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Opinião Pública e Poder Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. José Deocleciano de Siqueira Silva Júnior Revisão Textual: Prof.ª Dra. Selma Aparecida Cesarin Mídia e Opinião Pública Mídia e Opinião Pública • Apresentar a discussão sobre Mídia e a formação da opinião pública. OBJETIVO DE APRENDIZADO • Introdução; • Mídia e Sociedade; • Mídia, Preferências e Opinião Pública; • Opinião Pública na Era das Redes Sociais. UNIDADE Mídia e Opinião Pública Introdução O objetivo desta Unidade é apresentar a discussão sobre a Mídia e a formação da opinião pública. Isso se faz necessário porque a Mídia é o canal pelo qual as informa- ções transitam no sentido dos Grupos de Mídia tais como Empresas de Comunicação, Governos, Corporações para o público, mas, também, a Mídia se conforma como um dos canais pelos quais a opinião do público é captada e difundida. Durante seus estudos, você pôde observar que, na atualidade, o cidadão comum, quando se trata da política, ao mesmo tempo em que tem um comportamento passivo, no sentido da não reflexão em torno dos fatos que o cercam, em decorrência da enorme quantidade de informação oriunda das mais diversas fontes, torna-se, também, produtor e difusor de informações que são disseminadas pelas Redes Sociais. Isso impactou o mundo da política de maneira profunda, pois juízos, avaliações, mobi- lizações acerca dos movimentos da política acontecem de modo imediato, sendo que nem sempre as informações difundidas têm compromisso com os fatos ou com a verdade. Nesse contexto, a opinião pública é um fator determinante para o comportamento e para as decisões das autoridades políticas que estão sujeitas ao escrutínio constante dos eleitores. Mas não se pode perder de vista o fato de que grande parte da opinião pública passa pela mediação dos Meios de Comunicação. As percepções, os juízos, as opiniões e as reações da Sociedade são difundidos pela Mídia, seja ela tradicional, no sentido dos grandes grupos de informações que congre- gam jornais, canais de TV aberta e paga e sites de informações ou “alternativas”, como sites independentes de informações, sejam canais de comunicação via web, de Organi- zações e Movimentos Sociais, TVs e Rádios Comunitárias, entre outros. Diante disso, é fundamental explorar as relações da Mídia com a Sociedade e sua influência em relação à opinião pública. Mídia e Sociedade Para compreendermos a relação entre Mídia e Sociedade, é preciso analisar o signi- ficado do termo Mídia. O Dicionário Houaiss mostra que esse substantivo feminino surgiu por volta dos anos de 1960 e, no campo da Comunicação, significa todo suporte de difusão da informação que constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens ou mesmo o conjunto dos Meios de Comunicação de massa que inclui o cinema, a TV, a imprensa, satélites de comunicação, os meios eletrônicos e telemáticos de comunicação [Internet] (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 1289). 8 9 Figura 1 – A partir da segunda metade do século XX, a Mídia assumiu posição central nos relacionamentos sociais e políticos Fonte: Getty Images Existem outras definições para o termo, como: o conjunto de tecnologias para o registro de informações, veículo de campanha publicitária etc., mas o sentido que inte- ressa ao contexto desta Disciplina é o que define a Mídia como o conjunto de Meios de Comunicação de Massa. A partir dessas definições, é preciso analisar esse termo de modo mais aprofundado, de tal forma que seja possível ter uma percepção mais clara da sua importância para a Sociedade e sua relação com a política e com o poder. Mídia, Definições e Abordagens O termo Mídia, como você pode observar na seção anterior, aparece no vernáculo da Língua Portuguesa por volta dos anos de 1960. Nos centros de estudo brasileiros, no início da década de 1970, esse termo equivale ao vocábulo media, em virtude da tradução de textos norte-americanos sobre a temática. A primeira dessas traduções, foi em Comunicação e Indústria Cultural, da Editora da Universidade de São Paulo, organizado por Gabriel Cohn, em 1971 (BASTOS, 2012, p. 59). Essa informação é importante, pois uma parte dos estudos emprega o termo media, oriundo da Língua Inglesa, como sinônimo ou correspondente direto do termo Mídia. Você Sabia? O conceito de Indústria Cultural foi desenvolvido por Theodor Adorno e Max Horkheimer, no final do século XIX e início do século XX, e se relaciona à ideia de cultura de massas. A produção em massa, comum nas fábricas e nas indústrias, passou a ser adaptada ao campo das artes. É uma nova forma de produção da arte e cultura, utilizando técnicas do Sistema Capitalista e está associada não apenas ao lucro, mas também à manutenção da ideologia dominante. 9 UNIDADE Mídia e Opinião Pública A reflexão dos significados do termo Mídia (media) tem como um dos autores semi- nais Herbert Marshall McLuhan (1911-1980), nascido no Canadá, e que, na década de 1960, começou a explorar e pesquisar os Meios de Comunicação entre outros temas. Fruto dessa pesquisa, a obra, cujo título original em inglês é Understanding Media: the extensions of men, foi lançada em 1964. Nesse trabalho, McLuhan sustenta que o “meio” pode ser compreendido como Tecnologia. Em outras palavras, da mesma forma que uma ferramenta como uma chave de fenda estende a capacidade humana em relação a suas habilidades manuais, os Meios de Comunicação seriam mais uma dessas extensões. Desse modo, a energia elétrica, o telégrafo, o telefone e o Rádio foram meios pelos quais os seres humanos ampliaram suas habilidades comunicacionais. Contudo, o que é perturbador nos argumentos de McLuhan é que, para ele, o meio encerra em si uma mensagem, ou seja, uma conversa telefônica entre dois indivíduos teria características distintas de uma conversa pessoal. O meio, no caso o telefone, tem impactos para as percepções das pessoas, indepen- dente do contudo da mensagem que se passa. De modo sintético, o meio transformaria o conteúdo e toda nova tecnologia criaria um “ambiente” próprio (MCLUHAN, 1964). A partir das reflexões de McLuhan, todo um campo de pesquisa se abre, em que os Meios de Comunicação são o objeto de estudo. A influência da Mídia na construção das visões de mundo nas arenas política e social, na manipulação das ideias e das informa- ções e na propaganda subliminar foram temas de análises que colocavam em tela a pre- ocupação com “influência” da Mídia sobre as pessoas. O esforço acadêmico e científico mostrou que o impacto da Mídia na Sociedade é mais complexo do que parece. Apesar da influência dos Meios de Comunicação, as pessoas em grande medida, constroem opiniões e dão sentido próprio àquilo que assistem e ouvem (JACKS, 1996). As reflexões de McLuhan ofereceram contribuições para pesquisadores, nas décadas de 1990 e 2000, ao abordarem aspectos da Sociedade Contemporânea que, para muitos, tem caráter revolucionário. A geração e a ampliação dos fluxos de informações, no século XXI, transformam os modos de aprender, de trocar mercadorias, de compartilhar valores, de produzir conhe- cimento, sendo que um dos mais importantes pesquisadores nesta área é o sociólogo espanhol Manuel Castells. Em seus estudos, Castells discute como o surgimento de uma Sociedade altamente conectada e permeada por um fluxo volumoso e contínuo de informações transforma o Capitalismo, remodelando as formas de produzir bens, gerenciar Empresas, individuali- zando e diversificando o trabalho e aprofundando a integração dos Mercados financeiros. Porém, esse movimento é acompanhado por um desenvolvimento desigual em virtude dos níveis e possibilidades de acesso às redes de informação e comunicação dos mais diversos países (CASTELLS, 2007, p. 40). Nesse contexto, a comunicação torna-se um elemento-chave nas dinâmicas sociais, políticas e econômicas, pois as redes interativas de computadores estão crescendo de forma exponencial e criam novas formas e canais de comunicação, moldando a vidae, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela (CASTELLS, 2007, p. 40). 10 11 Mídia e suas Relações com o Poder N o século XXI, e m decorrência dos avanços tecnológicos no campo das Tecnologias da Informação, a Comunicação apresenta formatos em que existe a integração potencial do texto, das imagens e dos sons num mesmo Sistema, de forma síncrona ou assíncrona, em uma rede mundial, que alterou significativamente o caráter da difusão de informa- ções (CASTELLS, 2007, p. 414). A Mídia tem importância fundamental no processo comunicacional, sendo a própria expressão da nossa cultura. A audiência ou o público é parte integrante dessa trans- formação nas comunicações e não se configura como um agente passivo, mas sim um sujeito interativo, capaz de gerar e transmitir críticas e opiniões. Além disso, é possível observar, n as últimas décadas, a transformação da comunicação de massa que passa a ser segmentada, adequando-se aos públicos de forma individualizada a partir do momento em que a tecnologia, as empresas e as instituições permitem essas iniciativas (CASTELLS, 2007, p. 422). Ainda que se possa perceber essa transformação, em que o público adquire a capa- cidade de interagir com os difusores da informação, outro processo contínuo de trans- formação ocorre nesse campo, que é o surgimento de grandes corporações na área de comunicação, com objetivo de se transformarem em plataformas multimídia abarcando segmentos cada vez mais amplos do mercado (CASTELLS, 2007, p. 426). Você Sabia? Cinco grupos controlam metade dos 50 veículos de comunicação com maior audiência no Brasil, segundo o relatório divulgado pelo projeto Monitoramento da Propriedade da Mídia (Media Ownership Monitor ou MOM). O MOM é um banco de dados que contém detalhes sobre os proprietários dos maiores veículos e grupos de Mídia, além de suas relações políticas e interesses econômicos. No Brasil, o levantamento foi feito pela ONG brasileira Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Dos 50 veículos de comu- nicação analisados (Mídia Impressa, Rádio, Televisão e Internet), e de maior audiência, 26 deles são controlados por apenas cinco grupos. O maior é o Grupo Globo, da família Marinho, que detém 9 desses veículos, seguido pelo Grupo Bandeirantes com 5, a famí- lia Macedo com o Grupo Record e os veículos da Igreja Universal Reino de Deus (IURD) com 5, Grupo RBS com 4 e Grupo Folha com 3. Fonte: https://bit.ly/3CeTj4i Além disso, o surgimento e a evolução das tecnologias de comunicação enfraqueceram grupos que outrora eram detentores do poder comunicacional na sociedade, como outros emissores de valores simbólicos como a Mídia tradicional, grupos religiosos, autoridades, líderes entre outros (CASTELLS, 2007, p. 462). É importante ressaltar que a s Empresas e as Corporações de Mídia, em sua maioria, são privadas e estão inseridas numa lógica de Mercado e competição que não exclui o monopólio como resultado dessas contendas. Nesse ambiente, as Empresas de Mídia tradicional (estúdios de Cinema, Emissoras de TV, Jornais) encontram-se sob pressão, 11 UNIDADE Mídia e Opinião Pública pois disputam o Mercado não apenas com seus concorrentes tradicionais, mas agora com a Mídias Digitais que podem assumir inúmeros formatos como blogs, grupos em Redes Sociais, Sites independentes etc. A consequência desse estado de coisas é com- petição aberta pelo controle dos fluxos de informação (CASTELLS, 2007, p. 467). A informação e seus canais representados pela Mídia são instrumentos de poder e, nas primeiras páginas do livro Sociedade e Rede, Castells remete a noção de poder que em sua perspectiva é: “[...] a relação entre os sujeitos humanos que, com base na produção e na experiência, impõe a vontade de alguns sobre os outros pelo emprego potencial ou real de violência física ou simbólica” (CASTELLS, 2007, p. 51). Nessa mesma linha argumentativa, o pesquisador espanhol afirma que as instituições sociais são construídas como instrumentos para impor o cumprimento das relações de poder existentes em cada período histórico, inclusive os controles, limites e contratos sociais alcançados no decorrer das disputas pelo poder (CASTELLS, 2007, p. 51-2). Os significados apresentados acima dialogam com a tipologia moderna das formas de poder discutidas nesta disciplina e mostra a importância da Mídia como instrumento ou recurso de poder político. No que se refere ao poder econômico, é possível perceber a luta pelo controle dos fluxos de informação por meio da ampliação das atividades e das plataformas das Empresas de Comunicação, com o intuito de dominar o Mercado. Em relação ao poder ideológico, o esforço para influenciar o fluxo de informações ressaltando valores e visões de mundo que simbolizam e legitimam a ordem vigente. E, no que tange ao poder polí- tico, ele se utiliza dos dois poderes anteriores para alcançar e permanecer nos cargos de comando legitimando e difundindo seus altos valores e iniciativas por meio da Mídia. As análises de Castells colocam em evidência as transformações que a Mídia sofreu nas últimas décadas em consequência da revolução no campo informacional, e isso está diretamente relacionado às transformações sociais e políticas ocorridas a partir da segunda metade do século XX. Um aspecto importante que se depreende dessa discussão é que as sociedades contem- porâneas são sociedades midiáticas e, nesse sentido, as relações sociais e de poder são intermediadas pelos mais diversos tipos de Mídia e isso acarreta algo importante, que é o fato de que o Sistema Político, incluindo os poderes constituídos, os partidos políticos, as organizações e movimentos sociais estão sujeitos aos movimentos que são definidas pela Mídia (CASTELLS, 2000). Como pode ser visto, anteriormente, a difusão de uma notícia ou evento de modo generalizado pode causar comoção social e influenciar a percepção não só do público como dos próprios tomadores de decisão. Cabe lembrar que a ideia de informação e conteúdo cada vez mais tem contação de espe- táculo e imediatismo, e assim, nem sempre se faz a distinção entre o que é entretenimento daquilo que é notícia no contexto do fluxo de informações que é difundido cotidianamente. Para Guy Debord, por exemplo, a sociedade moderna pode ser sintetizada como a sociedade do espetáculo, em que o mais importante são as imagens e a representação da vida do que a vida em si, pois o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas 12 13 uma relação social mediada por imagens que podem ser informações ou propagandas, publicidade ou entretenimento e isso constitui o elemento principal da vida dominante em sociedade (DÉBORD, 2005). Figura 2 – O contexto midiático, por vezes, não faz a distinção entre notícia e entretenimento Fonte: Getty Images O espaço público, ou seja, a sociedade, é sistematicamente ocupada e pautada pela Mídia que, em virtude disso, tem forte influência na formação dos interesses e das priori- dades em relação à política. Além disso nas últimas décadas do século XX a Democracia Representativa, cada vez mais, torna-se objeto de crítica em decorrência da falta de representatividade dos partidos políticos, da distância entre a atuação dos parlamentares e o interesse do eleitorado e a complexidade das regras e procedimentos para a tomada de decisão. Nesse ambiente: [...] a comunicação e as informações políticas são capturadas essencial- mente no espaço da Mídia. Tudo o que fica de fora do alcance da Mídia assume a condição de marginalidade política. O que acontece nesse espaço político dominado pela Mídia não é determinado por ela: trata-se de um processo social e político aberto. (CASTELLS, 2000, p. 368) Diante disso, a relação entre Mídia e Sociedade configura-se em um campo de múlti- plas interações em que a informações tem um papel central, mas não são mais centrali- zadas nas grandes corporações e em órgãos governamentais, pois as Mídias alternativas e o próprio público tornam-se atores ativos nesse processo.Esse novo arranjo, em que o avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação e as novas formas de interação comunicacional entre os indivíduos produziram uma Sociedade em Rede teve como produto a potencialização da opinião pública e isso trans- formou as formas de mobilização social e política. 13 UNIDADE Mídia e Opinião Pública Dessa forma, a análise de como a Mídia conforma as preferências dos indivíduos é tema importante para a compreensão das relações da Mídia com o poder. Mídia, Preferências e Opinião Pública Na seção anterior, pudemos discutir o termo Mídia e suas implicações, principalmente, por meio das abordagens de Castells. Ainda que seja um tema complexo, é fundamental para compreendermos que a Mídia é o canal de interação da opinião pública com as Instituições Políticas. O vocábulo “Mídia”, quando empregado na Zona de confluência dos estudos de Comuni- cação, Ciências Sociais e Ciência Política refere-se aos Meios de Comunicação de massa no contexto da cultura de massas. Do ponto de vista da Sociologia, a cultura de massas se refere ao universo de formas cultu- rais (por exemplo música, literatura, cinema) selecionadas, interpretadas e popularizadas pela indústria cultural e meios de comunicação de massa para a disseminação junto ao maior público possível (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 583). Isso tem como consequência o fato de que a formação dos gostos, valores, interesses e opiniões se dá num ambiente dominado pelas referências, imagens, signos difundidos dia- riamente pelos Meios de Comunicação tradicionais, como a Televisão, o Rádio e a Imprensa Escrita e, a partir da primeira década do século XXI, pelas Redes Sociais da Internet. Esse aspecto é importante, pois os nossos interesses, as preferências e, consequen- temente, as nossas escolhas, seja no campo social e cultural, seja nas arenas econô- mica ou política, são parametrizadas por essas informações difundidas pela Mídia de Massas (Mass Media). Um exemplo disso são as preferências musicais que, entre as décadas de 1950 a 1980, foram dominadas, em grande parte dos países ocidentais, pelas influências do Rock n’ Roll, que não se limitava aos gostos musicais, mas inspirava comportamentos sociais e a moda (HOBSBAWM, 2003). Um sucedâneo do Rock n’ Roll nesse contexto da Cultura de Massas foi o Hip Hop e suas derivações, como o funky, que têm origem nos subúrbios de maioria negra dos grandes centros urbanos do EUA, por volta dos anos de 1970, e retrata aspectos do cotidiano desses grupos sociais, descrevendo nas letras de suas músicas a situação de pobreza, o racismo, a violência e a atração pela riqueza. Além das músicas, o estilo no que se refere aos comportamentos e às formas de vestir se difundiram por todo o mundo (HERSCHMANN, 2003). 14 15 Figura 3 – Grupo de dançarinos de break japoneses dançando em um parque público em Tóquio Fonte: Getty Images A influência da grande Mídia não se restringe apenas às escolhas comportamentais e culturais, mas também no plano político, e isso tem relação direta com a opinião pública. Nos EUA, já entre as décadas de 1920 e 1940, surgiram inúmeros estudos que tentavam analisar o comportamento do cidadão/eleitor norte-americano e uma parte considerável desses trabalhos dedicou-se ao comportamento eleitoral, à propaganda política e a opi- nião pública. Um dos trabalhos mais importantes foi o de Paul Lazarsfeld, People’s Choice, de 1944, que tinha como objetivo estudar os efeitos da exposição aos Meios de Comuni- cação, isto é, saber como os eleitores fazem suas escolhas e qual é o papel dos Meios de Comunicação nesse processo. Essa obra inaugura a Escola Sociológica do comportamento político que será seguida de outras abordagens, como a Escola de Michigan e o modelo psicossocial, que faz da identificação partidária o principal fator explicativo do comportamento dos eleitores e, por fim, a Escola de Rochester, ou da Teoria da Escolha Racional. Esses modelos serão abordados em momentos de estudo de nossa Disciplina. A importância dos Meios de Comunicação ou dos Mass Media para a formação das preferências e seus impactos na opinião pública será aprofundada com o advento da Televisão, pois ela permitiu que os cidadãos de fato pudessem ver os políticos nas mais diversas situações (SAPERAS, 2000, p. 31). A percepção de que a Mídia de alguma maneira influencia a construção de opiniões por parte do público levou a esforços voltados para as formas pelas quais os indivíduos, sujeitos à Mídia e num contexto de Cultura de Massas, modificam suas representações da realidade social a partir daquilo que é apresentado pelos Meios de Comunicação (NOELLE-NEUMANN, 2017). Como você pôde perceber com a apresentação dos argumentos de McLuhan, Debord e Castells, entre outros, a Mídia tem papel decisivo na formação das preferências em 15 UNIDADE Mídia e Opinião Pública diversos campos. Isso se torna ainda mais importante num contexto de globalização exacerbada, em que a convergência do Setor de Comunicações que, para além da TV e do Rádio, foi potencializada pela Internet, sobretudo, pelas Redes Sociais. Diante disso, é possível observar que a indústria da comunicação é detentora de linguagens, formatos, estratégias, processos e agentes múltiplos que envolvem a comunicação de Massa, projetam imagens e visibilidades e a constituem um poder no mundo contempo- râneo (RUBIM, 2000). A Formação da Opinião Pública Nas seções anteriores, você tomou contato com a discussão sobre a Mídia e os seus impactos sociais e políticos, sobretudo, no século XXI. Uma das consequências da Sociedade Midiática é a sua influência na formação das visões de mundo, das opiniões e dos gostos da população em geral. Mas, para além disso, o impacto da Mídia na formação da opinião pública é algo do interesse da nossa Disciplina. A importância que a Comunicação de Massas tem para as Sociedades Democráticas é tal que, hoje em dia, é possível afirmar que a “maioria das sociedades contemporâneas pode ser considerada como centrada na Mídia (media centered), ou seja, são Sociedades que dependem da Mídia – mais do que da família, da escola, das igrejas, dos sindicatos, dos partidos etc. – para a construção do conhecimento público que possibilita, a cada um dos seus membros, a tomada cotidiana de decisões, políticas inclusive” (LIMA, 2001, p. 113). A relação entre a formação da opinião pública e a Mídia é perceptível, mas cabe a questão: como se forma a opinião pública? O caminho para se chegar a essa resposta é um pouco sinuoso, mas ajudaremos você nesta trilha em busca dessa resposta. Em outro momento, discutimos o que seria a opinião pública e, para Octaviano Nogueira, ela seria “o Conjunto dos pontos de vista sobre algum tema controvertido, sustentados por uma parte da população” (NOGUEIRA FILHO, 2010, p. 299). No começo de nossa jornada, entendemos que a opinião pública não pode ser consi- derada uma verdade, pois expressaria uma opinião pretensamente racionalizada de um determinado grupo social acerca de um tema. Essas duas breves recordações, reforçam a necessidade de se discutir como se forma a opinião pública. O termo “opinião pública” pode ser rastreado historicamente na Antiguidade como consensus populi, numa acepção exclusivamente jurídica, o que é muito diferente daquilo que entendemos hoje sobre esse termo. Na baixa Idade Média, o ditado vox populi vox Dei, criado por Albino Flaco, Abade de Tours, aparece numa carta enviada ao impera- dor Carlos Magno e, já na Era Moderna, o poeta inglês Alexandre Pope argumenta de modo peculiar que é estranha a voz do povo, pois ela seria e não seria a voz de Deus (ANDRADE, 1964, p. 109). A opinião pública aparece como elemento importante do debate político, com Jean Jacques Rousseau, e adquire destaque com o advento da democracia de massas. No iní- cio do século XX, os trabalhos de Gabriel Tarde evidenciaram a importância da opinião 16 17 pública, atestando que esta seria o vínculo social realmente modernoe não necessa- riamente uma verdade determinada, sendo que para ele, com o advento da imprensa, é cada vez menos com determinadas pessoas e cada vez mais com a coletividade que mantemos relações de todo gênero (TARDE, 1992). O filosofo espanhol Ortega y Gasset afirmava que o poder político, ou seja, o exer- cício da “autoridade que se baseia na opinião pública – sempre, hoje como há dez mil anos, entre os ingleses como entre os botocudos” (ORTEGA y GASSET, 1956, p. 189). Uma discussão propriamente dita sobre o que é a opinião pública bem como os pro- cessos pelos quais ela se constitui tem início a partir dos anos de 1940, nos EUA, e toma corpo com o trabalho de Walter Lippmann que, num primeiro momento, criticava as concepções teóricas que sustentavam a existência de uma opinião pública esclarecida e que, posteriormente, passou a aceitar a presunção de que, numa Sociedade livre, todos os seus membros debatem os problemas de modo sincero e racional (A NDRADE, 1964, p. 110). Até aqui, você pode perceber que ainda não apresentamos a resposta à nossa inda- gação inicial, mas, como dito, o caminho é sinuoso e, para alcançarmos nosso objetivo, será necessário observar como o campo da Psicologia Social, a partir da década de 1920, concebeu a opinião pública. A opinião pública seria uma discussão que atrai a atenção geral, mas, mais impor- tante que isso, é a diferença entre opinião pública e opinião preponderante. A expressão “opinião preponderante” é a apreciação coletiva que não admite mais discussões. Tudo que é passível de discussão, de controvérsia, é terreno propício à formação de “opinião pública” (ROSS, 1929, p. 345 apud ANDRADE, 1964, p. 111). A partir dessa perspectiva, percebe-se que a opinião pública só pode existir em um contexto de diferentes pontos de vista, ou seja, num contexto de controvérsias e, conse- quentemente, desacordos. Em princípio, a opinião pública seria um processo intelectual total que se inicia com algum problema, seguindo-se uma série lógica de passos até à solução da questão levantada (ANDRADE, 1964, p. 112), supondo-se uma racionalidade daqueles que estão nesse debate. A ideia de que a opinião pública se constitui num contexto de controvérsias e desa- cordo dialoga com as concepções de política e Democracia já vistas. A concepção de que a política é meio pelo qual se pode alcançar consensos incorpora a opinião pública como um dos instrumentos pelos quais é possível alcançar esse objetivo. A política, então, requer algum tipo de consenso em torno de questões tidas como importantes e controversas para a Sociedade em geral. Esse consenso dependeria de certo grau de racionalidade das partes envolvidas. O termo racionalidade está relacionado à ideia de que as pessoas valer-se-iam da razão e da reflexão para formar opiniões em detrimento de sentimentos e de emoções. 17 UNIDADE Mídia e Opinião Pública A questão da racionalidade no debate público é importante pois, quando observada com mais proximidade, percebe-se que as pessoas, por vezes, valem-se mais do senti- mento e da emoção do que da razão nas discussões públicas. Tão importante quanto a racionalidade no debate e na formação da opinião pública é a influência dos grupos de pressão e da Mídia em geral. Essa influência está diretamente relacionada com o controle por grupos de interesse das informações e notícias, por exemplo, persuadindo, intimidando ou coagindo as pessoas a aceitarem os pontos de vista ou propósitos autoritários desses grupos (ANDRADE, 1964, p. 110). Depreende-se dessa situação que os indivíduos sobre forte persuasão e manipulação podem ter déficits de racionalidade quando instados a formar uma opinião ou mesmo a tomar uma decisão. A irracionalidade é algo presente e importante no contexto da opi- nião pública e, para ampliar essa discussão, reencontraremos um autor que já cruzamos em nosso caminho: Walter Lippmann. que afirma: “[...] os clichês dentro das cabeças de seres humanos, os clichês deles próprios, de outros, de suas necessidades, propósitos e afinidades são suas opiniões públicas” (LIPPMANN, 1938, p. 29 apud ANDRADE, 1964, p. 115). Isso é importante pois as opiniões que as pessoas expressam são baseadas em estereótipos, frases de efeito e apelos emocionais e, em um nível mais complexo ainda, relacionadas a signos, imagens, músicas e ilustrações. Esses elementos criam um sentimento coletivo, semelhante a uma crença, que é algo diferente daquilo que seria fruto da opinião pública tida como uma interação social. Esse apelo irracional de validação das “crenças” coletivas é mobilizador da atenção pública e um dos elementos definidores da opinião pública e do comportamento político em Sociedades centradas na Mídia. Esse aspecto irracional da opinião pública também foi discutido por Gustave Le Bon, que concebia que o meio social exerce forte influência a despeito de nossa vontade e que, de certa forma, os indivíduos possuiriam apenas opiniões coletivas (LE BON, 2002). A formação da opinião pública também pode ser abordada pela noção de esfera pública elaborada pelo sociólogo alemão Jürgen Habermas. Para ele, a esfera pública pode ser descrita: [...] como uma rede adequada para a comunicação de conteúdo, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. Do mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente, a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa coti- diana. (HABERMAS, 2003, p. 92) A partir dessa concepção, as pessoas ou cidadãos comuns estão expostas às ações políticas, e quando necessitam interagir com o Estado, ou diante de uma ação estatal voltada para eles, interpretariam essa situação e constituiriam contextos comunicacionais 18 19 e, dessa forma, “os problemas tematizados na esfera pública política transparecem inicial- mente na pressão social exercida pelo sofrimento que se reflete no espelho de experiên- cias pessoais de vida” (HABERMAS, 2003, p. 97). Ainda no que se refere aos argumentos de Habermas, ele sustenta a possibilidade, em determinados contextos, da formação de uma opinião pública independente, desde que esta se forme no âmbito da sociedade civil. Os processos públicos de comunicação são tanto mais isentos de distorções quanto mais estiverem entregues a uma sociedade civil oriunda do mundo da vida (HABERMAS, 2003, p. 108). Porém, não é possível descartar o papel do Sistema Político e da Mídia na formação da opinião pública. Outras abordagens sobre a formação da opinião pública retomam ao argumento de que as elites teriam papel preponderante na definição do debate público. A opinião pública seria o resultado de um fluxo de informações oriundo dos extratos dominantes da Sociedade em direção às classes populares. Para o pesquisador brasileiro Venício A. de Lima. A opinião pública se formaria a partir de pequenos grupos, situados no topo da pirâmide social e depois viria “descendo”, por degraus, até a base da pirâmide. No primeiro degrau dessa “cascata” estaria o pequeno grupo das elites econômicas e sociais; no segundo, esta- ria o das elites políticas e, no terceiro, a Mídia, seguida pelos chamados formadores de opinião – intelectuais, religiosos, artistas, educadores, líderes empresariais e sindicais, jornalistas e, finalmente, no último degrau, a grande maioria que constitui a base da população. Se a teoria da “cascata” estiver correta, a Mídia teria, sim, um duplo e impor- tante papel na formação da opinião pública: tanto como conjunto das instituições que tornam as coisas públicas e ao qual, portanto, todos os grupos dos diferentes degraus da “cascata” estão expostos – quanto como espaço de atuação dos jornalistas formadores de opinião (LIMA, 2005). A partir dessa perspectiva, ganha relevo a reflexão sobre a relaçãoda opinião pública com a política e com o poder e, de modo mais, específico com a Democracia. D o ponto de vista da teoria democrática, a opinião pública seria fruto da interação dos estados de espírito difusos (opiniões), interagindo com fluxos de informações relativas às questões públicas. E sses estados de espírito incorporam os mais variados desejos, necessidades, preferências e atitudes, mas para serem politicamente relevantes, essas opiniões devem ser politicamente sensibilizadas, ou seja, devem ser relativas a eventos ligados à Sociedade Política (SARTORI, 1994, p. 125). Diante disso, reafirmamos a importância da relação entre a formação da opinião pública e a democracia político-representativa. O questionamento a esse regime, em grande parte, tem origem na suposição de que as Instituições Representativas estariam distantes da opinião pública, mas, por outro lado, a própria construção das Instituições Políticas, ainda que tenham estabelecido canais para captar os humores da Sociedade, também têm filtros para organizar, atender e represar as pressões oriundas do meio social. Depois de apresentar os argumentos de vários pesquisadores, já temos a reposta à indagação feita anteriormente. 19 UNIDADE Mídia e Opinião Pública Como se forma a opinião pública? A opinião pública se formaria a partir da mobilização do público em torno de uma temática que pode ser de interesse local como um problema na escola, a criminalidade contra os estabelecimentos comerciais ou pode ser algo de escopo nacional, com a adoção de uma política pública de saúde, uma tragédia em uma represa ou mesmo uma eleição. Essa mobilização pode ocorrer por meio de uma comoção coletiva, por meio das lide- ranças locais (comunitárias, políticas, religiosas), fruto da exposição sistemática dos Meios de Comunicação acerca de determinado acontecimento ou por interações comunicacionais. A opinião pública também pode estar permeada de estereótipos, clichês, reflexões imediatistas e apelos emocionais que apontam para um certo grau de irracionalidade. A descrição anterior responde parcialmente a nossa questão, pois não define de modo claro porque essa opinião supostamente pública seria de fato aquilo que a Socie- dade percebe, defende ou demanda. Fazendo o questionamento de outro modo: quem pode dizer que, de fato, essa opinião é a opinião do público? Como é possível captar ou conhecer a opinião pública? É Possível Captar a Opinião Pública? O debate da seção anterior sobre os processos de formação da opinião pública termina com algumas perguntas: seria possível captar a opinião pública? É possível afirmar que a opinião pública captada por algum instrumento de pesquisa é de fato a opinião do público? Essas perguntas estão associadas ao campo dos métodos e técnicas de pesquisa. Sabe-se que a Ciência Política buscou tornar-se uma Ciência consolidada, definindo seu objeto e seus métodos de pesquisa, processo que que abrange, também, as outras Ciências Sociais. Já no começo do século XX, principalmente, nos EUA, o interesse sobre os proces- sos eleitorais e a tentativa de conhecer os fatores que levam o eleitor a escolher um can- didato ou partido utilizou um instrumento de pesquisa muito importante e conhecido: os questionários com perguntas fechadas (perguntas que apresentam seu enunciado e um elenco de respostas que o entrevistado deve escolher ao menos uma). Esse tipo de questionário tem a vantagem de permitir a coleta de um número consi- derável de informações em uma população numerosa tendo em vista que as respostas de cada questão e do questionário como um todo podem ser organizadas, tabuladas e agregadas para, posteriormente, serem analisadas estatisticamente. Existem outros instrumentos de pesquisa no campo da Ciência Política e das Ciências Sociais como as entrevistas (estruturadas e semiestruturadas), grupos focais, estudos de caso, etnografia, análise de conteúdo, análise de discurso entre outras. É preciso ressaltar que essas técnicas se relacionam a abordagens qualitativas (entre- vistas, grupos focais, estudos de caso, etnografia) e quantitativas (questionários fechados que formam banco de dados propícios para análises estatísticas). 20 21 Figura 4 – Os resultados das pesquisas de opinião são ferramentas importantes para os tomadores de decisão, ainda que se reconheçam alguns limites desses instrumentos de pesquisa Fonte: Getty Images Esses breves comentários sobre métodos e técnicas de pesquisa tem por objetivo ressaltar um aspecto importante do nosso estudo sobre a opinião pública. Tendo em vista a concepção de que a opinião pública é justamente a opinião do público ou ao menos de uma parte significativa dos membros de uma Sociedade. o instrumento mais adequado para a captura daquilo que é e a percepção do público de fato é o ques- tionário a ser aplicado aos indivíduos como mencionado acima. A realização de uma pesquisa de opinião pública requer, então, um apuramento metodológico no sentido de mapear a questão ou o tema que afeta ou mobiliza a opi- nião pública, criar categorias ou buscar termos ou conceitos que sintetizem aspectos da temática a ser pesquisada, transformar esses conceitos em perguntas e organizá-las em uma sequência inteligível em um instrumento de pesquisa. Depois disso, é preciso definir a população que abarcará os sujeitos da pesquisa por meio de técnicas de amostragem estatística. A pesquisa de opinião por meio de inquéritos com questionários fechados tornou-se a ferramenta mais utilizada para captar a opinião pública. No século XXI, o esforço para conhecer a opinião pública contou com os avanços da Ciência de Dados que, por meio programas e aplicativos (softwares), são capazes de ras- trear o fluxo de informações na internet e, principalmente, nas Redes Sociais, mostrando as tendências, no agregado, das opiniões e das impressões dos usuários dessas Redes. Contudo, n em todos os estudiosos que se dedicam ao estudo da opinião pública consideram que ela é passível de ser captada, no sentido de conhecê-la com exatidão. No início do ano de 1972, o sociólogo Pierre Bourdieu realizou uma Comunicação em Noroit (Arras), França, cujo título era: A opinião pública não existe. 21 UNIDADE Mídia e Opinião Pública Por si só, o título da Comunicação já nos causa apreensão se levarmos em conside- ração o nome da nossa Disciplina e o esforço que fizemos até aqui. Mas o próprio Bourdieu esclarece seu objetivo: realizar uma análise rigorosa do funcio- namento e das funções das pesquisas de opinião pública (BOURDIEU, 1973, p. 1). O detalhamento da análise que o sociólogo francês faz das pesquisas de opinião poderá ampliar nosso debate em torno da possibilidade ou não de captar a opinião pública e reforçar os nossos conhecimentos em torno dos instrumentos de pesquisa no campo das Ciências Sociais. O questionamento do valor das pesquisas como forma de conhecer a opinião pública aborda três postulados implícitos acerca desse instrumento: a) Qualquer pesquisa de opinião supõe que todo mundo pode ter uma opinião; b) supõe-se que todas as opiniões têm valor; c) pelo simples fato de se expor a mesma questão a todo mundo, está implícita a hipótese de que há um consenso sobre os problemas. Para Bourdieu, esses três pos- tulados implicam uma série de distorções observadas mesmo quando todas as condições do rigor metodológico são preenchidas na coleta e na análise dos dados (BOURDIEU, 1973, p. 1). A crítica aqui apresentada é interessante, pois não recai sobre os procedimentos metodológicos e estatísticos utilizados por Universidades e Institutos de Pesquisa para aferir a opinião pública. O ponto central está relacionado justamente com a parte conceitual que permite a formulação das questões que supostamente seriam criadas para capturar a opinião dos respondentes. Os pesquisadores e os centros de pesquisa estão sujeitos à pressão dos contextos sociais, econômicos e políticos, mas, sobretudo, àquilo que esses pesquisadores e suas Instituiçõesacreditam que é importante em relação à opinião pública. Esse argumento pode ficar mais claro com um exemplo: suponha que o Sistema de Ensino de uma localidade apresenta, há vários anos, uma avaliação negativa junto aos órgãos reguladores, tais como a Secretaria Municipal de Educação e do próprio Ministério da Educação. Porém, em virtude de uma greve geral contra a condução do Ministério da Educação por seu Ministro, essa temática passa a ser objeto do notici- ário nacional e, diante disso, “emerge a necessidade” de saber o que o público acha da Educação naquele momento. Sendo assim, a captação da opinião pública sobre a Educação estaria, provavelmente, mais atrelada ao trabalho do ministro naquele momento, do que necessariamente à con- dição em que se encontra a Escola e, consequentemente, a qualidade do ensino atestada negativamente no passado. Bourdieu afirma que: [As] problemáticas que são propostas pelas pesquisas de opinião se subordinam a interesses políticos, e isto dirige de maneira muito acen- tuada o significado das respostas e, ao mesmo tempo, o significado dado à publicação dos resultados. (BOURDIEU, 1973, p. 3) 22 23 Depreende-se daí que a s pesquisas de opinião seriam instrumento de ação política que induziriam a percepção de que Sociedade, como um todo, teria uma opinião ou mesmo uma opinião média a respeito de uma temática. P ara o sociólogo francês, os resultados das pesquisas seriam instrumentos para dissimular que o estado da opinião em um dado momento do tempo é um Sistema de Forças, de tensões e que não há nada mais inadequado para representar o estado da opinião do que um dado estatístico que mostraria, ou melhor, atestaria o valor da opinião do público (BOURDIEU, 1973, p. 3). Os resultados estatísticos que representariam a opinião pública podem esconder frag- mentos importantes da opinião coletiva e isso tem a ver, por exemplo, com as “não respostas” que são dadas em uma enquete. Ao lado disso, as pesquisas querem capturar uma opinião de pessoas que, necessariamente, não teriam opiniões sobre a temática objeto da pesquisa. E é necessário, ainda, ter cuidado com o teor das questões que são encaminhadas aos respondentes, pois aquilo que pode ser um tema político para um determinado extrato da Sociedade pode ser uma questão ética para outro grupo social (BOURDIEU, 1973, p. 4). Exemplo disso seria o debate sobre a instauração de padrões disciplinares mais rígidos e hierárquicos nas Escolas. Para os pais e educadores pertencentes a um extrato social mais elevado, esse debate envolveria questões relacionadas ao processo de cons- trução do saber e a liberdade de professores e alunos. Mas para outros extratos de me- nor poder aquisitivo e residentes em áreas caracterizadas pela insegurança e violência, essa discussão estaria associada à condição de vida e à própria segurança nas Escolas. A partir desses argumentos, a opinião pública não existiria para Bourdieu, pelo menos na forma que lhe atribuem os que têm interesse em afirmar sua existência, pois, por um lado existiriam opiniões constituídas, mobilizadas, grupos de pressão mobilizados em torno de um sistema de interesses explicitamente formulado e, por outro lado, disposições que, por definição não constituem opinião, se esta palavra significar alguma coisa que pode ser formulada num discurso com uma certa pretensão à coerência (BOURDIEU, 1973, p. 12). A crítica de Bourdieu às pesquisas de opinião e, consequentemente, o questionamento à própria existência da opinião pública, teve impacto significativo sobre o debate em torno dessa temática, porém, um contra-argumento foi colocado e deu alento aos pesqui- sadores do campo e a nós estudantes da disciplina. O fato de as pesquisas de opinião pública possuírem deficiências no que tange à sua neutralidade ou mesmo à concepção filosófica dos conceitos empregados não é suficiente para negar a existência da opinião pública. Em uma passagem da obra O Vocabulário da Política, Octaviano Nogueira ressalta a fala de alguns cientistas políticos que afirmam que “se o termômetro é imperfeito, isso não significa que a temperatura seja inexistente” (NOGUEIRA FILHO, 2010, p. 300). No contexto do debate sobre a opinião pública e o poder, não podemos perder de vista que, em princípio, a construção de uma opinião independe do conhecimento ou da informação que se tem sobre a temática objeto do escrutínio coletivo. Esse aspecto é perturbador pois, como havíamos discutido, a democracia represen- tativa, em grande medida, é dependente da opinião do público para funcionar, seja no 23 UNIDADE Mídia e Opinião Pública processo de escolha dos representantes, seja no processo de tomada de decisão pelos representantes eleitos que, a todo momento, estão sob a pressão da opinião pública. A formação da opinião pública, ainda que possa se constituir de forma independente, requereria que o público tivesse acesso à informação e ao conhecimento de tal forma a ter subsídios consistentes para a sua tomada de posição. Para reforçar esse argumento é preciso distinguir dois vocábulos: informação e conhecimento. Informação é uma forma de conhecimento não especializado. Já o conhecimento tem base científica, ou seja, é a acumulação de informações coletadas de forma sistemática com procedimentos próprios, baseados em testes, pesquisas e experi- mentos e amparados por teorias (NOGUEIRA FILHO, 2010, p. 217). A informação difundida pelos Meios de Comunicação, necessariamente, não se baseia em comprovação científica. Isso não quer dizer que não é válida ou legítima, apenas que é produzida por outros critérios. É possível perceber isso quando os Meios de Comunicação elegem “o melhor de todos os tempos” em alguma atividade esportiva. Na maioria dos casos, os melhores de todos os tempos nem sempre, se colocados sobre um escrutínio científico abarcando número significativo de variáveis, seriam detentores desses títulos. Nesse mesmo sentido, um número significativo daqueles que seriam os melhores de todos os tempos, a apreciação do tempo histórico no qual se insere aquele tido como melhor, estaria associada à construção afetiva de um passado ou de um presente a depender daqueles que definiram o que seria em si a expressão “todos os tempos”. Por isso, quando discutimos a formação da opinião pública ou mesmo sua existência, é possível argumentar que ela pode variar não apenas em função do instrumento de pes- quisa que tenta captá-la, ou seja, a opinião varia de acordo com o formato da pergunta que é feita, mas também de acordo com a informação que o respondente teria sobre o tema da pesquisa (NOGUEIRA FILHO, 2010, p. 217). Isso não quer dizer que o acesso à informação por si só garantiria a formação de uma opinião pública mais afinada com algum tipo de valor. Em outras palavras a informação é uma condição necessária para que a tomada de decisão, seja no âmbito individual, seja no coletivo, mas não é condição suficiente para a garantia da permanência de determinados valores ou concepções políticas, pois isso se modifica de acordo com cada contexto e momento histórico. A opinião do público não é influenciada totalmente pelos atores políticos, grupos de pressão, corporações etc. As pessoas, em grande medida, não mudam de opinião em decorrência dos discursos públicos, mas, ao contrário, selecionam, nas informações divulgadas aquelas que melhor lhes agrada. A influência dos detentores da Mídia, dos grupos políticos e dos “formadores de opinião” é difusa, ou seja, ainda que a opinião pública tenha caráter multifacetado, isso não significa que não existe. 24 25 A construção da opinião pública é um jogo em que participam a Mídia, os líderes, as Corporações e o público que reage favorável, negativa ou indiferentemente aos interesses e às solicitações dos formadores e influenciadores da opinião pública (NOGUEIRA FILHO, 2010, p. 300). Essas opiniões do público podem ser capturadas, em alguma medida, pelos instru- mentos de pesquisa, aindaque com limitações, e essas informações não deixam de ser relevantes para a sociedade em geral e para os tomadores de decisão. Figura 5 – No século XXI, alguns temas se tornaram globais, a exemplo das mudanças climáticas, cujo debate mobiliza a opinião pública em vários países Fonte: Getty Images Diante disso, o debate sobre a opinião pública e as formas pelas quais podemos captá-la permanece, e nas últimas décadas, alguns estudos e abordagens ofereceram contribuições importantes acerca dessa temática. Opinião Pública na Era das Redes Sociais O século XXI é testemunha do crescente avanço tecnológico em vários campos, mas as profundas transformações que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) impuseram modificaram às formas de aprender, de produzir e de se comunicar. Os relacionamentos sociais, ao mesmo tempo em que ultrapassaram as fronteiras geográficas, isolaram-se em grupos de interesse. Esse ambiente, como discutido nas seções anteriores, mudou também a forma pela qual a opinião pública se constitui. Os sinais dessa transformação puderam ser sentidos já nos finais dos anos de 1990, quando muitos intelectuais apontavam para a crise da Modernidade na Europa e, nos países emergentes, para a crise da Modernidade tardia. Somam-se a isso os efeitos da globalização criando conflitos no interior das Sociedades e gerando novos movimentos sociais e novas formas de mobilização em que as Redes Sociais teriam papel central (GOHN, 2009, p. 44). 25 UNIDADE Mídia e Opinião Pública Esse aspecto pode ser observado na política, em eventos como a Primavera Árabe, que foi uma onda de protestos que teve início na Tunísia, em dezembro de 2010, e se alastrou por vários países do norte da África, como a Argélia, a Líbia e o Egito, e do Oriente Médio, em que Síria, Jordânia e Omã também foram afetados por movimentos políticos. Algo em comum, em todas essas revoltas, era a mobilização da população com o uso de smartphones e das Redes Sociais (SOUZA; COSTA, 2012). Outro exemplo disso foi o ressurgimento de agrupamentos ideológicos de extrema direita na Europa e nas Américas, que tiveram ao longo das duas décadas iniciais do século XXI, vitórias eleitorais em países como Hungria, Polônia, Itália, EUA e Brasil. Grande parte desse sucesso eleitoral é consequência da capacidade dos apoiadores desses grupos de se organizarem e difundirem suas visões de mundo por meio das Redes Sociais, conseguindo mobilizar ou ao menos chamar a atenção da opinião pública (MACHADO; MISKOLCI, 2019). Nesse ambiente, a opinião pública influenciada pelas Redes Sociais seria diferente daquela influenciada no passado apenas pela TV, pelo Rádio e pelos Jornais Impressos? Alguns argumentos podem nos ajudar a responder essas perguntas. O primeiro deles tem a ver com o fato de que as Redes Sociais são interativas no sentido de que o usuário tem a possibilidade de determinar o grau de interação que terá com os seus contatos e tam- bém o tipo de informação a quer ter acesso. Por vezes, isso ocorre de modo inconsciente. Isso pode ser descrito como o filtro invisível ou o filtro bolha, tendo em vista que as plataformas digitais personalizam e direcionam o conteúdo que é apresentado ao usuário, de forma que ele enxerga apenas aquilo que lhe agrada, evitando o contato com visões contrárias ou distintas das dele (PARISER, 2011). Isso ocorre pelo fato de as Redes Sociais utilizarem algoritmos, que é um conjunto de regras que, aplicado a um conjunto de dados, permite solucionar problemas ou definir o resultado de um procedimento. Dessa maneira, as informações que circulam nas Redes Sociais têm uma contradição inerente, pois, apesar de a Rede não ter limites geográficos nem temporais, ou seja, em princípio, teria caráter universal, o gigantesco fluxo de informações e a capacidade seletiva dos usuários acabam por construir as “bolhas” informacionais em que seus membros têm visões parciais e limitadas da realidade. Além disso, um dos elementos presentes nas Redes Sociais, os memes, ainda que tenham como princípio uma função cômica e despretensiosa são meios pelos quais é possível visualizar: [...] assuntos e temáticas que agendam os debates nas ambiências digitais. Seja um impeachment presidencial, uma eleição, uma paralisação de caminhoneiros ou o clima quente, conteúdos meméticos são produzidos com fins de gerar visibilidade, viralização, polêmica e discussões nas redes. (TERRA; SOUSA, 2019) 26 27 Diante disso, a formação da opinião pública na Era das Redes Sociais apresenta aspectos complexos no sentido que as informações podem ser compartilhadas não apenas por grupos locais, mas também por pessoas em outros países. Isso não significa que essas informações têm caráter universal, pois, em grande medida, podem difundir versões e visões parciais da realidade resultando em desinformação, cujo termo mais conhecido desse fenômeno é a expressão em Língua Inglesa fakenews. Nesse contexto, a opinião pública e as formas de mobilização política estão vinculadas aos fluxos de informações que circulam nas Redes Sociais. Nesta Unidade, trabalhamos a relação entre a Mídia e a formação da opinião pública e, para isso, destrinchamos o significado do termo Mídia. Depois de elucidar o significado desse vocábulo, discutimos sua importância para a Sociedade e sua relação com a política e com o poder. No contexto do século XXI, a Mídia tem papel central na formação daquilo que entendemos como opinião pública. Essa situação torna-se ainda mais complexa com o advento das Redes Sociais que, ao mesmo tempo em que permitem um gigantesco fluxo de informações, geram, por outro lado, bolhas informacionais que compartilham visões limitadas e parciais da realidade. 27 UNIDADE Mídia e Opinião Pública Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos O papel da mídia nas sociedades democráticas Nesta entrevista para o UM BRASIL, Humberto Dantas discute com Francesc Badia i Dalmases, diretor e editor do Democracia Abierta, sobre o Poder da Imprensa no Sistema Político e os desafios de uma Mídia Global quando o assunto é Democracia. https://bityl.co/8ANg A influência da mídia no período da ditadura Neste programa, é discutido o período da ditadura militar iniciada em 1964, em que a Democracia brasileira foi interrompida por um golpe de estado que contou com o apoio quase total da Mídia. Após a derrubada do governo de João Goulart e com o estabeleci- mento da ditadura, censores passaram a controlar o que era noticiado na Imprensa e a censurar Programas de Entretenimento. https://bityl.co/8ANj A mídia é essencial para a manutenção da democracia É inegável o papel que as Mídias têm hoje na Sociedade. Seja para o bem, seja para o mal, em suas mais variadas formas – falada, escrita, televisada e até aquela feita pelos Meios Virtuais e outros Meios que sejam possíveis – inspiram discussões, ajudam a forjar ou a fortalecer um ponto de vista, informam e, muitas vezes, desinformam. https://bityl.co/8ANe Leitura A sociedade da informação em rede aos olhos de Manuel Castells Castells, neste vídeo, define a Sociedade da Informação como um período histórico carate- rizado por uma Revolução Tecnológica, movida pelas Tecnologias Digitais de Informação e de Comunicação. O seu funcionamento advém de uma estrutura social em Rede, que envolve todos os âmbitos da atividade humana. https://bityl.co/8ANn 28 29 Referências ANDRADE, C. T. S. Mito e realidade da opinião pública. Rev. Adm. Empresa., São Paulo, v. 4, n. 11, p. 107-122, jun. 1964. Disponível em: . Acesso em: 11/01/2021. BASTOS, M. T. Medium, media, mediação e midiatização: a perspectiva germânica. In: MATTOS, M. A., JANOTTI JUNIOR, J.; JACKS, N. (org.) Mediação & Midiatização [on-line]. Salvador: EDUFBA, 2012. p. 53-77. BOURDIEU, P. A opinião pública não existe. Les Temps Modernes,nº 318, Janvier, 1973. CASTELLS, M. A sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007. v. 1. CASTELLS, M. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2000. DÉBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. GOHN, M. G. Novas Teorias dos Movimentos Sociais. São Paulo: Loyola, 2009. HABERMAS, J. 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