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2018
Psicologia aPlicada à 
saúde
Prof.ª Aline Inês Hendges
Prof.ª Ana Claudia Barbaresco
Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus
Copyright © UNIASSELVI 2018
Elaboração:
Prof.ª Aline Inês Hendges
Prof.ª Ana Claudia Barbaresco
Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
 150
H495p Hendges, Aline Inês
 Psicologia aplicada a saúde / Aline Inês Hendges; Ana 
Claudia Barbaresco; Lindamir Pozzo Arbigaus. Indaial: UNIASSELVI, 
2018.
 145 p. : il.
 ISBN 978-85-515-0138-2
 
 1.Psicologia. 
 I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. 
III
aPresentação
Prezado acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de Psicologia 
Aplicada à Saúde. 
Esta disciplina está dividida em três unidades e tem como objetivo 
apresentar-lhe os conteúdos fundamentais e que servirão como suporte para 
o seu entendimento da aplicação da ciência psicológica à saúde. 
 A primeira unidade apresenta os aspectos históricos da Psicologia e 
sua construção científica. Vamos entender como tudo começou, bem como 
qual foi o caminho percorrido desde os filósofos, que desenvolveram as 
primeiras teorias, até a aquisição do status de ciência. Nesta unidade, também 
vamos descrever sobre a origem das profissões e áreas de atuação.
A segunda unidade traz o olhar psicológico sobre o desenvolvimento 
humano, desde a infância, até os aspectos importantes do desenvolvimento 
do idoso. Não podemos falar em Psicologia da Saúde sem entender como se 
dá o desenvolvimento do ser humano em todas as suas fases.
A terceira unidade apresenta o panorama da Psicologia da Saúde. 
Vamos discutir o que é saúde e abordar temas interdisciplinares para 
dialogarmos com as demais áreas do conhecimento.
Bons estudos!
Prof.ª Aline Inês Hendges
Prof.ª Ana Claudia Barbaresco
Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus
IV
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
V
VI
VII
UNIDADE 1– ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO 
CIENTÍFICA ................................................................................................................ 1
TÓPICO 1– A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS ........................................ 3
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 ASPECTOS HISTÓRICOS E DESCOBERTAS QUE REVOLUCIONARAM A HISTÓRIA 
DA HUMANIDADE ........................................................................................................................... 4
3 CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA ................................................................................................. 6
4 RACIONALISMO E EMPIRISMO ................................................................................................... 9
4.1 RADICALISMO VERSUS EMPIRISMO ....................................................................................... 10
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 12
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 13
TÓPICO 2 – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA ............................................................................... 15
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 15
2 A PSICOLOGIA CIENTÍFICA DE WUNDT E A SUBJETIVIDADE HUMANA ................... 16
3 O ESTRUTURALISMO E O MÉTODO INTROSPECTIVO ........................................................ 18
3.1 O MÉTODO DA INTROSPECÇÃO .............................................................................................. 19
4 FUNCIONALISMO/PRAGMATISMO ............................................................................................ 21
5 ASSOCIACIONISMO ......................................................................................................................... 22
6 PSICANÁLISE ....................................................................................................................................... 23
7 BEHAVIORISMO ................................................................................................................................. 24
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 27
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 28
TÓPICO 3 – ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO ............................................................. 29
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 29
2 O QUE É PROFISSÃO? ....................................................................................................................... 29
3 HISTÓRIA DAS PROFISSÕES ......................................................................................................... 30
4 TRABALHO OU PROFISSÃO? ......................................................................................................... 32
5 CONTEXTO DE TRABALHO ............................................................................................................ 33
6 CADASTRO BRASILEIRO DE OCUPAÇÕES ............................................................................... 36
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 37
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 38
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 39
UNIDADE 2 – PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO ........................................... 41
TÓPICO 1– DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA 
SAÚDE ................................................................................................................................ 43
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................de estudo específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicos, 
conclusões passíveis de verificação e processo cumulativo de conhecimento. 
Já o conhecimento produzido no senso comum é passado de geração para 
geração, sem passar por análises e pesquisas que comprovem sua eficácia. 
Pode ser entendido como o conhecimento da vida cotidiana. 
 
• As principais teorias que embasaram os primórdios da Psicologia científica e que 
evoluíram para as escolas de pensamento que os psicólogos utilizam atualmente 
para embasar a sua prática profissional. São elas: o estruturalismo de Wundt e 
Tichener, que aperfeiçoaram o método introspectivo. O funcionalismo de William 
James, que se interessou em responder “o que os homens fazem” e “por que o 
fazem”. O associacionismo de Ebbinghaus e Thorndike, que apresentaram uma 
teoria voltada a explicar como as pessoas aprendem. A Psicanálise de Freud e 
sua teoria da “cura pela palavra”, e o behaviorismo de Watson, Pavlov e Skinner, 
com seus experimentos que descreveram as primeiras tentativas de descrição, 
controle e modificação do comportamento. 
No tópico que segue vamos entender como os psicólogos utilizam as referidas 
teorias no seu fazer profissional, bem como conhecer o campo de atuação desse profissional. 
Como você já pode imaginar, um objeto de estudo como a subjetividade humana compôs 
um campo de atuação profissional extremamente amplo e que vamos explorar assim que 
você concluir a autoatividade.
ESTUDOS FU
TUROS
28
1 Explique qual é a diferença entre conhecimento do senso comum e 
conhecimento científico e cite algumas características de cada um.
2 Qual foi o acontecimento que marcou o início da Psicologia científica e quem 
foi o responsável por ele?
3 Nomes como Wundt, Titchener, James, Ebbinghaus, Thorndike, Freud, 
Pavlov, Watson e Skinner foram fundamentais para a consolidação da 
Psicologia como ciência. Descreva quais foram as contribuições de cada um 
dos referidos teóricos para a ciência psicológica.
AUTOATIVIDADE
29
TÓPICO 3
ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
A Psicologia e as ciências psicológicas trouxeram contribuições para a 
sociedade e sua formação sobre a compreensão do comportamento humano. 
Os conhecimentos produzidos por essa ciência têm sido utilizados por diversas 
outras ciências, assim como por muitas profissões, visando contribuir para a 
melhoria de suas práticas profissionais.
 Informação e conhecimento sempre estiveram, ao longo da história, 
relacionados ao processo de desenvolvimento humano. Quando se trata do campo 
profissional, cada profissão segue um código de conduta e uma ética profissional, 
o que estabelece respeito à sociedade, melhoria das relações interpessoais de 
trabalho e harmonia entre as mais diversas profissões.
2 O QUE É PROFISSÃO?
O termo profissão é originário da palavra latina profesione e está 
relacionado ao ato ou efeito de professar. Objetiva dar um sentido de confissão 
pública de uma crença, sentimento, opinião ou modo de ser, conduzindo a 
concepção de uma atividade ou ocupação especializada, que requer preparo e 
formação (TARGINO, 2000). 
Neste sentido, o profissional apresenta-se à sociedade como portador de um 
conhecimento específico, capaz de realizar uma tarefa. Em troca da realização desse 
trabalho e da garantia de eficiência, a sociedade dá credibilidade ao profissional.
Perceba que todas as disciplinas da grade curricular que são cursadas 
dentro de um curso são fundamentadas para essa preparação profissional, que 
será exigida quando você se tornar um profissional e precisar tomar decisões, 
orientar e fazer planejamento dentro de sua área de formação.
30
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
FIGURA 4 – FORMAÇÃO PROFISSIONAL
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018.
3 HISTÓRIA DAS PROFISSÕES
A Idade Média ficou caracterizada pela economia ruralizada, 
enfraquecimento comercial e sistema de produção feudal em que as relações de 
trabalho eram baseadas no trabalho servil. Esta situação tornou-se cada vez mais 
insustentável, pois era através de lutas que os servos procuravam se tornar livres 
para procurar o melhor meio de sustento.
FIGURA 5 – SISTEMA DE PRODUÇÃO FEUDAL
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018.
TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
31
A partir daí formam-se, em determinados pontos, pequenas unidades 
artesanais, constituindo cidades, valorizando-se, novamente, o comércio que 
começou a crescer e expandir. Naquele período já existiam as profissões de 
sapateiro, artesões, alfaiates e comerciantes em pequenos mercados.
Com a Revolução Industrial o sistema capitalista se fortificou e as 
relações de trabalho começaram a se modificar por completo. Houve o aumento 
significativo da produção de materiais e do rendimento do trabalho, sendo este 
sistema o que impera na maioria dos países até hoje.
Assim, houve a evolução das profissões, surgindo novas técnicas e 
novos campos de trabalho, fazendo surgir a necessidade de regulamentação das 
atividades de cada profissional, implicando na reserva de mercado ou direito 
exclusivo de propriedade sobre campos de prática, concedido pelo Estado 
(GIRARDI; FERNANDES JR.; CARVALHO, 2010).
As necessidades e sentidos de trabalho se alteram por condições do mundo 
contemporâneo. Questões como globalização, avanço das tecnologias, da flexibilização 
nas formas e relações de trabalho trazem o desaparecimento do chamado “pleno 
emprego”, e sim, a necessidade de melhor formação para conquistar o emprego 
ideal, ou seja, existe a necessidade da busca por diplomas (seja este de cursos de 
graduação, pós-graduação, técnico ou de aperfeiçoamento) para a conquista de um 
emprego melhor e com salário mais vantajoso (CASTEL, 2005). 
As instituições de ensino desenvolvem cursos e se adaptam às exigências 
do mercado para atender à demanda crescente de qualificação da população, o que 
permite o acesso a cursos técnicos, de graduação e pós-graduação, favorecendo 
quem tem necessidade e vontade de estudar e adquirir conhecimento.
FIGURA 6 – AS MAIS DIVERSAS PROFISSÕES E FORMAS DE TRABALHO
 FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018.
32
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
4 TRABALHO OU PROFISSÃO?
Ocorreram transformações importantes ao longo da história do trabalho 
humano, desde o trabalho escravo até o conceito de trabalhador "livre", sujeito na 
propriedade privada.
Na antiguidade Grega, todo o trabalho manual é desvalorizado por ser 
feito por escravos, enquanto a atividade teórica era considerada uma tarefa mais 
digna do homem. 
Platão defendia a ideia de que a finalidade do homem livre era a contemplação 
das ideias. Em Roma, chamada de Roma escravagista, o trabalho também era 
desvalorizado. Na Idade Média, Santo Tomás de Aquino procurava reabilitar o 
trabalho manual, dizendo que todos os trabalhos se equivaliam e eram dignos, mas 
em suas escritas haviam controvérsias quanto a esta teoria defendida por ele.
Muitos textos medievais consideram a ars mechanica (arte mecânica) 
uma arte inferior. Na Idade Moderna, a partir do século XV, a situação começa 
a se alterar: o crescente interesse pelas artes mecânicas e pelo trabalho em geral 
justifica-se pela ascensão dos burgueses, vindos de segmentos dos antigos servos 
que compravam sua liberdade e dedicavam-se ao comércio, e que, portanto, 
tinham outra concepção a respeito do trabalho (ARANHA; MARTINS, 1993). 
A burguesia nascente da época procurava novos mercados e queria a 
qualquer preço estimular as navegações, surgindo novos empreendimentos 
marítimos e possibilidades que culminam com a descoberta do novo caminho 
para as Índias e das terras doNovo Mundo. Todo trabalho realizado pelos 
trabalhadores da época era desenvolvido pela necessidade de aperfeiçoamento, 
para melhorar a capacidade de sobrevivência das pessoas, e foi importante para a 
formação das profissões que existem até hoje.
A preocupação de dominar o tempo e o espaço faz com que sejam 
aprimorados os relógios e a bússola, através de muito trabalho físico e mental. 
FIGURA 7 – PROFISSÃO NO MUNDO ATUAL
FONTE: Disponível em: . Acesso 
em: 15 jan. 2018.
TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
33
Veja quantas invenções aconteceram nessa época, através de muito trabalho:
• Pascal inventa a primeira máquina de calcular. 
• Torricelli constrói o barômetro.
• Surge o tear mecânico. 
• Com o aperfeiçoamento da tinta e do papel Gutenberg inventa a imprensa.
• Galileu, ao valorizar a técnica, inaugura o método das ciências da natureza, 
fazendo nascer duas novas ciências, a física e a astronomia. 
• A máquina exerce tal influência sobre a mentalidade do homem moderno que 
Descartes explica o comportamento dos animais como se fossem máquinas, 
e vale-se do mecanismo do relógio para explicar o modelo característico do 
universo (ARANHA; MARTINS, 1993).
Veja quanto trabalho foi necessário para construir todas as máquinas e técnicas 
descritas acima! Para que você entenda melhor, a primeira máquina de calcular era uma 
grande caixa cheia de engrenagens apoiada em uma mesa. Fazia apenas as operações 
de adição e subtração. Seu inventor tinha apenas 19 anos de idade.
FIGURA 8 – A MÁQUINA DE PASCAL
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018.
5 CONTEXTO DE TRABALHO
Nos referimos ao trabalho de diversas formas, como uma atividade, 
uma tarefa, um ambiente, ou contexto físico, como uma técnica ou método de 
produção, sobretudo, existe um contexto subjetivo sobre trabalho:
• Tenho que trabalhar – define trabalho como compromisso.
• É bom trabalhar – define trabalho como uma crença.
• Fiz um bom trabalho – define como um resultado. 
• O trabalho é o mais importante em minha vida – define como um valor.
• É hora de trabalhar – como uma estruturação temporal.
34
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
FIGURA 9 – TRABALHO FÍSICO OU MENTAL?
FONTE: Disponível em: http://metaconsult.blogspot.com/2012/
06/o-homem-no-contexto-do-trabalho_11.html . Acesso em: 15 
jan. 2018.
Dependendo do contexto, considera-se como trabalhador ou trabalhadora 
toda pessoa que o faz, especificamente como alguém assalariado. Por outro lado, 
trabalhar é agir sobre a natureza, sobre a realidade, transformando-a em função 
dos objetivos e necessidades humanas. "A sociedade se estrutura em função da 
maneira pela qual se organiza o processo de produção da existência humana, o 
processo de trabalho" (SAVIANI, 1986, p. 14).
FIGURA 10 – TODO TRABALHO É DIGNO
FONTE: Disponível em: https://s04.video.glbimg.com/x720/6086923.jpg . 
Acesso em: 15 jan. 2018.
Para a aquisição de um trabalho menos braçal, que não haja esforço físico 
extenuante, mais dinâmico e com possibilidade de melhores rendimentos, sabemos 
que a educação é a base para esta conquista. O conhecimento gera conhecimento e 
leva ao melhor uso do pensamento e das capacidades de raciocínio, o que permite o 
desenvolvimento mental e consequentemente a valorização por parte da sociedade.
TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
35
FIGURA 11 – TRABALHO MENTAL EXTENUANTE
FONTE: Disponível em: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-
midias/graeber-assim-multiplicam-se-os-trabalhos-estupidos/ . Acesso em: 15 jan. 
2018.
Sabemos que um curso superior já não garante uma carreira prestigiosa, 
bem remunerada e segura, mas, atualmente, não possuir diploma 
traz consequências ainda mais negativas aos jovens. A formação 
superior desempenha seu papel como uma entidade de qualificação e 
abre portas para a aquisição de conhecimento e capacidade de busca 
pelos projetos próprios de cada estudante, facilitando suas escolhas 
e permitindo novas conquistas (NUNES; CARVALHO, 2007, p. 200).
Algumas características são específicas do trabalho em áreas de saúde e 
bem-estar, exigindo que os profissionais sejam capazes de planejar, organizar, 
desenvolver e avaliar ações que respondam às necessidades de indivíduos e 
comunidades, na articulação com os diversos setores envolvidos na promoção da 
saúde e do bem-estar. Os aspectos relacionados ao indivíduo e à formação dos 
trabalhadores que atuam no setor saúde podem influenciar tanto na escolha da 
profissão e de área de atuação, quanto no trato com questões inerentes à execução 
do trabalho dentro de cada profissão (COTTA, 2006).
FIGURA 12 – TRABALHO NA ÁREA DE SAÚDE E BEM-ESTAR
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 
2018.
36
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
6 CADASTRO BRASILEIRO DE OCUPAÇÕES
No Brasil, as ocupações profissionais são descritas pelo Cadastro 
Brasileiro de Ocupações (CBO) desde 1984, considerado também como uma ação 
estratégica para subsidiar as políticas de geração de emprego e a elaboração de 
classificações de ocupações profissionais, favorecendo um maior rigor analítico 
das novas tendências do mercado de trabalho.
Cada profissão possui um Conselho Federal e um Conselho Regional 
estabelecido por lei, que desenvolve as normas e técnicas de cada profissão, 
estabelece limites profissionais, fiscaliza o cumprimento do código de ética e 
conduta profissional dentro do país. Por exemplo, a profissão de Educação física 
possui o Conselho Regional de Educação Física (CREF), o qual, após a conclusão 
do curso de educação física, lhe dará um registro cadastral para exercer a profissão. 
Você também pode obter informações e solicitar fiscalização de profissionais 
através deste conselho.
Cada profissional deve seguir três níveis de responsabilidade do 
profissional:
1. Trata da aceitação ou recusa do papel profissional, o que implica em avaliar se 
o mesmo está alinhado aos seus valores. 
2. Compromisso com a excelência que se espera do papel profissional. 
3. Responsabilidade em contribuir para o bem comum da sociedade, para 
melhorar as condições da vida humana individual e social (TARGINO, 2000).
TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
37
LEITURA COMPLEMENTAR
CBO - Classificação Brasileira de Ocupações
 
 
 Por meio desta publicação o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE – 
disponibiliza à sociedade a nova Classificação Brasileira de Ocupações – CBO –, 
que vem substituir a anterior, publicada em 1994.
Desde a sua primeira edição, em 1982, a CBO sofreu alterações pontuais, 
sem modificações estruturais e metodológicas. A edição 2002 utiliza uma nova 
metodologia de classificação e faz a revisão e atualização completa de seu 
conteúdo.
A CBO é o documento que reconhece, nomeia e codifica os títulos e 
descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro. 
Sua atualização e modernização se devem às profundas mudanças ocorridas 
no cenário cultural, econômico e social do país nos últimos anos, implicando 
alterações estruturais no mercado de trabalho.
A nova versão contém as ocupações do mercado brasileiro, organizadas e 
descritas por famílias. Cada família constitui um conjunto de ocupações similares 
correspondente a um domínio de trabalho mais amplo que aquele da ocupação.
O banco de dados do novo documento está à disposição da população 
também em CD e para consulta pela internet.
Uma das grandes novidades deste documento é o método utilizado no 
processo de descrição, que pressupõe o desenvolvimento do trabalho por meio de 
comitês de profissionais que atuam nas famílias, partindo-se da premissa de que 
a melhor descrição é aquela feita por quem exerce efetivamente cada ocupação.
FONTE: Disponível em:. 
Acesso em: 15 jan. 2018.
38
RESUMO DO TÓPICO 3
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Dentre as áreas do conhecimento e atuação profissional, cada indivíduo 
apresenta-se à sociedade como portador de um conhecimento específico, capaz 
de realizar uma tarefa. Em troca da realização desse trabalho e da garantia de 
eficiência, a sociedade dá credibilidade ao profissional.
• O processo de formação das profissões e do trabalho percorreram um longo 
caminho até se tornarem definidas e com conselhos próprios, que regem e 
fiscalizam suas práticas profissionais, e sempre têm questões a melhorar e 
aperfeiçoar.
• Os cursos de graduação, técnicos, aperfeiçoamento ou pós-graduação permitem 
a quem estuda uma perspectiva de ganho de conhecimento e a conquista de 
reconhecimento da sociedade.
• Os profissionais que desenvolvem um trabalho dentro das ciências da saúde 
têm a responsabilidade de atuar no sentido de analisar, planejar e orientar o 
seu cliente.
• Os profissionais que atuam com pessoas devem estar preparados e munidos 
de conhecimento necessário para que não ocorram erros de conduta ou falta de 
ética profissional.
39
1 Escreva uma redação que contemple as principais teorias que fundamentaram 
o estudo das ciências da saúde.
2 Você acredita que todo trabalho é digno? Justifique.
3 Baseado neste tópico de estudos, justifique porque um curso de graduação 
favorece uma pessoa e lhe dá perspectivas de melhorar seus rendimentos 
financeiros.
AUTOATIVIDADE
40
41
UNIDADE 2
PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO 
HUMANO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Ao final desta unidade você será capaz de:
• conhecer todo o processo de desenvolvimento humano: nascimento, 
 infância, adolescência, vida adulta e envelhecimento;
• analisar como se dá a aplicação dos conhecimentos da Psicologia do Dese-
volvimento no exercício profissional do psicólogo;
• compreender as contribuições da Psicologia do Desenvolvimento para a 
Psicologia, bem como outras áreas do conhecimento; 
• compreender as mudanças e seus efeitos no desenvolvimento do adoles-
cente;
• conhecer os aspectos fundamentais do envelhecimento saudável; 
• desenvolver um olhar interdisciplinar sobre o envelhecer.
Esta unidade de ensino contém três tópicos. No final de cada um deles você 
encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.
TÓPICO 1 – DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PRO-
FISSIONAIS DA SAÚDE
TÓPICO 2 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE
TÓPICO 3 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
42
43
TÓPICO 1
DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS 
PROFISSIONAIS DA SAÚDE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
A Psicologia do Desenvolvimento, de um modo geral, se dedica ao 
estudo das mudanças que ocorrem no ciclo de vida de uma pessoa, desde o seu 
nascimento até o fim da vida. Já estudamos várias teorias e áreas da Psicologia, 
na unidade de ensino anterior, que se ocupam com o estudo de diferentes 
fenômenos, porém, todas elas se beneficiam dos conhecimentos produzidos pela 
Psicologia do Desenvolvimento. 
Embora alguns filósofos da Grécia antiga concebessem mente e corpo 
separadamente, atualmente a Psicologia tem seu olhar voltado para o ser humano 
como um todo, ou seja, mente e corpo são interligados. Assim, precisamos 
entender essa complexa relação. 
A área do conhecimento que vamos estudar agora nos ajuda a entender 
exatamente o que acontece em cada fase do nosso desenvolvimento. Todas as 
áreas da saúde também precisam desses saberes para que possam executar 
seu trabalho com eficácia. Imagine como um profissional poderia avaliar se o 
desenvolvimento de uma criança está ocorrendo dentro do esperado sem os 
conhecimentos acerca de todo o processo de desenvolvimento, seja ele motor, 
cognitivo ou emocional. O mesmo princípio aplica-se ao educador físico e ao 
fisioterapeuta, por exemplo, assim como outros profissionais que trabalham 
diretamente com a saúde das pessoas.
O estudo do desenvolvimento humano nos ajuda a entender o porquê de 
nossos comportamentos em cada fase da vida. Quem nos apresentou esse modelo 
de entendimento do desenvolvimento humano dividido em estágios foi o biólogo 
suíço Jean Piaget (1896-1980). Sua obra tornou-se referência não somente para a 
Psicologia, mas para outras ciências da saúde e da educação. 
Vamos estudar o desenvolvimento humano a partir do desenvolvimento 
pré-natal e nascimento, passando por todo o processo de mudança do recém-
nascido até o primeiro ano de vida, seguindo para o entendimento do processo 
de desenvolvimento da infância, chegando à adolescência. No desenvolvimento 
da adolescência, vamos estudar como as mudanças físicas e psicológicas afetam o 
adolescente e, ainda, como se dá a transição para a idade adulta. Por fim, vamos 
nos dedicar ao entendimento do processo de desenvolvimento inerente ao idoso. 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
44
2 OS PRIMÓRDIOS DO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO 
HUMANO
Atualmente, sabemos a importância de conhecer o processo de 
desenvolvimento humano, mas você sabia que os primeiros saberes acerca de 
como ocorre o desenvolvimento surgiram antes mesmo do advento da psicologia 
científica? No item a seguir veremos como tudo aconteceu.
2.1 PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES
Embora muitos eventos pudessem ser identificados como o ponto de 
partida do estudo do desenvolvimento da criança, nossa história começa certa 
manhã, na França, no inverno de 1800, quando um menino nu e sujo entrou em 
uma aldeia na província de Aveyron, procurando por comida. Há alguns meses, 
algumas pessoas do local já haviam percebido o menino enquanto ele escavava 
procurando raízes, subia em árvores e corria sobre os quatro membros. Diziam 
que ele era um animal selvagem. A notícia espalhou-se rapidamente enquanto 
o menino apareceu na aldeia e todos foram vê-lo.
Entre os curiosos estava um funcionário do governo, que levou o menino 
para casa e o alimentou. A criança, que parecia ter em torno de 12 anos de 
idade, parecia ignorar os costumes e os confortos da civilização. Quando lhe 
puseram roupas, ele as rasgou. Recusava-se a comer qualquer coisa que não 
fossem batatas cruas, raízes e nozes. Urinava e defecava quando e onde surgisse 
a necessidade. Os únicos sons que produzia eram gritos sem significado, e ele 
parecia indiferente às vozes humanas. Em seu relatório, o oficial responsável por 
ele concluiu que o menino havia vivido sozinho desde o início de sua infância: 
“um estranho às necessidades e práticas sociais... Há algo extraordinário em seu 
comportamento, que o faz parecer próximo à condição dos animais selvagens” 
(LANE, 1976, p. 8-9).
Quando o relatório do funcionário chegou a Paris, causou sensação. 
As pessoas ficaram fascinadas pela história bizarra da criança que os jornais 
aclamavam como o “Menino selvagem de Aveyron”. Os estudiosos esperavam 
que, estudando a maneira como essa criatura não civilizada mudou quando 
passou a participar da sociedade, pudessem resolver questões há muito tempo 
sem respostas sobre a natureza e o desenvolvimento dos seres humanos – 
perguntas como, por exemplo: como nos diferimos dos outros animais? O 
que aconteceria se crescêssemos totalmente isolados da sociedade humana? 
Até que ponto somos produtos da nossa criação e experiência, e até que ponto 
nosso caráter é uma expressão de traços inatos?
No entanto, os planos para estudar o menino selvagem quase 
malograram. Os primeiros médicos a examiná-lo diagnosticaram-no como 
mentalmente deficiente e especularam que, por isso, seus pais o haviam 
TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
45
abandonado para morrer. Recomendaram que ele fosse colocado num 
hospício. E, inicialmente, foi lá colocado, até que Jean-Marc Itard (1744-1838), 
um jovem médico, discutiu o diagnóstico de retardo. Itard argumentava que 
o menino só parecia ser deficiente porque havia sido isolado da sociedade e, 
por isso,impedindo de se desenvolver normalmente. Na França do final do 
século XVIII, pelo menos uma em cada três crianças normais era abandonada 
por seus pais, em geral porque a família era pobre demais para sustentar mais 
uma criança (KESSEN, 1965). Itard acreditava que o menino fosse uma dessas 
crianças. O fato de ele ter sido capaz de sobreviver sozinho nas florestas de 
Aveyron argumentava contra a suposição de ele ser mentalmente deficiente.
Itard assumiu pessoalmente o encargo de cuidar do menino. Achou 
que podia ensiná-lo a se tornar um francês totalmente competente, com o 
domínio da língua francesa e o melhor conhecimento civilizado. A França 
havia recentemente derrubado a monarquia e abraçado as ideias políticas de 
liberdade, igualdade e fraternidade. Itard e outros defensores da república 
queriam mostrar que era possível melhorar o desenvolvimento dos filhos dos 
camponeses, educando-os. Para testar sua teoria de que o ambiente social é 
o responsável pelo desenvolvimento das crianças, Itard criou um conjunto 
elaborado de procedimentos experimentais de treinamento para ensinar o 
Menino Selvagem a categorizar objetos, raciocinar e se comunicar (ITARD, 
1801/1982).
No início, Victor, como Itard chamou o Menino Selvagem, fez um 
progresso rápido. Ele aprendeu a comunicar necessidades simples, assim 
como a reconhecer e a escrever algumas palavras. Aprendeu a usar um urinol. 
Também desenvolveu afeição pelas pessoas que cuidavam dele. Mas Victor 
jamais aprendeu a falar e a interagir normalmente com as outras pessoas. 
Após cinco anos de trabalho intenso, Itard abandonou sua experiência. 
Victor não havia feito progresso suficiente para satisfazer os superiores de Itard, 
e o próprio Itard estava em dúvida se o menino poderia fazer mais progressos. 
Victor foi mantido sob os cuidados de uma mulher que era paga para cuidar 
dele. Morreu em 1828, ainda chamado de o Menino Selvagem de Aveyron. Suas 
experiências incomuns na vida deixaram sem resposta importantes questões 
sobre a natureza humana, sobre a influência da sociedade civilizada e sobre o 
grau em que os indivíduos são moldados por uma ou outra dessas forças, que 
os estudiosos esperavam que fossem respondidas pela sua descoberta.
A maior parte dos médicos e estudiosos da época finalmente concluíram 
que Victor, realmente, havia nascido com uma deficiência mental. Mas ainda hoje 
há dúvidas quanto a isso. Alguns estudiosos modernos acham que Itard podia 
estar certo em sua pressuposição de que Victor era normal quando nasceu, mas 
que foi retardado em seu desenvolvimento como resultado de seu isolamento 
social (LANE, 1976). Quando foi encontrado, Victor já havia passado muitos de 
seus anos de formação sozinho. Ele já ultrapassara a idade que atualmente se 
considera ser o limite máximo para a aquisição formal da linguagem. Outros 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
46
acreditam que Victor sofria de autismo, uma condição mental patológica cujos 
sintomas incluem um déficit de linguagem e uma incapacidade para interagir 
normalmente com outras pessoas (FRITH, 1989). Também é possível que os 
métodos de ensino utilizados por Itard tenham falhado e que abordagens 
diferentes pudessem ter tido sucesso, não podemos ter certeza. 
As tentativas de Itard para educar Victor marcam o ponto de partida 
da Psicologia do Desenvolvimento, porque Itard estava entre os primeiros 
estudiosos a ir além da especulação e a conduzir experiências para testar suas 
ideias. 
FONTE: COLE, Michael; COLE, Sheila. O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto 
Alegre: Artmed, 2003, p. 24-25).
FIGURA 13 – VICTOR E ITARD 
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 24)
Os experimentos de Itard com Victor despertaram o interesse de outros 
pesquisadores, que se dedicaram a aprofundar suas pesquisas e desenvolver uma 
teoria sólida, capaz de explicar o desenvolvimento como o conhecemos hoje. 
3 DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA PSICOLÓGICA 
Na introdução dessa unidade falamos em desenvolvimento humano 
como um processo. Isto porque podemos compará-lo com uma linha contínua que 
precisamos percorrer ou, ainda, com uma escada, em que cada degrau significa 
uma evolução no processo de desenvolvimento.
TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
47
IMPORTANTE
Segundo a definição de Bock, Furtado e Teixeira (2008), o desenvolvimento 
é um processo contínuo e ininterrupto, em que os aspectos biológicos, físicos, sociais e 
culturais são interconectados, influenciando-se de maneira recíproca e produzindo 
indivíduos com um modo de pensar, sentir e estar no mundo absolutamente únicos
O estudo do desenvolvimento humano compreende toda a parte 
biológica e fisiológica, bem como aspectos psicológicos, emocionais e afetivos. O 
processo de desenvolvimento não se refere somente à maturação biológica ou o 
refinamento de nossas capacidades motoras, mas também à nossa evolução e ao 
nosso amadurecimento psicológico e emocional. Cada fase do desenvolvimento 
tem a sua importância e traz consigo novos desafios, exigindo a criação de novas 
habilidades e aprimoramento das adquiridas anteriormente. 
Nosso desenvolvimento é influenciado por diversos fatores. São eles:
Hereditariedade – a carga genética estabelece o potencial do indivíduo, 
que pode ou não se desenvolver. Existem pesquisas que comprovam 
os aspectos genéticos da inteligência. No entanto, a inteligência pode 
desenvolver-se aquém ou além de seu potencial, dependendo das 
condições do meio. 
Crescimento orgânico – refere-se ao aspecto físico. O aumento de altura 
e estabilização do esqueleto permite ao indivíduo comportamentos e 
um domínio do mundo que antes não existiam. Pense na possibilidade 
de descobertas de uma criança, quando começa a engatinhar e depois 
a andar, em relação a quando estava no berço com alguns dias de vida.
Maturação neurofisiológica – é o que torna possível determinado 
padrão de comportamento. A alfabetização das crianças, por exemplo, 
depende dessa maturação. Para segurar o lápis e manejá-lo, é 
necessário um desenvolvimento neurológico que uma criança entre 
dois e três anos não tem. 
Meio – o conjunto de influências e estimulações ambientais altera 
os padrões de comportamento do indivíduo. Por exemplo, se a 
estimulação verbal for muito intensa, uma criança de três anos pode 
ter um repertório verbal muito maior do que a média das crianças de 
sua idade, mas, ao mesmo tempo, pode não subir e descer uma escada 
com facilidade se essa situação não fez parte da sua experiência de 
vida (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 118).
Não são poucas as condições que interferem no desenvolvimento. Além 
de considerar os fatores já mencionados, precisamos entender o desenvolvimento 
como um todo, e isso implica olhar para quatro aspectos básicos: 
Aspecto físico-motor – refere-se ao crescimento orgânico, à maturação 
neurofisiológica, à capacidade de manipulação de objetos e de 
exercício do próprio corpo. Exemplo: uma criança leva a chupeta à 
boca ou consegue tomar uma mamadeira sozinha por volta dos sete 
meses, porque já coordena os movimentos das mãos. 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
48
Aspecto intelectual – é a capacidade de pensamento, raciocínio. Por 
exemplo, uma criança de dois anos de idade que usa um cabo de 
vassoura para puxar um brinquedo que está embaixo de um móvel ou 
um jovem que planeja seus gastos a partir de sua mesada ou salário. 
Aspecto afetivo-emocional – é o modo particular de o indivíduo 
integrar as suas experiências. É o sentir. A sexualidade faz parte desse 
aspecto. Exemplos: a vergonha que sentimos em algumas situações, o 
medo em outras, a alegria de rever um amigo querido.
Aspecto social – é a maneira como o indivíduo reage diante das 
situações que envolvem outras pessoas. Por exemplo, um grupo 
de crianças, no parque, é possível observar que algumas buscam 
espontaneamente outras para brincar, enquanto algumas permanecem 
sozinhas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 119).
Reparequanta coisa já aprendemos ao longo de nossa vida. Você já parou 
para pensar na quantidade de coisas que sabe e executa facilmente hoje? Coisas 
muito simples, como falar, andar, dominar o próprio corpo, por exemplo. Esses 
processos que executamos de forma automática atualmente exigiram de nós níveis 
complexos de habilidade nas primeiras fases do nosso desenvolvimento. Tudo o que 
fazemos hoje foi aprendido, repetido e aperfeiçoado em algum momento da nossa 
vida. Vamos nos voltar ao entendimento desses processos de desenvolvimento a 
partir de agora. Para isso, vamos adentrar a obra do biólogo suíço Jean Piaget, teórico 
responsável pela teoria construtivista, que se dedicou a estudar o desenvolvimento 
humano postulando que ele acontece em estágios, em que cada fase corresponde a 
determinadas ações que precisamos ser capazes de executar. 
4 AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOTSKY PARA O 
ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
Não podemos falar de Psicologia do Desenvolvimento sem citar a notável 
obra de Jean Piaget. Os estudos realizados por ele com crianças desde o nascimento 
até a adolescência resultaram no entendimento de que nos desenvolvemos a partir 
das interações que realizamos com o meio em que vivemos e, ainda, que nossa 
evolução ocorre por meio de estágios, em que cada um corresponde a capacidades 
e habilidades específicas. O referido teórico dividiu o desenvolvimento humano 
em quatro estágios: sensório-motor (0 a 2 anos), pré-operatório (2 a 7 anos), 
operatório concreto (7 a 12 anos) e operatório formal (12 anos em diante). 
Embora o desenvolvimento seja contínuo, é claro que ele não ocorre 
exatamente do mesmo jeito para todas as pessoas, pois, como já estudamos, cada 
um de nós é um ser único e tem características próprias, que nos diferenciam. 
Portanto, a faixa etária para os estágios de desenvolvimento propostos por Piaget 
são referências, e podem variar dependendo das características pessoais e do 
ambiente em que a pessoa vive. Sabe-se que cada estímulo que a criança recebe 
contribui de alguma maneira para o seu desenvolvimento. 
De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), cada período descrito 
por Piaget é caracterizado por aquilo que o indivíduo consegue fazer de melhor 
nessas faixas etárias. Todos passam por essas fases e períodos nessa sequência, 
TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
49
porém, o início e o término de cada uma delas dependem das características 
biológicas do indivíduo e também de fatores educacionais e sociais. O Quadro 2 
nos ajuda a entender o que se espera, em termos de desenvolvimento, em cada 
estágio proposto por Piaget nas faixas etárias propostas.
QUADRO 2 - ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO PROPOSTOS POR PIAGET
Estágio Idade aproximada Principais características e habilidades
Sensório-motor 0 a 2 anos
Reflexos, como a sucção. Coordenação dos 
movimentos das mãos e dos olhos para pegar 
objetos. Desenvolvimento físico acelerado. 
Aparecimento de novas habilidades, como 
sentar e andar. Diferenciação progressiva 
entre o eu da criança e o mundo exterior 
(por exemplo, permanência do objeto, ou 
seja, saber que o objeto continua existindo 
mesmo que ela não o veja). Manifestação de 
preferências por brinquedos, objetos, pessoas, 
etc. Evolução de uma atitude passiva com 
relação ao ambiente e às pessoas para uma 
atitude ativa e participativa. Compreensão 
de algumas palavras. Fala imitativa. 
Pré-operatório 2 a 7 anos
Aparecimento da linguagem.
Modificações nos aspectos intelectual, afetivo 
e social da criança. Maior interação com o 
ambiente e comunicação com as pessoas 
que o cercam. Capacidade de antecipar o 
que fazer. Aceleração do desenvolvimento 
do pensamento. Passa a procurar a razão 
causal e finalista de tudo (é a fase dos 
“porquês”). Pensamento mais adaptado ao 
outro e ao real. Dificuldades de reconhecer 
a ordem em que mais de dois ou três eventos 
ocorrem e não possui o conceito de número. 
Egocentrismo. Não consegue se colocar sob 
o ponto de vista do outro, o que impossibilita 
o trabalho em grupo. Seu interesse pelas 
diferentes atividades e objetos se multiplica, 
diferencia e regulariza, isto é, torna-se estável. 
Maturação neurofisiológica completa. 
Desenvolvimento de novas habilidades, como 
a coordenação motora fina (pegar pequenos 
objetos com as pontas dos dedos, segurar o 
lápis corretamente, efetuar a escrita). 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
50
Operatório 
concreto
7 a 12 anos
Superação do egocentrismo. Início da 
c o n s t r u ç ã o l ó g i c a ( c a p a c i d a d e d e 
estabelecer relações que permitam a 
coordenação de pontos de vista diferentes). 
Capacidade de cooperar com os outros, de 
trabalhar em grupo e, ao mesmo tempo, 
ter autonomia pessoal. Surgimento da 
capacidade mental das operações (consegue 
realizar uma ação física ou mental dirigida 
para um fim – objetivo – e revertê-la para 
o seu início). Capacidade de pensar antes 
de agir, considerar vários pontos de vista 
simultaneamente, recuperar o passado e 
antecipar o futuro. No nível de pensamento, 
consegue: estabelecer corretamente as 
relações de causa e efeito e de meio e fim, 
sequenciar ideias ou eventos, formar o 
conceito de número. Aquisição de novos 
sentimentos morais, como: respeito mútuo, 
honestidade, o companheirismo e a justiça que 
considera a intenção na ação. O sentimento de 
pertencer ao grupo de colegas torna-se cada 
vez mais forte.
Operatório formal 12 anos em diante
Passagem do pensamento concreto para o 
pensamento formal, abstrato, que significa 
a realização das operações no plano das 
ideias, sem necessitar de manipulação 
ou referências concretas. Capacidade 
de lidar com conceitos como liberdade, 
justiça, etc. Domina, progressivamente, a 
capacidade de abstrair e generalizar; cria 
teorias sobre o mundo, principalmente sobre 
aspectos que gostaria de modificar. Fase de 
interiorização (aparentemente antissocial). 
Vive conflitos. Deseja libertar-se do adulto, 
mas ainda é dependente dele. Deseja 
ser aceito pelos amigos e pelos adultos. 
Tem o grupo de amigos como um importante 
referencial, determinando o vocabulário, 
as vestimentas e outros aspectos de seu 
comportamento. Interesses diversos e 
mutáveis, sendo que a estabilidade chega 
com a proximidade da vida adulta. 
FONTE: Adaptado de Bock, Furtado e Teixeira, 2008.
TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
51
Bock, Furtado e Teixeira (2008) apontam ainda que, na idade adulta, 
não ocorrerão mais mudanças na estrutura mental do indivíduo. Os aspectos 
cognitivos são aprofundados e as experiências vão contribuindo para uma 
melhor compreensão de si mesmo e do mundo em que vive. Para Piaget, o que 
marca de fato a entrada na vida adulta são o ingresso no mundo do trabalho e a 
constituição de uma nova família. 
Lev Semenovitch Vygotsky seguiu os passos de Piaget e também dedicou 
seus estudos ao entendimento dos processos de desenvolvimento humano e 
aprendizagem. Nascido na Rússia, apesar de ter vivido pouco (faleceu aos 37 
anos de idade), sua teoria foi amplamente aceita e trouxe o enfoque interacionista 
ao estudo do desenvolvimento humano, ou seja, Vygotsky postulou que o 
desenvolvimento do indivíduo ocorre por meio da interação dele com o meio 
sociocultural em que está inserido. A cultura tem um papel crucial em todo o 
desenvolvimento.
A obra de Vygotsky analisou o desenvolvimento infantil a partir de três 
aspectos: instrumental, cultural e histórico:
O aspecto instrumental refere-se à natureza basicamente mediadora 
das funções psicológicas complexas. Não apenas respondemos aos 
estímulos apresentados no ambiente, mas os alteramos e usamos 
suas modificações como um instrumento de nosso comportamento. 
Exemplo disso é o costume popular deamarrar um barbante no 
dedo para lembrar algo. O estímulo – laço no dedo – objetivamente 
significa que o dedo está amarrado. Ele adquire sentido por sua função 
mediadora, faz-nos lembrar algo importante. 
O aspecto cultural da teoria envolve os meios socialmente estruturados 
pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em 
crescimento enfrenta, e os tipos de instrumentos, tanto mentais como 
físicos, que a criança pequena dispõe para dominar as tarefas. Um 
dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem. 
Por isso, Vygotsky deu ênfase, em toda a sua obra, à linguagem e sua 
relação com o pensamento. 
O aspecto histórico, como afirma Luria, funde-se com o cultural, 
pois os instrumentos que o homem usa para dominar seu ambiente 
e seu próprio comportamento foram criados e modificados ao longo 
da história da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os 
poderes do homem e estruturaram seu pensamento, de maneira que, 
se não tivéssemos desenvolvido a linguagem escrita e aritmética, 
por exemplo, não possuiríamos hoje a organização dos processos 
superiores que possuímos (LURIA apud BOCK; FURTADO; 
TEIXEIRA, 2008, p. 126).
A interação da criança com os adultos ocorre desde o seu nascimento. 
É na interação com o adulto que o desenvolvimento acontece. É por meio da 
interação com nossos familiares (primeiro grupo ao qual pertencemos) que somos 
apresentados à nossa cultura, bem como à sociedade em geral. 
No que diz respeito ao desenvolvimento da fala, Vygotsky descreveu:
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
52
[...] inicialmente, os aspectos motores e verbais do comportamento 
estão misturados. A fala envolve os elementos referenciais, a 
conversação orientada pelo objeto, as expressões emocionais e outros 
tipos de fala social. Como a criança está cercada por adultos, a fala 
começa a adquirir traços demonstrativos e ela começa a indicar o que 
está fazendo e de que está precisando. Após algum tempo, a fala da 
criança deixa de ser um meio para atingir o comportamento dos outros 
e vai adquirindo a função de autodirecão, ou seja, de expressão do 
próprio comportamento (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 108).
A fala inicial da criança tem um papel fundamental no desenvolvimento 
de suas funções psicológicas que são transformadas e internalizadas como 
consequência da interação com as pessoas e a cultura. 
Outro aspecto muito importante para entender o processo de 
desenvolvimento são os fatores genéticos. Sabemos da influência que o ambiente 
exerce no nosso desenvolvimento, mas as evoluções não são ocorrências 
impulsionadas apenas pelo ambiente em que estamos inseridos. Precisamos 
considerar os fatores genéticos e entender como eles se relacionam com o fator 
ambiental.
Esta questão é frequentemente colocada como um debate sobre 
a importância relativa da “natureza” (nature) e da “educação” 
(nurture), Natureza refere-se às predisposições biológicas herdadas 
do indivíduo; educação refere-se às influências do ambiente social 
e cultural sobre o indivíduo, particularmente àquelas advindas da 
família e da comunidade. Grande parte das discussões sobre Victor, 
o Menino Selvagem de Aveyron, dizia respeito às influências relativas 
da natureza e da educação: Victor era incapaz de falar e de expressar 
outros comportamentos normais para um menino de sua idade devido 
a uma dotação biológica deficiente (natureza) ou por causa de uma 
educação inadequada? As crenças sobre as contribuições da natureza 
e da educação para o desenvolvimento podem ter efeitos de longo 
alcance sobre a maneira como a sociedade trata as crianças. Se, por 
exemplo, supõe-se que as meninas, por natureza, têm pouco interesse 
por matemática e ciências, não é provável que sejam encorajadas por 
seus pais, professores e outros membros da sociedade a se tornarem 
matemáticas ou cientistas. Se, por outro lado, supõe-se que os talentos 
matemático e científico são, em grande parte, resultados da educação, 
uma sociedade pode treinar meninas e meninos igualmente nessas 
atividades (COLE; COLE, 2003, p. 35).
Fatores genéticos e ambientais são igualmente importantes para o 
processo de desenvolvimento. Os genéticos, por sua característica hereditária, 
não são fontes de intervenção ou modificação a partir da nossa vontade; já quando 
entramos no campo dos fatores ambientais, a presença do outro, ou seja, alguém 
que nos incentive, é fundamental e configura um avanço para o desenvolvimento 
da criança, pois nossas referências da primeira infância vêm do outro, como 
nossos pais, por exemplo. 
53
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• O estudo do Desenvolvimento humano ocupa-se do estudo dos processos de 
mudança que ocorrem no ciclo de vida desde o nascimento até o envelhecimento. 
O referido estudo compreende aspectos biológicos e fisiológicos, bem como 
psicológicos, emocionais e afetivos. 
• De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), o desenvolvimento humano 
é influenciado por fatores como hereditariedade, crescimento orgânico, 
maturação neurofisiológica e o meio em que o indivíduo está inserido. Esses 
fatores atuam em vários aspectos do desenvolvimento: aspecto físico-motor, 
intelectual, afetivo-emocional e social. 
• Dois teóricos contribuíram significativamente para a compreensão de 
desenvolvimento humano que obtemos atualmente. São eles: Piaget e 
Vygotsky. O primeiro dividiu o desenvolvimento humano em quatro estágios: 
sensório-motor (0 a 2 anos); pré-operatório (2 a 7 anos); operatório concreto (7 a 
12 anos) e operatório formal (12 anos em diante). Vygotsky, por sua vez, deu à 
sua teoria o enfoque interacionista, em que a interação da criança com as outras 
pessoas e com o meio sociocultural em que está inserida é o que possibilita o 
seu desenvolvimento, como a aquisição da fala e da linguagem, por exemplo. 
• Fatores genéticos e ambientais são igualmente importantes para o 
desenvolvimento humano como um todo. O caso do Menino Selvagem de 
Aveyron, por exemplo, (cujas informações genéticas eram desconhecidas) nos 
mostrou que um ambiente sem interação com pessoas que nos estimulem e nos 
apresentem para a cultura e para a sociedade não permite o desenvolvimento 
de habilidades de extrema importância, como a fala e a linguagem. Ele apenas 
desenvolveu habilidades de sobrevivência.
54
AUTOATIVIDADE
1 Descreva quais são os aspectos mais importantes trazidos pelas teorias de 
Piaget e Vygotsky, bem como de que maneira cada um dos referidos teóricos 
explicou os processos de desenvolvimento humano. 
2 Se você tivesse que avaliar se o desenvolvimento humano de uma criança está 
ocorrendo dentro do esperado, em quais aspectos você prestaria atenção?
55
TÓPICO 2
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Após compreender os aspectos principais do estudo do desenvolvimento 
humano, vamos nos voltar a cada fase do desenvolvimento, começando 
pelo desenvolvimento pré-natal. São nove meses de intensas mudanças. Se 
pararmos para analisar tudo o que acontece nesses nove meses, em termos de 
desenvolvimento, trata-se de um período relativamente curto. 
Segundo Cole e Cole (2003), o início da vida ocorre com uma única célula, 
chamada de zigoto, que tem o tamanho aproximado de um ponto desta página 
e pesa aproximadamente 15 milionésimos de um grama. Ao nascer, temos cerca 
de 2 bilhões de células e pesamos, em média, três quilos. O objetivo do estudo 
do desenvolvimento pré-natal é justamente explicar como evoluímos, a partir de 
uma única célula, para um ser humano composto por bilhões de novas células 
dispostas em diferentes órgãos estruturados e em pleno funcionamento. 
Você já parou para analisar a complexidade de um corpo humano no 
que diz respeito ao seu funcionamento? Imagine tudo o que precisa acontecer ao 
mesmo tempo para que tudo funcione em harmonia. E, neste momento, ainda 
estamos nos referindo apenas aos aspectos biológicos e fisiológicos. O estudo 
do desenvolvimentotambém passa pelo entendimento dos processos cognitivos, 
psicológicos e afetivos que envolvem todas as mudanças de cada período. A 
Figura 6 ilustra a rapidez com que as mudanças acontecem no período pré-natal.
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
56
FIGURA 14 – MUDANÇAS NO TAMANHO E NA FORMA DO CORPO HUMANO 
DE 14 DIAS ATÉ 15 SEMANAS APÓS A CONCEPÇÃO
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 100)
O desenvolvimento pré-natal, basicamente, divide-se em três períodos: 
1. O período germinal inicia-se quando as células germinativas 
da mãe e do pai se unem na concepção e dura até o organismo em 
desenvolvimento se ligar à parte do útero, cerca de oito a 10 dias 
depois.
2. O período embrionário estende-se desde o momento em que o 
organismo se liga ao útero até o final da oitava semana, quando todos 
os principais órgãos assumem sua forma primitiva.
3. O período fetal inicia-se na nona semana após a concepção, com 
os primeiros sinais de amadurecimento dos ossos, e continua até o 
nascimento. Durante esse período, os sistemas orgânicos primitivos se 
desenvolvem até o ponto em que o bebê pode existir fora da mãe sem 
apoio médico (COLE; COLE, 2003, p. 101).
As mudanças são tantas e ocorrem de forma tão rápida que sempre existe 
risco de que ocorram falhas no processo de desenvolvimento. O desenvolvimento 
do sistema nervoso, por exemplo, configura-se como uma das etapas mais 
delicadas. A Figura 7 faz uma comparação entre o desenvolvimento normal e 
possíveis alterações.
9 Semanas
8 Semanas
6 1/2 Semanas
11 Semanas
15 Semanas
4 Semanas
24 dias
18 dias
14 dias
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
57
FIGURA 15 – COMPARAÇÃO ENTRE O DESENVOLVIMENTO NORMAL E 
POSSÍVEIS ALTERAÇÕES
FONTE: Lent (2015, p. 92)
Os esquemas de cima (A) representam uma vista dorsal do tubo neural 
do embrião, mostrando o seu fechamento como um zíper, para cima e para 
baixo. O orifício de cima é o neuroporo rostral, e o de baixo, o neuroporo caudal. 
Quando tudo ocorre dentro da normalidade, o feto se forma tal como mostra (B) 
(à esquerda), mas, quando o neoroporo rostral não se fecha, ocorre anencefalia (no 
centro), e o feto morre geralmente pouco tempo depois do nascimento. Defeitos 
no fechamento do neuroporo caudal não são tão drásticos, provocando a condição 
conhecida como spina bífida, que pode ser corrigida cirurgicamente.
Com relação à atividade fetal, em um processo de desenvolvimento 
normal, Cole e Cole (2003) apontam que, com oito semanas de gestação, o 
feto começa a fazer movimentos generalizados. Nas semanas seguintes, os 
movimentos corporais tornam-se mais variados e coordenados (ver Tabela 1). 
Com 15 semanas, o feto é capaz de todos os movimentos observáveis em bebês 
recém-nascidos (JAMES et al., 1995, apud COLE; COLE, 2003). No final no quarto 
mês, o feto está grande o suficiente para a mãe sentir seus movimentos. 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
58
TABELA 1 – APARECIMENTO DOS MOVIMENTOS FETAIS NO INÍCIO DA GRAVIDEZ
Movimento Idade gestacional (semanas)
Qualquer movimento 
Surpresa 
Movimentos generalizados 
Soluços 
Movimentos isolados do braço 
Retroflexão da cabeça 
Contato mão-face 
Respiração 
Abertura da mandíbula 
Estiramento 
Anteflexão da cabeça 
Bocejo 
Sugar e engolir 
7
8 
8 
8 
9 
9 
10 
10 
10 
10 
10 
11 
12
FONTE: Adaptado de Vries et al. (apud COLE; COLE, 2003, p. 108)
Voltando ao desenvolvimento do sistema nervoso, a Figura 8 traz uma 
ilustração do desenvolvimento do cérebro como um todo. 
FIGURA 16 – DESENVOLVIMENTO PRÉ-NATAL DO CÉREBRO
FONTE: Adaptado de Cowan (1979 apud COLE; COLE, 2003, p. 109)
9 meses8 meses
7 meses
40 dias30 dias 100 dias
Tamanhos reais
5 meses as regiões superiores do 
cérebro começam a se desenvolver
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
59
As partes primitivas do cérebro estão presentes desde muito cedo. Os 
hemisférios cerebrais, com suas convolucões características, só aparecem na 
metade da gravidez.
Após obter o entendimento do processo de desenvolvimento gestacional, 
vamos apresentar uma breve descrição acerca dos estágios do trabalho de parto. 
Segundo a descrição de Cole e Cole (2003), o parto divide-se basicamente em 
três etapas. A primeira etapa começa com as contrações uterinas, com frequência, 
intensidade e duração suficientes para fazer com que a cérvice dilate. A duração 
desse estágio varia de mulher para mulher e de gravidez para gravidez. Pode 
durar desde uma hora até vários dias. A média para os primeiros nascimentos é 
de cerca de 14 horas. Com o passar do tempo, as contrações vão se tornando mais 
frequentes e mais intensas.
A segunda etapa do trabalho de parto começa com o bebê sendo 
empurrado, primeiro a cabeça, através da cérvice totalmente dilatada para a 
vagina. Nesse momento, as contrações vêm com mais ou menos um minuto de 
intervalo e duram cerca de um minuto. As contrações do útero fazem com que a 
mãe faça força para baixo e empurre o bebê para fora.
A terceira etapa do trabalho de parto, a etapa final, ocorre quando o bebê 
emerge da vagina e o útero contrai em torno do seu conteúdo, diminuindo. A 
placenta dobra-se e se separa da parede uterina, puxando com ela as outras 
membranas fetais. As contrações rapidamente as expelem e elas são paridas como 
as secundinas. A Figura 9 ilustra cada uma das referidas etapas.
FIGURA 17 – ESTÁGIOS DO TRABALHO DE PARTO
Estudaremos agora os aspectos inerentes ao desenvolvimento da criança 
e do adolescente.
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 
24 jul. 2016.
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
60
2 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE
Já estudamos anteriormente algumas alterações no desenvolvimento 
da criança a partir das teorias de Piaget e Vygotsky, que nos apresentaram um 
panorama do desenvolvimento humano de uma forma global. Nesse momento, 
convidamos você a conhecer melhor os processos envolvidos no desenvolvimento, 
desde a primeira infância até a adolescência, começando pelas habilidades 
sensoriais do bebê ao nascer. 
QUADRO 3 – HABILIDADES SENSORIAIS DO BEBÊ AO NASCER
Sentido Habilidade
Audição
Capacidade para distinguir fonemas. 
Preferência pela língua mãe.
Visão
Levemente borrada, visão dupla discreta. Visão da cor aos dois 
meses de idade. Capacidade para distinguir estímulos simples. 
Preferência por estímulos em movimento, como rostos.
Olfato Capacidade para diferenciar odores.
Paladar Capacidade para diferenciar os gostos.
Tato Reação ao contato desde o nascimento.
Temperatura Sensibilidade para as mudanças de temperatura.
Posição Sensibilidade para as mudanças de posição.
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 158)
O Quadro 4 nos mostra os reflexos apresentados pelobebê logo após o 
nascimento
QUADRO 4 – REFLEXOS PRESENTES NO NASCIMENTO
Reflexo Descrição
Curso
desenvolvimental
Importância
Babinski
Quando a planta do 
pé do bebê é tocada, 
os dedos dos pés se 
abrem e depois se 
curvam.
Desaparece de oito 
a 12 meses.
Presença no 
nascimento e curso 
normal de declínio são 
um indicador básico de 
condição neurológica 
normal.
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
61
Engatinhar
Quando o bebê 
é colocado sobre 
seu estômago e se 
pressiona as solas dos 
seus pés, seus braços 
e pernas movem-se 
mais ritmicamente.
Desaparece após 
três a quatro 
meses; possível 
reaparecimento 
aos seis ou sete 
meses, como 
um componente 
do engatinhar 
espontâneo.
Incerta.
Piscar os 
olhos
Rápido fechar de 
olhos.
Permanente.
Proteção contra 
estímulos aversivos, 
como luzes fortes e 
objetos estranhos.
Agarrar
Quando um dedo ou 
algum outro objeto é 
pressionado contra 
a palma da mão do 
bebê, seus dedos se 
fecham em torno dele.
Desaparece após 
três a quatro meses, 
substituído pelo 
agarrar voluntário. 
Presença no 
nascimento e posterior 
desaparecimento 
são sinais básicos 
de desenvolvimento 
neurológico normal.
Moro
Caso se permita 
que o bebê caia 
inesperadamente 
enquanto está sendo 
segurado, ou se há 
um barulho alto, ele 
vai esticar os braços 
e arquear as costas e 
depois juntar os braços 
como se estivesse 
agarrando algo.
Desaparece após 
seis a sete meses 
(embora o alerta 
a ruídos altos seja 
permanente).
Controverso; 
sua presença no 
nascimento e 
desaparecimento 
posterior são um 
sinal básico de 
desenvolvimento 
neurológico normal.
Fixação
O bebê gira a cabeça 
e abre a boca quando 
é tocado na face.
Desaparece entre os 
três e seis meses.
Componente da 
amamentação.
Passo
Quando o bebê 
é segurado em 
posição ereta, realiza 
movimentos rítmicos 
com as pernas.
Desaparece nos 
dois primeiros 
meses, mas pode 
ser restabelecido em 
contextos especiais.
Controverso; pode ser 
apenas um movimento 
de chutar ou pode 
ser um componente 
do andar voluntário 
posterior.
Sucção
O bebê suga quando 
algo é colocado em 
sua boca.
Desaparece e é 
substituído pela 
sucção voluntária.
Componente 
fundamental da 
amamentação.
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 159)
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
62
Grande parte do desenvolvimento do recém-nascido está relacionada à 
maturação biológica, porém, a interação com as pessoas que o cercam se configura 
como aspecto igualmente importante para sua evolução. O desenvolvimento 
segue seu curso de acordo com os estágios de desenvolvimento propostos por 
Piaget, conforme já estudamos. Apresentamos a seguir, no Quadro 5, outras 
mudanças importantes que ocorrem nos primeiros meses de vida.
QUADRO 5 – ELEMENTOS DA PRIMEIRA MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL 
(2 MESES E MEIO)
Domínio 
biológico 
Sistema nervoso central: mielinização das vias neurais cortical e 
subcortical. Mielinização das vias neurais primárias em alguns 
sistemas sensoriais. Controle cortical aumentado da atividade 
subcortical. Aumento no número e na diversidade das células 
cerebrais.
Psicofisiologia: aumento na quantidade de vigília. Reduções no sono 
ativo (REM) como uma proporção do tempo de sono total. Mudança 
no padrão de sono; o sono calmo (NREM) começa a vir primeiro.
Domínio
 comportamental
Aprendizagem melhor retida entre episódios. Aumento na acuidade 
visual. Exame visual mais completo dos objetos. Início do sorriso 
social. Reduções na agitação generalizada e no choro. O alcance 
visualmente iniciado transforma-se em alcance visualmente guiado.
Domínio 
social
Nova qualidade de coordenação e contato emocional entre os bebês 
e os cuidadores. Inicio do “choro com propósito”. 
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 190)
Seguindo com o processo de desenvolvimento, vamos verificar o que 
acontece nos mesmos campos: biológico, comportamental e social dos sete aos 
nove meses de vida (Quadro 6). 
QUADRO 6– ELEMENTOS DA MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL QUE 
OCORRE DOS 7 AOS 9 MESES DE VIDA
Domínio biológico
Crescimento dos músculos e endurecimento dos ossos. 
Mielinização dos neurônios motores para a parte inferior do tronco, pernas e 
mãos.
Mielinização do cerebelo, do hipocampo e dos lobos frontais.
Novas formas de atividade de EEG no córtex.
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
63
Domínio comportamental
Início do engatinhar.
Medo de altura.
Coordenação do alcançar e do pegar.
Sequência de ação coordenada para atingir objetivos.
Permanência do objeto exibida nas ações.
Memória retrospectiva.
Medo com reação à novidade.
Balbucio.
Domínio social
Medo de estranhos.
Nova reação emocional ao cuidador (apego).
Referência social.
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 231)
O desenvolvimento motor nessa fase é nítido e segue uma sequência, 
desde conseguir virar-se de lado até andar, conforme podemos verificar na 
Figura 18.
A progressão do arrastar-se para o engatinhar e para o andar segue uma 
sequência desenvolvimental clássica. Cada novo estágio na locomoção permite às 
crianças se moverem mais rapidamente e envolve uma mudança qualitativa no 
padrão do seu comportamento.
FIGURA 18 – DESENVOLVIMENTO MOTOR
Vira de lado e 
posiciona-se de costas
Dá os primeiros passos
Anda bem
Engatinha
Anda independentemente
Vira de um lado para o outro
Vira de costas quando 
está de lado
Anda com ajuda
Anda segurando-se nos móveis
Anda de lado e para trás
Sobe e desce escadas com ajuda
Anda com um pé na frente do outro
Idade (meses)
Pr
é-
an
da
r
an
da
r
FONTE: Cole e Cole, (2003, p. 240).
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
64
Além do desenvolvimento motor e cognitivo, outro aspecto fundamental 
para o desenvolvimento saudável da criança é o brincar. Segundo Cole e Cole 
(2003), muitos estudiosos do desenvolvimento veem nas brincadeiras das crianças 
paralelos claros ao seu atual estágio de desenvolvimento cognitivo. As brincadeiras 
das crianças não são apenas um indicador do seu desenvolvimento cognitivo, mas 
desempenham, também, importantes funções no amadurecimento cognitivo e 
social. O Quadro 7 exemplifica alguns passos no desenvolvimento do brincar.
QUADRO 7 – PASSOS NO DESENVOLVIMENTO DO BRINCAR
Tipo de uso do brinquedo 
(agente)
Exemplo 
O self como agente.
O bebê coloca sua cabeça em um travesseiro para fingir 
que vai dormir.
Outro agente passivo.
O bebê coloca uma boneca em um travesseiro para fingir 
que ela vai dormir.
Outro agente ativo.
O bebê faz uma boneca colocar um bloco no travesseiro 
para que ele durma, como se a boneca estivesse realmente 
“fazendo o bloco dormir”.
FONTE: Adaptado de Watson & Fischer (1980 apud COLE; COLE, 2003, p. 247)
Voltamos agora aos domínios biológico, comportamental e social que 
ocorrem por volta dos DOIS anos de idade (Quadro 8).
QUADRO 8 – A MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL NO FINAL DA FASE DE BEBÊ
Domínio biológico
Mielinização das conexões entre as áreas cerebrais. 
Nivelamento do desenvolvimento cerebral.
Maturação das áreas cerebrais em graus mais ou menos 
iguais. 
Domínio comportamental
O andar torna-se bem coordenado.
A destreza manual torna-se adequada para pegar 
pequenos objetos.
Controle sobre o funcionamento da bexiga e dos 
intestinos.
Uso de estratégias mais sofisticadas na resolução dos 
problemas. 
Jogo simbólico.
Representações conceituais.
Vocabulário elementar e início das combinações de 
palavras.
O sorriso acompanha a perícia. 
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
65
Domínio social
Declínio da ansiedade diante da separação. 
Diferenciação do eu.
Aceitação dos padrões dos adultos.
Emergência de emoções secundárias.
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 270)
A partir desse estágio do desenvolvimento, a interação torna-se ainda 
mais evidente. Por volta dos três anos de idade, a criança já consegue expressar 
suas vontades, e a necessidade de desenvolver e aprimorar as habilidades sociaisé crucial. O Quadro 9 apresenta as principais características, tanto das habilidades 
sociais quanto intelectuais, da criança em torno dos três anos de idade.
QUADRO 9 – CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS COMPETENTES DE TRÊS ANOS DE IDADE
Habilidades sociais
Conseguir a atenção de um adulto e mantê-la através de comportamentos socialmente 
aceitáveis.
Usar os adultos como recursos após concluir que elas próprias não conseguem lidar 
com a tarefa.
Expressar afeição e hostilidade moderada.
Envolver-se em trocas de papéis sociais.
Habilidades intelectuais gerais
Compreender e se comunicar efetivamente.
Envolver-se na resolução de problemas complexos, incluindo encontrar materiais e 
usá-los para criar um produto.
Autocontrole na ausência de limites externos.
Capacidade para planejar e se preparar para uma atividade.
Capacidade para explorar sistematicamente objetos e situações novas. 
FONTE: White e Watts (1773 apud COLE; COLE, 2003, p. 277)
Sabe-se que as características de cada criança variam de acordo com as 
interações às quais ela é submetida, bem como as condições gerais do ambiente 
em que está inserida. É preciso o mínimo de condições básicas, como alimentação, 
acesso à educação e ainda condições de segurança, tanto com relação ao lugar 
onde vive, como proteção e afeto que recebe de seus cuidadores. O Quadro 10 
ilustra alguns fatores de risco que podem ocasionar problemas na infância. 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
66
QUADRO 10 – EXEMPLOS DE FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO ASSOCIADOS A 
PROBLEMAS NA INFÂNCIA
Fatores de risco Fatores de proteção 
Características da criança 
Temperamento difícil na fase de bebê
Distúrbios fisiológicos 
Afeto desregulado
Baixa autoestima
Relações deficientes com os pares
Dificuldades na escola
Psicopatologia
Doença física 
Fatores de estresse transitórios
Baixo desempenho nas tarefas
Temperamento fácil na fase de bebê
Regulação fisiológica adaptativa
Regulação afetiva adaptativa
Autoestima elevada
Relações positivas com os pares
Adaptação positiva à escola
Saúde mental boa
Orgulho diante da realização pessoal
Relacionamento positivo com o atual 
professor
Microssistema 
Violência doméstica
Dificuldade financeira
Desemprego crônico
Condições crônicas de estresse
Ambiente familiar hostil
Abuso intergeracional
Psicopatologia dos pais
Habilidades deficientes para criar 
os filhos
Perda do emprego
Divórcio
Discussões diárias 
Relações conjugais boas
Emprego consistente
Relações familiares positivas
Saúde mental dos pais boa
Habilidades positivas para criar os filhos
Obtenção de emprego
Encontro de habitação adequada
Acesso a cuidado infantil
Exossistema 
Violência na comunidade
Crime na vizinhança 
Isolamento social
Comunidade empobrecida
Perda dos recursos comunitários 
Carência dos serviços comunitários 
Rede de apoio social
Bons recursos comunitários 
Igreja de apoio
Aquisição de recursos comunitários
Acesso a redes de apoio social
Macrossistema
Cultura violenta
Costumes dos pais
Racismo 
Aceitação social da violência 
Recessão 
Apoio nacional para a educação
Crenças nos direitos das crianças 
Compromisso nacional para reabilitar aqueles 
que abusam de substâncias
Baixo índice de desemprego
Funcionários eleitos comprometidos em 
melhorar a situação dos desfavorecidos
Redução da disponibilidade das drogas ilegais
FONTE: Adaptado de Ciccheti et al. (2000 apud COLE; COLE, 2003, p. 292).
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
67
Vygotsky já nos chamou a atenção para a importância do momento 
de aquisição da linguagem, mas, além da teoria interacionista, existem outras 
abordagens que explicam o processo de aquisição da linguagem, conforme 
podemos verificar no Quadro 11.
QUADRO 11 – PRINCIPAIS ABORDAGENS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
Teoria 
Principais fatores 
causais
Mecanismo 
Principais 
fenômenos 
explicados 
Aprendizagem Ambiente
Imitação, 
condicionamento
Significado da
palavra
Nativista Hereditariedade Desencadeamento Sintaxe 
Interacionista 
(hipótese
cognitiva)
Interação dos fatores 
sociais e biológicos
Assimilação-
acomodação 
Correlação de
 desenvolvimentos 
cognitivos e
linguísticos 
Interacionista 
(abordagem
culturalista)
Mediação cultural da 
interação sociobiológica 
Coordenação nos 
roteiros culturais
Relacionamentos
entre 
a linguagem e o 
pensamento
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 328)
A seguir, vemos o progresso do desenvolvimento na aquisição da 
linguagem verbal. (Quadro 12).
QUADRO 12 – O PROGRESSO DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM VERBAL 
Idade aproximada Comportamento típico
Nascimento
Percepção do fonema
Discriminação da linguagem a partir de sons que não são
linguagem
Choro 
3 meses Vocalização
6 meses
Balbucio
Perda da capacidade para discriminar fonemas não nativos
9 meses
Primeiras palavras
Holofrases 
12 meses Uso de palavras para atrair a atenção dos adultos
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
68
18 meses
Ampliação do vocabulário
Primeiras frases de duas palavras (fala telegráfica)
24 meses
Respostas corretas a solicitações indiretas (“a porta está 
fechada?”) 
30 meses
Criação de solicitações indiretas (“você está em cima dos 
meus blocos!”)
Modificação da fala para levar em conta o ouvinte
Consciência precoce das categorias gramaticais 
Primeira infância 
Aumento rápido da complexidade gramatical
Supergeneralizacão das regras gramaticais
Segunda infância
Entendimento das formas passivas (“as bolas foram tomadas 
pelos meninos”)
Aquisição da linguagem escrita
Adolescência Aquisição das funções especializadas da linguagem
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 347)
Após conhecermos os principais aspectos do desenvolvimento infantil, 
vamos nos voltar agora para o entendimento de como acontece o processo 
de desenvolvimento para o adolescente, bem como suas reações às intensas 
mudanças físicas e psicológicas. 
3 O DESENVOLVIMENTO DO ADOLESCENTE 
O que vem à sua cabeça quando se fala em adolescência? Com frequência, 
associamos esse período da vida com mudanças intensas, incertezas e rebeldia. 
Contudo, o que realmente acontece? Vamos começar a decifrar os enigmas do 
desenvolvimento da adolescência a partir de agora. 
Antes de iniciarmos o estudo das mudanças fisiológicas que acontecem 
nesse período, é importante salientar que não é apenas o nosso corpo que sofre 
alterações. A adolescência traz consigo mudanças na nossa forma de pensar 
e estar no mundo. Começamos a elaborar conceitos acerca de quem somos, 
surge uma necessidade de autoafirmação, ou seja, mostrar quem somos e o que 
queremos. Nossas relações com as pessoas que nos cercam também passam por 
modificações. O aspecto social passa a incorporar um nível de importância maior 
com a necessidade e desejo de sentir-se pertencente a um determinado grupo. 
As mudanças fisiológicas têm início com a chegada da puberdade, que 
é definida por Cole e Cole (2003) como uma série de eventos bioquímicos que 
tem início por volta dos 10 ou 11 anos de idade e altera o tamanho, a forma e o 
funcionamento do corpo. 
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
69
Um dos relatos mais emocionantes do que é entrar na adolescência 
aparece no Diário de Anne Frank, uma menina judia que viveu refugiada 
com sua família na Holanda durante a ocupação alemã na Segunda 
Guerra Mundial. Incapaz de deixar seu esconderijo e sair, com medo 
de ser capturada, Anne transformou seu diário na amiga que ela tanto 
desejava. Os trechos citados aqui foram escritos pouco antes de Anne e 
sua família serem descobertos e enviados para morrer em um campo de 
concentração.
QUARTA-FEIRA, 5 DE JANEIRO DE 1944
Ontem li um artigo sobre o rubor, escrito por Sis Heyster. Esse artigo poderia ter 
sido dirigido a mim, pessoalmente. Embora eu não ruborize com muita facilidade, 
as outras coisas que ali são ditas certamente todas têm a ver comigo. Ela escreve 
algo mais ou menos assim – que uma menina nos anos da puberdade torna-se 
quieta por dentro e começa a pensar sobre as maravilhasque estão acontecendo 
com seu corpo. 
Eu também estou passando por isso, e essa é a razão de, ultimamente, eu estar me 
sentindo constrangida em relação a Margot, mamãe e papai. Engraçado, Margot, 
que é muito mais tímida que eu, não se sente de modo algum constrangida.
Acho que o que está acontecendo comigo é realmente maravilhoso, e não apenas o 
que pode ser visto no meu corpo, mas tudo o que está acontecendo dentro de mim. 
Eu nunca falo a meu respeito nem sobre nada dessas coisas com ninguém; por isso 
tenho que conversar comigo mesma sobre elas. 
Cada vez que eu menstruo – e isso só aconteceu três vezes – tenho a sensação de 
que, apesar de toda a dor, desconforto e incômodo, eu tenho um doce segredo e é 
por isso que, embora de certo modo isso seja apenas um aborrecimento para mim, 
sempre anseio pelo momento em que vou sentir novamente esse segredo dentro de 
mim (ROTH, 1975 apud COLE; COLE, 2003, p. 621). 
O relato escrito por Anne Frank, no ano de 1944, continua atual e, ao ler, 
temos a impressão de que poderia ter sido escrito por qualquer adolescente que viva 
a puberdade em 2016, salvo o fato de que provavelmente as adolescentes não tenham 
mais diários e também não manteriam segredo sobre o que escreveram, publicando 
em uma rede social. Por falar em rede social, a maneira de se expor e se comunicar 
com o mundo mudou muito nos últimos anos. Se antes do advento das redes sociais 
o “segredo” configurava uma das características mais evidentes do adolescente, 
atualmente vivemos um momento muito diferente, em que quanto mais da vida do 
adolescente estiver exposta, mais popularidade ele obterá. A necessidade de sentir-se 
popular e tornar-se uma referência para os amigos não é nenhuma novidade, porém, 
a proporção e o alcance que a internet traz mudaram a geração atual. Tudo acontece 
na velocidade de um toque na tela. O número de curtidas e visualizações torna-se o 
termômetro que determina quem é ou não popular. 
A palavra “adolescência” vem do latim adelesco e significa “crescer”. As 
primeiras definições desse período do desenvolvimento datam do século IV, quando 
Aristóteles descreveu os adolescentes como “[...] apaixonados, irascíveis e capazes de 
serem levados por seus impulsos... Eles se consideram oniscientes e são positivos em 
suas asserções; essa é, na verdade, a razão por levarem tudo tão longe” (KIELL, 1964 
apud COLE; COLE, 2003).
Voltando à puberdade, Cole e Cole (2003) apontam, ainda, que é nesse período 
que o corpo passa de um estado de imaturidade física para tornar-se biologicamente 
maduro e capaz de reprodução sexual. 
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
70
A puberdade começa com um sinal químico do hipotálamo, localizado 
na base do cérebro, que ativa a glândula hipófise, um órgão do tamanho 
de uma ervilha, que é um apêndice do hipotálamo. A hipófise, então, 
aumenta a sua produção de hormônios de crescimento, que, por sua vez, 
estimulam o crescimento de todo o tecido do corpo. A glândula hipófise 
também libera hormônios que desencadeiam um grande aumento 
na fabricação de dois hormônios gonadotróficos (“gonad-seeking”). As 
gônadas ou órgãos sexuais primários são os ovários nas mulheres e os 
testículos nos homens. Nas mulheres, esses hormônios gonadotróficos 
estimulam os ovários a fabricar estrógeno e progesterona. Esses dois 
hormônios desencadeiam os muitos eventos físicos, incluindo a liberação 
dos ovos maduros dos ovários, que finalmente permitem a reprodução. 
Nos homens, os hormônios gonadotróficos estimulam os testículos e 
as glândulas suprarrenais para fabricar o hormônio testosterona, que 
provoca a produção de esperma (BOGIN, 1999). Embora o estrógeno seja 
considerado o hormônio feminino e a testosterona o hormônio masculino, 
os dois hormônios estão presentes nos dois sexos. Durante a puberdade, 
ambos os sexos experimentam um aumento nesses hormônios, mas o 
índice de aumento é específico para cada sexo. A testosterona nos meninos 
aumenta 18 vezes seu nível na segunda infância, enquanto o estrógeno 
sofre um aumento de oito vezes nas meninas (MALINA; BOUCHARD 
apud COLE; COLE, 2003, p. 625-626). 
A Figura 19 nos mostra as mudanças que acontecem tanto no corpo 
feminino e masculino durante a puberdade.
FIGURA 19 – AS MUDANÇAS CORPORAIS QUE ACOMPANHAM A PUBERDADE
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2016.
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
71
Além das mudanças corporais, as alterações que acontecem na 
adolescência também provocam reações psicológicas. Meninas e meninos reagem 
de maneira diferente a cada mudança dessa fase, o que afeta diretamente o humor 
do adolescente. Grande parte dessas reações diz respeito à aceitação ou não do 
próprio corpo. 
Em uma série de estudos (resumidos em Brooks-Gunn e Reiter, 1990), 
Jeanne Brooks-Gunn e seus colegas descobriram que as atitudes e 
crenças das meninas sobre a menstruação são apenas em parte um 
resultado da sua própria experiência direta da menstruação. A maneira 
como elas percebem a menstruação é influenciada pelas atitudes e 
crenças daqueles que as cercam. A influência do contexto social das 
meninas sobre sua experiência da menarca é corroborada pelo achado 
de que os sintomas físicos de uma menina durante a menstruação são 
frequentemente relacionados com as expectativas que ela tinha antes 
da menarca. As meninas que relataram sintomas desagradáveis tinham 
maior probabilidade de estarem despreparadas para a menarca, de terem 
amadurecido cedo e de terem sido informadas sobre a menstruação por 
alguém de quem elas tinham uma opinião negativa. 
Similarmente, as reações dos meninos à sua primeira ejaculação 
(semenarca) dependem do contexto em que ela ocorre. Quando a 
semenarca ocorre como uma polução noturna (“sonho molhado”), os 
meninos relatam que suas primeiras reações são surpresa e confusão. 
Um menino recordou: “aquilo me lembrou o fazer xixi nas calças – 
essa foi minha primeira reação –, embora eu nunca tenha feito xixi nas 
calças” (STEIN; REISSER, 1994, p. 377). Se a semenarca ocorre durante 
a masturbação, a reação predominante é mais positiva (COLE; COLE, 
2003, p. 629-630).
Sabe-se que o melhor caminho para que o adolescente tenha reações mais 
positivas com relação às mudanças que estão acontecendo com ele é a informação 
e a orientação. Quanto mais ele souber sobre o que vai acontecer, bem como a 
maneira como acontece, mais preparado ele estará para reagir bem diante das 
novidades. Muitas vezes, tudo de que o adolescente precisa é de alguém que o 
escute e acolha suas dúvidas e anseios. 
A relação com os pares também passa a configurar um contexto de grande 
expectativa para o adolescente. Nas sociedades tecnologicamente desenvolvidas, 
a reorganização da vida social do adolescente envolve quatro mudanças 
importantes:
1 A interação com os pares aumenta mais ainda do que durante a 
segunda infância. Os alunos da 7ª série do Ensino Médio passam mais 
tempo com seus pares fora da escola do que com seus pais ou com 
outros adultos.
2 Os grupos de pares de adolescentes funcionam com menos 
orientação e controle por parte dos adultos do que os grupos de pares 
das crianças menores. Em vez de ficar confinados às imediações do 
bairro, os grupos de pares de adolescentes atraem seus membros de 
vários bairros e têm maior probabilidade de encontrar maneiras para 
garantir que nenhum pai/mãe ou outras autoridades adultas estejam 
observando suas ações.
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
72
3 À medida que os adolescentes aumentam cada vez mais a distância 
com os adultos, a maior parte deles busca membros do outro sexo. Essa 
reorientação do gênero é uma razão importante para a reorganização 
dos grupos de pares durante a adolescência. 
4 Os grupos de pares aumentam de tamanho ao mesmo tempo em 
que as amizades e outros relacionamentos próximos aumentam em 
intensidade. (COLE; COLE, 2003, p. 636).
Sobre as práticas sexuais43
2 OS PRIMÓRDIOS DO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO ............................. 44
2.1 PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES ..................................................................................................... 44
3 DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA PSICOLÓGICA ....................................... 46
sumário
VIII
4 AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOTSKY PARA O ESTUDO DO 
DESENVOLVIMENTO HUMANO .................................................................................................. 48
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 53
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 54
TÓPICO 2 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE .... 55
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 55
2 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ................. 60
3 O DESENVOLVIMENTO DO ADOLESCENTE ........................................................................... 68
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 74
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 75
TÓPICO 3 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO.............................................. 77
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 77
2 DESENVOLVIMENTO DO IDOSO ................................................................................................ 78
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 83
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 86
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 87
UNIDADE 3 – PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE ..................................................................... 89
TÓPICO 1– A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE ............................................................... 91
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 91
2 HISTÓRICO DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE ..................................................................................... 91
2.1 TENDÊNCIAS QUE MOLDARAM AS CIÊNCIAS DA SAÚDE .............................................. 92
3 A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS NA SAÚDE ....................................................................... 94
4 COMPORTAMENTO EM SAÚDE ..................................................................................................100
RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 104
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................105
TÓPICO 2 – COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO ............107
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................107
2 CONCEITUANDO SAÚDE ..............................................................................................................107
3 A POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE ...............................................................................................109
3.1 OS PRINCÍPIOS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE E INTEGRALIDADE ..................................112
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 116
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117
TÓPICO 3 – PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES .119
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119
2 A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL ................................................................................................119
3 A IMPORTÂNCIA DOS CUIDADOS BÁSICOS EM SAÚDE MENTAL ...............................121
4 PROBLEMÁTICAS COMUNS EM SAÚDE MENTAL ...............................................................123
4.1 ESTRESSE ........................................................................................................................................124
4.2 TRANSTORNOS DEPRESSIVOS ................................................................................................126
4.3 TRANSTORNOS DE ANSIEDADE ............................................................................................128
4.4 TRANSTORNO POR USO DE ÁLCOOL ...................................................................................130
5 O TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MENTAL ..................................................132
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................136
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 139
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................140
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................141
1
UNIDADE 1
ASPECTOS HISTÓRICOS DA 
PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO 
CIENTÍFICA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Ao final desta unidade você será capaz de:
• compreender o caminho percorrido pela Psicologia para se tornar uma 
 ciência;
• conhecer os teóricos que contribuíram para a construção do conhecimento 
da ciência psicológica;
• entender como ocorre a aplicação do conhecimento científico da Psicologia 
no campo de atuação profissional do psicólogo; 
• entender a diferença entre o conhecimento do senso comum e o conheci-
mento científico;
• conhecer as possibilidades do campo de atuação do profissional de Psico-
logia;
• compreender como a Psicologia pode contribuir com outras áreas do 
 conhecimento.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No final de cada um deles você 
encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.
TÓPICO 1 – A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
TÓPICO 2 – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
TÓPICO 3 – ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
1 INTRODUÇÃO
Você, certamente, já ouviu falar, leu, estudou ou até mesmo precisou do 
auxílio de um profissional da saúde em algum momento de sua vida, não é mesmo? 
Nesta disciplina, vamos aprofundar os seus conhecimentos acerca das profissões 
da saúde, bem como suas aplicações à saúde. A pluralidade das ciências da saúde 
faz com que ela contribua significativamente com outras áreas do conhecimento. A 
complexidade do ser humano fez com que muitas teorias se desenvolvessem para 
o entendimento do nosso objeto de estudo: a subjetividade humana. Se o termo 
“subjetividade humana” lhe soa estranho, não se preocupe, pois vamos explorá-lo 
ao longo de nossa disciplina. Nossa viagem aos aspectos históricos fundamentais 
para o desenvolvimento da ciência psicológica começa agora. 
Conforme nos apontam Schultz e Schultz (2006), para entender a história 
das ciências da saúde ena adolescência, Taquette, Vilhena e Paula (2004, 
s.p.) apontam, em suas pesquisas, que 
[...] as relações sexuais têm iniciado mais cedo e com um maior 
número de parceiros, o que contribui para aumentar a ocorrência das 
DST. Entre adolescentes, o uso de preservativos é baixo e a atividade 
sexual geralmente não é programada. Estudos brasileiros revelam que 
apenas um terço deles ou menos usa preservativo sempre. Segundo 
dados de pesquisas divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), os 
mais baixos índices de uso se encontram entre 15 e 19 anos. 
Os referidos índices reforçam a necessidade de que nossos adolescentes 
sejam bem orientados a fim de evitar comportamentos de risco. 
São muitas as preocupações que rondam a cabeça do adolescente, desde 
as mudanças corporais, conforme já mencionamos. A necessidade de sentir-se 
parte de um grupo e ser popular, a iniciação da vida sexual e a proximidade 
do momento de escolher uma carreira, que configura sua transição para a vida 
adulta, são alguns exemplos de que esse período é, de fato, bastante tumultuado. 
No entanto, isso não significa que tenha de ser traumático. É justamente nesses 
momentos de incerteza e dúvida que os pais devem se fazer presentes para que 
possam orientar seus filhos da melhor maneira possível. Chegando ao final 
da adolescência, algumas características se estabelecem claramente, conforme 
podemos verificar no Quadro 13.
QUADRO 13 – A MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL: A TRANSIÇÃO PARA A IDADE 
ADULTA
Domínio biológico 
Capacidade para a reprodução biológica
Desenvolvimento de características sexuais secundárias
Alcance do tamanho do adulto
Domínio comportamental
Realização de operações formais em algumas áreas (pensamento sistemático)
Formação da identidade
Domínio social
Relações sexuais
Mudança para a responsabilidade fundamental para si mesmo
Início da responsabilidade pelas próximas gerações
FONTE: Cole e Cole (2003, p. 708)
TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
73
Carr-Gregg e Shale (2003) definem os anseios do adolescente em três 
estágios. No início da adolescência, a inquietação consiste em saber se o que 
está acontecendo com ele é normal. No meio do processo, o adolescente passa a 
prestar mais atenção em si mesmo no sentido de entender quem ele é, e no final 
está interessado em entender qual é o seu lugar no mundo. Basicamente, ao final 
da adolescência, o adolescente precisa responder a três questões: “Sou normal?”, 
“Quem sou eu?”, “Qual é o meu lugar no mundo?”. Carr-Gregg e Shale (2003) 
ainda fazem algumas recomendações aos adultos: 
• Evitar fazer comentários sobre alterações físicas que saltam à vista. Os 
comentários podem provocar reações negativas e deixar o jovem ainda mais 
ansioso. 
• Estar preparado para aguentar um pouco de mau humor. 
• Ficar atento para sinais de desinteresse do adolescente pelas coisas e conversar 
com ele a respeito. Ajudar o jovem a desenvolver interesses que aumentem a 
autoestima. 
• Auxiliar o adolescente a concentrar-se no que há de positivo nesse período.
• Não se sentir ofendido se o adolescente quiser manter uma certa distância dos 
adultos.
• As regras de conduta devem ser discutidas civilizadamente, em vez de impostas 
numa discussão, por exemplo.
• Sempre abordar o jovem com calma, com atenção e reconhecer os sentimentos 
e opiniões dele.
• Estabelecer uma relação de confiança e valorizar o que o jovem diz.
• Respeitar e participar das decisões dele.
• Demonstrar que sente orgulho dele, bem como manter a harmonia familiar. 
• Fazer com que o adolescente seja responsável por algum trabalho doméstico 
ou outra tarefa.
74
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• O desenvolvimento pré-natal, basicamente, divide-se em três períodos: 
germinal, embrionário e fetal. Neste tópico entendemos como acontece o 
parto, desde as primeiras contrações até o nascimento, para, posteriormente, 
compreender as alterações inerentes ao desenvolvimento da criança, iniciando 
pelas habilidades sensoriais do bebê ao nascer, os reflexos que apresenta 
logo após o nascimento (Babinski, engatinhar, piscar os olhos, agarrar, Moro, 
fixação, passo e sucção), bem como os aspectos que compreendem as mudanças 
biossociocomportamentais desde os primeiros meses de vida. 
• É importante o brincar para um desenvolvimento saudável e, ainda, os fatores 
de risco e de proteção associados a problemas na infância. Seguindo o curso do 
desenvolvimento, vimos quais são as principais abordagens da aquisição da 
linguagem, tão crucial para o desenvolvimento.
• O processo de desenvolvimento do adolescente passa por mudanças físicas 
e psicológicas que caracterizam esse período, começando pela puberdade, 
período em que o corpo passa de um estado de imaturidade física, para tornar-
se biologicamente capaz de reprodução sexual. Estudamos as diferentes 
alterações físicas das meninas e meninos. 
• No que diz respeito às alterações psicológicas, uma das mais comuns é a 
aceitação do próprio corpo, processo que pode ser estressante para alguns 
adolescentes quando a imagem que veem no espelho não reflete aquilo que 
realmente gostariam de ver. A importância da vida social e a identificação com 
os pares também configura um aspecto fundamental para o adolescente, que, 
em geral, quer se sentir parte de um grupo, ser aceito e, ainda, ser reconhecido 
pelos colegas como alguém popular. 
• A importância de os pais e cuidadores estarem próximos de seus filhos nesse 
momento, para que possam orientá-los de maneira segura, tanto no que 
concerne às dúvidas que o adolescente tem sobre o início da vida sexual, como 
à preocupação em escolher uma carreira ou simplesmente para ter alguém de 
confiança que possa escutá-lo e acolher as suas angústias. 
75
AUTOATIVIDADE
Após estudar as principais características do desenvolvimento da criança e do 
adolescente, descreva quais são os aspectos que mais lhe chamaram a atenção 
nos referidos processos de desenvolvimento, bem como quais são os momentos 
que você considera mais cruciais em cada fase. Justifique a sua resposta.C
76
77
TÓPICO 3
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Todos nós desejamos envelhecer de maneira saudável. Contudo, de uma 
maneira geral, pouco se fala acerca do desenvolvimento do idoso. O que o estudo 
do Desenvolvimento do Idoso propõe é disseminar conhecimentos acerca desse 
estágio do desenvolvimento, visando à qualidade de vida do idoso, bem como 
à prevenção e à promoção de saúde. Todo processo de mudança traz consigo 
inquietações e dúvidas. Com o envelhecimento não é diferente. Uma série de 
mudanças físicas e emocionais acompanha esse período. 
De acordo com o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003), no seu artigo terceiro: 
[...] é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder 
público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação 
do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao 
esporte, ao lazer, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à 
convivência familiar e comunitária. 
A produção de conhecimento científico sobre essa fase do desenvolvimento 
é fundamental para que se assegure ao idoso a qualidade de vida necessária, que 
lhe permita viver bem essa fase do desenvolvimento. 
Conforme apontado por Martins e Hagen (2007), quando jovens, nossos 
órgãos possuem capacidades de reserva. Sempre que temos que fazer um esforço 
maior do que o habitual, os órgãos conseguem mobilizar essas energias de 
reserva para corresponder a esse esforço; o estômago consegue digerir refeições 
gordurosas, as feridas saram, o cérebro funciona com rapidez, os músculos 
sustentam bem a forca da gravidade e, mesmo sob pressão, todo o corpo se 
recupera rapidamente do cansaço. As referidas autoras chamam nossa atenção 
para o fato de que, à medida que o tempo vai passando, as reservas e a nossa 
capacidade de suportar esforços diminuem. 
Algumas limitações podem aparecer com o avanço da idade. No entanto,o período de envelhecimento não se resume a limitações. Envelhecer também 
significa acumular experiências de vida que nos transformam. Segundo Amorim e 
Sena (2014 apud CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007), a velhice é um 
processo pessoal, natural e inevitável para qualquer ser humano na evolução da 
vida. Este processo ocorre relacionado a diversos fatores da vida de uma pessoa, 
envelhecer é somar todas as experiências da vida, é o resultado de todas as decisões 
e escolhas que foram feitas durante a vida. Diante disso, vivenciar o envelhecimento 
apresenta situações diferentes para cada ser humano, pois somos únicos. 
78
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
Coll, Marchesi e Palacios (2009 apud AMORIM; SENA, 2014, s.p.) 
descrevem o envelhecimento em estágios primário e secundário:
O envelhecimento primário consiste em processos de deterioração 
biológica, geneticamente programados, que acontecem inclusive 
nas pessoas que têm muita saúde e que não passaram por doenças 
graves na vida. Estes processos fazem parte da programação natural 
de nosso sistema biológico, sendo assim inevitáveis sob quaisquer 
circunstâncias individuais e ambientais.
O envelhecimento secundário refere-se aos processos de deterioração 
que aumentam com a idade e se relacionam com fatores que podem 
ser controlados, como, por exemplo, a alimentação, a atividade física, 
os hábitos de vida e as influências ambientais. Esses fatores dependem 
de cada indivíduo, então podemos assim afirmar que podem ser 
prevenidos, e são evitáveis e não universais.
Relacionado ao desenvolvimento cognitivo nesta fase, nossa 
capacidade para lidar e para interagir adequadamente com o ambiente 
vai depender, em grande medida, de nossa habilidade para detectar, 
para interpretar e para responder de maneira apropriada à informação 
que chega até os nossos sentidos. O envelhecimento biológico do 
cérebro é, em geral, evidenciado pela perda de intelecto, memória, 
capacidade criativa e cognitiva. Mas, ao contrário do que se pensa, 
esse processo não acontece de repente, logo que a pessoa atinge uma 
determinada idade, trata-se de um processo lento que progride com o 
passar dos anos.
Vamos aprofundar, neste momento, os nossos conhecimentos a partir da 
perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento do Idoso. 
2 DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 
 O Estatuto do Idoso, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento 
Social, em 2003, e ampliado em 2010, considera idosa a pessoa com idade igual 
ou superior a 60 anos. Estamos falando de milhões de pessoas que se encontram 
nesta faixa etária. Assim, muito em breve seremos um mundo de idosos, pois, 
graças aos avanços da medicina e das ciências em geral, estamos vivendo mais. 
Conhecer o processo de envelhecimento também pode nos ajudar a viver melhor, 
é o que propõe a Psicologia do Desenvolvimento do Idoso. 
O interesse da ciência pelo desenvolvimento do idoso é relativamente recente. 
Durante muito tempo estuda-se o desenvolvimento da criança e do adolescente, 
indiretamente colocando o processo de envelhecimento em segundo plano. 
Segundo Baltes (1995), a evolução do campo da psicologia do 
envelhecimento, no século XX, acarretou mudanças também 
na natureza da psicologia do desenvolvimento que, em vários 
países, especialmente nos EUA, era um campo sobreposto ao da 
psicologia infantil. Basicamente, a rápida emergência da psicologia 
do envelhecimento foi uma consequência da confluência dessas 
duas correntes de interesses, originadas a partir da psicologia 
TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
79
do desenvolvimento. Primeiro: houve uma curiosidade acerca 
da repercussão da infância sobre o desenvolvimento ulterior, ou 
seja, que consequências trariam, para a velhice, as experiências de 
desenvolvimento ocorridas na infância e na adolescência. Segundo: os 
psicólogos que trabalhavam com a vida adulta e a velhice passaram a 
estender o âmbito de seus conceitos e de seus estudos para a direção 
oposta do curso de vida (BALTES apud ARAÚJO; CARVALHO, 2004).
Atualmente, a Psicologia do Desenvolvimento também engloba a 
Psicologia do Envelhecimento. Segundo Neri (1995 apud ARAÚJO; CARVALHO, 
2004, p. 13): 
IMPORTANTE
“[...] a psicologia do envelhecimento é hoje a área que se dedica à investigação 
das alterações comportamentais que acompanham o gradual declínio na funcionalidade dos 
vários domínios do comportamento psicológico, nos anos mais avançados da vida adulta”
A análise do desenvolvimento do idoso compreende tanto os processos 
biológicos e fisiológicos, quanto cognitivos, psicológicos e afetivos. 
O processo biológico normativo de envelhecimento inclui diminuição da 
plasticidade comportamental (ou possibilidade de mudar para adaptar-
se ao meio), e diminuição da resiliência biológica (ou capacidade de 
enfrentar e de recuperar-se dos efeitos da exposição a doenças, acidentes 
e incapacidades). No entanto, eles não são independentes, pois os 
limites da plasticidade individual dependem das condições histórico-
culturais, condições essas que se refletem na organização do curso 
de vida dos indivíduos e das coortes. Da mesma forma, a resiliência 
individual depende dos apoios sociais e dos recursos da personalidade, 
chamados por Bandura (1986) de mecanismos de autorregulação do self. 
Sua integridade na velhice promove a continuidade do funcionamento 
psicossocial e o bem-estar subjetivo dos idosos, mesmo na presença de 
perdas biológicas, cognitivas e sociais acarretadas pelo envelhecimento 
(BALTES apud NERI, 2006, s.p.). 
É importante salientar que grande parte da qualidade de vida, no que 
concerne ao envelhecimento, está relacionada à independência do idoso, tanto 
nos aspectos físicos quanto intelectuais. Os princípios do desenvolvimento 
intelectual na vida adulta e na velhice foram assim descritos por Baltes (1987 
apud NERI, 2006):
80
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
1) O envelhecimento é um processo que acarreta mudanças de natureza 
ontogenética, traduzidas no declínio das capacidades intelectuais 
dependentes do funcionamento neurológico, sensorial e psicomotor. Essas 
mudanças refletem-se na diminuição da plasticidade comportamental.
2) As mudanças intelectuais de base ontogenética não significam 
descontinuidade da capacidade adaptativa e incompetência cognitiva 
generalizada: as reservas de experiência podem ser ativas e otimizadas 
pelos mais velhos, de modo a compensar o declínio nas capacidades de 
processamento da informação resultantes do processo de envelhecimento.
3) O envelhecimento intelectual é uma experiência heterogênea, isto é, pode 
ocorrer de modo diferente para indivíduos e coortes que vivem em contextos 
históricos e sociais distintos. Essa diferenciação depende da influência de 
circunstâncias histórico-culturais, de fatores intelectuais e de personalidade 
e da incidência de patologias durante o envelhecimento normal.
4) Há diferentes padrões de envelhecimento intelectual, do patológico ao 
ótimo, passando pelo normativo, compartilhado pela maioria das pessoas. 
É relativo às mudanças biológicas que ocorrem depois que os indivíduos 
atingem a capacidade de reproduzir a espécie e, entre a quarta e a quinta 
década de vida, converge para o aparecimento de alterações anatômicas e 
funcionais que definem o envelhecimento. Não se trata de doença, mas de 
processo natural, dependente da programação genética da espécie.
5) O envelhecimento intelectual é um processo multidimensional e multidirecional: 
diferentes capacidades começam a mudar em diferentes momentos, com 
diferentes resultados sobre diferentes indivíduos submetidos a diferentes 
experiências biológicas, educacionais, históricas e de personalidade.
6) Respeitados os limites impostos pela biologia e as possibilidades abertas 
pela educação formal e não formal a que foram expostos ao longo da vida, é 
possível alterar o desempenho intelectual de idosos por meio de intervenções 
clínicas, educacionais e experimentais. O Adult Developmentand Enrichment 
Project (ADEPT, de BALTES; WILLIS, 1982) envolveu delineamentos pré-teste/
tratamento/pós-teste, com cinco horas de instrução em capacidades básicas, 
oferecidas a idosos residentes na comunidade. O treino cognitivo não alterou 
as características estruturais das capacidades intelectuais primárias, isto é, não 
converteu capacidades básicas que são componentes da inteligência fluida, 
em componentes da inteligência cristalizada. Contudo, em pessoas de 60 anos 
e mais foram observados ganhos estatisticamente significativos nas relações 
entre figuras e na indução. Os maiores progressos experimentados pelas 
mulheres foram em orientação espacial. Homens e mulheres melhoraram 
em velocidade e precisão, mas os homens foram melhores em precisão. Não 
foram observados efeitos de generalização de uma capacidade treinada para 
outra não treinada. Estudos de seguimento realizados sete anos depois do 
treinamento mostraram que os indivíduos treinados declinaram menos 
do que os não treinados. Além disso, os idosos que haviam declinado mais 
se beneficiaram mais do treinamento do que os que haviam permanecido 
estáveis. Os sujeitos foram submetidos a treino de reforço sete anos depois 
da primeira bateria de instrução, do qual decorreram melhoras significativas 
para todos os grupos de idade. Contudo, os mais velhos não obtiveram melhor 
desempenho do que os mais jovens.
TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
81
7) A inteligência muda qualitativamente ao longo da vida adulta e da velhice. As 
mudanças qualitativas dependem muito mais das oportunidades oferecidas 
pela cultura do que dos mecanismos de base genético-biológica que estão na 
base da inteligência humana.
8) O funcionamento intelectual dos adultos e dos idosos é largamente 
influenciado pelo conhecimento de si, pelas crenças sobre a origem do 
próprio comportamento, pelas metas pessoais e pelas emoções, elementos 
esses que devem ser levados em conta na pesquisa básica sobre diferenças 
evolutivas e na intervenção cognitiva.
9) As principais diferenças no funcionamento cognitivo dos jovens e dos 
idosos não são de natureza ontogenética, mas por fatores culturais que se 
expressam na educação oferecida nas fases iniciais do desenvolvimento, 
quando as competências básicas são desenvolvidas. Mesmo assim, as 
diferenças em inteligência dependentes da experiência cultural não afetam 
a inteligência fluida.
10) Graças à ação de mecanismos de seleção, otimização e compensação, no 
âmbito individual ou cultural, os mais velhos não mostram necessariamente 
declínio no desempenho de certas tarefas normalmente desempenhadas 
pelos jovens. Não só isso é verdadeiro, como também os idosos podem 
exibir níveis elevados de desempenho altamente especializado no âmbito 
profissional e na solução de problemas existenciais, ou sabedoria. 
FONTE: NERI, Anita Liberalesso. O legado de Paul B. Baltes à Psicologia do Desenvolvimento e 
do Envelhecimento. Temas psicol. Ribeirão Preto, v. 14, n. 1, jun. 2006. Disponível em: . Acesso 
em: 3 ago. 2016.
Apresentar ou não declínio nas funções intelectuais e cognitivas na velhice 
também está muito relacionado com o estilo de vida do indivíduo. Isso consiste 
em uma análise da alimentação, passando pela prática de atividades físicas, ter 
experimentado ou não situações de estresse ao longo da vida, ter adquirido ou não 
hábitos saudáveis e, mais ainda, manter-se ativo em termos intelectuais. Aquela 
famosa concepção de “manter a cabeça ocupada” faz sim muita diferença para 
determinar o quanto o indivíduo será afetado por declínio cognitivo na velhice, 
salvo condições patológicas, como Alzheimer, por exemplo. 
Dos 65 anos aos 75 anos algumas das mudanças cognitivas são sutis ou até 
inexistentes, como é o caso do conhecimento de vocabulário, entretanto, 
ocorrem declínios importantes nas medidas que envolvem velocidade 
ou habilidades não exercitadas. No que se refere à saúde mental, Papalia 
e Olds (2000) referem que o declínio nesta área não é típico na terceira 
idade e que a doença mental é mais comum no adulto jovem do que 
no adulto mais velho. Na velhice, as pessoas podem e efetivamente 
continuam a adquirir novas informações e habilidades, bem como ainda 
são capazes de lembrar e usar bem aquelas habilidades que já conhecem. 
Os autores destacam ainda que o início da senescência varia bastante e 
justificam através da teoria biológica do envelhecimento e da teoria de 
programação genética. A justificativa é de que, por um plano normal de 
desenvolvimento embutido nos genes, os corpos envelhecem, salientando, 
portanto, que cada espécie tem sua própria expectativa de vida e padrão 
de envelhecimento. Esses processos, segundo essas autoras, podem ser 
82
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
influenciados tanto por fatores internos quanto externos. Resumindo e 
utilizando estas duas teorias, pode-se dizer que a programação genética 
pode limitar a duração máxima da vida, mas fatores ambientais e de estilo 
de vida podem afetar o quanto uma pessoa se aproxima do máximo, e em 
que condições. Cada fase da vida é influenciada pela que a antecedeu e 
irá afetar a que virá a ocorrer. (PAPALIA; OLDS, 2000 apud ARGIMON, 
2006, p. 243-244).
A partir dos estudos já efetuados, é possível afirmar que quanto mais ativo 
for o idoso, menos ele sentirá as consequências negativas do envelhecimento. Quanto 
mais inativo, maior a propensão a ficar debilitado. A Figura 20 exemplifica a questão.
FIGURA 20 – O CICLO VICIOSO DO ENVELHECIMENTO
FONTE: Martins e Hagen, 2007, p. 113
Segundo Martins e Hagen (2007), quanto mais inativo for o idoso, mais 
debilitado ficará, consequentemente, mais frágil. A partir deste momento, se 
torna dependente de outras pessoas, fazendo com que sua autoestima reduza, 
levando-o à depressão. Nessa condição é praticamente impossível a prática de 
atividades físicas, acelerando o processo de envelhecimento. 
Apresentamos a seguir um texto de Martins e Hagen (2007, p. 154) que 
descreve aspectos importantes do envelhecimento psicológico:
TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
83
O idoso envelhece seus pensamentos, falas e atitudes muitas vezes 
antes mesmo de o seu envelhecimento biológico acontecer. Por 
vezes, esta modalidade de envelhecimento pode estar relacionada a 
históricos pessoais e familiares. [...]. É comum que a família assuma 
todas as falas, pensamentos, ideias e desejos deste, normalmente sem 
consultá-lo. 
O que precisamos entender é que os idosos, em sua maioria, não 
necessitam ou desejam as mesmas coisas. Possuem personalidade 
própria, são detentores de um conhecimento acumulado através 
dos anos e precisam ser respeitados por estas diferenças. [...] É nossa 
missão envelhecer. O ataque psicológico ao envelhecimento está 
intimamente ligado ao biológico. Talvez o primeiro e maior ataque seja 
o nosso próprio espelho. Contudo, precisamos aprender a viver 10, 20, 
40, 80 ou 100 anos. Precisamos entender que envelhecer é uma tarefa 
de vida e precisa ser assumida como tal. 
LEITURA COMPLEMENTAR
Por que as pessoas envelhecem?
Com o dramático prolongamento do ciclo de vida, os cientistas estão cada 
vez mais concentrando a atenção sobre o que acontece com o corpo humano com 
a passagem do tempo. Na idade adulta inicial, as perdas físicas costumam ser tão 
pequenas e tão graduais que são quase imperceptíveis. Com a idade, as diferenças 
individuais aumentam. Um homem de 80 anos é capaz de ouvir todas as palavras 
de uma conversa sussurrada; outro não é capaz de ouvir a campainha. Uma 
mulher de 70 anos corre maratonas; outra não consegue dar a volta na quadra. O 
início da senescência, período marcado por evidentes declínios no funcionamento 
corporal, às vezes associados ao envelhecimento, varia muito. Por quê? E no 
que diz respeito a isso, por que as pessoas envelhecem? A maioria das teorias 
sobre o envelhecimento biológico enquadram-seem duas categorias: teorias de 
programação genética e teorias de taxa variável (resumidas na tabela a seguir). 
Teorias de Programação Genética 
 
Teoria da senescência programada: O 
envelhecimento é o resultado da ativação
e da desativação sequencial de certos genes, 
com a senescência sendo definida como o 
momento quando déficits associados à idade 
manifestam-se.
Teoria endocrinológica: Relógios biológicos
atuam através de hormônios para controlar a 
taxa de envelhecimento.
Teoria imunológica: Um declínio programado
nas funções do sistema imunológico leva à maior
vulnerabilidade, a doenças infecciosas; assim,
ao envelhecimento e à morte.
FONTE: Adaptado de NIH/NIA, 1993, p.2
Teorias de Taxas Variáveis 
 
Teoria do desgaste: As células e os tecidos têm
partes especiais que se desgastam.
Teoria dos radicais livres: Os danos acumulados
dos radicais de oxigênio fazem com que células
e - eventulamente - órgãos parem de funcionar.
Teoria da taxa de metabolismo: Quanto maior a
taxa de metabolismo de um organismo, mais
curto é o ciclo de vida.
Teoria auto-imune: O sistema imunológico 
confunde-se e ataca as próprias células do
organismo.
84
UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
Teorias de programação genética
As teorias de programação genética sustentam que os corpos envelhecem 
segundo uma sequência normal de desenvolvimento programada nos genes. 
Essa sequência implica um ciclo de vida máximo geneticamente determinado. 
As células no corpo estão constantemente se multiplicando por meio de divisão 
celular; esse processo é essencial para compensar a morte programada de 
células inúteis ou potencialmente perigosas e para manter órgãos e sistemas 
funcionando adequadamente (GOLDSTEIN, 1998; RAFF, 1998). Leonard 
Hayflick (1974) constatou que as células humanas se dividem no máximo 50 
vezes em laboratório; isso é chamado de limite Hayflick, o qual foi comprovado 
ser geneticamente controlado (SCHNEIDER, 1992). Isso sugere que pode haver 
um limite biológico no ciclo de vida das células humanas e, portanto, da vida 
humana - limite que Hayflick estimou em 110 anos. Se, como sugeriu Hayflick 
(1981), as células passam pelo mesmo processo de envelhecimento no corpo que 
passam na cultura de laboratório - hipótese que ainda não foi comprovada –, 
então as influências ambientais desempenhariam pouco ou nenhum papel no 
envelhecimento (GERHARD; CRISTÓFALO, 1992). 
O corpo humano, como uma máquina, seria biologicamente programado 
para falhar em determinado ponto. A falha poderia ocorrer por meio da 
senescência programada: genes específicos sendo "desativados" antes que perdas 
relacionadas com a idade (por exemplo, de visão, de audição e de controle motor) 
se evidenciem. Ou o relógio biológico poderia atuar sobre os genes que controlam 
as mudanças hormonais ou causam problemas no sistema imunológico, deixando 
o corpo vulnerável a doenças infecciosas. Existem evidências de que algumas 
alterações físicas relacionadas à idade, como perda da força muscular, acúmulo de 
gordura e atrofia de órgãos, podem estar relacionadas com declínios na atividade 
hormonal (LAMBERTS, VAN DEN BELD e VAN DER LELY, 1997; RUDMAN et 
al., 1990). E os índices de produção de células imunológicas podem prognosticar 
taxas de sobrevivência de dois anos entre os idosos mais velhos (MILLER, 1996). 
Ainda outra hipótese é a de que o relógio biológico é regulado por 
um encurtamento gradual dos telômeros, as extremidades protetoras dos 
cromossomos, toda vez que a célula se divide. Essa erosão programada, com 
o tempo evolui para um ponto em que a divisão celular cessa totalmente (de 
LANGE, 1998). Evidências de apoio a essa hipótese provêm de um estudo em 
que o gene para a telomerase - enzima que permite aos cromossomas sexuais 
repararem seus telômeros - foi introduzida em células corporais humanas em 
cultura de laboratório, juntamente com um mecanismo para ativar o gene. As 
células continuaram se dividindo muito além de seu ciclo de vida normal, sem 
qualquer anormalidade aparente (BODNAR et al., 1998). 
TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO
85
Se o prolongamento dos telômeros pode reajustar o relógio do 
envelhecimento biológico, no futuro os cientistas talvez sejam capazes de prevenir 
ou de tratar a arteriosclerose, a demência, o enrugamento da pele, a rigidez nas 
articulações e outras doenças e deficiências da velhice. Não resta dúvida de 
que os genes "exercem forte controle sobre o ciclo de vida e sobre os padrões 
de envelhecimento" (FINCH; TANZI, 1997, p. 407). Entretanto, a programação 
genética não pode sozinha explicar tudo; caso contrário, todos os seres humanos 
morreriam na mesma idade. Fatores ambientais e experienciais interagem com 
fatores genéticos (FINCH; TANZI, 1997).
Em que medida podemos prolongar o ciclo de vida?
Quando a francesa Jeanne Calment morreu em 1997, aos 122 anos, o 
ciclo de vida dela foi o mais longo já documentado na história. Será possível que 
os seres humanos possam viver ainda mais tempo - 130, 150 ou até 200 anos? 
Muitos gerontologistas têm sustentado que 110 a 120 anos é o limite do ciclo de 
vida humano - a possível duração da vida para membros da espécie humana, 
assim como o limite máximo para os cães é cerca de 20 anos e, para tartarugas, 
150 (NIA, 1993). O limite Hayflick prevê que, mesmo que todas as doenças e 
as causas de morte fossem eliminadas, os seres humanos viveriam apenas até 
cerca de 110 anos; então, o relógio celular se gastaria, e eles morreriam. Até 
pouco tempo, mudanças históricas nas curvas de sobrevivência - percentual de 
pessoas que vivem até diversas idades - apoiavam a ideia de um limite para a 
vida humana. Embora muitas pessoas estivessem vivendo mais tempo do que no 
passado, as curvas ainda terminavam em torno da idade de 100 anos; isso sugeria 
que, independentemente da saúde e boa forma, o ciclo de vida máximo não é 
muito mais longo. Hoje, contudo, dados sobre centenários parecem contradizer 
essa perspectiva. A pesquisa com animais está contestando a ideia de um limite 
geneticamente inalterável para cada espécie. Os cientistas prolongaram os ciclos 
de vida saudável de minhocas, de mosquinhas-das-frutas e de camundongos 
através de ligeiras mutações genéticas (ISHII et al., 1998; JOHNSON, 1990; 
KOLATA, 1999; LIN; SEROUDE; BENZER, 1998; PARKES et al., 1998; PENNISI, 
1998). Em seres humanos, contudo, o controle genético de um processo biológico 
pode ser muito mais complexo. Aproximadamente 200 genes parecem envolvidos 
na regulação do envelhecimento humano (SCHNEIDER, 1992), sendo que genes 
específicos controlam diferentes processos. É bastante possível que nenhum gene 
ou processo isolado seja responsável pela senescência e pelo fim da vida. Por 
conseguinte, parece improvável que a terapia genética possa mudar o limite. 
FONTE: PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: 
Artmed, 2006, p. 671-673.
86
RESUMO DO TÓPICO 3
 Neste tópico, você aprendeu que: 
• O estudo do Desenvolvimento dedicou-se, durante muito tempo, apenas 
aos estudos do desenvolvimento infantil e da adolescência, deixando os 
estudos acerca da velhice em segundo plano. Atualmente, contamos com 
amplos estudos na área do Envelhecimento, que é definida como a área que 
se dedica à investigação das alterações comportamentais que acompanham o 
gradual declínio na funcionalidade dos vários domínios do comportamento 
psicológico, nos anos mais avançados da vida adulta (NERI, 1995 apud 
ARAÚJO; CARVALHO, 2004). 
• O envelhecimento implica processos de deterioração biológica, intelectual e 
cognitiva. Contudo, todos os referidos processos são influenciados pelo estilo 
de vida do sujeito. Alimentação saudável, prática regular de atividade física, 
dedicar-se a atividades que exijam concentração, como leituras e jogos, por 
exemplo, bem como a criação e manutenção de comportamentos satisfatórios 
no aspecto emocional, configuram estratégias eficazes para um envelhecimento 
saudável.• No aspecto afetivo, ter alguém com quem conversar pode fazer muito bem ao 
idoso. Todos precisam falar sobre o que sentem e isso não é diferente nesse 
momento do desenvolvimento. Ter alguém que o escute e valorize o que ele 
tem a dizer favorece muito a autoestima do idoso. Tão importante quanto as 
demais, é necessário ainda evitar situações de estresse e motivar-se com algo 
que julga importante (ter um hobby ou mesmo uma atividade laboral ou um 
trabalho voluntário). 
87
Chegou a hora de colocar em prática os seus conhecimentos acerca do 
desenvolvimento do idoso ou envelhecimento. Escreva uma redação que 
contemple os aspectos mais importantes do envelhecimento do idoso. Lembre-
se de colocar as suas impressões acerca desse período do desenvolvimento. Não 
se esqueça do título. Bom trabalho!
AUTOATIVIDADE
88
89
UNIDADE 3
PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Ao final desta unidade você será capaz de:
• conhecer o campo das ciências da saúde, reconhecendo seu histórico e suas 
especificidades;
• compreender o que é saúde, como se constituiu a sua política pública;
• ter propriedade para discutir sobre integralidade e promoção em saúde;
• reconhecer e identificar problemáticas de saúde mental.
Esta unidade de ensino contém três tópicos. No final de cada um deles você 
encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.
TÓPICO 1 – A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
TÓPICO 2 – COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO 
AMPLO
TÓPICO 3 – PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDIS 
CIPLINARES
90
91
TÓPICO 1
A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, as pesquisas têm demonstrado que o comportamento 
e o estilo de vida das pessoas têm impacto sobre o desenvolvimento ou 
agravamento de doenças. Sendo assim, especialistas em comportamento, como 
os psicólogos, se inseriram em instituições de saúde diante da necessidade de 
pensar o processo saúde e doença numa dimensão psicossocial e intervir sobre os 
contextos dos indivíduos e grupos expostos a diferentes doenças e condições de 
saúde inadequadas (ALMEIDA; MALAGRIS, 2011).
Algumas profissões chegaram tardiamente na área da saúde; os pioneiros 
não compreendiam ao certo o que poderiam realizar, afinal, a atuação era 
prioritariamente clínica, por isso, esse profissional não sabia com quem deveria 
atuar: Com os usuários? Com os profissionais? Deveria manter o foco no 
tratamento clínico individual ou atuar com o todo? Nos dias de hoje, os estudos 
comprovam que os profissionais que atuam na saúde devem ter um trabalho 
interdisciplinar e devem focar no paciente.
À medida que a população foi crescendo, as técnicas de tratamento na 
saúde foram se aprimorando, englobando novas atuações dentro desse contexto 
social. Profissões como educador físico, fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta 
ocupacional e biomédico foram sendo inseridas dentro das ciências da saúde 
para melhorar o enfoque e aprimorar o atendimento. 
2 HISTÓRICO DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE
Fundamentada na teoria de Darwin e no pensamento de dualismo 
cartesiano, a medicina moderna iniciou-se no século XIX com o estudo do 
homem por meio de dissecações e investigações físicas. Com as intervenções em 
laboratório, utilizando-se de microscópios, da química e da eletricidade, cada vez 
mais a medicina se apoiava na fisiologia e anatomia para buscar compreender de 
forma mais profunda a saúde e a doença. Desse modo, nasceu o modelo biomédico 
de saúde, cuja visão sustentava que as doenças ocorriam a partir de mudanças 
biológicas, advindas de fatores externos, como desequilíbrios químicos ou 
bactérias, ou por fatores internos involuntários, como a predisposição genética. 
Neste sentido, o homem não era responsável pelo seu adoecimento. Desta forma, 
a intervenção estava voltada somente para a modificação do estado físico do 
corpo (BARLETTA, 2010; STRAUB, 2005).
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
92
ATENCAO
O modelo biomédico foi a forma de pensar que predominou na época e vemos 
que até hoje é um modelo que norteia o fazer do profissional e até mesmo a nossa visão. 
Afinal, quando você está “doente”, a quem busca primeiramente? Ao médico, não é mesmo? 
E os exames a que você é submetido são os físicos. Geralmente, procuramos o médico antes 
de procurar demais especialidades de profissionais de saúde
FIGURA 21– A HISTÓRIA DA SAÚDE
 FONTE: Disponível em:. Acesso em: 
30 jan. 2018.
2.1 TENDÊNCIAS QUE MOLDARAM AS CIÊNCIAS DA SAÚDE
Para que houvesse o aumento dos cursos na área da saúde e a formação 
de novos profissionais se fizesse presente no campo da saúde, foram necessárias 
mudanças sociais e históricas, às quais Straub (2005) denomina de tendências. 
Com essas tendências houve a necessidade de um modelo mais amplo de saúde 
e de doença, partindo da observação do comportamento humano.
A primeira tendência é o aumento na expectativa de vida. Conforme 
Straub (2005), há menos de 100 anos 15% dos bebês que nasciam morriam no seu 
primeiro ano de vida e, para aqueles que sobreviviam, a expectativa de vida era 
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
93
de aproximadamente 50 anos. Com a melhoria dos serviços de saúde, atualmente 
90% dos bebês sobrevivem e o número de anos que provavelmente esse ser viverá 
aumentou cerca de 20 anos. Apesar dessa boa notícia, há muita desigualdade 
na expectativa de vida, pois está associada à condição socioeconômica. Com as 
pessoas vivendo mais, há mais consciência pública com relação às questões de 
saúde, estabelecendo, assim, a importância de melhorar a qualidade de vida da 
população que passou a viver mais.
Outro aspecto significante que Straub (2005) aborda diz respeito ao 
surgimento de transtornos relacionados com o estilo de vida, pois, durante 
os séculos XVII, XVIII e XIX, as pessoas morriam principalmente por doenças 
causadas por contaminação de alimentos, água, infecções contraídas, epidemias. 
Com a melhoria da higiene pessoal, nutrição e saúde pública durante o século 
XIX, houve uma diminuição no número de mortes por doenças infecciosas. 
Certamente, nos países menos desenvolvidos, doenças como a tuberculose e a 
pneumonia ainda permaneciam, sendo as principais causas de morte. No entanto, 
hoje em dia, as principais causas de morte são outras, como o câncer, o AVC e as 
doenças cardíacas, que não resultam de infecções virais ou bacterianas. 
Straub (2005) assinala que estas doenças são as ditas “doenças do estilo 
de vida”, pois podem ser amplamente prevenidas, mas suas causas não são 
facilmente identificáveis. O risco que uma pessoa corre em desenvolver doenças 
cardíacas e câncer de pulmão, garganta ou bexiga é aumentado pelo hábito de 
fumar, ter uma vida sedentária, consumir alimentos com alto teor de gordura, 
por isso são consideradas causas evitáveis. Por envolverem fatores sociais e 
psicológicos, requerem mudanças, auxílio profissional e comprometimento 
psicológico por parte da pessoa. 
A terceira tendência que Straub (2005) evidencia foi a necessidade de 
ir além do modelo biomédico. Uma limitação da medicina é explicar por que 
o mesmo conjunto de fatores de risco determinadas vezes desencadeia uma 
doença e em outras não. Como exemplo, um homem de 45 anos, obeso, fumante e 
sedentário, com um histórico familiar de doença cardíaca, tem um ataque cardíaco 
fatal, enquanto outro com as mesmas características e fatores de risco permanece 
livre de doenças cardíacas. Neste âmbito, pesquisadores descobriram que fatores 
psicológicos, como a maneira de uma pessoa reagir ao estresse, combinam-se 
com fatores de riscos físicos para determinar o risco à saúde do indivíduo.
“Um problema intimamente relacionado ao modelo biomédico é explicar 
por que uma forma de tratamento, com o uso de certa medicação, pode curar 
determinada doença em uma pessoa, mas não em outra” (STRAUB, 2005, p.38). 
Nesse sentido, também se tem considerado que há fatores psicológicos e sociais 
que influenciam substancialmente sobre o tratamento. O autor cita o efeito 
placebo (o poder da crença de uma pessoa na eficácia de um tratamento a ponto 
de influenciar na sua intervenção) como sendo um fator que tem poder de cura, 
assim como o relacionamento entre médico e paciente também influencia muito.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
94
O último fator que Straub (2005) aponta foi o rápido aumento nos custos dos 
serviços de saúde. A ênfase da Psicologia da Saúde em modificar comportamentos 
de risco antes que causem doenças tem o poder de reduzir custos com a saúde. 
Por exemplo, reduzir ou eliminar o hábito de fumar ou aumentar o uso de testes 
diagnósticos pode reduzir o alto índice de câncer e mortes relacionadas a ele.
FIGURA 22 – AUMENTO DA POPULAÇÃO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018.
3 A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS NA SAÚDE
A partir do panorama aqui exposto, outras ciências se inseriram na saúde. 
Como exemplo temos a psicologia, a educação física, a biotecnologia. Todas se 
constituíram para melhorar os serviços de saúde, entender o contexto da saúde e 
auxiliar no atendimento à população. 
A PSICOLOGIA
O interesse da Psicologia da Saúde está principalmente na maneira como 
o sujeito vive e experimenta o seu estado de saúde ou de doença, na sua relação 
consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Objetiva fazer com que as pessoas 
incluam no seu projeto de vida um conjunto de atitudes e comportamentos 
ativos de promoção e prevenção em saúde, além de aperfeiçoar técnicas de 
enfrentamento no processo de adoecer (ALMEIDA; MALAGRIS, 2011).
 
A primeira definição de Psicologia da Saúde é de Matarazzo, em 1980: 
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
95
Um conjunto de contribuições educacionais, científicas e profissionais 
da disciplina da Psicologia para promoção e manutenção da saúde, 
a prevenção e tratamento de doenças, a identificação da etiologia e 
diagnóstico dos correlatos de saúde, doença e funções relacionadas, 
e a análise e aprimoramento do sistema e regulamentação da saúde 
(MATARAZZO, 1980 apud KERBAUY, 2002, p. 15).
Barletta (2010) assinala que, após esta descrição, que mais uma vez 
desafiou a cisão entre mente e corpo, sendo aceita mundialmente, a disciplina se 
estabeleceu como própria da área da Psicologia. Na Psicologia da Saúde a doença 
é considerada como multicausal, sendo uma combinação de variáveis, tanto 
biológicas (vírus, bactérias, lesões), como psicológicas (comportamento, crenças, 
estresse, dor) e sociais (classe, emprego, etnia), afastando-se do pensamento linear 
de causa-efeito. Nesta perspectiva, o indivíduo deixa de ser um agente passivo ao 
adoecimento e ocupa um lugar primordial, já que o comportamento é um fator de 
extrema importância para o desenvolvimento da doença. 
Na medida em que o foco deixa de ser a mudança física no organismo 
e passa a ser a pessoa, a forma de tratamento também difere. Ao se considerar 
a saúde e a doença como parte do mesmo continuum, a responsabilidade pelo 
tratamento acaba sendo dividida com todos, desde o médico, a equipe de saúde 
e o próprio paciente. 
Barletta (2010) e Almeida e Malagris (2011) discutem que os termos 
Medicina Comportamental e Psicologia da Saúde têm sido utilizados 
frequentemente como similares. Barletta (2010) afirma que as diferenças entre 
ambas estão no enfoque teórico, sendo que a Medicina Comportamental se baseia 
nas ciências do comportamento, enquanto a Psicologia da Saúde utiliza qualquer 
que seja o enfoque psicológico, incluindo também as ciências do comportamento.
Para Teixeira (2004), a Psicologia da Saúde é a aplicação dos conhecimentos 
e técnicas psicológicas à saúde, doenças e cuidados em saúde, focalizando os 
contextos sociais e culturais, experiências, comportamentos relacionados à saúde 
e doença. A finalidade principal é contribuir para a melhoria do bem-estar dos 
indivíduos e comunidades, por isso a intervenção do psicólogo na saúde pode 
reduzir a utilização de medicamentos, potencializar a atuação de demais técnicos, 
promovendo a utilização mais adequada dos serviços de saúde. 
Teixeira (2004) subdivide em cinco grandes áreas os focos de estudo e 
investigação psicológicas na saúde: compreensão da origem e manutenção dos 
problemas de saúde; promoção da saúde e prevenção das doenças; facilitação do 
diagnóstico e tratamento médico; avaliação e tratamento de problemas de saúde 
e melhoria do sistema de cuidados de saúde.
Para Spink (2003), a Psicologia da Saúde é um campo que se configura 
como área onde as questões de saúde estão situadas na interface entre o individual 
e o social. Ou seja, a saúde estabelece problemas individuais, que em conjunto, 
formam um problema social, que deve ser envolvido por todas as profissões. 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
96
A respeito de alguns termos de saúde aqui utilizados, como “níveis de 
prevenção” e “promoção de saúde”, você poderá compreender melhor no segundo tópico 
desta unidade, quando voltaremos a falar sobre tais conceitos.
ESTUDOS FU
TUROS
FIGURA 23– O PSICÓLOGO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018.
 A FISIOTERAPIA
O profissional Fisioterapeuta é um profissional com formação clínica 
generalista, que atua nas diversas áreas da saúde, dentre elas: saúde do idoso, da 
criança, da mulher, do trabalhador, da família, entre outras. É um profissional 
de primeiro contato que avalia, faz diagnóstico fisioterapêutico, prescreve, 
executa o tratamento e encaminha o paciente à alta ou a outros profissionais, se 
necessário. Suas ações desenvolvem-se em todos os níveis de atenção à saúde 
(primário, secundário e terciário).
 Assim, os fisioterapeutas estão plenamente habilitados a atuar na 
promoção de saúde, prevenção de doenças, na cura e na reabilitação. Sua atuação, 
por meio de orientações ou abordagem cinética funcional de danos temporários ou 
permanentes, evita desfechos que possam implicar em grandes gastos monetários, 
danos psicológicos ou diminuição da qualidade de vida do indivíduo.
O fisioterapeuta detém habilidades e competências para atividades de 
atenção à saúde, tais como: 
• Administrativas: na organização dos serviços de saúde, coordenação e gestão 
dos serviços de fisioterapia; na educação em saúde voltada ao acompanhamento 
dos programas de saúde pública e visitas domiciliares. 
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
97
• Assistenciais: na assistência de vigilância epidemiológica e sanitária, 
crescimento e desenvolvimento da criança, atenção à saúde dos adolescentes, 
da mulher, do adulto e do idoso. 
A EDUCAÇÃO FÍSICA
 
O Ministério da Saúde (MS), atento aos fatores determinantes de saúde e 
principalmente aos altos índices de sedentarismo no Brasil, incluiu a atividade física 
no Sistema Único de Saúde (SUS) como fator primordial para melhorar a qualidade 
de vida da população. Iniciou assim uma série de ações para promoção da saúde 
e prevenção de doen ças através do exercício físico, e incorporou os Profissionais 
de Educação física no quadro de profissionais da saúde. A Academia da Saúde 
se torna um espaço apropriado à promoção da saúde e à educação da população 
para o autocuidado, favorecendo o acesso à informação e consequentemente à 
saúde de qualidade. A prática do exercício físico prescrito e orientado por esses 
profissionais pode trazer benefícios tanto aos cofres das esferas governamentais, 
como, em primeiro lugar, à saúde do cidadão. No contexto específico dos cursos 
de bacharelado e licenciatura, o licenciado e bacharel em educação física ensinam, 
mas de modos diferentes e em espaços e tempos diferentes.
A educação física tem como objetivo auxiliar no desenvolvimento do 
indivíduo como um todo, trabalhandoseus aspectos biológicos, psicológicos 
e sociais e isso nos leva a considerar que a educação física se mostra um papel 
fundamental para o auxílio da inclusão como um todo, não só nas aulas, mas 
também na sociedade. Dentro das equipes de saúde, o profissional de educação 
física encontra-se apto a desenvolver e aplicar projetos que busquem à melhora da 
saúde física e mental das pessoas através da atividade física. 
FONTE: Conselho Federal de Educação Física. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018.
FIGURA 24 – ATUAÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
98
A FONOAUDIOLOGIA
O fonoaudiólogo é um profissional da Saúde, de atuação autônoma e 
independente, que exerce suas funções nos setores público e privado. É responsável 
por promoção da saúde, avaliação e diagnóstico, orientação, terapia (habilitação/
reabilitação), monitoramento e aperfeiçoamento de aspectos fonoaudiólogos 
envolvidos na função auditiva periférica e central, na função vestibular, na 
linguagem oral e escrita, na articulação da fala, na voz, na fluência, no sistema 
miofuncional orofacial e cervical e na deglutição. Exerce também atividades 
de ensino, pesquisa e administrativas (Conselho Federal de Fonoaudilogia – 
CREFONO, 2007).
FIGURA 25– A FONOAUDIOLOGIA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018.
A NUTRIÇÃO
O mercado de atuação do nutricionista vem crescendo a cada ano e este 
profissional ganha cada vez mais importância na promoção do bem-estar e da 
saúde da população. Confira, a seguir, as áreas de atuação estabelecidas de acordo 
com a Resolução CFN nº 380/2005 e suas atribuições. Vai da alimentação coletiva, 
nutrição clínica, saúde coletiva, indústria de alimentos, nutrição esportiva, até a 
área de marketing de alimentos.
Compete ao nutricionista, no exercício de suas atribuições na Alimentação 
do Trabalhador, planejar, organizar, dirigir, supervisionar, avaliar os serviços de 
alimentação e nutrição, dietética de indivíduos sadios ou enfermos.
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
99
FIGURA 26 – A NUTRICIONISTA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
A BIOTECNOLOGIA
No campo da saúde, a biotecnologia pode levar à descoberta de novas 
formas de diagnosticar, tratar e prevenir doenças. O biotecnólogo poderá 
desenvolver trabalho técnico e/ou gerencial nas indústrias de fármacos e 
medicamentos, atuando de forma intensiva na prevenção e tratamento de doenças.
A Biotecnologia caracteriza-se por seu caráter sistêmico, interdisciplinar, 
ou seja, encontra-se na encruzilhada de ciências como química, bioquímica, 
engenharia enzimática, engenharia química, industrial, genética, microbiológica, 
além de microbiologia, matemática, informática, automação, engenharia clássica, 
pesquisa em economia, ciências humanas, entre outras.
FIGURA 27– A BIOTECNOLOGIA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
100
A BIOMEDICINA
O biomédico é o profissional que atua em 33 áreas, acompanha o campo 
da descoberta científica, suas funções são de prevenção, tratamento e diagnóstico 
de determinadas patologias que acercam a humanidade. O ramo de atividade 
profissional é amplamente diversificado, que visa também facilitar a atuação de 
novos biomédicos e sensibilizar a sociedade sobre a real importância da Biomedicina 
no contexto da saúde do país, ao mesmo tempo em que persegue a conquista e 
adoção de políticas públicas de saúde que tenham como objetivo alcançar a 
sociedade brasileira em todos os seus segmentos. As áreas de atuação são:
• análise ambiental;
• análises bromatológicas (de alimentos);
• análises clínicas;
• biologia molecular;
• citologia (estudo das células);
• diagnóstico por imagem;
• carreira acadêmica através de docência e/ou pesquisa;
• embriologia;
• farmacologia;
• genética;
• histologia (estudo dos tecidos que formam animais e plantas);
• imunologia;
• microbiologia;
• parasitologia;
• patologia, entre outros.
IMPORTANTE
Ainda existem outras áreas que foram sendo inseridas na saúde para melhorar 
a qualidade de vida, o atendimento e a segurança da população, porém não podemos citar 
todas aqui. Com a evolução da internet, você consegue acessar a todas as profissões que 
englobam as ciências da saúde, suas respectivas áreas de atuação e também seu código de 
ética e conduta.
4 COMPORTAMENTO EM SAÚDE
Como vimos, a preocupação do passado com o meio ambiente e epidemias 
mudou no século XX, sendo o comportamento das pessoas o novo foco no 
processo de adoecimento ou de ser saudável. Um dos primeiros estudos sobre a 
importância do comportamento na saúde e prevenção de doenças foi relacionado 
à falta de atividade física e doença coronária. Hettlher (1982 apud RIBEIRO, 2004) 
definiu wellness, sinônimo de “estilo de vida”, como um processo ativo por meio 
do qual o indivíduo se torna consciente e faz escolhas que conduzam a uma 
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
101
melhor existência. Mais tarde, a Organização Mundial de Saúde (2009) define que 
estilo de vida é um conjunto de estruturas mediadoras que refletem a totalidade 
de atividades, atitudes e valores sociais (RIBEIRO, 2004).
Ribeiro (2004) buscou desenvolver um Questionário de Atitudes e 
Comportamentos de Saúde para utilizar de maneira prática em investigação no campo da 
saúde. Para conhecer seu artigo, acesse .
DICAS
Conforme aponta Barletta (2010), a cada dia fica mais evidente a relação 
entre comportamentos inadequados, estilos de vida e problemas de saúde, 
bem como, respostas psicológicas adequadas e o aumento de qualidade de 
vida. Também pode ocorrer o inverso, aspectos orgânicos podem interferir nas 
respostas psicológicas e comportamentais. 
Os comportamentos em saúde foram definidos de duas formas 
por Matarazzo em 1984: (a) hábitos prejudiciais à saúde, também 
chamados de comportamentos patogênicos, como fumar, que é um 
comportamento de risco e (b) comportamentos de proteção à saúde 
ou comportamentos imunogênicos, como fazer um check-up rotineiro 
(BARLETTA, 2010, p. 310-311).
Ainda existem outras formas de as respostas psicológicas influenciarem a 
saúde. Uma seria provocando mudanças físicas no organismo, como o estresse; 
aumentar habilidades de enfrentar e manejar o estresse poderia ser colocado 
como comportamentos de proteção à saúde. A segunda forma de influência está 
ligada à mediação cognitiva, uma vez que comportamentos e reações frente à 
possibilidade de adoecimento vão mediar a tomada de decisão e comportamentos 
promocionais de saúde, como a adesão ao tratamento (BARLETTA, 2010).
Falaremos mais a respeito de estresse no último tópico desta unidade.
ESTUDOS FU
TUROS
Grande parcela de doenças crônicas resulta de comportamentos inadequados 
que as pessoas apresentam ao longo da vida. Grilo e Pedro (2005) apresentam 
explicações sobre estes comportamentos de saúde e reações a doenças com 
contribuições de estudos da ciência psicológica, sobre os quais iremos explanar 
brevemente, afinal, quando falamos em promoção de saúde, as áreas da saúde 
vieram para ensinar as pessoas a adquirir e a manter comportamentos saudáveis, 
assim como para mudar hábitos prejudiciais para a sua saúde.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
102
FIGURA 28– O COMPORTAMENTO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
Barletta (2010) evidencia que a percepção distorcidade risco, apontando 
um otimismo irrealista de que há menos probabilidade de ser acometido por um 
problema de saúde que outras pessoas, faz com que muitos continuem a apresentar 
comportamentos patogênicos. Os fatores cognitivos que podem levar ao otimismo 
irrealista são: a falta de experiência pessoal do problema; a crença de que o problema 
é facilmente prevenido pela ação individual; a crença de que, se o problema ainda 
não apareceu, não irá aparecer; a crença de que o problema não é comum. 
Cada comportamento prejudicial para a saúde é sustentado por um conjunto 
de crenças e sentimentos variados da pessoa, estes são suscetíveis à modificação 
por meio de informação e experiência, por isso a importância do profissional de 
saúde conseguir identificá-los para posteriormente encontrar meios para alterá-los, 
para comportamentos mais positivos e saudáveis, conforme afirmam Grilo e Pedro 
(2005). Os autores também trazem contribuições relacionadas ao processo de adoecer 
com enfoque em três áreas: as representações da doença, a adaptação à doença e a 
Apesar de sabermos que a saúde constitui um dos valores mais importantes, 
muitas pessoas não adotam comportamentos benéficos para a sua saúde, assim como 
ainda praticam hábitos prejudiciais, como fumar ou consumir alimentos ricos em 
gordura, por exemplo. Grilo e Pedro (2005) apontam como fatores para este fenômeno 
de não adesão aos comportamentos de saúde o papel dos modelos parentais, por 
observação dos pais, os quais são uma base estável de crenças e de comportamentos 
que tendem a se tornar hábitos no cotidiano. Pesquisas revelam que pais fumantes 
têm maior probabilidade de ter filhos que fumam, assim como pais obesos têm com 
maior frequência crianças obesas.
Outro fator levantado por Grilo e Pedro (2005) é a reduzida motivação para 
praticar bons hábitos de saúde, uma vez que, na idade em que os comportamentos 
são adquiridos, os indivíduos geralmente são saudáveis e não sentem efeito imediato 
sobre o seu bem-estar. Por exemplo, uma alimentação saudável pode reduzir, mas 
não eliminar o risco de um indivíduo vir a desenvolver uma doença como um câncer 
de intestino. Além disso, as crenças de que a pessoa pode controlar a saúde também 
fazem com que se negligencie a ameaça dos comportamentos prejudiciais.
TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE
103
qualidade de vida. Com relação às representações da doença, é fato que as pessoas 
apresentam uma variabilidade no modo como respondem aos sintomas. Há pessoas 
que ignoram sintomas graves, ou que recorrem ao tratamento apenas numa fase 
muito avançada da doença, enquanto outras procuram ajuda dos profissionais a 
qualquer alteração. De fato, um sintoma não é analisado objetivamente, mas sim é 
integrado em um esquema de representações, por isso varia de um indivíduo para 
outro. A representação que uma pessoa pode fazer de uma forte dor de cabeça pode 
ser muito ansiogênica se um familiar próximo faleceu recentemente com um tumor 
cerebral, enquanto que outro sujeito, sem experiência semelhante, pode encarar o 
sintoma com naturalidade, atribuindo-o ao fato de ter trabalhado durante horas 
seguidas junto ao computador.
A adaptação à doença depende de fatores sociais, demográficos, como 
idade e desenvolvimento cognitivo, relacionados ao grau da doença, físicos e 
socioeconômicos, como a valorização de aspectos estéticos, tipo de relacionamento 
com a família. Perante um diagnóstico, a pessoa realiza uma avaliação da situação e 
a forma como interpreta seu estado de saúde condiciona a estratégia que irá utilizar, 
o que pode ser uma adaptação saudável ou inadequada. A adaptação inclui aspectos 
como o caráter subjetivo da dor, a importância da sua avaliação, a reação a exames, 
os quais muitas vezes são aversivos à pessoa que já está doente. Neste âmbito, o 
fornecimento adequado de informações e estratégias de controle de ansiedade 
mostra-se importante, conforme Grilo e Pedro (2005). Já no que se refere à qualidade 
de vida, os autores afirmam que não é fácil definir tal conceito, pois é dinâmico e 
varia de acordo com o tempo. Todavia, consideram fundamentais dois conceitos: 
a multidimensionalidade e a subjetividade. A multidimensionalidade se refere à 
necessidade de a qualidade de vida ir além do bem-estar físico, por exemplo, uma 
melhora de efeitos da quimioterapia e regressão de um tumor não significam melhora 
equivalente no estado psicológico ou social da pessoa que tem a doença, pois ela pode 
não ter o apoio por parte dos familiares neste processo, assim como os sentimentos 
com relação à sua condição podem piorar. A subjetividade, neste âmbito, reflete o 
caráter pessoal do conceito, a avaliação pessoal referente à satisfação com sua vida. 
Sendo assim, avaliar a qualidade de vida da pessoa exige do profissional avaliar para 
além da melhora dos sintomas, da condição da doença.
FIGURA 29– A PSICOLOGIA DA SAÚDE
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
104
 Neste tópico, você aprendeu que:
• A Psicologia, e outras ciências, como a educação física e fisioterapia, inseriram-
se na saúde por necessidade após transformações nas concepções de saúde, 
aumento da expectativa de vida, mudanças nas formas de doenças existentes, 
pois o estilo de vida passou a influenciar essas áreas.
 
• As concepções em saúde, inicialmente, baseavam-se no modelo biomédico, 
porém, com o tempo, para além do físico, passou-se a considerar os fatores 
mentais, sociais, culturais e ambientais relacionados à saúde e à doença. 
• Houveram mudanças no campo de atuação de algumas das últimas profissões 
que foram inseridas na saúde, e trouxemos a especificação para que você possa 
compreender e saber como atuar de forma interdisciplinar.
• Foram desenvolvidos alguns estudos sobre comportamentos em saúde, como 
motivação para bons hábitos, estilo de vida, comportamentos de risco, dentre 
outros. De modo geral, as áreas de ciências da saúde buscam contribuir para 
a melhoria do bem-estar integral dos indivíduos e das comunidades, dando 
relevância à promoção e prevenção em saúde.
RESUMO DO TÓPICO 1
105
1 Explique qual a diferença entre as áreas de atuação da educação física e da 
fisioterapia.
2 A partir da apresentação dos conceitos sobre a inserção das diversas áreas 
nas ciências da saúde, comente sobre a importância das três tendências de 
Straub e opine se hoje essas tendências continuam em evidência, ou seja, se 
ainda existem.
AUTOATIVIDADE
106
107
TÓPICO 2
COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO 
AMPLO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Utilizamos cotidianamente o termo saúde e falamos dele ao longo do 
primeiro tópico desta unidade, porém, você sabe dizer o que é saúde? Este termo 
é de difícil definição, entretanto é fundamental que, enquanto profissionais da 
área, saibamos conceituar saúde e, acima de tudo, compreender sobre ela. 
 
Neste tópico estudaremos sobre a política pública de saúde, utilizando 
como base principal a legislação e outros materiais nacionais de referência. 
Abordaremos a Política Nacional de Atenção Básica e os princípios de promoção 
de saúde e integralidade, os quais são muito preconizados atualmente, por 
isso a importância de estudar seus conceitos. Por fim, estudaremos sobre 
comportamentos em saúde, trazendo contribuições do estudo da Psicologia para 
o trabalho em saúde.
2 CONCEITUANDO SAÚDE
De acordo com Daneluci (2010), a definição de saúde como ausência de 
doenças foi colocada à prova em 1948, quando a Organização Mundial da Saúde 
(2009, s.p.) a definiu como “[...] estado completo de bem-estar físico, mental e 
social, e não somente ausência de enfermidade ou invalidez”. Todavia, não 
podemos definir saúde apenas desta forma, afinal, quem de nós considera estar 
em um estado deste? Nesse sentido, o conceito foi criticado por estudiosos, na 
medida em que é impossível definir a existência de um estado completo de bem-
estar, pois enquanto organismos,estamos em constante mudança.
Se alguém lhe perguntar como você está de saúde, o que você responderia? 
Muitas vezes, estamos bem, porém qualquer imprevisto pode nos deixar mal. 
Outras vezes, fisicamente está tudo certo, mas as preocupações com os problemas 
do cotidiano fazem com que não nos sintamos bem. Algumas situações fazem com 
que nos sintamos doentes; por vezes, identificamos uma causa ou percebemos que 
alguma coisa agrediu nosso corpo. Em outros momentos, algo não vai bem, mas não 
nos sentimos doentes, por isso esperamos passar, buscamos relaxar. Quando não 
percebemos nenhuma alteração na nossa rotina ou não associamos com preocupações, 
acabamos nos indagando se há algum processo fisiopatológico desregular.
108
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
Se a ideia de doença e de saúde se encontra muito próxima do que cada 
um considera “sentir-se bem”, vai variar de pessoa para pessoa e depender de 
cada cultura, do meio em que se está inserido e da sua relação com o mundo. Em 
algumas localidades mais precárias, onde, por exemplo, o acesso a água potável é 
um problema, as diarreias infantis são consideradas somente como “desarranjos” 
e, por sua frequência constante, acabam sendo encaradas como “normais”. Essas 
situações nos mostram que existem definições diferentes a respeito de saúde e de 
doença dadas pelas pessoas, pelos profissionais de saúde (BRASIL, 2005).
O que as pessoas consideram como doença ou não se encontra em estreita 
relação com as estratégias de resolução do problema: buscar por profissionais 
de saúde, utilizar recursos terapêuticos naturais ou a automedicação. “Como o 
desenvolvimento do conhecimento humano é um processo histórico, também 
em relação à saúde/doença, a teoria e a prática que orientam o saber-fazer dos 
profissionais variam no tempo e no espaço” (BRASIL, 2005, p. 31). Sempre há 
novas teorias que buscam explicar a situação de saúde/doença, tendo como 
referência o modo como a sociedade se organiza e estabelece as condições de 
vida das pessoas.
Daneluci (2010) assinala que não somos estáveis, assim, a saúde não 
representa a mesma coisa para todas as pessoas, depende de época, lugar, 
vivências pessoais de cada um, classe social, gênero, faixa etária, assim como 
valores individuais até mesmo influenciados pela religião. Esse assunto está 
ligado aos processos de construção de vida de cada pessoa e saúde e doença não 
são conceitos definitivos, tampouco opostos, ambos referem-se à sobrevivência, 
à qualidade de vida. São conceitos que dependem do lugar de onde se está, dos 
tempos, dos contextos e das tensões em que cada um está inserido.
Em Brasil (2005) propõe-se uma analogia entre o corpo humano e uma 
máquina, ou melhor, uma impossibilidade de relação entre ambos, pois não se 
pode comparar a saúde do corpo com a eficiência de uma máquina; o estado de 
bom funcionamento da máquina não é sua saúde e seu descompasso nada tem a 
ver com doença. É importante rejeitar essa associação para ampliar o conceito de 
saúde, resgatando seu sentido singular e subjetivo, pois quando falamos a respeito 
de saúde, fazemos menção à dor ou ao prazer e essas dimensões são subjetivas, 
escapam a medições. Assim, a saúde é compreendida como a capacidade de 
cada um de enfrentar situações novas, como a possibilidade de uma pessoa ficar 
doente e poder recuperar-se. Vivemos com saúde, convivendo e equilibrando 
nosso organismo, mesmo com as anomalias, as tensões e os desconfortos.
Assim, há um conjunto de condições desfavoráveis de existência que deve 
ser considerado como sendo causa de predisposição a doenças futuras; somos 
expostos a condições de vida insalubres e estressantes, a acessos inadequados aos 
serviços considerados essenciais. Considerando que a experiência humana inclui 
a doença, não há saúde perfeita. Portanto, a implantação de políticas de saúde 
com objetivos possíveis é fundamental. 
TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO
109
Brasil (2005) também refere saúde como segurança contra os riscos, 
coragem para corrigi-los e possibilidade de superar as capacidades iniciais. Os 
riscos fazem parte da saúde e o mais importante é identificarmos aqueles que 
podem e devem ser evitados e aqueles que são próprios da experiência da vida 
humana. A saúde das pessoas é um assunto que se refere, primordialmente, a elas 
próprias, e o papel dos profissionais deve ser o de oferecer seus conhecimentos 
técnicos para auxiliar na autonomia das pessoas, no processo de defesa da vida.
3 A POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE
Em 1978 foi realizada a Primeira Conferência Internacional sobre 
Cuidados Primários de Saúde em Alma-Ata, quando foi percebida a necessidade 
de ações urgentes na área da saúde. Nesta Conferência foi enfatizado que a saúde 
é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a 
ausência de doença, sendo um direito fundamental. O nível de saúde mais elevado 
foi estabelecido como a meta social mundial e os cuidados primários de saúde 
são o “carro-chefe” para que esta meta seja atingida, para que seja trabalhada a 
promoção de saúde e não somente curar e reabilitar, afinal, estas ações indicam 
que já exista enfermidade instalada (BRASIL, 2002). 
FIGURA 30– CONFERÊNCIA DE ALMA-ATA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
Para planejar ações para conquistar este objetivo de promover saúde 
de forma integrada e funcional, realizou-se, em 1986, a Primeira Conferência 
Internacional sobre Promoção de Saúde em Ottawa.
110
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
A responsabilidade pela promoção da saúde nos serviços de saúde 
deve ser compartilhada entre indivíduos, comunidade, grupos, 
profissionais da saúde, instituições que prestam serviços de saúde e 
governos. Todos devem trabalhar juntos, no sentido de criarem um 
sistema de saúde que contribua para a conquista de um elevado nível 
de saúde (CARTA DE OTAWA, 1986, s.p.).
 
Diante disso, os países ligados à Organização Mundial de Saúde precisavam 
produzir saúde num âmbito coletivo e, a partir disso, o Brasil começou a discutir 
uma reforma na sua política de saúde. Com o processo de queda da ditadura militar 
e transição democrática do país, se desenvolveu a Constituição Federal, em 1988, 
com repercussões que criaram uma nova política para esta área (BRASIL, 2002).
A Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabelece a saúde como direito 
de todos e dever do Estado, garantindo a redução de risco de doença e acesso 
universal às ações para sua promoção, proteção e recuperação. O serviço deve 
ser descentralizado, com atendimento integral com prioridade para a prevenção 
e com participação da comunidade. Esta nova maneira de idealizar a saúde 
apresenta o Sistema Único de Saúde (SUS), o qual foi regulamentado por meio das 
Leis Orgânicas da Saúde (LOS) nº 8.080/90, de 19 de setembro de 1990, e 8.142/90, 
de 28 de dezembro de 1990. O SUS é um sistema que reúne ações, serviços e 
unidades de saúde integrados para garantir a saúde de toda a população.
Dentre os princípios do SUS estão a equidade da assistência, a universalidade 
do acesso, a resolubilidade, dentre outros, dos quais destacamos o princípio de 
integralidade. Entendemos integralidade como a forma de compreender e prestar 
cuidados ao ser humano, sendo este termo uma forma de pensar e agir, assim 
como uma forma de gestão de cuidados. O objetivo é assegurar atenção integral 
à saúde, desde os níveis mais simples aos mais complexos, compreendendo o 
indivíduo e as coletividades em sua totalidade e singularidades (BRASIL, 1990).
FIGURA 31– LEI ORGÂNICA DA SAÚDE
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO
111
Apresentaremos um quadro para demonstrar as diferenças entre o 
cuidado convencional que era a atenção médica quese tinha anteriormente e o 
modelo de atenção primária em saúde que se preconiza na legislação hoje.
QUADRO 14 – ATENÇÃO MÉDICA CONVENCIONAL E PRIMÁRIA
ATENÇÃO MÉDICA 
CONVENCIONAL ATENÇÃO PRIMÁRIA
Enfoque
Doença Saúde
Cura Prevenção, Atenção e Cura
Conteúdo
Tratamento Promoção de saúde
Atenção por situações Atenção continuada
Problemas específicos Atenção abrangente
Organização
Especialistas Clínicos gerais
Médico Grupo de profissionais
Consulta individual Equipe
Responsabilidade
Apenas setor de saúde Colaboração intersetorial
Domínio pelo profissional Participação da comunidade
Paciente passivo Autorresponsabilidade
FONTE: Adaptado de: Starfield (2002, p. 33)
O quadro apresenta definições elaboradas a partir da Conferência de 
Alma Ata, que definiu as mudanças necessárias para converter a atenção médica 
convencional em atenção primária à saúde de modo mais amplo, tanto na forma 
de ver o processo quanto na forma de trabalho.
De acordo com Brasil (2005), a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080, de 
1990) define que a saúde tem como fatores determinantes e condicionantes a 
alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a 
renda, a educação, o transporte, o lazer, o acesso aos bens e serviços essenciais, 
dentre outros. Neste sentido, o SUS como política pela melhoria da qualidade de 
vida e afirmação do direito à vida e à saúde, neste âmbito ampliado de concepção 
de saúde, deu origem a novas perspectivas de promoção e cuidado à saúde.
Você certamente ouvirá falar nos termos atenção primária, conforme 
descrito acima, bem como atenção básica, termo utilizado no Brasil. Os autores 
Boing e Crepaldi (2010) esclarecem sobre o uso destes. Atenção básica tem 
um sentido amplo e compreende ações integrais que abrangem a promoção 
e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a 
reabilitação e a manutenção da saúde, cujas ações são efetivadas por meio da 
112
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
Estratégia de Saúde da Família. Sendo assim, o termo atenção básica é empregado 
particularmente no contexto da saúde pública do Brasil, já o termo atenção 
primária é internacionalmente utilizado e tem um significado mais restrito, 
relacionado à saúde coletiva em ações de promoção e prevenção. 
A Atenção Básica caracteriza-se como porta de entrada preferencial do 
SUS, formando um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual 
e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção 
de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução 
de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver 
uma atenção integral que impacte na situação de saúde e autonomia 
das pessoas e nos determinantes e condicionantes de saúde das 
coletividades (BRASIL, 2013, p. 19).
Para o desenvolvimento da atenção integral, a Atenção Básica deve cumprir 
algumas funções para contribuir com o funcionamento das Redes de Atenção à Saúde, 
sendo elas: ser base; ser resolutiva, identificando riscos, necessidades e demandas 
de saúde, na perspectiva de ampliação dos graus de autonomia dos indivíduos 
e grupos sociais; coordenar o cuidado, elaborando, acompanhando e criando 
projetos terapêuticos singulares; ordenar as redes, reconhecendo as necessidades de 
saúde da população sob sua responsabilidade, organizando as necessidades desta 
população em relação aos outros pontos de atenção à saúde, contribuindo para que 
a programação dos serviços de saúde parta das necessidades de saúde dos usuários. 
Esta Política Nacional de Atenção Básica tem como estratégia prioritária a Saúde da 
Família, que é o programa executado nas unidades de saúde básicas, as quais muitos 
até hoje denominam de “postinho de saúde” (BRASIL, 2013).
3.1 OS PRINCÍPIOS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE E 
INTEGRALIDADE
Segundo o Manual Técnico de Promoção de Saúde e Prevenção de Riscos 
e Doenças na Saúde Suplementar (BRASIL, 2009a), os primeiros conceitos de 
promoção de saúde derivam dos anos 1920 e 1946, quando se definiram quatro 
tarefas fundamentais da medicina: a promoção da saúde, a prevenção das doenças, 
a recuperação e a reabilitação. Posteriormente, em 1965, foram apresentados três 
níveis de prevenção: primária, secundária e terciária. 
IMPORTANTE
► Prevenção primária: referente à promoção e educação para a saúde quando 
não existem problemas de saúde instalados. Exemplo: trabalho com a população em 
geral na comunidade sobre os riscos do contágio do vírus HIV.
TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO
113
► Prevenção secundária: já existe uma demanda e o profissional atua prevenindo seus 
possíveis efeitos adversos. Exemplo: trabalho com pessoas que recorrem ao exame do HIV 
durante o período de espera do resultado.
► Prevenção terciária: diz respeito ao trabalho com pessoas com problemas de saúde 
instalados, atuando para minimizar seu sofrimento. Exemplo: trabalho com pessoas infectadas 
pelo vírus HIV (CASTRO; BORNHOLDT, 2004).
FIGURA 33– OS PRINCÍPIOS DO SUS
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
Conforme estudado no tópico anterior, os modos de viver foram por 
muito tempo abordados de uma maneira individualizante, colocando o sujeito e 
as comunidades como únicos responsáveis pelas mudanças ocorridas no âmbito 
da saúde e doença. Contudo, na perspectiva ampliada de saúde, dá-se enfoque 
a demais aspectos determinantes, como violência, desemprego, habitação 
inadequada ou ausente, dificuldade de acesso à educação, fome. Sendo assim, 
há a necessidade de uma estratégia mais ampla de intervir em saúde, tomando 
como objeto os problemas e as necessidades de saúde e seus determinantes e 
condicionantes (BRASIL, 2010).
A promoção de saúde é esta estratégia, um modo de pensar e operar 
articulado com as demais políticas públicas e tecnologias, que visa construir 
ações que possibilitem responder às necessidades sociais em saúde. Conforme 
estabelecido na Carta de Ottawa (1986, s.p.):
Promoção da saúde é o nome dado ao processo de capacitação da 
comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e 
saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. 
Para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social 
114
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer 
necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde 
deve ser vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de 
viver. Nesse sentido, a saúde é um conceito positivo, que enfatiza os 
recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a 
promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor saúde, 
e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem-
estar global.
Sendo assim, a promoção de saúde é uma estratégia de articulação transversal, 
que precisa envolver uma rede de compromissos e corresponsabilidades. Esta 
articulação e sintonia diz respeito ao princípio de integralidade, a qual também 
implica na ampliação do acolhimento dos trabalhadores e serviços de saúde 
na relação com os usuários, no sentido de deslocar a atenção da perspectiva 
restrita do adoecimento e seus sintomas, para o acolhimento integral do sujeito, 
suas condições de vida, suas necessidades, respeitando e considerando suas 
especificidades e potencialidades. (BRASIL, 2010).
A política de saúde tem o desafio de construir a intersetorialidade, que 
é esta articulação dos distintos setores, para pensar a questão complexa que é 
a saúde, em que todos se responsabilizam pela garantia desta como um direito 
humano e de cidadania. É necessário o diálogo das diversas áreas tanto do setor 
de saúde quanto do governo de forma geral, assim como no setor privado, não 
governamental, na sociedade, para que todos sejam participantes na proteção e 
no cuidado com a vida.
Pinheiro e Mattos (2009) esclarecemda Psicologia é necessário analisar o contexto em que ela 
se desenvolveu, ou seja, as ideias que predominavam na ciência e na cultura da 
época. O termo que denomina esse período é o Zeitgeist, ou ambiente cultural do 
período. Também é preciso considerar a sociedade, economia e política existentes. 
IMPORTANTE
Zeitgeist: o ambiente intelectual e cultural ou espírito da época
O Zeitgeist dos séculos XVII ao XIX constituiu a base que nutriu a nova 
psicologia. O espírito do mecanicismo, que enxerga o universo como 
uma grande máquina, foi o fundamento filosófico do século XVII, ou 
seja, a sua força contextual básica. Essa doutrina afirmava serem os 
processos naturais mecânicos e passíveis de explicação por meio das 
leis da física e da química (...). Nesse período, os métodos e descobertas 
da ciência avançavam a passos largos junto com a tecnologia, e a 
combinação entre eles foi perfeita. A observação e a experimentação 
tornaram-se os diferenciais da ciência, seguidas de perto pela medição. 
Os especialistas tentavam medir e descrever os fenômenos, atribuindo-
lhes um valor numérico, processo vital para o estudo do funcionamento 
do universo como uma máquina. Os termômetros, os barômetros, as 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
4
réguas de cálculo, os micrômetros, os relógios de pêndulo e outros 
dispositivos de medição eram aperfeiçoados e reforçavam a ideia da 
possibilidade de se medir qualquer aspecto do universo natural. Até 
mesmo o tempo, considerado impossível de ser reduzido a unidades 
menores, já podia ser medido com precisão. (SCHULTZ; SCHULTZ, 
2006, p. 25).
Esses foram os primeiros passos para os experimentos que, mais tarde, 
tornariam as teorias psicológicas passíveis de verificação, adquirindo o status de 
ciência. 
Antes de entendermos como a Psicologia se desenvolveu como ciência 
e permitiu o desenvolvimento de outros estudos, precisamos conhecer os 
fundamentos históricos que a elevaram ao status científico. De acordo com Bock, 
Furtado e Teixeira (2008), a preocupação com a alma e a razão humanas já existia 
entre os gregos antes da era cristã. 
IMPORTANTE
O termo Psicologia vem do grego psyché, que significa alma, e de logos, que 
significa razão, ou seja, “estudo da alma”.
Ainda neste tópico apresentaremos uma ordem cronológica com as 
contribuições de cada filósofo.
Outro grande passo para a ciência, de uma maneira geral, veio com a 
descoberta de Copérnico, mostrando que a Terra não é o centro do universo. 
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), o avanço na produção de conhecimento, 
a partir das descobertas e produções dos pensadores aqui citados, propiciou o 
início da sistematização do conhecimento científico, ou seja, foi a partir deste 
momento que começou a se estabelecer métodos e regras básicas para a construção 
do conhecimento científico, diferenciando-o do senso comum.
2 ASPECTOS HISTÓRICOS E DESCOBERTAS QUE 
REVOLUCIONARAM A HISTÓRIA DA HUMANIDADE
Não podemos falar de ciência sem mencionar também as três feridas 
narcísicas da historia da humanidade. Por falar nisso, você sabe o que são feridas 
narcísicas? As feridas narcísicas da história da humanidade referem-se a três 
grandes descobertas que revolucionaram a forma como o homem se relacionava 
TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
5
com o mundo em que vivia, bem como o seu entendimento sobre o funcionamento 
da mente. O conceito de narcisista diz respeito à apreciação que o homem faz 
de sua própria imagem, e são chamadas de feridas narcísicas justamente pela 
ruptura que provocaram no conhecimento que o ser humano tinha acerca de si 
mesmo e do mundo. 
A primeira delas ocorreu com Nicolau Copérnico (1473-1543), que, por 
meio de observações e cálculos matemáticos, comprovou que a Terra não é o centro 
do universo. Imagine isso acontecendo em uma época em que o cristianismo e a 
Igreja Católica detinham o poder e tudo oi que era produzido por ela era lei, 
como a tese de que Deus colocou a Terra no centro do universo. 
Segundo Copérnico, o Sol passava a ocupar o centro do universo, 
enquanto a Terra e os demais planetas giravam ao seu redor. 
Copérnico, no entanto, manteve, ainda sob influência do antigo 
modelo cosmológico, a ideia de um universo finito, fechado por 
esferas, onde os planetas descreviam órbitas circulares perfeitas. Sua 
teoria heliocêntrica ainda estava fundamentada em critérios de valor. 
Segundo seu ponto de vista, parecia ser irracional mover um corpo 
tão grande como o Sol, em vez de outro tão pequeno como a Terra. 
Além disso, Copérnico atribuía ao Sol, fonte de luz e de vida, uma 
condição superior em nobreza. Portanto, ele seria mais merecedor do 
estado de repouso, sinônimo de estabilidade, do que a Terra, que assim 
permaneceria em constante movimento. (PORTO; PORTO, 2008, s. p.).
A segunda descoberta, que colocou ainda mais a teoria cristã em xeque, 
veio em 1859, com a publicação de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin 
(1809-1882).
Nas situações explicativas que ele cita, a luta pela existência tem 
caráter fortemente causal, seja no plano de cada indivíduo, seja no 
próprio princípio, segundo o qual novas formas orgânicas originam-
se na natureza (idem, ibidem, pp. 138,49):
(...). Como cada (animal) existe por uma luta pela vida, é claro que 
cada um deve estar bem adaptado a seu lugar na natureza. Graças 
a essa luta, variações, embora leves e procedentes de qualquer 
causa, em algum grau, úteis aos indivíduos de uma espécie, nas 
suas infinitamente complexas relações com outros seres orgânicos 
e com suas condições físicas de vida, tenderão à preservação de tais 
indivíduos e serão geralmente herdadas pelos descendentes. Os 
descendentes também terão, assim, uma melhor chance de sobreviver, 
pois dos muitos indivíduos de qualquer espécie que periodicamente 
nascem, apenas um pequeno número pode sobreviver. Chamei a esse 
princípio, pelo qual cada leve variação, quando útil, é preservada, pelo 
termo seleção natural (REGNER, 2001, s. p.). 
Darwin apresentou a sua teoria da evolução das espécies afirmando que 
o ser humano evoluiu a partir dos primatas, contrapondo mais uma vez as ideias 
defendidas pela Igreja. 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
6
A terceira ferida narcísica veio com as descobertas de Sigmund Freud (1856-
1939). Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), Freud formou-se em Medicina 
na Universidade de Viena, em 1881, e especializou-se em Psiquiatria. Trabalhou 
algum tempo em um laboratório de Fisiologia e deu aulas de Neuropatologia 
no instituto onde trabalhava. Além da vida acadêmica, Freud dedicou-se ao 
atendimento clínico de pessoas acometidas por “problemas nervosos”. 
Em 1900, no livro A interpretação dos sonhos, Freud apresenta a primeira 
concepção sobre a estrutura e o funcionamento psíquicos. Essa 
teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas: 
inconsciente, pré-consciente e consciente. O inconsciente exprime “o 
conjunto de conteúdos não presentes no campo atual da consciência” 
(LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B., op. cit.). É constituído por 
conteúdos reprimidos, que não têm acesso aos sistemas pré-consciente 
e consciente, pela ação de censuras internas. Esses conteúdos podem 
ter sido conscientes, em algum momento, e terem sido reprimidos, 
isto é, “foram” para o inconsciente, ou podem ser genuinamente 
inconscientes. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido 
por leis próprias de funcionamento. Por exemplo, é atemporal, não 
existem as noções de passado e presente. O pré-consciente refere-se ao 
sistema em que permanecem os conteúdos acessíveis à consciência. É 
aquilo que não está na consciência nesse momento, mas no momento 
seguinte pode estar. O consciente é o sistema do aparelho psíquico 
que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as do 
mundo interior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção, 
principalmente a percepção do mundoque a integralidade não é apenas uma 
diretriz do SUS, é uma “bandeira de luta”, o objetivo que enuncia características 
do sistema de saúde, práticas que são consideradas desejáveis. Seria um conjunto 
de valores pelos quais vale a pena lutar, pois se relacionam a um ideal de sociedade 
mais justa e solidária. 
Os autores discutem sobre três grandes conjuntos de sentidos no princípio 
de integralidade.
Eles incidem sobre diferentes pontos: o primeiro conjunto se refere a 
atributos das práticas dos profissionais de saúde, sendo valores ligados 
ao que se pode considerar uma boa prática, independentemente de ela 
se dar no âmbito do SUS; o segundo conjunto refere-se a atributos da 
organização dos serviços; o terceiro, aplica-se às respostas governamentais 
aos problemas de saúde (PINHEIRO; MATOS, 2009, p. 65).
Portanto, podemos tomar a integralidade como princípio orientador 
das práticas, da organização do trabalho, da organização das políticas e uma 
afirmação da abertura para o diálogo.
TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO
115
Um paciente não se reduz a uma lesão que no momento lhe causa 
sofrimento. Não se reduz a um corpo com possíveis lesões ainda 
silenciosas, escondidas à espera de um olhar astuto que as descubra. 
Tampouco se reduz a um conjunto de situações de risco. O profissional 
que busque orientar suas práticas pelo princípio da integralidade 
busca sistematicamente escapar aos reducionismos (PINHEIRO; 
MATTOS, 2009, p. 65).
Para os autores, quando se busca orientar a organização dos serviços 
de saúde pelo princípio da integralidade, busca-se ampliar as percepções 
das necessidades dos grupos, as quais não se reduzem às necessidades de 
atendimento oportuno de seus sofrimentos, assim como não se reduzem por uma 
única disciplina, como a epidemiologia ou a clínica. A integralidade é a recusa 
em aceitar um recorte do problema que o reduza a uma ou algumas de suas 
dimensões, desconsiderando as demais; as respostas aos problemas de saúde 
devem abarcar suas mais diversas dimensões.
Boing e Crepaldi (2010) explanam em seu artigo que, para se desenvolver 
a almejada atenção integral à saúde, o trabalho interdisciplinar se torna uma real 
necessidade. A inter-relação entre as diferentes áreas de conhecimento, entre os 
profissionais e entre estes com o senso comum requer criatividade e flexibilidade, 
princípios que exploram as potencialidades de cada ciência e a compreensão de 
seus limites. 
Infelizmente, ainda há profissionais que não lidam com os sujeitos, lidam 
como se eles fossem apenas portadores de doenças, e não como portadores de 
desejos, de aspirações, de sonhos. Há formuladores de políticas que concebem os 
sujeitos que sofrerão as consequências das políticas que formulam como objetos, 
alvos das intervenções. Sendo assim, Pinheiro e Mattos (2009) afiançam que estes 
são alguns dos sentidos pelos quais vale a pena lutar pelo direito universal ao 
atendimento das necessidades de saúde. 
116
 Neste tópico, você aprendeu que:
• O conceito de saúde, sendo entendido como um processo que vai além do nosso 
bem-estar, compreende todas as dimensões do ser humano, sua capacidade 
de enfrentar as situações, assim como de recuperar-se, por isso, estar doente 
também é uma condição que faz parte da nossa saúde. Vivemos com saúde, 
mesmo com as anomalias, as tensões e os desconfortos.
 
• A saúde é tida como direito de todos e dever do Estado, conforme instituído 
na nossa Constituição Federal. Por isso, abordamos a política pública de 
saúde, estabelecida pelas Leis Orgânicas de Saúde nº 8.080/90 e 8.142/90, que 
apresentam o Sistema Único de Saúde (SUS). 
• A Carta de Alma-Ata estabelece cuidados primários em saúde, trazendo os 
conceitos de Atenção Básica, Promoção de Saúde e Integralidade. A Atenção 
Básica é a porta de entrada do SUS e tem a função de desenvolver estratégias 
para a promoção de saúde. Este é um processo para a melhoria da qualidade 
de vida das pessoas, por isso é necessário que seja uma estratégia articulada 
entre os vários setores e de forma integral. 
• Faz-se necessário conceber o ser humano como um todo; devemos trabalhar de 
forma interdisciplinar, explorando as potencialidades de cada ciência.
RESUMO DO TÓPICO 2
117
AUTOATIVIDADE
1 Disserte sobre o que significa, para você, ter saúde ou ser saudável.
2 A promoção de saúde apresenta-se como uma estratégia política transversal, 
integrada e intersetorial. Descreva brevemente o que significam estes 
princípios fundamentais.
118
119
TÓPICO 3
PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS 
INTERDISCIPLINARES
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Conforme estudamos, saúde não é apenas a inexistência de uma 
enfermidade/doença, sendo assim, saúde mental não diz respeito somente à 
inexistência de transtornos mentais. Compreendemos saúde mental como sendo 
a capacidade do sujeito de lidar com suas emoções, resolver problemas, ter 
possibilidades cognitivas e emocionais para uma qualidade de vida.
Lidar com saúde mental torna-se importante para você, que será um 
profissional na área de saúde, conhecer sobre como se dá a política de saúde 
mental e algumas problemáticas comuns que irá encontrar na sua prática. 
Estudaremos brevemente sobre a política de saúde mental, enfocando 
a importância dos cuidados básicos ou primários nesta área. Apresentaremos 
problemáticas comuns em saúde mental, como o estresse, os transtornos 
depressivos, de ansiedade e por uso do álcool. Para encerrar nossa unidade, 
discutiremos acerca do trabalho interdisciplinar imprescindível em saúde mental.
2 A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL
De acordo com a Secretaria de Atenção à Saúde (BRASIL, 2013), a atual 
política de saúde mental brasileira é resultado de uma mobilização que se iniciou 
na década de 1980, com o objetivo de mudar a realidade dos antigos manicômios, 
que eram os locais onde viviam mais de 100 mil pessoas diagnosticadas com 
transtornos mentais. A importância dada aos direitos humanos após a ditadura 
militar e experiências eficazes de países europeus impulsionaram estas 
mobilizações na busca de um modelo de saúde mental baseado em serviços 
comunitários no território, não mais em hospitais. Esse processo deu origem ao 
Movimento da Luta Antimanicomial e ao projeto coletivo da Reforma Psiquiátrica.
Ainda na década de 1980 iniciou-se a desinstitucionalização de moradores 
de manicômios, criando-se serviços de atenção psicossocial. A atenção a estas 
pessoas com transtornos mentais passou a ter como objetivo o pleno exercício 
de sua cidadania, e não somente o controle de seus sintomas, como era 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
120
anteriormente, o que implicou a necessidade de se organizarem serviços abertos, 
com a participação ativa dos usuários e formando redes com outras políticas 
públicas, como educação, habitação, trabalho, cultura. Portanto, este desafio da 
saúde mental vai para além do SUS, pois, para se realizar, é primordial a abertura 
da sociedade para a sua própria diversidade, afinal estes sujeitos não eram aceitos 
pela sociedade (BRASIL, 2013).
Em 2001, após mais de dez anos de tramitação no Congresso Nacional, 
é sancionada a Lei nº 10.216 que afirma os direitos das pessoas 
portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial 
em saúde mental. Os princípios do movimento iniciado na década de 
1980 tornam-se uma política de estado (BRASIL, 2013, p. 21).
Entre os equipamentos substitutivos ao modelo manicomial, 
podemos citar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços 
Residenciais Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência (CECOS), 
as Enfermarias de Saúde Mental em hospitais gerais, as oficinas 
de geração de renda e, certamente, as Unidades Básicas de Saúde 
cumprem também uma importante função na composição dessa rede 
comunitária de assistência em saúde mental.
Nascidas com a redemocratização, a reforma sanitária e a reforma 
psiquiátrica são parte de um Brasil que escolheu garantir a todos os 
seus cidadãos o direitoà saúde. Não é por acaso que, tanto no campo 
da Atenção Básica quanto da Saúde Mental, saúde e cidadania são 
indissociáveis (BRASIL, 2013, p. 22).
Assim, entendemos que as práticas em saúde mental podem e devem 
ser realizadas por todos os profissionais de saúde; o cuidado em saúde mental 
deve ocorrer na realidade do dia a dia, com as singularidades dos pacientes e de 
suas comunidades. Algumas ações de saúde mental são realizadas sem que os 
profissionais as percebam em sua prática, por isso é necessário refletir sobre o 
que já se realiza e o que o território tem a oferecer como recurso para contribuir.
FIGURA 34– SAÚDE MENTAL
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
121
3 A IMPORTÂNCIA DOS CUIDADOS BÁSICOS EM SAÚDE 
MENTAL
Muitas pessoas buscam ajuda profissional por conta de sofrimento 
mental, comumente com queixas de tristeza e/ou ansiedade, assim como também 
é frequente os profissionais perceberem tristeza e/ou ansiedade significativas nas 
pessoas que atendem, ainda que não haja queixa explícita da pessoa neste sentido.
Neste âmbito, vemos o quanto é importante tomar como ponto de partida 
a pessoa, e não a sua doença, permitindo um cuidado que se adapta à diversidade, 
dando conta da integralidade do sujeito. As pessoas procuram ajuda nas unidades 
de saúde porque sofrem e muitos destes estão de fato doentes, mas não somente a 
doença explica todo o seu sofrimento (BRASIL, 2013).
Pesquisas realizadas no país e no mundo indicam que cerca de uma em 
cada quatro pessoas que procuram a Atenção Básica apresentam algum transtorno 
mental de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (BRASIL, 
2013). Além disso, se incluirmos também aqueles que têm um sofrimento mental 
que não se encaixa nos critérios diagnósticos, a proporção chega a uma pessoa em 
sofrimento a cada duas pessoas que procuram a atenção básica. 
Outros dois conjuntos de situações que exigem cuidados de saúde mental 
merecem destaque, apesar de pouco motivados por uma demanda do usuário 
em atendimento. A primeira questão são os problemas relacionados ao uso do 
álcool, que são frequentes na população brasileira, e a segunda são os chamados 
transtornos mentais graves e persistentes, que incluem a esquizofrenia e transtorno 
bipolar do humor, os quais são menos frequentes, mas trazem grande impacto na 
saúde integral das pessoas.
Mesmo diante de dados alarmantes, a Organização Mundial de Saúde 
(OMS) e a Organização Mundial de Médicos de Famílias (Wonca) afirmam que a 
visão de cuidados primários para saúde mental ainda não foi realizada na maioria 
dos países, sendo que muitos ainda confiam em tratamentos ultrapassados com 
base em hospitais psiquiátricos. Apesar da evidência sobre a alta prevalência 
de transtornos mentais e dos custos que estes dispõem aos indivíduos, famílias, 
comunidades, e sistemas de saúde quando não tratados, a negligência para as 
questões de saúde mental continua necessitando urgentemente ser integrada nos 
cuidados primários (OMS, 2009).
 
Nesse âmbito, estas organizações desenvolveram um relatório sobre a 
integração da saúde mental nos cuidados primários (OMS, 2009), o qual apresenta 
justificativas e vantagens de se prestar serviços de saúde mental no âmbito 
dos cuidados primários. Apresentamos a seguir as sete razões que o relatório 
apresenta como válidas para integrar a saúde mental nos cuidados primários.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
122
QUADRO 15 – RAZÕES PARA INTEGRAR A SAÚDE MENTAL NOS CUIDADOS PRIMÁRIOS
RAZÃO DESCRIÇÃO DA JUSTIFICATIVA
1 A carga de perturbações 
mentais é grande.
As perturbações mentais ocorrem em todas as 
sociedades. Elas criam uma carga pessoal substancial 
para os indivíduos comprometidos e as suas 
famílias, e levam a dificuldades econômicas e sociais 
significativas que afetam a sociedade no seu todo.
2
Os problemas de saúde 
mentais e físicos estão 
interligados.
Muitas pessoas sofrem tanto de problemas de saúde 
físicos quanto mentais. Serviços de cuidados primários 
integrados ajudam a assegurar que as pessoas são 
tratadas de uma maneira integral.
3
O déficit de tratamento em 
relação às perturbações 
mentais é enorme.
Em todos os países há uma diferença significativa 
entre a prevalência de transtornos mentais, de um 
lado, e o número de pessoas que recebem tratamento 
e cuidados, do outro lado. Cuidados primários para a 
saúde mental ajudam a diminuir esta diferença.
4
Cuidados primários
 para saúde mental
 aperfeiçoam o acesso.
Quando a saúde mental é integrada nos cuidados 
primários, as pessoas podem ter acesso a serviços de 
saúde mental mais perto de suas casas, mantendo 
assim as suas famílias juntas e possibilitando a 
manutenção das suas atividades cotidianas. Cuidados 
primários para saúde mental também facilitam 
iniciativas realizadas com a população e a promoção 
de saúde mental, assim como o monitoramento a longo 
prazo de indivíduos comprometidos.
5
Cuidados primários para 
saúde mental promovem 
o respeito pelos direitos 
humanos.
Serviços de saúde mental prestados em cuidados 
primários minimizam o estigma e a discriminação. 
Também eliminam o risco de violações de direitos 
humanos que podem ocorrer em hospitais 
psiquiátricos.
6
Cuidados pr imários 
para saúde mental são 
acessíveis em termos 
de custo e apresentam 
uma boa relação custo-
benefício.
Serviços de cuidados primários para a saúde mental 
são menos caros que hospitais psiquiátricos para 
os pacientes, comunidades, assim como para os 
governos. Além disso, pacientes e famílias evitam 
custos indiretos associados com a procura de cuidados 
especializados em locais distantes.
7
Cuidados primários para 
saúde mental geram bons 
resultados em termos de 
saúde.
A maioria das pessoas com perturbações mentais que 
são tratadas em cuidados primários apresenta bons 
resultados, particularmente quando ligados a uma 
rede de serviços ao nível secundário e na comunidade.
FONTE: Adaptado de: OMS (2009)
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
123
4 PROBLEMÁTICAS COMUNS EM SAÚDE MENTAL
Tratamos até então de sofrimento e transtornos mentais de forma geral, 
todavia, é importante que você compreenda melhor algumas problemáticas mais 
comuns, por isso elencamos algumas delas. 
Na primeira unidade deste caderno de estudos mencionamos o Manual 
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM, está 
lembrado? Para abordar os transtornos mentais, nos fundamentaremos neste 
manual, o DSM-5, que é sua última versão.
Antes de apresentarmos alguns transtornos, vamos especificar o que é um 
transtorno mental, a partir do conceito do DMS-5:
Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação 
clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou 
no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos 
processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes 
ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente 
associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam 
atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. 
Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor 
ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui 
transtorno mental. Desvios de comportamento (por exemplo, de 
natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente 
referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a 
menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção do 
indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 20).
Existem vários tipos de transtornos mentais, porém o DSM-5 divide-os 
em grandes categorias, as quais estão elencadas a seguir:
• Transtornos do Neurodesenvolvimento.
• Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos.
• Transtorno Bipolar eTranstornos Relacionados.
• Transtornos Depressivos.
• Transtornos de Ansiedade.
• Transtorno Obsessivo-compulsivo e Transtornos Relacionados.
• Transtornos Relacionados a Trauma e a Estressores.
• Transtornos Dissociativos.
• Transtornos de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados.
• Transtornos Alimentares.
• Transtornos da Eliminação.
• Transtornos do Sono-Vigília.
• Disfunções Sexuais.
• Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta.
• Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos.
• Transtornos Neurocognitivos.
• Transtornos Parafílicos.
• Transtornos do Movimento Induzidos por Medicamentos e Outros Efeitos 
Adversos de Medicamentos.
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
124
Cada uma dessas categorias apresenta transtornos particulares descritos 
de acordo com critérios diagnósticos específicos. Seria inviável abordarmos todas 
ou várias delas neste estudo, até mesmo porque não há necessidade. No entanto, 
é de suma importância que um futuro profissional de saúde conheça algumas 
problemáticas que são muito comuns em saúde mental, acometendo grande 
parcela de pessoas. Neste sentido, escolhemos falar primeiramente a respeito do 
estresse, o qual não é um transtorno mental, mas uma condição que ocorre com 
todo ser humano e que pode acarretar sofrimento. 
Segundo a OMS (2009), as principais problemáticas mentais presentes na 
atenção básica em saúde a nível mundial são a depressão (variando entre 5% e 
20%), a ansiedade generalizada (4% a 15%) e o abuso e dependência do álcool (5% a 
15%). A partir de tais dados, optamos por abordar tais problemáticas neste estudo.
4.1 ESTRESSE
Cotidianamente, ouvimos pessoas dizendo que estão estressadas, sendo que 
até mesmo crianças já utilizam este termo. Frases como “estou estressado!”, “que 
estresse é esse?” são comuns. Mas será que nós sabemos realmente o que é estresse? 
ATENCAO
O termo original ainda utilizado pelos especialistas é stress, porém, em nossa 
língua, o termo foi modificado para estresse, portanto, optamos por utilizar neste material o 
termo em português.
De acordo com Lipp (2013) – uma das principais pesquisadoras em 
estresse no Brasil –, a representação social do estresse nem sempre corresponde à 
realidade. Muitos profissionais da área da saúde utilizam o termo de modo vago 
para explicar os sintomas do paciente quando desconhecem o que realmente 
ocorre e, muitas vezes, recomendam atestados, férias, calmantes ou vitaminas, 
sem investigar mais a fundo o que ocorre, quais as causas e encaminhar para 
um tratamento com psicólogo, por exemplo. A medicação pode auxiliar, mas é 
necessário desenvolver estratégias de enfrentamento para lidar com o episódio e 
com ameaças futuras, afinal, quem já teve forte crise de estresse apresenta grande 
probabilidade de ter novamente. Por isso é necessário entender o que o estressou, 
reconhecer os sintomas e identificar limites e alternativas. 
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
125
FIGURA 35– ESTRESSADO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
Conforme Lipp (2013), é denominado de estresse um estado de tensão 
que causa uma ruptura no equilíbrio interno do organismo, pois, em geral, nosso 
corpo funciona como uma grande orquestra. Em momentos de estresse, este 
equilíbrio é quebrado, dificultando o entrosamento dos órgãos do corpo. Quando 
surge um desafio, nosso coração acelera, o estômago não consegue digerir bem a 
comida e a insônia acontece, ritmos estes diferentes do habitual. Como resposta 
adaptativa do organismo, automaticamente ele busca uma forma de voltar ao 
seu estado anterior, porém, isso pode exigir desgaste, utilização de reservas de 
energia.
É importante frisar que existem diferentes fontes estressoras e o que 
estressa uma pessoa pode não estressar outra, pois cada ser humano tem suas 
características singulares, um repertório comportamental de vida diferente. 
Portanto, podemos dizer que tudo aquilo que exija do organismo uma maior 
adaptação gera estresse, sendo assim, não somente os acontecimentos negativos 
são estressantes; eventos importantes que ocasionam felicidade, realização, 
também são fontes de estresse (LIPP, 2013).
A autora aponta que o tempo necessário para conseguir retornar ao 
equilíbrio varia de pessoa para pessoa, dependendo da forma como lida com os 
problemas em sua vida; quanto mais resistente, mais estratégias utilizar, mais 
tempo conseguirá resistir aos estressores muito intensos. Entretanto, quando a 
pessoa se encontra com fontes estressoras permanentes, como no caso de uma 
relação conflituosa, por exemplo, a pessoa entra em ciclos de estresse que, por se 
prolongarem, exigem muita energia, a qual se esgota, levando a pessoa a adoecer, 
afinal o corpo e a mente dão sinais de alerta, avisando que não conseguem mais 
lidar com a tensão emocional. 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
126
A memória começa a falhar, coisas pequenas e corriqueiras são 
esquecidas como se nunca tivessem acontecido. Não se consegue 
lembrar fatos, nomes ou tarefas, mesmo as mais simples. O outro 
sinal do corpo é acordar de manhã, após uma boa noite de sono, 
muito cansado. A sensação de desgaste físico e mental, acompanhada 
de falhas de memória, questionamentos sobre a nossa própria 
competência (autodúvidas), apatia e desinteresse pelas coisas que 
antes davam prazer se constituem em sinais de que a tensão está 
excessiva (LIPP, 2013, p. 13).
Para a autora, esse seria o quadro do estresse excessivo, quando chega ao 
limite da resistência antes mencionada. Uma série de problemáticas podem se 
desencadear a partir de então, pois o estresse diminui a defesa imunológica, abrindo 
espaço para que doenças oportunistas se manifestem, como gripe, gastrite, retração 
da gengiva, problemas na pele, úlcera, herpes, hipertensão, psoríase, podendo 
chegar até mesmo a derrames, infarto. Além destas, se o estresse não é cessado, o 
desânimo toma conta e aí ocorrem crises de ansiedade, depressão. Pesadelos são 
muito comuns e a dificuldade para trabalhar acaba sendo consequência.
Certamente, não será somente o psicólogo que irá tratar desse assunto, 
pois o estresse atinge a pessoa como um todo. Especialmente quando acarretar o 
aparecimento de doenças, é necessário o tratamento interdisciplinar. Lipp (2013) 
designa quatro pilares importantes para o controle de estresse:
1. Alimentação: perdem-se muitos nutrientes nos períodos de estresse.
2. Relaxamento: é preciso reduzir a tensão que sempre acompanha o estressado.
3. Exercícios físicos: ajudam a diminuir a prontidão que o estresse gera no corpo 
quando em estresse.
4. Reestruturação de aspectos emocionais: é importante conhecer a si mesmo 
para tentar mudar o modo estressante de pensar, agir e sentir.
Para testar o seu nível de estresse, você pode acessar testes on-line muito 
interessantes! Um deles é da ISMA-BR - uma associação integrante de uma associação 
mundial voltada para a prevenção e tratamento do estresse –, o qual está disponível no 
endereço eletrônico: .
DICAS
4.2 TRANSTORNOS DEPRESSIVOS
De acordo com a OMS (2009), 154 milhões de pessoas sofrem de depressão 
no mundo e a cada ano cerca de 877 mil pessoas morrem devido a suicídio. A 
previsão é de que no ano de 2030 a depressão seja a segunda maior causa de carga 
global de doença, menor apenas que a HIV/AIDS.
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
127
A depressão, cujo termo costumamos utilizar no cotidiano, não é citada 
neste formato no DSM-V (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). Há 
diferentes tipos de transtornos depressivos e o mais comum, a condição clássica, 
é o Transtorno Depressivo Maior.
A principal característica de um episódio depressivo maior é um humor 
depressivo ou a perda de interesse ou prazer em quase todas as atividades num 
período de no mínimo duas semanas.Além disso, como critérios para diagnóstico, 
a pessoa deve apresentar também pelo menos quatro dos seguintes sintomas 
adicionais: mudanças no apetite ou peso, no sono e na atividade psicomotora; 
diminuição de energia; sentimento de culpa; dificuldade para pensar, concentrar-
se ou tomar decisões; pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida, planos 
ou tentativas de suicídio (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
 
O humor é descrito pela pessoa como deprimido, triste, desesperançoso; 
outros se queixam de um vazio, com sentimentos ansiosos ou irritabilidade 
aumentada. Há relatos de perda de interesse por passatempos ou qualquer 
atividade que antes era considerada prazerosa pela pessoa. As alterações de apetite 
podem envolver aumento ou redução. Perturbações no sono, dificuldades para 
dormir ou dormir em excesso são sintomas que ocorrem, o que ocasionalmente 
acaba sendo a razão pela qual muitos buscam tratamento. 
As alterações psicomotoras incluem agitação, por exemplo, de pernas, 
mãos, esfregar a pele, incapacidade de ficar parado/sentado, assim como podem 
ser o contrário, retardo psicomotor, com discurso, pensamentos ou movimentos 
mais lentos, mas certamente estas características devem ser graves ao ponto 
de serem observáveis por outros. Diminuição da energia, cansaço e fadiga são 
persistentes mesmo sem esforço físico. Muitos se apresentam distraídos, queixam-
se de dificuldades de memória. 
Quando há pensamentos de morte, estes variam desde um desejo 
passivo de não acordar pela manhã, ou uma crença de que os outros estariam 
melhores se ele estivesse morto, até pensamentos transitórios, mas recorrentes 
sobre cometer suicídio ou planos específicos para se matar. Esta condição faz 
com que haja uma considerável taxa de mortalidade de pessoas que apresentam 
transtorno depressivo maior; o índice de suicídio no nosso país é elevado, sendo 
imprescindível atentarmos para estas condições.
Neste transtorno, os sintomas citados são recentes ou foram piorando ao 
longo dos últimos tempos, acompanham a maior parte do dia da pessoa por quase 
todos os dias e causam prejuízo significativo no funcionamento social, profissional 
ou em outras áreas importantes da vida. Para alguns, podem ocorrer episódios 
mais leves, porém o funcionamento da pessoa exige um esforço acentuadamente 
aumentado. É importante considerarmos estas particularidades em momentos 
de atendimento e definição de tratamento, pois muitas pessoas dizem que têm 
depressão, mas não apresentam tais características. 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
128
O uso de medicamentos psicotrópicos (antidepressivos, ansiolíticos) no 
nosso país é elevado, o que nos sugere que precisamos pensar em ações coletivas 
urgentes em termos de saúde. Muitas pessoas que apresentam depressão maior 
não fazem o devido tratamento, com acompanhamento psiquiátrico, psicológico, 
fazendo uso de medicações corretamente, seguindo instruções alimentares, 
exercícios físicos, por isso a importância de avaliarmos e sabermos conduzir tal 
condição, para que assim consigamos melhorar a qualidade de vida das pessoas. 
FIGURA 36– AJUDA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
4.3 TRANSTORNOS DE ANSIEDADE
Os transtornos de ansiedade dizem respeito a perturbações 
comportamentais relacionadas a características de medo e ansiedade excessivos 
e persistentes. “Medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou 
percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura” (AMERICAN 
PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 189). Esses dois estados se sobrepõem, 
mas também se diferenciam, pois o medo é mais associado a pensamentos de 
perigo imediato e comportamentos de fuga, enquanto a ansiedade é associada a 
comportamentos de cautela ou esquiva. 
Os tipos de transtorno diferem de acordo com os objetos ou situações 
que induzem o medo ou ansiedade e pelo conteúdo dos pensamentos ou crenças 
associadas. Em geral, as pessoas com transtornos de ansiedade superestimam o 
perigo nas situações que temem ou evitam. Para ser assim diagnosticados, tais 
sintomas não podem ser consequências de efeitos fisiológicos do uso de alguma 
substância ou medicamento. 
Os indivíduos com fobia são apreensivos e se esquivam de objetos ou 
situações específicas. O medo, ansiedade ou esquiva costuma ser imediatamente 
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
129
induzido pela situação fóbica, sendo persistente e fora de proporção em relação ao 
risco real que se apresenta. Há tipos de fobias específicas relacionadas a animais, 
ambientes, sangue/injeção/ferimentos, dentre outras.
Indivíduos com transtorno de ansiedade social (fobia social) apresentam 
ansiedade, temor ou se esquivam de interações e situações sociais, nas quais haja 
possibilidade de ser avaliado, como encontro com pessoas que não são conhecidas, 
situações em que pode ser observado comendo e situações de desempenho 
diante de outras pessoas. “A ideação cognitiva associada é a de ser avaliado 
negativamente pelos demais, ficar embaraçado, ser humilhado ou rejeitado ou 
ofender os outros” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 190).
No transtorno de pânico, a pessoa experimenta ataques de pânico 
inesperados recorrentes, ficando persistentemente apreensiva ou preocupada com 
a possibilidade de sofrer outros ataques, assim como altera seus comportamentos, 
geralmente se esquivando de locais que não lhe são familiares. Um ataque de 
pânico é um surto abrupto de medo ou desconforto intenso que alcança um pico 
em minutos, ocorrendo quatro ou mais sintomas de uma lista de 13 sintomas 
físicos e cognitivos. Segue a lista dos sintomas:
1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia.
2. Sudorese.
3. Tremores ou abalos.
4. Sensações de falta de ar ou sufocamento.
5. Sensações de asfixia.
6. Dor ou desconforto torácico.
7. Náusea ou desconforto abdominal.
8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio.
9. Calafrios ou ondas de calor.
10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).
11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de 
estar distanciado de si mesmo).
12. Medo de perder o controle ou enlouquecer.
13. Medo de morrer.
A frequência e a gravidade dos ataques de pânico variam, podendo ocorrer 
um intenso por semana, outros pequenos em quase todos os dias, separados por 
semanas ou meses. As preocupações geralmente relacionam-se com questões 
físicas, com a presença de doenças ameaçadoras à vida e preocupações pessoais.
Existe também o transtorno de ansiedade generalizada, que se caracteriza 
por ansiedade e preocupação persistentes e excessivas acerca de vários domínios, 
incluindo desempenho no trabalho e escolar, em que são experimentados sintomas 
físicos, como inquietação, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, 
tensão muscular e perturbação no sono. 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
130
FIGURA 37– ANSIEDADE
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
4.4 TRANSTORNO POR USO DE ÁLCOOL
O álcool é a substância química mais utilizada no mundo, sendo lícita, por 
isso encontrada em uma variedade incontável de bebidas pelo mundo. Nas últimas 
décadas, o uso e abuso de álcool tem se constituído um dos maiores problemas 
de saúde pública, estando altamente relacionado a dezenas de doenças e sendo 
responsável por milhões de mortes. No Brasil, os dados do último levantamento 
nacional indicam que aproximadamente 12,3% da população preenche os critérios 
para dependência do álcool, estando muito à frente de todas as demais drogas 
psicotrópicas indutoras de dependência, mesmo quando somadas (BRASIL, 2009b).
Segundo Duailibi (2013), o álcool é um depressor cerebral que age 
em diversos órgãos, como fígado, coração e estômago. Na intoxicação, que 
se caracteriza pelo uso nocivo de quantidades maiores que a tolerávelpara o 
organismo, ocorrem sintomas de euforia leve, seguidos de tonturas, falta de 
coordenação motora, confusão e desorientação, chegando a graus variáveis de 
anestesia, entre eles, o estupor e o coma. Quando utilizado em doses elevadas e 
por período de tempo prolongado, pode ocasionar complicações clínicas, como 
gastrite, úlcera, hepatites tóxicas, cirrose hepática, lesões cerebrais, demência, 
diminuição da força muscular, hipertensão, dentre outros.
De acordo com as características diagnósticas descritas no DSM-V 
(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), o transtorno por uso 
de álcool é um padrão problemático de uso desta substância, levando a 
comprometimento ou sofrimento clinicamente significativos, definido por um 
agrupamento de sintomas comportamentais e físicos, os quais podem incluir 
abstinência, tolerância e fissura, ocorrendo durante um período de um ano. 
A abstinência caracteriza-se por sintomas (como sudorese ou frequência 
cardíaca aumentada, tremor nas mãos, insônia, náuseas ou vômitos, alucinações 
ou ilusões, agitação psicomotora, ansiedade e convulsões) que se desenvolvem 
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
131
aproximadamente de quatro a 12 horas após a redução do consumo. A fissura por 
álcool é indicada por um desejo intenso de beber, dificultando o desempenho de 
afazeres, sejam estes domésticos, de trabalho ou escolares.
Esta abstinência de álcool pode ser desagradável e intensa, os indivíduos 
podem continuar o consumo apesar de consequências adversas, comumente para 
evitar ou aliviar os sintomas. Problemas com o sono, por exemplo, podem persistir 
por meses, o que contribui para que ocorra a recaída e, assim que um padrão de 
uso repetitivo se desenvolve, sujeitos com transtorno por uso de álcool podem 
dedicar grandes períodos de tempo para obter e consumir bebidas alcoólicas. 
(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
Conforme assinala Alves (2009), o necessário processo de Reforma 
Psiquiátrica (já mencionado anteriormente nesta unidade) focalizou os 
portadores de transtornos mentais graves, negligenciando as demandas relativas 
ao sofrimento mental derivado do uso abusivo de substâncias psicoativas. 
Produziu-se então uma lacuna importante na política pública, um atraso histórico 
em saúde pública no que tange ao uso prejudicial e/ou dependência do álcool e 
outras drogas, sendo formulada somente em 2003 sua política específica, sendo 
que esta ainda se apresenta como um desafio.
Apesar da política formulada, Soares, Vargas e Oliveira (2011) assinalam 
em sua pesquisa que, apesar do aumento nos últimos anos da demanda nos 
serviços de atenção à saúde de pessoas com problemas relacionados ao álcool, 
existem diversos impedimentos para o adequado diagnóstico, tratamento e 
encaminhamento para estas pessoas. Segundo os autores, os profissionais de saúde 
apresentam falta de conhecimento sobre a variedade de sintomas gerados pelo 
uso abusivo e pela dependência do álcool, além de apresentarem visão negativa 
com relação ao paciente e suas perspectivas evolutivas diante do problema, o que 
prejudica a atitude do profissional. 
Conforme o Ministério da Saúde (BRASIL, 2013), o abuso de álcool é a 
situação mais comum que encontramos na atenção básica, por isso é importante 
que os profissionais atentem para a detecção precoce de problemas relacionados, 
além da integração do tratamento de outras patologias agravadas pelo álcool, 
como a hipertensão, que é bastante comum, por exemplo. Recomenda-se que o 
profissional de saúde avalie o consumo de álcool desde a adolescência, afinal 
a pessoa dependente de hoje já percorreu uma trajetória de uso crescente da 
substância. É necessário reconhecer sinais e sintomas de abuso de álcool, discutir 
o risco envolvido, fazer orientações e encaminhar os usuários para serviços 
especializados quando for o caso. 
Para detectar o uso abusivo de álcool, há alguns questionários de fácil 
utilização. Um deles é conhecido como Audit, o qual é composto por dez perguntas 
que investigam o padrão de uso de álcool da pessoa nos últimos 12 meses. Cada 
resposta dada gera uma pontuação, e o valor da soma das pontuações indica a 
presença e a intensidade dos problemas relacionados ao álcool. Este questionário 
pode auxiliar na identificação rápida, confiável e importante para pensar em 
alternativas de tratamentos (BRASIL, 2013).
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
132
FIGURA 38– O USO DO ÁLCOOL
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
5 O TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MENTAL
A saúde mental não está dissociada da saúde geral e, por isso, é necessário 
reconhecer que as demandas de saúde mental estão presentes em diversas 
queixas relatadas pelas pessoas que chegam aos serviços de saúde, em especial 
da atenção básica. Por isso, cabe aos profissionais o desafio de perceber e intervir 
sobre estas questões (BRASIL, 2013).
Ao atentar para ações de saúde mental que possam ser realizadas no 
próprio contexto do território das equipes, pretendemos chamar a 
atenção para o fato de que a saúde mental não exige necessariamente 
um trabalho para além daquele já demandado aos profissionais de 
saúde. Trata-se, sobretudo, de que estes profissionais incorporem ou 
aprimorem competências de cuidado em saúde mental na sua prática 
diária, de tal modo que suas intervenções sejam capazes de considerar 
a subjetividade, a singularidade e a visão de mundo do usuário no 
processo de cuidado integral à saúde (BRASIL, 2013, p. 11).
Há um choque existente entre a realidade profissional e a formação 
acadêmica, ainda calcada em uma forte visão biomédica. Ainda que desde o 
início dos cursos de graduação fale-se de aspectos da saúde para além do que é 
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
133
biológico, é inegável que há predominância de conteúdos das ciências naturais. 
Também é verdade que, antes de sermos profissionais de saúde, somos pessoas 
inteiras, somos nossos próprios corpos, temos nossas memórias, desejos, planos, 
medos, segredos, valores e, quando estamos no papel de cuidar de outra pessoa 
que sofre, tudo isso entra em jogo (BRASIL, 2013).
“‘Corpos não sofrem, pessoas sofrem’, diz Cassell. Muito do alívio de 
sofrimento que produzimos em nosso trabalho diário advém de nossas múltiplas 
facetas enquanto pessoas, que são tocadas na interação com o outro” (BRASIL, 
2013, p. 14). Por isso, muitas vezes, os profissionais produzem saúde apesar 
do seu conhecimento técnico. Saúde mental, portanto, não deve ser abordada 
em contraposição à saúde física ou biológica – conforme o velho e equivocado 
dualismo corpo/mente –, mas como sofrimento de pessoas. Este sofrimento 
psíquico não é reservado apenas aos que receberam algum diagnóstico específico, 
mas é algo presente na vida de todos e nenhum cuidado ocorrerá efetivamente se 
não buscarmos compreender as motivações de tais sofrimentos singulares. No que 
tange aos transtornos mentais, aqueles que recebem diagnóstico, muitas vezes, 
sofrem de doenças crônicas, ou seja, algo com que o sujeito precisará conviver ao 
longo da vida, como é o caso de diabetes, por exemplo. 
 
“O maior desafio dos serviços de saúde, no entanto, é cuidar daqueles que 
estão doentes sem sofrer e dos que sofrem sem estar doentes” (BRASIL, 2013, p. 
89). Exemplos de doentes sem sofrimento são os que apresentam problemáticas 
como diabetes mellitus, hipertensão e obesidade, sendo os fatores de risco mais 
comuns para as doenças cardio e cerebrovasculares, atualmente. Os que sofrem 
sem estar doentes são aqueles que lotam as agendas das unidades básicas de 
saúde e aumentam cada vez mais as estatísticas de prevalência de depressão e de 
ansiedade. Sendo assim, não devemos dizer que a pessoa que está doente procura 
pelos profissionais e necessita de cuidado, mas toda pessoa que sofre.
O referencial médico que utilizamos anteriormente, o DSM,ou o CID 
(Classificação Internacional de Doenças), utiliza o conceito de síndrome clínica, 
um agrupamento de sinais e sintomas para conversar com a comunidade. 
Contudo, a partir da complexidade do ser humano, não há definição clara do 
que é patológico ou não, por isso estas categorias diagnósticas não dão conta 
de especificar o sofrimento mental. Ao investigarmos as causas, não há um 
único determinante, há um grande número de fatores, tanto biológicos, quanto 
psicológicos e sociais que interagem de forma dinâmica ao longo da história de 
vida de cada um (BRASIL, 2013).
Ainda que entre profissionais de saúde seja útil o uso do termo doença 
ou transtorno mental no cotidiano, por condensar informações, precisamos nos 
interrogar sobre o sentido que essas expressões carregam na comunidade. A 
expressão doença mental e seus eufemismos pode induzir a pessoa, seus familiares 
e sua comunidade a, pelo menos, dois erros comuns: atribuir ao transtorno mental 
causa genética, hereditária, que determina e limita as possibilidades da vida para 
a pessoa; e associar a ideia de doença a um julgamento moral sobre a pessoa, 
rotulando-a, vendo-a como fraca, ou chamar algum violento de doente mental, o 
que afasta a pessoa de seu lugar na família, no trabalho (BRASIL, 2013).
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
134
Quem trabalha ou estuda o sofrimento mental na atenção básica sabe que 
tristeza, desânimo, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade e medo 
(às vezes na forma de crises) são queixas comuns dos usuários e, com frequência, 
as queixas costumam estar associadas. Muitos desses mesmos usuários também 
apresentam queixas como mudança no sono e apetite, dores, cansaço, palpitações, 
tontura ou mesmo alterações gástricas e intestinais (BRASIL, 2013). 
 
Na maioria dos casos, apresentam quadros mistos, muitas pessoas têm 
episódios intermitentes de intensificação dessas síndromes, alternando períodos 
com pouca ou nenhuma sintomatologia, com períodos de maior e menor 
intensidade. Devido a esta flutuação de intensidades, podemos pensar nelas 
como dimensões diferentes do sofrimento mental comum. Portanto, há razões 
suficientes para defender que as manifestações mais comuns do sofrimento 
mental fazem parte de uma única síndrome clínica com três grupos ou dimensões 
de sintomas que se combinam: tristeza/desânimo, ansiedade e sintomas físicos, 
conhecido como somatização (BRASIL, 2013).
Epidemiologistas e clínicos procuram compreender em que contexto se 
produz o sofrimento mental comum (BRASIL, 2013). Estudos no Brasil e no mundo 
identificaram uma série de características individuais que estão mais associadas 
a essa forma de sofrimento, para determinar o grau de vulnerabilidade de cada 
pessoa a essa forma de manifestação. Os principais aspectos de vulnerabilidade 
são: gênero, pobreza, cor da pele e desigualdade.
Mulheres têm cerca de duas vezes mais chances de apresentar essa 
forma de sofrimento mental comum do que os homens. As diferenças de gênero 
influenciam não apenas a vulnerabilidade ao sofrimento, como também suas 
formas de expressão, pois podem existir formas socialmente melhores aceitas 
de sofrimento para cada gênero. A pobreza também está relacionada a um risco 
mais elevado de sofrimento mental comum; no Brasil, baixa escolaridade e menor 
renda são fatores importantes. O desemprego também aumenta a vulnerabilidade 
ao sofrimento mental (BRASIL, 2013).
Também é muito frequente as pessoas relatarem algum acontecimento 
marcante em suas vidas que possa ter desencadeado o sofrimento, sendo os mais 
comuns sentimentos de humilhação ou de sentir-se sem saída. Situações como 
a perda de um vínculo importante, um ato de delito vindo de alguém próximo, 
situações de violência doméstica, tentar sair de uma relação abusiva, receber o 
diagnóstico de uma doença grave, a perda de uma relação significativa e a morte 
de um parente próximo são comumente relacionadas (BRASIL, 2013).
Por fim, o que emerge como um importante fator protetor para 
o sofrimento mental é a presença e a qualidade das relações que 
possuímos com pessoas próximas. São pessoas que podem nos 
oferecer, nos momentos de crise, apoio emocional (escuta, validação 
dos sentimentos), apoio material (ajuda para cuidar da casa quando 
estou doente, emprestar dinheiro) ou apoio para buscar recursos que 
ajudem a resolver meus problemas (desde a indicação de onde posso 
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
135
buscar tratamento até uma oportunidade de emprego, informação). É 
a percepção de que se pode contar com esse apoio social que exerce 
um fator protetor, principalmente contra a persistência do sofrimento 
mental mais intenso (BRUGHA, 1995 apud BRASIL, 2013, p. 93).
Como vimos, o sofrimento mental comum é decorrente do impacto 
emocional na vida da pessoa diante de sua condição social, de sua personalidade, 
sua história de vida e da sua rede social de apoio. Neste âmbito, o profissional de 
saúde precisa compreender a complexidade de tal contexto para cada uma das 
pessoas que este atende; sem que isto ocorra, não será possível produzir saúde.
FIGURA 39– REDES DE ATENÇÃO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018.
UNI
O texto que se segue foi escolhido pela sua beleza e forma poética de descrever 
o que é uma pessoa, ou pelo menos uma tentativa de descrição, afinal, somos seres tão 
complexos que dificilmente conseguiremos descrever tal complexidade. Este texto nos traz 
uma reflexão importante que perpassa todo o nosso estudo neste caderno, que é o SER 
HUMANO, a pessoa de forma integral, com suas especificidades, sofrimentos, enfim, tal texto 
não poderia ser resumido, sendo então apresentado aqui por inteiro. Desejamos a você boa 
leitura e reflexão!
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
136
LEITURA COMPLEMENTAR
O QUE É UMA PESSOA?
Toda pessoa tem uma vida passada, e as memórias de uma pessoa com 
tudo o que ela viveu, aprendeu e experimentou fazem parte da sua vida presente 
e de como ela enxerga o mundo. “Roubar das pessoas seu passado, negar a 
verdade de suas memórias, ou zombar de seus medos e preocupações fere as 
pessoas. Uma pessoa sem passado é incompleta”, diz Cassell.
Toda pessoa tem uma “vida futura” em que deposita seus sonhos, 
expectativas e crenças quanto ao futuro e que influencia muito a vida presente. 
Muitas vezes, um grande sofrimento pode causar temor em perder essa sua vida 
futura em virtude de algum problema de saúde.
Toda pessoa tem uma vida familiar repleta de papéis, identidades 
constituídas a partir da história familiar, propiciando sentimento de pertencimento. 
As experiências e histórias familiares também constituem a pessoa. 
Toda pessoa tem um mundo cultural. Esse mundo influencia a saúde, a 
produção de doenças, define valores, relações de hierarquia, noções de normal 
e patológico, atitudes consideradas adequadas frente aos problemas da vida e 
propicia isolamento ou conexão com o mundo.
Toda pessoa é um ser político com direitos, obrigações e possibilidades de 
agir no mundo e na relação com as pessoas. Problemas de saúde podem contribuir 
para que a pessoa se sinta impotente nesta esfera, ou que se considere incapaz de 
ser tratada como seus pares em suas reivindicações e possibilidades de ação.
Toda pessoa tem diversos papéis: pai, mãe, filho, profissional, namorado, 
amante, amigo, irmã, tio etc. A vivência de cada um deles envolve diferentes 
relações de poder, de afeto, de sexualidade etc. As pessoas também são cada um 
desses papéis, que podem ser prejudicados em situações de agravo à saúde, além 
de serem mutáveis.
Toda pessoa tem uma vida de trabalho, que está relacionada a seu sustento 
e, possivelmente, de sua família. Muitas pessoas consideram-se úteis por meio do 
trabalho, e muitos quase definem a própria identidade por aquilo que fazem. 
Toda pessoa tem uma vida secreta, na qual deposita amores,amizades, prazeres 
e interesses que não são compartilhados com outras pessoas importantes de sua 
vida. Todos nós possuímos necessidade de exercer atividades de automanutenção, 
de autocuidado e de lazer.
Um sofrimento considerável pode surgir se uma pessoa é privada de 
qualquer uma ou várias dessas esferas e, ao ignorar isso, o profissional de saúde 
deixa de abordar uma importante causa de sofrimento.
TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES
137
Toda pessoa tem um corpo com uma organicidade e anatomia singular 
composto por processos físicos, fisiológicos, bioquímicos e genéticos que o 
caracterizam. No entanto, além disso, toda pessoa tem um corpo vivido, que é 
muito diferente do corpo estudado na Anatomia, na Biologia e na Bioquímica. 
Cada um tem uma relação com o próprio corpo que envolve história pessoal, 
pontos de exteriorização de emoções, formas de ocupar o espaço e de se relacionar 
com o mundo. O corpo é, ao mesmo tempo, dentro e fora de mim, podendo ser 
fonte de segurança e orgulho, ou de ameaça e medo.
Toda pessoa tem uma autoimagem, ou seja, como ela atualmente se vê 
em relação a seus valores, a seu mundo, a seu corpo, e àqueles com quem ela se 
relaciona.
Toda pessoa faz coisas, e sua obra no mundo também faz parte dela. 
Toda pessoa tem hábitos, comportamentos regulares dos quais pouco se 
dá conta, que afetam a própria vida e a dos outros e que podem ser afetados por 
problemas de saúde.
Toda pessoa tem um mundo inconsciente, de modo que faz e vive um 
grande número de experiências que não sabe explicar como e por quê. 
Toda pessoa tem uma narrativa de si e uma do mundo, algo que junte 
todas as experiências de vidas passadas, presentes e o que se imagina do futuro, 
em um todo, que faça sentido para aquela pessoa.
Quase toda pessoa tem uma dimensão transcendente, que se manifesta na 
vida diária com valores que podem ou não ter a ver com religião. É a dimensão 
que faz com que a pessoa se sinta como parte de algo atemporal e ilimitado, 
maior que sua vida comum – seja Deus, a história, a pátria ou qualquer coisa que 
ocupe esse lugar na vida de um indivíduo. 
E assim por diante, em uma lista tão grande quanto a complexidade e a 
criatividade de cada vida.
À medida que as pessoas interagem com os ambientes em que vivem, essas 
esferas, que compõem as pessoas, vão se constituindo e formando sua própria 
história, cada uma seguindo uma dinâmica própria com regras e parâmetros 
para um modo de viver específico. Paralelamente, as esferas influenciam umas às 
outras, e cada uma ao conjunto que é a pessoa, ou seja, embora autônomas, são 
interdependentes.
Podemos visualizá-las como um grupo de bolas magnéticas de diferentes 
tamanhos, as quais se mantêm acopladas, unidas, porém sem perder suas 
existências individuais, formando algo como um grande cacho de uvas. Em 
suas dinâmicas particulares, estabelecem relações de complementariedade, de 
concorrência, de antagonismos, de sinergias, de sincronias e dissincronias, de 
UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE
138
mútua alimentação, de saprofitismos, parasitismos etc. O todo dessas esferas 
e todas as suas relações compõem o que chamamos de uma pessoa, que pode 
se apresentar dos modos os mais distintos e aparentemente incongruentes ou 
incoerentes, mas a estabilidade fluida dessas esferas que giram e rodam umas 
sobre as outras, constituindo um sistema aberto, nos dá a sensação de identidade. 
A identidade é vivida e percebida pela preservação de um conjunto de correlações 
entre tais esferas, que embora estejam em constante movimento, tendem a manter 
um conjunto mais ou menos regular de correlações entre si, o que nos explica 
porque sentimos que somos os mesmos embora saibamos que nos transformamos 
a cada dia. 
FONTE: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Saúde mental: Cadernos de 
Atenção Básica, n. 34. Brasília: Ministério da Saúde, 2013, p. 29-31.
139
Neste tópico, você aprendeu que:
• As pessoas que sofrem de transtornos mentais historicamente foram alvo de 
discriminações e isolamento, porém, felizmente, com a Luta Antimanicomial e 
a Reforma Psiquiátrica, houve a implantação de uma política de saúde mental 
que prevê um tratamento mais humanizado.
• O índice de transtornos mentais como depressão, ansiedade e uso abusivo de 
álcool é alarmante em nível mundial, por isso, o apelo para que se dê a devida 
atenção para estas problemáticas é grande. Nesta unidade você estudou sobre 
cada uma destas e pôde perceber o quanto são necessários esforços de forma 
interdisciplinar para que ocorram melhorias em nossa população em termos 
de saúde mental.
 
• Não podemos ver o trabalho com o sofrimento mental dissociado do trabalho 
em saúde geral, pois, conforme assinala a Organização Mundial de Saúde, os 
cuidados de saúde mental precisam ocorrer nos cuidados primários, afinal 
estão interligados com os demais problemas das pessoas. Infelizmente, ainda 
há muitas pessoas que não estão em tratamento e os gastos com medicações e 
internamentos ainda são grandes. O índice de suicídios também é assustador, o 
que deve nos fazer pensar sobre que saúde está se produzindo, que qualidade 
de vida nós temos e qual o nosso papel enquanto profissionais neste contexto.
RESUMO DO TÓPICO 3
140
AUTOATIVIDADE
1 Analise os dados do caso a seguir e depois responda as questões:
Paciente de 54 anos, viúva, mãe de três filhos, comerciante. Apresenta asma 
brônquica de difícil controle há 15 anos; o quadro iniciou dois dias após o 
falecimento de seu marido. Tem crises de palpitação, dores pelo corpo (coluna, 
pernas, joelhos) que teriam começado há nove anos e fraqueza nas pernas. 
Relata ser ansiosa desde jovem, com episódios de dor no peito, queimação 
nos braços e pescoço. Tem medos (de sair de casa, de pegar ônibus). Queixa-
se de insônia, entretanto diz ter “pesadelos horríveis”. Tem cefaleia há muitos 
anos. Conta que na sua infância seu pai costumava espancar sua mãe. Aos seis 
anos de idade o irmão, então com 21 anos, tentou suicidar-se; e já passou por 
inúmeras internações psiquiátricas. Depois de casada, fez um aborto aos 25 
anos e outro aos 27 anos. Um ano depois soube que o marido “tinha um caso 
com uma vizinha”. Ficou viúva aos 39 anos e avalia que seus sintomas pioraram 
após este ocorrido. 
a) Que transtorno mental você diria que esta paciente apresenta?
b) É possível “encaixar” todos os sintomas num único diagnóstico?
c) Que acontecimentos da vida desta mulher corroboraram para que ela 
desenvolvesse tais sintomas de sofrimento mental?
d) A partir das reflexões que você realizou para responder a estes questionamentos, 
que considerações você tem a fazer acerca de um caso como este? Como você 
acredita que poderia auxiliar enquanto profissional da saúde?
141
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organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.exterior, a atenção e o raciocínio 
(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 49).
 Enquanto ainda se especulava acerca dos conhecimentos sobre o 
funcionamento da consciência, Freud revolucionou a humanidade ao dizer 
que o ser humano não é senhor de sua consciência, ou seja, ele postulou o 
inconsciente como parte constituinte do ser humano, dizendo que, além da 
consciência, todos nós somos movidos por razões e desejos mais profundos, que 
a consciência desconhece. A teoria se desenvolveu e deu origem à Psicanálise, 
teoria psicológica que estudaremos mais adiante. Freud é, portanto, considerado 
o “pai da Psicanálise”, e não da Psicologia. Você sabe quem é considerado o “pai 
da Psicologia”? O nome dele é Wilhelm Wundt, e explicaremos porque ele é 
considerado o “pai da Psicologia” no segundo tópico desta unidade.
3 CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA
 Entender qual foi o caminho percorrido pelas profissões até se tornarem a 
ciência que conhecemos hoje exige uma definição do seu conceito atual. Partindo 
do campo da psicologia, que estuda os processos mentais e o comportamento 
humano, tendo a subjetividade humana como objeto de estudo, podemos dizer 
que a ciência, de uma maneira geral, encontrou na Filosofia o seu ponto de 
partida. 
TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
7
Você é nosso convidado para conhecer o caminho que estabeleceu a 
relação entre Filosofia e demais áreas do conhecimento e de que maneira a 
Filosofia contribuiu para seu desenvolvimento. Para tanto, precisamos ir até a 
Grécia antiga, berço de tantas descobertas e mobilizações que mudaram a história 
da humanidade.
Os filósofos gregos foram os responsáveis pelo desenvolvimento do 
método introspectivo. Introspecção é o exame de ideias e experiências internas. 
Conforme descrito por Bock, Furtado e Teixeira (2008), a evolução do povo grego, 
em termos de organização social (já que não podemos esquecer que a Grécia foi 
o berço da democracia), permitiu que o cidadão se ocupasse com o pensar acerca 
das questões do espírito, como a Filosofia e a arte. Pensadores como Platão e 
Aristóteles começaram a analisar o homem e seus aspectos internos, como a alma 
e a razão.
A alma ou espírito era concebida como a parte imaterial do ser 
humano e abarcaria o pensamento, os sentimentos de amor e ódio, 
a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção. Os filósofos 
pré-socráticos (assim chamados por antecederem o filósofo grego 
Sócrates) preocupavam-se em definir a relação do homem com o 
mundo através da percepção. Discutiam se o mundo existe porque o 
homem o vê ou se o homem vê um mundo que já existe. Havia uma 
oposição entre os idealistas (para os quais a ideia forma o mundo) e 
os materialistas (para os quais a matéria que forma o mundo já é dada 
para a percepção) (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 33).
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), a principal preocupação de 
Sócrates (469-399 a.C.) era entender o que diferenciava o ser humano dos animais, 
concluindo que a principal característica humana era a razão, que o tornava um ser 
racional, capaz de agir sobrepondo-se aos seus instintos. Foi neste momento que 
Sócrates iniciou os estudos do que mais tarde entenderíamos como consciência. 
Seguindo o mesmo caminho, Platão (427-347 a.C.), discípulo de Sócrates, 
preocupou-se em encontrar um lugar para a razão dentro do corpo humano. Esse 
lugar seria a cabeça, onde se encontra a alma humana. Platão concebia a alma 
separada do corpo e a medula como o elo que os unia. 
Aristóteles contrapôs as ideias de Platão, postulando que alma e corpo não 
poderiam ser dissociados. Aristóteles foi o pensador responsável pela publicação 
do que é considerado o primeiro tratado de Psicologia, o “De Anima”, no qual 
trata das diferenças entre razão, percepção e sensações. A Figura 1 nos traz a 
imagem dos pensadores que contribuíram para o surgimento da Psicologia. 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
8
FIGURA 1 – FILÓSOFOS QUE CONTRIBUÍRAM PARA O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2016.
Quando falamos da história da Psicologia, além da Grécia antiga e as 
contribuições de seus filósofos, também precisamos nos remeter ao Império 
Romano e à Idade Média, pois foram nestes momentos históricos que se 
desenvolveram os conhecimentos de outros dois filósofos de grande importância: 
Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274). 
Às vésperas da Era Cristã surge um novo império que iria dominar 
a Grécia, parte da Europa e o Oriente Médio: o Império Romano. 
Uma das principais características desse período é o aparecimento e 
o desenvolvimento do cristianismo – uma força religiosa que passa a 
força política dominante. Mesmo com as invasões bárbaras, por volta 
de 400 d.C., que levam à desorganização econômica e ao esfacelamento 
dos territórios romanos, o cristianismo sobreviveu e até se fortaleceu, 
tornando-se a religião principal da Idade Média, período que então 
se inicia. As ideias sobre o mundo psicológico, nesse período, estão 
relacionadas de perto ao conhecimento religioso, já que, ao lado do 
poder econômico e político, a Igreja Católica também monopolizava o 
saber (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 34).
Os pensadores da época eram fortemente influenciados pelas ideias 
de seus antecessores. Conforme nos apontam Bock, Furtado e Teixeira (2008), 
Santo Agostinho tinha o entendimento de que alma e corpo somente poderiam 
ser entendidos separadamente, assim como Platão. Contudo, complementou a 
referida teoria dizendo que alma não era somente a sede da razão, mas a prova de 
que Deus se manifestava no homem. A alma era imortal porque ligava o homem a 
Deus. Sendo a alma a sede do pensamento, a Igreja também passou a se interessar 
pela sua compreensão. 
TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
9
São Tomás de Aquino viveu em uma época em que os conhecimentos 
gerados pela Igreja Católica sofriam questionamentos que levaram ao início do 
movimento protestante. O momento também era de mudanças significativas na 
economia, que caminhava em direção ao capitalismo, com o advento da Revolução 
Francesa, bem como da Revolução Industrial na Inglaterra. O pensar acerca da 
essência e existência do homem foi permeado pelos conhecimentos produzidos 
por Aristóteles, todavia, as ideias de São Tomás de Aquino tomaram um caminho 
diferente das de Aristóteles quando o religioso afirmou que somente Deus seria 
capaz de reunir a essência e existência, em termos de igualdade, postulando que 
a busca da perfeição pelo homem seria a busca de Deus. 
A Filosofia, portanto, trouxe como sua maior contribuição para a Psicologia 
o método introspectivo, ou seja, o exame das ideias e experiências internas que 
foram descritos pelos filósofos estudados anteriormente. As contribuições dos 
referidos pensadores ainda foram adiante, pois alguns filósofos, como Aristóteles, 
por exemplo, também transitavam por outras áreas do conhecimento (ele ainda 
exercia a profissão de naturalista e biólogo). Os conhecimentos acerca da Biologia 
fizeram com que Aristóteles considerasse, em suas teorias, os conhecimentos de 
Fisiologia, trazendo um novo método para a compreensão humana: o método 
empírico, baseado na observação. 
Sendo assim, podemos dizer que, de uma maneira geral, os antecedentes 
filosóficos da Psicologia encontram-se no racionalismo (desenvolvido através 
do método introspectivo) e no empirismo (desenvolvido por meio do método 
empírico), que abordaremos em seguida. 
IMPORTANTE
Segundo Sternberg (2015), a Filosofia busca entender a natureza geral de 
muitos aspectos do mundo, em parte por meio da introspecção (exame das ideias internas). 
A Fisiologia busca um estudo científico das funções vitais dos organismos vivos, basicamente 
por meio de métodos empíricos (baseados na observação)
4 RACIONALISMO E EMPIRISMO 
O racionalismo e oempirismo são duas teorias desenvolvidas para o 
estudo da mente humana. O texto a seguir, desenvolvido por Sternberg (2015), nos 
apresenta uma síntese dos conhecimentos abordados por cada uma dessas teorias. 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
10
O racionalismo acredita que o caminho para o conhecimento se dá por 
meio da análise lógica. Em contrapartida, Aristóteles foi um empirista. O empirista 
acredita que se adquire conhecimento por meio da evidência empírica, ou seja, 
esta evidência é obtida por intermédio da experiência e da observação. 
O Empirismo orienta diretamente a observação empírica da 
Psicologia. Ao contrário, o Racionalismo é muito importante para o 
desenvolvimento da fundamentação teórica. As teorias racionalistas, 
sem qualquer ligação com a observação, não podem ser, portanto, 
válidas. Entretanto, grandes quantidades de dados empíricos, 
sem uma estrutura teórica organizada, também podem não fazer 
sentido. Podemos considerar a visão racionalista do mundo como 
uma tese, enquanto a visão empirista seria a antítese. A maioria dos 
psicólogos, atualmente, busca a síntese dessas duas teses, fundamenta 
suas observações empíricas na teoria. Por outro lado, usam essas 
observações para revisar suas próprias teorias. As ideias contrastantes 
do Racionalismo e do Empirismo tornaram-se notórias a partir do 
racionalista Francês René Descartes (1596-1650) e do empirista inglês 
John Locke (1632-1704). Descartes considerava o método introspectivo 
e reflexivo superior ao método dos empíricos de encontrar a verdade. 
De acordo com Schultz e Schultz (2006), Descartes tinha um profundo 
interesse em aplicar o conhecimento científico às questões práticas. 
O trabalho mais importante de Descartes para o desenvolvimento 
da Psicologia moderna foi a tentativa de resolver o problema mente-
corpo (a questão da distinção entre as qualidades física e mental), uma 
questão controversa durante séculos (STERNBERG, 2015, p. 3).
Ao longo de vários períodos, os intelectuais discutiam como a mente 
– ou as qualidades mentais – podia ser diferenciada do corpo e 
todas as demais qualidades físicas. [...] Antes de Descartes, a teoria 
predominante afirmava ser a interação entre a mente e o corpo 
essencialmente unilateral. A mente era capaz de exercer grande 
influência sobre o corpo, enquanto o corpo exercia pouco efeito sobre 
a mente [...). Na teoria da interação mente-corpo de Descartes, a mente 
influenciava o corpo e a influência deste sobre a mente era maior do 
que se acreditava. A relação não era apenas unilateral, mas mútua. Essa 
proposta, considerada radical no século XIX, teve grande repercussão 
na psicologia (SCHULTZ; SCHULTZ, 2006, p. 35). 
 Locke, por sua vez, era muito entusiasmado com o método da observação 
empírica (LEAHEY apud SCHULTZ; SCHULTZ, 2006). Segundo Schultz e Schultz 
(2006), o principal interesse de Locke estava voltado ao funcionamento cognitivo, 
isto é, a forma como a mente adquire o conhecimento, rejeitando a proposta de 
Descartes sobre a existência das ideias inatas, apresentando a teoria de que o ser 
humano nascia sem qualquer conhecimento prévio. 
4.1 RADICALISMO VERSUS EMPIRISMO
TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS
11
Locke acreditava que os seres humanos nascem sem qualquer 
conhecimento e, portanto, precisam buscá-lo por meio da observação 
empírica. O conceito de Locke para isso é o termo tábula rasa (que 
em latim significa “folha de papel em branco”). Sua ideia é de que a 
vida e a experiência “escrevem” o conhecimento do indivíduo. Sendo 
assim, para Locke, o estudo da aprendizagem era fundamental para 
a compreensão da mente humana. Ele acreditava que não existiam 
de forma alguma ideias inatas. No século XVIII, o filósofo alemão 
Immanuel Kant (1724-1804) sintetizou dialeticamente as ideias de 
Descartes e Locke argumentando que tanto o Racionalismo como o 
Empirismo têm seu lugar e que ambos devem trabalhar juntos na 
busca pela verdade. Atualmente, a maioria dos psicólogos aceita a 
síntese de Kant (STERNBERG, 2015, p. 4). 
Já passamos pela Grécia antiga e pela Idade Média. Chegamos agora ao 
Renascimento, período de transição para o capitalismo. Foi neste período histórico 
que grandes personalidades, como Leonardo da Vinci, Boticelli, Michelangelo 
e Maquiavel produziram grandes obras. Este também foi um período em que 
a ciência avançou de forma bastante significativa. Conforme já estudamos, em 
1543, Copérnico revolucionou o conhecimento da época ao mostrar que a Terra 
não era o centro do universo. Em 1610, Galileu realizava as primeiras experiências 
da Física. O conhecimento científico começa a estabelecer seus métodos e regras 
e ganha força, dando origem ao objeto de estudo da Psicologia científica: a 
subjetividade humana. 
12
 Neste tópico, você aprendeu que:
• O estudo do comportamento humano bebeu das fontes de conhecimento 
tanto da Filosofia quanto da Fisiologia. Da Filosofia e da teoria racionalista 
(conhecimento por meio da análise lógica) veio o método introspectivo 
(exame de ideias e experiências internas), que foi utilizado pelos filósofos nas 
suas primeiras tentativas de explicação da mente. Da Fisiologia e da teoria 
do conhecimento empírico (evidência empírica por meio da experiência e 
observação).
• Filósofos como Platão, Aristóteles e Sócrates contribuíram com os estudos 
vistos aqui. De uma maneira geral, conforme citado por Bock, Furtado e 
Teixeira (2008), Sócrates preocupou-se com o limite que separava o homem dos 
animais e concluiu que a essência do ser humano é a razão, abrindo caminho 
para os estudos da consciência. Platão procurou definir um lugar para a 
razão no corpo, e definiu esse lugar como a cabeça. Concebia alma e corpo 
como separados (concepção dualista). Aristóteles inovou, apresentando uma 
concepção monista: alma e corpo não podem ser dissociados e escreveu Da 
Anima – considerado o primeiro tratado de Psicologia da história. 
• Assim como Platão, Santo Agostinho era adepto da concepção dualista, ou seja, 
concebia alma e corpo separadamente, e ainda segundo Bock, Furtado e Teixeira 
(2008), para ele, a alma era a prova de uma manifestação divina no homem. 
Ela seria a ligação entre o homem e Deus, portanto a alma seria imortal. São 
Tomás de Aquino, inspirado em Aristóteles, considerava que o ser humano, 
em sua essência, buscava a perfeição por meio de sua existência. No entanto, 
ao contrário de Aristóteles, afirma que somente Deus seria capaz de reunir a 
essência e a existência em termos de igualdade, portanto a busca do homem pela 
perfeição seria a busca de Deus. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008).
• As grandes descobertas que mudaram a história da humanidade e 
impulsionaram não só a ciência psicológica, mas a ciência de uma forma geral, 
são as chamadas feridas narcísicas. A primeira descoberta revolucionária veio 
com Copérnico, postulando que a Terra não é o centro do universo. A segunda 
foi a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, contrapondo a 
soberania da Igreja Católica; e a terceira veio com o conhecimento apresentado 
por Freud, que abalou a sociedade quando postulou o inconsciente como uma 
força mental constituinte do ser humano, dizendo que o homem não é senhor 
de sua razão.
RESUMO DO TÓPICO 1
13
1 Faça uma breve descrição apontando as principais contribuições dos filósofos 
gregos para o desenvolvimento das ciências atuais.
2 Explique de que maneira o racionalismo e o empirismo contribuíram para o 
surgimento da Psicologia, que é o estudo do comportamento humano.
3 Explique quais foram as três grandes descobertas que revolucionaram a 
história da humanidade e da ciência como um todo.
AUTOATIVIDADE
Agora que você já conhece o contexto histórico que possibilitou o surgimento 
da Psicologia, vamos entender como essa teoria adquiriu seu status de ciência.
ESTUDOS FU
TUROS
14
15
TÓPICO 2
A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Você sabe qual é a diferença entreo conhecimento científico e outro 
conhecimento? Quais aspectos fazem um conhecimento se tornar científico? E os 
conhecimentos que não são científicos, como são chamados? Como a Psicologia 
tornou-se uma ciência? São essas questões que vamos explorar neste tópico. 
Existem dois tipos de conhecimento, ou seja, duas linhas de raciocínio que 
são utilizadas para disseminar uma ideia ou teoria. Um deles é o já mencionado 
conhecimento científico e o outro é o conhecimento do senso comum. O 
conhecimento do senso comum, como o próprio nome diz, trata-se de um 
conhecimento disseminado e aceito por um determinado grupo de pessoas, isto é, 
há um consenso ou uma ideia comum de que aquele conhecimento é verdadeiro. 
Por exemplo, os conhecimentos das nossas avós acerca do chá que devemos tomar 
para curar uma dor de estômago. Atualmente já existem inúmeras pesquisas 
científicas a esse respeito, porém, nossas avós não leram nenhum artigo científico 
que comprove que o chá é eficaz no tratamento de distúrbios estomacais, elas 
utilizam informações que lhes foram passadas também por suas mães, avós etc. 
É exatamente isso que chamamos de conhecimento do senso comum: uma ideia 
ou teoria passada de geração em geração, mas que não passou por nenhuma 
análise criteriosa de cunho científico. É o tipo de conhecimento que não se 
questiona. Aprendemos com nossas avós e seguimos repetindo, sem argumentar 
ou questionar a origem deste conhecimento.
Se o conhecimento do senso comum é algo que não questionamos, com 
o conhecimento científico o processo é bem diferente. Para que uma teoria seja 
considerada científica, ela passa por um rigoroso processo, que compreende 
métodos, teorias e técnicas específicas que lhe conferem o status de ciência. 
Vamos nos voltar agora ao caminho percorrido pela Psicologia nesse sentido. 
Já estudamos o contexto histórico, as contribuições da Filosofia e da Fisiologia, 
e agora vamos conhecer as teorias que se desenvolveram a partir das referidas 
contribuições e entender como elas evoluíram para o que hoje conhecemos como 
a ciência psicológica. São conhecimentos desenvolvidos a partir de um processo 
rigoroso e passível de verificação, que permite que a Psicologia seja utilizada hoje 
como fonte de informação também para outras áreas. 
Foram muitas as teorias que se desenvolveram com o objetivo de entender 
e explicar o funcionamento da mente humana. Nesse tópico vamos nos voltar 
para aquelas consideradas primordiais no sentido de elevar a Psicologia ao 
lugar de ciência. Entre elas, destacam-se o estruturalismo de Wilhelm Wundt 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
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(1832-1920) e Edward Titchener (1867-1927), sendo o primeiro considerado o 
“pai da Psicologia científica”; o funcionalismo/pragmatismo de William James 
(1842-1910); o associacionismo de Hermann Ebbinghaus (1850-1909) e Edward 
Thorndike (1874-1949); a psicanálise de Freud (1856-1939); e o behaviorismo de 
Pavlov (1849-1936), Watson (1878-1958) e Skinner (1904-1990). 
2 A PSICOLOGIA CIENTÍFICA DE WUNDT E A SUBJETIVIDADE 
HUMANA 
Nos estudos que fizemos anteriormente, mencionamos que Wilhelm 
Wundt é considerado o “pai da Psicologia científica”. Você deve estar se 
perguntando o que este autor desenvolveu de tão importante para receber esse 
título, não é mesmo? Pois bem, vamos estudar agora porque os feitos de Wundt 
provocaram uma mudança tão significativa no status da Psicologia a ponto de 
torná-la uma ciência propriamente dita.
Vamos começar situando-nos no tempo e espaço desse acontecimento 
histórico tão importante para a Psicologia. Segundo Bock, Furtado e Teixeira 
(2008), o berço da Psicologia científica foi a Alemanha do final do século XIX, onde 
Wundt fundou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Leipzig, 
no ano de 1879, fazendo pesquisas sobre percepção, aprendizagem e memória. 
Wundt, Weber e Fechner trabalharam juntos na Universidade de 
Leipzig. Seguiram para a Alemanha muitos estudiosos dessa nova 
ciência, como o inglês Edward B. Titchener e o americano William 
James. Seu status de ciência é obtido à medida que se “liberta” da 
Filosofia, que marcou sua história até aqui, e atrai novos estudiosos 
e pesquisadores, que, sob os novos padrões de produção de 
conhecimento, passam a:
• Definir seu objeto de estudo (o comportamento, a vida psíquica, a 
consciência);
• Delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas do 
conhecimento, como a Filosofia e a Fisiologia;
• Formular métodos de estudo desse objeto;
• Formular teorias com um corpo consistente de conhecimentos na 
área.
Essas teorias devem obedecer aos critérios básicos da metodologia 
científica, isto é, deve-se buscar a neutralidade do conhecimento 
científico, os dados devem ser passíveis de comprovação, e o 
conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para 
outros experimentos e pesquisas na área.
Embora a Psicologia científica tenha nascido na Alemanha, é nos 
Estados Unidos que ela encontra campo para um rápido crescimento, 
resultado do grande avanço econômico que colocou este país na 
vanguarda do sistema capitalista. Nos Estados Unidos surgem as 
primeiras abordagens ou escolas de Psicologia, as quais deram origem 
às inúmeras teorias que existem atualmente (BOCK; FURTADO; 
TEIXEIRA, 2008, p. 41).
TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
17
Sendo assim, os critérios necessários para que possamos considerar um 
conhecimento científico são: objetividade; objeto de estudo específico; linguagem 
rigorosa; métodos e técnicas específicos; suas conclusões são passíveis de 
verificação; processo cumulativo de conhecimento. 
O quadro a seguir apresenta um comparativo entre os conhecimentos do 
senso comum e científico para que possamos visualizar de forma mais clara as 
principais diferenças entre eles:
QUADRO 1 – COMPARATIVO ENTRE OS CONHECIMENTOS PRODUZIDOS NO SENSO COMUM 
E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO
SENSO COMUM CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Subjetivo. O conhecimento varia de uma 
pessoa para outra, dependendo do contexto 
em que ela vive.
Objetivo. Utiliza estruturas universais e muito 
bem definidas para a construção do conhecimento 
(o conhecimento pode ser comprovado 
cientificamente). 
Qualitativo. As coisas são julgadas 
(interpretadas) por nós como grandes ou 
pequenas, doces ou azedas, pesadas ou 
leves, novas ou velhas. 
Quantitativo. Estabelece medidas, padrões e 
critérios de comparação e avaliação para as coisas 
que parecem ser diferentes. 
Heterogêneo. Refere-se a fatos que 
julgamos diferentes, porque os percebemos 
como diversos entre si (é novamente uma 
questão de interpretação, de ponto de vista. 
Duas pessoas podem ter interpretações 
diferentes de um mesmo fato). 
Homogêneo. Busca le is gerais para o 
funcionamento dos fenômenos, que são as 
mesmas para os fatos que nos parecem diferentes.
Tende a estabelecer relações de causa e 
efeito entre as coisas ou entre os fatos: “onde 
há fumaça, há fogo; ingerir sal quando se tem 
tontura é bom para a pressão”.
Só estabelece relações causais depois de 
investigar a natureza ou estrutura do fato 
estudado e suas relações com outros semelhantes 
ou diferentes. 
Não se surpreende nem se admira com 
a regularidade, constância, repetição e 
diferença das coisas. A admiração e o 
espanto se dirigem para o que é imaginado 
como único, extraordinário e maravilhoso. 
Surpreende-se com a regularidade, a constância, 
a frequência, a repetição e a diferença das 
coisas e procura mostrar que o maravilhoso e o 
extraordinário têm uma explicação: um terremoto 
ou um furacão obedecem às leis da física (procura 
apresentar explicações racionais e claras para os 
fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao 
fantástico).
FONTE: Adaptado de Bock, Furtado e Teixeira (2008)
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
18
Sabe-se que, para ser considerada científica, uma teoria precisa apresentar 
um objeto de estudo específico. Já vimos que a Psicologiase volta para o estudo 
do comportamento, da vida psíquica e da consciência, porém utilizamos um 
termo para definir o objeto de estudo da Psicologia científica que engloba todos 
os fenômenos psicológicos: a subjetividade humana.
Subjetividade humana é a singularidade do ser humano, as particularidades 
de cada um, aquilo que distingue uma pessoa de outra. De acordo com Bock, 
Furtado e Teixeira (2008), o ser humano passou a ter necessidade de construir 
uma ciência que estudasse e produzisse visibilidade para a experiência subjetiva. 
Assim surgiu a Psicologia, como produto das dúvidas do homem moderno, esse 
humano que se valorizou enquanto indivíduo e que se constituiu como sujeito 
capaz de se responsabilizar por seu destino. 
Atualmente, a Psicologia é detentora de vasta quantidade de teorias que 
tornam o campo de atuação profissional do psicólogo extremamente amplo. Essas 
teorias se desenvolveram a partir dos conhecimentos produzidos pelas primeiras 
escolas de pensamento, advindas dos conhecimentos produzidos por Wundt e 
seus contemporâneos. Cada uma delas é apresentada a seguir. 
3 O ESTRUTURALISMO E O MÉTODO INTROSPECTIVO
Primeiramente, precisamos esclarecer que as escolas de pensamento da 
Psicologia se referem às teorias que fundamentam o trabalho do psicólogo. Elas 
são como um filtro que o profissional utiliza para basear o seu olhar e as suas 
análises. 
O estruturalismo teve como principais expoentes Wilhelm Wundt e 
Edward Titchener. Essa teoria é considerada a primeira escola de pensamento da 
Psicologia. De uma maneira geral, podemos dizer que o estruturalismo buscava 
entender a estrutura da mente e suas percepções pela análise dessas percepções 
em seus componentes constitutivos, especialmente a consciência. 
Titchener irá estudá-la em seus aspectos estruturais, isto é, os estados 
elementares da consciência como estruturas do sistema nervoso central. 
Essa escola foi inaugurada por Wundt, mas foi Titchener, seu seguidor, 
quem usou o termo estruturalismo pela primeira vez, no sentido de 
diferenciá-la do funcionalismo. O método de observação de Titchener, 
assim como o de Wundt, é o introspeccionismo e os conhecimentos do 
laboratório (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 41).
O método introspectivo já era utilizado pelos filósofos na Grécia antiga. 
Wundt o aperfeiçoou, criando a seguinte definição: 
TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
19
IMPORTANTE
Introspecção: a autoanálise da mente para se inspecionar e relatar os 
pensamentos ou sentimentos pessoais.
Schultz e Schultz (2006) definiram, de maneira muito clara, como Wundt 
construiu sua teoria, no texto que segue: “O método da Introspecção”. 
3.1 O MÉTODO DA INTROSPECÇÃO
Wundt descrevia a sua Psicologia como a ciência da experiência 
consciente. Sendo assim, o método da Psicologia científica deve abranger as 
observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que 
passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método 
de observação devia necessariamente utilizar-se da introspecção, ou seja, do 
autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção 
interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no 
tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do 
controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção.
Na Física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na 
Fisiologia, foi aplicada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo: para 
obter informações sobre os sentidos, o pesquisador aplicava um estímulo e 
pedia ao indivíduo para descrever a sensação produzida. Esse procedimento 
é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísica empregados por Fechner. 
Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam se algum era mais 
pesado, mais leve ou se ambos tinham o mesmo peso, estavam passando pela 
experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiências 
conscientes. 
A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt 
na Universidade de Leipzig, obedecia às regras e condições estabelecidas por 
ele: 
• Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será 
introduzido.
• Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta.
• Deve haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação.
• Deve haver condições adequadas para se variar as situações experimentais 
em termos de manipulação controlada do estímulo.
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
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A última condição remete à essência do método experimental: a 
variação das condições das situações de estímulo e a observação das mudanças 
resultantes das experiências descritas pelos indivíduos.
Wundt acreditava que sua forma de introspecção – a percepção interna – 
permitia fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas 
de interesse da Psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os 
dados para as ciências, como a Astronomia e a Química. Na percepção externa, 
o foco de observação encontra-se fora do observador, por exemplo, uma estrela 
ou reação da mistura química no tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco 
encontra-se dentro do observador, na sua experiência consciente.
O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições 
experimentais consiste em produzir observações precisas passíveis de repetição, 
da mesma forma que a percepção externa produz para as ciências naturais 
observações que podem ser repetidas separadamente por outros pesquisadores. 
A fim de atingir essa meta, Wundt insistia em treinar cuidadosa e rigorosamente 
seus observadores para realizar corretamente as percepções internas. Exigia que 
eles completassem até 10 mil observações introspectivas individuais antes de 
considerá-los preparados para proporcionarem dados significativos para o seu 
laboratório de pesquisa. Submetidos a esse treinamento repetitivo e persistente, 
os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se 
tornariam rápidos e alertas em relação à experiência consciente sendo observada. 
Na teoria, os observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para 
pensar ou refletir sobre o processo (e possivelmente introduzir alguma observação 
pessoal) e seriam capazes de descrever a experiência consciente quase imediata 
e automaticamente. Assim, o intervalo entre os atos de observar e de relatar a 
experiência imediata seria mínimo. 
Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa 
em que as pessoas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A 
descrição introspectiva que buscava estava relacionada principalmente com os 
julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários 
estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. 
Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram relatos de natureza subjetiva 
ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, 
a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria 
das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por 
equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de 
reação registrados quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos 
suficientes, Wundt extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos 
da experiência consciente 
FONTE: Schultz e Schultz (2006, p. 84).
TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
21
É fato que a rigorosidade dos processos utilizados por Wundt em seu 
laboratório revolucionou a forma de se produzir conhecimento na época e elevou 
a Psicologia a um patamar que não havia atingido até então. Estava colocada a 
maneira de se fazer ciência e muitos foram os pesquisadores que seguiram os 
passos do pai da Psicologia científica na produção de conhecimento, conforme 
veremos em outras escolas de pensamento. 
4 FUNCIONALISMO/PRAGMATISMO
O funcionalismo basicamentebusca entender o que as pessoas fazem e por 
que o fazem. Conforme apontado por Sternberg (2015), os funcionalistas estavam 
unidos pelos tipos de perguntas que faziam, mas não necessariamente pelas 
respostas que encontravam ou pelos métodos que utilizavam para chegar a essas 
respostas. Como os funcionalistas acreditavam no uso de qualquer método que 
melhor respondesse às perguntas de um determinado pesquisador, parece natural 
que o funcionalismo tenha levado ao pragmatismo. Os pragmatistas acreditam 
que o conhecimento só pode ser validado por sua utilidade: o que se pode fazer 
com isto? Estão interessados não apenas em saber o que as pessoas fazem, mas 
também querem descobrir o que podemos fazer com o nosso conhecimento sobre 
o que as pessoas fazem.
O funcionalismo é considerado como a primeira sistematização 
genuinamente americana de conhecimento em Psicologia. Uma 
sociedade que exigia o pragmatismo para o seu desenvolvimento 
econômico acaba por exigir dos cientistas americanos o mesmo 
espírito. Desse modo, para a escola funcionalista de William James, 
importa responder “o que fazem os homens” e “por que o fazem”. 
Para responder isso, James elege a consciência como o centro de 
suas preocupações e busca a compreensão do seu funcionamento, 
na medida em que o homem a usa para adaptar-se ao meio (BOCK; 
FURTADO; TEIXEIRA, 2008 p. 41).
Observe que até o momento as referidas escolas de pensamento voltaram-
se aos estudos da consciência. É possível entender porque Freud causou uma 
reviravolta não só no meio científico, mas na humanidade como um todo quando 
chamou a atenção para aspectos que vão além da consciência, quando postulou 
a existência do inconsciente. Ninguém, até então, havia proposto a existência de 
um fenômeno psicológico de tamanha importância. No entanto, antes de estudar 
um pouco mais sobre a Psicanálise de Freud, vamos conhecer outra escola de 
pensamento de grande importância para a Psicologia, o Associacionismo de 
Hermann Ebbinghaus e Edward Thorndike.
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
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5 ASSOCIACIONISMO
Você está estudando um conteúdo específico da disciplina de Psicologia 
Aplicada à Saúde nesse momento e certamente conhece a premissa de que 
a repetição leva ao aprendizado, não é? O associacionismo se interessou em 
compreender como os eventos e ideias podem se associar na mente propiciando 
a aprendizagem. Foi nessa teoria que, pela primeira vez, considerou-se a repetição 
como auxílio do aprendizado. De acordo com Sternberg (2015), as associações 
podem resultar em termos de contiguidade (associar informações que tendem a 
ocorrer juntas ou quase ao mesmo tempo); de similaridade (associar assuntos com 
traços ou propriedades semelhantes); ou em termos de contraste (associar assuntos 
que parecem apresentar polaridades, como quente/frio, claro/escuro, dia/noite).
No fim dos anos 1800, o associacionista Hermann Ebbinghaus foi 
o primeiro pesquisador a aplicar os princípios associacionistas de 
maneira sistemática. Ebbinghaus estudou e observou especificamente 
seus próprios processos mentais. Contou seus próprios erros e 
registrou seus tempos de resposta. Por meio de auto-observações, 
estudou como as pessoas aprendem e se lembram dos conteúdos por 
meio da repetição consciente do material a ser aprendido. Entre outras 
conclusões, descobriu que a repetição possibilita fixar as associações 
mentais de maneira mais consciente na memória. Dessa forma, a 
repetição auxilia o aprendizado. Outro associacionista influente, 
Edward Thorndike, sustentava que o papel da “satisfação” era a chave 
para a formação das associações. Thorndike chamou esse princípio de 
Lei do Efeito (1905): um estímulo tenderá a produzir uma determinada 
resposta ao longo do tempo se o organismo for recompensado com 
essa resposta. Ele acreditava que um organismo aprendia a responder 
de uma determinada maneira (o efeito) em uma dada situação se fosse 
constantemente recompensado por isso (a satisfação, que serve como 
estímulo para ações futuras). Assim, uma criança que recebe uma 
recompensa por resolver corretamente problemas de aritmética irá 
aprender a fazê-lo sempre assim, porque estabelece uma associação 
entre a solução válida e a recompensa. (STERNBERG, 2015, p. 6)
Vamos trazer essa análise para o nosso contexto atual. Prestando atenção 
no seu próprio processo de aprendizagem, é possível perceber a validade da 
teoria associacionista. Você sabe que será recompensado pelo esforço que tem 
feito ao dedicar-se aos estudos. Vislumbrar como será recompensado por isso é 
um fator motivacional extremamente importante, que acaba por fazê-lo pensar em 
estratégias de como favorecer o seu entendimento dos conteúdos, por exemplo. E 
mais, você está utilizando os princípios de contiguidade, similaridade e contraste 
para entender o que está lendo. Várias teorias de aprendizagem desenvolveram-
se desde as pesquisas de Ebbinghaus e Thorndike, porém é muito importante que 
tenhamos conhecimento deste momento histórico, que foi ponto de partida para 
entender como a nossa mente aprende. 
TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
23
6 PSICANÁLISE
Quando se fala em Psicologia, o nome que vem imediatamente à cabeça 
da maioria das pessoas é o de Sigmund Freud. Já mencionamos anteriormente 
o impacto que as descobertas de Freud causaram na história da humanidade 
e porque o inconsciente, apresentado por ele, foi considerado a terceira ferida 
narcísica da história. Esse tópico aborda as teorias que foram fundamentais para 
a consolidação da Psicologia como ciência, portanto, não há como se falar da 
Psicologia científica sem nos voltarmos às contribuições da Psicanálise de Freud. 
A psicanálise, como método de investigação, caracteriza-se pelo 
método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que 
é manifestado por meio de ações e palavras ou pelas produções 
imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres, os 
atos falhos. A prática profissional refere-se à forma de tratamento 
– a análise – que busca o autoconhecimento ou a cura, que ocorre 
por meio desse processo de investigação. Atualmente, o exercício 
da Psicanálise acontece de muitas formas, é usada como base para 
psicoterapias, aconselhamento, orientação; é aplicada no trabalho com 
grupos, instituições. A psicanálise também é instrumento importante 
para a análise e interpretação de fenômenos sociais relevantes: as 
novas formas de sofrimento psíquico, o excesso de individualismo no 
mundo contemporâneo, a exacerbação da violência etc. Compreender 
a Psicanálise significa percorrer novamente o trajeto pessoal de 
Freud, desde a origem dessa ciência e durante grande parte do 
seu desenvolvimento. A relação entre o autor e obra torna-se mais 
significativa quando descobrimos que grande parte de sua produção 
foi baseada em experiências pessoais, transcritas com rigor em várias 
de suas obras, como A interpretação dos sonhos e Psicopatologia da vida 
cotidiana, dentre outras (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 47).
O desenvolvimento da teoria freudiana deu-se inicialmente através do 
trabalho com pacientes histéricas. O caso mais notório, que embasou os primórdios 
da teoria de Freud, foi o de uma paciente que ficou conhecida como o “caso Anna 
O.”, que era atendida pelo médico fisiologista austríaco Josef Breuer (1842-1925), 
autor de obras precursoras da Psicanálise. 
Este caso foi o primeiro em que um médico conseguiu esclarecer todos 
os sintomas do estado histérico e descobrir, ao mesmo tempo, os meios 
de fazer com que desaparecessem. O método catártico, adotado por 
Breuer, propiciou o surgimento da Psicanálise. “Anna O.” cunhou a 
expressão “talking cure” (cura pela palavra) para “wegezahlen” (narração 
livre) de sintomas, um processo que Freud, posteriormente, desenvolveu 
como técnica psicanalítica de associações livres. “Anna O.” referia-se ao 
método como “chimney sweeping” (limpeza da chaminé) – a paciente 
sabia que, depois que houvesse dadoexpressão às suas alucinações, 
perderia o que descrevia como “energia” (MINTZBERG, 1998, p. 13).
Ainda de acordo com Mintzberg (1998), o texto “Estudos sobre a histeria” 
(BREUER; FREUD, 1893), cujo tema é o caso “Anna O.”, é considerado a primeira 
publicação notável da teoria psicanalítica. O tratamento de Anna O. teve início 
15 anos antes da publicação do livro. Breuer era quem atendia a paciente e Freud 
desenvolvia a teoria a partir do referido caso. 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
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Muitas evoluções aconteceram desde as primeiras publicações de 
Breuer e Freud. Vários outros pesquisadores seguiram o caminho aberto por 
eles e aperfeiçoaram as pesquisas e os métodos de fazer análise. Atualmente, a 
psicanálise se configura como um método amplamente aceito e consolidado e 
utilizado nos mais diversos campos de atuação do psicólogo.
7 BEHAVIORISMO
A origem do termo behaviorismo vem da palavra inglesa behavior, que 
significa comportamento. De uma maneira geral, podemos definir o behaviorismo 
como a ciência do comportamento humano. O que os pesquisadores dessa teoria 
postularam inicialmente foi que a psicologia deveria se concentrar apenas na 
relação entre o comportamento observável, de um lado, e os eventos, ou estímulos 
ambientais, de outro. Vamos entender qual foi o caminho percorrido para o 
desenvolvimento da teoria. 
 Para falar sobre a teoria behaviorista precisamos passar obrigatoriamente 
pelas obras de três autores, considerados os precursores dessa escola de 
pensamento. São eles: John B. Watson (1878-1958), Ivan Pavlov (1849-1936) e 
Burrhus Frederic Skinner (1904-1990).
Conforme nos apontam Bock, Furtado e Teixeira (2008), ao postular o 
comportamento como objeto da Psicologia, Watson trouxe a possibilidade de 
pesquisar um fenômeno passível de observação e mensuração, aumentando 
ainda mais a cientificidade da teoria psicológica. Watson foi o responsável pela 
publicação do primeiro artigo que mencionava o Behaviorismo, no ano de 1913, 
intitulado “Psicologia: como os behavioristas a veem”. 
Apesar de colocar o “comportamento” como objeto da Psicologia, o 
behaviorismo foi, desde Watson, modificando o sentido desse termo. Hoje, 
não se entende comportamento como uma ação isolada de um sujeito, 
mas como uma interação entre aquilo que o sujeito faz e o ambiente onde 
o seu “fazer” está inserido. Portanto, o behaviorismo dedica-se ao estudo 
das interações entre o indivíduo e o ambiente, entre as ações do indivíduo 
(respostas) e o ambiente (estimulações). Os psicólogos dessa abordagem 
chegaram aos termos “resposta” e “estímulo” para se referirem àquilo 
que o organismo faz e as variáveis ambientais que interagem com o 
sujeito. (...) o comportamento, entendido como interação entre indivíduo 
e ambiente e a unidade básica de descrição, é o ponto de partida para 
uma ciência do comportamento. O ser humano começa a ser estudado 
a partir de sua interação com o ambiente, sendo tomado como produto 
e produtor dessa interação (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 59).
Observe que, ao passo que Freud, em sua teoria psicanalítica, trouxe a visão 
de que as respostas para os problemas investigados pela Psicologia estariam nos 
aspectos inconscientes, ou seja, aqueles aos quais não temos acesso, os behavioristas 
se concentraram na análise do comportamento observável, analisando as interações 
do homem com o ambiente, isto é, voltaram o olhar para aquilo que podiam ver, 
analisar, descrever e mensurar de maneira precisa. Um ótimo exemplo da pesquisa 
behaviorista é o famoso experimento realizado por Pavlov. 
TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
25
Ivan Pavlov foi um fisiologista russo, responsável pelo experimento 
que permitiu o desenvolvimento de uma importante premissa da Psicologia 
Comportamental: o reflexo condicionado. Pavlov realizou o referido experimento 
em laboratório e observou como se dava a interação de um cachorro com 
os estímulos que lhe eram apresentados. No primeiro momento, antes do 
condicionamento, ao apresentar a comida (estímulo) ao cachorro, a resposta obtida 
foi a salivação (estímulo: comida; resposta: salivação). No segundo momento, 
ainda antes do condicionamento, Pavlov adicionou outro estímulo. Desta vez, o 
cachorro ouviu o som de uma campainha, ao qual não manifestou resposta. No 
terceiro momento, durante o condicionamento, Pavlov apresentou novamente 
o som da campainha, seguido da comida e obteve a resposta de salivação do 
cachorro. No momento seguinte, depois do condicionamento, ao apresentar 
somente o som como estímulo, a resposta obtida foi a salivação. A Figura 2 ilustra 
todo o processo do experimento.
FIGURA 2 – O EXPERIMENTO DE PAVLOV
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2016.
Outros pesquisadores seguiram os passos de Pavlov e continuaram 
realizando experimentos de grande importância para a teoria comportamental. 
Um deles foi o psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, que ficou 
conhecido com seu experimento denominado Caixa de Skinner. A pesquisa de 
Skinner descreveu o condicionamento operante. 
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA
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FIGURA 3 – CAIXA DE SKINNER
Gerador de
Choques
Elétricos
Grade
Elétrica
Pedaço de
Comida
Dispensador
de comida
Alavanca
Luz Sinalizadora
Alto-falante
CAIXA DE
SKINNER
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2016.
A descoberta de Skinner foi o ponto de partida para a aplicação da 
modelagem comportamental em outras espécies, ou seja, possibilitou a criação e 
manutenção de comportamentos de maneira planejada e controlada.
Acabamos de conhecer as principais teorias que ampliaram o 
caráter científico da Psicologia. É claro que muitos experimentos e teorias se 
desenvolveram a partir destas. Pesquisa é algo que nunca se esgota na ciência 
psicológica, afinal, nosso objeto de estudo, a subjetividade humana, nos desafia 
com uma amplitude de possibilidades de estudo e intervenção. Vamos explicar 
melhor como aplicamos todas essas teorias no nosso fazer profissional, mas antes 
vamos recapitular o que estudamos até aqui.
De acordo com Epaminondas (2008), Skinner colocou em sua caixa um 
rato privado de alimento. Naturalmente, o rato emitia vários comportamentos 
aleatoriamente e, quando ele se aproximava de uma barra perto da parede, 
Skinner introduzia uma gota d’água na caixa através de um mecanismo, e o rato 
a bebia. As próximas gotas eram apresentadas quando o rato se aproximava um 
pouco mais da barra. As outras quando o rato encostava o nariz na barra. Depois 
as patas. E assim em diante, até que o rato estava pressionando a barra dezenas 
de vezes até saciar completamente sua sede. Observou-se que os comportamentos 
do rato que eram seguidos de um estímulo reforçador (a água) aumentavam de 
frequência, enquanto outros diminuíam. A Figura 3 ilustra o funcionamento da 
Caixa de Skinner.
27
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• A obra de Wundt foi fundamental para elevar a Psicologia ao patamar 
científico. Seu maior feito, que marcou esse momento histórico, foi a criação 
do primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Leipzig, na Alemanha, 
no ano de 1879. No referido laboratório, Wundt realizava pesquisas sobre 
percepção, aprendizagem e memória. As pesquisas de Wundt foram cruciais 
para a definição do que hoje entendemos como objeto de estudo da Psicologia: 
a subjetividade humana. A subjetividade humana pode ser definida como a 
singularidade de cada pessoa. Trata-se da característica humana que contempla 
todos os fenômenos psicológicos. 
 
• Alguns critérios são necessários para que um conhecimento seja considerado 
científico, diferenciando-o do conhecimento do senso comum. Para tornar-
se ciência, uma teoria precisa apresentar os seguintes critérios: objetividade, 
objeto