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HISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO CAPÍTULO 4 – A CRISE DO IMPÉRIO, ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E A REPÚBLICA: QUAIS SÃO AS SUAS INTERPRETAÇÕES? Maíra Pires Andrade INICIAR Introdução O período que constitui o Brasil Império tem início com a Independência do Brasil, proclamada em 1822 por D. Pedro I, e se estende até a Proclamação da República, em 1889. Diversos foram os motivos que levaram à crise do Império e à ascensão da República: a questão militar, religiosa, política e também os gastos com a Guerra do Paraguai. Todo esse período é permeado por acontecimentos marcantes como a abolição da escravidão, os discursos abolicionistas e a preocupação com a formação da nação. Estes elementos, no entanto, estavam conectados com as concepções de nação baseadas nos moldes europeus de civilização, progresso, unidade e homogeneidade do povo, o que não correspondia à realidade do contexto brasileiro, já que as populações africanas e a instituição escravista eram vistas como um obstáculo à civilização. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 1/26 A escrita histórica, nesse sentido, teve o complexo papel de modelar a narrativa da história brasileira conforme os padrões da nação desejada. Dessa forma, você sabe quem foram os atores na abolição da escravidão? Esse processo teve como protagonistas os portugueses, representados na figura da princesa Isabel, e os africanos escravizados não tiveram participação. Sendo assim, qual a atuação dos intelectuais negros na campanha abolicionista? As populações africanas escravizadas, no âmbito dos discursos em prol da modernização do Brasil, constituíram-se como principal inimigo da nação. Nesse contexto ficam os questionamentos: qual foi o sentido da abolição da escravidão? Como ficaram os negros libertos após a abolição? Como a escrita da história irá mobilizar ferramentas para construir essa nação desejada? Neste capítulo, buscaremos responder essas e outras perguntas. Bom estudo! 4.1 O sistema escravocrata e a formação da nação A construção de uma nação e da identidade nacional é elaborada a partir da seleção de uma herança cultural que será difundida por todo um território. O primeiro passo é a definição de um patrimônio comum a todos. Entretanto, para fazer a seleção desse patrimônio cultural, em muitos casos era preciso inventá-lo, criá-lo ou imaginá-lo. Isto é, a nação e a identidade nacional são invenções narrativas, são discursos que propagam símbolos, memórias, histórias, fatos, sujeitos, heróis, valores e tradições que veiculam uma imagem de nação. Nesse sentido, como foi articulado o projeto de nação brasileira? Quais sujeitos e fatos históricos foram selecionados? Onde entra o africano escravo nesse contexto? Veja a seguir. 4.1.1 Os africanos escravizados no espaço urbano No início do século XIX, a mão de obra dos núcleos urbanos em sua maioria era formada por africanos escravizados, mas também aqueles que eram livres ou libertos eram considerados força de trabalho. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 2/26 O regime escravista predominava nas relações de trabalho desse período, e os escravos exerciam as mais diversas atividades: como os escravos de ganho que vendiam seu trabalho na rua; como artesãos e em atividades domésticas como cozinheiras, amas de leite, lavadeiras, carregadores, entre outros. Até 1850 o trabalho escravo era majoritário nas fábricas e indústrias, momento em que se inicia a entrada dos imigrantes europeus (MORTARI; VIEIRA, 2014). Adelina era uma escrava de ganho que circulava nas ruas de São Luís no Maranhão, no século XIX. Ela sabia ler e escrever e vendia pelas ruas charutos que eram feitos pelo seu senhor, do qual ela era filha bastarda. No seu dia a dia, foi construindo redes de sociabilidade e utilizava o momento da venda de charutos para avisar os abolicionistas das repressões policiais. Aos 16 anos de idade, ela começou a participar dos comícios dos abolicionistas, tornando-se uma informante deles (MOURA, 2004). Figura 1 - Representação de umas das atividades realizadas pelos africanos escravizados. Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018. VOCÊ O CONHECE? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 3/26 Recife (PE) e Salvador (BA) se constituíram como os maiores centros de comércio de escravizados, resultado principalmente da intensa produção nos engenhos de açúcar que no século XIX tem um novo aumento significativo. Em suma, essas cidades tinham uma grande concentração de populações negras, sobretudo na região nordeste do Recife, em Salvador e em São Luís (MA), locais onde a chegada dos imigrantes europeus foi reduzida (MORTARI; VIEIRA, 2014). Maria Firmina (1817-1917) era uma negra livre que se formou como professora primária e, em 1859, publicou a obra “Úrsula”, considerada o primeiro romance abolicionista do Brasil. O romance retrata um triângulo amoroso e questiona o sistema escravista através dos personagens negros (MOURA, 2004). No início do XIX, a população do Brasil era de aproximadamente 3 milhões de habitantes, sendo que destes, 1,6 milhões eram escravizados; 400 mil eram negros libertos e apenas 1 milhão eram brancos (MORTARI; VIEIRA, 2014). Na sequência, abordaremos a relação da questão dos escravizados com a formação da nação. 4.1.2 A escravidão em questão e a nação A partir da década de 80 do século XIX, as discussões em torno do negro se tornaram recorrentes em diversos discursos, memórias e historiografias. De acordo com Azevedo (1987), esses discursos refletiam as ambições da classe dirigente do Brasil, que nesse momento voltava suas atenções para a construção de uma nação, isto é, um país composto pela ordem e pelo progresso, o que requeria o fim do trabalho escravo. Dessa forma, a elite se perguntava: o que fazer com a população negra após a eliminação das relações senhor/escravo numa nação civilizada? VOCÊ O CONHECE? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 4/26 Diante disso, o século XIX teve importantes acontecimentos, e o intenso movimento abolicionista que passa a estar presente nas ruas, nos salões na Inglaterra e nas senzalas. O Brasil, que havia conquistado a sua independência anos antes, recebia as pressões das demais nações capitalistas para apagar de sua história uma herança contraditória à nação civilizada que se formava, a escravidão. Essas pressões eram impulsionadas ainda pelo medo de uma revolução semelhante à ocorrida em São Domingos, no Haiti, em 1804, onde os negros se revoltaram contra a escravidão e proclamaram a independência do país (AZEVEDO, 1987). VOCÊ SABIA? As Leis de Ações Afirmativas são legislações criadas para oferecer aos grupos discriminados um tratamento diferenciado devido às injustiças causadas a estes com os preconceitos raciais. Ou seja, são leis que prevê em uma correção da herança histórica causada pela escravidão e pelo racismo. No Brasil, a Lei n.º 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas (BRASIL, 2012), instituiu a obrigatoriedade da reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, negros e indígenas, nos vestibulares das instituições federais de ensino (MOURA, 2004). Figura 2 - Representação do comércio de africanos escravizados feito nas ruas das cidades brasileiras. Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 5/26 A preocupação com a ordem social era pauta antes mesmo da Proclamação da Independência, em 1822, e intelectuais já chamavam a atenção à fundamental formação de uma nação homogênea e incorporada num todo social. Nesses discursos,a ideia de povo era sinônimo de uma sociedade livre, voltada para o trabalho e arquitetada pelo Estado. O obstáculo a essa sociedade eram as populações mais pobres, os indígenas e os negros livres ou escravizados, que nessa visão eram vistos como selvagens. Nesse sentido, os negros não seriam obstáculos somente devido a sua condição de escravizado, mas segundo essa percepção pautada em ideais racistas que consideravam a sua natureza como bárbara, sem leis, sem valores e imersa na irracionalidade. Dessa forma, através desses discursos, o negro era tido como um dos principais inimigos à constituição da nação no modelo do progresso e da civilização (AZEVEDO, 1987). Figura 3 - Representação da crueldade contra africanos escravizados. Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 6/26 Ainda de acordo com Azevedo (1987), intelectuais como José Bonifácio de Andrade e Silva defendiam que os primeiros passos para a formação de uma nação pautada na unidade e na homogeneidade seria a extinção gradual da escravidão, fato que permitiria a supressão da heterogeneidade da população. Outro intelectual, José Eloy da Silva pontuava a escravidão como a origem de todos os males do Brasil, não havendo nenhuma possibilidade de retirar algo positivo dessa estrutura, sendo urgente a extinção do tráfico. Salienta-se que os males da escravidão aos quais se referia José Eloy se estendiam às populações negras escravizadas, que no seu olhar, não trariam nenhum elemento positivo ao Brasil, além de viverem à beira de crescentes insurgências que atrapalhavam a ordem. A partir de década de 1830, a formação da nação nos padrões homogêneos se tornava cada vez mais urgente, época em que o intelectual Frederico Leopoldo Burlamarque escreveria argumentando em favor da devolução dos negros ao continente africano (AZEVEDO, 1987). A Lei Federal n.º 10.639, aprovada em 2003, foi fruto de intenso histórico de lutas do movimento negro. Esta lei tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em todos os níveis de ensino, e o seu texto traz à tona o processo de apagamento da história da população negra na formação do Brasil. Da mesma forma, ressalta a necessidade de valorizar positivamente e evidenciar a participação dos afrodescendentes na construção do Brasil, bem como de combater os preconceitos raciais (BRASIL, 2003). Para além desses discursos exaltados embasados em teorias científicas racistas, os termos assimilação, incorporação e homogeneização eram recorrentes entre os intelectuais que naquele momento pensavam a formação da nação. Isto é, demonstrava-se como o africano escravizado e o próprio sistema escravista, mesmo após a abolição, eram preocupação constante ao corpo político pensante da nação e estes mobilizavam estratégias discursivas para apagar ou assimilar a população negra na noção de nação civilizada branca que desejavam. VOCÊ QUER LER? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 7/26 4.2 A crise do Segundo Reinado e a Proclamação da República [parte I] A guerra do Paraguai, ou a chamada Guerra da Tríplice Aliança, ocorrida entre 1864 e 1870, causou grande impacto na história contemporânea da América Latina. De acordo com Santos (2014) esta foi a maior guerra da América do Sul, constituindo se como a mais sangrenta e violenta do século XIX. Esta guerra deixa suas marcas na história ao corroborar para a integração da bacia do Rio da Prata na economia global, mas também marca o momento do início da crise da monarquia brasileira. 4.2.1 A Guerra do Paraguai: antecedentes O Paraguai em 1811 alcançou a sua independência sob o governo de José Gaspar Rodriguez de Frância, iniciando um momento de nacionalização da economia paraguaia, continuada pelos seus sucessores Carlos López e Francisco Solano López. Para atingir tal nível de economia, o fator proeminente foi a questão agrária devido às mudanças nas políticas de terra ofertada aos índios e mestiços que foram ocupadas pela colonização espanhola. Dessa forma, após conflitos entre a igreja e os proprietários de terras, estas foram destinadas com valores reduzidos aos camponeses, ofertando trabalho àqueles que antes eram sem-terra. A partir dessa política, criaram-se, no Paraguai, fazendas estatais para a prática da agricultura, pecuária e artesanato; no entanto, os recursos iam para o abastecimento do Estado (SANTOS, 2014). Tal processo levou a um gradual crescimento da independência econômica do Paraguai em relação aos países da América Latina, atuando como grande produtor de alimentos e manufaturados, enquanto os demais se caracterizavam pela crescente dependência econômica da Inglaterra. Nesse contexto, a política econômica do Paraguai era referência para toda a América do Sul. Contudo, sua economia impedia a entrada de incentivos externos, isto é, o modelo de economia nacionalista do Paraguai dificultava a entrada das importações advindas da Europa (SANTOS, 2014). A partir deste contexto, a Inglaterra propôs a formação da Tríplice Aliança, constituída entre Brasil, Uruguai e Argentina, com o objetivo de barrar o crescimento do Paraguai. Nesse período, enquanto a economia do Paraguai era uma grande 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 8/26 exceção às demais economias sul-americanas, o Brasil era estruturado por uma sociedade escravagista e pela monarquia portuguesa, e a Argentina era comandada pelos latifundiários, mas ambos os países vendiam ao mercado consumidor externo e compravam do mercado inglês, dependência que não ocorria com o Paraguai (SANTOS, 2014). Os intelectuais brasileiros e argentinos da época não aceitavam o isolamento e a nacionalização das terras e do comércio exterior do Paraguai e eram contrários à alfabetização gratuita e obrigatória que o Estado paraguaio ofertava à população. Estes intelectuais afirmavam que o Paraguai estava imerso na barbárie, mas em contrapartida, para a população do Paraguai, isto rendeu muitos benefícios – como o fim do analfabetismo e o aumento das indústrias artesanais, por exemplo (SANTOS, 2014). Nesse período, a Inglaterra era a fornecedora bélica para todos os países do Rio da Prata, e esta era uma importante via do comércio inglês. O então presidente do Paraguai, em 1864, Francisco Solano López pretendia expandir o seu território a fim Figura 4 - Representação de uma das batalhas da Guerra do Paraguai. Fonte: Marzolino, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 9/26 de conseguir uma saída através dos rios da Bacia do Prata para o Atlântico. Dessa forma, ele tinha como objetivos controlar a navegação do trecho que o pertencia, impedindo as navegações estrangeiras de circularem nos rios. Com isso, o Brasil, assim como Argentina e Uruguai,defenderiam a livre navegação do Rio Paraguai. Em 1865, o Paraguai, sob ameaças, resolve atacar a província de Mato Grosso, no Brasil, e a província de Corrientes, na Argentina, necessária para chegar ao seu outro alvo no Brasil, o Rio Grande do Sul. Em 1.º de maio de 1865, é organizada a Tríplice Aliança, entre Argentina, Brasil e Uruguai, para permitir a livre navegação nos rios Paraguai e Paraná que compunha a bacia do Rio da Prata (SANTOS, 2014). Na sequência, veremos como era feito o recrutamento de soldados pelo exército brasileiro, e qual era a participação dos escravizados nos conflitos. 4.2.2 Os soldados na Guerra do Paraguai Os conflitos que desencadearam a independência do Brasil ocorrida em 1822 levou ao combate um exército com mais de 7 mil soldados de distintos níveis sociais: homens livres voluntários, milícias, caixeirosviajantes, comerciantes, fazendeiros, mas sobretudo africanos escravizados doados pelos senhores. O exército brasileiro, que naquele período não possuía formalidades para o alistamento, entre a independência do Brasil e a Guerra do Paraguai passou por um processo de fortalecimento, sob o comando de Duque de Caxias que, após as primeiras perdas na Guerra do Paraguai, passou a aperfeiçoar as técnicas e táticas (SANTOS, 2014). Em 1864, momento de início da Guerra do Paraguai, o Brasil tinha como grande motor da sua economia a mão de obra escravizada africana, utilizada para todas as atividades braçais e diariamente submetida às violências físicas e simbólicas do sistema escravista. Com a Guerra do Paraguai, o alistamento dos africanos escravizados ao exército emergiu como uma possibilidade de alcançar a liberdade, já que houve uma promessa que estes, após o término da luta e o retorno ao Brasil, seriam livres (SANTOS, 2014). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 10/26 Com isso, o alistamento dos escravizados ocorreu de diversos modos: o recrutamento forçado, a doação e venda dos escravos pelos fazendeiros ao governo e, por fim, a promulgação de leis que previa multas aos africanos livres que não se alistassem no exército. Dessa forma, foram mobilizados ferramentais institucionais para legalizar a obrigatoriedade do alistamento dos africanos e afrodescendentes (SANTOS, 2014). Ainda segundo Santos (2014), o africano escravizado alistado trocava as fazendas pelo campo de batalha e recebia ordens dos oficiais do exército brasileiro. Grande parte dos soldados era de africanos ou afrodescendentes, tanto livres quanto escravizados. A seguir, você saberá quais os impactos no Brasil após o fim da Guerra do Paraguai. Acompanhe! Figura 5 - Os africanos escravizados eram forçados a se alistarem no exército para lutarem nas guerras. Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 11/26 4.2.3 O fim da Guerra do Paraguai e as consequências para o Brasil A falta de preparo do exército paraguaio levou à total destruição do seu país, conduzindo grande parte dos soldados, sem nenhum preparo, à morte. Isto obrigou o exército a recrutar crianças e idosos para dar seguimento à batalha; contudo, ao longo dos seis anos de guerra, o poder bélico dos demais países se ampliou, levando à derrota dos paraguaios. Com o fim da guerra, Argentina e o Brasil se apossaram de algumas extensões territoriais do Paraguai (SANTOS, 2014). Os paraguaios foram vencidos em diversas batalhas, entre elas a batalha do Riachuelo e em Uruguaiana. No entanto, os soldados brasileiros também enfrentaram muitas dificuldades: falta de organização das tropas, escassez de recursos alimentícios, ausência de comunicação e também as epidemias que dizimavam as tropas. O fim da guerra ocorreu com a morte de Solano López em 1870, no entanto as consequências foram devastadoras. A população do Paraguai foi dizimada a sua economia e indústrias destruídas, e o país enfrenta até a atualidade dificuldades de se reerguer (SANTOS, 2014). Mesmo a Tríplice Aliança saindo vitoriosa, o Brasil teve prejuízos financeiros na guerra, causando um enorme gasto e dívidas ao Império, e obrigando o governo a solicitar ajuda externa, o que aumentou a dependência do Brasil ao capital estrangeiro, como o da Inglaterra. Com as dívidas, ficou cada vez mais difícil de o Brasil manter as necessidades de cada região, se tornando fundamental a centralização política. No entanto o exército, durante o conflito, se aperfeiçoou e se modernizou, saindo mais fortalecido após os embates (SANTOS, 2014). Após o retorno dos soldados brasileiros da guerra, a responsabilidade sobre a salvação da pátria caía em cima destes, isto é, os militares seriam os grandes salvadores. Somado a isso, a falta de reconhecimento destes militares que lutaram nos campos de batalhas, e as ideias positivistas foram fatores que contribuíram para a ampliação da insatisfação desta classe com o governo imperial. Tornava-se mais evidente que a forma política de Império limitava a cidadania dos militares, e estes ansiosos por uma maior participação política, se juntaram aos grupos que difundiam ideias contra a monarquia a defendia ascensão da República (SANTOS, 2014). A partir do contexto exposto, podemos ver que a Guerra do Paraguai repercutiu em diferentes dimensões. De igual forma, vemos como o fim da guerra, os altos custos para os cofres do Império e a insatisfação dos militares irão somar-se à crise da 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 12/26 monarquia. 4.3 A crise do Segundo Reinado e a Proclamação da República [parte II] A abolição da escravidão é um dos elementos apontados como razão para a crise do Império, devido à perda do apoio da classe rural ao imperador. Contudo, o processo que levou à abolição é mais importante que esse fato, na medida em que estamos tratando da libertação de corpos que eram violentados pelo sistema escravista. No entanto, a historiografia tradicional acerca da abolição cristalizou uma escrita da história que dimensionou esse acontecimento como resultado de ação de heróis nacionais, sobretudo brancos, apagando toda uma complexa rede de práticas, ideias, discursos e insurreições das populações negras escravas, ou livres, que também pressionaram rumo à abolição. 4.3.1 Processo da abolição da escravidão A abolição da escravidão no Brasil, ao contrário do que evidencia a tradicional historiografia sobre esse período, foi resultado de um processo histórico que envolveu diversos personagens, práticas, ações e resistências, sobretudo, de populações de origem africana entre escravizados e livres que contribuíram para pressionar tal instituição. Isto é, a abolição deve ser entendida para além da figura emblemática da princesa Isabel. Em 1845 foram proibidas, através do Código de Posturas, as reuniões de africanos escravizados na cidade de Desterro (atual Florianópolis, no estado de Santa Catarina) para os batuques ou festas. Um acontecimento num contexto particular de uma província, que, no entanto, representava o medo nacional da elite frente as rede dos africanos escravizados. Cada vez mais eram visíveis as ações repressoras as práticas de manifestação da cultura africana, expostas no Código desde 1828 (LUCINDO; RASCKE, 2014). Em consequência da Revolta dos Malês, a sociedade vivia sob o temor de uma insurreição semelhante a ocorrida no Haiti, entre 1792 e 1804, e com isso houve uma potente onda de agenciamento negro e um enorme medo branco (AZEVEDO, 1987). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 13/26 Conforme Lucindo e Rascke (2014), a repressão e a vigilância policial sobre as ruas, assim como as agitações dos africanos escravizados se intensificaram; os momentos de encontro, de dança, as festas e a música eram tidos como ameaças à ordem pública. Aqueles que criticavam a escravidão apontavam que a possibilidade de um Haiti se projetar no Brasil era uma realidade próxima. Dessa forma, a Revolução Haitiana no final do século XVIII, os movimentos pela abolição, a circulação das ideias abolicionistas contribuíram para a formação de uma rede de movimentações no Brasil que passou a questionar o sistema escravista, culminando na abolição, em 1888. Destaca-se, que no Brasil, no século XIX, a escrita da história da nação foi restrita ao Instituto Histórico Geográfico (IHGB). Um dos modos de veicular as narrativas e a seleção de memória pelo IHGB foi a publicação da “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”, sendo o acontecimento da abolição objeto de discurso. A edição publicadaem 1888 trazia dois acontecimentos importantes: a abolição da escravidão e o aniversário de 50 anos do IHGB. Contudo, em sua abordagem, a revista enfoca a família imperial como principais atores sociais desses fatos, direcionando o protagonismo para a princesa Isabel, regente no período (LUCINDO; RASCKE, 2014). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 14/26 Figura 6 - Efígie da princesa Isabel em nota de 200 cruzeiros, de 1984, um dos modos de mobilizar determinada memória nacional. Fonte: Georgios Kollidas, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 15/26 Não por acaso, após a abolição, as edições da revista tiveram uma maior preocupação em registrar e enumerar os eventos comemorativos que homenageavam o imperador D. Pedro II e a princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea. Nesse período, alguns monumentos foram fundados, entre os quais o busto do Visconde de Rio Branco, devido a sua ação frente à Lei do Ventre Livre (LUCINDO; RASCKE, 2014). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 16/26 Desse modo, vemos como o IHGB engendrava a escrita de uma história e a seleção de uma memória que colocava a abolição da escravidão como um enredo possível somente devido às ações imperiais. Narrativa esta que congregou uma historiografia Figura 7 - Princesa Isabel representada na cédula de 50 cruzeiros, de 1963. Fonte: Georgios Kollidas, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 17/26 que emerge como majoritária e ainda circula na sociedade atual a figura da princesa Isabel como grande heroína da história. 4.3.2 O pós-abolição e as associações Os conteúdos dos livros didáticos de história, de modo geral, não abordam as populações de origem africana após a abolição da escravidão, como se estes desaparecessem do contexto histórico. A escrita da história do Brasil, corroborando para esta perspectiva, tratava a Lei Áurea apenas como uma reação à pressão inglesa, invisibilizando toda a participação das populações escravizadas que também contribuíram para a abolição. Para englobar essa ótica de estudo foram criadas áreas de pesquisa do pós-abolição, como meio de dar conta dessa lacuna na historiografia. VOCÊ SABIA? Os termos “populações de origem africana” e “afrodescendentes” remetem, segundo Cardoso e Rascke (2014), a experiências amplas de diferentes povos e vivências, incluindo a própria experiência da diáspora africana. Desse modo, ao utilizar estes termos, estamos ampliando as experiências dessas populações para além da escravidão, devolvendo a estes atores históricos, do passado e do presente, a humanidade que muitas das vezes lhes foi negada. Estes estudos irão emergir a partir dos obstáculos à integração do afrodescendente na sociedade e no mercado de trabalho livre. De acordo com Lucindo e Rascke (2014), Florestan Fernandes argumenta que uma das dificuldades encontradas por essas populações após a abolição não foi apenas a desigualdade social entre brancos e negros, mas principalmente o aspecto racial, sendo o preconceito racial uma herança do próprio sistema escravista que irá dificultar o acesso destes ao mercado de trabalho, sobretudo, quando em disputa com os imigrantes europeus. VOCÊ QUER LER? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 18/26 O livro “Irmandades Negras: memórias da diáspora no Sul do Brasil”, da historiadora Karla Leandro Rascke (2016), trata das festas e celebrações de morte que eram realizadas no âmbito de duas associações de negros, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito dos Homens Pretos. Através destas associações, a autora retrata os diferentes modos de organização e sociabilidade formados por estas populações após a abolição da escravidão na cidade de Desterro, atual Florianópolis (SC). No pós-abolição, um dos modos encontrados pelos afrodescendentes para se integrarem na sociedade foi a formação de associações beneficentes e irmandades, que atuavam junto com os jornais de modo significativo na transição do Império para a República. Desde estas organizações, já existia uma atenção voltada para a educação e uma procura por ascensão social. Estas sociedades eram compostas por um número reduzido de afrodescendentes, isto é, uma minoria que estava nestes espaços para a construção participativa da sua autonomia e dos laços de solidariedade. As irmandades, de caráter religioso, eram fortes desde o período colonial, enquanto as sociedades beneficentes, em sua maioria, ficaram restritas ao seu caráter lúdico e recreativo, intensificando-se no início da República. Os membros dessas associações eram considerados como uma elite letrada que tinha como principal bandeira o combate a discriminação racial (LUCINDO; RASCKE, 2014). Foram criados também espaços para proporcionar a instrução e a educação dessas populações, como a Sociedade Recreativa União Operária de Laguna/SC, com os seguintes principais objetivos: a) Proporcionar reuniões dançantes ou quaisquer outras festas em que se reúnam amistosamente os sócios e seus familiares; b) criar uma sessão de leitura variada e instrutiva para seus sócios fazendo aquisições de jornais, livros e revistas boas; c) intensificar e desenvolver-se por todos os meios ao seu alcance os serviços de assistências sociais (LUCINDO; RASCKE, 2014, p. 196). O Club 13 de Maio dos Homens Pretos, fundado em 1902, em São Paulo, tinha como foco a criação de escolas noturnas e diurnas. Nas irmandades religiosas, como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a Irmandade de São Benedito dos Homens Pretos de Florianópolis, fundadas em 1859, a preocupação com a escolarização é colocada em pauta novamente (LUCINDO; RASCKE, 2014). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 19/26 O cantor de rap Rincon Sapiência lançou, em 13 de maio de 2018, dia em que se comemorou 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, a música Crime bárbaro. A obra traz uma forte crítica e um questionamento se a abolição teria realmente ocorrido. Criticando a versão da história que traz a heroína branca como figura da abolição, no videoclipe o cantor interpreta as ações de resistência e luta dos escravizados para abolirem a escravidão. A letra da música e o videoclipe podem ser utilizados como importantes ferramentas didáticas para desconstruir a narrativa da abolição em sala de aula. Disponível em: . Estas associações, de modo geral, irão se atentar à integração do afrodescendente na sociedade, entretanto, do mesmo modo, irão deslocar e disputar a memória nacional na tentativa de incorporar as ações dessas populações em cena. Nessa medida, existiam ações para colocar José do Patrocínio e Luiz Gama, abolicionistas negros, como protagonistas da abolição, disputando o lugar com a princesa Isabel. Observe o exemplo descrito no caso a seguir. CASO Uma professora de uma turma de 3.º ano do Ensino Médio, ao terminar a exposição do conteúdo sobre a abolição da escravidão e a marginalização sofrida pelas populações negras no pós-abolição, iniciou um debate com os alunos questionando qual era a opinião destes sobre a Lei de Ações Afirmativas, entre as quais a conhecida como lei de cotas raciais, que entrou em vigor no Brasil em 2012. Um grupo de alunos, entre negros e brancos, defendeu que essa medida seria um tipo de racismo, pois aponta a falta de capacidade dos negros deentrarem nas universidades. Outro grupo de alunos, estes brancos, afirmaram que as cotas tiram a vagas deles no acesso à universidade. Diante dessa divergência de opiniões, a professora se viu na obrigação de aprofundar o debate sobre as cotas, apontando os motivos para a existência de tal legislação. É preciso evidenciar que a escravidão no Brasil durou 388 anos, tendo seu fim em 1888 com a abolição, isto é, na maior parte da história do Brasil as populações negras foram submetidas à violência da escravidão. Além disso, a abolição em 13 de maio de 1888 só finalizou esta instituição formalmente, mas as heranças desse brutal sistema ainda permanecem em continuidade no Brasil atual, sendo expressas através do racismo – que é estrutural em nossa sociedade. VOCÊ QUER VER? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 20/26 https://www.youtube.com/watch?v=RYYnpA-PQDk https://www.youtube.com/watch?v=RYYnpA-PQDk https://www.youtube.com/watch?v=RYYnpA-PQDk Em 2018 fez apenas 130 anos que a escravidão terminou, um período curto para superar toda a memória dessa instituição. É preciso muitos anos e muitas gerações até que seja superado todo o trauma da escravidão, e a população negra possa se reerguer. Para isso, frente à constante reprodução de atitudes racistas no cotidiano brasileiro, obstaculizando a permanência dos negros nos diferentes espaços da sociedade – como o espaço escolar – se torna fundamental o auxílio do Estado em forma de políticas públicas, como as cotas, para inserir essas pessoas na sociedade. Nesse sentido, salienta-se que ainda estamos a passos curtos para atingir a verdadeira abolição. 4.4 A crise do Segundo Reinado e a Proclamação da República [parte III] A partir de 1870 o Império no Brasil começa a desfalecer sofrendo com os pensamentos contrários a este tipo de regime e em defesa da instalação de uma República. A historiografia tradicional aponta essa crise decorrente do próprio esgotamento do regime imperial e da influência das políticas europeias para superar os antigos regimes. Contudo, a ascensão da República no Brasil foi pautada por um contexto particular de efervescência de novas ideias e concepções que devem ser compreendidas para apreender essa transição de governo. 4.4.1 A crise do Império e os primeiros passos da República O momento de transição do Império para a República foi sinônimo de muitas mudanças políticas e de transformações. Segundo Costa (2006), essas mudanças já eram sentidas lentamente desde o fim da Guerra do Paraguai, que também contribuiu para o abalo do Império. Dessa maneira, diversos setores da sociedade expressavam sua insatisfação com a política imperial e estavam em busca de outro modo de representação política que incluísse uma maior participação nas decisões do país. Em 1831 a Guarda Nacional, influenciada pelo modelo francês, era denominada como milícia-cidadã e era uma ferramenta do liberalismo; no entanto, ao final do Império, esta milícia passa a se preocupar não mais com a formação do cidadão soldado, mas com o soldado cidadão. Cidadania era sinônimo de hierarquia militar e status social. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 21/26 A principal atividade da Guarda Nacional era a socialização da população, selecionando líderes e organizações partidárias para representar o povo e, assim, atender às suas necessidades e constituir eleitores para votar. Entre os insatisfeitos com o Império estava também o Exército, que defendia uma maior representação política e se considerava superior à Guarda Nacional. Essa concepção se acentuou ainda mais com as ideias positivistas de Benjamim Constant nas escolas militares, imbuindo esta categoria de um posicionamento crítico e de uma missão cívica que seria a instauração da República, para afastar o atraso do país e alcançar o progresso. No entanto, estes eram alguns dos projetos para a República, que também contava com as ideias das elites políticas civis a favor dos projetos liberais republicanos. Ainda conforme Costa (2006), os defensores das ideias republicanas no Brasil tinham o olhar voltado à modernização do país, o que não condizia com a condição da escravidão como principal base da economia. A mão de obra escrava deslocava o Brasil para um patamar inferior em relação às dimensões sociais, econômicas e morais comparadas às demais nações já civilizadas. Porém, mesmo o regime de Império era acusado de favorecer a própria manutenção da instituição da escravidão, que tanto deveria combater em prol da modernização nacional. Alguns dos republicanos eram influenciados pela corrente positiva do pensamento do século XIX, valorizando o pensamento racional, o que tornava a República a forma de governo mais adequada e moderna para enfrentar os atrasos da monarquia. 4.4.2 A historiografia sobre a Proclamação da República A crise do Império e o início da República é um tema que possui diversas discordâncias entre as perspectivas historiográficas. Alguns estudiosos que veremos a seguir irão apontar que a Proclamação da República era algo inevitável diante da crescente crise imperial, sendo o golpe dos militares apenas resultado desse momento conturbado. Essa visão apresenta uma perspectiva linear e determinista da história, no entanto, a proclamação da República foi resultado de diversos fatores que devem ser levados em conta para entender esse período. Dentre as interpretações, Jhon Jurt pondera que na Proclamação da República não existe uma vontade popular majoritária, isto é, não há um povo, mas a mobilização de alguns pequenos grupos políticos e de militares insatisfeitos com o governo. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 22/26 Emilia Viotti da Costa (2006) apresenta uma crítica às interpretações monarquistas e republicanas, pois estas não dimensionam o processo que culminou na queda do Império. Na perspectiva republicana, evidencia-se que os projetos republicanos existiam desde a inconfidência mineira, colocando a República como um desejo nacional. A interpretação monarquista aponta o Império como um fator que contribuía para a manutenção da ordem e da unidade nacional, sendo a Proclamação da República uma conspiração do Exército contra a vontade nacional. Costa (2006) explicita também as interpretações, por exemplo, dos fazendeiros do Sul, que viam a República como um modo de chegar ao poder; as ideias militaristas que argumentavam a vitória da República somente à ação dos militares; e a perspectiva dos civilistas que entendiam a ação dos militares como prejudicial à política. Costa (2006) ressalta que as interpretações sobre os acontecimentos da proclamação da República irão se alterar de acordo com as novas revisões historiográficas. No entanto, mesmo com essas divergências, é preciso evidenciar a participação de três forças nesse movimento: uma parcela do Exército, os fazendeiros do Oeste paulista e os representantes da classe média urbana. Costa (2006) também desconstrói questões cristalizadas na historiografia que apresentam como chave para a proclamação os seguintes fatores: a abolição da escravidão, as questões religiosas, o Exército, o Partido Republicano e o poder moderador. A autora irá apontar que a abolição não representou o início da República, mas esta seria a expressão de mudanças significativas na estrutura econômica que irão romper com os elementos tradicionais, isto é, a abolição causou o descontentamento da classe rural que deixou de apoiar o Império. Colocar as intervenções do imperador na igreja católica e o descontentamento dos devotos como a causa do fim do Império é visto como um exagero por Costa (2006), já que a igreja não era inimiga da monarquia e a mesma não defendia uma República. Sobre a dimensão do Partido Republicano, estenão possuía um grande número de membros, mas deu o primeiro passo para a circulação das ideias em favor da República. O Exército foi decisivo para o golpe, no entanto, isso se concretizou devido à já emergente crise do Império. Em relação ao poder moderador, a autora afirma que este possuía um poder reduzido frente às grandes oligarquias que dominavam a política (COSTA, 2006). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 23/26 Nessa conjuntura, Costa (2006) argumenta que a emergência da República só ocorreu devido às transformações econômicas e sociais ocorridas no Império e que levaram à queda desse regime. Isto forneceu as bases para a ascensão de ideias republicanas e projetos políticos que circulavam em todo o país. Entretanto, a instalação da República em si não representa um rompimento das antigas relações de trabalho, já que a vida dos trabalhadores, sobretudo os rurais, permaneça nas mesmas condições, assim como o perfil colonial da economia e a relação de dependência com o mercado externo. Síntese Você concluiu os estudos sobre os distintos fatores que levaram à crise na monarquia do Brasil e à emergência do regime republicano. Dessa forma, foi possível apreender de que modo a escravidão, a abolição da escravidão e a Guerra do Paraguai influenciaram para a queda do Império. Além disso, realizou reflexões direcionadas ao questionamento e a desconstrução das narrativas históricas cristalizadas pelos poderes políticos. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: identificar os diferentes personagens e agenciamentos que envolveram no processo de abolição da escravidão; desconstruir a narrativa tradicional sobre a abolição; conhecer as divergências historiográficas acerca da Guerra do Paraguai; refletir sobre o complexo papel da escravidão para a formação da nação. Bibliografia 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_4/ebook/index.html 24/26 AZEVEDO, C. M. M. de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira, e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 13/09/2018. ______. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 13/09/2018. CARDOSO, P. de J. F.; RASCKE, K. L. Lei Federal 10.639/03, discussão de conceitos: multiculturalismo, diversidade, ações afirmativas, racismo, preconceito, afrodescendente, negro, entre outros. In: ______ ; ______. 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