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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3
1.1 O lugar da biologia nas ciências e sua estrutura conceitual ................. 3
1.1.1 A natureza da ciência ..................................................................... 3
1.1.2 Descoberta de fatos novos? ........................................................... 5
1.2 O meio intelectual da biologia em transformação ................................. 9
1.3 Biologia na Antiguidade ...................................................................... 10
1.4 Biologia na Idade Média ..................................................................... 15
1.5 Biologia no Renascimento .................................................................. 17
1.6 Biologia moderna e contemporânea ................................................... 18
2 EVOLUÇÃO .............................................................................................. 19
2.1 Pré-darwinismo .................................................................................. 19
2.2 Darwinismo ......................................................................................... 23
2.3 Neodarwinismo, Síntese Moderna da Evolução ................................. 25
3 A BIOLOGIA NO SECULO XIX ................................................................ 27
3.1 Etologia e ecologia ............................................................................. 27
3.2 A emergência da biologia molecular .................................................. 29
3.3 DNA ou proteína? ............................................................................... 31
3.3.1 Desvendando o mistério: Watson e Crick ..................................... 33
3.4 Clonagem, transgênicos, células-tronco: o que mais vem por aí? ..... 35
3.4.1 Pedaços de DNA independentes ................................................. 35
3.4.2 A biologia molecular altera a classificação dos seres vivos ......... 36
3.4.3 Era da genômica: a sequência do DNA é determinada ................ 37
3.4.4 Sobre a clonagem ........................................................................ 38
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 40
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Prezado aluno!
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma
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que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a
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A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e
prazos definidos para as atividades.
Bons estudos!
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1 INTRODUÇÃO
Com o advento da linguagem, impulsionou-se a evolução humana,
abrangendo tanto conhecimentos práticos quanto científicos. A partir desse marco,
as informações passaram a ser armazenadas e transmitidas às gerações
subsequentes, possibilitando a reconstrução e expansão dos conhecimentos
adquiridos.
Ao longo do tempo, a sociedade humana testemunhou uma sequência de
alterações e mudanças, moldadas por suas conquistas e progressos em diversas
áreas do conhecimento. Atualmente, o conhecimento científico emerge como o
principal catalisador de transformações em variados setores que permeiam o
cotidiano das pessoas, tais como saúde, pesquisa e educação. Essas mudanças
proporcionam diversos benefícios no desenvolvimento da tecnologia e na qualidade
de vida do ser humano.
1.1 O lugar da biologia nas ciências e sua estrutura conceitual
É totalmente impossível tentar entender o desenvolvimento de qualquer
conceito particular, ou problema, na história da biologia, sem previamente ter a
resposta para as seguintes questões: O que é ciência? Qual é o lugar da biologia
entre as ciências? E qual é a estrutura conceitual da biologia? Respostas
inteiramente equivocadas foram dadas a essas três perguntas, particularmente por
filósofos e outros não-biologistas, e isso impediu em larga medida o entendimento do
avanço do pensamento biológico. Tentar, então, dar uma resposta correta a essas
três questões básicas é a primeira tarefa desta aula. Ela proporcionará uma base
segura para o estudo da história de conceitos específicos.
1.1.1 A natureza da ciência
Desde tempos remotos, o ser humano questionou a origem, o propósito e,
frequentemente, o significado do mundo ao seu redor. As respostas a essas
indagações, tentativas de compreensão, estão enraizadas em mitos que
caracterizam todas as culturas, inclusive as mais primitivas. Ao longo do tempo, a
humanidade evoluiu para além desses inícios simples, seguindo duas direções
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distintas. Em uma delas, as ideias se formalizaram em sistemas religiosos,
fundamentados em conjuntos de dogmas geralmente derivados de revelações
divinas. No final da Idade Média, por exemplo, a sociedade ocidental estava
profundamente impregnada pela confiança nos ensinamentos bíblicos e por uma fé
generalizada no sobrenatural.
A filosofia e, posteriormente, a ciência representam a outra abordagem para
explorar os mistérios do mundo, embora a ciência não tenha sido inicialmente
separada da religião em seus estágios iniciais. A ciência enfrenta esses enigmas por
meio de perguntas, dúvidas, curiosidade e tentativas de explicação, adotando assim
uma postura completamente diferente em comparação com a religião. Os filósofos
pré-socráticos, particularmente os jônios, iniciaram essa abordagem de maneira
distinta, buscando explicações “naturais” baseadas nas forças observáveis da
natureza, como o fogo, a água e o ar. Esse esforço para compreender a causalidade
dos fenômenos naturais marcou o início da ciência. Após a queda de Roma, essa
tradição foi praticamente esquecida por muitos séculos, mas foi revivida na Alta
Idade Média e durante a revolução científica. Esse ressurgimento fortaleceu a
crença de que a verdade divina não era revelada apenas por meio das escrituras,
mas também através da criação de Deus. (MAYR, 1998).
Uma distinção fundamental entre religião e ciência reside no fato de que a
religião geralmente se baseia em um conjunto de dogmas, frequentemente
considerados inquestionáveis, sem alternativas significativas ou flexibilidade
interpretativa. Em contraste, na ciência, as explicações alternativas são não apenas
permitidas, mas muitas vezes incentivadas, e teorias podem ser prontamente
substituídas por outras. A descoberta de um novo esquema explicativo é
frequentemente motivo de celebração. O valor de uma ideia científica é em grande
parte avaliado pelos critérios internos à ciência, sendo determinado principalmente
por sua eficácia na explicação e, por vezes, na capacidade de previsão.
Curiosamente, os cientistas têm mostrado certa falta de consenso em relação
a uma definição abrangente da ciência. Durante o auge do empirismo e do
inducionismo, o propósito da ciência era frequentemente descrito como a
acumulação de novos conhecimentos. Por outro lado, ao examinar os escritos dos
filósofos da ciência, fica a impressão de que para eles a ciência é essencialmente
uma metodologia. Embora ninguém questione a importância do método científico, a
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ênfase quase exclusivade alguns filósofos nessa abordagem desviou a atenção do
objetivo mais fundamental da ciência, que é ampliar nosso entendimento tanto de
nós mesmos quanto do mundo que nos cerca.
A ciência possui diversos objetivos, conforme descrito por Ayala (1968):
• Busca organizar o conhecimento de maneira sistemática, procurando
descobrir padrões de afinidade entre fenômenos e processos.
• Compromete-se em fornecer explicações para a ocorrência dos eventos.
• Formula hipóteses explicativas passíveis de teste e sujeitas à possibilidade de
rejeição. Em um sentido mais amplo, a ciência busca unificar a vasta
diversidade de fenômenos e processos naturais por meio do menor número
possível de princípios explicativos.
1.1.2 Descoberta de fatos novos?
As descobertas são frequentemente vistas como símbolos da ciência no
entendimento público. A revelação de um novo fato geralmente é facilmente
difundida, e, por essa razão, os meios de comunicação também percebem a ciência
principalmente por meio de suas novas descobertas. Ao elaborar as condições para
os Prêmios Nobel, Alfred Nobel estava totalmente focado em reconhecer novas
descobertas, especialmente aquelas que poderiam ser benéficas para a
humanidade. No entanto, considerar a ciência como mera acumulação de fatos é
uma interpretação bastante equivocada.
Na área da ciência biológica, especialmente na biologia evolutiva, muitos dos
avanços mais significativos decorreram da introdução de novos conceitos ou da
melhoria dos conceitos já existentes. Aprimorar os conceitos existentes, mais do que
simplesmente descobrir novos fatos, tem sido fundamental para aprofundar nossa
compreensão do mundo, embora seja importante notar que esses dois aspectos não
são mutuamente exclusivos.
O emprego de conceitos não se restringe exclusivamente à ciência, uma vez
que conceitos são também utilizados em arte, história (e em outras áreas das
humanas), filosofia e, certamente, em qualquer atividade intelectual humana. Diante
disso, além do uso de conceitos, quais critérios podem ser empregados para
distinguir a ciência dessas outras atividades humanas? A resposta para essa
indagação não é tão simples quanto se poderia esperar, como evidenciado pela
questão sobre em que medida as ciências sociais podem ser consideradas ciências.
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Tentativamente, poder-se-ia sugerir que o que caracteriza a ciência é a rigorosidade
de sua metodologia, a capacidade de testar ou refutar suas conclusões e a
habilidade de estabelecer “paradigmas” (sistemas de teorias) que sejam não
contraditórios. O método, embora não seja o único elemento na ciência,
desempenha um papel crucial, especialmente porque varia de alguma forma entre
as diversas disciplinas científicas. (MARY, 1998).
Como e por que a biologia difere? A palavra “biologia” é relativamente
recente, originando-se no século XIX. Antes desse período, não existia uma
disciplina específica chamada biologia. Quando Bacon, Descartes, Leibniz e Kant
discorreram sobre ciência e sua metodologia, a biologia como a conhecemos hoje
não existia, sendo representada principalmente pela medicina (incluindo anatomia e
fisiologia), história natural e botânica (uma espécie de miscelânea). A anatomia, que
envolvia a dissecação do corpo humano, permaneceu por muito tempo, até o século
XVIII, como uma subdivisão da medicina. Da mesma forma, a botânica era praticada
principalmente por médicos interessados em ervas medicinais. O estudo da história
natural dos animais estava intrinsecamente vinculado à teologia natural, buscando
apoiar o argumento de um plano divino.
A revolução científica nas ciências físicas teve pouco impacto nas ciências
biológicas, que permaneceram praticamente inalteradas. As principais inovações no
pensamento biológico só surgiram nos séculos XIX e XX. Não é surpreendente,
portanto, que a filosofia da ciência tenha se desenvolvido nos séculos XVII e XVIII
com base exclusiva nas ciências físicas, tornando-se desafiador revisá-la de maneira
a abranger adequadamente as ciências biológicas.
Apenas nas últimas décadas é que vários filósofos, como Scriven, Beckner,
Hull e Campbell, tentaram delinear as diferenças entre a biologia e as ciências
físicas. O pensamento sobre esse problema é ainda tão recente que apenas
afirmações provisórias podem ser feitas. O propósito da discussão a seguir é mais
direcionado para delinear a natureza dos problemas do que oferecer soluções
definitivas.
Wells (2001) argumenta que uma reflexão sobre a história humana revela a
existência de distintos modos de conhecer. Ele destaca que na formação desses
modos, a interação social é crucial e deve ser mediada por alguma forma de
comunicação simbólica.
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Certas disciplinas do conhecimento, como a biologia e a química, obtiveram
benefícios significativos com a aplicação do método experimental, o que contribuiu
para seu reconhecimento como ciências. O método experimental é caracterizado
pelo manuseio de uma variável, permitindo determinar se as alterações nela
provocam mudanças em outra variável.
Devido ao fato de que o progresso científico está diretamente relacionado à
passagem do tempo, inúmeros avanços na pesquisa possibilitaram o
desenvolvimento e teste de técnicas experimentais. Isso resultou na formulação de
novas teorias que abrangem diversas disciplinas, como física, química e biologia.
Nas sociedades humanas, há uma convicção de que o conhecimento
proveniente da ciência se distingue de outras formas de saber devido à sua maior
confiabilidade. Em outras palavras, o conhecimento respaldado por métodos
científicos é considerado mais privilegiado em comparação com outras modalidades
de conhecimento, uma vez que é fundamentado em comprovações sólidas.
Teorias, métodos, técnicas e produtos encontram maior aceitação quando são
submetidos a processos científicos, uma vez que a autoridade da ciência é
frequentemente evocada. Indústrias, por exemplo, costumam rotular os
procedimentos de fabricação de seus produtos como científicos, assim como os
testes a que esses produtos são submetidos.
O processo de compreensão e interpretação da ciência gera muitas
discussões, pois as opiniões sobre o que deve ser considerado como científico ou
não apresentam divergências. Esse fato resulta em várias definições que buscam
explicar o que é ciência (PELANDА, 2020).
As definições encontradas na literatura abordam o termo “ciência” de acordo
com diferentes perspectivas e enfoques atribuídos à interpretação do que ela
representa. Apesar das variações, essas definições compartilham uma visão comum
na construção e compreensão do que é a ciência. Diversas versões e interpretações
são empregadas com o objetivo de esclarecer as formas pelas quais a ciência pode
ser definida.
Segundo Souza (1995), “a ciência é uma das formas de conhecimento que o
homem produziu ao longo de sua história, com o propósito de entender e explicar
racional e objetivamente o mundo para poder intervir nele”. Freire-Maia (1998) afirma
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que “a ciência é um conjunto de descrições, interpretações, teorias, leis, modelos
etc., visando ao conhecimento de uma parcela da realidade”.
De acordo com Chauí (2005), a ciência pode adotar diferentes concepções,
como a racional (que perdura desde os gregos até o final do século XVII), a empírica
(que abrange desde a medicina grega e Aristóteles até o final do século XIX) e a
construtivista (iniciada no século XIX).
Chauí (2005) declara que:
• Na perspectiva racionalista, a ciência é uma forma de conhecimento racional,
dedutiva e demonstrativa, semelhante à matemática. Nessa abordagem, ela é
capaz de comprovar a verdade necessária e universal de seus enunciados e
resultados, eliminando qualquer dúvida possível.
• Por outro lado, na visão empirista, a ciência é uma interpretação dos fatos
fundamentada em observação e experimentos. Esses métodos possibilitamestabelecer induções que, ao serem analisadas, proporcionam a definição do
objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento.
• Na abordagem construtivista, a ciência é entendida como a construção de
modelos explicativos para a realidade. Nesse contexto, o cientista
construtivista não busca apresentar uma verdade absoluta, mas sim uma
verdade aproximada, suscetível de ser corrigida, modificada ou substituída
por outra mais adequada, em consonância com os fenômenos observados.
De maneira simplificada, o empirismo destaca a importância crucial da
experiência no processo de obtenção do conhecimento, pois ela se baseia na
observação dos fatos. Para o racionalismo, a experiência científica representa uma
ocasião do conhecimento. A concepção construtivista, mais recente entre as três
apresentadas, incorpora características tanto do racionalismo quanto do empirismo
como uma abordagem explicativa para seu objeto científico.
Ao explorar os diversos estilos de concepções de ciência, torna-se evidente
que a definição da ciência é moldada por diferentes formas de compreendê-la.
Contudo, mesmo com essa diversidade, seu objetivo final permanece inalterado:
proporcionar uma compreensão do mundo para o ser humano (PELANDА, 2020).
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1.2 O meio intelectual da biologia em transformação
Escrever uma história das ideias requer a divisão da ciência de um
determinado período histórico em seus problemas principais, situando o
desenvolvimento de cada problema no tempo. Embora um enfoque tão estritamente
tópico tenha suas vantagens, ele tende a isolar cada problema de suas
interconexões com outros desafios contemporâneos da ciência, bem como do
contexto cultural mais amplo do período. Para compensar essa deficiência, neste
capítulo, fornecerei uma breve história da biologia como um todo, buscando
relacioná-la ao meio intelectual da época. A abordagem mais especializada dos
problemas biológicos individuais, apresentada nos capítulos subsequentes, deve ser
lida à luz dessa visão geral. Além disso, este capítulo introdutório estabelecerá
conexões com áreas da biologia funcional (anatomia, fisiologia, embriologia,
comportamento).
Cada época possui sua própria “tonalidade” ou estrutura conceitual, que,
embora longe de ser uniforme, exerce uma influência significativa sobre o
pensamento e a ação. A cultura ateniense nos séculos V e IV a.C., os diversos
absolutismos predominantes na maior parte da Idade Média e a revolução científica
do século XVII são exemplos de contextos intelectuais notavelmente distintos.
Entretanto, seria equivocado presumir que cada era é invariavelmente dominada por
um único modo de pensar, isto é, por um conjunto explicativo ou uma ideologia, que
eventualmente seria substituído por uma estrutura conceitual nova e muitas vezes
substancialmente diferente.
No século XVIII, o mundo conceitual de Lineu, por exemplo, era totalmente
distinto em todos os seus aspectos daquele de seu contemporâneo Buffon. É
possível que duas tradições de pesquisa bastante diversas coexistam, com seus
respectivos adeptos trabalhando em completo isolamento intelectual. Na segunda
metade do século XIX, o positivismo dos fisiciatos, permanecendo numa base
essencialista, pôde coexistir com o darwinismo dos naturalistas, fundamentado no
pensamento de população e abordando questões de adaptação que eram
totalmente sem sentido para um físico positivista.
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1.3 Biologia na Antiguidade
Todos os povos primitivos demonstram uma notável inclinação ao
naturalismo, o que não é surpreendente, dado que sua sobrevivência depende do
conhecimento da natureza. Eles têm a necessidade de compreender os potenciais
inimigos, assim como os meios de subsistência. Demonstram interesse na vida e na
morte, na doença e no nascimento, na "mente" e nas diferenças entre o homem e os
outros seres vivos.
É praticamente uma crença universal entre as sociedades humanas primitivas
que tudo na natureza é considerado "vivo", incluindo rochas, montanhas e o
firmamento, habitados por espíritos, almas ou deuses. Os poderes divinos são
entendidos como integrantes da própria natureza, que é percebida como ativa e
criativa. Antes do judaísmo, todas as religiões eram mais ou menos animistas, e a
abordagem em relação ao divino era substancialmente diferente daquela do
monoteísmo judaico. A interpretação do mundo pelos povos primitivos era
diretamente influenciada por suas crenças animistas. (MACHADO; NADAL, 2020).
Na Antiguidade, a Biologia estava estreitamente ligada às práticas médicas.
No Egito, as mumificações desempenharam um papel na compreensão das
estruturas anatômicas do corpo humano. Na Grécia, estudiosos contribuíram
significativamente para o desenvolvimento da Biologia, e muitos filósofos, incluindo
Hipócrates (considerado o pai da Medicina), dedicaram-se ao estudo do corpo
humano.
Em Roma, os conhecimentos biológicos desempenharam um papel
fundamental no avanço da agricultura, no desenvolvimento de práticas de
saneamento e higiene. Cláudio Galeno (130-210 d.C), um destacado médico
romano, deixou um legado duradouro na prática médica. Ele escreveu mais de 300
textos que abrangiam uma variedade de temas, incluindo dados anatômicos e
conceitos fisiológicos (Araújo et al., 2012).
Nas décadas seguintes, testemunhamos o estabelecimento de duas grandes
tradições filosóficas. A primeira, liderada por Heráclito, defendia a ideia da mudança
constante ("tudo flui"). A segunda, fundada por Demócrito, o proponente do
atomismo, afirmava, em contraste, a permanência imutável dos átomos,
considerados os constituintes fundamentais de todas as coisas. Embora Demócrito
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tenha escrito extensivamente sobre temas biológicos, poucos de seus escritos foram
preservados, e acredita-se que algumas ideias de Aristóteles possam ter origens em
sua obra.
Ele foi aparentemente o primeiro a abordar um problema que dividiu os
filósofos desde então: a organização dos fenômenos, especialmente no mundo vivo,
resulta puramente do acaso, ou é uma necessidade decorrente da estrutura dos
componentes elementares, os átomos? Desde esse tempo, acaso versus
necessidade tem sido o tema de controvérsias entre filósofos, inspirando até o título
do livro bem conhecido de Monod (1970). Foi somente mais de 2.200 anos depois
que Darwin demonstrou que acaso e necessidade não são as únicas opções, e que
o processo bifásico da seleção natural resolve o dilema levantado por Demócrito.
Os filósofos gregos antigos reconheciam a necessidade de uma explicação
para fenômenos biológicos tão familiares quanto a locomoção, nutrição, percepção e
reprodução. O que surpreende os estudiosos modernos é o fato de que eles
acreditavam ser possível encontrar tal explicação apenas por meio de uma reflexão
concentrada sobre o problema em questão. Podemos conceder que, na época em
que viveram, essa talvez fosse a única abordagem concebível para esses desafios.
(MACHADO; NADAL, 2020).
A situação começou a mudar gradualmente, especialmente quando a ciência
experimental se emancipou da filosofia durante a Alta Idade Média e a Renascença.
A prolongada tradição de fornecer explicações científicas exclusivamente por meio
da filosofia teve um efeito crescentemente prejudicial sobre a pesquisa científica nos
séculos XVIII e XIX, levando à amarga queixa de Helmholtz sobre a arrogância dos
filósofos que rejeitavam suas descobertas experimentais, pois estas entravam em
conflito com suas deduções.
As objeções dos filósofos essencialistas contra Darwin constituem outra
ilustração dessa atitude. Na Grécia antiga, de qualquer forma, a abordagem
filosófica dedutiva ajudou a levantar questões que ninguém havia indagado antes;
isso levou a uma formulação cada vez mais precisa dessas questões e, por
conseguinte, estabeleceu as bases para uma abordagem puramente científica que,
eventualmente, substituiu afilosofia.
Antes de Darwin, ninguém contribuiu mais para o entendimento do mundo
vivo do que Aristóteles (384-322 a.C.). Seu conhecimento abrangente em assuntos
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biológicos derivava de várias fontes. Na juventude, recebeu educação de médicos
asclepianos, e posteriormente, passou três anos na ilha de Lesbos, onde dedicou
considerável tempo ao estudo de organismos marinhos. Em praticamente todos os
aspectos da história da biologia, é imperativo iniciar com Aristóteles. Ele foi o
pioneiro em distinguir várias disciplinas dentro da biologia, dedicando tratados
monográficos a cada uma delas, como “De partibus animalium”, “De generatione
animalium” e outros.
Aristóteles foi o pioneiro ao reconhecer o grande valor heurístico da
comparação, sendo legitimamente celebrado como o fundador do método
comparativo. Ele foi o primeiro a fornecer detalhadas histórias de vida de um grande
número de espécies animais. Dedicou um livro inteiro à biologia reprodutiva e às
narrativas de vida (Egerton, 1975). Demonstrou um vivo interesse pelo fenômeno da
diversidade orgânica, assim como pelo significado das diferenças entre animais e
plantas. (MAYR, 1998).
As investigações filosóficas de Aristóteles deram origem a diversas áreas do
conhecimento, como a Biologia, a Zoologia, a Física, a História natural, a Poética, a
Psicologia, além das disciplinas propriamente filosóficas, como a Ética, a Teoria
política, a Estética e a Metafísica. Ele é reconhecido como aquele que iniciou o
estudo científico da vida.
Não se pode deixar de reconhecer que alguns filósofos naturalistas gregos,
em muitas outras ocasiões, tenham especulado sobre a origem das coisas vivas, e
que boa parte dos estudos de Hipócrates, escritos antes ou durante a época de
Aristóteles, apresentava um grande interesse sobre a anatomia humana, a fisiologia
e a patologia. No entanto, o fato é que, antes de Aristóteles, apenas alguns dos
tratados de Hipócrates levantavam os aspectos sistemáticos e empíricos desses
temas, estando seu foco exclusivamente voltado para a saúde humana e a doença.
Aristóteles, ao contrário, considerava a investigação das coisas vivas,
especialmente dos animais, como sendo fundamental no estudo da Natureza. Seus
escritos sobre a zoologia defendem um método próprio para a investigação
biológica, proporcionando um primeiro estudo dos animais em termos de
sistemática. Não havia nada tão bem escrito sobre esse tema até o Século XVI. Por
tais razões, Aristóteles é considerado um dos maiores pensadores de todos os
tempos. (MAYR, 1998).
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Em seu percurso filosófico, Aristóteles encontrou Teofrasto, um jovem com
interesses semelhantes aos seus sobre as ciências naturais. Dessa forma, a ciência
da biologia tem suas origens em Aristóteles e Teofrasto, com o primeiro investigando
a sistemática dos animais e o segundo realizando estudos similares com as plantas.
Aristóteles e o estudo dos animais
Aristóteles dedicou-se ao estudo de diversos animais marinhos,
proporcionando valiosas contribuições para a oceanografia e biologia marinha.
Reconhecendo a constante transformação dos mares e continentes ao longo do
tempo, ele descreveu e nomeou espécies de crustáceos, anelídeos, moluscos e
equinodermos, além de identificar dezenas de espécies de peixes, todos
provenientes do Mar Egeu. Aristóteles foi pioneiro ao classificar o golfinho como um
cetáceo e não um peixe, baseando-se na presença de placenta, característica dos
mamíferos terrestres. Suas observações precisas abrangeram a distinção entre
animais ovíparos e vivíparos em diversos grupos de vertebrados.
Aristóteles dedicou observações minuciosas ao comportamento de moluscos,
caranguejos e lagostas, como evidenciado em seu livro “História dos Animais”. Suas
descrições refletem observações detalhadas e prolongadas desses animais.
Aristóteles destaca a variedade de modos de locomoção, mencionando animais que
se deslocam por meio de asas, como aves e abelhas, e outros que conseguem
nadar na água e caminhar na terra. Ele observa a distinção entre animais solitários e
aqueles que vivem em grupos, destacando a dualidade de comportamento gregário
e solitário em algumas espécies. O filósofo ressalta a natureza gregária de aves e
certas espécies de peixes, além de abordar a alimentação, classificando organismos
em carnívoros, herbívoros (granívoros) ou onívoros. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA,
2012).
Aristóteles identificou o homem, abelhas, vespas e formigas como criaturas
sociais em suas observações. Além disso, ele explorou as diversas capacidades de
emissão de sons pelos animais, estabelecendo uma conexão entre o canto e o
período de acasalamento.
Alguns dos trabalhos desenvolvidos por Aristóteles foram:
• a caracterização de golfinhos e baleias como animais distintos de peixes e a
atribuição da denominação de cetáceos a esses animais, um termo ainda em
uso para os golfinhos, atualmente;
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• a distinção de peixes que tem esqueletos ósseos daqueles que não tem;
• o ciclo de vida das abelhas, detalhadamente descrito;
• os efeitos climáticos e ambientais sobre os animais;
• padrões de migração sazonal de aves e peixes.
Sabe-se pouco sobre o trabalho de Aristóteles em relação às plantas, mas
seu estudo extensivo sobre o reino animal exerceu uma influência duradoura na
área ao longo de muitos séculos. Embora muitos de seus escritos contenham
referências à natureza das plantas, sua opinião as situava entre o inanimado e os
animais, acreditando na existência de uma transição entre esses dois grupos.
Aristóteles atribuiu à vida a capacidade de pensar e sentir, assim como de mover-se
e crescer.
Aristóteles reconhecia a conexão entre a ingestão (nas plantas, através das
raízes) e o crescimento. Em contraste com os animais, ele determinou que, nas
plantas, a fêmea seria indivisível do macho. Para Aristóteles, as plantas pareciam
carregar ambos os gêneros. Ele observou que a finalidade principal dos vegetais era
a produção de frutas e sua propagação.
Quando as plantas começaram a ser estudadas?
Os primeiros registros sobre plantas enfocavam principalmente aspectos
utilitários e seu uso medicinal. O interesse dos antigos filósofos gregos estava mais
centrado em uma comparação que colocava, de um lado, os animais e o homem, e,
do outro, as plantas. Havia uma discussão sobre se as plantas possuíam uma alma,
como sugerido por Empédocles de Agriento. Aristóteles, por sua vez, as classificava
em um grupo intermediário entre organismos animados e inanimados, como
mencionado anteriormente. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
Teofrasto (372?-287? a.C), um discípulo de Aristóteles, destacou-se como o
mais importante botânico da Antiguidade. Ele escreveu dois trabalhos significativos
sobre plantas: "A História das Plantas" (De Historia Plantarum) e "Sobre as Razões
do Crescimento Vegetal" (De Causis Plantarum).
Os trabalhos de Teofrasto foram uma fonte significativa de informação e um
estímulo para futuras contribuições ao conhecimento botânico durante o século XVI,
influenciando autores e colecionadores botânicos da época. Esses tratados,
previamente desconhecidos na Europa Ocidental antes do século XV, foram
inicialmente traduzidos para o latim por Theodoro de Gaza, a pedido do Papa
15
Nicolau V. A tradução foi concluída em 1453 ou 1454 e dedicada ao Papa. Apesar
do belo título, o texto, com exceção de alguns manuscritos de ervas, não continha
ilustrações para auxiliar na compreensão de seu conteúdo científico.
Ao contrário de Aristóteles, Teofrasto acreditava que os animais eram
capazes de usar a razão e eram superiores às plantas. Ele considerava antiético o
consumo de carne, motivo pelo qual era vegetariano.
1.4 Biologia na Idade Média
Se Galeno desempenhou um papel crucial como cientista no Império
Romano, nenhum equivalente surgiu durante a Idade Média. O avanço docristianismo foi uma das principais razões para essa lacuna, uma vez que houve
restrições ao acesso a livros de origem pagã, incluindo obras dos pensadores
gregos e romanos. Os estudiosos que persistiram em estudar essas obras foram
exilados, levando consigo o conhecimento e deixando para trás uma lacuna cultural.
Durante esse período, o conhecimento era limitado e submetido aos dogmas e
convenções religiosas. Surge a questão: como é possível encontrar atualmente
textos de pensadores como Platão, Aristóteles e Hipócrates se os escritos dos
autores pagãos foram eliminados na Europa? Isso foi viável porque as obras dos
autores rejeitados na Europa foram preservadas pelos árabes, que as consideravam
fundamentais para seus conhecimentos.
Durante a Idade Média, um acontecimento significativo foi o surgimento das
universidades no século XI, sendo a Universidade de Bolonha (fundada em 1088, na
Itália, e em funcionamento até os dias atuais) a pioneira. A criação das
universidades possibilitou a introdução do ensino formal, com currículos
padronizados e aulas ministradas a grandes grupos de estudantes, que, mesmo
provenientes de diferentes regiões e falando diversas línguas, estudavam em latim,
a língua predominante para a redação de todos os textos. O currículo abrangia as
sete artes liberais: Gramática, Retórica, Aritmética, Geometria, Astronomia e Música.
No final da Idade Média, o número de universidades europeias já chegava a 80, e os
currículos começavam a incorporar outras disciplinas.
Um erudito destacado desse período foi Tomás de Aquino (1225-1274),
professor da Universidade de Paris e frade dominicano, posteriormente canonizado
16
pelo Vaticano. Ele desempenhou um papel crucial ao resgatar as obras de
Aristóteles e ao promover uma síntese entre a doutrina cristã e o pensamento
aristotélico. A interpretação dos trabalhos de Aristóteles foi também adotada por
Alberto Magno (ca. 1200-1280), outro professor da Universidade de Paris e
dominicano. Conhecido como Doutor Universal, Alberto Magno descreveu várias
espécies de plantas, possivelmente foi o primeiro a preparar o arsênico e é
reconhecido por suas publicações, incluindo "Sobre os minerais", "Sobre os vegetais
e plantas" e "Sobre os animais".
Roger Bacon (1214-1292), um franciscano que estudou nas universidades de
Paris e Oxford e ficou conhecido como Doutor Maravilhoso, é agora reconhecido
como o primeiro cientista moderno. Ele sustentava que a Ciência experimental era
compatível com a Filosofia, a Metafísica e a religião. Uma de suas opiniões que
permanece relevante é a identificação de quatro obstáculos que impedem a
descoberta da verdade nas coisas: autoridade fraca e inepta, hábitos antigos,
opinião popular desinformada e ocultação da ignorância por uma fachada de
sabedoria.
Hildegard de Bingen (1098-1179) foi uma das raras mulheres na Idade Média
a transcender as limitações impostas às mulheres nas universidades. Seu "Livro da
Medicina Simples" é considerado possivelmente o primeiro escrito por uma mulher a
abordar as propriedades terapêuticas de plantas, animais e metais. Em uma época
em que a crença predominante sugeria que os distúrbios mentais eram resultado de
possessões demoníacas, Hildegard propôs que esses problemas tinham causas
naturais, uma visão que hoje é corroborada. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
Ao contrário dos europeus, que só começaram a aceitar os conhecimentos
gregos após a intervenção de Tomás de Aquino, os árabes aproveitaram vastamente
o acervo dos gregos, romanos, persas e indianos, o que resultou no
desenvolvimento precoce de diversas ideias e tecnologias em comparação com os
europeus. Um dos estudiosos mais destacados desse período foi o médico Abu Bakr
Mohamed Ibn Zakariya al-Razi (865-923), conhecido no Ocidente Medieval como
Razes. Ele escreveu cerca de 200 obras sobre Medicina e Filosofia, incluindo “Sobre
a Varíola e o Sarampo”, que diferenciava essas doenças, fornecendo informações
sobre terapias e diagnósticos. Notavelmente crítico em relação à Ciência, Razes via
o conhecimento científico como sempre sujeito a progresso, o que implicava na
17
constante revisão dos conhecimentos anteriores. Uma obra interessante que
exemplifica essa abordagem é "Dúvidas em Relação a Galeno".
Classificado como o "Galeno islâmico", Abu Ali Hysayn ibn Abdullah ibn Sina
(980-1037), conhecido no Ocidente como Avicena, escreveu o "Cânon da Medicina",
que por muito tempo serviu como referência para a Medicina islâmica e europeia,
chegando a contribuir para sua estagnação. Outro médico islâmico notável foi Ala-al-
Din Abu al-Hasan Ali Ibn Abi al-Hazm al-Qarshi al-Dimashqi, conhecido como Ibn Al-
Nafis (1213-1288), autor do "Livro Geral da Arte da Medicina", uma compilação em
80 volumes de suas 300 anotações. No entanto, não foi essa obra que o eternizou
na história. Sua descrição da circulação pulmonar, também conhecida como
pequena circulação, revelou que Galeno estava equivocado ao afirmar que o sangue
atravessava o coração do lado direito para o esquerdo através do septo cardíaco
que separa os ventrículos, antecipando em três séculos a descrição feita pelos
europeus Serveto e Colombo. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
1.5 Biologia no Renascimento
A Biologia experimentou uma expansão e expressão significativas durante o
Renascimento. O resgate de algumas obras da Antiguidade Clássica, principalmente
aquelas que exploravam estudos sobre o homem e a natureza, foi crucial. Diversos
eventos marcaram esse período e impulsionaram as Ciências, como a invenção da
pólvora, da bússola e da imprensa. Além disso, as proposições heliocêntricas em
contraposição ao geocentrismo também desempenharam um papel importante.
(PELANDА, 2020)
Na área da Biologia, a anatomia deixou de ser associada apenas a práticas
exclusivas de sepultamento, ganhando reconhecimento e atraindo audiências.
Técnicas avançadas de dissecação e preservação de estruturas anatômicas foram
desenvolvidas, e muitos anatomistas passaram a realizar dissecações de corpos
durante suas aulas. Outros, como Leonardo da Vinci (1452-1519), dedicaram-se
minuciosamente a dissecar e desenhar as estruturas observadas:
embora seja mais conhecido pelas pinturas de Monalisa e da Santa Ceia,
da Vinci também deixou uma boa contribuição para a anatomia, tendo
dissecado aproximadamente 30 corpos, incluindo um feto de sete meses, e
um idoso, da Vinci chegou a desenvolver algumas técnicas para a
18
observação de peças anatômicas. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012, p.
45)
A fisiologia teve sua origem principalmente nos estudos voltados para a
compreensão da circulação sanguínea e o funcionamento do coração e dos vasos
sanguíneos. No campo da Zoologia e Botânica, era comum a prática de observar e
registrar espécies. Muitas dessas observações eram transformadas em obras de
arte, abordando tanto a estrutura externa quanto interna dos organismos, bem como
sua ecologia. Um exemplo notável desse período é Maria Sibylla Merian (1647-
1717), que se destacou como estudiosa da ecologia dos insetos.
A classificação biológica recebeu ênfase nesse período, sobretudo com os
avanços proporcionados pelo Sistema Binominal de Nomenclatura de Lineu. Além
disso, a microscopia e o desenvolvimento de técnicas para a observação da vida
microscópica também foram enfatizados no progresso da Biologia dessa época.
Com o aumento expressivo de informações biológicas, conforme destacado
por Araújo; Menezes; Costa, (2012), durante o Renascimento, os cientistas iniciaram
a criação de novas sociedades ou academias científicas. Estas não apenas serviam
como locais para discussão de ideias, mas também incentivavam os filiados a
realizar atividades práticas e experimentos para elucidar suas descobertas,
rompendo com uma abordagem estritamente filosófica.
1.6 Biologia moderna e contemporânea
No século XIX, presenciamoso surgimento das Ciências Biológicas como
uma disciplina científica, cujo objeto de pesquisa é a vida. Avanços como o
aperfeiçoamento do microscópio, possibilitando a observação de estruturas cada vez
menores, incluindo vírus, a defesa da biogênese em contraposição à abiogênese, a
expedição de Charles Darwin e a Teoria da Evolução, juntamente com as
descobertas de Gregor Mendel sobre a hereditariedade, caracterizam a formação da
Biologia Moderna.
Na contemporaneidade, as revelações acerca das moléculas orgânicas e
suas funções desbravam caminho para o entendimento do DNA e do código
genético, responsável pelas características dos seres vivos. Esse progresso também
possibilita a manipulação dessas moléculas, dando origem aos organismos
19
geneticamente modificados (OGM). Além disso, emergem estudos na área de
clonagem, células-tronco e, mais recentemente, investigações na Epigenética.
(MAYR, 1998).
2 EVOLUÇÃO
A construção de uma teoria científica ocorre em fases, caracterizadas por
avanços e retrocessos, formulação e descarte de hipóteses. Diante de novas
evidências, uma teoria pode ser revista. No contexto do conhecimento científico, é
essencial testar e analisar minuciosamente todas as evidências. Esse processo é
contínuo, com pausas e reinícios periódicos.
Os progressos em ciência e tecnologia demandam novas pesquisas, testes e
parâmetros inovadores. Por vezes, hipóteses previamente descartadas são
reintroduzidas em um novo contexto, reavaliadas, algumas confirmadas e outras
novamente descartadas. Para compreender a intricada rede de pensamentos que
culminou na elaboração da Teoria da Evolução Biológica proposta por Darwin, é
necessário revisitar as primeiras concepções sobre o tema, explorando os registros
mais antigos disponíveis, durante o que é conhecido como período pré-darwiniano.
2.1 Pré-darwinismo
Conforme apontado por Ridley (2007), o avô de Darwin, Erasmus Darwin
(1731-1802), manifestava simpatia pelas ideias evolucionistas, uma inclinação
compartilhada também pelo naturalista francês Pierre Louis Moreau de Maupertuis
(1698-1759) e pelo filósofo Denis Diderot (1713-1784). No entanto, nenhum deles
logrou desenvolver uma teoria que conseguisse sintetizar de maneira convincente
esse pensamento, esclarecendo por que as espécies passam por transformações ao
longo do tempo. O interesse deles residia na possibilidade de uma espécie se
transformar em outra, mas carecia de uma explicação plenamente satisfatória.
A discussão sobre as modificações ocorridas em animais e plantas teve início
na Grécia Antiga, com o filósofo Platão (Ridley, 2007). Séculos mais tarde,
naturalistas e outros estudiosos contribuíram com a reflexão sobre a possibilidade de
que os seres vivos tenham passado por um processo de evolução.
20
Um dos pioneiros na discussão da evolução biológica foi Platão, que propôs a
herança dos caracteres adquiridos. Mais tarde, Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829)
utilizou essa mesma ideia quando sugeriu que os caracteres adquiridos pelos O
debate sobre as alterações em animais e plantas teve seu início na Grécia Antiga,
com o filósofo Platão (conforme Ridley, 2007). Ao longo dos séculos, naturalistas e
outros estudiosos contribuíram para a reflexão sobre a possibilidade de os seres
vivos terem passado por um processo de evolução.
Platão, um dos precursores nessa discussão sobre a evolução biológica,
propôs a ideia da herança dos caracteres adquiridos. Posteriormente, Jean-Baptiste
Lamarck (1744-1829) baseou-se nesse conceito ao sugerir que os caracteres
adquiridos pelos indivíduos progenitores durante a vida poderiam ser herdados por
sua prole, em um processo contínuo de evolução. Essa noção tornou-se uma das
premissas da Teoria da Evolução Biológica de herança lamarckiana (conforme
Darwin, 2003; Ridley, 2007).
Ridley (2007) destaca que figuras influentes nos séculos XVII e XVIII, como
Maupertuis e Diderot, aventuraram-se em especulações sobre a possibilidade de
transformação de espécies. O principal trabalho de Lamarck foi a publicação do livro
“Philosophie Zoologique” (1809), curiosamente lançado no ano de nascimento de
Darwin. Em 1815, apresentou “Histoire naturelle des animaux sans vertebres”, no
qual sustenta a tese de que todas as espécies, inclusive a humana, têm origens em
outras (conforme Darwin, 2003).
Figura 1 - Jean-Baptiste Lamarck
21
Fonte: Cordeiro, 2020.
Na análise de Ridley (2007), conforme apresentado no livro “Philosophie
Zoologique”, no qual Lamarck expôs seus argumentos sobre as modificações
ocorridas, “as espécies mudam ao longo do tempo e transformam-se em outras
espécies”, entretanto, a concepção proposta por Lamarck sobre "como as espécies
mudavam" diferia significativamente das ideias de Darwin ou da abordagem
moderna da evolução.
Hoje em dia, os historiadores preferem empregar o termo “transformismo”
para descrever as ideias lamarckianas, uma vez que sua concepção difere do
conceito de transformação utilizado por Darwin.
Ridley (2007) também destaca que, para Lamarck, as linhagens persistiam,
modificando-se de uma para outra, enquanto, para Darwin, elas se ramificavam.
Segundo o naturalista francês, o principal mecanismo envolvido era uma força
interna, um tipo de sistema que agia no interior do organismo, levando-o a gerar uma
prole que se diferenciaria dele com pequenas alterações, até que "estivesse
visivelmente transformada, talvez o suficiente para se tornar uma nova espécie"
(Ridley, 2007).
De acordo com o autor (Ridley, 2007), Lamarck era um estudioso da biologia,
embora seu interesse também se estendesse à química e meteorologia, áreas em
que suas contribuições não receberam o reconhecimento desejado. Em 1809, ele
22
percebia uma conspiração de silêncio contra suas ideias: “Os meteorologistas
ignoravam seu sistema de previsão do tempo, os químicos ignoravam seu sistema
químico e, quando seu Philosophie Zoologique foi finalmente publicado, Cuvier
assegurou-se de que também fosse saudado com silêncio.
Parece que Lamarck não era uma pessoa de muitos amigos, devido à sua
personalidade difícil, tendo como principal rival o anatomista Georges Cuvier (1769-
1832), que se opôs às suas ideias e adotou o fixismo (Ridley, 2007). O fixismo
correspondia à ideia mais aceita na época, defendendo que tanto o planeta Terra
quanto os seres vivos foram criados por um ser superior em um evento único e
permaneceram sem modificações desde então.
Ridley (2007) afirma que, na metade do século XIX, os profissionais da
biologia e da geologia aceitavam o fixismo e, ironicamente, os críticos de Lamarck,
aliados de Cuvier, possivelmente divulgaram seu trabalho. Embora tenham adotado
várias táticas para ofuscar suas ideias, seu trabalho tornou-se conhecido graças a
uma discussão crítica feita pelo geólogo britânico Charles Lyell (1797-1875) em seu
livro “Princípios de Geologia” (1830-1833), no qual o criticou - embora o lamarckismo
não fosse a principal questão da obra, que trata essencialmente de geologia,
discorrendo sobre o movimento das placas tectônicas e à deriva continental.
As ideias de fixismo ganharam ainda mais força com a publicação de
“Princípios de Geologia”, que exerceu grande influência sobre os biólogos,
reafirmando as ideias do movimento: Foi pelo menos em parte devido a uma reação
contra Lamarck que Cuvier e sua escola adotaram a ideia da fixidez de espécies e a
tornaram uma ortodoxia entre biólogos profissionais. (CORDEIRO, 2020).
Segundo Darwin, o mérito do trabalho de Lamarck deveria ser reconhecido,
pois, “em primeiro lugar, ter despertado a atenção da humanidade para a
probabilidade de que modificações, tanto inorgânicas quanto orgânicas, fossem o
resultado de leis e não de intervenções milagrosas” (Darwin, 2003). Dessa forma,
Lamarck abriu a possibilidade de discussão e de um posterior entendimento das
“leis”que regem a evolução biológica.
23
2.2 Darwinismo
Antes de discutirmos o darwinismo, é interessante explorar o contexto do
surgimento das ideias e as motivações que levaram Darwin a compilar pensamentos
evolucionistas já existentes. Suas conclusões foram derivadas de um extenso estudo
e de observações minuciosas da natureza, levando à formulação de sua Teoria da
Evolução Biológica. Bizzo (1991) descreve que, após examinar os manuscritos
originais de Darwin, acredita que ele tenha registrado suas primeiras ideias sobre o
evolucionismo de forma inicialmente dispersa em cadernos de anotação,
provavelmente a partir de 1837.
Ridley (2007), no entanto, argumenta que há evidências de que o interesse de
Darwin pelo assunto começou muito antes, durante seus estudos em Ciências
Naturais em Cambridge. Darwin era contemporâneo de Lamarck, que provavelmente
foi uma das influências de sua obra, assim como a experiência adquirida durante sua
viagem pelo mundo como naturalista a bordo do navio Beagle, de 1832 a 1837.
Segundo Ridley (2007), durante essa jornada, Darwin ficou impressionado ao
encontrar emas na América do Sul, aves semelhantes às avestruzes.
Provavelmente, as observações dessa diversidade o levaram a considerar a ideia de
mudanças nas espécies.
As expedições exploratórias eram frequentes na época e tinham como
principal objetivo recolher amostras geológicas, arqueológicas e biológicas dos
locais visitados. O HMS Beagle, nomeado em referência à raça de cães, era uma
fragata apelidada de "caixão flutuante".
Conforme relata Ridley (2007), a fase crucial na carreira de Darwin ocorreu
nos anos subsequentes (1837-1838) à expedição de cinco anos a bordo do Beagle.
Durante o processo de catalogação da coleção de pássaros das Ilhas Galápagos,
Darwin percebeu que não havia registrado a ilha correspondente à coleta de cada
espécime, pois havia variação nas características de cada tentilhão de ilha para ilha.
Inicialmente, ele supunha que todos os tentilhões de Galápagos pertenciam a uma
única espécie, mas as variações encontradas tornaram claro que cada ilha abrigava
sua própria e distinta espécie de tentilhão. Essa descoberta levou Darwin a conceber
a ideia de que todos eles haviam evoluído a partir de um ancestral comum.
24
O próximo passo de Darwin, segundo Ridley (2007), após perceber que as
espécies poderiam se modificar, foi formular uma teoria que pudesse explicar como
isso acontece. O biólogo era metódico, anotava todas as ideias em cadernos e por
muito tempo estudou diversas teorias, inclusive as de Lamarck.
Considerando as ideias lamarckistas, era possível especular que a ação das
condições ambientais poderia explicar inúmeros casos de adaptação de organismos
aos seus hábitos de vida (Ridley, 2007). Como exemplo, podemos citar o pica-pau,
que obtém seu alimento diretamente da madeira, perfurando-a e consumindo as
larvas de insetos que se encontram em período de metamorfose nesses locais; e a
rã arborícola, que, como o próprio nome sugere, vive em árvores. Podem ser
mencionadas, ainda, as sementes que, para se espalharem, possuem ganchos ou
plumas, adaptações que permitem a colonização de ambientes por dispersão pelo
vento ou transporte por animais dispersores de sementes.
Para Ridley (2007), faltava uma explicação para tais adaptações. Darwin
buscava esclarecer não apenas como as espécies mudam, mas também por que
são adaptadas ao seu modo de vida. Ele encontrou uma solução durante a leitura do
livro “Ensaio sobre o princípio da população” (1798), de Thomas Malthus (1766-
1834). Darwin teve acesso a esse material em outubro de 1838, aproximadamente
15 meses após iniciar seu trabalho de sistematização das espécies coletadas ao
redor do mundo. A leitura, feita por entretenimento, revelou a proposição de Malthus
de que a luta pela sobrevivência entre as espécies exerce controle sobre o
crescimento ou a redução das populações biológicas.
Em suas pesquisas, Darwin explorou representantes tanto do reino vegetal
quanto do reino animal, coletando espécimes de seres vivos e examinando-os para
descobrir seus hábitos de vida. A partir dessas observações, ele concluiu que havia
uma competição, uma “luta pela sobrevivência”, na qual as espécies “melhor
adaptadas” tinham uma prole maior e aumentavam sua frequência na população ao
longo das gerações. (CORDEIRO, 2020).
Segundo Ridley (2007), Darwin percebeu que, na presença desses fatores
essenciais, as variáveis positivas tenderiam a ser preservadas, enquanto as
consideradas desfavoráveis poderiam desaparecer, resultando na formação de uma
nova espécie. Darwin levou em conta que os habitats estão sujeitos a mudanças
climáticas, e os descendentes que estivessem de alguma forma mais aptos a
25
sobreviver seriam selecionados, o que ele denominou como “uma teoria pela qual
trabalhar”.
Guiado pelos estudos de Malthus e Lamarck, e ainda sob a influência das
ideias de seu avô Erasmus Darwin, de Lyell e de outros autores da geologia, Darwin
examinou as derivas continentais e, finalmente, iniciou o processo de
sistematização, frequentemente descartando concepções sobre o tema, para
desenvolver a Teoria da Evolução Biológica fundamentada na seleção natural
(Browne, 2007).
Darwin continuou esse trabalho, adaptando os fatos a um referencial teórico e
prosseguindo na elaboração de suas teorias ao longo de 20 anos, sem, no entanto,
divulgá-las publicamente. Foi somente quando recebeu uma carta de Alfred Russel
Wallace (1823-1913), um naturalista britânico que, realizando pesquisas
independentes, "havia chegado a uma ideia bastante similar à da seleção natural de
Darwin", que Darwin se viu diante de uma situação inusitada. Ao perceber que
Wallace tinha uma ideia semelhante à sua sobre a seleção natural, Darwin ficou
perplexo e buscou orientação com seu amigo Lyell. (CORDEIRO, 2020).
2.3 Neodarwinismo, Síntese Moderna da Evolução
Uma reavaliação da seleção natural foi viabilizada pelas pesquisas de Gregor
Mendel (1822-1884), juntamente com estudos adicionais sobre genética
populacional. Os principais protagonistas desse esforço foram os pesquisadores
independentes Ronald Fisher (1890-1962), J. B. S. Haldane (1892-1964) e Sewall
Wright (1889-1988), cuja síntese “estabeleceu o que é conhecido como
neodarwinismo, teoria sintética da evolução ou síntese moderna” (Ridley, 2007).
Finalmente, a teoria de Darwin encontrou uma base testada sobre uma teoria
da hereditariedade capaz de fundamentar a teoria evolutiva. Essa nova síntese
precisava demonstrar os fatores que tornam as espécies diferentes entre si,
explicando a variabilidade, de modo a conciliar a hereditariedade proposta por
Mendel e as variações que ocorrem de maneira contínua em populações reais,
defendidas pelos biometristas. “Essa conciliação foi alcançada por vários autores em
muitos estágios, mas, nesse contexto, um artigo de 1918 de Fisher foi
particularmente importante. Fisher demonstrou que todos os resultados conhecidos
26
pelos biometristas poderiam ser derivados de princípios mendelianos”. (CORDEIRO,
2020).
Ridley (2007) declara que, em suas pesquisas sobre a genética de
populações, Fisher, Haldane e Wright buscaram evidenciar que a seleção natural
poderia ocorrer de acordo com leis matemáticas, com variáveis mensuráveis e em
conformidade com as leis da herança mendeliana, sem a necessidade de outros
processos, descartando as ideias de herança de caracteres adquiridos e
macromutações.
Essa reconciliação entre as teorias da genética mendeliana e da evolução
darwiniana proporcionou um impulso significativo para o avanço das pesquisas em
biologia, “rapidamente estimulando novas investigações genéticas em campo e em
laboratório” (Ridley, 2007). Após se estabelecer nos Estados Unidos, em 1927, o
russo Theodosius Dobzhansky (1900-1975) foi um dos pioneiros nas pesquisassobre a evolução de populações de Drosophila (Figura 2), a mosca-da-fruta ou
mosca-do-vinagre, como também é popularmente conhecida.
Figura 2 – Mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster)
Fonte: Cordeiro, 2020.
Outros estudos seguiram essas novas linhas de pesquisa, como o do
geneticista russo Sergei Chetverikov (1880-1959), que dirigia um laboratório
importante em Moscou até ser preso em 1929. Chetverikov exerceu uma influência
significativa sobre Dobzhansky, que, após imigrar, começou a desenvolver suas
próprias ideias. O principal livro de Dobzhansky, escrito em colaboração com Wright,
“Genetics and the Origin of Species” (Genética e a Origem das Espécies), foi
inicialmente publicado em 1937, e suas edições sucessivas (até 1970, com um novo
título) estão entre as obras mais influentes da síntese moderna.
27
Na década de 1920, E. B. Ford (1901-1988) iniciou um abrangente programa
de pesquisa comparativa na Inglaterra, concentrando-se no estudo da seleção
natural em populações. Ele dedicou suas investigações a mariposas, estabelecendo
essa linha de pesquisa como genética ecológica. Posteriormente, Ford resumiu suas
descobertas em um livro intitulado “Ecological Genetics” (1964). Mais tarde, o estudo
realizado por Bernard Kettlewell (1907-1979) sobre o melanismo na mariposa Biston
betularia tornou-se particularmente renomado nesse campo (Ridley, 2007).
A explicação anterior para a especiação envolvia macromutações ou a
herança de caracteres adquiridos, conceitos que foram abandonados com a
publicação da Teoria Sintética da Evolução. Mesmo assim, houve críticos, como Guy
Coburn Robson (1888-1945) e Owain Richards (1901-1984), que rejeitavam tanto as
teorias de Mendel quanto as de Darwin. Richard Goldschmidt (1878-1958), por sua
vez, argumentava que a especiação resultava de macromutações e não da seleção
de pequenas variações. (CORDEIRO, 2020).
3 A BIOLOGIA NO SECULO XIX
Na mesma época em que a teoria evolucionista estava se aprimorando,
surgiram campos totalmente novos na biologia. Destacam-se, especialmente, os
campos da etologia (estudo comparativo do comportamento animal), da ecologia e
da biologia molecular.
3.1 Etologia e ecologia
Após as contribuições pioneiras, mas amplamente ignoradas, de Darwin
(1872), Whitmann (1898) e O. Heinroth (1910), o campo da etologia viu seu
verdadeiro desenvolvimento com Konrad Lorenz (1927) e, posteriormente, Niko
Tinbergen. Enquanto as escolas anteriores de psicologia animal dedicavam a maior
parte de sua atenção ao estudo das causas imediatas do comportamento, muitas
vezes trabalhando com uma única espécie e focando na compreensão dos
processos, os etologistas direcionaram seu foco para a interação entre o programa
genético e a experiência subsequente. Obtiveram grande sucesso no estudo de
comportamentos específicos das espécies, com ênfase particular no comportamento
28
reprodutivo, que é em grande parte controlado por programas genéticos
preestabelecidos. (MAYR, 1998).
Os debates entre Lorenz e von Holst, de um lado, e autores como Schneirla e
Lehrman, de outro, sobre a relevância da contribuição genética para o
comportamento, ecoavam, de certa forma, argumentações semelhantes que se
estendiam pelos séculos XVIII (Reimarus versus Condillac) e XIX (Altum versus A.
Brehm). As controvérsias desse campo durante os anos 1940 e 1950 agora são
consideradas assunto do passado. As diferenças fundamentais entre os estudiosos
do comportamento animal são escassas, e as que persistem, em grande parte, se
reduzem a questões de ênfase.
Comumente, atribui-se também ao século XX o surgimento da ecologia.
Embora seja verdade que, a partir dos anos 1960, nunca antes tenha sido conferida
tanta importância ao estudo do meio ambiente, o pensamento ecológico remonta
aos tempos antigos (Glacken, 1970). Ele está evidente nos escritos de Buffon e
Lineu, desempenhando um papel significativo nos relatos dos grandes exploradores
dos séculos XVIII e XIX (como os de Forster e Humboldt, por exemplo).
Para esses exploradores, o propósito final não era mais apenas colecionar e
descrever espécies, mas sim compreender a interação dos organismos com o meio
ambiente. Alexander von Humboldt é considerado o pai da geografia ecológica das
plantas, embora mais tarde seus interesses tenham se voltado quase inteiramente
para a geofísica. Muitas das discussões e considerações de Darwin seriam
perfeitamente apropriadas para um livro-texto sobre ecologia. (MAYR, 1998).
O termo “ecologia” foi proposto por Haeckel em 1866 para descrever a ciência
que trata “da casa da natureza”. Um dos primeiros textos gerais sobre o assunto foi
produzido por Semper em 1880. Nos anos subsequentes, houve escasso contato
entre os diversos grupos que estudavam as “condições da vida” ou as “associações”
dos diferentes tipos de organismos. Möbius, em 1877, publicou seu estudo clássico
sobre um banco de ostras; Hensen e outros concentraram-se na ecologia marinha;
Warming dedicou-se à ecologia das plantas; enquanto outros estabeleceram a
limnologia, principalmente uma ciência ecológica dedicada às águas doces.
29
3.2 A emergência da biologia molecular
À medida que a análise dos processos biológicos e evolutivos se tornou mais
detalhada e sofisticada, ficou claro que muitos desses processos, em última
instância, podem ser reduzidos à ação de moléculas biológicas. Inicialmente, o
estudo dessas moléculas estava estritamente ligado à química e à bioquímica. As
raízes antigas da bioquímica remontam ao século XIX, mas, inicialmente, não havia
uma delimitação clara em relação à química orgânica, sendo a pesquisa bioquímica
geralmente conduzida por institutos de química. É verdade que a bioquímica inicial
tinha pouca conexão com a biologia, limitando-se à análise de compostos extraídos
de organismos ou, na melhor das hipóteses, de compostos importantes nos
processos biológicos. Atualmente, boa parte da bioquímica ainda mantém essa
configuração. Um segundo caminho que levou à biologia molecular teve origem na
fisiologia.
Alguns resultados da bioquímica são de particular importância para o
biologista. Um deles é a elucidação passo a passo de certos processos metabólicos,
como o ciclo do ácido cítrico, bem como a eventual demonstração de que cada um
dos passos é normalmente controlado por um gene específico. Tal trabalho já não é
simplesmente bioquímica e tornou-se usual e perfeitamente legítimo referir-se a ele
como biologia molecular. Certamente, aqui trata-se da biologia das moléculas, de
suas modificações, interações e até mesmo de sua história evolutiva. (MAYR, 1998).
Os biólogos moleculares elaboraram a estrutura de literalmente milhares de
compostos biológicos e elucidaram os meandros em que estão envolvidos, mas
poucas das suas pesquisas causaram tanta excitação como as que esclareciam a
natureza química do material genético. Já em 1869, Miescher descobriu que uma
elevada proporção da substância molecular consistia em ácidos nucléicos.
Durante algum tempo (1880-1890), postulou-se que a nucleína (ácido
nucléico) era o material genético; no entanto, essa hipótese eventualmente perdeu
popularidade. Somente quando Avery e seus colegas demonstraram, em 1944, que
a substância transformadora dos pneumococos era o DNA, é que ocorreu um
redirecionamento. Embora muitos biologistas estivessem plena e definitivamente
conscientes da importância da descoberta de Avery, eles não dispunham de
30
conhecimentos técnicos para um estudo detalhado dessa fascinante molécula. O
problema apresentava-se de modo absolutamente claro.
Como poderia essa molécula, aparentemente simples (considerada simples à
época, quando comparada à maioria das proteínas), encerrar toda a informação do
núcleo de um óvulo fertilizado, para controlar o desenvolvimento específico da
espécie do organismo resultante? Era necessárioter o conhecimento exato da
estrutura do DNA antes de se poder iniciar a especulação sobre o modo como ela
podia desempenhar a sua função única. Instaurou-se uma acirrada competição entre
vários laboratórios para alcançar esse objetivo, competição essa da qual Watson e
Crick, do Laboratório Cavendish, em Cambridge, Grã-Bretanha, saíram vitoriosos,
em 1953. Se eles não tivessem tido sucesso, algum outro cientista o teria, no espaço
de alguns meses. (MAYR, 1998).
Todo mundo já ouviu falar da história da dupla-hélice, mas nem todos
compreendem completamente o significado dessa descoberta. Ficou comprovado
que o DNA não participa diretamente do desenvolvimento ou das funções
fisiológicas do corpo, mas apenas fornece um conjunto de informações, um
programa genético, que é transmitido às proteínas apropriadas. O DNA é uma matriz
idêntica em cada célula do corpo e, por meio da fertilização, é passado adiante de
geração em geração. O componente crucial das moléculas de DNA são quatro pares
de base (sempre uma purina e uma pirimidina). Uma sequência de três pares de
bases (um tripleto) funciona como uma letra de um código e controla a transmissão
para um aminoácido específico. A sequência desses tripletos determina o peptídeo
particular a ser formado.
A descoberta de que os tripletos de DNA são transmitidos aos aminoácidos é
atribuída a M. Nirenberg, em 1961. A sequência das bases no tripleto representa o
código genético. A descoberta da dupla-hélice do D
NA e de seu código foi um avanço de grande magnitude. Ela esclareceu
definitivamente algumas das áreas mais complexas da biologia e levou à formulação
de questões bastante precisas, algumas das quais estão hoje nas fronteiras da
biologia. Essa descoberta esclareceu por que os organismos são fundamentalmente
diferentes de qualquer forma de matéria não viva. (MAYR, 1998).
Não há nada no mundo inanimado que possua um programa genético
armazenando informações com uma história de três bilhões de anos!
31
Simultaneamente, essa explicação puramente material esclarece muitos dos
fenômenos que os vitalistas alegavam não poderem ser explicados pela química ou
pela física. Certamente, ainda é uma explicação fisicalista, mas infinitamente mais
sofisticada do que as explicações mecanicistas rudimentares dos séculos passados.
Simultaneamente aos desenvolvimentos puramente químicos da biologia
molecular, ocorreram outros de natureza diferente. A descoberta do microscópio
eletrônico, nos anos 1930, por exemplo, possibilitou uma compreensão inteiramente
nova da estrutura da célula. Aquilo que os pesquisadores do século XIX chamavam
de protoplasma, considerado por eles como a substância básica da vida, revelou-se
um sistema altamente complexo de organelas intracelulares com funções variadas.
Muitas dessas organelas são sistemas de membranas que servem como habitat
para macromoléculas específicas.
A biologia molecular está progredindo em diversas outras fronteiras, muitas
das quais não podem ser abordadas aqui, incluindo várias de considerável
importância na área médica.
3.3 DNA ou proteína?
Antes da identificação dos ácidos nucleicos, o monge austríaco Gregor
Mendel (1822-1884) propôs, em 1865, que “fatores” transmitidos por cada um dos
pais eram responsáveis pela herança de características específicas nas plantas. O
bioquímico suíço Friedrich Miescher (1844-1895) descobriu os ácidos nucleicos em
1868, ao isolar núcleos de células de pus obtidos em cirurgias. No entanto, a
pesquisa sobre a estrutura química dos ácidos nucleicos ficou em segundo plano até
a disponibilidade de novas técnicas analíticas no meio do século XX.
Os processos de mitose e meiose foram identificados entre 1870 e 1890.
Durante esse período, observou-se que, durante a divisão celular, cromossomos
eram visíveis ao redor das células, levantando questões sobre sua função. Na
época, determinou-se que os cromossomos eram compostos por proteínas e DNA,
embora houvesse pouca compreensão sobre o DNA. Nessa fase, considerava-se
mais provável que as proteínas estivessem envolvidas na hereditariedade.
(ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
32
Embora houvesse suspeitas de que os cromossomos estivessem
relacionados à genética, a explicação sobre como isso ocorria e o que estava
envolvido ainda não estava clara. Nos primeiros anos do século XX, muitos ainda
consideravam que as proteínas eram as candidatas mais prováveis para transmitir
informações hereditárias de alguma forma, pois pareciam ser suficientemente
diversas para garantir variabilidade genética. Embora o DNA fosse conhecido por
estar presente nos cromossomos, sua estrutura era desconhecida, e pouco se sabia
sobre ele, levando poucos a acreditar que poderia ser o material genético.
O gene é feito de DNA!
O célebre experimento de Griffith em 1928 foi o primeiro a evidenciar a
transferência de informação genética. Mesmo sem compreender completamente a
natureza dessa informação, ele a denominou como “princípio da transformação”. Ao
injetar uma mistura de bactérias pneumocócicas mortas pelo calor (incapazes,
portanto, de causar a doença) em uma cepa de bactérias vivas e avirulentas (que
por si só não poderiam causar pneumonia), Griffith observou que, ao injetar o extrato
em camundongos, estes contraíam pneumonia e morriam.
Ao isolar bactérias do sangue dos ratos falecidos, Griffith identificou bactérias
virulentas vivas. Ele interpretou esse resultado como evidência de que alguma
substância, o “princípio transformador”, havia sido transferida das bactérias mortas
para a cepa de bactérias vivas, resultando na “transformação” dessa cepa em uma
forma virulenta. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
Cientistas ao redor do mundo iniciaram repetições do experimento,
explorando variações para entender precisamente o que ocorria. Tornou-se claro
que, quando as bactérias patogênicas eram mortas pelo calor, suas células se
rompiam, liberando diversas substâncias. Algumas dessas substâncias podiam ser
absorvidas por bactérias vivas, desencadeando uma transformação genética.
Figura 2 – Experimento de Avery e colaboradores
33
Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012.
Portanto, a conclusão foi que o “agente transformador” era aquele presente
no líquido contendo o DNA. Para corroborar essa hipótese, os cientistas purificaram
o DNA da mistura, observando que esse DNA puro também tinha a capacidade de
transformar a cepa não patogênica em uma cepa patogênica. Esses resultados
forneceram evidências substanciais de que o material genético nas células vivas era
composto por poderosos DNAs, não por proteínas.
Com base nesses dados, Avery e sua equipe de pesquisa chegaram à
conclusão de que o DNA era o material genético responsável pela transmissão de
características entre os organismos.
3.3.1 Desvendando o mistério: Watson e Crick
Em 1953, James Watson (1928) e Francis Crick (1916) propuseram o modelo
da estrutura de dupla hélice para explicar a organização tridimensional do DNA. Eles
inferiram corretamente que a informação genética era codificada na forma de uma
sequência de nucleotídeos na molécula de DNA.
Figura 3 – James Watson e Francis Crick com seu modelo de DNA
34
Fonte: https://shre.ink/rNYl.
O marco dessa descoberta inaugurou uma era de genética molecular na
Biologia. Oito anos mais tarde, o código genético foi estabelecido. Descobriu-se que
sequências específicas de trinucleotídeos (três sequências de nucleotídeos)
geravam códigos para cada um dos 20 aminoácidos existentes, os quais formavam
as proteínas.
Com base nos dados de Rosalind Franklin e Maurice Wilkins, Watson e Crick
publicaram um trabalho no qual propuseram uma estrutura hipotética do DNA.
Posteriormente, pesquisas realizadas por muitos outros cientistas confirmaram a
hipótese deles, e com base em relatórios e anotações posteriores encontrados no
laboratóriode Rosalind Franklin, sabe-se que ela, provavelmente, dentro de alguns
dias, chegaria à mesma conclusão.
Por sua descoberta, Watson e Crick receberam o Prêmio Nobel em 1962,
junto com Maurice Wilkins. Rosalind Franklin morreu em 1958, de câncer de ovário,
em grande parte devido ao seu trabalho com raios-X. Muito provavelmente, ela teria
sido incluída pelo comitê do Prêmio Nobel se estivesse viva na época. (ARAÚJO;
MENEZES; COSTA, 2012).
A estrutura proposta por Watson e Crick sugeria imediatamente que os genes
passavam por replicação. De forma mais significativa, Crick sugeriu que as
sequências de bases determinavam a sequência de aminoácidos das proteínas, e
que a sequência de aminoácidos, por si só, determinava a estrutura tridimensional
dessas proteínas.
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Após a sua descoberta, Watson e Crick permaneceram em contato, mas
seguiram caminhos distintos na ciência. Watson ingressou no corpo docente da
Universidade de Harvard em 1955, onde se dedicou à pesquisa do papel do ácido
ribonucleico (ARN) na síntese proteica. Em 1968, tornou-se diretor do Laboratório
Cold Spring Harbor, em Long Island, Nova York, onde conduziu pesquisas em
câncer, Biologia Molecular de plantas, Bioquímica Celular e Neurociência. Em 1989,
foi nomeado diretor do Centro Nacional para Pesquisa do Genoma Humano e
liderou um esforço global para sequenciar e mapear o genoma humano.
Em 1961, Watson demonstrou que essa tradução envolve um código de três
nucleotídeos, ou códon, abrindo portas para novas pesquisas que abrangem desde
a biotecnologia até o estudo de doenças hereditárias, incluindo a impressão digital
genética.
3.4 Clonagem, transgênicos, células-tronco: o que mais vem por aí?
A partir de 1953, quando Watson e Crick propuseram o modelo da estrutura
do DNA, não se acreditava que o RNA pudesse transmitir informações genéticas.
Então, em 1965, Howard Temin, professor de Oncologia da Universidade de
Wisconsin, sugeriu que, em alguns vírus, o RNA poderia gerar moléculas de DNA,
processo conhecido como transcrição reversa.
Em 1970, enquanto estudava um vírus causador de leucemia em ratos, David
Baltimore descobriu uma enzima capaz de copiar a informação genética para o DNA
da célula hospedeira. Paralelamente, Temin identificou uma enzima semelhante no
vírus do sarcoma de Rous, que infecta galinhas. Essas descobertas independentes
levaram à identificação da enzima, agora conhecida como transcriptase reversa. Os
vírus que utilizam esse método para modificar o DNA do hospedeiro são chamados
de retrovírus. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
3.4.1 Pedaços de DNA independentes
Em 1973, Stanley Cohen e Herbert Boyer demonstraram que fragmentos de
DNA extracromossômico conhecidos como plasmídeos poderiam funcionar como
vetores para manter genes clonados incorporados em bactérias. Eles evidenciaram
que, ao fragmentar o DNA e combiná-lo com o DNA plasmidial, a molécula
resultante de DNA recombinante poderia ser replicada ao ser introduzida nas células
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bacterianas. Essa descoberta marcou um avanço significativo na engenharia
genética, abrindo caminho para importantes desenvolvimentos científicos, como a
modificação e clonagem de genes.
Dessa forma, Stanley Cohen e Herbert Boyer conduziram uma das primeiras
experiências em engenharia genética, tornando possível a construção de moléculas
de DNA recombinante, compostas por segmentos de duas origens diferentes, até
mesmo de dois organismos distintos. Com a disponibilidade dessas ferramentas, a
engenharia genética e a biotecnologia tornaram-se viáveis.
3.4.2 A biologia molecular altera a classificação dos seres vivos
Antes da aplicação de técnicas moleculares, a classificação dos seres vivos
passou por diversas alterações. Recorda-se da abordagem de Lineu no século XVIII,
que classificava os organismos apenas nos Reinos Animal e Vegetal. O termo
“Protista” foi introduzido por Haeckel em 1866, e em 1969, Whittaker propôs um
sistema de classificação com cinco reinos, fundamentado principalmente em
características morfológicas e fisiológicas: Monera (procariotos), Protista (eucariotos
unicelulares e algumas algas), Fungi (eucariotos aclorofilados), Plantae (vegetais) e
Animalia (animais).
A partir dos estudos de Carl Woese em 1977, foi estabelecido um sistema de
classificação baseado principalmente em aspectos evolutivos (filogenética),
utilizando a comparação das sequências de RNA ribossomal de diferentes
organismos. Com essa nova proposta de classificação, os organismos são agora
subdivididos em três domínios (que incluem os cinco reinos), utilizando dados
associados ao caráter evolutivo. De acordo com Woese, os domínios são:
• Archaea: Procariotos
• Bacteria: Procariotos
• Eukarya: Eucariotos
Carl Woese fundamentou seu sistema de classificação em moléculas, em vez
de observar como os organismos agem ou em suas semelhanças fenotípicas. Essa
mudança na abordagem de classificação, indo do fenótipo (taxonomia) para uma
base genotípica, permitiu a Woese determinar as relações evolutivas (filogenia) entre
as bactérias.
37
3.4.3 Era da genômica: a sequência do DNA é determinada
Em 1972, Walter Fiers e sua equipe na Bélgica foram os pioneiros na
determinação da sequência de um gene e, em 1976, conseguiram determinar a
sequência completa do RNA do bacteriófago MS2. Em 1977, Walter Gilbert e Fred
Sanger, de maneira independente, desenvolveram métodos para determinar a
sequência exata do DNA. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
Gilbert determinou a sequência de um trecho do genoma bacteriano,
enquanto Sanger e seus colaboradores utilizaram uma técnica para determinar a
sequência de todos os 5.375 nucleotídeos do bacteriófago phi-X174, representando
a primeira determinação completa do genoma de uma entidade biológica. Em
reconhecimento a esses avanços, Paul Berg, que havia realizado a recombinação
do DNA de um vírus com o de uma bactéria, juntou-se a Gilbert e Sanger no
recebimento do Prêmio Nobel de Química em 1980 por seus trabalhos nessa área.
Em 1995, ocorreu o primeiro sequenciamento do genoma de um organismo
vivo, o Haemophilus influenzae. Desde então, uma extensa série de
sequenciamentos de genomas de organismos unicelulares e pluricelulares tem sido
realizada, contribuindo para a formação de bancos de dados genômicos com acesso
público pela internet.
É um site em inglês, mas nele você encontrará diversas sequências
genômicas e outras informações sobre vários organismos que foram sequenciados,
incluindo detalhes sobre o genoma humano.
A produção da Insulina
O método mais tradicional para obter insulina é por meio da extração desse
composto a partir do pâncreas de bois e porcos. Embora a insulina proveniente
desses animais seja semelhante à insulina humana e desempenhe a mesma função
em nosso organismo, pode causar reações alérgicas em algumas pessoas, além de
exigir um processo demorado para produção e purificação dessa substância.
(ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012).
Atualmente, é possível utilizar bactérias para produzir insulina humana por
meio de técnicas de engenharia genética. Isso envolve a introdução do gene da
insulina humana no cromossomo bacteriano, como ilustrado de forma esquemática
na figura a seguir.
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Figura 4 – Esquema da produção de insulina pela técnica do DNA
recombinante
Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012.
3.4.4 Sobre a clonagem
O termo clonagem é amplamente utilizado na sociedade atual. A palavra
“clone” refere-se a um grupo de indivíduos que originaram outros por meio de
reprodução assexuada.
Um marco significativo nesse contexto foi a clonagem da ovelha Dolly em
1997, uma tecnologia que permite a obtenção de indivíduos geneticamente
idênticos. Como o primeiro mamífero clonado, Dolly atraiu a atenção da mídia por
um longo período e foi objeto de muitas controvérsias. Desde então, vários animais,
incluindomacacos, bezerros e camundongos, foram clonados. Essa pesquisa é
considerada um passo inicial na busca por uma solução para a escassez de
doadores de órgãos. Para muitos cientistas, os esforços dedicados até o momento à
clonagem de animais podem, no futuro, viabilizar a produção de órgãos que poderão
ser transplantados para seres humanos sem risco de rejeição, o que certamente terá
um impacto significativo na longevidade humana. Esse cenário abre caminho para
diversas possibilidades, ao mesmo tempo que levanta debates éticos, sociais e
morais.
Figura 5 - A clonagem da ovelha Dolly
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Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012.
Atualmente
A ciência e a tecnologia são duas atividades intrinsecamente ligadas ao nosso
dia a dia. A ciência está relacionada ao desejo humano de adquirir conhecimento,
compreender, explicar ou antecipar fenômenos naturais. A tecnologia, por sua vez,
se desenvolve em resposta às tentativas humanas de descobrir novas e melhores
maneiras de atender às nossas necessidades, empregando conhecimento,
ferramentas, recursos naturais e energia.
Desde os tempos mais remotos, o ser humano produz pão e bebidas
fermentadas, enquanto os Astecas cultivavam e consumiam algas provenientes de
lagos. A partir do século XIX, com o avanço da ciência, testemunhamos notáveis
progressos tecnológicos na área da Biologia.
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4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Natal: EDUFRN, 2012.
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