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CapituIo dkcimo terceiro
I. P\ vida
e o significado da obra
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em 1712. Perdendo a mae no
momento do parto, recebeu uma educaqao bastante desordenada. Em 1728 dei-
xou Genebra, e logo encontrou refugio em Les Charmettes, nas proximidades de
Chambery, junto de Madame de Warens que foi para ele mae, amiga e amante.
Em 1741 estabeleceu-se em Paris, onde estreitou amizade com Diderot e os enci-
clopedistas. Em 1750 publicou o Discurso sobre as ciCncias e sobre as artes, em 1755
o Discurso sobre a desigualdade, que Ihe valeu um imprevisto e
inesperado sucesso. Em 1758 rompeu com os enciclopedistas por r ' g U '
causa de uma divergdncia substancial de avaliaqao a respeito da pensador
sociedade do tempo. Retirando-se em Montmorency, viveu um do seculo XVl,l
period0 intenso e fecundo: em 1761 publicou a Nova Heloisa, em - 3 I
1762 0 contrato social e Emilio, mas as ultimas duas obras foram
condenadas pelas autoridades civis e eclesiasticas de Paris e de Genebra. Amar-
gurado, rejeitou seus direitos de cidadao genebrino e se transferiu para Mitiers-
Travers, no territorio de Neuchitel. Em 1766 aceitou o convite de Hume para ir a
Inglaterra, mas as relasees com o filosofo inglds foram breves e dificeis. Voltando
para a Franqa e estabelecendo-se novamente em Paris, completou as Confissdes e
o Ensaio sobre a origem das linguas. Morreu em 1778.
Rousseau aparece corno uma figura complexa e controvertida, objeto de di-
versas interpretaqees tambem opostas entre si, que convdm apenas por considera-
lo o primeiro grande teorico da pedagogia moderna. certo, em todo caso, que
Rousseau reune com seus escritos a veia profunda do lluminismo e lanqa as raizes
do romantismo, exprime traqos inovadores e reaqees conservadoras, o desejo e
ao mesmo tempo o temor de uma revolu@o radical, a nostalgia da vida primitiva
e o medo de que, por meio de lutas insensatas, se possa cair novamente naquela . . .
barbarie.
Iluminista e romiintico, individualista
e coletivista, antecipador de Kant e precur-
sor de Marx, Rousseau foi alvo de diversas
interpretagtjes e muitos estudos, a ponto
de, a partir dos anos 50 do sCculo XX, se
chegar a falar de uma "Rousseau-Renais-
sance". Definido por Kant corno "o Newton
da moral" e pel0 poeta H. Heine corno "a
cabeqa revolucioniria da qua1 Robespierre
nada mais foi do que a mio executora",
Rousseau aparece corno figura complexa
e controvertida. Considerado com razz0
corno o maior pensador do sCculo XVIII,
ele se imp& por motivos contrastantes. Para
278 Quarta parte - (3 Jlurninismo e s e u desenvolvimen+o
alguns C o teorico do sentimento interior
como unico guia da vida, para outros C o
defensor da absor~iio total do individuo na
vida social, contra as renascentes fraturas
entre interesses privados e interesses cole-
tivos; para alguns C liberal, para outros C o
primeiro te6rico do socialismo; para alguns,
C iluminista, para outros C antiiluminista;
para todos i o primeiro grande tedrico da
pedagogia moderna.
Como quer que seja lido e interpretado,
o certo C que Rousseau, nos seus escritos,
reune a veia mais profunda do Iluminismo
e langa as raizes do romantismo, expressa
impetos inovadores e reagbes conservadoras,
o desejo e, ao mesmo tempo, o temor de
urna revoluq5o radical, a nostalgia da vida
primitiva e o medo de que, por causa de lutas
insensatas, se possa recair naquela barbirie.
Figura rica e contraditoria, Rousseau fasci-
na pela complexidade dos sentimentos que
descreve e pela clara denuncia, em pleno sC-
culo XVIII, dos perigos de um racionalismo
exasperado. Com efeito, ele estava persua-
dido de que, sem os instintos e as paixGes, a
raziio torna-se estCril e acadimica, ao passo
que, sem a disciplina da razio, as paixbes
e os instintos levam ao caos individual e h
anarquia social.
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Ge-
nebra, em 28 de junho de 1712. Tendo per-
dido a miie no momento do parto, transcor-
reu sua infincia com o pai Isaac, relojoeiro
e homem que amava boimias. Confiado
primeiro a um pastor calvinista e depois
a um tio, recebeu urna educagiio bastante
desordenada. Aprendiz de gravagiio, Rous-
seau deixou Genebra em 1728 e, depois de
urna breve experiincia como camareiro de
urna familia de Turim, encontrou refugio
em Les Charmettes, nas proximidades de
ChambCry, junto de madame de Warens,
que lhe foi mie, amiga e amante. "Uma
mulher toda ternura e dogura", como ele
a recorda, que lhe possibilitou estudar e se
instruir, sem distraqGes, longe do tumult0
da cidade. Escreve Rousseau: "Uma casa
isolada sobre o declive de um vale foi nosso
refugio: la, durante quatro ou cinco anos,
desfrutei de um stculo de vida e felicidade
pura e plena, que oculta com seu esplendor
tudo aquilo que a minha situagiio presente
tem de horrivel".
Em 1741, o filosofo de Genebra dei-
xa ChambCry e se instala em Paris, onde
estabelece amizade com Diderot e, por seu
intermCdio, com os enciclopedistas. Niio
acostumado com a vida nos salbes, niio se
sentia h vontade na Paris culta, inquieto e
insatisfeito por ser musico de segunda clas-
se e humilde preceptor e caixeiro na casa
Dupin. 0 conflito entre seu eu profundo e
o mundo circunstante agugou-se a ponto
de explodir na condenaqio daquele mundo
e daquela cultura, em nome da natureza,
que lhe reservara as alegrias mais belas e
inesqueciveis.
Deixemos a Rousseau a tarefa de nos
contar o acontecimento que o induziu a
escrever os primeiros ensaios, que o impu-
seram 2 atengio da Franqa iluminista: "Eu
ia visitar Diderot, que estava preso em Vin-
cennes. Como tinha no bolso um numero do
Mercure de France, fui dando urna olhada
nele pel0 caminho. Caiu-me sob os olhos o
quesito da Academia de Dijon ('0 progress0
das ciincias e das artes contribuiu para a
melhoria dos costumes?'), que deu origem
ao meu primeiro escrito (Discurso sobre as
ciZncias e sobre as artes). Se alguma vez algo
se assemelhou a urna inspiragiio imprevista,
tal foi a emogio que me deu aquela leitura.
De repente, minha mente foi percorrida
por mil luzes; inumeraveis idCias vivas se
me apresentaram, junto com urna energia e
urna confusiio tais que me provocaram urna
perturbaqiio inexprimivel; invadiu-me um
torpor semelhante ao da embriaguez [. ..I.
Tudo o que pude recordar da multidiio de
grandes verdades que me iluminaram em
um quarto de hora debaixo daquela arvore
foi depois escassamente relatado em meus
tris primeiros escritos principais, ou seja,
o primeiro discurso [sobre as ciencias e as
artes], aquele sobre a desigualdade, e o tra-
tad0 sobre a educagiio (Emilio), trfs obras
inseparaveis, que formam um todo unico".
Recordando esse periodo, Diderot escreveu
que Rousseau era como urn barril de polvora
que teria ficado sem explodir se niio fosse a
centelha que partiu de Dijon.
A publicagiio dos primeiros dois dis-
cursos, o primeiro em 1750 e o segundo
em 1755, granjeou-lhe um imprevisto e
inesperado sucesso. Nesse meio tempo, ele
se unira a urna mulher rude e inculta, que,
no entanto, sempre esteve perto dele e com
a qua1 teve cinco filhos. E ele os confiou to-
dos, um ap6s o outro, aos Enfants trouvis,
para niio ser desviado de seus compromissos
culturais e porque, como havia ensinado Pla-
tao, a educagiio das crian~as cabe ao Estado.
A relativa tranqiiilidade familiar e o
sucesso obtido pelos primeiros ensaios per-
Capitulo de'cimo terceiro - Sean-Jacques Rousseau: o iluminista "herCticoN
279
mitiram-lhe estreitar amizade com as per-
sonalidades mais conhecidas e colaborar
na Enciclopbdia com uma strie de artigos
de cariiter musical, depois reunidos no
Dictionnaire de musique, e com o verbete
"Economia politica" (1758). Logo, porCm,
ele rompeu suas relag6es com os enciclope-
distas, por uma divergencia substancial de
avaliagio em relagiio 2 sociedade da 6poca e,
mais profundamente, em relaqiio a historia
humana e seus produtos. "Apesar de sucessi-
vas lamentag6esde longe, e procuremos reunir sob uma so visdo
esta lenta sucessdo de acontecimentos s de
conhecimentos em sua ordem mais natural.
0 primeiro sentimento do homem foi o de
sua exist&nco; seu pr~meiro cu~dado, o de sua
conserva~tdo. 0 s produtos do terra Ihe forne-
ciam todos os socorros necess6r1os; o instinto
o induziu a deles fazer uso. Uma vez que a
fome e outros apetitas o faziam sxperimentar
vez por outra diversas maneiras de vida, houve
uma que o convidou a perpetuar sua espbcie;
s esse impulso cego, desprovido de qualquer
sentimento do cora$do, ndo produziu mais que
um ato puramente animal: satisfeita a necessl-
dade, os dois sexos ndo se reconheciam mais,
e o proprio fllho ndo era mais nada para a
mde, logo que pudesse vlver sem ela. Tal foi
a condi~do do homem nascente; tal foi a vida
de um animal, limitado primeiro 6s puras sen-
saq%s, que apenas aproveitava os dons que
a natureza Ihe oferecia, longe de pensar em
Ihe arrancar algo. Mas logo se apresentaram
dificuldades; precisou aprender a venc&-10s: a
alturo das 6rvores, qua o impedia de chegar a
seus h-utos, a concorr6nc1a dos an~mais, que pro-
curavarn alimentor-se deles, a ferocidade dos
que omeapvam sua vida, tudo isso o obrigou a
dar-se aos exercicios do corpo; precisou tornar-
se 6gil, r6pido na corrida, vlgoroso no combate.
Rs armas noturais, que sdo os ramos de Clrvore
e as pedras, encontraram-se 1090 ao alcance da
sua mdo. Rprendeu a superar os obst6culos da
natureza, a combater sempre que necess6rio os
outros animais, a disputar sua subsist&nc~a corn
os propr~os homens, ou a indenizar-se daquilo
que dsvia ceder ao mais forte.
h medida que o ganero humano se es-
palhou, as fad~gas se multiplicaram com os
homens. R d~feren~a dos terrenos, dos climas,
das esta@es pode t&-los obrigado o introdu-
3"Coiso vardade~ra, d ~ z Maqu~ovel. C que algumos
dlv~sdas prejud~com as reptjblicos, a olgumas ajudom: os
que prajud~com sdo formodos ds seltos e ocornponhados
de port~ddr~os; os que ajudom se manthm sam seltos e sem
portiddr~os. Portanto, ndo podendo prover um fundodor da
umo repljbl~co sam que hap nelo lnmzodes, deve-se provar
oo manos qus ndo hap se~tos". Istorie horentine, hvro VII.
[Noto de Rousseau]
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Capitulo de'cimo terceiro - Jeafi-Jacques Rousseau: o ilumifiista "herCtico"
zi-las tambbm em sua maneira de vlver. Rnos
esthrels, invernos longos e rudes, ver6es ar-
dentes, que tudo consomem, os obrigaram a
novas industriosidades. Ro longo do mare dos
rios inventaram as linhas de pesca e os onzois,
e se tornaram pescadores e consurnrdores de
peixe. Nas florestas flzeram arcos e flechas, e
se tornaram capdores e guerreiros. Nos poises
frlos cobrlram-se de peles dos animals abatidos.
0 raro, um vulcdo, ou algum acaso afortunado
f6-10s conhecer o fogo, novo socorro contra o
rigor do inverno: aprenderam a conservar este
elemento, depois a reproduzi-lo, e por fim a
preparar com ele as carnes, que antes devo-
ravam cruas.
Esta repetlda aplicaconhecer o instrumento do qua1
quero me servir, e saber at& que ponto posso
confiar em us6-lo.
Eu existo, e tenho sentidos por meio dos
quais sou impressionado. Eis a primeira verdade
qus ms atinge e b qua1 sou for~ado a concordar.
Tenho um sentimento proprio de minha exist&n-
cia ou ndo a sinto a ndo ser por meio de minhas
sensac;des?
Cis a minha primeira dljvida que, no
momsnto, me 6 impossivel resolver. Com efei-
to, ssndo continuamente impressionado por
sensaqdes, ou imediatamente ou por meio da
msmoria, como poderia saber se o sentimento
do GU & 0190 fora das proprias sensa@as, ou
entdo pode ser independente delas?
Minhas sensagdes se desenvolvem em
mim, pois elas me fazem sentir minha exist&ncia;
mas a causa delas me & estranha, pois elas me
impressionam apesar de mim, e ndo depende
de mim produzi-las ou anul6-10s. Concabo cla-
ramente, portanto, que a sensaq50, que @st6
em mim, e sua causa ou seu objeto, que @st80
fora do mim, ndo sdo a mesma coisa.
Rssim, ndo so eu existo, mas existem
outros ssres, isto 6 , os objetos de minhas sen-
sa@es; e mesmo que estes objetos ndo fossem
mas que ~dhias, 6 sempre verdadeiro que estas
. idbias ndo s6o eu.
Ora, tudo aquilo que sinto fora de mlm
e que age sobre meus sent~dos, eu o chamo
matbrio; e todas as por~des de matbrio que
concebo reunidas em seres individuais, eu as
chamo corpos. nssim, todas as disputas dos ide-
alistas s dos matsrialistas ndo s~gnificam nada
para mim: as distinst&ios de idade e preparar para a vida social.
ao estudo dos verdades eternas, ao amor do
justip s da beleza moral, ds regiaes do mundo
intelectual, cuja contempla~do faz a delic~a do
scibio, e dos quais o outro o Ievava para ba~xo,
em si mesmo, o escravizava ao dominio dos
sentidos, ds pa~xdes que sdo seus ministros,
e contranova por seu intermddio tudo aquilo
que o sentimento do primeiro Ihe inspirava.
Sentindo-me arrastado, combatido por estes
dois movimentos contrcirios, eu me diz~a: "Ndo,
o homem ndo Q uno: eu quero e ndo quero,
sinto-me ao mesmo tempo escravo e livre; vejo
o bem e o amo, e fa20 o mal; sou ativo quando
o u ~ o a razdo, passlvo quando minhas paixaes
me arrastam; e meu pior tormento, quando su-
cumbo, & sentir que teria podido resistir".
Este contraste, e o fato de sentir-me
julgador e ativo, coisa impossivel para um ser
puramente material, me demonstra que albm
do corpo tenho tambhm uma alma imaterial,
que julga e escolhe, e & o principio ativo de
meu ser.
0 homem 6, portanto, livre em suas a@es,
e como tal animado por uma subst8ncia imate-
rial; este & o meu terceiro artigo de fd. Destes
primeiros tr&s deduzireis fac~lmante todos os ou-
tros, sem que eu continue a apresentci-10s. [...I
5. 0 sentimento que inclina ao bem
6 inato no homem
Existir para nos d sentir; nossa sens~bi-
lidade & incontestavelmente anterior b nossa
intelig&ncia, e t~vemos sentimentos antes de
iddias. Seja qual for a causa de nosso ser, ela
proveu nossa conserva~do dando-nos sentimen-
tos convenientes d nossa natureza; e ndo se
poderia negar que ao menos eles sejam inatos.
Estes sentimentos, quanto ao ~nd~viduo, sdo o
amor de si, o medo do dor, o horror da morte,
o desejo do bem-estar. Todav~a, como n6o se
pode duvidar, se o homem & soci6vel por sua
natureza, ou ao menos feito para se tornar so-
ci6vel, ele ndo pode s&-lo a n6o ser por outros
sentimentos Inatos, relatives b sua espdcle;
corn efe~to, se apenas considerarmos a neces-
sidade fisica, esta certamente deve dispersar
os hamens em vez de aproxim6-10s. Ora, & do
sisterno moral formado por meio desta dupla
relaq5o com SI mesmo e com seus semelhantes
que nasce o impulso do consc16ncia. Conhecer o
bem ndo d am6-lo: o homem n6o tem dele um
conhecimento inato; porbm, logo que sua razdo
o faz conhecer o bem, sua consc16nc1a o leva a
am6-lo; b este sentimento que & rnato.
Portanto, meu amigo, n6o creio que s ~ j a
impossivel explicar por meio de conssqu&nc~as
de nossa natureza o princip~o mediat to do cons-
+c 300 Quarta parte - 0 JI~*minismo e seu desenvolvimento
ci&ncia, independente da propria razdo. E mes-
mo que fosse impossivel, ndo seria necess6rio:
com efeito, uma vez que aquelas qua negam
este principio admitido e reconhecldo por todo
o g&nero humano n6o provam de fato que n60
existe, mas contentam-se em afirm6-lo; quando
nos afirmamos que existe, estamos igualmente
bem fundados quanto eles, e a mais temos o
testemunho interior, e a voz da consci&ncia que
depde por si propria.
Consci&ncia! Consci&ncia! lnstinto dlvino,
voz imortal e celeste; guia seguro de um ser
ignormte e limitado, inteligentee livre; juiz
infalivel do bem e do mal, que torna o homem
semelhante a Deus, 6s tu que fazes a excel&ncia
de sua natureza e a moralidade de suas a~des;
sem ti ndo sinto nada em mim que me eleve
acima dos anlmais, salvo o triste prlvil6gio de
desviar-me de err0 em erro com o auxilio de
um intelecto sem regra e de uma razdo sem
principios.
Graps ao c&u, eis-nos libertos de todo
este aparato espantoso de filosofia: podemos
ser homens sem ser sapientes; dlspensados de
consumar nossa vida no estudo da moral, temos
por menor preGo um guia mais seguro neste
dQdalo imenso das opinides humanas. Mas n60
6 suficlente que o guia exista; 6 preclso saber
reconhec6-lo e segui-lo.
Mas acreditais que exista sobre toda a
terra um so homem tdo depravado que nunca
tenha abandonado seu coraq3o B tent0560 de
fazer bem? Esta tentag30 & tdo natural e tdo
doce, qua 6 impossivel resistir a ela sempre;
e a Iembranp do prazer que ela produziu uma
vez & suficiente para retom6-la sem repouso.
Desgrac@amente ela & primeiramente dificil de
satisfazer; h6 milhares de razdes para recusar-
se B inclinqdo do proprio coraq3o; a falsa pru-
d&ncia o encerra nos limites do eu humano; sdo
necess6rios m~lhares de esfore tentativas de recuperagiio,
era (para os enciclopedistas) uma perda
inevitivel, determinada por uma variedade
de idCias substanciais, por sua vez derivada
de sensibilidades diferentes em relagio as
exigencias da luta ideologico-politica" (F.
Diaz). A ruputura oficial deu-se por aquele
manifesto anti-philosophes, que C a Lettre a
dYAlembert sur les spetacles, de 1758.
Nesse meio tempo, Jean-Jacques se
havia retirado para o Ermitage de Mont-
morency, onde habitou em uma casa de
madame dYEpinay. Aqui ligou-se sentimen-
talmente com a cunhada dela, madame
dYHondetot, e acreditou poder realizar o
sonho de p6r de acordo os philosophes com
os tradicionalistas. Contudo, por varias ra-
z6es, o resultado foi a ruptura com Diderot
e dYHolbach.
Rompidas as relag6es tambim com
madame dYEpinay, Rousseau se transferiu
para o castelo do marechal de Luxemburgo,
onde viveu um periodo fecundo. Em 1761
publicou a Nouvelle Hbloise, em 1762 Le
contrat social e, em 1763, o Emile. Mas
as conseqiiencias de seu rompimento com
a philosophie logo se fizeram sentir: com
efeito, tanto o Emilio como o Contrato
foram condenados pelas autoridades civis
e eclesiasticas, tanto em Paris como em Ge-
nebra, por uma espCcie de conjura entre
crentes, ateus e deistas.
Assim, ele abandonou definitivamente
Genebra e se transferiu para Mitiers-Tra-
vers, no territorio de Neuchiitel, que de-
pendia do rei da Prussia. Ai escreveu alguns
trabalhos polimicos, entre os quais Les
lettres bcrites de la montagne, em resposta
2s Cartas escritas d o campo, que Tronchin
havia escrito em defesa da atitude politi-
co-cultural genebrina. Manifestando-se
tambCm aqui alguns motivos de hostilidade
a seu respeito, porque era personagem inc6-
moda e polemica contra todos, ele aceitou o
convite do fil6sof0 David Hume e foi para
a Inglaterra. Mas as relag6es com o filosofo
ingles foram breves e dificeis. Tomado de
mania de perseguigiio, alimentada pelas
condenag6es genebrina e parisiense, ele
logo deixou a Inglaterra, voltando A Franga,
onde se dedicou a viajar para desafogar sua
inquietude.
Voltando a se instalar em Paris, foi
morar em modesto tCrreo da rua Platikre,
onde dedicou-se a completar as Confessions
e escreveu os Dialogues ou Rousseau, juge
de Jean-Jacques, e as Rzveries du promeneur
solitaire. Juntamente com o ensaio Essai sur
l'origine des langues, confiou esses escritos
ao amigo Paul Moultou, para que cuidasse
de sua publicagio.
Ja velho e cansado, doente e deprimi-
do, Rousseau aceitou o convite do marques
de Girardin, em cujo castelo transcorreu
os ultimos meses de sua vida em clima de
relativa tranqiiilidade psicologica. Atingido
por insolagiio durante um passeio a tarde,
morreu em 2 de julho de 1778.
/cLrrr,l~~sques Rousscuu ( 1 7 12- 1778)
6 0 grirr~tie / )crrsdor tlcfitlitio por K ~ ~ t l t
c-cjl~o o "Nc~lltorz tlir r~ror i~l" ,
0 [>P/O / ) O C f d H ~ r u cnatureza, sobre o qua1 influi o mito
quinhentista do "bom selvagem", o
homem e originariamente integro,
biologicamente sadio e moralmente
reto, e mau e injusto apenas depois,
por um desequilibrio de ordem social:
a natureza humana, deixada a seu
livre desenvolvimento, leva ao triunfo
dos instintos, dos sentimentos e da
autoconserva@o, e nao da reflexao,
da razao e da aniquilaqao.
0 "estado de natureza" e, portanto,
um mitico estado originario, posto
aquem do bem e do ma/, do qua1
o homem progressivamente decaiu
por causa da "cultura", responsavel
pelos males sociais da epoca atual: a
passagem do "estado natural" para o
"estado civil" marcou para Rousseau
um verdadeiro regresso.
dos sentimentos, niio da razio; do instinto,
n i o da reflexio; da autoconservaqiio, n io da
opressio. 0 homem n i o C somente raziio,
alias, originariamente o homem niio C razio,
mas sentimentos e paix6es.
&, 0 "estado de natureza"
como estiwulo de wudanCa
p a r a o howew wodevno
Entretanto, embora Rousseau olhe
nostalgicamente para aquele passado, sua
atenqiio esta toda voltada para o homem
presente, corrupt0 e desumano. N i o se
pode falar de primitivismo ou de culto B
barbarie, at6 porque Rousseau conhece os
limites desse estado de vida. A proposito, eis
um trecho significativo do Discurso sobre a
desigualdade: "Vagando pela floresta, sem
trabalho, sem palavra, sem domicilio, sem
guerra e sem laqos, sem qualquer necessi-
dade dos seus semelhantes, como tambCm
sem nenhum desejo de incomodii-los, talvez
tambCm sem nunca reconhecer algum deles
individualmente, o homem selvagem, sujeito
a poucas paix6es e bastando-se a si mesmo,
nada mais tinha que os sentimentos e os
conhecimentos proprios daquele estado, so
experimentava as necessidades verdadeiras,
olhava apenas o que lhe interessava ver, e sua
inteligincia n i o ia alCm de sua vaidade. Se,
por acaso, fazia alguma descoberta, nem po-
dia transmiti-la, visto que sequer reconhecia
seus filhos. A arte perecia com seu inventor.
N i o havia educaqiio nem progresso. As
geraq6es se multiplicavam em viio e, partin-
do cada uma do mesmo ponto, os sCculos
transcorriam e a rudeza da era primitiva
mantinha-se inalterada; a espicie jii estava
velha, mas o homem ainda era crianqa."
Concluindo, o mito do "bom selva-
gem" C sobretudo uma esptcie de categoria
filosofica, uma norma de juizo com base na
qua1 condena-se a estrutura historico-social
que mortificou a riqueza passional do ho-
mem, bem como a espontaneidade de seus
sentimentos mais profundos. Confrontando
o homem como ele era com o homem como
ele 6, ou "o homem feito pelo homem com
o homem obra da natureza", Rousseau pre-
tendia estimular os homens a uma mudanla
salutar.
282 Q U ~ M parte - 0 Jluminismo e s e u desenvolvimen+o
contra os enci~lo~edistas, mas iluminista
Rousseau e contra a cultura tal qua1 historicamente se configurou, porque
ela deturpou a natureza. 0 homem seguiu urna curva de decadencia: o espirito
competitivo e conflitivo n3o e origindrio, mas derivado, porque 6 fruto da historia.
Contra a cultura 6 precis0 perseguir a ignorincia razoavel que,
A ignorsncia segundo Rousseau, nasce de vivo amor pela virtude e consiste em
razoavel delimitar a propria curiosidade as faculdades que foram recebidas.
contra a cultura Rousseau considerava, portanto, responsaveis pelos males
- 3 1-3 sociais justamente as cartas, artes e ciencia em que os enciclope-
distas apoiavam as causas do progresso, e as considerava como
nascidas dos vicios da arrogancia e da soberba, e como fonte de ulterior corrupg80;
a historia desses desvios e injustisas comesou com o nascimento da desigualdade
entre os homens, que, por sua vez, surgiu com a propriedade.
Rousseau 6 contra os iluministas; n30, porem, contra o Iluminismo, porque
ele considera a raza"o como o instrumento privilegiado para a superas30 e a vitoria
sobre os males em que seculos de desvios lan~aram o homem. 0
A volta caminho da salvas%o e para ele o caminho da volta a natureza
a natureza e, portanto, da "re-naturaliza@o" do homem por meio de um
carninhO relineamento da vida social, necessaria urna transforma@o do
da salva@O espirito do povo, urna reviravolta completa, urna total transfor-
+ 3 4-6 mas30 das instituis6es que ponham o homem nas condis6es de
realizar sua mais profunda liberdade. Para tal finalidade e pre-
ciso recuperar o sentido da "virtude", entendida como transparencia constante
e mdtua relac30 entre interior e exterior da sociedade, a qua1 hoje encontra-se
totalmente eiteriorizada.
Rousseau C contra a cultura, assim co-
mo ela se configurou historicamente, porque
ela deturpou a natureza.
Originariamente sadio, o homem v@-
se agora desfigurado; outrora semelhante
a um dew, tornou-se agora pior do que
animal feroz. 0 homem seguiu uma curva
de decadhcia. Transferir as desigualdades,
os desniveis e as injustiqas do presente para
o homem originario ou referi-las a estrutura
do homem significa ler o passado com os
olhos do presente.
0 espirito competitivo e conflitivo n io
C originario, mas derivado, porque C fruto
da historia. Em substiincia, e duramente,
Rousseau pronuncia um juizo severo e ra-
dical sobre tudo o que o homem fez e disse,
corno, por exemplo, sobre a reduqso do ho-
mem a realidade racional e sobre a exaltaq5o
dos seus produtos culturais, porque n io fize-
ram a humanidade progredir, e sim regredir.
Nem toda ignoriincia deve ser com-
batida. Ha urna ignorincia que deve ser
cultivada: " H i urna ignoriincia feroz e
brutal, que nasce de um espirito perverso e
de urna mente falsa; existe, em suma, uma
ignoriincia criminal que degrada a razio,
multiplicando os vicios. Mas ha, salienta
Rousseau, urna ignorhcia que podemos
dizer razoavel, pois delimita a curiosidade
ao Smbito das faculdades recebidas; urna
ignoriincia modesta, indiferente a tudo o
que n5o C digno do homem; urna ignoriincia
'doce e preciosa', tipica de um iinimo puro
e contente consigo mesmo".
2 0 que se chama
" P v ~ g v e ~ ~ ~ " & urn " v e g v e s s o "
A posiqio de Rousseau, com efeito,
foi urna posiqao "escandalosa", porque ele
considerava como responsaveis pelos ma-
les sociais justamente aquelas letras, artes e
Capitulo de'cimo terceiro - Jean-3acsues Rousseau: iluminista "herCtico" 283
ciincias nas quais os enciclopedistas viam as
causas do progresso. Nascidas dos vicios da
arrogiincia e da soberba, as ciincias, as artes
e as letras n i o fizeram progredir a felicidade
humana, mas consolidaram os vicios que as
provocaram, como podemos ler no Discurso
sobre as ciBncias.
0 progresso 6, portanto, urna linha que
procede inexoriivel para o melhor, para a
perfeiqio? Na realidade, aquilo que para os
enciclopedistas era progresso, para Rousseau
era regress0 e ulterior corrupqio. "Todos
os progressos da espicie humana afastam-
na continuamente de seu estado primitivo;
quanto mais acumulamos novos conhecimen-
tos, mais nos impedimos de adquirir o maior
e mais importante dos conhecimentos."
Mas como comeqou essa historia de
desvios e injustiqas?
Comeqou com o nascimento da desi-
gualdade entre os homens. E a desigualdade
nasceu com o nascimento da propriedade, e
com as hostilidades conseqiientes.
3 V i s ~ o pessimista da histbria
A visiio de Rousseau, portanto, C urna
visio radicalmente pessimista da historia e
do seu curso, bem como de seus produtos
culturais. Voltaire desqualificou o Discurso
sobre a desigualdade como "um libelo con-
tra o ginero humano". De fato, imputando
ao saber e ao "progresso" os problemas
que os philosophes atribuiam a religizo e
i s varias formas de superstiqio herdadas do
passado, Rousseau se colocava contra todos
os enciclopedistas, particularmente contra
Voltaire, cujo programa de propaganda das
novidades teatrais, sobretudo da produeio
de Molikre, ele tachava de esqualido por
defender formas culturais que estimulavam
os vicios e se demonstravamincapazes de
distinguir o que C fruto de urna falsa cul-
tura e o que C tipico da natureza humana.
Rousseau subverte a 6tica de interpreta-
qio da historia. Em si, o homem n i o C lob0
para o homem. 0 homem tornou-se tal no
curso da historia. 0 estado natural n io C o
estado do instinto violento e da afirmaqio da
vitalidade sem controle. "Tudo C bom quando
sai das mios do Autor das coisas", ao passo
que "tudo degenera nas mios do homem".
E radical a antitese entre natureza e cultura,
entre estado primitivo e estado civil em sua con-
figuraqio sociopolitico-econ6mica. 111
a sociedade
Podemos dizer que Rousseau C contra
os iluministas, niio contra o Iluminismo,
do qua1 C intirprete e fautor inteligente; ele
C contra os jusnaturalistas, n i o contra o
jusnaturalismo.
Rousseau i um iluminista, porque
considera a raziio como o instrumento pri-
vilegiado para a superaqio dos males em que
sCculos de desvio haviam lanqado o homem,
e para a vitoria sobre eles.
Rousseau 6 um jusnaturalista porque
rep6e na natureza humana a garantia e os
recursos para a salvaqio do homem. Mas
C contra os iluministas e jusnaturalistas da
Cpoca, que consideravam j i encaminhado
o itineririo da libertaqio. A seus olhos, a
sociedade ainda estava no prolongamento
de urna historia de decadincia e superstiqso,
considerando as artes, as ciincias e as letras
como baseadas em falsos pressupostos, ou
seja, na negaqiio daquela riqueza do homem
que era possivel perceber agindo nos povos
primitivos e que ele sentia viva dentro de si.
0 caminho da salvaqao C outro: C o cami-
nho do retorno a natureza e, portanto, o cami-
nho da "renaturalizaqio do homem" atravCs
de urna reimpostaeio da vida social em con-
diqaes de bloquear o ma1 e favorecer o bem.
jV6o basta
reformar as cigncias
e welhorar as tkcnicas
A sociedade n i o ode ser curada com
simples reformas interias ou corn o simples
progresso das ciincias e das ttcnicas. Torna-
se necessiria urna transformaqio no espirito
do povo, urna reviravolta completa, uma
mudanqa total das instituiqoes. Em outras
palavras, C necessaria urna grande e dolorosa
revoluqiio, urna ruptura radical. A racionali-
dade iluminista, toda exteriorizada, C preci-
so opor urna racionalidade interiorizada, em
condig6es de recuperar a voz da consciincia.
Com efeito, "se o selvagem vive em si mes-
mo, o homem da sociedade, sempre voltado
para fora de si, so sabe viver da opiniio dos
outros e, por assim dizer, C apenas do juizo
dos outros que ele tira o sentimento de sua
284 Quarta parte - 0 Jluminismo e seu desenvalvimento
propria existikcia". A sociedade se exte-
riorizou completamente, e o homem per-
deu sua vinculaqio com o mundo interior.
Assim, C necessario operar urna nova
sutura entre o interior e o exterior, para
frear aquele movimento dissolvente ou dis-
sipar aquelas vis aparzncias que os homens
seguem, combatendo-se e oprimindo-se uns
aos outros. Com tal objetivo, C preciso que
nos apoiemos no potencial de bondade que
existe no homem, mas em estado virtual
e n5o manifesto, para assim reconstruir o
mundo social em urna harmonizaqio total
e constante das duas vertentes, sem fraturas
ou conflitos. Em suma, C preciso recuperar o
sentido da virtude, entendida como constan-
te transparcncia e inter-rela~io entre interior
e exterior.
0 MOVO modelo de raaho
q u e melhora o homem
Reentrando em si mesmo, porCm, o
homem nZo se defronta com urna realidade
n5o contaminada, mas encontra um espiri-
to cicatrizado do ma1 que se acumulou ao
longo da historia. Dai a urghcia de urna
convers50 que parta do interior do homem
e, portanto, de um repensamento de todos
os seus produtos culturais, cuja fungio serii a
de ajudar a criar instituigdes sociais que nHo
distorgam o desenvolvimento do homem,
mas o coloquem em condiqdes de realizar
sua mais profunda liberdade.
Rousseau n5o C contra a razio ou
contra a cultura. Ele C contra um modelo
de raziio e contra certos produtos culturais,
porque lhes escapou aquela profundidade
ou interioridade do homem, i qua1 esti
ligada a possibilidade de mudanga radical
do quadro de conjunto, social e cultural.
Ele se bate pel0 triunfo da raz50, mas nio
cultivada por si mesma, sem densidade e au-
tenticidade, e sim como filtro critic0 e polo
de agregaqgo dos sentimentos, dos instintos
e das paixGes, tendo em vista urna efetiva
reconstrug50 do homem integral, n5o em
urna direqio individualista, e sim em urna
diregzo comunitiria.
0 ma1 nasceu com a sociedade e C com
a sociedade, desde que devidamente renova-
da, que ele pode ser expulso e debelado.
No Contrato social, Rousseau comeca com a frase: "0 homem nasceu livre
e, todavia, em todo lugar encontra-se em cadeias". 0 objetivo do novo contrato
social delineado por Rousseau e o de libertar o homem das cadeias e restitui-lo a
liberdade. lsso comporta a constru@o de um modelo social fundado sobre a voz
da conscihcia complexiva do homem, aberto a comunidade.
0 principio que legitima o poder e garante a transformacao
0s objetivos social e a vontade geral amante do bem comum, que e fruto de
do novo um pacto de uniao que, instituido entre iguais que permanecem
contrato social sempre tais, da lugar a um corpo moral e coletivo: a vontade geral
-- g 1-3 nao 6, portanto, a soma das vontades de todos os componentes,
mas urna realidade que brota da renuncia de cada um aos proprios
interesses em favor da coletividade. Esta e, portanto, urna socializa~i30 radical do
homem, de sua total coletiviza@o, voltada a impedir a emerg6ncia e afirmagao
de interesses privados: a vontade geral, encarnada no e pelo Estado, e tudo.
lh- 0 MOVO a~ranjo Rousseau no Contrato social. Romper as
q kvgeral 6 fruto de um pacto unionis que
se d i entre iguais, que continuam sendo tais,
porque, como escreve Rousseau no Contrato
social, trata-se da "alienagio total de cada
individuo, com todos os seus direitos, a toda
a comunidade [dando lugar] a um corpo
moral e coletivo [. . .] que extrai desse mesmo
ato sua unidade, seu eu comum, sua vida e
sua vontade" .
A vontade geral, portanto, niio C a soma
das vontades de todos os componentes, mas
uma realidade que brota da renuncia de cada
um a seus proprios interesses em favor da
coletividade. E um pacto que os homens niio
estreitam com Deus ou com um chefe, mas
entre si mesmos, em plena liberdade e com
perfeita igualdade.
Estamos diante de uma socializa@o ra-
dical d o homem, de sua total coletiviza@o,
para impedir que emerjam e se afirmem os
interesses privados. Com a vontade geral
pel0 bem comum, o homem s6 pode pensar
em si pensando nos outros, ou seja, somente
atravCs dos outros, e deve considerar os ou-
tros n5o como instrumentos, mas como fins
em si. NinguCm deve obedecer ao outro, e
sim todos h lei, sagrada para todos, porque
fruto e express50 da vontade geral.
Todos os esforgos que o novo pacto
social impee, portanto, est5o voltados para
a eliminag50 dos germes dos contrastes entre
interesses privados e interesses comunita-
rios, absorvendo os primeiros nos segundos
e, graqas h completa redugso do individuo
a membro da sociedade, impedindo que
os interesses privados aflorem e rompam a
harmonia do conjunto.
Rousseau, portanto, destaca com extre-
mo vigor a interiorizaq50 da vida social e de
seus deveres. N5o ha nada de privado. Tudo
C public0 ou, pel0 menos, deve tornar-se tal.
Vontade geral. o principio que
legitima o poder e garante a trans-
formar;%o social inaugurada pelo
"novo contrato". Enquanto a vontade
particular tem sempre como objeto o
interesse privado, a vontade geral 6,
ao contrario, amante do bem comum,
e se propde o interesse comum: ela
n%o e, portanto, a soma das vontades
de todos os componentes, mas uma
realidade que brota da renuncia de
cada um aos proprios interesses em
favor da coletividade.
286 Quarto parte - 0 Jluminismo e seu desmvolvimen+o
Contrato social. 0 unico caminho
para remediar a decadhcia da huma-
nidade e a relativa falta de liberdade
e, para Rousseau, a estipulaqao de
um novo contrato social, em vista de
um renovado "estado civil", contrato
que se exprime nos seguintes termos
essenciais: "Cada um de nos p6e em
comum sua pessoa e todo seu poder,
sob a direqlo suprema da vontade
geral". Trata-se da alienaqzo total
de cada associado, com todos os seus
direitos, a toda a comunidade, por
meio da qua1 "se produz imediata-
mente um corpo moral e coletivo
unitdrio", cujos associados "tomam
coletivamente o nome de povo, e
singularmente se chamam cidadaos,
enquanto participantes da autori-
dade soberana, e suditos, enquanto
submissos as leis do Estado".
0 homem C essencialmente social, um ani-
mal politico. As ciincias, as artes e as letras
devem dar contribuiqiio insubstituivel nessa
direqiio, sob a lideranqa carismiitica de uma
espCcie de filosofo-rei de origem plat6nica.
Trata-se de um guia carismatico e clarividen-
te, que sabe mobilizar e conjugar os esforqos
de todos, para que cada qual queira o bem
comum e fuja do mal, identificado com os
interesses privados.
Para tanto, o homem so deve obedecer
i consciCncia publica que t o Estado, fora
do qual ha apenas conscizncias privadas
ou individuais, que devem ser condenadas
porque s5o nocivas.
Encarnada no Estado e pel0 Estado,
a vontade geral C tudo. E o primado da
politica sobre a moral, ou melhor, e a fun-
damentaqiio da moral na politica. A defesa
do bem comum chega a tal ponto que leva
ao esvaziamento do individuo, de sua indi-
vidualidade, bem como B sua absorq5o pel0
corpn social, sem deixar restos. a
0 principio-guia da obra-prima de Rousseau, o Emilio, consiste na liberdade
bem guiada pela raza"o, em nao abandonar o homem a voz dos instintos, mas em
educa-lo a voz superior da razao. 0 process0 educativo. que deve
serpermanente, deve variar conforme os estagios e preparar para 0 Emilio:
a vida social. subtraindo o educando as atitudes nefastas, egoistas
e conflitivas que e precis0 lentamente eliminar no quadro do novo pe,a rarso
contrato social. E isso comporta a educaqao de todo o homem. , 7-6
sentimentos e razao. a vontade geral e ao bem comum que sera0
as colunas da nova estrutura social.
~apitulo dkcimo terceiro - .=Jean-3aques R o u s s e a u : o iluminista "herCtico"
287
S\ e d ~ c a q h o
8 4
conforme a voz d a razz0
Educar para as exigincias do novo
pacto social C empresa irdua, que exige
coragem e forqa. Com efeito, n5o se trata
de abandonar o homem A voz dos instintos,
mas de educi-lo para subjuga-10s h voz su-
perior da raz5o.
Trata-se de urna orientaqiio que, an-
tes do Emilio, a obra-prima pedag6gica
de Rousseau, ja,podia ser encontrada na
Nova Heloisa. E significativo o episodio
amoroso de Julie e Saint Preux. Sua paix5o
sem freios e sem vinculos representa o "es-
tad0 natural". Mas logo a sociedade imp6e
limites: com efeito, embora continuando a
amar Saint Preux, Julie C obrigada a casar
com certo Wolmar. A sociedade o exige e
o imp6e.
Pois bem, apesar dessas contradiqoes
psicol6gicas, quando, no dia do casamento,
Julie pee-se a refletir sobre o significado da
liturgia, por sugestiio do oficiante, tendo
por moldura seus parentes e amigos como-
vidos, sente em seu interior urna re'volution
subite, urna espCcie de conversiio que a leva
a mudar seus sentimentos e a submet&los h
logica mais ampla da raz5o social. 0 grande
movimento das paix8es se abranda, o caos
dos instintos se dissipa e tudo se coloca em
seu lugar.
Niio 6 A 16gica do mundo prC-racional
que se deve obedecer, mas A logica da har-
monia racional, h qual tudo deve lentamente
se submeter, em urna espCcie de renovado
equilibrio de todos os homens e de todo o
homem. Niio o desequilibrio ou a fratura,
mas sim a ordem e a hierarquia. Nesse
context0 e nessa direqiio, Kant se remetera
a Rousseau, definindo-o como o "Newton
da moral".
Um exemplo andogo temos no Emilio,
que, apaixonado por Sofia, C obrigado por
seu preceptor, que outra coisa n5o C sen50
a forqa moral do seu eu superior, a empreen-
der urna viagem, separando-se dela, a fim de
dominar sua paixio: "N5o ha felicidade sem
coragem, nem virtude sem luta: a palavra
'virtude' deriva da palavra 'forqa', pois a
forqa esta na base de toda virtude [. . .]. Vi-
te crescer mais bom do que virtuoso - diz
o preceptor -, mas quem C somente bom so
se mantCm tal enquanto encontra prazer em
st-lo, enquanto sua bondade n5o C aniqui-
lada pela furia das paixoes [...I. Ate agora,
tu tens sido livre na apartncia, desfrutando
unicamente da liberdade precaria de escra-
vo, ao qual nada foi ordenado. Mas agora
j i t tempo de seres realmente livre, para que
saibas ser senhor de ti mesmo e saibas co-
mandar o teu coraq5o: s6 com essa condiqiio
se comanda o coraqiio".
.ad 0 c~rande principio
J&i a
d a liberdade bem g ~ i a d a
Com efeito, o principio-chave do ro-
mance pedagogic0 Emilio (uma das maiores
obras-primas da literatura pedagogica de
todos os tempos) n io t constituido pela
liberdade caprichosa e desordenada, e sim
por urna "liberdade bem orientada". Para
tanto, "n5o se deve treinar urna crianqa
quando n5o se sabe conduzi-la aonde se
quer, somente atravCs das leis do possivel e
do impossivel, cujas esferas, sendo-lhe igual-
mente desconhecidas, podem ser ampliadas
ou restringidas diante dela como melhor
convier. Pode-se prendt-la, impeli-la ou det&
la sem que ela se d2 conta, somente atravts
da voz da necessidade. E pode-se torna-la
mansa e d6cil somente atravCs da forqa das
coisas, sem que nenhum vicio tenha condi-
$50 de germinar em seu coraqiio, porque as
paix8es nunca se acendem quando siio vis
em seus efeitos."Essa strie de elementos e de artificios
devem servir ao preceptor para tornar mais
facil o desenvolvimento ordenado de todas
as potencialidades humanas. 0 amor por si
mesmo deve transformar-se em amor pela
comunidade e tornar-se amor pelos outros.
As paixoes, que "siio os instrumentos de
nossa conservaqiio", devem se transformar
em estratigias de defesa da comunidade.
0 s instintos devem amadurecer, a ponto de
oferecer densidade e consisthcia A razso, i
qual cabe a conduqio da vida cornunitaria.
Para tanto, o itinerario deve ser gradual e
respeitar os estigios de desenvolvimento.
Antes de mais nada, o preceptor niio
deve considerar a crianqa como urn adulto
em miniatura. 0 process0 educativo, que
288 Quartu parte - 0 Jluminismo e reu desrnvolvimen+o
deve nos acompanhar em todas as fases
de nossa vida - educaqgo permanente -,
deve variar segundo os estagios: "A natureza
quer que as crianqas sejam crianqas antes de
serem homens. A infibcia tem certos modos
de ver, de pensar e de sentir inteiramente
especiais, nada i mais tolo do que querer
substitui-10s pelos nossos".
Respeitando esse estagio, do nascimen-
to aos doze anos de idade, i preciso enfatizar
o exercicio inteligente dos sentidos. Seguin-
do as sugestoes do contemporineo e amigo
Condillac, Rousseau escreve: "As primeiras
faculdades que se formam e se aperfeiqoam
em nos s5o os sentidos, que, portanto, deve-
riam ser cultivados em primeiro lugar, mas
que, ao contrario, s5o esquecidos ou inteira-
mente relegados. Exercitar os sentidos n5o
quer dizer somente usa-los, mas aprender a
julgar bem atravCs deles, ou seja, por assim
dizer, aprender a sentir, porque n5o sabemos
tocar, nem ver, nem ouvir sen50 no mod0
pelo qual aprendemos". Dai a exigEncia de
educar a crianqa a desenvolver livremente
a necessidade de mover-se, de brincar e de
tomar posse de seu proprio corpo.
4 A educaG6o dos doze
aos quinze anos
Dos doze aos quinze anos i preciso
desenvolver uma educa@o intelectual,
orientando a atenq5o do jovem para as cien-
cias, da fisica B geometria e a astronomia,
mas atravis de um contato direto com as
coisas, com o objetivo de faze-lo captar a
regularidade e, portanto, a necessidade da
natureza. Mais que aprender a ciencia, i
preciso educar a crii-la, respeitando os rit-
mos aos quais se devem adequar a vida sem
deturpa-la. E o period0 no qual os instintos
e as paixoes, confrontando-se com as leis
da realidade, com a resistencia das coisas,
com os limites que elas nos estabelecem e,
ao mesmo tempo, com os pontos de apoio
que elas nos oferecem, devem se dobrar
progressivamente, transfigurando-se na
mais ampla logica da racionalidade natural.
A forqa das coisas, a dura necessidade da
realidade, constituem o banco de provas
da educaq50.
$: A e d u c a G 5 0 dos quinze
aos vinte e dois anos
Dos quinze aos vinte e dois anos, a
atenq5o deve se concentrar na dimens50
moral, no amor ao proximo, na necessidade
de compartilhar os sofrimentos do proximo
e esforqar-se por alivia-los, no sentido da
justiqa e, portanto, na dimens50 social e
comunitiria da vida individual, pela qual
comeqa o seu ingress0 efetivo no mundo dos
deveres sociais. Como complemento desse
itinerario, cuidar-se-a tambim da educaqao
para o casamento, que n5o C o lugar da
espontaneidade ou do amor passional e
puramente emotivo, mas da transfiguragiio
dessa carga passional naquela alegria espiri-
tual que deriva da subordinaqgo da pr6pria
vida aos deveres da coletividade.
6 A educac&o corno carninho
para a sociedade renovada
0 itinerario pedagogico, que deve pre-
parar para a vida social, subtrai o educando
daqueles comportamentos nefastos, egoistas
e conflitivos que 6 preciso eliminar lenta-
mente no quadro do novo contrato social.
Isso comporta a educaq5o do homem inteiro,
sentimentos e raziio, para a vontade geral
e para o bem comum que s5o os pilares da
nova construqiio social.
A educaq5o i o caminho para a socie-
dade renovada, com todo o seu rigor e a sua
expans50 social, bloqueando no berqo toda
forma de egoismo, bem corno toda forma de
ansiedade pel0 futuro, que apaga a alegria
do presente. A certeza de uma sociedade
harmhica, dominada pela vontade geral,
evita os falsos sentimentos provocados por
uma sociedade competitiva, e nos convoca
a desfrutar o presente e toda situag50, livres
dos temores e dos fantasmas da imaginagio
de um futuro competitivo e conflitivo.
A pedagogia de Rousseau se ilumina no
quadro do Contrato social e, portanto, de
uma vida politica renovada que, explicitan-
do as condiq6es de pertenga e as garantias
de desenvolvimento, encarna o verdadeiro
preceptor do Emilio.
Capitalo dLcimo terceiro - j e n n - 3 a c q u e s R o u s s e a u : o iluminista "herCtico"
289
A proposito da religiao, Rousseau procura chegar a urna atitude "verdadei-
ramente natural", que coincide com a natureza humana, com a voz da consciencia
filtrada pela razao social. As linhas fundamentais desta religiio natural, que exclui
todo aspect0 sobrenatural (corno a divindade de Cristo, os milagres ou as profecias)
porque considerado nocivo a vida social e ofensivo a Iogica, sao
expostas no capitulo IV do Emilio, com o titulo "Profissao de fe AS linhas
do vigario saboiano". fundamentais
Rousseau distingue entre urna religiao do homem e urna da religiao
religiiio do cidadso. No que se refere a religizo do homem, as do homem
verdades a manter sao duas: a existhcia de Deus e a imortali- da religiao
dade da alma; ao lado da religiao do homem, 6 precis0 depois $ii;-;dd"O
estabelecer urna profissao de fe puramente civil, da qua1 cabe ao
soberano fixar os artigos, n%o tanto como dogmas religiosos, e
sim como sentimentos de sociabilidade, sem os quais e impossivel ser bons cida-
daos e suditos fieis. NSo e a Igreja, mas o Estado que e, portanto, o linico orgao
da salvac;ao individual e coletiva, porque lugar privilegiado do desenvolvimento
integral das potencialidades humanas.
Da mesma forma como pretendia recriar
urna sociedade verdadeiramente natural,
isto 6, em condig6es de recuperar as instin-
cias originarias da natureza humana, mas
submetida i s exigincias da raziio, tambim
a prop6sito da religiiio Rousseau procura
alcangar urna atitude "verdadeiramente
natural", coincidente com a natureza hu-
mana, com a voz da consciencia, filtrada
pela raziio social.
Se a preocupaq50 principal i a garantia
da convivhcia no quadro da vontade geral
e do bem comum, a religiio deve traduzir
essas inst2ncias e fortalecs-las atravis de
urna estreita relagiio com a vida politica.
As linhas fundamentais dessa religiiio
natural, que marginaliza como nocivo para a
vida social e ofensivo i 16gica da raziio tudo
o que i sobrenatural, como a divindade de
Cristo, os milagres ou as profecias, estio ex-
postas no capitulo IV do Emilio, sob o titulo
"Profissiio de f i do vigirio saboiano".
Rousseau distingue uma religiiio d o
homem de urna relzgiiio do cidadiio. No que
se refere $ religiiio do homem, sQo duas as
verdades a reter: a existincia de Deus e a
imortalidade da alma. A primeira 6 admitida
porque representa a unica explicaggo para
o movimento da matiria, para a ordem e a
finalidade do universo. A segunda deriva
da impossibilidade de que o mau triunfe
sobre o bom. 141
O cristianismo
como religiZio
qMe separa o homem
do cidadZio
E quanto ao cristianismo? Corn o dogma
do pecado original e da salvagio sobrenatu-
ral, a doutrina cristii foi urna das causas da
corrupqio da vida social. Trazendo para o
imbito do espirito os valores e os vinculos
mais profundos entre os homens, enquanto
filhos de Deus e, portanto, irmiios, o cristia-
nismo conquistou o conceit0 de comunidade
universal, mas somente em nivel espiritual.
Forgando e impelindo no intimo as forgas
dos homens, deixou indefesa a comunidade
no plano das relagoes sociais e terrenas.
Sendo ultramundana, tal religiiio gerou uma
sociedade universalque, sendo somente
espiritual, abriu as portas a toda forma de
tirania e egoismo.
No cristianismo trata-se de urna in-
terioridade da separada da exterioridade:
290 Qua, pa& - O Jluminismo e seu de+envolvimen+o
a primeira C lugar de unidade; a segunda,
sendo solta e distanciada da primeira, C lugar
de prepotencia e de toda forma de egoismo.
A medida que separa a teologia da poli-
tics, o homem do cidadiio, o espago privado
e interior do espago publico, o cristianismo
deve ser combatido, porque niio contribui
para o aperfeigoamento da vida politica.
Esta, ao contrario, exige uma religiiio que
fortalega sua sacralidade e garanta sua es-
tabilidade.
Por conseguinte, ao lado da religiiio
do homem, essencializada na existfncia de
Deus e na imortalidade da alma, C preciso
p6r "uma profissiio de fC puramente civil,
cujos artigos cabe ao soberano fixar, niio
mais precisamente como dogmas de religiiio,
mas como sentimentos de sociabilidade,
sem os quais C impossivel ser bom cidadiio
e sudito fiel". Esses artigos siio os mesmos
da religiiio do homem ou religiiio natural,
acrescidos da "santidade do contrato social
e das leis" e tambCm de um dogma negativo,
a intolerhcia. Esse dogma implica que "C
preciso tolerar todas aquelas religides que,
por seu turno, toleram as outras, desde que
seus dogmas niio contenham nada de con-
tr6rio aos deveres do cidadiio. Mas quem
quer que ouse dizer que fora da Igreja n5o
ha salvagiio deve ser expulso do Estado".
Com efeito, niio C a Igreja, e sim o Es-
tad0 o unico orgiio de salvagiio individual
e coletiva, por ser o lugar privilegiado do
desenvolvimento integral das potencialida-
des humanas.
Como certo estudioso salientou, a
"revolugiio" que Rousseau queria atuar
termina por conduzir a concepgiio de um
Estado Ctico que engloba todos os valores,
e tal Estado arrisca ser verdadeiramente
totalitiirio.
Capitulo dkc imo terceiro - j e a ~ - 3 a r ~ u e s Rousseau: o i lumi~ista "hev&ticon
291
ROUSSEAU
0 CAMINHO DO RETORNO A NATUREZA
I Do ESTADO DE NATUREZA,
I
dimenslo ideal de uma humanidade 1 originariamente integra, biologicamente sadia e moralmente reta 1
1 em primeiro lugar pela instituiqlo da
p r o p r i e d a d e 1
1
chegamos
ao "ESTADO CIVIL", 2 CULTURA,
em que predomina
o espirito competitivo e conflitivo,
e as letras, as ciCncias e as artes
s lo fruto dos vicios
da arroghcia e da soberba.
0 homem
seguiu por isso uma curva
I de decadcncia, tornando-se
I sempre mais sujeito
B maldade e B injustiqa:
I "0 homem nasceu livre, e todavia
em todo lugar se encontra em cadeias"
I
t
0 caminho da salvaflo da humanidade 6 , portanto,
o caminho da RENATURALIZACAO do homem
1 mediante um redelmeamento global da vida social.
I Isso pode se dar unicamente por um novo
I
I CONTRATO SOCIAL,
1 pacto de unilo instituido entre iguais que permanecem sempre tais:
ele d6 lugar a um corpo moral e coletivo (o Estado) I
I regulado pela
I
VONTADE GERAL ~ amante do bem comum:
1 a realzdade que brota da renuncra
de cada u m dos componentes da sociedade I aos prdprios interesses particdares e m favor da coletiuidade.
I
I Este C o verdadeiro principio que legitima o poder
I
I e garante a transformaflo social:
1 a vontade geral, encarnada no e pel0 Estado, C tudo.
Quarta parte - O Jluminismo e seu desewolv imento
nascarn dos vicios
dos homsns
0 pn'rneiro ataque decisivo dssferido por
Rousseau contra a modernidads rernonta oo
Discurso sobre as ci&ncias e as artes, escrito
entre outubro de 1 749 e rnorgo de 1 750, por
ocosido de urn concurso orgonizado pslo
Rcadernia de Dijon.
R tsss de fundo sustsntada por Rous-
ssau C que o progrssso das ci&ncios s das
artes "nodo ocrescenta 2, verdadeiro felici-
dade do hornem, mas, antss, corrompe ssus
costumes". De to1 modo ele submetio 2, critico
ssvera a id& Cora aos enciclopedistos,
ssgundo a qua1 entre o progress0 do sober
cientifico e o melhoria das concligaes sociais,
politicas e morais da humanidade subsistiria
uma correspond&ncia substancial.
Era tradi@o antiga, passada do Egito para
a GrQcia, qua um Deus inirnigo do repouso dos
homens fosse o inventor das ci&ncias. Qual
opinido, portanto, dela deviam ter os proprios
egipcios, junto aos quais elas haviam nascido?
0 fato Q que elss viam de perto as fontes que
as tinham produzido. De fato, tanto se revirar-
mos os anais do rnundo, corno sa suprirrnos com
pesqulsas filosoficas as crbnicas incertas, ndo
encontraremos paro as ci&ncias humanas uma
origem que responda ?I idQia que delas gosta-
mos de ter. A astronomia nasceu do supersti@o;
a eloqu&nc~a, da ambi@o, do odio, da adula-
@o, da rnentira; a gsometria, da ovaraza; a
fisica, de uma vd curiosidads; todas, e a propria
moral, do orgulho hurnano. As ci&ncias e as artes
devem portanto seu nascirnento a nossos vicios:
duvdariamos msnos de suas vantagens caso o
d~v6sssrnos ds nossas virtudes.
Seu vicio de origern est6 ainda muito
reproduzido em ssus objetos. Que faremos
das artes, sem o luxo que as aliments? Sem
a injustip dos homens, para o que serviria a
jurisprud&ncia? 0 qua se tornam a historia, se
ndo houvesse tiranos, guerros, conspiradores?
Quem desejaria, em uma palavra, passar a
vida em estQreis contampla~bes, se coda um,
nada mais consultando a n8o ser os dsveres
do homem e as necessidades da naturaza, ndo
tivesse tsrnpo sendo para a patrio, para os in-
felizes 5 para os amigos? Somos n6s portanto
feitos para rnorrer apegados a beira do po~o,
pro, dentro do qua1 a verdade se retirou? Esto
irnica reflex60 devsria frear desde os primeiros
passos todo homem que procurasse seriarnente
instruir-ss corn o sstudo da filosofia.
Quantos psrigos, quantos falsos caminhos
na pesquisa cientifica! for quantos erros, mil
vezss mais perigosos do que uteis para a ver-
dade, ndo 5 preciso passar para a ela chegar?
0 dano Q visivel, porque o falso & suscetivel de
uma infinidada de combina@es; mas a verdade
tem apenas um so modo de ser. Quem est6 do
outro lado, que a busque com toda a sinceri-
dade? Mesmo com a rnelhor boa vontade, corn
qua1 sinal estamos seguros de reconhec&-la?
Nesta multiddo de sentimentos divsrsos, qua1
ser6 nosso criteriurn para dela bem julgar? E, o
que Q mais dificil, caso no fim a sncontrsmos,
qusm de nos sabera dela fozer born uso?
Se nossas ci&ncias s60 vds no objetivo
a qus se propbem, sdo ainda mais perigosas
pelos efsitos que produzern. Nascidas no ocio,
por sua vsz o alimentam, s a parda irrepar6vel
de tempo & o primeiro prejuizo que necessaria-
msnte produzem para a sociedade. Tanto na
politica como no moral, & um grande ma1 ndo
fazer o bem; e todo cidad8o inljtil pode ser
considerado um hornem prsjudicial.
Respondei-me, portanto, Filosofos ilustres,
vos que sabeis por qua1 razdo os corpos se
precipitam no v6cuo: quais s80, nas revolu~bes
dos planetas, as relag3es das 6reas percorridas
em tempos iguais, quais curvas t&rn pontos
conjugodos, pontos de desvio e da reflexdo;
como o homern v& tudo em Deus; como a alma
e o corpo ss correspondem sem comunica~do,
como o fariarn dois relogios; quais astros podem
ser habitados; quais insetos se produzem de
modos extraordrn6rios. Respondei-me, digo,
vos, de quem recsbemos tantos conhecimentos
sublimes: se tombern vos ndo tiv6sseis apren-
dido nada dessas coisas, seriamos por isso
menos numerosos, menos bem governados,
menos temiveis, menos florescentes ou menos
perversos? Meditai novamknte, portanto, a
respe~to da importcncia de vossas obras; e se
os trabalhos dos mais ilurninados cientistas e
da nossos melhores cidaddos nos oferecern
t8o pouca utilidade, dizei-nos o que devemos
pensar dessa rnult~ddo de escritores obscuros e
literatos ociosos, que davoram em pura perda
os recursos do Estado. [. . .]
Se o culto das ci&ncios & prejudicial paro
as qualidades guerreiras, ainda mais danifica
as qualidades morais. Desde nossos primeiros
Capitdo dkcimotevceiro - j e a n - j a q ~ e s Roussea~ : o i l~minista "herktico"
anos uma educqdo insansata enfeita nosso
espirito e corrompa nosso juizo. Vejo de toda
porte institutos imensos, onde se educa corn
grandes despesas a juventude para ensinar-
Ihe todos as coisas, exceto seus deveres.
Vossos filhos ignorardo sua propria lingua;
mas Falardo outras que ndo estdo em uso ern
nenhurn lugar; saberdo cornpor versos que rnol
poderdo cornpreender; sem s a b r discernir o
erro da verdade, possuirdo a arts de torn6-10s
irreconheciveis aos outros com balos argurnen-
tos; mas as palavras de magnanirnidade, de
equidade, de ternperanca, de humanidads, de
coragem, ndo saberdo o que sejarn; este doce
nome de patria ndo tocar6 jarnais seu ouvido;
e se ouvirem falar de Deus, ser6 ndo tanto
para o reverenciar, mas para dele ter rnedo.
Eu teria gostado mais, dizia urn sdbio, que meu
aluno tivesse passado o tempo em urn jogo de
bola; ao rnenos o corpo seria mais galhardo.
Sei que 6 preciso ocupar os rapazes, e qua o
ocio 6 para ales o perigo mais temivel. 0 que
& preciso, portanto, que aprendam? Cis ai um
grande problems! Que aprendam aquilo que
devem fazer quando forem homens e ndo aquilo
que devern esquecer. [. . .]
Todavia, se o progresso das ciencias e
das artes nada acrescentou b nossa verdadeira
felicidade; se corrompeu nossos costumes, e
se a corrup~do dos costumes corroeu a pureza
do gosto, o que pensaremos entdo daquela
multiddo de autores slernsntares, que remo-
veram do templo das mums as dificuldades
que Ihe vdavarn o acesso, dificuldadss que
a natureza havia espalhado como prova das
Forgx daqueles qua tentossem sober? 0 que
pensaremos entdo daqueles compiladores de
obras, qua indiscretamante arrornbaram a porto
das ciencias e introduziram em seu santudrio
um populacho indigno de a ele se aproxirnar,
enquanto seria desej6vel que todos aqueles
qus ndo podiam continuar mais longe na car-
reira literdria tivessem sido rejeitados desde a
entrada, e houvessem sido voltados para artes
uteis r3 sociedade? Um homem que ser6 por
toda a vida um mau versificador, um ge6metra
de qualidade inferior, ter-se-ia tornado talvez
urn grande fabricante de tecidos. Ndo houve
necessidade de mestrss para aqueles que a
natureza destinava a criar discipulos. 0 s Veruld-
mio, os Descartes, os Newton, estes mestres do
g&nero humano, eles mesmos ndo os tiveram; e
quais guias os ter~am conduzido at6 onde seu
grande g&nio os Ievou? 0 s mestres ordin6rios
so teriam podido apequenar o intelecto deles,
obr~gando-o b estreita capacidade do mesmo.
for causa dos primeiros obst6culos aprenderam
a fazer esforc;os e se axercitaram para superar
o imenso @spa50 que percorreram. Sa devemos
permitir a algu6m entregar-se ao estudo das
ci&ncias e das artes, 6 t6o-somente bqueles que
se sentirBo com a forea de caminhar por si sos
sobre suas pagodas s de ultrapassa-10s: a esse
pequeno nljmero pertenca elevar monumentor;
d gloria do espirito humano.
J.-J. Roussaau,
Discurso s o h as ci&ncias a sobm as arks.
a vontada garal
e cr sobsranicr
0 Contrato social ( 1 762) se abre corn
a cdebre Frase: "0 homem nosceu livre, e
ern todo lugor estd ocorrentodo". Embora
n6o sabendo explicar porque acontega tal
rnudanp, Rousseau se prop& individuor as
caracterkticas constitutivas de urn0 socieda-
de nova e perhito q u ~ posso devolver ao
hornern suo liberdode originciria.
E desso Forrna o FilosoFo de Genebra
desenho umo sociedade na qual o triunfo
nos deliberagdes pliblicas cab@ sempre a
vontade geral, a qual C fruto do pacto de
unido com o quo1 coda individuo alieno to-
talmsnte os proprios direitos, cedendo-os 2,
comunidade; o exercicio da vontade gsrol d a
soberania, qus jomois pode ssr alienado.
1. 0 pacto social
Suponho que os homens tenham chegado
ao ponto em que os obstdculos, que prejudi-
cam sua conservacdo no estado de natureza,
tornern corn sua resist&nc~a a diantelra sobre
as foreas qus coda individuo possa empregar
para manter-se em tal estodo. EnMo aquele
estado origindrio ndo pode mais subsist~r; e o
g&nero humano pereceria, caso ndo mudasse
seu modo de ser.
Ora, como os homsns ndo podem gerar
novas foreas, mas apenas unir e dir~gir as
exlstentes, eles ndo t$m mais outro meio de
conservar-se, a ndo ser formando por agrega-
$60 uma soma de foreas, que possa prevalecsr
sobre a resistencia, coloc6-las em movimento
para um so escopo, e faz&-las operar de acordo
com ele.
Esta soma de forcps so pode nascer do
concurso de diversos homens, mas, sendo a
for~a e a libsrdade de coda homem os prlmeiros
I , 294 Quarta parte - 0 J lumi~ i~mo e seu desenvolvimento
instrumentos de sua conservaRousseau salievzta o fato de que tudo
& O M deve se tornar publrco.
Aqui e reprodundo o frontispicto da ohra.
295 :11
Capitdo de'cimo terceiro - Jean- Jacques R o m s e a u : o iluminista "herktico"
representado a ndo ser por si masmo; el@ pode
transmitir o poder, mas ndo a vontade.
Com efeito, se ndo & impossivel que
uma vontads privada esteja de acordo sobre
algum ponto com a vontade geral. & impossi-
vel ao menos que este acordo seja dur6val e
constante; porque a vontade individual tende
por sua natureza ds prefer&ncias, e a vontade
geral b igualdade. € mais impossivel ainda
qua haja um garante de tal acordo quando at&
seria necessario qua sempre axistisse; isso ndo
seria resultado de arte, mas de puro acaso. 0
soberano pode bem d im: "Quaro atualmente
aquilo qua quar aquele determinado homem,
ou pelo menos aquilo que ele diz querer", mas
ale ndo pode dizer: "Rquilo que aquele homem
ir6 querer amanhd, eu o quero ainda", pois 6
absurd0 qua a vontade d& a si propria cadeias
para o futuro, e ndo depends de nenhuma von-
tade o consentimento com uma coisa contr6ria
ao barn daquela que quer. Se, portanto, o povo
prometer simplesmente obedecer, neste ato ele
se dissolve, perde sua qualidads de povo; a
partir do momanto que h6 um patrdo, ndo h6
mais um soberano, e dai por diante o corpo
politico est6 destruido.
lsso ndo quer dizer qua as ordens dos
chefes n60 possam passar como vontade geral,
at& que o soberano, embora livre de se opor, se
abstenha disso. Em tal caso, do sil&ncio univer-
sal se deve presumir o consenso do povo. Mas
isto ser6 explicado mais amplamente.
b. A sobarania 6 indiiisival
Pela propria razdo de que a soberania 6
inalien6vel, ela Q indivisivel; porque ou a von-
tade & gerall ou ndo 6; ela ou 6 a do corpo po-
pular ou apenas ds uma parte. No primeiro caso
esta vontade declarada & um ato de soberania
e produz lei; no segundo B tdo-somente uma
vontade particular ou urn ato de magistratura;
quando muito, um decreto.
Nossos politicos, porbm, ndo podendo
dividir a soberania em seu principio, dividern-no
em seu objeto: eles a divrdem em for