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HISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO
CAPÍTULO 4 – A CRISE DO IMPÉRIO,
ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E A
REPÚBLICA: QUAIS SÃO AS SUAS
INTERPRETAÇÕES?
Maíra Pires Andrade
INICIAR
Introdução
O período que constitui o Brasil Império tem início com a Independência do Brasil,
proclamada em 1822 por D. Pedro I, e se estende até a Proclamação da República,
em 1889. Diversos foram os motivos que levaram à crise do Império e à ascensão da
República: a questão militar, religiosa, política e também os gastos com a Guerra do
Paraguai.
Todo esse período é permeado por acontecimentos marcantes como a abolição da
escravidão, os discursos abolicionistas e a preocupação com a formação da nação.
Estes elementos, no entanto, estavam conectados com as concepções de nação
baseadas nos moldes europeus de civilização, progresso, unidade e homogeneidade
do povo, o que não correspondia à realidade do contexto brasileiro, já que as
populações africanas e a instituição escravista eram vistas como um obstáculo à
civilização.
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A escrita histórica, nesse sentido, teve o complexo papel de modelar a narrativa da
história brasileira conforme os padrões da nação desejada. Dessa forma, você sabe
quem foram os atores na abolição da escravidão? Esse processo teve como
protagonistas os portugueses, representados na figura da princesa Isabel, e os
africanos escravizados não tiveram participação. Sendo assim, qual a atuação dos
intelectuais negros na campanha abolicionista?
As populações africanas escravizadas, no âmbito dos discursos em prol da
modernização do Brasil, constituíram-se como principal inimigo da nação. Nesse
contexto ficam os questionamentos: qual foi o sentido da abolição da escravidão?
Como ficaram os negros libertos após a abolição? Como a escrita da história irá
mobilizar ferramentas para construir essa nação desejada? Neste capítulo,
buscaremos responder essas e outras perguntas.
Bom estudo!
4.1 O sistema escravocrata e a formação
da nação
A construção de uma nação e da identidade nacional é elaborada a partir da seleção
de uma herança cultural que será difundida por todo um território. O primeiro passo
é a definição de um patrimônio comum a todos. Entretanto, para fazer a seleção
desse patrimônio cultural, em muitos casos era preciso inventá-lo, criá-lo ou
imaginá-lo.
Isto é, a nação e a identidade nacional são invenções narrativas, são discursos que
propagam símbolos, memórias, histórias, fatos, sujeitos, heróis, valores e tradições
que veiculam uma imagem de nação. Nesse sentido, como foi articulado o projeto
de nação brasileira? Quais sujeitos e fatos históricos foram selecionados? Onde entra
o africano escravo nesse contexto? Veja a seguir.
4.1.1 Os africanos escravizados no espaço urbano
No início do século XIX, a mão de obra dos núcleos urbanos em sua maioria era
formada por africanos escravizados, mas também aqueles que eram livres ou
libertos eram considerados força de trabalho.
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O regime escravista predominava nas relações de trabalho desse período, e os
escravos exerciam as mais diversas atividades: como os escravos de ganho que
vendiam seu trabalho na rua; como artesãos e em atividades domésticas como
cozinheiras, amas de leite, lavadeiras, carregadores, entre outros. Até 1850 o
trabalho escravo era majoritário nas fábricas e indústrias, momento em que se inicia
a entrada dos imigrantes europeus (MORTARI; VIEIRA, 2014).
Adelina era uma escrava de ganho que circulava nas ruas de São Luís no Maranhão, no século XIX. Ela
sabia ler e escrever e vendia pelas ruas charutos que eram feitos pelo seu senhor, do qual ela era filha
bastarda. No seu dia a dia, foi construindo redes de sociabilidade e utilizava o momento da venda de
charutos para avisar os abolicionistas das repressões policiais. Aos 16 anos de idade, ela começou a
participar dos comícios dos abolicionistas, tornando-se uma informante deles (MOURA, 2004).
Figura 1 - Representação de umas das atividades realizadas pelos africanos escravizados. Fonte: Everett
Historical, Shutterstock, 2018.
VOCÊ O CONHECE?
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Recife (PE) e Salvador (BA) se constituíram como os maiores centros de comércio de
escravizados, resultado principalmente da intensa produção nos engenhos de
açúcar que no século XIX tem um novo aumento significativo. Em suma, essas
cidades tinham uma grande concentração de populações negras, sobretudo na
região nordeste do Recife, em Salvador e em São Luís (MA), locais onde a chegada
dos imigrantes europeus foi reduzida (MORTARI; VIEIRA, 2014).
Maria Firmina (1817-1917) era uma negra livre que se formou como professora primária e, em 1859,
publicou a obra “Úrsula”, considerada o primeiro romance abolicionista do Brasil. O romance retrata um
triângulo amoroso e questiona o sistema escravista através dos personagens negros (MOURA, 2004).
No início do XIX, a população do Brasil era de aproximadamente 3 milhões de
habitantes, sendo que destes, 1,6 milhões eram escravizados; 400 mil eram negros
libertos e apenas 1 milhão eram brancos (MORTARI; VIEIRA, 2014).
Na sequência, abordaremos a relação da questão dos escravizados com a formação
da nação.
4.1.2 A escravidão em questão e a nação
A partir da década de 80 do século XIX, as discussões em torno do negro se tornaram
recorrentes em diversos discursos, memórias e historiografias.
De acordo com Azevedo (1987), esses discursos refletiam as ambições da classe
dirigente do Brasil, que nesse momento voltava suas atenções para a construção de
uma nação, isto é, um país composto pela ordem e pelo progresso, o que requeria o
fim do trabalho escravo. Dessa forma, a elite se perguntava: o que fazer com a
população negra após a eliminação das relações senhor/escravo numa nação
civilizada?
VOCÊ O CONHECE?
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Diante disso, o século XIX teve importantes acontecimentos, e o intenso movimento
abolicionista que passa a estar presente nas ruas, nos salões na Inglaterra e nas
senzalas. O Brasil, que havia conquistado a sua independência anos antes, recebia
as pressões das demais nações capitalistas para apagar de sua história uma herança
contraditória à nação civilizada que se formava, a escravidão. Essas pressões eram
impulsionadas ainda pelo medo de uma revolução semelhante à ocorrida em São
Domingos, no Haiti, em 1804, onde os negros se revoltaram contra a escravidão e
proclamaram a independência do país (AZEVEDO, 1987).
VOCÊ SABIA?
As Leis de Ações Afirmativas são legislações criadas para oferecer aos grupos discriminados um
tratamento diferenciado devido às injustiças causadas a estes com os preconceitos raciais. Ou seja,
são leis que prevê em uma correção da herança histórica causada pela escravidão e pelo racismo. No
Brasil, a Lei n.º 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas (BRASIL, 2012), instituiu a obrigatoriedade
da reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, negros e indígenas, nos vestibulares das
instituições federais de ensino (MOURA, 2004).
Figura 2 - Representação do comércio de africanos escravizados feito nas ruas das cidades brasileiras. Fonte:
Everett Historical, Shutterstock, 2018.
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A preocupação com a ordem social era pauta antes mesmo da Proclamação da
Independência, em 1822, e intelectuais já chamavam a atenção à fundamental
formação de uma nação homogênea e incorporada num todo social. Nesses
discursos,a ideia de povo era sinônimo de uma sociedade livre, voltada para o
trabalho e arquitetada pelo Estado. O obstáculo a essa sociedade eram as
populações mais pobres, os indígenas e os negros livres ou escravizados, que nessa
visão eram vistos como selvagens.
Nesse sentido, os negros não seriam obstáculos somente devido a sua condição de
escravizado, mas segundo essa percepção pautada em ideais racistas que
consideravam a sua natureza como bárbara, sem leis, sem valores e imersa na
irracionalidade. Dessa forma, através desses discursos, o negro era tido como um
dos principais inimigos à constituição da nação no modelo do progresso e da
civilização (AZEVEDO, 1987).
Figura 3 - Representação da crueldade contra africanos escravizados. Fonte: Everett Historical, Shutterstock,
2018.
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Ainda de acordo com Azevedo (1987), intelectuais como José Bonifácio de Andrade e
Silva defendiam que os primeiros passos para a formação de uma nação pautada na
unidade e na homogeneidade seria a extinção gradual da escravidão, fato que
permitiria a supressão da heterogeneidade da população. Outro intelectual, José
Eloy da Silva pontuava a escravidão como a origem de todos os males do Brasil, não
havendo nenhuma possibilidade de retirar algo positivo dessa estrutura, sendo
urgente a extinção do tráfico. Salienta-se que os males da escravidão aos quais se
referia José Eloy se estendiam às populações negras escravizadas, que no seu olhar,
não trariam nenhum elemento positivo ao Brasil, além de viverem à beira de
crescentes insurgências que atrapalhavam a ordem.
A partir de década de 1830, a formação da nação nos padrões homogêneos se
tornava cada vez mais urgente, época em que o intelectual Frederico Leopoldo
Burlamarque escreveria argumentando em favor da devolução dos negros ao
continente africano (AZEVEDO, 1987).
A Lei Federal n.º 10.639, aprovada em 2003, foi fruto de intenso histórico de lutas do movimento negro.
Esta lei tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em todos os níveis de
ensino, e o seu texto traz à tona o processo de apagamento da história da população negra na formação
do Brasil. Da mesma forma, ressalta a necessidade de valorizar positivamente e evidenciar a participação
dos afrodescendentes na construção do Brasil, bem como de combater os preconceitos raciais (BRASIL,
2003).
Para além desses discursos exaltados embasados em teorias científicas racistas, os
termos assimilação, incorporação e homogeneização eram recorrentes entre os
intelectuais que naquele momento pensavam a formação da nação. Isto é,
demonstrava-se como o africano escravizado e o próprio sistema escravista, mesmo
após a abolição, eram preocupação constante ao corpo político pensante da nação e
estes mobilizavam estratégias discursivas para apagar ou assimilar a população
negra na noção de nação civilizada branca que desejavam.
VOCÊ QUER LER?
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4.2 A crise do Segundo Reinado e a
Proclamação da República [parte I]
A guerra do Paraguai, ou a chamada Guerra da Tríplice Aliança, ocorrida entre 1864 e
1870, causou grande impacto na história contemporânea da América Latina.
De acordo com Santos (2014) esta foi a maior guerra da América do Sul, constituindo
se como a mais sangrenta e violenta do século XIX.  Esta guerra deixa suas marcas na
história ao corroborar para a integração da bacia do Rio da Prata na economia
global, mas também marca o momento do início da crise da monarquia brasileira.
4.2.1 A Guerra do Paraguai: antecedentes
O Paraguai em 1811 alcançou a sua independência sob o governo de José Gaspar
Rodriguez de Frância, iniciando um momento de nacionalização da economia
paraguaia, continuada pelos seus sucessores Carlos López e Francisco Solano López.
Para atingir tal nível de economia, o fator proeminente foi a questão agrária devido
às mudanças nas políticas de terra ofertada aos índios e mestiços que foram
ocupadas pela colonização espanhola. Dessa forma, após conflitos entre a igreja e os
proprietários de terras, estas foram destinadas com valores reduzidos aos
camponeses, ofertando trabalho àqueles que antes eram sem-terra. A partir dessa
política, criaram-se, no Paraguai, fazendas estatais para a prática da agricultura,
pecuária e artesanato; no entanto, os recursos iam para o abastecimento do Estado
(SANTOS, 2014).
Tal processo levou a um gradual crescimento da independência econômica do
Paraguai em relação aos países da América Latina, atuando como grande produtor
de alimentos e manufaturados, enquanto os demais se caracterizavam pela
crescente dependência econômica da Inglaterra. Nesse contexto, a política
econômica do Paraguai era referência para toda a América do Sul. Contudo, sua
economia impedia a entrada de incentivos externos, isto é, o modelo de economia
nacionalista do Paraguai dificultava a entrada das importações advindas da Europa
(SANTOS, 2014).
A partir deste contexto, a Inglaterra propôs a formação da Tríplice Aliança,
constituída entre Brasil, Uruguai e Argentina, com o objetivo de barrar o crescimento
do Paraguai. Nesse período, enquanto a economia do Paraguai era uma grande
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exceção às demais economias sul-americanas, o Brasil era estruturado por uma
sociedade escravagista e pela monarquia portuguesa, e a Argentina era comandada
pelos latifundiários, mas ambos os países vendiam ao mercado consumidor externo
e compravam do mercado inglês, dependência que não ocorria com o Paraguai
(SANTOS, 2014).
Os intelectuais brasileiros e argentinos da época não aceitavam o isolamento e a
nacionalização das terras e do comércio exterior do Paraguai e eram contrários à
alfabetização gratuita e obrigatória que o Estado paraguaio ofertava à população.
Estes intelectuais afirmavam que o Paraguai estava imerso na barbárie, mas em
contrapartida, para a população do Paraguai, isto rendeu muitos benefícios – como
o fim do analfabetismo e o aumento das indústrias artesanais, por exemplo
(SANTOS, 2014).
Nesse período, a Inglaterra era a fornecedora bélica para todos os países do Rio da
Prata, e esta era uma importante via do comércio inglês. O então presidente do
Paraguai, em 1864, Francisco Solano López pretendia expandir o seu território a fim
Figura 4 - Representação de uma das batalhas da Guerra do Paraguai. Fonte: Marzolino, Shutterstock, 2018.
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de conseguir uma saída através dos rios da Bacia do Prata para o Atlântico. Dessa
forma, ele tinha como objetivos controlar a navegação do trecho que o pertencia,
impedindo as navegações estrangeiras de circularem nos rios. Com isso, o Brasil,
assim como Argentina e Uruguai,defenderiam a livre navegação do Rio Paraguai. Em
1865, o Paraguai, sob ameaças, resolve atacar a província de Mato Grosso, no Brasil,
e a província de Corrientes, na Argentina, necessária para chegar ao seu outro alvo
no Brasil, o Rio Grande do Sul. Em 1.º de maio de 1865, é organizada a Tríplice
Aliança, entre Argentina, Brasil e Uruguai, para permitir a livre navegação nos rios
Paraguai e Paraná que compunha a bacia do Rio da Prata (SANTOS, 2014).
Na sequência, veremos como era feito o recrutamento de soldados pelo exército
brasileiro, e qual era a participação dos escravizados nos conflitos.
4.2.2 Os soldados na Guerra do Paraguai
Os conflitos que desencadearam a independência do Brasil ocorrida em 1822 levou
ao combate um exército com mais de 7 mil soldados de distintos níveis sociais: 
homens livres voluntários, milícias, caixeirosviajantes, comerciantes, fazendeiros,
mas sobretudo africanos escravizados doados pelos senhores.
O exército brasileiro, que naquele período não possuía formalidades para o
alistamento, entre a independência do Brasil e a Guerra do Paraguai passou por um
processo de fortalecimento, sob o comando de Duque de Caxias que, após as
primeiras perdas na Guerra do Paraguai, passou a aperfeiçoar as técnicas e táticas
(SANTOS, 2014).
Em 1864, momento de início da Guerra do Paraguai, o Brasil tinha como grande
motor da sua economia a mão de obra escravizada africana, utilizada para todas as
atividades braçais e diariamente submetida às violências físicas e simbólicas do
sistema escravista.  Com a Guerra do Paraguai, o alistamento dos africanos
escravizados ao exército emergiu como uma possibilidade de alcançar a liberdade,
já que houve uma promessa que estes, após o término da luta e o retorno ao Brasil,
seriam livres (SANTOS, 2014).
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Com isso, o alistamento dos escravizados ocorreu de diversos modos: o
recrutamento forçado, a doação e venda dos escravos pelos fazendeiros ao governo
e, por fim, a promulgação de leis que previa multas aos africanos livres que não se
alistassem no exército. Dessa forma, foram mobilizados ferramentais institucionais
para legalizar a obrigatoriedade do alistamento dos africanos e afrodescendentes
(SANTOS, 2014).
Ainda segundo Santos (2014), o africano escravizado alistado trocava as fazendas
pelo campo de batalha e recebia ordens dos oficiais do exército brasileiro. Grande
parte dos soldados era de africanos ou afrodescendentes, tanto livres quanto
escravizados.
A seguir, você saberá quais os impactos no Brasil após o fim da Guerra do Paraguai.
Acompanhe!
Figura 5 - Os africanos escravizados eram forçados a se alistarem no exército para lutarem nas guerras.
Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018.
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4.2.3 O fim da Guerra do Paraguai e as consequências para o Brasil
A falta de preparo do exército paraguaio levou à total destruição do seu país,
conduzindo grande parte dos soldados, sem nenhum preparo, à morte. Isto obrigou
o exército a recrutar crianças e idosos para dar seguimento à batalha; contudo, ao
longo dos seis anos de guerra, o poder bélico dos demais países se ampliou, levando
à derrota dos paraguaios.
Com o fim da guerra, Argentina e o Brasil se apossaram de algumas extensões
territoriais do Paraguai (SANTOS, 2014).
Os paraguaios foram vencidos em diversas batalhas, entre elas a batalha do
Riachuelo e em Uruguaiana. No entanto, os soldados brasileiros também
enfrentaram muitas dificuldades: falta de organização das tropas, escassez de
recursos alimentícios, ausência de comunicação e também as epidemias que
dizimavam as tropas. O fim da guerra ocorreu com a morte de Solano López em
1870, no entanto as consequências foram devastadoras.  A população do Paraguai
foi dizimada a sua economia e indústrias destruídas, e o país enfrenta até a
atualidade dificuldades de se reerguer (SANTOS, 2014).
Mesmo a Tríplice Aliança saindo vitoriosa, o Brasil teve prejuízos financeiros na
guerra, causando um enorme gasto e dívidas ao Império, e obrigando o governo a
solicitar ajuda externa, o que aumentou a dependência do Brasil ao capital
estrangeiro, como o da Inglaterra. Com as dívidas, ficou cada vez mais difícil de o
Brasil manter as necessidades de cada região, se tornando fundamental a
centralização política. No entanto o exército, durante o conflito, se aperfeiçoou e se
modernizou, saindo mais fortalecido após os embates (SANTOS, 2014).
Após o retorno dos soldados brasileiros da guerra, a responsabilidade sobre a
salvação da pátria caía em cima destes, isto é, os militares seriam os grandes
salvadores. Somado a isso, a falta de reconhecimento destes militares que lutaram
nos campos de batalhas, e as ideias positivistas foram fatores que contribuíram para
a ampliação da insatisfação desta classe com o governo imperial. Tornava-se mais
evidente que a forma política de Império limitava a cidadania dos militares, e estes
ansiosos por uma maior participação política, se juntaram aos grupos que
difundiam ideias contra a monarquia a defendia ascensão da República (SANTOS,
2014).
A partir do contexto exposto, podemos ver que a Guerra do Paraguai repercutiu em
diferentes dimensões. De igual forma, vemos como o fim da guerra, os altos custos
para os cofres do Império e a insatisfação dos militares irão somar-se à crise da
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monarquia.
4.3 A crise do Segundo Reinado e a
Proclamação da República [parte II]
A abolição da escravidão é um dos elementos apontados como razão para a crise do
Império, devido à perda do apoio da classe rural ao imperador. Contudo, o processo
que levou à abolição é mais importante que esse fato, na medida em que estamos
tratando da libertação de corpos que eram violentados pelo sistema escravista.
No entanto, a historiografia tradicional acerca da abolição cristalizou uma escrita da
história que dimensionou esse acontecimento como resultado de ação de heróis
nacionais, sobretudo brancos, apagando toda uma complexa rede de práticas,
ideias, discursos e insurreições das populações negras escravas, ou livres, que
também pressionaram rumo à abolição.
4.3.1 Processo da abolição da escravidão
A abolição da escravidão no Brasil, ao contrário do que evidencia a tradicional
historiografia sobre esse período, foi resultado de um processo histórico que
envolveu diversos personagens, práticas, ações e resistências, sobretudo, de
populações de origem africana entre escravizados e livres que contribuíram para
pressionar tal instituição. Isto é, a abolição deve ser entendida para além da figura
emblemática da princesa Isabel.
Em 1845 foram proibidas, através do Código de Posturas, as reuniões de africanos
escravizados na cidade de Desterro (atual Florianópolis, no estado de Santa
Catarina) para os batuques ou festas. Um acontecimento num contexto particular de
uma província, que, no entanto, representava o medo nacional da elite frente as
rede dos africanos escravizados. Cada vez mais eram visíveis as ações repressoras as
práticas de manifestação da cultura africana, expostas no Código desde 1828
(LUCINDO; RASCKE, 2014).
Em consequência da Revolta dos Malês, a sociedade vivia sob o temor de uma
insurreição semelhante a ocorrida no Haiti, entre 1792 e 1804, e com isso houve uma
potente onda de agenciamento negro e um enorme medo branco (AZEVEDO, 1987).
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Conforme Lucindo e Rascke (2014), a repressão e a vigilância policial sobre as ruas,
assim como as agitações dos africanos escravizados se intensificaram; os momentos
de encontro, de dança, as festas e a música eram tidos como ameaças à ordem
pública. Aqueles que criticavam a escravidão apontavam que a possibilidade de um
Haiti se projetar no Brasil era uma realidade próxima. Dessa forma, a Revolução
Haitiana no final do século XVIII, os movimentos pela abolição, a circulação das
ideias abolicionistas contribuíram para a formação de uma rede de movimentações
no Brasil que passou a questionar o sistema escravista, culminando na abolição, em
1888.
Destaca-se, que no Brasil, no século XIX, a escrita da história da nação foi restrita ao
Instituto Histórico Geográfico (IHGB). Um dos modos de veicular as narrativas e a
seleção de memória pelo IHGB foi a publicação da “Revista do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro”, sendo o acontecimento da abolição objeto de discurso. A
edição publicadaem 1888 trazia dois acontecimentos importantes: a abolição da
escravidão e o aniversário de 50 anos do IHGB. Contudo, em sua abordagem, a
revista enfoca a família imperial como principais atores sociais desses fatos,
direcionando o protagonismo para a princesa Isabel, regente no período (LUCINDO;
RASCKE, 2014).
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Figura 6 - Efígie da princesa Isabel em nota de 200 cruzeiros, de 1984, um dos modos de mobilizar
determinada memória nacional. Fonte: Georgios Kollidas, Shutterstock, 2018.
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Não por acaso, após a abolição, as edições da revista tiveram uma maior
preocupação em registrar e enumerar os eventos comemorativos que
homenageavam o imperador D. Pedro II e a princesa Isabel pela assinatura da Lei
Áurea. Nesse período, alguns monumentos foram fundados, entre os quais o busto
do Visconde de Rio Branco, devido a sua ação frente à Lei do Ventre Livre (LUCINDO;
RASCKE, 2014).
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Desse modo, vemos como o IHGB engendrava a escrita de uma história e a seleção
de uma memória que colocava a abolição da escravidão como um enredo possível
somente devido às ações imperiais. Narrativa esta que congregou uma historiografia
Figura 7 - Princesa Isabel representada na cédula de 50 cruzeiros, de 1963. Fonte: Georgios Kollidas,
Shutterstock, 2018.
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que emerge como majoritária e ainda circula na sociedade atual a figura da princesa
Isabel como grande heroína da história.  
4.3.2 O pós-abolição e as associações
Os conteúdos dos livros didáticos de história, de modo geral, não abordam as
populações de origem africana após a abolição da escravidão, como se estes
desaparecessem do contexto histórico.
A escrita da história do Brasil, corroborando para esta perspectiva, tratava a Lei
Áurea apenas como uma reação à pressão inglesa, invisibilizando toda a
participação das populações escravizadas que também contribuíram para a
abolição. Para englobar essa ótica de estudo foram criadas áreas de pesquisa do
pós-abolição, como meio de dar conta dessa lacuna na historiografia.
VOCÊ SABIA?
Os termos “populações de origem africana” e “afrodescendentes” remetem, segundo Cardoso e
Rascke (2014), a experiências amplas de diferentes povos e vivências, incluindo a própria experiência
da diáspora africana. Desse modo, ao utilizar estes termos, estamos ampliando as experiências
dessas populações para além da escravidão, devolvendo a estes atores históricos, do passado e do
presente, a humanidade que muitas das vezes lhes foi negada.
Estes estudos irão emergir a partir dos obstáculos à integração do afrodescendente
na sociedade e no mercado de trabalho livre. De acordo com Lucindo e Rascke
(2014), Florestan Fernandes argumenta que uma das dificuldades encontradas por
essas populações após a abolição não foi apenas a desigualdade social entre
brancos e negros, mas principalmente o aspecto racial, sendo o preconceito racial
uma herança do próprio sistema escravista que irá dificultar o acesso destes ao
mercado de trabalho, sobretudo, quando em disputa com os imigrantes europeus.
VOCÊ QUER LER?
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O livro “Irmandades Negras: memórias da diáspora no Sul do Brasil”, da historiadora Karla Leandro
Rascke (2016), trata das festas e celebrações de morte que eram realizadas no âmbito de duas associações
de negros, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito dos Homens Pretos. Através
destas associações, a autora retrata os diferentes modos de organização e sociabilidade formados por
estas populações após a abolição da escravidão na cidade de Desterro, atual Florianópolis (SC).
No pós-abolição, um dos modos encontrados pelos afrodescendentes para se
integrarem na sociedade foi a formação de associações beneficentes e irmandades,
que atuavam junto com os jornais de modo significativo na transição do Império
para a República.
Desde estas organizações, já existia uma atenção voltada para a educação e uma
procura por ascensão social. Estas sociedades eram compostas por um número
reduzido de afrodescendentes, isto é, uma minoria que estava nestes espaços para a
construção participativa da sua autonomia e dos laços de solidariedade.
As irmandades, de caráter religioso, eram fortes desde o período colonial, enquanto
as sociedades beneficentes, em sua maioria, ficaram restritas ao seu caráter lúdico e
recreativo, intensificando-se no início da República. Os membros dessas associações
eram considerados como uma elite letrada que tinha como principal bandeira o
combate a discriminação racial (LUCINDO; RASCKE, 2014).
Foram criados também espaços para proporcionar a instrução e a educação dessas
populações, como a Sociedade Recreativa União Operária de Laguna/SC, com os
seguintes principais objetivos:
a) Proporcionar reuniões dançantes ou quaisquer outras festas em que se reúnam
amistosamente os sócios e seus familiares; b) criar uma sessão de leitura variada e
instrutiva para seus sócios fazendo aquisições de jornais, livros e revistas boas; c)
intensificar e desenvolver-se por todos os meios ao seu alcance os serviços de
assistências sociais (LUCINDO; RASCKE, 2014, p. 196).
O Club 13 de Maio dos Homens Pretos, fundado em 1902, em São Paulo, tinha como
foco a criação de escolas noturnas e diurnas. Nas irmandades religiosas, como a
Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a Irmandade de São Benedito dos
Homens Pretos de Florianópolis, fundadas em 1859, a preocupação com a
escolarização é colocada em pauta novamente (LUCINDO; RASCKE, 2014).
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O cantor de rap Rincon Sapiência lançou, em 13 de maio de 2018, dia em que se comemorou 130 anos da
abolição da escravidão no Brasil, a música Crime bárbaro. A obra traz uma forte crítica e um
questionamento se a abolição teria realmente ocorrido. Criticando a versão da história que traz a heroína
branca como figura da abolição, no videoclipe o cantor interpreta as ações de resistência e luta dos
escravizados para abolirem a escravidão. A letra da música e o videoclipe podem ser utilizados como
importantes ferramentas didáticas para desconstruir a narrativa da abolição em sala de aula. Disponível
em: .
Estas associações, de modo geral, irão se atentar à integração do afrodescendente
na sociedade, entretanto, do mesmo modo, irão deslocar e disputar a memória
nacional na tentativa de incorporar as ações dessas populações em cena. Nessa
medida, existiam ações para colocar José do Patrocínio e Luiz Gama, abolicionistas
negros, como protagonistas da abolição, disputando o lugar com a princesa Isabel.
Observe o exemplo descrito no caso a seguir.
CASO
Uma professora de uma turma de 3.º ano do Ensino Médio, ao terminar a exposição do conteúdo
sobre a abolição da escravidão e a marginalização sofrida pelas populações negras no pós-abolição,
iniciou um debate com os alunos questionando qual era a opinião destes sobre a Lei de Ações
Afirmativas, entre as quais a conhecida como lei de cotas raciais, que entrou em vigor no Brasil em
2012. Um grupo de alunos, entre negros e brancos, defendeu que essa medida seria um tipo de
racismo, pois aponta a falta de capacidade dos negros deentrarem nas universidades. Outro grupo
de alunos, estes brancos, afirmaram que as cotas tiram a vagas deles no acesso à universidade.
Diante dessa divergência de opiniões, a professora se viu na obrigação de aprofundar o debate sobre
as cotas, apontando os motivos para a existência de tal legislação. É preciso evidenciar que a
escravidão no Brasil durou 388 anos, tendo seu fim em 1888 com a abolição, isto é, na maior parte da
história do Brasil as populações negras foram submetidas à violência da escravidão. Além disso, a
abolição em 13 de maio de 1888 só finalizou esta instituição formalmente, mas as heranças desse
brutal sistema ainda permanecem em continuidade no Brasil atual, sendo expressas através do
racismo – que é estrutural em nossa sociedade.
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Em 2018 fez apenas 130 anos que a escravidão terminou, um período curto para
superar toda a memória dessa instituição. É preciso muitos anos e muitas gerações
até que seja superado todo o trauma da escravidão, e a população negra possa se
reerguer. Para isso, frente à constante reprodução de atitudes racistas no cotidiano
brasileiro, obstaculizando a permanência dos negros nos diferentes espaços da
sociedade – como o espaço escolar – se torna fundamental o auxílio do Estado em
forma de políticas públicas, como as cotas, para inserir essas pessoas na sociedade.
Nesse sentido, salienta-se que ainda estamos a passos curtos para atingir a
verdadeira abolição.
4.4 A crise do Segundo Reinado e a
Proclamação da República [parte III]
A partir de 1870 o Império no Brasil começa a desfalecer sofrendo com os
pensamentos contrários a este tipo de regime e em defesa da instalação de uma
República.
A historiografia tradicional aponta essa crise decorrente do próprio esgotamento do
regime imperial e da influência das políticas europeias para superar os antigos
regimes. Contudo, a ascensão da República no Brasil foi pautada por um contexto
particular de efervescência de novas ideias e concepções que devem ser
compreendidas para apreender essa transição de governo.
4.4.1 A crise do Império e os primeiros passos da República
O momento de transição do Império para a República foi sinônimo de muitas
mudanças políticas e de transformações.
Segundo Costa (2006), essas mudanças já eram sentidas lentamente desde o fim da
Guerra do Paraguai, que também contribuiu para o abalo do Império. Dessa
maneira, diversos setores da sociedade expressavam sua insatisfação com a política
imperial e estavam em busca de outro modo de representação política que incluísse
uma maior participação nas decisões do país. Em 1831 a Guarda Nacional,
influenciada pelo modelo francês, era denominada como milícia-cidadã e era uma
ferramenta do liberalismo; no entanto, ao final do Império, esta milícia passa a se
preocupar não mais com a formação do cidadão soldado, mas com o soldado
cidadão. Cidadania era sinônimo de hierarquia militar e status social.
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A principal atividade da Guarda Nacional era a socialização da população,
selecionando líderes e organizações partidárias para representar o povo e, assim,
atender às suas necessidades e constituir eleitores para votar. Entre os insatisfeitos
com o Império estava também o Exército, que defendia uma maior representação
política e se considerava superior à Guarda Nacional. Essa concepção se acentuou
ainda mais com as ideias positivistas de Benjamim Constant nas escolas militares,
imbuindo esta categoria de um posicionamento crítico e de uma missão cívica que
seria a instauração da República, para afastar o atraso do país e alcançar o
progresso. No entanto, estes eram alguns dos projetos para a República, que
também contava com as ideias das elites políticas civis a favor dos projetos liberais
republicanos.
Ainda conforme Costa (2006), os defensores das ideias republicanas no Brasil tinham
o olhar voltado à modernização do país, o que não condizia com a condição da
escravidão como principal base da economia. A mão de obra escrava deslocava o
Brasil para um patamar inferior em relação às dimensões sociais, econômicas e
morais comparadas às demais nações já civilizadas. Porém, mesmo o regime de
Império era acusado de favorecer a própria manutenção da instituição da
escravidão, que tanto deveria combater em prol da modernização nacional.
Alguns dos republicanos eram influenciados pela corrente positiva do pensamento
do século XIX, valorizando o pensamento racional, o que tornava a República a
forma de governo mais adequada e moderna para enfrentar os atrasos da
monarquia.
4.4.2 A historiografia sobre a Proclamação da República
A crise do Império e o início da República é um tema que possui diversas
discordâncias entre as perspectivas historiográficas. Alguns estudiosos que veremos
a seguir irão apontar que a Proclamação da República era algo inevitável diante da
crescente crise imperial, sendo o golpe dos militares apenas resultado desse
momento conturbado. Essa visão apresenta uma perspectiva linear e determinista
da história, no entanto, a proclamação da República foi resultado de diversos fatores
que devem ser levados em conta para entender esse período.
Dentre as interpretações, Jhon Jurt pondera que na Proclamação da República não
existe uma vontade popular majoritária, isto é, não há um povo, mas a mobilização
de alguns pequenos grupos políticos e de militares insatisfeitos com o governo.
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Emilia Viotti da Costa (2006) apresenta uma crítica às interpretações monarquistas e
republicanas, pois estas não dimensionam o processo que culminou na queda do
Império.
Na perspectiva republicana, evidencia-se que os projetos republicanos existiam
desde a inconfidência mineira, colocando a República como um desejo nacional. A
interpretação monarquista aponta o Império como um fator que contribuía para a
manutenção da ordem e da unidade nacional, sendo a Proclamação da República
uma conspiração do Exército contra a vontade nacional.
Costa (2006) explicita também as interpretações, por exemplo, dos fazendeiros do
Sul, que viam a República como um modo de chegar ao poder; as ideias militaristas
que argumentavam a vitória da República somente à ação dos militares; e a
perspectiva dos civilistas que entendiam a ação dos militares como prejudicial à
política.
Costa (2006) ressalta que as interpretações sobre os acontecimentos da
proclamação da República irão se alterar de acordo com as novas revisões
historiográficas. No entanto, mesmo com essas divergências, é preciso evidenciar a
participação de três forças nesse movimento: uma parcela do Exército, os
fazendeiros do Oeste paulista e os representantes da classe média urbana.
Costa (2006) também desconstrói questões cristalizadas na historiografia que
apresentam como chave para a proclamação os seguintes fatores: a abolição da
escravidão, as questões religiosas, o Exército, o Partido Republicano e o poder
moderador. A autora irá apontar que a abolição não representou o início da
República, mas esta seria a expressão de mudanças significativas na estrutura
econômica que irão romper com os elementos tradicionais, isto é, a abolição causou
o descontentamento da classe rural que deixou de apoiar o Império. Colocar as
intervenções do imperador na igreja católica e o descontentamento dos devotos
como a causa do fim do Império é visto como um exagero por Costa (2006), já que a
igreja não era inimiga da monarquia e a mesma não defendia uma República.
Sobre a dimensão do Partido Republicano, estenão possuía um grande número de
membros, mas deu o primeiro passo para a circulação das ideias em favor da
República. O Exército foi decisivo para o golpe, no entanto, isso se concretizou
devido à já emergente crise do Império. Em relação ao poder moderador, a autora
afirma que este possuía um poder reduzido frente às grandes oligarquias que
dominavam a política (COSTA, 2006).
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Nessa conjuntura, Costa (2006) argumenta que a emergência da República só
ocorreu devido às transformações econômicas e sociais ocorridas no Império e que
levaram à queda desse regime. Isto forneceu as bases para a ascensão de ideias
republicanas e projetos políticos que circulavam em todo o país.
Entretanto, a instalação da República em si não representa um rompimento das
antigas relações de trabalho, já que a vida dos trabalhadores, sobretudo os rurais,
permaneça nas mesmas condições, assim como o perfil colonial da economia e a
relação de dependência com o mercado externo.
Síntese
Você concluiu os estudos sobre os distintos fatores que levaram à crise na
monarquia do Brasil e à emergência do regime republicano. Dessa forma, foi
possível apreender de que modo a escravidão, a abolição da escravidão e a Guerra
do Paraguai influenciaram para a queda do Império. Além disso, realizou reflexões
direcionadas ao questionamento e a desconstrução das narrativas históricas
cristalizadas pelos poderes políticos.
Neste capítulo, você teve a oportunidade de:
identificar os diferentes personagens e agenciamentos que envolveram no
processo de abolição da escravidão;
desconstruir a narrativa tradicional sobre a abolição;
conhecer as divergências historiográficas acerca da Guerra do Paraguai;
refletir sobre o complexo papel da escravidão para a formação da nação.
Bibliografia
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