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APOSTILA DESDOBRAMENTOS DA TEORIA PSICANALITICA KLEIN

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AULA 1: Desdobramentos e expansões da Psicanálise.
Diferentes matrizes clínicas e suas consequências para a teorização psicanalítica pós Freud.
Panorama geral da vida e obra de Melanie Klein. Contexto cultural, histórico e político.
Os Progressos da Psicanálise.
"Apesar de sua produtividade impressionante, tanto em quantidade como em qualidade, Freud era tão fértil em ideias e descobertas originais que não era possível, mesmo para um trabalhador como ele, explorar todas as ramificações potenciais. Muitos colaboradores o ajudaram nessa gigantesca tarefa." - Ernest Jones.
Sigmund Freud expressava constantemente sua crença de que a Psicanálise, como ciência, estava destinada a se desenvolver e expandir. Em um de seus prefácios, Freud registrou o sincero desejo de que seu trabalho envelhecesse rapidamente e fosse substituído por algo melhor.
Em 1924, Joan Rivieri teve dificuldades na tradução do artigo "O Ego e o Id" de Freud e o importunou para obter uma expressão mais clara de seu significado, ao que ele respondeu, exasperado: "O livro estará obsoleto em trinta anos!" Quase trinta anos depois, quando Rivieri escreveu essas palavras, nada do que Freud havia escrito era obsoleto. Tudo o que ele escreveu compensava o estudo intensivo, a comparação e a reflexão.
Neste contexto, outros pioneiros, como Ferenczi, Ernest Jones e Abraham, tiveram contribuições valiosas no desenvolvimento da Psicanálise e influenciaram as ideias de Klein.
Klein explorou os recessos mais profundos da mente humana, reconhecendo que o mundo das fantasias inconscientes é a verdadeira fonte de ações e reações humanas, complementando assim as conclusões de Freud nesse aspecto. Ela se estendeu às formas mais primitivas da mente, incluindo as primeiras relações objetais do bebê e suas fantasias inconscientes. Essa abordagem possibilitou uma compreensão mais profunda da destrutividade infantil, dos impulsos sádicos e da interação entre os instintos de vida e morte.
E assim, a Psicanálise, como Freud previu, continua a se desenvolver e expandir, enriquecida pelas contribuições de Melanie Klein e outros pioneiros. A obra de Klein representa um avanço notável em nosso entendimento do comportamento humano e das complexidades da mente humana. As sementes plantadas por Freud encontraram solo fértil e floresceram através das mãos dedicadas e brilhantes de seus seguidores, como Melanie Klein, que ousaram explorar os recessos mais profundos da psique humana e desvendar seus mistérios ocultos. Assim, a jornada da Psicanálise continua, em busca de novos conhecimentos e maior compreensão do complexo mundo mental do ser humano.
Melanie Klein vida e obra
"Melanie Reizes poderia ter sido, como milhões de outras mulheres de sua época e situação social, uma pobre mulher judia condenada pela posição de filha, esposa e mãe a uma vida repleta de submissão, humilhação e fracasso. De fato, o decurso de sua história se mostrou assim até seus trinta anos, quando o conhecimento da psicanálise a salvou da depressão, da inveja, raiva e mediocridade, inclusive de seu casamento.
Melanie Klein, de origem hebraica, nasceu em Viena e era caçula de quatro irmãos de uma família humilde. Embora dotada de um certo nível cultural, seu pai Moriz era médico e dentista, e sua mãe Libussa, dona de casa e proprietária de um pequeno comércio. A infância e juventude de Melanie foram marcadas por perdas: sua irmã faleceu aos 7 anos quando ela tinha apenas 4 anos, o pai morreu aos 18 e seu irmão predileto também partiu quando ela chegava aos 20 anos. Aos 17 anos, Melanie noivou e casou-se com um amigo de seu irmão, Athur Klein, que era engenheiro químico. Após o casamento, ela passou a residir em diversas cidades do Império Austro-Húngaro até chegar em Budapeste, em 1910.
Nesse período, Melanie enfrentava profundos episódios depressivos, o que prejudicava sua capacidade de cuidar de seus filhos, principalmente os mais velhos, e levava-a a longos períodos de ausência e repouso, deixando os cuidados com as crianças para sua mãe. Em 1914, sua mãe faleceu e, ao mesmo tempo, seu marido se afastou da família devido à Primeira Guerra. Nesse mesmo ano, Melanie entrou em contato com a obra sobre os sonhos e parece ter iniciado sua análise com Ferenczi. Na ocasião, seu filho Erich apresentava sinais de inibição intelectual e bloqueios na curiosidade, o que levou Melanie a iniciar intervenções guiadas pela teoria psicanalítica.
Em 1918, ela participou do 5º congresso internacional de Psicanálise em Budapeste e ouviu Freud falar sobre os avanços da terapia psicanalítica. No ano seguinte, Melanie escreveu seu primeiro artigo e tornou-se membro da sociedade de Budapeste. Em 1921, mudou-se para Berlim sem a companhia do marido e dos filhos mais velhos (Melitta e Hans). Seu casamento passou por tentativas de reconciliação, mas em 1924 o casamento rompeu definitivamente, resultando no divórcio em 1927.
Em 1922, ela mudou-se para a Alemanha, acompanhada apenas pelo filho Erich. Em 1924, começou sua análise com Karl Abraham e apresentou seu primeiro trabalho em um congresso internacional, incluindo outro texto sobre psicanálise de crianças, um trabalho que os Freuds já reprovavam.
Em 1925, Melanie foi convidada para realizar uma palestra em Londres e, em 1926, mudou-se definitivamente para lá, atendendo aos convites dos analistas ingleses que se impressionaram com sua originalidade. Após a morte de Abraham, seu analista e protetor, Melanie ficou mais exposta a críticas de membros mais conservadores da Sociedade Local e de Viena, sendo acusada de violentar a inocência das crianças e perturbar suas relações com os pais.
A partir daí, sua ascensão na sociedade de Psicanálise Inglesa foi rápida, mas no âmbito familiar, Melanie enfrentou muitos dissabores. Em 1930, seu filho Hans morreu em um acidente em uma escalada. Hans, que havia sido analisado por Melanie, apresentava tendências depressivas e suspeitas de uma tendência homoafetiva na adolescência. Sua morte acidental poderia ser interpretada como suicídio, e Melanie ficou paralisada diante da notícia e sequer quis comparecer ao enterro.
Por outro lado, Melanie teve um reencontro feliz com sua filha Melitta, que se formou em medicina, realizando o sonho de sua mãe. Melitta casou-se com outro psicanalista, Walter Schmideberg, que era supervisionado por Freud. No entanto, as relações entre Melitta e Melanie começaram a azedar, e Melitta se tornou a mais agressiva das opositoras de sua mãe, exibindo um comportamento chamativo pelo destempero e falta de pudor. Melanie Klein nunca revidou publicamente esses ataques escandalosos. Mais tarde, Melitta mudou-se para os EUA e nunca mais se reconciliou com sua mãe.
Klein acabou se tornando uma grande opositora de Anna Freud, traduzindo em palavras o universo simbólico que emerge durante a análise de crianças e considerando que as crianças estão aptas a estabelecer relações transferenciais.
Embora Melanie Klein tenha se envolvido em diversas confusões e quase tenha sido excluída da sociedade, ela se recuperou e consolidou um grupo de adeptos. No final da década de 40 e durante os anos 50, ela desfrutou de uma posição estável, sólida e prestigiada na Sociedade Britânica. Ao longo dos anos, Klein teve uma vida confortável, até mesmo luxuosa.
Em uma conversa com Betty Joseph em 1935, Melanie Klein protestou ao ser chamada de "kleiniana", considerando-se "freudiana". Betty Joseph respondeu a ela: "Tarde demais, você é uma kleiniana, queira ou não queira" (GROSSKURTH, 1992).
Por fim, Melanie Klein teve uma origem humilde e, sem acesso ao mundo acadêmico, inseriu-se na psicanálise impulsionada mais pelas próprias necessidades pessoais de saúde mental do que por uma inclinação acadêmica-científica. Ela morreu em 1960, aos 78 anos, consolidada na sociedade britânica e nas sociedades da América do Sul, e, por último, nos EUA e na França.
Melanie morreu em Londres, no dia 22 de setembro de 1960, mesmo ano em que escreveu "Sobre saúde mental":
"Muitas pessoas aparentemente equilibradas não têm força de caráter. Facilitampode ser suportada, a ansiedade começa a centrar-se no bem-estar e sobrevivência do outro como um todo, acabando por dar origem a uma culpa remorso e uma tristeza pungente, ligada ao aprofundamento do amor. Com a saudade do que foi perdido ou danificado pelo ódio, surge o desejo de consertar. As capacidades do ego aumentam e o mundo é percebido de forma mais rica e realista. O controle onipotente sobre o objeto, agora sentido como mais real e separado, diminui. A maturação está, portanto, intimamente ligada à perda e ao luto. O reconhecimento do outro como separado de si mesmo abrange as relações do outro; assim, a consciência da situação edípica inevitavelmente acompanha a posição depressiva. 
O termo "posição depressiva" é usado de maneiras diferentes, mas relacionadas.  Pode referir-se à experiência infantil dessa integração do desenvolvimento psíquico. De forma mais geral, refere-se à experiência, em qualquer estágio da vida, de culpa e tristeza por ataques de ódio e pelo estado danificado de objetos externos e internos, variando em nível de catástrofe sentida em uma escala de luto normal por perda a depressão severa. O termo também é usado vagamente para se referir ao 'funcionamento da posição depressiva', significando que o indivíduo pode assumir responsabilidade pessoal e perceber a si mesmo e ao outro como separados.
Melanie Klein considera a elaboração da posição depressiva é o ponto mais importante do desenvolvimento infantil: nos casos mais bem sucedidos, ocorre uma predominância da posição depressiva sobre a posição paranoide, o que significa ter havido uma firme introjeção do objeto bom, aspecto que será decisivo para determinar a capacidade de amar e de reparar. Sem isso, as defesas maníacas continuarão prevalecendo, e o retorno à posição paranoide será inevitável. Se uma criança tiver serias dificuldades para elaborar a posição depressiva, ela poderá apresentar distúrbios maníacos depressivos na vida adulta.
Podemos também afirmar que a cisão entre “figuras excessivamente boas e más” é o que caracteriza a posição paranoide, ao passa que o desenvolvimento da posição depressiva envolve a unificação dessa bondade e maldade, conduzindo a imagos mais moderadas.
A elaboração bem-sucedida da posição depressiva, envolve a capacidade de superar a ambivalência, que nunca será eliminada. A saúde psíquica e a capacidade de amar depende da habilidade de suportar a ambivalência. 
“Quando o bebê alcança a posição depressiva e torna-se mais capaz de enfrentar a sua realidade psíquica, sente também que a “maldade” do objeto é devida em grande parte à sua própria agressividade e à projeção decorrente”. (Inveja e Gratidão pag. 228)
A reparação é parte integrante da posição depressiva. Baseia-se no amor e respeito pelo outro separado e envolve enfrentar perdas e danos e fazer esforços para reparar e restaurar os próprios objetos. A reparação efetiva envolve um tipo e grau de culpa que não é tão avassalador a ponto de induzir ao desespero, mas pode gerar esperança e preocupação. A própria reparação fornece uma saída para o desespero, promovendo ciclos virtuosos em vez de ciclos viciosos em estados de depressão. É uma raiz significativa em toda atividade criativa e, de fato, uma parte central do desenvolvimento.
Ao longo da vida sempre haverá uma alternância entre as duas posições, elas coexistem a vida toda e essa interligação perpetua conflito pelo resto da vida.
“Minha experiência tem-me mostrado que nunca há uma integração completa, mas que quanto mais o indivíduo se esforçar nessa direção, mais insight terá sobre suas ansiedades e impulsos, mais forte será o seu caráter e maior seu equilíbrio mental”. (Inveja e Gratidão- pág. 312)
A relação maníaca com objetos é caracterizada por uma tríade de sentimentos: controle, triunfo e desprezo. Esses sentimentos estão diretamente relacionados aos sentimentos depressivos de valorização e dependência do objeto, bem como ao medo de perdê-lo e à culpa, servindo também como defesas contra esses sentimentos. O controle é uma forma de negar a dependência, de não a reconhecer, mas, ao mesmo tempo, de compelir o objeto a preencher a necessidade de dependência, pois um objeto totalmente controlado é, até certo ponto, um objeto confiável. O triunfo é uma negação dos sentimentos depressivos de valorização e cuidado; está vinculado à onipotência e apresenta dois aspectos importantes. Um deles está relacionado ao ataque primário feito ao objeto na posição depressiva e ao triunfo experimentado ao derrotar esse objeto, sendo que esse ataque é fortemente determinado pela inveja. Em segundo lugar, o sentimento de triunfo é aumentado como parte das defesas maníacas, pois ajuda a afastar os sentimentos depressivos que, caso contrário, surgiriam, tais como anseio, desejo e saudade do objeto. O desprezo pelo objeto é mais uma negação do fato de valorizá-lo, tão importante na posição depressiva, e age como defesa contra a experiência de perda e culpa. O objeto desprezado não é considerado digno de culpa, e o desprezo experimentado em relação a ele se torna uma justificação para outros ataques contra o mesmo.
Resumindo, A depressão surge do sentimento de perda. O temor de perder a mãe desperta sentimentos depressivos na criança, dessa forma o ego mobiliza defesas contra ansiedades de culpa e depressão, assim mobiliza defesas contra a culpa e do medo de perder o objeto bom conhecidas como defesas maníacas, as defesas maníacas se caracterizam pela tríade:
1- Triunfo.
2 – Desprezo. 
3 – Controle onipotente.
O triunfo sobre o objeto é caracterizado pelo desejo de dominar, sobrepujar o objeto. Por exemplo: A criança tem o sonho de crescer e ser grande igual os pais, pode ter a seguinte fantasia: haverá um dia que eu serei rico, poderoso e os pais se tornarão crianças indefesas, ou estarão velhos e pobres.
O desprezo também é uma defesa maníaca e está ligada no mecanismo de negação. O sujeito despreza o objeto bom. Nega sua dependência dele, nega que precisa do outro. Nega sua dependência perigosa e escravizante do aspecto amado. Pode depreciar aquilo que não pode ter, para não ficar desapontado consigo mesmo.
No controle onipotente do objeto, o sujeito nega a culpa decorrente de sua própria hostilidade para com o objeto. Nega que danificou o objeto, por um lado, nega o medo de ser atacado pelo objeto danificado e por outro, nega o medo de perder o objeto bom.
Bibliografia:
KLEIN (1935) Capítulo: Psicogênese dos estados maníaco-depressivos;
KLEIN (1940) Capítulo: O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos.
In:KLEIN, M. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997. (Amor, culpa e reparação e outros trabalhos, Vol. I).
KLEIN (1959) Capítulo 12: Nosso mundo adulto e suas raízes na infância.
CINTRA, E. M. U.; FIGUEIREDO, L.C. Melanie Klein, estilo e pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. 
AULA 6: Tema de discussão: Inveja e Gratidão.
Glossário.
Inveja primitiva ou primária: é experimentada pelo bebê principalmente em relação ao seio que o alimenta. E possivelmente a primeira manifestação externa do instinto de morte, já que ataca o que é sentido como sendo a fonte da vida. Inveja primitiva (ou primária) excessiva é um importante fator em psicopatologia.
Sentido de realidade: trata-se da capacidade de experimentar a realidade psíquica como tal e de diferenciá-la da realidade externa. Envolve a experiência simultânea e a correlação dos mundos internos e externo.
Inveja e Gratidão (1957)
A inveja está relacionada diretamente a um único objeto, Eu e outro, não envolve terceiro. Inveja-se o que outro possui, suas qualidades pessoais, capacidades e conquistas. A inveja implica na espoliação do objeto, pela hostilidade para com a pessoa invejada.
Segundo Melanie Klein, 'a inveja é um fator muito importante para o solapamento das raízes dos sentimentos de amor e gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe'.
A autora considera a inveja uma expressão sádico-oral (consumir o seio) e sádico-anal (controle excessivo dos objetos) deimpulsos destrutivos, em atividade desde o começo da vida, e que tem base constitucional.
Considera que se deve 'fazer distinção entre a inveja, ciúmes e voracidade. A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável – sendo o impulso invejoso de tirar este algo ou de estragá-lo. Além disso, a inveja pressupõe a relação do indivíduo com uma só pessoa e remonta à mais arcaica e exclusiva relação com a mãe. O ciúme é baseado na inveja, mas envolve a relação com, pelo menos, duas pessoas; diz respeito principalmente ao amor que o indivíduo sente como lhe sendo devido e que foi tirado, ou está a perigo de sê-lo, por seu rival. Na concepção corriqueira de ciúme, um homem ou uma mulher se sente privado, por outrem, da pessoa amada.' (pág. 212)
'A voracidade é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar. A nível inconsciente, a voracidade visa, primariamente, escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio; ou seja, seu objetivo é a introjeção destrutiva, ao passo que a inveja procura não apenas despojar dessa maneira, mas também de depositar maldade, primordialmente excrementos maus e partes más do self, dentro da mãe, acima de tudo dentro do seu seio, a fim de estragá-la e destruí-la. No sentido mais profundo, isso significa destruir a criatividade da mãe. Esse processo, que deriva de um impulso sádico uretrais e sádicos anais, foi por mim definido em outro artigo como um aspecto da identificação projetiva, começando desde o início da vida. Uma diferença essencial entre voracidade e inveja, embora nenhuma linha divisória rígida possa ser traçada visto estarem tão estreitamente associadas, seria, então, que a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja à projeção.' (pág. 213)
De acordo com Klein, o invejoso não tolera algo que o outro usufrui, pois não é capaz de expressar gratidão. Uma pessoa muito invejosa tende a se tornar insegura/desconfiada, pois a inveja impede de estabelecer relações objetais boas e confiáveis. A pessoa invejosa também teme a inveja dos outros.
Quando uma pessoa invejosa tem boas experiências de prazer, lhe ocorre o oportuno sentimento de que poderia ter mais do que tem ou que outra pessoa tem mais que ela.
'Pode-se se dizer que a pessoa muito invejosa é insaciável, que nunca pode ser satisfeita porque sua inveja brota de dentro e, portanto, sempre encontra um objeto sobre o qual focalizar-se. Isso mostra também a intima conexão com o ciúme, voracidade e inveja'.
Dentre as defesas mais empregadas contra a inveja, se destacam: a idealização, o invejoso tende a idealizar a tal forma a pessoa que se inveja, que a distância é tão grande que nenhuma comparação é possível; a desvalorização de si, faz parecer não possuir algo a oferecer, aumentando a distância de si mesmo e a pessoa invejada; provocar inveja em outrem ou evitar situações que provoquem rivalidade e inveja; desprezo, depreciar aquilo que inveja.
Todos nós temos que lidar com a inveja, contrabalançando, a inveja que sentimos, com a nossa capacidade de sentir calor humano e gratidão. (Beth Joseph)
'Não é preciso dizer que os nossos pacientes nos criticam por uma variedade de razões, às vezes justificadamente. Mas a necessidade que tem um paciente de desvalorizar o trabalho analítico que experimentou como proveitoso é expressão de inveja.' (pág. 215)
A gratidão é o sentimento que o indivíduo tem por receber algo vindo do outro. A etimologia da palavra gratidão vem de uma expressão latina gratus, que é traduzida como estar agradecido ou ser grato. Além disso, gratidão deriva também de gratia, que em latim quer dizer graça.
Klein relaciona a capacidade de amar com o sentimento de gratidão. 'O bebê só pode sentir satisfação completa se a capacidade de amar é suficientemente desenvolvida; e é a satisfação que forma a base da gratidão'. Freud descreveu o êxtase do bebê na amamentação como protótipo da gratificação sexual. Ao entendimento de Klein essas experiências não constituem apenas a base da gratificação sexual, mas também de toda felicidade subsequente. 'Em condições favoráveis, tal compreensão não necessita de palavras para expressá-la, o que demonstra sua derivação da intimidade mais inicial com a mãe, no estágio pré-verbal. A capacidade de fruir plenamente a primeira relação com o seio forma a base para sentir prazer proveniente de diversas fontes'.
'Se há experiência frequente de ser alimentado sem que a satisfação seja perturbada, a introjeção do seio bom se dá com relativa segurança. Uma gratificação plena ao seio significa que o bebê sente ter recebido do objeto amado uma dadiva especial que ele deseja guardar. O indivíduo sente estar controlando, exaurindo e, portanto, danificando o objeto, ao passo que, numa boa relação com o objeto interno e externo, predomina o desejo de preservá-lo e poupá-lo'. (a criança investe no mundo externo, desse modo ele ama e protege, dando base a confiança em sua própria bondade).
Quanto mais se experiencia a gratificação proporcionada pelo seio, são sentidas satisfações e a gratidão, por conseguinte, o desejo de retribuir o prazer forma a capacidade de reparação.
'A gratidão está intimamente ligada à generosidade. A riqueza interna deriva de ter o objeto bom assimilado de maneira que o indivíduo se torna capaz de compartilhar com outros os dons do objeto. Isso torna possível introjetar um mundo externo mais amistoso, a que se segue um sentimento de maior riqueza. Mesmo o fato de a generosidade ser frequentemente pouco reconhecida não solapa necessariamente a capacidade de dar. Em contraste, nas pessoas em que esse sentimento de riqueza e forças internas não se acha suficientemente estabelecido, acessos de generosidade são muitas vezes seguidos por uma necessidade exagerada de reconhecimento e gratidão e, consequentemente, por ansiedades persecutórias de haverem sido empobrecidas e roubadas'.
'Frequentemente encontramos expressões de gratidão que se revelam movidas muito mais por sentimento de culpa do que pela capacidade de amar. Acho que importante a distinção entre tais sentimento de culpa e gratidão em nível mais profundo. Isso não quer dizer que um certo elemento de culpa não entre nós mais genuínos sentimentos de gratidão'.
'As atividades construtivas e criadoras, os sentimentos sociais e cooperativos são então sentidos como moralmente bons, e são, portanto, o meio mais importante de manter a distância ou para superar a sensação de culpa. Quando os vários aspectos do superego tornam-se unificados (que é o que acontece com pessoas maduras e equilibradas), o sentimento de culpa não desaparece, mas integra-se na personalidade, juntamente com meio de contrabalançá-lo'."
Bibliografia:
KLEIN (1957) Capítulo 10: Inveja e Gratidão; KLEIN (1959) Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997. (Inveja, Gratidão e outros trabalhos, Vol. III).
AULA 7: Tema de discussão: A Clínica Kleiniana.
A técnica Kleiniana
A técnica é um conjunto de procedimentos prescritos para analista e paciente, destinados a tornar o inconsciente consciente. A consistência e a regularidade do cenário, os limites de tempo e a frequência das sessões são enfatizados, juntamente com a importância de o analista manter uma atitude mental receptiva.
Ao longo de sua escrita, Klein enfatiza que seu trabalho, incluindo sua técnica, é baseado no de Freud, que descreve seu método essencial com pacientes adultos como envolvendo sessões cinco ou seis vezes por semana, uso do divã e pedindo aos pacientes que 'associassem livremente’, ou seja, dizer ao analista da melhor forma possível o que pensa e sente, sem censura. Sua injunção complementar ao analista é que ele deve manter "atenção uniformemente suspensa" e deve evitar procurar no material do paciente o que espera encontrar (Freud, 1912).
Klein enfatiza o conceito de transferência de Freud, significando a expressão consciente, mas também inconsciente, de experiências passadas e presentes, relacionamentos, pensamentos, fantasiase sentimentos, tanto positivos quanto negativos, em relação ao analista. Ela enfatiza particularmente a importância da transferência negativa, que ela acha que pode ser trabalhada utilmente desde que seja reconhecida e compreendida pelo analista. Ela enfatiza o papel na transferência da 'situação total' das experiências passadas e presentes do paciente. Como Freud, ela enfatiza a importância das defesas do paciente contra o reconhecimento da realidade psíquica. Ela também enfatiza a ansiedade do paciente como ponto de partida para a compreensão do analista sobre as fantasias inconscientes do paciente e ela considera a interpretação do analista   como a principal ferramenta da terapia analítica.
Embora Klein concorde em geral com a ideia de Freud sobre os instintos de vida e morte, em sua abordagem técnica ela está mais preocupada com o conteúdo específico dos impulsos instintuais (amor e ódio) do que com sua conceitualização abstrata. A observação clínica é seu ponto de partida e seu dom especial. Em seu trabalho, observação e ideias interagem entre si para engendrar novas observações e novas teorias. Assim, para Klein, a técnica e o conteúdo clínico estão intimamente ligados e interativos, e ela não tenta descrever a técnica em termos puramente abstratos sem acompanhar o conteúdo clínico.
Outros desenvolvimentos na técnica foram feitos durante e desde o trabalho de Klein por Strachey, Racker , Rosenfeld , Bion , Segal , Joseph e outros. Houve dois tipos principais de mudança. Primeiro, há o aumento do foco na relação analista-paciente como a principal fonte de informação sobre o paciente, em contraste com a visão anterior de que o paciente é uma entidade isolada que pode ser observada de uma perspectiva "objetiva" externa. Em segundo lugar, em contraste com Freud e Klein, desenvolveu-se uma visão de que a contratransferência do analista pode, em certas circunstâncias, ser uma fonte útil de informação sobre o paciente. Essas duas principais tendências de mudança na técnica foram acompanhadas por outras mudanças menos importantes, incluindo várias distinções terminológicas úteis.
A transferência na escola Kleiniana.
Melanie Klein é reconhecida como uma psicanalista pioneira que utilizou sistematicamente brinquedos como técnica e instrumento de análise. Sua prática enfatiza a relação analista-analisando e a transferência, ou seja, o aqui e agora no setting, sendo uma de suas maiores contribuições teóricas à psicanálise a "teoria das posições".
Como visto em aulas anteriores, Klein compreende que na posição esquizoparanóide, a ansiedade predominante para o ego é de perseguição. Com o desenvolvimento do bebê, surge a posição depressiva que ocorre pela dor e tristeza que a criança sente com a percepção de que sua mãe é inteira, autônoma e separada dela, podendo ir embora quando quiser. Nesta posição, a ansiedade é voltada para o objeto, ou seja, para o dano (imaginado ou real) que o eu pode causar ao objeto, o que gera culpa, sendo a principal defesa a reparação.
Klein postula, considerando Freud, que a pulsão de morte opera desde o início no psiquismo e considera a inveja primária como constitucional, assim como os mecanismos de defesa antigos e arcaicos, como a identificação projetiva. Essa identificação projetiva consiste em uma fantasia de projetar partes cindidas de si mesmo para o interior de outra pessoa, com o intuito de controlá-la internamente.
Para ilustrar, um exemplo: o paciente é informado sobre as férias do analista, e ele responde: "Como que eu fico? Com quem vou falar? Isso é imoral, um absurdo o analista tirar férias." Nesse momento, para o paciente, o analista não é visto como um indivíduo total, que possui cansaço e direito a férias. Quem está sendo imoral com isso? O paciente (vê o analista como parcial, algo a ser consumido) tenta controlar o analista por dentro, infringindo culpa, querendo implantar uma ideia no analista de que ele é imoral e sua ação absurda. Se o analista sente culpa e adia suas férias, a identificação projetiva foi bem-sucedida.
Freud conceitua a transferência como o processo por meio do qual certas relações e acontecimentos do passado, junto com seus componentes afetivos, são repetidos (ou reeditados) na relação com o analista, sob a influência do princípio da compulsão à repetição. No caso de Dora (1905), Freud já define e caracteriza o fenômeno transferencial em seus componentes essenciais.
Klein, em relação à origem da transferência, compreende que ela deriva dos mesmos processos que determinam as relações com o objeto, sendo eles introjeção e projeção. Para a autora, o essencial na transferência não reside na relação entre passado e presente, mas sim na relação existente entre mundo interno e mundo externo.
Klein afirma: "Minha concepção de transferência como algo enraizado nos estágios iniciais do desenvolvimento e nas camadas mais profundas do inconsciente é muito mais ampla, envolvendo uma técnica através da qual, a partir da totalidade do material apresentado, são deduzidos os elementos inconscientes da transferência. Por exemplo, relatos de pacientes sobre suas vidas, relações e atividades cotidianas não só nos oferecem uma compreensão do funcionamento do ego, mas revelam igualmente as defesas contra a ansiedade suscitada na situação de transferência, caso exploremos seu conteúdo inconsciente".
Cabe lembrar, neste ponto, que as fantasias ocorrem no nível inconsciente da mente e podem, eventualmente, tornar-se conscientes. Elas são a "matéria-prima" do inconsciente e, como tal, permeiam toda a vida mental, que, por sua vez, está na base do comportamento manifesto dos indivíduos.
"O estilo e o tom de voz ao falar, a postura corporal, o modo de andar, de apertar a mão, a expressão facial, a caligrafia e os maneirismos, em geral, também são determinados, direta ou indiretamente, por fantasias específicas. Estas são, usualmente, muito complexas, relacionadas com os mundos interno e externo, e vinculadas à história psíquica do indivíduo" (pág. 114).
"De mesmo modo, as mais vastas expressões sociais do caráter e personalidade mostram-nos também a potência das fantasias. Por exemplo, as atitudes das pessoas em matérias tais como o tempo, dinheiro e posse de bens, ser pontual ou atrasar-se, dar e receber, liderar ou ser adepto, estar 'no centro do palco' ou concentrar-se em trabalhar nos bastidores etc. são sempre expressões que, na análise, se verifica estarem relacionadas com certos conjuntos específicos de variadas fantasias" (pág. 155).
A fantasia é considerada o substrato da vida mental, e elas representam também as ansiedades e defesas, que são outros conceitos a serem abordados. O paciente está fadado a lidar com conflitos e ansiedades, revividos na relação com o analista, empregando os mesmos métodos a que recorreu no passado. Isto quer dizer que ele se afasta do analista como tentou se afastar de seus objetos primários; tenta cindir a relação com eles, mantendo-os como figuras boas ou más; deflete alguns dos sentimentos e atitudes vividos em relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto é parte da situação transferencial.
Na relação dupla transferencial, existem basicamente dois tipos de ansiedade: a paranoide e a depressiva. A primeira sinaliza o perigo do ego ser destruído por objetos internos e externos, e a segunda, o perigo de danificar ou destruir os objetos amados.
A ansiedade paranoide está relacionada à posição esquizoparanóide, que se caracteriza por uma vivência de objetos parciais e por um "splitting" entre os objetos frustradores e os gratificadores. Os objetos parciais que frustram são violentamente atacados ao nível das fantasias e se tornam terroríficos, ameaçando constantemente o ego, que se sente em perigo.
"Convenci-me de que a análise da transferência negativa, que havia recebido pouca atenção na técnica psicanalítica, constitui uma precondição para analisar as camadas mais profundas da mente."
Já a ansiedade depressiva está associada à posição depressiva, um estado mental que se caracteriza por um contatocom o objeto total, ou seja, a percepção de que é o mesmo objeto que frustra e gratifica. Esta integração concomitante do objeto e do ego gera o medo de que a parte má do ego vá danificar ou destruir o objeto que, ambivalentemente, o gratifica e o frustra.
Estas ansiedades, ao serem vivenciadas, mobilizam defesas no ego, que são formas de reagir a estes "perigos". A ansiedade paranoide gera defesas como projeção, "splitting", negação, identificação projetiva e idealização, todas elas com a finalidade de livrar o ego de seus perseguidores. Por meio destas defesas, o ego procura afastar-se dos perigos que julga serem externos e colocar fora de si as partes que são sentidas como perigos internos. Paralelamente, busca identificar-se com os objetos idealizados para sentir-se suficientemente forte diante dos perseguidores. São tempos de guerra para o ego, e, consequentemente, o sofrimento mental é intenso. O indivíduo está sempre alerta, amedrontado e aterrorizado, e as defesas de que se utiliza, em geral, provocam fragilidade do ego e afastamento da realidade.
A ansiedade depressiva também mobiliza um sistema poderoso de defesas, a saber, as defesas maníacas. O ego, ao entrar em contato com sua capacidade destrutiva e com a possibilidade de perder o objeto amado, defende-se com sentimentos de desvalorização, desprezo e triunfo sobre o objeto, na tentativa de negar sua importância e, assim, afastar o medo de perdê-lo ou de se separar dele.
Estas ansiedades e defesas são vividas em um contexto de relações objetais.
A transferência é um fenômeno psíquico em que todas as fantasias, ansiedades e defesas que compõem o mundo interno são expressas nas situações vividas no cotidiano. O indivíduo traz para cada nova relação que estabelece ou cada nova situação que vive toda sua história, seus objetos internos, seus medos e esperanças e transfere-as para a situação atual.
"Sugeri que um dos fatores que levam à compulsão à repetição é a pressão exercida pelas primeiras situações de ansiedade. Quando as ansiedades persecutórias e depressiva e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente experiências fundamentais e, em consequência, antigos padrões e modos de sentir são mantidos com menos tenacidade" (pág. 79).
Embora a transferência não seja específica da relação analítica, ela é intensificada nesta relação. Klein afirma que, na medida em que o analista vai abrindo caminho em direção ao inconsciente do paciente, a premência em transferir suas experiências mais profundas e mais primitivas é reforçada, e o setting analítico passa a ser o lugar privilegiado para a transferência e, especialmente, para sua explicitação.
Os objetos internalizados são, então, expressos na relação que o paciente estabelece com o analista. Uma vez que a internalização se faz em um contexto de ambivalência entre amor e ódio, as relações objetais são carregadas desses sentimentos. Derivam-se daí os conceitos de transferência positiva e negativa.
Na transferência positiva, predominam na relação os sentimentos amorosos, tais como gratidão, reparação, respeito, tolerância e capacidade de continência. O sentimento de gratidão provém de uma consideração sincera do outro como fonte de gratificação. Ao admitir que o objeto tem qualidades que são importantes e necessárias para sua sobrevivência, o sujeito investe o objeto de sentimentos amorosos, desejando cuidar dele, protegê-lo de seus próprios ataques, sendo mais tolerante e querendo gratificá-lo. Junto com o sentimento de gratidão, aparecem os movimentos de reparação, que se referem ao desejo de consertar os objetos danificados pelos ataques destrutivos do próprio sujeito.
Em análise de crianças, isto aparece de forma bem concreta, quando o paciente estraga algum brinquedo em um momento de ódio e explosão e, em outro, procura consertá-lo, usando toda sua criatividade e paciência para isso. O conserto de um objeto concreto representa o desejo de reparar o vínculo com o analista que, na fantasia, também foi danificado no momento destrutivo.
Na transferência negativa, os sentimentos predominantes são invejosos e destrutivos. Os objetos são alvo de ataques de todo tipo. Na situação analítica, o paciente se utiliza de qualquer ocorrência para acusar, implicitamente ou explicitamente, o analista. Por exemplo, se o analista suspende uma sessão, o paciente pode sentir como uma agressão por ter sido abandonado e colocado em segundo plano. Isto gera sentimentos hostis no vínculo que podem aparecer tanto em um pequeno atraso na sessão seguinte quanto em uma interrupção definitiva do trabalho.
A inveja é um dos sentimentos mais comuns na transferência negativa. Seu objeto é destruir a bondade do objeto, sua capacidade provedora e criativa. Segundo Segal (1982), a inveja é perniciosa para o desenvolvimento, porque ataca a fonte de bondade e proteção, danificando este objeto na fantasia e, consequentemente, prejudicando a introjeção de um objeto bom e protetor, que é a base do desenvolvimento do ego. Na clínica, os sentimentos invejosos do paciente atacam a capacidade do analista, tornando-o, em fantasia, impotente para ajudar o paciente. Tratava-se de uma vivência transferencial que precisa ser minuciosamente analisada, para que o progresso do paciente seja possível.
A transferência é assim uma via privilegiada de acesso ao inconsciente, uma vez que revela toda a dinâmica psíquica do paciente. Já que se trata de um fenômeno tão importante para o conhecimento do paciente, resta saber como trabalhar com ele, tornando-o veículo terapêutico.
Bibliografia: Klein, M. (1991). As origens da transferência. Em, Inveja e Gratidão e outros Trabalhos, vol. III das Obras Completas de Klein, Rio de Janeiro: Imago, (original de 1952)a vida a si próprias evitando conflitos internos e externos. Como consequência, visam aquilo que é garantido ou conveniente e não podem desenvolver convicções profundamente arraigadas. Um caráter forte, no entanto, se não for mitigado pela consideração pelos outros, não é característico de uma personalidade equilibrada. A compreensão para com outras pessoas, a compaixão, a simpatia e a tolerância enriquecem nossa experiência do mundo e fazem-nos sentir mais confiantes em nós mesmos e menos sós." (Inveja e Gratidão - página 307)"
Bibliografia:
CINTRA, E. M. U.; FIGUEIREDO, L.C. Melanie Klein, estilo e pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. Capítulo 1: Melanie: algumas informações introdutórias (29-35). 
KLEIN, M. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997. 
A Obra Inicial de Melanie Klein
A obra inicial de Melanie Klein pode ser dividida em três fases distintas, cada uma com importantes contribuições para a teoria e técnica psicanalítica.
Na primeira fase, que começa com seu artigo "On the Development of the Child" e culmina na publicação de "The Psycho-Analysis of Children" em 1932, Melanie Klein estabeleceu os fundamentos da análise de crianças. Nesse período, ela abordou o complexo de Édipo e o superego, investigando suas raízes primitivas no desenvolvimento do psiquismo infantil.
A segunda fase, que seguiu após 1934, foi marcada pela formulação do conceito da posição depressiva e dos mecanismos de defesa maníaca. Ela explorou essas ideias em seus artigos "A Contribution to the Psychogenesis of the Manic Depressive States" (1934) e "Mourning and its Relation to Manic Depressive States" (1940).
Já na terceira fase, Melanie Klein concentrou-se na posição esquizo-paranóide, que foi descrita principalmente em seu artigo "Notes on some Schizoid Mechanisms" (1946) e em seu livro "Envy and Gratitude" (1957).
Uma mudança importante em seu ponto de vista teórico ocorreu a partir da formulação do conceito de posições em 1934. Antes disso, ela seguia Freud e Abraham, descrevendo suas descobertas em termos de estágios libidinais e da teoria estrutural do ego, superego e id. Porém, a partir de 1934, Melanie Klein passou a formular suas descobertas principalmente em termos de seu próprio conceito estrutural de posições. Essas posições não entraram em conflito com os conceitos de ego, superego e id, mas ajudaram a definir a estrutura real deles e o caráter de seus relacionamentos, considerando as posições esquizo-paranóide e depressiva.
A análise de crianças permitiu a Melanie Klein lançar nova luz sobre o desenvolvimento infantil. Ela utilizou a técnica de brincar (play technique), inspirada nas observações de Freud sobre o brincar da criança, para compreender simbolicamente as ansiedades e fantasias infantis. Essa abordagem possibilitou a descoberta do rico mundo da fantasia inconsciente e das relações de objeto da criança.
Em suas observações, Melanie Klein confirmou as teorias de Freud sobre a sexualidade infantil e encontrou fenômenos inesperados. Ela percebeu que o complexo de Édipo se manifestava em crianças de dois anos e meio, e as tendências pré-genitais também desempenhavam um papel importante nessas fantasias e ansiedades.
Em suma, a obra inicial de Melanie Klein trouxe importantes avanços na análise de crianças e revelou um mundo rico e complexo da mente infantil, proporcionando uma base sólida para o desenvolvimento posterior de sua teoria psicanalítica.
Bibliografia:
Segal, H. (1978). Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Editora Imago.
AULA 2: A Técnica Psicanalítica através do brincar: sua história e significado.
Glossário 
Ansiedade: é considerada como sendo a resposta do ego ação do instinto de morte. Quando o instinto de morte é defletido, toma duas formas principais:
Ansiedade paranoide: devida à projeção do instinto de morte (agressão) num objeto ou objetos que, então, são experimentados como perseguidores. E a ansiedade de que esses perseguidores aniquilem o ego e o objeto ideal, origina-se na posição esquizo-paranoide.
Ansiedade depressiva: é a ansiedade de que a própria agressividade aniquile ou tenha aniquilado/ danificado o objeto bom. É experimentada em relação ao objeto e em relação ao ego, que, em identificação com o objeto, se sente ameaçado, origina-se na posição depressiva, quando o objeto é percebido como objeto total e o bebé experimenta sua própria ambivalência.
Perseguidores: são objetos nos quais uma parte do instinto de morte foi projetada. Dão origem à ansiedade paranoide.
A Técnica Psicanalítica através do brincar: sua história e significado.
A teoria elaborada por Melanie Klein resultou em uma clínica muito diferente de tudo o que havia disponível para o trabalho analítico infantil. Ela traduziu como ninguém os processos e mecanismos psíquicos mais arcaicos e profundos que integram a formação do psiquismo.
Quando Klein atendeu seu primeiro caso, já havia um trabalho psicanalítico, particularmente o da Dra. Hermine Hug Hellmuth. No entanto, ela não empreendeu a psicanálise com crianças menores de 6 anos, embora usasse desenhos e ocasionalmente o brincar como produtor de material, ela não desenvolveu uma técnica específica. A dra. Hellmuth foi centro de algumas crises no universo psicanalítico, em 1920 ela forjou um diário de uma jovem para que fosse compatível com sua teoria do desenvolvimento sexual e no ano de 1924 foi assassinada pelo próprio filho adotivo, que ela havia criado de acordo com os princípios psicanalíticos.
Na época, os psicanalistas achavam potencialmente perigoso explorar as profundezas do inconsciente da criança. A psicanálise era indicada apenas para crianças em idade de latência em diante.
Pode-se dizer que Klein foi pioneira e original na criação de uma psicanálise para criança que incluía o entendimento simbólico contido nos brinquedos e jogos.
Quando Klein iniciou seu primeiro trabalho, ela estabeleceu, a princípio, que as interpretações deveriam ser dadas de modo parcimonioso. O primeiro paciente de Klein, tinha 5 anos de idade, chamado "Fritz". No início, ela achava suficiente dar orientações direcionadas à genitora, sugerindo que deveria encorajar a criança a discutir livremente com ela muitas questões não verbalizadas que estariam no fundo da mente e que impediam o seu desenvolvimento intelectual.
Klein percebeu um bom efeito, mas as dificuldades neuróticas não foram aliviadas. Ao fazer o atendimento, Klein devia seguir algumas regras estabelecidas até então, pois interpretava o que pensava ser mais urgente do material apresentado pela criança, e percebeu que seu interesse central se dava nas ansiedades e defesas usadas contra elas.
Essas ansiedades encontradas por Klein eram agudas, embora se sentisse no caminho certo ao observar alívio das ansiedades, ficava perturbada com o surgimento de novas ansiedades que iam sendo trazidas à tona. Preocupada, buscou conselhos com o Dr. Abraham, que a encorajou a seguir com o mesmo método de abordagem.
“Esta análise representou o início da técnica psicanalítica através do brincar, porque desde o início a criança expressou suas fantasias e ansiedades principalmente através do brincar, e eu interpretava consistentemente seu significado a ela, com o resultado de que o material adicional aparecia em seu brincar”.
Ao interpretar não apenas as palavras, mas também as atividades da criança com o brinquedo, Klein aplicou um princípio básico à mente da criança, cujo brincar e atividades variadas, na verdade, todos os seus comportamentos, são modos de se expressar, o que nós adultos expressamos predominantemente por meio de palavras.
Contudo, Klein se apoiou em dois princípios fundamentais da psicanálise: a exploração do inconsciente e a análise da transferência.
A partir de 1920 a 1923, teve diversas experiências com atendimentos de crianças. Em particular, o caso que contribuiu significativamente com a técnica foi o tratamento de uma criança de 2 anos e 9 meses analisada em 1923.
“Rita” sofria terrores noturnos e fobias de animais, era muito ambivalente em relaçãoà mãe, porém era apegada a ponto de não ficar sozinha. Apresentava neurose obsessiva acentuada e, às vezes, ficava muito deprimida. Seu brincar era inibido, demonstrava inabilidade de tolerar frustração, o que tornava sua educação algo difícil.
Inicialmente, Klein ficou hesitante em aceitar o atendimento devido à idade da criança. Na primeira sessão, Rita, ao ser deixada no quarto sozinha com Klein, demonstrou sinais de transferência negativa. Rita estava silenciosa, ansiosa e solicitou ir para a parte externa, ao jardim. Os observadores, tia e genitora, demonstraram olhares e sinais de um trabalho fadado ao fracasso e ficaram surpresos ao verem Rita sendo amistosa com Klein 10 minutos mais tarde.
Klein narra que a explicação para tal mudança se deu enquanto estavam fora, ela interpretou a transferência negativa, indo contra a prática usual.
A partir de poucas coisas que a criança falou e do fato de ter ficado menos amedrontada, Klein concluiu que a criança estava particularmente receosa com o que poderia acontecer a ela a sós no quarto. Ela interpretou isso, referindo-se ao medo noturno, ao medo de uma mulher má e hostil atacá-la quando estivesse sozinha. Depois dessa interpretação, Klein sugeriu que retornassem ao quarto, pedido prontamente atendido pela criança.
A inibição de Rita ao brincar era acentuada, dificilmente fazia outra coisa a não ser vestir e desvestir uma boneca. Logo, Klein passou a entender as ansiedades subjacentes às obsessões de Rita e as interpretou.
A partir deste caso, Klein ficou convicta de que a precondição para psicanálise de criança é compreender e interpretar as fantasias, sentimentos, ansiedades, experiências expressas no brincar, ou se as atividades do brincar estão inibidas, as causas da inibição.
Klein considerando o caso de “Fritz” chegou à conclusão de que o trabalho psicanalítico não deveria ser feito na casa da criança. Percebeu também que, mesmo a mãe de Rita precisando de ajuda e optando pela psicanálise como solução, apresentava uma postura muito ambivalente em relação a Klein. Situações transferenciais que no consultório podem ser estabelecidas e mantidas como algo separado da vida familiar cotidiana.
Outra observação de um atendimento realizado no mesmo ano foi de uma menina de 7 anos que apresentava dificuldades neuróticas aparentemente não graves, mas os pais estavam preocupados com o desenvolvimento intelectual da criança. Embora bastante inteligente, não acompanhava os demais de sua faixa etária, sua relação com a genitora era amistosa e de confiança, e, com o início da vida escolar, passou a ser reservada e silenciosa.
Klein passou algumas sessões sem muito contato, pelas falas e comportamentos da criança, ficava claro que ela não gostava de ir à escola. Em uma sessão, a criança estava aparentemente indiferente e retraída, não gostava de desenhar, com isso, Klein foi ao quarto de seus próprios filhos e pegou alguns brinquedos e os dispôs para a criança.
A criança estava desinibida ao brincar, logo destacou duas figuras de brinquedo que representavam a si mesma e outra um menino pequeno, parecia haver algo secreto entre eles, pois sentia ressentimento com os outros bonecos que interferiam e espiavam eles. As atividades com os brinquedos levavam a catástrofes, tais como quedas, colisões de carros, eram repetidas e demonstravam sinais de ansiedade crescente. Neste ponto, Klein interpretou que algo poderia ter acontecido entre ela e seu amigo e que estava com medo de ser descoberta e por isso desconfiava das outras pessoas. Assinalou também que, quando brincava, ficava ansiosa a ponto de parar a brincadeira. Lembrou que parecia que ela tinha medo da diretora descobrir sua relação com seu colega e a punisse. “Sobretudo estava com medo da mãe e, portanto, desconfiava dela e agora poderia estar desconfiada de mim”.
O efeito dessa interpretação foi surpreendente, a ansiedade e desconfiança inicialmente aumentaram, mas logo deram lugar a um evidente alívio. Embora não admitisse e tampouco negasse as interpretações, demonstrou concordância, apresentando novos materiais e tornando sua fala e brincar mais livres. Passou a melhorar sua relação com a família e a se interessar pelas lições, mas as inibições na aprendizagem estavam enraizadas em ansiedades profundas, que foram resolvidas gradativamente no decurso do tratamento.
Klein sugeriu que os brinquedos fossem guardados em uma caixa e, a partir das suas experiências, decidiu os mais adequados para a técnica psicanalítica, como brinquedos pequenos e variados que permitissem que a criança expressasse suas fantasias e experiências, que não fossem mecânicos e que as figuras humanas não tivessem em particular ocupação preestabelecida.
No entanto, os brinquedos não são os únicos requisitos para a análise do brincar. Por exemplo: as atividades realizadas ao redor da pia, que é equipada com 2 tigelas, copos e colheres. Frequentemente, a criança pinta, recorta, conserta brinquedos. Em tais jogos, a criança comumente atribui funções a si mesma e ao analista, assumindo papéis dos adultos e demonstrando o desejo de reverter os papéis, seu desejo de como os adultos deveriam se comportar em relação a ela.
A agressividade é expressa em várias formas indiretas e diretas, o brinquedo quebra e quando a criança é mais agressiva, investidas com tesoura, faca são dadas à mesa, as tintas espalhadas por todos os lados, um cenário praticamente de guerra.
“Em geral, sou capaz de transmitir à criança que eu não toleraria ataques físicos contra mim”.
Essa atitude protege tanto o analista como a análise, evitando culpas e ansiedades persecutórias excessivas e desnecessárias.
É essencial trazer à luz a agressividade da criança, mas o que conta mais é compreender nesse momento particular da situação transferencial como que aparecem os impulsos agressivos e suas consequências na mente da criança. Por exemplo: sentimento de culpa por ter quebrado um boneco que representava inconscientemente um irmão ou um pai, a interpretação tem que lidar com níveis mais profundos.
Por exemplo, muitas vezes a criança deixa de lado o boneco danificado (representação de figura afetiva significativa, um irmão), demonstrando certa persecutoriedade de que a pessoa atacada tenha se tornado um retaliador. A culpa e a depressão em excesso podem reforçar também o sentimento persecutório. E o sentimento de perseguição pode ser tão forte que encobre os de culpa e depressão, que por sua vez, quando despertados pela percepção do dano produzido, resultam em melhora.
Quando isso acontece, percebemos melhora na relação com o irmão, os sentimentos de culpa, depressão, o desejo de fazer reparações e o sentimento de amor que estava prejudicado pela ansiedade voltam a primeiro plano.
“Nunca é demais enfatizarmos a importância de tais mudanças para a formação de caráter e para as relações de objeto, assim como para a estabilidade mental”.
Ao contrário de Freud, Klein identificava no brincar em situação transferencial a possibilidade de interpretar com base na brincadeira produzida pela criança. Para ela, as brincadeiras equivaliam às fantasias e davam acesso à sexualidade infantil e à agressividade. Com base nessa constatação, concebeu a relação transferencial e contratransferencial entre criança e analista. A associação livre do adulto é um equivalente do brincar infantil para Klein, pois traduz ao analista o simbolismo de seu mundo interno. A teoria kleiniana permite a compreensão de processos transferenciais em idades muito tenras. Klein sugere interpretar a angústia no preciso momento em que ela aparece no atendimento. Klein desenvolveu a técnica do brincar e da utilização de jogos como meio de comunicação com as crianças.
Nessa obra aparecem também as primeiras noções teóricas de maior alcance, como, por exemplo, a discriminação entre angústia persecutória e culpa, e a importância da transformação do superego arcaico em um superego benigno, com sua forma acabada de consciência moral, capaz e tendo por pressuposto a capacidade de levar o outro em consideração.
Algumas conclusões:Em conclusão, a teoria e a prática de Melanie Klein trouxeram inovações significativas para a psicanálise infantil, destacando a importância do brincar como uma forma expressiva das fantasias inconscientes da criança. Sua abordagem pioneira permitiu compreender e interpretar as complexas dinâmicas psíquicas presentes nas atividades lúdicas das crianças. Ao analisar o brincar, Klein identificou que as brincadeiras eram equivalentes às fantasias, servindo como portas de acesso às dimensões da sexualidade infantil e da agressividade.
A capacidade de transferência da criança é um elemento crucial em sua técnica. Ela observou como as crianças transferem seus sentimentos, desejos e conflitos para o analista durante as sessões, muitas vezes refletindo as relações e ansiedades que experimentam em suas vidas cotidianas. A análise da transferência e contratransferência entre criança e analista permitiu a compreensão mais profunda das dinâmicas emocionais da criança.
O consultório de Klein desempenhou um papel vital em seu trabalho. Ao criar um ambiente separado da vida familiar cotidiana, ela estabeleceu um espaço seguro para as transferências e explorações emocionais das crianças. Esse espaço controlado permitiu a análise das ansiedades e fantasias mais profundas, muitas vezes relacionadas a conflitos familiares ou experiências traumáticas.
Os tipos de brinquedos utilizados no consultório eram escolhidos cuidadosamente para facilitar a expressão das fantasias e experiências das crianças. Brinquedos pequenos, variados e não mecânicos permitiam que as crianças projetassem seus sentimentos e conflitos em suas atividades lúdicas. Esses brinquedos também permitiam a representação simbólica de situações e relacionamentos, tornando-se uma linguagem através da qual as crianças podiam se comunicar com o analista.
Através da técnica do brincar, Klein conseguiu compreender melhor as ansiedades, fantasias e conflitos inconscientes das crianças, possibilitando a exploração e resolução de questões emocionais profundas. Seu trabalho abriu caminho para uma abordagem mais completa e holística na psicanálise infantil, levando em consideração não apenas as palavras, mas também as ações e brincadeiras das crianças como formas de comunicação e expressão.
Bibliografia:
“A técnica Psicanalítica através do brincar: Sua História e Significado “KLEIN, M. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997.
AULA 3: O Complexo de Édipo na obra de Melanie klein.
Glossário:
Ansiedade de castração é principalmente de tipo paranoide, originando-se na projeção que a criança faz de sua própria agressividade; contudo, também pode conter elementos depressivos; por exemplo, a ansiedade de perder o próprio pênis como órgão de reparação.
Complexo de Édipo primitivo: é a relação edipiana experimentada pelo bebê a partir do início da posição depressiva. É experimentado em termos pré-genitais, antes de a genitalidade ser alcançada.
Pais combinados: trata-se de uma figura de fantasia dos pais combinados na relação sexual. Origina-se quando o pai não é plenamente diferenciado da mãe e seu pênis é sentido como parte do corpo da mãe. Quando surgem ansiedades edipianas, essa fantasia é reativada regressivamente, como modo de negar a relação sexual dos pais. Em geral, é experimentada como figura terrificante.
Objeto ideal (seio ou pênis) é experimentado pelo bebê na posição esquizo-paranóide, como resultado da divisão (splitting) e da negação da perseguição. Todas as experiências boas da criança, reais e fantasiadas, são atribuídas a esse objeto ideal, que ela anseia possuir e com o qual anseia identificar-se.
Os Estágios Primitivos do Complexo de Édipo.
É implícito na definição fornecida por Melanie Klein da posição depressiva que o complexo de Édipo começa a se desenvolver durante essa fase, da qual é parte integrante. Quando a mãe é percebida como objeto total, ocorre uma mudança não apenas na relação do bebê com ela, mas também em sua percepção do mundo. Ele começa a reconhecer as pessoas individual e separadamente, entendendo as relações entre elas. Especialmente, o bebê percebe o vínculo que existe entre seu pai e sua mãe, preparando o terreno para o complexo de Édipo.
No entanto, a percepção que o bebê tem das relações entre outras pessoas é muito diferente da percepção de um adulto ou mesmo de uma criança mais velha. Devido às projeções que afetam todas as suas percepções, quando o bebê percebe o vínculo libidinal (amoroso) entre seus pais, ele projeta neles seus próprios desejos libidinais e agressivos. Sob o domínio de seus próprios impulsos poderosos, ele fantasia que seus pais estão envolvidos em uma relação sexual quase ininterrupta, e a natureza dessa relação varia de acordo com as flutuações de seus próprios impulsos. Ele imagina seus pais trocando gratificações orais, uretrais, anais ou genitais, de acordo com a prevalência de seus próprios impulsos, que ele projeta neles. Essa situação, na qual o bebê percebe seus pais conforme suas próprias projeções, resulta em sentimentos de privação aguda, ciúme e inveja, uma vez que os pais são percebidos como dando constantemente um ao outro exatamente as gratificações que o bebê deseja para si mesmo.
A criança reage a essa situação com um aumento de seus sentimentos agressivos e fantasias. Em suas fantasias, os pais são atacados por todos os impulsos agressivos à sua disposição e são percebidos como destruídos. Devido à intensa atividade de introjeção durante esse estágio de desenvolvimento, os pais atacados e destruídos são imediatamente internalizados e sentidos pela criança como parte de seu mundo interno. Em outras palavras, na situação depressiva, o bebê tem que lidar não apenas com um seio e uma mãe internos destruídos, mas também com o casal de pais internos destruído (culpa) da situação edipiana primitiva.
Em 1921, Klein faz sua primeira menção ao Édipo no artigo "O desenvolvimento de uma criança" (1921/1996). Neste texto, ela apresenta o caso de “Fritz”, de quatro anos e três terços, que apresentava atraso no desenvolvimento e inibição intelectual, mas tinha uma memória impressionante. Na ocasião, ele fazia muitas perguntas sobre a origem dos bebês, e depois de resolver suas dúvidas, o complexo de Édipo começou a se tornar evidente.
Klein passou a se dedicar a pensar sobre os princípios da análise infantil e participou de um simpósio sobre o assunto no qual esteve presente Ana Freud. Através desses debates, sua técnica psicanalítica do brincar foi consolidada, enfatizando a importância de analisar a angústia e a culpa. Ela defendia que a análise com crianças deveria ser equivalente à análise com adultos, tanto em relação à interpretação de conflitos quanto ao estabelecimento de uma neurose de transferência com os analistas.
Em suas obras "Amor, culpa e reparação" e "Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas", Melanie Klein difere do conceito clássico do Édipo, postulando que o complexo surge muito antes do que Freud acreditava. Ela considerava suas manifestações por volta dos 2 ou 3 anos de idade e, posteriormente, a partir do segundo ano de vida. Ela afirmava que o superego já existia antes do conflito edípico, o que contrariava as ideias de Freud.
Segundo Klein, esse superego primitivo é composto pelas identificações surgidas nas fases oral e sádico-anal, representando um fardo para as crianças. A tarefa da análise de crianças era suavizar esse superego arcaico, que era mais cruel do que o dos adultos, pois envolvia fantasias de punições extremas.
Como é formado o Superego arcaico? Ele é dotado de uma série de identificações que a criança faz com os objetos desde muito cedo e assimila seus aspectos contraditórios: bondade e severidade/maldade. O bebê portador de um Ego em formação é frágil, quando é atacado pelas tendências edipianas (início da curiosidade sexual), o bebê ainda não tem um intelecto desenvolvido e é exposto às indagações da curiosidade sexual infantil. Klein postula que esse sofrimento se torna inconsciente e mesmo quando chega à consciência, nãopode ser expresso por palavras. É justamente esse não entendido que causa sofrimento na criança pequena, inibindo sua criatividade e produzindo o protótipo da neurose.
A autora também reformulou a teoria da sexualidade, baseando-se nos conceitos de posições esquizoparanóide e depressiva. Ela postulava que o Édipo precoce surgia das frustrações vividas pela criança em relação à satisfação de suas tendências orais e anais, levando-a a buscar novas fontes de prazer na zona genital.
“O menino, quando se vê impelido a trocar a posição oral e anal pela genital, passa a ter o objetivo da penetração associado à posse do pênis. Assim, ele muda não só sua posição libidinal, mas também seu objetivo, o que permite que mantenha o objeto amoroso original. No caso da menina, por outro lado, o objetivo receptivo passa da posição oral para a genital: ela muda sua posição libidinal, mas mantém o mesmo objetivo, que já levou à frustração em relação à mãe. Desse modo, a menina desenvolve a receptividade para o pênis e se volta para o pai como objeto amoroso. Desde o início, porém, os desejos edipianos ficam associados ao medo da castração e sentimento de culpa incipientes.” (p.216)
Klein acrescenta no conceito de complexo de Édipo que o menino também descobrirá a fase da feminilidade, que está fixada na fase anal onde a criança fará uma relação entre as fezes (um produto da mãe) com os filhos que um dia a criança espera ter. O menino irá despertar para ter filhos e ele quer se apropriar dessa capacidade da mãe. O menino inveja o corpo da mãe e seu aparato reprodutivo. Esse desejo é frustrado e ele passa a querer roubar o corpo da mãe. A mãe passar a ser considerada uma castradora por frustrar os prazeres anais do menino. Neste sentido, quanto maior for a fixação sádica, mais o menino vai rivalizar com a mãe (inveja e ódio). Sendo assim, na fase da feminilidade, seu Superego incorpora tanto a imagem de uma mãe castradora como a de um pai castrador. Essa relação invejosa para com o corpo da mãe é tratada na Psicanálise como uma coisa muito mais obscura do que a inveja do falo na mulher. Para Klein, o menino desloca essa inveja do corpo da mãe para a supervalorização (narcísica) do pênis e para sustentar uma superioridade intelectual.
As posições em Klein se diferenciam das fases evolutivas propostas por Freud, pois correspondem a modos de funcionamento das relações com os objetos e os mecanismos de defesa associados a eles. Na posição depressiva, o bebê unifica os aspectos bons e maus do objeto, diferentemente das etapas pré-genitais, que configuram uma relação parcial, marcada pela incorporação, posse e rivalidade.
“Podemos ver nelas, também, uma explicação para o rigor do superego, que se manifesta de forma muito clara na análise dessas crianças. Não parece claro que uma criança de quatro anos, por exemplo, deveria criar em sua mente uma imagem irreal e fantástica de pais que devoram, cortam e mordem. No entanto, é fácil explicar por que numa criança com cerca de um ano a ansiedade criada pelo início do conflito edipiano toma a forma do medo de ser devorada e destruída. A própria criança deseja destruir o objeto libidinal, mordendo-o, devorando-o e cortando-o em pedaços. Isso dá origem à ansiedade, pois o despertar das tendências edipianas é seguido pela introjeção do objeto, do qual agora se espera punição. A criança passa a temer um castigo que corresponda à ofensa: o superego se torna algo que morde, devora e corta.” (p.217)
Klein considerava que a análise deveria reduzir a força do superego primitivo, enquanto Ana Freud acreditava em fortalecê-lo de forma educativa. Além disso, ela discordava da teoria de Freud sobre o auge do complexo de Édipo por volta dos 3 anos, afirmando que esse processo ocorria muito antes, por volta dos 2 ou 3 anos de idade.
“A análise de crianças muito pequenas me revelou que até mesmo uma criança de três anos de idade já deixou para trás, a parte mais importante do desenvolvimento de seu complexo de Édipo. Como consequência, ela já está muito afastada, através da repressão e do sentimento de culpa, dos objetos que desejava originalmente”. (Klein, 1927a, pp.178-179).
Algumas conclusões.
Melanie Klein trouxe contribuições fundamentais para a compreensão do complexo de Édipo precoce, o desenvolvimento do superego primitivo e a dinâmica dos objetos parciais e totais na psicanálise infantil.
Klein destacou que o complexo de Édipo começa a se desenvolver durante a posição depressiva, quando o bebê percebe as relações libidinais entre seus pais. No entanto, devido às projeções que influenciam suas percepções, o bebê projeta seus próprios desejos e impulsos nas relações dos pais, resultando em sentimentos de privação, ciúme e inveja. Essa percepção distorcida influencia a forma como o bebê lida com seus próprios impulsos e fantasias agressivas.
O superego precoce, de acordo com Klein, já existe antes do conflito edípico. Ele é composto pelas identificações formadas nas fases orais e sádico-anais e pode ser mais cruel do que o superego dos adultos, envolvendo fantasias de punições extremas. A análise de crianças, segundo Klein, tem a tarefa de suavizar esse superego arcaico e ajudar a criança a lidar com suas ansiedades e culpa.
Klein também reformulou a teoria da sexualidade, postulando que o Édipo precoce surge das frustrações em relação à satisfação das tendências orais e anais da criança, levando-a a buscar prazer na zona genital. Ela enfatizou as posições esquizoparanóide e depressiva como modos de funcionamento das relações com os objetos e os mecanismos de defesa associados.
Ao contrário das ideias de Freud sobre o momento do auge do complexo de Édipo por volta dos 3 anos, Klein percebeu que o complexo de Édipo se manifestava em crianças de dois anos e meio, e as tendências pré-genitais também desempenhavam um papel importante nessas fantasias e ansiedades. Ela argumentou que a análise de crianças muito de até 3 anos mostrou que elas já haviam passado pela parte mais importante do desenvolvimento do complexo de Édipo e estavam afastadas dos objetos de desejo originais devido à repressão e à culpa.
Em resumo, as contribuições de Melanie Klein expandiram a compreensão do desenvolvimento psicossexual e das dinâmicas psíquicas nas fases iniciais da vida.
Bibliografia:
KLEIN (1928) Estágios iniciais do conflito edipiano. In: KLEIN, M. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997. (Amor, culpa e reparação e outros trabalhos, Vol. I).
KLEIN, M. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991-1997.
*Influências mútuas do desenvolvimento de ego e id (1952).
*Sobre a observação do comportamento de bebês (1952).
AULA 4: O inconsciente Kleiniano.
Tema de discussão: O inconsciente Kleiniano: Vida emocional e mundo interno: fantasia, cisão, projeção, introjeção, identificação projetiva.
Glossário
Divisão (splinting), cisão: pode envolver o ego e o objeto. A primeira divisão ocorre entre o eu (self) bom e o eu (self) mau, e o objeto bom e o objeto mau, A deflexão do instinto de morte envolve divisão entre a parte sentida como contendo os impulsos destrutivos e a parte sentida como contendo a libido.
Idealização: é um mecanismo esquizoide, em conexão com divisão (splitting) e negação. As características indesejáveis do objeto são negadas e a própria libido da criança é projetada no objeto, embora pertencendo primariamente à posição esquizo-parandide, a idealização pode ser usada como parte das defesas maníacas contra ansiedades depressivas.
Identificação: É sempre considerada como produto de processos introjetivos ou projetivos.
Identificação introjetiva: é o resultado da introjeção do objeto no ego, o qual, então, se identifica com algumas ou com todas as suas características,
Identificação projetiva: é o resultado da projeção de partes do eu (self) no objeto. Pode ter como resultado não só o fato de que se perceba o objeto como tendo adquirido as características da parte projetada do eu (self), mas também o de que o eu (self) se torne identificado com o objeto de sua projeção.
Objetostotais: descrevem a percepção de outra pessoa como uma pessoa. A percepção da mãe como um objeto total caracteriza a posição depressiva. O objeto total contrasta tanto com o objeto parcial como com objetos divididos (split) em partes ideais e persecutórias. A ambivalência e a culpa são experimentadas em relação a objetos totais.
Objetos internos: são objetos introjetados no ego.
Objetos parciais: são objetos característicos da posição esquizo-paranóide. O primeiro objeto parcial experimentado pela criança é o selo. Em breve, outros objetos parciais são experimentados, a começar pelo pênis.
Objeto mau (ou perseguidor): é experimentado como resultado da divisão (splitting) na posição esquizo-paránóide. Nele é projetada toda a hostilidade do bebé, e todas as experiências más são atribuídas às suas atividades.
Objeto bom: o objeto bom refere-se geralmente ao seio ou ao pênis, tal como experimentados na posição depressiva no relacionamento com experiências boas. E sentido como fonte de vida, amor e bondade, mas não é ideal. Reconhecem-se suas más qualidades e, em contraste com o objeto ideal, pode ser experimentado como frustrador; é sentido como sendo vulnerável a ataques e, portanto, muitas vezes é experimentado como estando danificado ou destruído. O selo bom e o pênis bom são sentidos como pertencendo respectivamente à mãe boa e ao pai bom, mas podem ser experimentados antes que a relação de objeto total esteja plenamente estabelecida.
Mecanismos Esquizoides
Conforme Klein frequentemente descreve, o ego existe e funciona desde o nascimento. No começo, ele é muito desprovido de coesão e é dominado por mecanismos de cisão. O perigo de ser destruído pela pulsão de morte dirigida contra o self contribui para a cisão dos impulsos em bons e maus devido à projeção desses impulsos sobre o objeto originário, este também cindido em bom e mau. Como consequência, nos estágios mais iniciais, a parte boa do ego e o objeto bom estão, em certa medida, protegidos, já que a agressão é desviada deles. Esses são os processos específicos de cisão é a base de uma segurança relativa no bebê muito pequeno, na medida em que é possível alcançar segurança nesse estágio, ao passo que em outros processos de cisão patológica, tais como os que levam à fragmentação, são prejudiciais ao ego e sua força.
Junto com a necessidade de cindir, existe desde o início da vida uma tendência à integração, que aumenta com o crescimento do ego. Esse processo de integração baseia-se na introjeção do objeto bom, primordialmente um objeto parcial - o seio da mãe, embora outros aspectos da mãe também entrem até na mais antiga relação. Se o objeto interno bom é estabelecido com relativa segurança, ele se torna o cerne do ego em desenvolvimento. Uma relação inicial satisfatória com a mãe (não necessariamente baseada na amamentação ao seio, já que a mamadeira também pode, simbolicamente, representá-lo), implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança. Essa é o alicerce para a vivência mais completa de ser compreendido e está essencialmente vinculada ao estágio pré-verbal. 
Mesmo na melhor das hipóteses, no entanto, a relação feliz com a mãe e seu seio nunca é livre de perturbações, já que a ansiedade persecutória fatalmente surgirá (agressividade inata). A ansiedade persecutória está em seu ápice durante os três primeiros meses de vida - o período da posição esquizo-paranoide. Surge, no início da vida, como resultado do conflito entre as pulsões de vida e de morte, e a experiência do nascimento contribui para isso. Sempre que impulsos destrutivos surgem com muita força, a mãe e seu seio, devido à projeção, são sentidos como persecutórios e, portanto, o bebê inevitavelmente sente alguma insegurança. Essa insegurança paranoide é uma das raízes do desamparo.
Quando surge a posição depressiva - comumente na metade do primeiro semestre de vida - o ego já está mais integrado (decorrente também de processos maturacionais do desenvolvimento biológico, memoria etc.). Isso se expressa por um sentimento mais forte de inteireza, que permite ao bebê ser mais capaz de se relacionar com a mãe e, mais tarde, com outras pessoas, como uma pessoa completa. Assim, a ansiedade paranoide, como um fator de perseguição, dá lugar cada vez mais à ansiedade depressiva. 
Um dos fatores que estimulam a integração é o fato de os processos de cisão, através dos quais o ego arcaico tenta se contrapor à insegurança, nunca serem eficientes por mais do que um curto período, sendo assim o ego é levado a tentar compor-se/ lidar com os impulsos destrutivos. Essa tentativa contribui para a necessidade de integração. Isso ocorre porque a integração, se puder ser alcançada, tem o efeito de mitigar o ódio através do amor e dessa forma, tornar os impulsos destrutivos menos poderosos. O ego, então, sente-se mais seguro, não apenas em relação à sua própria sobrevivência, mas também em relação à preservação de seu objeto bom e próprios impulsos.
Divisão do seio em um objeto bom e um objeto mau, reside na tendência do ego infantil para cindir impulsos e objetos (clivagem do objeto). Necessidade de cindir o amor do ódio. A autopreservação do bebê depende da sua confiança em uma mãe boa. Por meio da cisão o bebê preserva a sua crença em um objeto bom e em sua capacidade de amá-lo, sendo essa uma condição essencial para manter-se vivo. Sem esse sentimento, o bebê estaria exposto a um mundo inteiramente hostil, que ele teme e o destruiria. - Os impulsos destrutivos onipotentes, a ansiedade persecutória e a cisão predominam nos primeiros 3 meses de vida (posição esquizoparanóide).
Em “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides” Melanie Klein trata sobre a importância dos mecanismos e ansiedades arcaicas de natureza paranoide (perseguição) e esquizoide (divisão). Após desenvolver teorias sobre os processos depressivos na criança, da posição depressiva infantil, a autora passa a refletir e se preocupar com a fase precedente. Contudo, o objetivo do texto é de formular algumas hipóteses sobre as ansiedades e mecanismos arcaicos, iniciais do desenvolvimento.
“As hipóteses sobre as ansiedades arcaicas foram extraídas por meio de inferências de materiais obtidos em análises de adultos e crianças e algumas hipóteses parecem estar de acordo com observações familiares ao trabalho psiquiátrico. Sustentar aos fatos exigiria um acúmulo de material clínico pormenorizado, para o qual não há espaço nos limites deste artigo”. (KLEIN 1946/1991)
A autora compreende que surgem na infância ansiedades características das psicoses, que forçam ao ego a desenvolver mecanismos de defesa específicos (cisão//fragmentação). É nesse período que se encontra pontos de fixação de todos os distúrbios psicóticos.
Klein expressa com frequência que o ego, as relações de objetos, os impulsos libidinais (amorosos) e destrutivos surgem desde o nascimento. Sobre o ego arcaico, Klein considera útil dar ênfase a noção dada por Winnicott à não integração do ego arcaico (situação patológica de não integração descrito por Winnicott de uma paciente que não podia distinguir entre sua irmã e ela mesma). Nesse sentido, o bebê não reconhece a existência de mais ninguém a não ser a de si mesmo (o seio da mãe para ele simplesmente uma parte de si mesmo – apenas uma sensação no início), e ele espera que todos seus desejos sejam satisfeitos. Ao descobrir que não pode suprir suas necessidades, põe a chorar e a gritar, torna-se agressivo. 
Nessa tríade ego, objeto e instintos, surgem as fantasias. Para autora, as fantasias são representantes das pulsões (vida x morte) libidinais e destrutivas com as quais a criança nasce, essas fantasias correspondem e dão certa figurabilidade mínima aos objetos da pulsão, é originária, a criança nasce com a capacidade de criar fantasia que darão expressão a seus impulsos e suas reações instintivas. Para elaborar essa ideia de fantasia Klein se apoiou na ideia Freudiana de “realização alucinatória de desejo”. 
A pulsão de morte seria, então, uma ameaça de aniquilação em abstrato, logo passa a manifestar-seem conexão com os objetos primários (seio/alimento e cuidadores), vindo então a se tornar uma angústia persecutória, a aniquilação deixa de ser um perigo de uma ameaça abstrata e se transforma em um medo de ser aniquilado pelo objeto, perseguidor concreto que provoca terror.
“Desde o início os impulsos destrutivos voltam-se para o objeto e se expressa em fantasias sádicos orais ao seio materno, os quais logo evoluem para ataques contra o corpo materno com todos meios sádicos. Os medos persecutórios decorrentes dos impulsos sádicos do bebê, de assaltar o corpo materno e retirar os conteúdos bons, bem como dos impulsos sádicos orais de pôr dentro da mãe os próprios excrementos (inclusive colocar seu corpo dentro da mãe e controlá-la), são de grande importância para o desenvolvimento da paranoia e da esquizofrenia”. (Klein -1946/1991).
Nesse sentido, Klein sugeriu que essa relação com os objetos primários se dá através de introjeção e projeção entre os objetos e situações internas e externas. A introjeção ao lado da projeção, é um dos mecanismos de defesa mais fundamentais, ambos são responsáveis pela constituição do aparelho psíquico e dos objetos internos; São reguladores do prazer e desprazer do aparelho psíquico. 
A introjeção tem significante de incorporar, de trazer para dentro é internalizar. Essa imagem do objeto externo é mais ou menos distorcida pelas fantasias do bebê. Ou seja, a introjeção é um mecanismo que visa assimilar o objeto para dentro do self (personalidade), incorporando suas características. Significa que o mundo externo, as situações que o bebê atravessa e os objetos que ele encontra são levados para dentro do self, vindo a fazer parte da sua vida interior (incorporação).
A projeção é uma operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que desconhece e recusa nele. 
“Ela é a primeira e mais fundamental dentre as nossas garantias ou medidas de segurança contra as sensações de sofrimento, de ser atacado, ou desamparado - da qual tantas outras decorrem – é esse processo que chamamos de projeção. Para um bebê a distinção entre os seus estados de prazer e desprazer, entre os sentimentos bons e mais dentro de si, refletem-se no mundo externo e influência sua diferenciação entre as coisas e pessoas boas e más no mundo externo. A projeção é a primeira reação do bebê ao sofrimento, e provavelmente permanece em todos nós como reação espontânea a qualquer sentimento penoso ao longo de toda nossa vida. O subsequente desenvolvimento mental permite cada um de nós, em grau variável, controlar ou refrear essa reação primitiva e subjetiva, substituindo-a por outros processos mais bem adaptados à verdade e à realidade objetiva da situação em que nos encontramos. (Joan Rivieri 1937). Ou seja, a projeção é um mecanismo de defesa que desvia para fora do Ego a libido e a agressão em direção ao objeto. Na projeção há uma capacidade na criança de atribuir a outras pessoas a sua volta, sentimentos de diversos tipos, predominantemente o amor e o ódio. O amor e o ódio dirigidos à mãe, estão intimamente ligados à capacidade do bebê muito pequeno de projetar todas as suas emoções sobre ela, convertendo-a em um objeto bom, assim como em um objeto perigoso (objeto mau).
Sobre o Objeto bom (seio bom) e Objeto mau (seio mau), a introjeção e a projeção fazem parte das fantasias inconscientes do bebê, que operam desde o princípio e ajudam a moldar sua impressão do ambiente. Os processos de introjeção e projeção contribuem para a interação entre os fatores internos e externos. Essa interação prossegue através de cada estágio da vida e transformam-se no decorrer da maturação. Portanto, mesmo no adulto, o julgamento da realidade nunca é completamente livre da influência de seu mundo interno.
Segundo Klein, os medos persecutórios dos impulsos sádico-orais do bebê são de grande importância para o desenvolvimento da paranoia e da esquizofrenia. Por outro lado, postula que as ansiedades, mecanismos de defesas do ego, de tipo psicótico, possuem grande influência no desenvolvimento do ego e superego, como também, nas relações de objeto. Nesse sentido todo ego em seu estado inicial sofre estados transitórios de despedaçamento, entretanto, quando estes se ampliam, predominam e persistem, provavelmente estamos diante um caso de esquizofrenia.
A posição paranoide precede a posição depressiva, que por sua vez, pode ser impedida devido ao excesso de perseguição. O fracasso de um ego frágil pode levar a um reforço regressivo dos medos persecutórios, e pode fortalecer a fixação para psicoses graves (esquizofrenias). Klein postula sobre a importância da introjeção do objeto bom, da necessidade de estabelecer objetos bons internos para segurança da criança em seu mundo interior e superação da fase depressiva.
As fantasias de envenenamento e de ser devorado, como a maioria dos fenômenos que prevalecem nos primeiros meses de vida, são encontrados depois em quadros sindrômicos da esquizofrenia. (A esquizofrenia possui significado de fragmentação da alma, divisão do cérebro). 
No decurso do texto Klein enumerou diversas defesas típicas de um ego arcaico, tais como o mecanismo de cisão de objetos e de impulsos, idealização, negação da realidade interna (consiste em negar aspectos da realidade psíquica que provocam um aumento excessivo das excitações, tanto de ódio como de amor intensos) e externa, e abafamento das emoções. 
Sobre a cisão, em conexão com a projeção e a introjeção. De acordo com Freud, ela concorda que a projeção se origina da deflexão da pulsão de morte para fora, e ajuda o ego a superar a ansiedade livrando-o perigo e de coisas más. 
No que diz respeito a cisão do objeto, devemos lembrar que, nos estados de gratificação, os sentimentos amorosos se voltam para o seio gratificador, ao passo que nos estados de frustração o ódio e a ansiedade persecutória se ligam ao seio frustrador. A cisão de objetos é responsável pela criação de objetos bons e maus, a cisão dos impulsos é o que separa o amor e ódio.
A cisão pode envolver o ego e o objeto. A primeira divisão ocorre entre o eu (self) bom e o eu (self) mau, e o objeto bom e o objeto mau, A deflexão do instinto de morte envolve divisão entre a parte sentida como contendo os impulsos destrutivos e a parte sentida como contendo a libido.
A idealização, fragmentação, dissociações são defesas esquizoides com significante de cisão (divisão), uma espécie de confusão do mundo interno e externo. Com seu desenvolvimento, interação (interno x externo) essa cisão dos objetos (parciais) bom e mau formados na mente do bebê resultam em uma introjeção de um objeto real (total).
Neste processo a idealização (superestimação do objeto) é operante e faz com que o objeto se torne um objeto ideal, por exemplo, o seio bom inexaurível, disponível, sempre gratificador. 
A idealização também é uma defesa contra a ansiedade persecutória, a introjeção do seio bom é fundamental para a integração do bebê, ele precisa conservar a crença da existência e presença do seio bom, pois somente assim poderá sentir-se seguro com estabilidade e segurança necessárias para suportar frustrações e privações. “A idealização está ligada à cisão do objeto, pois os aspectos bons do seio são exagerados como uma salvaguarda contra o medo do seio perseguidor”.
Outra defesa primitiva é a identificação projetiva que se caracteriza por uma “evacuação” de conteúdos intoleráveis para o Eu atribuídos a um outro Eu/individuo. Assim, o sujeito projeta aspectos intoleráveis em si, são atribuídos a outros indivíduos, ocorre então um processo de “excisão” (partes), trata-se de uma visão seguida de projeção do aspecto cindido, dissociado, separado, expulso de si mesmo (ocorre geralmente em relações fusionais). 
Já a identificação introjetiva, identificação com outra pessoa através da internalização de suas características, ou parte delas.
Controle onipotente do objeto, a palavra “onni”, no latim tem significante de tudo, portanto poder tudo.
Porvolta do quarto mês de vida, ocorre uma mudança significativa de relações de afeto do bebê, ele deixa de se relacionar com o objeto parcial e passa a se relacionar com o objeto total (mãe). Reconhece a mãe como semelhante, passa então a considerá-la, demonstra preocupação, inclusive teme sua perda. Mas para chegar a esta integração do eu com as pulsões, o bebê passa por diversas ansiedades advindas das pulsões que envolvem o eu obrigando-o a se defender.
Em conclusão Melanie Klein (1946/1991) destaca algumas das relações de objeto perturbadas que são encontradas em personalidades esquizoides. A cisão violenta do self e a projeção excessiva tem por efeito fazer o objeto um perseguidor, uma vez que a parte odiada e destrutiva do eu é projetada e sentida como perigosa ao objeto amado, portanto, a origem da culpa também tem origem no processo de projeção. 
Bibliografia:
Klein, M. (1991) in Inveja e Gratidão. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946).
O conceito de fantasia
Glossário
Mundo interno/objetos internos: é o resultado da ação da fantasia inconsciente, na qual se introjetam objetos, construindo-se dentro do ego um mundo interno complexo; neste, os objetos internos são sentidos como estando em relação dinâmica uns com os outros e com o ego.
Fantasia e objeto interno.
Na teoria kleiniana, as fantasias inconscientes estão por trás de todo processo mental e acompanham toda atividade mental. Eles são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que compreendem os instintos, e são sensações físicas interpretadas como relações com objetos que causam essas sensações. A fantasia é a expressão mental dos impulsos amorosos e agressivos e dos mecanismos de defesa contra esses impulsos. Grande parte da atividade terapêutica da psicanálise pode ser descrita como uma tentativa de converter a fantasia inconsciente em pensamento consciente. Para ela as fantasias interagem reciprocamente com a experiência para formar as características intelectuais e emocionais em desenvolvimento do indivíduo; as fantasias são consideradas uma capacidade básica subjacente e que molda o pensamento, o sonho, os sintomas e os padrões de defesa.
Visto que os instintos agem a partir do nascimento, pode-se presumir que alguma vida de fantasia grosseira exista desde o nascimento. A primeira fome e o esforço instintual para satisfazê-la são acompanhados pela fantasia de um objeto capaz de saciá-la. Como as fantasias derivam diretamente de instintos na fronteira entre o somático e a atividade psíquica, essas fantasias originais são experimentadas tanto como somáticas quanto como fenômenos mentais. Enquanto o princípio de prazer-sofrimento estiver em ascensão, as fantasias são onipotentes, e não existe diferenciação entre fantasia e experiência da realidade. Os objetos fantasiosos e a satisfação derivada deles são experimentados como acontecimentos físicos.
Por exemplo, um bebê, ao adormecer e fazendo barulhos de sucção e movimentos com a boca ou chupando os próprios dedos, fantasia que está realmente sugando ou incorporando o seio, e dorme com a fantasia de tê-lo dentro de si, dando o leite. De modo análogo, um bebê faminto e furioso, gritando e esperneando, fantasia que está realmente atacando o seio, rasgando-o e destruindo-o, e experimenta seus próprios gritos que o rasgam e o machucam como se o seio fosse o agressor dentro dele próprio. Portanto, não só experimenta uma necessidade, mas também pode sentir o sofrimento da dor e seus próprios gritos como um ataque persecutório ao seu interior.
Dessa forma Klein pressupõe que o ego, a partir do nascimento, é capaz de formar e, de fato, é impulsionado pelos instintos e pela ansiedade a formar objetos na fantasia e na realidade. A partir do momento do nascimento, o bebê tem de lidar com o impacto da realidade, começando com a experiência do próprio nascimento e passando por inúmeras experiências de gratificação e frustração de seus desejos. Essas experiências da realidade influenciam imediatamente a fantasia inconsciente e são por ela influenciadas. A fantasia não é simplesmente uma fuga da realidade, mas um constante e inevitável acompanhamento de experiências reais, com as quais está em constante interação.
Um exemplo de fantasias que influenciam a reação à realidade pode ser visto quando um bebê faminto e furioso, ao ser oferecido o seio, em vez de aceitá-lo, afasta-se dele e não quer mamar. Nesse caso, o bebê pode ter tido a fantasia de ter atacado e destruído o seio, e sente que ele se tornou mau e que o está atacando. Portanto, o seio externo verdadeiro, quando volta a alimentar o bebê, não é sentido como um bom seio que alimenta, mas é deformado por essas fantasias em um perseguidor aterrorizante. Tais fantasias podem ser facilmente observadas no brincar de crianças ainda bastante pequenas, bem como no brincar e na fala de crianças um pouco maiores. Podem persistir no inconsciente tanto em crianças quanto em adultos, dando origem a dificuldades na alimentação.
Klein considera que podemos observar no comportamento dos bebês e as fantasias que são realmente expressas uma vez alcançados os estágios do brincar e da fala e o material analítico do consultório.
Em casos mais sofisticados, é possível ver como, ainda que a realidade possa ser percebida e observada com acuidade, as fantasias inconscientes podem determinar o tipo de sequência causal atribuída aos acontecimentos. O exemplo típico desse caso é a criança cujos pais têm realmente um relacionamento mau e brigam muito. Na análise, geralmente transparece que a criança sente que esse relacionamento é resultado de seus próprios desejos de que os pais brigassem, e que seus ataques urinários e fecais atrapalharam e estragaram o relacionamento dos pais.
Se a fantasia inconsciente está constantemente influenciando e alterando a percepção ou a interpretação da realidade, o contrário também é verdadeiro: a realidade exerce seu impacto sobre a fantasia inconsciente. Ela é experimentada e incorporada, exercendo forte influência sobre a própria fantasia inconsciente. Tome-se, por exemplo, o bebê que começa a sentir fome e que vence essa fome por uma alucinação onipotente de ter um seio bom que alimenta. Sua situação será radicalmente diferente quando alimentado logo, comparado à situação em que é deixado com fome por muito tempo. Na primeira situação, o seio real oferecido pela mãe será, na experiência do bebê, fundido com o seio que foi fantasiado, e o sentimento do bebê será de que sua própria bondade e a do objeto bom são fortes e duráveis. No segundo caso, o bebê será dominado pela fome e pela raiva, e em sua fantasia, a experiência de um objeto mau e perseguidor se tornará mais forte, com a implicação de que sua própria raiva é mais poderosa do que seu amor, e de que o objeto mau é mais forte do que o bom.
AULA 5: Tema de discussão: Posição esquizo-paranóide, Posição depressiva e luto.
Glossário.
Culpa: a compreensão penosa de haver danificado (de fato ou em fantasia) o objeto ou objetos amados, origina-se na posição depressiva, quando se experimenta ambivalência em relação aos pais, percebidos como objetos totais, os pais ambivalentemente amados, introjetados na posição depressiva, formam o núcleo do superego
Defesas maníacas: desenvolvem-se na posição depressiva como defesa contra a experiência da ansiedade depressiva, da culpa e da perda. Baseiam-se na negação onipotente da realidade psíquica, e as relações de objeto caracterizam-se por triunfo, controle e desprezo.
Depressão: é um estado da mente em que, parcial ou totalmente, se experimentam sentimentos penosos da posição depressiva. Pode ser reação normal a experiência de perda ou reação patológica de caráter neurótico ou psicótico.
Posição depressiva: tem início quando a criança reconhece sua mãe como objeto total. Trata-se de uma constelação de relações de objeto e ansiedades, caracterizada pela experiência da criança de atacar a mãe ambivalentemente amada e de perdê-la como objeto externo e interno. Essa experiência dá origem a sofrimento, culpa e sentimentode perda.
Posição esquizo-paranóide: trata-se da primeira fase de desenvolvimento, caracteriza-se pela relação com objetos, pela prevalência da divisão, cisão (splitting) no ego e no objeto, e pela ansiedade paranoide.
Realidade psíquica: a experiência da realidade psíquica é a experiência do próprio mundo interno, incluindo a dos impulsos e a dos objetos internos.
Reparação: atividade do ego que tem como finalidade restaurar o objeto amado ferido, surge na posição depressiva como reação às ansiedades depressivas e à culpa. A reparação pode ser usada como parte do sistema de defesas maníacas; nesse caso, adquire as características maníacas de negação, controle e desprezo.
Posição esquizo-paranóide e a Posição depressiva.
Tendo como base seus trabalhos com análise de crianças, Klein afirma a presença de sentimento de culpa muito antes dos três e dos quatro anos. Essas observações analíticas levaram a hipótese de um superego precoce, formado pela introjeção das figuras edipianas arcaicas, atacadas pelo sadismo infantil e tornadas ameaçadoras mediante o retorno do sadismo sobre a própria criança. Desse modo ela deixa explicito a noção de que a criança projeta sua agressividade sobre figuras parentais e que a característica aterrorizante do superego decorre de tal projeção. Klein discorre sobre as vantagens pessoais e sociais decorrentes da transformação do superego aterrorizador em consciência moral benigna, capaz de limitar a insaciabilidade destrutiva e modificá-la, por meio de mecanismos sublimatórios. 
O conceito de posição compreende uma colocação perante o objeto, na posição paranoide, estar diante ao objeto indicava o seu consumo e, inversamente o medo de perseguição, pois as partes maltratadas ou excluídas vinham a se tornar fontes ameaçadoras. Na posição depressiva estar diante ao objeto é antes de tudo reconhecê-lo como alguém que desejo preservar e que posso perder.
Na posição esquizoparanóide o pós-natal despoja de um ego rudimentar, arcaico e fragmentado. Para o bebê o seio é um objeto parcial, o próprio leite é um objeto parcial, e ele tem o desejo de “devorar” atacar o seio. Nos primeiros meses de vida, quando o bebê se encontra na posição esquizoparanóide, o seio/leite é um objeto a ser consumido.
Para Klein uma relação feliz com a mãe e seu seio nunca é livre de perturbações, já que a ansiedade persecutória fatalmente surgirá. A ansiedade persecutória está em seu auge durante os três primeiros meses de vida. Nessa posição predomina a desconfiança na bondade dos objetos devido aos impulsos destrutivos que surgem com muita força, a mãe e seu seio, devido a projeção, são sentidos como persecutórios e, portanto, o bebê sente, inevitavelmente, insegurança. Na posição paranoide o bebê experiência uma ansiedade persecutória, ele teme sofrer com o ataque do objeto, nesta forma de ansiedade, a preocupação é com a preservação do próprio eu (medo do aniquilamento).
A posição esquizo-paranóide se refere a um estado psíquico, sua base etimológica esquizo provém do grego com significante de cisão, dissociação, divisão. Ela se caracteriza por defesas esquizoides, ou seja, fragmentações, dissociações, idealizações, interligados a paranoide, perseguição. A ansiedade persecutória ou paranoide é a forma mais primitiva da ansiedade advinda do medo do aniquilamento. A cisão, idealização, a projeção, a negação da realidade psíquica são defesas contra ansiedades persecutórias, defesas muito arcaicas e são dirigidas contra os impulsos agressivos. Para Klein os impulsos agressivos, são mais intensos nos primórdios da vida, quando a criança se encontra na posição esquizoparanóide, e ela se caracteriza pelos seguintes aspectos, pulsões agressivas particularmente intensas, aspecto clivado, dividido em dois, bom e mau (não há meio termo), a ansiedade é sempre de natureza persecutória.
A gratificação pelo seio nutridor é a primeira forma de gratificação experienciada pelo bebê (seio bom que alimenta e o mau que frustra). Nesse sentido, ocorre uma cisão. O seio bom e o seio mau são “imagos” que se formam na mente do bebê. Essas “imagos” do seio resultam em introjeção do seio real (introjeção, internalizar, incorporar, trazer para dentro). Essa imagem do objeto externo é sempre mais ou menos distorcida pelas suas próprias fantasias.
Uma relação inicial satisfatória com a mãe implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança. Junto a necessidade de cindir, existe desde o início da vida uma tendência a integração, que aumenta com o crescimento do ego. (Klein - 1963)
Por volta do sexto mês, auge da posição depressiva, ocorre uma mudança significativa nas relações de afeto do bebê o objeto parcial passa a se tornar total, mais próximo ao real. O bebê se identifica com a mãe e a reconhece como semelhante, se preocupa com ela e tem medo de perdê-la. Nesse período, posição depressiva, o afeto é algo que deve ser preservado e não devorado.
Na posição depressiva, a criança começa a ver o objeto como semelhante, o bebê teme danificá-lo, teme que o objeto ao qual depende desapareça. Nesse caso predomina uma relação de confiança na bondade dos objetos e o processo de introjeção do seio bom converte-se na fonte de segurança e bondade, durante a posição depressiva a ansiedade persecutória diminui. 
“Quando surge a posição depressiva, comumente na metade do primeiro semestre de vida, o ego já está mais integrado. Isso expressa um sentimento de inteireza, que permite ao bebê ser mais capaz de se relacionar com a mãe, e mais tarde com as pessoas, como uma pessoa completa” (Klein 1963).
“A integração se puder ser alcançada tem efeito de mitigar o ódio através do amor e, dessa forma, tornar os impulsos destrutivos menos poderosos” (Klein 1963). Na posição depressiva o bebê experiencia uma ansiedade depressiva (ansiedade com traços de culpa), sente culpa por ter atacado a mãe em sua fantasia. 
O bebê tende a idealizar o seio “bom”, o seio ideal, inexaurível, sempre disponível, sempre gratificador. A introjeção do seio bom é fundamental para integração do bebê. Para Klein a integração do ego resulta na diminuição da ansiedade persecutória.
O bebê precisa conservar a crença de um seio bom, pois só assim poderá sentir-se seguro e estabelecer uma relação de confiança com o objeto. Esses sentimentos são fundamentais para a construção de um objeto interno bom. A internalização do objeto bom proporciona para o bebê sentimentos de segurança e confiança necessárias para suportar frustrações e privações.
A introjeção do objeto bom consiste na colocação para dentro do aparelho psíquico de todas as experiências de prazer, de ser compreendido, formando um registro dinâmico (constelação), isto é, de uma reserva interna de experiências de prazer e a segurança, aumentando a capacidade de tolerar estados transitórios de privação e frustração. Esse registro dinâmico de inúmeras situações de prazer (de sentir desejado, amado, cuidado) funciona como uma garantia de acesso ao prazer. Isso alimenta a esperança na criança e aumenta sua capacidade de suportar frustração, privações e perdas.
Para autora, durante os primeiros cinco anos de desenvolvimento, ocorre uma alternação muito característica entre as posições esquizoparanóide e depressivas (embora, ao longo da vida, sempre haja uma alternância entre as duas posições e isso faz parte da saúde mental).
'Posição depressiva' é uma constelação mental definida por Klein como central para o desenvolvimento da criança, normalmente experimentada pela primeira vez na metade do primeiro ano de vida. É repetidamente revisitado e refinado ao longo da primeira infância e de forma intermitente ao longo da vida. Central é a realização de sentimentos de ódio e fantasias sobre o objeto amado, a mãe. Anteriormente, sentia-se que havia dois objetos parciais separados: ideal e amado; perseguir e odiar. Nesse período anterior, a principal ansiedade dizia a respeito à sobrevivência do eu. Na posição depressiva, a ansiedade também é sentida em nome do objeto.
Se a confluência de figuras amadas e odiadas

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