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Filosofia e Ciências Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Americo Soares da Silva Revisão Textual: Profa. Esp. Kelciane da Rocha Campos As Ciências Humanas • As Ciências Humanas · Apresentar uma síntese da discussão filosófica em torno das ciências humanas, como caracterizá-las, a maneira como a teoria interage com a prática. OBJETIVO DE APRENDIZADO Nesta unidade, você conhecerá alguns aspectos dos saberes que vieram a ser agrupados sob a bandeira de “Ciência Humana”; uma análise da sua distinção em relação aos chamados saberes teóricos e como as ciências humanas assumem um duplo papel de teoria e prática. Recomendo a você, estudante, dividir seus estudos em etapas: primeiro, faça uma leitura atenta do texto. Nesse momento, não é tão importante fazer marcações; busque uma compreensão de conjunto. Em um segundo momento, retorne ao texto, mas, dessa vez, você já conhece o final da história, não é mesmo? Então, ao retornar, você o fará com um olhar de investigador(a); busque pelos pontos principais: quem são os personagens mais relevantes dessa “história”? Que ideias cada um deles defendia? Por quê? Outras questões são colocadas ao longo do texto para sua reflexão? Quais são elas? Além disso, para que a sua aprendizagem ocorra num ambiente mais intera- tivo possível, na pasta de atividades, você também encontrará as atividades de Avaliação e uma Atividade Reflexiva. Cada material disponibilizado é mais um elemento para seu aprendizado. ORIENTAÇÕES As Ciências Humanas UNIDADE As Ciências Humanas Contextualização Leia o texto extraído dos parâmetros curriculares nacionais para ensino médio em relação à área de Ciências Humanas e suas Tecnologias a seguir. Parâmetros Curriculares Nacionais. Ensino médio. https://goo.gl/sIBgNH Ex pl or 6 7 As Ciências Humanas “O que significa uma ciência do humano?” Essa certamente é a pergunta fundamental para um leitor afeito à Filosofia, quando o tema apresentado trata das “Ciências Humanas”. Qual o objeto próprio às ciências humanas? O que justifica a existência das mesmas enquanto um saber distinto das outras áreas já conhecidas? Podemos preliminarmente considerar que não se trata de um olhar restrito unicamente à dimensão física do humano: a respiração, o fluxo sanguíneo, a resistência dos músculos e dos ossos; todo esse viés já encontrou guarida no campo biológico e na medicina, ambos já como parte das ciências da natureza. As dimensões sobre as quais nossa inteligência se debruça vão além das relações de causa e efeito dos chamados fenômenos naturais. Essa diferenciação já começara a se delinear no pensamento grego com Aristóteles ao diferenciar ramos (ou campos) sobre os quais a ciência se debruça: Aristóteles distinguiu as ciências em três grandes ramos: a) ciências teoréticas, isto é, ciências que buscam o saber em si mesmo; b) ciências práticas, isto é, ciências que buscam o saber pra através dele, alcançar a perfeição moral; c) ciências poéticas ou produtivas, vale dizer, ciências que buscam o saber em função do fazer, isto é, com o objetivo de produzir determinados objetos. (REALE & ANTISERI, 2002, p. 178) Depreende-se da separação aristotélica que a física e a matemática são facilmente articuladas às ciências teoréticas, mas, cada qual com seu próprio objeto de estudo teria pouco, ou quase nada, a oferecer em termos de explicação para os fenômenos que são parte da dimensão do humano, à medida que a sociedade humana se tornava cada vez mais complexa, quando pensamos formas de convívio (ética e política), a maneira como se cria e se distribui riqueza (economia) e mesmo quando nos voltamos sobre nós mesmos para entender o comportamento dos indivíduos nas suas relações com os outros e consigo mesmo (psicologia). Todos esses fenômenos são mais bem articulados, em termos aristotélicos, como ciências práticas e produtivas (note-se que as ciências produtivas, contemporaneamente, tendem a ser enquadradas por alguns autores como técnica). Olhando mais para o itinerário histórico, a busca e o acúmulo de novos conhecimentos que já haviam levado a uma progressiva autonomia das ciências teoréticas em relação à especulação filosófica – apesar de que de acordo com o pensamento de Thomas Kuhn essas ciências voltam a flertar com seus fundamentos filosóficos quando diante de uma crise paradigmática – também, em um movimento análogo, promoveu resultado semelhante nos outros saberes (práticos e produtivos). E apesar de já encontrarmos teorizações econômicas interessantes com François Quesnay, que em 1758 elaborou um modelo conhecido como Tabela Econômica, passando por uma das obras fundamentais da área, como a Riqueza das nações, 7 UNIDADE As Ciências Humanas de Adam Smith, foi somente no século XIX e no século XX que as ciências humanas ganharam força a ponto de serem postuladas como autônomas em relação à especulação filosófica. Nesse contexto, podemos incluir tanto a proposição de uma “física social” por Auguste Comte (mais tarde rebatizada como sociologia), como os trabalhos de Edward Tylor, Alfred Kroeber, Émile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, Sigmund Freud, B. F. Skinner e uma longa lista de pensadores notáveis que contribuíram para circunscrever diferentes aspectos nos fenômenos humanos. Antes de avançarmos, é interessante retomarmos o próprio Aristóteles na sua justificativa da cisão entre agir e produzir: Na classe do variável incluem-se tanto coisas produzidas como coisas praticadas. Há uma diferença entre produzir e agir [...]; de sorte que a capacidade raciocinada de agir difere da capacidade raciocinada de produzir. Daí também, o não se incluírem uma na outra, porque nem agir é produzir, nem produzir é agir. [...] (ARISTÓTELES, 1984, p. 143 [1140a].) Figura 1 - Aristóteles Fonte: Wikimedia Commons Essa separação atendia à especulação do pensador estagirita, que estava se debruçando sobre o problema da ética. Poderíamos, como síntese, dizer que a intencionalidade do “agir” (político e ético) seria diferente do “produzir” enquanto intenção de se criar algo. Por exemplo, estabelecer uma lei pode ter uma dimensão de repercussões para a sociedade incrivelmente maior que a ação produtora de um artesão solitário ao criar uma cadeira. Para o pensamento aristotélico, a intenção da produção do artesão se esgota quando o objeto está concluído. Sem dúvida, dito dessa forma, são maneiras distintas de se mobilizar a racionalidade. Todavia, para parâmetros contemporâneos a discussão da responsabilidade sobre as intenções daquilo que a tecnologia atual pode produzir borra essa fronteira. Os fóruns de discussão em torno da Bioética e da Sustentabilidade certamente têm muito a dizer sobre isso. Mas reservaremos esse debate para outro momento. Por ora, é suficiente 8 9 a clareza de que ao contrário das ciências tidas como teoréticas, os saberes voltados para o agir e o produzir humanos carregam intencionalidade, não é possível agir e/ou produzir sem intenção. Aqui cabe a menção ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey, cujo posicionamento sobre essa temática separou de um lado um bloco das ciências que buscam a compreensão da vida e de outro aquelas que buscam explicar fenômenos da natureza (conf. ARANHA & MARTINS, 2009). As ciências tidas como ciências naturais buscam explicar o nexo causal dos fenômenos, os quais inclusive correspondem a acontecimentos que independem da vontade direta ou da intencionalidade do seu observador. Por exemplo, se aquecida a uma temperatura determinada (causa) a água irá ferver (efeito); atendidas essas condições (o aquecimento), esse fenômeno não deixa da acontecer apenas porque o observador assim o deseja. Quando lidamos com aquilo que Dilthey nomeou de ciências do espírito1 (ciências humanas), a busca passa a ser pela compreensão do fenômeno, ou seja, apreender a rede de intenções que se articulam para a manifestação daquele fenômeno. 1 Iremos seguir de agora em diante a sugestão do tradutor MarcoAntônio Casanova, que sinaliza com o uso do termo “ciências humanas” para aproveitar o uso corrente na língua portuguesa, apesar de o termo original usado por Dilthey ser Geisteswissenschaften, que numa tradução mais literal seria “ciência do espírito”. Ex pl or Aqui se deve ter um cuidado especial; a presença de intencionalidades nos fenômenos estudados pelas ciências humanas não impede um estudo objetivo dos mesmos. Não se trata de cair em um relativismo grosseiro, ou em uma interpretação enviesada e superficial do conceito de ideologia, o que levaria a uma tola caça às “bruxas do interesse” como forma de depreciação seletiva deste ou daquele resultado apontado em áreas como a antropologia, a psicologia, sociologia ou economia. Podemos, então, retornar a Dilthey e o mapeamento dos enunciados próprios às ciências humanas. As ciências humanas, tal como são e atuam, por força da razão própria à coisa que estava em ação em sua história (não como desejam os ousados arquitetos que querem construí-las novamente), articulam em si três classes de enunciados. Os primeiros deles enunciam algo real, que é dado na percepção; eles contêm o componente histórico do conhecimento. Os outros desenvolvem o comportamento uniforme de conteúdos parciais dessa realidade efetiva, que são isolados por abstração: eles formam o componente teórico. Os últimos expressam juízos de valor e prescrevem regras: neles temos os componentes práticos das ciências humanas. (DILTHEY, 2010, p. 40). 9 UNIDADE As Ciências Humanas Figura 2 - Wilhelm Dilthey Fonte: Wikimedia Commons É precisamente nesse aspecto prático, juntamente com a dimensão compreensiva, que se articula a condição normativa que dá um traço marcante para as ciências humanas. Isso nos conduz à ousada proposta do professor Hilton Japiassu, em seu O mito da neutralidade científica: As ciências humanas, tais como elas existem, em suas condições reais de realização, apresentam-se como técnicas de intervenção na realidade, participando ao mesmo tempo do descritivo e do normativo: são praxeologias. A análise epistemológica não tem o direito de dissociar, no domínio das disciplinas humanas, uma teoria científica de uma técnica de aplicação, pois não somente se dão sentido uma à outra, mas também determinam-se reciprocamente. E ainda: Num sentido bastante lato, o termo praxeologia pode ser entendido como conjunto dos equipamentos técnico-metodológicos fornecidos sobretudo pelas ciências humanas, tendo em vista intervir e transformar os horizontes do agir humano e de seus comportamentos sociais. (JAPIASSU, 1975, p. 50 – 51.) O desafio muda de eixo; não se trata, pois, de interrogar as ciências humanas sobre sua legitimidade – ter ou não direito – de empreender transformações no mundo humano (intervir), mas se elas de fato conseguem empreender essa intervenção e, mais do que isso, questionar eticamente o caminho seguido e a finalidade dessa compreensão-intervenção (idem). Olhando mais de perto a ordem praxeológica, como faz Japiassu (conf. JAPIASSU, 1975), algumas características das ciências humanas, enquanto praxeologia, merecerem ser assinaladas: 10 11 1. O ser humano passa a ser objetivado (visado, estudado) como ator dos seus próprios comportamentos. 2. As diferentes ciências humanas, na medida em que elaboram modelos teóricos visando não apenas a compreensão, mas, além disso, até mesmo a antecipação de comportamentos, podem – e o têm feito – realizar aconselhamento científico. Nas mais diferentes esferas, governos, empresas, organizações diversas no mundo acadêmico ou no chamado terceiro setor. 3. Na condição praxeológica, as ciências humanas dissociariam a finalidade de execução da finalidade de intenção ou destino (conf. JAPIASSU, 1975. p. 58). Na verdade, voltar-se-iam principalmente para primeira, buscando um aprimoramento constante da capacidade da realização dos fins a serem alcançados. O segundo e o terceiro tópicos precisam de uma explanação um pouco mais longa; dadas as próprias características das ciências humanas, como reconhecido por diferentes autores como o próprio Thomas Kuhn, essas ciências não possuem um paradigma dominante nem no conjunto de ciências que estudam o humano, e, muitas vezes, nem mesmo em campo específico (na psicologia ou na economia, por exemplo). Essa condição multiparadigmática gera conflitos de interpretações curiosos, entre eles o de se pressupor – uma possibilidade paradigmática entre outras – que o papel das ciências humanas não poderia se separar de uma responsabilidade ética de denunciar ações e estratagemas das estruturas de opressão política, econômicas e sociais nas suas mais diversas formas e fontes. Por trás dessa linha de argumentação, há a inegável contribuição do pensamento de Karl Marx, inclusive por sua condição multidisciplinar ao envolver análise e crítica socioeconômica com projeto político; nunca é demais lembrar que foi de Marx a cobrança aos filósofos que estariam preocupados demais em entender o mundo quando deveriam tentar transformá-lo. Esse escopo permitiria uma tranquila adesão aos itens 1 e 2 da condição praxeológica como sugerida por Japiassu, mas levaria, poderia levar, a uma interpretação que rejeitasse o item 3 por considerar que esse tipo de ação contribuiria com “mecanismos de opressão e controle”. Sem dúvida, há uma responsabilidade legítima nesse tipo de esforço das ciências humanas, todavia, e isso é cobrado de todo aquele que quiser ousar pensar filosoficamente, é preciso olhar para as demais formas paradigmáticas das ciências humanas, formas essas que terminam privilegiando a finalidade de execução, a meta a ser atingida, mais do que os demais elementos. É uma temeridade intelectual descartar ou subestimar, nas ciências humanas, um escopo de pesquisa apenas porque o mesmo não atende às expectativas de foro íntimo do pesquisador. Não gostar não significa que não está lá. 11 UNIDADE As Ciências Humanas Pensemos nas Teorias da Administração, enquanto ciências humanas – muitas vezes classificadas como “ciências humanas aplicadas” – carregam consigo todos os componentes da praxeologia, pois são descritivas e normativas, levam em consideração que seu objeto também inclui o humano, que é sujeito de suas ações; como também, utilizando-se de alianças estratégicas com outras áreas do conhecimento humano, tal como a psicologia, buscam criar condições que maximizem os resultados; buscam que a execução das tarefas pelos funcionários de uma organização seja sempre a melhor possível. Para tanto, áreas funcionais, como a de recursos humanos, buscam permanentemente melhorar e aperfeiçoar a chamada “gestão de pessoas”; Assim sendo, é necessário planejamento, racionalização para definir, ou melhor, fornecer o devido aconselhamento científico, sobre ações, práticas convívio (normas) que auxiliem a extrair o máximo de resultados. E esse aconselhamento fica à disposição dos tomadores de decisão, seja nas organizações privadas, seja na administração pública. Fonte: iStock / Getty Images O que dizer então do Marketing? Enquanto uma das áreas funcionais das empresas modernas é “responsável por administrar as relações da empresa com o mercado” (conf. MAXIMIANO, 2000, p. 240), esse tipo de mediação produz conhecimento, tanto através de publicações, como em teses acadêmicas, além de expertise para os profissionais do ramo, e dessa maneira assume a condição de modelo de intervenção ao orientar as ações da empresa com a finalidade de melhorar ao máximo as relações com o mercado, o que se traduziria em ganhos de imagem e de vendas. 12 13 Figura 3 - Sigmund Freud Fonte: Wikimedia Commons Em uma linha de atuação diferente, a psicanálise também produz um conhecimento que pode ser classificado como praxeológico, afinal constrói um modelo teórico que busca auxiliar na compreensão da vida anímica, compreensão esta que se originou por um longo processo de questionamento clínico do então jovem médico neurologistaSigmund Freud. No final do século XIX, ele se deparou com sintomas cujas enfermidades não podiam ser localizadas no corpo físico, então começou gradualmente a construir não apenas um modelo abstrato para entender aquele fenômeno, mas, também, uma prática clínica que auxiliasse e orientasse o paciente em um processo de autoconhecimento, levando este a uma “reconciliação” consigo mesmo ao desarticular seus conflitos interiores que até o momento eram a fonte dos sintomas e do sofrimento psíquico. Está presente aqui – como em diferentes ramos da psicologia – ao mesmo tempo, o paciente na condição de vítima do seu sofrimento e de agente de sua cura, pois o diagnóstico (modelo teórico) utilizado pelo terapeuta auxilia a mapear a fonte do mal-estar do paciente (nos sentimentos, nas relações interpessoais etc.), cabendo, em seguida, o aconselhamento terapêutico, que não deixa de ser uma forma de intervenção (normatização) cuja finalidade é restaurar o seu o bem-estar. Se a finalidade última das diferentes práticas clínicas é resgatar o paciente do seu sofrimento psíquico, os diferentes paradigmas discutem (e continuarão discutindo) qual o meio (clínico) que dará o melhor resultado; entendendo-se “melhor” tanto como mais breve (sem alongar o tratamento desnecessariamente), como o mais profundo e duradouro (um ganho na qualidade de vivência que o paciente não venha a perder com o tempo, ou seja, não recaia no estágio de sofrimento anterior). Por fim, outra ciência humana que cumpre os requisitos para a condição praxeológica é a economia. Como bem nos lembra Japiassu (conf. JAPIASSU, p. 61, 1975), as leis econômicas “não são nem psicológicas nem tampouco não-psicológicas”. Ou seja, elas não são apenas produto das escolhas dos sujeitos e, portanto, mais fortemente subjetivas e variáveis, como não são exatamente uma força natural, algo similar àquelas relações investigadas pela física que buscam se posicionar como a-históricas e completamente exteriores, independentes da vontade individual – sempre lembrando que mesmo para as ciências naturais essa situação de estar “fora da história ou de suas influências” é vista como problemática para alguns pensadores –; de qualquer forma, essa dimensão “natural” não se encaixa completamente ao saber econômico. 13 UNIDADE As Ciências Humanas Analisemos duas leis econômicas, primeiramente: Lei da utilidade marginal decrescente – essa lei estabelece que “[...] a intensidade de uma necessidade é satisfeita pelo consumo de bens e serviços, e desaparece por completo quando o consumo atinge o nível de saturação” (SANDRONI, 1999, p. 337). Se pensarmos que a necessidade a ser satisfeita tende a ser a necessidade de alguém, então caminhamos para a aproximação com o chamado “universo interior” dos indivíduos, suas necessidades e anseios, que conforme são atendidos ocasionariam uma redução progressiva da “força” dessa necessidade. Por exemplo, imaginemos uma situação sobre preço: o primeiro indivíduo se alimentou bem pela manhã, na verdade comeu um pouco mais do que faz normalmente. No horário do almoço, sua fome é leve. Na primeira lanchonete, o sanduíche do seu interesse está com um preço mais alto do que aquilo que ele costuma pagar. Indignado, ele se recusa a comprar o sanduíche naquele momento e resolve procurar outra lanchonete. Então imaginemos um segundo sujeito em condições idênticas, mas com uma diferença importante: ele não se alimentou pela manhã, está em jejum. Ao chegar à lanchonete, também notará que o preço do sanduíche está acima do preço normal; mesmo assim, por força da necessidade (fome maior) ele compra o sanduíche mais caro. Obviamente que esse exemplo não tem a pretensão de circunscrever todas as variáveis da realidade; aliás, visando justamente observar uma variável em particular, desconsiderando oscilações em outras variáveis envolvidas, é que os economistas usam com frequência em seus manuais a expressão ceteris paribus – grafada também como caeteris paribus, ou ainda coeteris paribus. Deixando de lado polêmicas de filologia, a expressão em latim indica para os economistas que tudo mais permanece constante, ou seja, ao centralizar foco em uma variável, o economista deixa em suspenso especulações que envolvessem a oscilação das demais condições. Partindo do exemplo dado, não caberia ficar elucubrando situações extremas para invalidar o próprio exemplo, algo como: que o primeiro indivíduo tivesse um compromisso importante em um horário próximo ao do almoço, o que o impediria de peregrinar em busca de um sanduíche mais barato, ou supor um preço tão exorbitante que o segundo indivíduo sequer tivesse como pagar por ele, sendo então obrigado a buscar outro lugar para comer, mesmo estando faminto, ou finalmente pudesse escolher outra coisa mais barata. O ponto a ser observado é a tendência do comportamento dos agentes econômicos, que passariam a buscar com empenho cada vez menor para sanar uma necessidade, caso essa já tenha sido parcialmente atendida anteriormente, até o limite de não encontrar utilidade ou não buscar por aquele serviço ou produto quando se encontrasse em situação de saciedade. Podemos perfeitamente visualizar as mais diferentes situações – talvez já tenhamos todos passados por algo semelhante ao longo da vida – cuja dinâmica é análoga aos exemplos descritos, indo da compra de medicamento para aliviar uma dor de cabeça até a aquisição (ou não) de uma peça de vestuário. 14 15 Todos esses cenários possíveis envolvem comportamento, escolhas feitas mediante valorações que os próprios indivíduos atribuem em diferentes níveis a diferentes coisas; nesse contexto, essa lei econômica conseguiria flertar com abordagens realizadas pela psicanálise e pela psicologia. Uma leitura distinta pode ser feita de uma segunda lei econômica, a saber: Lei dos rendimentos de decrescentes – de acordo com essa lei: “[...] ampliando- se a quantidade de um fator variável, permanecendo fixa a quantidade dos demais fatores, a produção, de início, aumentará a taxas crescentes; a seguir, após certa quantidade utilizada do fator variável, passará a aumentar a taxas decrescentes; continuando o aumento da utilização do fator variável, a produção decrescerá” (idem, p. 340). Temos um contraponto em face da percepção mais “subjetivista” da lei anterior, visto que nesta a descrição aponta muito mais para elementos e limitações de natureza “física”. Figura 5 - Agricultores Fonte: iStock/Getty Images Um exemplo de fácil compreensão (idem, idem), pensando-se produtividade agrícola: se considerarmos o fator variável a mão de obra e o fator fixo a área a ser cultivada (quantidade de terra), ao aumentarmos o número de trabalhadores mantendo a área cultivada teremos um ganho de produção. Porém, chegaremos a um ponto em que toda a área já está praticamente cultivada e aumentar a quantidade de trabalhadores não aumenta mais a produção daquela área; pior, um aumento ainda maior da mão de obra utilizada começa a atrapalhar o processo, pois seriam tantas as pessoas que elas literalmente começariam a esbarrar umas nas outras, e ao invés de ajudar, aquelas pessoas em quantidade imensa para executar tarefas em um espaço determinado passariam a atrapalhar umas as outras, fazendo a produção cair. 15 UNIDADE As Ciências Humanas Essa lei da economia se debruça sobre aspectos práticos-técnicos que não estão sujeitos aos caprichos do arbítrio; a curva de declínio da produtividade é investigada com rigor e ferramental matemático, mesmo assim não descrevem fenômenos de universalidade a-histórica como fenômenos da química ou da física. Novas tecnologias e técnicas podem alterar o ponto de declínio da produção. A economia, portanto, requer investigação epistemológica própria dada a forma como ela se apresenta para a investigação de determinados fenômenos humanos e enquanto praxeologia. Outras ciências humanas, a sociologia, a psicologia, a história, antropologia etc., podem fazer reivindicaçõesanálogas. O ponto aqui não é delinear o campo epistêmico de cada uma delas, mas reconhecer que apesar das diferenças evidentes entre cada uma, justamente por se debruçarem sobre diferentes aspectos do fenômeno humano, de uma forma ou de outra estarão presentes tanto como teoria como techné, ou seja, haverá a intervenção nos fenômenos estudados, algumas vezes de forma mais direta e incisiva, em outras de forma mais sutil. Sempre destacando que os diferentes níveis de intervenção e aconselhamento – que podem assumir inclusive a condição de orientações de performance - não reduz a sua objetividade e importância enquanto saber. Por fim, há outras indagações filosóficas a serem feitas, não apenas às ciências humanas, mas à cientificidade de uma forma geral: “A Razão tornou-se sinônimo de cientificidade?”. “É a razão na sua forma científica capaz de abarcar a totalidade da experiência humana?”. Deixaremos as reflexões sobre essas indagações para uma próxima unidade. 16 17 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Filosofia da Ciência: Introdução ao Jogo e a Suas Regras ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. São Paulo: Edições Loyola, 2000. Ciência: Conceito-chave em Filosofia FRENCH, Steven. Ciência: conceito-chave em Filosofia. Tradução de André Klaudat. Porto Alegre: Artmed, 2009. A Filosofia no Século XX LACOSTE, Jean. A Filosofia no século XX. Tradução de Marina Appenzeller; revisão técnica de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1992. Filosofia da Ciência e da Tecnologia MORAIS, Regis de. Filosofia da ciência e da tecnologia. Introdução metodológica e crítica [livro eletrônico]. Campinas: Papirus 2013 17 UNIDADE As Ciências Humanas Referências ARANHA, M. L. A & MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à Filosofia. 4 ed. São Paulo: Moderna, 2009. ARAÚJO, Inês Lacerda. Curso de Teoria do Conhecimento e Epistemologia. Barueri: Minha Editora, 2012. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonell Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Editor Victor Civita, 1984. (Coleção Os Pensadores). DILTHEY, Wilhelm. Introdução às Ciências Humanas: tentativa de uma fundamentação para o estudo da sociedade e da história; tradução [e prefácio] de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. FEIJÓ, Ricardo. Metodologia e Filosofia da Ciência: aplicação na teoria social e estudo de caso. São Paulo: Atlas, 2003. JAPIASSU, Hilton. O Mito da Neutralidade Científica. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 10 ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Introdução à Administração. 5 ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2000. REALE, Giovani; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 7ª edição. São Paulo: Paulus, 2002. SANDRONI, Paulo. Novíssimo Dicionário de Economia. Organização e supervisão de Paulo Sandroni. São Paulo: Editora Best Seller, 1999. 18