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Extracção Líquido-Líquido Principles and Practices of Solvent Extraction “edited by Jan Rydberg Claude Musikas, Gragory R. Chopin, ISBN: 0-8247-8668-08 1) Extracção Líquido Líquido com Reacção Química. 2) Equilíbrio com Extracção líquido-líquido. 3) Determinação do número de andares teóricos necessários para a realização de uma Extracção Líquido Líquido 4) Equipamento utilizado em Extracção Líquido Líquido 5) Problema de Extracção Líquido-Líquido Extracção líquido-líquido Introdução A extracção líquido-líquido é uma operação unitária de grande implementação na indústria química. Tem um vasto campo de aplicação que vai desde a indústria petrolífera, onde se separam compostos aromáticos dos alifáticos, até à indústria farmacêutica em que se separa a penicilina das mistura altamente complexas em que esta normalmente se encontra. Pode, ainda, dizer-se que esta operação unitária surgiu como verdadeira alternativa a outras técnicas separativas, destilação e evaporação, por as mesmas requererem elevados consumos de energia. A título de exemplo, refiram-se dois casos típicos de substituição da destilação por extracção líquido-líquido: - separação de uma mistura nos seus componentes se estes tiverem pontos de ebulição muito próximos - separação de uma mistura nos seus componentes se esta sofrer decomposição térmica quando submetida a temperaturas elevadas. Nos últimos 30/40 anos, esta técnica tem vindo, também, a ser largamente implantada na metalurgia extractiva para recuperação dos metais existentes na fase aquosa resultante da lixiviação de minérios. Até então a aplicação dessa técnica separativa a uma escala industrial cingia-se à indústria nuclear (obtenção de urânio) e à recuperação de metais menos comuns como por exemplo o zircónio, o háfnio, nióbio e tântalo. A razão de tal facto era o reduzido número de reagentes selectivos (extractantes) existentes no mercado. Foi na década de 60 com o aparecimento de reagentes selectivos para o cobre (LIX 1) que a extracção líquido-líquido se revelou uma alternativa economicamente 1 nome comercial para as hidroxioximas produzidas inicialmente pela General Mills e que actualmente são produzidas Henkel Corp Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 2 viável para competir com processos clássicos na produção de cobre metálico, como seja com a cementação2. O aparecimento de novos extractantes permitiu estender a aplicação da extracção líquido-líquido à recuperação de diversos iões metálicos tais como o níquel, o cobalto, o zinco, o urânio, o molibdénio, o vanádio, as terras raras, o índio, o gálio e o germânio. A possibilidade de implementar uma etapa de extracção numa metalurgia extractiva veio permitir tratar os concentrados metálicos por via hidrometalúrgica em substituição da via pirometalúrgica. De facto o processamento pirometalúrgico ficou comprometido na década de 70 com o aumento dos preços da energia e com as imposições ambientais relacionadas com a emissão de dióxido de enxofre e dióxido de carbono para a atmosfera. O Cyanex 921, conhecido como (TOPO) é um óxido de trioctilfosfina e foi o primeiro membro de uma família de reagentes produzidos e patenteados pela Cyanamida. Este reagente tem sido usado comercialmente durante muitos anos para recuperar urânio do processo por via húmida para a produção de ácido fosfórico. Uma aplicação recente deste mesmo extractante é na extracção de fenol e ácido acético de efluentes industriais. Enquanto a extracção por via física com solventes parcialmente miscíveis pode ser poluente, pois o refinado irá conter algum solvente, a extracção com solventes imiscíveis é uma tecnologia com grande futuro no tratamento de efluentes industriais, uma vez que irá permitir remover e recuperar solutos metálicos ou orgânicos, quer sejam tóxicos ou valiosos. Extracção por via física e extracção com reacção química A extracção líquido - líquido é também designada de extracção por solventes e envolve a distribuição do soluto entre duas fases líquidos imiscíveis. Uma fase aquosa que contém o soluto a extrair, também chamada refinado, e uma fase orgânica, também chamada solvente (extracto), que irá necessariamente interactuar com o soluto. 2 A cementação permite recuperar metais de soluções diluídas adicionando à solução um outro metal com menor potencial de redução, por ex: Cu2++Fe0 Cu0+Fe2+. Neste caso há contaminação do produto final (cemento de cobre) com ferro. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 3 . Figura 1: Esquema de um processo de extracção líquido-líquido para o soluto x. No caso da interacção entre o soluto e o solvente envolver apenas forças de natureza física, tipo forças de Van der Waals, pontes de hidrogénio, etc…, diz-se que estamos perante uma extracção por via física. Na extracção com reacção química, tal como se depreende, existe uma interacção química entre o soluto e o extractante. O extractante é o composto que irá interactuar com o soluto a remover da fase refinado. A mistura formada pelo extractante, pelo diluente e, por vezes, pelo modificador (um álcool que facilita a solubilização do complexo soluto - extractante na fase orgânica) designa-se por solvente. Extracção por via física A distribuição do soluto entre as duas fases (aquosa e orgânica) depende apenas da respectiva solubilidade em cada uma delas. Exemplos de extracção por via física – remoção de etanol (CH3CH2OH) de uma solução aquosa com DBBP (di-butil butil fosfonato – (C4H9)3PO3): C4H9O C4H9O O CH3CH2OHaq + C4H9O P = Oorg ⇔ C4H9O P– O H CH2CH3, org (1) C4H9 C4H9 Fase orgânica Fase aquosa x x x x x x x x x x x x x x x x x x i) introduzir as fases no tanque ii) agitar as fases até se atingir o equilíbrio iii) separar as fases Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 4 A distribuição do soluto pelas duas fases pode ser quantificado através da razão de distribuição (D) definida pela seguinte equação: [ ] [ ] aq23 org23 OHCHCH OHCHCH OHCHCH D 23 = (2) em que [ ] representa concentrações. Esta depende da concentração inicial de soluto na fase aquosa, da temperatura e da razão de fases aquoso/orgânico. Outras grandezas tais como a capacidade e a selectividade são, também, utilizadas para caracterizar um solvente de extracção. A capacidade define-se pela concentração máxima de soluto que é possível atingir no solvente. A selectividade de um solvente pode ser quantificada pelo quociente entre a razão de distribuição dos dois solutos que são extraídos. No exemplo acima referido, paralelamente à extracção do etanol com DBBP verifica-se também a co-extracção da água. Então, a selectividade (α) pode ser calculada pela seguinte expressão: água etanol D D =α (3) A representação gráfica mais usual para correlacionar e interpretar os dados de equilíbrio para solventes parcialmente solúveis são os designados diagramas ternários. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 5 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 % DBBP % E ta no l Figura 2: Diagrama de equilíbrio para o sistema Etanol/DBBP/Água a 30ºC. Nos sistemas em que o solvente é praticamente imiscível com a fase aquosa utiliza-se, como representação gráfica a chamada isotérmica de extracção. Esta relaciona a concentração de soluto no extracto (fase orgânica) com a concentração do mesmo no refinado (fase aquosa). Na extracção por via física a regeneração do solvente e a recuperação do soluto, fazem-se por destilação. Poder-se-à dizer qual a vantagem de aplicar uma extracção por via física e não serealizar directamente uma destilação na fase aquosa de alimentação. Este facto deve-se a que o calor latente de vaporização da água é de cerca de 550 kcal/kg nas condições de pressão normal e o mesmo valor para a maior parte dos orgânicos é de cerca de 70 kcal/kg. No caso da destilação da fase de alimentação, ter-se-ia de destilar toda a água e ficaríamos na retorta com o soluto, uma vez que em geral é o composto menos volátil. Contudo, quando o soluto está na fase orgânica, este é em geral o composto mais volátil e como tal é o primeiro destilado a sair à temperatura mais baixa. Uma única fase Duas fases (condições de extracção) Fase org.: Etanol=17,5% DBBP=70,3% H2O=12,2% Fase aquosa: Etanol=16,8% DBBP=0,4% H2O=82,8% “Tie-line”- linha que une duas fases em equilíbrio. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 6 Extracção com reacção química Numa extracção líquido-líquido por via química o solvente é formado pelo: - extractante – composto que reage com o soluto pretendido - diluente – líquido orgânico utilizado para solubilizar o extractante. E por vezes pelo - modificador – em geral, um álcool que é utilizado para facilitar a solubilização do complexo metal-extractante na fase orgânica e evitar assim a formação indesejável de uma terceira fase. A extracção por via química pode ser representado pela estequiometria de uma reacção. Assim por exemplo para a extracção de iões metálicos (Mn+) tem-se: Maq n+ + nHR org MRn, org + nHaq + (4) em que HR representa a molécula de extractante e MRn o complexo resultante da reacção metal – extractante. Claro que um processo eficiente pressupõe uma elevada afinidade e selectividade do extractante para com a espécie a extrair. Por vezes a afinidade e a selectividade conseguem-se actuando sob as condições da fase aquosa (pH e tipo de meio – sulfatos, cloretos, nitratos). De facto a tendência que o metal a extrair tem para formar complexos com aniões existentes em solução (sulfatos, cloretos ou hidróxidos) pode ser determinante num processo real de extracção já que enquanto alguns extractantes reagem com o ião metálico na sua forma livre (ex: Fe3+), outros há que reagem com o metal sob a forma de complexo (ex: Fe(SO4)2 - ). Na extracção com reacção química a regeneração do solvente (stripping step) faz- -se por inversão da reacção. Extractantes O extractante deverá satisfazer os seguintes requisitos: 1- ter elevada afinidade e selectividade para o soluto a extrair; 2- ser barato; 3- ser pouco solúvel na fase aquosa; Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 7 4- ter boas propriedades de coalescência; 5- não ser volátil, nem tóxico, nem inflamável. É usual classificar-se os vários extractantes em extractantes catiónicos, extractantes aniónicos, extractantes de carácter quelante, extractantes de solvatação e extractantes iónicos. Extractantes de solvatação Tabela 1: Extractantes de solvatação Exemplos Utilização TBP Bu O P O: Bu O Bu O Separação de U / Pu Zr / Hf Fe de meio de cloretos M.I.B.K.* C O CH3 Bu Separação de Nb / Ta Zr / Hf * Este extractante é parcialmente miscível na fase aquosa, pelo que acaba por se ir perdendo na fase de refinado, não deve ser utilizado. O pH de extracção é para valores de pH = 1 – 5 e as perdas de extractante podem atingir 20 g/L. Extractantes catiónicos Deste grupo fazem parte os: - ácidos organofosfóricos: DEHPA (nome comercial) C4H9CH(C2H5) CH2O (ácido di(2-etilhexil) fosfórico) C4H9CH(C2H5) CH2O P = Oorg HO MEHPA (nome comercial) C4H9CH(C2H5) CH2O (ácido mono(2-etilhexil) fosfórico) HO P = Oorg HO Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 8 - ácidos carboxílicos Ácido Versático 10 R' OH R'' C C = Oorg CH3 R' e R'' – cadeia hidrocarbonosa. Em geral estes compostos são representados simplesmente por HR, em que H é o hidrogénio ácido que irá ser permutado pelo ião do metal, no decorrer do processo de extracção: Mn+ + n HRorg MRn, org + nH+ (5) Acontece, que quando o solvente está longe da saturação a reacção (5) pode ocorrer, com a forma abaixo: Mn+ + m HRorg (MRn.(m-n)HR)org + nH+ (6) Nos derivados dos ácidos organofosforados o ácido di(2-etilhexil) fosfórico (DEHPA) é o extractante mais utilizado a nível industrial sendo corrente o seu uso na extracção de zinco, urânio, cobalto, níquel, terras raras e vanádio. Na figura seguinte apresenta-se a influência do pH na percentagem de extracção de diversos metais com um solvente com 10% de DEHPA num diluente alifático, quando a razão do volume de fases aquosa e orgânica é de 1. A concentração dos catiões na fase aquosa inicial é da ordem dos 500 ppm. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 9 0 20 40 60 80 100 0 1 2 3 4 5 6 7 8 pH eq. % E xt ra cç ão Figura 3: Isotérmicas de extracção para o DEHPA. Extractantes aniónicos Estes extractantes cingem-se às aminas primárias (RNH2), secundárias (RR'NH) e terciárias (RR'R''N) com peso molecular entre 250 e 400. As aminas com peso molecular inferior a 250 são demasiado solúveis em fase aquosa e as de peso molecular próximo de 600 são difíceis de solubilizar mesmo em fase orgânica. A extracção com aminas envolve em geral a reacção do metal com o sal da amina que é previamente preparado. A formação deste sal dá-se por contacto entre a amina e uma solução de um ácido (clorídrico ou sulfúrico) de acordo com a seguinte reacção: RR'R''N org + HXaq RR'R''NHX org (7) em que R,R',R'' representam hidrocarbonetos ou o átomo de hidrogénio (aminas primárias R' e R'' ≡ H, enquanto que nas aminas secundárias só R''≡ H). Após a formação do sal de amina o processo de extracção prossegue por permuta aniónica: (RNH3)2SO4,org +2Fe(SO4) - 2,aq 2RNH3.Fe(SO4)2,org+SO4,aq 2- (8) Fe3+ + Zn2+ Cu2+ Co2+ Ni2+ Mn2+ Hg2+ Ca2+ Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 10 ou então através da extracção de um composto neutro: R3NH.Cl + FeCl3 R3NH.FeCl4 (9) As reacções 8 e 9 mostram que o processo de extracção com aminas envolve a reacção com o metal complexado pelo que a sua aplicação depende do tipo de espécies que existem em solução. A extracção de um metal M, que forma complexos aniónicos com um anião X- na fase aquosa, pode ser extraído recorrendo a um sal de amina do tipo R3NHX, solúvel na fase orgânica. A reacção de permuta pode ocorrer de acordo com: −−+−−+ ++ XMXNHRMXXNHR org3org3 (10) Exemplo: ( ) −−+−+− ++ Cl2CoClNHRClNHR2CoCl org 2 423org3 2 4 (11) O exemplo acima é ilustrativo do uso comercial dos sais de amina como extractantes, nomeadamente na separação do cobalto do níquel. Esta separação é possível em virtude do níquel ter pouca tendência para formar complexos com o Cl-, ao passo que o cobalto tem. No tratamento de resíduos industriais contendo vários catiões metálicos, quer como óxidos, hidróxidos ou sulfuretos é usual fazer uma lixiviação ácida em meio de cloretos, a qual poderá ser oxidativa se alguns dos metais estiverem como sulfuretos. Actuando deste modo, todos os catiões, que têm tendência a formar clorocomplexos, podem ser extraídos por extracção líquido-líquido, utilizando como extractante uma oxima. Os restantes ficarão em solução e poderão vir a ser separados ou por extracção ou por outro processo de separação. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 11 Extractantes de carácter quelante Na realidade estes compostos caracterizam-se por apresentarem um grupo doador de electrões capazes de formar complexos bidentados de coordenação muito específica com o metal a extrair. Estes complexos podem ser neutros oucarregados, podem não deslocar nenhum ião hidrogénio ou deslocar vários. Poder-se-à dizer que foi com o aparecimento do LIX64 em 1965, proposto pela General Mills, que se deu o grande salto de aplicação da extracção líquido-líquido aos metais considerados não estratégicos. Não deixa de ser curioso ilustrar, que várias Empresas Multinacionais, nos seus Centros de Investigação em vários países, investigaram ao longo das décadas de 60 e 70, a aplicação de derivados da molécula de salicilaldoxima como extractantes selectivos para o cobre em meio ácido, conforme se apresenta abaixo: OH C OH O (12) Ácido salicílico OH C H O OH C N H OH (13) Salicilaldeído Salicilaldoxima A molécula acima é solúvel em meio aquoso, contudo seria um bom agente quelante para vários catiões metálicos, cujos complexos precipitariam à medida que se fossem formando. Como na extracção com reacção química se pretende que os extractantes sejam imiscíveis na fase aquosa, por questões económicas, uma vez que o seu preço é elevado e também por questões de toxicidade ambiental, à molécula de Grupo oxima + H2N — OH Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 12 salicilaldoxima junta-se o grupo nonil, C9H19, o que a torna praticamente insolúvel na fase aquosa (c log 2_c log 5,1KlogD log 2 ++= (19) Analisando a equação acima conclui-se que a reacção traduzida pelo Equilíbrio 16 é favorecida pelo aumento do pH da fase aquosa e pelo aumento da concentração de extractante. Neste tipo de sistemas a concentração atingida na fase orgânica depende das condições iniciais da fase aquosa, concentração de soluto e pH. As condições de equilíbrio numa extracção dependem de três parâmetros, concentração de soluto na fase orgânica, y, concentração de soluto na fase aquosa, x, e pH pelo que é necessário uma representação gráfica tridimensional. Quando se utiliza o plano cartesiano para representar dados de equilíbrio a curva obtida é específica para aquela composição de fase aquosa inicial uma vez que y = f(x,H+). Contudo desde que o equilíbrio seja definido para uma fase aquosa com uma fase orgânica determinada, o sistema de equilíbrio fica a duas dimensões pois para estas condições y = f(x) uma vez que conhecendo x conhece-se automaticamente H+. Na figura seguinte apresentam-se duas curvas de equilíbrio típicas da extracção. A curva A corresponde a uma extracção muito eficiente e a curva B a uma extracção menos eficiente, neste caso não é viável recuperar todo o soluto da fase refinado. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 18 x, cMn+, aq y, c M n + , or g A B Figura 5: Isotérmicas de extracção para Mn+. Fase aquosa: Mn+=x g.L-1; pHinicial; Fase orgânica: % extractante; % diluente; % modificador. T(ºC). Após a fase de extracção, que é a fase de separação dos vários solutos, uma vez que idealmente só um irá ser extraído, ir-se-à proceder à purificação do solvente com a eliminação de impurezas e proceder-se-à à fase de regeneração. O coeficiente de distribuição em regeneração é a razão entre a concentração de soluto na fase aquosa e a concentração de soluto na fase orgânica. ( )orgHR.ZnR Zn s 2 2 aq c c D + = (20) pelo que o aq,Horg,)HR( * eqs c log 2c log 5,1KlogD log 2 ++−−= (21) Keq e * eqK não são iguais em virtude destas constantes de equilíbrio serem definidas em termos de concentrações e não de actividades. As correlações para De e Ds mostram que tudo o que favoreça De prejudica Ds e vice-versa. Este facto é relevante, pois ilustra bem que num processo de extracção líquido-líquido não se pode estudar separadamente a extracção da regeneração. Um outro conceito muito importante em extracção é a percentagem de extracção. A percentagem de extracção, E, é obtida multiplicando por 100 a quantidade de soluto, Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 19 que foi transferida para a fase de solvente, dividida pela quantidade total de soluto na fase aquosa, antes da extracção. A percentagem extraída é obviamente dependente da razão das quantidades das duas fases, isto é, de aq org V V , razão de volume das fases orgânica e aquosa e de De. + = V V 1 D D100 E e e (22) ou: ( ) − = V V E100 E De (23) Quando se estabelece que VV = então: e e D1 D100 E + = (24) e ( )E100 E De − = (25) Para o caso de VV ≠ , podemos considerar que: VxVx Vx E + = (26) sendo V o volume de orgânico, V o volume de aquoso, x ex as concentrações de soluto na fase aquosa e orgânica respectivamente e em equilíbrio. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 20 Neste gráfico assume-se que VV = , e que a concentração de extractante no diluente é igual para todos os metais (curvas). Figura 6: Extracção de alguns metais, de uma solução de sulfatos, por DEHPA, 10% em diluente alifático. Na curva acima, a percentagem de extracção E, está representada em função do pH, então: ( ) npHKlogE100logElogD log * e +=−−= (27) ( )E100 E De − = (28) A diferença do valor de pH obtida para uma percentagem de extracção de 50% para catiões diferentes, dá-nos uma ideia do grau de separação dos catiões com este extractante. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 21 Figura 7: Extracção de Fe3+, Cu2+, Cd2+, Zn2+, Ni2+ e Co2+ com ácido naftalénico, 10% em benzeno. Geralmente o valor máximo da extracção tem lugar a um valor de pH ligeiramente abaixo da formação do hidróxido do soluto em causa. Como já foi referido anteriormente os modificadores interactuam com as moléculas de complexo para evitar a formação de uma terceira fase, mas também com as moléculas do extractante livre diminuindo a sua concentração efectiva, isto é, a sua actividade. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 22 Exemplo: O C H N O C9H19 H H O H R (29) Molécula de Molécula de álcool extractante P50 (modificador) Devido a esta interacção a actividade do extractante é diminuída. Com base nas correlações estabelecidas para De e Ds, devido à interacção extractante-modificador é possível interpretar as curvas de equilíbrio abaixo obtidas para extracções (Figura 8), em que a alimentação era de 6,0 g/L Cu e pH = 2,0 e os solventes ensaiados continham várias quantidades de modificador (nonilfenol). As curvas de equilíbrio para as regenerações dos solventes acima descritos foram realizados com uma fase aquosa com 150 g/L H2SO4 e 30 g/L Cu (Figura 9). Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 23 Interpretação de curvas de equilíbrio em termos da expressão dos coef. de distribuição Figura 8: Curvas de extracção. Figura 9: Curvas de regeneração. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 24 Pelo exposto podemos concluir que a capacidade de um solvente para extrair um soluto, depende não só da sua capacidade mas também da facilidade de recuperação do soluto da fase orgânica carregada. ( ) ( )L/gsolventedoCapacidade oregeneraçãapóssolutode.ConcL/gsolventedoCapacidade útil.Cap −= (30) Pelo exposto se conclui que quando numa extracção com reacção química a concentração de soluto na fase orgânica, y, é função da concentração de x na fase aquosa e de outro parâmetro, que está intrinsecamente dependente da variação de x, o equilíbrio que deveria ser traduzido a três dimensões, conforme se ilustra através da figura 10, pode ser facilmente interpretado em termos de diagramas bidimensionais conforme se explicita através das figuras 11 e 12. A limitação dos equilíbrios apresentados nestas últimas figuras é o facto de eles só serem válidos para condições das fases aquosas utilizadas na sua determinação experimental. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 25 0 1 2 3 0 1 2 3 4 Cuaq (g/L) C u o rg ( g/ L) Figura 10: Curvas de equilíbrio para o sistema Cu/Lix 64N (10% em querosene) para vários teores de H2SO4. H2SO4 1 g/L 2 g/L 3 g/L 4 g/L 5 g/L 6 g/L 7 g/L Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 26 Figura 11: Isotérmicas de extracção. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 27 Figura 12: Isotérmicas de regeneração. Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 28 Determinação experimental de curvas de equilíbrio em sistemas de extracção líquido-líquido. Metodologia: 1. Agitam-se volumes conhecidos de fases aquosas e orgânicas durante algum tempo, pára-se a agitação e separam-se as fases. De seguida deve-se filtrar cada uma das fases e analisar os solutos distribuídos pelas fases, incluindo impurezas. 2. Usando relações de volumes das fases nos intervalos entre 5aq/1org e 1aq/5org, consegue-se, com 10 pontos, traçar curvas de equilíbrio específicas para os sistemas em estudo. 3. É importante garantir que o tempo usado na agitação é o suficiente para se atingir o equilíbrio, alguns 20 minutos ou algumas horas. 4. Para além do estudo de equilíbrio é importante ter uma ideia da cinética da extracção. Para o efeito deve-se agitar uma relação de fases aquosa/orgânica de 1/1, durante 15 s, 30 s, 1 até 30 minutos e depois 24 horas, afim de nos assegurarmos, qual o tempo necessário parase atingir o equilíbrio. Se possível realizar estes ensaios quer com a fase aquosa como dispersa, quer com a fase orgânica como dispersa. Extracção contínua em contra-corrente Cálculo do nº de andares Dados - a curva de equilíbrio do sistema – y=f(x); y- conc. soluto na fase orgânica, x- conc. soluto na fase aquosa. - Concentrações iniciais e finais do soluto em ambas as fases- x0, y0, xf, yf Considerar que as fases são imiscíveis e que não há variação de caudais. 1º - efectuar um balanço global para determinar a razão de fases (R) Qaq.× x0 + Qorg.y0 = Qaq.× xf + Qorg× yf (31) então: 1 2 n-1 n x0 yf x1 y2 y3 x2 yn-1 xn-2 xn-1 yn xf y0 Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 29 f0 0f org aq xx yy Q Q R − −== (32) 2º - recorrendo à curva de equilíbrio determinar a concentração de soluto na fase aquosa (x1) que está em equilíbrio com a fase orgânica de final (yf): x1=f -1(yf) (33) 3º - efectuar um balanço de massa ao tanque 1 para determinar y2 )xx(Ryy 1 _ 0 _ f2 = (34) 4º - determinar x2 : x2=f -1(y2) (35) 5º - comparar x2 com xf se x2≤ xf - dois tanques são suficientes. se x2≥ xf – continuar os cálculos ou seja fazer um balanço mássico ao segundo tanque para determinar y3. Repetir as etapas 4 e 5 até que xi≤ xf. Na figura seguinte ilustra-se o cálculo nº de andares necessários a uma etapa de extracção por recurso ao método gráfico. 0 5 10 15 20 Maq (g.L-1) M or g ( g. L-1 ) Figura 13: Representação gráfica do nº de andares necessário para extrair o soluto M com o solvente Y. xi = 20 g.L-1; xf = 0,2 g.L-1. Recta operatória: (xi, yf ) e (xf, yi ) Curva de equilíbrio valores experimentais Nº de andares - 3 Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 30 Os fluxos em contra-corrente das duas fases são os ideais para aumentarem a transferência entre as fases e permitirem que se atinjam valores de concentração muito baixos na fase que está a ceder o soluto, valores esses ditados pelo equilíbrio. Cinética da extracção Na selecção de um solvente há que efectuar, para além dos estudos de equilíbrio, estudos cinéticos. Com estes pretende-se determinar: 1º - o tempo que o sistema leva a atingir o equilíbrio – importante para verificar se é possível utilizar esse solvente. Em caso afirmativo, permitirá, ainda, escolher o equipamento mais adequado à implementação do processo de extracção. 2º - a lei cinética e respectivas constantes - estes dados são essenciais para se poder modelar/simular um processo real de extracção. Na figura seguinte são apresentados dados experimentais relativos a um ensaio cinético. Como se pode verificar tal processo apresenta uma cinética rápida, ou seja o equílibrio atinge-se em poucos minutos (~2 min.). 0 2 4 6 8 0 5 10 15 t (min) C M n+ ( g/ L) Figura 14: Estudo cinético para a extracção de M. Fase aquosa: CMn+, pH; Fase orgânica - % extractante, % diluente, % modificador. Razão de fases= 1/1, T(ºC). Nos processos de extracção líquido-líquido a nível contínuo são normalmente utilizadas quer as colunas quer os misturadores-decantadores. As colunas são utilizadas Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 31 quando o processo tem uma cinética rápida, isto é o equilíbrio atinge-se em menos de um minuto. Dentro das colunas destacam-se as colunas de enchimento e as colunas agitadas (RDC, ARDC, Kühni, Oldshue-Rushton e colunas pulsadas com e sem enchimento), as primeiras porque são fáceis de operar e têm baixos custos operatórios e as últimas porque a agitação favorece o processo de transferência de massa. Equipamento em Extracção Líquido-Líquido 1. Esquema da Instalação Piloto do D.E.Q., processo de Extracção Líquido- Líquido (coluna de enchimento e misturadores/decantadores) – Figura 15. 2. Ilustração de colunas do tipo Rotating Disk Contactor. 3. Ilustração de uma coluna do tipo Kúhni. 4. Ilustração de um Misturador-Decantador com controlo da interface. 5. Ilustração de um extractor centrífugo usado em Extracção Líquido-Líquido. 6. Misturadores Estáticos (Sulzer Mixer). Capítulo 6 – Extracção líquido-líquido 32 Na figura seguinte apresenta-se o esquema geral de uma instalação piloto (Inst. Sup. Técnico – Grupo de Hidrometalurgia e Ambiente) utilizada para testar a extracção de ferro a nível contínuo. Figura 15: Esquema geral da instalação piloto. solução de H2SO4 Fase orgânica Lavagem F. orgânica Reextracção (misturadores-decantadores) Fase orgânica Saída F. aquosa Resistências eléctricas Fase aquosa Resistências eléctricas vidro viton viton aço inox teflon Pormenor do local de recolha de amostras: Fase contínua Fase dispersa Coluna com enchimento (anéis de Raschig)