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DISCIPLINA: DIREITO AGRÁRIO 1) O QUE É FRAÇÃO MÍNIMA DE PARCELAMENTO (FMP) DE UM IMÓVEL RURAL? A fração mínima de parcelamento de imóvel rural (FMP) foi criada pela Lei Federal 5.868/72 e regulamentada pelo Decreto 72.106/73, e consiste no mínimo de área que um determinado imóvel pode ser desmembrado. A fração mínima de parcelamento de imóvel rural é variável de município para município e estabelecida pelo INCRA. A fração mínima de parcelamento é a menor dimensão que um imóvel rural poderá ter, salvo situações especialíssimas previstas em lei. No artigo 65 da Lei 4504/64 onde se lê “módulo de propriedade rural” leia-se “fração mínima de parcelamento”, denominação atual segundo a legislação posterior. A FMP pode se encontrada no CCIR (documento emitido pelo INCRA) e também. O INCRA também define por ato normativo a FMP e pode ser consultado no site dessa autarquia. A fundamentação legal para identificar o valor da fração mínima de parcelamento (FMP) é: ● §1º do artigo 8º da Lei nº 5.688/72, a FMP será: → o módulo de exploração hortigranjeira para as capitais do Estado; → o módulo de exploração de culturas permanentes para os demais municípios das ZTM A, B e C; e → o módulo de exploração pecuária para os demais municípios da ZTM D. ● §2º do mesmo artigo 8º: → em Instrução Especial aprovada pelo Ministro da Agricultura, o INCRA poderá estender a outros Municípios, no todo ou em parte, cujas condições demográficas e socioeconômicas o aconselhem, a fração mínima de parcelamento prevista para as capitais dos Estados. ● artigo 2º da IN nº 50/97: → ficam estendidas a Fração Mínima de Parcelamento - FMP correspondente ao módulo de exploração hortigranjeira das respectivas zonas típicas, prevista para as capitais dos estados, aos municípios classificados nas Zonas Típicas de Módulos “B” e “C”. Qualquer parcelamento com área inferior ao estabelecido nessas leis implicará em irregularidade e na respectiva impossibilidade de registro perante o Cartório de Registro de Imóveis. Essas irregularidades são muito comuns em chácaras de recreio situadas na zona rural, mas não podem ser registradas porque aqueles que adquirem áreas sem a verificação da FMP terão apenas a posse do bem não será transferido mediante o registro do título aquisitivo conforme artigo 65 da Lei 6504/64 e artigo 08 d Lei 5868/72. O tabelião que efetuar que lavrar a escritura de ato jurídico estará sob pena de responsabilização criminal, cível e administrativa porque o titular do imóvel rural que promove o parcelamento de solo de forma irregular comete crime contra a administração pública, conforme art. 50 da Lei 6.766/79. Os lotes prometidos à venda que tiverem áreas inferiores ao módulo rural, não são passíveis, portanto, de utilização rurícola – atividade extrativa, agrícola, pecuária ou agroindustrial e assim evidencia-se um critério objetivo de que a destinação é urbana. 2) É POSSÍVEL DESMEMBRAR E REGISTRAR E CADASTRAR UM IMÓVEL RURAL INFERIOR À FRAÇÃO MÍNIMA DE PARCELAMENTO? Existem algumas exceções à regra da FMP que podem ser nos seguintes casos: Um imóvel matriculado cortado por uma rodovia, que seja representado por duas glebas, sendo uma com dimensão inferior à FMP, pode resultar em duas matrículas distintas, pois devido à existência de um bem público (imóvel público) entre as duas glebas, cada qual DEVERÁ ser descrita e qualificada em matrícula própria, pois existem ali dois imóveis e não apenas um, como ainda consta da matrícula a ser retificada. A estrada é um bem público de uso comum do povo, o imóvel original passou a ser formado por duas glebas, distintas, separadas por um outro imóvel, que é a estrada. De acordo com a legislação registral imobiliária, todo imóvel deve ser descrito em uma matrícula e esta deve conter tão somente um único imóvel- o princípio da unitariedade da matrícula. A estrada não poderia ser incluída como área privada, sendo imperativa a separação do bem público do patrimônio privado. No Estatuto da Terra em seu artigo 65 existe a exceção no caso da divisão do imóvel em partilhas judiciais e amigáveis (Estatuto da Terra, artigo 65) e no SNCR (Decreto 72.106/72) no artigo 8º na transmissão, a qualquer título, de parcela de imóvel rural. Ambas as hipóteses se referem à intenção do proprietário em parcelar o imóvel rural, ou seja, a lei proíbe o parcelamento voluntário sem a observância da fração mínima de parcelamento. Além disso, essa regra da não-divisão do imóvel em área menor que a FMP não é absoluta. O Decreto nº 62.504/68 traz hipóteses de mitigação da regra do artigo 65 do Estatuto da Terra. Art. 2º - Os desmembramentos de imóvel rural que visem a constituir unidades com destinação diversa daquela referida no Inciso I do Artigo 4º da Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, não estão sujeitos às disposições do artigo 65 da mesma lei e do artigo 11 do Decreto-lei nº 57, de 18 de novembro de 1966, desde que, comprovadamente, se destinem a um dos seguintes fins: [...] A lei tanto aceita essa forma irregular de desapropriação que garante ao expropriado apenas um único direito: o de ajuizar uma ação de desapropriação indireta, para requerer apenas a justa indenização, uma vez que o bem não poderá ser recuperado, salvo em raríssimas situações. Além disso, esse direito do expropriado não é eterno, havendo um prazo prescricional de 15 anos (20 anos na vigência do Código Civil de 1916). Sendo assim, uma retificação da descrição tabular do imóvel interceptado por via pública deverá gerar a abertura de duas ou mais matrículas, independentemente de um dos imóveis ter dimensão inferior à FMP. A atuação do registrador, nessa hipótese, não configura a infração prevista no §3º do artigo 8º da Lei nº 5.868/72, pois seu ato registral não estará dividindo o imóvel (a divisão ocorreu antes pelo “fato do príncipe”), mas apenas retificando o dado incorreto/defasado do registro público imobiliário. O Decreto Decreto-lei nº 57/66 enumera várias hipóteses permissivas do parcelamento de área menor à FMP, que dependem de prévia autorização do INCRA, para a instalação de estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços comunitários (postos de combustível, indústrias, escolas, igrejas e templos em geral, cemitérios, etc.). Além das hipóteses de desmembramento por interesse privado, há também as hipóteses de parcelamento decorrentes da supremacia do interesse público sobre o privado. É o que ocorre nas desapropriações de parcela de imóvel rural, deixando remanescer com a expropriada área com dimensão menor à fração mínima de parcelamento. 3) QUAL A DIFERENÇA DE MÓDULO RURAL E MÓDULO FISCAL ? O módulo rural (MR) é estabelecido pelas dimensões da propriedade familiar e representa uma área mínima de terra calculada para cada imóvel rural, conforme estabelece o Estatuto da Terra: Estatuto da Terra (ET) - Lei nº 4.504, de 30 de Novembro de 1964. Art. 4º - Para os efeitos desta Lei, definem-se: II - Propriedade Familiar, o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalhado com a ajuda de terceiros; III - Módulo Rural, a área fixada nos termos do inciso anterior; Essa unidade de medida é fixada com base nos critérios determinados pelo artigo 11 do Decreto nº 55.891, de 31 de março de 1965: Art. 11. O módulo rural, definido no inciso III do artigo 4º do Estatuto da Terra, tem como finalidade primordial estabelecer uma unidade de medida que exprima a interdependência entre a dimensão, a situação geográfica dos imóveis rurais e a forma e condições do seu aproveitamento econômico. Parágrafo único. A fixação do dimensionamento econômico do imóvel que, para cada zona de características ecológicas e econômicas homogêneas e para os diversos tipos de exploração, representará o módulo, será feita em função: a) da localização e dos meios de acesso do imóvel em relação aos grandes mercados; b)das características ecológicas das áreas em que se situam; c) dos tipos de exploração predominantes na respectiva zona. Sendo assim, o módulo rural varia não apenas quanto à localização do imóvel, mas também com relação ao tipo de exploração nele existente, podendo o imóvel ser, segundo a classificação do INCRA, hortigranjeiro, de cultura permanente, de cultura temporária, de exploração pecuária, de exploração florestal ou de exploração indefinida. O módulo fiscal (MF) é uma unidade de medida, hectares e é definido por Município, cuja tabela está anexa à Instrução Especial INCRA nº 20, de 1980. Os municípios que foram criados após 1980 tiveram o valor de seu módulo fiscal fixado por outros atos normativos daquela autarquia federal. O valor é fixado pelo INCRA para cada município levando-se em conta: (a) o tipo de exploração predominante no município (hortifrutigranjeira cultura permanente, cultura temporária, pecuária ou florestal); (b) a renda obtida no tipo de exploração predominante; (c) outras explorações existentes no município que, embora não predominantes, sejam expressivas em função da renda ou da área utilizada; (d) o conceito de "propriedade familiar". A dimensão de um módulo fiscal varia de acordo com o município onde está localizada a propriedade. O valor do módulo fiscal no Brasil varia de 5 a 110 hectares. A principal diferença entre módulo rural e módulo fiscal é que o módulo rural é calculado para cada imóvel rural, enquanto o módulo fiscal é estabelecido para cada município. O módulo rural é calculado para cada imóvel rural em separado, e sua área reflete o tipo de exploração predominante no imóvel rural, segundo sua região de localização e o módulo fiscal, por sua vez, é estabelecido para cada município, e procura refletir a área mediana dos módulos rurais dos imóveis rurais do município. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Lei 4.504: Dispõe sobre o Estatuto da Terra e dá outras providências. Brasília, 1.964. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4504.htm. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Decreto 55.891: Regulamenta o Capítulo I do Título I e a Seção III do Capítulo IV do Título II da Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 - Estatuto da Terra. Brasília, 1.965. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D55891.htm. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Decreto-Lei 57: Altera dispositivos sobre lançamento e cobrança do imposto sobre a propriedade territorial rural, institui normas sobre arrecadação da dívida ativa correspondente, e dá outras providências. (IPTR - ITR). Brasília, 1.966. Disponível em: https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?tipo=DEL&numero=57&ano=1966&ato=a17ITUE1UMZRVT6d4. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Decreto 62.504: Regulamenta o artigo 65 da Lei número 4.504, de 30 de novembro de 1964 e dá outras providências. Brasília, 1.968. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/antigos/d62504.htm. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Lei 5868: Cria o Sistema Nacional do Cadastro Rural e dá outras providências. Brasília, 1.972. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5868.htm. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Decreto 72.106: Regulamenta a Lei n° 5.868/72 e dá outras providências. Brasília, 1.973. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1970-1979/d72106.htm#:~:text=DECRETO%20No%2072.106%2C%20DE,Rural%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias. Acesso em: 30 nov. 2024. BRASIL. Portaria 50- INCRA: Estabelece as Zonas Típicas de Módulo - ZTM e estende a Fração Mínima de Parcelamento - FMP, prevista para as capitais dos estados para outros municípios. Brasília, 1.997. Disponível em: https://www.gov.br/incra/pt-br/centrais-de-conteudos/legislacao/ie50_1997.pdf. Acesso em: 30 nov. 2024. 1