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2018 Psicologia aPlicada à saúde Prof.ª Aline Inês Hendges Prof.ª Ana Claudia Barbaresco Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus Copyright © UNIASSELVI 2018 Elaboração: Prof.ª Aline Inês Hendges Prof.ª Ana Claudia Barbaresco Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 150 H495p Hendges, Aline Inês Psicologia aplicada a saúde / Aline Inês Hendges; Ana Claudia Barbaresco; Lindamir Pozzo Arbigaus. Indaial: UNIASSELVI, 2018. 145 p. : il. ISBN 978-85-515-0138-2 1.Psicologia. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. III aPresentação Prezado acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de Psicologia Aplicada à Saúde. Esta disciplina está dividida em três unidades e tem como objetivo apresentar-lhe os conteúdos fundamentais e que servirão como suporte para o seu entendimento da aplicação da ciência psicológica à saúde. A primeira unidade apresenta os aspectos históricos da Psicologia e sua construção científica. Vamos entender como tudo começou, bem como qual foi o caminho percorrido desde os filósofos, que desenvolveram as primeiras teorias, até a aquisição do status de ciência. Nesta unidade, também vamos descrever sobre a origem das profissões e áreas de atuação. A segunda unidade traz o olhar psicológico sobre o desenvolvimento humano, desde a infância, até os aspectos importantes do desenvolvimento do idoso. Não podemos falar em Psicologia da Saúde sem entender como se dá o desenvolvimento do ser humano em todas as suas fases. A terceira unidade apresenta o panorama da Psicologia da Saúde. Vamos discutir o que é saúde e abordar temas interdisciplinares para dialogarmos com as demais áreas do conhecimento. Bons estudos! Prof.ª Aline Inês Hendges Prof.ª Ana Claudia Barbaresco Prof.ª Lindamir Pozzo Arbigaus IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA V VI VII UNIDADE 1– ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA ................................................................................................................ 1 TÓPICO 1– A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS ........................................ 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 ASPECTOS HISTÓRICOS E DESCOBERTAS QUE REVOLUCIONARAM A HISTÓRIA DA HUMANIDADE ........................................................................................................................... 4 3 CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA ................................................................................................. 6 4 RACIONALISMO E EMPIRISMO ................................................................................................... 9 4.1 RADICALISMO VERSUS EMPIRISMO ....................................................................................... 10 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 12 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 13 TÓPICO 2 – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA ............................................................................... 15 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 15 2 A PSICOLOGIA CIENTÍFICA DE WUNDT E A SUBJETIVIDADE HUMANA ................... 16 3 O ESTRUTURALISMO E O MÉTODO INTROSPECTIVO ........................................................ 18 3.1 O MÉTODO DA INTROSPECÇÃO .............................................................................................. 19 4 FUNCIONALISMO/PRAGMATISMO ............................................................................................ 21 5 ASSOCIACIONISMO ......................................................................................................................... 22 6 PSICANÁLISE ....................................................................................................................................... 23 7 BEHAVIORISMO ................................................................................................................................. 24 RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 27 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 28 TÓPICO 3 – ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO ............................................................. 29 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 29 2 O QUE É PROFISSÃO? ....................................................................................................................... 29 3 HISTÓRIA DAS PROFISSÕES ......................................................................................................... 30 4 TRABALHO OU PROFISSÃO? ......................................................................................................... 32 5 CONTEXTO DE TRABALHO ............................................................................................................ 33 6 CADASTRO BRASILEIRO DE OCUPAÇÕES ............................................................................... 36 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 37 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 38 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 39 UNIDADE 2 – PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO ........................................... 41 TÓPICO 1– DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE ................................................................................................................................ 43 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................de estudo específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicos, conclusões passíveis de verificação e processo cumulativo de conhecimento. Já o conhecimento produzido no senso comum é passado de geração para geração, sem passar por análises e pesquisas que comprovem sua eficácia. Pode ser entendido como o conhecimento da vida cotidiana. • As principais teorias que embasaram os primórdios da Psicologia científica e que evoluíram para as escolas de pensamento que os psicólogos utilizam atualmente para embasar a sua prática profissional. São elas: o estruturalismo de Wundt e Tichener, que aperfeiçoaram o método introspectivo. O funcionalismo de William James, que se interessou em responder “o que os homens fazem” e “por que o fazem”. O associacionismo de Ebbinghaus e Thorndike, que apresentaram uma teoria voltada a explicar como as pessoas aprendem. A Psicanálise de Freud e sua teoria da “cura pela palavra”, e o behaviorismo de Watson, Pavlov e Skinner, com seus experimentos que descreveram as primeiras tentativas de descrição, controle e modificação do comportamento. No tópico que segue vamos entender como os psicólogos utilizam as referidas teorias no seu fazer profissional, bem como conhecer o campo de atuação desse profissional. Como você já pode imaginar, um objeto de estudo como a subjetividade humana compôs um campo de atuação profissional extremamente amplo e que vamos explorar assim que você concluir a autoatividade. ESTUDOS FU TUROS 28 1 Explique qual é a diferença entre conhecimento do senso comum e conhecimento científico e cite algumas características de cada um. 2 Qual foi o acontecimento que marcou o início da Psicologia científica e quem foi o responsável por ele? 3 Nomes como Wundt, Titchener, James, Ebbinghaus, Thorndike, Freud, Pavlov, Watson e Skinner foram fundamentais para a consolidação da Psicologia como ciência. Descreva quais foram as contribuições de cada um dos referidos teóricos para a ciência psicológica. AUTOATIVIDADE 29 TÓPICO 3 ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO A Psicologia e as ciências psicológicas trouxeram contribuições para a sociedade e sua formação sobre a compreensão do comportamento humano. Os conhecimentos produzidos por essa ciência têm sido utilizados por diversas outras ciências, assim como por muitas profissões, visando contribuir para a melhoria de suas práticas profissionais. Informação e conhecimento sempre estiveram, ao longo da história, relacionados ao processo de desenvolvimento humano. Quando se trata do campo profissional, cada profissão segue um código de conduta e uma ética profissional, o que estabelece respeito à sociedade, melhoria das relações interpessoais de trabalho e harmonia entre as mais diversas profissões. 2 O QUE É PROFISSÃO? O termo profissão é originário da palavra latina profesione e está relacionado ao ato ou efeito de professar. Objetiva dar um sentido de confissão pública de uma crença, sentimento, opinião ou modo de ser, conduzindo a concepção de uma atividade ou ocupação especializada, que requer preparo e formação (TARGINO, 2000). Neste sentido, o profissional apresenta-se à sociedade como portador de um conhecimento específico, capaz de realizar uma tarefa. Em troca da realização desse trabalho e da garantia de eficiência, a sociedade dá credibilidade ao profissional. Perceba que todas as disciplinas da grade curricular que são cursadas dentro de um curso são fundamentadas para essa preparação profissional, que será exigida quando você se tornar um profissional e precisar tomar decisões, orientar e fazer planejamento dentro de sua área de formação. 30 UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA FIGURA 4 – FORMAÇÃO PROFISSIONAL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. 3 HISTÓRIA DAS PROFISSÕES A Idade Média ficou caracterizada pela economia ruralizada, enfraquecimento comercial e sistema de produção feudal em que as relações de trabalho eram baseadas no trabalho servil. Esta situação tornou-se cada vez mais insustentável, pois era através de lutas que os servos procuravam se tornar livres para procurar o melhor meio de sustento. FIGURA 5 – SISTEMA DE PRODUÇÃO FEUDAL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO 31 A partir daí formam-se, em determinados pontos, pequenas unidades artesanais, constituindo cidades, valorizando-se, novamente, o comércio que começou a crescer e expandir. Naquele período já existiam as profissões de sapateiro, artesões, alfaiates e comerciantes em pequenos mercados. Com a Revolução Industrial o sistema capitalista se fortificou e as relações de trabalho começaram a se modificar por completo. Houve o aumento significativo da produção de materiais e do rendimento do trabalho, sendo este sistema o que impera na maioria dos países até hoje. Assim, houve a evolução das profissões, surgindo novas técnicas e novos campos de trabalho, fazendo surgir a necessidade de regulamentação das atividades de cada profissional, implicando na reserva de mercado ou direito exclusivo de propriedade sobre campos de prática, concedido pelo Estado (GIRARDI; FERNANDES JR.; CARVALHO, 2010). As necessidades e sentidos de trabalho se alteram por condições do mundo contemporâneo. Questões como globalização, avanço das tecnologias, da flexibilização nas formas e relações de trabalho trazem o desaparecimento do chamado “pleno emprego”, e sim, a necessidade de melhor formação para conquistar o emprego ideal, ou seja, existe a necessidade da busca por diplomas (seja este de cursos de graduação, pós-graduação, técnico ou de aperfeiçoamento) para a conquista de um emprego melhor e com salário mais vantajoso (CASTEL, 2005). As instituições de ensino desenvolvem cursos e se adaptam às exigências do mercado para atender à demanda crescente de qualificação da população, o que permite o acesso a cursos técnicos, de graduação e pós-graduação, favorecendo quem tem necessidade e vontade de estudar e adquirir conhecimento. FIGURA 6 – AS MAIS DIVERSAS PROFISSÕES E FORMAS DE TRABALHO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. 32 UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 4 TRABALHO OU PROFISSÃO? Ocorreram transformações importantes ao longo da história do trabalho humano, desde o trabalho escravo até o conceito de trabalhador "livre", sujeito na propriedade privada. Na antiguidade Grega, todo o trabalho manual é desvalorizado por ser feito por escravos, enquanto a atividade teórica era considerada uma tarefa mais digna do homem. Platão defendia a ideia de que a finalidade do homem livre era a contemplação das ideias. Em Roma, chamada de Roma escravagista, o trabalho também era desvalorizado. Na Idade Média, Santo Tomás de Aquino procurava reabilitar o trabalho manual, dizendo que todos os trabalhos se equivaliam e eram dignos, mas em suas escritas haviam controvérsias quanto a esta teoria defendida por ele. Muitos textos medievais consideram a ars mechanica (arte mecânica) uma arte inferior. Na Idade Moderna, a partir do século XV, a situação começa a se alterar: o crescente interesse pelas artes mecânicas e pelo trabalho em geral justifica-se pela ascensão dos burgueses, vindos de segmentos dos antigos servos que compravam sua liberdade e dedicavam-se ao comércio, e que, portanto, tinham outra concepção a respeito do trabalho (ARANHA; MARTINS, 1993). A burguesia nascente da época procurava novos mercados e queria a qualquer preço estimular as navegações, surgindo novos empreendimentos marítimos e possibilidades que culminam com a descoberta do novo caminho para as Índias e das terras doNovo Mundo. Todo trabalho realizado pelos trabalhadores da época era desenvolvido pela necessidade de aperfeiçoamento, para melhorar a capacidade de sobrevivência das pessoas, e foi importante para a formação das profissões que existem até hoje. A preocupação de dominar o tempo e o espaço faz com que sejam aprimorados os relógios e a bússola, através de muito trabalho físico e mental. FIGURA 7 – PROFISSÃO NO MUNDO ATUAL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO 33 Veja quantas invenções aconteceram nessa época, através de muito trabalho: • Pascal inventa a primeira máquina de calcular. • Torricelli constrói o barômetro. • Surge o tear mecânico. • Com o aperfeiçoamento da tinta e do papel Gutenberg inventa a imprensa. • Galileu, ao valorizar a técnica, inaugura o método das ciências da natureza, fazendo nascer duas novas ciências, a física e a astronomia. • A máquina exerce tal influência sobre a mentalidade do homem moderno que Descartes explica o comportamento dos animais como se fossem máquinas, e vale-se do mecanismo do relógio para explicar o modelo característico do universo (ARANHA; MARTINS, 1993). Veja quanto trabalho foi necessário para construir todas as máquinas e técnicas descritas acima! Para que você entenda melhor, a primeira máquina de calcular era uma grande caixa cheia de engrenagens apoiada em uma mesa. Fazia apenas as operações de adição e subtração. Seu inventor tinha apenas 19 anos de idade. FIGURA 8 – A MÁQUINA DE PASCAL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. 5 CONTEXTO DE TRABALHO Nos referimos ao trabalho de diversas formas, como uma atividade, uma tarefa, um ambiente, ou contexto físico, como uma técnica ou método de produção, sobretudo, existe um contexto subjetivo sobre trabalho: • Tenho que trabalhar – define trabalho como compromisso. • É bom trabalhar – define trabalho como uma crença. • Fiz um bom trabalho – define como um resultado. • O trabalho é o mais importante em minha vida – define como um valor. • É hora de trabalhar – como uma estruturação temporal. 34 UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA FIGURA 9 – TRABALHO FÍSICO OU MENTAL? FONTE: Disponível em: http://metaconsult.blogspot.com/2012/ 06/o-homem-no-contexto-do-trabalho_11.html . Acesso em: 15 jan. 2018. Dependendo do contexto, considera-se como trabalhador ou trabalhadora toda pessoa que o faz, especificamente como alguém assalariado. Por outro lado, trabalhar é agir sobre a natureza, sobre a realidade, transformando-a em função dos objetivos e necessidades humanas. "A sociedade se estrutura em função da maneira pela qual se organiza o processo de produção da existência humana, o processo de trabalho" (SAVIANI, 1986, p. 14). FIGURA 10 – TODO TRABALHO É DIGNO FONTE: Disponível em: https://s04.video.glbimg.com/x720/6086923.jpg . Acesso em: 15 jan. 2018. Para a aquisição de um trabalho menos braçal, que não haja esforço físico extenuante, mais dinâmico e com possibilidade de melhores rendimentos, sabemos que a educação é a base para esta conquista. O conhecimento gera conhecimento e leva ao melhor uso do pensamento e das capacidades de raciocínio, o que permite o desenvolvimento mental e consequentemente a valorização por parte da sociedade. TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO 35 FIGURA 11 – TRABALHO MENTAL EXTENUANTE FONTE: Disponível em: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras- midias/graeber-assim-multiplicam-se-os-trabalhos-estupidos/ . Acesso em: 15 jan. 2018. Sabemos que um curso superior já não garante uma carreira prestigiosa, bem remunerada e segura, mas, atualmente, não possuir diploma traz consequências ainda mais negativas aos jovens. A formação superior desempenha seu papel como uma entidade de qualificação e abre portas para a aquisição de conhecimento e capacidade de busca pelos projetos próprios de cada estudante, facilitando suas escolhas e permitindo novas conquistas (NUNES; CARVALHO, 2007, p. 200). Algumas características são específicas do trabalho em áreas de saúde e bem-estar, exigindo que os profissionais sejam capazes de planejar, organizar, desenvolver e avaliar ações que respondam às necessidades de indivíduos e comunidades, na articulação com os diversos setores envolvidos na promoção da saúde e do bem-estar. Os aspectos relacionados ao indivíduo e à formação dos trabalhadores que atuam no setor saúde podem influenciar tanto na escolha da profissão e de área de atuação, quanto no trato com questões inerentes à execução do trabalho dentro de cada profissão (COTTA, 2006). FIGURA 12 – TRABALHO NA ÁREA DE SAÚDE E BEM-ESTAR FONTE: Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2018. 36 UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 6 CADASTRO BRASILEIRO DE OCUPAÇÕES No Brasil, as ocupações profissionais são descritas pelo Cadastro Brasileiro de Ocupações (CBO) desde 1984, considerado também como uma ação estratégica para subsidiar as políticas de geração de emprego e a elaboração de classificações de ocupações profissionais, favorecendo um maior rigor analítico das novas tendências do mercado de trabalho. Cada profissão possui um Conselho Federal e um Conselho Regional estabelecido por lei, que desenvolve as normas e técnicas de cada profissão, estabelece limites profissionais, fiscaliza o cumprimento do código de ética e conduta profissional dentro do país. Por exemplo, a profissão de Educação física possui o Conselho Regional de Educação Física (CREF), o qual, após a conclusão do curso de educação física, lhe dará um registro cadastral para exercer a profissão. Você também pode obter informações e solicitar fiscalização de profissionais através deste conselho. Cada profissional deve seguir três níveis de responsabilidade do profissional: 1. Trata da aceitação ou recusa do papel profissional, o que implica em avaliar se o mesmo está alinhado aos seus valores. 2. Compromisso com a excelência que se espera do papel profissional. 3. Responsabilidade em contribuir para o bem comum da sociedade, para melhorar as condições da vida humana individual e social (TARGINO, 2000). TÓPICO 3 | ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO 37 LEITURA COMPLEMENTAR CBO - Classificação Brasileira de Ocupações Por meio desta publicação o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE – disponibiliza à sociedade a nova Classificação Brasileira de Ocupações – CBO –, que vem substituir a anterior, publicada em 1994. Desde a sua primeira edição, em 1982, a CBO sofreu alterações pontuais, sem modificações estruturais e metodológicas. A edição 2002 utiliza uma nova metodologia de classificação e faz a revisão e atualização completa de seu conteúdo. A CBO é o documento que reconhece, nomeia e codifica os títulos e descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro. Sua atualização e modernização se devem às profundas mudanças ocorridas no cenário cultural, econômico e social do país nos últimos anos, implicando alterações estruturais no mercado de trabalho. A nova versão contém as ocupações do mercado brasileiro, organizadas e descritas por famílias. Cada família constitui um conjunto de ocupações similares correspondente a um domínio de trabalho mais amplo que aquele da ocupação. O banco de dados do novo documento está à disposição da população também em CD e para consulta pela internet. Uma das grandes novidades deste documento é o método utilizado no processo de descrição, que pressupõe o desenvolvimento do trabalho por meio de comitês de profissionais que atuam nas famílias, partindo-se da premissa de que a melhor descrição é aquela feita por quem exerce efetivamente cada ocupação. FONTE: Disponível em:. Acesso em: 15 jan. 2018. 38 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Dentre as áreas do conhecimento e atuação profissional, cada indivíduo apresenta-se à sociedade como portador de um conhecimento específico, capaz de realizar uma tarefa. Em troca da realização desse trabalho e da garantia de eficiência, a sociedade dá credibilidade ao profissional. • O processo de formação das profissões e do trabalho percorreram um longo caminho até se tornarem definidas e com conselhos próprios, que regem e fiscalizam suas práticas profissionais, e sempre têm questões a melhorar e aperfeiçoar. • Os cursos de graduação, técnicos, aperfeiçoamento ou pós-graduação permitem a quem estuda uma perspectiva de ganho de conhecimento e a conquista de reconhecimento da sociedade. • Os profissionais que desenvolvem um trabalho dentro das ciências da saúde têm a responsabilidade de atuar no sentido de analisar, planejar e orientar o seu cliente. • Os profissionais que atuam com pessoas devem estar preparados e munidos de conhecimento necessário para que não ocorram erros de conduta ou falta de ética profissional. 39 1 Escreva uma redação que contemple as principais teorias que fundamentaram o estudo das ciências da saúde. 2 Você acredita que todo trabalho é digno? Justifique. 3 Baseado neste tópico de estudos, justifique porque um curso de graduação favorece uma pessoa e lhe dá perspectivas de melhorar seus rendimentos financeiros. AUTOATIVIDADE 40 41 UNIDADE 2 PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Ao final desta unidade você será capaz de: • conhecer todo o processo de desenvolvimento humano: nascimento, infância, adolescência, vida adulta e envelhecimento; • analisar como se dá a aplicação dos conhecimentos da Psicologia do Dese- volvimento no exercício profissional do psicólogo; • compreender as contribuições da Psicologia do Desenvolvimento para a Psicologia, bem como outras áreas do conhecimento; • compreender as mudanças e seus efeitos no desenvolvimento do adoles- cente; • conhecer os aspectos fundamentais do envelhecimento saudável; • desenvolver um olhar interdisciplinar sobre o envelhecer. Esta unidade de ensino contém três tópicos. No final de cada um deles você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos. TÓPICO 1 – DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PRO- FISSIONAIS DA SAÚDE TÓPICO 2 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE TÓPICO 3 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 42 43 TÓPICO 1 DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A Psicologia do Desenvolvimento, de um modo geral, se dedica ao estudo das mudanças que ocorrem no ciclo de vida de uma pessoa, desde o seu nascimento até o fim da vida. Já estudamos várias teorias e áreas da Psicologia, na unidade de ensino anterior, que se ocupam com o estudo de diferentes fenômenos, porém, todas elas se beneficiam dos conhecimentos produzidos pela Psicologia do Desenvolvimento. Embora alguns filósofos da Grécia antiga concebessem mente e corpo separadamente, atualmente a Psicologia tem seu olhar voltado para o ser humano como um todo, ou seja, mente e corpo são interligados. Assim, precisamos entender essa complexa relação. A área do conhecimento que vamos estudar agora nos ajuda a entender exatamente o que acontece em cada fase do nosso desenvolvimento. Todas as áreas da saúde também precisam desses saberes para que possam executar seu trabalho com eficácia. Imagine como um profissional poderia avaliar se o desenvolvimento de uma criança está ocorrendo dentro do esperado sem os conhecimentos acerca de todo o processo de desenvolvimento, seja ele motor, cognitivo ou emocional. O mesmo princípio aplica-se ao educador físico e ao fisioterapeuta, por exemplo, assim como outros profissionais que trabalham diretamente com a saúde das pessoas. O estudo do desenvolvimento humano nos ajuda a entender o porquê de nossos comportamentos em cada fase da vida. Quem nos apresentou esse modelo de entendimento do desenvolvimento humano dividido em estágios foi o biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980). Sua obra tornou-se referência não somente para a Psicologia, mas para outras ciências da saúde e da educação. Vamos estudar o desenvolvimento humano a partir do desenvolvimento pré-natal e nascimento, passando por todo o processo de mudança do recém- nascido até o primeiro ano de vida, seguindo para o entendimento do processo de desenvolvimento da infância, chegando à adolescência. No desenvolvimento da adolescência, vamos estudar como as mudanças físicas e psicológicas afetam o adolescente e, ainda, como se dá a transição para a idade adulta. Por fim, vamos nos dedicar ao entendimento do processo de desenvolvimento inerente ao idoso. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 44 2 OS PRIMÓRDIOS DO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Atualmente, sabemos a importância de conhecer o processo de desenvolvimento humano, mas você sabia que os primeiros saberes acerca de como ocorre o desenvolvimento surgiram antes mesmo do advento da psicologia científica? No item a seguir veremos como tudo aconteceu. 2.1 PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES Embora muitos eventos pudessem ser identificados como o ponto de partida do estudo do desenvolvimento da criança, nossa história começa certa manhã, na França, no inverno de 1800, quando um menino nu e sujo entrou em uma aldeia na província de Aveyron, procurando por comida. Há alguns meses, algumas pessoas do local já haviam percebido o menino enquanto ele escavava procurando raízes, subia em árvores e corria sobre os quatro membros. Diziam que ele era um animal selvagem. A notícia espalhou-se rapidamente enquanto o menino apareceu na aldeia e todos foram vê-lo. Entre os curiosos estava um funcionário do governo, que levou o menino para casa e o alimentou. A criança, que parecia ter em torno de 12 anos de idade, parecia ignorar os costumes e os confortos da civilização. Quando lhe puseram roupas, ele as rasgou. Recusava-se a comer qualquer coisa que não fossem batatas cruas, raízes e nozes. Urinava e defecava quando e onde surgisse a necessidade. Os únicos sons que produzia eram gritos sem significado, e ele parecia indiferente às vozes humanas. Em seu relatório, o oficial responsável por ele concluiu que o menino havia vivido sozinho desde o início de sua infância: “um estranho às necessidades e práticas sociais... Há algo extraordinário em seu comportamento, que o faz parecer próximo à condição dos animais selvagens” (LANE, 1976, p. 8-9). Quando o relatório do funcionário chegou a Paris, causou sensação. As pessoas ficaram fascinadas pela história bizarra da criança que os jornais aclamavam como o “Menino selvagem de Aveyron”. Os estudiosos esperavam que, estudando a maneira como essa criatura não civilizada mudou quando passou a participar da sociedade, pudessem resolver questões há muito tempo sem respostas sobre a natureza e o desenvolvimento dos seres humanos – perguntas como, por exemplo: como nos diferimos dos outros animais? O que aconteceria se crescêssemos totalmente isolados da sociedade humana? Até que ponto somos produtos da nossa criação e experiência, e até que ponto nosso caráter é uma expressão de traços inatos? No entanto, os planos para estudar o menino selvagem quase malograram. Os primeiros médicos a examiná-lo diagnosticaram-no como mentalmente deficiente e especularam que, por isso, seus pais o haviam TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE 45 abandonado para morrer. Recomendaram que ele fosse colocado num hospício. E, inicialmente, foi lá colocado, até que Jean-Marc Itard (1744-1838), um jovem médico, discutiu o diagnóstico de retardo. Itard argumentava que o menino só parecia ser deficiente porque havia sido isolado da sociedade e, por isso,impedindo de se desenvolver normalmente. Na França do final do século XVIII, pelo menos uma em cada três crianças normais era abandonada por seus pais, em geral porque a família era pobre demais para sustentar mais uma criança (KESSEN, 1965). Itard acreditava que o menino fosse uma dessas crianças. O fato de ele ter sido capaz de sobreviver sozinho nas florestas de Aveyron argumentava contra a suposição de ele ser mentalmente deficiente. Itard assumiu pessoalmente o encargo de cuidar do menino. Achou que podia ensiná-lo a se tornar um francês totalmente competente, com o domínio da língua francesa e o melhor conhecimento civilizado. A França havia recentemente derrubado a monarquia e abraçado as ideias políticas de liberdade, igualdade e fraternidade. Itard e outros defensores da república queriam mostrar que era possível melhorar o desenvolvimento dos filhos dos camponeses, educando-os. Para testar sua teoria de que o ambiente social é o responsável pelo desenvolvimento das crianças, Itard criou um conjunto elaborado de procedimentos experimentais de treinamento para ensinar o Menino Selvagem a categorizar objetos, raciocinar e se comunicar (ITARD, 1801/1982). No início, Victor, como Itard chamou o Menino Selvagem, fez um progresso rápido. Ele aprendeu a comunicar necessidades simples, assim como a reconhecer e a escrever algumas palavras. Aprendeu a usar um urinol. Também desenvolveu afeição pelas pessoas que cuidavam dele. Mas Victor jamais aprendeu a falar e a interagir normalmente com as outras pessoas. Após cinco anos de trabalho intenso, Itard abandonou sua experiência. Victor não havia feito progresso suficiente para satisfazer os superiores de Itard, e o próprio Itard estava em dúvida se o menino poderia fazer mais progressos. Victor foi mantido sob os cuidados de uma mulher que era paga para cuidar dele. Morreu em 1828, ainda chamado de o Menino Selvagem de Aveyron. Suas experiências incomuns na vida deixaram sem resposta importantes questões sobre a natureza humana, sobre a influência da sociedade civilizada e sobre o grau em que os indivíduos são moldados por uma ou outra dessas forças, que os estudiosos esperavam que fossem respondidas pela sua descoberta. A maior parte dos médicos e estudiosos da época finalmente concluíram que Victor, realmente, havia nascido com uma deficiência mental. Mas ainda hoje há dúvidas quanto a isso. Alguns estudiosos modernos acham que Itard podia estar certo em sua pressuposição de que Victor era normal quando nasceu, mas que foi retardado em seu desenvolvimento como resultado de seu isolamento social (LANE, 1976). Quando foi encontrado, Victor já havia passado muitos de seus anos de formação sozinho. Ele já ultrapassara a idade que atualmente se considera ser o limite máximo para a aquisição formal da linguagem. Outros UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 46 acreditam que Victor sofria de autismo, uma condição mental patológica cujos sintomas incluem um déficit de linguagem e uma incapacidade para interagir normalmente com outras pessoas (FRITH, 1989). Também é possível que os métodos de ensino utilizados por Itard tenham falhado e que abordagens diferentes pudessem ter tido sucesso, não podemos ter certeza. As tentativas de Itard para educar Victor marcam o ponto de partida da Psicologia do Desenvolvimento, porque Itard estava entre os primeiros estudiosos a ir além da especulação e a conduzir experiências para testar suas ideias. FONTE: COLE, Michael; COLE, Sheila. O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: Artmed, 2003, p. 24-25). FIGURA 13 – VICTOR E ITARD FONTE: Cole e Cole (2003, p. 24) Os experimentos de Itard com Victor despertaram o interesse de outros pesquisadores, que se dedicaram a aprofundar suas pesquisas e desenvolver uma teoria sólida, capaz de explicar o desenvolvimento como o conhecemos hoje. 3 DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA PSICOLÓGICA Na introdução dessa unidade falamos em desenvolvimento humano como um processo. Isto porque podemos compará-lo com uma linha contínua que precisamos percorrer ou, ainda, com uma escada, em que cada degrau significa uma evolução no processo de desenvolvimento. TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE 47 IMPORTANTE Segundo a definição de Bock, Furtado e Teixeira (2008), o desenvolvimento é um processo contínuo e ininterrupto, em que os aspectos biológicos, físicos, sociais e culturais são interconectados, influenciando-se de maneira recíproca e produzindo indivíduos com um modo de pensar, sentir e estar no mundo absolutamente únicos O estudo do desenvolvimento humano compreende toda a parte biológica e fisiológica, bem como aspectos psicológicos, emocionais e afetivos. O processo de desenvolvimento não se refere somente à maturação biológica ou o refinamento de nossas capacidades motoras, mas também à nossa evolução e ao nosso amadurecimento psicológico e emocional. Cada fase do desenvolvimento tem a sua importância e traz consigo novos desafios, exigindo a criação de novas habilidades e aprimoramento das adquiridas anteriormente. Nosso desenvolvimento é influenciado por diversos fatores. São eles: Hereditariedade – a carga genética estabelece o potencial do indivíduo, que pode ou não se desenvolver. Existem pesquisas que comprovam os aspectos genéticos da inteligência. No entanto, a inteligência pode desenvolver-se aquém ou além de seu potencial, dependendo das condições do meio. Crescimento orgânico – refere-se ao aspecto físico. O aumento de altura e estabilização do esqueleto permite ao indivíduo comportamentos e um domínio do mundo que antes não existiam. Pense na possibilidade de descobertas de uma criança, quando começa a engatinhar e depois a andar, em relação a quando estava no berço com alguns dias de vida. Maturação neurofisiológica – é o que torna possível determinado padrão de comportamento. A alfabetização das crianças, por exemplo, depende dessa maturação. Para segurar o lápis e manejá-lo, é necessário um desenvolvimento neurológico que uma criança entre dois e três anos não tem. Meio – o conjunto de influências e estimulações ambientais altera os padrões de comportamento do indivíduo. Por exemplo, se a estimulação verbal for muito intensa, uma criança de três anos pode ter um repertório verbal muito maior do que a média das crianças de sua idade, mas, ao mesmo tempo, pode não subir e descer uma escada com facilidade se essa situação não fez parte da sua experiência de vida (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 118). Não são poucas as condições que interferem no desenvolvimento. Além de considerar os fatores já mencionados, precisamos entender o desenvolvimento como um todo, e isso implica olhar para quatro aspectos básicos: Aspecto físico-motor – refere-se ao crescimento orgânico, à maturação neurofisiológica, à capacidade de manipulação de objetos e de exercício do próprio corpo. Exemplo: uma criança leva a chupeta à boca ou consegue tomar uma mamadeira sozinha por volta dos sete meses, porque já coordena os movimentos das mãos. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 48 Aspecto intelectual – é a capacidade de pensamento, raciocínio. Por exemplo, uma criança de dois anos de idade que usa um cabo de vassoura para puxar um brinquedo que está embaixo de um móvel ou um jovem que planeja seus gastos a partir de sua mesada ou salário. Aspecto afetivo-emocional – é o modo particular de o indivíduo integrar as suas experiências. É o sentir. A sexualidade faz parte desse aspecto. Exemplos: a vergonha que sentimos em algumas situações, o medo em outras, a alegria de rever um amigo querido. Aspecto social – é a maneira como o indivíduo reage diante das situações que envolvem outras pessoas. Por exemplo, um grupo de crianças, no parque, é possível observar que algumas buscam espontaneamente outras para brincar, enquanto algumas permanecem sozinhas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 119). Reparequanta coisa já aprendemos ao longo de nossa vida. Você já parou para pensar na quantidade de coisas que sabe e executa facilmente hoje? Coisas muito simples, como falar, andar, dominar o próprio corpo, por exemplo. Esses processos que executamos de forma automática atualmente exigiram de nós níveis complexos de habilidade nas primeiras fases do nosso desenvolvimento. Tudo o que fazemos hoje foi aprendido, repetido e aperfeiçoado em algum momento da nossa vida. Vamos nos voltar ao entendimento desses processos de desenvolvimento a partir de agora. Para isso, vamos adentrar a obra do biólogo suíço Jean Piaget, teórico responsável pela teoria construtivista, que se dedicou a estudar o desenvolvimento humano postulando que ele acontece em estágios, em que cada fase corresponde a determinadas ações que precisamos ser capazes de executar. 4 AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOTSKY PARA O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Não podemos falar de Psicologia do Desenvolvimento sem citar a notável obra de Jean Piaget. Os estudos realizados por ele com crianças desde o nascimento até a adolescência resultaram no entendimento de que nos desenvolvemos a partir das interações que realizamos com o meio em que vivemos e, ainda, que nossa evolução ocorre por meio de estágios, em que cada um corresponde a capacidades e habilidades específicas. O referido teórico dividiu o desenvolvimento humano em quatro estágios: sensório-motor (0 a 2 anos), pré-operatório (2 a 7 anos), operatório concreto (7 a 12 anos) e operatório formal (12 anos em diante). Embora o desenvolvimento seja contínuo, é claro que ele não ocorre exatamente do mesmo jeito para todas as pessoas, pois, como já estudamos, cada um de nós é um ser único e tem características próprias, que nos diferenciam. Portanto, a faixa etária para os estágios de desenvolvimento propostos por Piaget são referências, e podem variar dependendo das características pessoais e do ambiente em que a pessoa vive. Sabe-se que cada estímulo que a criança recebe contribui de alguma maneira para o seu desenvolvimento. De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), cada período descrito por Piaget é caracterizado por aquilo que o indivíduo consegue fazer de melhor nessas faixas etárias. Todos passam por essas fases e períodos nessa sequência, TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE 49 porém, o início e o término de cada uma delas dependem das características biológicas do indivíduo e também de fatores educacionais e sociais. O Quadro 2 nos ajuda a entender o que se espera, em termos de desenvolvimento, em cada estágio proposto por Piaget nas faixas etárias propostas. QUADRO 2 - ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO PROPOSTOS POR PIAGET Estágio Idade aproximada Principais características e habilidades Sensório-motor 0 a 2 anos Reflexos, como a sucção. Coordenação dos movimentos das mãos e dos olhos para pegar objetos. Desenvolvimento físico acelerado. Aparecimento de novas habilidades, como sentar e andar. Diferenciação progressiva entre o eu da criança e o mundo exterior (por exemplo, permanência do objeto, ou seja, saber que o objeto continua existindo mesmo que ela não o veja). Manifestação de preferências por brinquedos, objetos, pessoas, etc. Evolução de uma atitude passiva com relação ao ambiente e às pessoas para uma atitude ativa e participativa. Compreensão de algumas palavras. Fala imitativa. Pré-operatório 2 a 7 anos Aparecimento da linguagem. Modificações nos aspectos intelectual, afetivo e social da criança. Maior interação com o ambiente e comunicação com as pessoas que o cercam. Capacidade de antecipar o que fazer. Aceleração do desenvolvimento do pensamento. Passa a procurar a razão causal e finalista de tudo (é a fase dos “porquês”). Pensamento mais adaptado ao outro e ao real. Dificuldades de reconhecer a ordem em que mais de dois ou três eventos ocorrem e não possui o conceito de número. Egocentrismo. Não consegue se colocar sob o ponto de vista do outro, o que impossibilita o trabalho em grupo. Seu interesse pelas diferentes atividades e objetos se multiplica, diferencia e regulariza, isto é, torna-se estável. Maturação neurofisiológica completa. Desenvolvimento de novas habilidades, como a coordenação motora fina (pegar pequenos objetos com as pontas dos dedos, segurar o lápis corretamente, efetuar a escrita). UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 50 Operatório concreto 7 a 12 anos Superação do egocentrismo. Início da c o n s t r u ç ã o l ó g i c a ( c a p a c i d a d e d e estabelecer relações que permitam a coordenação de pontos de vista diferentes). Capacidade de cooperar com os outros, de trabalhar em grupo e, ao mesmo tempo, ter autonomia pessoal. Surgimento da capacidade mental das operações (consegue realizar uma ação física ou mental dirigida para um fim – objetivo – e revertê-la para o seu início). Capacidade de pensar antes de agir, considerar vários pontos de vista simultaneamente, recuperar o passado e antecipar o futuro. No nível de pensamento, consegue: estabelecer corretamente as relações de causa e efeito e de meio e fim, sequenciar ideias ou eventos, formar o conceito de número. Aquisição de novos sentimentos morais, como: respeito mútuo, honestidade, o companheirismo e a justiça que considera a intenção na ação. O sentimento de pertencer ao grupo de colegas torna-se cada vez mais forte. Operatório formal 12 anos em diante Passagem do pensamento concreto para o pensamento formal, abstrato, que significa a realização das operações no plano das ideias, sem necessitar de manipulação ou referências concretas. Capacidade de lidar com conceitos como liberdade, justiça, etc. Domina, progressivamente, a capacidade de abstrair e generalizar; cria teorias sobre o mundo, principalmente sobre aspectos que gostaria de modificar. Fase de interiorização (aparentemente antissocial). Vive conflitos. Deseja libertar-se do adulto, mas ainda é dependente dele. Deseja ser aceito pelos amigos e pelos adultos. Tem o grupo de amigos como um importante referencial, determinando o vocabulário, as vestimentas e outros aspectos de seu comportamento. Interesses diversos e mutáveis, sendo que a estabilidade chega com a proximidade da vida adulta. FONTE: Adaptado de Bock, Furtado e Teixeira, 2008. TÓPICO 1 | DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE 51 Bock, Furtado e Teixeira (2008) apontam ainda que, na idade adulta, não ocorrerão mais mudanças na estrutura mental do indivíduo. Os aspectos cognitivos são aprofundados e as experiências vão contribuindo para uma melhor compreensão de si mesmo e do mundo em que vive. Para Piaget, o que marca de fato a entrada na vida adulta são o ingresso no mundo do trabalho e a constituição de uma nova família. Lev Semenovitch Vygotsky seguiu os passos de Piaget e também dedicou seus estudos ao entendimento dos processos de desenvolvimento humano e aprendizagem. Nascido na Rússia, apesar de ter vivido pouco (faleceu aos 37 anos de idade), sua teoria foi amplamente aceita e trouxe o enfoque interacionista ao estudo do desenvolvimento humano, ou seja, Vygotsky postulou que o desenvolvimento do indivíduo ocorre por meio da interação dele com o meio sociocultural em que está inserido. A cultura tem um papel crucial em todo o desenvolvimento. A obra de Vygotsky analisou o desenvolvimento infantil a partir de três aspectos: instrumental, cultural e histórico: O aspecto instrumental refere-se à natureza basicamente mediadora das funções psicológicas complexas. Não apenas respondemos aos estímulos apresentados no ambiente, mas os alteramos e usamos suas modificações como um instrumento de nosso comportamento. Exemplo disso é o costume popular deamarrar um barbante no dedo para lembrar algo. O estímulo – laço no dedo – objetivamente significa que o dedo está amarrado. Ele adquire sentido por sua função mediadora, faz-nos lembrar algo importante. O aspecto cultural da teoria envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta, e os tipos de instrumentos, tanto mentais como físicos, que a criança pequena dispõe para dominar as tarefas. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem. Por isso, Vygotsky deu ênfase, em toda a sua obra, à linguagem e sua relação com o pensamento. O aspecto histórico, como afirma Luria, funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem usa para dominar seu ambiente e seu próprio comportamento foram criados e modificados ao longo da história da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes do homem e estruturaram seu pensamento, de maneira que, se não tivéssemos desenvolvido a linguagem escrita e aritmética, por exemplo, não possuiríamos hoje a organização dos processos superiores que possuímos (LURIA apud BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 126). A interação da criança com os adultos ocorre desde o seu nascimento. É na interação com o adulto que o desenvolvimento acontece. É por meio da interação com nossos familiares (primeiro grupo ao qual pertencemos) que somos apresentados à nossa cultura, bem como à sociedade em geral. No que diz respeito ao desenvolvimento da fala, Vygotsky descreveu: UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 52 [...] inicialmente, os aspectos motores e verbais do comportamento estão misturados. A fala envolve os elementos referenciais, a conversação orientada pelo objeto, as expressões emocionais e outros tipos de fala social. Como a criança está cercada por adultos, a fala começa a adquirir traços demonstrativos e ela começa a indicar o que está fazendo e de que está precisando. Após algum tempo, a fala da criança deixa de ser um meio para atingir o comportamento dos outros e vai adquirindo a função de autodirecão, ou seja, de expressão do próprio comportamento (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 108). A fala inicial da criança tem um papel fundamental no desenvolvimento de suas funções psicológicas que são transformadas e internalizadas como consequência da interação com as pessoas e a cultura. Outro aspecto muito importante para entender o processo de desenvolvimento são os fatores genéticos. Sabemos da influência que o ambiente exerce no nosso desenvolvimento, mas as evoluções não são ocorrências impulsionadas apenas pelo ambiente em que estamos inseridos. Precisamos considerar os fatores genéticos e entender como eles se relacionam com o fator ambiental. Esta questão é frequentemente colocada como um debate sobre a importância relativa da “natureza” (nature) e da “educação” (nurture), Natureza refere-se às predisposições biológicas herdadas do indivíduo; educação refere-se às influências do ambiente social e cultural sobre o indivíduo, particularmente àquelas advindas da família e da comunidade. Grande parte das discussões sobre Victor, o Menino Selvagem de Aveyron, dizia respeito às influências relativas da natureza e da educação: Victor era incapaz de falar e de expressar outros comportamentos normais para um menino de sua idade devido a uma dotação biológica deficiente (natureza) ou por causa de uma educação inadequada? As crenças sobre as contribuições da natureza e da educação para o desenvolvimento podem ter efeitos de longo alcance sobre a maneira como a sociedade trata as crianças. Se, por exemplo, supõe-se que as meninas, por natureza, têm pouco interesse por matemática e ciências, não é provável que sejam encorajadas por seus pais, professores e outros membros da sociedade a se tornarem matemáticas ou cientistas. Se, por outro lado, supõe-se que os talentos matemático e científico são, em grande parte, resultados da educação, uma sociedade pode treinar meninas e meninos igualmente nessas atividades (COLE; COLE, 2003, p. 35). Fatores genéticos e ambientais são igualmente importantes para o processo de desenvolvimento. Os genéticos, por sua característica hereditária, não são fontes de intervenção ou modificação a partir da nossa vontade; já quando entramos no campo dos fatores ambientais, a presença do outro, ou seja, alguém que nos incentive, é fundamental e configura um avanço para o desenvolvimento da criança, pois nossas referências da primeira infância vêm do outro, como nossos pais, por exemplo. 53 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • O estudo do Desenvolvimento humano ocupa-se do estudo dos processos de mudança que ocorrem no ciclo de vida desde o nascimento até o envelhecimento. O referido estudo compreende aspectos biológicos e fisiológicos, bem como psicológicos, emocionais e afetivos. • De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), o desenvolvimento humano é influenciado por fatores como hereditariedade, crescimento orgânico, maturação neurofisiológica e o meio em que o indivíduo está inserido. Esses fatores atuam em vários aspectos do desenvolvimento: aspecto físico-motor, intelectual, afetivo-emocional e social. • Dois teóricos contribuíram significativamente para a compreensão de desenvolvimento humano que obtemos atualmente. São eles: Piaget e Vygotsky. O primeiro dividiu o desenvolvimento humano em quatro estágios: sensório-motor (0 a 2 anos); pré-operatório (2 a 7 anos); operatório concreto (7 a 12 anos) e operatório formal (12 anos em diante). Vygotsky, por sua vez, deu à sua teoria o enfoque interacionista, em que a interação da criança com as outras pessoas e com o meio sociocultural em que está inserida é o que possibilita o seu desenvolvimento, como a aquisição da fala e da linguagem, por exemplo. • Fatores genéticos e ambientais são igualmente importantes para o desenvolvimento humano como um todo. O caso do Menino Selvagem de Aveyron, por exemplo, (cujas informações genéticas eram desconhecidas) nos mostrou que um ambiente sem interação com pessoas que nos estimulem e nos apresentem para a cultura e para a sociedade não permite o desenvolvimento de habilidades de extrema importância, como a fala e a linguagem. Ele apenas desenvolveu habilidades de sobrevivência. 54 AUTOATIVIDADE 1 Descreva quais são os aspectos mais importantes trazidos pelas teorias de Piaget e Vygotsky, bem como de que maneira cada um dos referidos teóricos explicou os processos de desenvolvimento humano. 2 Se você tivesse que avaliar se o desenvolvimento humano de uma criança está ocorrendo dentro do esperado, em quais aspectos você prestaria atenção? 55 TÓPICO 2 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Após compreender os aspectos principais do estudo do desenvolvimento humano, vamos nos voltar a cada fase do desenvolvimento, começando pelo desenvolvimento pré-natal. São nove meses de intensas mudanças. Se pararmos para analisar tudo o que acontece nesses nove meses, em termos de desenvolvimento, trata-se de um período relativamente curto. Segundo Cole e Cole (2003), o início da vida ocorre com uma única célula, chamada de zigoto, que tem o tamanho aproximado de um ponto desta página e pesa aproximadamente 15 milionésimos de um grama. Ao nascer, temos cerca de 2 bilhões de células e pesamos, em média, três quilos. O objetivo do estudo do desenvolvimento pré-natal é justamente explicar como evoluímos, a partir de uma única célula, para um ser humano composto por bilhões de novas células dispostas em diferentes órgãos estruturados e em pleno funcionamento. Você já parou para analisar a complexidade de um corpo humano no que diz respeito ao seu funcionamento? Imagine tudo o que precisa acontecer ao mesmo tempo para que tudo funcione em harmonia. E, neste momento, ainda estamos nos referindo apenas aos aspectos biológicos e fisiológicos. O estudo do desenvolvimentotambém passa pelo entendimento dos processos cognitivos, psicológicos e afetivos que envolvem todas as mudanças de cada período. A Figura 6 ilustra a rapidez com que as mudanças acontecem no período pré-natal. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 56 FIGURA 14 – MUDANÇAS NO TAMANHO E NA FORMA DO CORPO HUMANO DE 14 DIAS ATÉ 15 SEMANAS APÓS A CONCEPÇÃO FONTE: Cole e Cole (2003, p. 100) O desenvolvimento pré-natal, basicamente, divide-se em três períodos: 1. O período germinal inicia-se quando as células germinativas da mãe e do pai se unem na concepção e dura até o organismo em desenvolvimento se ligar à parte do útero, cerca de oito a 10 dias depois. 2. O período embrionário estende-se desde o momento em que o organismo se liga ao útero até o final da oitava semana, quando todos os principais órgãos assumem sua forma primitiva. 3. O período fetal inicia-se na nona semana após a concepção, com os primeiros sinais de amadurecimento dos ossos, e continua até o nascimento. Durante esse período, os sistemas orgânicos primitivos se desenvolvem até o ponto em que o bebê pode existir fora da mãe sem apoio médico (COLE; COLE, 2003, p. 101). As mudanças são tantas e ocorrem de forma tão rápida que sempre existe risco de que ocorram falhas no processo de desenvolvimento. O desenvolvimento do sistema nervoso, por exemplo, configura-se como uma das etapas mais delicadas. A Figura 7 faz uma comparação entre o desenvolvimento normal e possíveis alterações. 9 Semanas 8 Semanas 6 1/2 Semanas 11 Semanas 15 Semanas 4 Semanas 24 dias 18 dias 14 dias TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 57 FIGURA 15 – COMPARAÇÃO ENTRE O DESENVOLVIMENTO NORMAL E POSSÍVEIS ALTERAÇÕES FONTE: Lent (2015, p. 92) Os esquemas de cima (A) representam uma vista dorsal do tubo neural do embrião, mostrando o seu fechamento como um zíper, para cima e para baixo. O orifício de cima é o neuroporo rostral, e o de baixo, o neuroporo caudal. Quando tudo ocorre dentro da normalidade, o feto se forma tal como mostra (B) (à esquerda), mas, quando o neoroporo rostral não se fecha, ocorre anencefalia (no centro), e o feto morre geralmente pouco tempo depois do nascimento. Defeitos no fechamento do neuroporo caudal não são tão drásticos, provocando a condição conhecida como spina bífida, que pode ser corrigida cirurgicamente. Com relação à atividade fetal, em um processo de desenvolvimento normal, Cole e Cole (2003) apontam que, com oito semanas de gestação, o feto começa a fazer movimentos generalizados. Nas semanas seguintes, os movimentos corporais tornam-se mais variados e coordenados (ver Tabela 1). Com 15 semanas, o feto é capaz de todos os movimentos observáveis em bebês recém-nascidos (JAMES et al., 1995, apud COLE; COLE, 2003). No final no quarto mês, o feto está grande o suficiente para a mãe sentir seus movimentos. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 58 TABELA 1 – APARECIMENTO DOS MOVIMENTOS FETAIS NO INÍCIO DA GRAVIDEZ Movimento Idade gestacional (semanas) Qualquer movimento Surpresa Movimentos generalizados Soluços Movimentos isolados do braço Retroflexão da cabeça Contato mão-face Respiração Abertura da mandíbula Estiramento Anteflexão da cabeça Bocejo Sugar e engolir 7 8 8 8 9 9 10 10 10 10 10 11 12 FONTE: Adaptado de Vries et al. (apud COLE; COLE, 2003, p. 108) Voltando ao desenvolvimento do sistema nervoso, a Figura 8 traz uma ilustração do desenvolvimento do cérebro como um todo. FIGURA 16 – DESENVOLVIMENTO PRÉ-NATAL DO CÉREBRO FONTE: Adaptado de Cowan (1979 apud COLE; COLE, 2003, p. 109) 9 meses8 meses 7 meses 40 dias30 dias 100 dias Tamanhos reais 5 meses as regiões superiores do cérebro começam a se desenvolver TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 59 As partes primitivas do cérebro estão presentes desde muito cedo. Os hemisférios cerebrais, com suas convolucões características, só aparecem na metade da gravidez. Após obter o entendimento do processo de desenvolvimento gestacional, vamos apresentar uma breve descrição acerca dos estágios do trabalho de parto. Segundo a descrição de Cole e Cole (2003), o parto divide-se basicamente em três etapas. A primeira etapa começa com as contrações uterinas, com frequência, intensidade e duração suficientes para fazer com que a cérvice dilate. A duração desse estágio varia de mulher para mulher e de gravidez para gravidez. Pode durar desde uma hora até vários dias. A média para os primeiros nascimentos é de cerca de 14 horas. Com o passar do tempo, as contrações vão se tornando mais frequentes e mais intensas. A segunda etapa do trabalho de parto começa com o bebê sendo empurrado, primeiro a cabeça, através da cérvice totalmente dilatada para a vagina. Nesse momento, as contrações vêm com mais ou menos um minuto de intervalo e duram cerca de um minuto. As contrações do útero fazem com que a mãe faça força para baixo e empurre o bebê para fora. A terceira etapa do trabalho de parto, a etapa final, ocorre quando o bebê emerge da vagina e o útero contrai em torno do seu conteúdo, diminuindo. A placenta dobra-se e se separa da parede uterina, puxando com ela as outras membranas fetais. As contrações rapidamente as expelem e elas são paridas como as secundinas. A Figura 9 ilustra cada uma das referidas etapas. FIGURA 17 – ESTÁGIOS DO TRABALHO DE PARTO Estudaremos agora os aspectos inerentes ao desenvolvimento da criança e do adolescente. FONTE: Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2016. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 60 2 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Já estudamos anteriormente algumas alterações no desenvolvimento da criança a partir das teorias de Piaget e Vygotsky, que nos apresentaram um panorama do desenvolvimento humano de uma forma global. Nesse momento, convidamos você a conhecer melhor os processos envolvidos no desenvolvimento, desde a primeira infância até a adolescência, começando pelas habilidades sensoriais do bebê ao nascer. QUADRO 3 – HABILIDADES SENSORIAIS DO BEBÊ AO NASCER Sentido Habilidade Audição Capacidade para distinguir fonemas. Preferência pela língua mãe. Visão Levemente borrada, visão dupla discreta. Visão da cor aos dois meses de idade. Capacidade para distinguir estímulos simples. Preferência por estímulos em movimento, como rostos. Olfato Capacidade para diferenciar odores. Paladar Capacidade para diferenciar os gostos. Tato Reação ao contato desde o nascimento. Temperatura Sensibilidade para as mudanças de temperatura. Posição Sensibilidade para as mudanças de posição. FONTE: Cole e Cole (2003, p. 158) O Quadro 4 nos mostra os reflexos apresentados pelobebê logo após o nascimento QUADRO 4 – REFLEXOS PRESENTES NO NASCIMENTO Reflexo Descrição Curso desenvolvimental Importância Babinski Quando a planta do pé do bebê é tocada, os dedos dos pés se abrem e depois se curvam. Desaparece de oito a 12 meses. Presença no nascimento e curso normal de declínio são um indicador básico de condição neurológica normal. TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 61 Engatinhar Quando o bebê é colocado sobre seu estômago e se pressiona as solas dos seus pés, seus braços e pernas movem-se mais ritmicamente. Desaparece após três a quatro meses; possível reaparecimento aos seis ou sete meses, como um componente do engatinhar espontâneo. Incerta. Piscar os olhos Rápido fechar de olhos. Permanente. Proteção contra estímulos aversivos, como luzes fortes e objetos estranhos. Agarrar Quando um dedo ou algum outro objeto é pressionado contra a palma da mão do bebê, seus dedos se fecham em torno dele. Desaparece após três a quatro meses, substituído pelo agarrar voluntário. Presença no nascimento e posterior desaparecimento são sinais básicos de desenvolvimento neurológico normal. Moro Caso se permita que o bebê caia inesperadamente enquanto está sendo segurado, ou se há um barulho alto, ele vai esticar os braços e arquear as costas e depois juntar os braços como se estivesse agarrando algo. Desaparece após seis a sete meses (embora o alerta a ruídos altos seja permanente). Controverso; sua presença no nascimento e desaparecimento posterior são um sinal básico de desenvolvimento neurológico normal. Fixação O bebê gira a cabeça e abre a boca quando é tocado na face. Desaparece entre os três e seis meses. Componente da amamentação. Passo Quando o bebê é segurado em posição ereta, realiza movimentos rítmicos com as pernas. Desaparece nos dois primeiros meses, mas pode ser restabelecido em contextos especiais. Controverso; pode ser apenas um movimento de chutar ou pode ser um componente do andar voluntário posterior. Sucção O bebê suga quando algo é colocado em sua boca. Desaparece e é substituído pela sucção voluntária. Componente fundamental da amamentação. FONTE: Cole e Cole (2003, p. 159) UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 62 Grande parte do desenvolvimento do recém-nascido está relacionada à maturação biológica, porém, a interação com as pessoas que o cercam se configura como aspecto igualmente importante para sua evolução. O desenvolvimento segue seu curso de acordo com os estágios de desenvolvimento propostos por Piaget, conforme já estudamos. Apresentamos a seguir, no Quadro 5, outras mudanças importantes que ocorrem nos primeiros meses de vida. QUADRO 5 – ELEMENTOS DA PRIMEIRA MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL (2 MESES E MEIO) Domínio biológico Sistema nervoso central: mielinização das vias neurais cortical e subcortical. Mielinização das vias neurais primárias em alguns sistemas sensoriais. Controle cortical aumentado da atividade subcortical. Aumento no número e na diversidade das células cerebrais. Psicofisiologia: aumento na quantidade de vigília. Reduções no sono ativo (REM) como uma proporção do tempo de sono total. Mudança no padrão de sono; o sono calmo (NREM) começa a vir primeiro. Domínio comportamental Aprendizagem melhor retida entre episódios. Aumento na acuidade visual. Exame visual mais completo dos objetos. Início do sorriso social. Reduções na agitação generalizada e no choro. O alcance visualmente iniciado transforma-se em alcance visualmente guiado. Domínio social Nova qualidade de coordenação e contato emocional entre os bebês e os cuidadores. Inicio do “choro com propósito”. FONTE: Cole e Cole (2003, p. 190) Seguindo com o processo de desenvolvimento, vamos verificar o que acontece nos mesmos campos: biológico, comportamental e social dos sete aos nove meses de vida (Quadro 6). QUADRO 6– ELEMENTOS DA MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL QUE OCORRE DOS 7 AOS 9 MESES DE VIDA Domínio biológico Crescimento dos músculos e endurecimento dos ossos. Mielinização dos neurônios motores para a parte inferior do tronco, pernas e mãos. Mielinização do cerebelo, do hipocampo e dos lobos frontais. Novas formas de atividade de EEG no córtex. TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 63 Domínio comportamental Início do engatinhar. Medo de altura. Coordenação do alcançar e do pegar. Sequência de ação coordenada para atingir objetivos. Permanência do objeto exibida nas ações. Memória retrospectiva. Medo com reação à novidade. Balbucio. Domínio social Medo de estranhos. Nova reação emocional ao cuidador (apego). Referência social. FONTE: Cole e Cole (2003, p. 231) O desenvolvimento motor nessa fase é nítido e segue uma sequência, desde conseguir virar-se de lado até andar, conforme podemos verificar na Figura 18. A progressão do arrastar-se para o engatinhar e para o andar segue uma sequência desenvolvimental clássica. Cada novo estágio na locomoção permite às crianças se moverem mais rapidamente e envolve uma mudança qualitativa no padrão do seu comportamento. FIGURA 18 – DESENVOLVIMENTO MOTOR Vira de lado e posiciona-se de costas Dá os primeiros passos Anda bem Engatinha Anda independentemente Vira de um lado para o outro Vira de costas quando está de lado Anda com ajuda Anda segurando-se nos móveis Anda de lado e para trás Sobe e desce escadas com ajuda Anda com um pé na frente do outro Idade (meses) Pr é- an da r an da r FONTE: Cole e Cole, (2003, p. 240). UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 64 Além do desenvolvimento motor e cognitivo, outro aspecto fundamental para o desenvolvimento saudável da criança é o brincar. Segundo Cole e Cole (2003), muitos estudiosos do desenvolvimento veem nas brincadeiras das crianças paralelos claros ao seu atual estágio de desenvolvimento cognitivo. As brincadeiras das crianças não são apenas um indicador do seu desenvolvimento cognitivo, mas desempenham, também, importantes funções no amadurecimento cognitivo e social. O Quadro 7 exemplifica alguns passos no desenvolvimento do brincar. QUADRO 7 – PASSOS NO DESENVOLVIMENTO DO BRINCAR Tipo de uso do brinquedo (agente) Exemplo O self como agente. O bebê coloca sua cabeça em um travesseiro para fingir que vai dormir. Outro agente passivo. O bebê coloca uma boneca em um travesseiro para fingir que ela vai dormir. Outro agente ativo. O bebê faz uma boneca colocar um bloco no travesseiro para que ele durma, como se a boneca estivesse realmente “fazendo o bloco dormir”. FONTE: Adaptado de Watson & Fischer (1980 apud COLE; COLE, 2003, p. 247) Voltamos agora aos domínios biológico, comportamental e social que ocorrem por volta dos DOIS anos de idade (Quadro 8). QUADRO 8 – A MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL NO FINAL DA FASE DE BEBÊ Domínio biológico Mielinização das conexões entre as áreas cerebrais. Nivelamento do desenvolvimento cerebral. Maturação das áreas cerebrais em graus mais ou menos iguais. Domínio comportamental O andar torna-se bem coordenado. A destreza manual torna-se adequada para pegar pequenos objetos. Controle sobre o funcionamento da bexiga e dos intestinos. Uso de estratégias mais sofisticadas na resolução dos problemas. Jogo simbólico. Representações conceituais. Vocabulário elementar e início das combinações de palavras. O sorriso acompanha a perícia. TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 65 Domínio social Declínio da ansiedade diante da separação. Diferenciação do eu. Aceitação dos padrões dos adultos. Emergência de emoções secundárias. FONTE: Cole e Cole (2003, p. 270) A partir desse estágio do desenvolvimento, a interação torna-se ainda mais evidente. Por volta dos três anos de idade, a criança já consegue expressar suas vontades, e a necessidade de desenvolver e aprimorar as habilidades sociaisé crucial. O Quadro 9 apresenta as principais características, tanto das habilidades sociais quanto intelectuais, da criança em torno dos três anos de idade. QUADRO 9 – CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS COMPETENTES DE TRÊS ANOS DE IDADE Habilidades sociais Conseguir a atenção de um adulto e mantê-la através de comportamentos socialmente aceitáveis. Usar os adultos como recursos após concluir que elas próprias não conseguem lidar com a tarefa. Expressar afeição e hostilidade moderada. Envolver-se em trocas de papéis sociais. Habilidades intelectuais gerais Compreender e se comunicar efetivamente. Envolver-se na resolução de problemas complexos, incluindo encontrar materiais e usá-los para criar um produto. Autocontrole na ausência de limites externos. Capacidade para planejar e se preparar para uma atividade. Capacidade para explorar sistematicamente objetos e situações novas. FONTE: White e Watts (1773 apud COLE; COLE, 2003, p. 277) Sabe-se que as características de cada criança variam de acordo com as interações às quais ela é submetida, bem como as condições gerais do ambiente em que está inserida. É preciso o mínimo de condições básicas, como alimentação, acesso à educação e ainda condições de segurança, tanto com relação ao lugar onde vive, como proteção e afeto que recebe de seus cuidadores. O Quadro 10 ilustra alguns fatores de risco que podem ocasionar problemas na infância. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 66 QUADRO 10 – EXEMPLOS DE FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO ASSOCIADOS A PROBLEMAS NA INFÂNCIA Fatores de risco Fatores de proteção Características da criança Temperamento difícil na fase de bebê Distúrbios fisiológicos Afeto desregulado Baixa autoestima Relações deficientes com os pares Dificuldades na escola Psicopatologia Doença física Fatores de estresse transitórios Baixo desempenho nas tarefas Temperamento fácil na fase de bebê Regulação fisiológica adaptativa Regulação afetiva adaptativa Autoestima elevada Relações positivas com os pares Adaptação positiva à escola Saúde mental boa Orgulho diante da realização pessoal Relacionamento positivo com o atual professor Microssistema Violência doméstica Dificuldade financeira Desemprego crônico Condições crônicas de estresse Ambiente familiar hostil Abuso intergeracional Psicopatologia dos pais Habilidades deficientes para criar os filhos Perda do emprego Divórcio Discussões diárias Relações conjugais boas Emprego consistente Relações familiares positivas Saúde mental dos pais boa Habilidades positivas para criar os filhos Obtenção de emprego Encontro de habitação adequada Acesso a cuidado infantil Exossistema Violência na comunidade Crime na vizinhança Isolamento social Comunidade empobrecida Perda dos recursos comunitários Carência dos serviços comunitários Rede de apoio social Bons recursos comunitários Igreja de apoio Aquisição de recursos comunitários Acesso a redes de apoio social Macrossistema Cultura violenta Costumes dos pais Racismo Aceitação social da violência Recessão Apoio nacional para a educação Crenças nos direitos das crianças Compromisso nacional para reabilitar aqueles que abusam de substâncias Baixo índice de desemprego Funcionários eleitos comprometidos em melhorar a situação dos desfavorecidos Redução da disponibilidade das drogas ilegais FONTE: Adaptado de Ciccheti et al. (2000 apud COLE; COLE, 2003, p. 292). TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 67 Vygotsky já nos chamou a atenção para a importância do momento de aquisição da linguagem, mas, além da teoria interacionista, existem outras abordagens que explicam o processo de aquisição da linguagem, conforme podemos verificar no Quadro 11. QUADRO 11 – PRINCIPAIS ABORDAGENS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Teoria Principais fatores causais Mecanismo Principais fenômenos explicados Aprendizagem Ambiente Imitação, condicionamento Significado da palavra Nativista Hereditariedade Desencadeamento Sintaxe Interacionista (hipótese cognitiva) Interação dos fatores sociais e biológicos Assimilação- acomodação Correlação de desenvolvimentos cognitivos e linguísticos Interacionista (abordagem culturalista) Mediação cultural da interação sociobiológica Coordenação nos roteiros culturais Relacionamentos entre a linguagem e o pensamento FONTE: Cole e Cole (2003, p. 328) A seguir, vemos o progresso do desenvolvimento na aquisição da linguagem verbal. (Quadro 12). QUADRO 12 – O PROGRESSO DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM VERBAL Idade aproximada Comportamento típico Nascimento Percepção do fonema Discriminação da linguagem a partir de sons que não são linguagem Choro 3 meses Vocalização 6 meses Balbucio Perda da capacidade para discriminar fonemas não nativos 9 meses Primeiras palavras Holofrases 12 meses Uso de palavras para atrair a atenção dos adultos UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 68 18 meses Ampliação do vocabulário Primeiras frases de duas palavras (fala telegráfica) 24 meses Respostas corretas a solicitações indiretas (“a porta está fechada?”) 30 meses Criação de solicitações indiretas (“você está em cima dos meus blocos!”) Modificação da fala para levar em conta o ouvinte Consciência precoce das categorias gramaticais Primeira infância Aumento rápido da complexidade gramatical Supergeneralizacão das regras gramaticais Segunda infância Entendimento das formas passivas (“as bolas foram tomadas pelos meninos”) Aquisição da linguagem escrita Adolescência Aquisição das funções especializadas da linguagem FONTE: Cole e Cole (2003, p. 347) Após conhecermos os principais aspectos do desenvolvimento infantil, vamos nos voltar agora para o entendimento de como acontece o processo de desenvolvimento para o adolescente, bem como suas reações às intensas mudanças físicas e psicológicas. 3 O DESENVOLVIMENTO DO ADOLESCENTE O que vem à sua cabeça quando se fala em adolescência? Com frequência, associamos esse período da vida com mudanças intensas, incertezas e rebeldia. Contudo, o que realmente acontece? Vamos começar a decifrar os enigmas do desenvolvimento da adolescência a partir de agora. Antes de iniciarmos o estudo das mudanças fisiológicas que acontecem nesse período, é importante salientar que não é apenas o nosso corpo que sofre alterações. A adolescência traz consigo mudanças na nossa forma de pensar e estar no mundo. Começamos a elaborar conceitos acerca de quem somos, surge uma necessidade de autoafirmação, ou seja, mostrar quem somos e o que queremos. Nossas relações com as pessoas que nos cercam também passam por modificações. O aspecto social passa a incorporar um nível de importância maior com a necessidade e desejo de sentir-se pertencente a um determinado grupo. As mudanças fisiológicas têm início com a chegada da puberdade, que é definida por Cole e Cole (2003) como uma série de eventos bioquímicos que tem início por volta dos 10 ou 11 anos de idade e altera o tamanho, a forma e o funcionamento do corpo. TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 69 Um dos relatos mais emocionantes do que é entrar na adolescência aparece no Diário de Anne Frank, uma menina judia que viveu refugiada com sua família na Holanda durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Incapaz de deixar seu esconderijo e sair, com medo de ser capturada, Anne transformou seu diário na amiga que ela tanto desejava. Os trechos citados aqui foram escritos pouco antes de Anne e sua família serem descobertos e enviados para morrer em um campo de concentração. QUARTA-FEIRA, 5 DE JANEIRO DE 1944 Ontem li um artigo sobre o rubor, escrito por Sis Heyster. Esse artigo poderia ter sido dirigido a mim, pessoalmente. Embora eu não ruborize com muita facilidade, as outras coisas que ali são ditas certamente todas têm a ver comigo. Ela escreve algo mais ou menos assim – que uma menina nos anos da puberdade torna-se quieta por dentro e começa a pensar sobre as maravilhasque estão acontecendo com seu corpo. Eu também estou passando por isso, e essa é a razão de, ultimamente, eu estar me sentindo constrangida em relação a Margot, mamãe e papai. Engraçado, Margot, que é muito mais tímida que eu, não se sente de modo algum constrangida. Acho que o que está acontecendo comigo é realmente maravilhoso, e não apenas o que pode ser visto no meu corpo, mas tudo o que está acontecendo dentro de mim. Eu nunca falo a meu respeito nem sobre nada dessas coisas com ninguém; por isso tenho que conversar comigo mesma sobre elas. Cada vez que eu menstruo – e isso só aconteceu três vezes – tenho a sensação de que, apesar de toda a dor, desconforto e incômodo, eu tenho um doce segredo e é por isso que, embora de certo modo isso seja apenas um aborrecimento para mim, sempre anseio pelo momento em que vou sentir novamente esse segredo dentro de mim (ROTH, 1975 apud COLE; COLE, 2003, p. 621). O relato escrito por Anne Frank, no ano de 1944, continua atual e, ao ler, temos a impressão de que poderia ter sido escrito por qualquer adolescente que viva a puberdade em 2016, salvo o fato de que provavelmente as adolescentes não tenham mais diários e também não manteriam segredo sobre o que escreveram, publicando em uma rede social. Por falar em rede social, a maneira de se expor e se comunicar com o mundo mudou muito nos últimos anos. Se antes do advento das redes sociais o “segredo” configurava uma das características mais evidentes do adolescente, atualmente vivemos um momento muito diferente, em que quanto mais da vida do adolescente estiver exposta, mais popularidade ele obterá. A necessidade de sentir-se popular e tornar-se uma referência para os amigos não é nenhuma novidade, porém, a proporção e o alcance que a internet traz mudaram a geração atual. Tudo acontece na velocidade de um toque na tela. O número de curtidas e visualizações torna-se o termômetro que determina quem é ou não popular. A palavra “adolescência” vem do latim adelesco e significa “crescer”. As primeiras definições desse período do desenvolvimento datam do século IV, quando Aristóteles descreveu os adolescentes como “[...] apaixonados, irascíveis e capazes de serem levados por seus impulsos... Eles se consideram oniscientes e são positivos em suas asserções; essa é, na verdade, a razão por levarem tudo tão longe” (KIELL, 1964 apud COLE; COLE, 2003). Voltando à puberdade, Cole e Cole (2003) apontam, ainda, que é nesse período que o corpo passa de um estado de imaturidade física para tornar-se biologicamente maduro e capaz de reprodução sexual. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 70 A puberdade começa com um sinal químico do hipotálamo, localizado na base do cérebro, que ativa a glândula hipófise, um órgão do tamanho de uma ervilha, que é um apêndice do hipotálamo. A hipófise, então, aumenta a sua produção de hormônios de crescimento, que, por sua vez, estimulam o crescimento de todo o tecido do corpo. A glândula hipófise também libera hormônios que desencadeiam um grande aumento na fabricação de dois hormônios gonadotróficos (“gonad-seeking”). As gônadas ou órgãos sexuais primários são os ovários nas mulheres e os testículos nos homens. Nas mulheres, esses hormônios gonadotróficos estimulam os ovários a fabricar estrógeno e progesterona. Esses dois hormônios desencadeiam os muitos eventos físicos, incluindo a liberação dos ovos maduros dos ovários, que finalmente permitem a reprodução. Nos homens, os hormônios gonadotróficos estimulam os testículos e as glândulas suprarrenais para fabricar o hormônio testosterona, que provoca a produção de esperma (BOGIN, 1999). Embora o estrógeno seja considerado o hormônio feminino e a testosterona o hormônio masculino, os dois hormônios estão presentes nos dois sexos. Durante a puberdade, ambos os sexos experimentam um aumento nesses hormônios, mas o índice de aumento é específico para cada sexo. A testosterona nos meninos aumenta 18 vezes seu nível na segunda infância, enquanto o estrógeno sofre um aumento de oito vezes nas meninas (MALINA; BOUCHARD apud COLE; COLE, 2003, p. 625-626). A Figura 19 nos mostra as mudanças que acontecem tanto no corpo feminino e masculino durante a puberdade. FIGURA 19 – AS MUDANÇAS CORPORAIS QUE ACOMPANHAM A PUBERDADE FONTE: Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2016. TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 71 Além das mudanças corporais, as alterações que acontecem na adolescência também provocam reações psicológicas. Meninas e meninos reagem de maneira diferente a cada mudança dessa fase, o que afeta diretamente o humor do adolescente. Grande parte dessas reações diz respeito à aceitação ou não do próprio corpo. Em uma série de estudos (resumidos em Brooks-Gunn e Reiter, 1990), Jeanne Brooks-Gunn e seus colegas descobriram que as atitudes e crenças das meninas sobre a menstruação são apenas em parte um resultado da sua própria experiência direta da menstruação. A maneira como elas percebem a menstruação é influenciada pelas atitudes e crenças daqueles que as cercam. A influência do contexto social das meninas sobre sua experiência da menarca é corroborada pelo achado de que os sintomas físicos de uma menina durante a menstruação são frequentemente relacionados com as expectativas que ela tinha antes da menarca. As meninas que relataram sintomas desagradáveis tinham maior probabilidade de estarem despreparadas para a menarca, de terem amadurecido cedo e de terem sido informadas sobre a menstruação por alguém de quem elas tinham uma opinião negativa. Similarmente, as reações dos meninos à sua primeira ejaculação (semenarca) dependem do contexto em que ela ocorre. Quando a semenarca ocorre como uma polução noturna (“sonho molhado”), os meninos relatam que suas primeiras reações são surpresa e confusão. Um menino recordou: “aquilo me lembrou o fazer xixi nas calças – essa foi minha primeira reação –, embora eu nunca tenha feito xixi nas calças” (STEIN; REISSER, 1994, p. 377). Se a semenarca ocorre durante a masturbação, a reação predominante é mais positiva (COLE; COLE, 2003, p. 629-630). Sabe-se que o melhor caminho para que o adolescente tenha reações mais positivas com relação às mudanças que estão acontecendo com ele é a informação e a orientação. Quanto mais ele souber sobre o que vai acontecer, bem como a maneira como acontece, mais preparado ele estará para reagir bem diante das novidades. Muitas vezes, tudo de que o adolescente precisa é de alguém que o escute e acolha suas dúvidas e anseios. A relação com os pares também passa a configurar um contexto de grande expectativa para o adolescente. Nas sociedades tecnologicamente desenvolvidas, a reorganização da vida social do adolescente envolve quatro mudanças importantes: 1 A interação com os pares aumenta mais ainda do que durante a segunda infância. Os alunos da 7ª série do Ensino Médio passam mais tempo com seus pares fora da escola do que com seus pais ou com outros adultos. 2 Os grupos de pares de adolescentes funcionam com menos orientação e controle por parte dos adultos do que os grupos de pares das crianças menores. Em vez de ficar confinados às imediações do bairro, os grupos de pares de adolescentes atraem seus membros de vários bairros e têm maior probabilidade de encontrar maneiras para garantir que nenhum pai/mãe ou outras autoridades adultas estejam observando suas ações. UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 72 3 À medida que os adolescentes aumentam cada vez mais a distância com os adultos, a maior parte deles busca membros do outro sexo. Essa reorientação do gênero é uma razão importante para a reorganização dos grupos de pares durante a adolescência. 4 Os grupos de pares aumentam de tamanho ao mesmo tempo em que as amizades e outros relacionamentos próximos aumentam em intensidade. (COLE; COLE, 2003, p. 636). Sobre as práticas sexuais43 2 OS PRIMÓRDIOS DO ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO ............................. 44 2.1 PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES ..................................................................................................... 44 3 DESENVOLVIMENTO HUMANO SOB A ÓTICA PSICOLÓGICA ....................................... 46 sumário VIII 4 AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOTSKY PARA O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO .................................................................................................. 48 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 53 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 54 TÓPICO 2 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE .... 55 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 55 2 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ................. 60 3 O DESENVOLVIMENTO DO ADOLESCENTE ........................................................................... 68 RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 74 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 75 TÓPICO 3 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO.............................................. 77 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 77 2 DESENVOLVIMENTO DO IDOSO ................................................................................................ 78 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 83 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 86 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 87 UNIDADE 3 – PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE ..................................................................... 89 TÓPICO 1– A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE ............................................................... 91 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 91 2 HISTÓRICO DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE ..................................................................................... 91 2.1 TENDÊNCIAS QUE MOLDARAM AS CIÊNCIAS DA SAÚDE .............................................. 92 3 A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS NA SAÚDE ....................................................................... 94 4 COMPORTAMENTO EM SAÚDE ..................................................................................................100 RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 104 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................105 TÓPICO 2 – COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO ............107 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................107 2 CONCEITUANDO SAÚDE ..............................................................................................................107 3 A POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE ...............................................................................................109 3.1 OS PRINCÍPIOS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE E INTEGRALIDADE ..................................112 RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 116 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117 TÓPICO 3 – PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES .119 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119 2 A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL ................................................................................................119 3 A IMPORTÂNCIA DOS CUIDADOS BÁSICOS EM SAÚDE MENTAL ...............................121 4 PROBLEMÁTICAS COMUNS EM SAÚDE MENTAL ...............................................................123 4.1 ESTRESSE ........................................................................................................................................124 4.2 TRANSTORNOS DEPRESSIVOS ................................................................................................126 4.3 TRANSTORNOS DE ANSIEDADE ............................................................................................128 4.4 TRANSTORNO POR USO DE ÁLCOOL ...................................................................................130 5 O TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MENTAL ..................................................132 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................136 RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 139 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................140 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................141 1 UNIDADE 1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Ao final desta unidade você será capaz de: • compreender o caminho percorrido pela Psicologia para se tornar uma ciência; • conhecer os teóricos que contribuíram para a construção do conhecimento da ciência psicológica; • entender como ocorre a aplicação do conhecimento científico da Psicologia no campo de atuação profissional do psicólogo; • entender a diferença entre o conhecimento do senso comum e o conheci- mento científico; • conhecer as possibilidades do campo de atuação do profissional de Psico- logia; • compreender como a Psicologia pode contribuir com outras áreas do conhecimento. Esta unidade está dividida em três tópicos. No final de cada um deles você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos. TÓPICO 1 – A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS TÓPICO 2 – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA TÓPICO 3 – ATUAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS 1 INTRODUÇÃO Você, certamente, já ouviu falar, leu, estudou ou até mesmo precisou do auxílio de um profissional da saúde em algum momento de sua vida, não é mesmo? Nesta disciplina, vamos aprofundar os seus conhecimentos acerca das profissões da saúde, bem como suas aplicações à saúde. A pluralidade das ciências da saúde faz com que ela contribua significativamente com outras áreas do conhecimento. A complexidade do ser humano fez com que muitas teorias se desenvolvessem para o entendimento do nosso objeto de estudo: a subjetividade humana. Se o termo “subjetividade humana” lhe soa estranho, não se preocupe, pois vamos explorá-lo ao longo de nossa disciplina. Nossa viagem aos aspectos históricos fundamentais para o desenvolvimento da ciência psicológica começa agora. Conforme nos apontam Schultz e Schultz (2006), para entender a história das ciências da saúde ena adolescência, Taquette, Vilhena e Paula (2004, s.p.) apontam, em suas pesquisas, que [...] as relações sexuais têm iniciado mais cedo e com um maior número de parceiros, o que contribui para aumentar a ocorrência das DST. Entre adolescentes, o uso de preservativos é baixo e a atividade sexual geralmente não é programada. Estudos brasileiros revelam que apenas um terço deles ou menos usa preservativo sempre. Segundo dados de pesquisas divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), os mais baixos índices de uso se encontram entre 15 e 19 anos. Os referidos índices reforçam a necessidade de que nossos adolescentes sejam bem orientados a fim de evitar comportamentos de risco. São muitas as preocupações que rondam a cabeça do adolescente, desde as mudanças corporais, conforme já mencionamos. A necessidade de sentir-se parte de um grupo e ser popular, a iniciação da vida sexual e a proximidade do momento de escolher uma carreira, que configura sua transição para a vida adulta, são alguns exemplos de que esse período é, de fato, bastante tumultuado. No entanto, isso não significa que tenha de ser traumático. É justamente nesses momentos de incerteza e dúvida que os pais devem se fazer presentes para que possam orientar seus filhos da melhor maneira possível. Chegando ao final da adolescência, algumas características se estabelecem claramente, conforme podemos verificar no Quadro 13. QUADRO 13 – A MUDANÇA BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAL: A TRANSIÇÃO PARA A IDADE ADULTA Domínio biológico Capacidade para a reprodução biológica Desenvolvimento de características sexuais secundárias Alcance do tamanho do adulto Domínio comportamental Realização de operações formais em algumas áreas (pensamento sistemático) Formação da identidade Domínio social Relações sexuais Mudança para a responsabilidade fundamental para si mesmo Início da responsabilidade pelas próximas gerações FONTE: Cole e Cole (2003, p. 708) TÓPICO 2 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 73 Carr-Gregg e Shale (2003) definem os anseios do adolescente em três estágios. No início da adolescência, a inquietação consiste em saber se o que está acontecendo com ele é normal. No meio do processo, o adolescente passa a prestar mais atenção em si mesmo no sentido de entender quem ele é, e no final está interessado em entender qual é o seu lugar no mundo. Basicamente, ao final da adolescência, o adolescente precisa responder a três questões: “Sou normal?”, “Quem sou eu?”, “Qual é o meu lugar no mundo?”. Carr-Gregg e Shale (2003) ainda fazem algumas recomendações aos adultos: • Evitar fazer comentários sobre alterações físicas que saltam à vista. Os comentários podem provocar reações negativas e deixar o jovem ainda mais ansioso. • Estar preparado para aguentar um pouco de mau humor. • Ficar atento para sinais de desinteresse do adolescente pelas coisas e conversar com ele a respeito. Ajudar o jovem a desenvolver interesses que aumentem a autoestima. • Auxiliar o adolescente a concentrar-se no que há de positivo nesse período. • Não se sentir ofendido se o adolescente quiser manter uma certa distância dos adultos. • As regras de conduta devem ser discutidas civilizadamente, em vez de impostas numa discussão, por exemplo. • Sempre abordar o jovem com calma, com atenção e reconhecer os sentimentos e opiniões dele. • Estabelecer uma relação de confiança e valorizar o que o jovem diz. • Respeitar e participar das decisões dele. • Demonstrar que sente orgulho dele, bem como manter a harmonia familiar. • Fazer com que o adolescente seja responsável por algum trabalho doméstico ou outra tarefa. 74 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • O desenvolvimento pré-natal, basicamente, divide-se em três períodos: germinal, embrionário e fetal. Neste tópico entendemos como acontece o parto, desde as primeiras contrações até o nascimento, para, posteriormente, compreender as alterações inerentes ao desenvolvimento da criança, iniciando pelas habilidades sensoriais do bebê ao nascer, os reflexos que apresenta logo após o nascimento (Babinski, engatinhar, piscar os olhos, agarrar, Moro, fixação, passo e sucção), bem como os aspectos que compreendem as mudanças biossociocomportamentais desde os primeiros meses de vida. • É importante o brincar para um desenvolvimento saudável e, ainda, os fatores de risco e de proteção associados a problemas na infância. Seguindo o curso do desenvolvimento, vimos quais são as principais abordagens da aquisição da linguagem, tão crucial para o desenvolvimento. • O processo de desenvolvimento do adolescente passa por mudanças físicas e psicológicas que caracterizam esse período, começando pela puberdade, período em que o corpo passa de um estado de imaturidade física, para tornar- se biologicamente capaz de reprodução sexual. Estudamos as diferentes alterações físicas das meninas e meninos. • No que diz respeito às alterações psicológicas, uma das mais comuns é a aceitação do próprio corpo, processo que pode ser estressante para alguns adolescentes quando a imagem que veem no espelho não reflete aquilo que realmente gostariam de ver. A importância da vida social e a identificação com os pares também configura um aspecto fundamental para o adolescente, que, em geral, quer se sentir parte de um grupo, ser aceito e, ainda, ser reconhecido pelos colegas como alguém popular. • A importância de os pais e cuidadores estarem próximos de seus filhos nesse momento, para que possam orientá-los de maneira segura, tanto no que concerne às dúvidas que o adolescente tem sobre o início da vida sexual, como à preocupação em escolher uma carreira ou simplesmente para ter alguém de confiança que possa escutá-lo e acolher as suas angústias. 75 AUTOATIVIDADE Após estudar as principais características do desenvolvimento da criança e do adolescente, descreva quais são os aspectos que mais lhe chamaram a atenção nos referidos processos de desenvolvimento, bem como quais são os momentos que você considera mais cruciais em cada fase. Justifique a sua resposta.C 76 77 TÓPICO 3 ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Todos nós desejamos envelhecer de maneira saudável. Contudo, de uma maneira geral, pouco se fala acerca do desenvolvimento do idoso. O que o estudo do Desenvolvimento do Idoso propõe é disseminar conhecimentos acerca desse estágio do desenvolvimento, visando à qualidade de vida do idoso, bem como à prevenção e à promoção de saúde. Todo processo de mudança traz consigo inquietações e dúvidas. Com o envelhecimento não é diferente. Uma série de mudanças físicas e emocionais acompanha esse período. De acordo com o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003), no seu artigo terceiro: [...] é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. A produção de conhecimento científico sobre essa fase do desenvolvimento é fundamental para que se assegure ao idoso a qualidade de vida necessária, que lhe permita viver bem essa fase do desenvolvimento. Conforme apontado por Martins e Hagen (2007), quando jovens, nossos órgãos possuem capacidades de reserva. Sempre que temos que fazer um esforço maior do que o habitual, os órgãos conseguem mobilizar essas energias de reserva para corresponder a esse esforço; o estômago consegue digerir refeições gordurosas, as feridas saram, o cérebro funciona com rapidez, os músculos sustentam bem a forca da gravidade e, mesmo sob pressão, todo o corpo se recupera rapidamente do cansaço. As referidas autoras chamam nossa atenção para o fato de que, à medida que o tempo vai passando, as reservas e a nossa capacidade de suportar esforços diminuem. Algumas limitações podem aparecer com o avanço da idade. No entanto,o período de envelhecimento não se resume a limitações. Envelhecer também significa acumular experiências de vida que nos transformam. Segundo Amorim e Sena (2014 apud CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007), a velhice é um processo pessoal, natural e inevitável para qualquer ser humano na evolução da vida. Este processo ocorre relacionado a diversos fatores da vida de uma pessoa, envelhecer é somar todas as experiências da vida, é o resultado de todas as decisões e escolhas que foram feitas durante a vida. Diante disso, vivenciar o envelhecimento apresenta situações diferentes para cada ser humano, pois somos únicos. 78 UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO Coll, Marchesi e Palacios (2009 apud AMORIM; SENA, 2014, s.p.) descrevem o envelhecimento em estágios primário e secundário: O envelhecimento primário consiste em processos de deterioração biológica, geneticamente programados, que acontecem inclusive nas pessoas que têm muita saúde e que não passaram por doenças graves na vida. Estes processos fazem parte da programação natural de nosso sistema biológico, sendo assim inevitáveis sob quaisquer circunstâncias individuais e ambientais. O envelhecimento secundário refere-se aos processos de deterioração que aumentam com a idade e se relacionam com fatores que podem ser controlados, como, por exemplo, a alimentação, a atividade física, os hábitos de vida e as influências ambientais. Esses fatores dependem de cada indivíduo, então podemos assim afirmar que podem ser prevenidos, e são evitáveis e não universais. Relacionado ao desenvolvimento cognitivo nesta fase, nossa capacidade para lidar e para interagir adequadamente com o ambiente vai depender, em grande medida, de nossa habilidade para detectar, para interpretar e para responder de maneira apropriada à informação que chega até os nossos sentidos. O envelhecimento biológico do cérebro é, em geral, evidenciado pela perda de intelecto, memória, capacidade criativa e cognitiva. Mas, ao contrário do que se pensa, esse processo não acontece de repente, logo que a pessoa atinge uma determinada idade, trata-se de um processo lento que progride com o passar dos anos. Vamos aprofundar, neste momento, os nossos conhecimentos a partir da perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento do Idoso. 2 DESENVOLVIMENTO DO IDOSO O Estatuto do Idoso, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Social, em 2003, e ampliado em 2010, considera idosa a pessoa com idade igual ou superior a 60 anos. Estamos falando de milhões de pessoas que se encontram nesta faixa etária. Assim, muito em breve seremos um mundo de idosos, pois, graças aos avanços da medicina e das ciências em geral, estamos vivendo mais. Conhecer o processo de envelhecimento também pode nos ajudar a viver melhor, é o que propõe a Psicologia do Desenvolvimento do Idoso. O interesse da ciência pelo desenvolvimento do idoso é relativamente recente. Durante muito tempo estuda-se o desenvolvimento da criança e do adolescente, indiretamente colocando o processo de envelhecimento em segundo plano. Segundo Baltes (1995), a evolução do campo da psicologia do envelhecimento, no século XX, acarretou mudanças também na natureza da psicologia do desenvolvimento que, em vários países, especialmente nos EUA, era um campo sobreposto ao da psicologia infantil. Basicamente, a rápida emergência da psicologia do envelhecimento foi uma consequência da confluência dessas duas correntes de interesses, originadas a partir da psicologia TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 79 do desenvolvimento. Primeiro: houve uma curiosidade acerca da repercussão da infância sobre o desenvolvimento ulterior, ou seja, que consequências trariam, para a velhice, as experiências de desenvolvimento ocorridas na infância e na adolescência. Segundo: os psicólogos que trabalhavam com a vida adulta e a velhice passaram a estender o âmbito de seus conceitos e de seus estudos para a direção oposta do curso de vida (BALTES apud ARAÚJO; CARVALHO, 2004). Atualmente, a Psicologia do Desenvolvimento também engloba a Psicologia do Envelhecimento. Segundo Neri (1995 apud ARAÚJO; CARVALHO, 2004, p. 13): IMPORTANTE “[...] a psicologia do envelhecimento é hoje a área que se dedica à investigação das alterações comportamentais que acompanham o gradual declínio na funcionalidade dos vários domínios do comportamento psicológico, nos anos mais avançados da vida adulta” A análise do desenvolvimento do idoso compreende tanto os processos biológicos e fisiológicos, quanto cognitivos, psicológicos e afetivos. O processo biológico normativo de envelhecimento inclui diminuição da plasticidade comportamental (ou possibilidade de mudar para adaptar- se ao meio), e diminuição da resiliência biológica (ou capacidade de enfrentar e de recuperar-se dos efeitos da exposição a doenças, acidentes e incapacidades). No entanto, eles não são independentes, pois os limites da plasticidade individual dependem das condições histórico- culturais, condições essas que se refletem na organização do curso de vida dos indivíduos e das coortes. Da mesma forma, a resiliência individual depende dos apoios sociais e dos recursos da personalidade, chamados por Bandura (1986) de mecanismos de autorregulação do self. Sua integridade na velhice promove a continuidade do funcionamento psicossocial e o bem-estar subjetivo dos idosos, mesmo na presença de perdas biológicas, cognitivas e sociais acarretadas pelo envelhecimento (BALTES apud NERI, 2006, s.p.). É importante salientar que grande parte da qualidade de vida, no que concerne ao envelhecimento, está relacionada à independência do idoso, tanto nos aspectos físicos quanto intelectuais. Os princípios do desenvolvimento intelectual na vida adulta e na velhice foram assim descritos por Baltes (1987 apud NERI, 2006): 80 UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 1) O envelhecimento é um processo que acarreta mudanças de natureza ontogenética, traduzidas no declínio das capacidades intelectuais dependentes do funcionamento neurológico, sensorial e psicomotor. Essas mudanças refletem-se na diminuição da plasticidade comportamental. 2) As mudanças intelectuais de base ontogenética não significam descontinuidade da capacidade adaptativa e incompetência cognitiva generalizada: as reservas de experiência podem ser ativas e otimizadas pelos mais velhos, de modo a compensar o declínio nas capacidades de processamento da informação resultantes do processo de envelhecimento. 3) O envelhecimento intelectual é uma experiência heterogênea, isto é, pode ocorrer de modo diferente para indivíduos e coortes que vivem em contextos históricos e sociais distintos. Essa diferenciação depende da influência de circunstâncias histórico-culturais, de fatores intelectuais e de personalidade e da incidência de patologias durante o envelhecimento normal. 4) Há diferentes padrões de envelhecimento intelectual, do patológico ao ótimo, passando pelo normativo, compartilhado pela maioria das pessoas. É relativo às mudanças biológicas que ocorrem depois que os indivíduos atingem a capacidade de reproduzir a espécie e, entre a quarta e a quinta década de vida, converge para o aparecimento de alterações anatômicas e funcionais que definem o envelhecimento. Não se trata de doença, mas de processo natural, dependente da programação genética da espécie. 5) O envelhecimento intelectual é um processo multidimensional e multidirecional: diferentes capacidades começam a mudar em diferentes momentos, com diferentes resultados sobre diferentes indivíduos submetidos a diferentes experiências biológicas, educacionais, históricas e de personalidade. 6) Respeitados os limites impostos pela biologia e as possibilidades abertas pela educação formal e não formal a que foram expostos ao longo da vida, é possível alterar o desempenho intelectual de idosos por meio de intervenções clínicas, educacionais e experimentais. O Adult Developmentand Enrichment Project (ADEPT, de BALTES; WILLIS, 1982) envolveu delineamentos pré-teste/ tratamento/pós-teste, com cinco horas de instrução em capacidades básicas, oferecidas a idosos residentes na comunidade. O treino cognitivo não alterou as características estruturais das capacidades intelectuais primárias, isto é, não converteu capacidades básicas que são componentes da inteligência fluida, em componentes da inteligência cristalizada. Contudo, em pessoas de 60 anos e mais foram observados ganhos estatisticamente significativos nas relações entre figuras e na indução. Os maiores progressos experimentados pelas mulheres foram em orientação espacial. Homens e mulheres melhoraram em velocidade e precisão, mas os homens foram melhores em precisão. Não foram observados efeitos de generalização de uma capacidade treinada para outra não treinada. Estudos de seguimento realizados sete anos depois do treinamento mostraram que os indivíduos treinados declinaram menos do que os não treinados. Além disso, os idosos que haviam declinado mais se beneficiaram mais do treinamento do que os que haviam permanecido estáveis. Os sujeitos foram submetidos a treino de reforço sete anos depois da primeira bateria de instrução, do qual decorreram melhoras significativas para todos os grupos de idade. Contudo, os mais velhos não obtiveram melhor desempenho do que os mais jovens. TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 81 7) A inteligência muda qualitativamente ao longo da vida adulta e da velhice. As mudanças qualitativas dependem muito mais das oportunidades oferecidas pela cultura do que dos mecanismos de base genético-biológica que estão na base da inteligência humana. 8) O funcionamento intelectual dos adultos e dos idosos é largamente influenciado pelo conhecimento de si, pelas crenças sobre a origem do próprio comportamento, pelas metas pessoais e pelas emoções, elementos esses que devem ser levados em conta na pesquisa básica sobre diferenças evolutivas e na intervenção cognitiva. 9) As principais diferenças no funcionamento cognitivo dos jovens e dos idosos não são de natureza ontogenética, mas por fatores culturais que se expressam na educação oferecida nas fases iniciais do desenvolvimento, quando as competências básicas são desenvolvidas. Mesmo assim, as diferenças em inteligência dependentes da experiência cultural não afetam a inteligência fluida. 10) Graças à ação de mecanismos de seleção, otimização e compensação, no âmbito individual ou cultural, os mais velhos não mostram necessariamente declínio no desempenho de certas tarefas normalmente desempenhadas pelos jovens. Não só isso é verdadeiro, como também os idosos podem exibir níveis elevados de desempenho altamente especializado no âmbito profissional e na solução de problemas existenciais, ou sabedoria. FONTE: NERI, Anita Liberalesso. O legado de Paul B. Baltes à Psicologia do Desenvolvimento e do Envelhecimento. Temas psicol. Ribeirão Preto, v. 14, n. 1, jun. 2006. Disponível em: . Acesso em: 3 ago. 2016. Apresentar ou não declínio nas funções intelectuais e cognitivas na velhice também está muito relacionado com o estilo de vida do indivíduo. Isso consiste em uma análise da alimentação, passando pela prática de atividades físicas, ter experimentado ou não situações de estresse ao longo da vida, ter adquirido ou não hábitos saudáveis e, mais ainda, manter-se ativo em termos intelectuais. Aquela famosa concepção de “manter a cabeça ocupada” faz sim muita diferença para determinar o quanto o indivíduo será afetado por declínio cognitivo na velhice, salvo condições patológicas, como Alzheimer, por exemplo. Dos 65 anos aos 75 anos algumas das mudanças cognitivas são sutis ou até inexistentes, como é o caso do conhecimento de vocabulário, entretanto, ocorrem declínios importantes nas medidas que envolvem velocidade ou habilidades não exercitadas. No que se refere à saúde mental, Papalia e Olds (2000) referem que o declínio nesta área não é típico na terceira idade e que a doença mental é mais comum no adulto jovem do que no adulto mais velho. Na velhice, as pessoas podem e efetivamente continuam a adquirir novas informações e habilidades, bem como ainda são capazes de lembrar e usar bem aquelas habilidades que já conhecem. Os autores destacam ainda que o início da senescência varia bastante e justificam através da teoria biológica do envelhecimento e da teoria de programação genética. A justificativa é de que, por um plano normal de desenvolvimento embutido nos genes, os corpos envelhecem, salientando, portanto, que cada espécie tem sua própria expectativa de vida e padrão de envelhecimento. Esses processos, segundo essas autoras, podem ser 82 UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO influenciados tanto por fatores internos quanto externos. Resumindo e utilizando estas duas teorias, pode-se dizer que a programação genética pode limitar a duração máxima da vida, mas fatores ambientais e de estilo de vida podem afetar o quanto uma pessoa se aproxima do máximo, e em que condições. Cada fase da vida é influenciada pela que a antecedeu e irá afetar a que virá a ocorrer. (PAPALIA; OLDS, 2000 apud ARGIMON, 2006, p. 243-244). A partir dos estudos já efetuados, é possível afirmar que quanto mais ativo for o idoso, menos ele sentirá as consequências negativas do envelhecimento. Quanto mais inativo, maior a propensão a ficar debilitado. A Figura 20 exemplifica a questão. FIGURA 20 – O CICLO VICIOSO DO ENVELHECIMENTO FONTE: Martins e Hagen, 2007, p. 113 Segundo Martins e Hagen (2007), quanto mais inativo for o idoso, mais debilitado ficará, consequentemente, mais frágil. A partir deste momento, se torna dependente de outras pessoas, fazendo com que sua autoestima reduza, levando-o à depressão. Nessa condição é praticamente impossível a prática de atividades físicas, acelerando o processo de envelhecimento. Apresentamos a seguir um texto de Martins e Hagen (2007, p. 154) que descreve aspectos importantes do envelhecimento psicológico: TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 83 O idoso envelhece seus pensamentos, falas e atitudes muitas vezes antes mesmo de o seu envelhecimento biológico acontecer. Por vezes, esta modalidade de envelhecimento pode estar relacionada a históricos pessoais e familiares. [...]. É comum que a família assuma todas as falas, pensamentos, ideias e desejos deste, normalmente sem consultá-lo. O que precisamos entender é que os idosos, em sua maioria, não necessitam ou desejam as mesmas coisas. Possuem personalidade própria, são detentores de um conhecimento acumulado através dos anos e precisam ser respeitados por estas diferenças. [...] É nossa missão envelhecer. O ataque psicológico ao envelhecimento está intimamente ligado ao biológico. Talvez o primeiro e maior ataque seja o nosso próprio espelho. Contudo, precisamos aprender a viver 10, 20, 40, 80 ou 100 anos. Precisamos entender que envelhecer é uma tarefa de vida e precisa ser assumida como tal. LEITURA COMPLEMENTAR Por que as pessoas envelhecem? Com o dramático prolongamento do ciclo de vida, os cientistas estão cada vez mais concentrando a atenção sobre o que acontece com o corpo humano com a passagem do tempo. Na idade adulta inicial, as perdas físicas costumam ser tão pequenas e tão graduais que são quase imperceptíveis. Com a idade, as diferenças individuais aumentam. Um homem de 80 anos é capaz de ouvir todas as palavras de uma conversa sussurrada; outro não é capaz de ouvir a campainha. Uma mulher de 70 anos corre maratonas; outra não consegue dar a volta na quadra. O início da senescência, período marcado por evidentes declínios no funcionamento corporal, às vezes associados ao envelhecimento, varia muito. Por quê? E no que diz respeito a isso, por que as pessoas envelhecem? A maioria das teorias sobre o envelhecimento biológico enquadram-seem duas categorias: teorias de programação genética e teorias de taxa variável (resumidas na tabela a seguir). Teorias de Programação Genética Teoria da senescência programada: O envelhecimento é o resultado da ativação e da desativação sequencial de certos genes, com a senescência sendo definida como o momento quando déficits associados à idade manifestam-se. Teoria endocrinológica: Relógios biológicos atuam através de hormônios para controlar a taxa de envelhecimento. Teoria imunológica: Um declínio programado nas funções do sistema imunológico leva à maior vulnerabilidade, a doenças infecciosas; assim, ao envelhecimento e à morte. FONTE: Adaptado de NIH/NIA, 1993, p.2 Teorias de Taxas Variáveis Teoria do desgaste: As células e os tecidos têm partes especiais que se desgastam. Teoria dos radicais livres: Os danos acumulados dos radicais de oxigênio fazem com que células e - eventulamente - órgãos parem de funcionar. Teoria da taxa de metabolismo: Quanto maior a taxa de metabolismo de um organismo, mais curto é o ciclo de vida. Teoria auto-imune: O sistema imunológico confunde-se e ataca as próprias células do organismo. 84 UNIDADE 2 | PSICOLOGIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO Teorias de programação genética As teorias de programação genética sustentam que os corpos envelhecem segundo uma sequência normal de desenvolvimento programada nos genes. Essa sequência implica um ciclo de vida máximo geneticamente determinado. As células no corpo estão constantemente se multiplicando por meio de divisão celular; esse processo é essencial para compensar a morte programada de células inúteis ou potencialmente perigosas e para manter órgãos e sistemas funcionando adequadamente (GOLDSTEIN, 1998; RAFF, 1998). Leonard Hayflick (1974) constatou que as células humanas se dividem no máximo 50 vezes em laboratório; isso é chamado de limite Hayflick, o qual foi comprovado ser geneticamente controlado (SCHNEIDER, 1992). Isso sugere que pode haver um limite biológico no ciclo de vida das células humanas e, portanto, da vida humana - limite que Hayflick estimou em 110 anos. Se, como sugeriu Hayflick (1981), as células passam pelo mesmo processo de envelhecimento no corpo que passam na cultura de laboratório - hipótese que ainda não foi comprovada –, então as influências ambientais desempenhariam pouco ou nenhum papel no envelhecimento (GERHARD; CRISTÓFALO, 1992). O corpo humano, como uma máquina, seria biologicamente programado para falhar em determinado ponto. A falha poderia ocorrer por meio da senescência programada: genes específicos sendo "desativados" antes que perdas relacionadas com a idade (por exemplo, de visão, de audição e de controle motor) se evidenciem. Ou o relógio biológico poderia atuar sobre os genes que controlam as mudanças hormonais ou causam problemas no sistema imunológico, deixando o corpo vulnerável a doenças infecciosas. Existem evidências de que algumas alterações físicas relacionadas à idade, como perda da força muscular, acúmulo de gordura e atrofia de órgãos, podem estar relacionadas com declínios na atividade hormonal (LAMBERTS, VAN DEN BELD e VAN DER LELY, 1997; RUDMAN et al., 1990). E os índices de produção de células imunológicas podem prognosticar taxas de sobrevivência de dois anos entre os idosos mais velhos (MILLER, 1996). Ainda outra hipótese é a de que o relógio biológico é regulado por um encurtamento gradual dos telômeros, as extremidades protetoras dos cromossomos, toda vez que a célula se divide. Essa erosão programada, com o tempo evolui para um ponto em que a divisão celular cessa totalmente (de LANGE, 1998). Evidências de apoio a essa hipótese provêm de um estudo em que o gene para a telomerase - enzima que permite aos cromossomas sexuais repararem seus telômeros - foi introduzida em células corporais humanas em cultura de laboratório, juntamente com um mecanismo para ativar o gene. As células continuaram se dividindo muito além de seu ciclo de vida normal, sem qualquer anormalidade aparente (BODNAR et al., 1998). TÓPICO 3 | ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO IDOSO 85 Se o prolongamento dos telômeros pode reajustar o relógio do envelhecimento biológico, no futuro os cientistas talvez sejam capazes de prevenir ou de tratar a arteriosclerose, a demência, o enrugamento da pele, a rigidez nas articulações e outras doenças e deficiências da velhice. Não resta dúvida de que os genes "exercem forte controle sobre o ciclo de vida e sobre os padrões de envelhecimento" (FINCH; TANZI, 1997, p. 407). Entretanto, a programação genética não pode sozinha explicar tudo; caso contrário, todos os seres humanos morreriam na mesma idade. Fatores ambientais e experienciais interagem com fatores genéticos (FINCH; TANZI, 1997). Em que medida podemos prolongar o ciclo de vida? Quando a francesa Jeanne Calment morreu em 1997, aos 122 anos, o ciclo de vida dela foi o mais longo já documentado na história. Será possível que os seres humanos possam viver ainda mais tempo - 130, 150 ou até 200 anos? Muitos gerontologistas têm sustentado que 110 a 120 anos é o limite do ciclo de vida humano - a possível duração da vida para membros da espécie humana, assim como o limite máximo para os cães é cerca de 20 anos e, para tartarugas, 150 (NIA, 1993). O limite Hayflick prevê que, mesmo que todas as doenças e as causas de morte fossem eliminadas, os seres humanos viveriam apenas até cerca de 110 anos; então, o relógio celular se gastaria, e eles morreriam. Até pouco tempo, mudanças históricas nas curvas de sobrevivência - percentual de pessoas que vivem até diversas idades - apoiavam a ideia de um limite para a vida humana. Embora muitas pessoas estivessem vivendo mais tempo do que no passado, as curvas ainda terminavam em torno da idade de 100 anos; isso sugeria que, independentemente da saúde e boa forma, o ciclo de vida máximo não é muito mais longo. Hoje, contudo, dados sobre centenários parecem contradizer essa perspectiva. A pesquisa com animais está contestando a ideia de um limite geneticamente inalterável para cada espécie. Os cientistas prolongaram os ciclos de vida saudável de minhocas, de mosquinhas-das-frutas e de camundongos através de ligeiras mutações genéticas (ISHII et al., 1998; JOHNSON, 1990; KOLATA, 1999; LIN; SEROUDE; BENZER, 1998; PARKES et al., 1998; PENNISI, 1998). Em seres humanos, contudo, o controle genético de um processo biológico pode ser muito mais complexo. Aproximadamente 200 genes parecem envolvidos na regulação do envelhecimento humano (SCHNEIDER, 1992), sendo que genes específicos controlam diferentes processos. É bastante possível que nenhum gene ou processo isolado seja responsável pela senescência e pelo fim da vida. Por conseguinte, parece improvável que a terapia genética possa mudar o limite. FONTE: PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artmed, 2006, p. 671-673. 86 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O estudo do Desenvolvimento dedicou-se, durante muito tempo, apenas aos estudos do desenvolvimento infantil e da adolescência, deixando os estudos acerca da velhice em segundo plano. Atualmente, contamos com amplos estudos na área do Envelhecimento, que é definida como a área que se dedica à investigação das alterações comportamentais que acompanham o gradual declínio na funcionalidade dos vários domínios do comportamento psicológico, nos anos mais avançados da vida adulta (NERI, 1995 apud ARAÚJO; CARVALHO, 2004). • O envelhecimento implica processos de deterioração biológica, intelectual e cognitiva. Contudo, todos os referidos processos são influenciados pelo estilo de vida do sujeito. Alimentação saudável, prática regular de atividade física, dedicar-se a atividades que exijam concentração, como leituras e jogos, por exemplo, bem como a criação e manutenção de comportamentos satisfatórios no aspecto emocional, configuram estratégias eficazes para um envelhecimento saudável.• No aspecto afetivo, ter alguém com quem conversar pode fazer muito bem ao idoso. Todos precisam falar sobre o que sentem e isso não é diferente nesse momento do desenvolvimento. Ter alguém que o escute e valorize o que ele tem a dizer favorece muito a autoestima do idoso. Tão importante quanto as demais, é necessário ainda evitar situações de estresse e motivar-se com algo que julga importante (ter um hobby ou mesmo uma atividade laboral ou um trabalho voluntário). 87 Chegou a hora de colocar em prática os seus conhecimentos acerca do desenvolvimento do idoso ou envelhecimento. Escreva uma redação que contemple os aspectos mais importantes do envelhecimento do idoso. Lembre- se de colocar as suas impressões acerca desse período do desenvolvimento. Não se esqueça do título. Bom trabalho! AUTOATIVIDADE 88 89 UNIDADE 3 PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Ao final desta unidade você será capaz de: • conhecer o campo das ciências da saúde, reconhecendo seu histórico e suas especificidades; • compreender o que é saúde, como se constituiu a sua política pública; • ter propriedade para discutir sobre integralidade e promoção em saúde; • reconhecer e identificar problemáticas de saúde mental. Esta unidade de ensino contém três tópicos. No final de cada um deles você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos. TÓPICO 1 – A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE TÓPICO 2 – COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO TÓPICO 3 – PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDIS CIPLINARES 90 91 TÓPICO 1 A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, as pesquisas têm demonstrado que o comportamento e o estilo de vida das pessoas têm impacto sobre o desenvolvimento ou agravamento de doenças. Sendo assim, especialistas em comportamento, como os psicólogos, se inseriram em instituições de saúde diante da necessidade de pensar o processo saúde e doença numa dimensão psicossocial e intervir sobre os contextos dos indivíduos e grupos expostos a diferentes doenças e condições de saúde inadequadas (ALMEIDA; MALAGRIS, 2011). Algumas profissões chegaram tardiamente na área da saúde; os pioneiros não compreendiam ao certo o que poderiam realizar, afinal, a atuação era prioritariamente clínica, por isso, esse profissional não sabia com quem deveria atuar: Com os usuários? Com os profissionais? Deveria manter o foco no tratamento clínico individual ou atuar com o todo? Nos dias de hoje, os estudos comprovam que os profissionais que atuam na saúde devem ter um trabalho interdisciplinar e devem focar no paciente. À medida que a população foi crescendo, as técnicas de tratamento na saúde foram se aprimorando, englobando novas atuações dentro desse contexto social. Profissões como educador físico, fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta ocupacional e biomédico foram sendo inseridas dentro das ciências da saúde para melhorar o enfoque e aprimorar o atendimento. 2 HISTÓRICO DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE Fundamentada na teoria de Darwin e no pensamento de dualismo cartesiano, a medicina moderna iniciou-se no século XIX com o estudo do homem por meio de dissecações e investigações físicas. Com as intervenções em laboratório, utilizando-se de microscópios, da química e da eletricidade, cada vez mais a medicina se apoiava na fisiologia e anatomia para buscar compreender de forma mais profunda a saúde e a doença. Desse modo, nasceu o modelo biomédico de saúde, cuja visão sustentava que as doenças ocorriam a partir de mudanças biológicas, advindas de fatores externos, como desequilíbrios químicos ou bactérias, ou por fatores internos involuntários, como a predisposição genética. Neste sentido, o homem não era responsável pelo seu adoecimento. Desta forma, a intervenção estava voltada somente para a modificação do estado físico do corpo (BARLETTA, 2010; STRAUB, 2005). UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 92 ATENCAO O modelo biomédico foi a forma de pensar que predominou na época e vemos que até hoje é um modelo que norteia o fazer do profissional e até mesmo a nossa visão. Afinal, quando você está “doente”, a quem busca primeiramente? Ao médico, não é mesmo? E os exames a que você é submetido são os físicos. Geralmente, procuramos o médico antes de procurar demais especialidades de profissionais de saúde FIGURA 21– A HISTÓRIA DA SAÚDE FONTE: Disponível em:. Acesso em: 30 jan. 2018. 2.1 TENDÊNCIAS QUE MOLDARAM AS CIÊNCIAS DA SAÚDE Para que houvesse o aumento dos cursos na área da saúde e a formação de novos profissionais se fizesse presente no campo da saúde, foram necessárias mudanças sociais e históricas, às quais Straub (2005) denomina de tendências. Com essas tendências houve a necessidade de um modelo mais amplo de saúde e de doença, partindo da observação do comportamento humano. A primeira tendência é o aumento na expectativa de vida. Conforme Straub (2005), há menos de 100 anos 15% dos bebês que nasciam morriam no seu primeiro ano de vida e, para aqueles que sobreviviam, a expectativa de vida era TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 93 de aproximadamente 50 anos. Com a melhoria dos serviços de saúde, atualmente 90% dos bebês sobrevivem e o número de anos que provavelmente esse ser viverá aumentou cerca de 20 anos. Apesar dessa boa notícia, há muita desigualdade na expectativa de vida, pois está associada à condição socioeconômica. Com as pessoas vivendo mais, há mais consciência pública com relação às questões de saúde, estabelecendo, assim, a importância de melhorar a qualidade de vida da população que passou a viver mais. Outro aspecto significante que Straub (2005) aborda diz respeito ao surgimento de transtornos relacionados com o estilo de vida, pois, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, as pessoas morriam principalmente por doenças causadas por contaminação de alimentos, água, infecções contraídas, epidemias. Com a melhoria da higiene pessoal, nutrição e saúde pública durante o século XIX, houve uma diminuição no número de mortes por doenças infecciosas. Certamente, nos países menos desenvolvidos, doenças como a tuberculose e a pneumonia ainda permaneciam, sendo as principais causas de morte. No entanto, hoje em dia, as principais causas de morte são outras, como o câncer, o AVC e as doenças cardíacas, que não resultam de infecções virais ou bacterianas. Straub (2005) assinala que estas doenças são as ditas “doenças do estilo de vida”, pois podem ser amplamente prevenidas, mas suas causas não são facilmente identificáveis. O risco que uma pessoa corre em desenvolver doenças cardíacas e câncer de pulmão, garganta ou bexiga é aumentado pelo hábito de fumar, ter uma vida sedentária, consumir alimentos com alto teor de gordura, por isso são consideradas causas evitáveis. Por envolverem fatores sociais e psicológicos, requerem mudanças, auxílio profissional e comprometimento psicológico por parte da pessoa. A terceira tendência que Straub (2005) evidencia foi a necessidade de ir além do modelo biomédico. Uma limitação da medicina é explicar por que o mesmo conjunto de fatores de risco determinadas vezes desencadeia uma doença e em outras não. Como exemplo, um homem de 45 anos, obeso, fumante e sedentário, com um histórico familiar de doença cardíaca, tem um ataque cardíaco fatal, enquanto outro com as mesmas características e fatores de risco permanece livre de doenças cardíacas. Neste âmbito, pesquisadores descobriram que fatores psicológicos, como a maneira de uma pessoa reagir ao estresse, combinam-se com fatores de riscos físicos para determinar o risco à saúde do indivíduo. “Um problema intimamente relacionado ao modelo biomédico é explicar por que uma forma de tratamento, com o uso de certa medicação, pode curar determinada doença em uma pessoa, mas não em outra” (STRAUB, 2005, p.38). Nesse sentido, também se tem considerado que há fatores psicológicos e sociais que influenciam substancialmente sobre o tratamento. O autor cita o efeito placebo (o poder da crença de uma pessoa na eficácia de um tratamento a ponto de influenciar na sua intervenção) como sendo um fator que tem poder de cura, assim como o relacionamento entre médico e paciente também influencia muito. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 94 O último fator que Straub (2005) aponta foi o rápido aumento nos custos dos serviços de saúde. A ênfase da Psicologia da Saúde em modificar comportamentos de risco antes que causem doenças tem o poder de reduzir custos com a saúde. Por exemplo, reduzir ou eliminar o hábito de fumar ou aumentar o uso de testes diagnósticos pode reduzir o alto índice de câncer e mortes relacionadas a ele. FIGURA 22 – AUMENTO DA POPULAÇÃO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018. 3 A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS NA SAÚDE A partir do panorama aqui exposto, outras ciências se inseriram na saúde. Como exemplo temos a psicologia, a educação física, a biotecnologia. Todas se constituíram para melhorar os serviços de saúde, entender o contexto da saúde e auxiliar no atendimento à população. A PSICOLOGIA O interesse da Psicologia da Saúde está principalmente na maneira como o sujeito vive e experimenta o seu estado de saúde ou de doença, na sua relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Objetiva fazer com que as pessoas incluam no seu projeto de vida um conjunto de atitudes e comportamentos ativos de promoção e prevenção em saúde, além de aperfeiçoar técnicas de enfrentamento no processo de adoecer (ALMEIDA; MALAGRIS, 2011). A primeira definição de Psicologia da Saúde é de Matarazzo, em 1980: TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 95 Um conjunto de contribuições educacionais, científicas e profissionais da disciplina da Psicologia para promoção e manutenção da saúde, a prevenção e tratamento de doenças, a identificação da etiologia e diagnóstico dos correlatos de saúde, doença e funções relacionadas, e a análise e aprimoramento do sistema e regulamentação da saúde (MATARAZZO, 1980 apud KERBAUY, 2002, p. 15). Barletta (2010) assinala que, após esta descrição, que mais uma vez desafiou a cisão entre mente e corpo, sendo aceita mundialmente, a disciplina se estabeleceu como própria da área da Psicologia. Na Psicologia da Saúde a doença é considerada como multicausal, sendo uma combinação de variáveis, tanto biológicas (vírus, bactérias, lesões), como psicológicas (comportamento, crenças, estresse, dor) e sociais (classe, emprego, etnia), afastando-se do pensamento linear de causa-efeito. Nesta perspectiva, o indivíduo deixa de ser um agente passivo ao adoecimento e ocupa um lugar primordial, já que o comportamento é um fator de extrema importância para o desenvolvimento da doença. Na medida em que o foco deixa de ser a mudança física no organismo e passa a ser a pessoa, a forma de tratamento também difere. Ao se considerar a saúde e a doença como parte do mesmo continuum, a responsabilidade pelo tratamento acaba sendo dividida com todos, desde o médico, a equipe de saúde e o próprio paciente. Barletta (2010) e Almeida e Malagris (2011) discutem que os termos Medicina Comportamental e Psicologia da Saúde têm sido utilizados frequentemente como similares. Barletta (2010) afirma que as diferenças entre ambas estão no enfoque teórico, sendo que a Medicina Comportamental se baseia nas ciências do comportamento, enquanto a Psicologia da Saúde utiliza qualquer que seja o enfoque psicológico, incluindo também as ciências do comportamento. Para Teixeira (2004), a Psicologia da Saúde é a aplicação dos conhecimentos e técnicas psicológicas à saúde, doenças e cuidados em saúde, focalizando os contextos sociais e culturais, experiências, comportamentos relacionados à saúde e doença. A finalidade principal é contribuir para a melhoria do bem-estar dos indivíduos e comunidades, por isso a intervenção do psicólogo na saúde pode reduzir a utilização de medicamentos, potencializar a atuação de demais técnicos, promovendo a utilização mais adequada dos serviços de saúde. Teixeira (2004) subdivide em cinco grandes áreas os focos de estudo e investigação psicológicas na saúde: compreensão da origem e manutenção dos problemas de saúde; promoção da saúde e prevenção das doenças; facilitação do diagnóstico e tratamento médico; avaliação e tratamento de problemas de saúde e melhoria do sistema de cuidados de saúde. Para Spink (2003), a Psicologia da Saúde é um campo que se configura como área onde as questões de saúde estão situadas na interface entre o individual e o social. Ou seja, a saúde estabelece problemas individuais, que em conjunto, formam um problema social, que deve ser envolvido por todas as profissões. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 96 A respeito de alguns termos de saúde aqui utilizados, como “níveis de prevenção” e “promoção de saúde”, você poderá compreender melhor no segundo tópico desta unidade, quando voltaremos a falar sobre tais conceitos. ESTUDOS FU TUROS FIGURA 23– O PSICÓLOGO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018. A FISIOTERAPIA O profissional Fisioterapeuta é um profissional com formação clínica generalista, que atua nas diversas áreas da saúde, dentre elas: saúde do idoso, da criança, da mulher, do trabalhador, da família, entre outras. É um profissional de primeiro contato que avalia, faz diagnóstico fisioterapêutico, prescreve, executa o tratamento e encaminha o paciente à alta ou a outros profissionais, se necessário. Suas ações desenvolvem-se em todos os níveis de atenção à saúde (primário, secundário e terciário). Assim, os fisioterapeutas estão plenamente habilitados a atuar na promoção de saúde, prevenção de doenças, na cura e na reabilitação. Sua atuação, por meio de orientações ou abordagem cinética funcional de danos temporários ou permanentes, evita desfechos que possam implicar em grandes gastos monetários, danos psicológicos ou diminuição da qualidade de vida do indivíduo. O fisioterapeuta detém habilidades e competências para atividades de atenção à saúde, tais como: • Administrativas: na organização dos serviços de saúde, coordenação e gestão dos serviços de fisioterapia; na educação em saúde voltada ao acompanhamento dos programas de saúde pública e visitas domiciliares. TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 97 • Assistenciais: na assistência de vigilância epidemiológica e sanitária, crescimento e desenvolvimento da criança, atenção à saúde dos adolescentes, da mulher, do adulto e do idoso. A EDUCAÇÃO FÍSICA O Ministério da Saúde (MS), atento aos fatores determinantes de saúde e principalmente aos altos índices de sedentarismo no Brasil, incluiu a atividade física no Sistema Único de Saúde (SUS) como fator primordial para melhorar a qualidade de vida da população. Iniciou assim uma série de ações para promoção da saúde e prevenção de doen ças através do exercício físico, e incorporou os Profissionais de Educação física no quadro de profissionais da saúde. A Academia da Saúde se torna um espaço apropriado à promoção da saúde e à educação da população para o autocuidado, favorecendo o acesso à informação e consequentemente à saúde de qualidade. A prática do exercício físico prescrito e orientado por esses profissionais pode trazer benefícios tanto aos cofres das esferas governamentais, como, em primeiro lugar, à saúde do cidadão. No contexto específico dos cursos de bacharelado e licenciatura, o licenciado e bacharel em educação física ensinam, mas de modos diferentes e em espaços e tempos diferentes. A educação física tem como objetivo auxiliar no desenvolvimento do indivíduo como um todo, trabalhandoseus aspectos biológicos, psicológicos e sociais e isso nos leva a considerar que a educação física se mostra um papel fundamental para o auxílio da inclusão como um todo, não só nas aulas, mas também na sociedade. Dentro das equipes de saúde, o profissional de educação física encontra-se apto a desenvolver e aplicar projetos que busquem à melhora da saúde física e mental das pessoas através da atividade física. FONTE: Conselho Federal de Educação Física. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018. FIGURA 24 – ATUAÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 98 A FONOAUDIOLOGIA O fonoaudiólogo é um profissional da Saúde, de atuação autônoma e independente, que exerce suas funções nos setores público e privado. É responsável por promoção da saúde, avaliação e diagnóstico, orientação, terapia (habilitação/ reabilitação), monitoramento e aperfeiçoamento de aspectos fonoaudiólogos envolvidos na função auditiva periférica e central, na função vestibular, na linguagem oral e escrita, na articulação da fala, na voz, na fluência, no sistema miofuncional orofacial e cervical e na deglutição. Exerce também atividades de ensino, pesquisa e administrativas (Conselho Federal de Fonoaudilogia – CREFONO, 2007). FIGURA 25– A FONOAUDIOLOGIA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2018. A NUTRIÇÃO O mercado de atuação do nutricionista vem crescendo a cada ano e este profissional ganha cada vez mais importância na promoção do bem-estar e da saúde da população. Confira, a seguir, as áreas de atuação estabelecidas de acordo com a Resolução CFN nº 380/2005 e suas atribuições. Vai da alimentação coletiva, nutrição clínica, saúde coletiva, indústria de alimentos, nutrição esportiva, até a área de marketing de alimentos. Compete ao nutricionista, no exercício de suas atribuições na Alimentação do Trabalhador, planejar, organizar, dirigir, supervisionar, avaliar os serviços de alimentação e nutrição, dietética de indivíduos sadios ou enfermos. TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 99 FIGURA 26 – A NUTRICIONISTA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. A BIOTECNOLOGIA No campo da saúde, a biotecnologia pode levar à descoberta de novas formas de diagnosticar, tratar e prevenir doenças. O biotecnólogo poderá desenvolver trabalho técnico e/ou gerencial nas indústrias de fármacos e medicamentos, atuando de forma intensiva na prevenção e tratamento de doenças. A Biotecnologia caracteriza-se por seu caráter sistêmico, interdisciplinar, ou seja, encontra-se na encruzilhada de ciências como química, bioquímica, engenharia enzimática, engenharia química, industrial, genética, microbiológica, além de microbiologia, matemática, informática, automação, engenharia clássica, pesquisa em economia, ciências humanas, entre outras. FIGURA 27– A BIOTECNOLOGIA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 100 A BIOMEDICINA O biomédico é o profissional que atua em 33 áreas, acompanha o campo da descoberta científica, suas funções são de prevenção, tratamento e diagnóstico de determinadas patologias que acercam a humanidade. O ramo de atividade profissional é amplamente diversificado, que visa também facilitar a atuação de novos biomédicos e sensibilizar a sociedade sobre a real importância da Biomedicina no contexto da saúde do país, ao mesmo tempo em que persegue a conquista e adoção de políticas públicas de saúde que tenham como objetivo alcançar a sociedade brasileira em todos os seus segmentos. As áreas de atuação são: • análise ambiental; • análises bromatológicas (de alimentos); • análises clínicas; • biologia molecular; • citologia (estudo das células); • diagnóstico por imagem; • carreira acadêmica através de docência e/ou pesquisa; • embriologia; • farmacologia; • genética; • histologia (estudo dos tecidos que formam animais e plantas); • imunologia; • microbiologia; • parasitologia; • patologia, entre outros. IMPORTANTE Ainda existem outras áreas que foram sendo inseridas na saúde para melhorar a qualidade de vida, o atendimento e a segurança da população, porém não podemos citar todas aqui. Com a evolução da internet, você consegue acessar a todas as profissões que englobam as ciências da saúde, suas respectivas áreas de atuação e também seu código de ética e conduta. 4 COMPORTAMENTO EM SAÚDE Como vimos, a preocupação do passado com o meio ambiente e epidemias mudou no século XX, sendo o comportamento das pessoas o novo foco no processo de adoecimento ou de ser saudável. Um dos primeiros estudos sobre a importância do comportamento na saúde e prevenção de doenças foi relacionado à falta de atividade física e doença coronária. Hettlher (1982 apud RIBEIRO, 2004) definiu wellness, sinônimo de “estilo de vida”, como um processo ativo por meio do qual o indivíduo se torna consciente e faz escolhas que conduzam a uma TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 101 melhor existência. Mais tarde, a Organização Mundial de Saúde (2009) define que estilo de vida é um conjunto de estruturas mediadoras que refletem a totalidade de atividades, atitudes e valores sociais (RIBEIRO, 2004). Ribeiro (2004) buscou desenvolver um Questionário de Atitudes e Comportamentos de Saúde para utilizar de maneira prática em investigação no campo da saúde. Para conhecer seu artigo, acesse . DICAS Conforme aponta Barletta (2010), a cada dia fica mais evidente a relação entre comportamentos inadequados, estilos de vida e problemas de saúde, bem como, respostas psicológicas adequadas e o aumento de qualidade de vida. Também pode ocorrer o inverso, aspectos orgânicos podem interferir nas respostas psicológicas e comportamentais. Os comportamentos em saúde foram definidos de duas formas por Matarazzo em 1984: (a) hábitos prejudiciais à saúde, também chamados de comportamentos patogênicos, como fumar, que é um comportamento de risco e (b) comportamentos de proteção à saúde ou comportamentos imunogênicos, como fazer um check-up rotineiro (BARLETTA, 2010, p. 310-311). Ainda existem outras formas de as respostas psicológicas influenciarem a saúde. Uma seria provocando mudanças físicas no organismo, como o estresse; aumentar habilidades de enfrentar e manejar o estresse poderia ser colocado como comportamentos de proteção à saúde. A segunda forma de influência está ligada à mediação cognitiva, uma vez que comportamentos e reações frente à possibilidade de adoecimento vão mediar a tomada de decisão e comportamentos promocionais de saúde, como a adesão ao tratamento (BARLETTA, 2010). Falaremos mais a respeito de estresse no último tópico desta unidade. ESTUDOS FU TUROS Grande parcela de doenças crônicas resulta de comportamentos inadequados que as pessoas apresentam ao longo da vida. Grilo e Pedro (2005) apresentam explicações sobre estes comportamentos de saúde e reações a doenças com contribuições de estudos da ciência psicológica, sobre os quais iremos explanar brevemente, afinal, quando falamos em promoção de saúde, as áreas da saúde vieram para ensinar as pessoas a adquirir e a manter comportamentos saudáveis, assim como para mudar hábitos prejudiciais para a sua saúde. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 102 FIGURA 28– O COMPORTAMENTO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. Barletta (2010) evidencia que a percepção distorcidade risco, apontando um otimismo irrealista de que há menos probabilidade de ser acometido por um problema de saúde que outras pessoas, faz com que muitos continuem a apresentar comportamentos patogênicos. Os fatores cognitivos que podem levar ao otimismo irrealista são: a falta de experiência pessoal do problema; a crença de que o problema é facilmente prevenido pela ação individual; a crença de que, se o problema ainda não apareceu, não irá aparecer; a crença de que o problema não é comum. Cada comportamento prejudicial para a saúde é sustentado por um conjunto de crenças e sentimentos variados da pessoa, estes são suscetíveis à modificação por meio de informação e experiência, por isso a importância do profissional de saúde conseguir identificá-los para posteriormente encontrar meios para alterá-los, para comportamentos mais positivos e saudáveis, conforme afirmam Grilo e Pedro (2005). Os autores também trazem contribuições relacionadas ao processo de adoecer com enfoque em três áreas: as representações da doença, a adaptação à doença e a Apesar de sabermos que a saúde constitui um dos valores mais importantes, muitas pessoas não adotam comportamentos benéficos para a sua saúde, assim como ainda praticam hábitos prejudiciais, como fumar ou consumir alimentos ricos em gordura, por exemplo. Grilo e Pedro (2005) apontam como fatores para este fenômeno de não adesão aos comportamentos de saúde o papel dos modelos parentais, por observação dos pais, os quais são uma base estável de crenças e de comportamentos que tendem a se tornar hábitos no cotidiano. Pesquisas revelam que pais fumantes têm maior probabilidade de ter filhos que fumam, assim como pais obesos têm com maior frequência crianças obesas. Outro fator levantado por Grilo e Pedro (2005) é a reduzida motivação para praticar bons hábitos de saúde, uma vez que, na idade em que os comportamentos são adquiridos, os indivíduos geralmente são saudáveis e não sentem efeito imediato sobre o seu bem-estar. Por exemplo, uma alimentação saudável pode reduzir, mas não eliminar o risco de um indivíduo vir a desenvolver uma doença como um câncer de intestino. Além disso, as crenças de que a pessoa pode controlar a saúde também fazem com que se negligencie a ameaça dos comportamentos prejudiciais. TÓPICO 1 | A INSERÇÃO DAS CIÊNCIAS NA SAÚDE 103 qualidade de vida. Com relação às representações da doença, é fato que as pessoas apresentam uma variabilidade no modo como respondem aos sintomas. Há pessoas que ignoram sintomas graves, ou que recorrem ao tratamento apenas numa fase muito avançada da doença, enquanto outras procuram ajuda dos profissionais a qualquer alteração. De fato, um sintoma não é analisado objetivamente, mas sim é integrado em um esquema de representações, por isso varia de um indivíduo para outro. A representação que uma pessoa pode fazer de uma forte dor de cabeça pode ser muito ansiogênica se um familiar próximo faleceu recentemente com um tumor cerebral, enquanto que outro sujeito, sem experiência semelhante, pode encarar o sintoma com naturalidade, atribuindo-o ao fato de ter trabalhado durante horas seguidas junto ao computador. A adaptação à doença depende de fatores sociais, demográficos, como idade e desenvolvimento cognitivo, relacionados ao grau da doença, físicos e socioeconômicos, como a valorização de aspectos estéticos, tipo de relacionamento com a família. Perante um diagnóstico, a pessoa realiza uma avaliação da situação e a forma como interpreta seu estado de saúde condiciona a estratégia que irá utilizar, o que pode ser uma adaptação saudável ou inadequada. A adaptação inclui aspectos como o caráter subjetivo da dor, a importância da sua avaliação, a reação a exames, os quais muitas vezes são aversivos à pessoa que já está doente. Neste âmbito, o fornecimento adequado de informações e estratégias de controle de ansiedade mostra-se importante, conforme Grilo e Pedro (2005). Já no que se refere à qualidade de vida, os autores afirmam que não é fácil definir tal conceito, pois é dinâmico e varia de acordo com o tempo. Todavia, consideram fundamentais dois conceitos: a multidimensionalidade e a subjetividade. A multidimensionalidade se refere à necessidade de a qualidade de vida ir além do bem-estar físico, por exemplo, uma melhora de efeitos da quimioterapia e regressão de um tumor não significam melhora equivalente no estado psicológico ou social da pessoa que tem a doença, pois ela pode não ter o apoio por parte dos familiares neste processo, assim como os sentimentos com relação à sua condição podem piorar. A subjetividade, neste âmbito, reflete o caráter pessoal do conceito, a avaliação pessoal referente à satisfação com sua vida. Sendo assim, avaliar a qualidade de vida da pessoa exige do profissional avaliar para além da melhora dos sintomas, da condição da doença. FIGURA 29– A PSICOLOGIA DA SAÚDE FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. 104 Neste tópico, você aprendeu que: • A Psicologia, e outras ciências, como a educação física e fisioterapia, inseriram- se na saúde por necessidade após transformações nas concepções de saúde, aumento da expectativa de vida, mudanças nas formas de doenças existentes, pois o estilo de vida passou a influenciar essas áreas. • As concepções em saúde, inicialmente, baseavam-se no modelo biomédico, porém, com o tempo, para além do físico, passou-se a considerar os fatores mentais, sociais, culturais e ambientais relacionados à saúde e à doença. • Houveram mudanças no campo de atuação de algumas das últimas profissões que foram inseridas na saúde, e trouxemos a especificação para que você possa compreender e saber como atuar de forma interdisciplinar. • Foram desenvolvidos alguns estudos sobre comportamentos em saúde, como motivação para bons hábitos, estilo de vida, comportamentos de risco, dentre outros. De modo geral, as áreas de ciências da saúde buscam contribuir para a melhoria do bem-estar integral dos indivíduos e das comunidades, dando relevância à promoção e prevenção em saúde. RESUMO DO TÓPICO 1 105 1 Explique qual a diferença entre as áreas de atuação da educação física e da fisioterapia. 2 A partir da apresentação dos conceitos sobre a inserção das diversas áreas nas ciências da saúde, comente sobre a importância das três tendências de Straub e opine se hoje essas tendências continuam em evidência, ou seja, se ainda existem. AUTOATIVIDADE 106 107 TÓPICO 2 COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Utilizamos cotidianamente o termo saúde e falamos dele ao longo do primeiro tópico desta unidade, porém, você sabe dizer o que é saúde? Este termo é de difícil definição, entretanto é fundamental que, enquanto profissionais da área, saibamos conceituar saúde e, acima de tudo, compreender sobre ela. Neste tópico estudaremos sobre a política pública de saúde, utilizando como base principal a legislação e outros materiais nacionais de referência. Abordaremos a Política Nacional de Atenção Básica e os princípios de promoção de saúde e integralidade, os quais são muito preconizados atualmente, por isso a importância de estudar seus conceitos. Por fim, estudaremos sobre comportamentos em saúde, trazendo contribuições do estudo da Psicologia para o trabalho em saúde. 2 CONCEITUANDO SAÚDE De acordo com Daneluci (2010), a definição de saúde como ausência de doenças foi colocada à prova em 1948, quando a Organização Mundial da Saúde (2009, s.p.) a definiu como “[...] estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de enfermidade ou invalidez”. Todavia, não podemos definir saúde apenas desta forma, afinal, quem de nós considera estar em um estado deste? Nesse sentido, o conceito foi criticado por estudiosos, na medida em que é impossível definir a existência de um estado completo de bem- estar, pois enquanto organismos,estamos em constante mudança. Se alguém lhe perguntar como você está de saúde, o que você responderia? Muitas vezes, estamos bem, porém qualquer imprevisto pode nos deixar mal. Outras vezes, fisicamente está tudo certo, mas as preocupações com os problemas do cotidiano fazem com que não nos sintamos bem. Algumas situações fazem com que nos sintamos doentes; por vezes, identificamos uma causa ou percebemos que alguma coisa agrediu nosso corpo. Em outros momentos, algo não vai bem, mas não nos sentimos doentes, por isso esperamos passar, buscamos relaxar. Quando não percebemos nenhuma alteração na nossa rotina ou não associamos com preocupações, acabamos nos indagando se há algum processo fisiopatológico desregular. 108 UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE Se a ideia de doença e de saúde se encontra muito próxima do que cada um considera “sentir-se bem”, vai variar de pessoa para pessoa e depender de cada cultura, do meio em que se está inserido e da sua relação com o mundo. Em algumas localidades mais precárias, onde, por exemplo, o acesso a água potável é um problema, as diarreias infantis são consideradas somente como “desarranjos” e, por sua frequência constante, acabam sendo encaradas como “normais”. Essas situações nos mostram que existem definições diferentes a respeito de saúde e de doença dadas pelas pessoas, pelos profissionais de saúde (BRASIL, 2005). O que as pessoas consideram como doença ou não se encontra em estreita relação com as estratégias de resolução do problema: buscar por profissionais de saúde, utilizar recursos terapêuticos naturais ou a automedicação. “Como o desenvolvimento do conhecimento humano é um processo histórico, também em relação à saúde/doença, a teoria e a prática que orientam o saber-fazer dos profissionais variam no tempo e no espaço” (BRASIL, 2005, p. 31). Sempre há novas teorias que buscam explicar a situação de saúde/doença, tendo como referência o modo como a sociedade se organiza e estabelece as condições de vida das pessoas. Daneluci (2010) assinala que não somos estáveis, assim, a saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas, depende de época, lugar, vivências pessoais de cada um, classe social, gênero, faixa etária, assim como valores individuais até mesmo influenciados pela religião. Esse assunto está ligado aos processos de construção de vida de cada pessoa e saúde e doença não são conceitos definitivos, tampouco opostos, ambos referem-se à sobrevivência, à qualidade de vida. São conceitos que dependem do lugar de onde se está, dos tempos, dos contextos e das tensões em que cada um está inserido. Em Brasil (2005) propõe-se uma analogia entre o corpo humano e uma máquina, ou melhor, uma impossibilidade de relação entre ambos, pois não se pode comparar a saúde do corpo com a eficiência de uma máquina; o estado de bom funcionamento da máquina não é sua saúde e seu descompasso nada tem a ver com doença. É importante rejeitar essa associação para ampliar o conceito de saúde, resgatando seu sentido singular e subjetivo, pois quando falamos a respeito de saúde, fazemos menção à dor ou ao prazer e essas dimensões são subjetivas, escapam a medições. Assim, a saúde é compreendida como a capacidade de cada um de enfrentar situações novas, como a possibilidade de uma pessoa ficar doente e poder recuperar-se. Vivemos com saúde, convivendo e equilibrando nosso organismo, mesmo com as anomalias, as tensões e os desconfortos. Assim, há um conjunto de condições desfavoráveis de existência que deve ser considerado como sendo causa de predisposição a doenças futuras; somos expostos a condições de vida insalubres e estressantes, a acessos inadequados aos serviços considerados essenciais. Considerando que a experiência humana inclui a doença, não há saúde perfeita. Portanto, a implantação de políticas de saúde com objetivos possíveis é fundamental. TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO 109 Brasil (2005) também refere saúde como segurança contra os riscos, coragem para corrigi-los e possibilidade de superar as capacidades iniciais. Os riscos fazem parte da saúde e o mais importante é identificarmos aqueles que podem e devem ser evitados e aqueles que são próprios da experiência da vida humana. A saúde das pessoas é um assunto que se refere, primordialmente, a elas próprias, e o papel dos profissionais deve ser o de oferecer seus conhecimentos técnicos para auxiliar na autonomia das pessoas, no processo de defesa da vida. 3 A POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE Em 1978 foi realizada a Primeira Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde em Alma-Ata, quando foi percebida a necessidade de ações urgentes na área da saúde. Nesta Conferência foi enfatizado que a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença, sendo um direito fundamental. O nível de saúde mais elevado foi estabelecido como a meta social mundial e os cuidados primários de saúde são o “carro-chefe” para que esta meta seja atingida, para que seja trabalhada a promoção de saúde e não somente curar e reabilitar, afinal, estas ações indicam que já exista enfermidade instalada (BRASIL, 2002). FIGURA 30– CONFERÊNCIA DE ALMA-ATA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. Para planejar ações para conquistar este objetivo de promover saúde de forma integrada e funcional, realizou-se, em 1986, a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção de Saúde em Ottawa. 110 UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE A responsabilidade pela promoção da saúde nos serviços de saúde deve ser compartilhada entre indivíduos, comunidade, grupos, profissionais da saúde, instituições que prestam serviços de saúde e governos. Todos devem trabalhar juntos, no sentido de criarem um sistema de saúde que contribua para a conquista de um elevado nível de saúde (CARTA DE OTAWA, 1986, s.p.). Diante disso, os países ligados à Organização Mundial de Saúde precisavam produzir saúde num âmbito coletivo e, a partir disso, o Brasil começou a discutir uma reforma na sua política de saúde. Com o processo de queda da ditadura militar e transição democrática do país, se desenvolveu a Constituição Federal, em 1988, com repercussões que criaram uma nova política para esta área (BRASIL, 2002). A Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado, garantindo a redução de risco de doença e acesso universal às ações para sua promoção, proteção e recuperação. O serviço deve ser descentralizado, com atendimento integral com prioridade para a prevenção e com participação da comunidade. Esta nova maneira de idealizar a saúde apresenta o Sistema Único de Saúde (SUS), o qual foi regulamentado por meio das Leis Orgânicas da Saúde (LOS) nº 8.080/90, de 19 de setembro de 1990, e 8.142/90, de 28 de dezembro de 1990. O SUS é um sistema que reúne ações, serviços e unidades de saúde integrados para garantir a saúde de toda a população. Dentre os princípios do SUS estão a equidade da assistência, a universalidade do acesso, a resolubilidade, dentre outros, dos quais destacamos o princípio de integralidade. Entendemos integralidade como a forma de compreender e prestar cuidados ao ser humano, sendo este termo uma forma de pensar e agir, assim como uma forma de gestão de cuidados. O objetivo é assegurar atenção integral à saúde, desde os níveis mais simples aos mais complexos, compreendendo o indivíduo e as coletividades em sua totalidade e singularidades (BRASIL, 1990). FIGURA 31– LEI ORGÂNICA DA SAÚDE FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO 111 Apresentaremos um quadro para demonstrar as diferenças entre o cuidado convencional que era a atenção médica quese tinha anteriormente e o modelo de atenção primária em saúde que se preconiza na legislação hoje. QUADRO 14 – ATENÇÃO MÉDICA CONVENCIONAL E PRIMÁRIA ATENÇÃO MÉDICA CONVENCIONAL ATENÇÃO PRIMÁRIA Enfoque Doença Saúde Cura Prevenção, Atenção e Cura Conteúdo Tratamento Promoção de saúde Atenção por situações Atenção continuada Problemas específicos Atenção abrangente Organização Especialistas Clínicos gerais Médico Grupo de profissionais Consulta individual Equipe Responsabilidade Apenas setor de saúde Colaboração intersetorial Domínio pelo profissional Participação da comunidade Paciente passivo Autorresponsabilidade FONTE: Adaptado de: Starfield (2002, p. 33) O quadro apresenta definições elaboradas a partir da Conferência de Alma Ata, que definiu as mudanças necessárias para converter a atenção médica convencional em atenção primária à saúde de modo mais amplo, tanto na forma de ver o processo quanto na forma de trabalho. De acordo com Brasil (2005), a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080, de 1990) define que a saúde tem como fatores determinantes e condicionantes a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer, o acesso aos bens e serviços essenciais, dentre outros. Neste sentido, o SUS como política pela melhoria da qualidade de vida e afirmação do direito à vida e à saúde, neste âmbito ampliado de concepção de saúde, deu origem a novas perspectivas de promoção e cuidado à saúde. Você certamente ouvirá falar nos termos atenção primária, conforme descrito acima, bem como atenção básica, termo utilizado no Brasil. Os autores Boing e Crepaldi (2010) esclarecem sobre o uso destes. Atenção básica tem um sentido amplo e compreende ações integrais que abrangem a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação e a manutenção da saúde, cujas ações são efetivadas por meio da 112 UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE Estratégia de Saúde da Família. Sendo assim, o termo atenção básica é empregado particularmente no contexto da saúde pública do Brasil, já o termo atenção primária é internacionalmente utilizado e tem um significado mais restrito, relacionado à saúde coletiva em ações de promoção e prevenção. A Atenção Básica caracteriza-se como porta de entrada preferencial do SUS, formando um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas e nos determinantes e condicionantes de saúde das coletividades (BRASIL, 2013, p. 19). Para o desenvolvimento da atenção integral, a Atenção Básica deve cumprir algumas funções para contribuir com o funcionamento das Redes de Atenção à Saúde, sendo elas: ser base; ser resolutiva, identificando riscos, necessidades e demandas de saúde, na perspectiva de ampliação dos graus de autonomia dos indivíduos e grupos sociais; coordenar o cuidado, elaborando, acompanhando e criando projetos terapêuticos singulares; ordenar as redes, reconhecendo as necessidades de saúde da população sob sua responsabilidade, organizando as necessidades desta população em relação aos outros pontos de atenção à saúde, contribuindo para que a programação dos serviços de saúde parta das necessidades de saúde dos usuários. Esta Política Nacional de Atenção Básica tem como estratégia prioritária a Saúde da Família, que é o programa executado nas unidades de saúde básicas, as quais muitos até hoje denominam de “postinho de saúde” (BRASIL, 2013). 3.1 OS PRINCÍPIOS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE E INTEGRALIDADE Segundo o Manual Técnico de Promoção de Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças na Saúde Suplementar (BRASIL, 2009a), os primeiros conceitos de promoção de saúde derivam dos anos 1920 e 1946, quando se definiram quatro tarefas fundamentais da medicina: a promoção da saúde, a prevenção das doenças, a recuperação e a reabilitação. Posteriormente, em 1965, foram apresentados três níveis de prevenção: primária, secundária e terciária. IMPORTANTE ► Prevenção primária: referente à promoção e educação para a saúde quando não existem problemas de saúde instalados. Exemplo: trabalho com a população em geral na comunidade sobre os riscos do contágio do vírus HIV. TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO 113 ► Prevenção secundária: já existe uma demanda e o profissional atua prevenindo seus possíveis efeitos adversos. Exemplo: trabalho com pessoas que recorrem ao exame do HIV durante o período de espera do resultado. ► Prevenção terciária: diz respeito ao trabalho com pessoas com problemas de saúde instalados, atuando para minimizar seu sofrimento. Exemplo: trabalho com pessoas infectadas pelo vírus HIV (CASTRO; BORNHOLDT, 2004). FIGURA 33– OS PRINCÍPIOS DO SUS FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. Conforme estudado no tópico anterior, os modos de viver foram por muito tempo abordados de uma maneira individualizante, colocando o sujeito e as comunidades como únicos responsáveis pelas mudanças ocorridas no âmbito da saúde e doença. Contudo, na perspectiva ampliada de saúde, dá-se enfoque a demais aspectos determinantes, como violência, desemprego, habitação inadequada ou ausente, dificuldade de acesso à educação, fome. Sendo assim, há a necessidade de uma estratégia mais ampla de intervir em saúde, tomando como objeto os problemas e as necessidades de saúde e seus determinantes e condicionantes (BRASIL, 2010). A promoção de saúde é esta estratégia, um modo de pensar e operar articulado com as demais políticas públicas e tecnologias, que visa construir ações que possibilitem responder às necessidades sociais em saúde. Conforme estabelecido na Carta de Ottawa (1986, s.p.): Promoção da saúde é o nome dado ao processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social 114 UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde deve ser vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de viver. Nesse sentido, a saúde é um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem- estar global. Sendo assim, a promoção de saúde é uma estratégia de articulação transversal, que precisa envolver uma rede de compromissos e corresponsabilidades. Esta articulação e sintonia diz respeito ao princípio de integralidade, a qual também implica na ampliação do acolhimento dos trabalhadores e serviços de saúde na relação com os usuários, no sentido de deslocar a atenção da perspectiva restrita do adoecimento e seus sintomas, para o acolhimento integral do sujeito, suas condições de vida, suas necessidades, respeitando e considerando suas especificidades e potencialidades. (BRASIL, 2010). A política de saúde tem o desafio de construir a intersetorialidade, que é esta articulação dos distintos setores, para pensar a questão complexa que é a saúde, em que todos se responsabilizam pela garantia desta como um direito humano e de cidadania. É necessário o diálogo das diversas áreas tanto do setor de saúde quanto do governo de forma geral, assim como no setor privado, não governamental, na sociedade, para que todos sejam participantes na proteção e no cuidado com a vida. Pinheiro e Mattos (2009) esclarecemda Psicologia é necessário analisar o contexto em que ela se desenvolveu, ou seja, as ideias que predominavam na ciência e na cultura da época. O termo que denomina esse período é o Zeitgeist, ou ambiente cultural do período. Também é preciso considerar a sociedade, economia e política existentes. IMPORTANTE Zeitgeist: o ambiente intelectual e cultural ou espírito da época O Zeitgeist dos séculos XVII ao XIX constituiu a base que nutriu a nova psicologia. O espírito do mecanicismo, que enxerga o universo como uma grande máquina, foi o fundamento filosófico do século XVII, ou seja, a sua força contextual básica. Essa doutrina afirmava serem os processos naturais mecânicos e passíveis de explicação por meio das leis da física e da química (...). Nesse período, os métodos e descobertas da ciência avançavam a passos largos junto com a tecnologia, e a combinação entre eles foi perfeita. A observação e a experimentação tornaram-se os diferenciais da ciência, seguidas de perto pela medição. Os especialistas tentavam medir e descrever os fenômenos, atribuindo- lhes um valor numérico, processo vital para o estudo do funcionamento do universo como uma máquina. Os termômetros, os barômetros, as UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 4 réguas de cálculo, os micrômetros, os relógios de pêndulo e outros dispositivos de medição eram aperfeiçoados e reforçavam a ideia da possibilidade de se medir qualquer aspecto do universo natural. Até mesmo o tempo, considerado impossível de ser reduzido a unidades menores, já podia ser medido com precisão. (SCHULTZ; SCHULTZ, 2006, p. 25). Esses foram os primeiros passos para os experimentos que, mais tarde, tornariam as teorias psicológicas passíveis de verificação, adquirindo o status de ciência. Antes de entendermos como a Psicologia se desenvolveu como ciência e permitiu o desenvolvimento de outros estudos, precisamos conhecer os fundamentos históricos que a elevaram ao status científico. De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), a preocupação com a alma e a razão humanas já existia entre os gregos antes da era cristã. IMPORTANTE O termo Psicologia vem do grego psyché, que significa alma, e de logos, que significa razão, ou seja, “estudo da alma”. Ainda neste tópico apresentaremos uma ordem cronológica com as contribuições de cada filósofo. Outro grande passo para a ciência, de uma maneira geral, veio com a descoberta de Copérnico, mostrando que a Terra não é o centro do universo. Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), o avanço na produção de conhecimento, a partir das descobertas e produções dos pensadores aqui citados, propiciou o início da sistematização do conhecimento científico, ou seja, foi a partir deste momento que começou a se estabelecer métodos e regras básicas para a construção do conhecimento científico, diferenciando-o do senso comum. 2 ASPECTOS HISTÓRICOS E DESCOBERTAS QUE REVOLUCIONARAM A HISTÓRIA DA HUMANIDADE Não podemos falar de ciência sem mencionar também as três feridas narcísicas da historia da humanidade. Por falar nisso, você sabe o que são feridas narcísicas? As feridas narcísicas da história da humanidade referem-se a três grandes descobertas que revolucionaram a forma como o homem se relacionava TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS 5 com o mundo em que vivia, bem como o seu entendimento sobre o funcionamento da mente. O conceito de narcisista diz respeito à apreciação que o homem faz de sua própria imagem, e são chamadas de feridas narcísicas justamente pela ruptura que provocaram no conhecimento que o ser humano tinha acerca de si mesmo e do mundo. A primeira delas ocorreu com Nicolau Copérnico (1473-1543), que, por meio de observações e cálculos matemáticos, comprovou que a Terra não é o centro do universo. Imagine isso acontecendo em uma época em que o cristianismo e a Igreja Católica detinham o poder e tudo oi que era produzido por ela era lei, como a tese de que Deus colocou a Terra no centro do universo. Segundo Copérnico, o Sol passava a ocupar o centro do universo, enquanto a Terra e os demais planetas giravam ao seu redor. Copérnico, no entanto, manteve, ainda sob influência do antigo modelo cosmológico, a ideia de um universo finito, fechado por esferas, onde os planetas descreviam órbitas circulares perfeitas. Sua teoria heliocêntrica ainda estava fundamentada em critérios de valor. Segundo seu ponto de vista, parecia ser irracional mover um corpo tão grande como o Sol, em vez de outro tão pequeno como a Terra. Além disso, Copérnico atribuía ao Sol, fonte de luz e de vida, uma condição superior em nobreza. Portanto, ele seria mais merecedor do estado de repouso, sinônimo de estabilidade, do que a Terra, que assim permaneceria em constante movimento. (PORTO; PORTO, 2008, s. p.). A segunda descoberta, que colocou ainda mais a teoria cristã em xeque, veio em 1859, com a publicação de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin (1809-1882). Nas situações explicativas que ele cita, a luta pela existência tem caráter fortemente causal, seja no plano de cada indivíduo, seja no próprio princípio, segundo o qual novas formas orgânicas originam- se na natureza (idem, ibidem, pp. 138,49): (...). Como cada (animal) existe por uma luta pela vida, é claro que cada um deve estar bem adaptado a seu lugar na natureza. Graças a essa luta, variações, embora leves e procedentes de qualquer causa, em algum grau, úteis aos indivíduos de uma espécie, nas suas infinitamente complexas relações com outros seres orgânicos e com suas condições físicas de vida, tenderão à preservação de tais indivíduos e serão geralmente herdadas pelos descendentes. Os descendentes também terão, assim, uma melhor chance de sobreviver, pois dos muitos indivíduos de qualquer espécie que periodicamente nascem, apenas um pequeno número pode sobreviver. Chamei a esse princípio, pelo qual cada leve variação, quando útil, é preservada, pelo termo seleção natural (REGNER, 2001, s. p.). Darwin apresentou a sua teoria da evolução das espécies afirmando que o ser humano evoluiu a partir dos primatas, contrapondo mais uma vez as ideias defendidas pela Igreja. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 6 A terceira ferida narcísica veio com as descobertas de Sigmund Freud (1856- 1939). Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), Freud formou-se em Medicina na Universidade de Viena, em 1881, e especializou-se em Psiquiatria. Trabalhou algum tempo em um laboratório de Fisiologia e deu aulas de Neuropatologia no instituto onde trabalhava. Além da vida acadêmica, Freud dedicou-se ao atendimento clínico de pessoas acometidas por “problemas nervosos”. Em 1900, no livro A interpretação dos sonhos, Freud apresenta a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento psíquicos. Essa teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas: inconsciente, pré-consciente e consciente. O inconsciente exprime “o conjunto de conteúdos não presentes no campo atual da consciência” (LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B., op. cit.). É constituído por conteúdos reprimidos, que não têm acesso aos sistemas pré-consciente e consciente, pela ação de censuras internas. Esses conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e terem sido reprimidos, isto é, “foram” para o inconsciente, ou podem ser genuinamente inconscientes. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Por exemplo, é atemporal, não existem as noções de passado e presente. O pré-consciente refere-se ao sistema em que permanecem os conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na consciência nesse momento, mas no momento seguinte pode estar. O consciente é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as do mundo interior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção, principalmente a percepção do mundoque a integralidade não é apenas uma diretriz do SUS, é uma “bandeira de luta”, o objetivo que enuncia características do sistema de saúde, práticas que são consideradas desejáveis. Seria um conjunto de valores pelos quais vale a pena lutar, pois se relacionam a um ideal de sociedade mais justa e solidária. Os autores discutem sobre três grandes conjuntos de sentidos no princípio de integralidade. Eles incidem sobre diferentes pontos: o primeiro conjunto se refere a atributos das práticas dos profissionais de saúde, sendo valores ligados ao que se pode considerar uma boa prática, independentemente de ela se dar no âmbito do SUS; o segundo conjunto refere-se a atributos da organização dos serviços; o terceiro, aplica-se às respostas governamentais aos problemas de saúde (PINHEIRO; MATOS, 2009, p. 65). Portanto, podemos tomar a integralidade como princípio orientador das práticas, da organização do trabalho, da organização das políticas e uma afirmação da abertura para o diálogo. TÓPICO 2 | COMPREENDENDO O TERMO SAÚDE NO SEU SENTIDO AMPLO 115 Um paciente não se reduz a uma lesão que no momento lhe causa sofrimento. Não se reduz a um corpo com possíveis lesões ainda silenciosas, escondidas à espera de um olhar astuto que as descubra. Tampouco se reduz a um conjunto de situações de risco. O profissional que busque orientar suas práticas pelo princípio da integralidade busca sistematicamente escapar aos reducionismos (PINHEIRO; MATTOS, 2009, p. 65). Para os autores, quando se busca orientar a organização dos serviços de saúde pelo princípio da integralidade, busca-se ampliar as percepções das necessidades dos grupos, as quais não se reduzem às necessidades de atendimento oportuno de seus sofrimentos, assim como não se reduzem por uma única disciplina, como a epidemiologia ou a clínica. A integralidade é a recusa em aceitar um recorte do problema que o reduza a uma ou algumas de suas dimensões, desconsiderando as demais; as respostas aos problemas de saúde devem abarcar suas mais diversas dimensões. Boing e Crepaldi (2010) explanam em seu artigo que, para se desenvolver a almejada atenção integral à saúde, o trabalho interdisciplinar se torna uma real necessidade. A inter-relação entre as diferentes áreas de conhecimento, entre os profissionais e entre estes com o senso comum requer criatividade e flexibilidade, princípios que exploram as potencialidades de cada ciência e a compreensão de seus limites. Infelizmente, ainda há profissionais que não lidam com os sujeitos, lidam como se eles fossem apenas portadores de doenças, e não como portadores de desejos, de aspirações, de sonhos. Há formuladores de políticas que concebem os sujeitos que sofrerão as consequências das políticas que formulam como objetos, alvos das intervenções. Sendo assim, Pinheiro e Mattos (2009) afiançam que estes são alguns dos sentidos pelos quais vale a pena lutar pelo direito universal ao atendimento das necessidades de saúde. 116 Neste tópico, você aprendeu que: • O conceito de saúde, sendo entendido como um processo que vai além do nosso bem-estar, compreende todas as dimensões do ser humano, sua capacidade de enfrentar as situações, assim como de recuperar-se, por isso, estar doente também é uma condição que faz parte da nossa saúde. Vivemos com saúde, mesmo com as anomalias, as tensões e os desconfortos. • A saúde é tida como direito de todos e dever do Estado, conforme instituído na nossa Constituição Federal. Por isso, abordamos a política pública de saúde, estabelecida pelas Leis Orgânicas de Saúde nº 8.080/90 e 8.142/90, que apresentam o Sistema Único de Saúde (SUS). • A Carta de Alma-Ata estabelece cuidados primários em saúde, trazendo os conceitos de Atenção Básica, Promoção de Saúde e Integralidade. A Atenção Básica é a porta de entrada do SUS e tem a função de desenvolver estratégias para a promoção de saúde. Este é um processo para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, por isso é necessário que seja uma estratégia articulada entre os vários setores e de forma integral. • Faz-se necessário conceber o ser humano como um todo; devemos trabalhar de forma interdisciplinar, explorando as potencialidades de cada ciência. RESUMO DO TÓPICO 2 117 AUTOATIVIDADE 1 Disserte sobre o que significa, para você, ter saúde ou ser saudável. 2 A promoção de saúde apresenta-se como uma estratégia política transversal, integrada e intersetorial. Descreva brevemente o que significam estes princípios fundamentais. 118 119 TÓPICO 3 PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Conforme estudamos, saúde não é apenas a inexistência de uma enfermidade/doença, sendo assim, saúde mental não diz respeito somente à inexistência de transtornos mentais. Compreendemos saúde mental como sendo a capacidade do sujeito de lidar com suas emoções, resolver problemas, ter possibilidades cognitivas e emocionais para uma qualidade de vida. Lidar com saúde mental torna-se importante para você, que será um profissional na área de saúde, conhecer sobre como se dá a política de saúde mental e algumas problemáticas comuns que irá encontrar na sua prática. Estudaremos brevemente sobre a política de saúde mental, enfocando a importância dos cuidados básicos ou primários nesta área. Apresentaremos problemáticas comuns em saúde mental, como o estresse, os transtornos depressivos, de ansiedade e por uso do álcool. Para encerrar nossa unidade, discutiremos acerca do trabalho interdisciplinar imprescindível em saúde mental. 2 A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL De acordo com a Secretaria de Atenção à Saúde (BRASIL, 2013), a atual política de saúde mental brasileira é resultado de uma mobilização que se iniciou na década de 1980, com o objetivo de mudar a realidade dos antigos manicômios, que eram os locais onde viviam mais de 100 mil pessoas diagnosticadas com transtornos mentais. A importância dada aos direitos humanos após a ditadura militar e experiências eficazes de países europeus impulsionaram estas mobilizações na busca de um modelo de saúde mental baseado em serviços comunitários no território, não mais em hospitais. Esse processo deu origem ao Movimento da Luta Antimanicomial e ao projeto coletivo da Reforma Psiquiátrica. Ainda na década de 1980 iniciou-se a desinstitucionalização de moradores de manicômios, criando-se serviços de atenção psicossocial. A atenção a estas pessoas com transtornos mentais passou a ter como objetivo o pleno exercício de sua cidadania, e não somente o controle de seus sintomas, como era UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 120 anteriormente, o que implicou a necessidade de se organizarem serviços abertos, com a participação ativa dos usuários e formando redes com outras políticas públicas, como educação, habitação, trabalho, cultura. Portanto, este desafio da saúde mental vai para além do SUS, pois, para se realizar, é primordial a abertura da sociedade para a sua própria diversidade, afinal estes sujeitos não eram aceitos pela sociedade (BRASIL, 2013). Em 2001, após mais de dez anos de tramitação no Congresso Nacional, é sancionada a Lei nº 10.216 que afirma os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Os princípios do movimento iniciado na década de 1980 tornam-se uma política de estado (BRASIL, 2013, p. 21). Entre os equipamentos substitutivos ao modelo manicomial, podemos citar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência (CECOS), as Enfermarias de Saúde Mental em hospitais gerais, as oficinas de geração de renda e, certamente, as Unidades Básicas de Saúde cumprem também uma importante função na composição dessa rede comunitária de assistência em saúde mental. Nascidas com a redemocratização, a reforma sanitária e a reforma psiquiátrica são parte de um Brasil que escolheu garantir a todos os seus cidadãos o direitoà saúde. Não é por acaso que, tanto no campo da Atenção Básica quanto da Saúde Mental, saúde e cidadania são indissociáveis (BRASIL, 2013, p. 22). Assim, entendemos que as práticas em saúde mental podem e devem ser realizadas por todos os profissionais de saúde; o cuidado em saúde mental deve ocorrer na realidade do dia a dia, com as singularidades dos pacientes e de suas comunidades. Algumas ações de saúde mental são realizadas sem que os profissionais as percebam em sua prática, por isso é necessário refletir sobre o que já se realiza e o que o território tem a oferecer como recurso para contribuir. FIGURA 34– SAÚDE MENTAL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 121 3 A IMPORTÂNCIA DOS CUIDADOS BÁSICOS EM SAÚDE MENTAL Muitas pessoas buscam ajuda profissional por conta de sofrimento mental, comumente com queixas de tristeza e/ou ansiedade, assim como também é frequente os profissionais perceberem tristeza e/ou ansiedade significativas nas pessoas que atendem, ainda que não haja queixa explícita da pessoa neste sentido. Neste âmbito, vemos o quanto é importante tomar como ponto de partida a pessoa, e não a sua doença, permitindo um cuidado que se adapta à diversidade, dando conta da integralidade do sujeito. As pessoas procuram ajuda nas unidades de saúde porque sofrem e muitos destes estão de fato doentes, mas não somente a doença explica todo o seu sofrimento (BRASIL, 2013). Pesquisas realizadas no país e no mundo indicam que cerca de uma em cada quatro pessoas que procuram a Atenção Básica apresentam algum transtorno mental de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (BRASIL, 2013). Além disso, se incluirmos também aqueles que têm um sofrimento mental que não se encaixa nos critérios diagnósticos, a proporção chega a uma pessoa em sofrimento a cada duas pessoas que procuram a atenção básica. Outros dois conjuntos de situações que exigem cuidados de saúde mental merecem destaque, apesar de pouco motivados por uma demanda do usuário em atendimento. A primeira questão são os problemas relacionados ao uso do álcool, que são frequentes na população brasileira, e a segunda são os chamados transtornos mentais graves e persistentes, que incluem a esquizofrenia e transtorno bipolar do humor, os quais são menos frequentes, mas trazem grande impacto na saúde integral das pessoas. Mesmo diante de dados alarmantes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Médicos de Famílias (Wonca) afirmam que a visão de cuidados primários para saúde mental ainda não foi realizada na maioria dos países, sendo que muitos ainda confiam em tratamentos ultrapassados com base em hospitais psiquiátricos. Apesar da evidência sobre a alta prevalência de transtornos mentais e dos custos que estes dispõem aos indivíduos, famílias, comunidades, e sistemas de saúde quando não tratados, a negligência para as questões de saúde mental continua necessitando urgentemente ser integrada nos cuidados primários (OMS, 2009). Nesse âmbito, estas organizações desenvolveram um relatório sobre a integração da saúde mental nos cuidados primários (OMS, 2009), o qual apresenta justificativas e vantagens de se prestar serviços de saúde mental no âmbito dos cuidados primários. Apresentamos a seguir as sete razões que o relatório apresenta como válidas para integrar a saúde mental nos cuidados primários. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 122 QUADRO 15 – RAZÕES PARA INTEGRAR A SAÚDE MENTAL NOS CUIDADOS PRIMÁRIOS RAZÃO DESCRIÇÃO DA JUSTIFICATIVA 1 A carga de perturbações mentais é grande. As perturbações mentais ocorrem em todas as sociedades. Elas criam uma carga pessoal substancial para os indivíduos comprometidos e as suas famílias, e levam a dificuldades econômicas e sociais significativas que afetam a sociedade no seu todo. 2 Os problemas de saúde mentais e físicos estão interligados. Muitas pessoas sofrem tanto de problemas de saúde físicos quanto mentais. Serviços de cuidados primários integrados ajudam a assegurar que as pessoas são tratadas de uma maneira integral. 3 O déficit de tratamento em relação às perturbações mentais é enorme. Em todos os países há uma diferença significativa entre a prevalência de transtornos mentais, de um lado, e o número de pessoas que recebem tratamento e cuidados, do outro lado. Cuidados primários para a saúde mental ajudam a diminuir esta diferença. 4 Cuidados primários para saúde mental aperfeiçoam o acesso. Quando a saúde mental é integrada nos cuidados primários, as pessoas podem ter acesso a serviços de saúde mental mais perto de suas casas, mantendo assim as suas famílias juntas e possibilitando a manutenção das suas atividades cotidianas. Cuidados primários para saúde mental também facilitam iniciativas realizadas com a população e a promoção de saúde mental, assim como o monitoramento a longo prazo de indivíduos comprometidos. 5 Cuidados primários para saúde mental promovem o respeito pelos direitos humanos. Serviços de saúde mental prestados em cuidados primários minimizam o estigma e a discriminação. Também eliminam o risco de violações de direitos humanos que podem ocorrer em hospitais psiquiátricos. 6 Cuidados pr imários para saúde mental são acessíveis em termos de custo e apresentam uma boa relação custo- benefício. Serviços de cuidados primários para a saúde mental são menos caros que hospitais psiquiátricos para os pacientes, comunidades, assim como para os governos. Além disso, pacientes e famílias evitam custos indiretos associados com a procura de cuidados especializados em locais distantes. 7 Cuidados primários para saúde mental geram bons resultados em termos de saúde. A maioria das pessoas com perturbações mentais que são tratadas em cuidados primários apresenta bons resultados, particularmente quando ligados a uma rede de serviços ao nível secundário e na comunidade. FONTE: Adaptado de: OMS (2009) TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 123 4 PROBLEMÁTICAS COMUNS EM SAÚDE MENTAL Tratamos até então de sofrimento e transtornos mentais de forma geral, todavia, é importante que você compreenda melhor algumas problemáticas mais comuns, por isso elencamos algumas delas. Na primeira unidade deste caderno de estudos mencionamos o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM, está lembrado? Para abordar os transtornos mentais, nos fundamentaremos neste manual, o DSM-5, que é sua última versão. Antes de apresentarmos alguns transtornos, vamos especificar o que é um transtorno mental, a partir do conceito do DMS-5: Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios de comportamento (por exemplo, de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção do indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 20). Existem vários tipos de transtornos mentais, porém o DSM-5 divide-os em grandes categorias, as quais estão elencadas a seguir: • Transtornos do Neurodesenvolvimento. • Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos. • Transtorno Bipolar eTranstornos Relacionados. • Transtornos Depressivos. • Transtornos de Ansiedade. • Transtorno Obsessivo-compulsivo e Transtornos Relacionados. • Transtornos Relacionados a Trauma e a Estressores. • Transtornos Dissociativos. • Transtornos de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados. • Transtornos Alimentares. • Transtornos da Eliminação. • Transtornos do Sono-Vigília. • Disfunções Sexuais. • Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta. • Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos. • Transtornos Neurocognitivos. • Transtornos Parafílicos. • Transtornos do Movimento Induzidos por Medicamentos e Outros Efeitos Adversos de Medicamentos. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 124 Cada uma dessas categorias apresenta transtornos particulares descritos de acordo com critérios diagnósticos específicos. Seria inviável abordarmos todas ou várias delas neste estudo, até mesmo porque não há necessidade. No entanto, é de suma importância que um futuro profissional de saúde conheça algumas problemáticas que são muito comuns em saúde mental, acometendo grande parcela de pessoas. Neste sentido, escolhemos falar primeiramente a respeito do estresse, o qual não é um transtorno mental, mas uma condição que ocorre com todo ser humano e que pode acarretar sofrimento. Segundo a OMS (2009), as principais problemáticas mentais presentes na atenção básica em saúde a nível mundial são a depressão (variando entre 5% e 20%), a ansiedade generalizada (4% a 15%) e o abuso e dependência do álcool (5% a 15%). A partir de tais dados, optamos por abordar tais problemáticas neste estudo. 4.1 ESTRESSE Cotidianamente, ouvimos pessoas dizendo que estão estressadas, sendo que até mesmo crianças já utilizam este termo. Frases como “estou estressado!”, “que estresse é esse?” são comuns. Mas será que nós sabemos realmente o que é estresse? ATENCAO O termo original ainda utilizado pelos especialistas é stress, porém, em nossa língua, o termo foi modificado para estresse, portanto, optamos por utilizar neste material o termo em português. De acordo com Lipp (2013) – uma das principais pesquisadoras em estresse no Brasil –, a representação social do estresse nem sempre corresponde à realidade. Muitos profissionais da área da saúde utilizam o termo de modo vago para explicar os sintomas do paciente quando desconhecem o que realmente ocorre e, muitas vezes, recomendam atestados, férias, calmantes ou vitaminas, sem investigar mais a fundo o que ocorre, quais as causas e encaminhar para um tratamento com psicólogo, por exemplo. A medicação pode auxiliar, mas é necessário desenvolver estratégias de enfrentamento para lidar com o episódio e com ameaças futuras, afinal, quem já teve forte crise de estresse apresenta grande probabilidade de ter novamente. Por isso é necessário entender o que o estressou, reconhecer os sintomas e identificar limites e alternativas. TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 125 FIGURA 35– ESTRESSADO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. Conforme Lipp (2013), é denominado de estresse um estado de tensão que causa uma ruptura no equilíbrio interno do organismo, pois, em geral, nosso corpo funciona como uma grande orquestra. Em momentos de estresse, este equilíbrio é quebrado, dificultando o entrosamento dos órgãos do corpo. Quando surge um desafio, nosso coração acelera, o estômago não consegue digerir bem a comida e a insônia acontece, ritmos estes diferentes do habitual. Como resposta adaptativa do organismo, automaticamente ele busca uma forma de voltar ao seu estado anterior, porém, isso pode exigir desgaste, utilização de reservas de energia. É importante frisar que existem diferentes fontes estressoras e o que estressa uma pessoa pode não estressar outra, pois cada ser humano tem suas características singulares, um repertório comportamental de vida diferente. Portanto, podemos dizer que tudo aquilo que exija do organismo uma maior adaptação gera estresse, sendo assim, não somente os acontecimentos negativos são estressantes; eventos importantes que ocasionam felicidade, realização, também são fontes de estresse (LIPP, 2013). A autora aponta que o tempo necessário para conseguir retornar ao equilíbrio varia de pessoa para pessoa, dependendo da forma como lida com os problemas em sua vida; quanto mais resistente, mais estratégias utilizar, mais tempo conseguirá resistir aos estressores muito intensos. Entretanto, quando a pessoa se encontra com fontes estressoras permanentes, como no caso de uma relação conflituosa, por exemplo, a pessoa entra em ciclos de estresse que, por se prolongarem, exigem muita energia, a qual se esgota, levando a pessoa a adoecer, afinal o corpo e a mente dão sinais de alerta, avisando que não conseguem mais lidar com a tensão emocional. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 126 A memória começa a falhar, coisas pequenas e corriqueiras são esquecidas como se nunca tivessem acontecido. Não se consegue lembrar fatos, nomes ou tarefas, mesmo as mais simples. O outro sinal do corpo é acordar de manhã, após uma boa noite de sono, muito cansado. A sensação de desgaste físico e mental, acompanhada de falhas de memória, questionamentos sobre a nossa própria competência (autodúvidas), apatia e desinteresse pelas coisas que antes davam prazer se constituem em sinais de que a tensão está excessiva (LIPP, 2013, p. 13). Para a autora, esse seria o quadro do estresse excessivo, quando chega ao limite da resistência antes mencionada. Uma série de problemáticas podem se desencadear a partir de então, pois o estresse diminui a defesa imunológica, abrindo espaço para que doenças oportunistas se manifestem, como gripe, gastrite, retração da gengiva, problemas na pele, úlcera, herpes, hipertensão, psoríase, podendo chegar até mesmo a derrames, infarto. Além destas, se o estresse não é cessado, o desânimo toma conta e aí ocorrem crises de ansiedade, depressão. Pesadelos são muito comuns e a dificuldade para trabalhar acaba sendo consequência. Certamente, não será somente o psicólogo que irá tratar desse assunto, pois o estresse atinge a pessoa como um todo. Especialmente quando acarretar o aparecimento de doenças, é necessário o tratamento interdisciplinar. Lipp (2013) designa quatro pilares importantes para o controle de estresse: 1. Alimentação: perdem-se muitos nutrientes nos períodos de estresse. 2. Relaxamento: é preciso reduzir a tensão que sempre acompanha o estressado. 3. Exercícios físicos: ajudam a diminuir a prontidão que o estresse gera no corpo quando em estresse. 4. Reestruturação de aspectos emocionais: é importante conhecer a si mesmo para tentar mudar o modo estressante de pensar, agir e sentir. Para testar o seu nível de estresse, você pode acessar testes on-line muito interessantes! Um deles é da ISMA-BR - uma associação integrante de uma associação mundial voltada para a prevenção e tratamento do estresse –, o qual está disponível no endereço eletrônico: . DICAS 4.2 TRANSTORNOS DEPRESSIVOS De acordo com a OMS (2009), 154 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo e a cada ano cerca de 877 mil pessoas morrem devido a suicídio. A previsão é de que no ano de 2030 a depressão seja a segunda maior causa de carga global de doença, menor apenas que a HIV/AIDS. TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 127 A depressão, cujo termo costumamos utilizar no cotidiano, não é citada neste formato no DSM-V (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). Há diferentes tipos de transtornos depressivos e o mais comum, a condição clássica, é o Transtorno Depressivo Maior. A principal característica de um episódio depressivo maior é um humor depressivo ou a perda de interesse ou prazer em quase todas as atividades num período de no mínimo duas semanas.Além disso, como critérios para diagnóstico, a pessoa deve apresentar também pelo menos quatro dos seguintes sintomas adicionais: mudanças no apetite ou peso, no sono e na atividade psicomotora; diminuição de energia; sentimento de culpa; dificuldade para pensar, concentrar- se ou tomar decisões; pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida, planos ou tentativas de suicídio (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). O humor é descrito pela pessoa como deprimido, triste, desesperançoso; outros se queixam de um vazio, com sentimentos ansiosos ou irritabilidade aumentada. Há relatos de perda de interesse por passatempos ou qualquer atividade que antes era considerada prazerosa pela pessoa. As alterações de apetite podem envolver aumento ou redução. Perturbações no sono, dificuldades para dormir ou dormir em excesso são sintomas que ocorrem, o que ocasionalmente acaba sendo a razão pela qual muitos buscam tratamento. As alterações psicomotoras incluem agitação, por exemplo, de pernas, mãos, esfregar a pele, incapacidade de ficar parado/sentado, assim como podem ser o contrário, retardo psicomotor, com discurso, pensamentos ou movimentos mais lentos, mas certamente estas características devem ser graves ao ponto de serem observáveis por outros. Diminuição da energia, cansaço e fadiga são persistentes mesmo sem esforço físico. Muitos se apresentam distraídos, queixam- se de dificuldades de memória. Quando há pensamentos de morte, estes variam desde um desejo passivo de não acordar pela manhã, ou uma crença de que os outros estariam melhores se ele estivesse morto, até pensamentos transitórios, mas recorrentes sobre cometer suicídio ou planos específicos para se matar. Esta condição faz com que haja uma considerável taxa de mortalidade de pessoas que apresentam transtorno depressivo maior; o índice de suicídio no nosso país é elevado, sendo imprescindível atentarmos para estas condições. Neste transtorno, os sintomas citados são recentes ou foram piorando ao longo dos últimos tempos, acompanham a maior parte do dia da pessoa por quase todos os dias e causam prejuízo significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida. Para alguns, podem ocorrer episódios mais leves, porém o funcionamento da pessoa exige um esforço acentuadamente aumentado. É importante considerarmos estas particularidades em momentos de atendimento e definição de tratamento, pois muitas pessoas dizem que têm depressão, mas não apresentam tais características. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 128 O uso de medicamentos psicotrópicos (antidepressivos, ansiolíticos) no nosso país é elevado, o que nos sugere que precisamos pensar em ações coletivas urgentes em termos de saúde. Muitas pessoas que apresentam depressão maior não fazem o devido tratamento, com acompanhamento psiquiátrico, psicológico, fazendo uso de medicações corretamente, seguindo instruções alimentares, exercícios físicos, por isso a importância de avaliarmos e sabermos conduzir tal condição, para que assim consigamos melhorar a qualidade de vida das pessoas. FIGURA 36– AJUDA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. 4.3 TRANSTORNOS DE ANSIEDADE Os transtornos de ansiedade dizem respeito a perturbações comportamentais relacionadas a características de medo e ansiedade excessivos e persistentes. “Medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de ameaça futura” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 189). Esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, pois o medo é mais associado a pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga, enquanto a ansiedade é associada a comportamentos de cautela ou esquiva. Os tipos de transtorno diferem de acordo com os objetos ou situações que induzem o medo ou ansiedade e pelo conteúdo dos pensamentos ou crenças associadas. Em geral, as pessoas com transtornos de ansiedade superestimam o perigo nas situações que temem ou evitam. Para ser assim diagnosticados, tais sintomas não podem ser consequências de efeitos fisiológicos do uso de alguma substância ou medicamento. Os indivíduos com fobia são apreensivos e se esquivam de objetos ou situações específicas. O medo, ansiedade ou esquiva costuma ser imediatamente TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 129 induzido pela situação fóbica, sendo persistente e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Há tipos de fobias específicas relacionadas a animais, ambientes, sangue/injeção/ferimentos, dentre outras. Indivíduos com transtorno de ansiedade social (fobia social) apresentam ansiedade, temor ou se esquivam de interações e situações sociais, nas quais haja possibilidade de ser avaliado, como encontro com pessoas que não são conhecidas, situações em que pode ser observado comendo e situações de desempenho diante de outras pessoas. “A ideação cognitiva associada é a de ser avaliado negativamente pelos demais, ficar embaraçado, ser humilhado ou rejeitado ou ofender os outros” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 190). No transtorno de pânico, a pessoa experimenta ataques de pânico inesperados recorrentes, ficando persistentemente apreensiva ou preocupada com a possibilidade de sofrer outros ataques, assim como altera seus comportamentos, geralmente se esquivando de locais que não lhe são familiares. Um ataque de pânico é um surto abrupto de medo ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos, ocorrendo quatro ou mais sintomas de uma lista de 13 sintomas físicos e cognitivos. Segue a lista dos sintomas: 1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia. 2. Sudorese. 3. Tremores ou abalos. 4. Sensações de falta de ar ou sufocamento. 5. Sensações de asfixia. 6. Dor ou desconforto torácico. 7. Náusea ou desconforto abdominal. 8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio. 9. Calafrios ou ondas de calor. 10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento). 11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo). 12. Medo de perder o controle ou enlouquecer. 13. Medo de morrer. A frequência e a gravidade dos ataques de pânico variam, podendo ocorrer um intenso por semana, outros pequenos em quase todos os dias, separados por semanas ou meses. As preocupações geralmente relacionam-se com questões físicas, com a presença de doenças ameaçadoras à vida e preocupações pessoais. Existe também o transtorno de ansiedade generalizada, que se caracteriza por ansiedade e preocupação persistentes e excessivas acerca de vários domínios, incluindo desempenho no trabalho e escolar, em que são experimentados sintomas físicos, como inquietação, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbação no sono. UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 130 FIGURA 37– ANSIEDADE FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. 4.4 TRANSTORNO POR USO DE ÁLCOOL O álcool é a substância química mais utilizada no mundo, sendo lícita, por isso encontrada em uma variedade incontável de bebidas pelo mundo. Nas últimas décadas, o uso e abuso de álcool tem se constituído um dos maiores problemas de saúde pública, estando altamente relacionado a dezenas de doenças e sendo responsável por milhões de mortes. No Brasil, os dados do último levantamento nacional indicam que aproximadamente 12,3% da população preenche os critérios para dependência do álcool, estando muito à frente de todas as demais drogas psicotrópicas indutoras de dependência, mesmo quando somadas (BRASIL, 2009b). Segundo Duailibi (2013), o álcool é um depressor cerebral que age em diversos órgãos, como fígado, coração e estômago. Na intoxicação, que se caracteriza pelo uso nocivo de quantidades maiores que a tolerávelpara o organismo, ocorrem sintomas de euforia leve, seguidos de tonturas, falta de coordenação motora, confusão e desorientação, chegando a graus variáveis de anestesia, entre eles, o estupor e o coma. Quando utilizado em doses elevadas e por período de tempo prolongado, pode ocasionar complicações clínicas, como gastrite, úlcera, hepatites tóxicas, cirrose hepática, lesões cerebrais, demência, diminuição da força muscular, hipertensão, dentre outros. De acordo com as características diagnósticas descritas no DSM-V (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), o transtorno por uso de álcool é um padrão problemático de uso desta substância, levando a comprometimento ou sofrimento clinicamente significativos, definido por um agrupamento de sintomas comportamentais e físicos, os quais podem incluir abstinência, tolerância e fissura, ocorrendo durante um período de um ano. A abstinência caracteriza-se por sintomas (como sudorese ou frequência cardíaca aumentada, tremor nas mãos, insônia, náuseas ou vômitos, alucinações ou ilusões, agitação psicomotora, ansiedade e convulsões) que se desenvolvem TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 131 aproximadamente de quatro a 12 horas após a redução do consumo. A fissura por álcool é indicada por um desejo intenso de beber, dificultando o desempenho de afazeres, sejam estes domésticos, de trabalho ou escolares. Esta abstinência de álcool pode ser desagradável e intensa, os indivíduos podem continuar o consumo apesar de consequências adversas, comumente para evitar ou aliviar os sintomas. Problemas com o sono, por exemplo, podem persistir por meses, o que contribui para que ocorra a recaída e, assim que um padrão de uso repetitivo se desenvolve, sujeitos com transtorno por uso de álcool podem dedicar grandes períodos de tempo para obter e consumir bebidas alcoólicas. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). Conforme assinala Alves (2009), o necessário processo de Reforma Psiquiátrica (já mencionado anteriormente nesta unidade) focalizou os portadores de transtornos mentais graves, negligenciando as demandas relativas ao sofrimento mental derivado do uso abusivo de substâncias psicoativas. Produziu-se então uma lacuna importante na política pública, um atraso histórico em saúde pública no que tange ao uso prejudicial e/ou dependência do álcool e outras drogas, sendo formulada somente em 2003 sua política específica, sendo que esta ainda se apresenta como um desafio. Apesar da política formulada, Soares, Vargas e Oliveira (2011) assinalam em sua pesquisa que, apesar do aumento nos últimos anos da demanda nos serviços de atenção à saúde de pessoas com problemas relacionados ao álcool, existem diversos impedimentos para o adequado diagnóstico, tratamento e encaminhamento para estas pessoas. Segundo os autores, os profissionais de saúde apresentam falta de conhecimento sobre a variedade de sintomas gerados pelo uso abusivo e pela dependência do álcool, além de apresentarem visão negativa com relação ao paciente e suas perspectivas evolutivas diante do problema, o que prejudica a atitude do profissional. Conforme o Ministério da Saúde (BRASIL, 2013), o abuso de álcool é a situação mais comum que encontramos na atenção básica, por isso é importante que os profissionais atentem para a detecção precoce de problemas relacionados, além da integração do tratamento de outras patologias agravadas pelo álcool, como a hipertensão, que é bastante comum, por exemplo. Recomenda-se que o profissional de saúde avalie o consumo de álcool desde a adolescência, afinal a pessoa dependente de hoje já percorreu uma trajetória de uso crescente da substância. É necessário reconhecer sinais e sintomas de abuso de álcool, discutir o risco envolvido, fazer orientações e encaminhar os usuários para serviços especializados quando for o caso. Para detectar o uso abusivo de álcool, há alguns questionários de fácil utilização. Um deles é conhecido como Audit, o qual é composto por dez perguntas que investigam o padrão de uso de álcool da pessoa nos últimos 12 meses. Cada resposta dada gera uma pontuação, e o valor da soma das pontuações indica a presença e a intensidade dos problemas relacionados ao álcool. Este questionário pode auxiliar na identificação rápida, confiável e importante para pensar em alternativas de tratamentos (BRASIL, 2013). UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 132 FIGURA 38– O USO DO ÁLCOOL FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. 5 O TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MENTAL A saúde mental não está dissociada da saúde geral e, por isso, é necessário reconhecer que as demandas de saúde mental estão presentes em diversas queixas relatadas pelas pessoas que chegam aos serviços de saúde, em especial da atenção básica. Por isso, cabe aos profissionais o desafio de perceber e intervir sobre estas questões (BRASIL, 2013). Ao atentar para ações de saúde mental que possam ser realizadas no próprio contexto do território das equipes, pretendemos chamar a atenção para o fato de que a saúde mental não exige necessariamente um trabalho para além daquele já demandado aos profissionais de saúde. Trata-se, sobretudo, de que estes profissionais incorporem ou aprimorem competências de cuidado em saúde mental na sua prática diária, de tal modo que suas intervenções sejam capazes de considerar a subjetividade, a singularidade e a visão de mundo do usuário no processo de cuidado integral à saúde (BRASIL, 2013, p. 11). Há um choque existente entre a realidade profissional e a formação acadêmica, ainda calcada em uma forte visão biomédica. Ainda que desde o início dos cursos de graduação fale-se de aspectos da saúde para além do que é TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 133 biológico, é inegável que há predominância de conteúdos das ciências naturais. Também é verdade que, antes de sermos profissionais de saúde, somos pessoas inteiras, somos nossos próprios corpos, temos nossas memórias, desejos, planos, medos, segredos, valores e, quando estamos no papel de cuidar de outra pessoa que sofre, tudo isso entra em jogo (BRASIL, 2013). “‘Corpos não sofrem, pessoas sofrem’, diz Cassell. Muito do alívio de sofrimento que produzimos em nosso trabalho diário advém de nossas múltiplas facetas enquanto pessoas, que são tocadas na interação com o outro” (BRASIL, 2013, p. 14). Por isso, muitas vezes, os profissionais produzem saúde apesar do seu conhecimento técnico. Saúde mental, portanto, não deve ser abordada em contraposição à saúde física ou biológica – conforme o velho e equivocado dualismo corpo/mente –, mas como sofrimento de pessoas. Este sofrimento psíquico não é reservado apenas aos que receberam algum diagnóstico específico, mas é algo presente na vida de todos e nenhum cuidado ocorrerá efetivamente se não buscarmos compreender as motivações de tais sofrimentos singulares. No que tange aos transtornos mentais, aqueles que recebem diagnóstico, muitas vezes, sofrem de doenças crônicas, ou seja, algo com que o sujeito precisará conviver ao longo da vida, como é o caso de diabetes, por exemplo. “O maior desafio dos serviços de saúde, no entanto, é cuidar daqueles que estão doentes sem sofrer e dos que sofrem sem estar doentes” (BRASIL, 2013, p. 89). Exemplos de doentes sem sofrimento são os que apresentam problemáticas como diabetes mellitus, hipertensão e obesidade, sendo os fatores de risco mais comuns para as doenças cardio e cerebrovasculares, atualmente. Os que sofrem sem estar doentes são aqueles que lotam as agendas das unidades básicas de saúde e aumentam cada vez mais as estatísticas de prevalência de depressão e de ansiedade. Sendo assim, não devemos dizer que a pessoa que está doente procura pelos profissionais e necessita de cuidado, mas toda pessoa que sofre. O referencial médico que utilizamos anteriormente, o DSM,ou o CID (Classificação Internacional de Doenças), utiliza o conceito de síndrome clínica, um agrupamento de sinais e sintomas para conversar com a comunidade. Contudo, a partir da complexidade do ser humano, não há definição clara do que é patológico ou não, por isso estas categorias diagnósticas não dão conta de especificar o sofrimento mental. Ao investigarmos as causas, não há um único determinante, há um grande número de fatores, tanto biológicos, quanto psicológicos e sociais que interagem de forma dinâmica ao longo da história de vida de cada um (BRASIL, 2013). Ainda que entre profissionais de saúde seja útil o uso do termo doença ou transtorno mental no cotidiano, por condensar informações, precisamos nos interrogar sobre o sentido que essas expressões carregam na comunidade. A expressão doença mental e seus eufemismos pode induzir a pessoa, seus familiares e sua comunidade a, pelo menos, dois erros comuns: atribuir ao transtorno mental causa genética, hereditária, que determina e limita as possibilidades da vida para a pessoa; e associar a ideia de doença a um julgamento moral sobre a pessoa, rotulando-a, vendo-a como fraca, ou chamar algum violento de doente mental, o que afasta a pessoa de seu lugar na família, no trabalho (BRASIL, 2013). UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 134 Quem trabalha ou estuda o sofrimento mental na atenção básica sabe que tristeza, desânimo, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade e medo (às vezes na forma de crises) são queixas comuns dos usuários e, com frequência, as queixas costumam estar associadas. Muitos desses mesmos usuários também apresentam queixas como mudança no sono e apetite, dores, cansaço, palpitações, tontura ou mesmo alterações gástricas e intestinais (BRASIL, 2013). Na maioria dos casos, apresentam quadros mistos, muitas pessoas têm episódios intermitentes de intensificação dessas síndromes, alternando períodos com pouca ou nenhuma sintomatologia, com períodos de maior e menor intensidade. Devido a esta flutuação de intensidades, podemos pensar nelas como dimensões diferentes do sofrimento mental comum. Portanto, há razões suficientes para defender que as manifestações mais comuns do sofrimento mental fazem parte de uma única síndrome clínica com três grupos ou dimensões de sintomas que se combinam: tristeza/desânimo, ansiedade e sintomas físicos, conhecido como somatização (BRASIL, 2013). Epidemiologistas e clínicos procuram compreender em que contexto se produz o sofrimento mental comum (BRASIL, 2013). Estudos no Brasil e no mundo identificaram uma série de características individuais que estão mais associadas a essa forma de sofrimento, para determinar o grau de vulnerabilidade de cada pessoa a essa forma de manifestação. Os principais aspectos de vulnerabilidade são: gênero, pobreza, cor da pele e desigualdade. Mulheres têm cerca de duas vezes mais chances de apresentar essa forma de sofrimento mental comum do que os homens. As diferenças de gênero influenciam não apenas a vulnerabilidade ao sofrimento, como também suas formas de expressão, pois podem existir formas socialmente melhores aceitas de sofrimento para cada gênero. A pobreza também está relacionada a um risco mais elevado de sofrimento mental comum; no Brasil, baixa escolaridade e menor renda são fatores importantes. O desemprego também aumenta a vulnerabilidade ao sofrimento mental (BRASIL, 2013). Também é muito frequente as pessoas relatarem algum acontecimento marcante em suas vidas que possa ter desencadeado o sofrimento, sendo os mais comuns sentimentos de humilhação ou de sentir-se sem saída. Situações como a perda de um vínculo importante, um ato de delito vindo de alguém próximo, situações de violência doméstica, tentar sair de uma relação abusiva, receber o diagnóstico de uma doença grave, a perda de uma relação significativa e a morte de um parente próximo são comumente relacionadas (BRASIL, 2013). Por fim, o que emerge como um importante fator protetor para o sofrimento mental é a presença e a qualidade das relações que possuímos com pessoas próximas. São pessoas que podem nos oferecer, nos momentos de crise, apoio emocional (escuta, validação dos sentimentos), apoio material (ajuda para cuidar da casa quando estou doente, emprestar dinheiro) ou apoio para buscar recursos que ajudem a resolver meus problemas (desde a indicação de onde posso TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 135 buscar tratamento até uma oportunidade de emprego, informação). É a percepção de que se pode contar com esse apoio social que exerce um fator protetor, principalmente contra a persistência do sofrimento mental mais intenso (BRUGHA, 1995 apud BRASIL, 2013, p. 93). Como vimos, o sofrimento mental comum é decorrente do impacto emocional na vida da pessoa diante de sua condição social, de sua personalidade, sua história de vida e da sua rede social de apoio. Neste âmbito, o profissional de saúde precisa compreender a complexidade de tal contexto para cada uma das pessoas que este atende; sem que isto ocorra, não será possível produzir saúde. FIGURA 39– REDES DE ATENÇÃO FONTE: Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. UNI O texto que se segue foi escolhido pela sua beleza e forma poética de descrever o que é uma pessoa, ou pelo menos uma tentativa de descrição, afinal, somos seres tão complexos que dificilmente conseguiremos descrever tal complexidade. Este texto nos traz uma reflexão importante que perpassa todo o nosso estudo neste caderno, que é o SER HUMANO, a pessoa de forma integral, com suas especificidades, sofrimentos, enfim, tal texto não poderia ser resumido, sendo então apresentado aqui por inteiro. Desejamos a você boa leitura e reflexão! UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 136 LEITURA COMPLEMENTAR O QUE É UMA PESSOA? Toda pessoa tem uma vida passada, e as memórias de uma pessoa com tudo o que ela viveu, aprendeu e experimentou fazem parte da sua vida presente e de como ela enxerga o mundo. “Roubar das pessoas seu passado, negar a verdade de suas memórias, ou zombar de seus medos e preocupações fere as pessoas. Uma pessoa sem passado é incompleta”, diz Cassell. Toda pessoa tem uma “vida futura” em que deposita seus sonhos, expectativas e crenças quanto ao futuro e que influencia muito a vida presente. Muitas vezes, um grande sofrimento pode causar temor em perder essa sua vida futura em virtude de algum problema de saúde. Toda pessoa tem uma vida familiar repleta de papéis, identidades constituídas a partir da história familiar, propiciando sentimento de pertencimento. As experiências e histórias familiares também constituem a pessoa. Toda pessoa tem um mundo cultural. Esse mundo influencia a saúde, a produção de doenças, define valores, relações de hierarquia, noções de normal e patológico, atitudes consideradas adequadas frente aos problemas da vida e propicia isolamento ou conexão com o mundo. Toda pessoa é um ser político com direitos, obrigações e possibilidades de agir no mundo e na relação com as pessoas. Problemas de saúde podem contribuir para que a pessoa se sinta impotente nesta esfera, ou que se considere incapaz de ser tratada como seus pares em suas reivindicações e possibilidades de ação. Toda pessoa tem diversos papéis: pai, mãe, filho, profissional, namorado, amante, amigo, irmã, tio etc. A vivência de cada um deles envolve diferentes relações de poder, de afeto, de sexualidade etc. As pessoas também são cada um desses papéis, que podem ser prejudicados em situações de agravo à saúde, além de serem mutáveis. Toda pessoa tem uma vida de trabalho, que está relacionada a seu sustento e, possivelmente, de sua família. Muitas pessoas consideram-se úteis por meio do trabalho, e muitos quase definem a própria identidade por aquilo que fazem. Toda pessoa tem uma vida secreta, na qual deposita amores,amizades, prazeres e interesses que não são compartilhados com outras pessoas importantes de sua vida. Todos nós possuímos necessidade de exercer atividades de automanutenção, de autocuidado e de lazer. Um sofrimento considerável pode surgir se uma pessoa é privada de qualquer uma ou várias dessas esferas e, ao ignorar isso, o profissional de saúde deixa de abordar uma importante causa de sofrimento. TÓPICO 3 | PROBLEMÁTICAS DE SAÚDE MENTAL: TEMAS INTERDISCIPLINARES 137 Toda pessoa tem um corpo com uma organicidade e anatomia singular composto por processos físicos, fisiológicos, bioquímicos e genéticos que o caracterizam. No entanto, além disso, toda pessoa tem um corpo vivido, que é muito diferente do corpo estudado na Anatomia, na Biologia e na Bioquímica. Cada um tem uma relação com o próprio corpo que envolve história pessoal, pontos de exteriorização de emoções, formas de ocupar o espaço e de se relacionar com o mundo. O corpo é, ao mesmo tempo, dentro e fora de mim, podendo ser fonte de segurança e orgulho, ou de ameaça e medo. Toda pessoa tem uma autoimagem, ou seja, como ela atualmente se vê em relação a seus valores, a seu mundo, a seu corpo, e àqueles com quem ela se relaciona. Toda pessoa faz coisas, e sua obra no mundo também faz parte dela. Toda pessoa tem hábitos, comportamentos regulares dos quais pouco se dá conta, que afetam a própria vida e a dos outros e que podem ser afetados por problemas de saúde. Toda pessoa tem um mundo inconsciente, de modo que faz e vive um grande número de experiências que não sabe explicar como e por quê. Toda pessoa tem uma narrativa de si e uma do mundo, algo que junte todas as experiências de vidas passadas, presentes e o que se imagina do futuro, em um todo, que faça sentido para aquela pessoa. Quase toda pessoa tem uma dimensão transcendente, que se manifesta na vida diária com valores que podem ou não ter a ver com religião. É a dimensão que faz com que a pessoa se sinta como parte de algo atemporal e ilimitado, maior que sua vida comum – seja Deus, a história, a pátria ou qualquer coisa que ocupe esse lugar na vida de um indivíduo. E assim por diante, em uma lista tão grande quanto a complexidade e a criatividade de cada vida. À medida que as pessoas interagem com os ambientes em que vivem, essas esferas, que compõem as pessoas, vão se constituindo e formando sua própria história, cada uma seguindo uma dinâmica própria com regras e parâmetros para um modo de viver específico. Paralelamente, as esferas influenciam umas às outras, e cada uma ao conjunto que é a pessoa, ou seja, embora autônomas, são interdependentes. Podemos visualizá-las como um grupo de bolas magnéticas de diferentes tamanhos, as quais se mantêm acopladas, unidas, porém sem perder suas existências individuais, formando algo como um grande cacho de uvas. Em suas dinâmicas particulares, estabelecem relações de complementariedade, de concorrência, de antagonismos, de sinergias, de sincronias e dissincronias, de UNIDADE 3 | PSICOLOGIA SOCIAL E DA SAÚDE 138 mútua alimentação, de saprofitismos, parasitismos etc. O todo dessas esferas e todas as suas relações compõem o que chamamos de uma pessoa, que pode se apresentar dos modos os mais distintos e aparentemente incongruentes ou incoerentes, mas a estabilidade fluida dessas esferas que giram e rodam umas sobre as outras, constituindo um sistema aberto, nos dá a sensação de identidade. A identidade é vivida e percebida pela preservação de um conjunto de correlações entre tais esferas, que embora estejam em constante movimento, tendem a manter um conjunto mais ou menos regular de correlações entre si, o que nos explica porque sentimos que somos os mesmos embora saibamos que nos transformamos a cada dia. FONTE: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Saúde mental: Cadernos de Atenção Básica, n. 34. Brasília: Ministério da Saúde, 2013, p. 29-31. 139 Neste tópico, você aprendeu que: • As pessoas que sofrem de transtornos mentais historicamente foram alvo de discriminações e isolamento, porém, felizmente, com a Luta Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica, houve a implantação de uma política de saúde mental que prevê um tratamento mais humanizado. • O índice de transtornos mentais como depressão, ansiedade e uso abusivo de álcool é alarmante em nível mundial, por isso, o apelo para que se dê a devida atenção para estas problemáticas é grande. Nesta unidade você estudou sobre cada uma destas e pôde perceber o quanto são necessários esforços de forma interdisciplinar para que ocorram melhorias em nossa população em termos de saúde mental. • Não podemos ver o trabalho com o sofrimento mental dissociado do trabalho em saúde geral, pois, conforme assinala a Organização Mundial de Saúde, os cuidados de saúde mental precisam ocorrer nos cuidados primários, afinal estão interligados com os demais problemas das pessoas. Infelizmente, ainda há muitas pessoas que não estão em tratamento e os gastos com medicações e internamentos ainda são grandes. O índice de suicídios também é assustador, o que deve nos fazer pensar sobre que saúde está se produzindo, que qualidade de vida nós temos e qual o nosso papel enquanto profissionais neste contexto. RESUMO DO TÓPICO 3 140 AUTOATIVIDADE 1 Analise os dados do caso a seguir e depois responda as questões: Paciente de 54 anos, viúva, mãe de três filhos, comerciante. Apresenta asma brônquica de difícil controle há 15 anos; o quadro iniciou dois dias após o falecimento de seu marido. Tem crises de palpitação, dores pelo corpo (coluna, pernas, joelhos) que teriam começado há nove anos e fraqueza nas pernas. Relata ser ansiosa desde jovem, com episódios de dor no peito, queimação nos braços e pescoço. Tem medos (de sair de casa, de pegar ônibus). Queixa- se de insônia, entretanto diz ter “pesadelos horríveis”. Tem cefaleia há muitos anos. Conta que na sua infância seu pai costumava espancar sua mãe. Aos seis anos de idade o irmão, então com 21 anos, tentou suicidar-se; e já passou por inúmeras internações psiquiátricas. Depois de casada, fez um aborto aos 25 anos e outro aos 27 anos. Um ano depois soube que o marido “tinha um caso com uma vizinha”. Ficou viúva aos 39 anos e avalia que seus sintomas pioraram após este ocorrido. a) Que transtorno mental você diria que esta paciente apresenta? b) É possível “encaixar” todos os sintomas num único diagnóstico? c) Que acontecimentos da vida desta mulher corroboraram para que ela desenvolvesse tais sintomas de sofrimento mental? d) A partir das reflexões que você realizou para responder a estes questionamentos, que considerações você tem a fazer acerca de um caso como este? Como você acredita que poderia auxiliar enquanto profissional da saúde? 141 REFERÊNCIAS ALMEIDA, R. A.; MALAGRIS, L. E. N. M. A prática da psicologia da saúde. Revista SBPH. Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 183-202, dez. 2011. ALVES, V. S. Modelos de atenção à saúde de usuários de álcool e outras drogas: discursos políticos, saberes e práticas. Cadernos de Saúde Pública, v. 25, n. 11, p. 2309-2319, 2009. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM V: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Trad. Maria I. 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Enquanto ainda se especulava acerca dos conhecimentos sobre o funcionamento da consciência, Freud revolucionou a humanidade ao dizer que o ser humano não é senhor de sua consciência, ou seja, ele postulou o inconsciente como parte constituinte do ser humano, dizendo que, além da consciência, todos nós somos movidos por razões e desejos mais profundos, que a consciência desconhece. A teoria se desenvolveu e deu origem à Psicanálise, teoria psicológica que estudaremos mais adiante. Freud é, portanto, considerado o “pai da Psicanálise”, e não da Psicologia. Você sabe quem é considerado o “pai da Psicologia”? O nome dele é Wilhelm Wundt, e explicaremos porque ele é considerado o “pai da Psicologia” no segundo tópico desta unidade. 3 CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA Entender qual foi o caminho percorrido pelas profissões até se tornarem a ciência que conhecemos hoje exige uma definição do seu conceito atual. Partindo do campo da psicologia, que estuda os processos mentais e o comportamento humano, tendo a subjetividade humana como objeto de estudo, podemos dizer que a ciência, de uma maneira geral, encontrou na Filosofia o seu ponto de partida. TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS 7 Você é nosso convidado para conhecer o caminho que estabeleceu a relação entre Filosofia e demais áreas do conhecimento e de que maneira a Filosofia contribuiu para seu desenvolvimento. Para tanto, precisamos ir até a Grécia antiga, berço de tantas descobertas e mobilizações que mudaram a história da humanidade. Os filósofos gregos foram os responsáveis pelo desenvolvimento do método introspectivo. Introspecção é o exame de ideias e experiências internas. Conforme descrito por Bock, Furtado e Teixeira (2008), a evolução do povo grego, em termos de organização social (já que não podemos esquecer que a Grécia foi o berço da democracia), permitiu que o cidadão se ocupasse com o pensar acerca das questões do espírito, como a Filosofia e a arte. Pensadores como Platão e Aristóteles começaram a analisar o homem e seus aspectos internos, como a alma e a razão. A alma ou espírito era concebida como a parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento, os sentimentos de amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção. Os filósofos pré-socráticos (assim chamados por antecederem o filósofo grego Sócrates) preocupavam-se em definir a relação do homem com o mundo através da percepção. Discutiam se o mundo existe porque o homem o vê ou se o homem vê um mundo que já existe. Havia uma oposição entre os idealistas (para os quais a ideia forma o mundo) e os materialistas (para os quais a matéria que forma o mundo já é dada para a percepção) (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 33). Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), a principal preocupação de Sócrates (469-399 a.C.) era entender o que diferenciava o ser humano dos animais, concluindo que a principal característica humana era a razão, que o tornava um ser racional, capaz de agir sobrepondo-se aos seus instintos. Foi neste momento que Sócrates iniciou os estudos do que mais tarde entenderíamos como consciência. Seguindo o mesmo caminho, Platão (427-347 a.C.), discípulo de Sócrates, preocupou-se em encontrar um lugar para a razão dentro do corpo humano. Esse lugar seria a cabeça, onde se encontra a alma humana. Platão concebia a alma separada do corpo e a medula como o elo que os unia. Aristóteles contrapôs as ideias de Platão, postulando que alma e corpo não poderiam ser dissociados. Aristóteles foi o pensador responsável pela publicação do que é considerado o primeiro tratado de Psicologia, o “De Anima”, no qual trata das diferenças entre razão, percepção e sensações. A Figura 1 nos traz a imagem dos pensadores que contribuíram para o surgimento da Psicologia. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 8 FIGURA 1 – FILÓSOFOS QUE CONTRIBUÍRAM PARA O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA FONTE: Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2016. Quando falamos da história da Psicologia, além da Grécia antiga e as contribuições de seus filósofos, também precisamos nos remeter ao Império Romano e à Idade Média, pois foram nestes momentos históricos que se desenvolveram os conhecimentos de outros dois filósofos de grande importância: Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274). Às vésperas da Era Cristã surge um novo império que iria dominar a Grécia, parte da Europa e o Oriente Médio: o Império Romano. Uma das principais características desse período é o aparecimento e o desenvolvimento do cristianismo – uma força religiosa que passa a força política dominante. Mesmo com as invasões bárbaras, por volta de 400 d.C., que levam à desorganização econômica e ao esfacelamento dos territórios romanos, o cristianismo sobreviveu e até se fortaleceu, tornando-se a religião principal da Idade Média, período que então se inicia. As ideias sobre o mundo psicológico, nesse período, estão relacionadas de perto ao conhecimento religioso, já que, ao lado do poder econômico e político, a Igreja Católica também monopolizava o saber (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 34). Os pensadores da época eram fortemente influenciados pelas ideias de seus antecessores. Conforme nos apontam Bock, Furtado e Teixeira (2008), Santo Agostinho tinha o entendimento de que alma e corpo somente poderiam ser entendidos separadamente, assim como Platão. Contudo, complementou a referida teoria dizendo que alma não era somente a sede da razão, mas a prova de que Deus se manifestava no homem. A alma era imortal porque ligava o homem a Deus. Sendo a alma a sede do pensamento, a Igreja também passou a se interessar pela sua compreensão. TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS 9 São Tomás de Aquino viveu em uma época em que os conhecimentos gerados pela Igreja Católica sofriam questionamentos que levaram ao início do movimento protestante. O momento também era de mudanças significativas na economia, que caminhava em direção ao capitalismo, com o advento da Revolução Francesa, bem como da Revolução Industrial na Inglaterra. O pensar acerca da essência e existência do homem foi permeado pelos conhecimentos produzidos por Aristóteles, todavia, as ideias de São Tomás de Aquino tomaram um caminho diferente das de Aristóteles quando o religioso afirmou que somente Deus seria capaz de reunir a essência e existência, em termos de igualdade, postulando que a busca da perfeição pelo homem seria a busca de Deus. A Filosofia, portanto, trouxe como sua maior contribuição para a Psicologia o método introspectivo, ou seja, o exame das ideias e experiências internas que foram descritos pelos filósofos estudados anteriormente. As contribuições dos referidos pensadores ainda foram adiante, pois alguns filósofos, como Aristóteles, por exemplo, também transitavam por outras áreas do conhecimento (ele ainda exercia a profissão de naturalista e biólogo). Os conhecimentos acerca da Biologia fizeram com que Aristóteles considerasse, em suas teorias, os conhecimentos de Fisiologia, trazendo um novo método para a compreensão humana: o método empírico, baseado na observação. Sendo assim, podemos dizer que, de uma maneira geral, os antecedentes filosóficos da Psicologia encontram-se no racionalismo (desenvolvido através do método introspectivo) e no empirismo (desenvolvido por meio do método empírico), que abordaremos em seguida. IMPORTANTE Segundo Sternberg (2015), a Filosofia busca entender a natureza geral de muitos aspectos do mundo, em parte por meio da introspecção (exame das ideias internas). A Fisiologia busca um estudo científico das funções vitais dos organismos vivos, basicamente por meio de métodos empíricos (baseados na observação) 4 RACIONALISMO E EMPIRISMO O racionalismo e oempirismo são duas teorias desenvolvidas para o estudo da mente humana. O texto a seguir, desenvolvido por Sternberg (2015), nos apresenta uma síntese dos conhecimentos abordados por cada uma dessas teorias. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 10 O racionalismo acredita que o caminho para o conhecimento se dá por meio da análise lógica. Em contrapartida, Aristóteles foi um empirista. O empirista acredita que se adquire conhecimento por meio da evidência empírica, ou seja, esta evidência é obtida por intermédio da experiência e da observação. O Empirismo orienta diretamente a observação empírica da Psicologia. Ao contrário, o Racionalismo é muito importante para o desenvolvimento da fundamentação teórica. As teorias racionalistas, sem qualquer ligação com a observação, não podem ser, portanto, válidas. Entretanto, grandes quantidades de dados empíricos, sem uma estrutura teórica organizada, também podem não fazer sentido. Podemos considerar a visão racionalista do mundo como uma tese, enquanto a visão empirista seria a antítese. A maioria dos psicólogos, atualmente, busca a síntese dessas duas teses, fundamenta suas observações empíricas na teoria. Por outro lado, usam essas observações para revisar suas próprias teorias. As ideias contrastantes do Racionalismo e do Empirismo tornaram-se notórias a partir do racionalista Francês René Descartes (1596-1650) e do empirista inglês John Locke (1632-1704). Descartes considerava o método introspectivo e reflexivo superior ao método dos empíricos de encontrar a verdade. De acordo com Schultz e Schultz (2006), Descartes tinha um profundo interesse em aplicar o conhecimento científico às questões práticas. O trabalho mais importante de Descartes para o desenvolvimento da Psicologia moderna foi a tentativa de resolver o problema mente- corpo (a questão da distinção entre as qualidades física e mental), uma questão controversa durante séculos (STERNBERG, 2015, p. 3). Ao longo de vários períodos, os intelectuais discutiam como a mente – ou as qualidades mentais – podia ser diferenciada do corpo e todas as demais qualidades físicas. [...] Antes de Descartes, a teoria predominante afirmava ser a interação entre a mente e o corpo essencialmente unilateral. A mente era capaz de exercer grande influência sobre o corpo, enquanto o corpo exercia pouco efeito sobre a mente [...). Na teoria da interação mente-corpo de Descartes, a mente influenciava o corpo e a influência deste sobre a mente era maior do que se acreditava. A relação não era apenas unilateral, mas mútua. Essa proposta, considerada radical no século XIX, teve grande repercussão na psicologia (SCHULTZ; SCHULTZ, 2006, p. 35). Locke, por sua vez, era muito entusiasmado com o método da observação empírica (LEAHEY apud SCHULTZ; SCHULTZ, 2006). Segundo Schultz e Schultz (2006), o principal interesse de Locke estava voltado ao funcionamento cognitivo, isto é, a forma como a mente adquire o conhecimento, rejeitando a proposta de Descartes sobre a existência das ideias inatas, apresentando a teoria de que o ser humano nascia sem qualquer conhecimento prévio. 4.1 RADICALISMO VERSUS EMPIRISMO TÓPICO 1 | A PSICOLOGIA E SEUS PRECEDENTES HISTÓRICOS 11 Locke acreditava que os seres humanos nascem sem qualquer conhecimento e, portanto, precisam buscá-lo por meio da observação empírica. O conceito de Locke para isso é o termo tábula rasa (que em latim significa “folha de papel em branco”). Sua ideia é de que a vida e a experiência “escrevem” o conhecimento do indivíduo. Sendo assim, para Locke, o estudo da aprendizagem era fundamental para a compreensão da mente humana. Ele acreditava que não existiam de forma alguma ideias inatas. No século XVIII, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) sintetizou dialeticamente as ideias de Descartes e Locke argumentando que tanto o Racionalismo como o Empirismo têm seu lugar e que ambos devem trabalhar juntos na busca pela verdade. Atualmente, a maioria dos psicólogos aceita a síntese de Kant (STERNBERG, 2015, p. 4). Já passamos pela Grécia antiga e pela Idade Média. Chegamos agora ao Renascimento, período de transição para o capitalismo. Foi neste período histórico que grandes personalidades, como Leonardo da Vinci, Boticelli, Michelangelo e Maquiavel produziram grandes obras. Este também foi um período em que a ciência avançou de forma bastante significativa. Conforme já estudamos, em 1543, Copérnico revolucionou o conhecimento da época ao mostrar que a Terra não era o centro do universo. Em 1610, Galileu realizava as primeiras experiências da Física. O conhecimento científico começa a estabelecer seus métodos e regras e ganha força, dando origem ao objeto de estudo da Psicologia científica: a subjetividade humana. 12 Neste tópico, você aprendeu que: • O estudo do comportamento humano bebeu das fontes de conhecimento tanto da Filosofia quanto da Fisiologia. Da Filosofia e da teoria racionalista (conhecimento por meio da análise lógica) veio o método introspectivo (exame de ideias e experiências internas), que foi utilizado pelos filósofos nas suas primeiras tentativas de explicação da mente. Da Fisiologia e da teoria do conhecimento empírico (evidência empírica por meio da experiência e observação). • Filósofos como Platão, Aristóteles e Sócrates contribuíram com os estudos vistos aqui. De uma maneira geral, conforme citado por Bock, Furtado e Teixeira (2008), Sócrates preocupou-se com o limite que separava o homem dos animais e concluiu que a essência do ser humano é a razão, abrindo caminho para os estudos da consciência. Platão procurou definir um lugar para a razão no corpo, e definiu esse lugar como a cabeça. Concebia alma e corpo como separados (concepção dualista). Aristóteles inovou, apresentando uma concepção monista: alma e corpo não podem ser dissociados e escreveu Da Anima – considerado o primeiro tratado de Psicologia da história. • Assim como Platão, Santo Agostinho era adepto da concepção dualista, ou seja, concebia alma e corpo separadamente, e ainda segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), para ele, a alma era a prova de uma manifestação divina no homem. Ela seria a ligação entre o homem e Deus, portanto a alma seria imortal. São Tomás de Aquino, inspirado em Aristóteles, considerava que o ser humano, em sua essência, buscava a perfeição por meio de sua existência. No entanto, ao contrário de Aristóteles, afirma que somente Deus seria capaz de reunir a essência e a existência em termos de igualdade, portanto a busca do homem pela perfeição seria a busca de Deus. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008). • As grandes descobertas que mudaram a história da humanidade e impulsionaram não só a ciência psicológica, mas a ciência de uma forma geral, são as chamadas feridas narcísicas. A primeira descoberta revolucionária veio com Copérnico, postulando que a Terra não é o centro do universo. A segunda foi a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, contrapondo a soberania da Igreja Católica; e a terceira veio com o conhecimento apresentado por Freud, que abalou a sociedade quando postulou o inconsciente como uma força mental constituinte do ser humano, dizendo que o homem não é senhor de sua razão. RESUMO DO TÓPICO 1 13 1 Faça uma breve descrição apontando as principais contribuições dos filósofos gregos para o desenvolvimento das ciências atuais. 2 Explique de que maneira o racionalismo e o empirismo contribuíram para o surgimento da Psicologia, que é o estudo do comportamento humano. 3 Explique quais foram as três grandes descobertas que revolucionaram a história da humanidade e da ciência como um todo. AUTOATIVIDADE Agora que você já conhece o contexto histórico que possibilitou o surgimento da Psicologia, vamos entender como essa teoria adquiriu seu status de ciência. ESTUDOS FU TUROS 14 15 TÓPICO 2 A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Você sabe qual é a diferença entreo conhecimento científico e outro conhecimento? Quais aspectos fazem um conhecimento se tornar científico? E os conhecimentos que não são científicos, como são chamados? Como a Psicologia tornou-se uma ciência? São essas questões que vamos explorar neste tópico. Existem dois tipos de conhecimento, ou seja, duas linhas de raciocínio que são utilizadas para disseminar uma ideia ou teoria. Um deles é o já mencionado conhecimento científico e o outro é o conhecimento do senso comum. O conhecimento do senso comum, como o próprio nome diz, trata-se de um conhecimento disseminado e aceito por um determinado grupo de pessoas, isto é, há um consenso ou uma ideia comum de que aquele conhecimento é verdadeiro. Por exemplo, os conhecimentos das nossas avós acerca do chá que devemos tomar para curar uma dor de estômago. Atualmente já existem inúmeras pesquisas científicas a esse respeito, porém, nossas avós não leram nenhum artigo científico que comprove que o chá é eficaz no tratamento de distúrbios estomacais, elas utilizam informações que lhes foram passadas também por suas mães, avós etc. É exatamente isso que chamamos de conhecimento do senso comum: uma ideia ou teoria passada de geração em geração, mas que não passou por nenhuma análise criteriosa de cunho científico. É o tipo de conhecimento que não se questiona. Aprendemos com nossas avós e seguimos repetindo, sem argumentar ou questionar a origem deste conhecimento. Se o conhecimento do senso comum é algo que não questionamos, com o conhecimento científico o processo é bem diferente. Para que uma teoria seja considerada científica, ela passa por um rigoroso processo, que compreende métodos, teorias e técnicas específicas que lhe conferem o status de ciência. Vamos nos voltar agora ao caminho percorrido pela Psicologia nesse sentido. Já estudamos o contexto histórico, as contribuições da Filosofia e da Fisiologia, e agora vamos conhecer as teorias que se desenvolveram a partir das referidas contribuições e entender como elas evoluíram para o que hoje conhecemos como a ciência psicológica. São conhecimentos desenvolvidos a partir de um processo rigoroso e passível de verificação, que permite que a Psicologia seja utilizada hoje como fonte de informação também para outras áreas. Foram muitas as teorias que se desenvolveram com o objetivo de entender e explicar o funcionamento da mente humana. Nesse tópico vamos nos voltar para aquelas consideradas primordiais no sentido de elevar a Psicologia ao lugar de ciência. Entre elas, destacam-se o estruturalismo de Wilhelm Wundt UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 16 (1832-1920) e Edward Titchener (1867-1927), sendo o primeiro considerado o “pai da Psicologia científica”; o funcionalismo/pragmatismo de William James (1842-1910); o associacionismo de Hermann Ebbinghaus (1850-1909) e Edward Thorndike (1874-1949); a psicanálise de Freud (1856-1939); e o behaviorismo de Pavlov (1849-1936), Watson (1878-1958) e Skinner (1904-1990). 2 A PSICOLOGIA CIENTÍFICA DE WUNDT E A SUBJETIVIDADE HUMANA Nos estudos que fizemos anteriormente, mencionamos que Wilhelm Wundt é considerado o “pai da Psicologia científica”. Você deve estar se perguntando o que este autor desenvolveu de tão importante para receber esse título, não é mesmo? Pois bem, vamos estudar agora porque os feitos de Wundt provocaram uma mudança tão significativa no status da Psicologia a ponto de torná-la uma ciência propriamente dita. Vamos começar situando-nos no tempo e espaço desse acontecimento histórico tão importante para a Psicologia. Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), o berço da Psicologia científica foi a Alemanha do final do século XIX, onde Wundt fundou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Leipzig, no ano de 1879, fazendo pesquisas sobre percepção, aprendizagem e memória. Wundt, Weber e Fechner trabalharam juntos na Universidade de Leipzig. Seguiram para a Alemanha muitos estudiosos dessa nova ciência, como o inglês Edward B. Titchener e o americano William James. Seu status de ciência é obtido à medida que se “liberta” da Filosofia, que marcou sua história até aqui, e atrai novos estudiosos e pesquisadores, que, sob os novos padrões de produção de conhecimento, passam a: • Definir seu objeto de estudo (o comportamento, a vida psíquica, a consciência); • Delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas do conhecimento, como a Filosofia e a Fisiologia; • Formular métodos de estudo desse objeto; • Formular teorias com um corpo consistente de conhecimentos na área. Essas teorias devem obedecer aos critérios básicos da metodologia científica, isto é, deve-se buscar a neutralidade do conhecimento científico, os dados devem ser passíveis de comprovação, e o conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para outros experimentos e pesquisas na área. Embora a Psicologia científica tenha nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos que ela encontra campo para um rápido crescimento, resultado do grande avanço econômico que colocou este país na vanguarda do sistema capitalista. Nos Estados Unidos surgem as primeiras abordagens ou escolas de Psicologia, as quais deram origem às inúmeras teorias que existem atualmente (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 41). TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 17 Sendo assim, os critérios necessários para que possamos considerar um conhecimento científico são: objetividade; objeto de estudo específico; linguagem rigorosa; métodos e técnicas específicos; suas conclusões são passíveis de verificação; processo cumulativo de conhecimento. O quadro a seguir apresenta um comparativo entre os conhecimentos do senso comum e científico para que possamos visualizar de forma mais clara as principais diferenças entre eles: QUADRO 1 – COMPARATIVO ENTRE OS CONHECIMENTOS PRODUZIDOS NO SENSO COMUM E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SENSO COMUM CONHECIMENTO CIENTÍFICO Subjetivo. O conhecimento varia de uma pessoa para outra, dependendo do contexto em que ela vive. Objetivo. Utiliza estruturas universais e muito bem definidas para a construção do conhecimento (o conhecimento pode ser comprovado cientificamente). Qualitativo. As coisas são julgadas (interpretadas) por nós como grandes ou pequenas, doces ou azedas, pesadas ou leves, novas ou velhas. Quantitativo. Estabelece medidas, padrões e critérios de comparação e avaliação para as coisas que parecem ser diferentes. Heterogêneo. Refere-se a fatos que julgamos diferentes, porque os percebemos como diversos entre si (é novamente uma questão de interpretação, de ponto de vista. Duas pessoas podem ter interpretações diferentes de um mesmo fato). Homogêneo. Busca le is gerais para o funcionamento dos fenômenos, que são as mesmas para os fatos que nos parecem diferentes. Tende a estabelecer relações de causa e efeito entre as coisas ou entre os fatos: “onde há fumaça, há fogo; ingerir sal quando se tem tontura é bom para a pressão”. Só estabelece relações causais depois de investigar a natureza ou estrutura do fato estudado e suas relações com outros semelhantes ou diferentes. Não se surpreende nem se admira com a regularidade, constância, repetição e diferença das coisas. A admiração e o espanto se dirigem para o que é imaginado como único, extraordinário e maravilhoso. Surpreende-se com a regularidade, a constância, a frequência, a repetição e a diferença das coisas e procura mostrar que o maravilhoso e o extraordinário têm uma explicação: um terremoto ou um furacão obedecem às leis da física (procura apresentar explicações racionais e claras para os fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao fantástico). FONTE: Adaptado de Bock, Furtado e Teixeira (2008) UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 18 Sabe-se que, para ser considerada científica, uma teoria precisa apresentar um objeto de estudo específico. Já vimos que a Psicologiase volta para o estudo do comportamento, da vida psíquica e da consciência, porém utilizamos um termo para definir o objeto de estudo da Psicologia científica que engloba todos os fenômenos psicológicos: a subjetividade humana. Subjetividade humana é a singularidade do ser humano, as particularidades de cada um, aquilo que distingue uma pessoa de outra. De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), o ser humano passou a ter necessidade de construir uma ciência que estudasse e produzisse visibilidade para a experiência subjetiva. Assim surgiu a Psicologia, como produto das dúvidas do homem moderno, esse humano que se valorizou enquanto indivíduo e que se constituiu como sujeito capaz de se responsabilizar por seu destino. Atualmente, a Psicologia é detentora de vasta quantidade de teorias que tornam o campo de atuação profissional do psicólogo extremamente amplo. Essas teorias se desenvolveram a partir dos conhecimentos produzidos pelas primeiras escolas de pensamento, advindas dos conhecimentos produzidos por Wundt e seus contemporâneos. Cada uma delas é apresentada a seguir. 3 O ESTRUTURALISMO E O MÉTODO INTROSPECTIVO Primeiramente, precisamos esclarecer que as escolas de pensamento da Psicologia se referem às teorias que fundamentam o trabalho do psicólogo. Elas são como um filtro que o profissional utiliza para basear o seu olhar e as suas análises. O estruturalismo teve como principais expoentes Wilhelm Wundt e Edward Titchener. Essa teoria é considerada a primeira escola de pensamento da Psicologia. De uma maneira geral, podemos dizer que o estruturalismo buscava entender a estrutura da mente e suas percepções pela análise dessas percepções em seus componentes constitutivos, especialmente a consciência. Titchener irá estudá-la em seus aspectos estruturais, isto é, os estados elementares da consciência como estruturas do sistema nervoso central. Essa escola foi inaugurada por Wundt, mas foi Titchener, seu seguidor, quem usou o termo estruturalismo pela primeira vez, no sentido de diferenciá-la do funcionalismo. O método de observação de Titchener, assim como o de Wundt, é o introspeccionismo e os conhecimentos do laboratório (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 41). O método introspectivo já era utilizado pelos filósofos na Grécia antiga. Wundt o aperfeiçoou, criando a seguinte definição: TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 19 IMPORTANTE Introspecção: a autoanálise da mente para se inspecionar e relatar os pensamentos ou sentimentos pessoais. Schultz e Schultz (2006) definiram, de maneira muito clara, como Wundt construiu sua teoria, no texto que segue: “O método da Introspecção”. 3.1 O MÉTODO DA INTROSPECÇÃO Wundt descrevia a sua Psicologia como a ciência da experiência consciente. Sendo assim, o método da Psicologia científica deve abranger as observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da introspecção, ou seja, do autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção. Na Física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na Fisiologia, foi aplicada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo: para obter informações sobre os sentidos, o pesquisador aplicava um estímulo e pedia ao indivíduo para descrever a sensação produzida. Esse procedimento é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísica empregados por Fechner. Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam se algum era mais pesado, mais leve ou se ambos tinham o mesmo peso, estavam passando pela experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiências conscientes. A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt na Universidade de Leipzig, obedecia às regras e condições estabelecidas por ele: • Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será introduzido. • Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta. • Deve haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação. • Deve haver condições adequadas para se variar as situações experimentais em termos de manipulação controlada do estímulo. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 20 A última condição remete à essência do método experimental: a variação das condições das situações de estímulo e a observação das mudanças resultantes das experiências descritas pelos indivíduos. Wundt acreditava que sua forma de introspecção – a percepção interna – permitia fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas de interesse da Psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os dados para as ciências, como a Astronomia e a Química. Na percepção externa, o foco de observação encontra-se fora do observador, por exemplo, uma estrela ou reação da mistura química no tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco encontra-se dentro do observador, na sua experiência consciente. O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições experimentais consiste em produzir observações precisas passíveis de repetição, da mesma forma que a percepção externa produz para as ciências naturais observações que podem ser repetidas separadamente por outros pesquisadores. A fim de atingir essa meta, Wundt insistia em treinar cuidadosa e rigorosamente seus observadores para realizar corretamente as percepções internas. Exigia que eles completassem até 10 mil observações introspectivas individuais antes de considerá-los preparados para proporcionarem dados significativos para o seu laboratório de pesquisa. Submetidos a esse treinamento repetitivo e persistente, os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se tornariam rápidos e alertas em relação à experiência consciente sendo observada. Na teoria, os observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para pensar ou refletir sobre o processo (e possivelmente introduzir alguma observação pessoal) e seriam capazes de descrever a experiência consciente quase imediata e automaticamente. Assim, o intervalo entre os atos de observar e de relatar a experiência imediata seria mínimo. Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa em que as pessoas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva que buscava estava relacionada principalmente com os julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram relatos de natureza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos suficientes, Wundt extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos da experiência consciente FONTE: Schultz e Schultz (2006, p. 84). TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 21 É fato que a rigorosidade dos processos utilizados por Wundt em seu laboratório revolucionou a forma de se produzir conhecimento na época e elevou a Psicologia a um patamar que não havia atingido até então. Estava colocada a maneira de se fazer ciência e muitos foram os pesquisadores que seguiram os passos do pai da Psicologia científica na produção de conhecimento, conforme veremos em outras escolas de pensamento. 4 FUNCIONALISMO/PRAGMATISMO O funcionalismo basicamentebusca entender o que as pessoas fazem e por que o fazem. Conforme apontado por Sternberg (2015), os funcionalistas estavam unidos pelos tipos de perguntas que faziam, mas não necessariamente pelas respostas que encontravam ou pelos métodos que utilizavam para chegar a essas respostas. Como os funcionalistas acreditavam no uso de qualquer método que melhor respondesse às perguntas de um determinado pesquisador, parece natural que o funcionalismo tenha levado ao pragmatismo. Os pragmatistas acreditam que o conhecimento só pode ser validado por sua utilidade: o que se pode fazer com isto? Estão interessados não apenas em saber o que as pessoas fazem, mas também querem descobrir o que podemos fazer com o nosso conhecimento sobre o que as pessoas fazem. O funcionalismo é considerado como a primeira sistematização genuinamente americana de conhecimento em Psicologia. Uma sociedade que exigia o pragmatismo para o seu desenvolvimento econômico acaba por exigir dos cientistas americanos o mesmo espírito. Desse modo, para a escola funcionalista de William James, importa responder “o que fazem os homens” e “por que o fazem”. Para responder isso, James elege a consciência como o centro de suas preocupações e busca a compreensão do seu funcionamento, na medida em que o homem a usa para adaptar-se ao meio (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008 p. 41). Observe que até o momento as referidas escolas de pensamento voltaram- se aos estudos da consciência. É possível entender porque Freud causou uma reviravolta não só no meio científico, mas na humanidade como um todo quando chamou a atenção para aspectos que vão além da consciência, quando postulou a existência do inconsciente. Ninguém, até então, havia proposto a existência de um fenômeno psicológico de tamanha importância. No entanto, antes de estudar um pouco mais sobre a Psicanálise de Freud, vamos conhecer outra escola de pensamento de grande importância para a Psicologia, o Associacionismo de Hermann Ebbinghaus e Edward Thorndike. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 22 5 ASSOCIACIONISMO Você está estudando um conteúdo específico da disciplina de Psicologia Aplicada à Saúde nesse momento e certamente conhece a premissa de que a repetição leva ao aprendizado, não é? O associacionismo se interessou em compreender como os eventos e ideias podem se associar na mente propiciando a aprendizagem. Foi nessa teoria que, pela primeira vez, considerou-se a repetição como auxílio do aprendizado. De acordo com Sternberg (2015), as associações podem resultar em termos de contiguidade (associar informações que tendem a ocorrer juntas ou quase ao mesmo tempo); de similaridade (associar assuntos com traços ou propriedades semelhantes); ou em termos de contraste (associar assuntos que parecem apresentar polaridades, como quente/frio, claro/escuro, dia/noite). No fim dos anos 1800, o associacionista Hermann Ebbinghaus foi o primeiro pesquisador a aplicar os princípios associacionistas de maneira sistemática. Ebbinghaus estudou e observou especificamente seus próprios processos mentais. Contou seus próprios erros e registrou seus tempos de resposta. Por meio de auto-observações, estudou como as pessoas aprendem e se lembram dos conteúdos por meio da repetição consciente do material a ser aprendido. Entre outras conclusões, descobriu que a repetição possibilita fixar as associações mentais de maneira mais consciente na memória. Dessa forma, a repetição auxilia o aprendizado. Outro associacionista influente, Edward Thorndike, sustentava que o papel da “satisfação” era a chave para a formação das associações. Thorndike chamou esse princípio de Lei do Efeito (1905): um estímulo tenderá a produzir uma determinada resposta ao longo do tempo se o organismo for recompensado com essa resposta. Ele acreditava que um organismo aprendia a responder de uma determinada maneira (o efeito) em uma dada situação se fosse constantemente recompensado por isso (a satisfação, que serve como estímulo para ações futuras). Assim, uma criança que recebe uma recompensa por resolver corretamente problemas de aritmética irá aprender a fazê-lo sempre assim, porque estabelece uma associação entre a solução válida e a recompensa. (STERNBERG, 2015, p. 6) Vamos trazer essa análise para o nosso contexto atual. Prestando atenção no seu próprio processo de aprendizagem, é possível perceber a validade da teoria associacionista. Você sabe que será recompensado pelo esforço que tem feito ao dedicar-se aos estudos. Vislumbrar como será recompensado por isso é um fator motivacional extremamente importante, que acaba por fazê-lo pensar em estratégias de como favorecer o seu entendimento dos conteúdos, por exemplo. E mais, você está utilizando os princípios de contiguidade, similaridade e contraste para entender o que está lendo. Várias teorias de aprendizagem desenvolveram- se desde as pesquisas de Ebbinghaus e Thorndike, porém é muito importante que tenhamos conhecimento deste momento histórico, que foi ponto de partida para entender como a nossa mente aprende. TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 23 6 PSICANÁLISE Quando se fala em Psicologia, o nome que vem imediatamente à cabeça da maioria das pessoas é o de Sigmund Freud. Já mencionamos anteriormente o impacto que as descobertas de Freud causaram na história da humanidade e porque o inconsciente, apresentado por ele, foi considerado a terceira ferida narcísica da história. Esse tópico aborda as teorias que foram fundamentais para a consolidação da Psicologia como ciência, portanto, não há como se falar da Psicologia científica sem nos voltarmos às contribuições da Psicanálise de Freud. A psicanálise, como método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifestado por meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres, os atos falhos. A prática profissional refere-se à forma de tratamento – a análise – que busca o autoconhecimento ou a cura, que ocorre por meio desse processo de investigação. Atualmente, o exercício da Psicanálise acontece de muitas formas, é usada como base para psicoterapias, aconselhamento, orientação; é aplicada no trabalho com grupos, instituições. A psicanálise também é instrumento importante para a análise e interpretação de fenômenos sociais relevantes: as novas formas de sofrimento psíquico, o excesso de individualismo no mundo contemporâneo, a exacerbação da violência etc. Compreender a Psicanálise significa percorrer novamente o trajeto pessoal de Freud, desde a origem dessa ciência e durante grande parte do seu desenvolvimento. A relação entre o autor e obra torna-se mais significativa quando descobrimos que grande parte de sua produção foi baseada em experiências pessoais, transcritas com rigor em várias de suas obras, como A interpretação dos sonhos e Psicopatologia da vida cotidiana, dentre outras (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 47). O desenvolvimento da teoria freudiana deu-se inicialmente através do trabalho com pacientes histéricas. O caso mais notório, que embasou os primórdios da teoria de Freud, foi o de uma paciente que ficou conhecida como o “caso Anna O.”, que era atendida pelo médico fisiologista austríaco Josef Breuer (1842-1925), autor de obras precursoras da Psicanálise. Este caso foi o primeiro em que um médico conseguiu esclarecer todos os sintomas do estado histérico e descobrir, ao mesmo tempo, os meios de fazer com que desaparecessem. O método catártico, adotado por Breuer, propiciou o surgimento da Psicanálise. “Anna O.” cunhou a expressão “talking cure” (cura pela palavra) para “wegezahlen” (narração livre) de sintomas, um processo que Freud, posteriormente, desenvolveu como técnica psicanalítica de associações livres. “Anna O.” referia-se ao método como “chimney sweeping” (limpeza da chaminé) – a paciente sabia que, depois que houvesse dadoexpressão às suas alucinações, perderia o que descrevia como “energia” (MINTZBERG, 1998, p. 13). Ainda de acordo com Mintzberg (1998), o texto “Estudos sobre a histeria” (BREUER; FREUD, 1893), cujo tema é o caso “Anna O.”, é considerado a primeira publicação notável da teoria psicanalítica. O tratamento de Anna O. teve início 15 anos antes da publicação do livro. Breuer era quem atendia a paciente e Freud desenvolvia a teoria a partir do referido caso. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 24 Muitas evoluções aconteceram desde as primeiras publicações de Breuer e Freud. Vários outros pesquisadores seguiram o caminho aberto por eles e aperfeiçoaram as pesquisas e os métodos de fazer análise. Atualmente, a psicanálise se configura como um método amplamente aceito e consolidado e utilizado nos mais diversos campos de atuação do psicólogo. 7 BEHAVIORISMO A origem do termo behaviorismo vem da palavra inglesa behavior, que significa comportamento. De uma maneira geral, podemos definir o behaviorismo como a ciência do comportamento humano. O que os pesquisadores dessa teoria postularam inicialmente foi que a psicologia deveria se concentrar apenas na relação entre o comportamento observável, de um lado, e os eventos, ou estímulos ambientais, de outro. Vamos entender qual foi o caminho percorrido para o desenvolvimento da teoria. Para falar sobre a teoria behaviorista precisamos passar obrigatoriamente pelas obras de três autores, considerados os precursores dessa escola de pensamento. São eles: John B. Watson (1878-1958), Ivan Pavlov (1849-1936) e Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). Conforme nos apontam Bock, Furtado e Teixeira (2008), ao postular o comportamento como objeto da Psicologia, Watson trouxe a possibilidade de pesquisar um fenômeno passível de observação e mensuração, aumentando ainda mais a cientificidade da teoria psicológica. Watson foi o responsável pela publicação do primeiro artigo que mencionava o Behaviorismo, no ano de 1913, intitulado “Psicologia: como os behavioristas a veem”. Apesar de colocar o “comportamento” como objeto da Psicologia, o behaviorismo foi, desde Watson, modificando o sentido desse termo. Hoje, não se entende comportamento como uma ação isolada de um sujeito, mas como uma interação entre aquilo que o sujeito faz e o ambiente onde o seu “fazer” está inserido. Portanto, o behaviorismo dedica-se ao estudo das interações entre o indivíduo e o ambiente, entre as ações do indivíduo (respostas) e o ambiente (estimulações). Os psicólogos dessa abordagem chegaram aos termos “resposta” e “estímulo” para se referirem àquilo que o organismo faz e as variáveis ambientais que interagem com o sujeito. (...) o comportamento, entendido como interação entre indivíduo e ambiente e a unidade básica de descrição, é o ponto de partida para uma ciência do comportamento. O ser humano começa a ser estudado a partir de sua interação com o ambiente, sendo tomado como produto e produtor dessa interação (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 59). Observe que, ao passo que Freud, em sua teoria psicanalítica, trouxe a visão de que as respostas para os problemas investigados pela Psicologia estariam nos aspectos inconscientes, ou seja, aqueles aos quais não temos acesso, os behavioristas se concentraram na análise do comportamento observável, analisando as interações do homem com o ambiente, isto é, voltaram o olhar para aquilo que podiam ver, analisar, descrever e mensurar de maneira precisa. Um ótimo exemplo da pesquisa behaviorista é o famoso experimento realizado por Pavlov. TÓPICO 2 | A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 25 Ivan Pavlov foi um fisiologista russo, responsável pelo experimento que permitiu o desenvolvimento de uma importante premissa da Psicologia Comportamental: o reflexo condicionado. Pavlov realizou o referido experimento em laboratório e observou como se dava a interação de um cachorro com os estímulos que lhe eram apresentados. No primeiro momento, antes do condicionamento, ao apresentar a comida (estímulo) ao cachorro, a resposta obtida foi a salivação (estímulo: comida; resposta: salivação). No segundo momento, ainda antes do condicionamento, Pavlov adicionou outro estímulo. Desta vez, o cachorro ouviu o som de uma campainha, ao qual não manifestou resposta. No terceiro momento, durante o condicionamento, Pavlov apresentou novamente o som da campainha, seguido da comida e obteve a resposta de salivação do cachorro. No momento seguinte, depois do condicionamento, ao apresentar somente o som como estímulo, a resposta obtida foi a salivação. A Figura 2 ilustra todo o processo do experimento. FIGURA 2 – O EXPERIMENTO DE PAVLOV FONTE: Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2016. Outros pesquisadores seguiram os passos de Pavlov e continuaram realizando experimentos de grande importância para a teoria comportamental. Um deles foi o psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, que ficou conhecido com seu experimento denominado Caixa de Skinner. A pesquisa de Skinner descreveu o condicionamento operante. UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS DA PSICOLOGIA E SUA CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA 26 FIGURA 3 – CAIXA DE SKINNER Gerador de Choques Elétricos Grade Elétrica Pedaço de Comida Dispensador de comida Alavanca Luz Sinalizadora Alto-falante CAIXA DE SKINNER FONTE: Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2016. A descoberta de Skinner foi o ponto de partida para a aplicação da modelagem comportamental em outras espécies, ou seja, possibilitou a criação e manutenção de comportamentos de maneira planejada e controlada. Acabamos de conhecer as principais teorias que ampliaram o caráter científico da Psicologia. É claro que muitos experimentos e teorias se desenvolveram a partir destas. Pesquisa é algo que nunca se esgota na ciência psicológica, afinal, nosso objeto de estudo, a subjetividade humana, nos desafia com uma amplitude de possibilidades de estudo e intervenção. Vamos explicar melhor como aplicamos todas essas teorias no nosso fazer profissional, mas antes vamos recapitular o que estudamos até aqui. De acordo com Epaminondas (2008), Skinner colocou em sua caixa um rato privado de alimento. Naturalmente, o rato emitia vários comportamentos aleatoriamente e, quando ele se aproximava de uma barra perto da parede, Skinner introduzia uma gota d’água na caixa através de um mecanismo, e o rato a bebia. As próximas gotas eram apresentadas quando o rato se aproximava um pouco mais da barra. As outras quando o rato encostava o nariz na barra. Depois as patas. E assim em diante, até que o rato estava pressionando a barra dezenas de vezes até saciar completamente sua sede. Observou-se que os comportamentos do rato que eram seguidos de um estímulo reforçador (a água) aumentavam de frequência, enquanto outros diminuíam. A Figura 3 ilustra o funcionamento da Caixa de Skinner. 27 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A obra de Wundt foi fundamental para elevar a Psicologia ao patamar científico. Seu maior feito, que marcou esse momento histórico, foi a criação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Leipzig, na Alemanha, no ano de 1879. No referido laboratório, Wundt realizava pesquisas sobre percepção, aprendizagem e memória. As pesquisas de Wundt foram cruciais para a definição do que hoje entendemos como objeto de estudo da Psicologia: a subjetividade humana. A subjetividade humana pode ser definida como a singularidade de cada pessoa. Trata-se da característica humana que contempla todos os fenômenos psicológicos. • Alguns critérios são necessários para que um conhecimento seja considerado científico, diferenciando-o do conhecimento do senso comum. Para tornar- se ciência, uma teoria precisa apresentar os seguintes critérios: objetividade, objeto