Prévia do material em texto
Desvendando os Aminoácidos, Proteínas, Atividade Enzimática e o Metabolismo Proteico Christiane Fonseca Desvendando os Aminoácidos, Proteínas, Atividade Enzimática e o Metabolismo Proteico 2 Introdução As biomoléculas são divididas em quatro grandes grupos: as proteínas, os ácidos nucleicos, os lipídios e os polissacarídeos. Segundo Nelson e Cox (2018), as proteínas constituem a categoria de biomoléculas mais abundante, além da água, presentes nas células. As proteínas são caracterizadas por apresentarem diversas funções. Começaremos tratando sobre os aminoácidos, estudando estrutura, classificação e nomenclatura, assim como o comportamento ácido-base. Quanto aos peptídeos, serão abordados os aspectos gerais e o comportamento de ionização com seus efeitos fisiológicos. Após esse embasamento, daremos início ao estudo completo sobre as proteínas e suas diversas funções, tanto catalíticas (enzimas) como estruturais, além de abordar o seu metabolismo. Ao fim do conteúdo, será possível compreender as principais interações das proteínas nas células e sua importância. Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Identificar e classificar os aminoácidos, exemplificando-os; • Reconhecer as estruturas e funções dos aminoácidos e dos peptídeos; • Diferenciar as proteínas estrutural e funcionalmente; • Compreender a desnaturação proteica; • Caracterizar a natureza química das enzimas e sua especificidade; • Identificar os fatores que interferem na atividade enzimática; • As atuações da enzimologia na fisiologia humana; • Compreender todas as fases da síntese proteica; • Compreender o ciclo da ureia e sua importância; • Entender a associação do processo metabólico das proteínas e o mecanismo de ação na saúde humana. 3 Os Aminoácidos e os Peptídeos Embora exista uma grande variedade de proteínas, elas são formadas por um conjunto de apenas vinte aminoácidos. De acordo com Marzzoco e Torres (2018), mesmo que esse número de aminoácidos pareça pequeno, as possibilidades de formação de diferentes proteínas são enormes. Os peptídeos são formações de 50 aminoácidos, por exemplo. Quando esses aminoácidos estão ligados entre si formando cadeias ramificadas, são chamados de polipeptídios. Estrutura, Classificação e Nomenclatura dos Aminoácidos Os aminoácidos são compostos orgânicos que possuem a mesma estrutura geral, sua molécula é formada por um grupo amino (-NH2) e grupo carboxila (-COOH), ligados ao mesmo carbono, o carbono α, ou carbono quiral. A diferença entre eles está na cadeira lateral, ou grupo R, como mostrado na Figura 1 (MARZZOCO; TORRES, 2018). O grupo R varia de forma acentuada em sua complexidade, como estrutura, tamanho, carga elétrica e a polaridade da molécula, afetando a solubilidade do aminoácido na água. Ou seja, as propriedades da cadeia lateral são importantes para a conformação das proteínas, influenciando na sua função. Existem 20 aminoácidos mais comuns, e uma forma de classificação é de acordo com o modo como são adquiridos. • Essenciais: o organismo humano não é capaz de produzir esses aminoáci- dos, devendo ser ingeridos por meio da alimentação. • Não essenciais: são aqueles que o organismo humano é capaz de sintetizar com base nos alimentos ingeridos, sendo também importantes para as fun- ções do organismo. Figura 1: Estrutura geral de um aminoácido Fonte: Marzzoco e Torres (2018). 4 Ainda que seja mostrado como uma estrutura bidimensional na Figura 1, os aminoácidos possuem uma configuração tridimensional. O carbono faz quatro ligações simples, configurando um arranjo tetraédrico. Isso significa que existem duas versões de um aminoácido que diferem no posicionamento dos quatro grupos ao redor do carbono. Isômeros Duas moléculas que possuem uma composição química idêntica, porém estruturas diferentes. Isômeros ópticos ou enantiômeros Quando os isômeros são imagens especulares, como no caso das formas alternativas de um aminoácido. Eles são genuinamente diferentes; e não é possível passar de uma configuração para outra simplesmente pela rotação da molécula. Carbono quiral Um átomo de carbono ligado a quatro grupos diferentes. Quiral é uma palavra provinda do grego e que significa “mão”. Os aminoácidos presentes nas moléculas de proteínas são somente isômeros L. Os D-aminoácidos foram encontrados apenas em alguns peptídeos pequenos, como alguns peptídeos de paredes celulares de bactérias e certos tipos de antibióticos peptídicos. Geralmente, reações químicas comuns são formadas por misturas dos isômeros D e L, sendo difícil distinguir e separar um do outro. Entretanto, para os sistemas vivos, os isômeros D e L são diferentes entre si (NELSON; COX, 2018). Quanto à nomenclatura os aminoácidos também possuem uma abreviatura de três letras e outra de uma letra: Nome Abreviação de três letras Abreviação de uma letra Alanina Ala A Arginina Arg R Asparagina Asn N 5 Ácido aspártico Asp D Cisteína Cys C Ácido glutâmico Glu E Glutamina Gln Q Glicina Gly G Histidina His H Isoleucina Ile I Leucina Leu L Lisina Lys K Metionina Met M Fenilalanina Phe F Prolina Pro P Serina Ser S Treonina Thr T Triptofano Trp W Tirosina Tyr Y Valina Val V Tabela 1: Os aminoácidos mais comuns encontrados nas proteínas e suas abreviaturas Fonte: Brown (2018). De acordo com Nelson e Cox (2018), a polaridade do grupo R funciona como classificação dos aminoácidos, os quais podem ser polares ou apolares. Os aminoácidos apolares apresentam o grupo R hidrofílico – atraem as moléculas da água – e os aminoácidos polares apresentam o grupo R hidrofóbico – repelem a água (ver Figura 2). Os aminoácidos apolares têm grupos R que não interagem com a água, por isso, com frequência estão localizados na parte interior da molécula proteica. Os aminoácidos pertencentes a esse grupo são: glicina, alanina, valina, leucina, isoleucina, metionina, prolina, fenilalanina e triptofano. Os aminoácidos polares têm, nas cadeias laterais, grupos com carga elétrica líquida ou grupos com cargas residuais, tais cargas fazem com que interajam com a água, sendo geralmente encontrados na superfície da molécula proteica (MARZZOCO; TORRES, 2018). Na Figura 2 são mostradas as formas de ionização predominantes em pH 7, e as áreas sombreadas representam o grupo R. 6 Figura 2: Estrutura e classificação dos aminoácidos Fonte: Nelson e Cox (2014). Comportamento Ácido-Base dos Aminoácidos As cadeias laterais de muitos desses aminoácidos apresentam grupos ácido- básicos. Dessa forma, as propriedades das proteínas que contêm esses aminoácidos são dependentes do pH, que podem existir da seguinte maneira Figura 3: Configurações dos aminoácidos Fonte: Marzzoco e Torres, 2018. 7 Em sua estrutura, os aminoácidos apresentam pelo menos dois grupos ionizáveis. Caso um aminoácido sem um grupo R ionizável seja dissolvido em água em pH neutro, ele permanecerá na solução como um íon bipolar, também chamado de zwitteríon. Esses átomos possuem tanto carga negativa como positiva (deriva do alemão, “íon híbrido”), e pode agir como ácido ou base. Vale lembrar que não existem aminoácidos neutros na forma NH2-CHR-COOH, isso é, sem grupos carregados. Assim, não existe um pH no qual um aminoácido não apresente determinado caráter iônico (Nelson; Cox, 2018; Marzzoco; Torres, 2018). Relembrando o pKa pKa: Veja a ionização dos aminoácidos em diferentes valores de pH na Figura 4. O gráfico mostra as quantidades relativas das três versões ionizadas da glicina em valores de pH de 0 a 14. A força dos ácidos fracos é expressa por seus pKa. A carga líquida de um aminoácido (a soma algébrica de todos os grupamentos carregados positiva e negativamente) depende dos valores do pKa de seus agrupamentos funcionais e do pH do meio adjacente. A mudança do pH altera a carga dos aminoácidos e facilita a separação física de aminoácidos, peptídeos e proteínas. Quando há valores mais baixos de pH, as moléculascom a versão não ionizada do grupo carboxila começam a predominar. Acima de pH 8, alguns dos grupos amino perderam seus prótons extra, produzindo moléculas com carga negativa. No pKa para o grupo amino, o número de moléculas com e sem grupos amino ionizados é igual, e, com valores de pH acima do pKa, predomina a versão não ionizada desse grupo. Ponto Isoelétrico Calculo do Ponto Isoelétrico: Fórmula para cálculo do ponto isoelétrico (MARZZOCO; TORRES, 2018, p.15). Figura 4: Reação de polimerização de aminoácidos Fonte: Imagem de Domínio Público (Wikipedia, 2023). Existe um pH no qual todas as moléculas apresentam cargas positivas e negativas iguais. Esse pH é chamado ponto isoelétrico (pI). Cada aminoácido tem um ponto isoelétrico diferente, no entanto 15 dos 20 aminoácidos têm pontos isoelétricos 8 próximos de 6. Para a Glicina, que não possui qualquer grupo ionizável na cadeia lateral, o ponto isoelétrico é simplesmente a média aritmética dos dois valores de pKa. Aspectos Gerais e Comportamento de Ionização dos Peptídeos A polimerização dos α-aminoácidos se dá, pelo menos conceitualmente, pela eliminação de uma molécula de água, conforme mostrado na Figura. 5. A ligação CO – NH resultante é conhecida como uma ligação peptídica. Os polímeros formados por dois, três, poucos e muitos resíduos de aminoácidos (também chamados de unidades peptídicas) são conhecidos, respectivamente, como dipeptídeos, tripeptídeos, oligopeptídeos e polipeptídeos (VOET; VOET, 2013). Figura 5: Reação de polimerização de aminoácidos Fonte: Imagem de Domínio Público (Wikipedia, 2023). Os peptídeos podem ser distinguidos entre si por meio de seu comportamento de ionização. Em um peptídeo, os resíduos de aminoácidos internos não apresentam grupo amina e carboxila ionizáveis e, são ligados covalentemente entre si, no entanto podem apresentar grupos ionizáveis em suas cadeias laterais. O peptídeo apresenta um grupo α- amino ou um grupo α-carboxila ionizável em cada uma de suas extremidades. Desta forma, os grupos α- amino livre, α-carboxila livre e a natureza de inúmeros grupos R (cadeias laterais) ionizáveis antecipam o comportamento acidobásico de um peptídio. Os peptídios têm curvas de titulação características e 9 pH isoelétrico característico, assim como os aminoácidos livres, no qual eles não se moverão quando submetidos a um campo elétrico (NELSON; COX, 2018). Efeitos Fisiológicos dos Peptídeos As proteínas e os peptídeos têm diversos papéis bioquímicos. Um dos mais importantes é o de hormônios. A cisteína apresenta um grupo tiol que é único entre os 20 aminoácidos, formando uma ligação dissulfeto (-S-S-) com outro resíduo de cisteína. Essa ligação é importante para a estrutura das proteínas, pois pode unir cadeias polipeptídicas diferentes ou estabelecer ligações cruzadas entre cisteínas na mesma cadeia. A oxitocina e a vasopressina são exemplos de hormônios com características estruturais semelhantes (ver Figura 6). Em cada um, há uma ligação -S-S-, responsável por conferir a estrutura cíclica da molécula. Cada um desses peptídeos contém nove resíduos de aminoácidos. Esses dois peptídeos têm importância fisiológica considerável como hormônios (CAMPBELL; FARRELL, 2016). Figura 6: Estruturas da oxitocina e vasopressina Fonte: Campbell; Farrell, 2016. 10 Hormônios Parto e Amamentação – O papel dos hormônios peptídicos: os grandes efeitos destas moléculas pequenas. Figura 7: Newborn baby Fonte: wikipedia (2023) A oxitocina induz o parto e controla a contração do músculo uterino. Durante a gravidez, o número de receptores para a oxitocina na parede uterina aumenta. Na hora do parto, o número de receptores para a oxitocina é alto o suficiente para causar a contração do músculo liso do útero na presença de pequenas quantidades de oxitocina produzidas pelo organismo no final da gravidez. A oxitocina também tem uma função no estímulo do fluxo de leite. O processo de sucção envia sinais nervosos ao hipotálamo do cérebro materno. Já a vasopressina tem um papel no controle da pressão sanguínea ao regular a contração do músculo liso, além disso a vasopressina estimula a reabsorção de água pelos rins, tendo efeito antidiurético. Quanto mais água é retida, maior é a pressão sanguínea (CAMPBELL; FARRELL, 2016). As Proteínas Proteínas são moléculas de alto peso molecular (macromoléculas) formadas por um conjunto de 20 aminoácidos unidas entre si por meio de ligações peptídicas. Cada proteína tem uma sequência específica de aminoácidos, o que define sua função e a difere entre milhares existentes em nosso organismo. 11 Arquitetura das Proteínas: Estrutura Covalente e Caracterização Tridimensional Diversas configurações (estruturas tridimensionais) são possíveis para uma molécula do porte de uma proteína. Devido a esta complexidade, as proteínas são definidas em quatro níveis de estrutura: • Estrutura primária: nada mais é que a sequência de aminoácidos. Essa es- trutura determina a estrutura tridimensional e as propriedades da proteína. A estrutura primária de uma proteína pode ser destruída caso exposta por longos períodos a ácidos ou bases fortes, à temperatura elevada ou ainda na presença de enzimas digestivas, o que resultará na liberação de peptídeos menores ou aminoácidos livres. • Estrutura secundária: formada quando a estrutura primária dos aminoácidos próximos se arranjam. Para essa conformação estrutural, além das ligações peptídicas, há também envolvimento das ligações por pontes de hidrogênio (um tipo de interação eletrostática entre os átomos de hidrogênio e oxigênio). Há dois tipos de estrutura secundária adotadas pelas proteínas: � α-hélice: a proteína apresenta uma estrutura helicoidal orientada para direita como se estivesse ao redor de um cilindro e em que as cadeias laterais dos aminoácidos são projetadas para fora do eixo central da cadeia de polipeptídica. Essa estrutura é mantida por pontes de hidrogênio formadas entre os grupos C=O e H-N das cadeias polipeptídicas (ver Figura 7). � folha a-pregueada: ocorre envolvendo dois aminoácidos de cadeias diferentes, na qual diversas cadeias de aminoácidos se ligam de forma parelela por meio de pontes de hidrogênio. Os segmentos em folha β da proteína assumem uma forma de folha de papel dobrada em pregas. • Estrutura terciária: quando ocorre interação entre as cadeias laterais de um polipeptídeo. Caracterizada pelo dobramento das cadeias polipeptídicas so- bre si mesmas a partir das interações de regiões que estão organizadas em estrutura secundária. O equilíbrio dessa conformação depende de diversos tipos de ligações, como pontes de hidrogênio, interações hidrofóbicas e li- gações iônicas. As interações hidrofóbicas são as mais importantes para a manutenção da conformação espacial das proteínas, dado o grande número de aminoácidos hidrofóbicos presentes (BELLÉ; SANDRI, 2014). • Estrutura quaternária: há a associação de duas ou mais cadeias polipeptídi- cas. Essa conformação é mantida por interações não covalentes, como in- terações hidrofóbicas, pontes de hidrogênio e ligações iônicas, assim como a estrutura terciária. Importante lembrar que nem todas as proteínas terão esse tipo de estrutura (BELLÉ; SANDRI, 2014). 12 Figura 8: Estruturas das proteínas Fonte: Nelson; Cox (2014). Características Gerais das Proteínas Fibrosas e Globulares As proteínas também são classificadas de acordo com sua estrutura espacial: • Fibrosas: são insolúveis e, em geral, desempenham funções estruturais mais especializadas. Essas proteínas não se enovelam formando estruturas ter- ciárias. Sendo assim, a estrutura secundária é o seu maior nível de organiza- ção. As proteínas fibrosas são representadas pelo colágeno e α-queratinas. • Globulares: são caracterizadas por apresentarem cadeias polipeptídicas enoveladas em estruturas tridimensionais resultando em formas esféricas. As proteínas globulares solúveis desempenham várias funções nas células vivas, além dissoestão associadas às funções de transporte. Os exemplos são a mioglobina, a hemoglobina, a albumina e as imunoglobulinas (BELLÉ, 2014; BROWN, 2018). As Diversas Funções Biológicas das Proteínas Nossas células são compostas principalmente por proteínas. Como elas são os constituintes mais abundantes em nosso organismo, desempenham funções essenciais para o equilíbrio do corpo. A seguir são apresentadas as principais funções das proteínas. 13 Estrutural ou plástica As proteínas são capazes de dar forma e estrutura às células, conferindo rigidez e elasticidade aos tecidos. São exemplos de células estruturais as glicoproteínas, presentes nas membranas celulares. O colágeno atua na sustentação sobretudo das cartilagens, da pele, dos tendões, dos ossos e dos ligamentos. No tecido muscular, a actina e a miosina participam dos mecanismos de contração muscular. No cabelo, na pele e nas unhas, a queratina atua impermeabilizante. Reguladora ou hormonal Algumas proteínas atuam sobre células e órgãos regulando suas funções. Essas proteínas são os hormônios, que podem ser sintetizados pelo próprio órgão ou por glândulas anexas. A insulina, que é produzida pelo pâncreas, promove a absorção de glicose pelas células do organismo e contribui para a redução da concentração de glicose no sangue. Defesa Nosso corpo produz proteínas capazes de neutralizar agentes que atacam nosso organismo, como bactérias e vírus. Os anticorpos são produzidos por células do sistema imune (linfócitos). Uma característica dos anticorpos é que são específicos para cada tipo de agente. São produzidos quando o corpo entra em contato com um agente infeccioso ou por meio de vacinas. A trombina e o fibrinogênio são proteínas consideradas de defesa, atuando na coagulação do sangue, e evitando, assim, a perda sanguínea em casos de ferimentos. Transporte Gases, como o O2 e o CO2, são transportados em nosso corpo pela hemoglobina. Lipídeos são transportados pelas lipoproteínas por meio do plasma sanguíneo. Na membrana celular, encontramos proteínas transportadoras. As vitaminas, fármacos, ferro e cobre também são transportados na corrente sanguínea por proteínas. Nutricional ou energética A ingestão de proteínas é essencial para obtenção de aminoácidos necessários para síntese das proteínas, as quais atuam em todas as funções descritas. Algumas são necessárias para obter energia e outras como nutrientes para nosso corpo. 14 Reserva O objetivo é armazenar aminoácidos para o desenvolvimento do corpo. Como exemplos temos a albumina, encontrada na clara do ovo; glutelinas, presentes em sementes; a ferritina, que armazena ferro; e a caseína, presente no leite, que armazena aminoácidos essenciais. Enzimas As proteínas também atuam como catalisadores em reações químicas. As enzimas serão estudadas em detalhe no próximo tópico. Desnaturação Proteica e os Fatores Envolvidos A desnaturação proteica é definida como qualquer modificação na conformação secundária, terciária ou quaternária sem que ocorra o rompimento das ligações peptídicas da estrutura primária. Essa perda de estrutura normalmente vem acompanhada de perda de função. Grande parte das proteínas pode ser desnaturada pelo calor. Na maioria dos casos, ele atua nas muitas interações fracas presentes na proteína, por exemplo, nas ligações de hidrogênio. Outros fatores também podem causar a desnaturação da proteína, tais como: agitação, radiações visível e ultravioleta e raios-X. Ou ainda a presença de agentes químicos, como ácidos e bases fortes; solventes orgânicos miscíveis em água, como etanol e acetona; detergentes e soluções concentradas de ureia e cloreto de guanidina; além de metais pesados, como chumbo e mercúrio (NELSON; COX, 2018; PINTO, 2017). Os Processos Patológicos Relacionados com o Equilíbrio Proteico Um adulto precisa, em média, de 0,8 g de proteínas por quilo, o que pode ser convertido em 56 g para uma pessoa de 70 kg. Diante disso, tanto o excesso como a falta de proteínas no organismo (desequilíbrio proteico) pode levar ao desenvolvimento de processos patológicos. Como exemplo, está a doença de kwashiorkor, cujos sintomas incluem estômago inchado, descoloração da pele e retardamento no crescimento. Ao contrário dos carboidratos e gorduras, as proteínas não são armazenadas. Em excesso, será metabolizada em outras substâncias, como as gorduras. Por esse 15 motivo, é preciso consumir quantidades adequadas de proteínas por dia. No entanto, em excesso pode causar diversos problemas no organismo, como doenças nos rins, osteoporose, arterosclerose, aumento de peso e problemas no fígado. Já a falta de proteínas pode causar erupções cutâneas, má cicatrização de feridas, depressão, ansiedade, desmaio, edema entre outros (BETTELHEIM, 2016). As Enzimas As enzimas são proteínas especializadas em catalisar reações biológicas, ou seja, aumentam a velocidade de uma reação química sem interferir no processo. Elas diferem dos catalisadores químicos comuns em muitos aspectos importantes. Tais como: • Velocidades de reação elevadas: geralmente as velocidades são de várias ordens de magnitude maiores do que as reações catalisadas por catalisa- dores químicos. • Condições de reações brandas: as reações catalisadas por enzimas ocorrem sob condições relativamente brandas, como temperaturas abaixo de 100°C, pressão atmosférica e pH próximo de neutro. • Enorme especificidade de reação: quando comparadas aos catalisadores químicos, as enzimas possuem um grau de especificidade muito mais eleva- do, tanto no que se refere aos substratos (reagentes) como aos produtos, isto é, as reações enzimáticas raramente formam produtos secundários. • Capacidade de regulação: a atividade catalítica da maioria das enzimas varia em resposta à concentração de outras substâncias, além das concentrações de substratos e produtos. Aspectos Estruturais das Enzimas Exceto um pequeno grupo de moléculas de RNA que apresenta atividade catalítica (ribozimas), todas as enzimas são proteínas altamente especializadas. Elas aceleram as reações químicas que acontecem no nosso organismo, ou seja, catalisando reações que demorariam muito tempo para acontecer (MAGALHÃES et al., 2017). Algumas enzimas requerem um componente químico adicional chamado de cofator, que pode ser um ou mais íons inorgânicos, como Fe+2 ou Fe+3 (catalase, peroxidase e citocromo oxidase). Outras requerem uma molécula orgânica complexa ou uma molécula metalorgânica chamada coenzima. A coenzima, ou íon metálico, que está firmemente ou até mesmo covalentemente ligada à parte proteica da enzima é chamada de grupo prostético. Uma enzima completa e cataliticamente ativa, junta com sua coenzima e/ou 16 íons metálicos, é chamada de holoenzima (“holo” é um prefixo que significa “integral”, “completo”). A parte proteica desta enzima é chamada de apoenzima ou apoproteína. As coenzimas funcionam como transportadores transitórios de grupos funcionais específicos (MARZZOCO; TORRES, 2018; NELSON; COX, 2018). Classificação e Nomenclatura das Enzimas As enzimas recebem nomes derivados da reação que elas catalisam e/ou do composto ou tipo de composto em que atuam. Uma grande quantidade de enzimas é denominada pela adição do sufixo “-ase” ao nome do seu substrato. Por exemplo, lactato desidrogenase acelera a remoção de hidrogênio do lactato. Algumas enzimas, entretanto, têm nomes mais antigos que foram atribuídos antes de sua função ter sido claramente entendida. Entre essas enzimas, temos a pepsina, tripsina e quimotripsina (todas enzimas do trato digestivo). Além disso, certas enzimas têm mais de um nome ou ainda duas enzimas diferentes apresentam o mesmo nome. Para sistematizar essas contradições e também devido ao crescente número de enzimas descobertas, a União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (Nomenclature Committee of the International Union of Biochemistry and Molecular Biology – NC-IUBMB) desenvolveu um sistemainternacional para dar nome e classificar as enzimas chamado número E.C. (abreviatura em inglês para Comissão de Enzimas). Por meio desse sistema, as enzimas são divididas em seis classes principais, cada uma delas com subclasses, de acordo com a reação química catalisada (MARZZOCO; TORRES; 2018; NELSON; COX, 2018). As seis classes de enzimas são (BETTELHEIM, 2016): Oxidorredutases Catalisam reações de transferência de elétrons. Transferases Catalisam reações de transferência de grupos C- (carbono), N-(nitrogênio) ou P- (fósforo). Hidrolases Catalisam reações de hidrólise, ou seja, transferência de grupos funcionais para a água. 17 Liases Catalisam a adição de grupos a ligações duplas ou a formação de ligações duplas pela remoção de grupos. Isomerases Catalisam a transferência intramolecular de grupos, levando à formação de formas isoméricas. Ligases Catalisam a formação de ligações C-C, C-S, C-O e C-N por reações de condensação, com gasto de ATP. Como as Enzimas Funcionam? Quando uma reação é catalisada por uma enzima, esta liga-se ao substrato (um dos reagentes) para formação de um complexo. A formação do complexo desse leva à formação de espécies em estado de transição, para depois ocorrer a formação do produto. Normalmente, essas ligações são feitas por interações não covalentes em uma pequena parte da enzima chamada sítio ativo, com frequência está na superfície da proteína e consiste de aminoácidos essenciais para a atividade enzimática. A reação catalisada pela enzima acontece no sítio ativo em várias etapas. A primeira etapa é a ligação do substrato à enzima, que ocorre devido às interações específicas entre o substrato e as cadeias laterais e os aminoácidos que constituem o sítio ativo. Existem dois modelos principais que descrevem esse processo de ligação. O primeiro modelo chave-fechadura supõe um alto grau de semelhança entre o formato do substrato e a geometria do sítio de ligação na enzima. O segundo, chamado de modelo do ajuste induzido, leva em conta o fato de que as proteínas têm alguma flexibilidade tridimensional. De acordo com esse modelo, a ligação do substrato induz a uma mudança conformacional na enzima que resulta em um encaixe complementar depois que o substrato está ligado. 18 Figura 9: Modelos de ligação enzimas-substratos Fonte: Campbell e Farrell (2016). Depois que o substrato é ligado e o estado de transição é formado, a catálise pode acontecer. Isso significa que as ligações devem ser reorganizadas. Os efeitos de proximidade e orientação, que ocorrem no estado de transição, aceleram a reação. O substrato se transforma em produto à medida que as ligações são rompidas e novas são formadas. A enzima fica disponível para catalisar mais uma reação, para formação de mais produto, quando o produto é liberado do sítio ativo da enzima. Cada enzima tem seu próprio e único mecanismo de catálise, e isso se deve à grande especificidade que elas possuem (CAMPBELL; FARRELL, 2016). A conversão do substrato em produto implica na transposição de uma barreira energética (ver Figura 9). As enzimas reduzem a energia de ativação e tornam possível a conversão de substratos em produtos. 19 Figura 10: Representação da variação de energia de ativação em função do caminho da reação, na presença e na ausência de catalisador Fonte: Bellé e Sandri (2014). Fatores que Afetam a Velocidade Enzimática: Concentração de Enzima, Tempo de Reação, pH e Concentração de Substrato As enzimas apresentam condições ótimas em que são capazes de exercer suas atividades com alta eficiência. A alteração de alguns fatores, como concentração da enzima, concentração do substrato, temperatura e pH, afeta a atividade enzimática. Tais fatores são detalhados a seguir: Concentração da enzima e do substrato: quando a concentração de substrato é mantida constante e a concentração da enzima é aumentada, a velocidade aumenta linearmente. Essa é a situação em praticamente todas as reações enzimáticas, porque a concentração molar da enzima geralmente é muito menor que a do substrato. Entretanto, se a concentração da enzima é mantida constante e aumentamos a concentração do substrato, uma curva completamente diferente é encontrada, chamada curva de saturação. Após um determinado ponto, a velocidade permanece constante mesmo com um aumento da concentração do substrato. Isso porque, no ponto de saturação, as moléculas do substrato estão ligadas em todos os sítios 20 disponíveis das enzimas. Como eles se encontram ocupados, a reação já está em sua máxima velocidade (BETTELHEIM, 2016). Temperatura: o aumento da temperatura causa o aumento da velocidade de reação. Esse aumento acontece devido ao aumento no número de moléculas com energia suficiente para atravessar a barreira de energia e formar os produtos. As enzimas humanas possuem uma temperatura ótima entre 35 e 40°C. (MAGALHÃES et al., 2017). Em altas temperaturas, a velocidade da reação tende a diminuir, devido à desnaturação da proteína (MAGALHÃES et al., 2017). Um exemplo de inativação da enzima é a utilização de baixas temperaturas para a preservação de alimentos por refrigeração. pH: o pH geralmente tem influência na ionização do sítio ativo da enzima e, além disso, pode desnaturá-la, especialmente se expostas a valores extremos de pH. Cada enzima possui seu pH ótimo, no qual a atividade enzimática é máxima, mostrando em que [H+] a enzima funciona no organismo. O pH ótimo de uma enzima não é necessariamente idêntico ao pH do meio intracelular (MARZZOCO; TORRES, 2018; NELSON; COX, 2018). Cinética Enzimática A cinética de uma enzima (estudo da velocidade das reações e os fatores que influenciam essa velocidade) é chamada de cinética enzimática, avalia-se quanto de substrato é consumido ou o quanto de produto é formado no tempo de reação. A estrutura enzima-substrato (ES) tem uma energia de ativação levemente menor que a do substrato isolado, e a sua formação leva ao surgimento do estado de transição Ts. A formação de P (produto) a partir de ES é a etapa limitante da velocidade da reação. A velocidade de uma reação catalisada por enzimas depende das concentrações tanto da enzima como do substrato (MARZZOCO; TORRES, 2015). O processo catalítico pode ser traduzido pela equação de Michaelis-Menten a seguir: Michaelis e Menten (1913, apud MARZZOCO;TORRES, 2018) mostraram matematicamente que, à medida que as reações catalisadas por enzimas são 21 saturáveis, sua velocidade de catálise não descreve uma resposta linear diante do aumento da concentração de substrato, como mostrado na Figura 10. Obtém-se uma curva hiperbólica, que mostra que a velocidade da reação (V) aumenta ao mesmo tempo que concentração do substrato [S] até alcançar um valor ótimo em que a velocidade da enzima é máxima: Figura 11: Efeito da concentração de substrato na velocidade da reação. Fonte: Marzzoco e Torres, 2018. A constante de Michaelis (Km) é definida como a concentração para a qual a velocidade da reação enzimática é metade de Vmáx, e seu valor indica o grau de eficiência pelo qual uma enzima processa seu substrato convertendo-o em produto. Quanto menor for o valor de Km, maior será a afinidade da enzima por seu substrato, ou seja, sua especificidade. Aplicações da Biotecnologia Enzimática Inúmeros setores da indústria utilizam as enzimas para diversas finalidades. Como exemplo, temos a indústria têxtil, na qual os tecidos são submetidos a α-amilase da enzima fenilalanina hidroxilase para retirar a goma de amido adicionada em etapas 22 anteriores da produção. Outra indústria a ser citada é a produtora de queijos, que utiliza a quimiosina para a produção desses alimentos, e também lipases e proteases para o desenvolvimento de produtos com características próprias (OLIVEIRA, 2015). A Tabela 2 apresenta algumas enzimas de interesse industrial e suas áreas de aplicação. Enzima Aplicação Proteases, tirosinases Indústria cosmética Colagenase Indústrias cosméticae farmacêutica Lipase Indústrias farmacêutica e têxtil Papaína, plamina Indústria farmacêutica Amilase Indústria de papel e celulose Tabela 2: Enzimas e áreas de aplicação Fonte: Oliveira (2015, p.86). Algumas enzimas são retiradas de plantas ou de órgãos de animais, mas muitas podem ser obtidas por meio de bioprocessos utilizando fungos e bactérias. Aprenda um pouco mais sobre enzimas e suas funções acessando o link abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=oxrKW1XJ7Kc Saiba mais Metabolismo das Proteínas O metabolismo é o processo global pelo qual os sistemas vivos adquirem e utilizam a energia livre de que necessitam para realizar suas várias funções. Os produtos específicos produzidos a partir de uma série de reações enzimáticas sucessivas são chamadas de vias metabólicas. Seus reagentes, intermediários e produtos são denominados metabólitos. As vias com as reações que compreendem o metabolismo são frequentemente divididas em duas categorias: 23 Catabolismo, ou degradação: nutrientes e constituintes celulares são degradados para reaproveitar seus componentes ou para gerar energia livre. Anabolismo, ou biossíntese: as biomoléculas são sintetizadas a partir de compostos mais simples. Biossíntese Proteica Como já estudamos anteriormente, as proteínas são moléculas orgânicas formadas por uma série de aminoácidos ligados entre si. Tais ligações são chamadas de ligações peptídicas. As proteínas figuram entre as mais importantes substâncias presentes no organismo, uma vez que desempenham funções variadas. A biossíntese de proteínas ocorre nos ribossomos, organelas presentes no citoplasma e no retículo endoplasmático rugoso. As etapas de biossíntese são transcrição, ativação dos aminoácidos e tradução. Figura 12: Transcrição. Fonte: Deduca (2023). O RNA mensageiro (RNAm) transcreve a informação genética contida em uma porção pequena de DNA, o cistron. Durante esse processo, ocorre o pareamento de bases com a ajuda da RNA-polimerase. O códon é formado pela sequência de 3 bases nitrogenadas e é responsável pela codificação dos aminoácidos. Com isso, a molécula de RNAm replica a mensagem do DNA, vai do núcleo para os ribossomos, passa pelos poros da membrana plasmática e, então, forma o molde para a síntese proteica (BERG et al., 2014). https://www.infoescola.com/bioquimica/proteinas/ https://www.infoescola.com/bioquimica/aminoacidos/ https://www.infoescola.com/bioquimica/ligacao-peptidica/ https://www.infoescola.com/biologia/ribossomo/ https://www.infoescola.com/citologia/reticulo-endoplasmatico-liso-rugoso/ https://www.infoescola.com/citologia/reticulo-endoplasmatico-liso-rugoso/ 24 Figura 13: Ativação de aminoácidos Fonte: Deduca (2023). É atuação do RNA transportador (RNAt), o qual leva os aminoácidos dispersos no citoplasma, provenientes da digestão, até os ribossomos. Os RNAt são adaptadores que estabelecem a ligação entre um ácido nucleico e um aminoácido. Além disso, possuem cadeias simples de cerca de 80 nucleotídios. Em determinada região do RNAt está o anticódon, que é complementar a uma sequência de 3 bases do códon do RNAm. A ativação dos aminoácidos é dada por enzimas específicas, que se unem ao RNAt, formando o complexo aa-RNAt, dando origem ao anticódon, um trio de códons complementar aos códons do RNAm. Para que esse processo ocorra, é preciso haver energia, que é fornecida pelo ATP (BERG et al., 2014). Figura 14: Tradução Fonte: Deduca (2023). 25 É um processo mais complexo do que a replicação ou a transcrição. Estes ocorrem dentro da estrutura de uma linguagem comum de pareamento de bases. Criando um vínculo entre as linguagens dos ácidos nucleicos e das proteínas, o processo de síntese de proteínas depende tanto de fatores relacionados com os ácidos nucleicos quanto de fatores proteicos. A síntese de proteínas ocorre nos ribossomos – enormes complexos que contêm três grandes moléculas de RNA e mais de 50 proteínas. Na fase de tradução, a mensagem contida no RNAm é decodificada e o ribossomo a utiliza para sintetizar a proteína de acordo com a informação dada (BERG et al., 2014). A síntese de proteínas é um processo rápido, porém muito completo. Para compreender melhor assista ao vídeo: https:// www.youtube.com/watch?v=KAB-ZCP_ie8 Saiba mais Catabolismo dos Aminoácidos: Transaminação e Desaminação Oxidativa Como foi visto na seção 1.1, os aminoácidos podem ser classificados em dois grupos: essenciais e não essenciais. Os mamíferos sintetizam os aminoácidos não essenciais a partir de precursores metabólicos, porém devem obter os aminoácidos essenciais a partir da dieta. Quando em excesso, os aminoácidos não são armazenados e também não são excretados. Eles são convertidos em intermediários metabólicos, por exemplo, o Piruvato. Logo, os aminoácidos são precursores de glicose, ácidos graxos e corpos cetônicos, sendo considerados combustíveis metabólicos. Nesta subseção, estudaremos a desaminação e a transaminação dos aminoácidos. A desaminação consiste na remoção do grupo amino, com o objetivo de excretar o excesso de nitrogênio e degradar a cadeia de carbono restante ou convertê-la em glicose. A ureia, o produto predominante de excreção do nitrogênio em mamíferos terrestes, é sintetizada a partir de amônia e aspartato. Ambas as substâncias são derivadas principalmente do glutamato, um produto da maior parte das reações de desaminação. O organismo precisa se desfazer do porque tanto ele como NH3 são tóxicos. A Figura 12 mostra um panorama geral das vias de catabolismo das proteínas. 26 Figura 15: Panorama geral das vias de catabolismo das proteínas Fonte: Bettelheim (2016). A maior parte dos aminoácidos é desaminada por transaminação: a transferência de seu grupo amino para um α-cetoácido, produzindo o α-cetoácido do aminoácido original e um novo aminoácido, em reações catalisadas por aminotransferases (também chamadas de transaminases). O aceptor predominante de grupos amino é o α-cetoglutarato, produzindo glutamato como o novo aminoácido: Aminoácido + α-cetoglutarato ⇋ α-cetoglutarato + glutamato A transaminação também ocorre na transferência do grupo amino do glutamato produzido para o oxalacetato em uma segunda reação de transaminação, produzindo aspartato: Glutamato + oxalacetato ⇋ α-cetoglutarato + aspartato As reações de transaminação são necessárias para a síntese da maioria dos aminoácidos. O segundo estágio do catabolismo do nitrogênio é a desaminação oxidativa do glutamato, que ocorre na mitocôndria e forma e regenera α-cetoglutarato novamente do primeiro estágio (transaminação). O NADH + H+ produzido no segundo estágio entra na via da fosforilação oxidativa e eventualmente produz três moléculas de ATP (VOET; VOET, 2013; BETTELHEIM, 2016). 27 Ciclo da Ureia Como mostrado, a ureia é a principal forma de eliminação dos grupos amino originários dos aminoácidos e corresponde a cerca de 90% dos componentes nitrogenados da urina. Um átomo de nitrogênio da molécula de ureia é fornecido por NH3 livre, e o outro nitrogênio é fornecido pelo aspartato. O carbono e o oxigênio da ureia são derivados do CO2. A produção da ureia é realizada pelo fígado e, então, transportada pelo sangue até́ os rins para ser excretada na urina (HARVEY; FERRIER, 2015). Segundo Bettelheim (2016), nem todos os seres vivos se desfazem do nitrogênio em forma ureia. As bactérias e peixes, liberam a amônia pura. No entanto, como ela é liberada na água, a diluição faz com que não haja prejuízos para os organismos que ali vivem. Os pássaros e répteis secretam nitrogênio na forma de ácido úrico, caracterizando o sólido branco presente nas fezes dos pássaros, por exemplo. Equilíbrio Nitrogenado e as Dietas Alimentares O equilíbrio nitrogenado é a diferença de nitrogênio das proteínas que é ingerido e a quantidade que é excretada. • Balanço nitrogenado equilibrado: quando a quantidade de nitrogênio ingerida é igual à excretada. Ex.: adultos que não estão perdendo nem aumentandoa sua massa magra (músculos). • Balanço nitrogenado negativo: quando a quantidade de nitrogênio ingerida é menor que à excretada. Ex.: estado de jejum, dieta pobre em proteínas, dieta restritiva, doenças altamente catabólicas como câncer e AIDS etc. • Balanço nitrogenado positivo: quando a quantidade de nitrogênio ingerida é maior que à excretada. Ex.: crianças em fase de crescimento, gestantes, trei- no de musculação com o objetivo de hipertrofia muscular etc. A proteína ingerida deve ser de alto valor biológico, ou seja, pode conter em sua composição aminoácidos essenciais que o corpo não é capaz de produzir. Os alimentos de origem animal, como carnes, ovos e leite, são fontes de proteínas de alto valor biológico, enquanto os de origem vegetal são pobres – exceto a soja, que é equivalente às proteínas de origem animal. A digestão das proteínas se inicia no estômago, pois a presença do ácido clorídrico desnatura as proteínas pois quebra as ligações de hidrogênio da molécula. A proteína perde a forma inicial e fica mais aberta ao ataque das enzimas. A enzima pepsina quebra as proteínas em moléculas menores, hidrolisando as ligações peptídicas. Já no intestino delgado, as proteínas sofrem a ação das enzimas produzidas pelo pâncreas (tripsina, quimotripsina, 28 elastase e carboxipolipeptidase). Em seguida, os peptídeos e aminoácidos absorvidos são transportados ao fígado através da veia porta. Cerca de 1% da proteína ingerida é excretada nas fezes. Como vimos, o excesso de aminoácidos não é eliminado, ele participará na construção e manutenção dos tecidos, na formação de enzimas, hormônios, anticorpos, no fornecimento de energia e na regulação de processos metabólicos (anabolismo e catabolismo) (SÓ NUTRIÇÃO, s.d; PINTO, 2017). Defeitos Enzimáticos no Metabolismo dos Aminoácidos e as Consequências para o Corpo Humano Segundo BERG et al. (2014), as falhas no metabolismo de aminoácidos mostraram alguns dos primeiros exemplos de defeitos bioquímicos (geralmente hereditários) ligados a mais de 100 condições patológicas, isso porque, existe um grande número de enzimas que participam das inúmeras vias metabólicas. Como consequência da deficiência enzimática, o acúmulo do metabólito em todos os fluidos corpóreos e a sua excreção na urina é constatado. O diagnóstico é feito por dosagem, no sangue ou na urina, do metabólito acumulado ou, ainda, dosando a enzima no sangue em hemácias ou leucócitos (MARZZOCO; TORRES, 2018). Ainda de acordo com Marzzoco e Torres (2018), os efeitos como um todo da deficiência enzimática variam de acordo com a enzima defeituosa, os quais podem ser tão graves inviabilizando o feto ou, com maior frequência, provocando lesões a partir dos primeiros meses de vida, incluindo retardamento mental e físico e expectativa de vida reduzida. 29 Conclusão Chegamos ao fim do conteúdo. Nele, você verificou a importância das proteínas em nosso organismo. Analisamos, desde a estrutura formadora, o aminoácido, até a formação de biomoléculas mais complexas, as proteínas, passando pelo estudo das enzimas. Abordamos sua importância nas reações, além de estudar o metabolismo das proteínas como um todo. A princípio, estudamos os aminoácidos, conhecemos os 20 aminoácidos “padrão”, os quais sintetizam as proteínas por meio de reações de condensação e são formados por um grupo carboxila e um grupo amino. São classificados geralmente pela polaridade de suas cadeias laterais. Vimos que os pequenos peptídeos possuem comportamento ácido-base e atuam em aspectos fisiológicos do nosso corpo, como a ocitocina no caso da amamentação. Ao estudar as proteínas, observamos sua classificação em relação a sua estrutura (primária, secundária, terciária e quaternária) e também sua estrutura espacial (globulares e fibrosas), enfatizando o comportamento de cada conformação. As diversas funções biológicas que as proteínas apresentam foram expostas, tais como: estrutura, transporte, defesa, entre outras. Também foram mostrados os fatores que interferem na conformação e os efeitos patológicos causados pela alteração das proteínas. Destacamos também a importância das enzimas, as quais regem as reações do metabolismo, e que a falta de uma enzima em todo o contexto metabólico pode ser fatal. Por fim, estudamos o catabolismo dos aminoácidos e o ciclo da ureia, que é a principal forma de eliminação do nitrogênio presente em nosso organismo. Quer aprofundar mais sobre a bioquímica? Veja o link: https:// www.youtube.com/watch?v=ZVKB4F7XpHo Saiba mais 30 Referências BERG, J. M.; TYMOCZKO, J. L.; STRYER, L. Bioquímica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. BELLÉ, L. P.; SANDRI, S. Bioquímica aplicada: reconhecimento e caracterização de biomoléculas. São Paulo: Érica, 2014. BETTELHEIM, F. A. et al. Introdução à bioquímica. São Paulo: Cengage Learning, 2016. BROWN, T. A. Bioquímica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. CAMPBELL, M. K.; FARRELL, S. O. Bioquímica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2016. HARVEY, R. A. Bioquímica ilustrada. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. MAGALHÃES, A. C. et al. Bioquímica básica e bucal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. MARZZOCO, A.; TORRES, B. B. Bioquímica básica. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. MICHAELIS L, MENTEN ML. Die Kinetik der Invertinwirkung. Biochem Z (Biochemische Zeitschrift) 49: 333-369, 1913. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. OLIVEIRA, V.G. Processos biotecnológicos industriais: produção de bens de consumo com o uso de fungos e bactérias.1. ed. – São Paulo: Érica, 2015. PINTO, W. J. Bioquímica clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 31 SÓ NUTRIÇÃO. Funções das proteínas, [s.d.]. Disponível em: http://www.sonutricao. com.br/conteudo/macronutrientes/p4.php. Acesso em: 15 ago. 2023. VOET, J.; VOET, J. G. Bioquímica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. http://www.sonutricao.com.br/conteudo/macronutrientes/p4.php http://www.sonutricao.com.br/conteudo/macronutrientes/p4.php _Hlk2240287 _Hlk2240595 _Hlk2241856 _GoBack