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INTRODUÇÃO BOTÂNICA 
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Sumário 
 
A BOTÂNICA E SEU ENSINO: HISTÓRIA, CONCEPÇÕES E CURRÍCULO . 3 
BOTÂNICA: ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEPÇÕES ............................ 3 
ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEPÇÕES DE BOTÂNICA ................. 15 
A SOCIEDADE BOTÂNICA DO BRASIL COMO ESPAÇO DE PRODUÇÃO 
DE SIGNIFICADO NO ENSINO DE BOTÂNICA DO BRASIL .............................. 31 
AS CONCEPÇÕES DE ENSINO PRESENTES NA SBB .......................... 32 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................. 39 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, 
em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-
Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo 
serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação 
no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. 
Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que 
constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de 
publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
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A BOTÂNICA E SEU ENSINO: HISTÓRIA, CONCEPÇÕES E 
CURRÍCULO 
BOTÂNICA: ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEPÇÕES 
 
Tudo o que muda no tempo tem, por definição história – Universo, os 
países, as dinastias, a arte e a filosofia, e as ideias. Também a Ciência, já 
desde a sua origem nos mitos e nas filosofias primitivas, experimentou uma 
constante mudança histórica, e por isso constitui um tema legítimo para o 
historiador (MAYR, 1998, p.15). 
Segundo Mayr (1998) a história da Ciência pode e deve ser estudada, pois, do 
tratamento adequado dado a compreensão desta história depende seu resgate 
autêntico, sua preservação e sua continuidade. Na história encontramos os “princípios 
que formam a matriz conceitual da Ciência” (MAYR, 1998, p.15) pois, se os problemas 
do passado não forem compreendidos os atuais também não poderão ser. 
Assim sendo, o estudo que este capítulo apresenta visa elucidar como a 
trajetória da Botânica e da Biologia modificaram as concepções de Ciência presentes 
nos atuais tempos. 
 
APROXIMAÇÕES INICIAIS 
As vertentes da humanidade e a constituição da sociedade humana iniciam 
seu percurso já na pré-história, assim como a formação do simbólico, ou seja, as 
significações iniciais e os atributos usados nelas. As relações mantidas, inicialmente, 
com os objetos (seres vivos e não-vivos) estabelecem os primórdios classificatórios 
do homem sobre os que se encontra a sua volta. 
Registros de Epígenes sobre observações astronômicas datadas de 720.000 
a.C., realizadas por frígios, arcádios e egípicios, em rochas de cavernas, pintadas 
com extratos vegetais, demonstram a antiguidade das relações homem-planta. 
4 
 
 
Temos de notar que datar os primórdios das civilizações não é tarefa fácil, haja vista 
as confusões feitas pelas civilizações antigas (FRANCO, 1997). 
O que temos como pretensão de verdade pode não ser uma realidade pontual, 
pois a história da ciência, em especial a origem do conhecimento botânico, parece 
ser muito antiga. Desde o Homo erectus, segundo Chassot (2000, p.11), já havia a 
utilização de objetos de conquistas científicas posteriores. A humanidade existe há 
mais de um milhão de anos, como é confirmado pela análise de pedaços de pedras 
lascadas e outros trabalhos arqueologicamente datados, bem como fósseis de flora 
e fauna. 
Um galho de árvore ou um fêmur tornam-se tanto armas para defesa quanto 
instrumentos para apanhar um fruto em lugares altos. (...) Novos materiais passaram 
a ser utilizados para a confecção de objetos: unhas, garras, chifres, dentes, conchas, 
fibras vegetais; utilizava-se couro para se fazerem martelos, arcos, agulhas, pentes, 
peneiras, trituradores, raspadores. (CHASSOT, 2000, p.12) 
A descoberta do fogo foi um dos maiores benefícios que a humanidade 
constituiu, e a capacidade de produzi-lo e conservá-lo resultou de um processo de 
observação. A capacidade de observação e o pensamento científico (biológico) estão 
estreitamente relacionados com a origem do conhecimento botânico em tempos 
remotos. Depois do fogo, o cozimento de alimentos, no final do paleolítico, em 
utensílios de cerâmica, a fermentação de sucos de extratos vegetais, curtição de 
peles e tingimento de fibras, bem como a alteração de dietas alimentares (CHASSOT, 
2000, p.13), mostrou como a relação Homem-Planta se efetivou. 
Pinturas rupestres, de 20.000 a.C., segundo Chassot (2000, p.14), confirmam 
as ideias já citadas de Franco (1997), ao representarem os afazeres e a tradição da 
humanidade. Tinham corantes muito apropriados para tais pinturas, decerto feitos 
com pigmentos vegetais cozidos em gordura animal e algum solvente, haja visto que 
as cores vermelho e amarelo destes vestígios não são de sangue, pois, se assim 
fosse, tornar-se-iam de cor marrom, à medida que o tempo passasse. 
No princípio, a relação do homem com os animais e as plantas era alimentícia, 
ou seja, da ingestão para sobrevivência; mais tarde foram usados na confecção de 
utensílios ou materiais; logo, na forma de registros de informações sinalizando em 
rochas e, somente depois, o uso na agricultura. Desde então, o homem já estabeleceu 
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critérios de escolha destes seres para sua utilização, com isso formatando 
hierarquias, ora devida à importância alimentar, agrícola e/ou medicinal. 
Existem registros de que o arroz já era cultivado na China 5.000 anos antes de 
nossa era, e também, outros vegetais como a cevada, o linho e o trigo, segundo 
Chassot (2000, p.15-6). 
Em uma determinada etapa de nossa história, nossos ancestrais, talvez há uns 
10 mil anos, deixaram de ser caçadores e colhedores de frutos para se estabelecerem 
como cultivadores da terra e criadores de animais domésticos. Em vez de, 
simplesmente apropriar-se dos animais e dos frutos que encontravam na natureza, 
passaram a interferir nela (CHASSOT, 2000, p. 14). 
A medicina mesopotâmica associou, à magia e à astrologia conhecimentos das 
plantas na preparação de remédios. Segundo Chassot (2000, p. 23), “(...) tratavam 
doenças como hidropisia, a febre, a lepra, a sarna, a hérnia, assim como problemas 
de pele e de cabelo, garganta, pulmões e estômago”. 
Os chineses, por exemplo, “cutivavam um grande número de plantas, e sua 
farmacopeia descrevia os produtos úteis, inúteis ou prejudiciais dos três reinos. Na 
mais antiga obra a respeito, encontram-se uma relação de mais de trezentas plantas 
e 46 substâncias minerais” (CHASSOT, 2000, p. 27). 
Na medicina, as plantas também vêm sendo usadas pela humanidade desde 
a antiguidade. Então, a mesma sociedade que determina a anti-relação entre planta 
e homem, está na dependência das plantas enquanto medicamentos, remetendo 
pesquisa às civilizações antigas para investigar, por exemplo, os saberes 
etnobotânicos, presentes nas diversas populações do mundo inteiro. 
Nota-se que o conhecimento das plantas (botânico) é anterior ao 
desenvolvimento do pensamento biológico mais amplo, estabelecendo-se na origem 
da humanidade, mas seu progresso só se torna possível a partir do momento em que 
a Botânica se estabelece como parte da Ciência Biológica. A moderna taxonomia das 
plantas emergeao impacto ambiental – uso 
de inseticidas na agricultura, erradicação de moléstias, utilização de aditivos 
alimentares, desmatamento, biotecnologia e tantas outras – só podem ser julgadas e 
devidamente encaminhadas se tivermos conhecimento sobre a dinâmica dos 
ecossistemas, dos organismos, enfim sobre o modo como a natureza se comporta e 
como a vida se processa. (SONCINI, 1992. p. 21) 
Soncini (1992) demonstra intensa preocupação com os códigos próprios de 
cada componente do ensino e com a sua valorização como conhecimento científico 
e enquanto conceitos constituintes do conteúdo escolar. A autora ainda considera a 
articulação dos conteúdos, “de tal forma que os alunos compreendam que o 
fenômeno vida se caracteriza por um conjunto de processos organizados e 
integrados, quer ao nível de indivíduo, quer ao nível de organismos no ambiente” 
(SONCINI, 1992. p. 23) e “que o conhecimento vem sendo construído historicamente” 
(p. 24), pois a ciência é dinâmica e evolutiva, em consequência das investigações 
constantes. 
O ensino de Biologia tem preocupações que vão para além do aprender as 
interações com o ambiente natural, deve atentar para que o ambiente social e o 
natural sejam considerados de forma integrada e interdependente. Portanto, aprender 
e ensinar Ciências, Biologia e, por sua vez, Botânica pressupõe a aquisição 
constitutiva de um corpus teórico que tem exigências, segundo GIL-PÉREZ & 
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CARVALHO (2000, p. 37), para além de “recursos ou estilos de ensino”, como em 
qualquer outro domínio científico. 
Lopes (2002) chama atenção para a concepção positivista da Biologia como 
sendo parte do currículo de Ciências e discute como os Parâmetros Curriculares 
Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM – Brasil, 1999) adotam a categoria 
interdisciplinar para apontar a necessidade de uma integração curricular. E, reintera, 
ainda, a discussão acerca da padronização e constituição curricular nacional única 
que preocupa em todos os níveis de ensino. 
Essas dimensões teóricas da área específica leva-nos a crer que o ensino da 
Biologia, em especial da Botânica, merecem uma atenção especial que permita 
repensar o que, como e porque ensinamos, sem nos descuidar de para quem e com 
quem ensinamos e aprendemos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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VIGOTSKI, L. S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. Tradução 
Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p.496.num meio influenciado pela história da filosofia, pelas discussões e 
apropriações de áreas em que a ciência positivista é determinante tais como: a física 
e a medicina, esta última, por sinal faz uso das plantas desde o seu início. Carregada 
desta constituição, a sistemática torna-se o centro da botânica, como disciplina e 
6 
 
 
como estudo, e assim se dá a inserção do conhecimento botânico na educação – via 
ensino da sistemática. 
A botânica mantém suas relações com a educação e com o pensamento 
humano ao longo da história, possibilitando a emergência de um novo paradigma, em 
que o estudo das plantas se constitui de forma multidisciplinar. 
A citação de Mayr justifica, em parte, como a humanidade iniciou as 
preocupações com a relação homem-planta e o quanto a apropriação dessa história 
incursiona nossa vida. 
Quando se encara a história da exploração da diversidade orgânica, não se 
pode evitar o espanto em face da diversidade avassaladora da natureza, no espaço 
(todos os continentes), no tempo (de 3,5 bilhões de anos atrás até o presente). No 
tamanho (dos vírus às baleias), no habitat (ar, terra, água doce, oceanos), e no estilo 
de vida (por si mesmo, ou parasito). Não há surpresa de que o homem jamais ignorou 
a incrível riqueza da vida orgânica que o cerca; na realidade, ele teve diversas razões 
para estudá-la. Antes de tudo, a sua curiosidade sempre presente, acerca do mundo 
circunstante, e seu desejo de conhecê-lo e compreendê-lo. Havia também a 
necessidade puramente prática de saber que animais e plantas, podiam ser-lhe úteis, 
em particular como alimento e, no caso das plantas, também como medicina. Quando 
perguntaram a Lineu para que servia o estudo da diversidade, ele como criacionista 
pio, respondeu da seguinte maneira, na sua dissertação Cui bono?: Todas as coisas 
criadas devem servir a um objetivo. Algumas plantas são para a medicina, alguns 
organismos são destinados à alimentação humana, e assim por diante. O criador 
sapientísssímo não criou nada em vão, mas criou todas as coisas para um fim 
específico, ou para o benefício de alguém ou alguma coisa. A nossa tarefa consiste 
em descobrir essas utilidades predeterminadas, e tal é o objetivo da história natural. 
(MAYR, 1998, p. 168-9) 
 
 
 
 
 
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CONTEXTO HISTÓRICO NA PRODUÇÃO DA CIÊNCIA BIOLÓGICA 
Uma Ciência é constituída ao longo de sua trajetória. A Biologia (a Ciência da 
Vida) inicia sua história a partir do surgimento da civilização humana. Então, entender 
como essa história se passou e como ela influenciou a Biologia e a Botânica, 
enquanto saber específico, é parte deste estudo. Para isso passo a relatar 
brevemente o pensamento humano, a história das civilizações, a Ciência Biológica, 
no seu percurso inicial, e as incursões da filosofia na história da Sistemática 2 - 
Botânica. 
 O período paleolítico detém os primórdios do simbolismo, ou seja, o 
surgimento da linguagem. Neste momento, “o homem”, ao nomear os objetos e 
situações, que, segundo Bernal (1997, p.69), são sempre mais complexos do que os 
sons empregados para descrevê-los, começa a criar os símbolos, que as sociedades 
humanas significam pelo uso da palavra. Estes símbolos constituíam o pensamento 
humano, através do seu uso direto na linguagem e de sua imaginação visual. 
As diferentes formas de conhecimento da humanidade tiveram um caminho 
inicial no campo da dominação do inanimado. O homem se dedicou basicamente a 
produzir mecanicamente utensílios e a conhecer animais e plantas como fonte de 
alimento. Nos primórdios, a ciência percorria um caminho, mas não havia interesse 
em sua exploração. Ocorria que as manipulações dos objetos e dos seres vivos 
serviam para a sobrevivência do homem e ao conhecê-los empreendia a observação 
e o conhecer científico. 
A continuidade das sociedades humanas caracterizadas por Bernal (1997, p. 
63) ocorre desde o Paleolítico, através da combinação da capacidade manual e visual 
com outra especial, a aprendizagem, possibilitando usos a priori da pedra e madeira 
e a posteriori de objetos mais selecionados, de acordo com suas aplicações em 
necessidades humanas. Portanto, a capacidade de aprender e ensinar, 
generalizando a tradição de passar de um o conhecimento pré-adquirido a outro, é 
que caracteriza a existência e a persistência das sociedades humanas. 
O conhecimento obtido pela observação da natureza, como a necessidade de 
alimentar-se, neste momento, se deu pelo conhecer os hábitos de animais 
(Comportamento) e as propriedades das plantas (Botânica). Então, aqui encontra-se 
imbricada a base da Biologia atual. 
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A história dos pressupostos da hierarquia biológica, ou seja, a classificação é 
mais antiga que a própria ciência consciente, conforme Bernal (1997), reforçado por 
Chassot: 
Estudo das plantas fez parte dos primeiros conhecimentos do homem, pois 
este necessitava selecionar raízes, caules, folhas, frutos e sementes destinados 
alimentação, vestuário e construção. Imaginemos os problemas de seleção de raízes 
não-tóxicas para a alimentação tanto animal como humana (CHASSOT, 2000, p.15). 
Na citação, explica-se a possibilidade de seleção de diferentes partes dos 
vegetais pela humanidade em seus primórdios. Podemos pensar também, como 
selecionaram e classificaram os galhos que faziam o fogo durar mais ou os pigmentos 
usados como tintas. 
Na humanidade do período pré-histórico, não havia uma distinção clara entre 
conhecimento biológico e mítico; por conseguinte, essas culturas foram muito 
instáveis no que realmente acreditavam. 
O conhecimento biológico, por ser complexo para o pensamento humano 
seguiu um caminho diferente do conhecimento popular. As razões míticas incutidas 
nos fenômenos e a falta de uma distinção com o científico, constituíram uma 
classificação inicial que permitiu, por sua vez, o desenvolvimento da Biologia e 
também da Química. Embora, inicialmente, a classificação já detivesse seu 
significado na vida humana, baseando-se fundamentalmente na linguagem oral, que 
era “uma teoria em que os seres vivos ou objetos (nomes) eram susceptíveis a ação 
ou passividade dada pelo homem (verbos)” (BERNAL, 1997, p.76), não tínhamos a 
separação clara entre os objetos de conhecimento da ciência e da sociedade. 
Na Idade do Ferro, nasceu o alfabeto, através do uso de símbolos advindos 
dos mesopotâmicos e dos egípcios, mais tarde, constituindo o nascimento da escrita. 
Na ordem de registro dos acontecimentos e das Áreas de Conhecimento a Biologia e 
a Literatura ficaram por último. 
Estes caminhos incomuns, pelos quais a ciência primitiva tramitou, 
incursionaram aspectos apreendidos em nossa cultura advindos de períodos outros, 
por consequência, anteriores à escrita. 
9 
 
 
A passagem do conhecer inicial (pensamento humano primitivo) para um 
saber, ou seja, de uma verdade para outra, está na escrita. A linguagem, então, torna-
se o pressuposto fundamental das posteriores mudanças que a forma de conhecer 
da humanidade incorporou através dos tempos. 
O surgimento da escrita e a história da caminhada do povo de Deus, contada 
na Bíblia, fazem com que a humanidade adquira um contexto e, por conseguinte, é 
nela que encontramos o primeiro ato de identificar (tido como nomear) os seres vivos, 
com objetivo de dar significação aos demais seres que habitavam a terra, e também 
para separar o humano do objeto de conhecimento humano. 
Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais terrestres e 
todas as aves do céu, levou-os diante de Adão, para este ver como os havia de 
chamar; e todo o nome que Adão pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro 
nome. (Gênesis, 2, 19-20) 
Na Bíblia, o livro de Gênesis (capítulo7) conta a história do dilúvio, em que 
ocorre uma forma de classificar os animais (todos os seres vivos da terra) como puros 
e impuros, selváticos e domésticos, para separar os diferentes gruposde animais pela 
importância quanto à utilidade doméstica ou não. 
A escrita é a alavanca da mudança do pensamento humano no início das 
civilizações, modificando, com isso, a relação entre homem e natureza, conforme 
Marques (1993). 
Embora a Bíblia tenha imposto um caminho para a sociedade após sua escrita, 
principalmente na organização das civilizações antigas, o povo grego e sua cultura 
tornam-se o elo entre o primitivo e o início da história que afeta a sociedade moderna 
(BERNAL, 1997). 
A partir daí dá-se, o início de uma cultura que tem sido de maior, ou até mesma 
única relevância no desenvolvimento do pensamento biológico. Daí a relevância da 
escrita e da bíblia (povo hebreu), para marcar o elo entre o inicial - anterior e o novo 
mundo, dos gregos. 
A civilização grega, na Idade Antiga, caracterizou-se por pilhar e apossar-se 
das culturas devastadas, e, também, por aprender e incorporar culturas e símbolos 
diferentes. Daí serem os gregos o elo de ligação entre o anterior à escrita (da Bíblia) 
10 
 
 
e o posterior, ou seja, a história contada na escrita é a única que interfere até os dias 
de hoje, porque os gregos assim assumiram o papel de disseminadores, dando um 
curso apropriado à cultura grega até os dias de hoje na história das civilizações. 
A sociedade classista também deixou marcos, no que tange a vincular a ciência 
e sua aprendizagem, segundo Bernal (1997, p.114), às classes de maior prestígio, 
como a matemática, astronomia e medicina, enquanto que a Biologia e a Química 
tiveram que conquistar seu espaço duramente para obter seu reconhecimento 
cultural. Tal situação perdurou até o século XVIII. 
O paradigma das Essências rompe com a indistinção de homem - natureza, e 
homem passa a dominá-la, tendo, como instrumento para separar ou disciplinar esta 
distinção, a simbologia do que, mais tarde, seria a matemática. 
A Bíblia é tida como saber do povo, em que se misturam a fé e a razão por 
explicações de fundo mítico. Quando surgem os sofistas, primeiros professores, a 
filosofia possui grande prestígio. Sócrates, num contexto de objetividade, apela para 
a reminiscência, e busca, segundo Marques (1993), no mandamento de Apolo, 
Delfos, “conhece-te a ti mesmo”, a referência para sua caminhada. Junto dele Platão 
ensaia o princípio da filosofia “ser para sempre, para além das aparências físicas (ton 
meta ta physica)”. 
No dualismo da fé e da razão, o cristianismo prendeu seus pilares e o dogma 
cristão: corpo/alma, segundo Mayr (1998), dominou o pensamento biológico durante 
muitos anos. Aristóteles, buscando consolidar o pensamento de Platão, teve a 
filosofia como vertente de verdades na época e o essencialismo, desde Platão, só se 
removeu, por Darwin, devido a observações de taxonomistas da época. Então, a 
filosofia não só estabeleceu regras para o pensamento humano em geral, na época, 
como também influenciou o pensamento biológico. 
A filosofia e sua história é que garantiram, por outro lado, a passagem e as 
contribuições do pensamento de Aristóteles, primeiro taxonomista, até a taxonomia 
clássica, passando por Santo Agostinho: 
A importância de Aristóteles para a cultura europeia está também no fato de 
ele ter criado uma linguagem técnica usada ainda hoje pelas mais diversas ciências. 
11 
 
 
Ele foi o grande sistematizador, o homem que fundou e ordenou as várias ciências 
(GAARDER, 1995, p.122). 
Os filósofos e a história da Filosofia revelam parte de como o pensamento 
biológico, que definiu o início da sistemática, chegou até nós, perpassando 
principalmente a Idade Antiga e Média, e, a partir daí, o seu percurso como ciência 
na Idade Moderna e no Mundo Contemporâneo. Abaixo, são citados alguns filósofos, 
épocas e os fatos decorrentes de sua história para a constituição do pensamento 
biológico e, ainda, a lógica de transmissão da sistemática botânica através dos 
tempos. 
Tales de Mileto: Água é origem de todas as coisas. 
Anaximandro: Mundo era uma parte do infinito. 
Anaxímenes: O ar ou o sopro era a base de todas as coisas. 
Parmênides: Tudo sempre existiu. “Só acredito vendo”, pois, os sentidos nos 
enganam (semente do racionalismo). 
Heráclito Eféso: “Tudo flui”, a natureza é fruto de suas transformações, e as 
impressões dos sentidos são confiáveis. 
Empédocles: O ar, a água, a terra e o fogo são as “raízes” da natureza, seus 
elementos básicos. 
Anaxágoras: A natureza era composta por partículas bem pequenas invisíveis 
a olho nu, e tudo pode ser dividido em partes cada vez menores. 
Demócrito: Último Filósofo da Natureza - todas as coisas eram formadas por 
partes menores, minúsculas, cada uma delas eterna e mutável. 
Sócrates: A relva e as árvores nada lhe ensinavam. 
Platão: Idealista e, na sua escola, passou sua visão sobre Sócrates. 
Aristóteles: Realista, primeiro sistematizador das ciências. Organizador 
meticuloso que queria pôr ordem nos conceitos dos homens (ordem é também 
sinônimo do positivismo mais tarde), fundando assim a lógica como ciência. 
Santo Agostinho: Vertente idealista de Platão, acreditava que o homem 
necessitava de salvação divina (da fé). 
12 
 
 
São Tomás de Aquino: Cristianizou Aristóteles, encarando duas verdades: a 1ª 
do que era natural antes da revelação divina e a 2ª após a revelação, sem contrapô-
las. 
Os três primeiros eram considerados os filósofos da natureza, na antiguidade, 
por terem dado atenção especial a fenômenos naturais, princípio que alavancou a 
separação entre a filosofia e a religião. Foram os primeiros a tecer um caminho que 
levou a humanidade a uma “forma científica” de pensar o mundo, propiciando o 
nascer das ciências naturais. Eles buscavam o conhecimento e criticavam a mitologia, 
contrapondo-a à fé, já que nada pode surgir do nada. 
Se Heráclito já acreditava nos sentidos e na observação, Aristóteles ao 
sintetizar as ideias deste filósofo, cujos escritos foram perdidos, percebeu importância 
da observação, como base do método defendido, posteriormente. 
Na antiguidade, a escola de Platão pregou o discurso de Sócrates, que foi 
queimado por “persuadir” jovens de sua época. Aristóteles não usou apenas a razão 
como Platão, usou também seus sentidos (GAARDER, 1995, p.121). Daí a 
importância da observação e comparação nos métodos taxionômicos. No 
desenvolvimento da história da filosofia está imbricado o percurso inicial da biologia, 
pois Aristóteles, pode ser considerado também, o primeiro biólogo da Europa, porque 
seu maior interesse estava na “natureza viva” (p.121). 
Segundo Gaarder (1995, p.127), “Quando reconhecemos as coisas, nós as 
ordenamos em diferentes grupos ou categorias”, pois todas as coisas na natureza 
podem ser agrupadas ou categorizadas para facilitar sua identificação, e Aristóteles 
tentou mostrar este processo à humanidade. Para ele, o que diferenciava os animais 
e as plantas das pessoas era a capacidade de pensar, ou seja, ordenar suas 
impressões sensoriais em diferentes grupos e classes. 
No final da Antiguidade, temos o período romano, em que Roma assume o 
predomínio militar (50 a.C.). A cultura romana e a língua latina passam juntamente a 
predominar desde a Europa até a Ásia. O latim foi a língua escolhida nas ciências, 
para separar o laico do erudito, já que a religião separou e distinguiu o profano(povo) 
do sagrado (sábios da igreja). 
13 
 
 
A ciência do helenismo advinda da internacionalização dos reinos helênicos - 
Macedônia, Egito e Síria - fez com que Alexandria, no Egito, fosse a união do Oriente 
e com o Ocidente (GAARDER, 1995, p.116), tornando-se a capital da Biologia, da 
Medicina e das Artes, entre outras. 
A medicina desenvolveu-se utilizando a botânica (o conhecimento das plantas) 
como sendo sua base teórica. Sabe-se que as ervas medicinais e as essências 
extraídas por boticários estão presentes desde a origem da medicina até os dias de 
hoje na base de inúmeros medicamentos e tratamentos.Durante toda a Idade Média, o Renascimento fez com que a cultura antiga e 
as ideias de Aristóteles, por meio de São Tomás de Aquino, constituíssem novos 
conhecimentos. 
Durante toda a Idade Média, os árabes foram líderes em ciências tais como o 
matemática, química, astronomia e medicina. Até hoje empregamos os ‘algarismos 
arábicos’, por exemplo. Em alguns campos, a cultura árabe era mesmo superior à 
cristã (GAARDER, 1995, p. 191). 
Além disso, percebe-se que não só os cristãos eram conhecedores da Ciência 
mas, também, outros povos, como os árabes (cf. GAARDER, 1995). Podemos, com 
isso, notar que a história se encarregou de manter presente o passado, transmitindo 
às civilizações um produto cultural, baseado em seus conhecimentos através da 
tradição, de geração a geração (BERNAL, 1997). 
Já na Idade Moderna (séculos XV e XVI), as transformações como a 
“Reforma”, serviram segundo Gaarder (1995, p.215), para deixar a relação entre 
ciência e religião mais livre à autonomia, da razão e da ciência. 
O Renascimento traz consigo os experimentos sistemáticos de Galileu Galilei, 
que visam tornar tudo mensurável, pois, até o século XVII, a matemática e a física 
eram rainhas absolutas das ciências. Constrói-se, assim, o método científico baseado 
no Empirismo - Indutivismo, defendido amplamente pelo filósofo Inglês Francis Bacon, 
este considerado o Pai da Ciência Moderna, em função do uso desse método. 
Desde a Idade Antiga, o homem indagou-se sobre a origem do mundo e da 
vida, tentando entender a vida como um processo. Ele avançou em diferentes 
14 
 
 
aspectos, embora, até a Idade Média, tenha sido dominado pelos dogmas da religião, 
dos ensinamentos bíblicos, das revelações e do sobrenatural. 
A ciência passa a encarar os fenômenos como perguntas, com dúvidas e 
explicações, opondo-se à religião. Durante muito tempo, esse processo foi esquecido 
e, somente após a Alta Idade Média e durante a revolução científica, foi relembrado, 
conforme Mayr (1998). Com essa retomada, começou-se a questionar também as 
Escrituras Sagradas (Bíblia). 
A lógica escolástica dominou o método taxonômico, do conhecimento biológico 
de Cesalpino até Lineu (MAYR, 1998). 
O Aristotelismo grego seguia um padrão, uma doutrina imposta pela sociedade 
sagrada da época (igreja - detentora do conhecimento). O nominalismo que atribuía 
uma mera denominação às coisas segundo Marques (1993), predominou no 
surgimento do método escolástico (científico) que tinha como premissa o “colocar a 
questio”. Então a tradicional e mecanicista concepção de ciência esteve em ascensão 
desde esta época. 
Na ciência, residiam as explicações alternativas, não como dogmas da religião 
e sim, para substituir uma teoria por outra. Segundo Mayr (1998), para Galileu a 
medida e a quantificação eram de suma importância e para Aristóteles o método 
experimental era a única aproximação que conduzia a resultados. 
Nasce, assim, o Método da Ciência, que despontou a partir do séc. XIX, e, foi 
iniciado por Aristóteles, seguido por Descartes, ambos indutivistas, para mais tarde 
ser consolidado como o Método hipotético-dedutivo, a partir da especulação e depois 
da condução dos experimentos. Usado por Darwin, desmantelou o indutivismo (de 
Bacon), crucial desde o séc. XVIII. A física rendeu-se ao método e dessa decisão 
nasce o seu grande predomínio entre as ciências. No século XVII, o Método foi escrito 
por René Descartes em francês e não em latim, uma consideração importante para o 
desmantelamento das questões postas, ou seja, do conhecimento científico ser 
apenas daqueles que conheciam latim. 
A Biologia concebeu seu pensamento baseando-se no Método indutivo e no 
hipotético-dedutivo comparativo, a partir da observação, da classificação, da análise 
e das leituras do real com aproximações. O método científico foi também responsável 
15 
 
 
pela condução da hierarquia Lineana (MAYR, 1998). De mais a mais, não existem 
grandes separações entre estes métodos; existe, sim, uma complementaridade. 
A Física, hoje, já se entende como produto de múltiplos saberes, usando 
também da observação e aproximações para não perder seu espaço dentre as 
demais ciências modernas. 
A autonomia da Biologia seguia seu curso, ainda que tênue. A história da 
Biologia continua por áreas diversas como a Zoologia, a Botânica e a Embriologia. O 
pensamento humano rompe paradigmas, coloca-se à frente na pesquisa, registra 
suas observações, analisa e remonta histórias próprias, específicas. 
A história da sociedade humana apresentada neste texto, mostra que o 
pensamento biológico surgiu posterior ao conhecimento botânico e que a Botânica, 
enquanto saber específico, teceu e tece história, memória e relações com o homem. 
 
ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEPÇÕES DE BOTÂNICA 
A Botânica, enquanto estudo das plantas e área da Biologia, ao longo de sua 
história concebeu teorias, gerou pensadores e sustentou formas de pensamento. Em 
especial a sistemática, que trata da identificação dos vegetais assumiu modelos e 
perspectivas, com isso, difundiu concepções de Ciência, de Ensino, e de Currículo. 
Nesta perspectiva, em que a Botânica através de seu percurso histórico fez opções, 
tomou caminhos e constituiu uma trajetória que influenciou e influencia diretamente a 
pesquisa-ciência e o ensino, penso ser importante compreender a hierarquia biológica 
desde as vertentes à contemporaneidade da taxonomia das plantas, tecendo uma 
leitura dos nomes que fizeram parte desta história. 
A taxionomia, a morfofisioligia, o uso e a distribuição das plantas são os focos 
do estudo botânico. 
O ensino da Botânica tem raízes recentes dentro desta Ciência, constitui-se 
como pesquisa, no Brasil, em 1982, com a criação da uma Sessão de Ensino dentro 
da Sociedade Botânica do Brasil – SBB, mas o pensamento biológico e o 
conhecimento botânico que o sustentam estão presentes na humanidade desde seus 
primórdios. 
16 
 
 
Acredito que o início da relação homem-planta pode ser datado de 720.000 a. 
C., a partir da análise de inscrições em cavernas Sírias, Arcádias e Egípcias. Daí em 
diante, o surgimento do fogo, o cozimento dos alimentos, a construção de utensílios 
e a agricultura foram algumas das realizações da humanidade, utilizando as plantas. 
Enquanto o Homo sapiens sapiens descobria o mundo das plantas, acontecia 
também o registro escrito destes saberes, garantindo, assim, que a cultura 
preservasse esta história. 
Com o desenvolvimento da Ciência Moderna, o conhecimento botânico passou 
a ser privilégio da Medicina e da Farmácia (plantas para cura de doenças) e da 
Agronomia (cultivo econômico das plantas), somente mais tarde é que a Biologia 
recebeu o reconhecimento da Botânica enquanto saber específico. 
A relação homem-planta na sociedade moderna passa pela concepção de que 
a humanidade modifica o mundo a sua volta para a sobrevivência, esquecendo com 
isso, que a garantia da vida no Planeta depende da Luz Solar e das Plantas (produção 
de alimento). A sociedade moderna industrializa, ocupa e extermina florestas inteiras 
com o discurso enganoso da sobrevivência. O Homo sapiens sapiens muda o ritmo 
biológico do Planeta e coloca a Vida de todos os seres vivos em perigo, ou seja, em 
ameaça de extinção. 
A pós-modernidade/discurso pós-moderno faz com que nasça uma outra 
concepção/paradigma para relação homem-planta, o entendimento da Condição 
Humana (que depende de todos os outros seres vivos e do ecossistema Terra para 
sobrevivência) e da Consciência Cosmológica (pensamento complexo que expressa 
a necessidade de entendermos o todo do Universo como parte de nossas vidas) numa 
época chamada Era Planetária (de nos apegarmos as questões biológicas para 
entender os processos vitais do mundo). 
Essas alterações no pensamento humano modificam também a Ciência e, por 
sua vez, o ensino nela fundamentado. É verdade, porém, que nemtoda sociedade 
reconhece estes estudos ou essa concepção de mundo, mas todos têm 
experimentado nas suas peles as condições climáticas, por exemplo, fruto dos erros 
humanos que agridem o ambiente Terra. Então, se não for acordo da sociedade 
repensar a situação de vida na Terra, que sirva de alerta ao mundo o pensamento 
aqui exposto e as pesquisas nesta direção. 
17 
 
 
Dentro desse contexto social e histórico de produção de pesquisa, convive a 
Escola, e o currículo escolar. O currículo que aprende e ensina Botânica não é 
diferente do todo da Escola, ele sofre as alterações impostas pelo discurso 
reconhecido como válido pela sociedade. A história da Botânica, do pensamento 
biológico e da constituição curricular do seu ensino traçou uma determinada trajetória 
que, hoje, nos permite pensar novas dimensões acerca do ensinar e do aprender. 
O currículo que ensinava as plantas, das páginas escuras do livro, dá lugar ao 
texto, à discussão e à experiência prática com as plantas. Os passeios à mata e o 
uso do laboratório ganham novos significados dentro da prática pedagógica. Os 
discursos ambientalistas desbotam e reforça-se o tom da ação e intervenção nos 
ambientes e ecossistemas frágeis. A luta pela não-extinção cede espaço ao estudo e 
pesquisa genômica para preservar as espécies. O currículo escolar aposta na 
linguagem viva, no discurso da ação e modifica a escola, na pretensa intenção de 
melhorar a qualidade de vida de todos os seres vivos. 
Mas a Escola não se descuida do texto, da biblioteca, da pesquisa e do fazer 
pedagógico que resgata a diferença, que respeita as crenças, as culturas, os gêneros 
e a produção de conceitos científicos através da interlocução dos saberes na 
mediação da aprendizagem. 
A taxonomia é o princípio que deu origem à Botânica e sustentou sua expansão 
por toda a modernidade, conforme mostra a história. No sentido de entender desde 
as vertentes da Botânica até a concepção contemporânea do estudo das plantas pela 
humanidade, investi parte deste trabalho no estudo histórico da Botânica. 
As crescentes discussões sobre como melhorar os Sistemas de Classificação 
e tornar a Botânica Sistemática acessível aos cientistas e à população em geral faz 
com que se inicie, em meados do século XX, uma preocupação dessa Ciência em se 
fazer entender. Com isso, aponta-se uma discussão nova e emergente na academia 
e na sociedade: o “paradigma das plantas”. Esse paradigma não é a saída e, sim, o 
constructo histórico que surgiu da análise das diferentes e fracassadas formas de 
relação homem-planta já enunciadas, neste texto. Assim, entender esta história é 
parte indispensável para o estudo e compreensão do currículo de Botânica que reflete 
esta trajetória. 
18 
 
 
Os paradigmas constituem-se ao longo do tempo revelando as formas de 
pensamento humano acerca de um tema. Na relação homem-planta, constituiu-se a 
história da Botânica, apresentada abaixo, a partir de Miranda (1944) e Carvalho 
(2000). 
Botânica Erudita (Antiguidade): Filosofia base de seu pensamento, 
constituindo-os fundadores dessa Ciência. 
Botânica Clássica (Idade Média): As grandes navegações conferiam-lhes o 
título de botânicos após a publicação das listas de plantas dos países visitados. 
Cesalpino e Lineu, criadores de sistemas de classificação das plantas, deram a 
botânica à ordem clássica das chaves de identificação utilizando como método 
agrupamentos baseados na estrutura da flor na maioria das vezes. 
Botânica Moderna (Idade Moderna/Contemporânea- Séc. XIX e XX): Adeptos 
dos estudos da filogenia, da genética, do parentesco entre os agrupamentos. 
Botânica Contemporânea (Séc. XX e XXI): Coloca em xeque a relação do 
homem com as plantas, visa comprometer a educação, a humanidade e o ambiente 
pela discussão sobre os caminhos do planeta. 
O é possível perceber acima, como o pensamento botânico perpassou os 
diferentes momentos da história, traçando um perfil específico, a cada tempo. As 
concepções de ciência implicam diretamente nas formas de ensino e no currículo que 
as norteia, uma vez que a Ciência é produzida na Universidade onde é formado o 
licenciado da área. 
Aristóteles, Teofrasto, Dioscórides e Plínio foram, segundo Miranda (1944, 
p.25), os fundadores da botânica erudita. 
Desde a Idade Média até o século XVIII, os filósofos gregos e romanos da 
antiguidade, que se ocuparam das questões naturalistas, foram considerados os Pais 
da Botânica, alguns deles, como Hipócrates, Galeno, Dioscórides e Plínio, dedicaram-
se mais à descrição e nomenclatura das plantas de seus países. “Como a botânica 
sempre andou ligada à medicina, não se esqueciam estes descritores de dar o maior 
relevo às virtudes que cada espécie vegetal possuía para a cura dos males humanos” 
, Miranda (1944, p. 25). 
19 
 
 
O maior de todos estes naturalistas foi Aristóteles. Nenhum ramo das ciências 
pode deixar de o citar, tão vasta e variada era a sua erudição. (...) Quando nas 
Universidades medievais, surgia qualquer dúvida sobre qualquer ponto da filosofia ou 
da ciência, ia-se consultar a obra de Aristóteles. (...) Foi na história natural que 
Aristóteles mais se aproximou dos conhecimentos modernos. Fez a classificação das 
ciências e estabeleceu a hierarquia dos seres (MIRANDA, 1944, p. 26). 
Conforme Miranda (1944), nos fragmentos do livro “Teoria das plantas” de 
Aristóteles, encontra-se a distinção entre plantas anuais e vivazes como esboço de 
classificação. Na obra de Teofrasto, podemos distinguir as árvores de arbustos, de 
subarbustos e de ervas, conforme o porte, e também, plantas aquáticas de terrestres, 
e ainda, as de folhas persistentes das de folhas caducas. E, Dioscórides fez sua obra 
descrevendo aquelas de uso médico para reorientar a ciência na época, considerando 
apenas as de interesse curativo, sem se preocupar com aquelas vulgares. Não fez 
sequência alfabética tampouco teceu planos de classificação. 
Como poderia uma verdadeira teoria unificada da sistemática desenvolver-se 
efetivamente, enquanto perdurasse o fato de que o termo “afinidade” era usado tanto 
para mera semelhança como para o parentesco genético, enquanto o termo 
“variedade” era empregado para populações geograficamente circunscritas e para 
variantes intrapopulacionais (indivíduos) (...) (MAYR, 1998, p.173). 
As palavras utilizadas pelos botânicos tinham significados muito diferentes e 
eram usadas para variados aspectos ou formas dos vegetais. Por exemplo, lótus 
poderia ser uma árvore ou um arbusto, ou simplesmente uma triste erva, chegando 
até à nomenclatura de Lineu para dar nome à palma (Lótus corniculata L.). 
Plínio era considerado um discípulo continuador de Aristóteles. Em sua obra 
“História natural”, descreveu, em 37 livros, a ciência, dedicando 10 às plantas, 
comprendendo títulos do tipo as flores, a medicina e as ervas, plantas que se 
semeiam, árvores silvestres, plantas de bom aroma, entre outros (Miranda, 1944). 
Permanecendo um grande problema para os botânicos da época, confundiam–se as 
plantas com mesmo nome e de locais distintos com mesmo uso, faltando a 
compilação destes trabalhos. 
Na Idade Média, o interesse pela história natural declinou, mas o gosto pelo 
estudo das plantas despertou quando os árabes, apoderando-se do Egito, salvaram 
20 
 
 
boa parte dos escritos que se perderam dos gregos e romanos em Alexandria, quando 
incendiada. Mais tarde, quando os árabes invadiram a Península hispânica 
mostraram à população da Europa que possuíam estes escritos sobre as plantas, 
permanecendo, estes, assim entre a humanidade. 
Averrohoes, árabe nascido na Espanha, traduziu e comentou as obras de 
Aristóteles e ministrou seus ensinamentos nas Universidades medievais. Miranda 
(1944) cita que a descrição de plantas milagrosas e o sentido de busca da 
humanidade logo progrediu novamente. Na Idade Média, a família Pólo, de Marco 
Pólo, fez viagens famosase descreveu uma forma de localizar estas plantas de 
especiarias e cura, o que fez, em parte, despertar, na Itália, na Espanha e em 
Portugal, o desejo de buscar estas plantas em seus navios. 
As grandes expedições de portugueses e espanhóis revelaram a flora da 
América e do Oriente, Hernandez e Garcia da Orta foram os principais naturalistas 
dessas novas descobertas. Estes, ao lado de Cristóvão Colombo, apesar de serem 
pouco versados em história natural, tinham o espírito observador e relatavam seus 
conhecimentos distribuindo plantas trazidas como especiarias, temperos e 
condimentos, tais como a pimenta, a canela, a noz-noscada, o que paulatinamente 
conferia status a botânica. O México, por anos, utilizou, como moeda, a semente do 
cacaueiro, árvore que cresce nas bacias do Amazonas. 
Na América, Francisco Hernandez foi o naturalista que mais nos roubou e 
revelou ao mundo essas riquezas. “Tão importante foi a colheita das plantas 
medicinais do Novo Mundo, que em sua honra se criaram, na Europa, os primeiros 
Jardins Botânicos da Itália, Holanda e França” (MIRANDA, 1944, p.47). 
As plantas que foram levadas da América Latina, como o milho, a batata, o 
tomate, o pastel, o pau-brasil, a goiaba, o maracujá, a manga, o abacate, a papaia, 
entre outras tantas, propiciaram a outros povos o aproveitamento de suas 
propriedades e agregação de valor econômico. 
No século XVI, na Europa, os naturalistas resolveram dedicar-se a observação 
e experimentação, como botânicos de campo, descrevendo várias espécies. Entre 
eles podem ser citados: Clusius - Carlos de L’Ecluse - descreveu da Espanha e de 
Portugal, cerca de 200 novas espécies que estão no seu livro de História das Plantas 
Raras; Brunfels - Othon Brunfels - estudou a flora indígena dos arredores de 
21 
 
 
Estrasburgo e do Vale do Reno e escreveu a História das Plantas Indígenas, 
descrevendo todas aquelas que pessoalmente conheceu e as desenhou 
naturalmente, revolucionando os hábitos científicos da época. Na obra de Clusius, 
parece haver um cuidado com a taxonomia; primeiro trata de plantas arbóreas e por 
segundo, de plantas bulbosas e rizomatosas. “Na nomenclatura começaram os 
descritores a usar, para designar as plantas, as descrições curtas e precisas, com o 
menor número de palavras” (MIRANDA, 1944, p. 56). 
Foi Anguillara, no século XVI, quem iniciou essa forma, aproveitando os nomes 
vulgares das plantas, conservados desde o latim pela tradição popular, embora 
modificados pela evolução natural das línguas. Muitas centenas de plantas já eram 
descritas por duas palavras, tal como Lineu haveria de propor mais tarde. 
André Cesalpino, tido como o mais notável fisiologista da época, estudou a flor 
entre outras partes da planta, e distinguiu algumas delas, nomeando-as. 
Quanto a flor, Cesalpino distingue nela uma parte principal e uma parte 
acessória que protege a primeira como simples invólucro. Designa os carpelos por 
estamina e os estames por flocci. Stamina e flocci constituem a parte principal. O 
invólucro protetor é o calyx, formado por folículos, uns verdes, outros corados. Às 
vezes, o calyx falta inteiramente (MIRANDA, 1944, p. 57). 
Foi ainda Cesalpino quem fez um primeiro ensaio de sistematização 
verdadeira, havia um número considerável de plantas descritas que, somadas às 
americanas, trazidas à Europa, aumentavam a todo o momento. Ele dividiu 
inicialmente, como os clássicos já faziam, em agrupamentos de árvores e ervas, e, 
depois, dentro dessas, procurou grupos mais limitados. Ele utilizava, como critério 
para as árvores, as sementes e os embriões destas, agrupando-as em duas classes: 
na 1ª, o embrião está orientado para o vértice da semente e, na 2ª, o embrião está 
mais próximo à haste. Quanto às ervas, dividiu-as em 15 classes, sendo a 1ª as de 
sementes aparentes, a 2ª as de sementes não aparentes e, aquelas, cujos frutos 
tinham apenas uma semente, estavam na 3ª classe. Da 4ª à 14ª classes, distinguiam-
se pelo número e disposição das sementes, pelo aspecto fibroso ou bulboso da raiz 
e pela disposição das flores. E, por fim, na 15ª classe estavam as ervas sem frutos e 
sem flores. 
22 
 
 
Lobelius – Matias Lobel fez a primeira tentativa de agrupamentos por famílias 
e percebeu que o sistema de Cesalpino, logo que pronto, não conseguia dar conta de 
todas as plantas já registradas. Um dos nomes propostos encontra-se até hoje em 
uso com adaptações pequenas – graminia- gramíneas, irides – irifiáceas e labiatae- 
labiatas. 
Conrad Gesner, outro botânico da época, propôs o gênero, após observar que 
plantas que tinham a mesma forma de flor e de frutos, tinham, em regra, outros órgãos 
em comum. Ele, então, deu sentido à correlação de características que mais tarde 
propiciaram base para os métodos naturais de classificação (MIRANDA, 1944). 
Os taxonomistas do século XVII adotaram o gênero como agrupamento 
fundamental e, em consequência, a botânica torna-se acessível e popular. Neste 
período o microscópio é descrito cientificamente por Antonie van Leeuwenhoek 
(1632-1723), e isto permite analisar a anatomia vegetal com maior clareza. Jean 
Bauhin era suíço e descreveu neste século mais de 5000 espécies de plantas, sem 
falar em classificação própria, dispõe seus livros em 40 volumes, separando os 
grupamentos de vegetais com afinidades, os quais, hoje, têm o nome de famílias. 
Gaspar Bauhin, irmão de Jean, foi um herborizador que procurava primeiramente 
catalogar as plantas de uma região delimitada. Sua Flora dos arredores de Bale serve 
de exemplo até hoje, para organizar a de outros estados e países. Cada espécie é 
designada por um nome genérico – o seu nome vulgar em latim - seguido de um ou 
dois atributos que a caracterizam, sem perigo de confusão. Aperfeiçoou os nomes 
genéricos de tal forma que foram utilizados por Tournefort e por Lineu, e o conceito 
de gênero galgou posições com isso. 
John Ray – Rajus era inglês e dedicou-se, como amador, à organização da 
Flora dos arredores de Cambridge e, mais tarde, a das Ilhas Britânicas, Holanda, 
França, Alemanha, Suíça, Itália, Sicília e Malta. “A botânica deve-lhe um sistema de 
classificação que é geralmente considerado como o inspirador de Tournefort” 
(MIRANDA, 1944, p.62). Ray dividiu as plantas em ervas e árvores, como outros já o 
fizeram anteriormente; essas eram “divididas em classes, conforme o seu aspecto 
geral e as características do fruto e da flor, principalmente da corola” (p. 63). No seu 
sistema, aquelas designadas por fungos (os cogumelos) eram ervas imperfeitas. 
Umbelíferas e Papilionáceas eram designações quanto à disposição ou forma das 
flores, Pomíferas, Bacíferas, Seliquosas relacionadas com os frutos. Árvores de 
23 
 
 
sementes nuas, sem fruto, eram as Gimnosmonospérmicas, e aquelas a que 
nenhuma classe fazia alusão eram chamadas anômalas. Seu sistema era falível, 
confessado por ele próprio, porque se baseava exclusivamente no estudo da flor. 
Neste período, o estudo da morfologia dos órgãos da planta foi consagrado 
pelo alemão Joaquim Yung em termos adaptados por Lineu. O seu maior feito foi 
designar, ao contrário de Cesalpino, por stamina os estames, e por stylos os estiletes, 
coroados pelos estigmas. Fez, ainda, desaparecer a confusão entre fruto e semente, 
pois a última, na sua concepção, era envolvida por um invólucro externo. 
Já no final do século XVII, revelou-se, na França, um dos maiores botânicos 
modernos, José Pitton de Tourneford, que sintetizou suas observações e de seus 
antecessores, selecionou doutrinas expostas, anteriormente, esclarecendo-as. 
Descreveu, após inúmeras viagens, um sistema de classificação das plantas pela flor. 
Morreu cedo e publicou o “Método de Conhecer as Plantas”, com mais de 1356 
catalogadas, muitas delas desconhecidas na época. 
 
Na figura, entre outras coisas, encontram-se algumas famílias, até hoje 
conhecidas, como por exemplo, as Umbelíferas,Liliáceas, Crucíferas e Rosáseas. 
24 
 
 
Outro fator importante é que os nomes de famílias ou gêneros (nomes vulgares, 
genéricos) de plantas surgiram na cultura popular e permaneceram até hoje, graças 
à tradição das populações que as utilizavam como alimento ou medicamento. Isto foi 
incorporado pela ciência e conferiu à Botânica um “status” de ciência acessível e 
popular. 
Sempre o povo chamou roseira a qualquer roseira, e pinheiro a qualquer 
espécie de pinheiro. De forma que o inventor do gênero não foi realmente nem 
Gesner, nem Buhin, nem Tournefort, nem Lineu, mas sim o povo, o camponês, o 
agricultor e o jardineiro. A ciência [adaptou] a sabedoria e bom senso do povo, e de 
aí resultou para ela um extraordinário benefício: inúmeras pessoas até aí alheias à 
botânica passaram a interessar-se pelas plantas, encarando-as sob um ponto de vista 
científico e aperfeiçoando os conhecimentos de ordem prática, e muitas vezes 
incertos, que possuíam (MIRANDA, 1944, p. 69). 
Essa citação aponta para um princípio fundante da ciência biológica: a 
organização do mundo vivo a partir da sistemática, permitindo sua consolidação 
enquanto ciência e saber científico, que permitisse evolução. 
Karl Van Linné – Lineu era sueco, nasceu em Roeshult, na Smolândia 
distinguiu-se dos demais naturalistas e botânicos por ter criado a nomenclatura 
binária para identificar as espécies, além de descrever e nomear inúmeras plantas 
por todo o globo. Além de criar o seu sistema de determinação, publicou obras como 
Sistema Naturae (1735), em que se pode conhecer o chamado “Sistema Sexual de 
Lineu”, que, mesmo incompleto, serviu para a época como a maior obra de taxonomia 
existente, e, em Genera Plantarum (1737) e Species Plantarum (1735), estabeleceu 
formas, nomes, classes e ordens sempre levando em consideração o sexo e o 
número de estames. Veja, nas figuras, o Sistema de Lineu. 
25 
 
 
 
26 
 
 
 
Os sistemas de Tournefort e Lineu (figuras), assim como os demais ensaios 
anteriores, pareciam artificiais “agrupavam as plantas segundo critérios arbitrários 
considerando essencialmente aspectos morfológicos de fácil reconhecimento em 
todos os vegetais” (Carvalho, 2000, p. 12). Após Lineu, surgem os primeiros sistemas 
naturais, destacando-se os de Antonine Laurent de Jussieu (1748 –1836) e o de 
Augustin Pyrame de Condolle (1778 –1841), que tinham a pretensão de considerar 
os aspectos evolutivos, mas não o conseguiram porque estava em vigência o conceito 
inalterável de espécie. Conforme o próprio Lineu apud Papavero, “Species tot 
numeramus quot diversae formae in princípio sunt creatae” (1999, p. 72 - as espécies 
seriam enumeradas tantas quantas fossem as formas criadas a princípio por Deus). 
Daí originam-se os sistemas naturais modernos ou filogenéticos. 
27 
 
 
A questão da origem de formas novas de organismos, levantada por Sant-
Hilaire e Lamarck, teve solução definitivamente encaminhada com os trabalhos de 
Wallace e Darwin, de tal modo que o dogma da imutabilidade da espécie foi 
abandonado, sendo as afinidades entre as plantas considerada reflexo de sua 
evolução filogenética (CARVALHO, 2000, p.18). 
Desse modo, a Botânica passa a ter respaldo para construir sistemas 
filogenéticos, baseados nos estudos da Evolução e da Fitopaleontologia. Conforme 
Carvalho, “um moderno sistema de classificação, baseando-se em relações genéticas 
não pode prescindir dos conhecimentos oriundos da teoria da evolução, que teve o 
mérito de introduzir na ciência um novo modo de pensar acerca da organização das 
plantas” (2000, p.18). 
Dentre os botânicos sistematas da filogenia, destacaram-se August Wilhelm 
Eichler (1839-1887), Adolf Engler (1844-1930) e Arthur Cronquist com publicação 
oficial de 1981. 
Temos, ainda, autores da taxonomia moderna, como Aylthon Brandão Joly, 
Focko Weberling e Hans Otto Schwantes. Estes, além de criarem sistemas naturais 
modernos ou filogenéticos, partiram dos princípios da evolução e consideraram outros 
fatores, tais como a presença ou não de alcalóides e pigmentos, a biologia da 
dispersão das sementes, as flores, a ecologia e a fisiologia, entre outros. “Com o 
advento da cladística e das tecnologias de engenharia genética” (TISSOT-SQUALI, 
2002, p. 1) os resultados de pesquisas em sistemática vegetal “trouxeram 
novidades na classificação dos vegetais superiores” (idem anterior), destes estudos 
participa além de outros o botânico da escola alemã: Judd. 
Os pensadores modernos da Botânica Sistemática têm muito a nos dizer. Mas, 
esta parte da Botânica está em discussão hoje, interessava-me revisar e entender a 
trajetória botânica até o presente. As discussões sobre a Botânica hoje e seu ensino 
estão presentes ao longo desta dissertação através da análise da Sessão de Ensino 
da SBB. 
A sistemática botânica evolui, assim como as concepções de ciência que 
tramitam nesta área. Em decorrência disto, os pensadores tomam parte da discussão 
não somente da compreensão dos sistemas de classificação, mas da botânica como 
28 
 
 
um processo, no seu todo. Então, os estudos começam a apontar para discussões 
acerca da sobrevivência do homem e da interdependência entre planta-homem. 
Esses estudos não limitam as discussões em torno da sobrevida apenas, mas 
colocam em xeque a condição humana. 
 
A BOTÂNICA E O PARADIGMA DAS PLANTAS 
A conceituação do Paradigma das Plantas, a discussão de onde ele emerge, 
no que se fundamenta e no que interfere, bem como os apontamentos sobre as 
incursões deste no ensino de Botânica, são abordados na figura 5. 
A figura 5, além de apresentar a relação entre o paradigma das plantas com 
os “movimentos da sociedade” como modificadores das concepções pelas quais 
passam o aprender e o ensinar, mostra como o currículo de botânica vem sofrendo 
intensas proposições da história da humanidade. 
Segundo Pelt (2001), a emergência da vida vegetal na sociedade decorre de 
cinco pilares: 
 1) Não se sentir envergonhado por falar das plantas; 
 2)Insistir sobre a noção de evolução; 
3)Introduzir a noção de ecologia; 
4)O lugar das plantas na alimentação e na saúde; 
5) As plantas no alcance da mão. E, penso ser necessário acrescer mais um 
pilar: 
6) A nutrição (fotossíntese) das plantas e a relação com a sobrevivência da 
Sociedade Humana. 
A discussão de Pelt (2001) promove o entendimento de quão importante é a 
interação entre homem-planta e como podemos pensar nossa condição humana a 
partir dessa relação. 
No que se refere à botânica e ao ensino da sistemática, Pelt traz presente que: 
29 
 
 
Essa identificação imediata em meio a flora é o exercício número 1 da botânica, 
como aliás, também a preocupação de descrevê-la por meio de uma abordagem 
típica do hemisfério esquerdo do cérebro. Essa abordagem, que foi adotada por 
nossos antepassados desde a Renascença e, sobretudo desde Lineu, encontra-se 
hoje condenada (PELT, 2001, p. 114). 
Além de condenar a botânica clássica, Pelt (2001) apresenta três abordagens 
para o ensino dos nomes das plantas: a “abordagem descritiva, estritamente botânica, 
abordagem genética, abordagem estética” (p.114). Com isso, no ensino, “o sentido 
da observação será assim educado ao mesmo tempo que a capacidade de 
maravilhar-se, pois ciências naturais também devem educar para a descoberta da 
beleza” (p.114). 
Assim, o autor, ao defender essa concepção “nova” de ensino e de Botânica 
produz uma teoria que busca relações interpessoais associadas à linguagem e à 
interlocução dos saberes, ao mesmo tempo em que procura dar ênfase às 
compreensões biológicas sobre a vida. 
Brosse (1993) é outro autor que, em seu livro “As plantas e sua magia”, discute 
a relação homem-planta, a partir do entendimento de que o pilar mestre da condição 
humana na Terra depende em primeira instância e diretamente, “do milagre da 
clorofila” (p. 13) e da relação de dependência nutricionaldos animais pelas plantas. 
E, acrescenta: 
A fotossíntese constitui o milagre criador de onde tudo tem origem, pois ela 
metamorfoseia o mineral em orgânico, o inanimado em animado, o inerte em vivo; a 
clorofila é a fonte universal em que se abastecem todos os seres vivos (BROSSE, 
1993, p.14). 
Esse novo paradigma mexe nas formas de pensar não só as plantas no mundo 
em que vivemos, mas na botânica enquanto saber que pode e deve nos ajudar a 
compreender a vida. 
A História da Botânica e de seu Ensino são temas que necessitam de um 
cuidado especial, pois a escola não nos permite mais desconhecer a dimensão 
histórica para lermos o mundo de hoje. Os caminhos de uma ciência nos permitem 
compreender seus enlaces, encontros e desencontros e nos dão a chance de 
30 
 
 
descobrir o porquê, o quê e para quem ensinamos. A base do “porquê”, penso ter 
constituído nesse capítulo, que também evidencia o “o quê” e o “para quem” ensino, 
num conteúdo disciplinar escolar que forma sujeitos conhecedores e capazes de 
interagir no meio. 
A historicidade de uma ciência nos permite vislumbrar que a taxonomia, 
enquanto saber botânico e conhecimento biológico, não são invenções fechadas e 
sim um constructo de uma representação (des)contínua, produzida por pessoas que 
registram os conhecimentos adquiridos e permitirão a sua progressão. 
Através da dimensão histórica, podemos entender o presente e modificar as 
aspirações futuras, de modo a esclarecer as razões do caminho adotado, por 
exemplo, pelos taxonomistas-professores das Universidades brasileiras, formadores 
de professores de Ciências e de Biologia e sócios da SBB, onde publicam suas 
preocupações relativas ao ensino. As concepções/tendências pedagógicas, as 
formas de ensino e as teorias que este ensino produziu, são construções ligadas 
intrinsecamente à produção da disciplina de Botânica, ao longo de sua história, e, 
estão apresentadas no terceiro capítulo dessa dissertação. 
Os pressupostos já apresentados neste capítulo afirmam que o caminho 
percorrido pela Botânica, ao longo de sua trajetória, sustentou e vem sustentando o 
pensamento (concepção) mecanicista como sendo dominante e ainda vigente, mas 
não como única. Nesse sentido, torna-se indispensável analisar o currículo formador 
e conhecer as muitas e diferentes formas de ensino de Botânica, como um saber que 
reflete inúmeros momentos de mudanças. 
 
 
 
 
 
31 
 
 
A SOCIEDADE BOTÂNICA DO BRASIL COMO ESPAÇO DE 
PRODUÇÃO DE SIGNIFICADO NO ENSINO DE BOTÂNICA DO 
BRASIL 
A pesquisa documental permitiu-me leituras acerca da Sociedade Botânica do 
Brasil enquanto espaço de produção de ensino em Botânica, a partir de suas 
publicações. Entender a SBB como um tempo-espaço de produção de significados e 
de currículo facilitou a compreensão de meu problema de pesquisa, à medida que 
este deixava de ser uma reação rançosa com os processos de identificação e passava 
a ser uma possibilidade de compreender o ensino-aprendizagem e currículo 
esboçado. 
A SBB congrega os Botânicos brasileiros e está dividida em Sessões. A de 
maior relevância e com maior número de trabalhos publicados conforme Barradas & 
Nogueira (2000), é a Sessão de Sistemática das Fanerógamas 1, em que os autores 
publicam trabalhos acerca de como se identificam essas plantas. No entanto, após 
ano de 1982, com a criação da Sessão de Ensino, as preocupações sobre como 
ensinar a identificação das plantas torna-se acentuada. A cada ano, cresce o número 
de trabalhos apresentados nesta sessão (quadro 4), e o Ensino da Botânica inicia 
uma trajetória paralela ao estudo da identificação das plantas: a Taxionomia 2. Então 
a SBB existe não somente como sociedade científica, mas, sim, como um espaço de 
discussão e produção de significado acerca do processo de ensinar e aprender 
Botânica no currículo das Licenciaturas de Ciências e Biologia. 
A análise da SBB se deu a partir dos trabalhos apresentados e publicados de 
1982 até 2001, nos livros de resumos dos CNB, dos quais foram analisados. 
No conteúdo, pode-se verificar, nitidamente, o número reduzido de trabalhos 
expostos até o ano de 1999 e os estudos sobre o ensino de Botânica até 2001 
confundem-se com outros temas, como anatomia, fisiologia e educação ambiental, 
conforme Nogueira (2000). 
Após 1999, as temáticas deixam de analisar o ensinar-aprender enquanto 
processo, preocupando-se mais com a produção de metodologias diferenciadas de 
ensino. 
32 
 
 
A partir da leitura dos resumos e da análise inicial do conteúdo, tratei de 
organizá-los em um quadro que sistematizasse a descrição sumária de cada trabalho, 
servindo como um direcionamento posterior. Essas descrições facilitaram as 
categorizações, uma vez que sintetizam as ideias essenciais retiradas de cada um 
dos trabalhos. 
No quadro 5, apresento os títulos dos trabalhos considerados, o ano, as 
instituições de origem das publicações, o nível de ensino abordado e uma descrição 
breve de cada um deles. 
 
AS CONCEPÇÕES DE ENSINO PRESENTES NA SBB 
Nesses trabalhos, percebeu-se que a Botânica se inscreve em diferentes 
contextos, e, que a trajetória da SBB influenciou os caminhos do seu ensino desde a 
sua criação (1950) até os dias de hoje. Da mesma forma, a análise dos resumos 
mostrou que esse ensino tem sofrido modificações nas concepções que o perpassam, 
evoluindo desde uma abordagem mecanicista, passando pela adoção de um caminho 
interdisciplinar, até os ensaios numa perspectiva histórico-cultural (quadro 6). No 
entanto, pode-se afirmar que não há uma proposta pedagógica única embasando de 
forma clara os processos de ensino-aprendizagem para a botânica sistemática. Os 
relatos dos resumos referem-se a escolas de educação básica e de ensino superior. 
A proposta pedagógica, referida neste parágrafo, é uma teoria que sustente as formas 
de ensino descritas e/ou as pesquisas que foram analisadas, pois, ao mesmo tempo 
que mostram correlação com uma concepção de ensino, não se afirmam como 
resultantes do estudo e aplicação desta concepção. As escolas nas quais se inserem 
as pesquisas analisadas, por certo, têm uma proposta em particular, mas estas não 
ficam claras nos resumos analisados. 
1982 - Base Curricular para competência: Interdisciplinar 
1995 - Políticas de ensino: Interdisciplinar e Metodologias de Ensino: 
Mecanicista 
1996 - Diagnóstico do ensino superior de botânica: Interdisciplinar 
 - Metodologias de Ensino: Mecanicista 
33 
 
 
1997 - Metodologias de Ensino: Mecanicista 
 - O ensino e paradigma mecanicista: Histórico-cultural 
1998 - Técnicas e Instrumentos de ensino: Mecanicista 
1999 - Abordagem em Projeto: Interdisciplinar 
 - Técnicas e Instrumentos de ensino: Mecanicista 
 - O componente vegetal na aprendizagem: Histórico-cultural 
2000 - Metodologias de Ensino: Mecanicista 
 - O significado e a aprendizagem: Histórico-cultural 
 - Técnicas e Instrumentos de ensino: Mecanicista 
 - Diagnóstico do Ensino: Interdisciplinar 
2001 - Técnicas e Instrumentos de ensino: Mecanicista 
 - Metodologias de Ensino: Mecanicista 
 - Ensino de botânica e currículo: Histórico-cultural 
A partir das temáticas analisadas, no quadro 6, dos 44 trabalhos, observa-se 
que a concepção Mecanicista está presente em 77,27% deles, a concepção 
Interdisciplinar em 13,63%, enquanto que a Histórico-cultural apenas mostra sua face 
em 9,09% dos trabalhos. 
No Brasil, a Botânica tem uma constituição como saber do povo (popular) 
anterior ao seu desenvolvimento científico, passando, inicialmente, pela criação de 
Jardins Botânicos e Herbários, e depois, ao lado da Química nas Escolas de 
Agronomia. A formação botânica restringia-se, inicialmente, as áreas agronômica, 
farmacêutica e médica. Somente mais tarde, a Biologia constituiu-se como uma 
ciência, em que a botânica se inscreve. Isso permitiuque o seu ensino fosse também 
impregnado dessas formas de fazer ciência, uma abordagem mecanicista passou a 
imperar por muitos anos nessa disciplina, cujas consequências estão presentes até 
hoje. 
Marques (1993) descreve que a forma mecanicista de pensar tornou o ensino 
tradicional, clássico e regrado em demasia. Como se evidencia no ensino de 
34 
 
 
Botânica, em que um único instrumento de aprendizagem, a chave analítica de 
famílias, é usado em todas as escolas desde o ensino fundamental até o superior. 
O modo mecanicista de ensinar foi estudado na própria sessão de ensino, no 
ano de 1997, a partir do trabalho intitulado “O ensino de botânica e o viés do 
paradigma mecanicista”, que enfoca um ensino preso à classificação/descrição com 
técnicas únicas de identificação de vegetais. Assim, podemos verificar que essa 
forma, baseada na racionalidade técnica, vem sendo utilizada e ao mesmo tempo 
questionada nas próprias publicações da área. 
As concepções de ensino na disciplina de Botânica, além de absorver 
diferentes influências da ciência vigente, assumiram, na sua trajetória, uma postura 
de adotar o discurso pedagógico vigente, como por exemplo, a interdisciplinaridade 
(RIBEIRO, 1999) que está presente de forma marcante nesses trabalhos da SBB. 
No trabalho “Programa de Ensino do projeto flora fanerogâmica do estado de 
São Paulo. Uma experiência na cidade de São Carlos” (CNB, 1999), podemos 
vislumbrar, com muita facilidade, o viés da interdisciplinaridade. Este documento 
descreve a prática de um grupo de professores que introduz conceitos botânicos, faz 
visitações, atividades musicais, trabalhando com a consciência ambiental e ação 
antrópica no meio, e ainda, resgata valores étnicos, envolvendo todas as disciplinas 
e docentes da escola. 
Encontramos uma outra linha de pensamento, ainda que tênue, a abordagem 
histórico-cultural, em que o ensino passa de simples técnicas, metodologias ou 
didáticas de ensinar e começa a pensar como a botânica pode partir do real cotidiano 
de cada escola para construir o conhecimento científico. Essa concepção está 
baseada na teoria de Vigotski, alicerçada na constituição do sujeito e dos saberes 
através da relação com o outro (outros sujeitos), mediatizados pela linguagem 
(VIGOSTKI, 2001, 1991). 
Para notarmos como essa teoria passa a embasar algumas práticas 
pedagógicas, o trabalho “Os significados das atividades de campo no aprendizado de 
botânica: Uma experiência em Santos” (CNB, 2000), consegue através de uma 
prática calcada na análise de concepções da práxis e teoria do educador, descrever 
como os educandos desenvolvem o pensamento, apresentando concepções reais e 
críticas, frente ao ensino atual. 
35 
 
 
As concepções trazidas não são as únicas possíveis, mas sim as que foram 
analisadas e estão presentes, ainda hoje, nas publicações, cujas bases teóricas 
seguem um movimento próprio que perpassa a formação dos sujeitos autores desses 
textos. Por isso, no quadro 6, pode-se notar perfeitamente esse movimento. 
O ensino da Botânica, nos resumos analisados, inscreve-se em diferentes 
contextos, caracterizando-se mais acentuadamente numa perspectiva positivista e 
disciplinar, sem acolher as múltiplas vozes que o constituem. Por outro lado, tornou-
se significativo no que se refere à identificação das plantas, mostrando que, mesmo 
numa perspectiva disciplinar, ocorreu ensino e aprendizagem. 
O CURRÍCULO E O ENSINO DE BIOLOGIA 
A questão do currículo de Botânica é apontada, dentro dos estudos da Biologia 
e de Ciências, por Krasilchick (1987), Carvalho & Gil-Pérez (2000), Soncini (1992), 
como indispensável de ser repensada e compreendida na sua representação social 
e funcional, enquanto conhecimento científico que perpassa a escola. No PCN de 
Ciências Naturais, “utilizar características e propriedades de materiais, objetos, seres 
vivos para elaborar classificações” (v. 4, p.64), manifesta claramente a presença e a 
importância da taxonomia desde o primeiro ciclo, pois a nomeação, ou seja, a 
identificação dos seres vivos é que permite conhecê-los. Discutir o currículo formador 
de professores de Biologia e Ciências, no que tange à Botânica tem seu aporte no 
entendimento de que a formação inicial é determinadora dos sujeitos-professores, 
constituindo-se um campo urgente de investigação. 
Nesse sentido, segundo Gil-Pérez & Carvalho (2000), temos de adquirir 
conhecimentos que fundamentem as propostas construtivas, tais como: 
A- reconhecer a existência de concepções espontâneas (e sua origem) 
difíceis de ser substituídas por conhecimentos científicos, senão mediante uma 
mudança conceitual e metodológica. 
B- saber que os alunos aprendem significativamente construindo 
conhecimentos, o que exige aproximar a aprendizagem das Ciências às 
características do trabalho científico. 
C- saber que os conhecimentos são respostas a questões, o que implica 
propor aprendizagem a partir de situações problemáticas de interesse para os alunos. 
36 
 
 
D- conhecer o caráter social da construção de conhecimentos científicos e 
saber organizar aprendizagem de forma consequente. 
E- conhecer a importância que possuem, na aprendizagem das Ciências - 
isto é, na construção dos conceitos científicos -, o ambiente da sala de aula e o das 
escolas, as expectativas do professor, seu compromisso pessoal com o progresso 
dos alunos, etc (GIL-PÉREZ & CARVALHO, 2000. p.32). 
As propostas de Gil-Pérez & Carvalho mostram claramente uma preocupação 
com os fatores sociais, aproximando-se de uma base teórica interacionista, que 
trabalha na perspectiva da produção de conceitos a partir do conhecimento prévio-
cotidiano do educando. 
Evidenciando a necessidade de uma readequação do ensino de Ciências, o 
trabalho de KRASILCHIK (1994) indica como um problema: a “ - memorização; - falta 
de vínculo com a realidade”, e, como fatores que o influenciam negativamente, “a 
preparação deficiente dos professores e os guias e livros inadequados e de má 
qualidade”, e como condições para a sua melhoria, os “programas de 
aperfeiçoamento para professores”, deixando claro que existem problemas que nos 
remetem a sua formação inicial. 
Pode-se assegurar, com isso, que o currículo formador deve ser, no mínimo, 
repensado, de forma a se encontrar consoante com a realidade de hoje e dando conta 
dos problemas já mencionados ou notando sua presença. 
Soncini (1992) trata da formação inicial de professores de Ciências Biológicas, 
e, vislumbra cinco aspectos importantes para que essa área participe do núcleo 
comum de disciplinas no Ensino Médio, constatando, assim que: 
- cada área do conhecimento possui um código intrínseco, uma lógica 
interna. Por isso, cada uma delas atua de forma específica na construção e no 
desenvolvimento do pensamento; 
- o ensino de biologia, como as demais áreas do conhecimento, possibilita 
a contraposição entre o místico e o científico nas explicações dos fenômenos naturais 
(...), sendo uma de suas características a possibilidade de ser questionada e de se 
transformar; 
37 
 
 
- compreender o mundo e tentar superar problemas constituem 
características da espécie humana. A curiosidade e a necessidade são dois grandes 
móveis, que nos fazem caminhar em busca do conhecimento. A biologia faz parte do 
conhecimento e os fenômenos são objeto de interesse dos indivíduos desde que 
iniciam a sua exploração do mundo. Cabe à escola assegurar que esse interesse 
subsista. 
- ser importante compreender que a vida se manifesta de formas diversas 
(reinos: vírus, monera, protista, fungos, vegetais e animais), relacionadas entre si e 
com o meio; que todas essas formas estão sujeitas a transformações que ocorrem no 
tempo e no espaço; que tais transformações são fruto das interações entre organismo 
e ambiente, podendo ou não ser causa de novas formas de interação; 
- questões polêmicas como as que dizem respeito

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