Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

2
CURSO: Direito
SÉRIE: 4º Semestre 
DISCIPLINA: Teoria das Penas
CARGA HORÁRIA SEMANAL: 1,5 horas/aula
CARGA HORÁRIA SEMESTRAL: 30 horas/aula
PENA DE MULTA
Conceito
A pena de multa é uma espécie de sanção penal patrimonial que consiste no pagamento de quantia em dinheiro em favor do Fundo Penitenciário Nacional.
Sistema Bifásico de Aplicação
Como estudado, a pena privativa de liberdade é definida a partir de um critério trifásico, ou seja, são três fases distintas que deve o juiz passar para chegar à pena adequada. A pena de multa, por sua vez, é composta de um sistema bifásico, ou seja, o juiz irá atravessar duas fases para chegar ao seu valor no caso concreto. O sistema é de dias-multa, ou seja, primeiro se define o número de dias-multa e depois o seu valor. Esse nome existe porque, antigamente, o não cumprimento da pena de multa era convertida em pena privativa de liberdade e a conversão se dava pela quantidade de dias-multa restantes.
A primeira etapa ou fase é a definição da quantidade de dias-multa, em que o juiz irá definir um número entre 10 e 360 dias-multa. O que o juiz leva em conta para definir a quantidade de dias-multa? As mesmas coisas que leva em consideração para definir a pena privativa de liberdade.
Depois que o juiz define a quantidade de dias multa, ele vai para a segunda fase, em que irá decidir o valor de cada dia-multa, que variará entre 1/30 de salário mínimo a 5 salários mínimos. Logo, será a multiplicação do número de dias multa (10 a 360) pelo seu valor (1/30 a 5 salários mínimos) que determinará o valor da multa a ser pago pelo condenado.
Multa Ínfima
E se a multa tiver um valor irrisório, ou seja, for muito baixa, ela deve ser cobrada? Claramente ela será pouco efetiva, pois gastará o Estado muito mais cobrando do que o que efetivamente receberá. Porém, o que se deve ter em mente é que o intuito dessa multa não é arrecadação para os cofres públicos, mas sim sancionar, ou seja, a multa tem caráter de pena e deve sempre ser cobrada.
Pagamento
O condenado deve pagar a sua pena de multa em 10 dias após o trânsito em julgado da sua condenação. 
É possível dividir a pena de multa? Sim, conforme determina o art. 50, caput, CP, conforme as circunstâncias e de forma a ser determinada pelo próprio magistrado.
É possível descontar a multa da folha de pagamento do indivíduo? Sim, entre 10 e 25% do valor da folha, conforme art. 168 da LEP.
E se não pagar?
Até a Constituição Federal de 1988, a multa era convertida em pena privativa de liberdade. Desde então, ela será executada como dívida de valor perante o juiz da execução penal, aplicando-se as normas relativas às dívidas ativas da Fazenda Pública. 
Em outros termos: primeiramente, havia a conversão em pena privativa de liberdade. Depois da CF/1988, a Fazenda Pública deveria cobrar a multa inadimplida através de uma execução fiscal, perdendo a pena seu caráter criminal e se tornando uma dívida. Com o Pacote Anticrime, atualmente, o Ministério Público cobra a dívida perante o juízo da execução criminal, mas com a regra da dívida ativa da Fazenda Pública.
Art. 51. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será executada perante o juiz da execução penal e será considerada dívida de valor, aplicáveis as normas relativas à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição. 
É possível que o MP proponha medidas assecuratórias no decorrer do processo penal visando o futuro adimplemento da pena de multa, como o arresto ou sequestro de bens e ativos do réu.
Aspectos Finais
Não cabe habeas corpus contra a decisão que condene o sujeito apenas à pena de multa ou em relação aos processos em que a multa seja a única pena cominada, porque o HC é instrumento que visa a resguardar a liberdade de locomoção, o que não está em risco diante de uma pena de multa, haja vida a vedação da conversão da multa em pena privativa de liberdade. 
Por fim, sendo uma pena como qualquer outra, gera reincidência normalmente e suspende os direitos políticos.
É um instituto antigo que existe desde o Império Romano, de cunho patrimonial, com seu uso evita-se a aplicação da pena de prisão de curta duração, indo ao encontro do princípio da economia processual, evitando despesas e gerando lucro para o Estado. Consiste no pagamento ao Fundo Penitenciário a quantia fixada na sentença baseada no valor do salário mínimo ao tempo do fato. O Código Penal prevê três penas: a pena privativa de liberdade, a pena restritiva de direito e a pena de multa, que são consideradas pela doutrina como efeitos penais principais da sentença penal condenatória.
O diploma penal brasileiro adotou o critério do DIA-MULTA para aplicação da multa ao condenado.
O juiz considerando a natureza da infração e principalmente a condição econômica do condenado poderá aplicar a ele de 10 (dez) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multas, tendo cada dia-multa o valor de 1/30 avos a 5 (cinco) vezes o maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, podendo esse valor ser aumentado em 3 (três) vezes, a considerar a condição econômica do condenado. Realizando um cálculo matemático podemos concluir que a maior multa que pode ser aplica no Brasil gira em torno do valor de 5.400 (cinco mil e quatrocentos) salários-mínimos, pois se o juiz aplicasse o patamar máximo previsto em lei, resultaria no seguinte resultado algébrico: 360. 5. salários- mínimos. 3 = 360. 15 . salários-mínimos = 5.400 (cinco mil e quatrocentos) salários-mínimos. Ao tempo de hoje (ano de 2.024) perfaz o valor máximo em reais de R$7.624.800 (sete milhões, seiscentos e vinte e quatro mil e oitocentos reais), haja vista que o valor do mínimo está em mil quatrocentos e doze reais.
Consoante ao artigo 49 do Código Penal, in verbis: “ A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa. Será, no mínimo, de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. § 1º - O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário. § 2º - O valor da multa será atualizado, quando da execução, pelos índices de correção monetária “, podemos concluir que há dois momentos a serem considerados pelo juiz na aplicação da pena de multa.
No primeiro momento o juiz analisará quantos dias-multa vai aplicar, que variam de 10 (dez) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa, e para isso tomará como base as condições individuais dos condenados relativas às circunstâncias judiciais previstas no artigo 59 do Código Penal, in verbis: “O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime.”
Em um segundo momento o juiz fixará o valor do dia-multa que não pode ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário, tomando como base as condições econômicas dos condenados.
Como condição especial o juiz pode aumentar até o triplo a considerar a condição econômica do condenado, como preceitua o artigo 60, in verbis do Código Penal: “Na fixação da pena de multa o juiz deve atender, principalmente, à situação econômica do réu.§ 1º - A multa pode ser aumentada até o triplo, se o juiz considerar que, em virtude da situação econômica do réu, é ineficaz, embora aplicada no máximo.
Devemos ressaltar que esses números citados nos dois momentos são as regras gerais previstas no Código Penal, porém existem exceções em leis extravagantes (fora do código) , como exemplo a Lei de Drogas (lei 11.343/2.006) que prevê em seu bojo a aplicação variável de 500 (quinhentos) a 1500 (mil e quinhentos) dias-multa, podendo o valor ser aumentado até 10 (dez) vezes levando-se em conta a fortuna do condenado. Em respeito ao princípioda especialidade (lei especial derroga a lei geral) nos crimes relativos à lei de drogas aplica-se a regra estipulada na lei de entorpecentes que é uma lei especial em relação ao nosso diploma penal. Há exceções semelhantes na Lei dos Crimes Contra o Sistema Financeira (lei 7492/1.986), também chamada pela doutrina como “Lei do Colarinho Branco”; na lei que trata da Propriedade Imaterial (lei 9279/96), onde também estão previstas as possibilidades do aumento do valor da multa de até 10 (dez) vezes a considerar a fortuna do condenado.
Desprezam-se da pena de multa as frações de moeda corrente, pois desde o mês de julho do ano de 1.994, a moeda corrente brasileira é o Real, mas a regra vale da mesma maneira: nas penas de multa, não serão considerados os centavos que venham a surgir, sendo considerado apenas o valor correspondente ao número inteiro.
Não podemos confundir a Multa com a Pena de Prestação Pecuniária (uma das penas restritivas de direitos) que é o pagamento de 1 (um) a 360 (trezentos e sessenta) salários mínimos para a vítima ou para entidades nos crimes vagos (quando a vítima é a coletividade).
A Multa Substitutiva prevista no § 2º do artigo 60 do Código Penal, in verbis: “ A pena privativa de liberdade aplicada, não superior a 6 (seis) meses, pode ser substituída pela de multa, observados os critérios dos incisos II e III do art. 44 deste Código.” ;é pena alternativa que substitui a prisão quando a pena privativa de liberdade aplicada for igual ou inferior a seis meses, entretanto, a multa substitutiva não é pena restritiva de direitos, por isso, tem outra natureza, não tendo como característica a conversibilidade em pena privativa de liberdade, pois a multa se não paga nunca se transformaria em prisão, como é o caso da pena restritiva de direito, que se não cumpridas, convertem-se em prisão. Já a multa, seja ela a multa-pena ou a multa substitutiva, ambas se não forem pagas transformam-se em dividas de valor a serem executadas pelo Juiz da Execução e cobradas sob as regras da lei fiscal.
Importante observarmos a ressalva do artigo 60 acima citado, implicando que se devem respeitar os critérios previstos no artigo 44 do Código Pena (inciso II e III) que se referem às análises dos requisitos subjetivos de aplicação da pena restritiva de direitos ao condenado, relativos à sua reincidência em crime doloso e às circunstâncias judiciais de culpabilidade, como os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado e motivos do crime (artigo 59 do Código Penal), desde que indicarem suficientes para o caso concreto.
Não é pacifico o entendimento sobre o prazo de pagamento da multa pelo condenado, pois o Código Penal prevê expressamente que a multa deve ser paga, voluntariamente, no prazo de 10 (dez) dias a contar do trânsito em julgado da sentença condenatória; entretanto, o artigo 164 da Lei de Execução Penal (Lei 7.210/1984)é mais benéfico, prevendo in verbis: “Extraída certidão da sentença condenatória com trânsito em julgado, que valerá como título executivo judicial, o Ministério Público requererá, em autos apartados, a citação do condenado para, no prazo de 10 (dez) dias, pagar o valor da multa ou nomear bens à penhora.” Como o artigo 164 da Lei de Execução Penal é mais benéfico, especial e posterior, deve prevalecer a sua aplicação sobre a previsão do estatuto penal brasileiro.
Após o trânsito em julgado da sentença condenatória, se a pena de multa não for paga consoante determinação legal, a sentença condenatória valerá como título executivo, e a multa será considerada dívida de valor, não se admitindo a conversão em pena privativa de liberdade, mesmo se for pena de multa substitutiva da pena privativa de liberdade que tem caráter de pena alternativa. Além de a multa ser considerada dívida de valor, preceitua a lei de execução que para cobrança serão aplicadas às normas relativas à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concernem as causas interruptivas e suspensivas da prescrição.
O pacote anticrime, lei 13.964/2019, sedimentou o entendimento do Supremo Tribunal Federal com a previsão legal que a multa será executada pelo Ministério Público na Vara de Execuções Penais, findando a celeuma que apregoava a possibilidade de execução em Vara da Fazenda Pública.
A lei 7.209/1984 também modificou a expressão “multa de” para apenas "multa", além de cancelar às expressões monetárias de dinheiro antigo, valendo essa mudança tanto para o Código Penal como para leis extravagante, por exemplo, para as Contravenções Penais.
Além da destinação da multa ao fundo penitenciário, é permitido aos Estados criarem fundos próprios para gestão das multas aplicadas pela Justiça Estadual.
A fixação da pena de multa pode ser aplicada isoladamente como pena principal, alternativamente ou cumulativamente com as penas privativas de liberdade, além de ser prevista a substituição da pena privativa de liberdade por multa nas condenações a pena de prisão não superior a seis meses.
O Superior Tribunal de Justiça mantém em vigor a tese no sentido que para o cálculo do número de dias-multa deve-se levar em conta a culpabilidade do réu consoante às circunstâncias judiciais previstas no artigo 59 do Código Penal, havendo divergência doutrinária sobre esse tema.
O pagamento da multa pode ser feito em parcelas por requerimento do condenado e a critério do juiz. O condenado poderá pagar a multa com desconto em folha caso ele esteja solto e trabalhando, desde que fora aplicada isoladamente, cumulativamente com a pena restritiva de direitos ou quando concedida a suspensão condicional da pena; não podendo haver desconto em folha se a pena de multa for aplicada cumulativamente com a pena privativa de liberdade (pena de prisão).
O artigo 168, inciso I da Lei de Execuções Penais limita o desconto em folha do pagamento do condenado, não podendo ultrapassar o valor máximo de um quarto e o valor mínimo de um décimo. Segundo o entendimento majoritário da doutrina não é possível a isenção do pagamento da multa fundada em situação precária do condenado, haja vista não haver previsão legal. Entretanto, fica suspensa a execução da multa ao condenado que sobrevier doença mental. Como a multa é uma sanção penal, mesmo se for de valor pequeno tem que ser executada. A hipossuficiência econômica do condenado é levada em conta para extinção da punibilidade, mesmo sem o pagamento da pena de multa, nos casos em que a pena privativa de liberdade é aplicada cumulativamente com a pena de multa, ou seja, o não pagamento da multa não impede a extinção da punibilidade com relação ao crime que gerou a condenação.
A PRESCRIÇÃO DA PENA DE MULTA: é um tema controverso na doutrina com correntes diversas.
1ª) Prescrição da Pretensão Punitiva (artigo 114 do CP):
a) A pena de multa prescreverá em 2 (dois) anos quando for a única cominada ou aplicada, isto é, quando for prevista de forma autônoma ou principal.
b) no mesmo prazo do crime quando a pena de multa for uma pena alternativa (ou) ou cumulativa (e).
Observação: um mnemônico que ajuda na memorização é pensar que a multa se estiver de mão dadas com a pena de prisão do crime, aplicar-se-ia multa a mesma regra de prescrição do crime. Se a pena de multa estiver sozinha, a prescrição seria de 2 (dois) anos.
2ª) Prescrição da Pretensão Executória (há dois entendimentos)
a) A considerar a multa uma dívida de valor, acompanharia a lei fiscal com prazo prescricional de 5 (cinco) anos previstos para as execuções fiscais.
a1) A pena de multa prescreveria em 2 (dois) anos se for a única aplicada, se for prevista de forma cumulativa ou alternativa à pena de prisão, aplicar-se-ia multa a mesma regra de prescrição do crime. (idem o uso do mnemônico).
Com referência aos concursos de crimes, por perfilho ao artigo 72 do Código Penal, in verbis:” No concurso de crimes, as penas de multa são aplicadas distinta e integralmente”. Isto é, adota-se a regra do cumulo material com relação as penas de multa (somando-as) apenas no concurso formal e material, deixando de fora o crime continuado, entendimentoesse agasalhado pela jurisprudência:
. STJ
Pena de multa – continuidade delitiva – inaplicabilidade do art. 72 do CP"1.A jurisprudência desta Corte assentou compreensão no sentido de que o art. 72 do Código Penal é restrito às hipóteses de concursos formal ou material, não sendo aplicável aos casos em que há reconhecimento da continuidade delitiva. Desse modo, a pena pecuniária deve ser aplicada conforme o regramento estabelecido para o crime continuado, e não cumulativamente, como procedeu a Corte de origem." AgRg no AREsp 484.057/SP
Há entendimento jurisprudencial no sentido de que o inadimplemento do pagamento da multa não impede a extinção da punibilidade do apenado quando já cumprida cumulativamente a pena privativa de liberdade que lhe fora imposta ou cumprida a penas substitutiva; porém caso se comprove nos autos que o condenado possua capacidade econômica de adimplir à multa e não o faz por livre deliberação, nesse caso, não haverá extinção da punibilidade, como podemos observar no trecho da ementa deste julgado do Superior Tribunal de Justiça:
Ementa Oficial
RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RITO DOS RECURSOS REPETITIVOS. EXECUÇÃO PENAL. REVISÃO DE TESE. TEMA 931. CUMPRIMENTO DA SANÇÃO CORPORAL. PENDÊNCIA DA PENA DE MULTA. CUMPRIMENTO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE OU DE RESTRITIVA DE DIREITOS SUBSTITUTIVA. INADIMPLEMENTO DA PENA DE MULTA. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. COMPREENSÃO FIRMADA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NO JULGAMENTO DA ADI N. 3.150/DF. MANUTENÇÃO DO CARÁTER DE SANÇÃO CRIMINAL DA PENA DE MULTA. PRIMAZIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA EXECUÇÃO DA SANÇÃO PECUNIÁRIA. ALTERAÇÃO LEGISLATIVA DO ART. 51 DO CÓDIGO PENAL. DISTINGUISHING. IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO DA PENA PECUNIÁRIA PELOS CONDENADOS HIPOSSUFICIENTES. NOTORIEDADE DA EXISTÊNCIA DE UMA EXPRESSIVA MAIORIA DE EGRESSOS SEM MÍNIMOS RECURSOS FINANCEIROS. RESSOCIALIZAÇÃO DO PRESO. DIFICULDADES DE REALIZAÇÃO DO INTENTO CONSTITUCIONAL E LEGAL ANTE OS EFEITOS IMPEDITIVOS À CIDADANIA PLENA DO EGRESSO. EXCESSO DE EXECUÇÃO. PRESUNÇÃO RELATIVA DE VERACIDADE DA AUTODECLARAÇÃO DE POBREZA. RECURSO NÃO PROVIDO...20) Recurso especial não provido para preservar o acórdão impugnado e fixar a seguinte tese: O inadimplemento da pena de multa, depois de cumprida a pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos, não obsta a extinção da punibilidade, ante a alegada hipossuficiência do condenado, salvo se diversamente entender o juiz competente, em decisão suficientemente motivada, que indique concretamente a possibilidade de pagamento da sanção pecuniária.
(REsp n. 2.090.454/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Terceira Seção, julgado em 28/2/2024, DJe de 1/3/2024.)
SISTEMA DIAS-MULTA
O quantum da pena de multa é determinado pelo sistema de dias-multa (uma criação do Código Criminal do Império do Brasil de 1830, hoje generalizada nas legislações penais). 
Assim, primeiramente o juiz fixa a quantidade de dias-multa, e, depois, fixa o valor de cada dia multa.
O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário. Ademais, deve ser levada em consideração a situação econômica do réu.
A fixação da pena por sistema dias-multa pode ser sintetizada da seguinte forma:
Disciplina do pagamento da multa
A disciplina do pagamento da multa encontra disposições diversas no Código Penal (art. 50) e na Lei de Execuções Penais (art. 164).
Apesar de ambas disporem sobre um prazo de 10 dias para o pagamento, o Código Penal tem como termo inicial o trânsito em julgado e a Lei de Execuções Penais após a citação do condenado, precedida por extração da certidão da sentença e requerimento do Ministério Público.
Parcela majoritária entende que a Lei de Execuções Penais deve ser aplicada em função de ser norma mais favorável ao réu.
É possível que a pena seja descontada diretamente da remuneração do condenado, exceto quando tiver sido aplicada cumulativamente com a pena privativa de liberdade.
Além disso, tem-se que a pena de multa não poderá incidir sobre recursos indispensáveis ao sustento do condenado e de seu núcleo familiar.
A EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA
A pena de multa é uma espécie de sanção penal, que possui natureza patrimonial e que, na grande maioria das vezes, é cominada no preceito secundário da norma penal (pena cominada) de forma isolada ou cumulada com a pena de prisão (pena corporal).
A Constituição Federal prevê no art. 5º, inciso XLVI, c, que a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos.
Tal pena consiste no pagamento de determinado valor em dinheiro em favor do Fundo Penitenciario Nacional, fundo esse que foi instituído pela Lei Complementar nº 79/1994 para os fins de custear o sistema de cumprimento de pena no país.
Os Estados membros podem instituir, mediante a edição de legislação própria e específica, fundo estadual para a gestão das multas criminais aplicadas pela Justiça Criminal Estadual.
O Fundo Estadual foi criado na grande maioria dos Estados membros da Federação a exemplo dos Estados de São Paulo (Lei Estadual nº 9.171/1995), Paraná (Lei Estadual nº 17.140/2012), Goiás (Lei Estadual nº 17.616/2012) e Minas Gerais (Lei Estadual nº 11.402, de 14 de janeiro de 1994).
CRITÉRIOS DE FIXAÇÃO DA PENA DE MULTA
A fixação da pena de multa pode ocorrer como sanção principal, alternativa ou cumulativa com a pena corporal (prisão), podendo, também, ser aplicada como substituição à pena de prisão.
Segundo o disposto do art. 49 do Código Penal, a tarifação do quantum obedecerá o critério do dia-multa. Vejamos o disposto no Código Penal:
Art. 49 - A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa. Será, no mínimo, de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. § 1º - O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário. § 2º - O valor da multa será atualizado, quando da execução, pelos índices de correção monetária.
Com a leitura do disposto do art. 49 do Código Penal, conclui-se que o magistrado deve passar por duas etapas para se chegar ao quantum devido a título de pena de multa: a) primeiramente se fixa o número de dias-multa e b) depois arbitra-se o valor do dia-multa.
Analisando o disposto do art. 49 do Código Penal, temos que a fixação do número de dias-multa não poderá ser inferior a 10 (dez) e nem superior a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.
Há divergência doutrinária e jurisprudencial acerca da possibilidade do juiz levar em consideração, na primeira etapa do método de fixação dessa pena, a culpabilidade do réu. Vigora no Superior Tribunal de Justiça a tese de que o número de dias-multa deverá levar em conta a culpabilidade do réu, consoante o disposto do art. 59 do Código Penal (STJ – RESP 1099342/PR).
Já, quando do arbitramento do valor do dia-multa, o magistrado deve compreendê-lo entre os limites de 1/30 (um trigésimo) e 5 (cinco) vezes o valor do maior salário-mínimo vigente no tempo do fato. Nesse momento o juiz também deverá observar a situação econômica do condenado.
O juiz poderá aumentar até o triplo do valor total aferido se verificar que tal é ineficaz para a repressão e prevenção do delito diante da situação econômica do réu, face o disposto do art. 60, § 1º, do Código Penal.
Assim, se o crime for cometido neste ano de 2017, levando em consideração o atual valor do salário-mínimo vigente de R$ 937,00 (Decreto 8.948/2016) o magistrado poderá fixar o piso de 10 (dias-multa) vezes 1/30 de 937,00 valor que totaliza R$ 312,33 e o teto de 360 (dias-multa) vezes 5 vezes R$ 937,00 vezes 3, valor que totaliza o montante de R$ 5.059.800,00.
Cumpre ressaltar que quando se tratar de delito praticadocontra o sistema financeiro nacional (art. 33 da Lei 7.492/1986); contra a propriedade imaterial (art. 197 da Lei 9.279/1996) e contra a Lei de Drogas (art. 43 da Lei 11.343/2006), o magistrado poderá elevar o valor dessa pena até o décuplo do máximo previsto.
PAGAMENTO DA MULTA
O pagamento voluntário poder se feito pelo condenado no prazo de 10 (dez) dias contados do trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Esse prazo começa a fluir, a bem do devido processo legal, a partir da intimação (notificação) do apenado para realizar tal ato.
O magistrado poderá, de acordo com as circunstâncias, a requerimento do condenado, permitir que o pagamento seja realizado em parcelas mensais, iguais e sucessivas, ouvindo o Ministério Público previamente à decisão.
A cobrança dessa pena poderá ser realizada por meio do desconto em folha de pagamento caso o condenado esteja em liberdade e exercendo trabalho devidamente registrado, desde que o valor não atinja os recursos indispensáveis ao sustento do devedor e de seus familiares, segundo os ditames do princípio da menor onerosidade e o da preservação do patrimônio mínimo como corolário da dignidade da pessoa humana.
Essa situação poderá ocorrer: a) quando a pena de multa foi aplicada isoladamente; b) quando aplicada cumulativamente com pena restritiva de direitos; c) quando o condenado à pena privativa de liberdade obtiver o direito de suspensão condicional da pena; d) quando o condenado já cumpriu integralmente a pena privativa de liberdade aplicada; e) quando o condenado for beneficiado com o livramento condicional.
Vejamos o que giza o Código Penal:
Art. 50 - A multa deve ser paga dentro de 10 (dez) dias depois de transitada em julgado a sentença. A requerimento do condenado e conforme as circunstâncias, o juiz pode permitir que o pagamento se realize em parcelas mensais. § 1º - A cobrança da multa pode efetuar-se mediante desconto no vencimento ou salário do condenado quando: a) aplicada isoladamente; b) aplicada cumulativamente com pena restritiva de direitos; c) concedida a suspensão condicional da pena. § 2º - O desconto não deve incidir sobre os recursos indispensáveis ao sustento do condenado e de sua família.
O art. 168, I, da LEP dispõe que o limite máximo de desconto será o de ¼ e o mínimo de 1/10 da remuneração auferida pelo condenado.
ISENÇÃO DA PENA DE MULTA DIANTE DAS CONDIÇÕES ECONÔMICAS DO CONDENADO
Hodiernamente se discute sobre a possibilidade de o juiz da execução penal isentar o condenado do pagamento da pena de multa que lhe foi imposta diante da precariedade de sua condição financeira. O entendimento prevalecente na doutrina e na jurisprudência é o de que não é possível a isenção fundada na situação econômica precária do réu por ausência de previsão legal, consoando decidiu o Superior Tribunal de Justiça no RESP 722561/RS.
EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA
Ocorrerá a execução dessa pena quando o condenado, embora notificado para efetuar o pagamento voluntário da pena de multa imposta, não o realiza no prazo de 10 dias.
A execução será coercitiva.
O art. 51 do Código Penal, após a alteração dada pela Lei nº 9.268/1996, passou a considerar que transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será considerada dívida de valor, aplicando-se-lhe as normas da legislação relativa à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive, no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição.
É, portanto, vedado converter a pena de multa em pena privativa de liberdade.
Quanto ao procedimento e legitimidade para deflagrar o processo de cobrança (execução) da pena de multa, os tribunais superiores tem asseverado que a multa criminal deve ser executada por meio da adoção dos procedimentos próprios da execução fiscal no juízo da Vara de Fazenda Pública e compete às Procuradorias da União (AGU) ou dos Estados (AGEs) promoverem sua cobrança.
SUSPENSÃO DA EXECUÇÃO DA MULTA
O art. 52 do Código Penal reza que é suspensa a execução da pena de multa, se sobrevém ao condenado doença mental.
MULTA DE VALOR REDUZIDO
Quando o valor da pena de multa aplicada for pequeno há posicionamento doutrinário, minoritário, no sentido de que não se deve promover sua cobrança judicial. Esse posicionamento não coaduna com o que vem decidindo as cortes superiores que consideram a pena de multa espécie de sanção penal e, por isso, deve ser adimplida pelo condenado.
PRESCRIÇÃO DA PENA DE MULTA
Quanto à prescrição dessa modalidade de pena, é necessário diferenciar a prescrição da pretensão punitiva da prescrição da pretensão executória, ambas incidentes à espécie punitiva.
Relativamente à prescrição da pretensão punitiva (hipótese em que a sanção pecuniária ainda não transitou em julgado para ambas as partes), é pacífica a aplicação do art. 114 do Código Penal. Nesse caso, incidem as causas impeditivas e interruptivas inseridas nos arts. 116, I e II, e 117, I a IV, do mesmo diploma. Dispõe o art. 114 do CP:
Art. 114. A prescrição da pena de multa ocorrerá: I – em dois anos, quando a multa for a única cominada ou aplicada; II – no mesmo prazo estabelecido para a prescrição da pena privativa de liberdade, quando a multa for alternativa ou cumulativamente cominada ou cumulativamente aplicada.
Por outro, tratando-se da prescrição da pretensão executória (hipótese em que a sentença penal condenatória já transitou em julgado para o Ministério Público ou para o querelante e também para a defesa), há dois posicionamentos doutrinários e jurisprudenciais sobre prazo prescricional:
Primeiro: É de cinco anos, já que a L. 9.268/1996, alterando o art. 51 do Código Penal, estabeleceu que a pena de multa, para fins de execução, fosse considerada dívida de valor.
Segundo: A pena de multa prescreve em dois anos se for a única aplicada. Caso, porém, seja imposta conjuntamente com pena privativa de liberdade, a prescrição ocorrerá no mesmo prazo desta última, diante do que dispõe o art. 118 do Código Penal, segundo o qual as penas mais leves prescrevem com as mais graves.
Cumpre ressaltar que, na hipótese da prescrição da pretensão executória, as causas suspensivas e interruptivas são as estipuladas pela L. 6.830/1980, nos termos do art. 51 do CP.
image1.png

Mais conteúdos dessa disciplina