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Como citar este material: NETO, Francisco Graziano. Sustentabilidade no Agronegócio. Rio de Janeiro: FGV, 2023. Todos os direitos reservados. Textos, vídeos, sons, imagens, gráficos e demais componentes deste material são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual, de forma que é proibida a reprodução no todo ou em parte, sem a devida autorização. INTRODUÇÃO A agenda da sustentabilidade se impõe progressivamente em todos os setores produtivos da economia, no Brasil e no mundo. No agronegócio, seja diretamente na produção agropecuária, seja na transformação agroindustrial e na distribuição de produtos, o mercado exige práticas coerentes com a preservação do meio ambiente, a responsabilidade social e a segurança alimentar. Depois do Acordo Global sobre o Clima, efetuado em Paris sob os auspícios da Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro de 2015, a economia de baixo carbono, baseada nas energias renováveis inaugurou uma nova era da civilização. Nesse contexto desafiador, de rápidas mudanças, os profissionais do setor de agronegócios precisam aperfeiçoar-se, qualificando-se para enfrentar os desafios da sustentabilidade e unir a produção com a conservação ambiental. Gestão sustentável de agronegócios passou a ser uma exigência do mercado global. Diante disso, profissionais do setor, agricultores, empresários, consultores e estudiosos devem qualificar-se para decifrar as novas tendências da economia sustentável, traduzindo-as para aplicação na sua realidade concreta. O objetivo geral deste curso é oferecer aos alunos qualificação ampla para o reconhecimento da realidade econômica, social e cultural que cerca a economia, relacionada com o mundo dos agronegócios. O seu instrumental gerencial deve dar-lhes competência para a compreensão e a análise dos modernos processos de produção rural e agroindustrial, relacionados à demanda da agenda da sustentabilidade, visando aumentar a competitividade e a rentabilidade empresarial. Ao fim do curso, o aluno deverá ter habilidade para a certificação de produtos agropecuários e processos de transformação, a elaboração de relatórios de sustentabilidade, o licenciamento ambiental, o marketing empresarial e a proteção agroambiental da atividade rural. Este material está dividido em quatro módulos de aprendizado. O módulo 1 dará ênfase à progressiva transformação da economia predatória do passado até a economia sustentável do presente. O módulo 2 tratará dos conceitos e das normas fundamentais da sustentabilidade. O módulo 3 focará os requisitos básicos da agricultura sustentável no Brasil. O módulo 4, por fim, aglutinará os conhecimentos anteriores para definir um padrão de gestão sustentável no agronegócio. SUMÁRIO MÓDULO I – DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE ....................................................................... 7 HISTÓRIA DO AMBIENTALISMO E DA SUSTENTABILIDADE .......................................................... 7 CONFERÊNCIAS E CONVENÇÕES DA ONU .................................................................................... 11 ACORDO DO CLIMA DE PARIS (2015) ............................................................................................ 14 MERCADO DE CRÉDITOS E PRECIFICAÇÃO DE CARBONO .......................................................... 18 MÓDULO II – CONCEITOS E NORMAS FUNDAMENTAIS DA SUSTENTABILIDADE ......................... 21 PRESERVAÇÃO E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL: USO SUSTENTÁVEL DOS RECURSOS NATURAIS ............................................................................................................................. 21 NOVO CÓDIGO FLORESTAL ............................................................................................................ 24 SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO ............................................................. 27 CONSUMISMO: POLÍTICA DE RESÍDUOS SÓLIDOS E ECONOMIA CIRCULAR ........................... 33 PAGAMENTO POR SERVIÇOS AMBIENTAIS ................................................................................... 36 MÓDULO III – AGRICULTURA SUSTENTÁVEL NO BRASIL ................................................................. 39 AGROENERGIA, ENERGIAS RENOVÁVEIS E SEQUESTRO DE CARBONO .................................... 39 BOAS PRÁTICAS AGRÍCOLAS: CONSERVAÇÃO DE SOLO E RECURSOS HÍDRICOS ................... 42 BOAS PRÁTICAS AGRÍCOLAS: MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS ............................................... 47 BEM-ESTAR ANIMAL ......................................................................................................................... 52 AGRICULTURA ORGÂNICA E BIOLÓGICA ...................................................................................... 56 MÓDULO IV – GESTÃO DA SUSTENTABILIDADE NO AGRONEGÓCIO ............................................. 61 RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E COMPETIÇÃO EMPRESARIAL ...................................... 61 INDICADORES E RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE ............................................................... 65 CERTIFICAÇÃO DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS ........................................................................ 69 GESTÃO AGROAMBIENTAL: PROTOCOLO GATE .......................................................................... 73 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................................... 77 BIBLIOGRAFIA COMENTADA .............................................................................................................. 81 PROFESSOR-AUTOR ............................................................................................................................. 82 Neste módulo, vamos analisar a evolução histórica da agenda da sustentabilidade, desde a origem dos problemas ambientais, em meados do século XX, até o Acordo do Clima, efetivado em Paris, em 2015. O objetivo é fornecer elementos críticos para obter uma visão geral sobre os requisitos econômicos, sociais e ambientais que cercam o atual agronegócio brasileiro. História do ambientalismo e da sustentabilidade A problemática ambiental é relativamente recente no mundo. Somente a partir dos anos de 1960 surge a percepção, ainda restrita ao mundo desenvolvido, de que a civilização causa afrontas à natureza e afeta, significativamente, o meio ambiente. A nossa casa – oikos, na origem grega – começa então a ser mais bem estudada sob o prisma planetário. Surge daí a Ecologia como um ramo destacado da Ciência, destinada a compreender as leis básicas da natureza e as suas relações com a presença humana na Terra. Na origem dos problemas ambientais se encontram quatro fatores básicos: a) população humana; b) urbanização; c) industrialização e d) tecnologia. MÓDULO I – DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE 8 Esses quatro fatores básicos se entrelaçam historicamente. O ponto de partida, porém, reside no crescimento da população humana, o fator fundamental na compreensão dos problemas ecológicos que surgiram na Terra. Durante milhares de anos, os povos desmataram áreas para produzir alimentos, aglutinaram-se em habitações aquecidas com madeira, guerrearam na conquista por territórios e, para tanto, forjaram armas e construíram embarcações. Todas essas atividades geraram impactos ambientais, mas, diante da imensidão do planeta, não configuravam desastres ecológicos. Na virada do século XIX, a população humana, espalhada pelo mundo, era de 1 bilhão de habitantes. Cerca de 130 anos depois, por volta de 1930, dobrava para 2 bilhões de pessoas. Mais 30 anos, já se contavam 3 bilhões de habitantes na Terra. A partir de então, da década de 1960, a pressão populacional começa a se manifestar, de forma mais patente, afetando as condições da sobrevivência humana. É quando surge a preocupação global, hoje denominada de “pegadade países credenciados passaram a receber recursos visando, essencialmente, combater a supressão florestal e proteger espécies ameaçadas de extinção. No Brasil, como o Código Florestal obriga a manutenção da Reserva Legal, o enquadramento nos programas da ONU foi dificultado, porque sempre se considerou o benefício financeiro a ser concedido por ações voluntárias, e não obrigatórias, na defesa ecológica. Outros países, como a Costa Rica, muito se utilizaram do REDD para remunerar povos que vivem da floresta, que passaram a preservá-la, ao invés de cortar as suas árvores para vender as toras de madeira. Floresta em pé passou a valer mais que derrubada. Mesmo à margem do REDD, variados projetos passaram, em muitos lugares do País, a estabelecer mecanismos de remuneração por serviços ambientais. O município de Extrema, na Serra da Mantiqueira de Minas Gerais, é o benchmarking principal. Implantado desde 2008, o programa intitulado “Conservador das Águas”, financiado com recursos locais, passou a preservar as nascentes que formam o Rio Jaguari, manancial que abastece a cidade. Atualmente, cerca de 150 produtores rurais cuidam de uma área aproximada de 7,3 mil hectares. No estado do Amazonas, o programa Bolsa Floresta, implementado a partir de 2008 pela Fundação Amazonas Sustentável, passou a remunerar famílias que se comprometessem a não desmatar florestas primárias, prevenir incêndios e matricular os filhos na escola. Em 2019, o programa beneficiava 9.427 famílias, em uma área de quase 11 milhões de hectares de florestas naturais (FUNDAÇÃO AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL). No Código Florestal do País (Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012), por meio do art. 41, já se estabelece a possibilidade de o Poder Executivo instituir programas de apoio e conservação do meio ambiente, abrangendo, no seu inciso I, o “pagamento ou incentivo a serviços ambientais como retribuição, monetária ou não, às atividades de conservação e melhoria dos ecossistemas e que gerem serviços ambientais”. 38 Entre os serviços ambientais, estão discriminados: Art. 41. [...] I – [...] a) o sequestro, a conservação, a manutenção e o aumento do estoque e a diminuição do fluxo de carbono; b) a conservação da beleza cênica natural; c) a conservação da biodiversidade; d) a conservação das águas e dos serviços hídricos; e) a regulação do clima; f) a valorização cultural e do conhecimento tradicional ecossistêmico; g) a conservação e o melhoramento do solo; h) a manutenção de Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito; Figura 12 – Modelo básico do pagamento por serviços ambientais Fonte: MAZZOTTO (2018). Depois de tramitar, por anos, no Congresso Nacional, o projeto de lei que estabelece, especificamente, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais foi aprovada no País (Lei nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021). A legislação visa “ações de manutenção, recuperação ou melhoria da cobertura vegetal em áreas consideradas prioritárias para a conservação, nas ações de combate à fragmentação de habitats e para a formação de corredores de biodiversidade e para a conservação dos recursos hídricos”. Terão prioridade comunidades tradicionais, povos indígenas e agricultores familiares. As fontes de recurso, por sua vez, são oriundas, preferencialmente, de doações de empresas, fundos e instituições de cooperação nacional e internacional (BRASIL, 2019b). Aguarda-se, todavia, que a regulamentação da lei 14.119/21 consiga coloca-la em prática. Este módulo é dedicado à evolução tecnológica da agropecuária, analisando as tendências da sustentabilidade nos processos de produção e transformação dos alimentos e das matérias- primas agrícolas. O objetivo é mostrar as novas conformidades do agronegócio, coerentes com os requisitos da agenda socioambiental que domina a sociedade global e determina a competitividade das empresas rurais. Agroenergia, energias renováveis e sequestro de carbono Tradicionalmente, na economia rural, sempre se ensinou que duas funções essenciais cabiam à agricultura no processo civilizatório: a) produção de alimentos, animais e vegetais, principalmente depois da urbanização da sociedade, e b) oferta de matérias-primas, especialmente fibras, como algodão e linho, pele e lã, necessárias para a confecção de vestuário humano. Mais recentemente, uma terceira função passou a ser atribuída à agricultura, qual seja, a função de produzir energia. Antigamente, desde a Idade do Bronze até a utilização do carvão mineral, no século XIV, a madeira oriunda das florestas naturais foi a fonte de energia básica da civilização. Madeira vinha do campo, não era propriamente uma atividade produtiva, mas, sim, uma exploração da natureza. MÓDULO III – AGRICULTURA SUSTENTÁVEL NO BRASIL 40 Por cerca de 150 anos, a era dos combustíveis fósseis – carvão mineral e, depois, petróleo – forneceu a energia que movimentava as nações industrializadas. O surgimento do Proálcool no Brasil, nos anos 1970, teve o pioneirismo de colocar a produção de bioenergia na agenda da sociedade industrial. Inicialmente baseado no álcool hidratado, queimado nos motores adaptados de veículos, o programa evoluiu para a destilação de álcool anidro, puro, já em um momento em que os motores a combustão passaram a ser híbridos. O álcool anidro passou a ser denominado de etanol, ganhando expressão internacional. Entramos assim na fase da agroenergia, que se iniciou no Brasil com a produção de combustível elaborado a partir da fermentação do caldo da cana-de-açúcar. As usinas de açúcar passaram a incorporar outra linha de produção: a destilaria de álcool para finalidades combustíveis. Surgiram depois as destilarias autônomas. Em outros países, nos EUA destacadamente, a produção de etanol se assentou a partir da fermentação de milho, um cereal abundante na América. Embora com rendimento menor, por hectare, comparado à cana-de-açúcar, o programa norte-americano cresceu e ultrapassou o brasileiro. Na Europa, etanol surgiu tendo a beterraba açucareira como matéria-prima; na Tailândia, a mandioca serve às destilarias. Tecnicamente, qualquer matéria rica em carboidratos ou açúcares serve à fermentação alcoólica. O etanol se transformou, na virada do século, em uma commodity mundial, gerando um mercado ainda incipiente, mas que poderá tornar-se importante. Tem havido trocas comerciais interessantes entre o Brasil e os EUA. Já em 2019, o Brasil exportou US$ 628 milhões em etanol para os EUA, ganhando mercado na Califórnia, pois o seu etanol de cana tem uma pegada de carbono menor em comparação com o de milho dos EUA; em compensação, adquiriu US$ 543 milhões em etanol dos norte-americanos, basicamente para abastecer o Nordeste. Em 2022, a exportação total de etanol brasileiro atingiu 2,43 bilhões de litros. Ao preço médio de US$ 723/m³, a receita acumulada somou US$ 1,76 bilhão, tornando-se fonte importante de divisas ao país. As importações de etanol foram de 307 milhões de litros, sendo 206 milhões dos EUA e 100 milhões do Paraguai. Em 2018, o setor sucroalcooleiro brasileiro estava composto de 411 usinas, sendo 172 no estado de São Paulo (172), seguido por Minas Gerais (42) e Goiás (38). Para 2023, a área de plantio está estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 8,2 milhões de hectares. Conforme a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima-se um crescimento da área de cana para 9,9 milhões de hectares em 2027, alcançando 45 bilhões de litros de etanol (FRANCO, 2018). 41 Figura 13 – Cana-de-açúcar: matéria-prima do etanol brasileiro Fonte: https://www.portaldoagronegocio.com.br/agricultura/cana-de-acucar/noticias/entressafra-critica-de-cana-de- acucar-no-brasil-pode-resultar-em-menor-oferta-de-etanol-113733 O sucesso do etanol no mercado nacional e internacional, aliado à enorme expansão da produção de milho no Centro-Oeste, favoreceram a instalação deusinas/destilarias desse cereal, com investimentos estimados de R$ 15 bilhões. Em 2023/24, o etanol de milho deve alcançar 6 bilhões de litros, representando 15% da produção total de etanol brasileiro. Como consequência da produção de etanol, advindo da moagem da cana-de-açúcar, começou a gerar montanhas de bagaço, ou seja, resíduos do colmo da cana esmagado nas moendas, nos pátios das empresas processadoras. Dessa geração de matéria-prima surgiu a bioeletricidade, energia elétrica obtida a partir da queima do bagaço de cana nos usinas e destilarias produtoras de açúcar e etanol. A madeira oriunda de florestas plantadas, principalmente eucaliptos, no Brasil, também favorece a produção de energia pela queima de matéria orgânica. Madeira ou carvão vegetal – advindos de reflorestamentos, e não da supressão de florestas originais – movimentam caldeiras nas fábricas, gerando vapor, que move máquinas ou vira eletricidade; nas padarias e pizzarias, madeira sustentável fornece caloria para a confecção de alimentos. Tudo isso é agroenergia. A evolução tecnológica permitiu, por um processo químico chamado transesterificação, transformar óleo vegetal ou gordura animal em combustível assemelhado ao óleo diesel. Abriu-se assim mais uma fronteira na agroenergia: o biodiesel, utilizado na mistura com o diesel fóssil. O Brasil lançou a sua política de biodiesel em 2004, intitulada Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). https://www.portaldoagronegocio.com.br/agricultura/cana-de-acucar/noticias/entressafra-critica-de-cana-de-acucar-no-brasil-pode-resultar-em-menor-oferta-de-etanol-113733 https://www.portaldoagronegocio.com.br/agricultura/cana-de-acucar/noticias/entressafra-critica-de-cana-de-acucar-no-brasil-pode-resultar-em-menor-oferta-de-etanol-113733 42 Inicialmente, a mistura do biodiesel no óleo diesel comum era facultativa, na ordem de 2% (B2). Depois, em 2008, a mistura passou a ser obrigatória, crescendo para 10% (B10) em 2018. A estimativa de consumo, nessa mistura, é de 6,9 bilhões de litros de biodiesel, ficando atrás apenas dos EUA, líderes mundiais das políticas de biodiesel, onde a mistura é B20. Após incertezas causadas pela pandemia, em março de 2023 o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) publicou a Resolução 16, estabelecendo que a mistura será ampliada para 12%, subindo 1 ponto percentual ao ano, até atingir 15% em 2026, quando se estima uma produção de 10 bilhões de litros de biodiesel. Quanto às fontes de matéria-prima, predomina o grão de soja, com cerca de 80%, seguido do sebo bovino (18%), um subproduto dos frigoríficos, além de pequenas contribuições de outras fontes de óleo vegetal. Somente de soja, a projeção para 2020 indica a moagem de 25 milhões de toneladas de grãos destinadas à produção de biodiesel (BRASIL, 2020). Crescentemente, verifica-se a importância da agropecuária no fornecimento de energia, caracterizada como tipicamente renovável, ou seja, energias limpas assim como a energia eólica, a solar, ou fotovoltaica, e a hidrelétrica. Nenhuma delas se baseia na exploração fóssil, portanto, não provoca a liberação de carbono acumulado na atmosfera, na forma de CO2, principalmente. Uma grande vantagem na produção de agroenergia reside no sequestro de carbono da atmosfera por meio do processo bioquímico da fotossíntese. Para fazer crescer a sua massa vegetal – seja da cana- de-açúcar, seja da soja ou das florestas plantadas – é necessário que as plantas absorvam gás carbônico. Posteriormente, ao serem queimados na combustão, o etanol, o biodiesel ou a madeira devolvem à atmosfera o carbono acumulado nos tecidos vegetais. Por essa razão, consideram-se tais emissões neutras, pois existe um balanço zero entre o sequestro inicial de carbono e a liberação posterior de CO2 por meio da queima. Energia renovável se distingue, desse modo, da energia fóssil, pois pode ser constantemente recriada, produzida. Boas práticas agrícolas: conservação de solo e recursos hídricos A erosão dos solos se configurava, em meados do século passado, como o maior problema ecológico da agricultura brasileira. Milhões de toneladas de terra fértil eram levados pelas enxurradas, juntamente com fertilizantes e sementes das lavouras plantadas. Voçorocas cortavam os terrenos como cicatrizes, impedindo o trânsito de máquinas. A situação agronômica era trágica. Na origem desse problema estava o processo de aração e gradeação do solo, um processo tecnológico tradicional, copiado da agricultura de países temperados, onde o longo e gélido inverno exige que se revolva o terreno antes da realização do plantio, na primavera. Os solos se aquecem e se revigoram. Na condição tropical do Brasil, entretanto, em face das chuvas torrenciais, o sistema de preparo era um caminho para o depauperamento do solo. O segredo dos solos tropicais se esconde no teor de matéria orgânica, acumulado no solo quando coberto por densas florestas. Derrubada a mata, sem manejo adequado, perde-se a matéria orgânica e abrem-se as portas para a erosão. 43 Sistemas foram desenvolvidos para evitar a erosão agrícola, a começar pelos plantios em nível. O terraceamento, em alguns casos, verdadeiros murundus, servem como barreiras físicas ao escorrimento das águas superficiais. Ajudam, mas não resolvem. Somente quando se aprimorou, a partir dos anos de 1980, o sistema de “plantio direto na palha”, no qual não se ara nem se gradeia o terreno, a questão da conservação do solo ganhou enorme ímpeto. Foi no Paraná que, pioneiramente, pelo trabalho dos agricultores Herbert Barth, Nonô Pereira e Frank Dijkstra, que começou a utilização do plantio direto na palha. O apoio da Embrapa e de empresas fabricantes de máquinas agrícolas foi decisivo no aprimoramento do sistema. Máquinas semeadoras, mais complexas, desenvolveram-se para realizar as operações de plantio e adubação. As novas máquinas escarificam e preparam a terra apenas nas linhas de plantio, mantendo intacta a faixa da entrelinha. Desse modo, dificulta-se a erosão causada pelas chuvas. Na conceituação da Embrapa, importante é implementar o “sistema de plantio direto”, ou seja, um conjunto de técnicas assentadas na manutenção do solo bem estruturado, com matéria orgânica incorporada: O “sistema plantio direto”, por contemplar preceitos da agricultura conservacionista estreitamente associados à retenção de matéria orgânica no solo e por ser adaptável à qualquer região agrícola do Brasil, distingue-se como ferramenta fundamental, considerada propícia, inquestionável, irrepreensível e de valor inestimável para a conservação do solo e a redução da taxa de emissão de gases de efeito estufa (DENARDIN, J. E. et al., 2012). Figura 14 – Erosão de solos em lavoura de soja Fonte: http://www.coagril-rs.com.br/informativos/ver/65/compactacao-e-erosao-de-solo http://www.coagril-rs.com.br/informativos/ver/65/compactacao-e-erosao-de-solo 44 O sistema do plantio direto na palha foi decisivo para o sucesso da expansão da fronteira agrícola no Centro-Oeste do País, pois o Cerrado tem solos arenosos. A cobertura vegetal, normalmente efetuada com a palhada seca da lavoura anterior, ou formada com o plantio de espécies adequadas – milheto ou crotalária –, mantém protegido o solo. Figura 15 – Erosão de solo em área de pastagens Fonte: https://ruralpecuaria.com.br/tecnologia-e-manejo/solo/o-que-e-erosao-quais-sao-os-seus-tipos.html O uso de herbicidas químicos tem sido uma ferramenta tecnológica essencial para implantar o plantio direto na palha. Ao ser aplicado no terreno, o agroquímico aniquila as ervas invasoras – o mato – dispensando as gradagens que, anteriormente, eram feitas para quebrar os torrões e realizar a capina mecânica do solo. https://ruralpecuaria.com.br/tecnologia-e-manejo/solo/o-que-e-erosao-quais-sao-os-seus-tipos.html 45 Gráfico 4 – Evolução na adoção da prática do plantio direto na palha no Brasil Fonte:Febrapdp (2018) Associado ao combate da erosão do solo, a proteção de recursos hídricos se tornou obrigatória na agricultura conservacionista. A infiltração das águas de chuva, facilitada pelas técnicas de plantio em nível, terraços no terreno e plantio direto na palha, alimenta o lençol freático, favorecendo, portanto, as nascentes. Segundo o Código Florestal, as margens de corpos d’água – córregos, riachos, rios, lagoas – são impedidos de ocupação produtiva, configurando as APPs. Essas matas ciliares protegem os recursos hídricos e beneficiam a biodiversidade, espécies vegetais e animais. Quando recuperadas, depois de alguns anos de interdição de uso, formam verdadeiros corredores de biodiversidade que adornam os campos. Microbacias hidrográficas se constituem na unidade-referência em planejamento de recursos hídricos, conforme estabelece a Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, conhecida como Lei das Águas. Nela se estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e se criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). O País está dividido em 12 bacias hidrográficas, centradas nos grandes rios nacionais, que por sua vez se subdividem em bacias estaduais. No SINGREH, os comitês de bacias hidrográficas, compostos de representantes dos segmentos econômicos, têm papel relevante na gestão dos recursos hídricos. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), criada pela Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, arbitra sobre o uso múltiplo, entre abastecimento humano, irrigação e navegação. Financiados pelo BID, estados como São Paulo e Paraná executaram, desde os anos 1990, bons programas de conservação de solo em microbacias hidrográficas. 46 Figura 16 – Divisão do território brasileiro entre as 12 bacias hidrográficas Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/brasil/principais-bacias-hidrograficas-brasil.htm Figura 17 – Um exemplo de microbacias hidrográficas, município de Arcos (MG) Fonte: Carta Topográfica, folha de Arcos na escala de 1:50.000, IBGE. https://brasilescola.uol.com.br/brasil/principais-bacias-hidrograficas-brasil.htm 47 A gestão de recursos hídricos está-se tornando cada vez mais importante no planejamento dos agronegócios, pois as atividades agropecuárias no Brasil investem seguidamente na irrigação, tanto de lavouras, principalmente, mas também de pastagens. Além do uso de água nas atividades do processamento alimentar e nos confinamentos de animais. Em face das mudanças climáticas, que parecem estar alterando o regime de chuvas em várias partes do País, a agenda azul entrou no centro da gestão de agronegócios. Em certas regiões do Brasil, surgiram conflitos pelo uso da água, afetando os irrigantes agrícolas, como em Cristalina (GO) e no oeste baiano (Barreiras). Gestão de recursos hídricos passou a ser uma questão importante em várias regiões agrícolas. O potencial de crescimento da agricultura irrigada é enorme no Brasil. Segundo resumo apresentado no livro Agricultura, fatos e mitos (GRAZIANO et al., 2020, p. 258), A área irrigada no Brasil tem crescido a taxas médias anuais superiores a 4% desde a década de 1960. Estima-se atualmente um total de cerca de 7,3 milhões de hectares de área irrigada no Brasil. Significa cerca de 10% da área total cultivada no país. Segundo a ANA, o Brasil possuía (2017), um total de 23.181 pontos-pivô com 1,4 milhões de hectares equipados para irrigação por pivôs centrais, o que corresponde a cerca de 20% da área irrigada total. É o sistema que mais cresce: nos últimos sete anos (2012-2018) a área equipada média adicional foi de 94 mil ha ao ano. O Brasil ainda está bem longe da China e da Índia, líderes mundiais na irrigação, com cerca de 70 milhões de hectares em cada país. Mas existe potencial de crescimento enorme. Segundo estimativas oficiais, deverão ser incorporados 3,14 milhões de hectares irrigados até 2030, aproximando o país da área total de 10 milhões de hectares irrigados. Esse incremento corresponde ao aproveitamento de 28% do potencial brasileiro. Boas práticas agrícolas: manejo integrado de pragas O surgimento das pragas agrícolas remonta à Antiguidade, sendo uma decorrência normal da expansão de áreas cultivadas sobre os ecossistemas naturais. Do ponto de vista ecológico, toda supressão de vegetação natural, que é necessária à lavra e ao pastoreio, provoca aumento de instabilidade no ecossistema original. A simplificação altera o equilíbrio natural, levando ao surgimento de organismos – insetos, fungos, bactérias – que atacam as lavouras e os animais. Ou seja, eles entram em desequilíbrio com os seus inimigos naturais e se tornam pragas. 48 As cinzas de madeira e o arsênico estão entre os primeiros defensivos agrícolas utilizados para combater pragas. Na história do controle fitossanitário, porém, a chamada “primeira geração” de pesticidas – ou defensivos agrícolas, agroquímicos e agrotóxicos, termos que podem ser considerados sinônimos – é formada por elementos químicos naturais, como cobre, níquel, estanho, mercúrio, enxofre, zinco, manganês. Caldas, como a bordalesa (sulfato de cálcio mais cobre), ou sulfocálcica (sulfato de cálcio mais enxofre), também se colocam entre os produtos químicos inicialmente utilizados contra pragas agrícolas. Embora naturais, os produtos químicos guardam características de toxicidade humana e ambiental. O mercúrio, por exemplo, mostrou-se extremamente contaminante, acumulando-se nos ecossistemas, além de tóxico aos humanos. Por tais razões, tal ingrediente químico acabou banido do uso agrícola desde 1975, no Brasil. São, também, pouco seletivos, ou seja, o seu arco de ação é abrangente, aniquilando insetos em geral e afetando, em graus variáveis, répteis, peixes e mamíferos. Esse grupo de elementos químicos naturais prevaleceu no controle fitossanitário até a chegada dos ingredientes químicos sintéticos, ou seja, aquelas moléculas desenvolvidas em laboratórios. O DDT é o inseticida que inaugura essa fase histórica do controle de pragas na agricultura, considerada a “segunda geração” de defensivos. Descoberto, pioneiramente, em 1874, o DDT foi maciçamente utilizado pelos EUA e os seus aliados para controle de mosquitos, transmissores de malária, na Segunda Guerra Mundial. Finda a guerra, passou o DDT a ser utilizado, como enorme sucesso, nas lavouras norte-americanas. Pertencente ao grupo dos organoclorados, a sua molécula, tanto quanto a do Hexaclorobenzeno (BHC), inseticida muito utilizado no Brasil no século passado, para combater saúvas, é altamente persistente, permanecendo décadas no meio natural sem entrar em decomposição. Suspeitos, na época, de serem carcinogênicos, foram proibidos em todo o mundo, a começar da Hungria (1968), Suécia (1970), Alemanha e EUA (1972). No Brasil, a proibição se deu em 1985.3 Outro grupo importante de ingredientes químicos sintéticos, os organofosforados, também marcou esse período inicial do uso de pesticidas na agricultura mundial. Nesse caso, embora degradáveis mais facilmente, os organofosforados têm elevada toxicidade aguda. Em um contexto de baixo uso de medidas de proteção do aplicador, os trabalhadores ficavam muito expostos aos seus efeitos tóxicos, por inalação ou contato. A partir dos anos de 1980, pode-se dizer que se desenvolve uma “terceira geração” de defensivos agrícolas, cujas características básicas são a seletividade e a menor toxicidade. Os laboratórios, baseados na experiência da prática agrícola anterior e pressionados pela opinião pública, investem em moléculas químicas capazes de atacar as pragas, porém mais específicas, menos abrangentes, trazendo menores reflexos no ecossistema e na saúde humana. 3 O DDT foi o protagonista do livro Primavera silenciosa, conforme colocado nas páginas iniciais desta apostila. 49 Gráfico 5 – Redução da toxicidade aguda de inseticidas, medida por meio da DL50, no século XX Fonte: AssociaçãoNacional de Defesa Vegetal – Andef (2004) Nessa fase da terceira geração se assentam os conceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP), técnica fitossanitária moderna que combina práticas de controle biológico, controle químico e manejo cultural. Surge assim a figura do “pragueiro” na agricultura, profissional responsável pela determinação do nível de dano de pragas nas lavouras. De uma receita dada por calendário, baseado na época de plantio e crescimento das plantas, passa-se a aplicar defensivos em função do grau de ataque às lavouras. O processo fica mais certeiro e econômico. Destacam-se nessa fase o piretro e a nicotina. Tais substâncias, que são tóxicas para mamíferos e afetam o meio ambiente, foram transformadas em piretroides e neonicotinoides, apresentando baixa toxicidade. Regra geral, nesses anos de evolução, as doses de defensivos utilizadas por hectare tratado se reduziram, devido à maior eficiência do controle fitossanitário. A Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, que regula o registro e a comercialização dos chamados agrotóxicos no País, trouxe a obrigatoriedade do Receituário Agronômico. Semelhantemente à Medicina, a partir de então o comércio e a aplicação de defensivos agrícolas passou a exigir a receita, por escrito, do engenheiro-agrônomo, obrigando a responsabilidade técnica no controle de pragas. Na mesma época, os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) passam a ser obrigatórios nas operações de tratamento fitossanitário. A entrada do século XXI marca a “quarta geração” dos defensivos agrícolas. Os laboratórios de grandes empresas do setor investem crescentemente em moléculas que atuam no sistema endócrino dos insetos, que afetam metabolismo (lignificação), que impedem reprodução sexual ou que alteram apetite dos insetos (limonoides). Os defensivos se tornam cada vez mais específicos, adquirem maior degradabilidade e apresentam menor toxicidade humana e ambiental. 50 O controle biológico de pragas avança em toda a agricultura, e a engenharia genética passa a interferir na fitossanidade a partir das variedades Bt, que incorporam no genoma de soja, algodão e milho, principalmente, uma expressão da bactéria Bacillus thuringiensis, utilizada há dezenas de anos no controle biológico de lagartas que atacam as lavouras. A transgenia Bt auxilia na redução do uso de defensivos nas grandes lavouras. Notável foi a melhoria da tecnologia de aplicação de defensivos, a partir dos modernos pulverizadores que provocam nebulização e atingem mais amplamente as áreas vegetais. Controle digital, ionização nos bicos pulverizadores, raios laser, drones, ou seja, um conjunto de tecnologias de precisão aperfeiçoou o controle de pragas no agro. Infelizmente, nem sempre os pequenos agricultores conseguiram acompanhar os agricultores mais tecnológicos, normalmente os maiores, em termos de área plantada, pois as máquinas são onerosas, exigindo financiamento para investir nas boas práticas agrícolas. A opinião pública muito se preocupa com a questão dos resíduos químicos nos alimentos. Muitas vezes, a não observância dos prazos de carência, desde a aplicação até a colheita, causa problemas que afetam a qualidade alimentar. Entretanto, as análises da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ligada ao Ministério da Saúde, realizadas em 2003, no intitulado Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), indicam que a situação é, felizmente, bem melhor que aquela apregoada por muitos formadores de opinião. O último relatório, de dezembro de 2019, com análises de 4.616 amostras coletadas sobre 14 alimentos, mostrou que em 2.254 delas (49%) não foram detectados resíduos de agrotóxicos. Outras 1.290 amostras (28%) apresentaram resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao Limite Máximo de Resíduos (LMR). Ou seja, considerando o total das amostras, 77% dos alimentos estavam com zero resíduos ou com resíduos abaixo do LMR. Das 1.072 amostras (23%) que se mostraram insatisfatórias, a maior inconformidade advém do uso, pelos agricultores, de defensivos não autorizados para controle de pragas naquela cultura. Considerando o total das amostras, apenas 2,3% mostraram limites de resíduos acima do LMR, e apenas 0,89% desses resíduos caracterizaram “potencial risco agudo” à saúde humana (BRASIL, 2019a). 51 Gráfico 6 – Relatório do Programa de Análise de Resíduos em Alimentos Fonte: Relatório Anvisa (2019) Com relação às intoxicações de seres humanos por agrotóxicos, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), do Ministério da Saúde, fornece a base de dados oficial. Nos últimos 17 anos, de 1.750.792 comunicações, 107.127 foram relacionadas aos produtos fitossanitários, perfazendo 6,12% do total, ocupando o sexto lugar. Medicamentos humanos foram responsáveis por 509.826 notificações, situando-se em primeiro lugar nas intoxicações. 52 Gráfico 7 – Volume de intoxicações por vários agentes etiológicos registrados no período de 1985-2016 pelo Sinitox, MS Fonte: Brasil (2017) Por fim, para se aquilatarem as boas práticas agrícolas no controle fitossanitário, há que se apontar as diferenças entre a agricultura tropical, como no Brasil, e a agricultura praticada nos países de clima temperado. Já se disse que “o melhor pesticida do mundo é a neve”. A metáfora serve para mostrar que, realmente, é muito distinto o comportamento das pragas agrícolas entre regiões de clima temperado e tropical. Isso ocorre porque a reprodução de insetos, ácaros, fungos, bactérias ou vírus depende das condições ecológicas de cada ecossistema. No Brasil, ao contrário dos EUA, da Europa ou do Japão, o ciclo de produção rural é quase contínuo, havendo duas a três safras no mesmo terreno. A dinâmica dos patógenos é completamente distinta em comparação com países onde o inverno é gelado. São quatro fatores ecológicos – hospedeiros, temperatura, luminosidade e umidade – que aceleram a dinâmica das espécies. A enorme vantagem produtiva da agricultura tropical acaba sendo, contraditoriamente, a sua fraqueza fitossanitária. Além do mais, no Hemisfério Norte não se produz café, nem cana-de-açúcar, nem cacau. Em outras palavras, sempre é difícil fazer comparações, por exemplo, sobre o uso de pesticidas entre os países, pois são distintas as situações produtivas. Bem-estar animal A agenda do bem-estar animal (BEA) começou a ser debatida em 1964, na Inglaterra, a partir de um livro escrito pela médica-veterinária Ruth Harrison, intitulado Animal machines. Ela criticava fortemente a criação de animais de forma intensiva, em ambientes restritivos, o que afetava a mobilidade, alterava o comportamento natural das espécies e trazia doenças aos rebanhos. 53 O governo britânico criou um grupo para analisar o assunto. Liderado pelo cientista Francis Brambell, publicou-se um relatório em 1965. Daí surgiu o Farm Animal Welfare Council (FAWC), que em 1969 apresentou o conceito das “Cinco Liberdades” dos animais, a saber: 1. Estar livre de fome e sede. 2. Estar livre de desconforto. 3. Estar livre de dor, doença e injúria. 4. Ter liberdade para expressar o seu comportamento natural. 5. Estar livre de medo e estresse. Desde então, estudos passaram a ser realizados, e normas começaram a surgir para regular os critérios de bem-estar nos criatórios de animais. Do conceito das “Cinco Liberdades” dos animais, evoluiu-se para o conceito das “Cinco Necessidades” (ou “Cinco Domínios”) que caracterizam o BEA, hoje mundialmente aceitas e regulamentadas em inúmeros países, quais sejam: 1. necessidade de ambiente adequado; 2. necessidade de dieta adequada; 3. necessidade de ser capaz de manifestar padrões de comportamento normais; 4. necessidade de ser alojado com ou afastado de outros animais e 5. necessidade de ser protegido de dor, sofrimento, lesão ou doença (WSAVA, 2018). A base do BEA é a compreensão de que os animais são seressencientes, ou seja, apresentam consciência sobre as condições da sua existência, apresentam sofrimento e sentem dor. Senciência é diferente de sapiência: esta se relaciona com o conhecimento, com o saber; aquela diz respeito à capacidade de sentir. Tal condição dos animais foi reconhecida pela União Europeia no chamado Acordo de Lisboa, em 2009. Bem antes disso, porém, já em 1978, surgiu a pioneira convenção europeia que estabelecia a devida proteção aos animais nos locais de criação. Depois, em 1998, os países europeus aprovaram a sua Diretiva nº 98/58/CE, de 20 de julho de 1998, com regras de proteção animal nas explorações pecuárias. Nos EUA, a lei que impõe o BEA é mais antiga, de 1966, regulamentando desde o uso de cobaias na pesquisa até exposições e no transporte. Ou seja, vem de longe a regulamentação do BEA. Acesso à água e à boa alimentação, cuidados veterinários, proteção contra intempéries, sociabilização no rebanho, eliminação de maus-tratos na doma e no manejo, entre tantos requisitos técnicos, o BEA têm evoluído bastante na zootecnia, com destaque para a avicultura, a suinocultura e a bovinocultura. Normas e procedimentos visam garantir que os animais úteis ao homem consigam adaptar-se, da melhor forma possível, ao ambiente onde são criados. Trata-se de uma questão científica e tecnológica, e ao mesmo tempo de um conceito ético. No Brasil, a agenda do BEA tem avançado, contando com o apoio dos produtores mais tecnológicos, vinculados ao mercado exportador. No caso da suinocultura, a Instrução Normativa 113, de dezembro de 2020, publicada pelo Departamento de Desenvolvimento das Cadeias Produtivas e da Produção Sustentável, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), estabeleceu as boas práticas de manejo e bem-estar animal nas granjas de suínos de criação comercial. 54 A avicultura também passa por uma transição tecnológica visando adaptar-se às normas internacionais do BEA. Um documento pioneiro, intitulado Protocolo de Bem-estar Animal na Produção de Frangos de Corte e Perus (2008), foi elaborado pela cadeia produtiva, traçando um norte para as empresas avícolas do Brasil. O trabalho foi coordenado pelo Dr. Ariel Mendes, da União Brasileira de Avicultura (UBA, 2008). Recentemente, as exigências de BEA indicam, na avicultura de postura – ovos –, alterações no aprisionamento em gaiolas das galinhas poedeiras, nas práticas da “debicagem” e nas restrições alimentares utilizadas para a chamada “muda forçada”. Na avicultura de corte – frangos –, o maior problema está na densidade da criação e no fornecimento de iluminação natural. Visam reduzir o estresse animal e garantir maior liberdade e ambiência às aves. O sistema de produção de galinhas livres de gaiolas, conhecido como “cage-free”, é o maior desafio da avicultura. Na Europa, as exigências rumo ao sistema cage-free se intensificaram desde 2009, com prazo até 2023 para as granjas se adaptarem à criação livre das poedeiras. Grandes empresas, como o Burger King e o McDonald’s, endossaram a agenda europeia e lideram as exigências globais do sistema cage-free. No Brasil, embora ainda distante, o tema já entrou na discussão sobre o futuro do setor avícola. Com relação à pecuária leiteira e de corte, a tendência se verifica, principalmente, no manejo dos rebanhos e na liberdade animal. Currais antigos estão sendo remodelados, perdendo as suas quinas, para facilitar o manejo, evitando-se aglomeração, impedindo-se injúrias na movimentação, na marcação do gado. Vaqueiros apreendem a trabalhar com bandeiras brancas substituindo os ferros pontiagudos com os quais feriam os animais, e em silêncio. São os novos tempos da sustentabilidade que chegam à pecuária nacional. O professor Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, maior estudioso e líder da agenda do BEA no Brasil, afirmava já em 2002 que atividades como apartar, identificar, vacinar, curar, etc., têm sido conduzidas de forma equivocada, com ações agressivas que condicionam os animais a terem medo de humanos e das áreas de manejo. Há evidências concretas de que é possível desenvolver relações positivas entre humanos e bovinos no dia a dia da fazenda e que não são necessários grandes investimentos para que isto seja alcançado. Para tanto basta aplicarmos os conhecimentos já disponíveis para adaptar os sistemas de manejo às características e necessidades dos bovinos, e não o inverso (PARANHOS DA COSTA, 2002). O manejo racional do gado, técnica desenvolvida seguindo os ensinamentos da norte-americana Ph.D. Temple Grandin, professora da Universidade Estadual do Colorado, passou a ser valorizado por reduzir o estresse animal, combinado com melhores índices de produtividade. A prática está mostrando que o BEA não atrapalha a produção, pelo contrário, permite ganhos na rentabilidade. 55 Os profissionais, médicos-veterinários e zootecnistas, estão sujeitos à Resolução nº 1.236, de 26 de outubro de 2018, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), que “define e caracteriza crueldade, abuso e maus-tratos contra animais vertebrados, dispõe sobre a conduta de médicos-veterinários e zootecnistas e dá outras providências. ” A Resolução estabelece que “constitui-se em infração ética a prática, direta ou indiretamente, de atos de crueldade, abuso e maus-tratos aos animais, por médico-veterinário ou zootecnista”. Figura 18 – Temple Grandin, criadora do manejo racional do gado Fonte: http://www.sindicatoruraldebelavista.com.br/temple-grandin-americana-que-desenvolveu-o-manejo-racional-do-gado/ O Mapa coordena inúmeros grupos de estudos, envolvendo as cadeias produtivas animais, visando definir normas de BEA. Os seus técnicos, aglutinados na Coordenação de Boas Práticas e Bem-Estar Animal (CBPA), seguem as recomendações da Organização Internacional de Epizootias (OIE). Segundo a CBPA, “conhecer e aplicar as recomendações da OIE resguarda a agropecuária nacional, favorece a imagem dos produtores, gera credibilidade ao serviço veterinário oficial e beneficia diretamente os animais” (BRASIL, s.d.). http://www.sindicatoruraldebelavista.com.br/temple-grandin-americana-que-desenvolveu-o-manejo-racional-do-gado/ 56 Agricultura orgânica e biológica Existem algumas formas de produção de alimentos que seguem padrões tecnológicos alternativos à moderna agricultura. Em geral, recusam a prática da adubação química solúvel e, também, não aceitam o uso de defensivos agrícolas baseados em princípios ativos sintéticos, quais sejam, aqueles desenvolvidos em laboratório. Igualmente, rejeitam o plantio de variedades geneticamente modificadas, as plantas transgênicas. São variadas denominações, cada qual com a sua característica. A agricultura certificada como orgânica se originou com o britânico Sir Albert Howard, cujos experimentos iniciais, há um século, foram desenvolvidos na Índia. Na Alemanha, outra corrente, liderada pelo filósofo Rudolf Steiner, desenvolveu, naquela mesma época, os princípios da agricultura biodinâmica, cuja base é a antroposofia. No Japão, é chamada de agricultura natural. Na França e em Portugal, de agricultura biológica. Nos anos de 1970, uma nova tendência surgiu na Austrália, passando a intitular-se permacultura. Todas elas expressam correntes de agricultura que mostraram uma reação naturalista à tendência de “quimificação” no agro. Sempre apresentando alguma religiosidade e, em doses variadas, certa ideologia não capitalista, os produtos orgânicos se viabilizaram atendendo a um nicho de mercado formado por consumidores de elevado padrão. O consumo de produtos orgânicos cresce e se mantém rentável em todo o mundo. O cultivo, ou a criação, de gêneros orgânicos ocupavam cerca de 68 milhões de hectares em 2018. Como existem cerca de 5,7 bilhões de hectares ocupados com agropecuária no mundo, os orgânicos representam 1,2% da área mundial dedicada à produção de alimentos. Os principaispaíses são Austrália (35,6 Mha), Argentina (3,4 Mha) e China (3 Mha). Conforme se percebe, mais da metade das áreas se localizam na Austrália, formadas por extensas áreas de pastagens, de baixa produtividade, utilizadas na pecuária para a produção orgânica de carnes e leite. Figura 19 – Extensão da agricultura orgânica no mundo Fonte: Ifoam (2018) 57 Segundo o Relatório Anual (2018), da International Federation of Organic Agriculture Movements (Ifoam), havia um total de 2,9 milhões de produtores orgânicos no mundo em 2017. Eles se encontravam distribuídos entre Ásia (1,1 milhão), África (815 mil), América Latina (455 mil), Europa (397 mil), Oceania (26 mil) e América do Norte (19 mil). A Índia é o país que apresenta o maior número de produtores orgânicos, ao redor de 835 mil agricultores. O fato de haver tantos “agricultores orgânicos” na Índia está, em verdade, mais associado às deficientes condições de produção e à pobreza rural. Ou seja, não se trata, propriamente, de uma opção tecnológica, consciente, ou mercadológica, dos pequenos agricultores. Depois da Índia, seguem-se Uganda e México, com cerca de 200 mil produtores orgânicos em ambos os países; além deles, destaca-se a Turquia (75 mil). Na Europa, onde estão 13,7% dos agricultores orgânicos do mundo, a área média de produção é de 36,7 hectares. Na Oceania, são poucos os produtores orgânicos, mas o seu tamanho médio é grande, de 1.342 hectares. Os EUA, com 14 mil produtores orgânicos, também apresentam elevada área média, de 1.201 hectares. No Brasil, a pioneira Associação de Agricultores Orgânicos (AAO) foi fundada em 1989. Em meados dos anos 2000, formou-se a rede “agroecológica”, impulsionada pelo governo federal, que tentou aglutinar todas as correntes de agricultura alternativa no Brasil, incluindo ainda uma característica política: a produção familiar. A agroecologia, desse modo, nasceu se opondo ao agronegócio capitalista no Brasil. O mercado mundial de produtos orgânicos, incluindo não apenas alimentos, deve movimentar US$ 150 bilhões (2023), liderado por EUA, França e Alemanha. No Brasil se estima alcançar US$ 1,3 bilhão. Em 2018, segundo o Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), entidade que reúne cerca de 60 empresas do setor, o mercado brasileiro de orgânicos faturou cerca de R$ 4 bilhões. Quanto ao número de produtores de orgânicos, os dados oficiais do Mapa indicam forte crescimento nos últimos anos, passando de 5.934 para 17.730, entre 2012 e 2019. Figura 20 – Evolução do número de produtores orgânicos no Brasil Fonte: Brasil (s.d.) 58 A produção e comercialização de produtos orgânicos no Brasil é fundamentada na Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003, regulamentada pelo Decreto nº 6.323, de 27 de dezembro de 2007. A normatização e fiscalização fica a cargo do Mapa. Por meio de instruções normativas, o governo estabelece critérios técnicos, específicos para cada ramo de produção. O conceito básico está estabelecido na Instrução Normativa nº 46, de 6 de outubro de 2011, alterada em alguns pontos pela Instrução Normativa nº 17, de 18 de junho de 2014: Considera-se sistema orgânico de produção agropecuária e industrial, todo aquele em que se adotam tecnologias que otimizem o uso de recursos naturais e socioeconômicos, respeitando a integridade cultural e tendo por objetivo a autossustentação no tempo e no espaço, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energias não renováveis e a eliminação do emprego de agrotóxicos e outros insumos artificiais tóxicos, organismos geneticamente modificados-OGM/transgênicos ou radiações ionizantes em qualquer fase do processo de produção, armazenamento e de consumo, e entre os mesmos, privilegiando a preservação da saúde ambiental e humana, assegurando a transparência em todos os estágios da produção e da transformação. Ao contrário do que muitos consumidores imaginam, o controle fitossanitário da produção orgânica aceita o uso de substâncias químicas, ou seja, de agrotóxicos. Destaca-se o uso de enxofre, calda bordalesa (cal hidratada mais sulfato de cobre) e calda sulfocálcica (cal hidratada mais sulfato de alumínio). Embora sejam elementos naturais, possuem graus variados de toxicidade ambiental e humana. Segundo a Instrução Normativa nº 17/14 do Mapa, estão permitidos no Brasil o uso de 41 produtos ou processos no controle de pragas da produção orgânica. Além de agrotóxicos químicos, incluem agentes biológicos, extratos de plantas, óleos e outros preparados fitoterápicos. Na percepção dos consumidores, os alimentos orgânicos têm maior valor nutritivo que os convencionais, mas o conhecimento científico não confirma isso. Alan Dangour, avaliando 52.741 artigos científicos, afirmou não ser possível concluir que havia diferença no teor de nutrientes entre alimentos produzidos por sistemas orgânicos ou convencionais. O seu trabalho foi publicado em The American Journal of Clinical Nutrition (DANGOUR et al. 2009). Embora semelhantes no aspecto nutricional, os alimentos orgânicos atraem consumidores interessados no apelo ecológico característico da atualidade. Nesse contexto, duas recentes aquisições de empresas sinalizaram ao mercado que a tendência de crescimento da produção e do comércio de orgânicos continuará elevada: a compra da rede norte-americana de varejo Whole Foods Market pela Amazon, e a compra da brasileira Mãe Terra pela Unilever. 59 Figura 21 – Amazon coloca o seu nome no mercado norte-americano de produtos orgânicos Fonte: https://www.eweek.com/cloud/amazon-s-buyout-of-whole-foods-to-speed-up-its-move-into-grocery-sales/ O maior risco dos alimentos orgânicos é a contaminação por agentes biológicos, especialmente bactérias e fungos presentes nos estercos animais. Na Alemanha, em 2011, 31 cidadãos faleceram e 3 mil foram hospitalizados, devido ao consumo de brotos de feijão contaminados com a bactéria Escherichia coli, do tipo O104. Cidadãos de outros países, como Reino Unido, Dinamarca, Suíça e Holanda, também foram atingidos. https://www.eweek.com/cloud/amazon-s-buyout-of-whole-foods-to-speed-up-its-move-into-grocery-sales/ Neste módulo, vamos aproveitar os conhecimentos anteriores, desde a história, os conceitos e a evolução tecnológica, para nos dedicar à gestão da sustentabilidade, incluindo a gestão da agricultura de baixo carbono. O objetivo é dominar os elementos-chave que influenciam o marketing empresarial e determinam a competitividade atual do agronegócio. Responsabilidade socioambiental e competição empresarial Atribui-se à John Elkington, consultor de empresas, a adaptação do conceito do desenvolvimento sustentável, surgido nas discussões globais promovidas pela ONU, para o mundo dos negócios. Foi ele que formulou o princípio do Tripé da Sustentabilidade, também denominado pelo termo Triple Bottom Line (TBL). Utiliza-se, também, a denominação People, Planet e Profits para definir os três pilares de sustentação da empresa contemporânea. MÓDULO IV – GESTÃO DA SUSTENTABILIDADE NO AGRONEGÓCIO 62 Figura 22 – Tripé da sustentabilidade Fonte: Vivagreen. Pinterest.com. Empresas bem-sucedidas, sólidas, que implementam ações estratégicas pensando no seu futuro, não podem mais apenas focar resultados financeiros, pensando apenas no lucro imediato. Os novos valores da sociedade passaram a exigir maior preocupação com a defesa ambiental e com a responsabilidade social. Nesses termos, uma empresa sustentável se define como aquela que venha a ser, ao mesmo tempo: a) ambientalmente correta; b) socialmente justa e c) economicamente viável. Seguir nesse caminho, adotando o tripé da sustentabilidade, passou a ser uma tendência dominante das grandes empresas no mundo todo. Elas souberam entender os reclamos da sociedade por um mundo mais saudável, limpo, justo, expressos principalmente depoisdos anos de 1990. Desse modo, adaptaram-se, promovendo mudanças na gestão dos seus processos. Nesse sentido, foram conscientes sobre os novos rumos a seguir. Houve, também, um aperto da fiscalização ambiental. Depois das diretrizes emanadas pela ONU, governos federais e locais criaram e reforçaram as suas áreas de gestão ambiental, fechando o cerco contra a economia predatória que havia imperado até então. O lançamento de efluentes polidores nos corpos d’água e as emissões de gases tóxicos na atmosfera, por chaminés de fábricas ou escapamentos de veículos, passaram a ser fortemente reprimidos pela legislação pública. 63 Na agenda verde, aquela ligada à biodiversidade, o apelo ecológico trazido pelo temor da extinção de espécies provocou rigorosa ação dos órgãos públicos, com apoio dos órgãos de comunicação, no sentido de evitar desmatamento de florestas virgens e demais áreas naturais, como lagos e estepes. A proteção de recursos hídricos – agenda azul – também se tornou obrigatória nas políticas de sustentabilidade, nas cidades e no campo. O licenciamento ambiental passou a ter grande relevância nas políticas públicas. Em função dos impactos causados no meio ambiente, as empresas e os empreendedores se obrigam a apresentar projetos e propostas capazes de mitigar os efeitos que causam a partir da sua instalação e do seu funcionamento. Restrições estabelecidas pelo poder público evitam danos irreparáveis ao meio ambiente. A engenharia evolui, surgem tecnologias brandas, amigáveis à natureza. Surge assim a ideia da reponsabilidade conjunta, entre empresas e poder público, vigiadas pela sociedade. Conforme coloca Dias (2011, p. 81), as sociedades estão aumentando suas exigências aos agentes mais diretamente envolvidos, particularmente administrações públicas e empresas. No caso do poder público, pelo seu papel responsável pelo bem comum; e no caso das empresas, como os principais agentes visíveis de contaminação do ambiente. Mais recentemente, as empresas líderes adotaram uma tendência de gestão e conduta ética denominada pela sigla ESG – Environmental, Social and Governance –, que se tornou decisiva no mercado de capitais, valorizando as ações à medida que atraem potentes fundos de investimento. Empresas responsáveis se caracterizam por: a) preocupar-se com o meio ambiente e garantir a sustentabilidade das suas operações (E); b) relacionar-se bem com os seus colaboradores, clientes e a comunidade em que operam (S) e c) apresentar sólida governança coorporativa, com mecanismos de compliance, auditorias, transparência e respeito aos acionistas e stakeholders (G). 64 Figura 23 – Representação esquemática da conduta empresarial ESG Fonte: https://comoinvestir.thecap.com.br/o-que-e-esg/ De olho no cliente, preocupadas com a valorização do seu capital, as empresas líderes adotam os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovidos pela ONU, que servem como diretrizes de comportamento e balizam treinamentos de colaboradores em programas de conscientização e de educação ambiental. Figura 24 – Os 17 ODS, segundo a ONU Fonte: mpactosocial.esolidar.com/2020/03/31/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-onu/ https://comoinvestir.thecap.com.br/o-que-e-esg/ file://Cl0002.fgv.br/Producao/Textos_manual_pdf/Modelagem%203.0/Sustentabilidade%20no%20Agronegocio/diagramado/mpactosocial.esolidar.com/2020/03/31/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-onu/ 65 As empresas se aproximam das comunidades onde se situam, estabelecem relacionamentos transparentes com a chamada sociedade civil, normalmente representada por ONGs ambientalistas, cuja preocupação social sempre é também destacada. Aproximar-se dos seus stakeholders, ou seja, dos parceiros da cadeia produtiva, é um imperativo da empresa sustentável do século 21. É inescapável que tais valores empresariais e sociais relacionados à sustentabilidade afetem os agronegócios. Sabem disso as grandes empresas de processamento de alimentos, de máquinas agrícolas, de exportação de commodities, de financiamento e planejamento. O desafio, portanto, será envolver todos os elos das cadeias produtivas na construção da agropecuária sustentável, começando pela base rural de produção. Indicadores e relatórios de sustentabilidade Está claro que o mundo dos negócios e dos investimentos se direciona, cada vez mais, na prática ou na exigência de princípios ambientais, sociais e de governança. Surgem modelos de negócios diferenciados, expressando uma visão mais ampla sobre os riscos que envolvem o capital. Esse avanço na gestão da sustentabilidade somente pode ocorrer graças ao surgimento de indicadores socioambientais, que por sua vez embasaram os relatórios de sustentabilidade. Organizações e consultoras passaram a se dedicar à qualificação e à quantificação de ações de conteúdo ambiental e social implementadas no âmbito empresarial e governamental. Por definição, indicar significa revelar, expor. Os indicadores de resultado, utilizados na administração em qualquer setor, trazem a vantagem de mensurar, de dimensionar atividades. Tendo metodologia conhecida, por meio da qual são obtidos, os indicadores permitem comparar processos e oferecer credibilidade à informação técnica. Outra vantagem dos indicadores de sustentabilidade é permitir a mais ampla compreensão, facilitando a comunicação interna e externa das empresas e instituições. Em outras palavras, indicadores ambientais convencem mais que apenas a palavra, ou o discurso, da sustentabilidade. A partir do surgimento de um conjunto expressivo de indicadores ambientais, a gestão da sustentabilidade avançou, pois, sabidamente, inexiste gestão eficiente sem medição de desempenho. Eficiência energética, consumo de recursos hídricos, geração de resíduos sólidos e de gases poluidores, carga de efluentes líquidos, impactos na biodiversidade, reflexos na comunidade, gasto de insumos, em todos os setores de atividade os indicadores ambientais e sociais trazem informações precisas e comparáveis entre si. Essa é a linha da boa administração: medir, não apenas falar. Já nos anos de 1970 as empresas começaram a relatar as suas ações em prol da defesa ambiental, mas tais relatos compunham como se fosse um apêndice “social” do relatório anual da administração, cujo foco principal, sabidamente, é o balanço econômico-financeiro. Relatórios ambientais, de verdade, surgiram mais tarde, a partir da metade da década de 1990, sendo elaborados seguindo metodologias variadas. 66 O relatório de sustentabilidade, que é uma iniciativa voluntária, progressivamente foi-se tornando uma das principais ferramentas para empresas e instituições prestarem contas à sociedade, e para aqueles agentes interessados na sua atuação – os stakeholders – sobre as suas práticas socioambientais ou a sua sustentabilidade. Relatório de sustentabilidade passou a ser um importante instrumento de comunicação e gestão. Na evolução dos relatórios de sustentabilidade, quando realmente passaram a ser decisivos na competição do mundo empresarial, adotou-se, globalmente, um padrão altamente reconhecido: a Global Reporting Initiative (GRI). A proposta da GRI surgiu em 1997, na Holanda, a partir de uma iniciativa conjunta da Coalition for Environmentally Responsible Economies (Ceres) e do United Nations Environmental Program (Unep). Formalizado em 2002, em pouco tempo a GRI se tornou a referência de procedimentos de grandes empresas na elaboração de relatórios de sustentabilidade. Em 2009, cerca de 1.300 organizações em mais de 60 países já declaravam utilizar o modelo de relatório da GRI. Estima-se que atualmente 75% das maiores empresas do mundo o utilizem para elaborar os seus relatórios de sustentabilidade. As diretrizes para a elaboração do Relatório GRI têm sido constantemente atualizadas, desde a primeira versão (G1), para a quarta versão (G4), lançada em 2013. Desde julho de 2018, uma remodelagemcriou os Padrões GRI. Trata-se de alinhar normas de procedimentos para a elaboração de relatórios de sustentabilidade capazes de oferecer uma comunicação global mais ampla aos agentes do mercado. Figura 25 – GRI: evolução dos relatórios Fonte: https://takegreensteps.com/sustainability-reporting-3-topic-specific-gri-standards-effective-from-january-2021/ https://takegreensteps.com/sustainability-reporting-3-topic-specific-gri-standards-effective-from-january-2021/ 67 Esse movimento global reflete o interesse das grandes empresas em manifestar aos seus acionistas e clientes a sua “lição de casa” em defesa da sustentabilidade. Principalmente aquelas empresas de capital aberto sabem dos riscos de imagem e, consequentemente, de rentabilidade, que advêm, hoje em dia, da agenda relacionada com o meio ambiente. Nesse sentido, os relatórios de sustentabilidade se tornaram uma peça importante do marketing empresarial. O movimento é tão dominante que as bolsas de valores, inclusive, passaram a criar índices de valorização de ações, segmentados em função da sustentabilidade das empresas, medida a partir dos seus relatórios de sustentabilidade, invariavelmente apresentados segundo o Padrão GRI. O gráfico mostra a tendência de um desses índices da Bovespa. Gráfico 8 – Bovespa: tendência dos índices Fonte: Borges (2019) Inserida no planejamento do marketing empresarial – marketing verde – a sustentabilidade passou a ser conferida pelos analistas que operam no mercado, pois, afinal, as empresas têm competidores e temem riscos de dano à sua imagem. Nesse contexto, surgiu a preocupação com o greenwashing, denominação global utilizada para apontar o embuste ligado ao falseamento das ações sustentáveis relatadas por empresas e instituições. 68 Figura 26 – Greenwashing Fonte: https://www.lacreperiekeywest.com/blog/greenwashing No agronegócio, as empresas multinacionais ligadas ao setor de máquinas e insumos, grandes traders e processadoras de alimentos já trabalham dentro dos conceitos da sustentabilidade, apresentando os seus devidos relatórios. Muitas outras, porém, notadamente no ramo de implementos agrícolas, por serem empresas familiares, de capital fechado, continuam relativamente fora desse processo. Mesmo as poderosas cooperativas ainda pouco se integraram no movimento global da sustentabilidade, reportada e conferida. Nos setores de produção rural, nos ramos agrícolas ou pecuário, apenas agora se inicia essa preocupação em reportar as ações de sustentabilidade implementadas nas empresas. Um relatório Padrão GRI não se aplica, obviamente, a esses setores básicos das cadeias produtivas. Certamente, deverá ocorrer uma evolução, surgindo metodologias que contemplem tal deficiência nos reports da sustentabilidade no agronegócio realizado “dentro da porteira”. Entretanto, não restam dúvidas: a imagem do agronegócio brasileiro tem sido bastante afetada em função da agenda da sustentabilidade. Atribui-se ao agro certo relaxo pela defesa da biodiversidade e das florestas, pela qualidade dos alimentos que produz ou, ainda, pelo desprezo com a proteção aos índios. Essas críticas, certas ou erradas, reduzem a competitividade do agronegócio nacional, pois os concorrentes internacionais delas se aproveitam. https://www.lacreperiekeywest.com/blog/greenwashing 69 Certificação de produtos agropecuários Especialmente depois da Conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro, a Rio 92, o mercado global de alimentos começou a fortalecer a ideia de “garantir a qualidade socioambiental” dos produtos comercializados. Vários eventos relacionados à contaminação de alimentos, como pela bactéria Salmonela em ovos, ou a doença da “vaca louca” em bovinos, acenderam luz amarela sobre os perigos de saúde pública oriundos das cadeias produtivas da agropecuária. Rastreabilidade entrou na agenda do mercado de alimentos. Alguns países da Europa iniciam, nos anos 1990, a definição de padrões de rotulagem que acompanham a produção desde a roça até a gôndola do supermercado, incorporando metodologias de avaliação do ciclo de vida do produto. A garantia de qualidade, boas práticas agrícolas e produção ambientalmente responsável passam a compor protocolos para orientar a comercialização de alimentos. Esse movimento é puxado pelos consumidores, que se tornam mais exigentes com relação à origem dos produtos que levam para a sua mesa. Na virada do século, a certificação socioambiental se torna uma prática, não apenas para alimentos, mas também para vários produtos industrializados (PESSOA; SILVA; CAMARGO, 2002). No Brasil, a certificação é definida pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como um conjunto de atividades desenvolvidas por um organismo independente da relação comercial, com o objetivo de atestar publicamente, por escrito, que determinado produto, processo ou serviço está em conformidade com os requisitos especificados. Estes requisitos podem ser: nacionais, estrangeiros ou internacionais. As atividades de certificação podem envolver: análise de documentação, auditorias/inspeções na empresa, coleta e ensaios de produtos, no mercado e/ou na fábrica, com o objetivo de avaliar a conformidade e sua manutenção. As empresas certificadoras precisam ser acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), uma autarquia federal, criada pela Lei nº 5.966, de 11 de dezembro de 1973, vinculada ao Ministério da Economia, como órgão normativo do Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Sinmetro). As certificadoras de alimentos que atuam no agronegócio cumprem as normas e os critérios estabelecidos na ABNT NBR ISO/IEC 17065, que regula os Organismos de Certificação de Produto (OCP), definidos com aqueles que “conduzem e concedem a certificação de conformidade de produtos, nas áreas voluntária e compulsória, com base em normas nacionais, regionais e internacionais ou regulamentos técnicos”. 70 Figura 27 – Algumas marcas de certificadoras que operam no mercado nacional de alimentos Fonte: http://www.usp.br/pecuariaorganica/?page_id=30 Todo processo de certificação, seja na agropecuária seja fora dela, exige auditoria, que é uma avaliação in locu, realizada de forma sistemática, por profissional independente, capaz de verificar se aquela produção se processa em conformidade com as exigências planejadas, chamadas de protocolo. A auditoria independente confere a documentação técnica exigida e a eficácia de implantação do ciclo produtivo, dentro das normas estabelecidas. Os principais protocolos aplicados para produtos da agropecuária são: a) Forest Stewardship Council (FSC) – O setor florestal foi, no mundo, pioneiro na criação do selo FSC, regulando toda a cadeia produtiva dependente de madeira e celulose, que inclui móveis, papel e os seus derivados (livros, cadernos, embalagens de papelão, etc.), carvão vegetal e madeira para a construção civil, entre outros. A certificação FSC obriga a cadeia produtiva de florestas plantadas a seguir um padrão de qualidade e responsabilidade socioambiental que ela própria decidiu implementar. http://www.usp.br/pecuariaorganica/?page_id=30 71 b) Global Good Agricultural Practice (GlobalGAP) – O principal selo de qualidade para o mercado europeu surgiu em 2001, com a denominação inicial de Eurep-GAP. Os seus formuladores foram representantes de varejistas europeus, com objetivo de assegurar requisitos mínimos de produção para frutas frescas e vegetais para os agricultores europeus. Uma das maiores preocupações era o manejo correto de pragas. O protocolo também adota, desde o seu surgimento, regras da Hazard Analysis and Critical Control Points (HACCP) ou, no Brasil, Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), estabelecendo diretrizes que vão desde o armazenamento de registros, utilização de sementes, fertilizantes,irrigação, colheita e pós-colheita, manejo de lixo e poluição, reciclagem e reúso, saúde dos trabalhadores, segurança e bem-estar humano. O selo GlobalGAP é importantíssimo no comercio internacional de produtos hortifrutícolas. No Brasil, centenas de produtores o utilizam como uma “chave” para a entrada no mercado europeu, sendo essa a sua maior vantagem competitiva. Dificilmente, os importadores de países da Europa compram gêneros agrícolas in natura sem a exigência do GlobalGAP. c) Orgânicos – O selo de produtos orgânicos é um dos mais utilizados no mundo, sendo uma certificação obrigatória para o comércio global. As normas brasileiras seguem padrões internacionais, sendo conferidas pelo Mapa, que fiscaliza as empresas cadastradas oficialmente para aplicar o selo Orgânico Brasil. Produtos orgânicos importados pelo Brasil também exigem inspeção e certificação para o atendimento das normas brasileiras. Figura 28 – Logomarca do selo Orgânico no Brasil Funcionam no Brasil dois mecanismos profissionais de certificação: a Certificação por Auditoria, que exige empresa independente; e o Sistema Participativo de Garantia (SPG), por meio de um Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac), baseado na responsabilidade coletiva de uma cooperativa de produtores orgânicos. Existem (2020), 11 empresas independentes e 25 SPGs cadastrados no Mapa. 72 Uma terceira forma de certificação pode ser realizada por uma Organização de Controle Social (OCS), permitindo uma espécie de “autocertificação” bastante controversa. A certificação por OCS é permitida quando os produtores orgânicos atendem apenas aos mercados locais, com vendas diretas aos consumidores nas feirinhas-livres. Pode, também, ofertar os produtos nas compras públicas, destinadas, por exemplo, para merenda escolar nos municípios, ou nos programas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). d) Bonsucro – Essa é a certificação própria, globalmente exigida, definida pela cadeia produtiva da cana-de-açúcar, visando regular a qualidade técnica e socioambiental da produção de açúcar e etanol. Relativamente recente, o Protocolo Bonsucro passou a ser utilizado no comércio internacional a partir de 2018. e) Rain Forest Alliance (RFA) – Bastante reconhecido e utilizado no mundo todo, o selo da RFA tem um foco bastante direcionado para avaliação da qualidade ambiental de produtos agrícolas. No Brasil, o RFA é um protocolo bastante utilizado por cafeicultores que visam agregar valor ao café vendido no exterior, em mercados exigentes. Em frutas, para mercados como Inglaterra e Alemanha, também é frequentemente exigido. f) Round Table on Responsible Soy (RTRS) – O selo RTRS surgiu no Brasil em 2006, a partir das denúncias, que afetaram o mercado internacional, sobre a origem da soja nacional plantada em áreas de desmatamento na Amazônia. Os seus proponentes foram os próprios envolvidos na cadeia produtiva, liderados pela Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), com apoio dos grandes traders (Cargill, ADM e Bunge, entre outras) e a participação de ONGs ambientalistas, como a WWF e o Greenpeace. g) Better Cotton Initiative (BCI) – A BCI é uma organização surgida em 2005, sediada em Genebra, Suíça. A sua atuação envolve a cadeia produtiva do algodão, regulando a qualidade da fibra no mercado global. Todos os cotonicultores nacionais recebem as auditorias da BCI. Esses são os principais protocolos utilizados no comércio global de alimentos e matérias- primas, com reflexos importantes no agronegócio do Brasil. Existem, ainda, várias outras certificações dentro desse objetivo de assegurar a qualidade e garantir a origem de produtos da agropecuária. A certificação GMO Free, por exemplo, garante a produção livre de transgênicos, sendo bastante utilizada no mercado de milho e soja. Há, também, protocolos que certificam a origem de produtos, podendo ser uma região geográfica (Café do Cerrado), ou uma origem determinada (Carne Angus). Muitas empresas adotam também protocolos específicos, que estabelecem normas da produção oriunda dos seus clientes, como é o caso da Nestlé (leite) ou da PepsiCo (batata). 73 Figura 29 – Exemplo de certificação de origem geográfica Fonte: http://www.cafedocerrado.org/ Mais recentemente, a Embrapa lançou uma certificação chamada Carne Carbono Neutro (CCN). Conforme explica a Embrapa, a CCN é uma marca-conceito, parametrizável e auditável, que visa atestar a carne bovina produzida em sistemas de integração do tipo silvipastoril (pecuária- floresta) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta), por meio de uso de protocolos específicos que possibilitam o processo de certificação. Gestão agroambiental: protocolo Gate Um protocolo de gestão agroambiental, conhecido como Protocolo Gate, foi desenvolvido pela certificadora OIA Brasil, contendo princípios básicos de boas práticas agrícolas e BEA. Esse protocolo serve para caracterizar e certificar uma propriedade rural que segue todos os requisitos da sustentabilidade no agronegócio. http://www.cafedocerrado.org/ 74 O padrão de sustentabilidade agropecuária exige, na unidade de produção, seja do ramo vegetal, seja do ramo animal, os seguintes parâmetros: 1. Relativos à gestão da propriedade rural a) regularização fundiária com registros cartoriais e georreferenciamento em ordem com o Incra; b) gestão econômica e financeira que assegure o equilíbrio da unidade de produção; c) gestão colaborativa e participativa em cooperativas, associações ou grupos de produtores; d) avaliação interna anual para identificação de oportunidades de melhoria de gestão, produtividade e eficiência econômica; e) garantia jurídica – outorgas de água, licenças ambientais, origem qualificada de sementes e mudas, insumos, material genético e organismos geneticamente modificados (OGMs); f) boas práticas na manipulação e aplicação de defensivos agrícolas e fertilizantes, incluindo registro oficial para uso de produtos, respeito ao período de carência e de reentrada nas áreas tratadas, uso correto de EPI e outros; g) boa organização funcional e estética da fazenda, com ecologia da paisagem valorizada; h) maquinário agrícola com boa manutenção, equipamentos calibrados, funcionamento de motores em condições normais; i) depósitos de defensivos e medicamentos agropecuários dentro de requisitos legais; j) registros de input no sistema de produção capaz de subsidiar a contabilidade da pegada de carbono no processo de produção; k) existência de plano de ação contra incêndios rurais e l) adoção das melhores técnicas de combate de pragas e doenças, condução de lavouras e rotação de pastagens, mantendo controle de operações de campo. 2. Relativos à conservação ambiental a) Código Florestal – registro e regularidade junto ao CAR; b) recursos hídricos – manutenção das APPs de corpos d’água e nascentes; c) proteção e valorização da fauna silvestre, com corredores ecológicos; d) gestão adequada de resíduos sólidos, esgotos domésticos, dejetos animais e águas residuais; e) educação ambiental direcionada para colaboradores e fornecedores da fazenda; f) oficinas mecânicas com medidas de controle de poluição difusa causada pelo escorrimento de óleos e graxas; g) plano de eficiência energética para o máximo aproveitamento da energia utilizada, com projeto de substituição de energia fóssil por energias renováveis; h) manutenção correta de estradas internas, com captação de águas de chuva e controle de enxurradas; i) manutenção de espécies arbóreas protegidas por lei ou com valor para a biodiversidade local e j) pulverização da aérea, quando realizada, adotando boas práticas, monitorando e evitando deriva de calda. 75 3. Relativos à assistência social a) plano de ação para engrandecimento e desenvolvimento de colaboradores, garantindo a função social da propriedade rural; b) mão de obra regularizada, com equidadeentre salários e funções, sem discriminação de sexo, idade e outras distinções; c) liberdade de associação dos colaboradores à organizações de classe; d) crianças com acesso garantido ao sistema fundamental e básico de ensino; e) moradias na fazenda em bom estado, capazes de assegurar condições básicas de bem-estar aos trabalhadores e f) segurança do trabalhador com avaliação de potenciais riscos e perigos, prevenção de acidentes e medidas mitigadoras. 4. Relativos à segurança do alimento a) alimento saudável, evitando contaminação biológica e resíduos de pesticidas e outras substâncias nos produtos dirigidos ao mercado e ao consumo próprio; b) adoção de sistemática de análises laboratoriais para garantia do alimento isento de contaminações, quando aplicável; c) boas práticas no armazenamento de produtos agropecuários em silos e armazéns e d) manutenção de registros de produção e comercialização que permitam a rastreabilidade do produto. No caso de unidades de produção com produção bovina, podem ser acrescidas as seguintes exigências: 1. Manejo do rebanho a) plano sanitário e nutricional do rebanho que garanta boas condições de sanidade e nutrição para o desenvolvimento dos animais; b) manutenção de bebedouros e aguadas de forma que assegurem água de qualidade adequada ao rebanho; c) castração, quando houver, com minimização de sofrimento; d) controle da reprodução animal que assegure o desenvolvimento genético do plantel; e) boas práticas com local adequado para descarte de carcaças de animais; f) movimentação e transporte de gado seguindo normas de BEA; g) estruturas da produção animal, especialmente currais, moldados para minimizar estresse animal; h) identificação e rastreabilidade dos animais, com registros de manejo regulamentares, e 76 i) adoção de medidas que visem garantir conforto térmico aos animais em pastagens e confinamentos, mantendo neste lotações que assegurem a expressão do comportamento natural dos animais, garantindo liberdade de movimento. 2. Manejo de pastagens a) plano de revigoramento de pastagens, com programa de recuperação de áreas degradadas, se houver, buscando a intensificação tecnológica do sistema de produção; b) divisão de pastos apropriada para maximizar aproveitamento das gramíneas e forrageiras, com adoção de práticas de manejo rotacionado de pastagens e controles de movimentação do rebanho, e c) programa de controle de ervas invasoras nas pastagens por meio do manejo pecuário, minimizando a utilização de herbicidas químicos. Mensagem final: a sustentabilidade no agronegócio não é apenas um imperativo da economia e da sociedade contemporâneas, mas também uma oportunidade de colocar o Brasil e as suas empresas do agronegócio na liderança mundial da agricultura de baixo carbono, pois as vantagens comparativas são destacadas, conforme mostram os resultados da produção tecnológica praticada no País, que configuram um verdadeiro modelo tropical de agropecuária. A boa gestão exige otimismo, crença nos resultados, fé no amanhã. Conforme escreveu Ridley (2014. p. 19), combatendo os pessimistas e os incrédulos: “O progresso humano tem sido, em geral, uma coisa boa e, apesar da tentação crescente das lamúrias, o mundo é um lugar bom de ser viver”. 77 BIBLIOGRAFIA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ENTIDADES DOS MERCADOS FINANCEIRO E DE CAPITAIS (Anbima). Guia sobre CBIO auxilia mercado na emissão e negociação do ativo ambiental. 2 set. 2020. Disponível em: https://www.anbima.com.br/pt_br/noticias/guia-sobre-cbio-auxilia- mercado-na-emissao-e-negociacao-do-ativo-ambiental.htm. Acesso em: 26 fev. 2021. BORGES, Caco. Como criar um relatório GRI de sustentabilidade: o checklist definitivo. O Guia da Empresa Sustentável, 26 fev. 2019. Disponível em: https://oguiadaempresasustentavel.com.br/gri. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA). Sumário executivo: documento-base para subsidiar os diálogos estruturados sobre a elaboração de uma estratégia de implementação e financiamento da contribuição nacionalmente determinada do Brasil ao Acordo de Paris. [S. l.: s. n.], 2017. Disponível em: https://antigo.mma.gov.br/images/arquivo/80051/NDC/sumario_executivo_2017.pdf. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Sistema Nacional de Informações Tóxico- Farmacológicas (Sinitox). [S. l.]: Fiocruz, 2017. Disponível em: https://sinitox.icict.fiocruz.br. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Grupo de Inteligência Territorial Estratégica. Atribuição das terras no Brasil. [S. l.]: Embrapa, 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/gite/projetos/atribuicao/index.html. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para). Relatório das amostras analisadas no período de 2017-2018: primeiro ciclo do plano plurianual 2017-2020. Brasília: Anvisa, 10 dez. 2019a. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/agrotoxicos/programa-de-analise-de-residuos-em- alimentos/arquivos/3770json-file-1. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Câmara dos Deputados. Câmara aprova projeto que prevê pagamento por serviços ambientais. Meio Ambiente e Energia, 4 set. 2019b. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/579925-camara-aprova-projeto-que-preve-pagamento-por- servicos-ambientais/#:~:text=O%20Plen%C3%A1rio%20da%20C%C3%A2mara%20dos,a%20 conservar%20%C3%A1reas%20de%20preserva%C3%A7%C3%A3o. 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Ministério do Meio Ambiente (MMA). Percentual dos biomas brasileiros protegidos por unidade de conservação. [S. l.]: MMA, 2019c. Disponível em: https://www.mma.gov.br/ images/arquivos/A0_Brasil_600_DPI_02_2019.pdf. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Percentual obrigatório de biodiesel no óleo diesel sobe para 12%. Notícias, 3 mar. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/energia-minerais-e-combustiveis/2020/03/ percentual-obrigatorio-de-biodiesel-no-oleo-diesel-sobe-para-12. Acesso em: 26 fev. 2021. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Boas práticas e bem-estar animal. [S. l.]: Mapa, s. d. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/producao- animal/boas-praticas-e-bem-estar-animal. Acesso em: 26 fev. 2021. CALIXTO, Bruno; CISCATI, Rafael. Como a economia circular pode transformar lixo em ouro. Época, 5 jun. 2016. Disponível em: https://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do- planeta/noticia/2016/06/como-economia-circular-pode-transformar-lixo-em-ouro.html. Acesso em: 26 fev. 2021. DANGOUR, Alan D. et al. Nutritional quality of organic foods: a systematic review. American Journal ofecológica”, com a escassez de recursos naturais provocada pela demanda da civilização. O crescimento ininterrupto da população exige a expansão das atividades produtivas, no campo e nas cidades. Nas grandes metrópoles, a água passa a ser poluída pelos esgotos domésticos e resíduos industriais, a atmosfera acumula fumaça tóxica lançada pelas chaminés das fábricas e escapamentos de veículos, movidos à motores de combustão. Nas regiões agrícolas, a biodiversidade sofre com desmatamentos, sinalizando extinção de espécies, e as lavouras padecem com pragas, que demandam pesticidas. Os agricultores expandem a sua produção para abastecer as cidades. Mais gente, mais cidades, mais indústrias: a equação do progresso contínuo se transforma em sinônimo de problemas ambientais. O perigo ecológico não afeta, propriamente, o planeta Terra, mas, sim, compromete a civilização, ou seja, os seres humanos dentro do planeta, exigindo mudança de rumos. Quanto à tecnologia, é fácil perceber a sua influência na questão ambiental a partir, por exemplo, da utilização dos motores a combustão interna. Desde sua invenção, no final do século XIX, os combustíveis líquidos – gasolina, querosene e óleo diesel – entram na agenda do desenvolvimento. Nas fábricas, o processo mecanizado de produção gera resíduos, químicos e sólidos, além de gases poluidores. Na agricultura, pesticidas sintéticos, utilizados a partir de 1945, causam contaminação ao meio ambiente e toxicidade aos seres humanos. Em resumo: maravilhosos processos tecnológicos substituem técnicas manuais, empurrando a civilização para a frente; deixam, todavia, um rastro de poluição antes desconhecido, que precisará ser enfrentado. Contraditoriamente, com o passar do tempo, percebe-se que o avanço tecnológico é, ao mesmo tempo, causador e solucionador de problemas ambientais. Por exemplo, nos filtros de chaminés industriais ou de escapamentos veiculares, a tecnologia age para “limpar” a atmosfera. Basta lembrar que a poluição atmosférica de São Paulo, como a de outras capitais, era muito maior há 50 anos que agora. Ou seja, a tecnologia dos motores causou um efeito poluidor, mitigado posteriormente com o avanço do controle ambiental, como a instalação de filtros. 9 Vários eventos grandiosos, e terríveis, caracterizam o momento histórico em que a civilização desperta para a problemática ecológica. Três deles podem ser aqui destacados: a) O lançamento do livro Primavera Silenciosa, de autoria de Raquel Carson, publicado originalmente nos Estados Unidos da América (EUA) em 1962. Ao relatar o fenômeno da contaminação química nas cadeias alimentares – também chamadas cadeias alimentares, ou ainda cadeias trópicas – pelos resíduos do pesticida Dicloro-Difenil- Tricloroetano (DDT), a bióloga-escritora chamou a atenção da opinião pública mundial para a proteção dos ecossistemas naturais. b) A poluição do Mar Báltico, causada por descargas de óleos e combustíveis de navios, colocando a população europeia na defesa dos oceanos. Populações de aves e animais marinhos sucumbiam à destruição dos seus habitats, levando as nove nações envolvidas – Dinamarca, Estônia, Finlândia, Alemanha, Letônia, Lituânia, Polônia, Suécia e Rússia – a firmarem acordos ambientais nos anos de 1950 e 1960. c) O Mal de Minamata, doença neurológica relatada, desde 1956, no Japão, causando mortes e deformações em seres humanos. Depois de uma década de pesquisas, descobriu-se que a fonte do grave problema de saúde vinha da contaminação do fitoplâncton por mercúrio, metal presente nos dejetos industriais lançados por décadas na Baía de Minamata, no Sul do Japão. Morreram cerca de 700 pessoas intoxicadas, causando comoção mundial. Figura 1 – Mal de Minamata: contaminação por mercúrio e comoção na opinião pública Fonte: https://www.megacurioso.com.br/misterios/116738-incidente-de-minamata-o-envenenamento-que-deformou-as- pessoas.htm Esses e outros eventos, como derramamento de petróleo nos mares, poluição atmosférica e chuva ácida nas capitais europeias, levaram à conscientização sobre a necessidade da preservação ambiental. Lideranças locais e mundiais se movimentaram para defender os recursos naturais do planeta. Surgia então a “questão ecológica” da humanidade. https://www.megacurioso.com.br/misterios/116738-incidente-de-minamata-o-envenenamento-que-deformou-as-pessoas.htm https://www.megacurioso.com.br/misterios/116738-incidente-de-minamata-o-envenenamento-que-deformou-as-pessoas.htm 10 Em 1968, o Clube de Roma se reúne, pioneiramente, para debater o assunto. Após anos de estudos, contando com o apoio de cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), apresenta o relatório intitulado Limites do Crescimento (1972). Medidas drásticas teriam de ser tomadas, incluindo controle populacional e freio ao crescimento econômico, para se evitar um colapso civilizatório, previsto para um horizonte dali a 50 anos. Gráfico 1 – Limites do Crescimento: colapso da civilização previsto pelo Clube de Roma Fonte: https://www.ecodebate.com.br/2013/06/12/os-limites-do-crescimento-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ Os países ricos, influenciados pelo Clube de Roma, passaram a debater a proposta do “crescimento zero”, como forma de reduzir a demanda por recursos naturais, incluindo petróleo, minerais, biodiversidade, água e ar. Controlar o crescimento populacional e reduzir o crescimento econômico foram as soluções imaginadas para reduzir a pressão sobre os recursos naturais. Seria impossível, argumentava-se, expandir o padrão de vida norte-americano ou europeu para todo o mundo. O petróleo, supunha-se, por exemplo, teria as suas reservas comprometidas já na virada do século XX.1 1 Além do próprio relatório Limites do Crescimento, que traça o cenário do “colapso”, Paul Ehrlich se destacava nos anos 1970 como um dos mais influentes estudiosos sobre o dilema civilizatório. No seu mais notório livro, População, Recursos, Ambiente, de 1974, escreveu: “O nosso ambiente vital provavelmente não suportará a ‘industrialização do mundo’, principalmente por causa da simplificação e do desequilíbrio dos ecossistemas” (EHRLICH, 1974, p. 86). https://www.ecodebate.com.br/2013/06/12/os-limites-do-crescimento-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 11 A discussão sobre o futuro da humanidade se avolumou, envolvendo estudiosos, formadores de opinião e, naturalmente, líderes políticos. A discussão ecológica entrou na agenda da sociedade global, coordenada pelas nações ricas da Europa. Afinal, elas já estavam com as suas populações estabilizadas e com elevado padrão de vida, podendo pensar na hipótese do crescimento zero das suas economias. A situação, porém, era muito distinta nos países então considerados subdesenvolvidos, como o Brasil. Conferências e convenções da ONU A ONU decide participar do debate entre as relações entre homem e meio ambiente e organiza a sua Primeira Conferência das Nações Unidas, realizada em Estocolmo, Suécia. Iniciada em 5 de junho de 1972, essa data se consagra como o “Dia Mundial do Meio Ambiente”. A Primeira Conferência da ONU foi marcada pela disputa de posições entre as nações ricas e os países pobres, ou entre o Norte desenvolvido e o Sul subdesenvolvido – ou, como foram depois considerados, “em desenvolvimento”. Ocorreu que, ao levantar a discussão sobre como enfrentar os crescentes problemas ambientais, seguindo as sugestões advindas do Clube de Roma, os líderes europeus, principalmente, sugeriram aos demais países que reduzissem o seu crescimento econômico para aliviar a pressão sobre recursos naturais. A reação dos países caracterizados como o Terceiro Mundo foi enorme. O drama do elevado crescimento populacional que os afligia exigia a oferta de empregos, e esta somente poderia ser conseguida por meio da rápida e forte industrialização das suas economias. Nesse sentido, e assim discursou o representante brasileiro emClinical Nutrition, v. 90, n. 3, p. 680-685. ago. 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/26703735_Nutritional_quality_of_organic_foods_A_s ystemic_review. Acesso em: 26 fev. 2021. DENARDIN, J. E. et al. Diretrizes do sistema plantio direto no contexto da agricultura conservacionista. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2012. 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Agro Link, 8 nov. 2018. Disponível em: https://www.agrolink.com.br/colunistas/coluna/2000-2018--- evolucao-da-producao-e-venda-de-etanol-no-brasil_412862.html. Acesso em: 26 fev. 2021. FUNDAÇÃO AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL (FAS). Programa bolsa floresta: pagamento por serviços ambientais. Manaus, AM: FAS, s. d. Disponível em: https://fas-amazonas.org/componente/programa- bolsa-floresta. Acesso em: 26 fev. 2021. GRAZIANO, X. et al. Agricultura, fatos e mitos. São Paulo: Baraúna, 2020. GUIDA, Elisa da Costa. Evolução, desafios e tendências dos créditos de carbono da geração elétrica a partir de fontes renováveis. 2018. 145 f. Dissertação (Mestrado em Planejamento de Sistemas Energéticos) – Faculdade de Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/332630/1/ Guida_ElisaDaCosta_M.pdf. Acesso em: 26 fev. 2021. KEITH, Thomas. O homem e o mundo natural. São Paulo: Cia. das Letras, 1988. MAZZOTTO, Camila. 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O otimista racional: porque o mundo melhora. Rio de Janeiro: Record, 2014. THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. UNIÃO BRASILEIRA DE AVICULTURA (UBA). Protocolo de bem-estar para frangos e perus. São Paulo: UBA, 2008. Disponível em: https://www.avisite.com.br/legislacao/anexos/ protocolo_de_bem_estar_para_frangos_e_perus.pdf. Acesso em: 26 fev. 2021. VIEIRA, Marcelo. A menina que calou o mundo por cinco minutos. YouTube, 8 mar. 2012. 1 vídeo (6 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=es2OuHWsFeI. Acesso em: 26 fev. 2021. VIRI, Natalia. O que você precisa saber para começar a entender o mercado de carbono. Capital Reset, 4 dez. 2020. Disponível em: https://www.capitalreset.com/o-que-voce-precisa-saber-para- comecar-a-entender-o-mercado-de-carbono. Acesso em: 26 fev. 2021. WORLD SMALL ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION (Wsava). Diretrizes para o bem-estar animal da Wsava. [S. l.]: Wsava, 2018. Disponível em: https://wsava.org/wp- content/uploads/2020/01/WSAVA-Animal-Welfare-Guidelines-2018-PORTUGUESE.pdf. Acesso em: 26 fev. 2021. https://www.avisite.com.br/legislacao/anexos/%0bprotocolo_de_bem_estar_para_frangos_e_perus.pdf https://www.avisite.com.br/legislacao/anexos/%0bprotocolo_de_bem_estar_para_frangos_e_perus.pdf https://www.youtube.com/watch?v=es2OuHWsFeI https://www.capitalreset.com/o-que-voce-precisa-saber-para-comecar-a-entender-o-mercado-de-carbono https://www.capitalreset.com/o-que-voce-precisa-saber-para-comecar-a-entender-o-mercado-de-carbono https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/01/WSAVA-Animal-Welfare-Guidelines-2018-PORTUGUESE.pdf https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/01/WSAVA-Animal-Welfare-Guidelines-2018-PORTUGUESE.pdf81 BIBLIOGRAFIA COMENTADA DIAS, Reinaldo. Gestão ambiental: responsabilidade social e sustentabilidade. São Paulo: Atlas, 2011. A visão do professor e do estudioso, do consultor que acompanha a administração empresarial sem tirar os olhos do movimento da sociedade, nem se esquecer do Estado regulador. Um livro básico da sustentabilidade empresarial. EHRLICH, Paul R. População, recursos, ambiente. São Paulo: Edusp/Polígono, 1974. Trata-se de um dos mais importantes livros da época em que a civilização começava a discutir o seu futuro sustentável. O foco é a limitação da exploração dos recursos naturais do planeta Terra, visto como restrição para a industrialização maciça da humanidade. GRAZIANO, X. et al. Agricultura, fatos e mitos. São Paulo: Baraúna, 2020. Recém-lançado, em coautoria com dois engenheiros-agrônomos e pesquisadores da Embrapa, o livro traça o cenário de fundo para a evolução da agropecuária brasileira, mostrando os fatos tecnológicos mais relevantes para combater os mitos mais notórios. RIDLEY, Matt. O otimista racional: porque o mundo melhora. Rio de Janeiro: Record, 2014. Opondo-se aos ambientalistas catastróficos, Matt Ridley mostra como o mundo progride pela força da tecnologia, pela ação humana consciente, melhorando incessantemente a qualidade de vida. A cada tempo, dilemas são superados, e avança a civilização. THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Um dos mais completos livros sobre a relação homem-natureza antes da Era Moderna. Com sólida formação filosófica, Keih Thomas fornece detalhes históricos riquíssimos, de acontecimentos históricos da Inglaterra, ocorridos entre o século XVI e o século XVIII, envolvendo a sociedade e os elementos da natureza em geral. PROFESSOR-AUTOR Francisco Graziano Neto formou-se engenheiro-agrônomo pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) em 1974, mestre em Economia Agrária pela USP em 1977 e doutor em Administração pela FGV EAESP em 1989. Publicou 11 livros sobre questão agrária e meio ambiente, política e democracia. Consultor em sustentabilidade no agronegócio, é sócio-diretor da OIA Brasil, empresa de certificação socioambiental. https://www.instagram.com/fgv.educacaoexecutiva/ https://www.linkedin.com/school/fgv-educacaoexecutiva/ https://www.instagram.com/fgv.educacaoexecutiva/ https://www.linkedin.com/school/fgv-educacaoexecutiva/ INTRODUÇÃO SUMÁRIO MÓDULO I – DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE História do ambientalismo e da sustentabilidade Conferências e convenções da ONU Acordo do Clima de Paris (2015) Mercado de créditos e precificação de carbono MÓDULO II – CONCEITOS E NORMAS FUNDAMENTAIS DA SUSTENTABILIDADE Preservação e conservação ambiental: uso sustentável dos recursos naturais Novo Código Florestal Sistema Nacional de Unidades de Conservação Consumismo: política de resíduos sólidos e economia circular Pagamento por serviços ambientais MÓDULO III – AGRICULTURA SUSTENTÁVEL NO BRASIL Agroenergia, energias renováveis e sequestro de carbono Boas práticas agrícolas: conservação de solo e recursos hídricos Boas práticas agrícolas: manejo integrado de pragas Bem-estar animal Agricultura orgânica e biológica MÓDULO IV – GESTÃO DA SUSTENTABILIDADE NO AGRONEGÓCIO Responsabilidade socioambiental e competição empresarial Indicadores e relatórios de sustentabilidade Certificação de produtos agropecuários Gestão agroambiental: protocolo Gate Bibliografia Bibliografia comentada Professor-autorEstocolmo, Costa Cavalcante, ministro do Interior, a poluição industrial seria um “mal necessário” na agenda do desenvolvimento. A Declaração de Estocolmo, documento oficial da Primeira Conferência da ONU, reflete bem essa disputa ao aprovar entre os seus princípios – principalmente os princípios 9 a 11 – o apoio financeiro e tecnológico ao desenvolvimento dos países periféricos, incluindo preços remuneradores para commodities e matérias-primas exportadas. Ao final do ano de 1972, a Assembleia Geral da ONU aprovou a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O conflito entre crescimento econômico e preservação ambiental domina os debates daquele período histórico. Em 1983, surge na ONU a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que passaria a ser conhecida como Comissão Brundtland, devido à destacada atuação da sua coordenadora, Gro Harlem Brundtland, então Primeira-Ministra da Noruega. Divulgado em 1987, o relatório da Comissão Brundtland intitulado Nosso Futuro Comum estabeleceu, finalmente, os marcos conceituais do desenvolvimento sustentável, vinculando o crescimento da economia com o respeito da ecologia. Resolvia-se, assim, teoricamente, pelo menos, qual tipo de crescimento econômico era possível: somente aquele que, cuidadosamente, não comprometesse o futuro. Nasceu assim a política ambiental em, na sequência, o licenciamento ambiental, pretendendo regular, para evitar, a continuidade da economia predatória. 12 Segundo o expresso no Relatório Brundtland, sustentável é o “desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”. Figura 2 – Relatório Brundtland: conceito de “desenvolvimento sustentável” Fonte: http://klebercaverna.blogspot.com/2018/03/desenvolvimento-sustentavel-vocesabe-o.html Ser sustentável significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais. O conceito do desenvolvimento sustentável se popularizou a partir da Segunda Conferência da ONU sobre homem e meio ambiente, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Conhecida como Rio 92, a conferência contou com a participação dos grandes líderes mundiais, sendo reconhecida pelo seu sucesso na formulação dos marcos da “sustentabilidade”. Na Rio 92, foram sacramentados e definidos os planos de trabalho de três convenções globais: a) Convenção sobre Mudanças de Clima – Tem como objetivo a estabilização da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera em níveis tais que evitem a interferência perigosa com o sistema climático. Desta convenção se definiu, em 1997, o Protocolo de Kyoto (Japão), firmado entre 57 países, que deu origem ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), por meio do qual se geram créditos de carbono em projetos de redução voluntária de emissões de GEE. http://klebercaverna.blogspot.com/2018/03/desenvolvimento-sustentavel-vocesabe-o.html https://pt.wikipedia.org/wiki/Concentra%C3%A7%C3%A3o_(qu%C3%ADmica) https://pt.wikipedia.org/wiki/Gases_do_efeito_estufa https://pt.wikipedia.org/wiki/Atmosfera https://pt.wikipedia.org/wiki/Clima 13 b) Convenção sobre a Diversidade Biológica (biodiversidade) – Objetiva a conservação da biodiversidade, o uso sustentável dos seus componentes e a divisão equitativa e justa dos benefícios gerados com a utilização de recursos genéticos.2 c) Convenção sobre Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca – Busca a elaboração de programas nacionais de combate à desertificação de territórios produtivos, um grave problema na África e no Oriente Médio. No Brasil, a região do semiárido – bioma caatinga –, que abrange cerca de 11% do território nacional, também enfrenta a dificuldade da seca e do perigo da desertificação. Figura 3 – Conferência da ONU Rio 92 Fonte: http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/05/considerada-fracasso-na-epoca-rio-92-foi-sucesso-para- especialistas.html A Agenda 21, por sua vez, centralizou o programa global visando definir os valores humanitários na entrada do novo milênio. Expresso em um longo e denso documento, com 40 capítulos, o seu foco residia nas ações descentralizadas, em processo participativo, sob responsabilidade das lideranças e dos cidadãos em variadas regiões, estados e municípios. Da Agenda 21 se retirou um slogan ambientalista conhecido: “Pensar globalmente, agir localmente”. A Segunda Conferência da ONU teve grande participação de organizações não governamentais (ONGs), que trouxeram à tona a preocupação social, relacionada com o desenvolvimento sustentável. Na cerimônia oficial, um discurso da menina canadense Severn Cullis-Suzuki incluiu na agenda a questão da miséria, referindo-se, especialmente, às crianças pobres das favelas do Rio de Janeiro. Esse discurso ficou conhecido como “A menina que calou o mundo por cinco minutos” (VIEIRA, 2012). 2 No Brasil, passaram-se 23 anos até ser aprovada a Lei nº 13.123, de 20 de maio de 2015. http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/05/considerada-fracasso-na-epoca-rio-92-foi-sucesso-para-especialistas.html http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/05/considerada-fracasso-na-epoca-rio-92-foi-sucesso-para-especialistas.html 14 Na Declaração do Rio de Janeiro, a ONU expressou os seus 27 princípios, reafirmando aqueles de há 20 anos, definidos em Estocolmo, mas avançando na definição de conceitos, destacando-se três deles: a) Princípio 10 (democratização) – “A melhor maneira de tratar as questões ambientais é assegurar a participação, no nível apropriado, de todos os cidadãos interessados [...] Os Estados irão facilitar e estimular a conscientização e a participação popular, colocando as informações à disposição de todos”. b) Princípio 15 (precaução) – “Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades”. c) Princípio 17 (impacto ambiental) – “A avaliação do impacto ambiental, como instrumento nacional, será efetuada para as atividades planejadas que possam vir a ter um impacto adverso significativo sobre o meio ambiente e estejam sujeitas à decisão de uma autoridade nacional competente”. A Terceira Conferência da ONU, também realizada no Rio de Janeiro, ficou conhecida como a Rio+20. Dominada pelo “esquerdismo verde”, com milhares de ONGs, o que a tornou muito politizada, a conferência teve pouca presença de chefes de Estado, resultando ter sido pouco produtiva. Cientistas e estudiosos do meio ambiente se decepcionaram com a Rio+20. Nem mesmo foi aprovada, pois sequer debatida, a proposta da ONU de melhorar a governança mundial sobre a “Economia Verde”, transformando o Pnuma em uma agência global. Por anos, os formuladores das ONU elaboraram esse novo conceito que aproximava a “economia” ao “verde”, ou seja, supunha uma sociedade próspera, que gerasse riquezas, de forma limpa e justa, mas o Fórum Social das ONGs, reunido na Rio+20, atacou a proposta da ONU, colocando-se contrário ao “esverdejamento” do capitalismo. Esvaziada e deturpada, a Rio+20 terminou de forma melancólica, sem nenhum progresso na agenda da sustentabilidade global. Todas as atenções se voltaram para a finalização das negociações sobre o clima. Acordo do Clima de Paris (2015) No contexto da Convenção da ONU sobre Mudanças de Clima, os países tentaram por várias vezes fazer um acordo geral que levasse à redução significativa de Gases de Efeito Estufa (GEE). O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, definido pelo Protocolo de Kyoto, promoveu um avanço ao estabelecer a compensação das emissões de GEE dos países ricos via créditos de carbono gerados, de forma voluntária, nos países emdesenvolvimento. 15 As grandes nações jamais viram com bons olhos a obrigatoriedade de reduções de emissões, pois isso significaria uma interferência na sua autonomia nacional. Esta, por sua vez, embasa decisões de política econômica que exigem, nos países democráticos, respaldo dos parlamentos. Enfim, o assunto é, politicamente, complexo. Embora a teoria do aquecimento global, adotada pela ONU, prevalecesse nas esferas científicas, os líderes políticos sempre tiveram muita cautela em tomar decisões nessa agenda. Até que, finalmente, no limite do prazo estabelecido pela convenção, chegou-se a um bom acordo na COP 21 – Conferência das Partes 21, da Convenção sobre Mudanças de Clima –, realizada em Paris, no final de 2015. Em vez de estabelecer metas obrigatórias de redução de GEE, a COP 21 inovou o tratamento da questão solicitando aos países que, eles próprios, definissem as suas “contribuições voluntárias”, visando impedir que o aquecimento global ultrapassasse 1,5 ºC até 2100, com um limite de 2,0 ºC. Essa passou a ser a meta, ou seja, houve uma inversão na lógica do raciocínio anterior: definido o aquecimento suportável do planeta Terra, a equação teórica do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – estabeleceria a quantidade, em toneladas de CO2 equivalente (eq), a serem reduzidas na atmosfera como necessárias para suportar aquela meta. Gráfico 2 – Temperatura média da Terra medida segundo quatro metodologias Fonte: https://www.bbc.com/news/science-environment-51111176 https://www.bbc.com/news/science-environment-51111176 16 Para que começasse a vigorar, a convenção definiu a necessidade da ratificação de pelo menos 55 países, responsáveis por 55% das emissões de GEE. O objetivo foi rapidamente conseguido. Os países foram apresentando as suas Non-financial Defined Contributions (NDCs) – Contribuições Nacionalmente Determinadas – até um momento em que a somatória de redução nas emissões de GEEs chegou ao volume suficiente para segurar o aquecimento do clima. Na sequência, todos os 195 países aderiram. Para assegurar o cumprimento das NDCs, a ONU estabeleceu um mecanismo de auditoria nos países. O Acordo de Paris começaria dali a cinco anos, em 2020. O maior estímulo às contribuições dos vários países foi a oferta, pela ONU, via países ricos, de um volume de US$ 100 bilhões, por ano, entre 2020 e 2025, para ajudar os países em desenvolvimento a impedir desmatamento e a converter os seus processos produtivos para reduzir as suas emissões de GEE. Essa ajuda financeira empurrou as nações todas ao estabelecimento do acordo. O Acordo de Paris foi contestado por Donald Trump, logo depois da sua eleição à presidência dos EUA, mas as grandes empresas norte-americanas seguem firme rumo à economia de baixo carbono, programando-se para a era das energias limpas. O incidente diplomático – pois, afinal, o Acordo do Clima foi assinado por Barack Obama – causou certo isolamento dos EUA. A eleição de Biden, sucedendo a Trump, recolocou os EUA na agenda global do clima. Sustentabilidade passou a compor a agenda da geopolítica global. Trump representou, na agenda global do clima, um ponto fora da curva, que inclusive reverberou no Brasil, com Bolsonaro, mas tais movimentos políticos perderam importância. (PITTA, 2021). O Brasil apresentou na COP 21 uma proposta de redução das suas emissões em 37% até 2025, elevando a sua contribuição para 43% até 2030. A base definida, sobre a qual se obteriam as reduções, foi o ano de 2005. A NDC brasileira (2014) considerou que a matriz energética nacional se compõe em 40% de energias limpas, sendo 75% de renováveis na oferta de energia elétrica. Esses valores representam cerca do triplo da média mundial, indicando que o Brasil já é uma economia de baixo carbono. As principais medidas para a consecução do objetivo do País no Acordo do Clima, a serem conseguidas até 2030, são: a) aumento da participação de bioenergia na matriz energética para 18%, expandindo o consumo de biocombustíveis – etanol e biodiesel na mistura do diesel; b) eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia; c) reflorestamento de áreas naturais, com a recomposição de 12 milhões de hectares; d) elevação de 40% para 45% na participação das energias renováveis na composição da matriz energética, incluindo hídrica, eólica, biomassa e solar; e) recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e f) incremento de 5 milhões de hectares de sistemas de integração lavoura-pecuária- floresta (iLPF). 17 Nos termos propostos, o Brasil promoveria uma redução de 66% nas emissões de GEE por unidade do Produto Interno Bruto (PIB) – intensidade de emissões em 2025 – e em 75% na intensidade de emissões em 2030, ambas em relação a 2005. O governo brasileiro considerou, na sua proposta, o fato de que, entre 2004-2012, o PIB do Brasil aumentou 32%, ao passo que as emissões caíram 52%. Basicamente, tal redução se deveu à queda de 82% da taxa de desmatamento na Amazônia brasileira, entre 2004 e 2014. O governo brasileiro, por meio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), elaborou logo após o acordo de Paris, com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) uma “Estratégia Nacional para a Implementação e o Financiamento da NDC”, articulada entre o governo federal, os governos estaduais e municipais, bem como os setores relevantes da economia. No documento se estimava entre R$ 890 bilhões e R$ 950 bilhões o volume de recursos necessários para a promoção e a reorientação do desenvolvimento nacional, com vistas à economia de baixo carbono em longo prazo. Esse total de investimentos corresponde, aproximadamente, a 1% do PIB brasileiro (BRASIL, 2017). Do ponto de vista do agronegócio brasileiro, o Acordo do Clima se mostra vantajoso, pelo fato de as suas metas apresentadas pelo País serem, quase todas, dependentes de bons resultados na evolução da agropecuária. Em outras palavras, o compromisso brasileiro está travado pelo apoio que deverá ser oferecido à agricultura de baixo carbono. Elaborado a partir dos estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Programa ABC – Agricultura de Baixo Carbono – prevê várias linhas de financiamento para atividades que promovam o sequestro de carbono da atmosfera, devido à absorção de CO2 no processo de fotossíntese das plantas, sejam gramíneas, sejam grandes árvores no reflorestamento de áreas incultas. Especialmente a integração da lavoura com a pecuária – integração iLP –, técnica que se mostra muito promissora entre os produtores rurais, os ganhos em termos de sustentabilidade são enormes, em favor da rentabilidade do capital. Denominado, a partir de 2020, de Plano ABC +, e posteriormente reintitulado de RenovaAgro, no Plano Safra 2023/24, o financiamento da agricultura sustentável tem merecido grande volume de crédito rural com taxas subsididas de juros. A prioridade foi dada na renovação de pastagens degradadas, pelo seu efeito positivo não apenas na produtividade, mas na fixação de Carbono no solo. Agricultores com o Cadastro Ambiental Rural validado recebem desconto de 0,5% na taxa de juros. 18 Mercado de créditos e precificação de carbono O mercado de crédito de carbono se originou em 1997, quando se firmou o Protocolo de Kyoto. Por meio do MDL, as empresas e instituições, de países em desenvolvimento, poderiam implementar projetos de redução de GEEs, gerando créditos a serem negociados com setores dos países desenvolvidos, relacionados no Anexo 1 do protocolo. Com exceção dos EUA, 37 países desenvolvidos, mais a Comunidade Europeia, firmaram compromisso de reduzir as emissões de GEE para uma média de 5% em relação aos níveis de 1990. Em 2002, o Brasil ratificou o acordo. Efetivamente, o MDL começou a funcionar em 2005, a partir da importante adesão da Rússia. A ideia central do MDL reside na possibilidade dese realizar uma “compensação” daqueles países desenvolvidos que, sendo obrigados a reduzir as suas emissões de GEE, não conseguem, todavia, cumprir os seus compromissos. Eles, então, podem “creditar-se” das reduções voluntárias de emissão efetivadas pelos países em desenvolvimento. Estes, desse modo, vendem créditos de carbono e geram receitas para as suas empresas e instituições. Como o efeito estufa é planetário, a redução de emissões em qualquer ponto da atmosfera plenamente se justifica. Entidades foram constituídas para validar esse sistema de compensação com créditos de carbono. Cada país designou sua autoridade nacional, responsável por aprovar os projetos de MDL, sejam os receptores, em desenvolvimento; sejam os investidores, desenvolvidos. Um Comitê Executivo do MDL, ligado à ONU, faz a aprovação final e comanda o processo. Aceitos, os projetos originam as Reduções Certificadas de Emissão (RCEs) – ou Certified Emission Reductions (CERs). As RCEs equivalem à redução de 1 tonelada de CO2 eq, e se constituem de papéis negociados no mercado financeiro (VIRI, 2020). Vários setores foram relacionados pelo Comitê Executivo como possíveis elaboradores de projetos MDL, destacando-se geração e distribuição de energia, transporte, indústria química, construção civil, gestão e tratamento de resíduos sólidos – lixo –, reflorestamento e agropecuária. No Brasil, relacionados ao agronegócio, os principais projetos MDL foram aprovados nos setores da suinocultura, bioeletricidade – bagaço de cana-de-açúcar – e florestas plantadas. O mercado global de créditos de carbono funcionou a contento, liderado pela China e pela Índia, seguidas do Brasil, em terceiro lugar. Entre 383 projetos aprovados no Brasil, 249 pertencem ao setor de energia renovável, mas o preço da tonelada de CO2 eq mostrou redução acentuada: de um valor entre 11 a 13 €/t, no início efetivos dos negócios, em 2008, caindo para valores abaixo de 1 €/t CO2 eq após 2012. Vários fatores causaram essa depreciação, que levaram à perda de credibilidade do MDL (GUIDA, 2018). Esse desinteresse, verificado depois de 2012, deveu-se principalmente às expectativas da realização do novo Acordo sobre o Clima, esperado para superar o ultrapassado Protocolo de Kyoto. Novas regulamentações viriam, certamente, o que enfraqueceu o mercado comandado pelo MDL. Finalmente realizado, em Paris (2015), o novo mercado de Carbono passou a ser considerado como Mecanismo de Desenvolvimento Sustentável (MDS). A mudança significa que, além de buscar 19 reduções de emissão de GEE, os projetos poderão incluir ações de compromisso mais amplo com o desenvolvimento sustentável. Recursos poderão ser captados para se realizarem, por exemplo, mudanças tecnológicas no rumo da economia de baixo carbono. Com regras a serem estabelecidas a partir de 2020, devido à pandemia da Covid 19 e à guerra Rússia-Ucrânia, toda a agenda climática da ONU encontra-se postergada, sem definições. Discute-se intensamente a chamada “precificação” do carbono, um valor a ser atribuído aos produtos, bens e serviços, em função da sua “pegada” de carbono. A contabilidade do carbono, já exercitada em alguns setores, mede o volume de emissões de GEE necessários para a produção de certa quantidade de bens, na indústria, nos serviços ou na agropecuária. Em função da intensidade dessas emissões, propõe-se inclusive a tributação seletiva de mercadorias. Por outro lado, produtos como alimentos, gerados com baixa emissão, como poderia fazer o Brasil na sua agricultura de baixo carbono, teriam um valor adicional incorporado aos seus preços. Tudo, entretanto, ainda, são estudos e especulações, no aguardo das normativas a serem emanadas pelos órgãos ligados ao mecanismo diplomático da ONU. Entre os setores do agronegócio nacional, além do ramo de florestas plantadas, a suinocultura elaborou inúmeros projetos MDL, sempre relacionados com a edificação de biodigestores cuja matéria-prima são as fezes animais. A tecnologia é centenária, e dominante, na Índia e na China, mas pouco utilizada no Brasil. A coleta do esterco o canaliza para a câmara anaeróbica, onde pela fermentação se produz gás metano, Coletado, o metano aciona sistemas elétricos, cuja energia é utilizada na própria granja de suínos. O metano apresenta um efeito estufa entre 21 a 23 vezes o efeito estufa do CO2. Dessa forma, ao ser coletado e queimado, para gerar energia, o processo gera créditos de carbono, conforme regulamentado pelo MDL. O recurso captado no mercado auxiliou a modernização da suinocultura, principalmente, do Oeste de Santa Catarina. Infelizmente, muitos desses projetos não se mostraram, por variadas razões, operacionais, mas ficou o aprendizado. O setor sucroalcooleiro do Brasil desenvolveu um mecanismo pioneiro de crédito de carbono inovador intitulado RenovaBio, através de lei 13.576/2017. O objetivo é reduzir as emissões de CO2 a partir da substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis: etanol e biodiesel. O sistema de registro e negociação dos Créditos de Descarbonização (CBio) já está funcionando, em plataforma operada pela B3, a antiga Bolsa de Valores. Cada 1 CBio equivale a uma tonelada de CO2 que deixa de ser emitida na atmosfera. O CBio será um ativo financeiro emitido pelas empresas produtoras de biocombustível, depois da venda da sua produção no mercado. Os distribuidores de combustível, que devem cumprir metas de descarbonificação, vão creditar-se com os CBios. Esses “títulos verdes” também poderão ser negociados por agentes de mercado. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) comanda o processo, que exige certificação dos emissores de CBio (ANBIMA, 2020). Em janeiro de 2020 houve a primeira emissão de CBios. Desde então, até julho de 2023, o RenovaBio atingiu a marca de 100 milhões de créditos de descarbonificação, evitando portanto a emissão de 100 milhões de toneladas de CO² equivalente na atmosfera. 20 Percebe-se claramente que, embora esteja atrasada a agenda climática da ONU, as empresas globais estão avançando, e competindo no mercado, na construção da economia de baixo Carbono, incluindo fortemente o setor de agronegócios. Figura 4 – Esquema de funcionamento do RenovaBio Fonte: https://twitter.com/Ubrabio/status/945990731948347393/photo/1 https://twitter.com/Ubrabio/status/945990731948347393/photo/1 Neste módulo, vamos apresentar e solidificar os principais conceitos utilizados no debate sobre a sustentabilidade. Para se realizar a boa gestão ambiental é necessário conhecer as normas fundamentais das políticas ambientais, públicas, ou dos procedimentos nas empresas privadas, incluindo o agronegócio. Preservação e conservação ambiental: uso sustentável dos recursos naturais A criação de parques e reservas florestais precede, no tempo, a moderna agenda da sustentabilidade. O magnífico Parque de Yellowstone, nos EUA, foi criado em 1872, como vários outros, protegendo áreas naturais valiosas na expansão econômica para o Oeste norte-americano. Mesmo no Brasil, o Parque Nacional de Itatiaia (1937) e o Parque Nacional do Iguaçu (1939) surgiram bem antes da preocupação ambientalista da sociedade. MÓDULO II – CONCEITOS E NORMAS FUNDAMENTAIS DA SUSTENTABILIDADE 22 Figura 5 – O pioneiro Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA Fonte: https://www.nationalgeographic.org/maps/yellowstone-caldera-map/family/ Essa ideia “preservacionista” tem as suas origens na Inglaterra, vinculada a um pensamento religioso e filosófico, no sentido de resguardar pedaços especiais do território atestando a pureza da Criação. O historiador e filósofo inglês Keith Thomas afirma que já em meados do século XVII, as árvores haviam deixado de ser um símbolo de barbárie e adquirido um grande valor estético para a aristocracia. O “culto das árvores”, o “sublime cenário natural”, o “amor às matas”, nas expressões retiradas por Thomas daquela época, levaram a elite da Inglaterraa valorizar o ambiente natural (KEITH, 1988). Na verdade, desde o início do século XIX, a Inglaterra começou a promover forte expansão da fronteira agrícola, pois Londres começara a aumentar aceleradamente a sua população, o que demandava alimentos na cidade. Nesse contexto, o preservacionismo gerou um sentimento, um movimento filosófico-estético, em defesa das belezas e das riquezas naturais. Servia, também, para preservar os campos de caça da nobreza. https://www.nationalgeographic.org/maps/yellowstone-caldera-map/family/ 23 Em meados do século XX, nos EUA, antropólogos e sociólogos rurais começaram a questionar os dogmas da preservação florestal. A sua causa era a defesa das populações indígenas, especialmente, e por elas se questionava a intocabilidade dos territórios protegidos, política que tolhia os povos originais. Ações humanas poderiam ser realizadas, argumentavam os críticos, sem que elas colocassem em risco a integridade ambiental dos parques. Dessa forma, estava nascendo o “conservacionismo”, tendência que originou, em 1948, a conceituada International Union for Conservation of Nature (IUCN) – União Internacional para a Conservação da Natureza –, uma organização exemplar na defesa ambiental. Quando se avançou, a partir das discussões globais na ONU, na definição do conceito do desenvolvimento sustentável, firmou-se o conservacionismo florestal como uma corrente mais moderna de gestão ambiental territorial. O manejo sustentável de áreas protegidas, ao contrário da intocabilidade, permitia gerar valor, e empregos, com atividades produtivas, a exemplo do turismo ecológico, sem danificar o valor ecológico dos parques. Formas variadas de turismo passaram a ser regulamentadas, embasadas no avanço do conhecimento técnico sobre a dinâmica de ecossistemas naturais. Visitação de cavernas, desfrute de cachoeiras, trilhas na floresta, canoagem e rafting, avistamento de espécies, múltiplas atividades de lazer e contemplação surgiram baseadas na ideia da conservação ambiental, que permite o usufruto regulamentado dos bens naturais, com mínima interferência de forma a manter a sua integridade ecológica. Em outras áreas, igualmente, o preservacionismo cedeu lugar ao conservacionismo, como no manejo sustentável de florestas nativas. O avanço da ecologia, da biologia, da silvicultura e da agronomia gerou conhecimento científico e desenvolveu ferramentas tecnológicas que compatibilizaram a exploração florestal com a proteção ambiental. O corte seletivo de árvores maduras é o cerne do manejo sustentável de florestas nativas. A sua supressão abre clareira para a entrada de luminosidade, que favorecerá o crescimento vegetal de plantas jovens, que se tornarão substitutas das suas matrizes. Com o tempo, recompõe-se a floresta. Inclusive, a pesca e a caça ganharam o status de atividade sustentável, desde que observadas as rigorosas regras que têm sido estabelecidas para a manutenção dos estoques vivos ou para a reprodução das espécies. Os estudos comprovam que territórios de caça sustentável são mais bem conservados que outras áreas protegidas, até mesmo pelo fato de gerar recursos financeiros capazes de dar eficiência à gestão ambiental. Habitats naturais, afinal, precisam ser bem protegidos, e isso é oneroso, para manter os animais sadios, com elevada capacidade de reprodução. Usufruir sem destruir passou a ser uma regra mais democrática da conservação de territórios protegidos, porque a ideia preservacionista, ao manter territórios isolados da presença humana, subtrai o direito da população de gozar as riquezas naturais. Tal afastamento pouco contribui para o incremento de uma cultura que valorize os espaços ambientais, pois ninguém valoriza o que desconhece. Ao contrário, possibilitando o uso sustentável dos espaços protegidos, a proposta conservacionista leva a sociedade a ser mais facilmente convencida a auxiliar na manutenção e defesa daqueles atributos ecológicos. 24 A ideia conservacionista pode ser muito bem apropriada à cultura do agricultor que mantém com a natureza uma relação de harmonia e respeito, dela se deleitando pela contemplação nas horas de repouso. A produção tecnológica do agro, cada vez mais intensiva, não se opõe, pelo contrário, pode favorecer a manutenção de remanescentes florestais com as suas belezas naturais, fauna, flora e nascentes. Uma agricultura conservacionista. Desse modo se caracteriza a agricultura sustentável. Novo Código Florestal A legislação inicial sobre proteção de florestas no Brasil vem do governo de Getúlio Vargas, por meio do Decreto nº 23.793, de 23 de janeiro de 1934. Nele já estava contido o conceito de “florestas protetoras”, necessárias, inclusive, além do benefício ambiental, para manter estoque de madeira nobre visando fornecer dormentes para as estradas de ferro. Em 1965, já no governo militar, foi sancionada a Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, esta, sim, denominada como Código Florestal. Estava clara a necessidade de adaptar a então legislação ao processo de modernização da agricultura brasileira. Estabelecida claramente, a Reserva Legal das propriedades rurais foi fixada em 50% no bioma Amazônia e em 20% no restante do País. As Áreas de Preservação Permanente (APPs), definidas na lei, tiveram posteriormente a sua regulamentação efetuada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), por meio de resoluções. Uma delas, muito contestada – Resolução nº 303, de 20 de março de 2002 –, que expandia APPs de restingas e mangues além do que a lei estabelecia, acabou revogada pelo próprio Conama. No processo de ocupação da região Norte, projetos financiados pelo poder público, por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), passaram a ser obrigados, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a desmatar 50% dos seus territórios, sob pena de ser considerados latifúndios e perder o acesso aos financiamentos públicos concedidos para a sua implantação. Nesse sentido, o Código Florestal serviu como normativa para a expansão da fronteira agropecuária. Esse período histórico, entre o início dos anos de 1960 até meados de 1980, caracterizou-se como de forte êxodo rural, ocorrendo uma inversão demográfica entre a população rural e a urbana do Brasil. Várias razões provocaram esse processo de urbanização acelerada, coincidindo com a industrialização recente do País e o fortalecimento do setor da construção civil. A economia do Brasil mudou de cara, e o País deixou de ser essencialmente agrícola para se diversificar a sua geração de empregos e renda. O grande desafio, reflexo do êxodo rural, residia no abastecimento popular das metrópoles e grandes cidades. Alimentar as massas urbanas exigia expandir fortemente a produção agropecuária, pois o País tinha um histórico de significativa dependência de importações de alimentos. A agricultura foi, desse modo, chamada a contribuir com o desenvolvimento nacional por meio da modernização tecnológica. O governo criou o sistema de crédito rural para impulsionar a produção no campo. Durante 25 anos, a ordem no agro era produzir. 25 Quando, depois da redemocratização, com a nova Constituição de 1988, o País começou a ser reorganizado política e juridicamente, percebeu-se que boa parte da agricultura se encontrava em uma situação irregular em face do Código Florestal. Áreas que deveriam ter-se mantido preservadas estavam ocupadas na produção. Primeiro, regra geral, os produtores rurais desconheciam as suas obrigações ambientais, pois a divulgação da lei fora incipiente. Afinal, o País tinha vivido uma sociedade amordaçada pelo regime militar. Em segundo lugar, inexistia fiscalização para a defesa florestal do poder público. Pelo contrário, os governos criaram variados incentivos para a expansão do agro, colonizando novas terras, regularizando perímetros devolutos, sempre com o intuito de atender ao drama do abastecimento urbano. Não se falavaem preservação ambiental. Surgiu, portanto, um impasse: embora a agricultura brasileira tenha tido sucesso em elevar a sua produção de alimentos, dispensando o País de ter de importar comida, parte desse esforço confrontou a legislação do Código Florestal. Para o Ministério Público, havia sido criado um “passivo ambiental”; para os economistas agrários, houve a virtude do desenvolvimento nacional. Nesse contexto, surgiu a proposta de revisar o Código Florestal de 1965, medida necessária para tirar a agricultura da ilegalidade. Para os ambientalistas, todavia, a proposta era vista como um perdão de crimes ambientais. Durante cerca de 15 anos, a matéria tramitou no Congresso Nacional, envolvendo uma grande polêmica na sociedade – entre ruralistas e ambientalistas – até que, em 2012, foi aprovado o Novo Código Florestal. O grande acordo para a sua votação se realizou com a decisiva intermediação do governo federal, baseado em uma palavra-chave: a “consolidação” dos territórios produtivos, ocupados até novembro de 2008, data da aprovação da lei de crimes ambientais. Consolidar significava referendar a ocupação produtiva dessas áreas, mesmo se abertas em descumprimento da então legislação florestal. Por outro lado, as definições sobre a Reserva Legal e as APPs não poderiam facilitar novas conversões de áreas florestadas para agropecuária. Em outras palavras, consolidava-se o passado, sem favorecer o desmatamento futuro. Por exemplo, nas margens dos rios, que estavam tomadas por lavouras ou pastagens, aceita- se um recuo mínimo de 15 metros; porém, na abertura de novas áreas, o recuo mínimo da APP será de 30 metros, como no anterior Código Florestal. Da mesma forma, um cafezal porventura implantado em terrenos montanhosos, com declividade acima de 45º, que caracteriza uma APP, fica consolidado, mas jamais poderão plantar novos cafezais em situação semelhante, caso típico das encostas de Serra da Mantiqueira. 26 Figura 6 – Definição das APPs, segundo o Código Florestal brasileiro Fonte: http://www.ecobrasil.provisorio.ws/30-restrito/categoria-conceitos/1190-area-de-protecao-permanente-app O Novo Código Florestal estabeleceu a obrigatoriedade do Cadastro Ambiental Rural (CAR), sistema digitalizado em que os produtores informam os dados sobre a sua ocupação territorial, definindo as áreas de produção, da Reserva Legal e das APPs. Havendo insuficiência de Reserva Legal, ao preencher o Programa de Regularização Ambiental (PRA) o agricultor dirá como será feita a recomposição, ou compensação, da referida área a ser protegida. Se houver a recuperação da Reserva Legal na mesma propriedade, o produtor tem um prazo de até 20 anos para finalizar o processo, no qual poderão ser utilizadas espécies exóticas, em até 50% da área, como pioneiras na implantação da Reserva Legal. Propriedades caracterizadas como de agricultura familiar, com no máximo quatro módulos fiscais de área total, ficam dispensadas de manter a Reserva Legal. Se houver, porventura, excesso de área florestada, ou seja, percentual acima da Reserva Legal, a legislação prevê a emissão de Cotas de Reserva Ambiental (CRAs). A regulamentação ocorreu por meio do Decreto nº 9.640, de 27 de dezembro de 2018, no qual se estabeleceu que a emissão de CRAs compete ao Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Na prática, ainda não está vigorando o mercado desses títulos verdes, mas se trata de uma grande inovação do Novo Código Florestal, dando valor à floresta em pé. 27 A nova lei também fixou que os cerrados da região da Amazônia Legal deverão ter uma Reserva Legal de 35%, enquanto no bioma Amazônia a Reserva Legal será de 80%. Nas demais regiões e biomas do País, a Reserva Legal é de 20%. No caso da Amazônia, o Zoneamento Ecológico- Econômico poderá, se implantado, reduzir em áreas específicas a Reserva Legal para até 50%. Os conceitos do “preservacionismo” e do “conservacionismo” são consagrados na lei: nas APPs vale a ideia da intocabilidade do território, ou seja, o seu uso é totalmente impedido, salvo acesso para equipamentos de irrigação ou fornecimento de água para rebanhos. Já nas Reservas Legais manda o manejo sustentável, que permite a exploração econômica condicionada à manutenção dos atributos ecológicos da área. Educação ambiental, trilhas, turismo de aventura, apicultura, exploração sustentável de madeira, coleta de sementes, são exemplos de uso permitido nas Reservas Legais. Tais modificações consagraram o Novo Código Florestal como uma legislação atualizada e capaz de superar os conflitos básicos entre a produção rural e a proteção florestal. Trata-se de uma legislação única do mundo, própria a um país de agricultura tropical e subtropical. Sistema Nacional de Unidades de Conservação Definido pela Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), permite ao Poder Executivo – nas três esferas: federal, estadual e municipal – estabelecer áreas protegidas do seu território. Tais áreas precisam ter características naturais relevantes, que justifiquem a sua especial administração pelo poder público. A legislação define 13 objetivos para as unidades de conservação, entre os quais se destacam: manutenção da diversidade biológica e promoção da educação ambiental; proteção de espécies ameaçadas e de recursos hídricos; e proteção de paisagens de notável beleza cênica e de recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. Dependendo das características naturais, da importância ecológica e dos objetivos do poder público, em cada situação, as unidades de conservação se dividem em duas categorias básicas: a) unidades de proteção integral e b) unidades de uso sustentável. As primeiras seguem o conceito mais rígido do “preservacionismo”, tendo a sua ocupação e o seu aproveitamento bastante limitado, sendo que, nos seus domínios, as áreas de particulares passam ao domínio público. Enquadram-se nessa categoria as seguintes unidades de conservação: a) estação ecológica; b) reserva biológica; c) parque nacional; d) monumento natural e e) refúgio de vida silvestre. 28 Já as unidades de conservação caracterizadas como de uso sustentável seguem o princípio do “conservacionismo”, caracterizando-se pelo manejo sustentável das suas áreas. Enquadram- se nessa categoria: a) área de proteção ambiental (APA); b) área de relevante interesse ecológico; c) floresta nacional; d) reserva extrativista; e) reserva de fauna; f) reserva de desenvolvimento sustentável (RDS) e g) reserva particular do patrimônio natural (RPPN). Figura 7 – Parque Nacional de Itatiaia, primeiro do Brasil, criado em 1937 Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/parque-nacional-do-itatiaia-inicia-hoje-reabertura-gradual No processo de criação de uma unidade de conservação, o poder público deve realizar estudos técnicos prévios, que justifiquem a sua implantação, sendo obrigado a submeter a sua proposta à consulta pública na região que será afetada pela medida. Nos casos de específicos de criação de estação ecológica ou reserva biológica, a consulta pública é dispensada. Essa determinação legal garante a participação da sociedade na definição daquela política ambiental. Um mosaico de unidades de conservação significa um conjunto de áreas protegidas, podendo conter variadas características nos seus objetivos conservacionistas. https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/parque-nacional-do-itatiaia-inicia-hoje-reabertura-gradual 29 As unidades de conservação, qualquer que seja a sua categoria, devem sempre ser geridas por um conselho consultivo ou, em alguns casos, deliberativo. Esse órgão gestor deve ser constituído, de forma equilibrada, por representantes do poder público; dos setores produtivos locais, urbanos ou rurais; e da sociedade civil. Garantem-se, desse modo, espaços para o diálogo entre os interesses, conflitantes ou confluentes,que sempre existem nas políticas ambientais. Entre as características fundamentais do Snuc brasileiro, para a sua efetiva implantação e o seu pleno funcionamento, a legislação exige explicitamente (art. 27) a formulação de “planos de manejo” das unidades de conservação, a serem aprovados pelos respectivos conselhos de gestão. É o plano de manejo que estabelecerá as possibilidades de usufruto e direcionará todas as atividades técnicas e científicas referentes àquela unidade de conservação. Tais planos de manejo podem regulamentar o uso das áreas fronteiriças das unidades de conservação, consideradas zonas de amortecimento. Ressalte-se a existência, dentro do Snuc, das RPPNs. Trata-se de áreas privadas, pertencentes a produtores e empresas rurais, com o objetivo de conservar a diversidade biológica, sendo gravadas com perpetuidade na matrícula do imóvel rural. Nelas se estimulam a pesquisa científica e a visitação de pessoas com objetivos turísticos e educacionais. Figura 8 – Turismo ecológico dentro de RDS, no Amazonas Fonte: https://www.mamiraua.org.br/turismo-comunitario Todo o gerenciamento público federal do Snuc é realizado por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Criado pela Lei nº 11.516, de 28 de agosto de 2007, o ICMBio surgiu da divisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), restando a este a responsabilidade pelo licenciamento ambiental e pelas suas normativas. Já o ICMBio deve propor, gerir, fiscalizar as unidades de conservação instituídas pela União. Os estados da Federação mantêm órgãos assemelhados para gerir as unidades de conservação estaduais, o mesmo princípio descentralizador valendo para os municípios. As informações do MMA mostram que o Snuc, nas três esferas de poder, protege 29,4% do território nacional, abarcando em torno de 2,5 milhões km². A maioria desse contingente se encontra na categoria de APA, de uso sustentável, que representa 51,9% do total – ou seja, 1.296,3 mil km² – das áreas protegidas no Brasil. Em relação ao território nacional, as APAs protegem 15,2% do País. https://www.mamiraua.org.br/turismo-comunitario 30 Em segundo lugar, encontram-se os parques, de proteção integral, em número de 455 unidades de conservação, sendo apenas 74 federais. Somados, os parques abrangem uma área de 363,5 mil km², representando 4,27% do território brasileiro. As unidades de conservação de proteção integral, somadas, nas três esferas de poder, protegem cerca de 7,8% – isto é, 662,19 mil km² – das áreas originais do Brasil. Figura 9 – Unidades de conservação no Brasil Fonte: Brasil (2018) Embora significativas, em termos de área protegida, nem sempre tais unidades de conservação se encontram bem administradas, cumprindo efetivamente a sua missão. A gestão de unidades de conservação, infelizmente, é bastante frágil no País, com poucos conselhos de gestão instalados e eficientes, reduzido número de planos de manejo implementados. Mais importante que criar novas unidades de conservação, é fundamental implantar aquelas existentes, tirando-as do papel, conforme expressam, criticamente, e com razão, as entidades ambientalistas. 31 Tabela 1 – Unidades de conservação: proteção integral e uso sustentável tipo / categoria Esfera total federal estadual municipal proteção integral nº área (km²) nº área (km²) nº área (km²) nº área (km²) estação ecológica 30 72.088 61 47.510 5 40 96 119.638 monumento natural 5 115.314 32 961 19 158 56 116.433 parque nacional / estadual / municipal 74 268.207 218 94.534 163 804 455 363.545 refúgio de vida silvestre 9 2.984 52 3.179 11 204 72 6.367 reserva biológica 31 42.664 25 13.493 8 51 64 56.208 total proteção integral 149 501.258 388 159.677 206 1.256 743 662.191 uso sustentável nº área (km²) nº área (km²) nº área (km²) nº área (km²) floresta nacional / estadual / municipal 67 178.159 42 135.857 0 0 109 314.016 reserva extrativista 66 135.087 29 19.880 0 0 95 154.967 reserva de desenvolvimento sustentável 2 1.026 32 111.250 5 171 39 112.447 reserva de fauna 0 0 0 0 0 0 0 0 área de proteção ambiental 37 897.220 195 340.671 114 58.428 346 1.296.319 área de relevante interesse ecológico 13 341 30 605 14 199 57 1.145 RPPN 670 4.885 250 843 2 0 922 5.728 total uso sustentável 855 1.216.717 578 609.106 135 58.798 1568 1.884.621 32 total geral 1004 1.717.976 966 768.783 341 60.054 2311 2.546.812 área considerando sobreposição 1004 1.712.051 966 762.199 341 59.987 2311 2.499.581 Fonte: Brasil (2018). Em termos do bioma, os dados do MMA indicam que a Amazônia tem 28% do seu bioma protegidos, sendo 10% em unidades de conservação de proteção integral. Os biomas mais ocupados pela agropecuária, quais sejam, o Cerrado e a Mata Atlântica, apresentam de 8% a 10% dos seus territórios resguardados pela política ambiental, com apenas 3% em unidades de conservação de proteção integral. Gráfico 3 – Percentual dos biomas brasileiros protegidos por unidade de conservação Fonte: Brasil (2019c). 33 Consumismo: política de resíduos sólidos e economia circular Muitos estudiosos enxergam no “consumismo” da sociedade a fonte de várias das questões ambientais. Impulsionados pela propaganda, os consumidores ultrapassam as suas necessidades básicas de consumo e passam a adquirir bens de forma desmedida, gerando um desperdício que acarreta dois problemas: a) aumento da demanda por insumos, elevando a pressão sobre recursos naturais, e b) geração de muitos detritos e resíduos no meio ambiente. Desde os anos de 1960, antes mesmo de existir a problemática hoje conhecida da sustentabilidade, estudiosos apontavam a necessidade de se restringir a demanda por recursos naturais. Essa foi a motivação da reunião do Clube de Roma, em 1968, que levou ao relatório Limites do Crescimento (1972), conforme mostramos anteriormente. A proposta do “crescimento zero” sempre agradou àqueles que se preocupam com a escassez de insumos e matérias-primas, como minérios, petróleo, recursos hídricos, ar puro. Quando mais cresce a população humana e se aquece a economia, mais se eleva, evidentemente, a pegada ecológica sobre o planeta Terra. Desse modo, várias medidas passaram a ser recomendadas para evitar a pressão sobre recursos naturais e, consequentemente, a geração de resíduos sólidos e a poluição da atmosfera e das águas. Nesse contexto, surgiu a ideia da reciclagem de produtos já utilizados, como uma forma de amenizar o problema do lixo nas grandes cidades. Na verdade, a reciclagem foi proposta juntamente com outras medidas, quais sejam, o reúso e a reutilização, e daí se originou o princípio dos três Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. Consumo consciente e consumo sustentável se tornaram parte da equação da sustentabilidade, e a educação ambiental entrou na agenda das políticas ambientais, destinadas a preparar as novas gerações para os desafios contemporâneos. Aceito pela sociedade, o princípio dos três Rs foi adotado pelo poder público e por muitas empresas e instituições, que passaram a providenciar mecanismos de coleta de materiais separados, nos seus pátios e nas suas repartições. De três Rs passou-se para cinco Rs, incluindo-se aos anteriores os conceitos de repensar e recusar. Mais adiante, alguns ainda incluíram os termos de recuperar e reinventar, chegando a sete Rs. Todos esses conceitos ganharam apoio da cidadania consciente, ambientalmente educada, mas, na prática, nem sempre as ideias saíram do papel. Outro viés de ação, visando reduzir as montanhas de lixo que se afiguravam na sociedade, poluindo os oceanos inclusive, esteve sempre ligado à tecnologia. Produtos biodegradáveis passaram a ser valorizados, forçando o aprimoramento tecnológico da produção de bens, especialmente, que utilizam muito plástico derivado do petróleo, porser muito persistente no meio ambiente. 34 Surgiram nesse contexto o plástico biodegradável, elaborado a partir de matérias-primas vegetais, seja a cana-de-açúcar, seja o amido do milho. Sacolas plásticas entraram na mira do ambientalismo, e legislação passou a ser outro componente das políticas, restringindo ou proibindo o uso de certos materiais no padrão de consumo da sociedade. Resumindo: educação ambiental, avanço tecnológico e legislação se tornaram os vetores das políticas relacionadas aos resíduos sólidos. Depois de longa tramitação, finalmente o Brasil aprovou a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Nela está incluído o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, qual seja, a “logística reversa”, que obriga as empresas produtoras de bens a participarem de mecanismos de coleta e reciclagem dos resíduos gerados. Infelizmente, pouco se avançou na regulamentação da logística reversa, matéria que, se bem implementada, colocaria o Brasil ao lado dos países desenvolvidos. Apenas recentemente começaram a ser definidos os protocolos, a começar daquele que regula o setor de produtos eletrônicos (Decreto nº 10.240, de 12 de fevereiro de 2020) e o setor de medicamentos (Decreto nº 10.388, de 5 de junho de 2020). Figura 10 – Princípio da logística reversa Fonte: http://blogecoando.blogspot.com/2012/10/saiba-mais-sobre-logistica-reversa.html No agronegócio, todavia, a logística reversa funciona bastante bem, e há bastante tempo, no setor de defensivos agrícolas. Derivado de legislação pioneira (Lei nº 9.974, de 6 de junho de 2000), o recolhimento de embalagens vazias de agrotóxicos se firmou como uma bem-sucedida política ambiental ligada ao agro, de tal forma que o Brasil se tornou o campeão mundial dessa pauta, mantendo um índice de 94% de recolhimento, em volume, de embalagens vazias, superando países europeus como Alemanha (76%), França (66%), ou Japão (50%) e EUA (30%). http://blogecoando.blogspot.com/2012/10/saiba-mais-sobre-logistica-reversa.html 35 Figura 11 – Percentagem de recolhimento de embalagens vazias de defensivos agrícolas, em volume (kg) sobre o total Fonte: inpEV (2017) O sistema de recolhimento é coordenado pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), constituído pelas grandes empresas fabricantes de defensivos agrícolas. O inpEV opera a fábrica de reciclagem localizada em Jacareí (SP) e cuida da organização do sistema chamado Campo Limpo. As cooperativas e as revendas de defensivos participam ativamente do processo. Em 2022, foram recolhidas 52,5 mil toneladas de embalagens vazias. Um case mundial. Outros ramos do agronegócio poderiam desenvolverem sistemas de logística reversa, a exemplo da indústria de medicamentos veterinários e vacinas animais. Atualmente, os produtores rurais não têm uma forma conveniente de descarte dos frascos de medicamentos veterinários. Sacarias de insumos, tais como rações ou sal mineral, também permanecem na propriedade rural como detritos, mas bem poderiam retornar para alguma cadeia de valor dos agronegócios. Mais recentemente, o conceito da “economia circular” passou a dominar a agenda do futuro sustentável das sociedades, prometendo dar valor ao lixo, transformando-o em matéria-prima. A geração de energia a partir da queima de resíduos sólidos urbanos passou a ser utilizada como referência nesse tema. Afinal, parece elementar que não se deve desperdiçar, enterrando nos aterros sanitários, os materiais que podem ser transformados em energia. A evolução da tecnologia de filtros e demais processos industriais permitiu que essa agenda se sobressaísse na Europa, por exemplo. Lixo vira eletricidade, sem poluir a atmosfera. Outro case de sucesso está centrado no processamento de resíduos de equipamentos eletrônicos, que contém elementos químicos, incluindo metais valiosos, tradicionalmente desperdiçados e enterrados junto com detritos sólidos em geral. Empresas passaram, porém, a reaproveitar tais resíduos eletrônicos, transformando lixo em ouro. 36 Economia circular passou, na evolução do conceito, a ser entendida como um processo de produção integrado, no qual uma empresa utiliza as sobras de outra como o seu insumo. Significa um passo além da reciclagem, ou mesmo da logística reversa. Trata-se de um novo design dos polos industriais, que deixariam de gerar resíduos, de qualquer natureza, sejam sólidos, líquidos, gases ou energéticos (ELLEN MACARTHUR FOUNDATION). Na prática, há exemplos de arranjos produtivos com base na economia circular situados na Dinamarca e na China (CALIXTO; CISCATI, 2016). Na agricultura brasileira, vários exemplos podem servir de diretriz para a economia circular. Confinamento de bovinos geram muito resíduo orgânico, oriundo da urina e das fezes animais, que devidamente coletados podem transformar-se em ricos fertilizantes orgânicos para lavouras e pastagens. Restos vegetais, como aqueles gerados no beneficiamento de cereais ou na colheita de algodão, podem ser utilizados como componente de ração para animais. Nas destilarias de álcool, bagaço se transforma em bioeletricidade. Conclusão: a gestão de resíduos sólidos e de efluentes líquidos é agenda relevante para o agronegócio sustentável. Pagamento por serviços ambientais Denomina-se “comando e controle” o mecanismo clássico das políticas ambientais. O conceito significa exercer a fiscalização das atividades potencialmente poluidoras ou agressivas à biodiversidade, somadas com a repressão, quase sempre policial, de infratores. O policiamento ambiental se instalou nos governos para impedir o avanço, por exemplo, do desmatamento irregular. As políticas de comando e controle foram eficazes, até certo ponto, para coibir as práticas da economia predatória, seja nas cidades, seja no campo. Os agentes econômicos passaram a temer a fiscalização, prepararam-se para o licenciamento ambiental, e isso é positivo. Por outro lado, trabalhar apenas na agenda do comando e controle carrega uma pecha negativa, na medida em que apenas impede o feito do errado, sem estimular a ação correta. A multa educa, mas também cria barreiras. Progressivamente, foram incorporados às políticas tradicionais novos enfoques que, ao contrário de reprimir a prática insustentável, passaram a induzir os agentes da sociedade, educando-os para a economia sustentável. Mais que a educação ambiental, sempre necessária nos bancos escolares e fundamental desde a tenra idade, introduziram-se mecanismos de premiação financeira para estimular a adesão às boas práticas ambientais. Nasceu assim o conceito do “pagamento por serviços ambientais”. O case histórico mais propagado se refere à política de preservação do manancial de água que abastece a cidade de Nova Iorque. Localizadas a quase 200 quilômetros de distância da metrópole norte-americana, nas Montanhas Catskill, a 1.200 metros de altitude, as nascentes foram protegidas 37 em acordo com os produtores rurais da região – Watershed Memorandum of Agreement (1997) – que envolveu plantio de matas ciliares, compra de terras, construção de reservatórios e pagamento por serviços ambientais. A experiência de Nova Iorque mostrou que a água pura custa mais barato que o tratamento de águas poluídas. Internacionalmente, também chamado de serviços “ecossistêmicos”, a remuneração dos seus geradores pretende dar uma retribuição da sociedade pela garantia do ar limpo, da água potável, da biodiversidade preservada, do clima ameno, e assim por diante. Serviços ambientais representam, portanto, benefícios coletivos advindos, normalmente, de ações individuais de proteção da biodiversidade ligada aos recursos hídricos. O Pnuma puxou essa agenda positiva ao estabelecer, na COP do Clima, em 2007, os marcos do REDD, sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação. Por meio do REDD, instituições