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Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br GOVERNO DO ESTADO SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA POLÍCIA CIVIL CONCURSO PÚBLICO PROVA DISCURSIVA DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL Você recebeu este caderno contendo um tema de peça prática a ser desenvolvido e 3 questões discursivas. Confira seus dados impressos na capa deste caderno. Quando for permitido abrir o caderno, verifique se está completo ou se apresenta imperfeições. Caso haja algum problema, informe ao fiscal da sala. Assine apenas no local indicado; qualquer identificação ou marca feita pelo candidato no corpo deste caderno, que possa permitir sua identificação, acarretará a atribuição de nota zero à prova. É vedado, em qualquer parte do material recebido, o uso de corretor de texto, de caneta marca-texto ou de qualquer outro material similar. Redija as respostas e o texto definitivos com caneta de tinta exigida no edital. Os rascunhos não serão considerados na correção. A ilegibilidade da letra acarretará prejuízo à nota do candidato. Ao sair, você entregará ao fiscal este caderno. Até que você saia do prédio, todas as proibições e orientações continuam válidas. AGUARDE A ORDEM DO FISCAL PARA ABRIR ESTE CADERNO. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br PEÇA PRÁTICA ANDERSON CASSAPA é prefeito em Município do interior de Santa Catarina, eleito após apertado processo eleitoral. Historicamente, já existiram procedimentos, todos atualmente arquivados, envolvendo estelionato e corrupção de Anderson em coautoria com o antigo prefeito. De início, alguns meses após empossado como prefeito, começaram a aparecer algumas denúncias anônimas, relatando a exigência de valores em dinheiro como condição para nomeação de servidores comissionados que fossem indicados por outros partidos políticos que não aquele com o qual o prefeito possui vínculo. Após análise preliminar feita pelo setor de investigação, verificou-se que as informações eram verídicas e duas testemunhas ratificaram os termos das denúncias anônimas, ambas pertencentes a partidos políticos que tiveram que pagar os valores exigidos. Ainda de acordo com as testemunhas, os valores eram pagos em uma conta do próprio prefeito. Foram entregues documentos dos depósitos feitos, comprovando as transações bancárias. Ato seguinte, o inquérito policial foi devidamente instaurado. O vice-prefeito, após intimado, relatou conhecer a atuação criminosa do prefeito, bem como informou não concordar com o que ocorria no Município. Informou, ainda, que só compôs chapa com o prefeito em razão de acordo partidário. Por outro lado, em seu interrogatório, o prefeito negou a ocorrência de qualquer crime em sua gestão. Dois presidentes de partidos políticos contrários ao prefeito compareceram na Delegacia de Polícia e apresentaram uma gravação ambiental, ocorrida ontem, que comprova que o prefeito continua exigindo os valores a fim de subsidiar reformas em andamento em vários imóveis privados ainda não identificados, e tal cenário ocorre mesmo com o prefeito sabendo da investigação criminal em andamento. Eles informaram, ainda, que o vice-prefeito não está inserido na empreitada criminosa, ao contrário, eles indicaram que o vice-prefeito tenta com a Câmara dos Vereadores a retirada do Prefeito, procedimento que ainda está em seu passo inicial. O setor de investigação ratificou todas as informações, bem como indicou duas novas testemunhas para serem ouvidas na próxima semana. Ademais, em relatório investigativo, os valores pagos estão em R$ 84.500,00. Não foram localizados elementos informativos que indiquem a participação de outras pessoas no caso. Na qualidade do Delegado de Polícia responsável pelas atividades de Polícia Judiciária que preside o inquérito policial, redija a medida cautelar adequada à continuidade das investigações. Fundamente e motive. NÃO ASSINE ESTA FOLHA Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br PONTUAÇÃO Quesito Critério Sua nota e pontuação prevista O que a pontuação possui Endereçamento Vara/Comarca (1,0) - Endereçamento Preâmbulo Nome da peça e a estruturação do preâmbulo (3,0) - A Polícia Civil do Estado... (1,0) - Referência ao IP instaurado (1,0) - Representação por medida cautelar diversa de prisão + sequestro (1,0) Fundamento Legal (2,0) - Previsões legais específicas da peça (art. 5º, LXI, art. 144, §4°, da CF, pelo art. 2°, §1°, da Lei n° 12.830/2013, art. 282, §2º, do CPP, pelo art. 132 do CPP Fatos Narrativa sucinta dos fatos (2,0) - Narrar de forma objetiva e sucinta os fatos mais relevantes que ocorreram. Fundamentação - Tipificação das condutas - Requisitos de cabimento e requisitos cautelares da medida (14,0) - crime de concussão (art. 316 do CPP) + causa de aumento (ocupante de função de direção da administração direta) (2,0) - Requisitos específicos desta cautelar (8,0 pontos): • Crime previsto com pena restritiva de liberdade • fumus comissi delicti • periculum in mora (necessidade + adequação) • suficiência das medidas cautelares diversas de prisão - Requisitos do sequestro: (4,0 pontos) • Periculum in mora • Origem ilícita Pedido Especificação do pedido (7,0) - Medidas cautelares diversas da prisão + nome do alvo + indicação de 3 medidas (3,0) - sequestro em conta + valor (2,0) - Oitiva do MP (1,0) - ausência de manifestação da parte contrária – caso urgente (1,0) Chancela final Local e data (1,0) - Local e data Erros de Português (-0,25 cada, até o limite de 20 pontos) TOTAL (30,0) Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br OBS: Sobre a incidência da causa de aumento no Chefe do Executivo: Ementa: INQUÉRITO. PENAL. PROCESSUAL PENAL. CRIMES DE PECULATO E DISPENSA ILEGAL DE LICITAÇÃO. PRESCRIÇÃO DO DELITO DEFINIDO NO ART. 89 DA LEI 8.666/93. ART. 312 DO CÓDIGO PENAL. CRIME PRATICADO POR GOVERNADOR DE ESTADO. CAUSA DE AUMENTO DO ART. 327, § 2º, DO CÓDIGO PENAL. INCIDÊNCIA. CHEFE DO PODER EXECUTIVO EXERCE FUNÇÃO DE DIREÇÃO. QUESTÃO PREJUDICIAL REJEITADA. DENÚNCIA. INDÍCIOS DE AUTORIA E MATERIALIDADE. SUPERFATURAMENTO DE PREÇOS DE EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ADQUIRIDOS MEDIANTE DISPENSA DE LICITAÇÃO. LAUDO PERICIAL E RESULTADO DE AUDITORIA QUE INDICAM A EXISTÊNCIA DO PREJUÍZO. DENÚNCIA RECEBIDA. 1. O Governador do Estado, nas hipóteses em que comete o delito de peculato, incide na causa de aumento de pena prevista no art. 327, §2º, do Código Penal, porquanto o Chefe do Poder Executivo, consoante a Constituição Federal, exerce o cargo de direção da Administração Pública, exegese que não configura analogia in malam partem, tampouco interpretação extensiva da norma penal, mas, antes, compreensiva do texto. 2. “A exclusão, do âmbito normativo da alusão da regra penal a 'função de direção', da chefia do Poder Executivo, briga com o próprio texto constitucional, quando nele, no art. 84, II, se atribui ao Presidente da República o exercício, com o auxílio dos Ministros de Estado, da direção superior da Administração Pública, que, obviamente, faz doexercício da Presidência da República e, portanto, do exercício do Poder Executivo dos Estados e dos Municípios, o desempenho de uma 'função de direção'" (INQ. 1.769/DF, Rel. Min. Carlos Velloso, Pleno, DJ 03.06.2005, excerto do voto proferido pelo Ministro Sepúlveda Pertence no leading case sobre a matéria). Consectariamente, não é possível excluir da expressão "função de direção de órgão da administração direta" o detentor do cargo de Governador do Estado, cuja função não é somente política, mas também executiva, de dirigir a administração pública estadual. 3. As expressões "cargo em comissão" e "função de direção ou assessoramento" são distintas, incluindo-se, nesta última expressão, todos os servidores públicos a cujo cargo seja atribuída a função de chefia como dever de ofício. 4. Os indícios materiais patentes nos autos, no sentido de que o denunciado, juntamente com outros acusados em relação aos quais o feito foi desmembrado, dispensou licitação referente a Convênio por ele celebrado com o Ministério da Saúde, praticando, em tese, crime de peculato, por meio do superfaturamento dos preços de equipamentos e materiais adquiridos, recomendam o recebimento da denúncia, posto apta a peça acusatória inicial. 5. Extinção da punibilidade do crime de dispensa ilegal de licitação (art. 89 da Lei 8.666/93), tendo em vista a prescrição. 6. Denúncia recebida quanto ao crime de peculato. (Inq 2606, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 04/09/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-222 DIVULG 11-11-2014 PUBLIC 12-11-2014 REPUBLICAÇÃO: DJe-236 DIVULG 01-12-2014 PUBLIC 02-12-2014) VERSÃO 1: Excelentíssimo Desembargador da ____ Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Ref. Inquérito Policial nº. A Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, por meio do seu Delegado de Polícia, ao final assinado, no uso de suas atribuições, que lhe são conferidas, dentre outros dispositivos, pelo art. 144, §4°, da Constituição Federal, pelo art. 2°, §1°, da Lei n° 12.830/2013, pelo art. 282, §2º, Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br do Código de Processo Penal, pelo art. 132 do Código de Processo Penal, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, representar por medidas cautelares diversas da prisão abaixo arroladas, bem como pela medida assecuratória do sequestro, pelos fundamentos de fato e de direito que a seguir passa a expor. 1. Dos fatos O Prefeito de um Município do interior de Santa Catarina exige valores em dinheiro como condição para nomeação de servidores comissionados que fossem indicados por outros partidos políticos que não aquele com o qual o prefeito possui vínculo. Tal cenário perdura até a presente data e está comprovado por testemunhas, bem como foram entregues documentos de depósitos, comprovando as transações bancárias. 2. Do Direito Em relação ao direito, tem-se o crime de concussão, previsto no art. 316 do CPP, uma vez que o prefeito exige para si vantagem indevida em razão da função. Tem-se a incidência da causa de aumento em razão de o prefeito ser ocupante de função de direção da administração direta, consoante art. 327, §2º, do Código Penal. Observe que se trata de crime punido com restrição de liberdade, de modo que a medida cautelar requerida é cabível, nos termos do art. 283, §1º, do Código de Processo Penal. Os requisitos cautelares da medida cautelar diversa de prisão igualmente encontram-se satisfeitos. O fumus comissi delicti se verifica pela narração dos fatos e do que foi exposto até aqui, estando caracterizados a prova da materialidade e os indícios de autoria do crime cometido pelo prefeito Anderson Cassapa. De forma mais específica, os indícios de autoria e materialidade estão evidenciados pelas testemunhas, relatórios de investigação e documentos acostados ao procedimento. O periculum in mora deve ser mais bem trabalhado à luz da comprovação da necessidade e da adequação das medidas restritivas de direito, consoante disposto no art. 282 do Código de Processo Penal. As medidas são necessárias para evitar a reiteração criminosa. Tem-se, também, a adequação das medidas em razão da gravidade do crime por se tratar pessoa central na gestão. Esses requisitos, junto com a fundamentação acima apresentada, afastam o cabimento de uma medida restritiva de liberdade por ser essa uma medida excessiva. Afinal, o seu afastamento do cargo é suficiente para cessar o crime em andamento e reestabelecer a normalidade, até porque o vice-prefeito não compactua com a atuação criminosa. No que diz respeito à medida cautelar do sequestro, o periculum in mora está evidente em razão do atual gasto dos valores com obras em imóveis privados. Ademais, nos termos do art. 126 do Código de Processo Penal, os valores na conta do prefeito são de origem ilícita. 3. Dos Pedidos Em razão de tudo o que foi exposto nos fundamentos de fato e de direito, esta autoridade policial representa pela decretação das seguintes medidas cautelares diversas da prisão em Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br face do Prefeito Anderson Cassapa, previstas no art. 319 do Código de Processo Penal, por serem adequadas e necessárias ao caso concreto: • Suspensão do exercício da função pública de prefeito; • Proibição de acessar a prefeitura, salvo com autorização judicial; • Instauração de monitoramento eletrônico de Anderson Cassapa. Ademais, esta autoridade policial representa também pelo sequestro no valor de R$ 84.500,00 na conta ______, de Anderson Cassapa, consoante documentos apresentados, com o a consequente bloqueio dos valores em conta corrente por meio do sistema SISBAJUD. Ressalta-se a necessidade de ser oportunizada a prévia manifestação do Ministério Público. Por fim, proceda-se sem a oitiva do investigado ou seu representante legal, nos termos do art. 282, § 3º, do Código de Processo Penal, haja vista se tratar de caso urgente em razão da reiteração delitiva em curso. Nesses termos, postula deferimento. Local e data. Delegado de Polícia VERSÃO 2: Em razão do espaço curto para a resposta (60 linhas), pode- se mostrar interessante um texto corrido, sem a delimitação visual dos espaços. Destacarei em AMARELO as diferenças redacionais. Excelentíssimo Desembargador da ____ Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Ref. Inquérito Policial nº. A Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, por meio do seu Delegado de Polícia, ao final assinado, no uso de suas atribuições, que lhe são conferidas, dentre outros dispositivos, pelo art. 144, §4°, da Constituição Federal, pelo art. 2°, §1°, da Lei n° 12.830/2013, pelo art. 282, §2º, do Código de Processo Penal, pelo art. 132 do Código de Processo Penal, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, representar por medidas cautelares diversas da prisão abaixo arroladas, bem como pela medida assecuratória do sequestro, pelos fundamentos de fato e de direito que a seguir passa a expor. No que diz respeito aos fatos, o Prefeito de um Município do interior de Santa Catarina exige valores em dinheiro como condição para nomeação de servidores comissionados que fossem indicados por outros partidos políticos que não aquele com o qual o prefeito possui vínculo. Tal cenário perdura até a presente data e está comprovado por testemunhas, bem como foram entregues documentos de depósitos, comprovando as transações bancárias. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2)Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br Em relação ao direito, tem-se o crime de concussão, previsto no art. 316 do CPP, uma vez que o prefeito exige para si vantagem indevida em razão da função. Tem-se a incidência da causa de aumento em razão de o prefeito ser ocupante de função de direção da administração direta, consoante art. 327, §2º, do Código Penal. Observe que se trata de crime punido com restrição de liberdade, de modo que a medida cautelar requerida é cabível, nos termos do art. 283, §1º, do Código de Processo Penal. Os requisitos cautelares da medida cautelar diversa de prisão igualmente encontram-se satisfeitos. O fumus comissi delicti se verifica pela narração dos fatos e do que foi exposto até aqui, estando caracterizados a prova da materialidade e os indícios de autoria do crime cometido pelo prefeito Anderson Cassapa. De forma mais específica, os indícios de autoria e materialidade estão evidenciados pelas testemunhas, relatórios de investigação e documentos acostados ao procedimento. O periculum in mora deve ser mais bem trabalhado à luz da comprovação da necessidade e da adequação das medidas restritivas de direito, consoante disposto no art. 282 do Código de Processo Penal. As medidas são necessárias para evitar a reiteração criminosa. Tem-se, também, a adequação das medidas em razão da gravidade do crime por se tratar pessoa central na gestão. Esses requisitos, junto com a fundamentação acima apresentada, afastam o cabimento de uma medida restritiva de liberdade por ser essa uma medida excessiva. Afinal, o seu afastamento do cargo é suficiente para cessar o crime em andamento e reestabelecer a normalidade, até porque o vice-prefeito não compactua com a atuação criminosa. No que diz respeito à medida cautelar do sequestro, o periculum in mora está evidente em razão do atual gasto dos valores com obras em imóveis privados. Ademais, nos termos do art. 126 do Código de Processo Penal, os valores na conta do prefeito são de origem ilícita. Em razão de tudo o que foi exposto nos fundamentos de fato e de direito, esta autoridade policial representa pela decretação das seguintes medidas cautelares diversas da prisão em face do Prefeito Anderson Cassapa, previstas no art. 319 do Código de Processo Penal, por serem adequadas e necessárias ao caso concreto: • Suspensão do exercício da função pública de prefeito; • Proibição de acessar a prefeitura, salvo com autorização judicial; • Instauração de monitoramento eletrônico de Anderson Cassapa. Ademais, esta autoridade policial representa também pelo sequestro no valor de R$ 84.500,00 na conta ______, de Anderson Cassapa, consoante documentos apresentados, com o a consequente bloqueio dos valores em conta corrente por meio do sistema SISBAJUD. Ressalta-se a necessidade de ser oportunizada a prévia manifestação do Ministério Público. Por fim, proceda-se sem a oitiva do investigado ou seu representante legal, nos termos do art. 282, § 3º, do Código de Processo Penal, haja vista se tratar de caso urgente em razão da reiteração delitiva em curso. Nesses termos, postula deferimento. Local e data. Delegado de Polícia Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br QUESTÃO DISCURSIVA 1 (DIREITO PENAL/PROCESSUAL) A Delegacia de Homicídios de Balneário Camboriú – SC recebeu a informação, através de denúncia anônima, que havia um homem morto no quintal de uma casa localizada na Rua D2 em Praia Central. O Delegado responsável pelo caso se dirigiu até o local informado, e realmente constatou que havia um homem morto, aparentemente esgorjado, na área externa da casa. Muitos curiosos estavam dentro do quintal onde o corpo se localizava e também dentro da casa, que aparentava estar abandonada. Sendo assim, o Delegado providenciou a retirada dos curiosos do local do crime, o isolamento da área, e também a preservação do estado das coisas e objetos que ali se encontravam, até a chegada dos peritos criminais. Foram colhidos depoimentos de pessoas que ali se encontravam. Assim que os peritos chegaram, verificaram que muitos objetos foram modificados de lugar, e que o corpo da vítima não deveria estar naquele lugar e naquela posição, pois ele foi mexido. Desta forma, o Perito oficial informou ao Delegado da impossibilidade da perícia do local e do corpo. Ademais, disse ao delegado que “provavelmente se tratava de um suicídio e que os populares devem ter mexido no corpo”. O Delegado indagou se não iriam tirar fotos do corpo da vítima, dos objetos e do local do crime, mas nada foi feito, apenas recolheram o corpo encontrado, apreenderam objetos que ali estavam, e transportaram para Instituto Médico Legal. Diante do caso narrado acima, e das mudanças trazidas pelo “pacote anticrime” no Código de Processo Penal, responda: a) O que é a cadeia de custódia? Quais são as suas etapas? [valor: 2,00 pontos] b) Qual etapa da cadeia de custódia não foi atendida e observada pelos Peritos quando indagados pelo Delegado de Polícia? Conceitue tal etapa. [valor: 4,00 pontos] c) Conforme jurisprudência do STJ, a quebra da cadeia de custódia importa na inadmissibilidade ou nulidade da prova? Justifique. [valor: 4,00 pontos] DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS: Conceito de cadeia de custódia (1,0 pontos) 10 etapas (1,0 pontos) Etapa da fixação + conceito (4,0 pontos) Quebra da cadeia de custódia (4,0 pontos) Português (0,2 por erro) NOTA FINAL MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA: Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br 7 Conceito Nos termos previstos no art. 6º do CPP, logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá (inciso VII) determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias. O exame de corpo de delito é considerado um dos principais instrumentos para a comprovação da materialidade do delito ou de alguma das qualificadoras do crime, sendo obrigatório quando a infração deixar vestígios, não podendo supri-lo a confissão do acusado (art. 158 do CPP). Nesse contexto se apresenta a cadeia de custódia, a qual tem por finalidade garantir a legitimidade do vestígio e a legalidade da prova pericial. Nos termos do art. 158-A do Código de Processual Penal, considera-se cadeia de custódia o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte. Nessa linha, como bem coloca Geraldo Prado,1 a cadeia de custódia se apresenta como relevante instrumento para “assegurar a integridade dos elementos probatórios”, de modo a garantir a “rastreabilidade probatória”2 do vestígio. Observe que, até 2019, o tema possuía uma lacuna no direito brasileiro, sem tratamento legal específico, cenário que foi alterado em razão da inserção do art. 158-A e seguintes ao Código de Processo Penal pela Lei nº 13.964/19. Esse marco legislativo possui relevância, pois, de acordo com o STJ,3 “não é possível se falar em quebra da cadeia de custódia, por inobservância de dispositivos legais que não existiam à época”. 7.2. Procedimento da cadeia de custódia Nos termos do art. 158-A, § 1º, do CPP, o início da cadeia de custódia dá-se com a preservação do local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais nos quais seja detectada a existência de vestígio. E o primeiro agente público que reconhecerum elemento como de potencial interesse para a produção da prova pericial fica responsável por sua preservação, devendo assegurar a integridade do local em que ele for localizado e informar o respectivo órgão para dar continuidade ao procedimento da cadeia de custódia. Uma vez identificado o vestígio de interesse criminal, fica proibida a entrada em locais isolados bem como a remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da liberação por parte do perito responsável, sendo tipificada como fraude processual a sua realização. O art. 158-B do CPP regulamentou em detalhes a cadeia de rastreabilidade do vestígio, a qual é composta pelas seguintes etapas: I – reconhecimento: ato de distinguir um elemento como de potencial interesse para a 1. PRADO, Geraldo. Prova Penal e Sistema de Controles Epistêmicos: a quebra da cadeia de custódia das provas obtidas por meios ocultos. São Paulo: Marcial Pons, 2014, p. 80. 2. EDINGER, Carlos. Cadeia De Custódia, Rastreabilidade Probatória. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 120, p. 237-257, mai.-jun./2016. 3. RHC 141.981/RR, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 23/03/2021. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br produção da prova pericial; II – isolamento: ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime; III – fixação: descrição detalhada do vestígio conforme se encontra no local de crime ou no corpo de delito, e a sua posição na área de exames, podendo ser ilustrada por fotografias, filmagens ou croqui, sendo indispensável a sua descrição no laudo pericial produzido pelo perito responsável pelo atendimento; IV – coleta: ato de recolher o vestígio que será submetido à análise pericial, respeitando suas características e natureza; V – acondicionamento: procedimento por meio do qual cada vestígio coletado é embalado de forma individualizada, de acordo com suas características físicas, químicas e biológicas, para posterior análise, com anotação da data, hora e nome de quem realizou a coleta e o acondicionamento; VI – transporte: ato de transferir o vestígio de um local para o outro, utilizando as condições adequadas (embalagens, veículos, temperatura, entre outras), de modo a garantir a manutenção de suas características originais, bem como o controle de sua posse; VII – recebimento: ato formal de transferência da posse do vestígio, que deve ser documentado com, no mínimo, informações referentes ao número de procedimento e unidade de polícia judiciária relacionada, local de origem, nome de quem transportou o vestígio, código de rastreamento, natureza do exame, tipo do vestígio, protocolo, assinatura e identificação de quem o recebeu; VIII – processamento: exame pericial em si, manipulação do vestígio de acordo com a metodologia adequada às suas características biológicas, físicas e químicas, a fim de se obter o resultado desejado, que deverá ser formalizado em laudo produzido por perito; IX – armazenamento: procedimento referente à guarda, em condições adequadas, do material a ser processado, guardado para realização de contraperícia, descartado ou transportado, com vinculação ao número do laudo correspondente; X – descarte: procedimento referente à liberação do vestígio, respeitando a legislação vigente e, quando pertinente, mediante autorização judicial. A inobservância deste caminho acarreta quebra da cadeia de custódia e a potencial ilicitude da prova. Mas o não cumprimento dos dispositivos legais é capaz de acarretar automaticamente a inadmissibilidade da respectiva prova? De acordo com o STJ,4 “a violação da cadeia de custódia traçada pelo Código de Processo Penal deve ser sopesada pelo magistrado sentenciante com os demais elementos produzidos na investigação para aferir se, ao fim e ao cabo, a prova deve ser considerada confiável”. Trata-se, portanto, de uma nulidade relativa. No julgado, o ministro Rogerio Schietti afastou a tese de que a quebra da cadeia de custódia da prova gere, de forma automática e irremediável, a inadmissibilidade ou nulidade da prova, tal como defende parte da doutrina. Essa interpretação precisou ser feita pelo STJ porque o CPP, apesar de ser exaustivo na forma como as provas devem ser custodiadas e periciadas (artigos 158-A a 158-F), não dispôs sobre as consequências jurídicas da quebra dessa cadeia ou do descumprimento de um desses dispositivos legais. 4. HC 653.515, Rel. Ministro Rogerio Schietti, julgado em 26/11/2021. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br “Se é certo que, por um lado, o legislador trouxe, nos arts. 158-A a 158-F do CPP, determinações extremamente detalhadas de como se deve preservar a cadeia de custódia da prova, também é certo que, por outro, quedou-se silente em relação aos critérios objetivos para definir quando ocorre a quebra da cadeia de custódia e quais as consequências jurídicas, para o processo penal, dessa quebra ou do descumprimento de um desses dispositivos legais. Respeitando aqueles que defendem a tese de que a violação da cadeia de custódia implica, de plano e por si só, a inadmissibilidade ou a nulidade da prova, de modo a atrair as regras de exclusão da prova ilícita, parece ser mais adequada aquela posição que sustenta que as irregularidades constantes da cadeia de custódia devem ser sopesadas pelo magistrado com todos os elementos produzidos na instrução, a fim de aferir se a prova é confiável. Assim, à míngua de outras provas capazes de dar sustentação à acusação, deve a pretensão ser julgada improcedente, por insuficiência probatória, e o réu ser absolvido. As irregularidades constantes da cadeia de custódia devem ser sopesadas pelo magistrado com todos os elementos produzidos na instrução, a fim de aferir se a prova é confiável. STJ. 6ª Turma. HC 653515-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, Rel. Acd. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 23/11/2021 (Info 720).” MATERIAL BÔNUS: Cadeia de Custódia e a Prova Digital O STJ reconhece a volatilidade intrínseca dos dados armazenados digitalmente, mas reconhece, igualmente, a existência de técnicas e procedimentos a serem adotados para verificar se alguma informação foi alterada, suprimida ou adicionada após a coleta inicial das fontes de prova pela polícia. De acordo com o STJ,5 o policial responsável deverá utilizar técnicas específicas para manuseio desses dados e exemplifica com o seguinte procedimento: • copiar integralmente (bit a bit) o conteúdo do dispositivo, gerando uma imagem dos dados: um arquivo que espelha e representa fielmente o conteúdo original; • aplicar uma técnica de algoritmo hash, em que é possível obter uma assinatura única para cada arquivo – uma espécie de impressão digital ou DNA, por assim dizer, do arquivo. Esse código hash gerado da imagem teria um valor diferente caso um único bit de informação fosse alterado em alguma etapa da investigação. 5. Inf. 763 STJ, segredo de justiça, 07/02/2023. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br Mesmo alterações pontuais e mínimas no arquivo resultariam numa hash totalmente diferente, pelo que se denominaem tecnologia da informação de efeito avalanche. Desse modo, comparando as hashes calculadas nos momentos da coleta e da perícia (ou de sua repetição em juízo), é possível detectar se o conteúdo extraído do dispositivo foi alterado, minimamente que seja. Não havendo alteração (isto é, permanecendo íntegro o corpo de delito), as hashes serão idênticas, o que permite atestar com elevadíssimo grau de confiabilidade que a fonte de prova permaneceu intacta. Inexistindo algum procedimento de registro e segurança da informação digital (teste de confiabilidade), fica caracterizada a quebra da cadeia de custódia da prova digital. O STJ ficou a seguinte tese para esse cenário: “São inadmissíveis as provas digitais sem registro documental acerca dos procedimentos adotados pela polícia para a preservação da integridade, autenticidade e confiabilidade dos elementos informáticos.” Cadeia de custódia e o "print screen” de conversas em aplicativos (Whatsapp, Telegram e outros) Em evolução jurisprudencial, o STJ passou a admitir a utilização do print screen de conversas de aplicativos sem que tal cenário acarrete a quebra da cadeia de custódia., desde que não haja qualquer indício de adulteração da prova ou da ordem cronológica da conversa: 2. No presente caso, não foi verificada a ocorrência de quebra da cadeia de custódia, pois em nenhum momento foi demonstrado qualquer indício de adulteração da prova, ou de alteração da ordem cronológica da conversa de WhatsApp obtida através dos prints da tela do aparelho celular da vítima. 3. In casu, o magistrado singular afastou a ocorrência de quaisquer elementos que comprovassem a alteração dos prints, entendendo que mantiveram "uma sequência lógica temporal", com continuidade da conversa, uma vez que "uma mensagem que aparece na parte de baixo de uma tela, aparece também na parte superior da tela seguinte, indicando que, portanto, não são trechos desconexos". 4. O acusado, embora tenha alegado possuir contraprova, quando instado a apresentá-la, furtou-se de entregar o seu aparelho celular ou de exibir os prints que alegava terem sido adulterados, o que só reforça a legitimidade da prova. 5. "Não se verifica a alegada 'quebra da cadeia de custódia', pois nenhum elemento veio aos autos a demonstrar que houve adulteração da prova, alteração na ordem cronológica dos diálogos ou mesmo interferência de quem quer que seja, a ponto de invalidar a prova".6 Na mesma linha, o STF7 pontuou que “as declarações ofensivas à honra podem ser provadas por qualquer meio, como o whatsapp, sendo desnecessária a vinda aos autos de gravação original ou de ata notarial". 6 AgRg no HC n. 752.444/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 4/10/2022, DJe de 10/10/2022. 7 AO 2002, 2ª Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 02/02/2016. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br SUGESTÂO DE RESPOSTA: De acordo com o Código de Processo Penal, cadeia de custódia é o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais e/ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte, visando garantir a confiabilidade e a idoneidade da prova. Em síntese, busca-se assegurar a integridade dos elementos probatórios e garantir a rastreabilidade probatória. A cadeia de custódia deve observar 10 etapas, são elas: Reconhecimento, Isolamento, Fixação, Coleta, Acondicionamento, Transporte, Recebimento, Processamento, Armazenamento e Descarte. No caso em tela, mesmo que aparentemente o corpo da vítima e os objetos tenham sido mexidos, faltou os peritos observarem e realizarem a etapa da fixação, que é a descrição detalhada do vestígio conforme se encontra no local do crime ou no corpo de delito, e a sua posição na área de exames, podendo ser ilustrada por fotografias, filmagens ou croqui, sendo indispensável a sua descrição no laudo pericial produzido pelo perito responsável pelo atendimento. Sem a fixação, a cadeia de custódia pode ter sido quebrada. Por fim, de acordo com o atual entendimento do STJ, as irregularidades constantes da cadeia de custódia devem ser sopesadas pelo magistrado com todos os elementos produzidos na instrução, de modo a aferir se a prova é confiável ou não. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br QUESTÃO DISCURSIVA 2 (DIREITO CONSTITUCIONAL) A Constituição do Estado de Santa Catarina sofreu a Emenda Constitucional de nº XZ, acrescentando a alínea K no artigo 75, bem como o §5º no artigo 78, conforme se demonstra abaixo: Art. 75. Compete ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina: I – processar e julgar originariamente: (...) k) a ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo estadual ou municipal, em face desta Constituição, ou de lei ou ato normativo municipal em face da Lei Orgânica respectiva; Art. 78. Poderão propor a ação direta de inconstitucionalidade: (...) § 5º Declarada a inconstitucionalidade, a decisão será comunicada à Assembleia Legislativa para promover a suspensão da eficácia da lei, em parte ou no seu todo, quando se tratar de afronta à Constituição Estadual, ou a Câmara Municipal quando a afronta for a Lei Orgânica respectiva. Alguns dias depois de publicada, a Ordem dos Advogados do Brasil apresentou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal, tendo como objeto a mencionada emenda constitucional, argumento a sua inconstitucionalidade. Diante dos fatos narrados, redija um texto respondendo os seguintes questionamentos: a) A OAB tem que comprovar a pertinência temática ao propor a ADI? Quais os legitimados que possuem esse requisito? [valor: 2,0 pontos] b) Sobre a constitucionalidade da alínea “K”, em sede de controle concentrado de constitucionalidade, é possível que uma lei ou ato normativo municipal seja declarado inconstitucional por violar a Lei Orgânica Municipal? [valor: 3,0 pontos] c) O que pode ser utilizado como norma parâmetro para fins de controle concentrado de constitucionalidade estadual? [valor: 2,0 pontos] d) Por fim, sobre o § 5º, a alteração foi constitucional? Fundamente a sua resposta. [valor: 3,0 pontos] DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS: OAB não precisa comprovar pertinência temática (1,0 pontos) 3 são os legitimados com esse requisito (1,0 pontos) Alínea “K“ é inconstitucional + fundamento (3,0 pontos) Parâmetro: CE + normas da CF de reprodução obrigatória (2,0 pontos) § 5º é inconstitucional + fundamento (3,0 pontos) Português (0,2 por erro) Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br NOTA FINAL MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA: Sobre a pertinência temática: Alguns dos legitimados do art. 103 da Constituição Federal somente podem apresentar Ação Direta de Inconstitucionalidade se comprovarem, na petição inicial, a relação de pertinência temática existente entre o objeto da ADI e a sua atividade. A pertinência temática consiste na necessidade de comprovar que o objeto da ADI tenha relação direta com as finalidades institucionais específicas do legitimado: [...] requisito da pertinência temática, que se caracteriza pela existência do nexo de afinidade entre os objetos institucionais da entidade queajuizou a ação direta e o conteúdo material dos dispositivos por ela impugnados.8 Por exemplo, o governador pode propor ADI contra lei estadual de outro Estado perante o STF, exigindo-se, para tanto, a comprovação de pertinência temática, ou seja, que a lei a ser impugnada afete o seu Estado. Em causas tributárias, essa questão é facilmente verificada quando um Estado cria determinado imposto capaz de incidir em fatos geradores além do seu território. A necessidade de comprovação da pertinência temática é colocada como requisito para propositura da ADI de três legitimados: (a) a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal, (b) o Governador de Estado ou do Distrito Federal e (c) a confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. Nos casos em que a representação adequada deve ser comprovada na propositura da ADI, o controle da legitimidade deve ser feito pelo STF (controle ope iudicis). Trata-se de verdadeiro pré-requisito para a análise do mérito, tanto que a necessidade de esses legitimados provarem a pertinência temática muito se assemelha com “o estabelecimento de uma condição da ação – análoga, talvez, ao interesse de agir”9. Por isso, eles são classificados como legitimados ativos especiais, o que os diferencia dos demais, que não necessitam de provar a pertinência temática e que são classificados como legitimados ativos universais10. Tal condição da ação é decorrência da jurisprudência do STF, não possuindo previsão constitucional. Por esse motivo, Gilmar Mendes, Inocêncio Coelho e Paulo Branco11 criticam tal restrição ao direito de propositura da ADI, ao fundamento de não se compatibilizar com a natureza do controle abstrato das normas, ao mesmo tempo que cria uma injustificada diferença entre os legitimados, diferenciação sem respaldo Constitucional. Sobre a Lei Orgânica ser norma referência em controle e outros pontos: Informativo 1025 Não se admite controle concentrado de constitucionalidade de leis ou atos normativos municipais em face da Lei Orgânica respectiva. 8. Trecho do voto do Relator Ministro Celso de Mello, na ADI 4190 REF-MC, julgada em 10/3/2010. 9. MENDES, COELHO e BRANCO, 2008, p. 1110. 10. NOVELINO, 2008, p. 182. 11. MENDES, COELHO e BRANCO, 2008, p. 1111. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br É inconstitucional adoção de lei orgânica municipal como parâmetro de controle abstrato de constitucionalidade estadual, em face de ato normativo municipal, uma vez que a Constituição Federal, no art. 125, § 2º, estabelece como parâmetro apenas a constituição estadual. Não compete ao Poder Legislativo, de qualquer das esferas federativas, suspender a eficácia de lei ou ato normativo declarado inconstitucional em controle concentrado de constitucionalidade. Caso: Ao analisar dispositivos da Constituição do Estado de Pernambuco, o STF chegou a duas importantes conclusões: I – Não cabe controle concentrado de constitucionalidade de leis ou ato normativos municipais contra a Lei Orgânica respectiva. Em outras palavras, a Lei Orgânica do Município não é parâmetro de controle abstrato de constitucionalidade estadual, uma vez que a Constituição Federal, no art. 125, § 2º, estabelece como parâmetro apenas a Constituição Estadual. Assim, é inconstitucional dispositivo da Constituição estadual que afirme ser possível ajuizar ADI, no Tribunal de Justiça, contra lei ou ato normativo estadual ou municipal sob o argumento de que ele viola a Lei Orgânica do Município. II – Não compete ao Poder Legislativo, de qualquer das esferas federativas, suspender a eficácia de lei ou ato normativo declarado inconstitucional em controle concentrado de constitucionalidade. Desse modo, é inconstitucional dispositivo da Constituição estadual que afirme que, se o Tribunal de Justiça declarar a inconstitucionalidade de lei em ação direta de inconstitucionalidade (controle concentrado de constitucionalidade), ele precisará comunicar essa decisão à Assembleia Legislativa (se for lei estadual) ou à Câmara de Vereadores (se for lei municipal) a fim de que o órgão legislativo suspenda a eficácia dessa lei. STF. Plenário ADI 5548/PE, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 16/8/2021 (Info 1025). Sobre o parâmetro do controle concentrado de constitucionalidade estadual: O Tribunal de Justiça dispõe de competência exclusiva para efetuar o controle de constitucionalidade abstrato das leis e atos normativos estaduais e municipais, mas tendo como parâmetro exclusivo a Constituição do Estado ao qual pertence. Não pode, portanto, fazê-lo em face da Constituição Federal, pois isso importaria em usurpação da competência exclusiva do STF, de modo a caber o manejo da Reclamação perante este Tribunal a fim de preservação da sua competência.12 Um questionamento aqui se faz necessário: o Tribunal de Justiça possui competência para fazer controle de constitucionalidade de norma prevista de forma expressa somente na Constituição Federal? Em outras palavras, usurpa-se a competência do STF se um Tribunal de Justiça julgar uma ADI tendo como referência norma constitucional prevista de forma expressa somente na Constituição Federal? 12. RE 650898/RS, Rel. Min. Marco Aurélio, 4.2.2016. Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br De acordo com a jurisprudência do STF13, “não configura a usurpação quando os Tribunais de Justiça analisam, em controle concentrado, a constitucionalidade de leis municipais e estaduais em face de normas constitucionais estaduais que reproduzem regra da Constituição Federal de observância obrigatória”. No caso julgado pela Rcl 19067 AgR,14 um Tribunal de Justiça declarou a inconstitucionalidade de uma lei municipal, ao argumento que violava a atribuição do Congresso Nacional, sendo que tal atribuição está prevista exclusivamente na Constituição Federal. Contudo, as divisões de competência e atribuições são normas de reprodução obrigatória15 e estão previstas na Constituição Estadual, mesmo que de forma implícita. Em seu voto, o Ministro Luís Roberto Barroso afirmou que as normas de reprodução obrigatória da Constituição Federal estão necessariamente presentes nas Constituições Estaduais, seja de forma expressa (porque previstas expressamente nas Constituições Estaduais por ocasião da sua criação), seja de forma implícita (apesar de não previstas expressamente nas Constituições Estaduais, delas fazem parte por serem de reprodução obrigatória). SUGESTÃO DE RESPOSTA: No caso em tela, conforme jurisprudência do STF, a Ordem dos Advogados do Brasil possui legitimidade para a ação, não sendo necessária a comprovação da pertinência temática. Isso ocorre porque a necessidade de comprovação da pertinência temática é colocada como requisito para propositura da ADI de três legitimados, quais sejam, a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o Governador de Estado ou do Distrito Federal e a confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. Sobre a constitucionalidade da alínea “K”, em sede de controle concentrado de constitucionalidade, não é possível que uma lei ou ato normativo municipal seja declarado inconstitucional por violar a Lei Orgânica Municipal. Isso ocorre porque o controle concentrado de constitucionalidade estadual somente pode ter por parâmetro a Constituição Estadual e as normas da Constituição Federal de repetição obrigatória, uma vez que estãoimplicitamente no texto da Constituição Estadual. Por fim, não compete ao Poder Legislativo, de qualquer das esferas federativas, suspender a eficácia de lei ou ato normativo declarado inconstitucional em controle concentrado de constitucionalidade, pois viola o art. 52, X da Constituição Federal que somente vale para o controle difuso de constitucionalidade. 13. Rcl 12.653 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 20.06.2012. 14. Rcl 19067 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 07/06/2016. 15. Para se entender tal assertiva, faz-se necessário diferenciar a norma da Constituição do Estado que seja “norma de reprodução” da que seja “norma de imitação”. Norma de reprodução (ou norma de reprodução obrigatória) é conceituada como “aquela que repete na Constituição Estadual norma da Constituição Federal que o Estado está obrigado a observar, independentemente de sua previsão ou não na Constituição Estadual (ex: arts. 34, VII; 35; 145 e 150 da CF/88)”, ao passo que norma de imitação é “aquela que o Estado repete em sua Constituição com teor idêntico à norma da Constituição Federal, o que o faz em gozo de sua autonomia política, pois poderia, inclusive, não observá-la” (CUNHA JR, 2008, p. 323). Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br QUESTÃO DISCURSIVA 3 (DIREITO ADMINISTRATIVO) Ada Maria, de 27 anos, é servidora pública de cargo exclusivamente em comissão da Delegacia de furtos e roubos de Navegantes, em Santa Catarina. Ela já está trabalhando nesta delegacia há 10 anos como assessora do Delegado titular, e descobriu faz poucas semanas que está grávida de sua primeira gestação. O mencionado Delegado tinha conhecimento da gestação e não ficou feliz com o cenário, uma vez que ela provavelmente faltaria muitos dias de trabalho na medida em que a sua gestação avançasse. Sendo assim, ele decidiu pela exoneração da servidora, fundamentando o ato que foi a pedido da servidora, mesmo sabendo que ela não havia solicitado a exoneração. Com base nas informações trazidas no texto, e de acordo com a Doutrina e a Jurisprudência dos Tribunais Superiores, em linhas gerais, a Administração Pública pode exonerar ad nutum servidora gestante ocupante exclusivamente de cargo em comissão? Adentrando no caso narrado, sobre a fundamentação do Delegado de Polícia para o ato de exoneração, discorra sobre a “Teoria dos motivos determinantes”, e se ela é aplicável ao caso acima, em especial para a servidora comissionada. [valor: 10,0 pontos] DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS: Administração Pública pode exonerar ad nutum gestante? Fundamento (5,0 ponto) Aplicação da teoria dos motivos determinantes + consequência (5,0 pontos) Português (0,2 por erro) NOTA FINAL MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA: Artigos importantes a serem lidos sobre o tema proposto: Constituição Federal: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (...) II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração; ADCT, Art. 10. Até que seja promulgada a lei complementar a que se refere o art. 7º, I, da Constituição: II - fica vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa: b) da empregada gestante, desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Breve explicação doutrinária: Os cargos em comissão são aqueles de ocupação transitória na Administração Pública onde seus titulares são nomeados em função de uma relação de confiança existente com o gestor. Estes cargos são privativos de funções de chefia, direção e assessoramento. De acordo com o artigo 37, inciso II, da Constituição Federal, os cargos em comissão são de livre nomeação e exoneração: Para José dos Santos Carvalho Filho (2015, pg. 636): “A natureza desses cargos impede que os titulares adquiram estabilidade. Por outro lado, assim como a nomeação para ocupa-los dispensa a aprovação prévia em concurso público, a exoneração do titular é despida de qualquer formalidade especial e fica a exclusivo critério da autoridade nomeante. Por essa razão é que são considerados de livre nomeação e exoneração (art. 37, II, CF).” Por outro lado, o artigo 10, II, b, da ADCT estabelece que é vedada a dispensa sem justa causa da empregada gestante desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Desta forma, tanto o STF como o STJ decidiram que se aplica o disposto no artigo 10, II, b, da ADCT às servidoras que ocupam cargo exclusivamente em comissão, pois a proteção elencada na Constituição Federal deve abarcar também a servidora ocupante de cargo em comissão, bem como aquelas admitidas a título precário. Além disso a gestante contratada pela administração pública por prazo determinado ou em cargo em comissão tem direito à licença maternidade. Protege-se, com a norma, o próprio nascituro sendo dever do Estado zelar pelo bebê que irá nascer. Assim, a servidora gestante ocupante de cargo exclusivamente em comissão não poderá ser exonerada sem justa causa, sem que lhe seja assegurada a remuneração pelo período de estabilidade provisória, desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto. Por fim, a “teoria dos motivos determinantes” significa que, uma vez motivado o ato administrativo, a sua validade fica vinculada aos motivos expostos, para todos os efeitos jurídicos. Assim, se os motivos forem inexistentes ou falsos, o ato será nulo. Para maior compreensão, Hely Lopes Meirelles explica que, por exemplo se o superior dispensar um funcionário exonerável ad nutum por improbidade de procedimento, essa “improbidade” Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br passará a ser motivo determinante do ato, e sua validade e eficácia ficarão na dependência da efetiva existência do motivo declarado. Sendo assim, se inexistir a improbidade, o ato de exoneração será inválido. Logo, ao se integrar ao próprio ato, o motivo passa a fazer parte dele, viciando-o se for inverídico ou falso. Julgados sobre o tema proposto: STJ: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. PREJUÍZO À DEFESA. INEXISTÊNCIA. DISPENSA DE SERVIDORA CONTRATADA EM CARÁTER PRECÁRIO. PERÍODO DE GESTAÇÃO. ARTS. 7º, XVIII, DA CF/88 E 10, II, B, DO ADCT. INDENIZAÇÃO. POSSIBILIDADE. VALORES POSTERIORES À IMPETRAÇÃO. SÚMULAS 269 E 271 DO STF. 1. O reconhecimento de ausência de prestação jurisdicional pressupõe a ocorrência de prejuízo à defesa. A assertiva, no entanto, não pode ser confundida com o mero inconformismo da parte com a conclusão alcançada pelo julgador, que, a despeito das teses aventadas, lança mão de fundamentação idônea e suficiente para a formação do seu livre convencimento. 2. A jurisprudência desta Corte Superior é firme quanto à legitimidade da exoneração ad nutum do servidordesignado para o exercício de função pública, ante a precariedade do ato. 3. Firmou-se a compreensão, no entanto, de que as servidoras públicas, detentoras de função pública designadas a título precário, possuem direito à licença-maternidade e à estabilidade provisória, desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, consoante os termos dos art. 7º, XVIII, da CF/88 e art. 10, II, "b", do ADCT, sendo-lhes assegurado o direito à indenização correspondente às vantagens financeiras pelo período constitucional da estabilidade. Precedentes. 4. Em relação a eventuais vencimentos anteriores à impetração, incidem os óbices das Súmulas n. 269 e 271, ambas do STF. 5. Recurso ordinário em mandado de segurança parcialmente provido. (RMS 26.107/MG, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 26/08/2014, DJe 08/09/2014) Fonte: Portal STJ STF: Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br E M E N T A: SERVIDORA PÚBLICA GESTANTE OCUPANTE DE CARGO EM COMISSÃO – ESTABILIDADE PROVISÓRIA (ADCT/88, ART. 10, II, “b”) – CONVENÇÃO OIT Nº 103/1952 – INCORPORAÇÃO FORMAL AO ORDENAMENTO POSITIVO BRASILEIRO (DECRETO Nº 58.821/66) - PROTEÇÃO À MATERNIDADE E AO NASCITURO – DESNECESSIDADE DE PRÉVIA COMUNICAÇÃO DO ESTADO DE GRAVIDEZ AO ÓRGÃO PÚBLICO COMPETENTE – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO. - O acesso da servidora pública e da trabalhadora gestantes à estabilidade provisória, que se qualifica como inderrogável garantia social de índole constitucional, supõe a mera confirmação objetiva do estado fisiológico de gravidez, independentemente, quanto a este, de sua prévia comunicação ao órgão estatal competente ou, quando for o caso, ao empregador. Doutrina. Precedentes. - As gestantes – quer se trate de servidoras públicas, quer se cuide de trabalhadoras, qualquer que seja o regime jurídico a elas aplicável, não importando se de caráter administrativo ou de natureza contratual (CLT), mesmo aquelas ocupantes de cargo em comissão ou exercentes de função de confiança ou, ainda, as contratadas por prazo determinado, inclusive na hipótese prevista no inciso IX do art. 37 da Constituição, ou admitidas a título precário – têm direito público subjetivo à estabilidade provisória, desde a confirmação do estado fisiológico de gravidez até cinco (5) meses após o parto (ADCT, art. 10, II, “b”), e, também, à licença-maternidade de 120 dias (CF, art. 7º, XVIII, c/c o art. 39, § 3º), sendo-lhes preservada, em consequência, nesse período, a integridade do vínculo jurídico que as une à Administração Pública ou ao empregador, sem prejuízo da integral percepção do estipêndio funcional ou da remuneração laboral. Doutrina. Precedentes. Convenção OIT nº 103/1952. - Se sobrevier, no entanto, em referido período, dispensa arbitrária ou sem justa causa de que resulte a extinção do vínculo jurídico- -administrativo ou da relação contratual da gestante (servidora pública ou trabalhadora), assistir-lhe-á o direito a uma indenização correspondente aos valores que receberia até cinco (5) meses após o parto, caso inocorresse tal dispensa. Precedentes. (RE 634093 AgR, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 22/11/2011, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-232 DIVULG 06-12-2011 PUBLIC 07-12-2011 RTJ VOL- 00219-01 PP-00640 RSJADV jan., 2012, p. 44-47) RE 842.844 (Tema 542): Direito à licença maternidade e estabilidade provisória para servidora pública contratada por prazo determinado ou ocupante de cargo em comissão. Gestante contratada por tempo determinado pela administração pública tem direito à licença-maternidade, decide STF. A decisão abrange também a estabilidade desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Fatos: Trata-se de recurso extraordinário, com repercussão geral (Tema 542), em que o Estado de Santa Catarina questiona decisão do Tribunal de Justiça local, que garantiu a servidora pública contratada por prazo determinado os direitos à licença maternidade e à estabilidade provisória. No caso, uma professora em contrato temporário engravidou enquanto prestava serviços ao Estado de Santa Catarina. O contrato se encerrou quando ela ainda estava grávida, mas o Estado não garantiu a ela os direitos à licença maternidade e à estabilidade provisória. Questões Judiciais: Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br Servidora pública gestante, contratada por prazo determinado ou ocupante de cargo em comissão (do qual pode ser desligada a qualquer tempo), tem direito à licença maternidade e à estabilidade provisória? Fundamentos da decisão: 1. A Constituição estabelece que a servidora pública gestante tem direito (i) à licença maternidade, sem prejuízo do emprego e do salário, com duração de 120 dias; e (ii) à estabilidade provisória, sendo vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto (arts. 7º, XVIII, da Constituição e arts. 10, II, b e 39, § 3º, do ADCT). 2. Esses direitos têm por objetivo proteger a maternidade e a infância (art. 6º, caput; 226, caput, e 227 da Constituição), pois permitem tanto a recuperação física e mental da mulher no período pós-parto quanto a atenção às necessidades da criança, em especial a amamentação e o tempo de convívio familiar essencial ao desenvolvimento infantil. 3. A importância de proteger a mãe e a criança justifica que os direitos à licença maternidade e à estabilidade provisória sejam garantidos às mulheres trabalhadoras, independentemente da forma de contratação. Assim, esses direitos também devem ser assegurados às servidoras públicas gestantes contratadas por prazo determinado ou ocupantes de cargos em comissão. Votação e julgamento: Decisão unânime Voto que prevaleceu: Min. Luiz Fux (relator) Voto(s) divergente(s): Não há Resultado do julgamento: Em decisão unânime, o Plenário do STF decidiu que a gestante contratada pela administração pública por prazo determinado ou em cargo em comissão tem direito à licença maternidade e à estabilidade provisória desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Em voto que conduziu o julgamento, o relator, ministro Luiz Fux, afirmou que as garantias constitucionais de proteção à gestante e à criança devem prevalecer independentemente da natureza do vínculo empregatício, do prazo do contrato de trabalho ou da forma de provimento. Segundo o relator, o direito à licença maternidade tem por fundamento atender as necessidades da mulher e da criança no período pós-parto, inclusive garantindo a amamentação. Tese de julgamento: “A trabalhadora gestante tem direito ao gozo de licença-maternidade e à estabilidade provisória, independentemente do regime jurídico aplicável, se contratual ou administrativo, ainda que ocupe cargo em comissão ou seja contratada por tempo determinado.” Classe e Número: RE 842.844 (Tema 542 da Repercussão Geral) Fonte: Portal do STF SUGESTÃO DE RESPOSTA: Curso de Discursivas – PC-SC (RODADA 2) Prof. Bruno Zanotti @delegadobrunozanotti (instagram) www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br A Constituição estabelece que a servidora pública gestante tem direito à licença maternidade, sem prejuízo do emprego e do salário, com duração de 120 dias, e também à estabilidade provisória, sendo vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto. No caso em tela, apesar de Ada Maria ser servidora de cargo comissionado, ou seja, de livre nomeaçãoe exoneração, ela não poderá ser exonerada, pois os Tribunais Superiores tem o entendimento de que a servidora gestante tem direito ao gozo de licença-maternidade e à estabilidade provisória, independentemente do regime jurídico aplicável, se contratual ou administrativo, ainda que ocupe cargo em comissão, ou seja, contratada por tempo determinado. Importa ressaltar que as garantias constitucionais de proteção à gestante e à criança devem prevalecer independentemente da natureza do vínculo empregatício, do prazo do contrato de trabalho ou da forma de provimento. O direito à licença maternidade tem por fundamento atender as necessidades da mulher e da criança no período pós-parto, inclusive garantindo a amamentação. Por fim, mesmo que a Servidora Ada Maria não estivesse grávida, o ato de exoneração pelo seu chefe será nulo, pois a Administração, ao justificar o ato administrativo, de acordo com a teoria dos motivos determinantes, fica vinculada às razões ali expostas, para todos os efeitos jurídicos. A motivação é que legitima e confere validade ao ato discricionário, de modo que, enunciadas pelo agente as causas em que se pautou, mesmo que a lei não haja imposto tal dever (cargo demissível ad nutum), o ato só será legítimo se elas realmente tiverem ocorrido. Por fim, em qualquer cenário, em caso de reforma do ato ou ação judicial, a gestante será reintegrada aos quadros da Administração Pública.