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SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 
1.1 O lugar da biologia nas ciências e sua estrutura conceitual ................. 3 
1.1.1 A natureza da ciência ..................................................................... 3 
1.1.2 Descoberta de fatos novos? ........................................................... 5 
1.2 O meio intelectual da biologia em transformação ................................. 9 
1.3 Biologia na Antiguidade ...................................................................... 10 
1.4 Biologia na Idade Média ..................................................................... 15 
1.5 Biologia no Renascimento .................................................................. 17 
1.6 Biologia moderna e contemporânea ................................................... 18 
2 EVOLUÇÃO .............................................................................................. 19 
2.1 Pré-darwinismo .................................................................................. 19 
2.2 Darwinismo ......................................................................................... 23 
2.3 Neodarwinismo, Síntese Moderna da Evolução ................................. 25 
3 A BIOLOGIA NO SECULO XIX ................................................................ 27 
3.1 Etologia e ecologia ............................................................................. 27 
3.2 A emergência da biologia molecular .................................................. 29 
3.3 DNA ou proteína? ............................................................................... 31 
3.3.1 Desvendando o mistério: Watson e Crick ..................................... 33 
3.4 Clonagem, transgênicos, células-tronco: o que mais vem por aí? ..... 35 
3.4.1 Pedaços de DNA independentes ................................................. 35 
3.4.2 A biologia molecular altera a classificação dos seres vivos ......... 36 
3.4.3 Era da genômica: a sequência do DNA é determinada ................ 37 
3.4.4 Sobre a clonagem ........................................................................ 38 
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 40 
 
 
 
 
 
 
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Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é 
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as 
perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão 
respondidas em tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução 
das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a 
hora que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e 
prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1 INTRODUÇÃO 
Com o advento da linguagem, impulsionou-se a evolução humana, 
abrangendo tanto conhecimentos práticos quanto científicos. A partir desse marco, 
as informações passaram a ser armazenadas e transmitidas às gerações 
subsequentes, possibilitando a reconstrução e expansão dos conhecimentos 
adquiridos. 
Ao longo do tempo, a sociedade humana testemunhou uma sequência de 
alterações e mudanças, moldadas por suas conquistas e progressos em diversas 
áreas do conhecimento. Atualmente, o conhecimento científico emerge como o 
principal catalisador de transformações em variados setores que permeiam o 
cotidiano das pessoas, tais como saúde, pesquisa e educação. Essas mudanças 
proporcionam diversos benefícios no desenvolvimento da tecnologia e na qualidade 
de vida do ser humano. 
1.1 O lugar da biologia nas ciências e sua estrutura conceitual 
 É totalmente impossível tentar entender o desenvolvimento de qualquer 
conceito particular, ou problema, na história da biologia, sem previamente ter a 
resposta para as seguintes questões: O que é ciência? Qual é o lugar da biologia 
entre as ciências? E qual é a estrutura conceitual da biologia? Respostas 
inteiramente equivocadas foram dadas a essas três perguntas, particularmente por 
filósofos e outros não-biologistas, e isso impediu em larga medida o entendimento do 
avanço do pensamento biológico. Tentar, então, dar uma resposta correta a essas 
três questões básicas é a primeira tarefa desta aula. Ela proporcionará uma base 
segura para o estudo da história de conceitos específicos. 
1.1.1 A natureza da ciência 
Desde tempos remotos, o ser humano questionou a origem, o propósito e, 
frequentemente, o significado do mundo ao seu redor. As respostas a essas 
indagações, tentativas de compreensão, estão enraizadas em mitos que 
caracterizam todas as culturas, inclusive as mais primitivas. Ao longo do tempo, a 
humanidade evoluiu para além desses inícios simples, seguindo duas direções 
 
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distintas. Em uma delas, as ideias se formalizaram em sistemas religiosos, 
fundamentados em conjuntos de dogmas geralmente derivados de revelações 
divinas. No final da Idade Média, por exemplo, a sociedade ocidental estava 
profundamente impregnada pela confiança nos ensinamentos bíblicos e por uma fé 
generalizada no sobrenatural. 
A filosofia e, posteriormente, a ciência representam a outra abordagem para 
explorar os mistérios do mundo, embora a ciência não tenha sido inicialmente 
separada da religião em seus estágios iniciais. A ciência enfrenta esses enigmas por 
meio de perguntas, dúvidas, curiosidade e tentativas de explicação, adotando assim 
uma postura completamente diferente em comparação com a religião. Os filósofos 
pré-socráticos, particularmente os jônios, iniciaram essa abordagem de maneira 
distinta, buscando explicações “naturais” baseadas nas forças observáveis da 
natureza, como o fogo, a água e o ar. Esse esforço para compreender a causalidade 
dos fenômenos naturais marcou o início da ciência. Após a queda de Roma, essa 
tradição foi praticamente esquecida por muitos séculos, mas foi revivida na Alta 
Idade Média e durante a revolução científica. Esse ressurgimento fortaleceu a 
crença de que a verdade divina não era revelada apenas por meio das escrituras, 
mas também através da criação de Deus. (MAYR, 1998). 
Uma distinção fundamental entre religião e ciência reside no fato de que a 
religião geralmente se baseia em um conjunto de dogmas, frequentemente 
considerados inquestionáveis, sem alternativas significativas ou flexibilidade 
interpretativa. Em contraste, na ciência, as explicações alternativas são não apenas 
permitidas, mas muitas vezes incentivadas, e teorias podem ser prontamente 
substituídas por outras. A descoberta de um novo esquema explicativo é 
frequentemente motivo de celebração. O valor de uma ideia científica é em grande 
parte avaliado pelos critérios internos à ciência, sendo determinado principalmente 
por sua eficácia na explicação e, por vezes, na capacidade de previsão. 
Curiosamente, os cientistas têm mostrado certa falta de consenso em relação 
a uma definição abrangente da ciência. Durante o auge do empirismo e do 
inducionismo, o propósito da ciência era frequentemente descrito como a 
acumulação de novos conhecimentos. Por outro lado, ao examinar os escritos dos 
filósofos da ciência, fica a impressão de que para eles a ciência é essencialmente 
uma metodologia. Embora ninguém questione a importância do método científico, a 
 
5 
 
ênfase quase exclusivade alguns filósofos nessa abordagem desviou a atenção do 
objetivo mais fundamental da ciência, que é ampliar nosso entendimento tanto de 
nós mesmos quanto do mundo que nos cerca. 
A ciência possui diversos objetivos, conforme descrito por Ayala (1968): 
• Busca organizar o conhecimento de maneira sistemática, procurando 
descobrir padrões de afinidade entre fenômenos e processos. 
• Compromete-se em fornecer explicações para a ocorrência dos eventos. 
• Formula hipóteses explicativas passíveis de teste e sujeitas à possibilidade de 
rejeição. Em um sentido mais amplo, a ciência busca unificar a vasta 
diversidade de fenômenos e processos naturais por meio do menor número 
possível de princípios explicativos. 
1.1.2 Descoberta de fatos novos? 
As descobertas são frequentemente vistas como símbolos da ciência no 
entendimento público. A revelação de um novo fato geralmente é facilmente 
difundida, e, por essa razão, os meios de comunicação também percebem a ciência 
principalmente por meio de suas novas descobertas. Ao elaborar as condições para 
os Prêmios Nobel, Alfred Nobel estava totalmente focado em reconhecer novas 
descobertas, especialmente aquelas que poderiam ser benéficas para a 
humanidade. No entanto, considerar a ciência como mera acumulação de fatos é 
uma interpretação bastante equivocada. 
Na área da ciência biológica, especialmente na biologia evolutiva, muitos dos 
avanços mais significativos decorreram da introdução de novos conceitos ou da 
melhoria dos conceitos já existentes. Aprimorar os conceitos existentes, mais do que 
simplesmente descobrir novos fatos, tem sido fundamental para aprofundar nossa 
compreensão do mundo, embora seja importante notar que esses dois aspectos não 
são mutuamente exclusivos. 
O emprego de conceitos não se restringe exclusivamente à ciência, uma vez 
que conceitos são também utilizados em arte, história (e em outras áreas das 
humanas), filosofia e, certamente, em qualquer atividade intelectual humana. Diante 
disso, além do uso de conceitos, quais critérios podem ser empregados para 
distinguir a ciência dessas outras atividades humanas? A resposta para essa 
indagação não é tão simples quanto se poderia esperar, como evidenciado pela 
questão sobre em que medida as ciências sociais podem ser consideradas ciências. 
 
6 
 
Tentativamente, poder-se-ia sugerir que o que caracteriza a ciência é a rigorosidade 
de sua metodologia, a capacidade de testar ou refutar suas conclusões e a 
habilidade de estabelecer “paradigmas” (sistemas de teorias) que sejam não 
contraditórios. O método, embora não seja o único elemento na ciência, 
desempenha um papel crucial, especialmente porque varia de alguma forma entre 
as diversas disciplinas científicas. (MARY, 1998). 
Como e por que a biologia difere? A palavra “biologia” é relativamente 
recente, originando-se no século XIX. Antes desse período, não existia uma 
disciplina específica chamada biologia. Quando Bacon, Descartes, Leibniz e Kant 
discorreram sobre ciência e sua metodologia, a biologia como a conhecemos hoje 
não existia, sendo representada principalmente pela medicina (incluindo anatomia e 
fisiologia), história natural e botânica (uma espécie de miscelânea). A anatomia, que 
envolvia a dissecação do corpo humano, permaneceu por muito tempo, até o século 
XVIII, como uma subdivisão da medicina. Da mesma forma, a botânica era praticada 
principalmente por médicos interessados em ervas medicinais. O estudo da história 
natural dos animais estava intrinsecamente vinculado à teologia natural, buscando 
apoiar o argumento de um plano divino. 
A revolução científica nas ciências físicas teve pouco impacto nas ciências 
biológicas, que permaneceram praticamente inalteradas. As principais inovações no 
pensamento biológico só surgiram nos séculos XIX e XX. Não é surpreendente, 
portanto, que a filosofia da ciência tenha se desenvolvido nos séculos XVII e XVIII 
com base exclusiva nas ciências físicas, tornando-se desafiador revisá-la de maneira 
a abranger adequadamente as ciências biológicas. 
Apenas nas últimas décadas é que vários filósofos, como Scriven, Beckner, 
Hull e Campbell, tentaram delinear as diferenças entre a biologia e as ciências 
físicas. O pensamento sobre esse problema é ainda tão recente que apenas 
afirmações provisórias podem ser feitas. O propósito da discussão a seguir é mais 
direcionado para delinear a natureza dos problemas do que oferecer soluções 
definitivas. 
Wells (2001) argumenta que uma reflexão sobre a história humana revela a 
existência de distintos modos de conhecer. Ele destaca que na formação desses 
modos, a interação social é crucial e deve ser mediada por alguma forma de 
comunicação simbólica. 
 
7 
 
Certas disciplinas do conhecimento, como a biologia e a química, obtiveram 
benefícios significativos com a aplicação do método experimental, o que contribuiu 
para seu reconhecimento como ciências. O método experimental é caracterizado 
pelo manuseio de uma variável, permitindo determinar se as alterações nela 
provocam mudanças em outra variável. 
Devido ao fato de que o progresso científico está diretamente relacionado à 
passagem do tempo, inúmeros avanços na pesquisa possibilitaram o 
desenvolvimento e teste de técnicas experimentais. Isso resultou na formulação de 
novas teorias que abrangem diversas disciplinas, como física, química e biologia. 
Nas sociedades humanas, há uma convicção de que o conhecimento 
proveniente da ciência se distingue de outras formas de saber devido à sua maior 
confiabilidade. Em outras palavras, o conhecimento respaldado por métodos 
científicos é considerado mais privilegiado em comparação com outras modalidades 
de conhecimento, uma vez que é fundamentado em comprovações sólidas. 
Teorias, métodos, técnicas e produtos encontram maior aceitação quando são 
submetidos a processos científicos, uma vez que a autoridade da ciência é 
frequentemente evocada. Indústrias, por exemplo, costumam rotular os 
procedimentos de fabricação de seus produtos como científicos, assim como os 
testes a que esses produtos são submetidos. 
O processo de compreensão e interpretação da ciência gera muitas 
discussões, pois as opiniões sobre o que deve ser considerado como científico ou 
não apresentam divergências. Esse fato resulta em várias definições que buscam 
explicar o que é ciência (PELANDА, 2020). 
As definições encontradas na literatura abordam o termo “ciência” de acordo 
com diferentes perspectivas e enfoques atribuídos à interpretação do que ela 
representa. Apesar das variações, essas definições compartilham uma visão comum 
na construção e compreensão do que é a ciência. Diversas versões e interpretações 
são empregadas com o objetivo de esclarecer as formas pelas quais a ciência pode 
ser definida. 
Segundo Souza (1995), “a ciência é uma das formas de conhecimento que o 
homem produziu ao longo de sua história, com o propósito de entender e explicar 
racional e objetivamente o mundo para poder intervir nele”. Freire-Maia (1998) afirma 
 
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que “a ciência é um conjunto de descrições, interpretações, teorias, leis, modelos 
etc., visando ao conhecimento de uma parcela da realidade”. 
De acordo com Chauí (2005), a ciência pode adotar diferentes concepções, 
como a racional (que perdura desde os gregos até o final do século XVII), a empírica 
(que abrange desde a medicina grega e Aristóteles até o final do século XIX) e a 
construtivista (iniciada no século XIX). 
Chauí (2005) declara que: 
• Na perspectiva racionalista, a ciência é uma forma de conhecimento racional, 
dedutiva e demonstrativa, semelhante à matemática. Nessa abordagem, ela é 
capaz de comprovar a verdade necessária e universal de seus enunciados e 
resultados, eliminando qualquer dúvida possível. 
• Por outro lado, na visão empirista, a ciência é uma interpretação dos fatos 
fundamentada em observação e experimentos. Esses métodos possibilitamestabelecer induções que, ao serem analisadas, proporcionam a definição do 
objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento. 
• Na abordagem construtivista, a ciência é entendida como a construção de 
modelos explicativos para a realidade. Nesse contexto, o cientista 
construtivista não busca apresentar uma verdade absoluta, mas sim uma 
verdade aproximada, suscetível de ser corrigida, modificada ou substituída 
por outra mais adequada, em consonância com os fenômenos observados. 
De maneira simplificada, o empirismo destaca a importância crucial da 
experiência no processo de obtenção do conhecimento, pois ela se baseia na 
observação dos fatos. Para o racionalismo, a experiência científica representa uma 
ocasião do conhecimento. A concepção construtivista, mais recente entre as três 
apresentadas, incorpora características tanto do racionalismo quanto do empirismo 
como uma abordagem explicativa para seu objeto científico. 
Ao explorar os diversos estilos de concepções de ciência, torna-se evidente 
que a definição da ciência é moldada por diferentes formas de compreendê-la. 
Contudo, mesmo com essa diversidade, seu objetivo final permanece inalterado: 
proporcionar uma compreensão do mundo para o ser humano (PELANDА, 2020). 
 
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1.2 O meio intelectual da biologia em transformação 
Escrever uma história das ideias requer a divisão da ciência de um 
determinado período histórico em seus problemas principais, situando o 
desenvolvimento de cada problema no tempo. Embora um enfoque tão estritamente 
tópico tenha suas vantagens, ele tende a isolar cada problema de suas 
interconexões com outros desafios contemporâneos da ciência, bem como do 
contexto cultural mais amplo do período. Para compensar essa deficiência, neste 
capítulo, fornecerei uma breve história da biologia como um todo, buscando 
relacioná-la ao meio intelectual da época. A abordagem mais especializada dos 
problemas biológicos individuais, apresentada nos capítulos subsequentes, deve ser 
lida à luz dessa visão geral. Além disso, este capítulo introdutório estabelecerá 
conexões com áreas da biologia funcional (anatomia, fisiologia, embriologia, 
comportamento). 
Cada época possui sua própria “tonalidade” ou estrutura conceitual, que, 
embora longe de ser uniforme, exerce uma influência significativa sobre o 
pensamento e a ação. A cultura ateniense nos séculos V e IV a.C., os diversos 
absolutismos predominantes na maior parte da Idade Média e a revolução científica 
do século XVII são exemplos de contextos intelectuais notavelmente distintos. 
Entretanto, seria equivocado presumir que cada era é invariavelmente dominada por 
um único modo de pensar, isto é, por um conjunto explicativo ou uma ideologia, que 
eventualmente seria substituído por uma estrutura conceitual nova e muitas vezes 
substancialmente diferente. 
No século XVIII, o mundo conceitual de Lineu, por exemplo, era totalmente 
distinto em todos os seus aspectos daquele de seu contemporâneo Buffon. É 
possível que duas tradições de pesquisa bastante diversas coexistam, com seus 
respectivos adeptos trabalhando em completo isolamento intelectual. Na segunda 
metade do século XIX, o positivismo dos fisiciatos, permanecendo numa base 
essencialista, pôde coexistir com o darwinismo dos naturalistas, fundamentado no 
pensamento de população e abordando questões de adaptação que eram 
totalmente sem sentido para um físico positivista. 
 
10 
 
1.3 Biologia na Antiguidade 
Todos os povos primitivos demonstram uma notável inclinação ao 
naturalismo, o que não é surpreendente, dado que sua sobrevivência depende do 
conhecimento da natureza. Eles têm a necessidade de compreender os potenciais 
inimigos, assim como os meios de subsistência. Demonstram interesse na vida e na 
morte, na doença e no nascimento, na "mente" e nas diferenças entre o homem e os 
outros seres vivos. 
É praticamente uma crença universal entre as sociedades humanas primitivas 
que tudo na natureza é considerado "vivo", incluindo rochas, montanhas e o 
firmamento, habitados por espíritos, almas ou deuses. Os poderes divinos são 
entendidos como integrantes da própria natureza, que é percebida como ativa e 
criativa. Antes do judaísmo, todas as religiões eram mais ou menos animistas, e a 
abordagem em relação ao divino era substancialmente diferente daquela do 
monoteísmo judaico. A interpretação do mundo pelos povos primitivos era 
diretamente influenciada por suas crenças animistas. (MACHADO; NADAL, 2020). 
Na Antiguidade, a Biologia estava estreitamente ligada às práticas médicas. 
No Egito, as mumificações desempenharam um papel na compreensão das 
estruturas anatômicas do corpo humano. Na Grécia, estudiosos contribuíram 
significativamente para o desenvolvimento da Biologia, e muitos filósofos, incluindo 
Hipócrates (considerado o pai da Medicina), dedicaram-se ao estudo do corpo 
humano. 
Em Roma, os conhecimentos biológicos desempenharam um papel 
fundamental no avanço da agricultura, no desenvolvimento de práticas de 
saneamento e higiene. Cláudio Galeno (130-210 d.C), um destacado médico 
romano, deixou um legado duradouro na prática médica. Ele escreveu mais de 300 
textos que abrangiam uma variedade de temas, incluindo dados anatômicos e 
conceitos fisiológicos (Araújo et al., 2012). 
Nas décadas seguintes, testemunhamos o estabelecimento de duas grandes 
tradições filosóficas. A primeira, liderada por Heráclito, defendia a ideia da mudança 
constante ("tudo flui"). A segunda, fundada por Demócrito, o proponente do 
atomismo, afirmava, em contraste, a permanência imutável dos átomos, 
considerados os constituintes fundamentais de todas as coisas. Embora Demócrito 
 
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tenha escrito extensivamente sobre temas biológicos, poucos de seus escritos foram 
preservados, e acredita-se que algumas ideias de Aristóteles possam ter origens em 
sua obra. 
Ele foi aparentemente o primeiro a abordar um problema que dividiu os 
filósofos desde então: a organização dos fenômenos, especialmente no mundo vivo, 
resulta puramente do acaso, ou é uma necessidade decorrente da estrutura dos 
componentes elementares, os átomos? Desde esse tempo, acaso versus 
necessidade tem sido o tema de controvérsias entre filósofos, inspirando até o título 
do livro bem conhecido de Monod (1970). Foi somente mais de 2.200 anos depois 
que Darwin demonstrou que acaso e necessidade não são as únicas opções, e que 
o processo bifásico da seleção natural resolve o dilema levantado por Demócrito. 
Os filósofos gregos antigos reconheciam a necessidade de uma explicação 
para fenômenos biológicos tão familiares quanto a locomoção, nutrição, percepção e 
reprodução. O que surpreende os estudiosos modernos é o fato de que eles 
acreditavam ser possível encontrar tal explicação apenas por meio de uma reflexão 
concentrada sobre o problema em questão. Podemos conceder que, na época em 
que viveram, essa talvez fosse a única abordagem concebível para esses desafios. 
(MACHADO; NADAL, 2020). 
A situação começou a mudar gradualmente, especialmente quando a ciência 
experimental se emancipou da filosofia durante a Alta Idade Média e a Renascença. 
A prolongada tradição de fornecer explicações científicas exclusivamente por meio 
da filosofia teve um efeito crescentemente prejudicial sobre a pesquisa científica nos 
séculos XVIII e XIX, levando à amarga queixa de Helmholtz sobre a arrogância dos 
filósofos que rejeitavam suas descobertas experimentais, pois estas entravam em 
conflito com suas deduções. 
As objeções dos filósofos essencialistas contra Darwin constituem outra 
ilustração dessa atitude. Na Grécia antiga, de qualquer forma, a abordagem 
filosófica dedutiva ajudou a levantar questões que ninguém havia indagado antes; 
isso levou a uma formulação cada vez mais precisa dessas questões e, por 
conseguinte, estabeleceu as bases para uma abordagem puramente científica que, 
eventualmente, substituiu afilosofia. 
Antes de Darwin, ninguém contribuiu mais para o entendimento do mundo 
vivo do que Aristóteles (384-322 a.C.). Seu conhecimento abrangente em assuntos 
 
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biológicos derivava de várias fontes. Na juventude, recebeu educação de médicos 
asclepianos, e posteriormente, passou três anos na ilha de Lesbos, onde dedicou 
considerável tempo ao estudo de organismos marinhos. Em praticamente todos os 
aspectos da história da biologia, é imperativo iniciar com Aristóteles. Ele foi o 
pioneiro em distinguir várias disciplinas dentro da biologia, dedicando tratados 
monográficos a cada uma delas, como “De partibus animalium”, “De generatione 
animalium” e outros. 
Aristóteles foi o pioneiro ao reconhecer o grande valor heurístico da 
comparação, sendo legitimamente celebrado como o fundador do método 
comparativo. Ele foi o primeiro a fornecer detalhadas histórias de vida de um grande 
número de espécies animais. Dedicou um livro inteiro à biologia reprodutiva e às 
narrativas de vida (Egerton, 1975). Demonstrou um vivo interesse pelo fenômeno da 
diversidade orgânica, assim como pelo significado das diferenças entre animais e 
plantas. (MAYR, 1998). 
As investigações filosóficas de Aristóteles deram origem a diversas áreas do 
conhecimento, como a Biologia, a Zoologia, a Física, a História natural, a Poética, a 
Psicologia, além das disciplinas propriamente filosóficas, como a Ética, a Teoria 
política, a Estética e a Metafísica. Ele é reconhecido como aquele que iniciou o 
estudo científico da vida. 
Não se pode deixar de reconhecer que alguns filósofos naturalistas gregos, 
em muitas outras ocasiões, tenham especulado sobre a origem das coisas vivas, e 
que boa parte dos estudos de Hipócrates, escritos antes ou durante a época de 
Aristóteles, apresentava um grande interesse sobre a anatomia humana, a fisiologia 
e a patologia. No entanto, o fato é que, antes de Aristóteles, apenas alguns dos 
tratados de Hipócrates levantavam os aspectos sistemáticos e empíricos desses 
temas, estando seu foco exclusivamente voltado para a saúde humana e a doença. 
Aristóteles, ao contrário, considerava a investigação das coisas vivas, 
especialmente dos animais, como sendo fundamental no estudo da Natureza. Seus 
escritos sobre a zoologia defendem um método próprio para a investigação 
biológica, proporcionando um primeiro estudo dos animais em termos de 
sistemática. Não havia nada tão bem escrito sobre esse tema até o Século XVI. Por 
tais razões, Aristóteles é considerado um dos maiores pensadores de todos os 
tempos. (MAYR, 1998). 
 
13 
 
Em seu percurso filosófico, Aristóteles encontrou Teofrasto, um jovem com 
interesses semelhantes aos seus sobre as ciências naturais. Dessa forma, a ciência 
da biologia tem suas origens em Aristóteles e Teofrasto, com o primeiro investigando 
a sistemática dos animais e o segundo realizando estudos similares com as plantas. 
Aristóteles e o estudo dos animais 
Aristóteles dedicou-se ao estudo de diversos animais marinhos, 
proporcionando valiosas contribuições para a oceanografia e biologia marinha. 
Reconhecendo a constante transformação dos mares e continentes ao longo do 
tempo, ele descreveu e nomeou espécies de crustáceos, anelídeos, moluscos e 
equinodermos, além de identificar dezenas de espécies de peixes, todos 
provenientes do Mar Egeu. Aristóteles foi pioneiro ao classificar o golfinho como um 
cetáceo e não um peixe, baseando-se na presença de placenta, característica dos 
mamíferos terrestres. Suas observações precisas abrangeram a distinção entre 
animais ovíparos e vivíparos em diversos grupos de vertebrados. 
Aristóteles dedicou observações minuciosas ao comportamento de moluscos, 
caranguejos e lagostas, como evidenciado em seu livro “História dos Animais”. Suas 
descrições refletem observações detalhadas e prolongadas desses animais. 
Aristóteles destaca a variedade de modos de locomoção, mencionando animais que 
se deslocam por meio de asas, como aves e abelhas, e outros que conseguem 
nadar na água e caminhar na terra. Ele observa a distinção entre animais solitários e 
aqueles que vivem em grupos, destacando a dualidade de comportamento gregário 
e solitário em algumas espécies. O filósofo ressalta a natureza gregária de aves e 
certas espécies de peixes, além de abordar a alimentação, classificando organismos 
em carnívoros, herbívoros (granívoros) ou onívoros. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 
2012). 
Aristóteles identificou o homem, abelhas, vespas e formigas como criaturas 
sociais em suas observações. Além disso, ele explorou as diversas capacidades de 
emissão de sons pelos animais, estabelecendo uma conexão entre o canto e o 
período de acasalamento. 
Alguns dos trabalhos desenvolvidos por Aristóteles foram: 
• a caracterização de golfinhos e baleias como animais distintos de peixes e a 
atribuição da denominação de cetáceos a esses animais, um termo ainda em 
uso para os golfinhos, atualmente; 
 
14 
 
• a distinção de peixes que tem esqueletos ósseos daqueles que não tem; 
• o ciclo de vida das abelhas, detalhadamente descrito; 
• os efeitos climáticos e ambientais sobre os animais; 
• padrões de migração sazonal de aves e peixes. 
Sabe-se pouco sobre o trabalho de Aristóteles em relação às plantas, mas 
seu estudo extensivo sobre o reino animal exerceu uma influência duradoura na 
área ao longo de muitos séculos. Embora muitos de seus escritos contenham 
referências à natureza das plantas, sua opinião as situava entre o inanimado e os 
animais, acreditando na existência de uma transição entre esses dois grupos. 
Aristóteles atribuiu à vida a capacidade de pensar e sentir, assim como de mover-se 
e crescer. 
Aristóteles reconhecia a conexão entre a ingestão (nas plantas, através das 
raízes) e o crescimento. Em contraste com os animais, ele determinou que, nas 
plantas, a fêmea seria indivisível do macho. Para Aristóteles, as plantas pareciam 
carregar ambos os gêneros. Ele observou que a finalidade principal dos vegetais era 
a produção de frutas e sua propagação. 
Quando as plantas começaram a ser estudadas? 
Os primeiros registros sobre plantas enfocavam principalmente aspectos 
utilitários e seu uso medicinal. O interesse dos antigos filósofos gregos estava mais 
centrado em uma comparação que colocava, de um lado, os animais e o homem, e, 
do outro, as plantas. Havia uma discussão sobre se as plantas possuíam uma alma, 
como sugerido por Empédocles de Agriento. Aristóteles, por sua vez, as classificava 
em um grupo intermediário entre organismos animados e inanimados, como 
mencionado anteriormente. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
Teofrasto (372?-287? a.C), um discípulo de Aristóteles, destacou-se como o 
mais importante botânico da Antiguidade. Ele escreveu dois trabalhos significativos 
sobre plantas: "A História das Plantas" (De Historia Plantarum) e "Sobre as Razões 
do Crescimento Vegetal" (De Causis Plantarum). 
Os trabalhos de Teofrasto foram uma fonte significativa de informação e um 
estímulo para futuras contribuições ao conhecimento botânico durante o século XVI, 
influenciando autores e colecionadores botânicos da época. Esses tratados, 
previamente desconhecidos na Europa Ocidental antes do século XV, foram 
inicialmente traduzidos para o latim por Theodoro de Gaza, a pedido do Papa 
 
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Nicolau V. A tradução foi concluída em 1453 ou 1454 e dedicada ao Papa. Apesar 
do belo título, o texto, com exceção de alguns manuscritos de ervas, não continha 
ilustrações para auxiliar na compreensão de seu conteúdo científico. 
Ao contrário de Aristóteles, Teofrasto acreditava que os animais eram 
capazes de usar a razão e eram superiores às plantas. Ele considerava antiético o 
consumo de carne, motivo pelo qual era vegetariano. 
1.4 Biologia na Idade Média 
Se Galeno desempenhou um papel crucial como cientista no Império 
Romano, nenhum equivalente surgiu durante a Idade Média. O avanço docristianismo foi uma das principais razões para essa lacuna, uma vez que houve 
restrições ao acesso a livros de origem pagã, incluindo obras dos pensadores 
gregos e romanos. Os estudiosos que persistiram em estudar essas obras foram 
exilados, levando consigo o conhecimento e deixando para trás uma lacuna cultural. 
Durante esse período, o conhecimento era limitado e submetido aos dogmas e 
convenções religiosas. Surge a questão: como é possível encontrar atualmente 
textos de pensadores como Platão, Aristóteles e Hipócrates se os escritos dos 
autores pagãos foram eliminados na Europa? Isso foi viável porque as obras dos 
autores rejeitados na Europa foram preservadas pelos árabes, que as consideravam 
fundamentais para seus conhecimentos. 
Durante a Idade Média, um acontecimento significativo foi o surgimento das 
universidades no século XI, sendo a Universidade de Bolonha (fundada em 1088, na 
Itália, e em funcionamento até os dias atuais) a pioneira. A criação das 
universidades possibilitou a introdução do ensino formal, com currículos 
padronizados e aulas ministradas a grandes grupos de estudantes, que, mesmo 
provenientes de diferentes regiões e falando diversas línguas, estudavam em latim, 
a língua predominante para a redação de todos os textos. O currículo abrangia as 
sete artes liberais: Gramática, Retórica, Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. 
No final da Idade Média, o número de universidades europeias já chegava a 80, e os 
currículos começavam a incorporar outras disciplinas. 
Um erudito destacado desse período foi Tomás de Aquino (1225-1274), 
professor da Universidade de Paris e frade dominicano, posteriormente canonizado 
 
16 
 
pelo Vaticano. Ele desempenhou um papel crucial ao resgatar as obras de 
Aristóteles e ao promover uma síntese entre a doutrina cristã e o pensamento 
aristotélico. A interpretação dos trabalhos de Aristóteles foi também adotada por 
Alberto Magno (ca. 1200-1280), outro professor da Universidade de Paris e 
dominicano. Conhecido como Doutor Universal, Alberto Magno descreveu várias 
espécies de plantas, possivelmente foi o primeiro a preparar o arsênico e é 
reconhecido por suas publicações, incluindo "Sobre os minerais", "Sobre os vegetais 
e plantas" e "Sobre os animais". 
Roger Bacon (1214-1292), um franciscano que estudou nas universidades de 
Paris e Oxford e ficou conhecido como Doutor Maravilhoso, é agora reconhecido 
como o primeiro cientista moderno. Ele sustentava que a Ciência experimental era 
compatível com a Filosofia, a Metafísica e a religião. Uma de suas opiniões que 
permanece relevante é a identificação de quatro obstáculos que impedem a 
descoberta da verdade nas coisas: autoridade fraca e inepta, hábitos antigos, 
opinião popular desinformada e ocultação da ignorância por uma fachada de 
sabedoria. 
Hildegard de Bingen (1098-1179) foi uma das raras mulheres na Idade Média 
a transcender as limitações impostas às mulheres nas universidades. Seu "Livro da 
Medicina Simples" é considerado possivelmente o primeiro escrito por uma mulher a 
abordar as propriedades terapêuticas de plantas, animais e metais. Em uma época 
em que a crença predominante sugeria que os distúrbios mentais eram resultado de 
possessões demoníacas, Hildegard propôs que esses problemas tinham causas 
naturais, uma visão que hoje é corroborada. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
Ao contrário dos europeus, que só começaram a aceitar os conhecimentos 
gregos após a intervenção de Tomás de Aquino, os árabes aproveitaram vastamente 
o acervo dos gregos, romanos, persas e indianos, o que resultou no 
desenvolvimento precoce de diversas ideias e tecnologias em comparação com os 
europeus. Um dos estudiosos mais destacados desse período foi o médico Abu Bakr 
Mohamed Ibn Zakariya al-Razi (865-923), conhecido no Ocidente Medieval como 
Razes. Ele escreveu cerca de 200 obras sobre Medicina e Filosofia, incluindo “Sobre 
a Varíola e o Sarampo”, que diferenciava essas doenças, fornecendo informações 
sobre terapias e diagnósticos. Notavelmente crítico em relação à Ciência, Razes via 
o conhecimento científico como sempre sujeito a progresso, o que implicava na 
 
17 
 
constante revisão dos conhecimentos anteriores. Uma obra interessante que 
exemplifica essa abordagem é "Dúvidas em Relação a Galeno". 
Classificado como o "Galeno islâmico", Abu Ali Hysayn ibn Abdullah ibn Sina 
(980-1037), conhecido no Ocidente como Avicena, escreveu o "Cânon da Medicina", 
que por muito tempo serviu como referência para a Medicina islâmica e europeia, 
chegando a contribuir para sua estagnação. Outro médico islâmico notável foi Ala-al-
Din Abu al-Hasan Ali Ibn Abi al-Hazm al-Qarshi al-Dimashqi, conhecido como Ibn Al-
Nafis (1213-1288), autor do "Livro Geral da Arte da Medicina", uma compilação em 
80 volumes de suas 300 anotações. No entanto, não foi essa obra que o eternizou 
na história. Sua descrição da circulação pulmonar, também conhecida como 
pequena circulação, revelou que Galeno estava equivocado ao afirmar que o sangue 
atravessava o coração do lado direito para o esquerdo através do septo cardíaco 
que separa os ventrículos, antecipando em três séculos a descrição feita pelos 
europeus Serveto e Colombo. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
1.5 Biologia no Renascimento 
A Biologia experimentou uma expansão e expressão significativas durante o 
Renascimento. O resgate de algumas obras da Antiguidade Clássica, principalmente 
aquelas que exploravam estudos sobre o homem e a natureza, foi crucial. Diversos 
eventos marcaram esse período e impulsionaram as Ciências, como a invenção da 
pólvora, da bússola e da imprensa. Além disso, as proposições heliocêntricas em 
contraposição ao geocentrismo também desempenharam um papel importante. 
(PELANDА, 2020) 
Na área da Biologia, a anatomia deixou de ser associada apenas a práticas 
exclusivas de sepultamento, ganhando reconhecimento e atraindo audiências. 
Técnicas avançadas de dissecação e preservação de estruturas anatômicas foram 
desenvolvidas, e muitos anatomistas passaram a realizar dissecações de corpos 
durante suas aulas. Outros, como Leonardo da Vinci (1452-1519), dedicaram-se 
minuciosamente a dissecar e desenhar as estruturas observadas: 
embora seja mais conhecido pelas pinturas de Monalisa e da Santa Ceia, 
da Vinci também deixou uma boa contribuição para a anatomia, tendo 
dissecado aproximadamente 30 corpos, incluindo um feto de sete meses, e 
um idoso, da Vinci chegou a desenvolver algumas técnicas para a 
 
18 
 
observação de peças anatômicas. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012, p. 
45) 
A fisiologia teve sua origem principalmente nos estudos voltados para a 
compreensão da circulação sanguínea e o funcionamento do coração e dos vasos 
sanguíneos. No campo da Zoologia e Botânica, era comum a prática de observar e 
registrar espécies. Muitas dessas observações eram transformadas em obras de 
arte, abordando tanto a estrutura externa quanto interna dos organismos, bem como 
sua ecologia. Um exemplo notável desse período é Maria Sibylla Merian (1647-
1717), que se destacou como estudiosa da ecologia dos insetos. 
A classificação biológica recebeu ênfase nesse período, sobretudo com os 
avanços proporcionados pelo Sistema Binominal de Nomenclatura de Lineu. Além 
disso, a microscopia e o desenvolvimento de técnicas para a observação da vida 
microscópica também foram enfatizados no progresso da Biologia dessa época. 
Com o aumento expressivo de informações biológicas, conforme destacado 
por Araújo; Menezes; Costa, (2012), durante o Renascimento, os cientistas iniciaram 
a criação de novas sociedades ou academias científicas. Estas não apenas serviam 
como locais para discussão de ideias, mas também incentivavam os filiados a 
realizar atividades práticas e experimentos para elucidar suas descobertas, 
rompendo com uma abordagem estritamente filosófica. 
1.6 Biologia moderna e contemporânea 
No século XIX, presenciamoso surgimento das Ciências Biológicas como 
uma disciplina científica, cujo objeto de pesquisa é a vida. Avanços como o 
aperfeiçoamento do microscópio, possibilitando a observação de estruturas cada vez 
menores, incluindo vírus, a defesa da biogênese em contraposição à abiogênese, a 
expedição de Charles Darwin e a Teoria da Evolução, juntamente com as 
descobertas de Gregor Mendel sobre a hereditariedade, caracterizam a formação da 
Biologia Moderna. 
Na contemporaneidade, as revelações acerca das moléculas orgânicas e 
suas funções desbravam caminho para o entendimento do DNA e do código 
genético, responsável pelas características dos seres vivos. Esse progresso também 
possibilita a manipulação dessas moléculas, dando origem aos organismos 
 
19 
 
geneticamente modificados (OGM). Além disso, emergem estudos na área de 
clonagem, células-tronco e, mais recentemente, investigações na Epigenética. 
(MAYR, 1998). 
2 EVOLUÇÃO 
A construção de uma teoria científica ocorre em fases, caracterizadas por 
avanços e retrocessos, formulação e descarte de hipóteses. Diante de novas 
evidências, uma teoria pode ser revista. No contexto do conhecimento científico, é 
essencial testar e analisar minuciosamente todas as evidências. Esse processo é 
contínuo, com pausas e reinícios periódicos. 
Os progressos em ciência e tecnologia demandam novas pesquisas, testes e 
parâmetros inovadores. Por vezes, hipóteses previamente descartadas são 
reintroduzidas em um novo contexto, reavaliadas, algumas confirmadas e outras 
novamente descartadas. Para compreender a intricada rede de pensamentos que 
culminou na elaboração da Teoria da Evolução Biológica proposta por Darwin, é 
necessário revisitar as primeiras concepções sobre o tema, explorando os registros 
mais antigos disponíveis, durante o que é conhecido como período pré-darwiniano. 
2.1 Pré-darwinismo 
Conforme apontado por Ridley (2007), o avô de Darwin, Erasmus Darwin 
(1731-1802), manifestava simpatia pelas ideias evolucionistas, uma inclinação 
compartilhada também pelo naturalista francês Pierre Louis Moreau de Maupertuis 
(1698-1759) e pelo filósofo Denis Diderot (1713-1784). No entanto, nenhum deles 
logrou desenvolver uma teoria que conseguisse sintetizar de maneira convincente 
esse pensamento, esclarecendo por que as espécies passam por transformações ao 
longo do tempo. O interesse deles residia na possibilidade de uma espécie se 
transformar em outra, mas carecia de uma explicação plenamente satisfatória. 
A discussão sobre as modificações ocorridas em animais e plantas teve início 
na Grécia Antiga, com o filósofo Platão (Ridley, 2007). Séculos mais tarde, 
naturalistas e outros estudiosos contribuíram com a reflexão sobre a possibilidade de 
que os seres vivos tenham passado por um processo de evolução. 
 
20 
 
Um dos pioneiros na discussão da evolução biológica foi Platão, que propôs a 
herança dos caracteres adquiridos. Mais tarde, Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) 
utilizou essa mesma ideia quando sugeriu que os caracteres adquiridos pelos O 
debate sobre as alterações em animais e plantas teve seu início na Grécia Antiga, 
com o filósofo Platão (conforme Ridley, 2007). Ao longo dos séculos, naturalistas e 
outros estudiosos contribuíram para a reflexão sobre a possibilidade de os seres 
vivos terem passado por um processo de evolução. 
Platão, um dos precursores nessa discussão sobre a evolução biológica, 
propôs a ideia da herança dos caracteres adquiridos. Posteriormente, Jean-Baptiste 
Lamarck (1744-1829) baseou-se nesse conceito ao sugerir que os caracteres 
adquiridos pelos indivíduos progenitores durante a vida poderiam ser herdados por 
sua prole, em um processo contínuo de evolução. Essa noção tornou-se uma das 
premissas da Teoria da Evolução Biológica de herança lamarckiana (conforme 
Darwin, 2003; Ridley, 2007). 
Ridley (2007) destaca que figuras influentes nos séculos XVII e XVIII, como 
Maupertuis e Diderot, aventuraram-se em especulações sobre a possibilidade de 
transformação de espécies. O principal trabalho de Lamarck foi a publicação do livro 
“Philosophie Zoologique” (1809), curiosamente lançado no ano de nascimento de 
Darwin. Em 1815, apresentou “Histoire naturelle des animaux sans vertebres”, no 
qual sustenta a tese de que todas as espécies, inclusive a humana, têm origens em 
outras (conforme Darwin, 2003). 
Figura 1 - Jean-Baptiste Lamarck 
 
21 
 
 
Fonte: Cordeiro, 2020. 
Na análise de Ridley (2007), conforme apresentado no livro “Philosophie 
Zoologique”, no qual Lamarck expôs seus argumentos sobre as modificações 
ocorridas, “as espécies mudam ao longo do tempo e transformam-se em outras 
espécies”, entretanto, a concepção proposta por Lamarck sobre "como as espécies 
mudavam" diferia significativamente das ideias de Darwin ou da abordagem 
moderna da evolução. 
Hoje em dia, os historiadores preferem empregar o termo “transformismo” 
para descrever as ideias lamarckianas, uma vez que sua concepção difere do 
conceito de transformação utilizado por Darwin. 
Ridley (2007) também destaca que, para Lamarck, as linhagens persistiam, 
modificando-se de uma para outra, enquanto, para Darwin, elas se ramificavam. 
Segundo o naturalista francês, o principal mecanismo envolvido era uma força 
interna, um tipo de sistema que agia no interior do organismo, levando-o a gerar uma 
prole que se diferenciaria dele com pequenas alterações, até que "estivesse 
visivelmente transformada, talvez o suficiente para se tornar uma nova espécie" 
(Ridley, 2007). 
De acordo com o autor (Ridley, 2007), Lamarck era um estudioso da biologia, 
embora seu interesse também se estendesse à química e meteorologia, áreas em 
que suas contribuições não receberam o reconhecimento desejado. Em 1809, ele 
 
22 
 
percebia uma conspiração de silêncio contra suas ideias: “Os meteorologistas 
ignoravam seu sistema de previsão do tempo, os químicos ignoravam seu sistema 
químico e, quando seu Philosophie Zoologique foi finalmente publicado, Cuvier 
assegurou-se de que também fosse saudado com silêncio. 
Parece que Lamarck não era uma pessoa de muitos amigos, devido à sua 
personalidade difícil, tendo como principal rival o anatomista Georges Cuvier (1769-
1832), que se opôs às suas ideias e adotou o fixismo (Ridley, 2007). O fixismo 
correspondia à ideia mais aceita na época, defendendo que tanto o planeta Terra 
quanto os seres vivos foram criados por um ser superior em um evento único e 
permaneceram sem modificações desde então. 
Ridley (2007) afirma que, na metade do século XIX, os profissionais da 
biologia e da geologia aceitavam o fixismo e, ironicamente, os críticos de Lamarck, 
aliados de Cuvier, possivelmente divulgaram seu trabalho. Embora tenham adotado 
várias táticas para ofuscar suas ideias, seu trabalho tornou-se conhecido graças a 
uma discussão crítica feita pelo geólogo britânico Charles Lyell (1797-1875) em seu 
livro “Princípios de Geologia” (1830-1833), no qual o criticou - embora o lamarckismo 
não fosse a principal questão da obra, que trata essencialmente de geologia, 
discorrendo sobre o movimento das placas tectônicas e à deriva continental. 
As ideias de fixismo ganharam ainda mais força com a publicação de 
“Princípios de Geologia”, que exerceu grande influência sobre os biólogos, 
reafirmando as ideias do movimento: Foi pelo menos em parte devido a uma reação 
contra Lamarck que Cuvier e sua escola adotaram a ideia da fixidez de espécies e a 
tornaram uma ortodoxia entre biólogos profissionais. (CORDEIRO, 2020). 
Segundo Darwin, o mérito do trabalho de Lamarck deveria ser reconhecido, 
pois, “em primeiro lugar, ter despertado a atenção da humanidade para a 
probabilidade de que modificações, tanto inorgânicas quanto orgânicas, fossem o 
resultado de leis e não de intervenções milagrosas” (Darwin, 2003). Dessa forma, 
Lamarck abriu a possibilidade de discussão e de um posterior entendimento das 
“leis”que regem a evolução biológica. 
 
23 
 
2.2 Darwinismo 
Antes de discutirmos o darwinismo, é interessante explorar o contexto do 
surgimento das ideias e as motivações que levaram Darwin a compilar pensamentos 
evolucionistas já existentes. Suas conclusões foram derivadas de um extenso estudo 
e de observações minuciosas da natureza, levando à formulação de sua Teoria da 
Evolução Biológica. Bizzo (1991) descreve que, após examinar os manuscritos 
originais de Darwin, acredita que ele tenha registrado suas primeiras ideias sobre o 
evolucionismo de forma inicialmente dispersa em cadernos de anotação, 
provavelmente a partir de 1837. 
Ridley (2007), no entanto, argumenta que há evidências de que o interesse de 
Darwin pelo assunto começou muito antes, durante seus estudos em Ciências 
Naturais em Cambridge. Darwin era contemporâneo de Lamarck, que provavelmente 
foi uma das influências de sua obra, assim como a experiência adquirida durante sua 
viagem pelo mundo como naturalista a bordo do navio Beagle, de 1832 a 1837. 
Segundo Ridley (2007), durante essa jornada, Darwin ficou impressionado ao 
encontrar emas na América do Sul, aves semelhantes às avestruzes. 
Provavelmente, as observações dessa diversidade o levaram a considerar a ideia de 
mudanças nas espécies. 
As expedições exploratórias eram frequentes na época e tinham como 
principal objetivo recolher amostras geológicas, arqueológicas e biológicas dos 
locais visitados. O HMS Beagle, nomeado em referência à raça de cães, era uma 
fragata apelidada de "caixão flutuante". 
Conforme relata Ridley (2007), a fase crucial na carreira de Darwin ocorreu 
nos anos subsequentes (1837-1838) à expedição de cinco anos a bordo do Beagle. 
Durante o processo de catalogação da coleção de pássaros das Ilhas Galápagos, 
Darwin percebeu que não havia registrado a ilha correspondente à coleta de cada 
espécime, pois havia variação nas características de cada tentilhão de ilha para ilha. 
Inicialmente, ele supunha que todos os tentilhões de Galápagos pertenciam a uma 
única espécie, mas as variações encontradas tornaram claro que cada ilha abrigava 
sua própria e distinta espécie de tentilhão. Essa descoberta levou Darwin a conceber 
a ideia de que todos eles haviam evoluído a partir de um ancestral comum. 
 
24 
 
O próximo passo de Darwin, segundo Ridley (2007), após perceber que as 
espécies poderiam se modificar, foi formular uma teoria que pudesse explicar como 
isso acontece. O biólogo era metódico, anotava todas as ideias em cadernos e por 
muito tempo estudou diversas teorias, inclusive as de Lamarck. 
Considerando as ideias lamarckistas, era possível especular que a ação das 
condições ambientais poderia explicar inúmeros casos de adaptação de organismos 
aos seus hábitos de vida (Ridley, 2007). Como exemplo, podemos citar o pica-pau, 
que obtém seu alimento diretamente da madeira, perfurando-a e consumindo as 
larvas de insetos que se encontram em período de metamorfose nesses locais; e a 
rã arborícola, que, como o próprio nome sugere, vive em árvores. Podem ser 
mencionadas, ainda, as sementes que, para se espalharem, possuem ganchos ou 
plumas, adaptações que permitem a colonização de ambientes por dispersão pelo 
vento ou transporte por animais dispersores de sementes. 
Para Ridley (2007), faltava uma explicação para tais adaptações. Darwin 
buscava esclarecer não apenas como as espécies mudam, mas também por que 
são adaptadas ao seu modo de vida. Ele encontrou uma solução durante a leitura do 
livro “Ensaio sobre o princípio da população” (1798), de Thomas Malthus (1766-
1834). Darwin teve acesso a esse material em outubro de 1838, aproximadamente 
15 meses após iniciar seu trabalho de sistematização das espécies coletadas ao 
redor do mundo. A leitura, feita por entretenimento, revelou a proposição de Malthus 
de que a luta pela sobrevivência entre as espécies exerce controle sobre o 
crescimento ou a redução das populações biológicas. 
Em suas pesquisas, Darwin explorou representantes tanto do reino vegetal 
quanto do reino animal, coletando espécimes de seres vivos e examinando-os para 
descobrir seus hábitos de vida. A partir dessas observações, ele concluiu que havia 
uma competição, uma “luta pela sobrevivência”, na qual as espécies “melhor 
adaptadas” tinham uma prole maior e aumentavam sua frequência na população ao 
longo das gerações. (CORDEIRO, 2020). 
Segundo Ridley (2007), Darwin percebeu que, na presença desses fatores 
essenciais, as variáveis positivas tenderiam a ser preservadas, enquanto as 
consideradas desfavoráveis poderiam desaparecer, resultando na formação de uma 
nova espécie. Darwin levou em conta que os habitats estão sujeitos a mudanças 
climáticas, e os descendentes que estivessem de alguma forma mais aptos a 
 
25 
 
sobreviver seriam selecionados, o que ele denominou como “uma teoria pela qual 
trabalhar”. 
Guiado pelos estudos de Malthus e Lamarck, e ainda sob a influência das 
ideias de seu avô Erasmus Darwin, de Lyell e de outros autores da geologia, Darwin 
examinou as derivas continentais e, finalmente, iniciou o processo de 
sistematização, frequentemente descartando concepções sobre o tema, para 
desenvolver a Teoria da Evolução Biológica fundamentada na seleção natural 
(Browne, 2007). 
Darwin continuou esse trabalho, adaptando os fatos a um referencial teórico e 
prosseguindo na elaboração de suas teorias ao longo de 20 anos, sem, no entanto, 
divulgá-las publicamente. Foi somente quando recebeu uma carta de Alfred Russel 
Wallace (1823-1913), um naturalista britânico que, realizando pesquisas 
independentes, "havia chegado a uma ideia bastante similar à da seleção natural de 
Darwin", que Darwin se viu diante de uma situação inusitada. Ao perceber que 
Wallace tinha uma ideia semelhante à sua sobre a seleção natural, Darwin ficou 
perplexo e buscou orientação com seu amigo Lyell. (CORDEIRO, 2020). 
2.3 Neodarwinismo, Síntese Moderna da Evolução 
Uma reavaliação da seleção natural foi viabilizada pelas pesquisas de Gregor 
Mendel (1822-1884), juntamente com estudos adicionais sobre genética 
populacional. Os principais protagonistas desse esforço foram os pesquisadores 
independentes Ronald Fisher (1890-1962), J. B. S. Haldane (1892-1964) e Sewall 
Wright (1889-1988), cuja síntese “estabeleceu o que é conhecido como 
neodarwinismo, teoria sintética da evolução ou síntese moderna” (Ridley, 2007). 
Finalmente, a teoria de Darwin encontrou uma base testada sobre uma teoria 
da hereditariedade capaz de fundamentar a teoria evolutiva. Essa nova síntese 
precisava demonstrar os fatores que tornam as espécies diferentes entre si, 
explicando a variabilidade, de modo a conciliar a hereditariedade proposta por 
Mendel e as variações que ocorrem de maneira contínua em populações reais, 
defendidas pelos biometristas. “Essa conciliação foi alcançada por vários autores em 
muitos estágios, mas, nesse contexto, um artigo de 1918 de Fisher foi 
particularmente importante. Fisher demonstrou que todos os resultados conhecidos 
 
26 
 
pelos biometristas poderiam ser derivados de princípios mendelianos”. (CORDEIRO, 
2020). 
Ridley (2007) declara que, em suas pesquisas sobre a genética de 
populações, Fisher, Haldane e Wright buscaram evidenciar que a seleção natural 
poderia ocorrer de acordo com leis matemáticas, com variáveis mensuráveis e em 
conformidade com as leis da herança mendeliana, sem a necessidade de outros 
processos, descartando as ideias de herança de caracteres adquiridos e 
macromutações. 
Essa reconciliação entre as teorias da genética mendeliana e da evolução 
darwiniana proporcionou um impulso significativo para o avanço das pesquisas em 
biologia, “rapidamente estimulando novas investigações genéticas em campo e em 
laboratório” (Ridley, 2007). Após se estabelecer nos Estados Unidos, em 1927, o 
russo Theodosius Dobzhansky (1900-1975) foi um dos pioneiros nas pesquisassobre a evolução de populações de Drosophila (Figura 2), a mosca-da-fruta ou 
mosca-do-vinagre, como também é popularmente conhecida. 
Figura 2 – Mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) 
 
Fonte: Cordeiro, 2020. 
Outros estudos seguiram essas novas linhas de pesquisa, como o do 
geneticista russo Sergei Chetverikov (1880-1959), que dirigia um laboratório 
importante em Moscou até ser preso em 1929. Chetverikov exerceu uma influência 
significativa sobre Dobzhansky, que, após imigrar, começou a desenvolver suas 
próprias ideias. O principal livro de Dobzhansky, escrito em colaboração com Wright, 
“Genetics and the Origin of Species” (Genética e a Origem das Espécies), foi 
inicialmente publicado em 1937, e suas edições sucessivas (até 1970, com um novo 
título) estão entre as obras mais influentes da síntese moderna. 
 
27 
 
Na década de 1920, E. B. Ford (1901-1988) iniciou um abrangente programa 
de pesquisa comparativa na Inglaterra, concentrando-se no estudo da seleção 
natural em populações. Ele dedicou suas investigações a mariposas, estabelecendo 
essa linha de pesquisa como genética ecológica. Posteriormente, Ford resumiu suas 
descobertas em um livro intitulado “Ecological Genetics” (1964). Mais tarde, o estudo 
realizado por Bernard Kettlewell (1907-1979) sobre o melanismo na mariposa Biston 
betularia tornou-se particularmente renomado nesse campo (Ridley, 2007). 
A explicação anterior para a especiação envolvia macromutações ou a 
herança de caracteres adquiridos, conceitos que foram abandonados com a 
publicação da Teoria Sintética da Evolução. Mesmo assim, houve críticos, como Guy 
Coburn Robson (1888-1945) e Owain Richards (1901-1984), que rejeitavam tanto as 
teorias de Mendel quanto as de Darwin. Richard Goldschmidt (1878-1958), por sua 
vez, argumentava que a especiação resultava de macromutações e não da seleção 
de pequenas variações. (CORDEIRO, 2020). 
3 A BIOLOGIA NO SECULO XIX 
Na mesma época em que a teoria evolucionista estava se aprimorando, 
surgiram campos totalmente novos na biologia. Destacam-se, especialmente, os 
campos da etologia (estudo comparativo do comportamento animal), da ecologia e 
da biologia molecular. 
3.1 Etologia e ecologia 
Após as contribuições pioneiras, mas amplamente ignoradas, de Darwin 
(1872), Whitmann (1898) e O. Heinroth (1910), o campo da etologia viu seu 
verdadeiro desenvolvimento com Konrad Lorenz (1927) e, posteriormente, Niko 
Tinbergen. Enquanto as escolas anteriores de psicologia animal dedicavam a maior 
parte de sua atenção ao estudo das causas imediatas do comportamento, muitas 
vezes trabalhando com uma única espécie e focando na compreensão dos 
processos, os etologistas direcionaram seu foco para a interação entre o programa 
genético e a experiência subsequente. Obtiveram grande sucesso no estudo de 
comportamentos específicos das espécies, com ênfase particular no comportamento 
 
28 
 
reprodutivo, que é em grande parte controlado por programas genéticos 
preestabelecidos. (MAYR, 1998). 
Os debates entre Lorenz e von Holst, de um lado, e autores como Schneirla e 
Lehrman, de outro, sobre a relevância da contribuição genética para o 
comportamento, ecoavam, de certa forma, argumentações semelhantes que se 
estendiam pelos séculos XVIII (Reimarus versus Condillac) e XIX (Altum versus A. 
Brehm). As controvérsias desse campo durante os anos 1940 e 1950 agora são 
consideradas assunto do passado. As diferenças fundamentais entre os estudiosos 
do comportamento animal são escassas, e as que persistem, em grande parte, se 
reduzem a questões de ênfase. 
Comumente, atribui-se também ao século XX o surgimento da ecologia. 
Embora seja verdade que, a partir dos anos 1960, nunca antes tenha sido conferida 
tanta importância ao estudo do meio ambiente, o pensamento ecológico remonta 
aos tempos antigos (Glacken, 1970). Ele está evidente nos escritos de Buffon e 
Lineu, desempenhando um papel significativo nos relatos dos grandes exploradores 
dos séculos XVIII e XIX (como os de Forster e Humboldt, por exemplo). 
Para esses exploradores, o propósito final não era mais apenas colecionar e 
descrever espécies, mas sim compreender a interação dos organismos com o meio 
ambiente. Alexander von Humboldt é considerado o pai da geografia ecológica das 
plantas, embora mais tarde seus interesses tenham se voltado quase inteiramente 
para a geofísica. Muitas das discussões e considerações de Darwin seriam 
perfeitamente apropriadas para um livro-texto sobre ecologia. (MAYR, 1998). 
O termo “ecologia” foi proposto por Haeckel em 1866 para descrever a ciência 
que trata “da casa da natureza”. Um dos primeiros textos gerais sobre o assunto foi 
produzido por Semper em 1880. Nos anos subsequentes, houve escasso contato 
entre os diversos grupos que estudavam as “condições da vida” ou as “associações” 
dos diferentes tipos de organismos. Möbius, em 1877, publicou seu estudo clássico 
sobre um banco de ostras; Hensen e outros concentraram-se na ecologia marinha; 
Warming dedicou-se à ecologia das plantas; enquanto outros estabeleceram a 
limnologia, principalmente uma ciência ecológica dedicada às águas doces. 
 
29 
 
3.2 A emergência da biologia molecular 
À medida que a análise dos processos biológicos e evolutivos se tornou mais 
detalhada e sofisticada, ficou claro que muitos desses processos, em última 
instância, podem ser reduzidos à ação de moléculas biológicas. Inicialmente, o 
estudo dessas moléculas estava estritamente ligado à química e à bioquímica. As 
raízes antigas da bioquímica remontam ao século XIX, mas, inicialmente, não havia 
uma delimitação clara em relação à química orgânica, sendo a pesquisa bioquímica 
geralmente conduzida por institutos de química. É verdade que a bioquímica inicial 
tinha pouca conexão com a biologia, limitando-se à análise de compostos extraídos 
de organismos ou, na melhor das hipóteses, de compostos importantes nos 
processos biológicos. Atualmente, boa parte da bioquímica ainda mantém essa 
configuração. Um segundo caminho que levou à biologia molecular teve origem na 
fisiologia. 
Alguns resultados da bioquímica são de particular importância para o 
biologista. Um deles é a elucidação passo a passo de certos processos metabólicos, 
como o ciclo do ácido cítrico, bem como a eventual demonstração de que cada um 
dos passos é normalmente controlado por um gene específico. Tal trabalho já não é 
simplesmente bioquímica e tornou-se usual e perfeitamente legítimo referir-se a ele 
como biologia molecular. Certamente, aqui trata-se da biologia das moléculas, de 
suas modificações, interações e até mesmo de sua história evolutiva. (MAYR, 1998). 
Os biólogos moleculares elaboraram a estrutura de literalmente milhares de 
compostos biológicos e elucidaram os meandros em que estão envolvidos, mas 
poucas das suas pesquisas causaram tanta excitação como as que esclareciam a 
natureza química do material genético. Já em 1869, Miescher descobriu que uma 
elevada proporção da substância molecular consistia em ácidos nucléicos. 
Durante algum tempo (1880-1890), postulou-se que a nucleína (ácido 
nucléico) era o material genético; no entanto, essa hipótese eventualmente perdeu 
popularidade. Somente quando Avery e seus colegas demonstraram, em 1944, que 
a substância transformadora dos pneumococos era o DNA, é que ocorreu um 
redirecionamento. Embora muitos biologistas estivessem plena e definitivamente 
conscientes da importância da descoberta de Avery, eles não dispunham de 
 
30 
 
conhecimentos técnicos para um estudo detalhado dessa fascinante molécula. O 
problema apresentava-se de modo absolutamente claro. 
Como poderia essa molécula, aparentemente simples (considerada simples à 
época, quando comparada à maioria das proteínas), encerrar toda a informação do 
núcleo de um óvulo fertilizado, para controlar o desenvolvimento específico da 
espécie do organismo resultante? Era necessárioter o conhecimento exato da 
estrutura do DNA antes de se poder iniciar a especulação sobre o modo como ela 
podia desempenhar a sua função única. Instaurou-se uma acirrada competição entre 
vários laboratórios para alcançar esse objetivo, competição essa da qual Watson e 
Crick, do Laboratório Cavendish, em Cambridge, Grã-Bretanha, saíram vitoriosos, 
em 1953. Se eles não tivessem tido sucesso, algum outro cientista o teria, no espaço 
de alguns meses. (MAYR, 1998). 
Todo mundo já ouviu falar da história da dupla-hélice, mas nem todos 
compreendem completamente o significado dessa descoberta. Ficou comprovado 
que o DNA não participa diretamente do desenvolvimento ou das funções 
fisiológicas do corpo, mas apenas fornece um conjunto de informações, um 
programa genético, que é transmitido às proteínas apropriadas. O DNA é uma matriz 
idêntica em cada célula do corpo e, por meio da fertilização, é passado adiante de 
geração em geração. O componente crucial das moléculas de DNA são quatro pares 
de base (sempre uma purina e uma pirimidina). Uma sequência de três pares de 
bases (um tripleto) funciona como uma letra de um código e controla a transmissão 
para um aminoácido específico. A sequência desses tripletos determina o peptídeo 
particular a ser formado. 
A descoberta de que os tripletos de DNA são transmitidos aos aminoácidos é 
atribuída a M. Nirenberg, em 1961. A sequência das bases no tripleto representa o 
código genético. A descoberta da dupla-hélice do D 
NA e de seu código foi um avanço de grande magnitude. Ela esclareceu 
definitivamente algumas das áreas mais complexas da biologia e levou à formulação 
de questões bastante precisas, algumas das quais estão hoje nas fronteiras da 
biologia. Essa descoberta esclareceu por que os organismos são fundamentalmente 
diferentes de qualquer forma de matéria não viva. (MAYR, 1998). 
Não há nada no mundo inanimado que possua um programa genético 
armazenando informações com uma história de três bilhões de anos! 
 
31 
 
Simultaneamente, essa explicação puramente material esclarece muitos dos 
fenômenos que os vitalistas alegavam não poderem ser explicados pela química ou 
pela física. Certamente, ainda é uma explicação fisicalista, mas infinitamente mais 
sofisticada do que as explicações mecanicistas rudimentares dos séculos passados. 
Simultaneamente aos desenvolvimentos puramente químicos da biologia 
molecular, ocorreram outros de natureza diferente. A descoberta do microscópio 
eletrônico, nos anos 1930, por exemplo, possibilitou uma compreensão inteiramente 
nova da estrutura da célula. Aquilo que os pesquisadores do século XIX chamavam 
de protoplasma, considerado por eles como a substância básica da vida, revelou-se 
um sistema altamente complexo de organelas intracelulares com funções variadas. 
Muitas dessas organelas são sistemas de membranas que servem como habitat 
para macromoléculas específicas. 
A biologia molecular está progredindo em diversas outras fronteiras, muitas 
das quais não podem ser abordadas aqui, incluindo várias de considerável 
importância na área médica. 
3.3 DNA ou proteína? 
Antes da identificação dos ácidos nucleicos, o monge austríaco Gregor 
Mendel (1822-1884) propôs, em 1865, que “fatores” transmitidos por cada um dos 
pais eram responsáveis pela herança de características específicas nas plantas. O 
bioquímico suíço Friedrich Miescher (1844-1895) descobriu os ácidos nucleicos em 
1868, ao isolar núcleos de células de pus obtidos em cirurgias. No entanto, a 
pesquisa sobre a estrutura química dos ácidos nucleicos ficou em segundo plano até 
a disponibilidade de novas técnicas analíticas no meio do século XX. 
Os processos de mitose e meiose foram identificados entre 1870 e 1890. 
Durante esse período, observou-se que, durante a divisão celular, cromossomos 
eram visíveis ao redor das células, levantando questões sobre sua função. Na 
época, determinou-se que os cromossomos eram compostos por proteínas e DNA, 
embora houvesse pouca compreensão sobre o DNA. Nessa fase, considerava-se 
mais provável que as proteínas estivessem envolvidas na hereditariedade. 
(ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
 
32 
 
Embora houvesse suspeitas de que os cromossomos estivessem 
relacionados à genética, a explicação sobre como isso ocorria e o que estava 
envolvido ainda não estava clara. Nos primeiros anos do século XX, muitos ainda 
consideravam que as proteínas eram as candidatas mais prováveis para transmitir 
informações hereditárias de alguma forma, pois pareciam ser suficientemente 
diversas para garantir variabilidade genética. Embora o DNA fosse conhecido por 
estar presente nos cromossomos, sua estrutura era desconhecida, e pouco se sabia 
sobre ele, levando poucos a acreditar que poderia ser o material genético. 
O gene é feito de DNA! 
O célebre experimento de Griffith em 1928 foi o primeiro a evidenciar a 
transferência de informação genética. Mesmo sem compreender completamente a 
natureza dessa informação, ele a denominou como “princípio da transformação”. Ao 
injetar uma mistura de bactérias pneumocócicas mortas pelo calor (incapazes, 
portanto, de causar a doença) em uma cepa de bactérias vivas e avirulentas (que 
por si só não poderiam causar pneumonia), Griffith observou que, ao injetar o extrato 
em camundongos, estes contraíam pneumonia e morriam. 
Ao isolar bactérias do sangue dos ratos falecidos, Griffith identificou bactérias 
virulentas vivas. Ele interpretou esse resultado como evidência de que alguma 
substância, o “princípio transformador”, havia sido transferida das bactérias mortas 
para a cepa de bactérias vivas, resultando na “transformação” dessa cepa em uma 
forma virulenta. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
Cientistas ao redor do mundo iniciaram repetições do experimento, 
explorando variações para entender precisamente o que ocorria. Tornou-se claro 
que, quando as bactérias patogênicas eram mortas pelo calor, suas células se 
rompiam, liberando diversas substâncias. Algumas dessas substâncias podiam ser 
absorvidas por bactérias vivas, desencadeando uma transformação genética. 
Figura 2 – Experimento de Avery e colaboradores 
 
33 
 
 
Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012. 
 
Portanto, a conclusão foi que o “agente transformador” era aquele presente 
no líquido contendo o DNA. Para corroborar essa hipótese, os cientistas purificaram 
o DNA da mistura, observando que esse DNA puro também tinha a capacidade de 
transformar a cepa não patogênica em uma cepa patogênica. Esses resultados 
forneceram evidências substanciais de que o material genético nas células vivas era 
composto por poderosos DNAs, não por proteínas. 
Com base nesses dados, Avery e sua equipe de pesquisa chegaram à 
conclusão de que o DNA era o material genético responsável pela transmissão de 
características entre os organismos. 
3.3.1 Desvendando o mistério: Watson e Crick 
Em 1953, James Watson (1928) e Francis Crick (1916) propuseram o modelo 
da estrutura de dupla hélice para explicar a organização tridimensional do DNA. Eles 
inferiram corretamente que a informação genética era codificada na forma de uma 
sequência de nucleotídeos na molécula de DNA. 
Figura 3 – James Watson e Francis Crick com seu modelo de DNA 
 
34 
 
 
Fonte: https://shre.ink/rNYl. 
O marco dessa descoberta inaugurou uma era de genética molecular na 
Biologia. Oito anos mais tarde, o código genético foi estabelecido. Descobriu-se que 
sequências específicas de trinucleotídeos (três sequências de nucleotídeos) 
geravam códigos para cada um dos 20 aminoácidos existentes, os quais formavam 
as proteínas. 
Com base nos dados de Rosalind Franklin e Maurice Wilkins, Watson e Crick 
publicaram um trabalho no qual propuseram uma estrutura hipotética do DNA. 
Posteriormente, pesquisas realizadas por muitos outros cientistas confirmaram a 
hipótese deles, e com base em relatórios e anotações posteriores encontrados no 
laboratóriode Rosalind Franklin, sabe-se que ela, provavelmente, dentro de alguns 
dias, chegaria à mesma conclusão. 
Por sua descoberta, Watson e Crick receberam o Prêmio Nobel em 1962, 
junto com Maurice Wilkins. Rosalind Franklin morreu em 1958, de câncer de ovário, 
em grande parte devido ao seu trabalho com raios-X. Muito provavelmente, ela teria 
sido incluída pelo comitê do Prêmio Nobel se estivesse viva na época. (ARAÚJO; 
MENEZES; COSTA, 2012). 
A estrutura proposta por Watson e Crick sugeria imediatamente que os genes 
passavam por replicação. De forma mais significativa, Crick sugeriu que as 
sequências de bases determinavam a sequência de aminoácidos das proteínas, e 
que a sequência de aminoácidos, por si só, determinava a estrutura tridimensional 
dessas proteínas. 
 
35 
 
Após a sua descoberta, Watson e Crick permaneceram em contato, mas 
seguiram caminhos distintos na ciência. Watson ingressou no corpo docente da 
Universidade de Harvard em 1955, onde se dedicou à pesquisa do papel do ácido 
ribonucleico (ARN) na síntese proteica. Em 1968, tornou-se diretor do Laboratório 
Cold Spring Harbor, em Long Island, Nova York, onde conduziu pesquisas em 
câncer, Biologia Molecular de plantas, Bioquímica Celular e Neurociência. Em 1989, 
foi nomeado diretor do Centro Nacional para Pesquisa do Genoma Humano e 
liderou um esforço global para sequenciar e mapear o genoma humano. 
Em 1961, Watson demonstrou que essa tradução envolve um código de três 
nucleotídeos, ou códon, abrindo portas para novas pesquisas que abrangem desde 
a biotecnologia até o estudo de doenças hereditárias, incluindo a impressão digital 
genética. 
3.4 Clonagem, transgênicos, células-tronco: o que mais vem por aí? 
A partir de 1953, quando Watson e Crick propuseram o modelo da estrutura 
do DNA, não se acreditava que o RNA pudesse transmitir informações genéticas. 
Então, em 1965, Howard Temin, professor de Oncologia da Universidade de 
Wisconsin, sugeriu que, em alguns vírus, o RNA poderia gerar moléculas de DNA, 
processo conhecido como transcrição reversa. 
Em 1970, enquanto estudava um vírus causador de leucemia em ratos, David 
Baltimore descobriu uma enzima capaz de copiar a informação genética para o DNA 
da célula hospedeira. Paralelamente, Temin identificou uma enzima semelhante no 
vírus do sarcoma de Rous, que infecta galinhas. Essas descobertas independentes 
levaram à identificação da enzima, agora conhecida como transcriptase reversa. Os 
vírus que utilizam esse método para modificar o DNA do hospedeiro são chamados 
de retrovírus. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
3.4.1 Pedaços de DNA independentes 
Em 1973, Stanley Cohen e Herbert Boyer demonstraram que fragmentos de 
DNA extracromossômico conhecidos como plasmídeos poderiam funcionar como 
vetores para manter genes clonados incorporados em bactérias. Eles evidenciaram 
que, ao fragmentar o DNA e combiná-lo com o DNA plasmidial, a molécula 
resultante de DNA recombinante poderia ser replicada ao ser introduzida nas células 
 
36 
 
bacterianas. Essa descoberta marcou um avanço significativo na engenharia 
genética, abrindo caminho para importantes desenvolvimentos científicos, como a 
modificação e clonagem de genes. 
Dessa forma, Stanley Cohen e Herbert Boyer conduziram uma das primeiras 
experiências em engenharia genética, tornando possível a construção de moléculas 
de DNA recombinante, compostas por segmentos de duas origens diferentes, até 
mesmo de dois organismos distintos. Com a disponibilidade dessas ferramentas, a 
engenharia genética e a biotecnologia tornaram-se viáveis. 
3.4.2 A biologia molecular altera a classificação dos seres vivos 
Antes da aplicação de técnicas moleculares, a classificação dos seres vivos 
passou por diversas alterações. Recorda-se da abordagem de Lineu no século XVIII, 
que classificava os organismos apenas nos Reinos Animal e Vegetal. O termo 
“Protista” foi introduzido por Haeckel em 1866, e em 1969, Whittaker propôs um 
sistema de classificação com cinco reinos, fundamentado principalmente em 
características morfológicas e fisiológicas: Monera (procariotos), Protista (eucariotos 
unicelulares e algumas algas), Fungi (eucariotos aclorofilados), Plantae (vegetais) e 
Animalia (animais). 
A partir dos estudos de Carl Woese em 1977, foi estabelecido um sistema de 
classificação baseado principalmente em aspectos evolutivos (filogenética), 
utilizando a comparação das sequências de RNA ribossomal de diferentes 
organismos. Com essa nova proposta de classificação, os organismos são agora 
subdivididos em três domínios (que incluem os cinco reinos), utilizando dados 
associados ao caráter evolutivo. De acordo com Woese, os domínios são: 
• Archaea: Procariotos 
• Bacteria: Procariotos 
• Eukarya: Eucariotos 
Carl Woese fundamentou seu sistema de classificação em moléculas, em vez 
de observar como os organismos agem ou em suas semelhanças fenotípicas. Essa 
mudança na abordagem de classificação, indo do fenótipo (taxonomia) para uma 
base genotípica, permitiu a Woese determinar as relações evolutivas (filogenia) entre 
as bactérias. 
 
37 
 
3.4.3 Era da genômica: a sequência do DNA é determinada 
Em 1972, Walter Fiers e sua equipe na Bélgica foram os pioneiros na 
determinação da sequência de um gene e, em 1976, conseguiram determinar a 
sequência completa do RNA do bacteriófago MS2. Em 1977, Walter Gilbert e Fred 
Sanger, de maneira independente, desenvolveram métodos para determinar a 
sequência exata do DNA. (ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
Gilbert determinou a sequência de um trecho do genoma bacteriano, 
enquanto Sanger e seus colaboradores utilizaram uma técnica para determinar a 
sequência de todos os 5.375 nucleotídeos do bacteriófago phi-X174, representando 
a primeira determinação completa do genoma de uma entidade biológica. Em 
reconhecimento a esses avanços, Paul Berg, que havia realizado a recombinação 
do DNA de um vírus com o de uma bactéria, juntou-se a Gilbert e Sanger no 
recebimento do Prêmio Nobel de Química em 1980 por seus trabalhos nessa área. 
Em 1995, ocorreu o primeiro sequenciamento do genoma de um organismo 
vivo, o Haemophilus influenzae. Desde então, uma extensa série de 
sequenciamentos de genomas de organismos unicelulares e pluricelulares tem sido 
realizada, contribuindo para a formação de bancos de dados genômicos com acesso 
público pela internet. 
É um site em inglês, mas nele você encontrará diversas sequências 
genômicas e outras informações sobre vários organismos que foram sequenciados, 
incluindo detalhes sobre o genoma humano. 
A produção da Insulina 
O método mais tradicional para obter insulina é por meio da extração desse 
composto a partir do pâncreas de bois e porcos. Embora a insulina proveniente 
desses animais seja semelhante à insulina humana e desempenhe a mesma função 
em nosso organismo, pode causar reações alérgicas em algumas pessoas, além de 
exigir um processo demorado para produção e purificação dessa substância. 
(ARAÚJO; MENEZES; COSTA, 2012). 
Atualmente, é possível utilizar bactérias para produzir insulina humana por 
meio de técnicas de engenharia genética. Isso envolve a introdução do gene da 
insulina humana no cromossomo bacteriano, como ilustrado de forma esquemática 
na figura a seguir. 
 
38 
 
Figura 4 – Esquema da produção de insulina pela técnica do DNA 
recombinante 
 
Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012. 
3.4.4 Sobre a clonagem 
O termo clonagem é amplamente utilizado na sociedade atual. A palavra 
“clone” refere-se a um grupo de indivíduos que originaram outros por meio de 
reprodução assexuada. 
Um marco significativo nesse contexto foi a clonagem da ovelha Dolly em 
1997, uma tecnologia que permite a obtenção de indivíduos geneticamente 
idênticos. Como o primeiro mamífero clonado, Dolly atraiu a atenção da mídia por 
um longo período e foi objeto de muitas controvérsias. Desde então, vários animais, 
incluindomacacos, bezerros e camundongos, foram clonados. Essa pesquisa é 
considerada um passo inicial na busca por uma solução para a escassez de 
doadores de órgãos. Para muitos cientistas, os esforços dedicados até o momento à 
clonagem de animais podem, no futuro, viabilizar a produção de órgãos que poderão 
ser transplantados para seres humanos sem risco de rejeição, o que certamente terá 
um impacto significativo na longevidade humana. Esse cenário abre caminho para 
diversas possibilidades, ao mesmo tempo que levanta debates éticos, sociais e 
morais. 
Figura 5 - A clonagem da ovelha Dolly 
 
 
39 
 
 
Fonte: Araújo; Menezes; Costa, 2012. 
Atualmente 
A ciência e a tecnologia são duas atividades intrinsecamente ligadas ao nosso 
dia a dia. A ciência está relacionada ao desejo humano de adquirir conhecimento, 
compreender, explicar ou antecipar fenômenos naturais. A tecnologia, por sua vez, 
se desenvolve em resposta às tentativas humanas de descobrir novas e melhores 
maneiras de atender às nossas necessidades, empregando conhecimento, 
ferramentas, recursos naturais e energia. 
Desde os tempos mais remotos, o ser humano produz pão e bebidas 
fermentadas, enquanto os Astecas cultivavam e consumiam algas provenientes de 
lagos. A partir do século XIX, com o avanço da ciência, testemunhamos notáveis 
progressos tecnológicos na área da Biologia. 
 
 
 
 
 
40 
 
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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Science, 37(1): 115, 1970. 
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