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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS 1.INTRODUÇÃO: CONCEITO E OBJETIVOS A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi delineada pela Carta das Nações Unidas e teve como uma de suas principais preocupações a positivação internacional dos direitos mínimos dos seres humanos, em complemento aos propósitos das Nações Unidas de proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais de todos, sem distinção de sexo, raça, língua ou religião. Trata-se do instrumento considerado o “marco normativo fundamental” do sistema protetivo das Nações Unidas, a partir do qual se fomentou a multiplicação dos tratados relativos a direitos humanos em escala global. A Declaração foi adotada e proclamada em Paris, em 10 de dezembro de 1948, pela Resolução 217 A-III, da Assembleia Geral da ONU. Com fundamento na dignidade da pessoa humana, a Declaração Universal nasceu como um código de conduta mundial para dizer a todo o planeta que os direitos humanos são universais, bastando a condição de ser pessoa para que se possa vindicar e exigir a proteção desses direitos em qualquer ocasião e em qualquer circunstância. O que se deve entender é que a Declaração Universal visa estabelecer um padrão mínimo para a proteção dos direitos humanos em âmbito mundial, servindo como paradigma ético e suporte axiológico desses mesmos direitos. (INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS) 2.ESTRUTURA DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL Composta de trinta artigos, precedidos de um “Preâmbulo” com sete considerandos, a Declaração Universal tem uma estrutura bipartite: conjuga num só corpo tanto os direitos civis e políticos, tradicionalmente chamados de direitos e garantias individuais (arts. 3.º ao 21), quanto os direitos sociais, econômicos e culturais (arts. 22 ao 28), os direitos coletivos. OBS: A Declaração não previu mais que direitos substanciais, não tendo instituído qualquer órgão internacional com competência para zelar pelo cumprimento dos direitos que estabelece. É interessante observar que o art. 29 da Declaração proclama os deveres da pessoa para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível (discurso liberal, proveniente dos ideais liberais do sec. XVIII); e o art. 30, por sua vez, consagra um princípio de interpretação da Declaração sempre a favor dos direitos e liberdades nela proclamados (discurso social da cidadania) → o valor da liberdade com o valor da igualdade. 2.1 Direitos comtemplados pela Declaração Universal Segundo a ótica de internacionalização dos direitos humanos: a) O art. 1.º da Declaração inaugura o rol de direitos deixando expresso que todas as pessoas “nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; continua dizendo que tais pessoas são dotadas “de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”; b) Toda pessoa tem “capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição” (art. 2.º, § 1.º); c) O “direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” (art. 3.º); d) É vedada a escravidão ou servidão, sendo a escravidão e o tráfico de escravos proibidos em todas as suas formas (art. 4.º); e) Ninguém também “será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante” (art. 5.º); f) O princípio segundo o qual todos “são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei”, vem reconhecido no art. 7.º; g) Ninguém será “arbitrariamente preso, detido ou exilado” (art. 9.º); h) Todos têm direito, em situação de plena igualdade, “a uma audiência justa e pública por parte de um Tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ela” (art. 10); i) É garantida a presunção de inocência do indivíduo “até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa” (art. 11, § 1.º); j) Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais grave do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso (art. 11, § 2.º). No rol das liberdades stricto sensu, a Declaração garante: a) A “liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado” (art. 13, § 1.º); b) A de “deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a ele regressar” (art. 13, § 2.º); c) O direito de toda vítima de perseguição “de procurar e de gozar asilo em outros países” (art. 14, § 1.º); d) Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade (art. 15, § 1.º), ninguém podendo ser “arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade” (art. 15, § 2.º); e) Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família (art. 16, § 1.º). A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado (art. 16, § 3.º); f) Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros; e ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade (art. 17, §§ 1.º e 2.º); g) Garante-se o direito à liberdade religiosa, inclusive o direito de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular (art. 18). Dos artigos 22 em diante a Declaração elenca os direitos sociais, econômicos e culturais protegidos (direitos coletivos): a) O art. 22 inicia dispondo que toda pessoa, “como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento de sua personalidade”; b) O direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego é garantido pelo art. 23, § 1.º. Do direito à igual e justa remuneração pelo trabalho tratam os §§ 2.º e 3.º do mesmo art. 23; c) Toda pessoa tem direito ao repouso e ao lazer, inclusive à limitação razoável das horas de trabalho e às férias remuneradas periódicas (art. 24); d) Fica garantido a toda pessoa o direito “a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, o direito à segurança, em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle” (art. 25, § 1.º); e) Toda pessoa tem direito à educação (na Declaração se lê instrução) gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais (art. 26, § 1.º), devendo a educação elementar ser obrigatória. Cabe aos pais a prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos (art. 26, § 3.º); f) A Declaração também assegura direitos culturais, garantindo a toda pessoa o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios (art. 27, § 1.º). 3.NATUREZA JURÍDICA DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL A Declaração Universal não é tecnicamente um tratado, eis que não passou pelos procedimentos tanto internacionais como internos que os tratados internacionais têm que passardesde a sua celebração até a sua entrada em vigor. Também não guarda as características impostas pela Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969) para que um ato internacional detenha a roupagem própria de tratado, especialmente por não ter sido “concluída entre Estados”: foi unilateralmente adotada pela Assembleia Geral da ONU. Assim, a priori, seria a Declaração somente uma “recomendação” das Nações Unidas, adotada sob a forma de resolução da Assembleia Geral, a consubstanciar uma ética universal em relação à conduta dos Estados no que tange à proteção internacional dos direitos humanos. Apesar de não ser um tratado stricto sensu, a Declaração Universal deve ser entendida, primeiramente, como a interpretação mais autêntica da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”, constante daqueles dispositivos já citados da Carta das Nações Unidas. Em segundo lugar, é possível (mais do que isso, é necessário) qualificar a Declaração Universal como norma de jus cogens internacional, pois a Declaração ser referida em todo o mundo, ao longo de vários anos, como um código de ética universal em matéria de direitos humanos. Como quer que seja, a Declaração Universal representa, como explica Norberto Bobbio, a manifestação da única prova por meio da qual “um sistema de valores pode ser considerado humanamente fundado e, portanto, reconhecido: e essa prova é o consenso geral acerca da sua validade”. (BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 26.) 4.RELATIVISMO VERSUS UNIVERSALISMO CULTURAL A polêmica em pauta visa responder à questão sobre serem os direitos humanos propriamente “universais”, ou, ao contrário, “relativos”, caso em que cederiam ao que estabelecem os sistemas políticos, econômicos, culturais e sociais vigentes em determinado Estado. A doutrina relativista sustenta, basicamente, que os meios culturais e morais de determinada sociedade devem ser respeitados, ainda que em detrimento da proteção dos direitos humanos nessa mesma sociedade. Entende tal doutrina que não existe uma moral universal, e que o conceito de moral, assim como o de direito, deve ser compreendido levando-se em consideração o contexto cultural em que se situa. A segunda Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena, 1993) consagrou os direitos humanos como tema global, reafirmando a sua universalidade e consagrando a sua indivisibilidade, interdependência e inter-relacionariedade. Foi o que dispôs o § 5.º da Declaração e Programa de Ação de Viena, de 1993, nestes termos: Todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter- relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração, assim como diversos contextos históricos, culturais e religiosos, é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, sejam quais forem seus sistemas políticos, econômicos e culturais. O propósito da Conferência de Viena de 1993 foi o de revigorar a memória da Declaração Universal de 1948, trazendo novos princípios (além do já consagrado princípio da universalidade) para os direitos humanos contemporâneos, quais sejam: a) Princípio da indivisibilidade: os direitos humanos – direitos civis e políticos e direitos sociais, econômicos e culturais – não se sucedem em gerações, mas, ao contrário, se cumulam e se fortalecem ao longo dos anos; b) Princípio da interdependência: os direitos do discurso liberal hão de ser sempre somados com os direitos do discurso social da cidadania, além do que democracia, desenvolvimento e direitos humanos são conceitos que se reforçam mutuamente; c) Princípio da inter-relacionariedade: os direitos humanos e os vários sistemas internacionais de proteção não devem ser entendidos de forma dicotômica, mas, ao contrário, devem interagir em prol de sua garantia efetiva. Como a Declaração de Viena de 1993 deixou claro, além de os direitos humanos serem universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados, as particularidades nacionais e regionais (assim como os diversos contextos históricos, culturais e religiosos dos Estados) não podem servir de justificativa para a violação ou diminuição desses mesmos direitos. Visou demonstrar que os direitos humanos têm por fundamento o fato de serem inerentes a todos os seres humanos, independentemente dos diversos particularismos presentes em cada Estado, justificando, assim, sua anterioridade em relação a toda a ordem jurídica. Compreendeu-se, a partir daquele momento, que o relativismo cultural não pode ser invocado para justificar violações a direitos humanos; entendeu-se que as culturas devem ser respeitadas, mas que não podem servir de pretexto para justificar o não cumprimento das obrigações internacionais do Estado relativas a direitos humanos. A tese universalista – segundo a qual se deve ter um padrão mínimo de dignidade, independentemente da cultura dos povos – defendida pelas nações ocidentais, saiu, ao final, vencedora, afastando de vez a ideia de um relativismo cultural no que tange à proteção dos direitos humanos. A Declaração consagra um mosaico de valores que cristalizam padrões universais de tolerância e respeito para com os seres humanos, sem os quais a vida em sociedade seria impraticável. Por consequência, enriqueceu-se o universalismo desses direitos ao se impor aos Estados o dever de promover e proteger os direitos humanos de todos, independentemente dos respectivos sistemas ou particularismos culturais, impedindo que seja questionada a observância de tais direitos com fundamento no relativismo ou, mais ainda, no dogma da soberania estatal absoluta. Acredita-se, nesse sentido, que o § 5.º da Declaração de Viena chegou a um consenso ou denominador comum coerente, ao permitir que se levem em conta as particularidades nacionais e regionais, assim como diversos contextos históricos, culturais e religiosos, sem deixar, contudo, de impor aos Estados o dever de promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Daí se entender que a diversidade cultural deve ser um somatório ao processo de asserção dos direitos humanos, não um empecilho a este. 5.IMPACTO (INTERNACIONAL E INTERNO) DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL Não há dúvidas de que a Declaração Universal exerce influência tanto na ordem internacional como na ordem interna, impactando positivamente nessas duas ordens jurídicas. O grande impacto internacional da Declaração Universal de 1948 diz respeito à sua qualidade de fonte jurídica para os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Nesse sentido, ela tem servido de paradigma e de referencial ético para a conclusão de inúmeros tratados internacionais de direitos humanos, quer do sistema global como dos contextos regionais. No âmbito do direito interno brasileiro a Declaração de 1948 serviu de paradigma para a Constituição Federal de 1988, que literalmente “copiou” vários dos seus dispositivos, o que demonstra que o direito constitucional brasileiro atual está em perfeita consonância com o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Assim, parece nítido que a Declaração tem repercutido intensamente nos textos constitucionais dos Estados, independentemente de sua obrigatoriedade ou não pela ótica estrita do direito internacional clássico, tendo sido reproduzida ipsis litteris em diversas Constituições nacionais. Por fim, não se pode esquecer que a Declaração tem servido de fonte para as decisões judiciárias nacionais. Fonte: Mazzuoli, Valerio de Oliveira Curso de Direitos Humanos. 8. ed. – Rio de Janeiro: Forense; MÉTODO, 2021.