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DIREITO PROCESSUAL PENAL – PARTE GERAL 
 
APOSTILA 02 – SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS 
 
I) SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS: INQUISITÓRIO, ACUSATÓRIO E 
MISTO 
 
Vamos falar hoje de sistemas processuais adotados para organização do 
processo, sistemas utilizados para definir qual a lógica processual a ser adotada até que 
o processo chegue ao fim, com a prolação de uma sentença que mais se aproxime da 
verdade, da realidade dos acontecimentos, atribuindo responsabilidade penal 
efetivamente a quem praticou o delito e inocentando quem não o tenha praticado ou que 
tenha agido sob certas e especialíssimas circunstâncias, como a legítima defesa, por 
exemplo. 
 
Durante os séculos, destacaram-se dois sistemas: o 
inquisitório/inquisitorial e o acusatório. 
 
O que diferenciará ambos os sistemas? 
 
1) Sistema Inquisitório/Inquisitorial/Inquisitivo 
 
Começando a tratar do sistema inquisitório, este tem resquícios ainda no 
Império Romano, tendo, no entanto seus traços mais marcantes delimitados, a bem da 
verdade, a partir do século XI, sendo mais tarde, no século XIII, instituído o Tribunal da 
Inquisição ou Santo Ofício, voltado a reprimir heresias e tudo que fosse contrário ou que 
pudesse criar dúvida sobre os dogmas da Igreja Católica. 
 
Como tratamos na aula passada, o processo a que eram submetidos os 
indivíduos pela Inquisição eram embasados em meras delações, feitas por fiéis 
considerados mais íntegros, que delatavam pessoas que, porventura, estivessem a 
contrariar os ditames da Igreja. 
 
A essência desse sistema é a de acumulação de funções (investigação, 
acusação e julgamento) nas mãos do juiz e a atribuição de poderes instrutórios ao 
julgador, considerado senhor soberano do processo. Não há, portanto, uma estrutura 
dialética (debate de ideias opostas), isto é, de argumentação versus contra-
argumentação, muito menos contraditório. A imparcialidade também fica 
comprometida, pois uma mesma pessoa terá o papel de investigador, acusador e juiz do 
caso. 
 
O que se torna o réu nesse sistema: um sujeito de direitos? Não, apenas 
um mero objeto de verificação. Sequer parte do processo o réu é, pois não obstante possa 
se defender com seu depoimento, não tem sequer acesso às testemunhas que o 
denunciaram, as quais têm os nomes mantidos em sigilo. 
 
 
2 
 
As principais característica do SISTEMA INQUISITIVO são: 
 
→ gestão/iniciativa probatória nas mãos do juiz (juiz requisita 
testemunhas a serem ouvidas; juiz requisita documentos). OBS: juiz que se envolve 
demasiadamente na tarefa de produção de provas, tomando iniciativa em tal momento 
do processo, tende a contaminar o próprio juízo sobre os fatos, pois se deixa levar por 
prejulgamentos; 
 
→ ausência de separação de funções de acusar e julgar (aglutinação dessas 
funções nas mãos do juiz); 
 
→ violação do princípio da inércia da jurisdição (juiz pode atuar de ofício, 
sem prévia invocação, o que pode gerar julgamentos viciados desde o início, pois se 
cabe ao juiz dar início ao processo, poderá escolher como acusado pessoa que seja seu 
desafeto, buscando fazer da atividade judicial uma vingança pessoal); 
 
→ juiz parcial (se ao mesmo juiz cabe a função de acusar e julgar, 
impossível se tornar isento para a análise do caso, pois o julgador fica ligado 
psicologicamente ao resultado do processo); 
 
→ processo tramita em sigilo. Ausência de publicidade dos atos 
processuais (o que acarreta aumento da possibilidade de decisões arbitrárias); 
 
→ inexistência de contraditório pleno (processo que tramita em segredo, 
não ofertando-se ao investigado/acusado conhecimento sobre o teor e origem das 
acusações, bem como sobre demais provas produzidas); 
 
→ desigualdade de armas e oportunidades (o acusado não detém 
condições de ao menos se aproximar da quantidade de elementos de que dispõe o órgão 
acusador). 
 
→ réu é tido como objeto do processo, afinal o réu detém a verdade dos 
acontecimentos (ele sabe o que ocorreu) e deve-se utilizar de vários mecanismos para 
dele extrair a verdade; 
 
→ confissão é tida como a rainha das provas; 
 
→ a prisão do réu no decorrer do processo é a regra; a liberdade é a 
exceção; 
 
→ além do encarceramento, o réu deve ficar incomunicável (art. 21 do 
CPP) – Não Recepcionado pela CF/88. 
 
 
 
 
 
3 
 
2) Sistema Acusatório 
 
Há notícia do sistema acusatório na Grécia Antiga e na Roma Antiga 
(Período da República). Antes, portanto, do período em que prevaleceu o sistema 
inquisitorial (do século XI ao XVIII). 
 
Certo é que, com o passar dos séculos (do século XI ao XVIII), o sistema 
inquisitorial começou a ser muitíssimo criticado, principalmente a partir do Iluminismo, 
movimento que questionou a atuação do Estado Absolutista perante os indivíduos, 
considerados então meros súditos do Rei, portadores de parcos direitos e sem qualquer 
participação na escolha de representantes do Estado. 
 
Com o advento da ideia de indivíduo não mais como mero súdito, mas 
como cidadão, portador de direitos fundamentais e de efetiva participação na escolha de 
governantes, o processo penal de teor inquisitivo passou a ser combatido, pois visto 
como supressor de direitos dos cidadãos. 
 
O sistema acusatório, já utilizado, como visto, em momentos anteriores da 
história da humanidade, voltou a ganhar força. 
 
No sistema acusatório, há: 
 
→ distinção entre as atividades de acusar e julgar (existência de um órgão 
acusatório e um órgão judicial); 
 
→ iniciativa probatória compete às partes (até mesmo porque agora o juiz 
não é mais órgão de acusação) QUANTO MAIS SE AFASTA O JUIZ DA INICIATIVA 
PROBATÓRIA, MAIS REFORÇADA FICA A ESTRUTURA DIALÉTICA DO 
PROCESSO, PROPICIANDO IMPARCIALIDADE DO JULGADOR; 
 
→ juiz como terceiro imparcial e observador das teses (sem se imiscuir na 
gestão da prova: elemento alheio ao trabalho de coleta de provas, tanto para acusação 
quanto para defesa; 
 
→ tratamento igualitário das partes (igualdade de oportunidades para 
acusação e defesa); 
 
→ presunção de inocência do réu, o que acarreta permitir que a liberdade 
seja a regra no decorrer do processo e não a prisão, além do que é possível a absolvição 
do acusado em caso de dúvida (in dubio pro reo). 
 
→ plena publicidade de todo o procedimento (ou de sua maior parte): 
processo que corresse em segredo seria propício a ser palco de arbitrariedades. O caráter 
público do processo aumenta a possibilidade de fiscalização dos atos dos sujeitos do 
processo; 
 
→ contraditório e possibilidade de resistência (defesa); 
 
4 
 
 
→ possibilidade de impugnar decisões e duplo grau de jurisdição; 
 
O nosso CPP, dada a sua origem, inspirada no CPP italiano do regime 
fascista, ainda traz uma série de elementos caracterizadores de um sistema que privilegia 
aspectos inquisitivos; 
 
A) decretação, de ofício, de busca e apreensão (art. 242); 
 
B) possibilidade de o próprio magistrado realizar a busca: 
 
“Art. 241. Quando a própria autoridade policial ou judiciária não a 
realizar pessoalmente, a busca domiciliar deverá ser precedida da expedição de 
mandado”. 
 
C) iniciativa probatória a cargo do juiz em casos específicos do art. 156. 
 
“Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, 
facultado ao juiz de ofício: 
 
I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada 
de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e 
proporcionalidade da medida; 
 
II – determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a 
realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante”. 
 
ORA, VEJAMOS O INCISO II. CABE AO JUIZ OPTAR PELA 
REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIAS PARA DIRIMIR DÚVIDA SOBRE PONTO 
RELEVANTE? 
 
E o in dubio pro reo? 
 
Se há dúvida; se o MP NÃO conseguiu comprovar a contento a 
responsabilidade penal do Réu, que se absolva o acusado. 
 
Permitirque o juiz se imiscua na atividade probatória, pode indicar que 
ele tem uma predileção pela tese acusatória, pois diante da dúvida não quer absolver o 
réu, mas insiste em produzir provas. 
 
D) possibilidade de o juiz condenar o Réu, mesmo estando o Ministério 
Público a pedir pela absolvição do acusado após a instrução probatória (se cabe ao MP 
a função de acusar e o próprio reconhece a inocência do Réu, não poderia o juiz 
contrariar o interesse manifestado pelo órgão acusatório) 
 
 
5 
 
“Art. 385. Nos crimes de ação pública, o juiz poderá proferir sentença 
condenatória, ainda que o Ministério Público tenha opinado pela absolvição, bem como 
reconhecer agravantes, embora nenhuma tenha sido alegada”; 
 
A Constituição, contudo, demarcou de forma manifesta a opção pelo 
sistema acusatório, ao afirmar que: 
 
I) a acusação cabe ao Ministério Público (art. 129, I), promovendo, assim, 
a separação evidente entre função acusadora e judicante; 
 
II) definição clara de regras sobre o devido processo legal (art. 5º, inc 
LIV): 
 
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de 
seus bens sem o devido processo legal; 
 
III) garantia de contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV): 
 
LV - aos litigantes, em processo judicial ou 
administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o 
contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela 
inerentes; 
 
Recentemente, a Lei 13.964/2019, alterando o CPP, reiterou que o sistema 
processual brasileiro é o acusatório: 
 
“Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a 
iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do 
órgão de acusação”. 
 
O referido artigo, contudo, faz parte de um dos suspensos pelo ministro 
Fux, no âmbito das ADI’s 6.298, 6.299, 6.300 e 6.305. 
 
A referida lei também alterou o artigo 311 do CPP, o qual, anteriormente, 
permitia decretação de prisão preventiva de ofício pelo juiz. Agora, somente é permitida 
prisão mediante requerimento da acusação: 
 
Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, 
caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, de ofício, se no curso da ação penal, ou 
a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por 
representação da autoridade policial. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 
2011). 
 
Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, 
caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, 
do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial. 
 
 
6 
 
Persiste, no entanto, uma possibilidade de prisão de ofício, prevista no 
artigo 316: 
 
Art. 316. O juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a prisão 
preventiva se, no correr da investigação ou do processo, verificar a falta de motivo para 
que ela subsista, bem como novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a 
justifiquem. 
 
3) Sistema Misto 
 
O sistema misto clássico é o que se reconhece como um sistema 
inquisitório na fase pré-processual (inquérito policial), conduzido por um juiz (juiz 
instrutor), mas na fase processual se caracteriza como sistema acusatório, pois dirigido 
por outro magistrado, que não participou, obviamente, da fase pré-processual, sendo 
equidistante das partes e, portanto, tendo oportunidade de ser imparcial, pois alheio a 
prejulgamentos. 
 
4) Sistema Processual Brasileiro 
 
Atualmente, não há um único sistema processual no mundo que possa ser 
considerado puramente acusatório ou inquisitivo. É verdade, porém, que o sistema 
utilizado na Inglaterra é o que mais se aproxima de um sistema acusatório puro. 
 
A maior parte da doutrina defende que o sistema processual brasileiro é 
acusatório, haja vista que a CF/88 estabeleceu parâmetros seguros de que as atividades 
de acusador e julgador são distintas, reforçando, assim, a necessidade de imparcialidade 
do juízo, além de garantir a paridade de armas entre os litigantes do processo penal. 
Pode-se dizer, ainda, que a partir da Lei 13.964/2019, reforçou-se a ideia de que o nosso 
sistema tem estrutura acusatória, vide art. 3º-A do CPP. 
 
Há quem defenda que nosso sistema é misto, pois tem elementos ainda do 
sistema inquisitivo, notadamente na fase pré-processual, isto é, do inquérito policial e 
ainda os traz também na fase processual, conforme os casos dos artigos acima citados. 
 
Percebam que os crimes começam a ser apurados em sede policial, através 
de um procedimento que é o inquérito policial, caracterizado pelo sigilo (não há 
publicidade), sem oferta do contraditório ou ampla defesa plena, sendo produzidas 
provas no inquérito policial sem a participação do investigado (laudo cadavérico da 
vítima do crime de homicídio (o qual quase nunca é refeito na fase processual). 
 
Ocorre que, enquanto não for realizada uma ampla reforma do CPP, não 
será implantado um sistema acusatório em prevalência, continuando o processo penal 
brasileiro a trazer fortes cargas do sistema inquisitório. 
 
Querem ver um outro exemplo da forte relação de nosso CPP com o 
sistema inquisitório? Eis o art. 155 do CPP: 
 
 
7 
 
“Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre 
apreciação da prova produzida em contraditório judicial, NÃO 
PODENDO fundamentar sua decisão EXCLUSIVAMENTE 
nos elementos informativos colhidos na investigação, 
ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas”. 
 
Ora, o artigo diz que o juiz não pode se basear EXCLUSIVAMENTE nos 
elementos do inquérito policial, o que faz deduzir que o juiz pode utilizar sim elementos 
coletados na fase de inquérito, desde que em conjunto com provas produzidas no 
decorrer do processo. 
 
Portanto, percebam que aqueles elementos anteriormente produzidos na 
fase de inquérito, sem a participação do acusado, sem o contraditório e a ampla defesa, 
poderão sim ser utilizadas como elemento para convencimento do magistrado para 
condenação do réu.

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