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Resumo – Psicanálise Melanie Klein Klein coloca a técnica do brincar como equivalente à associação livre. A criança sofre e não sabe expressar; exprime o sofrimento no brincar, e o analista o ajuda a nomear. Ao interpretar não apenas as palavras, mas também as atividades da criança com o brinquedo, Klein aplicou um princípio básico à mente da criança, cujo brincar e atividades variadas, na verdade, todos os seus comportamentos são modos de se expressar, o que nós adultos expressamos predominantemente por meio de palavras. Klein ficou convicta de que a precondição para psicanálise de criança é de compreender e interpretar as fantasias, sentimentos, ansiedades, experiências expressas no brincar, ou se as atividades do brincar estão inibidas, as causas da inibição. Duas etapas importantes: a análise de Erich e a mudança para Berlim. Matriz do pensamento Kleniano: o brincar e a análise infantil como fundamentos legítimos da clínica. Klein privilegiava a expressão pessoal e a observação clínica. Obra fundamentada na descrição do funcionamento mental de bebês e crianças. Enfatiza a relação com os objetos; o que a pulsão faz com o objeto. Para Klein, existe diferença entre criança (fase do desenvolvimento; temporário) e o infantil (atemporal; experiência que se tem como criança e não passa na fase adulta, molda o psiquismo). Klein defendia a ideia de que o Complexo de Édipo tinha início antes do que Freud imaginava. Diz que começaria bem mais cedo, durante o desmame. O bebê já se encontra exposto a muitos impulsos sádicos e sexuais. Tendências edipianas de início se expressam sob a forma de impulsos orais e anais. No final da fase oral, a criança deseja destruir o objeto libidinal (o seio), mordendo-o e devorando-o (relação de voracidade). Já na fase anal, a sensação de prazer vem da excreção e retenção das fezes. A criança percebe que as excreções que ela faz produz um efeito na realidade. A frustração do treinamento de higiene funciona como castração. A castração acontece também nos pais. A autora reitera que as tendências edipianas são liberadas como consequência da frustração da criança com o desmame, que se manifesta no final do primeiro ano de vida da criança, reforçada também pelas frustrações anais sofridos durante o treinamento de hábitos de higiene. Desse modo, o complexo tem início nas "fases pré-genitais do desenvolvimento”. Nesse sentido o pensamento da autora considera que o processo inicial das tendências edípicas, provocam importante ansiedade em decorrência das fantasias de ataques contra o corpo da mãe que faz surgir uma imago de uma mãe hostil que desmembra e castra. *Édipo se trata de quem faz o quê, de quem desempenha cada papel. Superego arcaico: medo da criança de ser retalhada pelo objeto. A sensação de poder sobre o ambiente que surge com o controle dos esfíncteres representa outro elemento sádico. Esses impulsos, inicialmente, encontram-se voltados para o corpo da mãe. Neste período, ocorrem dois traumas severos, que caminham em direção a um afastamento da mãe: a frustração de seus desejos orais e a frustração dos prazeres anais. Portanto, desde o início, os desejos edipianos ficam associados ao medo de castração e aos sentimentos de culpa (castigo/punição). O sentimento de culpa é o resultado da introjeção dos objetos amorosos edipianos e é produto da formação do superego. A autora conclui que a estrutura do superego das crianças pequenas é formada a partir das primeiras identificações com os pais. Para Klein, as frustrações orais e anais formam o protótipo de todas as frustrações posteriores para o resto da vida, estão associadas à punição e dão origem à ansiedade. Assim como na associação livre, o brincar revela o conteúdo latente. O tratamento do primeiro paciente de Klein foi em casa, com seus brinquedos. Utilizou exploração do inconsciente, transferência e associação livre (através do brincar). Para Klein, para realizar a psicanálise de uma criança, é necessário entender e interpretar. Se o brincar está inibido, deve-se buscar as causas. Klein concluiu que a psicanálise não deveria ser realizada na casa da criança, pois esse espaço representava uma atitude ambivalente da criança e uma atmosfera hostil ao tratamento. A situação transferencial só poderia ser estabelecida e mantida se a psicanálise for realizada fora da casa do paciente, para que ele possa superar suas resistências e se expressar livremente. Segundo a autora, é essencial serem brinquedos pequenos, porque seu número e variedade permitem à criança uma maior amplitude para se expressar. Os equipamentos de brincar de cada criança são guardados e trancados em uma gaveta particular e ela assim sabe que seus brinquedos e seu brincar com eles são apenas conhecidos por ela e o analista. Segundo Klein, a criança muitas vezes assume o papel do adulto, expressando assim não apenas seu desejo de reverter os papéis, mas também demonstrando como se sente em relação a seus pais ou outras pessoas de autoridade (como se comportam em relação a ela ou deveriam comportar-se). Às vezes a criança dá vazão à sua agressividade, sendo, no papel dos pais, sádica em relação à criança, representada pelo analista. É essencial permitir que a criança expresse sua agressividade. Sentimentos de culpa podem seguir-se logo após a criança ter quebrado um brinquedo. Esta culpa refere-se não apenas ao estrago real produzido, mas ao que o brinquedo representa no inconsciente da criança. Por exemplo: sentimento de culpa por ter quebrado um boneco que representava inconscientemente um irmão ou um pai, a interpretação tem que lidar com níveis mais profundos. A partir deste comportamento da criança para com o analista, ela pode mostrar não apenas a culpa, mas também a ansiedade persecutória como consequência de seus impulsos destrutivos. Klein lembra que é necessário manter e delimitar o limite desses impulsos (não se deve bater no analista). Essa atitude protege tanto o analista como a análise, evitando culpas e ansiedades persecutórias excessivas e desnecessárias. A atitude da criança para com o brinquedo que ela danificou é muito reveladora. Um dia a criança pode procurar pelo brinquedo danificado em sua caixa, isto sugere que foram analisadas algumas defesas importantes, diminuindo assim os sentimentos persecutórios e tornando possível que os sentimentos de culpa sejam vivenciados. Sugere também mudanças na relação da criança com o elemento representado pelo brinquedo. A ansiedade persecutória diminuiu juntamente com o sentimento de culpa, aparecendo o desejo de fazer a reparação. Essas mudanças são importantes para a formação do caráter e para as relações de objeto, assim como para a estabilidade mental. Por exemplo, muitas vezes a criança deixa de lado o boneco danificado (representação de figura afetiva significativa, um irmão) demonstrando certa persecutoriedade de que a pessoa atacada tenha se tornado um retaliador, a culpa e depressão em excesso podem reforçar também o sentimento persecutório. E, o sentimento de perseguição pode ser tão forte que encobre os de culpa e depressão, que por sua vez, quando despertados pela percepção do dano produzido resultam em melhora. Quando isso acontece, percebemos melhora na relação com irmão, os sentimentos de culpa, depressão, o desejo de fazer reparações e o sentimento de amor que estava prejudicado pela ansiedade voltam a primeiro plano. Quando a criança quebrar um brinquedo dentro do consultório, não se deve consertá-lo ou jogá-lo fora. Caso a criança volte a procurá-lo, com o desejo de reparação, deve-se reparar o brinquedo junto a ela. O analista deve permitir à criança vivenciar suas emoções e fantasias na medida em que aparecem. Deve compreender a mente do paciente e comunicar a ele o que ocorre nela. O eu do bebê quando experimenta o sentimento de culpa,começa a criar as defesas arcaicas contra a ansiedade persecutória. As conexões entre consciente e inconsciente são mais próximas em crianças pequenas do que em adultos e as repressões infantis são menos poderosas. Nessa obra aparecem também as primeiras noções teóricas de maior alcance, como, por exemplo, a discriminação entre angústia persecutória e culpa, e a importância da transformação do superego arcaico em um superego desenvolvido, com sua forma acabada de consciência moral, capaz e tendo por pressuposto a capacidade de levar o outro em consideração. Interpretação transferencial: levar de volta suas fantasias e ansiedades para o lugar onde elas se originaram, ou seja, na infância e na relação com seus primeiros objetos. Para Klein, a atenção do analista deve estar centrada sobre as ansiedades da criança. Por meio da interpretação de seus conteúdos, é possível diminuir a ansiedade. Para tanto, utiliza a linguagem simbólica do brincar. Freud – Sonhos X Klein – Brincar da criança = ambos símbolos de acesso ao inconsciente. As relações de objeto iniciam-se quase no nascimento e surgem com a primeira experiência de amamentação. Desta forma, todos os aspectos da vida mental estão intimamente ligados a relações de objeto. A ansiedade depressiva surge como um resultado da síntese pelo ego dos aspectos bons e maus (amados e odiados) do objeto (posição depressiva). Esta é precedida pela Posição Esquizo-Paranóide (primeiros 3 meses de vida), que é caracterizada por ansiedade persecutória e processos de cisão. No estabelecimento de relação de objeto parcial o amor e o ódio, bem como os aspectos bons e maus do seio, são mantidos amplamente separados um do outro e na posição depressiva são unificados, pois na ansiedade depressiva, o bebê sente que está destruindo um objeto inteiro com sua voracidade e agressão, sente que esses impulsos destrutivos são dirigidos contra uma pessoa amada A criança possui emoções complexas e criadas através do conflito. Para Klein, a vida mental do bebê é influenciada pelas mais arcaicas emoções e fantasias inconscientes. O bebê tem um conhecimento inconsciente inato da existência da mãe. O bebê não espera da mãe apenas o alimento, mas deseja também o amor e a compreensão. A primeira e fundamental relação na vida do bebê é a relação com a mãe. Nos primeiros meses de vida a mãe representa para o bebê todo o mundo externo. Desta foram, tanto o que é bom quanto o que é mal vem à sua mente como provindos dela. Nesse sentido, o bebê não reconhece a existência de mais ninguém a não ser a de si mesmo (o seio da mãe para ele simplesmente uma parte de si mesmo – apenas uma sensação no início), e ele espera que todos seus desejos sejam satisfeitos. Ao descobrir que não pode suprir suas necessidades, põe a chorar e a gritar, torna-se agressivo. O bebê também experimenta frustração, desconforto e dor, que são vivenciados como perseguição. Deve-se considerar o desenvolvimento da criança e as atitudes dos adultos como resultantes da interação entre influências internas e externas. Ego: parte organizada do self; dirige todas as atividades e estabelece e mantém a relação com o mundo externo. Self: abrange toda a personalidade, não inclui apenas o ego, mas também a vida pulsional. Ego arcaico: cria as primeiras defesas arcaicas contra a ansiedade persecutória. Introjeção: significa que o mundo externo, as situações que o bebê atravessa e os objetos que ele encontra são levados para dentro do self, vindo a fazer parte da sua vida interior (incorporação), está ligada a fase sádico oral. Projeção: há uma capacidade na criança de atribuir a outras pessoas a sua volta sentimentos de diversos tipos, predominantemente o amor e ódio, está ligada a fase anal. É uma operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que desconhece e recusa nele. O amor e ódio dirigidos à mãe, estão intimamente ligados à capacidade do bebê muito pequeno de projetar todas as suas emoções sobre ela, convertendo-a em um objeto bom, assim como um objeto mal. Objeto bom X Objeto Mal O sistema específico de fantasias que se centram no mundo interno da criança é de suprema importância para o desenvolvimento do ego. Os objetos internalizados são sentidos pelo bebezinho como tendo vida própria, em harmonia ou em conflito uns com os outros e com o ego, de acordo com as emoções e experiências do bebê. Quando o bebê sente que contém objetos bons, ele vivência confiança, estima e segurança. Quando sente que contém objetos maus, ele vivência perseguição e suspeita. Klein expressa com frequência que o ego, as relações de objetos, os impulsos libidinais e destrutivos surgem desde o nascimento. A introjeção e a projeção fazem parte das fantasias inconscientes do bebê, que operam desde o princípio e ajudam a moldar sua impressão do ambiente. Uma fantasia representa o conteúdo particular das necessidades ou sentimentos que dominam a mente no momento. As fantasias continuam ao longo de todo o desenvolvimento e acompanham todas as atividades. Desempenham um papel importante na vida mental. Se a mãe é assimilada ao mundo interno da criança como um objeto bom, um elemento de força é agregado ao ego. O ego desenvolve-se em torno desse objeto bom e a identificação com as características boas da mãe, toma-se a base para identificações benéficas posteriores. Tudo isso contribui para o desenvolvimento de uma personalidade estável. Para um bebê a distinção entre os seus estados de prazer e desprazer, entre os sentimentos bons e maus dentro de si, refletem-se no mundo externo e influência sua diferenciação entre as coisas e pessoas boas e más no mundo externo. A projeção é a primeira reação do bebê ao sofrimento, e provavelmente permanece em todos nós como reação espontânea a qualquer sentimento penoso ao longo de toda nossa vida. O subsequente desenvolvimento mental permite cada um de nós, em grau variável, controlar ou refrear essa reação primitiva e subjetiva, substituindo-a por outros processos mais bem adaptados à verdade e à realidade objetiva da situação em que nos encontramos. Uma forte identificação com a mãe torna fácil para a criança identificar-se com outras figuras amistosas. A agressividade e o ódio também se mantêm em atividade. Por meio da projeção de si mesmo para dentro de outra pessoa, ocorre uma identificação projetiva com esta. Identificação projetiva: colocar partes do self para dentro de um objeto. Se caracteriza por uma “evacuação” de conteúdos intoleráveis para o Eu atribuídos a um outro Eu/indivíduo. Identificação introjetiva: identificação com outra pessoa através da internalização de suas características, ou parte delas. Se a projeção é predominantemente hostil, ficam prejudicadas a empatia verdadeira e a capacidade de compreender os outros. O caráter da projeção é de grande importância em nossas relações com outras pessoas. Cisão: divisão do seio em um objeto bom e um objeto mal. Nos estados de gratificação, os sentimentos amorosos se voltam para o seio gratificador, ao passo que nos estados de frustração o ódio e a ansiedade persecutória se ligam ao seio frustrador. A cisão de objetos é responsável pela criação de objetos bons e maus, a cisão dos impulsos é o que separa o amor e ódio. É uma tendência do ego infantil para cindir impulsos e objetos; há uma necessidade de cindir o amor do ódio. A autopreservação do bebê depende da sua confiança em uma mãe boa. Por meio da cisão o bebê preserva a sua crença em um objeto bom e em sua capacidade de amá-lo, sendo esta uma condição essencial para manter-se vivo. Sem esse sentimento, o bebê estaria exposto a um mundo inteiramente hostil que ele teme. O fracasso de um ego frágil pode levar a um reforço regressivo dos medos persecutórios, e podefortalecer a fixação para psicoses graves (esquizofrenias). Klein postula sobre a importância da introjeção do objeto bom, da necessidade de estabelecer objetos bons internos para segurança da criança em seu mundo interior e superação da fase depressiva. O superego arcaico se torna consciência moral benigna, capaz de limitar a insaciabilidade destrutiva e modificá-la, por meio de mecanismos sublimatórios. O conceito de posição compreende uma colocação perante o objeto, tem a ver com o lugar que ele está posicionado pelo eu. Posição esquizo-paranóide: impulsos destrutivos onipotentes, ansiedade persecutória e cisão predominam os primeiros 3 meses de vida. Objeto e ego divididos: seio bom X seio mal, sofre de ansiedade persecutória. Primeiras defesas: cisão, idealização, projeção e negação. Posição depressiva: entender que o eu deseja o objeto e pode perde-lo. Ex.: a criança se aproxima do brinquedo que quebrou. O afeto é algo que deve ser preservado e não devorado. Se dá pela dor e tristeza que a criança sente com a percepção de que sua mãe é inteira, autônoma e separada dela e pode ir embora quando quiser. Nesta posição a ansiedade é pelo objeto, ou seja, pelo dano (imaginado ou real) que o eu pode causar no objeto, essa condição gera culpa e a maior defesa é a reparação. A idealização, fragmentação, dissociações são defesas esquizoides com significante de cisão (divisão), uma espécie de confusão do mundo interno e externo. Com seu desenvolvimento, interação (interno x externo) essa cisão dos bom e mau formados na mente do bebê resultam em uma introjeção de um objeto real. Neste processo a idealização (superestimação do objeto) é operante e faz com que o objeto se torne um perseguidor aterrorizante ou um objeto ideal, por exemplo, o seio bom inexaurível, disponível, sempre gratificador ou o seio mau que envenena. A idealização também é uma defesa contra a ansiedade persecutória, a introjeção do seio bom é fundamental para a integração do bebê, ele precisa conservar a crença da existência e presença do seio bom, pois somente assim poderá sentir-se seguro com estabilidade e segurança necessárias para suportar frustrações e privações. “A idealização está ligada à cisão do objeto, pois os aspectos bons do seio são exagerados como uma salvaguarda contra o medo do seio perseguidor”. Junto a necessidade de cindir, existe desde o início da vida uma tendência a integração, que aumenta com o crescimento do ego. O ego da criança tem uma tendência inconsciente inata a integrar a si mesma e o objeto. Por volta do quarto mês de vida, ocorre uma mudança significativa de relações de afeto do bebê, ele deixa de se relacionar com o objeto parcial e passa a se relacionar com o objeto total (mãe). Reconhece a mãe como semelhante, passa então a considerá-la, demonstra preocupação, inclusive teme sua perda. Mas para chegar a esta integração do eu com as pulsões, o bebê passa por diversas ansiedades advindas das pulsões que envolvem o eu obrigando-o a se defender. Quando surge uma posição depressiva, comumente o ego já está mais integrado e já consegue se relacionar melhor com a mãe e, posteriormente, com outras pessoas completas (e não divididas). Na posição depressiva, a criança começa a ver o objeto como semelhante, o bebê teme danificá-lo, teme que o objeto ao qual depende desapareça. Nesse caso predomina uma relação de confiança na bondade dos objetos e o processo de introjeção do seio bom converte-se na fonte de segurança e bondade, durante a posição depressiva a ansiedade persecutória diminui. A integração se puder ser alcançada tem efeito de mitigar o ódio através do amor, e dessa forma tornar os impulsos destrutivos poderosos. A introjeção do objeto bom consiste na colocação para dentro do aparelho psíquico de todas as experiências de prazer, formando um registro dinâmico (constelação), isto é, de uma reserva interna de experiências de prazer e a segurança, aumentando a capacidade de tolerar estados transitórios de privação e frustração. Esse registro dinâmico de inúmeras situações de prazer (de sentir desejado, amado, cuidado) funciona como uma garantia de acesso ao prazer. Isso alimenta a esperança na criança e aumenta sua capacidade de suportar frustração, privações e perdas. Amor para Klein: medo de perder. É esperado a predominância da posição depressiva. Melanie Klein considera a elaboração da posição depressiva é o ponto mais importante do desenvolvimento infantil: nos casos mais bem-sucedidos, ocorre uma predominância da posição depressiva sobre a posição paranoide, o que significa ter havido uma firme introjeção do objeto bom, aspecto que será decisivo para determinar a capacidade de amar e de reparar. Sem isso, as defesas maníacas continuarão prevalecendo, e o retorno à posição paranoide será inevitável. Se uma criança tiver serias dificuldades para elaborar a posição depressiva, ela poderá apresentar distúrbios maníacos depressivos na vida adulta. Para autora, durante os primeiros cinco anos de desenvolvimento, ocorre uma alternação muito característica entre as posições esquizo-paranóide e depressivas (embora, ao longo da vida, sempre haja uma alternância entre as duas posições e isso faz parte da saúde mental). Ao longo da vida sempre haverá uma alternância entre as duas posições, elas coexistem a vida toda e essa interligação perpetua conflito pelo resto da vida. A elaboração bem-sucedida da posição depressiva, envolve a capacidade de superar a ambivalência, que nunca será eliminada. A saúde psíquica e a capacidade de amar depende da habilidade de suportar a ambivalência. “Quando o bebê alcança a posição depressiva e torna-se mais capaz de enfrentar a sua realidade psíquica, sente também que a “maldade” do objeto é devida em grande parte à sua própria agressividade e à projeção decorrente”. Para Freud, a criança não sente culpa, e sim medo de perder o amor dos pais. Superego surge após a castração. Já para Klein, existe um superego arcaico formado pelo sadismo infantil. Sustenta que as crianças menores de 3 anos já sentem culpa proveniente dos impulsos destrutivos, vinculada a ansiedade depressiva por ter machucado o objeto bom. A criança, no entanto, pode sentir que machucou a mãe sendo que não a machucou de verdade. Ela ainda não é capaz de distinguir seus impulsos dos efeitos que eles realmente provocam (imaginário e real). Isso se deve a sua onipotência dos pensamentos. A necessidade de reparar o objeto amado surge da culpa. Para Klein a culpa se acha intimamente vinculada a ansiedade depressiva e a tendência de fazer reparação. Entende que a essência da culpa reside no sentimento que o indivíduo tem, de ter danificado o objeto amado bom. Nem sempre as operações de reparação do objeto da criança serão na medida necessária e isso pode então trazer à tona as defesas maníacas contra a culpa (para anular a culpa). Defesas maníacas depressivas: liberam da culpa e do medo de ser aniquilado, há uma anulação do dano ao objeto. Triunfo: desejo de dominar o objeto, triunfar sobre ele, desejo de dominar, sobrepujar o objeto. Por exemplo: A criança tem o sonho de crescer e ser grande igual os pais, pode ter a seguinte fantasia: haverá um dia que eu serei rico, poderoso e os pais se tornarão crianças indefesas, ou estarão velhos e pobres; Desprezo: negação, nega a dependência do objeto e o despreza para não ficar desapontado consigo mesmo; Controle onipotente: nega que danificou o objeto e nega o medo de ser atacado pelo objeto, nega o medo de perder o objeto bom. Trabalho de luto: luto não é considerado um estado patológico, sua duração varia das características pessoais do sujeito enlutado. O alheamento em relação ao mundo externo é um aspecto característico do processo de luto. Com o tempo, o choro e a tristeza diminuem, o sujeito se consola e aos poucosse reorganiza. Quanto maior o apego ao objeto perdido, maior o sofrimento de luto. A dor não deve ser negada deve ser vivenciada para suportar o luto. A duração do luto varia de acordo com, as características pessoais do sujeito enlutado, laço afetivo do sujeito com o objeto perdido e a forma como perdeu. Mortes traumáticas e inesperadas geralmente demoram mais para serem digeridas. Quando o ego percebe que o objeto não existe mais, se inicia um grande conflito interno. Em alguns casos, o luto pode vir a ser patológico, quando ele não é enfrentado de forma adequada. A criança deve ter introjetado o objeto bom para elaborar o luto. O que o maníaco depressivo e o sujeito que fracassa no trabalho de luto tem em comum? Para Klein, ambos não desenvolveram o estabelecimento de objetos bons na infância. Se um indivíduo não tem objetos bons internos, viverá em uma perda com desesperança e ficará propenso a desenvolver uma afecção psíquica, mania e depressão. A inveja está relacionada diretamente a um único objeto. Eu → outro, não envolve terceiros. A inveja implica na espoliação do objeto, pela hostilidade para com a pessoa invejada. A inveja é um fator muito importante para o solapamento das raízes dos sentimentos de amor e gratidão. Klein considera a inveja uma expressão sádico-oral (consumir o seio) e sádico-anal (controle excessivo dos objetos) de impulsos destrutivos. O ciúme é baseado na inveja, mas envolve a relação com, pelo menos, duas pessoas; diz respeito principalmente ao amor que o indivíduo sente como lhe sendo privado ou em perigo por seu rival. A voracidade é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar. Seu objetivo é a introjeção destrutiva. A nível inconsciente, a voracidade visa, primariamente, escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio; ou seja, seu objetivo é a introjeção destrutiva, ao passo que a inveja procura não apenas despojar dessa maneira, mas também de depositar maldade, primordialmente excrementos maus e partes más do self, dentro da mãe, acima de tudo dentro do seu seio, a fim de estragá-la e destruí-la. A voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja à projeção. De acordo com Klein, o invejoso não tolera algo que o outro usufrui, pois não é capaz de expressar gratidão. Uma pessoa muito invejosa tende a se tornar insegura/desconfiada, pois a inveja impede de estabelecer relações objetais boas e confiáveis. A pessoa invejosa também teme a inveja dos outros. Pode-se dizer que a pessoa muito invejosa é insaciável, que nunca pode ser satisfeita porque sua inveja brota de dentro. O invejoso não sabe lidar com o bom do outro e precisa destruí-lo. Dentre as defesas mais empregadas contra a inveja, se destacam: a idealização, o invejoso tende a idealizar a tal forma a pessoa que se inveja, que a distância é tão grande que nenhuma comparação é possível; a desvalorização de si, faz parecer não possuir algo a oferecer, aumentando a distância de si mesmo e a pessoa invejada; provocar inveja em outrem ou evitar situações que provoquem rivalidade e inveja; desprezo, depreciar aquilo que inveja. Um dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão. A gratidão é essencial à construção da relação com o objeto bom e é também o fundamento da apreciação do que há de bom nos outros e em si mesmo. A gratidão tem suas raízes no estágio mais inicial da infância. “O bebê só pode sentir satisfação completa se a capacidade de amar é suficientemente desenvolvida; e é a satisfação que forma a base da gratidão” Quanto mais se experiencia a gratificação proporcionada pelo seio, são sentidas satisfações e a gratidão, por conseguinte, o desejo de retribuir o prazer forma a capacidade de reparação. A criança investe no mundo externo, desse modo ele ama e protege, dando base a confiança em sua própria bondade. Quando a gratidão pode ser vivenciada, ela age como uma força motora para fazer reparações. Nas pessoas em que esse sentimento não se acha suficientemente estabelecido, acessos de generosidade são muitas vezes seguidos por uma necessidade exagerada de reconhecimento e, consequentemente, por ansiedade persecutória. A transferência é um fenômeno que pode ser percebido no cotidiano. A transferência é um fenômeno psíquico em que todas as fantasias, ansiedades e defesas que compõem o mundo interno são expressas nas situações vividas no cotidiano. O indivíduo traz para cada nova relação que estabelece ou cada nova situação que vive, toda sua história, seus objetos internos, seus medos e esperanças e transfere-as para a situação atual. A fantasia é considerada o substrato da vida mental, elas representam também as ansiedades e defesas, que são outros conceitos a serem abordados. O paciente está fadado a lidar com conflitos e ansiedades, revividos na relação com o analista, empregando os mesmos métodos a que recorreu no passado. Isto quer dizer que ele se afasta do analista como tentou se afastar de seus objetos primários; tenta cindir a relação com eles, mantendo-os como figuras boas ou más; deflete alguns dos sentimentos e atitudes vividos em relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto é parte da situação transferencial. Embora a transferência não seja específica da relação analítica, ela é incrementada nesta relação. O analista pode representar o superego, as partes do self e até mesmo objetos do paciente. Para Klein, o essencial na transferência não reside na relação entre passado e presente, mas sim na relação existente entre mundo interno e externo. Na relação entre paciente e analista se reproduz a ansiedade persecutória e depressiva. Os objetos internalizados são, então, expressos na relação que o paciente estabelece com o analista. Uma vez que a internalização se faz em um contexto de ambivalência entre amor e ódio, as relações objetais são carregadas destes sentimentos. Derivam-se daí os conceitos de transferência positiva e negativa. A transferência é assim uma via privilegiada de acesso ao inconsciente, uma vez que revela toda a dinâmica psíquica do paciente. Já que se trata de um fenômeno tão importante para o conhecimento do paciente, resta saber como trabalhar com ele, tornando-o veículo terapêutico.