 2º O trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito, a estes cabendo, no âmbito das respectivas competências, adotar as medidas destinadas a assegurar esse direito. Art. 28. O condutor deverá, a todo momento, ter domínio de seu veículo, dirigindo-o com atenção e cuidados indispensáveis à segurança do trânsito. CRIMES DE DANO X CRIMES DE PERIGO CRIMES DE DANO CRIMES DE PERIGO A consumação ocorre com a efetiva lesão ao bem jurídico. Por isso, a doutrina majoritária entende que há no CTB apenas dois crimes de dano: homicídio culposo de trânsito (art. 302) e lesão corporal culposa de trânsito (art. 303). A consumação ocorre com a mera exposição do bem jurídico tutelado a uma situação de perigo. Divide-se em: 1) Crime de perigo abstrato, presumido ou de simples desobediência: a consumação ocorre com a simples prática da conduta, não exige comprovação da produção da situação de perigo. É o caso dos crimes previstos no art. 310 do CTB (entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada) e no art. 306 do CTB (embriaguez ao volante). 2) Crime de perigo concreto: consumam-se com a efetiva comprovação, no caso concreto, da ocorrência da situação de perigo. É o caso do art. 309 do CTB (dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida permissão para dirigir ou habilitação). 2. DISPOSIÇÕES GERAIS ARTIGO 291 DO CTB http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 6 Art. 291. Aos crimes cometidos na direção de veículos automotores, previstos neste Código, aplicam-se as normas gerais do Código Penal e do Código de Processo Penal, se este Capítulo não dispuser de modo diverso, bem como a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, no que couber. O referido dispositivo prevê a aplicação subsidiária do Diploma Penal, do Código de ProcessoPenal e da Lei 9.099/95 ao CTB no que for compatível. 2.1.1. Exemplo de aplicação do CP 1) Reincidência: apesar de citada pelo CTB, não foi, por ele, conceituada. Assim, vale aqui a definição trazida pelo CP. 2) Fixação da pena base: o legislador, através da Lei 13.546/17 (que acrescentou o § 4º ao art. 291 do CTB), determinou que o juiz, ao fixar a pena base, observe não apenas o disposto no art. 59 do CP, mas que também dê especial atenção a três das circunstâncias judiciais, quais sejam: culpabilidade do agente, circunstâncias e consequência do crime: § 4º O juiz fixará a pena-base segundo as diretrizes previstas no art. 59 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), dando especial atenção à culpabilidade do agente e às circunstâncias e consequências do crime. 2.1.2. Exemplo de aplicação do CPP Processamento do RESE. 2.1.3. Exemplo de aplicação da Lei nº 9.099/95 Observa-se a redação do artigo 291, § 1º do CTB: Art. 291, § 1o Aplica-se aos crimes de trânsito de lesão corporal culposa o disposto nos arts. 74, 76 e 88 da Lei no 9.099, de 26 de setembro de 1995, exceto se o agente estiver: I - sob a influência de álcool ou qualquer outra substância psicoativa que determine dependência; II - participando, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística, de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automotor, não autorizada pela autoridade competente; III - transitando em velocidade superior à máxima permitida para a via em 50 km/h (cinquenta quilômetros por hora). § 2º Nas hipóteses previstas no § 1º deste artigo, deverá ser instaurado inquérito policial para a investigação da infração penal. Conforme apontado, o art. 291, caput, do Código de Trânsito determina a aplicação subsidiária, aos crimes cometidos na direção de veículo automotor, das normas gerais do Código Penal e do Código de Processo Penal, bem como da Lei 9.099/95, no que couber. Essa ressalva final tem justamente a finalidade de esclarecer que as normas da Lei 9.099/95 só terão aplicação aos crimes de trânsito que se ajustem ao conceito de infração de menor potencial ofensivo http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9099.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art59 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art59 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 7 regulamentados por referida Lei (aqueles cuja pena máxima não excede dois anos), podendo-se exemplificar: 1) Omissão de socorro (art. 304); 2) Fuga do local do acidente (art. 305); 3) Violação da suspensão ou omissão da entrega da habilitação (art. 307); 4) Direção sem habilitação (art. 309); 5) Entrega de veículo a pessoa não habilitada (art. 310); 6) Excesso de velocidade em determinados locais (art. 311); 7) Fraude no procedimento apuratório (art. 312). O crime de lesão culposa na direção de veículo automotor, que tem pena máxima de 2 anos, possui algumas regras próprias no art. 291, §§ 1º e 2º, do Código de Trânsito. De acordo com o § 1º, o autor da infração pode ser beneficiado pela transação penal, bem como pela extinção da punibilidade em caso de composição quanto aos danos civis homologada pelo juiz. Além disso, a ação penal é condicionada à representação. Ocorre que nos incisos do próprio § 1º, o legislador expressamente afastou esses institutos (transação penal, composição civil e necessidade de representação), se o autor da lesão culposa estiver: 1) Sob a influência de álcool ou qualquer outra substância psicoativa que determine dependência; 2) Participando, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística, de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automotor, não autorizada pela autoridade competente; 3) Transitando em velocidade superior à máxima permitida para a via em 50 km/h (cinquenta quilômetros por hora). Segundo o doutrinador Victor Eduardo Rios Gonçalves, nessas hipóteses, portanto, o crime de lesão culposa na direção de veículo apura-se mediante ação pública incondicionada, e o acusado não faz jus aos demais benefícios já mencionados. Ademais, de acordo com o § 2º, deverá ser instaurado inquérito policial para a apuração do delito. SUSPENSÃO OU PROIBIÇÃO: PERMISSÃO OU HABILITAÇÃO (COMO PENA) Dispõe o art. 292 do CTB que: Art. 292. A suspensão ou a proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor pode ser imposta isolada ou cumulativamente com outras penalidades. Pertinente, inicialmente, fazer algumas distinções: http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 8 1) Permissão é o documento inicial, com validade de um ano, que antecede a Carteira Nacional de Habilitação (CNH); 2) Habilitação é concedida após o prazo de um ano da permissão; 3) Suspensão é a penalidade imposta àquele que algum dia já possuiu a permissão ou a habilitação; 4) Proibição, pelo contrário, é destinada àquele que nunca obteve nem permissão, tampouco habilitação. Para alguns doutrinadores, a proibição de se obter permissão ou habilitação configura a sui generis espécie de “pena privativa de direito”. Em alguns casos, o próprio CTB prevê de forma expressa as referidas penas conjuntamente com a pena privativa de liberdade e/ou pena de multa, a exemplo do que ocorre nos crimes previstos nos arts. 302, 303, 306, 307 e 308. Conforme leciona Renato Brasileiro1, em fiel observância ao axioma do nullum crimen nulla poena sine legis, a pena de suspensão ou proibição de obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor como espécie de pena principal só pode ser imposta em relação aos delitos do 302, 303, 306, 307 e 308. Isso porque tal pena só está prevista para estes tipos penais. Por consequência, se o preceito secundário do crime de trânsito em questão não contemplar essa pena de maneira taxativa, a exemplo do que ocorre com o crime de omissão de socorro na direção de veículo automotor, não se pode admitir qualquer tipo de interpretação analógica ou extensiva para fins de admitir a possibilidade de aplicação da sanção penal do art. 296 do CTB, preservando-se, assim, o princípio da legalidade. Ainda analisando o texto legal, nota-se a expressão “pode”, que remete à opção facultativa de aplicação de pena. No entanto, se houver reincidência, a adoção da pena de suspensão (e somente ela) será obrigatória, nos termos do art. 296 do CTB: Art. 296. Se o réu for reincidente na prática de crime previsto neste Código, o juiz aplicará a penalidade de suspensão da permissão ou habilitação para dirigir veículo automotor, sem prejuízo das demais sanções penais cabíveis Atenção: o art. 296 do CTB não cita as hipóteses de penalidade de proibição. Portanto, havendo reincidência, somente será obrigatória a imposição da pena de suspensão. 2.2.1. Duração e cumprimento das penas de suspensão e proibição Está disposta no art. 293 do CTB: Art. 293. A penalidade de suspensão ou de proibição de se obter a permissão ou a habilitação, para dirigir veículo automotor, tem a duração de dois meses a cinco anos. 1 BRASILEIRO, Renato. Manual de Legislação Criminal Especial, 10ª ed. Salvador: Juspodivm, 2022, p. 1367. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 9 § 1º Transitada em julgado a sentença condenatória, o réu será intimado a entregar à autoridade judiciária, em quarenta e oito horas, a Permissão para Dirigir ou a Carteira de Habilitação. Uma vez imposta a pena, cabe ao Poder Judiciário intimar o condenado para entregar em 48 horas a Permissão ou Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e comunicar os órgãos de trânsito competentes. Se não atendida à intimação, o condenado incorrerá no crime previsto no art. 307, § único do CTB:Art. 307. Violar a suspensão ou a proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor imposta com fundamento neste Código: Penas - detenção, de seis meses a um ano e multa, com nova imposição adicional de idêntico prazo de suspensão ou de proibição. Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre o condenado que deixa de entregar, no prazo estabelecido no § 1º do art. 293, a Permissão para Dirigir ou a Carteira de Habilitação. Se o réu intimado a entregar sua CNH estiver preso, a penalidade não será iniciada, conforme prevê o § 2º do art. 293 do CTB: Art. 293, § 2º A penalidade de suspensão ou de proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor não se inicia enquanto o sentenciado, por efeito de condenação penal, estiver recolhido a estabelecimento prisional. Por fim, evidencia-se o previsto no art. 295 do CTB: Art. 295. A suspensão para dirigir veículo automotor ou a proibição de se obter a permissão ou a habilitação será sempre comunicada pela autoridade judiciária ao Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN, e ao órgão de trânsito do Estado em que o indiciado ou réu for domiciliado ou residente. A comunicação aos órgãos de trânsito competentes é necessária por 2 razões: oportunizar a fiscalização pelos órgãos administrativos da medida imposta ao condenado e evitar a má-fé (ex.: sujeito que é intimado para entregar CNH ao Poder Judiciário e que, depois de concedida, solicita 2ª via do documento no Departamento de Trânsito). 2.2.2. Suspensão ou proibição como medida cautelar Art. 294. Em qualquer fase da investigação ou da ação penal, havendo necessidade para a garantia da ordem pública, poderá o juiz, como medida cautelar, de ofício, ou a requerimento do Ministério Público ou ainda mediante representação da autoridade policial, decretar, em decisão motivada, a suspensão da permissão ou da habilitação para dirigir veículo automotor, ou a proibição de sua obtenção. Parágrafo único. Da decisão que decretar a suspensão ou a medida cautelar, ou da que indeferir o requerimento do Ministério Público, caberá recurso em sentido estrito, sem efeito suspensivo. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 10 Conforme extraído do artigo supra, a suspensão ou proibição poderá ser aplicada em qualquer fase da investigação ou da ação penal, inclusive, de maneira cautelar. Outrossim, segundo os ensinamentos de Renato Brasileiro, diante do teor do art. 282, §§ 2º e 4º, c/c art. 311, ambos do CPP, conclui-se que, seja durante a fase investigatória, seja durante a fase processual, a decretação das medidas cautelares pelo juiz só poderá ocorrer mediante provocação da autoridade policial ou do Ministério Público: Art. 282, § 2º As medidas cautelares serão decretadas pelo juiz a requerimento das partes ou, quando no curso da investigação criminal, por representação da autoridade policial ou mediante requerimento do Ministério Público. § 4º No caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas, o juiz, mediante requerimento do Ministério Público, de seu assistente ou do querelante, poderá substituir a medida, impor outra em cumulação, ou, em último caso, decretar a prisão preventiva, nos termos do parágrafo único do art. 312 deste Código Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. Destaca-se, por fim que da decisão que decretar a suspensão ou a medida cautelar, ou da que indeferir o requerimento do Ministério Público, caberá recurso em sentido estrito (RESE), sem efeito suspensivo, nos termos do art. 294, parágrafo único, do CTB. 2.2.3. Aplicação aos motoristas profissionais Em alguns estados do Brasil, os Tribunais de Justiça entendem que não pode ser aplicada a pena de suspensão para motoristas profissionais porque, nesse caso, seria violado o direito ao trabalho e ao sustento próprio e da família e, consequentemente, violaria o direito à dignidade humana. Portanto, o juiz deve substituir a pena de suspensão do direito de dirigir por outra pena restritiva de direitos. O tema chegou ao STF e ao STJ, ocasião em que foi fixado o entendimento de que é constitucional a imposição da pena de suspensão de habilitação para dirigir veículo automotor ao motorista profissional condenado por homicídio culposo no trânsito, utilizando-se os seguintes fundamentos: 1) Trata-se de pena cominada em Lei, razão pela qual o juiz não pode deixar de aplicar uma pena cominada em Lei, caso contrário negará a sua vigência; 2) É justamente dos motoristas profissionais que se exige maior cautela. Portanto, quando eles se envolvem em acidentes de trânsito, a reprovabilidade da conduta é maior do que a do motorista particular. A respeito do tema, colaciona-se os julgados abaixo: O crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, tipificado no art. 302 do CTB, prevê, como uma das penas aplicadas, a “suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 11 automotor.” Se o réu que praticou este crime é motorista profissional, ele pode, mesmo assim, receber essa sanção ou isso violaria o direito constitucional ao trabalho? Não viola. O condenado pode sim receber essa sanção, ainda que se trate de motorista profissional. É constitucional a imposição da pena de suspensão de habilitação para dirigir veículo automotor ao motorista profissional condenado por homicídio culposo no trânsito. O direito ao exercício de atividades profissionais (art. 5º, XIII) não é absoluto e a restrição imposta pelo legislador se mostra razoável. STF. Plenário. RE 607107/MG, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 12/2/2020 (repercussão geral – Tema 486) (Info 966). Os motoristas profissionais - mais do que qualquer outra categoria de pessoas - revelam maior reprovabilidade ao praticarem delito de trânsito, merecendo, pois, a reprimenda de suspensão do direito de dirigir, expressamente prevista no art. 302 do CTB, de aplicação cumulativa com a pena privativa de liberdade. Dada a especialização, deles é de se esperar maior acuidade no trânsito. STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1771437/CE, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 11/06/2019. Como o tema foi cobrado em concurso? (DPE-TO - Defensor - CESPE - 2022): Homicídio culposo quando praticado por motorista profissional justifica a substituição da pena acessória de suspensão do direito de dirigir por outra reprimenda. Errado. (DPE-MS - Defensor - FGV - 2022): Ernesto, motorista profissional, em fatídico evento, praticou homicídio culposo na direção do caminhão que conduzia. Ao fim do processo penal, veio a ser condenado, com base na legislação vigente, à pena alternativa de pagamento de prestação pecuniária e à proibição de dirigir veículo automotor por dois anos. Considerando que Ernesto possui família a sustentar, é correto afirmar, à luz da sistemática constitucional, que a proibição de dirigir veículo automotor é legítima, considerando o objetivo de proteger bens jurídicos relevantes de terceiros, como vida e integridade física. Correto. EFEITO EXTRAPENAL E AUTOMÁTICO DA CONDENAÇÃO Preleciona o art. 160 do CTB que: Art. 160. O condutor condenado por delito de trânsito deverá ser submetido a novos exames para que possa voltar a dirigir, de acordo com as normas estabelecidas pelo CONTRAN, independentemente do reconhecimento da prescrição, em face da pena concretizada na sentença. § 1º Em caso de acidente grave, o condutor nele envolvido poderá ser submetido aos exames exigidos neste artigo, a juízo da autoridade executiva estadual de trânsito, asseguradaampla defesa ao condutor. § 2º No caso do parágrafo anterior, a autoridade executiva estadual de trânsito poderá apreender o documento de habilitação do condutor até a sua aprovação nos exames realizados. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 12 O efeito extrapenal e automático da condenação consiste na determinação de que, ainda que sobrevenha a prescrição da pretensão executória, novos exames deverão ser feitos para que o condenado volte a dirigir. MULTA REPARATÓRIA Está disposta no art. 297 do CTB: Art. 297. A penalidade de multa reparatória consiste no pagamento, mediante depósito judicial em favor da vítima, ou seus sucessores, de quantia calculada com base no disposto no § 1º do art. 49 do Código Penal, sempre que houver prejuízo material resultante do crime. § 1º A multa reparatória não poderá ser superior ao valor do prejuízo demonstrado no processo. § 2º Aplica-se à multa reparatória o disposto nos arts. 50 a 52 do Código Penal. § 3º Na indenização civil do dano, o valor da multa reparatória será descontado. 2.4.1. Natureza jurídica A classificação da natureza jurídica da multa reparatória sempre deu margem para polêmica na doutrina. Atualmente, assevera-se que por guardar semelhanças com a fixação do quantum indenizatório mínimo do CPP, tem natureza jurídica de efeito da sentença, vide o art. 63, parágrafo único, do CPP: Art. 63. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover- lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros. Parágrafo único. Transitada em julgado a sentença condenatória, a execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos termos do inciso IV do caput do art. 387 deste Código sem prejuízo da liquidação para a apuração do dano efetivamente sofrido. 2.4.2. Necessidade do pedido expresso da multa reparatória Renato Brasileiro de Lima e Andrey Borges de Mendonça têm entendido que não é necessário pedido expresso da multa reparatória. Para eles, a multa reparatória tem efeito automático. Esse entendimento, todavia, não convenceu a jurisprudência dos Tribunais Superiores. O STJ e o STF preconizam que o pedido expresso para que o juiz fixe o valor devido é fundamental, sob pena de eventual decisão extra petita, de acordo com o julgado abaixo: 4. Entre diversas outras inovações introduzidas no Código de Processo Penal com a reforma de 2008, nomeadamente com a Lei nº 11.719/2008, destaca- se a inclusão do inciso IV ao artigo 387, que, consoante pacífica jurisprudência desta Corte Superior, contempla a viabilidade de indenização para as duas espécies de dano – o material e o moral -, desde que tenha havido a dedução de seu pedido na denúncia ou na queixa. (REsp 1675874/MS, 3ª Seção/STJ, DJe 08/03/2018). http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 13 Em conformidade com o julgamento, constata-se também que, para o STJ, o quantum indenizatório se aplica tanto ao dano material, quanto ao dano moral e demanda pedido expresso. Dada a similitude dos institutos previstos no art. 297 do CTB e nos arts. 63, parágrafo único e 387, inciso IV, do CPP, pode-se concluir que, para a multa reparatória, também se faz necessário o expresso pedido. 2.4.3. Multa reparatória: 3ª via do Direito Penal Segundo Cleber Masson, o sistema de dupla via admite as penas (1ª via) e as medidas de segurança (2ª via) como respostas estatais aos violadores das suas regras. Assim, o Direito Penal de dupla via é o Sistema Penal Clássico. Rogério Greco, por seu turno, defende que a introdução da relação autor-vítima-reparação no sistema de sanções penais conduz a um modelo de três vias, onde a reparação surge como uma terceira função da pena conjuntamente com a retribuição e a prevenção. A instituição da multa reparatória (e a fixação do quantum indenizatório mínimo do artigo 387, inciso IV, do CPP) revela traços desse modelo de três vias (Justiça Restaurativa), ao viabilizar uma nova forma de composição das consequências do delito. Atenção: nota-se que multa reparatória NÃO se confunde com os institutos da multa penal e/ou da prestação pecuniária. Em síntese, tem-se que: Multa Penal Multa Reparatória Prestação Pecuniária Art. 49 - A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa. Será, no mínimo, de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e sessenta) dias- multa. Art. 297. A penalidade de multa reparatória consiste no pagamento, mediante depósito judicial em favor da vítima, ou seus sucessores, de quantia calculada com base no disposto no § 1º do art. 49 do Código Penal, sempre que houver prejuízo material resultante do crime. Art. 43. As penas restritivas de direitos são: I - prestação pecuniária; Art. 45, § 1º A prestação pecuniária consiste no pagamento em dinheiro à vítima, a seus dependentes ou a entidade pública ou privada com destinação social, de importância fixada pelo juiz, não inferior a 1 (um) salário-mínimo nem superior a 360 (trezentos e sessenta) salários mínimos. O valor pago será deduzido do montante de eventual condenação em ação de reparação civil, se coincidentes os beneficiários. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 14 § 2º No caso do parágrafo anterior, se houver aceitação do beneficiário, a prestação pecuniária pode consistir em prestação de outra natureza. Art. 44, § 4º A pena restritiva de direitos converte-se em privativa de liberdade quando ocorrer o descumprimento injustificado da restrição imposta. No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo de trinta dias de detenção ou reclusão. Por fim, o STJ, no REsp 772721 e no REsp 736784, respectivamente, definiu que a pena de prestação pecuniária, espécie de pena restritiva de direitos NÃO se confunde com a multa reparatória do artigo 297 do CTB e que não há qualquer incompatibilidade na aplicação cumulativa. 2.4.4. Multa reparatória e os prejuízos imateriais O quantum indenizatório mínimo pode abarcar, tranquilamente, os danos morais e os danos materiais. No entanto, o CTB foi expresso ao citar que a penalidade de multa reparatória seria aplicada apenas os prejuízos materiais, nos termos do artigo 297, caput, do CTB: Art. 297. A penalidade de multa reparatória consiste no pagamento, mediante depósito judicial em favor da vítima, ou seus sucessores, de quantia calculada com base no disposto no § 1º do art. 49 do Código Penal, sempre que houver prejuízo material resultante do crime. Salienta-se, contudo, que nada impede a fixação de dano moral (quantum indenizatório) ao CTB por força do art. 387, inciso IV, do CPP, em obediência à determinação de aplicação subsidiária do Direito Processual Penal ao CTB. 2.4.5. Valor da multa reparatória O doutrinador Guilherme de Souza Nucci afirma que a referência feita ao art. 49, § 1º, do CP, é equivocada. Não se pode imaginar a fixação de uma reparação civil de dano com base em 1/30 do salário-mínimo até o máximo de 5 salários. Seria, nitidamente, insuficiente em várias situações. Logo, o correto é interpretar ser cabível a fixação da multa reparatória nos termos do art. 49, caput e § 1º do CP, de modo que o magistrado escolhe um montante de 10 a 360 dias-multa. Após, estabelece o valor do dia-multa. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 15 Importante visualizar, por fim, o que prelecionam os §§ 1º e 3º do art. 297 do CTB: Art. 297, § 1º A multa reparatória não poderá ser superior ao valor do prejuízo demonstrado no processo. § 3º Na indenização civil dodano, o valor da multa reparatória será descontado. O dispositivo acima reforça o cunho indenizatório da multa reparatória. 2.4.6. Procedimento de execução da multa reparatória Dispõe o art. 297, § 2º do CTB que: Art. 297, § 2º Aplica-se à multa reparatória o disposto nos arts. 50 a 52 do Código Penal. Conforme se extrai dos artigos 50 a 52 do CP, tem-se que a multa deve ser paga dentro de 10 dias depois de transitada em julgado a sentença. Além disso, a requerimento do condenado e conforme as circunstâncias, o juiz pode permitir que o pagamento se realize em parcelas mensais. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será executada perante o juiz da execução penal e será considerada dívida de valor, aplicáveis as normas relativas à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição. Por fim, é mister salientar que será suspensa a execução da pena de multa, se sobrevém ao condenado doença mental. 3. AGRAVANTES DOS CRIMES DE TRÂNSITO Estão elencadas nos incisos do art. 298 do CTB: Art. 298. São circunstâncias que sempre agravam as penalidades dos crimes de trânsito ter o condutor do veículo cometido a infração: O legislador equivocou-se ao prever a expressão “sempre”. Deve-se interpretar o texto à luz do artigo 61 do CP, ou seja, as circunstâncias agravarão as penalidades, quando não constituírem ou qualificarem o crime. A inciso I define a primeira agravante: Art. 298, I - com dano potencial para duas ou mais pessoas ou com grande risco de grave dano patrimonial a terceiros; Esse inciso é criticado porque, nos crimes de dano (homicídio culposo ou lesão corporal culposa de trânsito), se o autor comete o crime contra mais de uma pessoa, será aplicada a regra do art. 70 do CP (concurso formal). Diferentemente, o autor de homicídio culposo que imprudentemente mata um motociclista e “tira um fino” de três pessoas próximas, compreenderá, na sua pena, a presente agravante. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 16 Em relação aos crimes de perigo, o inciso é polêmico. Dois são os posicionamentos doutrinários: 1) 1ª corrente: defende que a agravante é aplicada também aos crimes de perigo. 2) 2ª corrente: a agravante não é aplicada aos crimes de perigo, pois o dano potencial a pessoas ou o risco de grave dano patrimonial a terceiros configura bis in idem, haja vista que o perigo já serviu para a tipificação da infração penal. Em continuidade, vislumbra-se a agravante disposta no inciso II do art. 298: Art. 298, II - utilizando o veículo sem placas, com placas falsas ou adulteradas; Atenção: se for o próprio condutor do veículo que falsificou as placas, responderá ele em concurso material com o artigo 311 do CP, sem, contudo, a presença da agravante para não configurar bis in idem. Do mesmo modo, há a agravante do inciso III: Art. 298, III - sem possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; Em algumas situações, não incidirá. Especialmente a dos artigos 302 e 303 do CTB. Nesses crimes, a circunstância já funciona como causa de aumento de pena: Art. 302, § 1o No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação. Não será aplicada também ao crime do art. 309 do CTB, pois já constitui elementar do delito (dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida permissão para dirigir ou habilitação ou, ainda, se cassado o direito de dirigir, gerando perigo de dano). Igualmente, não será aplicada ao art. 310 do CTB (permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em condições de conduzi-lo com segurança). Incidirá nos demais casos, como, por exemplo, na embriaguez ao volante (art. 306 do CTB) e no crime de racha (art. 308). Em sequência, tem-se a quarta agravante prevista no art. 298: Art. 298, IV - com Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação de categoria diferente da do veículo; Frisa-se que as categorias de habilitação estão dispostas no art. 143 do CTB. A quinta agravante do art. 298 prevê que: Art. 298, V - quando a sua profissão ou atividade exigir cuidados especiais com o transporte de passageiros ou de carga; http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 17 A primeira parte do inciso “quando a sua profissão ou atividade exigir cuidados especiais com o transporte de passageiros” não será aplicada aos delitos dos arts. 302, § 1º, inciso IV e 303, parágrafo único do CTB. No caso do homicídio culposo (art. 302 do CTB), já funciona como causa de aumento de pena. Assim, incidirá a agravante apenas se a profissão exigir cuidados especiais com o transporte de carga. Incidirá nos demais casos. Ex.: art. 306 do CTB cometido por motorista de ônibus. Ressalta-se que pouco importa se o veículo está vazio (ou não), se existem passageiros (ou não), se existe carga (ou não), o que é relevante é o fato de o veículo ser destinado ao transporte de passageiros ou de cargas. Outrossim, a sexta agravante trazida pelo art. 298 preleciona que: Art. 298, VI - utilizando veículo em que tenham sido adulterados equipamentos ou características que afetem a sua segurança ou o seu funcionamento de acordo com os limites de velocidade prescritos nas especificações do fabricante; Há a agravante por que o dito “envenenamento” do veículo gera um maior perigo à segurança viária. Um típico exemplo de incremento do risco é motor “tunado”. Como é um crime que deixa vestígios, exige perícia. Por fim, o art. 298 traz como última agravante: Art. 298, VII - sobre faixa de trânsito temporária ou permanentemente destinada a pedestres. Faixas de trânsito temporárias são aquelas utilizadas em situações especiais ou emergenciais, com o escopo de proteger pedestres, trabalhadores etc. Essas faixas visam aumentar a segurança dos pedestres nos locais especificamente a eles destinados. Não incide nos crimes dos arts. 302, § 1º, inciso II e 303, parágrafo único do CTB, pois já é considerada causa de aumento de pena, que não se restringe às faixas temporárias ou permanentes, como alcança também as calçadas, conforme disposição legal abaixo exposta: Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Penas - detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1o No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada. 4. PERDÃO JUDICIAL Estava expressamente previsto no art. 300 do CTB, que foi VETADO: Art. 300. Nas hipóteses de homicídio culposo e lesão corporal culposa, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem, http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 18 exclusivamente, o cônjuge ou companheiro, ascendente, descendente, irmão ou afim em linha reta, do condutor do veículo. Isto posto, questiona-se: o veto presidencial significa rejeição à possibilidade de aplicação de perdão judicial aos arts. 302 e 303 do CTB? Na época do veto, a questão foi objeto de inúmeras discussões doutrinárias, surgindo as seguintes correntes: 1) 1ª corrente: derivada da Ap. 1252261-2, 2ª C., rel. Osni de Souza, 28.06.2001, entendia- se que era inadmissível a concessão do perdão judicial ao agente condenado pelo delito do art. 302 da Lei 9.503/97, uma vez que inexiste tal previsão no Código de Trânsito Brasileiropara os crimes de homicídio culposo e lesão corporal culposa, sendo certo que o referido benefício constitui causa extintiva da punibilidade de aplicação restrita aos casos legais, recaindo sobre as infrações especificamente indicadas na lei, conforme dispõe o inciso IX do art. 107 do CP. Essa corrente é demonstrada, tão somente, com finalidade histórica, já que não é mais adotada. 2) 2ª corrente: é admissível a aplicação do perdão judicial, seja por analogia, seja pela previsão art. 291 do CTB ou pelas razões do veto. O veto presidencial NÃO significa rejeição à possibilidade de aplicação de perdão judicial aos arts. 302 e 303 do CTB. É imperativa a aplicação analógica do § 5º do art. 121 e do § 8º do art. 129, ambos do CP, que são normas de caráter geral (CP, artigo 12). Nesse liame, uma das razões do veto era o fato de que o artigo tratava do perdão judicial, já consagrado pelo Direito Penal. Ademais, porque as hipóteses previstas no § 5º do art. 121 e § 8º do art. 129 do Código Penal disciplinam o instituto de forma mais abrangente. Outrossim, conforme já mencionado, o art. 291 do CTB prevê, ainda, que aos crimes cometidos na direção de veículos automotores aplicam-se as normas gerais do CP e do CPP. Portanto, atualmente, inexistem dúvidas de que incide o perdão judicial aos delitos de trânsito. Destaca-se, contudo, que em caso de concurso formal de crimes, o perdão judicial concedido para um deles não necessariamente deverá abranger o outro, de acordo com orientação jurisprudencial do STJ: O fato de os delitos terem sido cometidos em concurso formal não autoriza a extensão dos efeitos do perdão judicial concedido para um dos crimes, se não restou comprovada, quanto ao outro, a existência do liame subjetivo entre o infrator e a outra vítima fatal. Ex: o réu, dirigindo seu veículo imprudentemente, causa a morte de sua noiva e de um amigo; o fato de ter sido concedido perdão judicial para a morte da noiva não significará a extinção da punibilidade no que tange ao homicídio culposo do amigo. STJ. 6ª Turma. REsp 1444699-RS, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 1/6/2017 (Info 606). http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 19 Como o tema foi cobrado em concurso? (MPDTF - Promotor - MPDFT - 2021): Estende-se ao crime praticado em concurso formal com o homicídio culposo o perdão judicial a este aplicado. Errado. 5. IMUNIDADE AO FLAGRANTE Dispõe o art. 301 do CTB que: Art. 301. Ao condutor de veículo, nos casos de acidentes de trânsito de que resulte vítima, não se imporá a prisão em flagrante, nem se exigirá fiança, se prestar pronto e integral socorro àquela. Excetuada a ocorrência do presente tipo penal, nos demais casos de acidentes culposos que resultem vítimas, a omissão constitui causa de aumento de pena tanto do homicídio culposo quanto da lesão corporal culposa. CABIMENTO DE PRISÃO TEMPORÁRIA Não será cabível a prisão temporária nos crimes de trânsito, pois o rol que prevê suas possibilidades é restrito (artigo 1º, inciso III da Lei nº 7.960/89) e não traz em seu bojo qualquer possibilidade no contexto dos crimes do CTB. CABIMENTO DE PRISÃO PREVENTIVA EM CRIME CULPOSO Em relação à prisão preventiva, a priori, não há que se falar em sua decretação em crime culposo, vide o art. 313 do CPP: Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação da prisão preventiva: I - nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos; § 1º Também será admitida a prisão preventiva quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o preso ser colocado imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção da medida. § 2º Não será admitida a decretação da prisão preventiva com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como decorrência imediata de investigação criminal ou da apresentação ou recebimento de denúncia. Excepcionalmente, segundo Andrey Borges de Mendonça, pode ser que caiba quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la ou mesmo no caso de descumprimento da medida cautelar de suspensão ou proibição para dirigir e reiteração do comportamento imprudente. 6. HOMICÍDIO CULPOSO DE TRÂNSITO http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 20 Possui a seguinte previsão legal: Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Penas - detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1o No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada; III - deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente; IV - no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. § 3o Se o agente conduz veículo automotor sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Antes do CTB, a provocação da morte culposa por condução de veículo era abarcada pelo CP, em seu artigo 121, § 3º. Não havia um diploma específico a respeito do assunto. Na época antecedente à edição do CTB, verificou-se alto índice de mortes no trânsito que colocou o Brasil como recordista mundial. Assim, o legislador atendeu a um apelo social a respeito do tema e criminalizou de forma mais grave e especial o homicídio culposo no trânsito dentro do CTB. Atualmente, portanto, existem 2 tipos de homicídios culposos, um descrito no CTB e outro no CP: Art. 302 do CTB Art. 121, § 3º, do CP Somente se aplica ao homicídio culposo na direção de veículo automotor (cujo conceito de veículo automotor está no Anexo I do CTB). Aplica-se a qualquer outro homicídio culposo no trânsito, como homicídio no trânsito praticado na direção de veículo de tração humana (ciclista que atropela e mata um pedestre), de tração animal, veículo automotor aquático (lancha), veículo aéreo, condução de ciclomotor. Em qualquer das hipóteses, deve-se examinar o que prevê art. 18, inciso II, do CP: Art. 18 - Diz-se o crime: II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. Isto posto, questiona-se: é possível haver morte culposa no trânsito sem a incidência do art. 302 do CTB? Para que ocorra o delito descrito no artigo 302 do CTB, o agente deve estar dirigindo veículo automotor. Assim, não será tipificado nas seguintes hipóteses: http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 21 1) Ciclista que atravessa a pista de rolamento em momento e local inadequados (imprudência no trânsito por quem não estava na condução de veículo automotor), causando a queda e a morte de um motociclista. 2) “Caroneiro” que, por imprudência, balança a motocicleta e provoca a queda e morte do condutor. 3) Pessoa que: a) Abre a porta de um carro sem olhar para trás e causa a morte de um motociclista; b) Empurra um carro desligado, perde o seu controle e atropela alguém. ELEMENTOS DO CRIME CULPOSO Segundo Cleber Masson2, são elementos do tipo culposo: 1) Conduta voluntária; 2) Violação do dever objetivo de cuidado; 3) Resultado naturalístico involuntário; 4) Nexo causal;5) Tipicidade; 6) Previsibilidade objetiva; 7) Ausência de previsão. VIAS TERRESTRES Dispõe o art. 1º do CTB que: Art. 1º O trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional, abertas à circulação, rege-se por este Código § 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. § 2º O trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito, a estes cabendo, no âmbito das respectivas competências, adotar as medidas destinadas a assegurar esse direito. § 3º Os órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito respondem, no âmbito das respectivas competências, objetivamente, por danos causados aos cidadãos em virtude de ação, omissão ou erro na execução e manutenção de programas, projetos e serviços que garantam o exercício do direito do trânsito seguro. 2 MASSON, Cleber. Direito Penal: parte geral (arts. 1º a 120) – v. 1. 14º Ed. São Paulo: Método, 2020, p. 255. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 22 § 5º Os órgãos e entidades de trânsito pertencentes ao Sistema Nacional de Trânsito darão prioridade em suas ações à defesa da vida, nela incluída a preservação da saúde e do meio-ambiente. Diante do dispositivo normativo exposto, pode-se inferir que os fatos praticados na condução de veículos motorizados não terrestres (lanchas, jet-skis, aeronaves) não rendem ensejo ao art. 302 do CTB, podendo incorrer o autor, conforme o caso, no CP: arts. 121, § 3º ou 261, que trata do crime denominado “atentado contra a segurança de transporte marítimo, fluvial ou aéreo”. O art. 2º do CTB, em continuidade, traz o conceito de via terrestre: Art. 2º São vias terrestres urbanas e rurais as ruas, as avenidas, os logradouros, os caminhos, as passagens, as estradas e as rodovias, que terão seu uso regulamentado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre elas, de acordo com as peculiaridades locais e as circunstâncias especiais Em 2015, o legislador esclarecendo o conceito de “vias terrestres”, acrescentou o parágrafo único ao art. 2º do CTB: Art. 2º, Parágrafo único. Para os efeitos deste Código, são consideradas vias terrestres as praias abertas à circulação pública, as vias internas pertencentes aos condomínios constituídos por unidades autônomas e as vias e áreas de estacionamento de estabelecimentos privados de uso coletivo Salienta-se que o crime do art. 302 do CTB, conforme aponta o caput, não ocorrerá somente em vias públicas. Isso porque no homicídio culposo de trânsito, o legislador não restringiu o local da ocorrência. Pode ser, pois, em qualquer lugar. Ex.: crime cometido no ato de tirar o veículo da garagem, no estacionamento de um shopping. Ao contrário, os crimes inscritos nos arts. 308 e 309 apenas serão consumados se praticados em via pública. ELEMENTO SUBJETIVO Sempre será a culpa. Em razão disso, se na direção de veículo automotor, alguém acelerar seu carro para atropelar e matar seu desafeto, tem-se o crime de homicídio doloso (CP). Note que a embriaguez + direção que ocasiona morte não rende ensejo, necessariamente, ao dolo eventual. Por outro lado, a embriaguez + direção que gerou morte, somada a outros elementos, pode, eventualmente, caracterizar o dolo eventual, conforme explicado no quadro comparativo abaixo: CULPA CONSCIENTE DOLO EVENTUAL O Superior Tribunal de Justiça já se manifestou no sentido de que a embriaguez por si só, sem outros elementos do caso concreto, não pode induzir à presunção, pura e simples, de que houve intenção de matar. (AgRg no Resp 1594185/RS, Dje 02/03/2018). A embriaguez não foi a única circunstância externa configuradora do dolo eventual. Assim, na espécie, a Corte de origem entendeu, com base nas provas dos autos, que o recorrente não está sendo processado em razão de uma simples embriaguez ao http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 23 Homicídio na condução de veículo automotor. Embriaguez ao volante. (...) Sendo os crimes de trânsito, em regra, culposos, impõe-se a indicação de elementos concretos que evidenciem a assunção do risco de produzir o resultado, o dolo eventual. (...) o contexto fático evidenciaria a culpa consciente, por se tratar de motorista profissional que confiara em suas habilidades para impedir o resultado. (AgRg no Resp 1041830, DJ e 03/11/2015). volante da qual resultou em uma morte, mas sim de dirigir em velocidade incompatível com o local, à noite, na contramão de direção em rodovia. Tais circunstâncias indicam, em tese, terem sido os crimes praticados com dolo eventual. (JC 303872, Dje 02/02/2017). “(...) o fato de o réu dirigir embriagado veículo automotor em via pública, fazendo ziguezague na pista e, ao atingir a vítima, não prestar socorro, são circunstâncias que indicam que o paciente agiu com dolo eventual. (HC 226.338, Dje 28/04/2016). CAUSAS DE AUMENTO DE PENA A primeira causa de aumento de pena do homicídio culposo está prevista no inciso I do art. 302, § 1º, do CTB: Art. 302, § 1o No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; Não responderá pelo art. 309 do CTB, que fica absorvido pelo art. 302 do CTB, conforme decidiu o STF no HC 128.921. Outrossim, o fato de o autor de homicídio culposo na direção de veículo automotor estar com a CNH vencida não justifica a aplicação da causa especial de aumento de pena descrita no inciso I do § 1º do art. 302 do CTB, de acordo com posicionamento do STF no HC 226128. A segunda majorante dispõe evidencia a gravidade do delito em razão de onde é cometido: Art. 302, § 1o, II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada; A conduta é mais gravosa nesse caso pois a vítima é atingida justamente em local destinado a lhe dar segurança. Sobre o tema, importante destacar o seguinte julgado do STJ: A majorante do art. 302, § 1º, II, do CTB será aplicada tanto quando o agente estiver conduzindo o seu veículo pela via pública e perder o controle do veículo automotor, vindo a adentrar na calçada e atingir a vítima, como quando estiver saindo de uma garagem ou efetuando qualquer manobra e, em razão de sua desatenção, acabar por atingir e matar o pedestre. Assim, aplica-se a referida causa de aumento de pena na hipótese em que o condutor do veículo transitava pela via pública e, ao efetuar manobra, perdeu o controle do carro, subindo na calçada e atropelando a vítima. STJ. 5ª Turma. AgRg nos EDcl no REsp 1499912-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 05/03/2020 (Info 668). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9503Compilado.htm#art302%C2%A72 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9503Compilado.htm#art302%C2%A72 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 24 Obs.: no crime praticado em faixa de pedestre, não se aplica a agravante do art. 298 do CTB e sim a causa de aumento de pena do art. 302, § 1º, II. Em sequência, tem-se a terceira majorante: Art. 302, § 1o, III - deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente; Tem-se como requisitos para a aplicação da referida causa de aumento de pena: 1) Deixar de prestar socorro o causador do acidente; 2) Sem risco pessoal para o condutor (ex.: ameaça de linchamento). Portanto, NÃO incide a causa de aumento de pena quando: 1) O condutor culpado está gravemente ferido, sem condições de agir; 2) Há socorro imediatamente prestado por terceiros (não havendo omissão); 3) O socorroé absolutamente inviável. É preciso destacar, contudo, no que se refere à última hipótese, o posicionamento adotado pelo STF, no sentido de que nos crimes de trânsito tutelados pelo CTB, NÃO cabe ao autor do delito presumir o estado de saúde da vítima e avaliar a conveniência de socorrê-la: Para a observância da causa de aumento da pena prevista no artigo 302, § 1º, inciso III, da Lei nº 9.503/1997, revela-se desinfluente a circunstância de a morte haver sido instantânea, não cabendo ao agente presumir o estado de saúde da vítima e avaliar a conveniência de socorrê-la. STF. 1ª turma. HC 195.497/SP AgR, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 23/03/2021. Ante o exposto, é possível visualizar as seguintes diferenças: ART. 302, § 1º, INCISO III, DO CTB ART. 304 DO CTB A causa de aumento de pena se aplica ao condutor do veículo que age de forma culposa e se omite. O condutor do veículo que omitiu socorro é culpado (imprudência, negligência ou imperícia) pelo acidente. O art. 304 incide quando o condutor, que não age com culpa (imprudência, negligência ou imperícia), deixa de prestar socorro à vítima. O condutor do veículo, que omitiu socorro, não é culpado pelo acidente. Ele deve prestar o socorro mesmo cabendo a culpa do sinistro à vítima ou a terceiro. Se não o fizer: art. 304 do CTB. A última majorante prevista no § 1º do art. 302 prevê o seguinte: Art. 302, § 1º, IV - no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 25 Ressalta-se que não é necessário que o condutor esteja conduzindo alguém. Basta que o veículo seja destinado ao transporte de passageiros, segundo entendimento do STJ: A majorante do art. 302, parágrafo único, inciso IV, do CTB, exige que se trate de motorista profissional, que esteja no exercício de seu mister e conduzindo veículo de transporte de passageiros, mas não refere à necessidade de estar transportando clientes no momento da colisão e não distingue entre veículos de grande ou pequeno porte. (AgRg no REsp 1255562/RS, STJ, Dje 17/03/2014). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPDTF - Promotor - MPDFT - 2021): A causa de aumento prevista no art. 302, § único, IV, do Código de Trânsito Nacional (Lei 9.503/1997), é aplicada ao motorista profissional, mesmo que no momento da colisão ele não esteja conduzindo nenhum passageiro dentro do veículo. Correto. O inciso V do art. 302 do CTB foi revogado. Ele previa como causa de aumento de pena o fato de o autor estar sob a influência de álcool ou substância tóxica ou entorpecente de efeitos análogos. O propósito da revogação foi permitir o concurso entre o crime do art. 302 e o do art. 306, ambos do CTB. No entanto, a ideia não se desenrolou na prática. Para muitos, é incogitável o concurso do crime de perigo com o crime de dano. Segundo Guilherme de Souza Nucci, eliminou-se a causa de aumento com o objetivo de permitir a aplicação cumulativa de dois crimes: homicídio culposo em concurso formal com a embriaguez ao volante. Entretanto, não se admite que, concorrendo o crime de perigo (embriaguez ao volante) com o crime de dano (homicídio culposo), haja aplicação cumulativa dos dois tipos penais. Afinal, o delito de dano sempre absorve o de perigo. Diante disso, a eliminação da causa de aumento prejudicou o contexto do maior rigor exigível de quem dirige alcoolizado, causando danos à coletividade. Contudo, a Lei 13.546/2017 inseriu o § 3º ao art. 302, passando a prever o seguinte: Art. 302, § 3o Se o agente conduz veículo automotor sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. O legislador buscou vedar a possibilidade de substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, ao estipular pena mínima superior a 4 anos (ultrapassando o limite imposto pelo artigo 44, inciso I, do CP). No entanto, esqueceu-se de que a substituição também abrange os crimes culposos: Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 26 Como o tema foi cobrado em concurso? (DPE-TO - Defensor - CESPE - 2022): Alteração legislativa proibiu a conversão de pena privativa de liberdade em pena restritiva de direitos quando ocorrer crime de homicídio culposo. Errado. Salienta-se que o procedimento adotado para comprovar o estado de embriaguez do autor do homicídio culposo qualificado está previsto no art. 277 do CTB: Art. 277. O condutor de veículo automotor envolvido em acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização de trânsito poderá ser submetido a teste, exame clínico, perícia ou outro procedimento que, por meios técnicos ou científicos, na forma disciplinada pelo Contran, permita certificar influência de álcool ou outra substância psicoativa que determine dependência. § 2o A infração prevista no art. 165 também poderá ser caracterizada mediante imagem, vídeo, constatação de sinais que indiquem, na forma disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade psicomotora ou produção de quaisquer outras provas em direito admitidas. § 3º Serão aplicadas as penalidades e medidas administrativas estabelecidas no art. 165-A deste Código ao condutor que se recusar a se submeter a qualquer dos procedimentos previstos no caput deste artigo. Nesse liame, o art. 3º da Resolução 432/13 do CONTRAN prevê como meios técnicos para comprovação do estado de embriaguez: Art. 3º A confirmação da alteração da capacidade psicomotora em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência dar-se-á por meio de, pelo menos, um dos seguintes procedimentos a serem realizados no condutor de veículo automotor: I – exame de sangue; II – exames realizados por laboratórios especializados, indicados pelo órgão ou entidade de trânsito competente ou pela Polícia Judiciária, em caso de consumo de outras substâncias psicoativas que determinem dependência; III – teste em aparelho destinado à medição do teor alcoólico no ar alveolar (etilômetro); IV – verificação dos sinais que indiquem a alteração da capacidade psicomotora do condutor. § 1º Além do disposto nos incisos deste artigo, também poderão ser utilizados prova testemunhal, imagem, vídeo ou qualquer outro meio de prova em direito admitido. § 2º Nos procedimentos de fiscalização deve-se priorizar a utilização do teste com etilômetro. Importante destacar, ademais, que a morte culposa decorrente de racha configura o crime do art. 308, § 2º do CTB. Por fim, evidencia-se que NÃO se aplica o arrependimento posterior em homicídio culposo na direção de veículo, conforme entendimento do STJ: Não se aplica o instituto do arrependimento posterior (art. 16 do CP) para o homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302 do CTB) mesmo que tenha sido realizada composição civil entre o autor do crime a família da vítima. Para que seja possível aplicar a causa de diminuição de pena prevista http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 27 no art. 16 do CP é indispensável que o crime praticado seja patrimonial ou possua efeitos patrimoniais. O arrependimento posterior exige a reparação do dano e isso é impossível no caso do homicídio. STJ. 6ª Turma. REsp 1561276-BA, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgadoem 28/6/2016 (Info 590). STJ. 6ª Turma. AgRg-HC 510.052-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 17/12/2019, DJE 04/02/2020. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-PR - Promotor - MPE-PR - 2021): “A” pratica homicídio culposo na direção de veículo automotor, estando com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool. “A” responde pelo crime de homicídio culposo (Lei 9.503/97, art. 302, caput), em concurso formal com o crime de embriaguez ao volante (Lei 9.503/97, art. 306). Errado. (TJ-SP - Juiz - VUNESP - 2021): Ao levar sua namorada para casa, Tácio atropela uma pessoa e foge, sem prestar-lhe socorro. Em razão do ocorrido, a vítima morre algumas semanas depois. Nessa hipotética situação, é correto afirmar que Tácio responderá pelo delito de homicídio culposo no trânsito, com a incidência da causa de aumento em razão da omissão de socorro prevista no Código de Trânsito. Correto. (MPDTF - Promotor - MPDFT - 2021): O arrependimento posterior é cabível em homicídio culposo na direção de veículo automotor, quando realizada composição civil entre o autor do crime e a família da vítima. Errado. 7. LESÃO CORPORAL CULPOSA DE TRÂNSITO Está prevista no art. 303 do CTB: Art. 303. Praticar lesão corporal culposa na direção de veículo automotor: Penas - detenção, de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1o Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) à metade, se ocorrer qualquer das hipóteses do § 1o do art. 302. § 2o A pena privativa de liberdade é de reclusão de dois a cinco anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo, se o agente conduz o veículo com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência, e se do crime resultar lesão corporal de natureza grave ou gravíssima. Trata-se de infração de menor potencial ofensivo, compatível, pois, com transação penal. Igualmente, caberá a suspensão condicional do processo. Será processado por ação penal pública condicionada à representação. A figura majorada do § 1º do artigo 303, do CTB, ao contrário, não é infração de menor potencial ofensivo e, portanto, não caberá composição civil e transação penal. No que tange ao § 2º do art. 303, salienta-se que ele somente incidirá se o crime resultar lesão corporal de natureza grave ou gravíssima. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 28 Como o CTB não conceitua no que consistem as referidas lesões, atenta-se às previsões do art. 129, §§ 1º e 2º, do CP: Lesão corporal de natureza grave Art. 129, § 1º Se resulta: I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias; II - perigo de vida; III - debilidade permanente de membro, sentido ou função; IV - aceleração de parto: Pena - reclusão, de um a cinco anos. § 2° Se resulta: I - Incapacidade permanente para o trabalho; II - enfermidade incurável; III perda ou inutilização do membro, sentido ou função; IV - deformidade permanente; V - aborto: Pena - reclusão, de dois a oito anos. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RR - Delegado - VUNESP - 2022): Configura crime previsto na Lei nº 9.503/1997 – Código de Trânsito Brasileiro a conduta de praticar lesão corporal dolosa na direção de veículo automotor. Errado. 8. OMISSÃO DE SOCORRO Dispõe o art. 304 do CTB que: Art. 304. Deixar o condutor do veículo, na ocasião do acidente, de prestar imediato socorro à vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da autoridade pública: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa, se o fato não constituir elemento de crime mais grave. Parágrafo único. Incide nas penas previstas neste artigo o condutor do veículo, ainda que a sua omissão seja suprida por terceiros ou que se trate de vítima com morte instantânea ou com ferimentos leves. Somente se considera a segunda forma (deixar de solicitar auxílio da autoridade pública) se, por justa causa, a pessoa não puder prestar o socorro. ATIPICIDADE Haverá atipicidade na hipótese de inviabilidade de socorro direto e de pedido de auxílio à autoridade pública. Ex.: condutor também gravemente lesionado. SUJEITO ATIVO O sujeito ativo será o condutor do veículo envolvido, sem culpa, no acidente. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 29 Se houver culpa, haverá tipificação do art. 302 ou art. 303, ambos do CTB. Atenção: o art. 135 do CP (omissão de socorro) incidirá para aqueles que não foram envolvidos no acidente, tais como outros condutores e pessoas que passaram pelo acidente e não prestaram socorro. CONSUMAÇÃO Só há tipificação em caso de omissão suprida por terceiro. Não haverá crime se o terceiro foi mais ágil ou mais gabaritado (médico, por exemplo). No caso de morte evidente também não há crime. Conforme afirma Guilherme de Souza Nucci, se a vítima morrer instantaneamente, situação nítida e clara, torna-se ilógico exigir que o condutor do veículo preste socorro. Haveria condições de punir o condutor se o ofendido (morto instantaneamente) deixar de ser socorrido, mas não houver certeza acerca da sua morte. Relembre-se, todavia, que o STF entendeu que nos crimes de trânsito tutelados pelo CTB, não cabe ao autor do delito presumir o estado de saúde da vítima e avaliar a conveniência de socorrê-la (STF. 1ª turma. HC 195.497/SP AgR, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 23/03/2021). Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RR - Delegado - VUNESP - 2022): Configura crime previsto na Lei nº 9.503/1997 – Código de Trânsito Brasileiro a conduta de qualquer pessoa deixar, na ocasião de acidente automobilístico, de prestar imediato socorro à vítima ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da autoridade pública. Errado. 9. CRIME DO ARTIGO 305 DO CTB Art. 305. Afastar-se o condutor do veículo do local do acidente, para fugir à responsabilidade penal ou civil que lhe possa ser atribuída: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa. O presente dispositivo é alvo de muitas críticas. CRÍTICAS Segundo a doutrina, a fuga destinada a evitar a responsabilização penal já configura causa de aumento de pena (arts. 302 e 303 do CTB) ou crime autônomo (art. 304 do CTB). Ademais, a fuga com o intuito de evitar a responsabilização civil afronta o artigo 5º, inciso LXVII, da CF/88 (prisão por dívida). Não se pode obrigar o sujeito a se autoincriminar, permanecendo no local do crime para sofrer as consequências de sua conduta, bem como não há dispositivo semelhante em relação à http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 30 prática de outros crimes (o ladrão que foge não é responsabilizado por crime autônomo por ter se evadido). Apesar das críticas, o STF entendeu que o art. 305 do CTB é constitucional, firmando as seguintes teses: A regra que prevê o crime do art. 305 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é constitucional, posto não infirmar o princípio da não incriminação, garantido o direito ao silêncio e ressalvadas as hipóteses de exclusão da tipicidade e da antijuridicidade. STF. Plenário. RE 971959/RS, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 14/11/2018 (Repercussão Geral – Tema 907) (Info 923). É constitucional o tipo penal que prevê o crime de fuga do local do acidente (art. 305 do CTB). STF. Plenário. ADC 35/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgado em 9/10/2020 (Info 994). 10. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE Possui previsão no art. 306 do CTB: Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - detenção, de seis mesesa três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-AP - Promotor - CESPE - 2021): Durante uma abordagem policial, os agentes verificaram que Carlos, na direção de veículo automotor, exalava um forte odor etílico, apresentava voz embargada e tropeçava ao fazer uma simples caminhada. Após o exame dos documentos do motorista, os agentes constataram que a carteira nacional de habilitação (CNH) dele estava vencida. Não foi feito o teste do etilômetro, pela falta do aparelho no local. Nessa situação hipotética, a conduta de Carlos caracteriza embriaguez ao volante. Correto. FORMAS DE CONSTATAÇÃO Art. 306, § 1o As condutas previstas no caput serão constatadas por: I - concentração igual ou superior a 6 decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar; ou II - sinais que indiquem, na forma disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade psicomotora. § 2o A verificação do disposto neste artigo poderá ser obtida mediante teste de alcoolemia ou toxicológico, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 31 § 3o O Contran disporá sobre a equivalência entre os distintos testes de alcoolemia ou toxicológicos para efeito de caracterização do crime tipificado neste artigo. § 4º Poderá ser empregado qualquer aparelho homologado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - INMETRO - para se determinar o previsto no caput. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): Com o advento da Lei nº 12.760/2012, apesar de dispensável a submissão do acusado a testes de alcoolemia, é imprescindível a realização de exame clínico no motorista para a comprovação do crime de embriaguez ao volante. Errado. IMPORTÂNCIA DO DIREITO À CONTRAPROVA Tem-se como exemplo o condutor que recusou o bafômetro e não cedeu material para exame de sangue. Mesmo assim, foi preso em flagrante por apresentar sinais de que há alteração na capacidade psicomotora em razão da influência do álcool, o que se fez baseado em vídeo e no testemunho de policiais. O preso poderá então solicitar a contraprova, que se dará exatamente pela realização dos exames anteriores (de sangue ou bafômetro). Se tais exames resultarem negativos, a prisão deverá ser relaxada. Por fim, é pacífico na jurisprudência que o crime é de perigo abstrato: A jurisprudência é pacífica no sentido de reconhecer a aplicabilidade do art. 306 do CTB, não prosperando a alegação de que o mencionado dispositivo, por se referir a crime de perigo abstrato, não é aceito pelo ordenamento jurídico brasileiro. (STF, ARE 985532, AgR Dje-214 de 6.10.2016). O delito previsto no art. 306 do CTB é de perigo abstrato, sendo que suficiente para a sua caracterização que o condutor do veículo esteja com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou outra substância entorpecente, dispensada a demonstração da potencialidade lesiva da conduta. (HC 342.422, Dje 09/03/2016). (...) o delito de perigo abstrato (CTB, art. 306) dispensa a demonstração de direção anormal do veículo. (STJ, AgInt no REsp 1675592/RO, Dje 06/11/2017). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): O crime de embriaguez ao volante é considerado infração penal de perigo abstrato, sendo desnecessária a demonstração da efetiva potencialidade lesiva da conduta. Correto. (PC-PR - Delegado - NC-UFPR - 2021): De acordo com a interpretação do STJ, a classificação do delito previsto no art. 306 do Código de Trânsito Brasileiro e sua correspondente demonstração da efetiva potencialidade lesiva da conduta para a caracterização típica é, respectivamente, crime de perigo abstrato – demonstração desnecessária. Correto. http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 32 11. CRIME DO ARTIGO 307 DO CTB Art. 307. Violar a suspensão ou a proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor imposta com fundamento neste Código: Penas - detenção, de seis meses a um ano e multa, com nova imposição adicional de idêntico prazo de suspensão ou de proibição. Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre o condenado que deixa de entregar, no prazo estabelecido no § 1º do art. 293, a Permissão para Dirigir ou a Carteira de Habilitação. Prevê três penalidades. Trata-se de crime próprio, pois quem pode violar a permissão ou a proibição de se obter a habilitação será somente aquele que foi condenado às referidas penas. O delito engloba tanto a suspensão ou proibição judicial como pena ou como medida cautelar, além da suspensão administrativa. No que se refere ao parágrafo único do art. 307, tem-se que assim como no caput, aqui o crime também é próprio. O sujeito ativo será aquele que foi regularmente intimado para fazer a entrega da permissão para dirigir ou da carteira de habilitação no prazo de 48 horas e não fez. Evidencia-se, por fim, que consoante entendimento adotado pelo STJ, o crime do art. 307 do CTB somente se verifica em caso de violação de suspensão ou proibição de dirigir imposta por decisão judicial (não vale suspensão imposta por decisão administrativa), in verbis: É atípica a conduta contida no art. 307 do CTB quando a suspensão ou a proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor advém de restrição administrativa. A conduta de violar decisão administrativa que suspendeu a habilitação para dirigir veículo automotor não configura o crime do art. 307, caput, do CTB, embora possa constituir outra espécie de infração administrativa, a depender do caso concreto. STJ. 6ª Turma. HC 427472-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 23/08/2018 (Info 641). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPDTF - Promotor - MPDFT - 2021): O crime de violar a suspensão ou proibição de se obter a permissão ou habilitação para dirigir veículo automotor ocorre, inclusive, quando a limitação advém de restrição administrativa. Errado. 12. RACHA Está previsto no art. 308 do CTB: Art. 308. Participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística ou ainda de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automotor, não http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 33 autorizada pela autoridade competente, gerando situação de risco à incolumidade pública ou privada: Penas - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. No que tange à primeira parte do delito (participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística), a maior parte da doutrina entende tratar- se de concurso necessário. De outro modo, a segunda parte (ou ainda de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automotor), é considerada concurso eventual. Anteriormente, doutrinadores como Damásio de Jesus, entendiam que práticas como zerinho, ziguezague, cavalo de pau eram punidos a título de contravenção penal, quando gerassem perigo de dano. Hoje, inexiste dúvida quanto à tipificação das referidas condutas. Trata-se de crime de perigo concreto, diferentemente do art. 306 do CTB. Todavia, não será necessário provar que pessoa certa e determinada tenha sido exposta a perigo. Na imensa maioria das vezes, por si só, o racha rebaixará o nível de segurança viária, de modo a caracterizar a infração penal.Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RR - Delegado - VUNESP - 2022): Configura crime previsto na Lei nº 9.503/1997 – Código de Trânsito Brasileiro a conduta de participar, de corrida, disputa ou competição automobilística, não autorizada pela autoridade competente, na direção de veículo automotor, em via pública, gerando situação de risco à incolumidade privada. Correto. FORMAS QUALIFICADAS A primeira delas é: Art. 308, § 1o Se da prática do crime previsto no caput resultar lesão corporal de natureza grave, e as circunstâncias demonstrarem que o agente não quis o resultado nem assumiu o risco de produzi-lo, a pena privativa de liberdade é de reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo. Em síntese, tem-se que: 1) Racha doloso + lesão corporal grave - dolo direto ou eventual = Art. 308, § 1º do CTB. 2) Racha doloso + lesão corporal grave + dolo direto ou eventual = CP. A segunda forma qualificada possui a seguinte redação legal: Art. 308, § 2o Se da prática do crime previsto no caput resultar morte, e as circunstâncias demonstrarem que o agente não quis o resultado nem assumiu o risco de produzi-lo, a pena privativa de liberdade é de reclusão http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 34 de 5 (cinco) a 10 (dez) anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo. Há, em suma, as seguintes possibilidades: 1) Racha doloso + morte - dolo direto ou eventual = Art. 308, § 2º do CTB. 2) Racha doloso + morte + dolo direto ou eventual = CP. Enquanto a legislação prevê a não ocorrência do delito, a jurisprudência tende a reconhecer que, quando advém morte do racha, há dolo eventual: É cediço na Corte que, em se tratando de homicídio praticado na direção de veículo automotor, em decorrência do chamado “racha”, a conduta configura homicídio doloso. (...) A conclusão externada nas instâncias originárias no sentido de que o paciente participava de “pega” ou “racha”, empregando alta velocidade, momento em que veio a colher a vítima em motocicleta, impõe reconhecer a presença do elemento volitivo, vale dizer, do dolo eventual no caso concreto. (HC 101698, 1ª T., STF). RACHA. (...) COMPATIBILIDADE COM O DOLO EVENTUAL. (...) Na hipótese, os réus, no auge de disputa automobilística em via pública, não conseguiram efetuar determinada curva, perderam o controle do automóvel e o ora Paciente atingiu, de súbito, a vítima, colidindo frontalmente com a sua motocicleta, ocasionando-lhe a morte. (HC 120.175/SC, 5ª T., STJ). 13. DIREÇÃO PERIGOSA Está disposta no art. 309 do CTB: Art. 309. Dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida Permissão para Dirigir ou Habilitação ou, ainda, se cassado o direito de dirigir, gerando perigo de dano: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa. Há crime na condução perigosa de veículo de categoria diversa da que o sujeito é habilitado. Questiona-se: está revogado o artigo 32 da LCP (dirigir, sem a devida habilitação, veículo na via pública, ou embarcação a motor em águas públicas)? A resposta está na Súmula 720 do STF: Súmula 720: O art. 309 do Código de Trânsito Brasileiro, que reclama decorra do fato perigo de dano, derrogou o art. 32 da Lei das Contravenções Penais no tocante à direção sem habilitação em vias terrestres. No caso de habilitação falsa, o crime será verificado em concurso material com o art. 304 do CTB. Já na hipótese de habilitação vencida, para o STJ, inexiste o crime do art. 309 do CTB: http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 35 II. Se o bem jurídico tutelado pela norma é a incolumidade pública, para que exista o crime é necessário que o condutor do veículo não possua Permissão para Dirigir ou Habilitação, o que não inclui o condutor que, embora habilitado, esteja com a Carteira de Habilitação vencida. III. Não se pode equiparar a situação do condutor que deixou de renovar o exame médico com a daquele que sequer prestou exames para obter a habilitação. (STJ, REsp 11888333/SC, STJ, Dje 01/02/2011). Ademais, para que ocorra a consumação típica, não será necessária a identificação de determinada pessoa exposta a risco. Basta demonstrar que o agente conduzia veículo sem habilitação e de forma anormal, de modo a rebaixar o nível de segurança de trânsito. 14. CRIME DE PESSOA QUE NÃO ESTÁ NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR Está disposto no art. 310 do CTB: Art. 310. Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em condições de conduzi-lo com segurança: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa. Ressalta-se que: 1) Se o motorista dirigir com a capacidade psicomotora alterada por influência do álcool ou de outra substância, incorrerá no art. 306 do CTB; 2) Se o motorista estiver com o direito de dirigir suspenso, cometerá o crime do art. 307 do CTB; 3) Se o motorista não habilitado/com habilitação cassada dirigir gerando perigo de dano, incidirá no tipo do art. 309 do CTB; 4) Se o motorista não habilitado/com habilitação cassada dirigir de forma prudente e regular, não praticará delito algum. No entanto, quem lhe emprestou o veículo, independentemente de causar perigo de dano, responderá pelo art. 310 do CTB, nos termos da Súmula 575 do STJ: Súmula 575 do STJ: Constitui crime a conduta de permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa que não seja habilitada, ou que se encontre em qualquer das situações previstas no art. 310 do CTB, independentemente da ocorrência de lesão ou de perigo de dano concreto na condução do veículo. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RN - Delegado - CESPE - 2021): Durante almoço comemorativo, José emprestou seu carro a Matheus, para que ele fosse buscar sua namorada, ciente de que este não possuía carteira de habilitação. Quando trafegava normalmente pela via pública, Matheus foi parado em blitz rotineira, sendo constatado que não possuía a devida autorização legal para dirigir. Diante http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10588273/artigo-310-da-lei-n-9503-de-23-de-setembro-de-1997 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/91797/c%C3%B3digo-de-tr%C3%A2nsito-brasileiro-lei-9503-97 http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 36 desse quadro fático, de acordo com as previsões legais e jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, José responderá pelo crime de entregar veículo automotor a pessoa não habilitada, enquanto Matheus deverá ser absolvido em razão da atipicidade comportamental. Correto. (MPDTF - Promotor - MPDFT - 2021): A entrega da direção de veículo automotor a pessoa que não seja habilitada configura crime, desde que haja perigo de lesão ou de perigo de dano concreto na condução do veículo. Errado. 15. CRIME DO ARTIGO 311 DO CTB Possui a seguinte redação legal: Art. 311. Trafegar em velocidade incompatível com a segurança nas proximidades de escolas, hospitais, estações de embarque e desembarque de passageiros, logradouros estreitos, ou onde haja grande movimentação ou concentração de pessoas, gerando perigo de dano: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa. A fórmula genérica, utilizada ao final, deixa evidenciado que o crime só ocorrerá (mesmo em relação a hospitais ou escolas) quando houver concentração de pessoas no local, pois somente assim a conduta gerará perigo de dano. 16. FORMA ESPECIAL DE FRAUDE PROCESSUAL Está prevista no art. 312 do CTB: Art. 312. Inovar artificiosamente, em caso de acidente automobilístico com vítima, na pendência do respectivo procedimento policial preparatório, inquérito policial ou processo penal, o estadode lugar, de coisa ou de pessoa, a fim de induzir a erro o agente policial, o perito, ou juiz: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa. Parágrafo único. Aplica-se o disposto neste artigo, ainda que não iniciados, quando da inovação, o procedimento preparatório, o inquérito ou o processo aos quais se refere. O sujeito ativo não será apenas o causador do acidente, mas também todo aquele que, eventualmente, alterar a cena do crime. Ex.: limpar marcas de frenagem indicativa de excesso de velocidade; retirar placas de sinalização para causar dúvida sobre a via preferencial; alterar a posição dos veículos ou o local do corpo da vítima do art. 302 do CTB. Atenção: a simples fuga do local do acidente NÃO configura esse tipo. Será considerada causa de aumento de pena dos arts. 302 e 303 ambos do CTB ou até crime autônomo (arts. 304 ou 305, todos do CTB). http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 37 Importante salientar que há, por óbvio, autonomia do crime de fraude processual em relação ao delito previamente cometido. 17. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE Dispõe o art. 312-A do CTB: Art. 312-A. Para os crimes relacionados nos arts. 302 a 312 deste Código, nas situações em que o juiz aplicar a substituição de pena privativa de liberdade por pena restritiva de direitos, esta deverá ser de prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas, em uma das seguintes atividades: I - trabalho, aos fins de semana, em equipes de resgate dos corpos de bombeiros e em outras unidades móveis especializadas no atendimento a vítimas de trânsito; II - trabalho em unidades de pronto-socorro de hospitais da rede pública que recebem vítimas de acidente de trânsito e politraumatizados; III - trabalho em clínicas ou instituições especializadas na recuperação de acidentados de trânsito; IV - outras atividades relacionadas ao resgate, atendimento e recuperação de vítimas de acidentes de trânsito. O dispositivo não manda que o juiz sempre substitua a pena, apenas diz qual o procedimento a ser adotado, caso decida ele pela substituição. Desse modo, a observância dessa sistemática é que será obrigatória. 18. VEDAÇÃO À SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS Está disposta no art. 312-B do CTB: Art. 312-B. Aos crimes previstos no § 3º do art. 302 e no § 2º do art. 303 deste Código não se aplica o disposto no inciso I do caput do art. 44 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). O dispositivo foi introduzido pela Lei 14.071/2020, a fim de vedar a substituição da pena privativa de liberdade para os crimes do art. 302, § 3º e do art. 303, § 2º do CTB: Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: § 3° Se o agente conduz veículo automotor sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Art. 303. Praticar lesão corporal culposa na direção de veículo automotor: § 2º A pena privativa de liberdade é de reclusão de dois a cinco anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo, se o agente conduz o veículo com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 38 outra substância psicoativa que determine dependência, e se do crime resultar lesão corporal de natureza grave ou gravíssima. 19. JURISPRUDÊNCIA EM TESE Com o intuito de complementar o material, colaciona-se a Edição 114 da Jurisprudência em Tese do STJ: 1) Na hipótese de homicídio praticado na direção de veículo automotor, havendo elementos nos autos indicativos de que o condutor agiu, possivelmente, com dolo eventual, o julgamento acerca da ocorrência deste ou da culpa consciente compete ao Tribunal do Júri, na qualidade de juiz natural da causa. 2) O fato de a infração ao art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro - CTB ter sido praticada por motorista profissional não conduz à substituição da pena acessória de suspensão do direito de dirigir por outra reprimenda, pois é justamente de tal categoria que se espera maior cuidado e responsabilidade no trânsito. É constitucional a imposição da pena de suspensão de habilitação para dirigir veículo automotor ao motorista profissional condenado por homicídio culposo no trânsito. STF. Plenário. RE 607107/MG, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 12/2/2020 (repercussão geral – Tema 486) (Info 966). 3) A imposição da penalidade de suspensão do direito de dirigir veículo automotor não tem o condão, por si só, de caracterizar ofensa ou ameaça à liberdade de locomoção do paciente, razão pela qual não é cabível o manejo do habeas corpus. 4) Quando não reconhecida a autonomia de desígnios, o crime de lesão corporal culposa (art. 303 do CTB) absorve o delito de direção sem habilitação (art. 309 do CTB), funcionando este como causa de aumento de pena (art. 303, parágrafo único, do CTB). 5) Os crimes de embriaguez ao volante (art. 306 do CTB) e o de lesão corporal culposa em direção de veículo automotor (art. 303 do CTB) são autônomos e o primeiro não é meio normal, nem fase de preparação ou de execução para o cometimento do segundo, não havendo falar em aplicação do princípio da consunção. 6) O crime do art. 306 do CTB é de perigo abstrato, sendo despicienda a demonstração da efetiva potencialidade lesiva da conduta. 7) Para a configuração do delito tipificado no art. 306 do CTB, antes da alteração introduzida pela Lei 12.760/2012, é imprescindível a aferição da concentração de álcool no sangue por meio de teste de etilômetro ou de exame de sangue, conforme parâmetros normativos. 8) O indivíduo não pode ser compelido a colaborar com os referidos testes do “bafômetro” ou do exame de sangue, em respeito ao princípio segundo o qual ninguém é obrigado a se autoincriminar (nemo tenetur se detegere). 9) É irrelevante qualquer discussão acerca da alteração das funções psicomotoras do agente se o delito foi praticado após as alterações da Lei 11.705/2008 e antes do advento http://www.iceni.com/infix.htm CS – CRIMES DE TRÂNSITO – 2023.1 39 da Lei 12.760/2012, pois a simples conduta de dirigir veículo automotor em via pública, com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas, configura o crime previsto no art. 306 do CTB. 10) Com o advento da Lei 12.760/2012, que modificou o art. 306 do CTB, foi reconhecido ser dispensável a submissão do acusado a exames de alcoolemia, admite-se a comprovação da embriaguez do condutor de veículo automotor por vídeo, testemunhos ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova. 11) Constitui crime a conduta de permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa que não seja habilitada, ou que se encontre em qualquer das situações previstas no art. 310 do CTB, independentemente da ocorrência de lesão ou de perigo de dano concreto na condução do veículo. 12) A desobediência a ordem de parada dada pela autoridade de trânsito ou por seus agentes, ou por policiais ou outros agentes públicos no exercício de atividades relacionadas ao trânsito, não constitui crime de desobediência, pois há previsão de sanção administrativa específica no art. 195 do CTB, o qual não estabelece a possibilidade de cumulação de punição penal. Como o tema foi cobrado em concurso? (DPE-TO - Defensor - CESPE - 2022): A imposição da penalidade de suspensão do direito de dirigir veículo automotor caracteriza ofensa direta à liberdade de locomoção do paciente, sendo cabível habeas corpus. Errado. (DPE-TO - Defensor - CESPE- 2022): O crime de lesão corporal culposa absorve o de direção sem habilitação, por protegerem ambos o mesmo bem jurídico, e o último justificar a imperícia que ocasionou o primeiro. Errado. (DPE-TO - Defensor - CESPE - 2022): O crime de embriaguez ao volante e o de lesão corporal culposa são autônomos, não sendo o primeiro fase de preparação ou de execução para a prática do segundo. Correto. (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): Os crimes de embriaguez ao volante e de lesão corporal culposa na direção de veículo automotor configuram infrações penais autônomas, não sendo o primeiro meio normal para o cometimento do segundo, razão pela qual não tem aplicação o princípio da consunção. Correto. http://www.iceni.com/infix.htm