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NEUROLINGUÍSTICA AULA 3 Prof.ª Larissa Priscila Bredow Hilgemberg 2 CONVERSA INICIAL Olá, querido(a) estudante! Nesta aula, trataremos da aquisição da leitura e da escrita, apresentando de que forma desenvolvemos essas duas importantes habilidades, quais são os principais problemas relacionados e de que forma nosso cérebro nos possibilita ler e escrever. Dessa forma, seguiremos a seguinte sequência de assuntos: 1. Fases da aquisição da leitura e da escrita; 2. Habilidades necessárias para aquisição da leitura e da escrita; 3. Fatores que influenciam o processo de leitura e escrita; 4. Metodologias que favorecem a leitura e a escrita; 5. Problemas enfrentados no processo de leitura e escrita. Bons estudos! TEMA 1 – FASES DA AQUISIÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA A leitura e a escrita são habilidades aprendidas e desenvolvidas. É fato que não nascemos com elas prontas, mas qualquer criança sem comprometimento consegue adquiri-las ao longo de sua caminhada escolar. Anteriormente, aprendemos que as crianças passam por uma fase pré- linguística em que elas já demonstram interesse e brincam de estar lendo e/ou escrevendo. Assim, sua primeira demonstração do que virá a ser a escrita são os desenhos. A criança desenha para demonstrar o que pensa, para se comunicar e se expressar. Antes mesmo de ingressar na escola, ela já desenha, e esse desenho é suporte para a criança dizer o que não consegue dizer com as palavras, para mostrar seus medos, emoções, alegrias, sonhos (Melo, 2010). Antes da escrita, portanto, temos etapas de desenhar ou garatujar — as garatujas ou rabiscos são as expressões antes do desenho organizado. A primeira etapa de garatujas chama-se garatuja desordenada. A criança inicia essa etapa perto de um ano e faz traços simples que seguem por todas as direções, sem planejamento nem controle das ações. Nessa etapa, a criança desenha pelo desenhar, pelo prazer de explorar os materiais e o mundo à sua volta (Melo, 2010). A garatuja ordenada é a segunda etapa do processo. A criança inicia essa etapa em torno de dois anos e descobre que há ligação entre os movimentos 3 realizados e os traços desenhados no papel. Formas circulares começam a aparecer e a criança passa a controlar o tamanho, as cores, as formas e a localização dos desenhos no papel. A última etapa é denominada garatuja nomeada. A criança, perto dos seus três anos, passa a dar nomes aos seus rabiscos. Ela desenha a mamãe, o papai, o cachorro, ou seja, ela dá significado aos seus desenhos. A criança sente prazer em desenhar e passa a ter garatujas mais ricas e complexas. Entre quatro e seis anos de idade, o desenho da criança fica ainda mais complexo. Os rabiscos são trocados por desenhos mais próximos da realidade, com formas reconhecíveis, com proporção e configuração representativa definida. É a etapa pré-esquemática. Quando a criança chega aos sete anos, ela inicia a fase esquemática. O conceito de forma é definido pela criança. Nesse período, o desenho da criança se torna egocêntrico, ou seja, ela desenha a partir de si, de seu ponto de vista, ela faz relações entre o mundo e ela (Melo, 2010). A grande descoberta nesta etapa é a de existência de uma ordem definida nas relações espaciais. A criança deixa de pensar “há uma árvore, há um homem, há um automóvel” sem estabelecer relação mútua entre esses elementos, como fazia no estágio pré-esquemático. Ela agora pensa: “estou no chão, o automóvel está no chão, a grama cresce no chão, todos nós estamos no chão”. (Melo, 2010, p. 12) É também nessa fase que a criança inicia a aquisição da leitura e da escrita. Dessa forma, a representação de mundo, de linguagem e dela própria começam a ser significados e ressignificados. Segundo Piaget, é a partir dos 7 anos de idade que a criança inicia a fase operatória concreta, desenvolvendo a capacidade de pensar de maneira lógica. Você se lembra de quando aprendeu a ler e escrever? Como foi? Você aprendeu a ler uma frase pronta de uma vez? Ou antes mesmo de aprender a ler e escrever já fazia tentativas com os desenhos, depois aprendeu as letras e assim sucessivamente, até aprender a ler e escrever como faz hoje? A aprendizagem de leitura e da escrita também ocorre a partir de diferentes fases (Frith, 1985 citado por Luchesa, 2020). A primeira etapa é denominada fase logográfica e é visual. Nesta, a referência está na grafia das palavras, e não na ordem das letras. A criança consegue ler considerando o contexto, das cores e das formas do texto, percebendo as palavras que estão em seu vocabulário de visão (Luchesa, 2020). 4 A segunda fase, denominada alfabética, acontece quando a criança passa a ter consciência dos sons da fala. Há associação entre o fonema (som) e o grafema (escrita). A criança também passa a decodificar novas palavras e a escrever termos simples. A última fase denomina-se fase ortográfica. Ela inicia quando a criança não precisa mais converter fonologicamente as palavras. As palavras, assim, são analisadas em grupos de letras e morfemas, e a leitura ocorre de forma automática. Os estágios apresentados acima podem ocorrer de forma sequencial ou concomitante na criança. Para que ela aprenda e desenvolva a habilidade de leitura, ela processa duas estratégias: Podemos dizer que o processamento da leitura é traduzido como um modelo de duplo processo que utiliza duas estratégias: a fonológica (rota fonológica), desenvolvida no estágio alfabético; e a lexical (rota lexical), desenvolvida no estágio ortográfico. […] Utilizamos a rota lexical quando fazemos a leitura (que pode induzir à escrita) de palavras familiares que ficaram armazenadas na memória ortográfica em decorrência de nossas experiências repetidas de leitura. A partir do momento em que estamos diante de uma palavra a ser lida e esta é reconhecida pela rota lexical, outro sistema entra em ação — o semântico — com o intuito de permitir a compreensão do significado da palavra. (Maranhe, 2006, p. 139) Esse modelo de dupla rota (rota lexical em conjunto à rota fonológica) ocorre quando a criança utiliza a rota fonológica, modificando grafemas em fonemas, enquanto também utiliza a rota lexical, reconhecendo o significado da palavra ao mesmo tempo que reconhece a ortografia da palavra (Cardoso; Freitas, 2019). A partir do momento que essas habilidades são desenvolvidas, vamos aprimorando-as. Aliás, podemos dizer que somos especialistas em ler e escrever, afinal, passamos mais de 10 anos sofisticando nossa leitura e escrita. TEMA 2 – HABILIDADES NECESSÁRIAS PARA AQUISIÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA Constatamos anteriormente que a aquisição da leitura e da escrita passa por etapas que vão desde a habilidades pré-linguísticas até chegarmos à apropriação dos conhecimentos lexicais, semânticos e morfológicos. Mas o que é necessário para que a criança consiga atingir esses conhecimentos? 5 Quando lemos e escrevemos, precisamos ativar áreas cerebrais que estão relacionadas também a outras habilidades. A leitura e a escrita só podem ser adquiridas e desenvolvidas se ativarmos concomitantemente o léxico (vocabulário), a fonologia (sons das palavras), a morfologia (classes das palavras), a sintaxe (função das palavras) e a semântica (sentido das palavras). A leitura e a escrita se relacionam com habilidades como aritmética, memória fonológica, vocabulário, consciência fonológica e sequenciamento. O sequenciamento se relaciona mais com a leitura, e a memória fonológica, com a escrita. Ainda de acordo com os autores, habilidades de processamento fonológico se correlacionam de forma mais acentuada com a leitura e a escrita do que habilidades de processamento visual e motor. Dominar a língua escrita significa dominar os sistemas gráficos da língua, como a assimilação dos grafemas e a combinaçãoe o posicionamento destes nas palavras; e a combinação e o posicionamento das palavras nas frases. Significa também dominar a caligrafia e a ortografia, além de selecionar as informações corretas sobre o tema da escrita, a melhor forma de desenvolver a escrita e a habilidade de organizar as ideias no texto (Rocha; Martins, 2014). A linguagem escrita engloba os processos sensorial, motor, de linguagem, memória e atenção, que estão sustentados pela organização estrutural e funcional do sistema nervoso central. O processo de alfabetização, assim, apesar de ser inato, necessita das experiências adquiridas pelas crianças e mediadas pelos adultos (Côrrea et al., 2017). A leitura tem relação íntima e recíproca com a consciência fonológica, ou seja, à habilidade de compreender e manipular os sons em nossa língua. A aprendizagem da leitura desenvolve habilidades de consciência fonológica, que facilitam a aprendizagem da leitura. Logo, a competência em leitura envolve rapidez e precisão no reconhecimento das palavras e compreensão nas mensagens escritas (Salles, 2005). Alcântara et al. (2007) considera três fases para a aquisição da leitura. A primeira, cognitiva, equivale à apropriação das funções técnicas da atividade de leitura; a segunda, de domínio, refere-se à representação definida da tarefa de leitura; a última, de automatização, ocorre quando há nível fluente de leitura. Por fim, assim como a leitura tem relação de reciprocidade com a consciência fonológica, há também uma relação de reciprocidade entre a própria 6 leitura e escrita. Uma habilidade impulsiona o desenvolvimento da outra habilidade, e vice-e-versa (Côrrea et al., 2017). TEMA 3 – FATORES QUE INFLUENCIAM O PROCESSO DE LEITURA E ESCRITA O desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita se dá em função de diversos fatores. Para adquirir as competências de escrita e leitura, é necessário levar em conta fatores biológicos, cognitivos, emocionais, familiares, ambientais, socioeconômicos e pedagógicos (Barbosa, 2011). Assim como a leitura e a escrita se inter-relacionam, elas também se associam a outros fatores. Para escrever, por exemplo, a criança precisa acessar seu arcabouço linguístico da fala. Já a leitura é, primeiro, elaborada em voz alta, para depois a criança alcançar a leitura silenciosa. Quanto mais a criança for exposta a condições e atividades que explorem a manipulação consciente dos sons, mais facilitada será sua aprendizagem de leitura e escrita. Freire (1989) assume que a leitura de mundo precede a leitura da palavra. Assim, é necessário que, antes de expor as crianças à língua escrita, forneça-se a elas ferramentas e possibilidades de mundo, de “bagagem cultural e social”. Dessa forma, a oralidade se torna uma ferramenta importante na alfabetização. Brincadeiras com palavras ou de roda, contações de história, leitura dirigida por um adulto ou brincadeiras musicais do cancioneiro popular possibilitam à criança aumentar seu conhecimento de mundo e ter maior contato com sua língua materna e com aspectos fonológicos, semânticos e morfológicos, bem como o aumento do léxico e suas possibilidades de uso da língua. A máxima de “a prática leva à perfeição” também é verdadeira quanto à leitura e à escrita. Quanto mais a criança lê, mais apta ela se torna para a leitura, organizando de forma mais rápida a gramática e ortografia da língua. O mesmo acontece com a escrita: ler e escrever auxilia o processo da aprendizagem da escrita. O erro, nessa etapa de desenvolvimento, também é importante. Os erros só ocorrem quando há tentativa. A criança, assim, explora as muitas possibilidades, identificando o que “funciona” e o que “não funciona”. Os erros, portanto, são construtivos, ou seja, possibilitam a compreensão e a 7 aprendizagem. Os problemas encontrados tornam-se os conhecimentos adquiridos. Quando a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada como unidade, mas que ela é, por sua vez, reanalisável em elementos menores, ingressa no último passo da compreensão do sistema socialmente estabelecido. E, a partir daí, descobre novos problemas: pelo lado quantitativo, se não basta uma letra por sílaba, também não pode estabelecer nenhuma regularidade duplicando a quantidade de letras por sílaba (já que há sílabas que se escrevem com uma, duas, três ou mais letras); pelo lado qualitativo, enfrentará os problemas ortográficos (a identidade de som não garante a identidade de letras, nem a identidade de letras a de som). (Ferreiro, 1985, p. 13-14) A escola, nesse sentido, é um espaço fundamental no processo de aquisição de leitura e escrita, pois nela são contempladas as diversas atividades necessárias às crianças nesta etapa. Atividades e brincadeiras dirigidas pelos professores oportunizam a consciência das próprias crianças e delas no mundo, além de incluir palavras novas e sentido a elas no vocabulário infantil. É na escola, também, que as crianças vão ter a oportunidade de treinar de forma sistematizada sua leitura e escrita com atividades guiadas. Dessa forma, o professor se mostra como uma peça tão necessária na mediação da criança com a aprendizagem. Logo, a forma com que o professor lida com o erro da criança poderá auxiliar ou dificultar o aprender a ler e a escrever. Isso não significa que não haverá correção ou intervenção por parte do professor no processo da criança, mas que a mediação do professor acontecerá com vistas à compreensão da criança quanto ao seu erro e qual seria o caminho certo a ser percorrido. TEMA 4 – METODOLOGIAS QUE FAVORECEM A LEITURA E A ESCRITA Ao longo dos últimos 30 anos, diferentes métodos e práticas de alfabetização têm sido levantados e discutidos. Diversos instrumentos também já foram e ainda são utilizados, como cartilhas, livros didáticos e jogos pedagógicos. De acordo com Rau (2007), a alfabetização deve ser desenvolvida de forma que a linguagem seja real, natural, significativa e vivenciada. A ludicidade é uma importante aliada na alfabetização das crianças. Para a criança, o brincar e o jogar são fontes de prazer e tornam as aprendizagens mais significativas. Dessa forma, o jogo se torna um recurso pedagógico, possibilitando que a criança seja sujeito ativo na construção de seu conhecimento (Rau, 2007). 8 A autora indica atividades que incentivam as crianças nesse processo de ensino-aprendizagem, como contação de histórias; a criação de história pelas crianças com base em uma notícia ou um desenho; o recorte de revistas; o teatro de sombras e de bonecos; a mímica; a leitura dirigida; entre outras atividades. Quanto aos métodos de alfabetização, analisaremos em especial os métodos sintéticos e analíticos de alfabetização e a psicogênese da escrita. O método sintético é utilizado desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando aos dias atuais. Ele se divide em três outros métodos: alfabético, fônico e silábico. Nesse método, “primeiro se aprende o processo de codificação e decodificação para, em uma fase mais avançada, passar à compreensão da leitura e escrita” (Fontes; Benevides, 2012, p. 3). No método alfabético, a criança realiza uma sequência fixa de letras, tendo a memorização como único recurso didático utilizado. As palavras são aprendidas de forma isolada com base na combinação entre as letras e seus sons. O método fônico é utilizado tendo como ponto de partida a dimensão sonora da língua. Conforme Fontes e Benevides (2012, p. 3), “inicia-se o processo ensinando a forma e o som das vogais, depois das consoantes. Em seguida, cada letra é aprendida como um fonema que, unido a outro, formam-se as sílabas e depois as palavras”. Por fim, o método silábico também utiliza a memorização como recurso didático, mas não considera a capacidade de compreensão da criança. A aprendizagem se dá com base na análise da sílaba. O métodoanalítico também é dividido em outros três métodos: de palavração, de sentenciação e global. Inicia-se de frases e/ou palavras para então partir para as unidades menores, sílabas e letras. No processo de palavração, faz-se um recorte de palavras de um texto ou frase, e as crianças aprendem a palavra visualizando-a. Também é possível utilizar imagens para que as crianças façam uma relação entre palavra e imagem. O processo de sentenciação parte de uma frase completa para, então, partir-se para a palavra e, por fim, para as sílabas. No processo global, apresenta-se uma história com começo, meio e fim. Assim, “ele parte de pequenas histórias, em seguida, decompõem-se do texto 9 frases, as frases em palavras, as palavras em sílabas, para no final, a formação de novas palavras com as sílabas estudadas” (Rangel et al., 2017, p. 500). Esses dois processos são tradicionais e, conforme informado anteriormente, utilizados há muitos séculos. Porém, em ambos encontramos um problema: eles são baseados mais em cópia e memorização do que na real compreensão da língua. Ambos os métodos propõem um tipo de ensino que não considera as capacidades cognitivas das crianças. A partir de 1950, surge um novo olhar quanto à alfabetização e ao ensino- aprendizagem: o construtivismo. Com essa teoria nasce a psicogênese da língua escrita. Nessa proposta, a criança é o sujeito e a principal peça da aprendizagem, em detrimento ao processo de escrita puro. Os nomes principais da psicogênese da língua escrita são Emília Ferreiro e Ana Teberosky. As autoras trazem suas perspectivas ao afirmar que Pretendemos demonstrar que a aprendizagem da leitura, entendida como questionamento a respeito da natureza, função e valor deste objeto cultural que é a escrita, inicia-se muito antes do que a escola imagina, transcorrendo por insuspeitados caminhos. Que além dos métodos, dos manuais, dos recursos didáticos, existe um sujeito que busca a aquisição de conhecimento, que se propõe problemas e trata de solucioná-los, segundo sua própria metodologia… Insistiremos sobre o que se segue: trata-se de um sujeito que procura adquirir conhecimento, e não simplesmente de um sujeito disposto ou maldisposto a adquirir uma técnica particular. Um sujeito que a psicologia da lectoescrita esqueceu. (Ferreiro; Teberosky, 1986, p. 11) Para as autoras, assim, o conhecimento da língua escrita é um processo de construção que não é linear, e o aprendiz vai se apropriando dos conceitos e das habilidades de leitura e escrita com mediação do professor. O aluno, assim, precisa compreender o que a escrita representa para ele e de que modo ele pode construir esta representação (Fontes; Benevides, 2012; Rangel et al., 2017; Mendonça, 2011). Por fim, apesar da psicogênese da língua escrita trazer uma discussão muito importante para o processo de aquisição da língua escrita. Mendonça (2011) nos indica uma reflexão importante acerca das diferentes metodologias ao afirmar que na época dos métodos sintético e analítico, quando o professor utilizava a cartilha, ele utilizava o método, mesmo sem uma teoria. Agora, temos uma teoria muito bonita, porém não temos um método utilizável. Logo, é necessário haver uma base teórica de alfabetização e um método baseado nela. 10 TEMA 5 – PROBLEMAS ENFRENTADOS NO PROCESSO DE LEITURA E ESCRITA O processo de aprendizagem da leitura e da escrita é complexo e envolve diferentes habilidades, como o perceptivo, o lexical, o sintético e o semântico (Luchesa, 2020). Para a criança em processo de alfabetização, a aquisição desses conhecimentos não é simples. Afinal, passamos todo o período escolar aprendendo a ler e a escrever, com esses processos sendo aprofundados a cada etapa. Entretanto, há, além da complexidade já esperada, outras questões que podem dificultar a alfabetização. Nesse sentido, encontramos dificuldades visuais. Coelho e Couto (2012) citam tanto problemas de visão quanto incapacidade para diferenciar, interpretar e recordar palavras por conta de disfunção do sistema nervoso central. Por outro lado, há também dificuldades de audição, com relação à confusão acerca de fonemas. Outras dificuldades levantadas pelas autoras são lentidão na leitura, leitura cochichada, necessidade de apontas as palavras com algum objeto para conseguir ler, perda da linha durante a leitura e repetição da mesma frase ou palavra diversas vezes. Encontramos, também, problemas de nível social e emocional. De acordo com Luchesa (2020), caso a alfabetização não seja processada de forma adequada pode passar por estresse e frustração na educação formal, resultando em baixo rendimento escolar, baixa autoestima linguística e até mesmo em evasão escolar. Nesses casos, a mediação e a influência do professor são essenciais para que o estudante volte a ter interesse e desejo pela aprendizagem. A deficiência cognitiva refere-se ao desempenho intelectual abaixo da média. De acordo com Godoy e Dias (2014), em torno de 2% das crianças em idade escolar apresentam algum grau de deficiência cognitiva. Crianças que apresentam essas deficiências desenvolvem a linguagem com mais lentidão e podem não alcançar as etapas finais de aquisição da linguagem. 5.1 Afasias e transtornos de aprendizagem Quando nos referimos a problemas enfrentados na leitura e na escrita, recordamos das afasias e transtornos de aprendizagem. 11 Anteriormente, entendemos que as áreas de Broca e Werneck são responsáveis, respectivamente, pela fala e pela audição. Assim, quando temos algum traumatismo ou distúrbio na área de Broca — afasia de Broca, gramatical ou expressiva —, teremos problemas quanto à produção da fala (fala entrecortada, articulações defeituosas etc.). Assim, o sujeito com afasia de Broca eliminará palavras funcionais, por exemplo, ao falar “vamos praia?” no lugar de “vamos para a praia?”. Enquanto isso, o sujeito com distúrbios na área de Werneck — afasia de Werneck ou afasia semântica — terá desordens quanto à percepção da linguagem e à incapacidade para entender a linguagem oral ou escrita. Dessa forma, apesar do discurso ser gramaticalmente correto, faltarão termos específicos para completar a frase, e estes são substituídos por palavras genéricas ou por paráfrases complicadas, como em “aquele objeto para subir e descer” (Godoy e Dias, 2014). Godoy e Dias (2014) ainda elencam outras afasias ligadas à linguagem que podem interferir a aprendizagem da leitura e escrita. A afasia central ou fonêmica caracteriza-se como uma falha na habilidade de reproduzir material verbal, acarretando desordem na leitura e escrita. A anomia refere-se à falta de termos concretos, com interrupção no discurso por longas pausas, acarretando difícil compreensão do discurso. A afasia global é um transtorno que afeta a fala, a leitura e a escrita, tornando o sujeito praticamente incapaz de usar a linguagem. A afasia transcortical motora ou dinâmica refere-se à dificuldade para iniciar a falar. A alexia é um transtorno que afeta a capacidade de ler, mas não altera a capacidade de escrever. Por fim, a afemia refere-se à dificuldade de articular sons. Encontramos, ainda, a dislexia, que afeta a aprendizagem e a utilização da leitura, resultando em problemas fonológicos. Sujeitos com dislexia podem ter alto nível intelectual e ainda assim apresentar dificuldade de leitura (Godoy; Dias, 2014; Coelho; Couto, 2013). Na dislexia superficial, o sujeito tem uma deficiência na leitura das palavras. Assim, ele é capaz de ler qualquer palavra, desde que esta se ajuste a regras grafema-fonema. O sujeito não consegue distinguir palavras homófonas como cela e sela. 12 Há também a dislexia fonológica. O sujeito com esse tipo de dislexia tem dificuldade de ler palavras novas ou desconhecidas, trocando-as por outras visualmente parecidas. Para Godoy e Dias (2014,p. 91), “nesses disléxicos, acontece uma espécie de destruição do procedimento fonológico, mas preserva- se o procedimento lexical, ou seja, o acesso ao significado é realizado de uma maneira direta com base nos signos gráficos”. A dislexia profunda está relacionada à dislexia fonológica. Trata-se da incapacidade de ler palavras novas não convencionais, substituição de palavras visualmente semelhantes e apresentação de erros semânticos (trocar a palavra filho por pai, por exemplo), erros semânticos visuais (trocar a palavra piloto por avião) e de derivação (trocar a palavra adorável por amoroso) (Luchesa, 2020). A agrafia consiste na inabilidade para escrever, já a disgrafia consiste na dificuldade de escrever. O sujeito disgráfico apresenta o que é chamado de letra feia, ou seja, uma escrita que sai do considerado padrão, com caligrafia deficiente. Qualquer uma das dificuldades levantadas precisa ser investigada por especialistas. Com base no diagnóstico correto, é necessária a prescrição de tratamento ou condução adequada para a criança ou adulto. Na escola, encontramos o desafio de encontrar respostas adequadas às necessidades específicas de cada indivíduo com dificuldades, mobilizando professores e outros profissionais como psicólogos e psicopedagogos para intervenção e mediação adequadas (Coelho; Couto, 2013). NA PRÁTICA A atividade desta aula traz um estudo de caso a ser desenvolvido. Vamos analisar o caso a seguir? Helena tem sete anos de idade e está no segundo ano do Ensino Fundamental. Ela foi uma criança que demorou mais do que o tido como normal para começar a falar e tinha muita dificuldade para pronunciar algumas palavras, mesmo seu nome. Helena referia a si própria como Ena até seus quatro anos. Além disso, Helena teve dificuldade em aprender e memorizar o alfabeto, as cores e as formas, e trocava os dias da semana. Agora, no Ensino Fundamental, a menina apresenta uma grande dificuldade na leitura de frases e, por vezes, troca as letras p/b e d/t. Apesar dessas dificuldades, Helena é uma criança muito inteligente e que domina facilmente outras habilidades, como as matemáticas. 13 De acordo com o relatado acima, Helena apresenta algum tipo de transtorno de aprendizagem? Qual poderia ser esse transtorno? E qual o primeiro passo a ser realizado pelos pais e pela escola quanto à alfabetização de Helena? FINALIZANDO Nesta aula, aprendemos sobre: • as fases da aquisição da leitura e escrita; • garatujas — desordenada, ordenada e nomeada; • fases pré-esquemática e esquemática; • fases logográfica, alfabética e ortográfica; • habilidades necessárias para aquisição da leitura e da escrita; • habilidades pré-linguísticas; • três fases para a aquisição da leitura: cognitiva, de domínio e de automatização; • fatores biológicos, cognitivos, emocionais, familiares, ambientais, socioeconômicos e pedagógicos relacionados à aquisição da leitura e da escrita; • oralidade como ferramenta importante na aquisição de leitura e escrita; • o erro na aquisição da leitura e da escrita; • mediação da escola e do professor; • metodologias que favorecem a leitura e a escrita; • a ludicidade como ferramenta de leitura e escrita; • métodos sintéticos e analíticos de alfabetização; • psicogênese da escrita; • problemas enfrentados no processo de leitura e escrita; • dificuldades visuais e de audição; • dificuldade emocionais e sociais; • afasias e transtornos de aprendizagem. 14 REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, et al. 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