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Todos os direitos desta edição reservados a Pontes Editores Ltda. Proibida a reprodução total ou parcial em qualquer mídia sem a autorização escrita da Editora. Os infratores estão sujeitos às penas da lei. A Editora não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta publicação. C289l Carneiro, Bruno Gonçalves; Coura, Felipe de Almeida; Sousa, Aline Nunes de (org.). Língua Brasileira de Sinais: Linguística Aplicada, Educação e Descrição Linguística/ Organizadores: Bruno Gonçalves Carneiro, Felipe de Almeida Coura e Aline Nunes de Sousa; Prefácio de Sandra Patrícia de Faria do Nascimento. 1. ed. – Campinas, SP : Pontes Editores, 2023; figs.; quadros; fotografias. Inclui bibliografia. ISBN: 978-65-5637-898-5 – Ebook 1. Educação Inclusiva. 2. Ensino de Línguas. 3. Libras. 4. Surdez. I. Título. II. Assunto. III. Organizadores. Bibliotecário Pedro Anizio Gomes CRB-8/8846 Índices para catálogo sistemático: 1. Métodos de ensino, instrução e estudo. 371.3 2. Linguagem, Línguas – Estudo e ensino. 418.007 3. Outras linguagens que não as escritas e faladas – Linguagem de sinais. 419 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Tuxped Serviços Editoriais (São Paulo - SP) Copyright © 2023 - Dos organizadores representantes dos colaboradores Coordenação Editorial: Pontes Editores Editoração: Eckel Wayne Capa: Acessa Design Revisão: Yumi T. Melo Parecer e revisão por pares: Os capítulos que compõem este livro foram submetidos à avaliação e à revisão por pares e pelo Comitê Científico. Conselho Editorial: Angela B. Kleiman (Unicamp – Campinas) Clarissa Menezes Jordão (UFPR – Curitiba) Edleise Mendes (UFBA – Salvador) Eliana Merlin Deganutti de Barros (UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná) Eni Puccinelli Orlandi (Unicamp – Campinas) Glaís Sales Cordeiro (Université de Genève - Suisse) José Carlos Paes de Almeida Filho (UnB – Brasília) Maria Luisa Ortiz Alvarez (UnB – Brasília) Rogério Tilio (UFRJ – Rio de Janeiro) Suzete Silva (UEL – Londrina) Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva (UFMG – Belo Horizonte) PONTES EDITORES Rua Dr. Miguel Penteado, 1038 - Jd. Chapadão Campinas - SP - 13070-118 Fone 19 3252.6011 ponteseditores@ponteseditores.com.br www.ponteseditores.com.br SUMÁRIO PREFÁCIO ...................................................................................................... 7 APRESENTAÇÃO ........................................................................................... 19 PARTE I - Linguística Aplicada e Educação de Surdos CURRÍCULO NA EDUCAÇÃO DE SURDOS: MEMÓRIAS E PERSPECTIVAS ... 22 Sônia Marta de Oliveira GÊNEROS DISCURSIVOS AUTÊNTICOS PARA O ENSINO REFLEXIVO DE LIBRAS .. 43 Rodrigo Augusto Ferreira Carlos Roberto Ludwig Gabriela Otaviani Barbosa SIGNWRITING NA APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS ESCRITO: POR UMA ABORDAGEM BILÍNGUE PARA SURDOS ....................................................... 76 Daniele Miki Fujikawa Bózoli Marianne Rossi Stumpf A FORMAÇÃO ATUANTE DE MONITORES CODOCENTES DE INGLÊS EM UM CURSO DE EXTENSÃO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA SURDOS ...... 102 Aline Nunes de Sousa Igor Valdeci Ramos da Silva Karolyne Quarti Nicole da Cruz Rabello O ENSINO DE LIBRAS PARA CRIANÇAS OUVINTES NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA PESQUISA-AÇÃO ...................... 142 Danielle Vanessa Costa Sousa PERSPECTIVAS SURDAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: REPENSANDO POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NA ATUALIDADE .................................................................. 162 Felipe de Almeida Coura PARTE II - Descrição linguística da Libras ESTUDO TRANSLINGUÍSTICO DA ICONICIDADE LEXICAL POR MEIO DA ANÁLISE DE SINAIS QUE DESIGNAM CORES .............................................................. 195 Katherine Fischer André Nogueira Xavier CODE-SWITCHING ENTRE A LIBRAS E A LÍNGUA DE SINAIS VENEZUELANA (LSV): UMA ANÁLISE TIPOLÓGICA .............................................................. 229 Rodrigo Mesquita Alessandra Cruz O SISTEMA DE POSSE E O APAGAMENTO DO AGENTE NA LIBRAS ............ 250 José Ishac Brandão El Khouri CONJUNÇÃO IRREALIS NA LIBRAS: ACENO DE CABEÇA + MOUTHING JÁ .... 274 Thamara Cristina Santos Mônica Veloso Borges SINGULAR, PLURAL E DUAL NA LIBRAS ...................................................... 297 Melissa Maynara dos Passos Leal Bruno Gonçalves Carneiro GESTO, SINAL OU CLASSIFICADOR?: REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE LEXICALIZAÇÃO NA LIBRAS ......................................................................... 318 Bruno Gonçalves Carneiro SOBRE OS AUTORES ................................................................................. 349 7 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA PREFÁCIO A obra LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: Linguística Aplicada, Educação e Descrição Linguística, organizada por Bruno Gonçalves Carneiro, Felipe de Almeida Coura e Aline Nunes de Sousa emerge na diversidade, constituída por temas que abordam, principalmente, os surdos, sua educação e sua língua. Convidada a desenhar o perfil da obra neste prefácio, percebi, desde o primeiro momento, o esmero com que cada um dos autores se dedicou à tarefa de desenhar, com palavras, estudos que trazem reflexões relevantes ao estado da arte das pesquisas sobre as línguas de sinais e sobre a educação de surdos no Brasil. Para mim foi uma grande honra poder dedicar-me à leitura atenta de cada linha dos textos; comportei-me como numa avant-première de um grande evento. Um trabalho científico, por mais que esteja isento de emoções, reflete as descobertas e possíveis “crises” sobre como abordar e ana- lisar o tema, seja sob a pressão dos prazos, seja por outros motivos. Assim, voltando ao esmero deste trabalho, a palavra carinho toma assento neste contexto, como resgate que permeia os bastidores da composição de uma obra científica. E por que não falar sobre esse sentimento? Chegar à etapa final de uma obra envolve muitas tribulações, mas para não “perder a doçura” não podemos olvidar os muitos carinhos imbricados nesse processo. 8 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Precisamos nos lembrar daqueles que nos brindaram com reflexões que nos levam a viajar pela ciência das palavras, cons- truindo novas teorias com elas. Lidamos com as emoções dos que idealizaram a obra, dos que elegeram seus autores, dos que a escre- veram, dos que harmonizaram seus capítulos, com o rigor teórico, metodológico, didático, reflexivo e analítico que uma obra desta natureza merece. A primeira parte da obra, que trata da Linguística Aplicada e da Educação de Surdos, abre o debate, no capítulo 1, intitulado “CURRÍCULO NA EDUCAÇÃO DE SURDOS: MEMÓRIAS E PERSPEC- TIVAS”. Neste capítulo, Sônia Marta de Oliveira aponta ingerências na construção do currículo da educação de surdos, enquanto resgata a forma como esse currículo se constituiu ao longo dos anos. A autora aponta a busca incessante pela normalização dos surdos com a oferta curricular de disciplinas que priorizam o trei- namento da fala (oral), e revela um hiato entre o que é proposto e o que é executado pedagogicamente pelas políticas públicas edu- cacionais para a permanência dos estudantes surdos nas escolas. Sônia questiona a perpetuação de currículos que desconside- ram a especificidade linguística e cultural dos surdos e se reduzem a um único modelo para todos, apenas adaptado, a exemplo de Salamanca. Ao concluir, a autora destaca as conquistas históricas dos Mo- vimentos Surdos por uma educação que priorize a língua de sinais como língua de ensino e de aprendizagem escolar e instiga o leitor a conceber o currículo na diferença, sob o ponto de vista de uma pedagogia visual que assegure a compreensão dos conteúdos e a formação dos surdos como sujeitos políticos. No capítulo 2, intitulado “GÊNEROS DISCURSIVOS AUTÊN- TICOS PARA O ENSINO REFLEXIVO DE LIBRAS”, Rodrigo AugustoPolítica, V. 13, n. 1 (2022) DOI: http://dx.doi.org/10.5380/recp.v13i1.82698 SANTOS, A. R. Metodologia Científica: a construção do conhecimento. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. ZOTTI, A. S. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil? dos jesuítas aos anos de 1980. Campinas: Autores Associados, 2004. 43 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA GÊNEROS DISCURSIVOS AUTÊNTICOS PARA O ENSINO REFLEXIVO DE LIBRAS Rodrigo Augusto Ferreira Universidade Federal do Tocantins (UFT) Carlos Roberto Ludwig Universidade Federal do Tocantins (UFT) Gabriela Otaviani Barbosa Universidade Federal do Tocantins (UFT) Introdução A presente pesquisa intitulada “Gêneros discursos autênticos em Libras no Ensino Reflexivo de Libras” se justifica como uma proposta de estratégia de compreensão de Gêneros Discursivos (GD) em Libras por alunos surdos e ouvintes para a compreensão visual de gêneros em vídeo-registro na Libras. Em sua totalidade, eles estão presentes em todo o ambiente linguístico e níveis de ensino de leitura e escrita desde o ensino básico até o superior. Por isso, podem ser usados como estratégia de compreensão visual sinalizada de gêneros discursivos em Libras. Este trabalho se torna importante para a formação de professores de Libras em diversos níveis de ensino, com vários conteúdos utilizados, para estimular a compreensão de leitura e produção sinalizada de gêneros discursivos autênticos em sala de aula. 44 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA O objetivo deste capítulo é apresentar algumas estratégias de sequenciação de perguntas para Pré-compreensão, Compreensão e Pós-compreensão, voltadas para o ensino superior com os alunos surdos e ouvintes, no momento da sinalização visual de gêneros discursivos autênticos em Libras. Para tanto, faz-se necessário in- vestigar estratégias de compreensão de gêneros como postagem de redes sociais. Busca-se identificar as ideias principais e secundárias do gênero e as suas características discursivas, para a compreensão de novos gêneros discursivos em Libras para a comunidade surda brasileira, bem como para o desenvolvimento da produção sinali- zada. Além disso, foram observados relatos de experiência da for- mação de professores de Libras sobre o entendimento que tinham acerca da compreensão visual sinalizada, com base em entrevis- tas sinalizadas que envolviam a discussão sobre os gêneros vídeo sinalizados em Libras. Foram formuladas as seguintes perguntas: qual o nível de compreensão dos alunos dos gêneros discursivos em Libras? Como esses gêneros podem possibilitar aos alunos o desen- volvimento de habilidades de compreensão e produção sinalizada? Com base nos dados analisados, neste estudo de caso, buscamos compreender os fenômenos que mostram vantagens e desvantagens na compreensão visual sinalizada pelos alunos surdos e ouvintes. Para isso, são utilizados gêneros discursivos, em particular o gênero postagem de redes sociais sinalizado em Libras. Assim, a observação se dará com análise tanto da qualidade das competências linguísti- cas de conteúdos utilizados, quanto para desenvolver a capacidade crítica e reflexiva dos alunos surdos sobre qualquer tema. Esta proposta estabelece uma relação com as experiências reais de vida dos alunos surdos, na sua própria produção sinalizada, levando em consideração a sequenciação da leitura nos novos gêneros discur- sivos em Libras de forma crítica. 45 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Além dessas questões reflexivas, pretende-se apresentar uma proposta de estratégias de compreensão visual e produção sinali- zada para as práticas educacionais autênticas a partir do gênero discursivo. A proposta de estratégias de compreensão de Gêneros Dis- cursivos Autênticos em Libras possibilita que os alunos surdos e ouvintes desenvolvam competências e habilidades com vários conteúdos e gêneros utilizados nos níveis de ensino que, com a compreensão visual sinalizada, aprimora a sua produção sinalizada. O aluno, quando compreende vídeo-sinalizados, consegue entender a discussão sobre características linguísticas, estruturais, temáticas e de estilo do gênero discursivo estudado. Proposta de estratégias de compreensão e produção visual/ sinalizada em vídeo-registro em Libras Figura 1 - Nós estamos juntos Fonte: AMORIM, A. O. NÓS ESTAMOS JUNTOS. Instagram, 2020. Disponível em: . Acesso em: 09 ago. 2020. about:blank 46 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A figura 1 apresenta a postagem de rede social no Instagram, a qual selecionamos para a proposta de estratégias de compreensão sinalizada. Esta postagem de rede social é sinalizada em Libras por uma mulher surda e apresenta legenda em português. A temática abordada é a violência contra a mulher. Neste contexto, apresentamos abaixo uma proposta de estra- tégia de compreensão de vídeos em Libras, a partir da proposta de Richter (2005), autor da área de linguística para o ensino de leitura. A proposta de Richter (2005) não é voltada especificamente para as línguas de sinais, mas é possível refletir como seu estudo também pode ser aplicado ao tema aqui apresentado. Pré-compreensão visual/sinalizada A pré-compreensão (pré-leitura para Richter) engloba um conjunto de atividades que são desenvolvidas, antes da leitura/ compreensão do gênero estudado, para facilitar a compreensão do aluno. Richter (2005, p. 16-17) apresenta algumas estratégias de leitura que foram adaptadas à pré-compreensão visual/sinalizada: • Mobilização de conhecimento prévio; • Geração de expectativas; • Construção de conceitos-chave e seu vocabulário; • Brainstorming (os alunos apresentam ideias que eles lembram sobre o tema); • Uso de tabelas, gráficos e figuras; • Pesquisa em vídeos na internet. Na pré-compreensão sinalizada, o professor pergunta aos alunos se já conhecem o tema que vão discutir; lembra o seu co- nhecimento prévio; cria expectativas a partir de figuras, teatro, vídeo. Também pode trabalhar com o vocabulário sobre o tema do 47 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA gênero que será discutido. Por exemplo, se o professor apresentar um vídeo sobre a violência contra a mulher, no gênero postagem de redes sociais; pode perguntar aos alunos o que eles conhecem sobre esse assunto, também se sabem fazer uma denúncia sobre a violência contra a mulher. Além disso, o docente pode apresentar o vocabulário novo ou algumas expressões que vão ser sinalizadas no vídeo. Pode mostrar figuras ou imagens (flashcards), para estimular a discussão e ativar o conhecimento prévio. Compreensão visual/sinalizada A compreensão visual/sinalizada engloba a compreensão do gênero discursivo a partir de perguntas e atividades propostas pelo professor. Por exemplo, pode focar nas ideias principais e secun- dárias do gênero, ou em perguntas mais focadas em gramática e vocabulário. A partir da proposta de Richter (2005, p. 17-18), apre- sentamos agora uma proposta de compreensão visual/sinalizada. Para delimitar as ideias principais e características discursivas, Richter (2005, p. 17) propõe: • Delimitar as ideias principais do texto e as ideias secundárias a partir do inventário anterior; • Estabelecer o objetivo geral do gênero discursivo; • Estabelecer a imagem do leitor-alvo; • Levantar a estrutura básica do gênero discursivo, incluindo a rela- ção verbal-icônica, a diagramação, o suporte ou veículo, o contexto; • Estabelecer a ordenação e articulação de ideias principais; • A estruturação das ideias principais, suas ideias-suporte, as mú- tuas relações lógico-semânticas entre as ideias; • O desdobramento das funções principais, suas funções-suporte, as mútuas relações entre as funções; • As relações entre ideias,funções e formas — inclusive na articu- lação explícito-implícita; • A construção dos sentidos na microestrutura do gênero discursivo, inclusive coesiva e lexical. 48 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Nesse momento da compreensão visual/sinalizada, o pro- fessor faz perguntas específicas sobre o gênero discutido para compreender e discutir as ideias principais e secundárias. Por exemplo, se o gênero apresenta a temática da violência sobre a mulher, o professor faz perguntas para ajudar o aluno a entender o conteúdo da sinalização. Então, as perguntas do gênero abor- dado não podem dificultar a compreensão do aluno, mas são uma “chave” de leitura ou uma entrada de compreensão para o gênero discursivo sinalizado. Também pode criar atividades para o en- sino da competência comunicativa com base nos elementos que aparecem no gênero estudado. Pós-compreensão visual/sinalizada A pós-compreensão envolve atividades de reflexão, debate e produção de novos Gêneros Discursivos a partir do gênero e da temática discutida. Com base na proposta de Richter (2005, p. 17), adaptamos para o ensino de libras as seguintes estratégias: A. Para a compreensão visual/sinalizada — trabalhando re- flexivamente • Estratégias retóricas; • Interfaces socioculturais; • Perspectivas ideológicas. B. Para a produção sinalizada — revendo criticamente • Relações gênero-contexto; • Subdivisões do gênero discursivo; • Coesão lógica e referencial, e coerência; • Modalizações e posicionamentos; • Adequação de norma e de convenções gráficas. 49 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Richter apresenta duas propostas de pós-compreensão. A primeira foca na discussão e a segunda foca na produção de novos Gêneros Discursivos. Por exemplo, se o professor trabalhou com um gênero postagem de rede social sobre violência contra a mulher, ele pode propor um debate com a turma sobre esse tema com pergun- tas criadas por ele ou pelos alunos. A turma discute as questões e depois apresenta e debate coletivamente. O professor pode propor uma discussão sobre a violência contra a mulher, quais as causas e consequências. Os alunos podem produzir o gênero postagem de rede social com uma proposta para ser divulgada nos meios de denúncia da violência contra mulher. O professor pode também propor que os alunos façam uma entrevista com outros alunos Surdos e ouvintes sobre a temática “violência contra a mulher”. Os alunos vão entrevistar outros alunos fora da sala de aula (pode ser atividade extraclasse). Na aula seguin- te, eles apresentam os resultados da entrevista e discutem-os com a turma. Em seguida, podem sinalizar em vídeo um resumo com os resultados da entrevista. Metodologia Este trabalho foi feito por meio de um estudo de caso de cunho qualitativo. O objetivo foi investigar a coleta de dados e usar instrumentos estruturados e métodos específicos, para verificar se os docentes usam estratégias de compreensão e explicação de Gêneros Discursivos, no ensino dessa língua em um curso superior de formação de professores surdos de Libras. Conforme Yin (1994, p. 10), o estudo de caso é uma pesquisa caracterizada por um con- junto de outros tipos de investigação. De fato, estudos de caso são uma estratégia de investigação separada que tem os seus próprios planos de investigação. 50 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA O nosso instrumento de coleta de dados consiste em entrevista e em filmagem de professores surdos. Na elaboração da filmagem, foram investigados os dois professores surdos efetivos do curso de Letras: Libras da Universidade Federal do Tocantins (UFT) do campus Porto Nacional. Os dois professores surdos da pesquisa são: professor A, gra- duado em Administração (bacharelado) e mestre em Letras pela UFT, residente em Palmas-TO; e professor B, graduado em Letras: Libras (licenciatura) e mestre em Letras pela UFT, residente em Palmas-TO. As participações do professor A e do professor B, que são surdos, aconteceram de modo virtual, em tempo de pandemia e foi utilizado o recurso de videochamada pelo Zoom, com gravação de vídeo. Foi-lhes perguntado, no momento de entrevista, em Libras, acerca da experiência em ministrar as disciplinas que envolvem o aprendizado de Libras, no contexto do ensino superior, especifica- mente nas disciplinas de Libras no curso de Letras Libras. Foi utilizada a câmera do notebook, modelo Macbook, para gravar e registrar os professores surdos, que se expressaram direta- mente em Libras. Em seguida, assistimos as gravações e realizamos traduções livres para o português. Discussão e resultados Os dados coletados na pesquisa qualitativa foram analisados e foi possível perceber os caminhos adotados para o uso e produção sinalizada de Gêneros Discursivos em Libras em sala de aula. Or- ganizamos oito questões diferentes. Os professores surdos da UFT descreveram os relatos das suas vivências na universidade a partir das seguintes questões: 51 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA 1) Você já usou redes sociais como Facebook, WhatsApp e outras para apresentar vídeos e discutir algum tema na aula do curso de Letras Libras? 2) Você já pediu aos alunos que filmassem vídeos em Libras nas suas aulas? 3) Às vezes, você achou um vídeo nas redes sociais e considerou que seria muito importante aos alunos e já o utilizou para discussão em aula? 4) Você já teve a experiência de ensinar, na aula de Libras, Gêneros Discursivos em Libras, Letramento Crítico e ensino comunicativo? 5) Você acha importante trabalhar com vídeos nas aulas de Libras? Por quê? 6) Você já pediu para os alunos pesquisarem vídeos e fazer trabalhos em suas aulas? 7) Você já criou material didático a partir de vídeos autênticos coletados nas redes sociais? 8) Com que frequência você utiliza a estratégia de buscar os vídeos de redes sociais para dar aula no curso de Letras Libras? Basicamente, foram essas as questões utilizadas para obter as narrativas dos professores. Eles apresentaram detalhes das suas experiências, suas opiniões, visando desenvolver o ensino de Libras. Assim, poderá ser melhor a aprendizagem da Libras, no tocante ao uso dos Gêneros Discursivos em Libras, como material didático em sala de aula. Para discutir os dados obtidos das entrevistas, todas realizadas em Libras, foi feita uma tradução para o português, que transcre- vemos, a seguir, em itálico. Em seguida, foram feitos comentários 52 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sobre as respostas dos professores surdos universitários. Os trechos em itálico expressam as próprias narrativas dos professores surdos e as considerações dos pesquisadores. Na análise dos dados, consideramos os gêneros discursivos autênticos em Libras que podem ser ensinados com base em estra- tégias de pré-compreensão, compreensão e pós- -compreensão da leitura dos alunos surdos e ouvintes. Na aná- lise de discussão escolhida, há os relatos de experiências no ensino superior, que descrevem os motivos do uso de vídeos autênticos nas redes sociais como estratégias para a sala de aula na aprendizagem dos alunos. A primeira pergunta questiona: Você já usou redes sociais como Facebook, WhatsApp e outras para apresentar vídeos e discutir algum tema na aula do curso de Letras Libras? Tradução de professor A: Já, por exemplo, achei um vídeo de rede social importante cujo título foi incorporação à Libras porque tem relação com a disciplina Libras 4. Tradução de professor B: Sim, já. Lembrei-me da disciplina Tópi- cos de Conversação em Libras, cujo objetivo é praticar a produção em Libras, porque alguns alunos não estavam interagindo com os outros. Estimulei que eles trabalhassem juntos em grupo, para trocar ideias e informações, porém coloqueios temas do conteúdo, o que os alunos queriam discutir sobre esses temas importantes, se tinham interesse sobre o surdo-cego, Passe Livre Federal, Implante Coclear e pensão, por exemplo. As questões são muito importantes e estimulam a discussão. Lembrei-me de um vídeo polêmico de um surdo que postou no Facebook e deu opinião pública sobre o cartão do passe-livre dos surdos e também pensão, porque ele queria discutir a questão da igualdade dos surdos com os ouvintes, mas, na sua opinião, não queria que cortassem passe- 53 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA -livre e pensão. Então, fez uma crítica sobre isso. Por isso, eu discuti com os alunos e eles entre si, aproveitando para praticar a língua de sinais. Além disso, eles puderam se descontrair e perder o nervosismo. Eles se envolveram na discussão. Eles queriam discutir e entender em língua de sinais. Às vezes, se esses temas estão disponíveis nas redes sociais como Facebook ou YouTube, eu os aproveito, porque são bons exemplos (para as aulas). No entanto, não apresentei fotos e vídeos, porque não há autorização dos direitos autorais. Prefiro os vídeos de YouTube, porque são seguros, pois eu tinha que fazer termos de consen- timento para permitir o direito das imagens e expressar uma opinião. Todos os informantes afirmam que já utilizaram gêneros em vídeo-registro em Libras. No entanto, não dá para saber com precisão a frequência com que eles utilizam. Pela resposta dada, o professor B usa Gêneros Discursivos em Libras com mais frequência. Em outros momentos da entrevista, o professor A parece que usa gêneros com certa frequência. O professor B usa mais gêneros em Libras com te- mas polêmicos, a fim de incentivar a consciência e reflexão crítica dos alunos, em sala de aula, no uso de gêneros em Libras autênticos que devem ter relação com o mundo em que os alunos vivem, para que fa- çam escolhas livres, para desenvolver a cidadania e o empoderamento. Como se percebe, os professores têm consciência de que é importante o uso de gêneros sinalizados em sala de aula, confor- me Lebedeff e Santos (2014) já pontuaram sobre essa importância. Segundo essas autoras, o uso de gêneros autênticos em Libras é importante para desenvolver a comunicação e estabelecer relação significativa com a vida e experiência dos alunos. Dessa forma, é possível desenvolver o Letramento Crítico1 e o Ensino Comunicativo de forma autêntica para os alunos. 1 O letramento crítico incorpora a noção de discursos ou sistemas discursivos como “formas institucionalizadas de pensamento [que] definem o que pode e o que não pode ser dito a respeito de um determinado tópico” (ANDREOTTI, 2006, p. 17), frutos da interseção dos sujeitos e do contexto sociopolítico em que se inserem, e a partir dos quais constroem significados (MATTOS; VALÉRIO, 2010, p. 139). 54 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA É importante destacar que o professor B escolhe temas polêmi- cos e questões ideológicas para que os alunos se tornem profissio- nais com consciência crítica. Assim, também, podem se tornar cida- dãos críticos que são valorizados e com potencial para se posicionar quanto às questões polêmicas e ideológicas. Consequentemente, podem agir contra formas de opressões, como o racismo, homofobia, sexismo, relações de poder e de classe, xenofobia e outras formas de discriminação e exclusão social. Neste contexto, há produção sinalizada de Gêneros Discursivos em Libras em sala de aula com sua autonomia, empoderamento e aprendizagem da Libras. A segunda pergunta questiona: Você já pediu para os alunos filmarem vídeos em Libras nas suas aulas? Tradução de professor A: Já pedi que alunos fizessem os trabalhos para me enviar formalmente no e-mail e não aceitei que eles me envias- sem no WhatsApp. Se acontecesse alguma coisa, havia como comprovar por meio do e-mail. Então eles já enviam todos os vídeos sem nada escrito e, porque têm relação com a disciplina Libras 4, combinei que não iríamos utilizar a forma escrita. Tradução de professor B: Sim, depende de tempo, quando dei aulas, anteriormente, pedi atividades para todos os alunos surdos e ouvintes, pedi que eles me enviassem só no meu e-mail e não no Whatsapp, pois poderia causar confusão e, se o aluno não tinha tempo de enviar no e-mail tinha que me entregar no pen-drive. Quando alunos queriam discutir sobre a gramática da Libras, terminavam a aula e me envia- vam os vídeos que eu guardava. Depois apresentava cada vídeo dos seus trabalhos para discutir com eles, que iam percebendo como é a gramática da Libras, que depende de tempo. Como atividades de produção em Libras, os professores sempre pedem que os alunos façam produções em Libras. O professor A pe- 55 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA diu para gravar vídeos sem a utilização do português como apoio. O professor B afirma que já utilizou atividades de filmagem em Libras com seus alunos. É interessante observar que esse professor utiliza os vídeos para discutir aspectos da gramática da Libras. Ele usa gêneros em Libras, mas não é claro se emprega esses gêneros com enfoque comunicativo e na perspectiva do Letramento Crítico. Às vezes, pode acontecer de utilizarem o “texto como pretexto” para o ensino de gramática e vocabulário, o que pode não refletir um ensino da perspectiva do Letramento Crítico. É importante destacar que todas essas atividades de produção, que os professores desenvolvem, parecem que não estão ligadas, em um primeiro momento, a uma sequência de entender e discutir os Gêneros Discursivos em Libras e seus temas, para depois realizar a produção em Libras. É claro que a falta de materiais didáticos e de pesquisas em Libras de como se pode abordar o ensino de Gêneros Discursivos em Libras dificulta o trabalho dos professores. Tam- bém a carência de formação continuada de professores, com foco no trabalho com Gêneros Discursivos em Libras, bem como Ensino Comunicativo e Letramento Crítico, faz com que os professores ajam de forma mais intuitiva, testando possibilidades em sala de aula que podem ou não funcionar. A proposta de Richter (2005), adaptada para esta pesquisa, mostra possibilidades de se abordar os Gêneros Discursivos nas etapas de Pré-compreensão, Compreensão, Pós-compreensão e Produção em Libras. Elas possibilitam que determinados gêneros e temas possam ser ensinados e discutidos em aula, permitindo uma sequenciação contextualizada: num primeiro momento, a ativação do conhecimento prévio (Pré-compreensão), passando pela compreensão sistemática do gênero (Compreensão) e o debate sobre a temática do gênero estudado, estabelecendo relação com a experiência de vida dos alunos (Pós-compreensão), chegando, finalmente, à Produção em Libras. 56 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A proposta de Anne Burns (2001) também pode contribuir para o ensino de Libras na perspectiva de gêneros. Inicialmente, o professor apresenta para discussão o gênero (modelagem); depois a turma toda faz uma produção conjunta (negociação conjunta do gênero); por fim, os alunos trabalham individualmente com a ajuda do professor (construção independente). Essa proposta pode ser adaptada para o ensino de Libras com enfoque nos Gêneros Discursivos. Além disso, a proposta de sequência didática de Dolz, Noverraz, Schneuwly (2004) pode ser uma alternativa, para que o professor trabalhe com um único gênero discursivo em sala de aula de forma aprofundada, com ênfase na compreensão e produção desse gê- nero. Da mesma forma, os projetos de letramentos, discutidos por Kleiman, Ceniceros e Tinoco (2013), possibilitam que o professor trabalhe com diversos gêneros do discurso com foco no Letramento Crítico e Ensino Comunicativo. Ambas as possibilidades permitem que Gêneros Discursivos sejam ensinados, numa sequênciade aulas contextualizadas, na perspectiva do Letramento Crítico e do Ensino Comunicativo. Outro ponto relevante dessas propostas é o protagonismo dos alunos em sala de aula. Elas permitem desenvolver a autonomia, empoderamento e aprendizagem da Libras de forma que os alunos se sintam envolvidos no processo e na dinâmica em sala de aula. A questão contextual coloca em foco o papel dos alunos, bem como suas experiências, expectativas e seus anseios que são levados em consideração no momento da tomada de decisões sobre o que deve ser ensinado em sala de aula. Por isso, é importante desenvolver a pesquisa com Gêneros Discursivos, Ensino Comunicativo e Letramento Crítico, para que os docentes tenham acesso a pesquisas e formações de qualidade que contribuam para sua prática em sala de aula. Além disso, é ne- 57 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA cessária a criação e publicação de materiais didáticos que abordem o Ensino Comunicativo com Gêneros Discursivos numa perspectiva do Letramento Crítico. A terceira pergunta questiona: Às vezes, você achou um vídeo nas redes sociais e considerou que seria muito importante para os alunos e já o utilizou para discussão em aula? Tradução de professor A: É importante, é óbvio. Em uma disciplina, lembro-me de um tema que você conhece, um vídeo de duas gêmeas (divulgado nas redes sociais). Há a estratégia de que elas usam, uma à frente e a outra atrás e sinalizam sobre um acidente de carro. É um exemplo lá da Suécia e traz uma mensagem. Elas utilizam a incorpora- ção, e o aluno vê e incorpora, mas também há uma mensagem de que não se pode usar celular no trânsito. Então, não pode haver excesso de velocidade no trânsito e usar o celular. Assim, há uma mensagem que traz informações sobre a conscientização no trânsito. É importante unir essa história e sua mensagem com o tema incorporação na Libras. Tradução do professor B: Já fiz, quando busquei o vídeo de um ho- mem americano que expressou mímica e mistura em Cacicado, isso foi possível para uma nova turma ouvinte como iniciante, alunos tentaram entender o que ele falou. Se não entendessem eles faziam anotações sobre o vídeo, eles praticam mais em Libras, quando pausamos o vídeo para entender, assim, como pausamos ao ler um texto, depois voltávamos a assistir. Então eles conseguem perceber, entender-se. Anotavam e assistiam de novo ao vídeo estabelecendo comparações e entendendo os sinais que desconheciam. É muito bom e ajudou muito no desenvolvimento da Libras. Em relação a essa pergunta, todos os professores afirmaram que é importante o emprego de Gêneros Discursivos em Libras, em sala de aula, assim como afirmam que já utilizaram, de alguma 58 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA forma, gêneros sinalizados para o ensino de Libras. Fica evidente que todos têm a percepção da importância do ensino de gêneros em Libras. No entanto, os objetivos de ensino variam naturalmente: o professor A enfatiza que os alunos podem se acostumar com a variação linguística que é inerente a todas as línguas, pode ser um estímulo para que os alunos aprendam mais a Libras; o professor B relata sua experiência com um gênero em língua de sinais com forte componente gestual para alunos ouvintes iniciantes. A estratégia adotada foi tomar notas e ver os gêneros diversas vezes para que facilitasse a compreensão. Além disso, enfatiza a importância de se conhecer pontos de vista de pessoas diferentes. Nesse sentido, Lebedeff e Santos (2014) discutem as vantagens do uso de Gêneros Discursivos, sinalizados na aula de Libras para o Ensino Comunicativo, com a discussão e produção de curta-me- tragem para o desenvolvimento da fluência na Libras. No entanto esses mesmos autores chamam a atenção para o fato de que o uso de gêneros em Libras não determina a metodologia de ensino do professor. Contudo o uso desses gêneros foi como pretexto para o ensino de fonologia, em particular, os parâmetros da Libras. Nesse sentido, faz-se necessário que o uso de Gêneros Discursivos no ensino de Libras seja autêntico e relevante para o contexto de en- sino. Além disso, a adoção de uma metodologia de ensino, como o Ensino Comunicativo, deve ser primordial para o bom desempenho nas aulas de Libras. Segundo as autoras, há toda uma dinâmica e diferenças nas salas de aula, em que o professor atua, que influen- ciam na metodologia de ensino, a recepção da turma e a diversidade cultural que cada aluno traz de seu contexto de vida. A quarta pergunta questiona: Você já teve experiência de en- sinar na aula de Libras Gêneros Discursivos em Libras, Letramento Crítico e Ensino Comunicativo? 59 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Tradução de professor A: Você me perguntou se já ensinei em alguma disciplina esses três conteúdos: Letramento Crítico, Gênero Discursivo e Ensino Comunicativo. Já ensinei esses três itens nas disciplinas. Já ensinei na disciplina de estágio sobre esses temas e também em outras disciplinas do segundo período. Esses temas são muito importantes de serem articulados no ensino para que os alunos aprendam. Tradução de Professor B: Conheço esse conceito Letramento Crítico, mas ainda não pesquisei sobre isso. Já desenvolvi muito nas aulas realizadas muitas vezes. Sempre apresentei perspectivas dos autores com diferentes visões, eu e os alunos criticamos e discutimos alguma coisa já nas disciplinas de Morfossintaxe e Conversação em Libras. Na disciplina Fonologia e Fonética também realizei discussões e comparação com outras línguas indígenas. Apresentei o autor que criticou contra outro autor e são muito diferentes de visões famosas, alguns alunos defendem essa ideia e outros discordam. Dou aula no PARFOR, lembrei-me da disciplina Metodologia de Formação de Professores e alguns alunos já fazem muito o método tradicional. Primeiro item que esqueci? Na disciplina Conversação de Libras, já realizei desenvolver nas aulas alunos treinando que são mais fluentes em libras, para perceber o jeito de cada surdo, se fala mais difícil ou devagar, fácil. A Libras tem diversos GT aspectos, depende desse conceito, apresentei política em Libras, seria difícil de compreender ou não, por exemplo, estimulei os alunos que acham treinar mais difícil, também dentro da justiça, que alunos treinarão desafios em Libras, por exemplo. Contei coisas engraçadas, lembrei-me de quando fiz o curso de instrutor de 1 até 4 módulos, ensinei mais o método tradicio- nal, porque eu não tinha consciência e não tinha experiência. Depois ingressei no curso de Letras Libras que me ajudou a ter consciência para compreender, então, é melhor o Ensino Comunicativo e evito fazer o método tradicional. 60 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A pergunta quatro questiona se os docentes já desenvolveram o ensino de Libras com o enfoque comunicativo dos Gêneros Discur- sivos e Letramento Crítico. O professor A informa que já trabalhou com Gêneros Discursivos, Letramento Crítico e Ensino Comunica- tivo nas aulas de Libras. O professor B explica que já desenvolveu práticas de ensino com Letramento Crítico, Gênero Discursivo e Ensino Comunicativo, mas não parece ter muita clareza sobre o Letramento Crítico. Como se observa, há um esforço dos professores em utilizar Gênero Discursivo, Letramento Crítico e o Ensino Comunicativo em suas aulas. No entanto, ainda falta desenvolver pesquisas vol- tadas para práticas de ensino nas perspectivas de gênero, Letra- mento Crítico e Ensino Comunicativo. Assim também, a formação continuada de professores deve ser desenvolvida para que possam ensinar a Libras de forma que envolva essas perspectivas adotadas nesta pesquisa. De acordo com Gesser (2012), é importante que o ensino de Libras adote práticas comunicativas autênticas que promovam o desenvolvimento da fluênciaem Libras. Nesse sentido, importa ter clareza dos papéis do professor e do aluno quanto ao método comunicativo, conforme descrito por Richard e Rogers (1999). Além disso, os materiais didáticos podem desempenhar um papel central no ensino de Libras, mas infelizmente há poucos materiais disponíveis e, muitas vezes, o professor tem que criar seu próprio material. Pode-se criar materiais didáticos, a partir das propostas de sequências didáticas de Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) e dos projetos de letramento, na proposta de Kleiman et al. (2013). A quinta pergunta questiona: Você acha importante trabalhar com vídeos nas aulas de Libras? Por quê? 61 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Tradução de Professor A: Muito importante, porque os alunos pre- cisam ter consciência. Por exemplo, se eu observar a Libras e um aluno meu filmar minha sinalização, pode haver outra pessoa que percebe as variações linguísticas. Isso me desafia. Se eu sinalizo e outro surdo não entende, como eu posso sinalizar para ele entender. Se não entende, é necessário praticar a variação linguística. Tradução de Professor B: Depende dos vídeos, tem duas coisas: primeiro, os alunos têm que estudar mais sobre a gramática da Libras melhor, porque eles vão descobrir novas informações; se professor os ajudar sempre, não desenvolvem nada, eles têm que ter desafios para desenvolver uma pesquisa, eles podem entender diferentes gramáti- cas das línguas e outras questões. Se for quem é estudante de Letras, ouvinte tem que praticar a Libras e também expressar-se em vídeos, para evitar a extinção da Libras, se o aluno faltou à aula e já esqueceu algo do conteúdo do que imagina. Pedi para eles criarem um grupo de WhatsApp para trocar ideias só em Libras e nada em português. Por isso, eles têm contato em Libras todos os dias. Em relação a essa pergunta, os professores afirmam que é importante o ensino de Gênero Discursivo em vídeo nas aulas de Libras. O professor A destaca que ensinar Libras, sem o apoio de vídeos na língua de sinais, impossibilita o aprendizado. Além disso, enfatiza que os gêneros sinalizados promovem o aprendizado, bem como o conhecimento de variações linguísticas na Libras. O pro- fessor B enfatiza que é importante aprender a gramática da Libras. Além disso, o uso de grupos de WhatsApp com vídeos só em Libras é uma estratégia de incentivar a comunicação fora da sala de aula. É importante destacar que há uma preocupação dos docentes em ensinar aspectos gramaticais e variações linguísticas da Libras em sala de aula. De acordo com Nunan (2001, p. 191), há uma visão tradicional do ensino de gramática que supõe que seu ensino deve 62 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA acontecer de modo linear, em que um item deverá ser ensinado de cada vez. Dessa forma, os alunos devem dominar um item gramatical de cada vez para aprenderem outro item gramatical. Essa perspec- tiva, metaforicamente, refere-se a um modelo de gramática, como a “construção de um muro”: cada item gramatical corresponde a um tijolo que deve ser colocado na sequência correta (NUNAN, 2001, p. 191). Segundo Nunan (2001, p. 191), a tarefa do aluno é aprender os “tijolos linguísticos na ordem correta: primeiro os tijolos das pa- lavras, depois os tijolos das orações”. Se o aluno não tiver domínio de algum item gramatical ou “se os ‘tijolos’ estiverem colocados de forma incorreta, o muro cairá em sua própria agramaticalidade” (NUNAN, 2001, p. 191). Em contrapartida, Nunan (2001) faz uma proposta de uma abordagem “orgânica”. Ao observar como os alunos aprendem as estruturas gramaticais, Nunan (2001) conclui que não há uma ordem correta ou tempo específico para o aluno assimilar essas estruturas. Segundo ele, o aluno tem contato diário, no ensino de línguas, com diversos itens gramaticais, que eles devem entender e usar funcionalmente. Para o autor, o domínio de uma determinada estrutura gramatical é “instável, parecendo que aumenta e decai em diferentes momentos durante o processo de aprendizagem” (NU- NAN, 2001, p. 192). Alguns itens gramaticais tendem a “deteriorar temporariamente”, enquanto os alunos estão aprendendo outro item gramatical (NUNAN, 2001, p. 192). Na perspectiva de Nunan (2001), em vez de adotar um modelo de ensino de gramática, como se estivesse “construindo um muro”, deveríamos pensar num modelo orgânico: como se estivéssemos “cultivando um jardim”. Na proposta de Nunan (2001): Dessa perspectiva, os alunos não aprendem uma única coisa perfeitamente, um item de cada vez, mas várias coisas simultaneamente e de forma imperfeita. As flores 63 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA linguísticas não aparecem todas ao mesmo tempo, nem todas crescem na mesma proporção. A taxa de cresci- mento é determinada por uma complexa interação de fatores relacionados a restrições de processamento da fala, intervenções pedagógicas, processos de aquisição e a influência do ambiente discursivo em que os itens ocorrem (NUNAN, 2001, p. 192). Nesse sentido, os alunos aprendem diversos itens gramaticais ao mesmo tempo que serão assimilados com o passar do tempo e de acordo com o uso que eles fazem no seu dia a dia. Portanto, em vez de ensinar um item gramatical por vez, o professor poderia enfatizar as diversas formas linguísticas com as quais o aluno tem contato diariamente em Gênero Discursivo, bem como ensinar a entender quais os sentidos e as funções que desempenham em determinado gênero discursivo. Nessa perspectiva, Brown (2001) faz a distinção de ensino de gramática com “foco na forma”, em que um único item por vez é ensinado, em contraposição ao “foco nas formas”, em que vários itens gramaticais podem ser ensinados, dependendo do contato que o aluno tem em diversos gêneros estudados. Assim, a preocupação excessiva com o ensino de gramática pode levar a abordagens mais tradicionais de ensino de língua, enquanto a comunicação pode ficar em segundo plano. Além disso, Mattos e Valério (2010) destacam que o Ensino Comunicativo deve ser permeado pelo Letramento Crítico. Para as autoras, o Letramento Crítico possibilita a inclusão do sujei- to no mundo, por meio do conhecimento dos diversos aspectos linguísticos e socioculturais que constituem a sociedade. Além do mais, o Ensino Comunicativo aliado ao Letramento Crítico possibilita o desenvolvimento da consciência, para que o aluno reflita criticamente sobre sua realidade, posicionando-se sobre 64 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA aspectos ideológicos e relações de poder. Portanto o ensino de Gênero Discursivo em Libras, aliado ao Ensino Comunicativo e ao Letramento Crítico, propicia a formação crítica dos sujeitos que integram a comunidade Surda. Nesse sentido, conforme Lebedeff e Santos (2014) discutem, o uso de gêneros autênticos favorece o desenvolvimento da apren- dizagem de forma contextualizada. Se considerarmos que a lingua- gem permeia todos os aspectos da vida humana, conforme destaca Bakhtin (1997), o uso de Gênero Discursivo em Libras possibilita que o professor aborde uma diversidade de usos da língua em contextos autênticos. Portanto, o ensino de gêneros sinalizados em sala de aula leva em conta a língua como uma prática social (BAKHTIN, 1997), bem como possibilita uma abordagem de Ensino Comunicativo e a promoção do Letramento Crítico. A sexta pergunta questiona: Você já pediu para os alunos pes- quisarem vídeos para fazer trabalhos em suas aulas? Tradução de Professor A: Já, lembrei-me da disciplina Libras V ou VI, pedi para eles fazerem uma pesquisa sobre metáfora em Libras. Então eles buscaram alguns vídeos nas redes sociais que tivessem relação com esse tema. Quando íamos discutir na aula sobre o tema metáfora, eles já apresentavam alguns vídeos e davam sua opinião. Alunos relataram que foiuma experiência positiva, porque não conheciam muito sobre esse tema. Ajudou muito no desenvolvimento de aprendizagem. Tradução de Professor B: Já sim, quando pedi um trabalho com uma lista dos temas em gênero textual, sobre a relação entre a formalidade e informalidade em Libras. E também pedi o enquadramento do fundo de imagem, mas não fiz questões de atividade, só dei os temas para eles, que queriam escolher esses temas seguindo jornal, literatura surda etc… A lista dos temas que fiz numa tabela: de um lado formal, abaixo informal, para eles lerem e fazerem pesquisas em vídeos no YouTube, 65 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA fazendo relações de acordo com essa tabela e, também, eles deviam pegar todas as fontes. Lembrei-me da dissertação de um Surdo que ele fez relacionado a isso. Achei muito legal, porque ajudou os alunos a verem vários gêneros em Libras. E também fiz orientação com referência à Revista Brasileira de Vídeo-registro de Libras. O professor A relata que trabalhou com gêneros em Libras para discutir metáforas nas disciplinas de Libras V e VI. Os alunos relatam pontos positivos na aprendizagem, ao apresentar os vídeos, o que possibilita ampliar o conhecimento em Libras. É interessante notar que há uma preocupação do docente, em ensinar questões linguísticas da Libras, o que é importante para a formação dos pro- fessores. No entanto isso é reflexo da própria ementa das disciplinas, que enfatizam as dimensões linguísticas da língua, em vez de dar abertura para uma ação focada em abordagens mais comunicati- vas. As ementas das disciplinas Libras V e VI, do PPC de 2014, que estava em vigência quando o docente ministrou essas disciplinas, são as seguintes: Língua Brasileira de Sinais V: Estudo das situações prático-discursivas da Libras, mediante a aprendiza- gem e o uso de estruturas léxico-gramaticais de nível intermediário-avançado para o desenvolvimento das habilidades linguísticas e comunicativas. Análise reflexiva dos aspectos semânticos e pragmáticos da língua de sinais brasileira. Inclusão dos aspectos so- cioculturais das comunidades surdas. Atividades de prática como componente curricular. Língua Brasileira de Sinais: VI: Estudo de situações prático-discursivas da Libras, mediante a aprendizagem e o uso de es- truturas léxico-gramaticais de nível avançado para o desenvolvimento das habilidades linguísticas e comu- nicativas, com ênfase nos aspectos socioculturais das comunidades surdas. Análise reflexiva da estrutura do 66 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA discurso em língua de sinais e da variação linguística. A questão do bilinguismo: português e língua de sinais. Atividades de prática como componente curricular (PPC, 2014, p. 25). Ambas as ementas apresentam enfoques léxico-gramaticais, socioculturais e situações práticas e discursivas. A ementa de Li- bras V também inclui questões semânticas e pragmáticas da Libras. A ementa de Libras V enfatiza questões discursivas e variações linguísticas, além do bilinguismo (português e Libras). Embora as ementas abordem questões discursivas de forma mais geral, o que parece se sobressair, na prática, são abordagens mais voltadas para os estudos linguísticos da Libras. O curso de LetrasLibras da UFT apresenta disciplinas distintas de Fonética e Fonologia, Morfossin- taxe, Semântica e Pragmática, bem como Sociolinguística da Libras. No entanto as disciplinas de Língua Brasileira de Sinais de I a VI também preveem o ensino de aspectos linguísticos da Libras, o que acaba diminuindo o tempo de atividades voltadas para o ensino de gêneros e abordagens comunicativas da Libras. Nesse sentido, os professores devem dividir o tempo da aula trabalhando questões linguísticas da Libras com questões comunicativas e discursivas da Libras. O professor B solicitou uma pesquisa com uma lista de temas e Gêneros Discursivos veiculados em jornal, bem como Literatura Surda. Também apresentou outros gêneros em Libras. A proposta enfatizou a questão de formato, formal ou informal, além de ques- tões de enquadramento e fundo da imagem nas gravações de vídeos. Por isso, orientou os alunos sobre as regras formais de gravação e edição de vídeo adotadas pela Revista Brasileira de Vídeo-registro da Libras. Como se observa, o professor B conseguiu dar mais ênfase às questões discursivas, aprofundando aspectos como a formalidade 67 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA e informalidade dos Gêneros Discursivos, bem como os cuidados com a forma e edição das filmagens. Nesse sentido, segundo Silva (2011), o ensino de Gênero Discursivo em sala de aula é fundamental para que os alunos tenham acesso e conhecimento sobre as práticas de letramento. Além disso, os Gêneros Discursivos potencializam abordagens comunicativas no ensino de Libras. Nesse sentido, na visão de Mattos e Valério (2010, p. 144), ao ensinar a língua por meio de Gênero Discursivo, o professor esti- mula que os alunos desenvolvam competências metalinguísticas, analisando os diversos níveis linguísticos, retóricos e discursivos da Libras. Como se percebe, os professores têm se preocupado com o ensino dos aspectos linguísticos e gramaticais da Libras, o que é, em certo sentido, reflexo das ementas que determinam os conteúdos que devem ser ensinados. No entanto abordagens comunicativas e de letramento podem ser enfatizadas com o ensino de Gênero Dis- cursivo, sem deixar de lado os aspectos linguísticos e gramaticais da Libras. A sétima pergunta questiona: Você já criou material didático a partir de vídeos autênticos coletados nas redes sociais? Tradução de Professor A: Já, eu utilizo materiais didáticos em Libras e já ensinei também. Eu queria mostrar um vídeo em Libras e organizei como um material didático. Os ouvintes precisam de desafios em Libras. Então, eu peguei vídeos do Facebook sobre relacionamento em Libras. É importante mostrar. Eu peguei vídeos do YouTube como referência para o ensino de classificadores em Libras. Eu peguei o material e organizei, porque é bom mostrar aos alunos (surdos) e ouvintes, pois deve haver igualdade. Eles precisam aprender variação linguística em Libras. Eles gostaram muito. Eu sempre organizo para as aulas, porque é importante conhecer as diferenças linguísticas por meio de vídeos. 68 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Tradução de Professor B: Já, por exemplo, percebi alguns vídeos do Facebook ou outra rede social que os surdos expressam de forma diferente e têm ótimas opiniões. Esse recurso me ajuda, mas há uma carência de pesquisa no Brasil. Aproveito para dar informações na aula para alunos compreenderem o conteúdo. Se não houver pesquisa, os alunos podem pesquisar mais. No entanto essa questão de material didático já utilizei, no momento ainda não encontrei. Então, você lembra que eu contei sobre didática em que houve confusão e problema, por exemplo, eu ministrei aspectos gramaticais. Você sabe que o âmbito de gramática da Libras é em sua maioria abstrato e não tem como comprovar, não é possível ver na comunicação. Como sou surdo, você sabe que os surdos têm dificuldade de compreender a forma, eu explico esse conceito, porque os surdos têm habilidade de ver as coisas de for- ma mais concreta e no mundo dos sentidos, mas os surdos ainda não se acostumaram a ver abstrações. Já aconteceu comigo de um aluno me perguntar o que significa “gramática”? Eu fico pensando… é difícil explicar essa questão. Então eu expliquei esse conceito em detalhes e escrevi no quadro. Alunos tentaram entender o que a gramática con- templa, é alguma coisa assim? Eu falei, não é isso. Fiquei refletindo, expliquei esse tema sobre gramática para alunos, até que enfim enten- deram. Eu preciso de didática, porque expliquei tudo aos alunos para eles entendessem bem, mas os novosalunos eu explico várias vezes, por isso, vou dar recursos didáticos e diminuo a explicação e ganho tempo. Os alunos conseguem entender rápido esse recurso. Essas questões são difíceis como o conceito de verbo, substantivo etc… preciso de didática. Essa pergunta investiga se os professores já criaram materiais didáticos, a partir de gêneros autênticos em Libras, encontrados em vídeos nas redes sociais. O professor A relata que já utilizou materiais didáticos em vídeo-registro. Ele pegou vídeos do YouTube e levou para a sala de aula para seus alunos entenderem e apren- derem Libras. Em sua aula, o objetivo é de interação a partir dos 69 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA gêneros autênticos em vídeo-registro. O professor B explica que já usou algum tipo de material didático, mas não afirma se criou algum material didático na perspectiva dos Gêneros Discursivos. No entanto, utilizou-os para o ensino da gramática da Libras. Ele relata que percebe dificuldade na compreensão de conceitos abstratos, mas parte da hipótese de que gêneros sinalizados em vídeo-registro podem ajudar na compreensão desses conceitos abstratos (como verbo e substantivo), bem como em aspectos gramaticais da Libras. Por isso, é importante a formação continuada de professores para que possam aprimorar sua prática de ensino. Nesse sentido, propostas como a sequência didática de Dolz, Noverraz, Schneu- wly (2004), bem como os Projetos de Letramento, com base em Kleiman, Ceniceros e Tinoco (2013), são opções que os professores podem adotar para a criação de materiais didáticos para o ensino de Libras. Nesse sentido também, a proposta de Richter (2005) de sequenciação de perguntas de Pré-compreensão, Compreensão e Pós-compreensão, bem como a Produção Sinalizada, é uma possi- bilidade para o trabalho mais focado em um gênero discursivo em Libras. Portanto a pesquisa sobre o ensino de Libras com Gênero Discursivo deve contribuir para a formação inicial e continuada dos professores de Libras tanto para a Educação Superior, como para a Educação Básica. A oitava pergunta questiona: Com que frequência você utiliza a estratégia de buscar os vídeos de rede sociais para dar aula de curso de Letras Libras? Tradução de Professor A: Um exemplo que busquei foi apresentar um vídeo em sala de aula, também quero a opinião dos alunos de Letras Libras, isso tem vantagens e desvantagens, pode ser ótimo ou péssimo, quando estávamos discutindo em aula, alguém achou que não era legal, acrescentei uma atividade para eles, isso foi um desafio, o que é significado, eles vão aprender mais. Quando ele assistiu a um 70 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA vídeo, disse, que bacana, não só isso, mas queria que ele explicasse assim, faltou ter consciência. Então fiz estratégia para dar atividades na sala de aula. Tradução de Professor B: Depende da disciplina, quando dei aula de Fonética e Fonologia da Libras, seguindo teoria de funcionalismo e gramática da língua, criei um PPT e pesquisei os temas da aula para ajudar os alunos a entenderem bem. Às vezes, não compreendem como é a forma da frase em Libras. Dei exemplos com os vídeos para que conseguissem compreender melhor. Também pausamos e anotamos conceitos da estrutura SVO que estavam sendo discutidos. Às vezes utilizei em ELAN também. Depende do tema. Se não é gramática, apresento conversação e produção textual em Libras, em que alunos ficam observando com calma e avançam a compreensão por níveis. Depois eles praticam em Libras. Depois praticam os gêneros textuais, sua compreensão e produção textual nos vídeos que eles veem. Então percebem que o vídeo era jornal, literatura ou vestibular e Prolibras. Assim, eles têm que reconhecer cada conceito do gênero no vídeo nas redes sociais. Essa pergunta indaga sobre a frequência que os docentes utili- zam Gênero Discursivo em Libras para o ensino no curso de Letras Libras. O professor A afirma que há vantagens no uso de gêneros em Libras. Ele adota diversas estratégias de ensino, bem como tenta adotar atividades diferentes. Também não explicita com que frequ- ência utiliza os Gêneros Discursivos no ensino de Libras. O professor B afirma que utiliza gêneros de acordo com a dis- ciplina que está ministrando. Em geral, ele ministra disciplinas de linguística da Libras, como Fonética e Fonologia e Morfossintaxe (“teoria do funcionalismo e gramática da língua”). Nesse caso, utiliza Gênero Discursivo para explicar a estrutura linguística da Libras, como a ordem das sentenças (SVO) em Libras. Também 71 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA utiliza o ELAN como uma estratégia de análise linguística em sala de aula. Ministra disciplinas de conversação e produção textual em Libras. Nessas disciplinas, utiliza vídeos para a prática em sala de aula, para incentivar a compreensão e produção em Libras, bem como para a percepção das características dos gêneros ensinados, tais como gêneros em jornal, literatura Surda, questões de vestibu- lar e Prolibras. Assim, os alunos precisam aprender a reconhecer a estrutura do gênero discursivo na Libras. Conforme Mattos e Valério (2010), o Ensino Comunicativo enfatiza aspectos comunicativos e de interação na língua para poder entender e expressar a língua. Por outro lado, o Letramen- to Crítico discute questões ideológicas e relações de poder, para formar a consciência crítica, bem como mudar o seu meio social. Nesse sentido, o aluno pode conhecer os discursos na sociedade, aprendendo a questionar e criticar posições de poder implicadas nas práticas sociais. Assim, os relatos dos professores demonstram que há uma preocupação em empregar Gênero Discursivo na aula de Libras, mas ainda se faz necessário desenvolver o ensino com enfoque em objetivos comunicativos mais claros, em vez da ênfase que é dada ao ensino de gramática e questões teóricas da língua e educação de Surdos. No entanto as práticas dos docentes são fortemente influenciadas pelos conteúdos e ementas dos PPCs do curso, os quais precisam ser seguidos para cumprir o PPC de forma coerente com o que foi planejado. Nesse sentido, as ementas das disciplinas de Libras podem ter um efeito retroativo sobre a prática dos docentes, o que, por vezes, pode acarretar numa preocupação maior com o ensino de gramática e questões teóricas sobre o ensino de Libras. 72 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Considerações finais Neste trabalho, buscamos analisar os relatos de experiências da formação de professores surdos de Libras com o uso de gêneros autênticos, que possam favorecer o desenvolvimento da aprendi- zagem de forma contextualizada dos alunos do Letras Libras. Entre essas atividades, apresentamos uma proposta de sequenciamento em Pré-compreensão, Compreensão e Pós-compreensão, bem como a Produção Sinalizada no ensino de Libras com Gênero Discursivo, que serviu de base para a origem dos dados realizados da pesquisa nesse momento. Com os objetivos e hipóteses alcançados das contribuições des- te trabalho, como primeiro objetivo foram analisadas as sinalizações e comentários em itálico anteriores feitos pelos professores surdos de Libras no ensino de Libras com Gênero Discursivo. Foram ana- lisadas as contribuições, para a formação inicial e continuada para a Educação Superior, como para a Educação Básica. Como segundo objetivo deste trabalho investigamos se os professores promovem a compreensão e a produção de Gêneros Discursivos em vídeo- -registro no ensino de Libras, em um curso superior de forma- ção de Licenciatura em Letras Libras. Em geral, os docentes afirmam que usam vídeo-registro em Libras para o desenvolvimento da comunicação em sala de aula. No entanto eles não revelam se uti- lizam sequências didáticas e projetos de letramento para o ensino de Gêneros Discursivosem Libras. A questão norteadora da pesquisa foi: apresentar algumas estratégias de sequenciação de Pré-compreensão, Compreensão e Pós-compreensão, para o ensino superior com os alunos surdos e ouvintes, no momento da sinalização visual de gêneros discursivos autênticos em Libras pelos comentários de redes sociais dos profes- sores de Letras Libras. Todos os docentes afirmaram que utilizam 73 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA materiais didáticos em vídeo-registro em suas aulas de Libras. No entanto apenas um docente afirma ter conhecimento sobre os Gê- neros Discursivos autênticos e eventualmente adota a perspectiva de gêneros para o ensino de Libras. Em relação ao Letramento Crítico, os docentes, em geral, afir- mam que conhecem e já desenvolveram discussões críticas em sala de aula. Assim, embora tenham conhecimento teórico básico sobre o assunto, usam de forma mais intuitiva estratégias de ensino que promovem discussões críticas em sala de aula. No momento, os estudos teóricos da publicação de livros e artigos, em uso de gêneros autênticos nas Libras e a formação de professores de Libras, seguem revisão por pesquisadores surdos, professores experientes e especialistas na área de Libras, especifi- camente em competências metalinguísticas, diversos níveis linguís- ticos, retóricos e discursivos da Libras, pois antes de sua publicação é fundamental lançar uma nova edição. Lebedeff e Santos (2014) discutem a importância de, no ensino de Libras, adotarmos Gêneros Discursivos em vídeo-registro, como recurso didático, para o desenvolvimento de competências e habi- lidades comunicativas. Dessa forma, além da compreensão desses gêneros sinalizados em Libras, deve haver o enfoque na produção de gêneros em Libras como a curta--metragem. Os Gêneros Discursivos em vídeo-registro são facilmente compreendidos e acessíveis aos alunos, o que possibilita o desenvolvimento da aprendizagem da Libras. Além disso, são importantes para o uso comunicativo, pois apresentam situações comunicativas reais que são importantes para as práticas sociais e discursivas dos alunos. Como se observou, os dois docentes têm preocupação com o ensino de materiais em vídeo-registro de Libras e revelam que, em alguns momentos, foram usados esses tipos de materiais. Assim, é possível perceber que o uso de Gêneros Discursivos Autênticos em 74 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Libras pode ser proveitoso para um Ensino Comunicativo. No en- tanto, os professores parecem não ter usado perspectivas de ensino com foco em Gêneros Discursivos ou Letramento Crítico de forma sistemática. Embora promovam algumas discussões críticas em suas aulas, não evidenciam a utilização do Letramento Crítico como uma abordagem de desenvolvimento do ensino em sala de aula. As análises dos pesquisadores da área de Libras apontam al- guns aspectos importantes: a criação de materiais didáticos com enfoques comunicativos e de Letramento Crítico para o ensino de Libras é necessária. Assim, é preciso desenvolver sequências didáticas e projetos de letramento para o ensino de Libras. Esses materiais possibilitam o desenvolvimento de ensino de Libras numa perspectiva crítica. Referências AMORIM, A. O. NÓS ESTAMOS JUNTOS. Instagram, 2020. Disponível em: https://www.instagram.com/tv/CBJ2SeOpXVe/?igshid=cv4ekudm4sh0. Acesso em: 09 ago. 2020. ANDREOTTI, V. O. A postcolonial reading of contemporary discourses related to the global dimension in education in England. 2006. 229 f. Tese (Doutorado em Educação, Teoria Crítica e Estudos Culturais) - University of Nottingham, Inglaterra, 2006. 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No Brasil, as conquistas da comunidade surda se fizeram presentes por meio de leis e decretos que amparam seus direitos, sendo que esse reconhecimento protagonizou-se em 2002, através da oficialização da Lei Federal nº 10.436/2002 (BRASIL, 2002) e, desde então, a Libras foi legalmente conceituada como a primeira 1 Sinalizante faz analogia à falante, que “fala” uma língua de sinais, ou seja, pessoa que sinalizauma língua de sinais (QUADROS, 2019). 77 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA língua (L1) e o português, na modalidade escrita, como sendo a segunda língua (L2). Porém, somente após a regulamentação do Decreto nº 5.626/2005 (BRASIL, 2005), a Libras passou a ser consi- derada fundamental para o desenvolvimento cognitivo e como meio de acesso ao conhecimento e integração do surdo na sociedade. Importante destacar também a aprovação da Lei nº 14.191/2021 (BRASIL, 2021), que insere a Educação Bilíngue de Surdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) como uma modalidade de ensino independente, antes incluída como parte da Educação Especial. Apesar do reconhecimento da Libras como sendo a língua na- tural da maioria dos surdos brasileiros, como fazem parte de uma minoria linguística, para que possam validar seus direitos frente à comunidade ouvinte, é essencial que aprendam a língua majoritária oral, ou seja, o português na modalidade escrita. Diante desta realidade, constata-se um considerável aumento de pesquisas que têm como escopo a educação bilíngue para surdos, empenhadas em discutir metodologias que contribuam para a apro- priação da segunda língua pelos surdos, analisando basicamente como se processa a interação entre línguas que se expressam por canais sensoriais distintos, ou seja, a Libras como língua visual- -espacial e o português como língua oral-auditiva. De acordo com Morais (1996 apud CAPOVILLA et al., 2001), alguns estudos comprovam que a alfabetização aumenta a cons- ciência dos sons da fala, sendo que neste processo, orienta-se à criança ouvinte fazer codificação e decodificação fonológica, ou seja, associar os grafemas com os fonemas de sua língua oral e vice- -versa. No decorrer desta etapa é comum a criança escrever como ela fala, possibilitando à criança ouvinte desenvolver seu pensa- mento estruturado em palavras e, consequentemente, denota-se uma sequência entre o que a criança ouvinte pensa, fala e escreve, 78 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA tudo em sua própria língua. Segundo Capovilla et al. (2001), é um processamento intuitivo que utiliza as propriedades fonológicas de sua fala interna em auxílio à leitura e à escrita. Contudo, em se tratando de algumas crianças surdas, esse processo é distinto pois elas pensam e falam em língua de sinais, cuja modalidade é visual-espacial, sendo que ao escrever espera-se que use a língua majoritária oral, no caso a língua oral-auditiva. De acordo com Capovilla et al. (2001), a escrita é estruturada com base no processamento interno e desta maneira, percebe-se que a criança surda utiliza naturalmente sua sinalização interna como auxílio para a compreensão da leitura e da escrita. Este descompasso acarreta pouco aproveitamento da escrita alfabética da língua oral, apontando erros que não são de natureza fonológica, mas visual. Quadros (2000) corrobora com este pressuposto, sustentando que a escrita da língua oral não intercepta as relações de significado da língua de sinais, não conseguindo expressar a língua em que a criança surda processa seu pensamento. Todavia, a autora aponta que se o processo de aquisição descrito for em sua língua natural, a língua de sinais, seu desenvolvimento cognitivo será melhor ex- plorado, favorecendo a apropriação da segunda língua com muito mais facilidade. Porém, em razão da complexidade do processo de aprendiza- gem dos surdos com a escrita numa língua oral, segundo Cummins (1981), essas dificuldades podem ser amenizadas por meio do uso de estratégias pelo aprendiz. O autor sustenta que existe uma re- lação de interdependência linguística entre as línguas envolvidas, possibilitando a transferência de conceitos, de formas linguísticas e de habilidades de letramento entre elas, de modo que as línguas se “alimentam” mutuamente, isto é, pode ocorrer transferências da primeira língua (L1) para a segunda língua (L2) e vice-versa. Nesta perspectiva, Cummins (1981) afirma que somente após a consolida- 79 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ção da primeira língua, consegue-se desenvolver habilidades para a aquisição de quaisquer outras línguas. No entanto, Stumpf (2005, p. 44) sugere que mesmo se a criança surda for capaz de “[...] converter as letras na soletração digital correspondente, ela não vai obter o sinal lexical que ela está acostumada a usar no dia a dia em sua língua de sinais, e essa é uma crucial diferença em relação à criança ouvinte”. Para que ela compreenda “a função social da leitura e da escrita, precisa sentir a necessidade e o prazer de ler e escrever, fato que raramente se observa entre crianças, jovens e adultos surdos” (SILVA, 2009, p. 54). Desta forma, Capovilla et al. (2001) ressaltam a necessidade de se procurar outro sistema de escrita que seja mais apropriado ao surdo do que o alfabeto da língua oral, uma vez que a escrita deve ser capaz de estruturar as propriedades da língua que ela se propõe a representar. Fazendo-se a comparação, do mesmo modo que a criança ouvinte se apropria do uso de uma escrita alfabética para estruturar os fonemas da sua fala, a criança surda pode se beneficiar de uma escrita visual capaz de estruturar os fonemas de sua língua de sinais, proporcionando-lhe maior desenvolvimento linguístico e cognitivo e, por consequência, o fortalecimento da identidade e cultura surda, além de muitos outros benefícios (SILVA, 2009; STUMPF, 2005). Neste sentido, constata-se que ainda hoje muitas crianças surdas, expostas intensivamente a interações por meio da língua oral, continuam apresentando dificuldades na apropriação da língua majoritária oral, visto ser de modalidade totalmente divergente de sua realidade sensorial. Diante deste cenário, dentre algumas pesquisas que abordam sobre as contribuições da escrita de sinais (SignWriting),2 podemos citar os estudos de Stumpf (2005), Barth (2008), Silva (2009), Wanderley (2012), Bózoli (2015), Nascimento 2 Apesar de ser uma palavra inglesa, não será apresentada no formato itálico, em função de privilegiarmos a forma original do termo. 80 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA (2018), Costa (2018), entre outros, apontando que alunos surdos se beneficiam da escrita de sinais no sentido de potencializar as habilidades da leitura e da escrita da língua oral. Todavia, como são incipientes os estudos que investigam a apropriação da segunda língua (L2) com o uso do sistema SignWri- ting por crianças surdas em início de alfabetização, considerando a importância da escrita de sinais em captar as relações que a criança surda estabelece com a língua de sinais, favorecendo na construção de hipóteses e no desenvolvimento cognitivo, de forma a garantir poste- riormente o letramento ao longo do processo educacional, a presente pesquisa propôs aprofundar este tema, investigando os benefícios da aplicação do SignWriting na aprendizagem do português escrito. SignWriting: a Libras escrita Nas últimas décadas surgiram propostas para estruturar as línguas de sinais no papel e no computador. Segundo Silva et al. (2018), são conhecidos quatro sistemas no nosso país: o sistema SignWriting (SW), a Escrita de Língua de Sinais (ELiS), o Sistema de Escrita da Libras (SEL) e a Escrita Visogramada das Língua de Sinais (VisoGrafia).3 Conforme Barreto e Barreto (2015), o SignWriting foi criado na década de 1970, por Valerie Sutton4 que desenvolveu inicialmente um sistema para anotar movimentos de dança e, posteriormente, numa viagem à Dinamarca com o intuito de divulgar esta escrita, foi convidada por pesquisadores de língua de sinais dinamarquesa a escrever sinalizações gravadas em vídeo. Através dessas anotações deu-se origem, em 1974, ao SignWriting. 3 Para a elucidação das diferenças entre estes sistemas, consulteSilva et al. (2018). 4 Atualmente Valerie Sutton reside em La Jolla, na Califórnia (Estados Unidos) e dirige o Deaf Action Committee (DAC), uma organização não governamental (ONG) que tem por função divulgar o SignWriting. 81 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Sendo o SignWriting um dos sistemas de escrita de sinais com maior evidência, com mais de 70 línguas de sinais escritas5 por este sistema em todo o mundo, inclusive a Libras, foi o objeto de estudo adotado no presente trabalho. As pesquisas de Stumpf (2005) no Brasil e na França, também indicam que crianças e adolescentes surdos terão mais facilidade na aquisição da escrita da língua oral de seu país se adquirirem primeiramente o SignWriting. Quadros (2003 apud STUMPF, 2005) corrobora com este argumento, confirmando que nestas condições os surdos terão mais facilidade na aquisição da segunda língua que estiverem aprendendo. A escrita da língua de sinais capta as relações que a criança estabelece com a língua de sinais. Se as crianças (surdas) tivessem acesso a essa forma de escrita para construir suas hipóteses a respeito da escrita, a alfabe- tização seria uma consequência do processo. A partir disso, poder-se-ia garantir o letramento do aluno ao longo do processo educacional (QUADROS, 2003 apud STUMPF, 2005, p. 106-107). Capovilla et al. (2001) ressaltam a importância do SignWriting na estruturação do pensamento, fala e expressão escrita em língua de sinais, servindo de base para a aquisição da escrita da segunda língua. Ensino Comunicativo de Línguas (ECL) A escolha do Ensino Comunicativo de Línguas (ECL) ou abor- dagem comunicativa para trabalhar com crianças surdas em início de alfabetização se deu por considerarmos ser o mais apropriado com os princípios da abordagem bilíngue, que se desenvolveu a 5 Conforme informações no site do SignPuddle, disponível em http://www.signbank.org/sig- npuddle/ Acesso em: 10 set. 2021. http://www.signbank.org/signpuddle/ http://www.signbank.org/signpuddle/ 82 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA fim de proporcionar aos surdos competência comunicativa (capa- cidade de compreender e se fazer compreendido em situações reais de interação social) na língua de sinais e no português escrito em diferentes contextos de interação. Desta forma, o ECL parece ser o mais indicado quando se trata de investigar as necessidades das crianças surdas, que precisam aprender a compreender e se expres- sar na língua escrita. Segundo Richards e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015), o ECL pode usar atividades e procedimentos de ensino de diferentes métodos e até mesmo os procedimentos tradicionais de ensino de línguas podem ser ressignificados numa perspectiva comunicativa, como por exemplo o ensino explícito de gramática e o uso da tra- dução de/para a língua materna. Sousa (2015) baseada em Nunan (1989 apud BROWN, 1994) aponta que, ao contrário da concepção estrutural dos métodos tradução-gramática e audiolingual, a con- cepção de língua no ECL é de língua preliminarmente interativa e de comunicação, em que as práticas desenvolvidas em sala de aula têm como finalidade a competência comunicativa, independente de serem ou não procedimentos empregados em outros métodos. De acordo com Brown (2000), competência comunicativa pode ser definida como o conhecimento que possibilita a comunicação de forma funcional e interativa, sendo que na competência linguís- tica, destacam-se o conhecimento gramatical da língua, sobre sua estrutura. Todavia, Silveira (1999) nos atenta que para se desenvol- ver uma competência comunicativa que envolve o conhecimento da gramática, do léxico e do uso social da língua, se faz necessário compreender que a competência comunicativa não menospreza a competência linguística, ponderando apenas ser insuficiente para a interação social. Segundo Canale e Swain (1980 apud BROWN, 2000), a competência comunicativa engloba também a competência estratégica, ou seja, os meios linguísticos e não linguísticos utili- zados para suprir as dificuldades na comunicação provenientes de 83 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA fatores comportamentais, tais como distração, cansaço e desânimo ou da escassez do conhecimento linguístico. Na perspectiva comunicativa, Richards e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015) apontam que a aprendizagem pode ser conceituada como um processo de construção criativa que envolve tentativa e erro, de modo a estimular os aprendizes a correr riscos e, consequen- temente, aplicando diferentes estratégias de comunicação para que possam, aprendendo até mesmo com os erros, solucionar problemas inerentes à limitação do conhecimento linguístico. Conforme Brown (2000), no empenho de desenvolver a compe- tência comunicativa, tanto a fluência quanto a correção gramatical são igualmente importantes, embora a fluência tenha uma função mais significativa no sentido de motivar os aprendizes no uso da língua, incentivando-os a se arriscarem na produção da língua- -alvo sem se preocupar demasiadamente com a forma, de modo a imobilizá-los por medo de errar. Com relação ao ensino da gra- mática, Sateles e Almeida Filho (2010) afirmam que na abordagem comunicativa, apesar de filosoficamente afastar a gramática como organizadora ou orientadora do processo de ensino-aprendizagem de língua, não significa dizer que não tenha valor. Ela o tem, pois a estruturação gramatical da língua é base para a comunicação de todo modo. Littlewood (1981 apud SOUSA, 2008) sugere a divisão de tarefas de uma aula em dois momentos: atividades pré-comunicativas (as quais trabalham a forma linguística) e atividades comunicativas (nas quais o foco está no significado). Portanto, no ECL, o ensino da gramática/forma está subordinado ao uso de categorias funcionais, ou seja, ao propósito que se tem ao elaborar um enunciado. De acordo com Brown (1994), o ensino da L2 deve priorizar a integração das quatro habilidades linguísticas, a saber: escutar, falar, ler e escrever, de modo semelhante como ocorre fora da si- 84 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA tuação de sala de aula de L2, no intuito de que as aulas sejam mais interessantes, motivadoras e significativas. No caso específico do ensino de L2 para surdos, mesmo sendo trabalhadas somente as habilidades de leitura e escrita, é possível fundamentar-se no princí- pio de integração dessas duas habilidades, conforme enfatizado por Crystal (2006) de que no caso da escrita de sinais, muitos usuários de SignWriting desenvolvem habilidades de leitura de sinais mas têm dificuldades em descrevê-las, sendo que estas duas habilidades requerem diferentes estratégias de aprendizagem. Além disso, na abordagem comunicativa a tradução pode ser empregada quando as crianças surdas se privilegiam dela, tanto como uma ferramenta de ensino-aprendizagem quanto como uma quinta habilidade (RIDD, 2000 apud SOUSA, 2015). Diante do exposto, é relevante destacar que os autores acima mencionados abordam, de maneira mais específica, o ensino de lín- gua estrangeira e/ou segunda língua. No entanto, apesar das teorias de ensino comunicativo de línguas, dentre outras mencionadas, não terem sido elaboradas para o ensino de língua materna, verificamos que há características que também podem ser utilizadas para esse fim. A pesquisa A pesquisa teve como objetivo geral investigar as contribuições da escrita de sinais pelo sistema SignWriting na aprendizagem do português escrito como segunda língua (L2) por alunos surdos dos anos iniciais do Ensino Fundamental, na faixa etária entre 8 e 12 anos e fluentes em língua de sinais, na ANPACIN – Colégio Bilíngue para Surdos de Maringá (PR). Levamos em consideração os princípios do Ensino Comuni- cativo de Línguas (ECL) propostos por Almeida Filho (1993, 2005), Brown (1994, 2000), LittlewoodFerreira, Carlos Roberto Ludwig e Gabriela Otaviani Barbosa, a partir 9 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA de um estudo de caso, observaram relatos de experiências de pro- fessores de Libras em formação, para averiguar o entendimento que tinham acerca da compreensão visual sinalizada, com o intuito de verificar se os docentes, no ensino de Libras, empregam estratégias de compreensão e explicação de gêneros discursivos considerados autênticos. E, a partir de uma abordagem de gêneros discursivos, adaptada da proposta de Richter (2005) e sob a proposta de sequência didática de Dolz, Noverraz, Schneuwly (2004), os autores apresentam uma proposta de estratégias de compreensão visual (pré-compreensão, compreensão e pós- -compreensão) da leitura e produção visual / sinalizada de Gê- neros Discursivos em Libras, baseada em vídeo-registros produzidos por alunos surdos e ouvintes, em um curso superior de formação de professores surdos, formados ou em formação. Com vistas ao desenvolvimento do letramento crítico no ensino de Libras, de forma que os estudantes desenvolvam competências e habilidades em vários conteúdos e gêneros discursivos, sob o enfoque comunicativo, os autores propõem que o ensino de Libras transcenda o ensino de gramática e de questões teóricas da língua e da educação de surdos, normalmente propostas nos PPCs dos cursos que ofertam a disciplina de Libras. No capítulo 3, intitulado “SIGNWRITING NA APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS ESCRITO: POR UMA ABORDAGEM BILÍNGUE PARA SURDOS”, Daniele Miki Fujikawa Bózoli e Marianne Rossi Stumpf defendem a escrita de sinais como direito linguístico e acreditam que, sob os princípios da abordagem bilíngue, com práticas pedagógicas que empregam o SignWriting, seja possível potencializar a aprendizagem dos estudantes surdos com o desen- volvimento da competência comunicativa em língua de sinais e em português escrito, em diferentes contextos de interação, posto haver 10 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA evidências na compreensão de textos em português, sob o Ensino Comunicativo de Línguas (ECL). Sob essa perspectiva, as autoras propõem que, num primeiro momento, a língua de sinais e o SignWriting sejam ofertados simul- taneamente às crianças surdas matriculadas em escola bilíngue de surdos. Em um segundo momento, sugerem a tradução de SignWri- ting para português, e vice-versa, como estratégia facilitadora da construção de sentidos em textos, especialmente quando há uma correspondência entre as duas línguas. Além disso, reforçam que a construção de hipóteses favorece o desenvolvimento cognitivo e garante o letramento, tanto em língua de sinais, quanto em por- tuguês escrito. No capítulo 4, sob o título “A FORMAÇÃO ATUANTE DE MO- NITORES CODOCENTES DE INGLÊS EM UM CURSO DE EXTENSÃO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA SURDOS”, Aline Nunes de Sou- sa, Igor Valdeci Ramos da Silva, Karolyne Quarti e Nicole da Cruz Rabello compartilham reflexões que tomaram como base relatos de experiência de monitores-pesquisadores em formação – surdos vinculados ao curso de Letras-Libras e ouvintes vinculados ao curso de Letras-Inglês –, que atuaram como codocentes em projeto de extensão para o ensino da tríade Libras-Português-Inglês, tangen- ciando comunidades indígenas que sinalizam outras línguas de sinais, entre as quais línguas de sinais emergentes. A formação teve entre seus objetivos: (i) levar os monitores à aquisição de conhecimentos práticos e teóricos sobre o ensino de inglês escrito para surdos; (ii) aprimorar sua fluência em Libras; e (iii) investigar sua própria prática de sala de aula. O projeto de extensão ocorreu num processo sociointerativo, guiado por uma abordagem comunicativa, em contexto de educação bilíngue de surdos, sob perspectiva plurilíngue e com ações peda- gógicas em uma perspectiva visual-espacial, aliada a um currículo 11 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA que trata de aspectos específicos da Libras – entendida como língua de ensino, língua de acesso a todos os conteúdos escolares e com a qual se desencadeia o processo de aprendizagem dos estudantes surdos – e do português escrito – investido de um papel específico de segunda língua –, ensinado numa perspectiva contrastiva com a língua de sinais. No capítulo 5, “O ENSINO DE LIBRAS PARA CRIANÇAS OU- VINTES NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA PESQUISA-AÇÃO”, Danielle Vanessa Costa Sousa descreve o projeto de extensão denominado “Libras na Creche”, di- recionado a crianças ouvintes na Educação Infantil, no qual a autora desenvolveu uma pesquisa-ação em perspectiva socioantropológica da surdez com o objetivo de promover um ambiente inclusivo para as pessoas surdas, por meio da realização de atividades lúdicas, em Libras, planejadas com ideias do método Resposta Física Total e role play, iconicidade (TAUB, 2001) e arbitrariedade (KLIMA; BELLUGI, 1979), métodos que usam ações corporais que ajudam a trazer con- texto e significação para a compreensão da Libras. Este estudo enfatiza os ganhos afetivos, sociais e linguísticos tanto para as crianças surdas, quanto para as ouvintes, no ensino de Libras como língua adicional. Uma narrativa contada em Libras, com o emprego de estratégias comunicativas, tornou-se mais compreen- sível e mais próxima do universo das crianças ouvintes do grupo, as quais, em interação com essa narrativa em Libras, imitaram sinais e palavras do português, compararam os personagens; e repetiram falas e gestos descritivos mais familiares ao público ouvinte, tendo como objetivo mudar a perspectiva tradicional sobre as pessoas surdas, ou seja, dos ouvidos para a visão. O capítulo 6, “PERSPECTIVAS SURDAS NA EDUCAÇÃO SUPE- RIOR: REPENSANDO POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NA ATUALIDADE”, escrito por Felipe de Almeida Coura, analisa as políticas linguísti- 12 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA cas relacionadas aos surdos na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Parte das experiências dos surdos na UFT para refletir sobre o encontro surdo-surdo no Curso Letras-Libras no campus de Porto Nacional, onde a comunidade surda tem um número representativo e a valorização da Libras ocorre em todo o processo educacional: nas aulas e nas interações entre professores e alunos da graduação e da pós-graduação, o que deixa todos animados com a ideia de haver um espaço no qual a língua de sinais seja valorizada, ao lado do desafio de lidar com a língua portuguesa. O autor destaca os avanços institucionais com a Política de Acessibilidade e Educação Inclusiva, em processo de definição na UFT, com previsão de ações afirmativas nos Programas de Pós-graduação e a consolidação da língua de sinais em favor da política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística do Brasil. Destaca ainda o esforço da Política Linguística da UFT para a internacionalização da Universidade, abrindo portas para outras línguas, como a Libras, as línguas indígenas e o português como segunda língua, e garante a criação de programas e projetos que visem à promoção da Libras na Universidade e o acesso da co- munidade surda a outras línguas, incluindo também o português como língua adicional. Em síntese, o capítulo problematiza a língua como um meca- nismo de controle social das elites dominantes e busca uma opção decolonial no movimento surdo com suas reivindicações ao longo de décadas, e que, em sua diversidade, precisa ser incansável em suas reivindicações, na expectativa de que os próximos anos sejam ainda mais promissores. Segue a essa reflexão, a importância de os surdos deixarem o lugar de “colonizado” e assumirem posturas mais empoderadas e decisórias, significando mais do que ações de resistência, questionamentos de ideologias carregadas de políticas linguísticas “invisíveis”, há anos impostas. 13(1981 apud SOUSA, 2008), Richards 85 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015) e Widdowson (1991), os quais sustentam a valorização do uso da primeira língua no ensino da segunda língua, bem como a Teoria da Interdependência Linguís- tica proposta por Cummins (1981), na qual as línguas dos falantes bilíngues se “alimentam” mutuamente em termos de transferência de elementos linguísticos, habilidades metalinguísticas e metacog- nitivas. Os objetivos específicos desta pesquisa buscaram analisar a leitura e escrita de palavras (léxico) das crianças surdas em ati- vidades de português com a aplicação do SignWriting, comparar o desempenho das crianças surdas em atividades sem e com o suporte do SignWriting e identificar como as práticas pedagógicas através do SignWriting podem potencializar a aprendizagem do português escrito pelas crianças surdas. Tendo em vista estes objetivos, foram propostas cinco diferen- tes atividades de leitura e escrita para a coleta de dados: nomeação de espaços escolares, atividades de português escrito sem o uso do SignWriting, atividades de português escrito com o uso do SignWri- ting, atividades em SignWriting com o uso do português escrito e SignWriting no computador. Por se tratar de uma pesquisa de natureza qualitativa, a me- todologia utilizada foi a pesquisa-ação (MATOS; VIEIRA, 2002; THIOLLENT, 2000). A análise das atividades foi realizada após cada aula através das verificações dos registros no diário de campo, materiais didáticos de leitura, escrita e filmagens. A transcrição das aulas filmadas foi de suma importância para que pudéssemos examinar situações que não foram observadas in loco e nem regis- tradas no diário de campo, permitindo avaliar, consistentemente, o desempenho dos participantes em relação às estratégias abordadas e direcioná-las, quando necessário, às atividades subsequentes. Conforme evidenciado ao longo de toda a análise, os dados desta pesquisa apresentam contribuições positivas da escrita de 86 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sinais pelo sistema SignWriting na aprendizagem do português escrito como segunda língua, sendo elas: (i) a familiarização do SignWriting no contexto escolar através das placas informativas; (ii) o planejamento das atividades de português escrito com o uso do SignWriting; (iii) o planejamento das atividades em SignWriting com o uso do português escrito; (iv) e o uso de programas computacionais com SignWriting. Todos os dados indicam que os resultados obtidos são em decorrência do uso da Libras como língua de instrução, do SignWriting como suporte, das metodologias voltadas para o ensino de segunda língua e da escola específica para alunos surdos. A nomeação de espaços escolares em SignWriting foi uma estratégia abordada para conscientizar a comunidade escolar de que a Libras possui uma escrita e que seria interessante nomear, além da sala de aula, os corredores e outros ambientes da escola. Além das placas em SignWriting, também foram colocadas as placas em português escrito logo abaixo em segundo plano, por ser a L2 dos surdos. A nomeação de espaços envolveu toda a comunidade escolar, possibilitando exercícios de leitura diária e enriquecendo o repertório linguístico em duas línguas, a Libras/SignWriting e o português escrito. Além disso, permitiu uma ampla divulgação, co- mentários e curiosidades sobre a escrita de sinais junto dos demais membros da escola. As placas informativas, identificando os espaços e as discipli- nas em SignWriting com tradução em português, são os recursos que alicerçam a abordagem bilíngue, uma vez que para a escola é relevante dar visibilidade às duas línguas, Libras/SignWriting e português escrito, de forma que os alunos possam associar uma à outra na apropriação de palavras. Compreendendo a escrita de sinais como direito linguístico e manifestação da cultura surda nos mais diversos espaços, o SignWriting é um importante meio de comuni- cação, podendo ser utilizado na nomeação de espaços, anotações, bilhetes, e-mails, cartas, entre outros. 87 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Na análise das atividades de português escrito sem o uso do SignWriting, verificamos que as crianças surdas realizaram soletra- ção manual das letras das palavras. Apesar de terem o conhecimento das letras alfabéticas, elas apresentaram muitas dificuldades na compreensão dos significados das palavras em português. Deste modo percebemos que as crianças surdas ao escreverem textos em L2, apresentaram palavras que pareciam “atropeladas” e confusas para a contextualização, sendo que nas atividades utilizando o SignWriting, os textos foram escritos de maneira adequada e a transformação direta para o português favoreceu uma tradução altamente compreensível. Portanto, foi possível evidenciar que quando o surdo, no momento oportuno, se apropria de sua língua e é capaz de expressá-la, seu desenvolvimento sobre a leitura e a escrita flui com mais rapidez e facilidade proporcionando significado e sentido em sua aprendizagem. Em uma das atividades cujo episódio era sobre a Copa do Mundo 2018, mostramos dois cartazes com o mesmo texto em português, sendo que um deles se apresentava com o suporte do SignWriting. Inicialmente, ao apresentarmos o texto com o suporte do SignWri- ting, observamos que as crianças conseguiram interpretar a escrita, ou melhor, “ler de verdade’’. Para verificarmos a reação das crian- ças surdas, logo em seguida a professora regente mostrou apenas o texto em português sem o SignWriting e elas, unanimemente, reclamaram, afirmando que preferiam o texto com o suporte do SignWriting, uma vez que se sentiram mais confiantes e seguras em efetuar a leitura do texto com o apoio deste sistema. Desta forma, foi possível evidenciar a contribuição do SignWriting na compre- ensão do texto em português. A partir desta atividade inicial com o SignWriting, verificamos que as crianças demonstraram enorme interesse, percebendo que existe a escrita da sua própria língua que apresenta todas as possibilidades de registro, assim como qualquer outra escrita. 88 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Na análise das atividades de português escrito com o uso do SignWriting, constatou-se a importância de trabalhar com o léxico da Libras, registrando os sinais em SignWriting pois, no caso do verbo JOGAR, em português utiliza-se a palavra “jogar + objeto”. Em Libras, o verbo JOGAR apresenta diversos sinais, não mantendo o mesmo sinal como acontece no português. O registro dos sinais em SignWriting possibilita que os alunos surdos compreendam a estrutura gramatical da Libras, de modo que possam, logo após, comparar com a gramática do português escrito (L2). Analogicamente, pelo fato de as palavras em português es- tarem próximas dos sinais em SignWriting, possibilitou que eles praticassem a tradução. Segundo Ridd (2000 apud SOUSA, 2015), a tradução quando devidamente utilizada, é uma estratégia benéfica na construção de sentidos do texto, sendo que nós a adotamos para facilitar a compreensão de que, às vezes, há uma correspondência das palavras e expressões entre as duas línguas. Assim, identificamos que a tradução de SignWriting para português e vice-versa favoreceu consideravelmente a compreensão destas línguas. Para a análise das atividades em SignWriting com o uso do português escrito, propomos um desenvolvimento de atividades somente com Libras/SignWriting e, posteriormente, trabalhamos a tradução para o português. Em relação às crianças ouvintes, ao receberem um texto escrito em português, elas têm maior faci- lidade em interpretá-lo através da leitura, visto ser sua língua oral-auditiva, mas no caso das crianças surdas a interpretação de um texto apresenta melhor compreensão atravésda Libras, razão pela qual optamos fazer um texto sinalizado por meio de um videotexto e escrita de sinais com as crianças surdas participan- tes desta pesquisa. A tradução foi feita com base no videotexto, sendo um trabalho inverso das atividades de português escrito com o uso do SignWriting. Nesta atividade também verificamos que, utilizando o SignWriting como suporte, as crianças surdas 89 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA conseguiram assimilar, com maior clareza e rapidez, os exercícios propostos na sala de aula. Em relação ao SignWriting no computador, acreditamos que nesta atividade elas realmente incorporaram a importância da escri- ta, tanto da Libras/SignWriting como do português escrito, visto ser a última atividade da pesquisa e elas terem vivenciado, até então, o SignWriting apenas no papel. Ao identificarem que softwares como SignPuddle e Delegs são ferramentas indispensáveis à apropriação da segunda língua, favorecendo no seu processo cognitivo, após o término desta atividade didático-motivacional, demonstraram enorme interesse em continuar a usar o SignWriting não apenas como suporte à aprendizagem da língua majoritária oral, no caso, o português escrito, mas também nas práticas sociais. Em todas as atividades propostas, verificamos que os alunos surdos haviam realizado a transferência de uma escrita para outra e vice-versa. Segundo Cummins (1981), essa observação se consolida com a Teoria da Interdependência Linguística. A língua de sinais associada à sua escrita, neste caso o SignWriting, fez com que as crianças surdas buscassem no significante dessa língua elementos para construir a escrita em português. A leitura dos sinais escritos em SignWriting, permitem que os alunos usufruam deste sistema que representa a sua língua natu- ral e consequentemente, auxilia no processo de sua alfabetização. Apesar do SignWriting, em primeira instância, dar a impressão de ser complexo devido à sua representação gráfica, as crianças sur- das não tiveram dificuldades em interpretá-lo. O fato de terem o domínio da Libras favoreceu o acesso ao SignWriting, permitindo que através deste sistema de escrita fossem capazes de compreender melhor o português escrito. Assim sendo, evidenciamos que uma das sugestões práticas apresentadas para apropriação da compre- ensão leitora é a de que a aprendizagem da leitura, desde a Educa- 90 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ção Infantil, ocorra principalmente através de textos verdadeiros e significativos. Pontuamos, inclusive, que a seleção dos materiais deve considerar as necessidades e interesses das crianças surdas e contemplar a diversidade textual presente nos diferentes eventos da vida em sociedade e em atividades significativas e compartilhadas. Segundo Piaget (1977 apud STUMPF, 2005), o período propício à aprendizagem de sistemas reversíveis, como o da escrita, se dá a partir dos 7 ou 8 anos de idade, quando o conhecimento se constrói no indivíduo de uma forma já operacional, embora ainda preso às percepções sensoriais. De acordo com Stumpf (2005), a idade mencionada representa uma média, sendo que algumas crianças poderiam se mostrar capazes de descobrir a leitura antes por apre- sentarem as características operacionais, outras depois, mas elas seriam a exceção, não a regra. Levando em consideração este pressuposto e também em- basadas na teoria da aquisição da língua de sinais sustentada por Quadros e Cruz (2011), de que se a criança surda tiver a oportuni- dade de adquirir a língua de sinais, ela terá igualmente as mesmas possibilidades de aprendizagem da criança ouvinte, chegamos à seguinte reflexão: se uma criança ouvinte tem o contato desde o nascimento com a língua oral e inicia a sua alfabetização propria- mente dita ao ingressar na escola, esse processo também poderá ocorrer com a criança surda, ou seja, se ela tiver o domínio da Libras, também poderá aprender a escrita de sinais. Desta forma, conseguirá adquirir o conhecimento necessário para que, em segunda etapa, possam obter com maior facilidade a apropriação da L2. Diante do exposto, se ponderarmos que, segundo Quadros e Cruz (2011), a maioria das crianças surdas, por serem filhas de pais ouvintes, adquirem tardiamente a língua de sinais e só irão aprender a Libras, sua língua natural, ao ingressar no ensino básico, enten- demos que o SignWriting também deva ser ensinado concomitan- 91 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA temente à aprendizagem da língua de sinais, de modo a favorecer seu desenvolvimento cognitivo, linguístico e social. Assim sendo, na nossa concepção, o SignWriting deve ser ensinado nos anos iniciais da alfabetização e somente após consolidada a primeira língua, tanto sinalizada como escrita, as crianças surdas poderão se apropriar da segunda língua, ou seja, o português escrito. Dessa forma, ao proporcionarmos primeiramente a aprendiza- gem simultânea do SignWriting às crianças surdas, expostas a uma língua visual-espacial, elas certamente ficarão deslumbradas com a existência de uma relação entre os movimentos que compõem a Libras e a materialização gráfica dos sinais, passando a registrar, no papel, os sinais que até então se materializam apenas no espaço. Neste processo, como elas poderão registrar suas ideias através da escrita de sua própria língua, consideramos de suma importância a participação efetiva de seus familiares, no sentido de estabele- cerem uma interação linguística no decorrer do aprendizado, visto ser fundamental que eles também aprendam, não somente a Libras como o SignWriting. O letramento visual das crianças surdas em escrita da língua de sinais envolve leitura de textos em Libras, sinalizados e escritos. A escrita da Libras é uma forma de registro que utiliza grafemas [...] que representam constituintes da própria língua. A leitura e escrita da língua de sinais podem motivar os estudantes surdos a lerem e escreverem também na Língua Portuguesa. A leitura e escrita em Libras deve estar inserida no currí- culo escolar, considerando a importância da escrita para o desenvolvimento da cultura da humanidade (THOMA et al., 2014, p. 10). Com relação às políticas educacionais, como o sistema Sig- nWriting não foi contemplado pelo Decreto nº 5.626/2005 (BRASIL, 92 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA 2005), apontamos para a necessidade de novas pesquisas que ve- nham a comprovar a aplicabilidade da escrita de sinais na apropria- ção da segunda língua por crianças surdas em início de alfabetização, visto que, por não termos identificado nenhum outro estudo nesse segmento, entendemos que o nosso trabalho é apenas o ápice do iceberg de muitas outras pesquisas que almejamos serem feitas num futuro próximo, no sentido de solidificar cada vez mais a relevância de se implantar, o mais breve possível, o SignWriting na educação bilíngue de todas as crianças surdas deste país. Considerações finais Pelo fato de sermos surdas, tão logo chegou ao nosso alcance o conhecimento do SignWriting, ficamos encantadas ao saber que nós, surdas, temos a nossa escrita de língua de sinais. À medida que fomos ampliando o conhecimento deste sistema, divulgando ao máximo de pessoas possível, através das redes sociais, cursos e palestras sobre o SignWriting, também constatamos ser essencial direcionar nossa atenção à Educação Básica, uma vez que, na nossa concepção, o SignWriting é a melhor interface entre a Libras e o português escrito como segunda língua. Por também termos sido crianças surdas, identificamo-nos com cada uma das crianças surdas da pesquisa e para nós foi uma experiência única e inestimável observarmos o entusiasmo e a moti- vação em todas as atividades desenvolvidas com o uso da escrita de sinais. A abordagem comunicativa se fez presente na elaboração detodas as atividades, cujo foco eram as palavras (léxico), de modo que por serem pré-comunicativas, foram embasadas nas orientações de Littlewood (1981 apud SOUSA 2008), aplicando-se posteriormente, em sala de aula, os postulados de Almeida Filho (1993, 2005), Brown (1994, 2000), Widdowson (1991) e dos autores Richards e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015), principalmente em relação ao comporta- 93 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA mento das crianças surdas diante do medo de errar e das tentativas de acerto, possibilitando que todas as atividades fossem realizadas de maneira que tivessem significado para elas. Até mesmo quando, em algumas atividades, o artifício da tradução foi utilizado, Ridd (2000 apud SOUSA, 2015) esteve presente para nortear nosso estudo. Com relação à abordagem bilíngue, as ações pedagógicas reco- mendadas por Quadros (2000) e as orientações das práticas de le- tramento de Fernandes (2006) fazem parte do contexto educacional da ANPACIN. Na pesquisa de Brochado (2003), onde a autora propôs investigar de que forma crianças surdas do Ensino Fundamental, sinalizantes de Libras, apropriam-se do português escrito, sem recorrer à oralidade; como o estudo foi realizado parcialmente na ANPACIN, conhecemos algumas das crianças participantes e hoje, já adultos, passando pelos estágios de interlínguas sustentados pela autora, verificamos que realmente foram capazes de melhorar, gradativamente, seu desempenho na segunda língua (L2), à medida que se apropriaram das regras próprias dessa língua-alvo, alicerça- das pelo domínio da primeira língua (L1). Analisando as crianças da pesquisa que, assim como nós, passaram por muitas dificuldades para se apropriarem da segunda língua, devido à complexidade do português, ao refletir sobre o uso do SignWriting no nosso período de alfabetização, temos absoluta certeza de que o nosso aprendi- zado na L2 teria sido bem mais acessível e descomplicado com o uso deste sistema. Neste estudo, a professora regente era bilíngue e como nós, somos surdas, o contato adulto-surdo e criança surda foi funda- mental para o bom desempenho desta pesquisa, pois a partilha de uma língua plena estabeleceu um vínculo afetivo entre as crianças surdas, professora regente e pesquisadoras, proporcionando um ambiente de muita participação, confiança e motivação em todas as atividades, de acordo com os desígnios do Ensino Comunicativo de Línguas (ECL) sustentados por Almeida Filho (2005), Brown (2000), 94 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Richards e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015), entre outros. A nossa função como pesquisadoras foi, conforme sugere Littlewood (1981 apud SOUSA, 2008), elaborar e organizar materiais e atividades juntamente com a professora regente, que conduzissem as crianças surdas a se apropriarem do português escrito utilizando o SignWri- ting como suporte na aprendizagem da L2, além de atuarmos como orientadoras durante a realização das atividades, auxiliando-as quando necessário. Em relação à produção das atividades, seguimos as práticas de letramento recomendadas por Fernandes (2006), pois tais práticas são desenvolvidas nas salas de aula para que as crianças surdas te- nham a possibilidade de “decifrar” um mundo repleto de palavras incompreensíveis, de forma que as atividades foram elaboradas para que elas tivessem a oportunidade de aprofundar-se no sentido das palavras, incorporando-as às suas experiências cotidianas. Essas práticas pedagógicas também estão alicerçadas nos pressupostos de Almeida Filho (2005), Brown (2000), Richards e Rogers (2001 apud SOUSA, 2015), e Widdowson (1991) ao enfatizarem que ensinar uma língua através dos princípios do ECL é centralizar um ensino com o propósito de suprir as necessidades dos alunos, sendo que neste sentido, eles são o centro de atenção no processo de aprendizagem e o professor atua como facilitador e orientador neste processo de ensino. Deste modo, todas as atividades foram desenvolvidas visando primordialmente a compreensão de todos os enunciados. No que se refere às crianças surdas, observamos que desde o início das atividades propostas houve intensa participação, evidenciando-se um processo evolutivo em suas aquisições a cada atividade desenvolvida. Respeitando as diferenças individuais em relação à aprendizagem, a autoestima foi estimulada na medida em que foram compreendendo a importância de o SignWriting ser a escrita delas como L1 e não o português, como talvez imagi- nassem. Deste modo foi possível verificar, sob o ponto de vista do 95 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ECL, que os princípios cognitivos, afetivos e linguísticos destacados por Brown (2000) nortearam a pesquisa, possibilitando resultados consistentemente satisfatórios. A leitura dos sinais escritos em SignWriting permite que os alunos usufruam desse sistema que representa a sua língua natural auxiliando, consequentemente, no processo de sua alfabetização. Apesar do SignWriting, em primeira instância, dar a impressão de ser complexo devido à sua representação gráfica, as crianças surdas não tiveram dificuldades em interpretá-la. O fato de terem o domínio da Libras favoreceu o acesso ao SignWriting, permitindo que através desse sistema de escrita, fossem capazes de compreender melhor o português escrito. Por este ângulo, evidenciamos os pressupostos de Cummins (1981) em relação à Teoria da Interdependência Lin- guística, na qual o autor sustenta a transferência de uma língua para outra e vice-versa, de modo que elas se “alimentem” mutuamente, enfatizando que a primeira língua é a base para a aprendizagem de outras línguas, mesmo que sejam de modalidades diferentes como, por exemplo, a Libras (L1) e o português (L2). O letramento visual, fundamental para alavancar o processo cognitivo e conceitual das crianças surdas, se fez presente princi- palmente na atividade de videotexto, possibilitando momentos de descontração e interação entre elas e contribuindo efetivamente na compreensão da L2 através da Libras/SignWriting. Santaella (2012) esclarece que através dos recursos visuais, a leitura visual é compreendida mais facilmente e com eficiência pelas crianças surdas, desenvolvendo a capacidade de fragmentá-la, decodificá-la e de interpretá-la, da mesma forma como os ouvintes efetuam uma leitura em voz alta. De um modo geral, as atividades, por serem dinâmicas, pro- porcionaram o desenvolvimento motivacional das crianças surdas, pois elas manifestaram enorme interesse em continuar usando e 96 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA aprendendo o SignWriting. De acordo com Stumpf (2005), constata- -se dois aspectos fundamentais no processo de aquisição da escrita de sinais que não se evidenciam quando a alfabetização em língua oral é desenvolvida com as crianças surdas: o aspecto afetivo, que se evidencia quando elas aprendem o SignWriting, sentindo-se gratificadas e felizes, de forma que a interação que estabelecem entre colegas para cooperar e trocar ideias e a oportunidade de compartilhar esse conhecimento são fatores que estimulam sua autoestima. E o segundo aspecto que diz respeito à evolução na aprendizagem pois a agilidade com que elas conseguem aprender o sistema e construir hipóteses faz com que se sintam motivadas a expandir seus conhecimentos, uma vez que as dificuldades que encontram são passíveis de serem superadas, ao contrário das difi- culdades existentes na escrita da língua oral, que muitas vezes não respeita o raciocínio e nem a lógica das crianças surdas. Para nós, enquanto pesquisadoras, o estudo nos deu a possi- bilidade de comprovar, na prática, a real utilização deste sistema de escrita como suporte na aprendizagem do português escrito. Analogicamente, entendemos o SignWriting como se fosse o GPS que hoje utilizamospara nos locomover de um ponto A até um ponto B desconhecido. Anos atrás era necessário consultar mapas rodoviários, por exemplo, se desejássemos ir para um local desco- nhecido, e muitas vezes, por ele estar desatualizado, a viagem era longa, cansativa e com riscos de trilharmos caminhos tortuosos até chegarmos ao destino. Com o advento do GPS, o caminho a ser percorrido se tornou mais rápido e preciso. Neste caso, não teria o SignWriting a mesma função? Acreditamos que sim! Contudo, como a maioria das pesquisas envolvendo a educação bilíngue de surdos diz respeito ao ensino de português sem Sig- nWriting, os resultados apresentados neste estudo demonstram a importância de formar surdos alfabetizados e letrados que tenham o domínio, a priori, da escrita de sua própria língua de sinais. 97 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Embora a discussão deste trabalho mereça ser investigada com maior profundidade, especialmente nas pesquisas longitudinais sobre o assunto, temos plena convicção de que a proposta apre- sentada mostrou um caminho que devemos percorrer em busca da inclusão do SignWriting no sistema educacional deste país, em prol da aprendizagem das crianças surdas. A partir dos resultados obtidos, defendemos ainda com mais firmeza a importância do uso do SignWriting como suporte na apropriação da segunda língua pois a língua de sinais [...] sempre funcionará para o surdo como o lugar de sentido e de reflexão sobre a escrita, mas uma adequada intervenção pedagógica, [no caso, a escrita de sinais] deve ser capaz de contribuir para que as diferenças entre as línguas sejam percebidas e para que o surdo possa produzir uma escrita que respeite as regularidades da língua portuguesa (PEIXOTO, 2006, p. 226). Esperamos que este trabalho possa contribuir com futuros estudos que envolvem o ensino do português escrito como segunda língua, tendo em vista a incipiência de pesquisas realizadas princi- palmente em relação à aplicabilidade do sistema SignWriting como suporte na apropriação de segunda língua por crianças surdas da Educação Básica. A relevância justifica-se também pela necessidade de colaborar com as pesquisas linguísticas acerca da importância do SignWriting como sendo a escrita da língua de sinais, amplian- do sua abrangência de estudos, principalmente no que concerne à apropriação pelas crianças surdas de línguas com representação alfabética como a L2. Almejamos, portanto, que o sistema SignWriting possa pro- porcionar aos professores que trabalham com crianças surdas, um aporte teórico que os auxilie a compreender os benefícios da 98 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA escrita de sinais no processo de aquisição da língua majoritária oral, indubitavelmente no início da alfabetização, porém após a consolidação da primeira língua e, finalmente, que este estudo possa contribuir para que as crianças surdas se tornem mais confiantes e independentes ao utilizarem o SignWriting na apro- priação do português escrito, com garantias de conhecimentos e muito mais liberdade. Referências ALMEIDA FILHO, J. C. P. Dimensões Comunicativas no ensino de línguas. Campinas: Pontes, 1993. ALMEIDA FILHO, J. C. P. Linguística aplicada: ensino de línguas e comunicação. Campinas: Pontes, 2005. BARRETO, M; BARRETO, R. Escrita de sinais sem mistérios. 2. ed. Salvador: Libras Escrita, 2015. BARTH, C. 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Regulamenta a Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, 2005. BRASIL. Lei n. 14.191, de 3 de agosto de 2021. Altera a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para dispor sobre a modalidade de educação bilíngue de surdos. Brasília, 2021. 99 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA BROCHADO, S. M. D. A apropriação da escrita por crianças surdas usuárias da língua de sinais brasileira. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2003. BROWN, H. D. Teaching by principles: an interactive approach to language pedagogy. New Jersey: Prentice Hall Regents, 1994. BROWN, H. D. Principles of language learning and teaching. 4. ed. New York: Longman, 2000. CAPOVILLA, F. C. et al. 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Campinas: Pontes, 1991. 102 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A FORMAÇÃO ATUANTE DE MONITORES CODOCENTES DE INGLÊS EM UM CURSO DE EXTENSÃO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA SURDOS Aline Nunes de Sousa Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Igor Valdeci Ramos da Silva Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Karolyne Quarti Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Nicole da Cruz Rabello Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Introdução Há cerca de dez anos, um projeto de extensão1 do Departamento de Libras da Universidade Federal de Santa Catarina (DLSB/UFSC) tem viabilizado o aprendizado de inglês como língua estrangeira (LE) exclusivamente a surdos2 proficientes em Libras, já que esta é a língua de instrução do curso e de inserção desse público-alvo no aprendizado de línguas estrangeiras na perspectiva bilíngue do Decreto 5626 (BRASIL, 2005). De acordo com o Artigo 22 deste 1 Nome do projeto de extensão “Ensino de inglês escrito para surdos - Etapa 2019”. Número de cadastro do projeto no Sistema SIGPEX da UFSC: 201901892. Nome da Professora Co- ordenadora: Aline Nunes de Sousa. 2 Com o Ensino Médio concluído. 103 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA decreto, em escolas ou classes de educação bilíngue, a Libras e a modalidade escrita da língua portuguesa são as “línguas de instru- ção utilizadas no desenvolvimento de todo o processo educativo” do surdo (BRASIL, 2005). Temos ciência de que existe a possibilidade de cursos de inglês para surdos serem ministrados em ASL (American Sign Language), como já acontece em nosso país, entretanto, a perspectiva do curso é manter a Libras como língua de instrução (devido aos conheci- mentos da equipe que ministra o curso, entre outros fatores)3 e o inglês escrito como objeto de estudo/conhecimento. A abordagem de ensino de língua utilizada nesse curso de extensão é a abordagem comunicativa (ALMEIDA FILHO, 2012; CARDOSO, 2004). Mesmo que o sujeito surdo não desenvolva com- petências oral-auditivas na língua inglesa no curso, os alunos são estimulados a utilizar o idioma de modo criativo e interativo, com base em aspectos culturais e de eventuais usos da língua inglesa. Nesse contexto, o plurilinguismo é bastante explorado, de acordo com a perspectiva de Sousa (2008, 2015), bem como a abordagem bilíngue de educação de surdos (QUADROS, 1997, 2005). Na versão deste curso oferecida em 2019, atuaram os autores deste capítulo – uma docente vinculada à universidade, responsável pela coordenação do projeto de extensão, dois monitores ouvintes4 e uma monitora surda.5 Os monitores (codocentes) foram formados ao atuar dando aulas e suporte intra e extraclasse aos aprendizes surdos e participando de reuniões formativas com a coordenadora, numa metodologia de formação em serviço, refletindo sobre os aprendiza- dos necessários para que possam exercer essa profissão futuramente. 3 Nosso curso também pretende servir de inspiração para a disciplina de inglês na Educação Básica de surdos, seja em escolas bilíngues ou inclusivas, por isso, nossa metodologia pretende manter a Libras como língua de instrução, assim como ocorre nas escolas de Educação Básica. 4 Um licenciado em Letras Português/Inglês e estudante de Letras Libras, a outra, licencianda em Letras Inglês. 5 Licencianda em Letras Libras e estudante de inglês em curso de idiomas. 104 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Este capítulo, portanto, tem como objetivo principal compar- tilhar reflexões sobre o ensino de inglês para surdos e sobre a for- mação de monitores (codocentes) para atuar nesse tipo de ensino. Essas reflexões têm como base a análise dos relatos de experiência dos monitores (os quais se encontram em anexo) a partir da vivência deles com a turma de 2019 do projeto de extensão mencionado, com base nos referenciais teóricos e metodológicos que fundamentam o referido projeto. Inicialmente, apresentaremos alguns desses referenciais. Em seguida, descreveremos brevemente a perspectiva do projeto com relação à formação dos monitores. E posteriormente, apresentare- mos a análise das experiências relatadas pelos monitores, compar- tilhando algumas conclusões e reflexões. Referenciais teórico-metodológicos do projeto/curso O papel de cada língua do/no curso Neste trabalho, estamos tratando o inglês como “terceira língua” para além de “língua estrangeira”. Portanto, nesta seção, pretendemos inicialmente diferenciar primeira língua (L1) de se- gunda (L2) e terceira (L3), identificando o papel de cada uma das línguas presentes no curso. Em geral, a primeira língua é uma língua que se adquire na mais tenra idade, em contato espontâneo, sem ensino sistematizado. É também chamada de “língua materna” (LM), pois, tradicionalmente, está associada às mães, por serem consideradas as responsáveis por “transmitir” sua língua aos filhos enquanto bebês. Entretanto, como enfatiza Romaine (1995), o termo “língua materna” acabou perdendo o sentido inicialmente pretendido, já que nem sempre a mãe é a responsável por esse papel. 105 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA No caso das comunidades surdas do Brasil, por exemplo, quando os surdos são filhos de pais ouvintes, normalmente a LM da criança surda não será a mesma dos pais. Sendo o português uma língua oral-auditiva, ela não poderá ser adquirida espontaneamente pelas pessoas surdas, em razão de sua condição sensorial/audiológica. Nesse sentido, o português, a língua dos pais, não será sua língua materna. Romaine (1995, p. 22) afirma que “a língua com a qual um in- divíduo se identifica é geralmente chamadade língua materna”.6 Utilizando esse critério, podemos argumentar que a língua de sinais tem o papel de LM/L1 na vida das pessoas surdas, mesmo que o contato com essa língua ocorra geralmente apenas após o contato com a língua oral-auditiva dos pais – a qual exerce um papel de L2 na vida desses indivíduos. Vê-se, portanto, que a ordem cronológica de exposição não é um bom critério para se estabelecer qual a LM das pessoas surdas. “É importante ter em mente o que é especial nos surdos: eles não podem ouvir” (SVARTHOLM, 1994, p. 63 apud QUADROS, 1997, p. 83). Assim, a identificação dos surdos com a língua de sinais vem principalmente do fato de ela ser uma língua visuoespacial. Além disso, essa identificação se dá no nível afetivo e cultural quando pensamos nos surdos enquanto grupo (comunidade/povo) que com- partilha experiências e vivências visuais, para além da língua. Como argumenta Romaine (1995), a definição sobre qual é a L1/LM de um grupo minoritário é crucial para se garantir os direitos linguísticos desse grupo, especialmente no tocante à educação, assegurando que a L1/LM seja a língua de instrução desses sujeitos. A proposta do nosso curso é, portanto, proporcionar o aprendizado de inglês escrito a estudantes surdos sinalizantes por meio da sua língua de conforto – a Libras. 6 Tradução nossa. 106 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Quanto ao conceito de “segunda língua” (L2), quando esse ter- mo é usado de forma genérica, pode designar qualquer língua apren- dida depois da L1/LM, podendo se referir inclusive a uma terceira ou quarta língua (ELLIS, 1997). Entretanto, o termo “segunda língua” também pode ser encontrado na literatura fazendo referência a uma definição bastante específica, como se vê em Crystal (1997). Esse autor define “segunda língua” como uma língua não nativa, usada para fins comunicativos cotidianos em um determinado país. Pressupõe-se que o falante de uma L2 esteja imerso em sua cultura.7 Já o termo “língua estrangeira”, para Crystal (1997), também é usado para designar uma língua não nativa, mas que não é utilizada de forma rotineira para comunicação em um determinado país. Nesses termos, a língua portuguesa é considerada segunda língua para os surdos brasileiros dos centros urbanos8 (cf. Decreto 5626/2005), e a língua inglesa, uma língua estrangeira (LE). No caso do curso analisado neste capítulo, o português apa- rece como segunda língua no papel de “língua instrumental”, uma mediadora na aprendizagem do inglês. Essa língua é utilizada quando, por exemplo, os estudantes surdos do curso precisam fazer uso de dicionários bilíngues inglês-português e também no estudo de gramática (por meio da comparação entre as estrutu- ras gramaticais das diversas línguas presentes na realidade dos estudantes do curso). Ainda sobre a língua inglesa, acrescentamos que, neste tra- balho, ela é considerada não apenas uma língua estrangeira (LE), mas também uma terceira língua9 (L3), e isso traz implicações 7 Acrescentamos que ouvintes de comunidades indígenas e ouvintes de comunidades de imi- grantes, mesmo nascidos no Brasil, podem possuir outra LM que não o português – assim como os surdos. 8 Existem, no Brasil, surdos que fazem parte de comunidades indígenas e que usam outras línguas de sinais, assim como surdos que fazem uso de outras línguas de sinais emergentes. 9 Um esclarecimento sobre a nomenclatura “L3”: mesmo que os estudantes tenham tido contato com outras línguas estrangeiras antes da língua inglesa, neste trabalho, ela está sendo chamada de L3 porque é a segunda língua não materna em foco de ensino e investigação (assim como poderia ser o espanhol, a American Sign Language – ASL etc.). 107 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA específicas. No aprendizado de uma terceira língua (ou seja, a segunda língua não materna do aprendiz), o estudante pode ser influenciado não apenas pela sua primeira língua como também por sua segunda língua (ou primeira língua estrangeira). Williams e Hammarberg (1998) sustentam que olhar apenas para a L1 do aprendiz não fornece uma visão completa do processo de aprendi- zagem da L3, pois a L2 também desempenha um papel importante nesse processo. No aprendizado da língua inglesa por surdos brasileiros, os estudantes surdos podem ser influenciados não só pela Libras (sua L1), mas também pelo português, sua L2 (cf. SILVA, 2013; SOUSA, 2008; SOUSA, 2015). Se tiverem tido contato com outras línguas estrangeiras antes do inglês (como o espanhol ou a American Sign Language - ASL, por exemplo), é bastante possível que o aprendizado dessas línguas também influencie o do inglês – mas, neste trabalho, focaremos na tríade Libras-português-inglês. De acordo com a teoria da interdependência linguística, essa retroalimentação entre as línguas de um falante não só é possível, como é desejável, mesmo quando se trata de línguas de modalidades diferentes (CUMMINS, 1981) e mesmo quando o contexto é pluri/ multilíngue (CUMMINS, 2000, 2007). As abordagens presentes no curso Inicialmente, é preciso esclarecermos o que este trabalho en- tende por “abordagem” no campo de ensino de línguas estrangeiras. Nossa perspectiva se afilia à de Almeida Filho (2005, p. 78), que interpreta “abordagem” como “[...] um conjunto de pressupostos teóricos, de princípios, e até de crenças, ainda que só implícitas, sobre o que é uma língua natural, o que é aprender e o que é ensi- nar outras línguas”. Para Almeida Filho (1997, 2009), a abordagem 108 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA é uma “filosofia de ensinar” que orienta todo o fazer pedagógico do professor, desde a organização do curso/disciplina (currículo), o planejamento das aulas e a elaboração de materiais didático- -pedagógicos, até a avaliação dos estudantes. Ao longo da história do ensino de línguas estrangeiras, vários métodos foram propostos por pesquisadores e professores. Entre- tanto, o que Almeida Filho (1997, 2009) esclarece é que, muitas vezes, o professor faz uso de atividades, recursos e procedimentos didáticos de métodos distintos, mas sua prática pedagógica possui uma orientação maior, um objetivo final guiado por uma aborda- gem norteadora. É justamente por isso que método e abordagem, na perspectiva de Almeida Filho e outros autores, são conceitos distintos. O método diz respeito a um “plano geral de apresentação sistemática da língua” (BROWN, 1994, p. 48) e se baseia numa de- terminada abordagem – ou seja, numa determinada visão de língua, de ensino e de aprendizagem de línguas. Neste trabalho, o conceito de abordagem está sendo trata- do especificamente como um conjunto de concepções acerca de como se aprende e de como se ensina uma língua estrangeira na modalidade escrita para surdos. Por isso, trataremos também de concepções sobre a surdez, sobre a língua de sinais, sobre a educa- ção de surdos e sobre a educação linguística em geral, como será apresentado adiante. No curso que estamos apresentando e analisando neste capí- tulo, as abordagens presentes foram: abordagem comunicativa (no que se refere à concepção de língua/LE, concepção de ensino de LE e de aprendizagem de LE); educação bilíngue de surdos (no que se refere a uma concepção de educação de surdos, de língua de sinais e de surdez) e educação plurilíngue (no que se refere a uma concep- ção geral de educação, que envolve a educação linguística, mas não apenas ela). Essas abordagens estiveram presentes na elaboração 109 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA do material didático, na preparação das aulas, na condução da di- nâmica das aulas, nas atividades propostas e na avaliação. A seguir, apresentaremos cada uma dessas abordagens sucintamente. Abordagem de ensino de línguas estrangeiras: ensino comu- nicativo Na área de ensino de línguasestrangeiras e/ou segundas lín- guas, duas conhecidas abordagens norteadoras do ensino são a abordagem gramatical e a abordagem comunicativa. Enquanto a abor- dagem formal/gramatical foca na língua prioritariamente enquanto estrutura/forma, a abordagem comunicativa foca na língua em uso, dando ênfase às funções desempenhadas pela língua no processo de comunicação. É essa última que norteia o presente trabalho. Aqui, a abordagem comunicativa é compreendida na linha de Brown (1994), Larsen-Freeman (2000), Littlewood (1981), Richards e Rogers (2001), Sousa (2008, 2015) dentre outros autores, os quais a intitulam “Ensino Comunicativo de Línguas” (ECL).10 Esses (e outros) autores entendem “comunicação” como um processo socio- interativo no qual se constroem ações e identidades, e não numa visão reducionista do termo “comunicação”, como na Teoria da Informação dos anos de 1970. Nesse sentido, Almeida Filho (2013, p. 13), argumenta que “codificar e decodificar informações, como num jogo de espelho, seria por demais redutivo e insuficiente”, pois “os participantes da interação social são sujeitos históricos” e cons- troem o discurso num processo de negociação. Nessa perspectiva, portanto, é na interação que o significado é coconstruído. O ensino comunicativo se trata de uma abordagem e não de um método. Dessa forma, pode-se utilizar atividades e procedimentos didático-pedagógicos de métodos diversos, como sustentam Richard 10 No inglês, Communicative Language Teaching. 110 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA e Rogers (2001). Nessa abordagem, práticas tradicionais de ensino podem ser reinterpretadas numa perspectiva comunicativa, como o ensino explícito de gramática e atividades de tradução de/para a língua materna dos estudantes. Ao contrário de abordagens e métodos formalistas como o mé- todo tradução-gramática e o método audiolingual,11 a concepção de língua no ensino comunicativo é de língua primeiramente enquanto interação e comunicação (BROWN, 1994). Assim, mesmo que essa abordagem faça uso de práticas de métodos diversos (inclusive de métodos formalistas), sempre terá a competência comunicativa como fim. A competência comunicativa, de acordo com Brown (2000), diz respeito ao conhecimento que permite uma pessoa se comunicar de forma funcional e interativa. Por outro lado, a competência linguística se refere ao conhecimento sobre a estrutura da língua. Entretanto, é bom lembrar que a competência comunicativa não exclui a competência linguística, apenas a considera insuficiente para se interagir socialmente. Para isso, é preciso “desenvolver uma competência comunicativa que engloba o conhecimento gramatical, o conhecimento lexical e o conhecimento do uso social da língua” (SILVEIRA, 1999, p. 75). Como sustenta Nunan (1989 apud BROWN, 1994), entre ou- tros autores, num ensino comunicativo, os estudantes realizam tarefas com a língua (perspectiva acional). Essas tarefas envolvem comunicação real.12 São tarefas significativas para o aprendiz e que envolvem o uso significativo da língua. Além disso, sua produção envolve estratégias de comunicação e estratégias de interação, já que a competência comunicativa também envolve a competência estratégica (CANALE; SWAIN, 1980 apud BROWN, 2000). 11 Para maiores informações sobre esses métodos, conferir Sousa (2008). 12 Às vezes autêntica, às vezes simulada, dependendo do objetivo da atividade. 111 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Nesse tipo de abordagem, o professor é visto como um facili- tador do processo de aprendizagem e do processo de comunicação em sala de aula, ele também participa das tarefas como interlocutor. Além disso, avalia permanentemente as necessidades dos alunos e organiza o processo de ensino. O aluno/aprendiz é visto como um negociador de significados, “dando” e “recebendo” no processo de interação. Nessa perspectiva, a colaboração entre os estudantes é muito estimulada. Essas premissas serviram de base para a organização e oferta do curso que promoveu a produção de dados para este trabalho, no qual trabalhamos com uma visão de língua enquanto comunicação e interação, e com um processo de ensino e aprendizagem de LE interativo, onde professor e alunos são participantes, negociando significados e utilizando uma língua real, viva e dinâmica. Abordagem de educação de surdos: educação bilíngue Quando falamos sobre definir “educação bilíngue para sur- dos”, muitos acreditam que se trata apenas de reconhecer a língua de sinais como L1 e a língua oficial do país como L2. Entretanto, esse reconhecimento implica em várias ações pedagógicas a fim de sustentar esse pressuposto básico. Quadros (1997) sugere uma série dessas ações, tais como: a presença de professores fluentes em Libras na escola; um currículo organizado em uma perspectiva visual-espacial; um currículo que trate de aspectos específicos da Libras e da comunidade surda (história, cultura surda etc.); a língua portuguesa ensinada como segunda língua por pessoas especializa- das em ensino de L2; o acesso a todos os conteúdos escolares por meio da Libras, entre outros. Nessa perspectiva, a língua de sinais não é vista apenas como um meio de se chegar à língua majoritária, como sustentam algumas 112 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA propostas educacionais para a comunidade surda que se denominam bilíngues. Na verdade, a língua de sinais é fundamental nesse pro- cesso, ela é que vai desencadear todo o processo de aprendizagem dos estudantes surdos. A língua portuguesa escrita tem seu papel específico de segunda língua nesse processo, pois ela é também uma língua dos surdos brasileiros. A recomendação (inclusive do Decreto 5626/2005) de que o português se faça presente na escola na modalidade escrita se dá pelo fato de que a escrita se apresenta em meio visual/gráfico. As- sim, as experiências essencialmente visuais das pessoas surdas são respeitadas. De acordo com esse decreto, o ensino da modalidade oral da língua portuguesa (e, por extensão, das línguas estrangeiras oral-auditivas, como o inglês e o espanhol) deve acontecer “prefe- rencialmente em turno distinto ao da escolarização, por meio de ações integradas entre as áreas da saúde e da educação, resguar- dado o direito de opção da família ou do próprio aluno por essa modalidade” (BRASIL, 2005, Art. 16). Lembramos que esse trabalho é prioritariamente da competência dos profissionais da saúde, os fonoaudiólogos. Quadros (1997), Lane (1992) e Guarinello (2007) argumentam que uma perspectiva bilíngue de ensino de línguas para surdos passa também pela interação entre a L1 e a L2 dos aprendizes. Fazer comparações explícitas entre as estruturas da L1 e da L2 pode fazer com que os surdos compreendam melhor as diferenças e as seme- lhanças existentes entre elas, a fim de que monitorem seu uso e sua aprendizagem. No estudo de uma L3/LE, os surdos podem contar, além da língua de sinais (L1), com o suporte da L2 como uma língua que participa ativamente do processo de aprendizagem e uso da L3, como sustentam Sousa (2008, 2015), Silva (2013), Rocha (2014). Todas essas premissas de uma educação bilíngue para surdos foram basilares para a organização e oferta do curso que promoveu 113 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA a produção de dados para este trabalho. Nesse curso, priorizou-se a valorização da língua de sinais como L1 dos estudantes, a valo- rização do português enquanto L2, as especificidades dos surdos enquanto sujeitos visuais, aspectos de sua cultura, além do histórico e do repertório linguístico desses sujeitos enquanto aprendizes de línguas. Abordagem de educação linguística: educação plurilíngue Educação plurilíngue é uma expressão que pode ter várias acepções, dependendo da perspectiva. Neste trabalho, nossapers- pectiva converge com a do Conselho Europeu, o qual define educação plurilíngue como “uma maneira de ensinar, não necessariamente restrita ao ensino de línguas, a qual objetiva aumentar a consciência de cada indivíduo sobre seu repertório linguístico, enfatizar seu va- lor e estender esse repertório […]” (CONSELHO EUROPEU, 2007, p. 51). Nesse sentido, a educação plurilíngue é vista não apenas como “aulas de línguas”, mas como uma postura linguística/educativa diante das variadas línguas e dos variados sujeitos que convivem num determinado espaço educativo, visando promover a valorização e a ampliação dos repertórios desses sujeitos. O ambiente educacional aqui investigado se propôs a ser plu- rilíngue, pois objetivou também trabalhar com o fortalecimento do repertório linguístico dos estudantes surdos matriculados no curso. Nesse sentido, levamos em consideração as línguas prévias com as quais os estudantes tinham tido contato – inglês, Libras e português na maioria dos casos. Alguns alunos da turma investigada aqui eram/ foram estudantes de ASL, fato que nos levou a fomentar discussões também sobre essa língua em alguns momentos das aulas. Apesar de uma educação plurilíngue visar o desenvolvimen- to de todas as línguas usadas pelos estudantes, no nosso curso, a 114 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA língua inglesa era o foco principal. Entretanto, acreditamos que o curso tenha ajudado a desenvolver também o português e a Libras dos estudantes participantes (bem como dos monitores surdos e ouvintes), por meio de discussões (principalmente comparando as estruturas dessas línguas com a da língua inglesa) e atividades de tradução que envolviam alguma/algumas dessas três línguas. Metodologia deste capítulo e do projeto/curso Tanto no projeto aqui investigado quanto neste capítulo, traba- lhamos com a metodologia de pesquisa conhecida como pesquisação (cf. SOUSA, 2008). Nesse tipo de pesquisa em ensino, o professor é o pesquisador, e o contexto da pesquisa é a sua própria sala de aula. O professor, na condição de participante do contexto de pesquisa, coleta dados para análise, que podem ser diários/notas de campo, atividades elaboradas para as aulas, planos de aula, produções dos estudantes, entrevistas, diálogos vivenciados em sala de aula, entre outros. Esse tipo de pesquisa ajuda o professor a entender melhor sua própria prática profissional e responder perguntas do tipo “por que ensina como ensina?”. Nesse sentido, a “análise de abordagem” (ALMEIDA FILHO, 2009) é um tipo de procedimento de análise que colabora para uma tomada de consciência por parte do professor, tanto da sua abordagem de ensinar quanto das abordagens de terceiros envol- vidos no contexto de ensino-aprendizagem (como a abordagem de ensinar dos autores dos livros didáticos, dos dirigentes das escolas e cursos de idiomas, a cultura de aprender línguas dos alunos etc.). Para Almeida Filho (2009. p. 12), isso pode levar a “pequenas e par- ciais mudanças que eventualmente podem levar a uma ruptura de abordagem de ensinar do professor posto sob análise”, por meio do diálogo crítico consigo mesmo e com outros analistas (supervisores, pesquisadores etc.). 115 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Moita Lopes e Freire (1998) argumentam que para mudar uma prática social é preciso refletir sobre ela, e esse é o alicerce da pes- quisação. Para mudar a realidade de sua sala de aula, o professor precisa se tornar investigador do contexto no qual ele atua, inves- tigando não só os alunos, os materiais, mas, sobretudo, a si mesmo. Após a reflexão sobre a própria prática, o professor-pesquisador traça, então, um plano (ou planos) de intervenção, a fim de alterar situações específicas. Isso pode trazer significativas melhorias para a sala de aula, tanto com relação aos processos de ensinar quanto aos de aprender. Neste capítulo, temos a análise de relatos de monitores- -pesquisadores que têm investigado sua própria prática de sala de aula por meio do registro de notas/diários de campo, entre outras estratégias. Ao mesmo tempo em que os monitores vão observando seu comportamento como codocentes, dialogam com a coordenadora do projeto (professora regente da sala, que também atua como su- pervisora dos monitores) em reuniões de planejamento, de estudo e de avaliação – como será apresentado na seção a seguir. Dessa forma, juntos, todos da equipe vão tentando realizar mudanças que favoreçam a aprendizagem do inglês pelos alunos surdos da turma. Enfim, o estudo de caso, inclusive a pesquisação (que para Stenhouse, 1983 apud Nunan, 1992, é um tipo de estudo de caso), tem sido muito utilizado como opção metodológica em diversas pesquisas em linguística aplicada, ajudando a traçar um perfil do desenvolvimento da linguagem em L2/LE. Isso reforça nossa esco- lha por esse tipo de metodologia de pesquisa neste trabalho e no projeto em que atuamos. 116 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A formação dos monitores do projeto para/na turma de 2019 O projeto de extensão aqui investigado (Ensino de Inglês Es- crito para Surdos - Etapa 2019) se encontra cadastrado no sistema para Projetos de Pesquisa e Extensão da UFSC (SIGPEX), cujo acesso é restrito a determinados servidores da instituição. Apresentaremos nesta seção alguns itens importantes desse projeto para o estudo que aqui propomos. Nesse projeto, os objetivos gerais estão assim descritos: “1) Proporcionar aos alunos surdos conhecimentos bási- cos de língua inglesa escrita; 2) Formar monitores (codocentes) para o ensino de inglês nesse contexto” (SOUSA, 2019, n. p.). Trata-se, portanto, de duas ações: formar estudantes surdos na aprendizagem do inglês escrito e formar monitores para atuar nesse tipo específico de ensino. Os objetivos específicos também envolvem essas duas ações, como será apresentado no quadro a seguir. Figura 1 - Objetivos Específicos do Projeto de Extensão “Ensino de inglês escrito para surdos - Etapa 2019” Fonte: Sousa (2019, n. p.). Como se vê, para a formação dos monitores estão previstos momentos de reunião de planejamento/estudo/avaliação com a su- pervisora (professora regente, coordenadora do projeto), momentos de observação de aulas de inglês ministradas pela professora regente e momentos de prática de ensino pelos próprios monitores. Além disso, a prática da autopesquisa é incentivada, bem como o ensino 117 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA reflexivo, cujas inquietações são discutidas com a equipe pedagógica (professora regente e monitores) nas reuniões presenciais e online (em grupo, por aplicativo de mensagens instantâneas). Quanto à metodologia, o projeto traçou os seguintes procedi- mentos para a formação dos monitores: A formação dos monitores se dará nas aulas do curso de extensão, seja em observação participante ou em atuação direta no ensino; em encontros semanais de estudo, planejamento e avaliação com a coordenadora do projeto; em atendimentos aos alunos do curso em momentos de plantão tira-dúvidas e em momentos individuais de leitura e estudo. Durante o semestre 2019.1, a coordenadora do projeto e os monitores voluntários se reunirão semanalmente para preparar aulas, atividades e materiais didáticos, além de se reunirem para estudar/discutir textos que embasem teoricamente a prática docente em questão. Em 2019.2 será oferecida à comunidade da UFSC e arredores uma turma de inglês escrito para surdos em nível básico (72h/a) (SOUSA, 2019, n. p.). Portanto, houve um período anterior à ministração das aulas coletivas e dos momentos de plantão tira-dúvidas individuais, composto por momentos de estudo e planejamento. Nessas reuni- ões, conceitos teóricos importantes para a área foram trabalhados (alguns dos quais foram apresentados na seção 1deste capítulo), bem como discussões sobre didática e metodologias de ensino de LE para surdos, elaboração de materiais didáticos, avaliação, entre outros temas relevantes. Com o início das aulas, além de estudo e planejamento, havia como material para as reuniões a própria experiência vivida com os estudantes matriculados no curso, expe- riências observadas no ensino e na aprendizagem. Era assim que, basicamente, se dava a formação em serviço desses monitores. 118 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Como justificativa para a formação dos monitores, o projeto apresentou o seguinte: Quanto à formação dos monitores (codocentes), ela se justifica pela inexistência de espaços formais que proporcionem a formação de professores de língua es- trangeira (no nosso caso, inglês) para surdos, tanto na prática quanto na teoria. A demanda por esses profis- sionais tem crescido gradativamente nos últimos anos em nosso país, seja na Educação Básica, Ensino Superior ou em outros contextos (SOUSA, 2019, n. p.). Nesse sentido, a formação em serviço que este projeto de ex- tensão proporciona tem como objetivo preencher uma lacuna na formação dos licenciandos em Letras Inglês, que dificilmente con- templam o contexto de ensino de surdos por meio da Libras em seu currículo, como também busca incentivar os alunos de Letras Libras que possuem conhecimento da língua inglesa e desejo de ensinar essa língua a complementarem sua formação com essa formação de curta duração (enquanto não seja possível a eles cursarem Letras Inglês). Os alunos surdos de Letras Libras, por exemplo, encontram barreiras ao querer ingressar numa licenciatura em Letras Inglês devido à falta de adaptação curricular (já que as disciplinas que contemplam a oralidade da língua inglesa são incompatíveis com o perfil da maioria dos estudantes surdos sinalizantes). Como consta no projeto de extensão, como resultado dessa formação em serviço, “espera-se que os estudantes monitores (codocentes) adquiram conhecimentos práticos e teóricos no que diz respeito ao ensino de inglês escrito para surdos, além de apri- morar sua fluência em Libras” (SOUSA, 2019, n. p.). Portanto, não podemos esquecer de mencionar a dimensão plurilíngue dessa formação, a qual objetiva também potencializar as línguas dos monitores, sobretudo a Libras dos monitores do Letras Inglês, e o 119 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA inglês dos estudantes do Letras Libras (além da língua portuguesa escrita dos monitores surdos). Essa parte da formação não se dava em momentos específicos de estudo dessas línguas, mas na prática de sala de aula e nos momentos de reunião, que eram em Libras, ou em momentos em que os monitores tinham alguma dúvida sobre inglês, Libras ou, até mesmo, português (no caso dos surdos). Como argumenta Abrahão (2009), os trabalhos de pesquisa que têm como foco cursos de formação em serviço de professores de segunda língua e de língua estrangeira são escassos. A autora reforça que também são escassos os cursos voltados para uma for- mação continuada com reflexão e prática do professor de LE, num processo de pesquisação crítica sobre suas próprias aulas, levando a um crescimento profissional. Este estudo visa, portanto, contribuir com esse campo de pesquisa e de cursos de formação de professo- res, trazendo algumas reflexões sobre o ensino de inglês escrito para surdos por meio da Libras e sobre a formação em serviço de professores/monitores para esse tipo de ensino. Análise e discussão dos dados A partir das reflexões teórico-metodológicas apresentadas anteriormente, nesta seção serão abordadas as análises dos relatos dos monitores (codocentes) sobre sua participação na turma de 2019 do projeto de extensão mencionado,13 focando nos seguintes aspectos: língua de instrução do curso, papel da língua portuguesa nas aulas, trabalho cooperativo entre monitores surdos e ouvintes, planejamento e realização das aulas e relação com os alunos surdos. As aulas ministradas no curso foram em Libras, a L1 dos alunos surdos, exigindo da professora regente e dos monitores uma boa proficiência na língua de sinais para poder ensinar aos 13 Os relatos completos dos monitores estão em anexo no fim deste capítulo. 120 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA alunos surdos com qualidade. Como argumenta Romaine (1995), utilizar a LM/L1 dos alunos de um grupo minoritário como língua de instrução é um direito linguístico e essencial para a educação desses indivíduos, além de lhes garantir uma proximidade afeti- va com os professores durante o aprendizado da L2/LE. A seguir, apresentamos um trecho do relato da monitora Nicole que trata dessa questão. Então em Libras eu tentei fazer um classificador que remetesse a imagem de um “tablet”, pois eu não sabia o sinal em Libras, e em seguida fiz a datilologia da palavra. Posteriormente fiz o sinal de “mesa” em Li- bras e em seguida fiz a datilologia da palavra “table”, e perguntei se o aluno havia compreendido e recebi um feedback positivo. Neste momento fiquei muito nervosa, pois meu conhecimento em Libras é básico, mas também fiquei muito feliz e me senti útil podendo ajudar o aluno a compreender melhor o significado de palavras em inglês, sua L3, através da Libras, sua L1 (Anexo 1, Relato da monitora Nicole). Conforme se observa no relato de Nicole, é importante saber Libras para se comunicar e assim explicar melhor os conteúdos para os alunos, de modo que a internalização de vocábulos da L3 seja feita de maneira adequada e o mais natural possível por parte do aluno. Cummins (1981) trata da teoria da interdependência lin- guística. Nessa perspectiva, a L1 e a L2 do aluno influenciam no aprendizado de uma L3 por ele. Durante as aulas do curso aqui investigado, observou-se essa influência em diversos momentos. Um desses momentos foi o jogo em que os alunos deveriam orga- nizar palavras recortadas e formar frases em inglês, como descrito no relato a seguir. 121 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Um dos jogos foi dispor sobre três mesas palavras em inglês que formavam um diálogo perguntando sobre o nome, sinal, etc. As palavras estavam embaralhadas e os alunos deviam colocar na ordem correta, observei neste momento a influência da gramática da Libras e do Português nas sentenças, pois mais de uma vez os alunos dispuseram a ordem das palavras utilizando ora a gramática do português, ora a gramática da Libras, percebi assim a influência da L1 e da L2 na aquisição da L3. Os alunos se apoiaram em suas línguas pré- -conhecidas para conseguir formular e completar as frases em inglês, e com isto, a partir desse conheci- mento deles, nós monitores auxiliamos na construção das frases utilizando a gramática do inglês, mostrando, por exemplo, que os adjetivos em inglês vêm antes do substantivo (Anexo 1, Relato da monitora Nicole). O fato de esta ação, natural do falante bilíngue, ocorrer em sala de aula é bom, pois encoraja o aluno a prosseguir a aprendizagem e a internalizar a gramática da língua-alvo de maneira leve e natural, sem tanta pressão. Utiliza-se, assim, da L1 e da L2 para ir compa- rando as semelhanças e as diferenças entre as línguas envolvidas e, gradualmente, ir substituindo as estruturas da L1 e da L2 pelas da L3, conforme a evolução no processo de aquisição, como argumenta Cummins (2000, 2007) e Sousa (2008, 2015). Por isso, ensinar inglês em Libras não só é possível como é necessário, para que professores e alunos possam se comunicar de forma viável e para que o ambiente seja o mais inclusivo possível, pois é um direito do surdo ser ensinado em Libras – conforme o Decreto 5626/2005. Conforme já mencionamos, o uso da L1 garante que os direitos dessa comunidade sejam respeitados e que os alu- nos tenham acesso aos conteúdosescolares através da sua LM (cf. QUADROS, 1997). 122 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Com relação à língua portuguesa, em certos momentos do curso, notou-se que essa língua tinha um papel de língua ins- trumental, como relatado pelo monitor Igor, no seguinte trecho: “neste sentido, o português, enquanto L2, se torna fundamental, pois exerce função comparativa, em termos de estrutura gramati- cal e de modalidade escrita” (Anexo 2, Relato do monitor Igor). O português (L2) é, portanto, importante durante o aprendizado da L3 porque serve como um apoio linguístico para a aquisição da L3/ LE, mesmo não tendo papel principal dentro das aulas. Esse papel instrumental do português como segunda língua no aprendizado de inglês (L3) por surdos também foi observado por Sousa (2008, 2015), que ratifica a importância das línguas de apoio no processo de ensino-aprendizagem da L3. Quanto à relação entre os monitores surdos e ouvintes, a palavra-chave para definir essa relação foi “segurança”. Saber que tinha outros monitores em sala para auxiliar no andamento da aula, na preparação e ter o feedback após as aulas foi essencial para a evolução pessoal e profissional dos monitores, de acordo com os relatos. Cada um tinha algo para contribuir no andamento do cur- so e na formação dos colegas, fosse por meio de um olhar voltado para as especificidades da comunidade surda enquanto indivíduos pertencentes à mesma, fosse compartilhando experiências prévias em sala de aula como professores de surdos ou como pesquisadores, complementando a atuação dos colegas com sugestões e feedbacks construtivos. Sobre isso, Nicole (Anexo 1) relata que: A experiência pedagógica da codocência, juntamente com a formação ofertada, enriqueceu as aulas de inglês, pois possibilitou que houvesse um espaço de diálogo pré-sala de aula, para retirada de dúvidas, sugestões e a troca de ideias sobre as experiências no ensino de inglês para surdos que já tinham acontecido anterior- mente, me preparando para dar aulas fora do curso com 123 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA alunos tanto surdos quanto ouvintes (Anexo 1, Relato da monitora Nicole). No contexto deste curso, duas monitoras tinham menos tempo de experiência em sala de aula. Mas um ambiente seguro se for- mou, em que não julgávamos o processo de lecionar de cada um, tornando-se uma espécie de “laboratório” para que os monitores colocassem a “mão na massa” e sentissem como é ensinar sem se- rem julgados se em algum momento se equivocassem em alguma explicação ou se não sinalizassem da forma mais adequada. Todos os monitores se permitiram vivenciar o papel de professores sem medo. Para Almeida Filho (2009, p. 14), a observação sistemática de si e por um outro professor/pesquisador, “dialogando criticamente consigo mesmo ou com um outro solidário e preparado para tal” nos leva a uma “tomada gradual de consciência” acerca de como ensinamos uma língua estrangeira. Nesse sentido, a formação em serviço promove o confronto do professor consigo, por meio de autorreflexões e também por meio do diálogo com os colegas ob- servadores de suas aulas – no caso deste trabalho, os observadores foram a professora regente e os colegas monitores. Essa “análise conscientizadora” (pelos olhos do outro e por si) permite possi- bilidades de mudanças na abordagem de ensinar desse professor, segundo Almeida Filho (2009). Sobre a elaboração das aulas, o relato do monitor Igor ressalta a importância do trabalho cooperativo entre os monitores, conforme trecho a seguir. O modo com que a Karolyne costumava propor o uso de algumas imagens, ao invés de apenas escrever algo no quadro para tratar de determinado assunto, ao propor determinadas brincadeiras que surdos já estavam habi- tuados para que os alunos pudessem interagir e ajudar uns aos outros com seus próprios conhecimentos e 124 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA facilidades em determinadas atividades, até mesmo suas dúvidas nas preparações, apresentando a dúvida na visão da pessoa surda, permitiram com que pudés- semos adequar atividades e preparar aulas (Anexo 2, Relato do monitor Igor). O que fica mais evidente no relato anterior, para além da co- laboração na elaboração de materiais e aulas, é a presença de uma monitora surda no curso, pois agrega desde o planejamento o olhar singular da pessoa surda, permitindo que o ensino possa ser o mais próximo possível da realidade dos alunos surdos. Sobre semelhanças e diferenças entre surdos e ouvintes aprendendo uma LE, a monitora Karolyne relata o que destacamos a seguir: Nos humano seja o surdo ou ouvinte, temos a capaci- dade para aprender em vários línguas. Surdo e ouvinte temos o mesmo limites pra aprender novas línguas e isso demostra a capacidade que temos apenas com uma me- todologia dos surdos e dos ouvintes diferente de como aprendemos (Anexo 3, Relato da monitora Karolyne).14 A necessidade de uma metodologia específica para surdos (além do reconhecimento das capacidades e dificuldades da pessoa surda para aprender línguas, como ocorre com qualquer ser humano) aparece no posicionamento da monitora surda no relato anterior. Numa visão socioantropológica de surdez (SKLIAR, 2005), a pessoa surda não é definida pelo que lhe falta com relação à nor- matividade (no caso dos surdos, a audição), mas sim pelo que lhe constitui, que é a experiência visual das pessoas surdas. Ou seja, ao invés de falarmos apenas de dificuldades no aprendizado de 14 Nós optamos por deixar o relato da monitora Karolyne escrito como no original, ou seja, em português como segunda língua. 125 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA uma LE por surdos (oriundas da sua diferença linguística, cultural e, inclusive, sensorial), devemos falar também da potencialidade dessas pessoas para o aprendizado de uma LE, potencial esse que necessita de abordagens de ensino e de avaliação adequadas às suas especificidades. Quando Quadros (1997) sugere um currículo organizado em uma perspectiva visual-espacial para uma educação bilíngue, a autora está tratando justamente dessa questão da visualidade da pessoa surda, e isso é central em um ensino específico para surdos. Esse tipo de debate se tornou ainda mais presente no plane- jamento e na execução das aulas devido à presença de uma pessoa surda no grupo de docentes, pois ensinar surdos na perspectiva do professor ouvinte (mesmo ouvintes fluentes em Libras) é significati- vamente diferente de ensinar surdos na perspectiva de um professor surdo. A riqueza dessa interação muito provavelmente reverberou de forma positiva na aprendizagem dos estudantes do curso. No que diz respeito ao que sustenta Nunan (1989 apud BROWN, 1994), de que em um ensino comunicativo os estudantes realizam tarefas com a língua, é interessante observar o trecho a seguir do relato do monitor Igor. Alguns exemplos disso que posso mencionar são bate-papos que elaboramos por meio do Whatsapp (situação comunicativa), da escrita de uma breve apresentação pessoal, que consistia em informar coi- sas como data e local de nascimento, nome completo, ocupação, estado civil, hobbies, etc. As aulas sempre são preparadas a partir de uma situação, para, no encer- ramento de seu ciclo, realizarmos atividades escritas, de modo a proporcionar uma adequação à forma da L3. Não somente, mas nesta última etapa o português se torna mais relevante, pois permite comparar estruturas (Anexo 2, Relato do monitor Igor). 126 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA O trecho destacado relata exemplos de atividades voltadas ao uso significativo da língua, à situação comunicativa em si, corrobo- rando também com a premissa de Almeida Filho (2013), de que na interação é que o significado é construído,LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Sucede a esse capítulo, a segunda parte da obra, que trata acer- ca da descrição linguística da Libras. Essa descrição tem início no capítulo 7, intitulado “ESTUDO TRANSLINGUÍSTICO DA ICONICI- DADE LEXICAL POR MEIO DA ANÁLISE DE SINAIS QUE DESIGNAM CORES”, escrito por Katherine Fisher e André Nogueira Xavier. Os autores investigaram a iconicidade lexical presente em sinais que designam cores, a partir de um estudo comparativo entre sinais de cores em Libras e sinais de cores em outras línguas de sinais, com o objetivo de categorizar os termos para cores como nativos ou empréstimos, classificando os termos nativos em relação à sua iconicidade, e determinando o perfil tipológico das línguas de sinais da amostra, em relação aos termos de cores, com destaque à Libras. Das 39 línguas catalogadas no site do Spread the Sign, foram selecionados 413 sinais de cor, entre onze cores pesquisadas (preto, branco, vermelho, verde, amarelo, azul, marrom, laranja, roxo, rosa e cinza). Não foram encontrados sinais de algumas cores em todas as línguas e foram identificadas variantes lexicais para uma mes- ma cor em uma mesma língua. Os sinais em que não parecia haver letras do alfabeto manual foram identificados como empréstimos linguísticos, enquanto os sinais identificados como nativos foram subdivididos com base na sua aparente motivação. Entre os resultados obtidos, observou-se que as cores mais básicas (preto, branco, vermelho etc.) são majoritariamente expres- sas por meio de sinais nativos em oposição a cores menos básicas (roxo, rosa etc.), expressas em sua maioria por sinais resultantes de empréstimos linguísticos. No capítulo 8, “CODE-SWITCHING ENTRE A LIBRAS E A LÍNGUA DE SINAIS VENEZUELANA (LSV): UMA ANÁLISE TIPOLÓ- GICA”, Rodrigo Mesquita e Alessandra Cruz apresentam um estudo descritivo dos aspectos tipológicos do code-switching, envolvendo o par linguístico Libras (língua de sinais brasileira) e LSV (língua 14 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA de sinais venezuelana), duas línguas de sinais sul-americanas uti- lizados por uma comunidade de surdos venezuelanos na condição de imigrantes (ou pós-imigrantes) em Boa Vista – Roraima. Nas frases analisadas foram identificadas inserções da Libras em sentenças em LSV, assim como inserções da LSV em sentenças da Libras. Algumas ocorrências, apontam para recursos utilizados em outros contextos e estão relacionados a atitudes linguísticas de afirmação identitária, especialmente entre pessoas mais jovens. Por fim, o estudo identificou dois tipos de code-switching: intra- -sentencial e intersentencial, além de vários recursos linguísticos empregados pela comunidade de fala, no contexto de bilinguismo, contexto de línguas em contato, o que levou à compreensão de que características linguísticas dos fenômenos de contato linguístico em contexto fronteiriço podem oferecer subsídios educacionais para surdos em contextos de bi ou multilinguismo e para a comunidade de imigrantes e/ou pós-imigrantes surdos (no estado de Roraima). No capítulo 9, “O SISTEMA DE POSSE E O APAGAMENTO DO AGENTE NA LIBRAS”, José Ishac Brandão El Khouri descreve a estrutura gramatical do sistema de posse em Libras. Segundo o autor, a posse envolve uma relação entre uma entidade possuidora e uma entidade possuída e afirma que, em Libras, a posse atribu- tiva é descrita de três formas: pelo pronome possessivo, pelo sinal PRÓPRIO e por justaposição, uma estratégia primária sem nenhuma marcação morfossintática adicional, para expressar a relação entre possuidor e possuído. Segundo Khouri, o pronome possessivo, em Libras, manifesta- -se em primeira, segunda e terceira pessoa do singular, e em segunda pessoa do plural. Em geral, são sinais direcionais, assim como os pronomes pessoais (com a configuração de mão em P). A realização desse pronome possessivo, articulado de maneira repetida e com uma marcação não manual específica (depressão dos 15 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA cantos da boca), relacionado a um sintagma verbal, promove um efeito semântico de apagamento do agente e, em algumas situações, um apagamento da causa do evento. Esse efeito assemelha-se às construções ergativas no português brasileiro e estabelecem uma noção de que o evento aconteceu por ele mesmo; a noção de uma ação realizada sem uma causa motivadora que a desencadeasse. O capítulo 10, “CONJUNÇÃO IRREALIS NA LIBRAS: ACENO DE CABEÇA + MOUTHING JÁ”, foi escrito por Thamara Cristina Santos e Mônica Veloso Borges. A partir de dados da língua em uso, as autoras descrevem uma estrutura gramatical da língua de sinais brasileira, articulada a partir de uma projeção da cabeça de trás para frente, em um movimento de afirmação, com sobrancelhas arqueadas e franzimento da testa. Simultaneamente ao movimento de cabeça descrito, os lábios articulam a configuração-boca que, em português, equivale a “já”. Essa estrutura foi identificada pelas autoras como uma conjunção de natureza não manual, nomeada por “aceno de cabeça + mouthing JÁ” e parece referir-se a uma situação ou ação não considerada real e que pode promover tanto uma noção temporal (futura), quanto uma noção de condicionalidade. Essa conjunção realiza uma conexão entre uma oração matriz e uma oração dependente, que funciona como um adjunto da oração matriz, uma característica das orações hipotáticas adverbiais. Em síntese, o artigo apresenta o processo de articulação de orações nos níveis de parataxe, hipotaxe e encaixamento, em Libras; problema- tiza as orações hipotáticas condicionais e temporais, e discute os dados sobre a conjunção irrealis, identificada no estudo. O capítulo 11, “SINGULAR, PLURAL E DUAL NA LIBRAS”, escrito por Melissa Maynara dos Passos Leal e Bruno Gonçalves Car- neiro, discute alguns dados em relação à manifestação dos valores (singular, plural e dual) da categoria número, em nomes da língua de sinais brasileira, numa perspectiva tipológica, tomando-se como 16 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA base a pesquisa de Carneiro (2023), que identificou, numa amostra de dez línguas de sinais, valores (singular, plural e dual) e estratégias de manifestação da categoria número em línguas sinalizadas, o que levou os autores à proposição de alguns padrões de manifestação intramodais e intermodais da categoria número, oriundos da com- paração entre línguas de sinais diferentes e entre línguas de sinais e línguas orais. Este estudo sugere a existência de línguas de sinais de número opcional e de línguas de sinais de número obrigatório, e identifica a forma singular como forma zero. Como resultados, foi possível identificar que o plural está presente em todas as línguas de sinais e se manifesta a partir de estratégias sintáticas (consideradas primárias) e morfológicas. As estratégias reportadas sugerem que as línguas de sinais possuem uma predileção analítica sobre a sintética e, por isso, parecem ser isolantes para a categoria número. Em relação às estratégias morfológicas, o uso de mouthing (afixo) é raro e pressupõe o uso de reduplicação sem deslocamento. O singular é expresso por zero, por justaposição com apontamento e, ainda, com verbos descritivos e incorporação de referentes. O dual é expresso a partir da duplicação das mãos e justaposição, com verbos descritivos, e, por fim, o plural acontece por zero, reduplicação com deslocamento e justaposição com quantificadores, numerais e verbos descritivos. Por fim, no capítulo 12, “GESTO, SINAL OU CLASSIFICADOR? reflexões sobre o processo de lexicalização na língua de sinais brasileira”, Bruno Gonçalves Carneiro inicia suas reflexões com o desafio de conceituar palavra, como conceito central nas línguas, além de poder referir-se a discurso, como quando se passa a “pa-pois nestas atividades os alunos interagiam entre si para usar a língua alvo – o inglês. Estas premissas também aparecem no seguinte trecho do relato desse mesmo monitor, em que é mencionado que a preocupação com a abordagem comunicativa, baseada em situações de uso da língua, se dá desde o planejamento das aulas. [...] esta aproximação do ensino à realidade do aluno surdo se dá da seguinte forma, a meu ver: elaboração de aulas a partir de possíveis situações em que a língua pode ser usada; elaboração de materiais adequados à realidade perceptiva do aluno, ou seja, o grande uso de vídeos, imagens, etc, de materiais visuais; ao permitir que o aluno use livremente a língua, sem grandes exi- gências quanto à adequação gramatical em determina- dos momentos, com o objetivo de permitir que o aluno compreenda e se aproprie do contexto de uso da língua, para posteriormente, tomar conhecimento da forma da língua adequada àquela situação (Anexo 2, Relato do monitor Igor). Ainda sobre a língua de instrução do curso, por mais que os relatos destacados até aqui ressaltem uma preocupação com o uso da L1 do aluno surdo, o trecho a seguir exemplifica que o curso re- flete um pouco a (triste) realidade do sujeito surdo em seu processo de aquisição da Libras, a saber: que nem todos os surdos tiveram a oportunidade de adquirir a Libras e se tornar fluentes nessa língua, sobretudo devido a uma visão de surdez como deficiência (SKLIAR, 2005) que (infelizmente) ainda está presente em muitas famílias de surdos e instituições de saúde e de ensino, as quais negam ao surdo o direito de se desenvolver numa língua que lhe seja acessível e con- 127 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA fortável, numa língua visual-espacial, “obrigando-lhe” a se adequar à norma, ou seja, a uma língua oral-auditiva, por meio de processos de oralização. Com isso, muitas vezes o seu aprendizado do portu- guês como segunda língua também acaba ficando comprometido, já que, nesses casos, não há uma língua plenamente acessível ao aluno surdo compartilhada entre o surdo e o seu professor. Essa realidade aparece refletida no trecho a seguir. Houve casos de alunos que não conseguiram acompanhar o curso, tendo desistido, pois não sinalizavam bem, tam- pouco compreendiam a língua, que dirá ter conhecimen- to, competência linguística para se valer do português escrito como ferramenta para compreender e desenvolver a língua inglesa (Anexo 2, Relato do monitor Igor). Esse trecho demonstra que, apesar de o curso ser elaborado a partir de premissas de educação bilíngue (GUARINELLO, 2007; LANE, 1992; QUADROS, 1997), bem como na perspectiva educacio- nal plurilíngue (CONSELHO EUROPEU, 2007; SOUSA, 2008, 2015), muitos alunos surdos ainda não conseguem acompanhar o curso de extensão em questão por não possuírem um nível de letramento em Libras que os permita usufruir desse contexto de ensino. Sobre a relação entre os monitores e os alunos surdos, de acordo com os relatos, ela foi muito boa. O fato de os monitores saberem Libras facilitou a interação com os alunos, pois o ambiente era des- contraído. No seu relato, a monitora surda reforça a importância dos monitores saberem Libras ao afirmar que, nas oportunidades que teve, pôde explicar novamente alguns tópicos na L1 dos alunos. Em 2019 participei do Projeto/Curso como monitora (agosto a dezembro), na monitoria eu ficava observando cada aluno fazendo suas atividades, ajudando a tirar dúvidas e explicando o que poderia ser usado ou não. E 128 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA quando eu substituía a professora, eu reforçava o conteú- do estudado, tirando as dúvidas e repetindo a explicação [...] Os alunos surdos sempre teve dúvidas sobre o inglês, sempre se dando bem em interagir para tirar suas dúvidas das atividades. Sempre perguntando dos nomes o portu- guês para o inglês. E os monitores sempre observando e orientando para o melhor aprendizado e a capacidade dos alunos de aprenderem rápido ou dificuldades e sempre procurando estratégia de como ajudar ou esclarecer as dúvidas. (Anexo 3, Relato da monitora Karolyne). Ademais, no ambiente construído contava-se piadas, e os alu- nos interagiam muito, entre si e com os professores. Esse contexto é bem diferente de um ambiente em que o professor não sabe Libras e precisa do auxílio do intérprete para se comunicar com os alunos. Nesse caso, muito se perde por conta da logística da interpretação, ou seja, a barreira linguística afasta, em certa medida, o aluno surdo do professor não fluente na Libras. Para finalizar, concluímos, a partir da análise dos dados, que a experiência docente dos monitores foi de extrema relevância e importância tanto para a comunidade surda quanto para a evolu- ção profissional dos monitores. O contato plurilíngue trouxe aos monitores habilidades únicas através dessa formação atuante e oportunizou a criação de estratégias para o ensino de inglês para surdos que servirão para o ensino de outros surdos e também de ou- vintes. O fato de a língua de instrução ser a Libras proporcionou aos alunos surdos um ambiente diferenciado, inclusivo, descontraído e familiar para a aprendizagem da LE/L3, mostrando a importância de se ensinar através da L1 dos surdos. Considerações finais O objetivo principal deste trabalho foi refletir sobre o ensino de inglês para surdos e sobre a formação de monitores (codocentes) para 129 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA atuar nesse contexto. Essas reflexões tiveram como base a análise dos relatos de experiência de três monitores que atuaram num projeto de extensão de inglês escrito para surdos da UFSC no ano de 2019. Percebemos que a formação em serviço proporcionada pelo projeto de extensão por meio da pesquisação criou oportunidades de crescimento para todos os envolvidos na docência nesse projeto. Os monitores (codocentes), além de ampliar seu repertório linguístico nos três idiomas utilizados no curso (Libras, português e inglês), ainda adquiriram estratégias para a atuação docente específica no ensino de inglês para surdos. Quanto aos monitores ouvintes, ressaltamos sobretudo a sua aprendizagem prática do que seria a “visão surda”, que tanto os autores tratam quando teorizam sobre educação bilíngue de sur- dos, já que vivenciaram o planejamento e a execução das aulas ao lado de uma monitora surda. Além disso, tiveram a oportunidade de dar aulas de inglês em Libras, bem diferente do que estavam acostumados com seus alunos de inglês ouvintes. Quanto à monitora surda, ressaltamos que a mesma teve, so- bretudo, a oportunidade de aprender com seus colegas monitores e com a professora regente estratégias específicas de ensino de inglês, já que o curso da monitora surda era o Letras Libras, e o dos monitores ouvintes era Letras Inglês. Além de impactar a vida dos docentes, o curso também im- pactou positivamente a vida dos estudantes surdos, que tiveram a oportunidade de estudar uma língua estrangeira na modalidade que lhes é plenamente acessível (nas habilidades de leitura e escrita), tendo a Libras como língua de instrução e o português como língua de apoio (além de outras línguas que, por curiosidade, foram apa- recendo no processo, como a ASL). Esse curso, portanto, se trata de uma importante ação de política linguística dentro da UFSC, para a comunidade local de surdos. 130 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Como ações futuras, é possível pensarmos em aprimorar a formação continuada dos monitores, por exemplo, com momentos específicos de estudo das línguas envolvidas (sobretudo inglês e Li- bras), ampliando, além de sua “competência aplicada e profissional”, a sua “competência linguístico-comunicativa”, como bem observou Abrahão (2009, p. 46) em seu projeto de formação continuada de professoresde inglês. Além disso, não podemos esquecer do que Almeida Filho (2009) ressalta: é preciso pensar também na formação dos produtores de materiais didáticos, dos dirigentes das escolas, dos formadores de professores, para que se abram mais espaços de ensino bi/plurilín- gues e comunicativos de LEs para surdos em nossa comunidade. Referências ABRAHÃO, M. H. V. 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No primeiro momento foi a professora Aline que deu as aulas de inglês em Libras, depois foi o professor Igor, e houve um momento em que o Igor e a Karolyne deram aula juntos. Um aluno surdo me perguntou em Libras qual era a diferença entre as palavras “tablet” e “table”, algo que para um ouvinte pode parecer simples por conta da pronúncia das palavras, eu percebi que para um surdo essa diferença não era tão explícita por não ter contato com esse tipo de input. Então em Libras eu tentei fazer um classificador que remetesse a imagem de um “tablet”, pois eu não sabia o sinal em Libras e em seguida fiz a datilologia da palavra, posteriormente fiz o sinal de “mesa” em Libras e em seguida fiz a datilologia da palavra “table”, e perguntei se o aluno havia compreendido e recebi um feedback positivo. Neste momento fiquei muito nervosa, pois meu conhecimento em Libras é básico, mas também fiquei muito feliz e me senti útil podendo ajudar o aluno a compreender melhor o significado de palavrasem inglês, sua L3, através da Libras, sua L1. Como minha pesquisa na época era sobre o material didático em aulas de inglês para surdos, prestei mais atenção neste ponto. Havia 134 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA poucas tarefas para casa, porém eram mais curtas e a maioria dos alunos faziam em sala de aula. A professora Aline utilizava o quadro para explicar alguns conceitos gramaticais e quando o fazia escrevia somente em inglês os conceitos gramaticais, utilizando sempre canetas coloridas para chamar visualmente a atenção dos alunos surdos. Os professores monitores se utilizaram de jogos e brincadeiras para traba- lhar a construção de frases e aquisição de vocabulário pelos alunos. Um dos jogos foi dispor sobre três mesas palavras em inglês que formavam um diálogo perguntado sobre o nome, sinal, etc. As palavras estavam embaralhadas e os alunos deviam colocar na ordem correta, observei neste momento a influência da gramática da Libras e do Português nas sentenças, pois mais de uma vez os alunos dispuseram a ordem das palavras utilizando ora a gramática do português, ora a gramá- tica da Libras, percebi assim a influência da L1 e da L2 na aquisição da L3. Os alunos se apoiaram em suas línguas pré-conhecidas para conseguir formular e completar as frases em inglês, e com isto a partir desse conhecimento deles nós monitores auxiliamos na construção das frases utilizando a gramática do inglês, mostrando, por exemplo, que os adjetivos em inglês vêm antes do substantivo. O curso de formação ministrado pela professora Aline Nunes de Sousa nos habilitou a trabalhar com os alunos de maneira comunicativa, propondo como atividades situações que estão relacionadas à realidade cotidiana dos mesmos, explorando o ensino comunicativo nas atividades e meto- dologias de ensino. As teses e artigos estudados durante a formação foram essenciais para lidarmos com as situações adversas em sala de aula, por exemplo a dissertação e tese de Sousa (2008, 2015) e a tese de Pereira (2015)15, que trabalha os “DISCURSOS PEDAGÓGICOS EM PRÁTICAS DE PROFESSORES DE ALUNOS SURDOS” em abordar sobre uma pedagogia visual, extenuantemente trabalhada nas aulas do curso de inglês como L3 para surdos, trazendo objetos e colocando 15 PEREIRA, K. A. O ensino de língua estrangeira na educação de surdos: recontextualização dos discursos pedagógicos em práticas de professores de alunos surdos. 2015. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2015. 135 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA em situações reais de comunicação como a dinâmica do “chat no papel” em que os alunos deveriam dispor as cadeiras em frente um ao outro e dialogar um com o outro através do papel somente em inglês, com o objetivo de conhecer melhor o colega e assim praticar a escrita do inglês como L3. A experiência pedagógica da codocência, juntamente com a formação ofertada, enriqueceu as aulas de inglês, pois possibili- tou que houvesse um espaço de diálogo pré-sala de aula para retirada de dúvidas, sugestões e a troca de diálogos sobre as experiências no ensino de inglês para surdos que já tinham acontecido anteriormente, me preparando para dar aulas fora do curso com alunos tanto surdos quanto ouvintes. A experiência da codocência dentro da academia proporcionou vivenciarmos a tríade acadêmica: o ensino, pesquisa e extensão focando na preparação e experiência de sala de aula para alunos surdos. A formação dos monitores contribuiu para o ensino dos alunos que geraram dados riquíssimos que preenchem essa pesquisa. 136 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Anexo 2 - Relato do monitor Igor A etapa 2019 do curso de inglês voltado para surdos proficientes em Libras não foi minha primeira experiência como monitor codocente no projeto, pois já atuei em anos anteriores. Em primeiro lugar, o que posso acrescentar, talvez diga respeito à abordagem comunicativa plurilíngue exercida no curso. Sou professor de português e inglês por formação, tendo atuado como professor de inglês há cerca de 4 anos antes de integrar o projeto. Isto significa que grande parte de minha atuação vinha sendo com olhar para o aluno ouvinte, que visa desenvol- ver todas as habilidades e competências para o inglês como LE. Sempre atuei de modo a adequar minha prática à abordagem comunicativa do ensino, ou seja, de modo a tornar o aprendizado significativo a partir de reflexões vinculadas a possíveis situações reais de uso da língua. Por diversos motivos que não merecem ser mencionados neste momento, haja vista que o objetivo é relatar e refletir a formação ativa no curso de inglês para surdos, posso afirmar que buscava um “purismo”, ao tentar não usar a língua de conforto de meus alunos como apoio para seu aprendizado da língua inglesa. Isto significa que eu costumava não falar português em minhas aulas, tão pouco usá-lo a título de com- paração para auxiliá-los na compreensão de estruturas gramaticais, por exemplo. Acho relevante registrar o que acabo de mencionar pois, a partir da experiência no curso de inglês para surdos, percebo que minha prática mudou. Inicialmente, em outra etapa do projeto, participei apenas como observador, a fim de compreender a abordagem comunicativa plurilín- gue adotada no curso. Pude perceber a relevância disso, principalmente para a realidade do sujeito surdo, que possui poucos (talvez nenhum) parâmetros em relação à modalidade escrita de uma língua compatível com sua modalidade visuoespacial de percepção e articulação de língua, como é o caso da L1 dos alunos deste curso. Isto me permitiu perceber que a situação comunicativa é essencial para que o aprendizado ocor- 137 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ra, pois o torna significativo, aproximando-o da realidade do aluno. Quanto ao caráter plurilíngue, percebi que ele é essencial para a prática de ensino de L3 para surdos. Sendo Libras a língua de instrução e o inglês a língua alvo, duas línguas de modalidade perceptual distintas, não há como explicar e inserir determinados contextos e conteúdos ao aluno senão por meio de sua L1. Neste sentido, o português, enquanto L2, se torna fundamental, pois exerce função comparativa, em termos de estrutura gramatical e de modalidade escrita. É o que a maioria dos alunos conhece até certo ponto, pois ainda não há difusão de nenhuma escrita de sinais no país, logo, para tudo que é escrito, o surdo precisa ter contato com a língua portuguesa, pois é o que o permite interagir com o restante do universo em que se insere. Em suma, posso afirmar que a experiência mudou meu olhar e minha prática para o ensino de língua inglesa. Não vejo mais sentido em ensinar sem usar a língua de conforto de meu aluno, seja ele surdo ou ouvinte. Vejo que há ganhos significativos para o aprendizado, no que diz respeito a permitir que o aluno se sinta à vontade no processo, bem como no fato de usar o conhecimento “tácito” do aluno, ou seja, seu conhecimento de mundo, suas possíveis experiências prévias de vida. Em termos mais técnicos do ensino, esta aproximação do ensino à realidade do aluno surdo se dá da seguinte forma, a meu ver: elaboração de aulas a partir de possíveis situações em que a língua pode ser usada; elaboração de materiais adequados à realidade perceptiva do aluno, ou seja, o grande uso de vídeos, imagens, etc, de materiais visuais; ao permitir que o aluno use livremente a língua, sem grandes exigências quanto à adequação gramatical em determinados momentos, com o objetivo de permitir que o aluno compreenda e se aproprie do contexto de uso da língua, para posteriormente, tomar conhecimento da forma da língua adequada àquela situação. Alguns exemplos disso que posso mencionar são bate-papos que elaboramos por meio do Whatsapp (si-tuação comunicativa), da escrita de uma breve apresentação pessoal, que consistia em informar coisas como data e local de nascimento, 138 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA nome completo, ocupação, estado civil, hobbies, etc. As aulas sempre são preparadas a partir de uma situação, para, no encerramento de seu ciclo, realizarmos atividades escritas, de modo a proporcionar uma adequação à forma da L3. Não somente, mas nesta última etapa o português se torna mais relevante, pois permite comparar estruturas. Cabe registrar também, algumas coisas que se tornam latentes no processo de ensino--aprendizagem plurilíngue, mas que dizem mais respeito à realidade precária de aprendizagem do sujeito surdo. Um dos pré-requisitos para um surdo ser aluno do curso é que seja profi- ciente em Libras, além de ter concluído o Ensino Médio. Contudo, isto não significa que o aluno seja letrado na modalidade escrita da língua portuguesa, ou que tenha aprendido a língua de sinais de modo a acom- panhar as aulas e ter um bom aproveitamento. Falo aqui do problema antigo que surdos ainda enfrentam, que é o direito a aprender sua L1, a Libras, para que então possam compreender o mundo, a si mesmos e então aprender a modalidade escrita do português, desenvolvendo competência leitora. Houve casos de alunos que não conseguiram acompanhar o curso, tendo desistido, pois não sinalizavam bem, tão pouco compreendiam a língua, que dirá ter conhecimento, competência linguística para se valer do português escrito como ferramenta para compreender e desenvolver a língua inglesa. Infelizmente essa realidade do sujeito surdo que encontramos fora das salas de aula e diz muito mais respeito a seus direitos linguísticos enquanto cidadãos de uma nação plurilíngue, é refletida em sala de aula, ainda que plurilíngue. No que diz respeito à preparação das aulas, que ocorriam em reu- niões semanais, posso afirmar que a etapa 2019 foi a mais agradável e produtiva, pois pudemos contar com o auxílio da visão da Karolyne, ex-aluna do curso, professora de Libras em formação pela UFSC, e apaixonada pela língua inglesa. Por mais que eu já tivesse participado de outras etapas, também participando de reuniões para elaboração de aulas e materiais, além de acompanhar as aulas, sem dúvidas a presença de Karolyne, mulher surda, nos permitiu obter outra visão 139 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA para preparação das aulas: a de quem sabe e de quem experienciou o aprendizado enquanto surda. Com o maior respeito a todos os surdos, pois não quero fazer um relato de quem se aproveita da presença do surdo, pelo contrário. Quero ressaltar a importância de um sujeito surdo ocupar estes espaços e compartilhar sua visão. É a única maneira de proporcionar aos surdos um aprendizado mais próximo de sua reali- dade, além de permitir que tenham um aprendizado mais confortável. O modo com que Karolyne costumava propor o uso de algumas imagens, ao invés de apenas escrever algo no quadro para tratar de determinado assunto, ao propor determinadas brincadeiras que sur- dos já estavam habituados para que os alunos pudessem interagir e ajudar uns aos outros com seus próprios conhecimentos e facilidades em determinadas atividades, até mesmo suas dúvidas nas preparações, apresentando a dúvida na visão da pessoa surda, permitiram que pu- déssemos adequar atividades e preparar aulas. Por fim, é necessário afirmar que somente a formação ativa, em ação, seja em momentos de monitoria para tirar dúvidas dos alunos, seja nas oportunidades de exercer o ensino, é que permitiu que eu transformasse meu olhar ouvinte e pudesse buscar aproximar minha prática docente da realidade do sujeito surdo. É o tipo de formação que todo professor deveria ter, pois não somente surdos podem usufruir de sua realidade e de seu conhecimento de mundo para desenvolver competências em uma LE. Os monitores (codocentes) foram formados ao atuar dando aulas e suporte intra e extraclasse aos aprendizes surdos e participando de reuniões formativas com a coordenadora, numa metodologia de for- mação em serviço, refletindo sobre os aprendizados necessários para que possam exercer essa profissão futuramente. 140 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Anexo 3 - Relato da monitora Karolyne16 Parte 1: Este trabalho é um relato sobre o aprendizado de inglês, com o objetivo de apresentar minha experiência. Comecei a aprender inglês em casa em 2014 já estava no final do ano da escola. Encontrei um site chamado Clube do Inglês, que tem textos e dicas de como aprender o inglês de forma autônoma. Além disso, é possível escolher um tema qualquer para pesquisar palavras na língua inglesa e levantar as traduções para língua portuguesa. Eu memorizava cada vocabulário e diariamente treinava a leitura e escrita, assim buscava conhecer cada vez mais o idioma. Em 2016 tive conhecimento de curso de Inglês-nível básico para surdos na Universidade Federal de Santa Catarina, no qual participei nos anos de 2016 e 2017. A metodologia usada é a escrita, leituras de textos em Libras e também diálogos e tirar as dúvidas. O plano de Didática é o Verbo (TO BE), Em 2019 participei do Projeto/ Curso como monitora (agosto a dezembro), na monitoria eu ficava ob- servando cada aluno fazendo suas atividades, ajudando a tirar dúvidas e explicando o que poderia ser usado ou não. E quando eu substituía a professora, eu reforçava o conteúdo estudado, tirando as dúvidas e repetindo a explicação. Parte 2: a) Libras como língua de instrução no ensino de inglês para surdos Pela primeira quando a Aline me convidou para ser Monitora no Curso de Inglês. Algumas vezes precisei estar no lugar dela e a minha experiência foi quando os surdos começou a ver eu como uma surda com a capacidade de dar aula de inglês e fazendo eles perceberem o quanto eles também tem capacidade e a possibilidade de uma língua inglês. 16 Monitora surda. Relato original em português segunda língua. 141 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA b) Papel da língua portuguesa nas aulas Ensinamos o inglês em escritas e traduzindo em Libras (Língua Portuguesa) e isso faz com o que os surdos começam a entender e aprendendo na língua inglês sem dificuldades. c) Trabalho cooperativo entre monitores surdos e ouvintes Como se eu estivesse incluindo no grupo surdos e mostrando meu papel a capacidade de interagir e incentivando eles a capacidade que eles tem para aprender como se eu fosse um modelo exemplo para eles e mostrar que tudo que eles querem aprender tem a capacidade de poder aprender. E com os ouvintes para mostrar a diferença que aprendemos para mostrar o quanto o surdo tem a capacidade de aprender o quanto os ouvintes. d) Planejamento e realização das aulas Nos humano seja o surdo ou ouvinte não temos a capacidade para aprender em vários línguas. Surdo e ouvinte temos o mesmo limites pra aprender novas línguas e isso demostra a capacidade que temos apenas com uma metodologia dos surdos e dos ouvintes diferente de como aprendemos. e) Relação com os alunos Os alunos surdos sempre teve dúvidas sobre o inglês, sempre se dando bem em interagir para tirar suas dúvidas das atividades. Sempre perguntando dos nomes o português para o inglês. E os monitores sem- pre observando e orientando para o melhor aprendizado e a capacidade dos alunos de aprenderem rápido ou dificuldades e sempre procurando estratégia de como ajudar ou esclarecer as dúvidas. 142 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA O ENSINO DE LIBRAS PARA CRIANÇAS OUVINTES NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA PESQUISA-AÇÃO Danielle Vanessa Costa Sousa Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) Centro de Ensino de Apoio à Pessoa com Surdezdo Maranhão (CAS/MA) O ensino de Língua Brasileira de Sinais para crianças ouvintes no Brasil Estudos sobre o ensino de Língua Brasileira de Sinais (Libras) para crianças ouvintes no Brasil, com foco na interação em sala de aula, ainda são incipientes. No entanto, desde a oficialização da Libras por meio da Lei nº 10.436/2002 (BRASIL, 2002) e do Decreto nº 5626/2005 (BRASIL, 2005), que regulamenta essa Lei, têm surgido novas demandas e interesses pelo ensino e aprendizagem de Libras por pessoas ouvintes. A oficialização da Libras foi historicamente constituída pelas reivindicações dos surdos brasileiros. A Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002, que reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão das comunidades surdas dos centros urbanos do Brasil, trouxe um avanço nos direitos linguísticos dos surdos, bem como se constituiu em uma importante ação política, em virtude da transformação social quanto à valorização e ao uso da Libras por pessoas surdas e das conquistas relacionadas à inclusão linguística e cultural dos surdos em diferentes espaços sociais. 143 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Após sua aprovação, a Lei 10.436/2002 foi regulamentada por meio do Decreto nº 5626 de 22 de dezembro de 2005, que corroborou para a implementação das ações referentes à política de ensino, uso e difusão da Libras, ampliando o debate e destacando: a inclusão da Libras como disciplina curricular; a formação do professor surdo, do tradutor e do intérprete de Libras; o acesso das pessoas surdas à educação através da Libras e do português; e o direito à educação e à saúde dessas pessoas. Neste sentido, esses documentos não só promoveram o reconhecimento da língua, como, também, propi- ciaram a expansão do uso e inserção da Libras em escolas e em universidades públicas e privadas, seja como disciplina optativa ou obrigatória, seja por meio de projetos de extensão. A título de exemplo de projeto de extensão que trouxe como proposta o ensino de Libras, destaco o projeto “Libras na Creche”.1 Este projeto foi direcionado para o contexto de crianças ouvintes na Educação Infantil, desenvolvido em uma escola no estado de Santa Catarina. A proposição do projeto, ligada à introdução da Libras em creches e instituições de Educação Infantil, foi inspirada na proposta de Grannier (2007), que sugere a implementação de uma política pública para as creches municipais e particulares do Brasil, para receberem crianças ouvintes, funcionários e crianças surdas falantes da Libras, a fim de que se promova o uso e a difusão da Libras de modo natural na sociedade ouvinte do Brasil. O projeto “Libras na Creche” (LEITE, 2015) trouxe como pro- posta um trabalho pioneiro sobre a inclusão da Libras em um espaço escolar que não estivesse relacionado diretamente à educação de surdos. O objetivo era o de que crianças ouvintes, nesse contexto, tivessem acesso à aprendizagem da Libras, à relação Português- -Libras e à cultura surda, contribuindo para a promoção de um ambiente inclusivo para as pessoas surdas. 1 Este projeto foi idealizado e coordenado pelo professor Dr. Tarcísio de Arantes Leite, vinculado ao Departamento de Libras da Universidade Federal de Santa Catarina. 144 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Apesar de ser incipiente, as pesquisas e os estudos sobre o ensino de Libras como língua adicional para crianças ouvintes estão em grande expansão no Brasil. Nessa direção, com o pro- pósito de refletir sobre a importância do ensino de Libras para crianças ouvintes em um contexto de escolas regulares no âmbito da Educação Infantil, apresento esta pesquisa que aborda o referido tema no contexto mencionado. Este estudo, inscrito na Linguística Aplicada (In)disciplinar, por não se prender e não se confinar a limites disciplinares nem tampouco teóricos, metodológicos ou analíticos, parte de uma perspectiva socioantropológica de sur- dez, enfatizando a importância de socializar, com a comunidade ouvinte, os modos culturais de interagir com as pessoas surdas, para que, no contexto de ensino de Libras como língua adicional, ocorram ganhos afetivos, sociais e linguísticos tanto para as crian- ças surdas, quanto para as ouvintes. A Linguística Aplicada (In)disciplinar interage com outras áreas do conhecimento, possibilitando o diálogo com o mundo contemporâneo. Conforme Signorini e Cavalcanti (1998, p. 7), a Linguística Aplicada (In)disciplinar é uma “interface não trans- parente e neutra entre diferentes áreas e disciplinas que se inte- ressam pelas questões relacionadas ao uso da linguagem”, que questiona posicionamentos essencializados e proporciona novas interpretações sobre o fenômeno investigado (MOITA LOPES, 1998, 2006; RAJAGOPALAN, 2006). Nessa direção, no cenário pesquisado, alinhada à Linguística Aplicada (In)disciplinar nesta pesquisa, dialoguei também com outros campos do conhecimento, como as propostas metodoló- gicas de ensino de línguas adicionais, o método Resposta Física Total e role play, iconicidade e arbitrariedade nas línguas de sinais, distanciando-me de uma concepção de linguagem homogênea e fixa, por compreender a linguagem como Pennycook (2010). De acordo com o autor, a linguagem como prática local e performática 145 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA se afasta de uma concepção de linguagem como uma entidade pré- -determinada e aproxima-se de uma visão que relaciona a linguagem ao seu lugar de uso. O ensino de Libras para crianças ouvintes no contexto da Educação Infantil A presente pesquisa foi desenvolvida em uma escola de Educa- ção Infantil no estado de Santa Catarina, a Escola Casinha Branca,2 e contou com a participação de um grupo de crianças ouvintes, com idade de 4 a 5 anos (grupo 4/5B),3 a professora regente da sala e uma estagiária surda. Os objetivos da pesquisa envolveram introduzir e aprimorar o ensino da Libras como língua adicional, a partir do planejamento e da execução de atividade lúdicas em Libras, ex- plorando ideias do método Resposta Física Total (doravante RFT) (ASHER, 2007, 2009; RICHARDS; RODGERS, 2001) e da técnica role play (LADOUSSE, 2001). A pesquisa também envolveu identificar os aspectos socioculturais e situacionais que dificultam ou facilitam a realização das atividades lúdicas em Libras com as crianças ouvintes. O motivo de usar essas propostas metodológicas parecia bas- tante convergente com o público-alvo, ou seja, de crianças ouvintes que desconheciam a Libras, já que a RFT e o role play envolvem, pelo menos em certa medida, o uso de ações corporais que ajudem a trazer o contexto e a significação para a compreensão da Libras. Sem a pretensão de indicar qual seria “o melhor” método ou téc- nica ou qual deles “funcionaria” ou “não funcionaria”, o intuito de usar a RFT e o role play era mais o de explorar o arcabouço de ideias sobre ensino de línguas de modo ad hoc, porque compreendo que nenhuma metodologia em si possa atender a todas as neces- 2 Todas as referências que permitem a identificação dos participantes desta pesquisa, incluindo o nome da escola, foram trocadas por pseudônimos, de modo a assegurar sua privacidade. 3 O grupo 4/5B era composto por doze crianças, sendo 7 (sete) meninas e 5 (cinco) meninos, na faixa etária de 3 (três) a 4 (quatro) anos de idade. 146 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sidades individuais de aprendizagem, em diferentes contextos e situações da vida. De acordo com Asher (2007, 2009), o método RFT é baseado na coordenação da fala e da ação. Diferente de outros métodos de ensino de línguas adicionais que privilegiam o desenvolvimento das habilidades da fala, a RFT prioriza a compreensão auditiva que se desenvolve a partir de comandos dados pelo professor e da ação dos alunos (RICHARDS; RODGERS, 2001). Com relação ao roleplay, Ladousse (2001) afirma que trata-se de uma atividade de interação na qual alunos assumem papéis em um ambiente seguro, de ma- neira que possam ser criativos e lúdicos à vontade, desenvolvendo a habilidade de interagir com outras pessoas. Para contemplar os objetivos da pesquisa, utilizei como meto- dologia a pesquisa-ação (CHIZZOTTI, 2001; FRANCO, 2005; THIOL- LENT, 2011; TRIPP, 2005). De acordo com os passos desse tipo de pesquisa, planeja-se, dialoga-se, aplica-se, avalia-se novas ações e analisa-se, de forma cíclica, as tarefas propostas. Nesse sentido, Chizzotti define a pesquisa-ação como: [...] uma ação deliberada visando a uma mudança no mundo real, comprometida com um campo restrito, englobado em projeto mais geral e submetendo-se a uma disciplina para alcançar os efeitos do conhecimento (CHIZZOTTI, 2001, p. 100). Em sua visão, a pesquisa-ação é um método de pesquisa cen- trado em uma situação específica do mundo real, visando, de ma- neira sistemática e com disciplina, atingir os conhecimentos dessa experiência, bem como aprimorar ou mudar o cenário da situação delimitada. É um contínuo constituído de planejamento sobre uma situação-problema, ainda sobre um objetivo que se deseja alcançar, bem como caracterizado pela execução e avaliação da ação imple- 147 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA mentada. É como uma sequência em espiral, que ocorre de forma reiterada, composta pelos seguintes elementos: análise, pesquisa dos fatos, definição, elaboração e realização dos planos de ação, seguida de avaliação. De modo análogo à visão de Chizzotti (2001), para Tripp (2005), a pesquisa-ação é caracterizada como um dos inúmeros tipos de investigação-ação. Esse termo é usado pelo autor de forma genérica para todo e qualquer processo que aconteça por meio de um ciclo que busca aprimorar a prática com base na oscilação sistematizada entre agir e investigar o âmbito da prática. Segundo Tripp (2005, p. 446), na pesquisa-ação, “planeja-se, implementa-se, descreve-se e avalia--se uma mudança para a melhora de sua prática, aprendendo mais, no correr do processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação”. Em consonância com os autores mencionados, reitero o con- ceito de pesquisa-ação com Thiollent, que a define como: [...] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2011, p. 20). No entanto, o uso desse método em um estudo nem sempre tem que apresentar soluções, mas pode trazer esclarecimentos a respeito da prática, pois, conforme Thiollent (2011), um dos obje- tivos da pesquisa-ação é a resolução ou, pelo menos, a elucidação do problema da situação investigada. Dessa forma, a partir das definições e dos comentários apresen- tados, assumi, no desenvolvimento da pesquisa, alguns pressupostos da pesquisa-ação embasados em Thiollent (2011) e Chizzotti (2001), 148 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sem, no entanto, deixar de levar em consideração alguns aspectos de outras abordagens aqui descritas que emergem no ciclo da ação, avaliação, pesquisa e aprendizagem (TRIPP, 2005). Assim, busquei discutir, por meio deste ciclo sistemático composto pelo plane- jamento da ação, pela execução, pela descrição dos seus efeitos, seguido da avaliação dos resultados e da continuidade das ações, sobre metodologias de ensino de Libras como língua adicional para crianças ouvintes. Figura 1 - Etapas do ciclo da pesquisa-ação adotado neste estudo Fonte: Elaborado pela autora. A etapa “planejar” se refere aos passos que a pesquisa seguiu, definindo como as tarefas seriam produzidas, considerando os interesses e as necessidades das crianças e o planejamento das aulas, a partir da RFT e da técnica role play. Considerando que a professora-estagiária/bolsista surda, Fernanda,4 estava em processo de formação superior no curso de Letras Libras (Licenciatura), reali- zamos reuniões semanais, para definir como seriam as tarefas, a fim 4 A bolsista Fernanda foi participante do projeto Libras na Creche desde 2013 e dessa pesquisa de mestrado de 2015 a 2016. 149 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA de que a estagiária se familiarizasse com os aspectos pedagógicos da escola e da sala de aula. A segunda etapa, “dialogar”, envolveu as reuniões com Fer- nanda, eu e a professora do grupo de crianças 4/5B, Paula,5 para discutirmos sobre as tarefas planejadas e fazermos alterações, caso fosse necessário. Já a etapa “implementar” esteve relacionada à realização da tarefa proposta; e a etapa “avaliar” foi composta pelas minhas avaliações, como pesquisadora-participante, as de Paula e as de Fernanda sobre as tarefas propostas e realizadas. As duas últimas etapas, “planejar novas ações” e “analisar”, estavam respectivamente associadas a novas ações voltadas para as tarefas pedagógicas que foram desenvolvidas no grupo 4/5B. Uma das tarefas planejadas e desenvolvidas no grupo 4/5B, fundamentada nos passos da pesquisa-ação e na técnica role play (LADOUSSE, 2001), foi uma tarefa que envolveu a contação em Libras da fábula “A lebre e a tartaruga”. A proposta da atividade envolveu dois momentos distintos. No primeiro, a fábula foi contada em português pela professora Paula, para garantir que as crianças se familiarizassem com o conteúdo e o contexto da fábula. Em um segundo momento, que ocorreu em um dia diferente da apresen- tação da fábula em português, Fernanda a contou em Libras para as crianças do grupo 4/5B. Em seguida, Paula, Fernanda e eu, que participei como intérprete6 de Libras em alguns momentos da aula, conversamos com as crianças sobre o que compreenderam da história, quais animais elas perceberam na história e o que fize- ram. Em seguida, fizemos uma atividade manual de produção dos personagens em argila e, ao final, um role play, em que as crianças encenaram a história. 5 A professora Paula trabalhava na Escola Casinha Branca desde 1996. Desde então, atuava quase sempre com grupos de crianças acima de 3 (três) anos. 6 No planejamento desta tarefa, eu, Fernanda e a professora Paula decidimos que eu faria inter- pretações da Libras para português e vice-versa, quando fosse necessário. Embora eu tenha atuado como intérprete de Libras neste encontro, não é objetivo deste texto discutir sobre o papel do intérprete em situações de ensino de Libras para crianças ouvintes. 150 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A fábula “A lebre e a tartaruga” em Libras Dando continuidade às reflexões sobre a tarefa que envolveu a fábula “A lebre e a tartaruga”, foco agora na participação da Fernan- da, analisando as características de sua narração para as crianças do grupo 4/5B. A narração da fábula teve duração de 3min15s e, durante a contação, Fernanda mostrou a sua habilidade em adequar a história ao público infantil, enquanto aprendizes iniciantes de Libras. Durante a narrativa, Fernanda utilizou diferentes recursos do seu repertório linguístico (BUSCH, 2012, 2015), que foram impor- tantes para a interação com as crianças do grupo 4/5B: i) recursos que facilitaram a identificação do contraste entre os personagens; ii) repetições de falas; e iii) gestos descritivos mais familiares ao público ouvinte. De acordo com Busch (2015, p. 17, tradução nossa), o repertório linguístico não é composto “apenas pelos recursos linguísticos que temos, mas às vezes por aqueles que não temos; e estes podem se tornar visíveis em uma determinada situação como uma lacuna, uma ameaça ou um desejo”.7 Para a autora, no repertório linguístico, diferentes línguas e modos de falas particularesestão juntos, in- terferem-se mutuamente e entrelaçam-se para construir algo novo. No que se refere à narrativa contada, Fernanda iniciou enfati- zando que a história envolvia dois personagens, a lebre e a tartaruga, e, em seguida, descreveu as características físicas e psicológicas de cada personagem. Para tanto, ela marcou no espaço a tartaruga à di- reita e a lebre à esquerda. É como se Fernanda tivesse dito: “Existem dois personagens nessa história. São dois animais. Um personagem está aqui nesse local; e o outro, neste outro local”. 7 No original: “Our repertoire is not determined solely by the linguistic resources we have, but sometimes by those we do not have; these can become noticeable in a given situation as a gap, a threat or a desire” (BUSCH, 2015, p. 17). 151 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Em seguida, descreveu os animais. Para apresentar a lebre, Fernanda produziu gestos icônicos, para representar as orelhas grandes, o bigode comprido da lebre, a sua maneira de andar e, por exemplo, de comer cenoura, mostrando o sinal convencional da Libras COELHO,8 repetindo seis vezes o movimento do sinal. Enquanto sinalizava, olhava para várias crianças do grupo. Essa estratégia pareceu relevante para promover o feedback das crian- ças, pois várias delas imitavam o sinal no mesmo momento em que Fernanda apresentava o sinal. Figura 2 - Sinal convencional de COELHO Fonte: https://sistemas.cead.ufv.br/capes/dicionario/?cadastros=coelho. Depois, Fernanda descreveu a tartaruga. Antes da descrição, ela localizou a personagem à (sua) esquerda e, em seguida, produziu o sinal convencional da Libras TARTARUGA, bem como um gesto icônico para qualificá-la como pequena, mostrando sua maneira lenta de andar e comer. 8 Os nomes dos animais estão escritos com letras maiúsculas para representar os sinais conven- cionais da Libras. about:blank 152 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 3 - Sinal convencional de TARTARUGA Fonte: https://sistemas.cead.ufv.br/capes/dicionario/?cadastros=tartaruga. A segunda característica da narração de Fernanda diz respeito às repetições de frases há pouco narradas, oferecendo um apoio maior à compreensão das crianças que estavam presentes. As ocorrências de repetição identificadas na narrativa foram: DOIS ANIMAIS DOIS9 (Tradução: “[Eram] dois animais, dois”); AMAR CO- MER CENOURA COELHO (Tradução: “ [Ele] amava [gesto de afeto] comer cenoura, o coelho...”); TARTARUGA PEQUENA TARTARUGA (Tradução: “Lá [estava a] tartaruga, pequena, a tartaruga”). Por fim, uma terceira característica da narração de Fernanda foi o uso de um gesto mais familiar aos ouvintes, em combinação com um sinal convencional da Libras, na frase AMAR COMER CENOU- RA COELHO (Tradução: “[Ele] amava comer cenoura, o coelho...”). Nesse momento, Fernanda, ao usar o gesto de coração (Figura 4) na narrativa, em combinação com o sinal da Libras AMAR, explorou um recurso linguístico familiar ao público ouvinte, o que pode ter potencializado e ampliado a construção de entendimento das crianças do grupo 4/5B sobre a fábula contada em Libras. 9 As frases em Libras estão escritas e transcritas com letras maiúsculas para representar os sinais convencionais da Libras. about:blank 153 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 4 - Sinal convencional de AMAR Fonte: https://sistemas.cead.ufv.br/capes/dicionario/?cadastros=amor. Figura 5 - Gesto de coração Fonte: Imagem produzida pelo ilustrador Bruno Anderson. A participação das crianças do grupo 4/5B ocorreu de duas for- mas principais durante a narrativa: em Libras, por meio de imitações de sinais feitos por Fernanda, e também em português. No que se refere às imitações em Libras, os sinais reproduzidos pelas crianças foram: COELHO; TARTARUGA ANDANDO; TARTARUGA; ÁRVORE; COMER; CENOURA; CORRER. Entretanto, não há como garantir que todas as imitações em Libras tenham sido percebidas por Fernanda, devido à dinâmica do seu olhar para diferentes crianças durante a narrativa, considerando-se a mútua exclusividade de diferentes focos de atenção visual da pessoa surda (MCILVENNY, 1995). Sobre os diferentes focos de atenção visual de pessoas surdas, McIlvenny (1995) afirma que os surdos utilizam de diferentes estra- about:blank 154 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA tégias em suas interações, quando envolvem múltiplos participantes surdos. Segundo o autor, as estratégias utilizadas pelos surdos são o reflexo social e a cascata. O reflexo social envolve a identificação e a orientação do participante surdo para uma contribuição intera- cional específica por meio do monitoramento da reação de outras pessoas. A estratégia cascata envolve um compartilhamento entre as pessoas surdas com responsabilidade em estabelecer um foco de atenção conjunto. Quanto à participação das crianças em português durante a narrativa, ocorreu de modo dinâmico e, na medida do possível, interpretei para a Libras algumas das participações das crianças, tais como: “É um bicho” e “É a natureza”, “Tartaruga” e “Duas tar- tarugas”, “Coelho”, “Dormir”, “Correr”. A dificuldade em interpretar todas as falas das crianças em português ocorreu devido à intensa dinâmica interacional entre a professora regente, as crianças e Fernanda, isso somado ao fato da minha dificuldade de interpretar todas as contribuições que eram feitas, precisando selecionar aquilo que o tempo me permitia interpretar. Reflexões sobre a narrativa A fábula em Libras apresentada por Fernanda mostrou, por meio do seu repertório linguístico, possíveis estratégias de introdu- zir a Libras para crianças ouvintes em uma situação particular, situ- ada no grupo 4/5B da Escola Casinha Branca. Fernanda, ao utilizar o seu repertório linguístico na contação da fábula e o modo como narrou a história, não somente propiciou a construção de entendi- mentos das crianças sobre a fábula, como também potencializou o seu recurso linguístico e os dos participantes, contribuindo para a construção de sentidos e transformação contínua desse repertório (BUSCH, 2015). 155 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Isto porque, como afirma Busch (2015), o repertório linguís- tico não é como uma caixa de ferramentas, da qual escolhemos a língua certa para ser usada em uma determinada situação, mas se constitui de diferentes línguas e modos de falar particulares, que, juntos, interferem-se mutuamente e entrelaçam-se para construir algo novo. Contudo, construir entendimentos sobre uma narrativa em Libras envolve ir muito além de identificar ou imitar referentes com base em sinais isolados, como foi o caso da participação das crianças em alguns momentos da narrativa. Para compreender uma narrativa em Libras, é necessário perceber não somente a gramá- tica da língua em uso, mas, também, o uso do espaço e do corpo na marcação dos personagens, dos lugares, além de estabelecer relações entre diferentes ações, de marcar o clímax da história; e assim por diante. Apresentada na reunião de avaliação sobre a atividade reali- zada, a opinião de Fernanda também atribuiu a possibilidade de entendimento da fábula em Libras pelas crianças à iconicidade da Libras, que, por si só, permitiria às crianças fazer associações de sentido e compreender a narrativa. Muitos autores reconhecem o caráter icônico das línguas de sinais, ou seja, a motivação de sua forma em relação a nossa percep- ção sobre o significado dos sinais. Contudo, desde Klima e Bellugi (1979), as pesquisas com línguas de sinais reconhecem também que a iconicidade não se contrapõe à arbitrariedade. Isto é, o sinal icônico tem uma forma motivada, mas essa forma é arbitrária e/ou convencionalmente definida por diferentes comunidades de surdos.Além disso, pelo fato de serem um breve recorte gestual econômico da experiência corporal relacionada a diferentes conceitos, muitos sinais podem ser altamente opacos para o público não familiarizado com as línguas de sinais (KLIMA; BELLUGI, 1979). Assim, os sinais 156 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA icônicos também dependem da convenção dos falantes de uma determinada comunidade e são determinados por questões sociais e culturais (TAUB, 2011). De acordo Klima e Bellugi (1979), surdos falantes da Língua de Sinais Americana (ASL) fazem uso de diversos componentes gestuais, que vão desde o uso de sinais convencionais à elaboração mimética, incluindo a representação mimética e a pantomima li- vre, isto é, os autores consideram vários aspectos da língua que se manifestam em diferentes configurações. Para os autores, não só a iconicidade faz parte da língua de sinais, mas também um sistema combinatório, que se compreende como arbitrariedade. Em suas palavras: Além de suas qualidades representacionais icônicas, os sinais exibem outro nível de organização, um nível com- ponencial. Os sinais da ASL parecem ser processados, codificados e produzidos por usuários nativos, não em termos de suas qualidades representacionais gerais, mas constituídos por um conjunto limitado de elementos de um sistema combinatório (KLIMA; BELLUGI, 1979, p. 28, tradução nossa).10 Complementando a concepção de Klima e Bellugi (1979), trago a visão de Taub (2001) sobre a iconicidade na ASL. A autora afirma que existem diferentes possibilidades de representações icônicas para um único sinal. Para Taub (2001), a iconicidade não pode ser considerada um aspecto da língua que possibilita uma relação di- reta e objetiva entre a imagem e o referente, uma vez que a relação icônica entre significante e significado é convencionalmente defi- 10 No original: “In addition to their iconic representational qualities, then, signs exhibit another level of organization, a componential level. ASL signs appears to be processed, coded, and produced by native signers, not in terms of their overall representational qualities, but rather as constituted of a limited set of elements of a combinatorial system” (KLIMA; BELLUGI, 1979, p. 28). 157 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA nida pelos falantes a partir de sua cultura e de fatores externos ao sistema linguístico, na formação dos sinais. Desse modo, ainda que a iconicidade possa de fato ser explorada como um recurso de contextualização da Libras para aprendizes iniciantes – como no caso das crianças desta pesquisa –, seria im- portante ter cautela para não incorrer no mito de ver as línguas de sinais (QUADROS; KARNOPP, 2004) como um código “transparen- te”, portanto universal, o que estaria muito mais próximo de uma performance pantomímica de uma história do que de uma narrativa em língua de sinais. Apesar dessa ressalva, a performance de Fernanda mostrou o uso de estratégias comunicativas que tornaram a narrativa mais compreensível e mais próxima do universo das crianças ouvintes do grupo 4/5B. A exploração de recursos icônicos, presente no repertó- rio linguístico de Fernanda, pode ser um recurso de contextualização importante do discurso. Entre esses recursos, estão: i) apresentação bastante marcada dos espaços específicos que cada um dos personagens da história ocupa, no início e ao longo da história; ii) uso de expressões faciais, corporais e gestos icônicos de caráter descritivo para introduzir cada personagem, apresentando o sinal convencional da Libras para o animal somente ao final; iii) uso de apontamentos e gestos con- vencionais familiares ao mundo dos ouvintes, de forma associada ou até em substituição aos sinais convencionais da Libras; além de iv) exploração de muita repetição de sinais e expressões. Tudo isso em uma cadência temporal de narrativa que nos pareceu mais lenta do que na contação surdo-surdo, embora não tenhamos analisado tecnicamente esse aspecto. 158 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Considerações finais As estratégias de comunicação identificadas no repertório lin- guístico de Fernanda durante a narrativa da fábula em Libras talvez sejam um exemplo concreto do que Leite (2001) descreve, de forma genérica, como a excelente “comunicabilidade de professores surdos de Libras”. Leite (2001), em uma pesquisa autobiográfica sobre a sua aprendizagem da Libras como segunda língua, desenvolvida em um estudo em diário, observou nas interações com as pessoas surdas que a sua compreensão da produção em Libras dos seus professores na sala de aula parecia excelente, dando uma ilusão de que estava entendendo muito bem a Libras, diferente de sua experiência quando ele estava imerso em meio a um diálogo espontâneo de surdos em um contexto extraclasse, onde encontrava grande dificuldade para acompanhar. As estratégias descritas na performance de Fernanda possivel- mente estão entre as habilidades que professores de Libras trazem para tornar a sua fala em Libras mais compreensível para aprendizes iniciantes. Leite (2001) atribui essa habilidade ao contexto socio- linguístico de vida dos surdos, que, desde a infância, veem-se na necessidade contínua de se fazer entender e compreender pessoas ouvintes que não compartilham o seu conhecimento da Libras, exi- gindo grande versatilidade comunicacional como uma habilidade básica para toda a vida da pessoa surda. Diante das características da narrativa de Fernanda – e também das demais estratégias de contextualização –, as crianças ofereceram feedbacks à performance da narrativa, participando de forma mul- timodal, ora por meio do uso do português, ora imitando sinais em Libras que emergiram na narrativa. Na atividade de verificação da compreensão da história, demonstraram capacidade de se recordar de vários dos sinais apresentados, principalmente aqueles relati- vos aos personagens (a tartaruga e a lebre) e o modo como eles se comportaram na história. 159 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Em relação à Fernanda e aos possíveis ganhos desta expe- riência enquanto estagiária/bolsista de um grupo de crianças ouvintes de 3 a 4 anos de idade, os resultados da análise mos- traram também que propostas de ensino de Libras como língua adicional, nas quais surdos e ouvintes dividam o mesmo cenário, precisam ser pensadas com estratégias e ações que tirem o foco da concepção clínico-terapêutica para a concepção socioantro- pológica (SKLIAR, 2005). Na concepção clínica-terapêutica, a surdez é considerada uma patologia e, por isso, o surdo precisa de medicalização, para curar o “problema” auditivo e “normalizá-lo” por meio da língua oral, diferente da concepção socioantropológica, que opõe-se à clínica-terapêutica, por reconhecer e sustentar a importância da língua de sinais, das culturas e das identidades surdas na educação de surdos. Essas concepções têm orientado visões com relação às pessoas surdas no que se refere à educação linguística e, ao reco- nhecimento cultural, político e linguístico dos surdos na sociedade (SKLIAR, 2000). Por essas razões, socializar as crianças ouvintes junto à expe- riência das pessoas surdas é fundamental para que elas conheçam e compreendam os diferentes modos culturais de interagir com surdos, buscando deslocar a perspectiva tradicional sobre as pessoas surdas, dos ouvidos para a visão, com todos os aspectos linguísticos, sociais e culturais que esse deslocamento apresenta. Isto porque, quando se fala em surdo ou surdez, na maioria das vezes, os surdos estão sendo sempre representados com base em um recorte bioló- gico; e a Libras, como uma língua alternativa às línguas orais, que recebem o status de línguas “normais”. 160 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcAReferências ASHER, J. J. TPR: after forty years, still a very good idea. 2007. Disponível em: http://www.tpr-world.com/mm5/TPRarticles/TPR_after_forty.pdf. Acesso em: 7 ago. 2021. ASHER, J. J. The Total Physical Response: review of the evidence. 2009. Disponível em: http://www.tpr-world.com/mm5/TPRarticles/TPR_review_evidence. pdf. Acesso em: 7 ago. 2016. BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. Brasília, 2002. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10436.htm. Acesso em: 05 jul. 2021. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. 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Isso abriu portas para programas de educação bilíngue tanto para povos indí- genas, quanto para comunidades de imigrantes, mesmo não sendo esses últimos mencionados na Constituição. Nessa mesma época também houve esforços de parte da sociedade e, especialmente, da comunidade surda, visando ao reconhecimento da língua de sinais no Brasil, o que será apresentado mais adiante. Para Cavalcanti e Maher (2018), há uma vulnerabilidade cres- cente entre as minorias no Brasil e em outras regiões do mundo. 163 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Apesar de um número considerável de imigrantes e refugiados ao longo dos anos e, especificamente, nas últimas décadas, como aqueles vindos do Haiti e Síria, o Brasil não possui uma política bilíngue oficial para esse contexto. Dessa maneira, as Organizações Não Governamentais e as Universidades têm apoiado essas pessoas, como, por exemplo, através de cursos de Português como Língua Adicional.1 De acordo com Morello (2016, p. 432), a diversidade linguística no Brasil é “formada por mais de 250 línguas indígenas, mais de 50 de descendentes de imigrantes, além das línguas crioulas, de sinais e afro-brasileiras, [o que] coloca o Brasil no quadro dos países mais multilíngues do mundo”. Todavia, a autora afirma que lutas por direitos linguísticos passam a ganhar mais força somente no início dos anos 2000. Nesse contexto, podem ser mencionadas duas políticas linguís- ticas significativas que foram possíveis a partir de esforços de grupos minoritários brasileiros, segundo Morello (2016): a cooficialização de línguas por decretos municipais e a política do Inventário Na- cional da Diversidade Linguística do Brasil (INDL) – Decreto 7.387 de 2010. Dessa maneira, portanto, deu-se atenção ao que passou a ser considerado línguas brasileiras, ou seja, todas as línguas territorializadas no país há pelo menos três gerações, sejam elas indígenas, de descendentes de imigrantes, de remanescentes afro-brasileiros, de sinais e crioulas (Relatório do Grupo de Trabalho da Diversi- dade Linguística, 2007). Estas duas políticas [INDL e 1 O uso do termo “adicional” traz vantagens porque não há necessidade de se discriminar o contexto geográfico (língua do país vizinho, língua franca ou internacional) ou mesmo as características individuais do aluno (segunda ou terceira língua). Nem mesmo os objetivos para os quais o aluno estuda a língua precisam ser considerados nessa instância, se deseja conhecê-la para viajar, jogar, cantar ou obter um emprego melhor, como é o caso do termo “para fins específicos”,muito comumente associado ao ensino de línguas. A proposta então é que se adote um conceito maior, mais abrangente, e possivelmente mais adequado: o de “língua adicional” (LEFFA; IRALA, 2014, p. 32-33). 164 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA cooficialização de línguas a nível municipal] legitimam as línguas, criam novos estatutos para elas e exigem, para sua execução, a organização de informações de base, tais como identificação dessas línguas, número de falantes, territorialidade e situações de bilinguismo e/ou perda intergeracional (MORELLO, 2016, p. 433). Dessa maneira, assim como para outras línguas minoritárias (ou minorizadas),2 o INDL é importante para o registro ainda mais abrangente da Libras e de seus falantes em todo o território nacio- nal. As discussões sobre políticas linguísticas, portanto, envolvendo a Libras e os surdos, fazem parte de uma luta histórica de grupos minoritários, que desejam, cada dia mais, valorizar as suas línguas e, consequentemente, a diversidade linguística do Brasil. É nesse contexto multilíngue brasileiro que o surdo está inse- rido. Todavia, algumas especificidades concernem às comunidades surdas,3 como por exemplo, o fato de as línguas de sinais serem geralmente consideradas como línguas não territoriais por serem normalmente utili- zadas por todo um país, diferentemente das línguas indígenas faladas por grupos minoritários, que são geralmente identificadas em uma área particular do território de um estado (DE MEULDER et al., 2019, p. 208). 2 O termo minorizado aqui empregado, com base em Lagares (2011), ora também pode ser encontrado como minoritarizado. As minorias linguísticas são compostas por falantes de uma língua que não seja aquela adotada oficialmente pelo Estado (língua majoritária). E, apesar de haver um número expressivo de falantes, as línguas são, muitas vezes, minorizadas em detrimento da língua da maioria. 3 De acordo com Quadros e Silva (2017, p. 135), “quando falamos em comunidades surdas, pensamos em espaços de partilha linguística e cultural presentes em milhares de cidades do mundo, na qual reúnem Surdos e ouvintes – em geral, usuários das línguas de sinais – com expectativas, histórias, experiências, percepções, olhares e/ou costumes comuns”. Pode-se também utilizar a expressão “comunidades de língua de sinais”, quando se pretende enfatizar a minoria linguística desses grupos e as diversidades existentes dentre essas comunidades, de acordo com De Meulder et al. (2019). 165 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Essa é uma situação que acontece com a Libras, uma vez que não é possível mapear uma região específica do Brasil onde se concentram todos os falantes da língua. Todavia, Quadros e Silva (2017) mencionam também pesquisas que comprovam a existência de línguas de sinais em aldeias indígenas (seis línguas registradas em diferentes estados brasileiros) e em comunidades isoladas – como em zonas rurais ou pequenas cidades (também seis registros de diferentes línguas de sinais em estados distintos). Nesses casos existe a possibilidade de haver uma localização específica dos fa- lantes dessas línguas de sinais. No entanto, a Libras, que é a língua de sinais abordada nesta pesquisa, reconhecida legalmente no Brasil (BRASIL, 2002), considerada como a língua de sinais falada principalmente nos centros urbanos (QUADROS; SILVA, 2017), não é uma língua territorial. Dessa maneira, pode-se perceber a com- plexidade envolvendo as comunidades surdas brasileiras que abrem espaço para pesquisas e implementações políticas que favoreçam a diversidade linguística e cultural no país. Assim, este estudo4 tem por foco as políticas linguísticas rela- cionadas aos surdos5 no Brasil, com interesse especial naquelas que envolvem a universidade e, mais especificamente, a Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde 2004 a UFT introduziu o siste- ma de cotas para alunos indígenas, destacando-se como uma das primeiras universidades brasileiras a adotar esse sistema. Segundo a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd),6 estima-se que há cerca de 4 Recorte da tese de Coura (2021). 5 Segundo Kusters e De Meulder (2013), a utilização de “S” maiúsculo em expressões como comunidade Surda, cultura Surda, Surdo, por exemplo, advém principalmente dos Estudos Surdos e cria uma binaridade entre surdo (visão clínica, que enxerga o surdo como deficiente) e Surdo (visão socioantropológica, que vê o surdo enquanto minoria linguística e cultural). Entretanto, para esta pesquisa, não será feita essa distinção. A utilização do termo surdo aqui, equivalerá aos surdos que se comunicam em língua de sinais, nesse caso, a Libras, pertencen- tes às comunidades surdas. Os surdos envolvidos nas discussões desta pesquisa se referem, portanto, aos “povos de língua de sinais”, expressão utilizada por Batterbury, Ladd e Gulliver (2007), que definem os surdos por meio da experiência compartilhada e da participação em aspectos físicos e metafísicos da linguagem, cultura, epistemologia e ontologia. 6 Informações obtidas no site oficial da UFT (https://ww2.uft.edu.br/) no ano de 2019. http://www.uft.edu.br https://ww2.uft.edu.br/ 166 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA 300 alunos indígenas na instituição em diferentes cursos de gradu- ação. Já os surdos somam cerca de 30 alunos na graduação e 10 na pós-graduação. Para o ingresso de alunos surdos no curso de Letras Libras e no Programa de Pós-Graduação em Letras do campus de Porto Nacional, onde esta pesquisa foi realizada, há um processo seletivo específico e reserva de vagas, mas não para os demais cursos. Isso se deve, principalmente, porque o Decreto 5.626/2005 prevê prioridade de vagas para surdos nos cursos de formação de professores de Libras. Em 2018 foram publicadas as Diretrizes da Política Linguística da Universidade Federal do Tocantins. No documento, com cerca de 50 apontamentos, há duas menções para línguas indígenas e Libras, apesar de haver orientações de maneira geral para ensino e valori- zação de línguas no contexto da instituição. A maioria das diretrizes, portanto, diz respeito à internacionalização da Universidade e outros aspectos relacionados a línguas estrangeiras. Ao fim do documento, no 3º parágrafo, há uma especificação dizendo que “caberá à Coorde- nação do Programa Idiomas sem Fronteiras propor normativas que estabeleçam metas e regulamentem ações visando ao fortalecimento da Política Linguística da Universidade para apreciação do Consuni”. A internacionalização da UFT, como a de qualquer outra universi- dade, é um ponto que pode ser considerado como muito relevante, todavia, neste documento especificamente, a atenção dada a línguas minoritárias é muito discreta. Pode-se pressupor que, como as re- gulamentações ficam a cargo da coordenação do Programa Idiomas sem Fronteiras, mesmo que não exclusivas à ela, naturalmente, o esforço maior será para a internacionalização da Universidade, uma vez que esse é o principal objetivo do Programa.7 Todavia, ressalta-se a importância do movimento de internacionalização da UFT que, de alguma forma, abre portas para outras línguas, como a Libras. 7 O Programa Idiomas sem Fronteiras é uma iniciativa do Ministério da Educação que visa a internacionalização do Ensino Superior brasileiro. Outras informações estão disponíveis no site: isf.mec.gov.br. 167 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Para este estudo, portanto, atentando-se para o contexto da UFT, foram considerados não somente textos políticos, mas também as epistemologias surdas existentes na instituição. Tais epistemologias são raramente estudadas e, de maneira ainda menos efetiva, são consideradas em decisões políticas de fato (DE CLERCK, 2010). Pensar em como os surdos sabem o que sabem e levar em consideração esse saberlavra” a alguém. O autor lembra que, ao falar, juntamos palavras; ao escrever, envolvemos a soletração de palavras; ao traduzir, compreendemos a equivalência entre palavras, o que nos remete a estudos que trazem 17 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA distintos conceitos de palavra, sob diferentes pontos de vista e inclui os classificadores (estruturas semilexicais altamente produtivas e icônicas), destacando as implicações semânticas na definição de palavra /sinal tanto em línguas orais quanto em línguas de sinais. Situa as línguas como analíticas (isolantes), ou línguas sinté- ticas (aglutinantes, flexionais ou polissintéticas) e, sob essas pers- pectivas, distingue-se a palavra fonológica da palavra gramatical. Também traz ao debate os conceitos de gesticulação, pantomima, emblemas e língua de sinais, vistos sob um contínuo da gesticulação à língua de sinais. O texto ainda discute ações gestuais como fontes importantes para ampliação lexical e construção de significado nas línguas de sinais e apresenta critérios fonológicos, semânticos e sintáticos para distinção entre sinal (lexical) e outras construções altamente produtivas em processo de lexicalização. Por fim, demonstra que, no processo de lexicalização, após atingir o status de léxico, um “sinal” torna-se uma forma estável com significado cristalizado, enquanto no processo de deslexicalização um sinal (lexical) tem seus parâmetros modificados e a base lexical acrescenta um novo significado. Enfim, chegamos ao final de uma breve degustação dos estudos apresentados em cada capítulo, cujo intuito é convidá-lo, leitor, a conhecer de perto cada linha desta obra escrita a tantas mãos dedi- cadas e comprometidas, que se debruçaram sobre diversos estudos, trazendo reflexões, ideias, análises, teses, propostas e novos cons- trutos que se aprofundam em torno da riqueza das línguas de sinais, da pessoa surda, assim como sobre seus processos educacionais. Concluída, revisada e publicada, a obra se lança à sua aprecia- ção, leitor sedento de conhecimento. Emergem emoções de todas as faces que se uniram para constituir esta obra coesa, pondo luz a estudos recentes que trazem, além de recontos, novos olhares, re- 18 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA flexões ainda não postas à luz, ideias que outros já tiveram e ainda não se tornaram conhecidas. Assim, nesse encontro de emoções para conceber esta obra que traz consigo um convite para surdos e não surdos; aprendizes e professores; pesquisadores e curiosos, se banharem dos olhares que carinhosamente se cruzaram e geraram reflexões e análises relevantes e produtivas, ricas em contribuições estruturantes, que subsidiam novos estudos linguísticos, efetivos para o ensino da língua de sinais brasileira e do português, além de mais eficazes para a educação bilíngue dos surdos. Feito o anúncio, convido-o a ler cada texto extraindo, de cada um, o conhecimento novo, que agrega valores aos estudos seminais e, ao mesmo tempo, reconhece neles as emoções dos autores para chegarem a cada uma das considerações apresentadas em seus textos. Assim concebeu-se esta obra, desenhada em 12 capítulos, divididos em duas partes. A primeira, com seis capítulos que re- fletem acerca da Linguística Aplicada e da Educação de Surdos; e a segunda, com mais seis capítulos que trazem estudos acerca da Descrição Linguística da língua de sinais brasileira. Sandra Patrícia de Faria do Nascimento 19 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA APRESENTAÇÃO Em 04 de agosto de 2021 foi sancionada a Lei nº 14.191, que insere a Educação Bilíngue de Surdos em Libras como primeira língua e em Português como segunda língua na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, enquanto modalidade de educação. Esta talvez seja considerada a maior conquista legal envolvendo os surdos brasileiros, após o reconhecimento legal da Libras pela Lei 10.436 em 24 de abril de 2002 e da regulamentação dessa lei por meio do Decreto 5626/2005. Após vinte anos de lutas e conquistas, desde a lei de libras, essa conquista legal demanda urgência do Estado brasileiro, em suas diferentes esferas de organização, com a implementação de políticas linguísticas educacionais que consolidem a organização de uma educação assentada na diferença surda, que perpassa pelo prestígio de suas epistemologias e das línguas de sinais. O povo surdo brasileiro se organiza em instituições fortes, reco- nhecidas mundo afora, a partir do empoderamento e protagonismo dos surdos brasileiros, cuja força tem provocado produção de conhe- cimento e articulação política em diversas áreas do conhecimento. O ser surdo que demanda oportunidades de existência e participação social legítimas, alavanca profundas transformações e mudanças de paradigmas. Os movimentos sociais surdos conquistaram a criação e, mais recentemente, a manutenção da Diretoria de Políticas de Educação de Bilíngue de Surdos, no Ministério da Educação. Tudo 20 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA isso está alicerçado nas experiências das pessoas surdas, que tem muito a ensinar à humanidade. Igualmente, ressaltamos a consolidação de estudos sobre a diferença surda, educação e linguística das línguas de sinais na academia brasileira, demandado por essas conquistas e protagonis- mo dos surdos. Sobre isso, vemos as assimetrias regionais cada vez menores, pois reconhecemos a consolidação de grupos de pesquisas que atuam nesses campos de conhecimento em todos os estados da federação. Os pioneiros nos estudos sobre a língua brasileira de si- nais e educação de surdos se felicitam, e, juntos, felicitamo-nos, por um país mais coeso e uno nas discussões sobre educação bilíngue. A obra Língua Brasileira de Sinais: Linguística Aplicada, Educação e Descrição Linguística evidencia esse cenário e, principalmente, a expansão e a maturidade dos estudos sobre língua de sinais e educação de surdos no Brasil. O livro conta com a participação de professores e pesquisadores, surdos e ouvintes, de todas as regiões do país. Agradecemos os autores que, gentilmente, aceitaram o convite em colaborar com a construção dessa obra, a partir de suas reflexões e resultados de suas pesquisas e práticas docentes. Agradecemos também à Capes pelo financiamento da publicação pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia - PROCAD/Ama- zônia e à coordenação do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins pela confiança na realização deste trabalho. Convidamos todos a transitarem pelos capítulos que compõem esta obra. Bruno Gonçalves Carneiro Felipe de Almeida Coura Aline Nunes de Sousa (Organizadores) PARTE I LINGUÍSTICA APLICADA E EDUCAÇÃO DE SURDOS CURRÍCULO NA EDUCAÇÃO DE SURDOS: MEMÓRIAS E PERSPECTIVAS1 Sônia Marta de Oliveira Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (SMDE/PBH) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Introdução Debater sobre uma modalidade educacional como é a educação de surdos, exige inicialmente postura de respeito pela luta dos sur- dos, por um caminho pedagógico de mediação do conhecimento que considere, valorize, resguarde e reconheça a língua de sinais como meio instrucional de entendimento e constituição de saberes. Em seguida, considero ser elementar uma imersão linguística e cultu- ral no universo surdo para a apreensão das narrativas surdas, das vidas surdas constituídas em espaços educacionais onde a língua de sinais não é certificada. As políticas públicas educacionais tratam em suas diretrizes da diversidade linguística do estudante surdo. No entanto, o hiato entre o que é proposto e o que é executado é desmedidamente amplo uma vez que, propor encaminhamentos pedagógicos para a 1 O presente capítulo apresenta recortes da minha dissertação de(epistemologia) é uma luta histórica (HOLCOMB, 2010). Silva (2017) defende que a tarefa do investigador não é falar pelo subalterno, mas criar espaços e condições que possibilitem a ele dizer quais políticas linguísticas deseja. Dessa maneira, a autora encoraja o desenvolvimento de pesquisas etnográficas que não reproduzam violências epistêmi- cas. Este estudo se esforça para coadunar com essa ideia de Silva, buscando valorizar as experiências dos surdos participantes desta pesquisa a fim de se refletir as atuais políticas linguísticas da UFT. O objetivo geral deste capítulo é analisar as políticas lin- guísticas relacionadas aos surdos na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Para atender a esse objetivo proposto, foi utilizada a Etnografia de Política Linguística (EPL). Hornberger et al. (2018) explicam que a EPL é uma maneira de clarear as diferentes camadas das políticas linguísticas, referindo-se à metáfora da cebola (RICENTO; HORNBERGER, 1996). De acordo com os autores, a EPL aborda atividades e objetivos de políticas linguísticas como fenômenos escalares, complexos e com multi- camadas, contemplando textos e discursos sobre políticas, bem como práticas políticas locais. Assim, além de políticas linguís- ticas documentadas relacionadas aos surdos a nível nacional, serão considerados aqueles documentos da UFT que versam sobre a mesma temática, além de entrevistas com 18 surdos da instituição, dentre professores e alunos. 168 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Políticas linguísticas Pensar em políticas linguísticas faz-nos remeter a um campo que muitos linguistas e linguistas aplicados não se adentram, pois se relaciona principalmente à ciência política (RAJAGOPALAN, 2013). Portanto, falar de política linguística, segundo Rajagopalan (2013), é mais por uma questão de posicionamento como cidadão brasileiro, do que por ter alguma formação acadêmica na área. De acordo com o autor, a política linguística é a arte de conduzir as reflexões em torno de línguas específicas, com o intuito de condu- zir ações concretas de interesse público relativo à(s) língua(s) que importam para o povo de uma nação, de um estado ou ainda, instâncias transnacionais maiores (RAJAGOPALAN, 2013, p. 21). Uma outra compreensão de política linguística é apresentada por Ricento e Hornberger (1996) pela metáfora das camadas da cebola. Os autores explicam que há níveis (camadas) que podem ser perscrutados até que se chegue ao centro, a saber: nacional, institucional e interpessoal. Segundo os autores, o nível nacional se refere a esferas governamentais, o nível institucional envolve as políticas aplicadas a instituições como escolas e universidades e, por fim, chamado de “coração da política linguística” pelos au- tores, o nível interpessoal se refere ao centro da cebola. É ali que é implementado o que os expertos do governo, ou da secretaria de educação ou da administração da escola/universidade já decidiram. As políticas linguísticas, portanto, interessam e atingem, especifica- mente, a camada interpessoal (RICENTO; HORNBERGER, 1996). É dessa maneira que esta pesquisa se propõe, visando contribuir com reflexões no campo da política linguística que, direta ou indireta- 169 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA mente, possam incidir no uso da Libras e da língua portuguesa como segunda língua para surdos na Universidade Federal do Tocantins. Tollefson e Pérez-Milans (2018) afirmam que os termos lan- guage policy (política linguística) e language planning (planejamento linguístico) começaram a ser mais utilizados e difundidos na década 60. Os autores também mencionam que a temática surgiu como uma área de especialização da sociolinguística. Entretanto, segundo eles, após a fundação do Center of Applied Linguistics em 1959,8 a necessidade de pesquisa em política e planejamento linguístico passou a ser mais evidente. Ainda de acordo com Tollefson e Pérez-Milans (2018), a partir da década de 60, houve um número significativo de estudos de caso na área que, segundo os autores, expressavam uma essencialidade pragmática. Esses primeiros trabalhos se enquadram no chamado “planejamento linguístico clássico” ou “planejamento linguístico neoclássico”. Segundo Hornberger (2006), eram estudos que se de- bruçavam mais intensamente acerca da elaboração de uma norma ortográfica, gramatical e de dicionários, por exemplo. Todavia, nos anos 90, abordagens críticas e etnográficas passaram a fazer parte das pesquisas em políticas linguísticas, criando oportunidades de discussões que envolviam questões como poder e desigualdade (TOLLEFSON; PÉREZ-MILANS, 2018). Hornberger (2006) aponta que, nessa época, os autores Cooper e Tollefson estavam entre os primeiros a contribuírem nessa perspectiva. Acerca dessa visão de política linguística, Tollefson e Pérez-Milans (2018, p. 9) afirmam que se pesquisadores desejam entender perdas e mudanças linguísticas, o desenvolvimento do bi/multilinguismo, e o complexo sistema sociolinguístico do dia a dia, então devem explorar a interface entre as trajetórias de vida dos indivíduos e as culturas e práticas da sala de aula, 8 O Center for Applied Linguistics (CAL) é uma organização privada, sem fins lucrativos, com sede em Washington, nos Estados Unidos. 170 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA da rua, do playground, ou de casa, e como isso pode se relacionar com ideologias, discursos e políticas nacio- nais e internacionais.9 Dessa maneira, torna-se possível entender a importância das pesquisas em políticas linguísticas com os sujeitos envolvidos no processo, considerando suas experiências e decisões aprendidas ao longo de sua trajetória. Segundo Rajagopalan (2013), nas pesquisas desenvolvidas em língua portuguesa, o termo política linguística envolve tanto dimensões organizacionais, quanto questões mais funcionais e situadas de aplicação de políticas da língua, sem haver distinções terminológicas como no caso do inglês, em que é utilizado language policy e language planning. Maher (2013) menciona que na literatura especializada há os que fazem distinção entre, por um lado “Políticas Linguísticas” (Language Policies), entendida como um conjunto de metas, de objetivos (governamentais ou locais) referentes à(s) língua(s) existente(s) em um dado contexto específico e, por outro, “Planejamento Linguístico” (Language Planning), que diria respeito aos modos de operacionalização, de implementação de uma dada política linguística. É importante esclarecer que, do meu ponto de vista, essa distinção não procede. Não procede porque [...] a determinação de planos para modificar estruturas e/ou usos linguísticos não pode se constituir apenas em meras cartas de intenção, mas tem que, necessariamente, também contemplar, já no seu bojo, modos factíveis de promover as mudanças desejadas (MAHER, 2013, p. 120, grifo da autora). 9 Tradução minha do texto do autor, assim como em todas as outras citações feitas a partir de autores estrangeiros no restante deste trabalho. 171 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Dessa maneira, indo ao encontro da proposta de Maher (2013) e Rajagopalan (2013), neste trabalho, o termo política linguística abarcará os conceitos em língua inglesa de language policy e lan- guage planning. Políticas linguísticas e línguas de sinais Reagan (2010) afirma que os estudos de políticas linguísticas envolvendo línguas de sinais, apresentam situações pouco familiares àqueles que elaboram políticas linguísticas de maneira geral. Isso ocorre porque a língua de sinais e as comunidades surdas possuem características específicas que diferem de outras minorias linguís- ticas. De Meulder et al. (2019) mencionam que, tradicionalmente, as línguas de sinais foram excluídas das pesquisas e políticasque envolvem minorias linguísticas. Um dos motivos seria que, inicial- mente, ainda havia a discussão sobre a legitimidade das línguas de sinais, ou seja, se seriam consideradas como línguas de fato. Um outro fator apontado pelos autores é a transmissão não tradicional da língua, ou seja, a grande maioria dos surdos nascem de famílias que usam predominantemente a língua oral, diferentemente de outras minorias linguísticas que, geralmente, possuem uma tradição linguística. Dessa maneira, a aquisição linguística pode acontecer por meios formais, como escolas de surdos. No entanto, como apontam os autores, a maioria das escolas, seguindo uma lógica inclusiva, acolhem os alunos surdos, mas geralmente não possuem profissionais como intérpretes e/ou professores que saibam língua de sinais e conheçam a cultura surda. De Meulder et al. (2019) afirmam ainda que as línguas de sinais não são línguas territoriais, como são as minorias que falam línguas indígenas, por exemplo, com exceção de algumas vilas e comunida- des surdas isoladas. Essas características, dentre aquelas que podem estar também relacionadas ao acesso e uso da língua, justificam a 172 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA afirmação de Reagan (2010) para quem as políticas linguísticas das línguas de sinais possuem peculiaridades se forem comparadas a outras políticas linguísticas de maneira geral. De Meulder et al. (2019) mencionam que podem existir no mundo uma quantidade de línguas de sinais que pode ser equiparada às línguas orais, ou seja, entre 6000 e 7000 línguas. Entretanto, de acordo com os autores, o Ethnologue identifica apenas 13810 que estão documentadas e identificadas como línguas de sinais de fato. Desse total, menos da metade possui reconhecimento legal a nível nacional (WFD, 2017). Essa pode ser considerada uma semelhança das línguas de sinais com outras línguas minoritárias: os desafios da oficialização, bem como outras políticas regulamentadoras, como o ensino e difusão da língua. A World Federation of the Deaf - WFD (2017) afirma que dos 193 países que são membros das Nações Unidas, 152 não possuem nenhum tipo de reconhecimento de suas línguas de sinais, o que corresponde a cerca de 78% do total. De acordo com Snoddon e Wilkinson (2019), países como o Canadá, mesmo havendo uma legitimação de suas línguas de sinais pela comunidade surda e pela associação de surdos nacional, ainda dão passos para uma oficiali- zação a nível federal. Segundo De Meulder et al. (2019), podem ser três os estágios de um processo político que visa a uma autonomia cultural e linguística dos surdos: o primeiro, chamado de reconhecimento simbólico, é quando há uma confirmação legal de que as línguas de sinais são línguas de fato e que possuem valores significativos para as comunidades surdas. O segundo ocorre quando há uma instrumentalização de alguns serviços relacionados à língua, como o acesso a alguns serviços com a presença de intérpretes. O terceiro se refere à promoção ou proteção de direitos linguísticos e de aqui- 10 Atualmente, o site Ethnologue (https://www.ethnologue.com/) registra mais de 150 línguas de sinais. https://www.ethnologue.com/subgroups/sign-language 173 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sição de língua em casa e em ambientes formais de aprendizagem. Segundo os autores, muitas legislações se estagnam somente no reconhecimento simbólico enquanto outros chegam ao segundo estágio. Todavia, eles também mencionam que o terceiro estágio é raramente atingido pela maioria dos países. Educação superior e políticas para surdos: UFT em foco A Constituição Brasileira de 1988 e a Lei de Diretrizes e Ba- ses (LDB) de 1996 (Lei 9394) não mencionam algo que se refira especificamente aos surdos ou à língua de sinais. Todavia as legislações mencionam igualdade de oportunidades e garantia à educação, por exemplo. A LDB aponta também que os sistemas de ensino11 assegurarão aos alunos com deficiência, dentre ou- tras coisas, currículos, métodos e técnicas para atender às suas necessidades. Esse é um exemplo do que se referem as discussões de De Meulder e Murray (2017), De Meulder et al. (2019) e Reagan (2019), no tocante à alocação de surdos em grupos de pessoas com deficiência. Segundo Felipe (2006), os direitos dos surdos devem ser enxergados a partir dessa noção de igualdade e acesso e, no caso da legislação brasileira, tanto na Constituição, quanto na LDB, a possibilidade encontrada é através dos direitos das pessoas com deficiência. Nesse sentido, também em consonância com a LDB, a Secretaria de Educação Superior, do Ministério da Educação, publicou em 2003 a Portaria nº 3284 que previa alguns requisitos de acessibilidade de pessoas com deficiência. Em relação aos surdos, as orientações se voltam aos alunos “portadores de deficiência auditiva” e preveem: presença de intérprete de Libras especialmente em momentos de avaliação; flexibilidade na correção de avaliações de alunos surdos; estímulo de aprendizado da língua portuguesa na modalidade es- 11 Por sistemas de ensino, entende-se não somente a educação básica, mas também a superior. 174 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA crita; acesso para os professores de literatura sobre especificidade linguística dos alunos surdos. Dessa maneira, algumas universidades criaram núcleos ou esti- pularam uma equipe responsável para atender a esses e outros aspec- tos da Portaria. A UFT, que foi implantada em 2003, criou o Núcleo de Inclusão e Acessibilidade do Deficiente (NIADI) pela Resolução 04/2009 com o objetivo de cumprir as exigências da Portaria 3284 de 2003 e da LDB, além de propor outras estratégias de acessibili- dade e inclusão. Em 2015, a Resolução 04/2009 da UFT foi revogada pela Resolução 03/2015, tendo em vista o cumprimento de alguns dispositivos legais, dentre eles o Decreto 5626 de 2005 que trata de especificidades da pessoa surda e o Decreto 7611 de 2011 que prevê a estruturação de núcleos de acessibilidade nas instituições federais de educação superior. A Resolução menciona também a implantação do “Programa Viver sem Limite”, integrado ao Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Governo Federal, em 2011, que busca a promoção de programas e ações voltados a garantir que as pessoas com deficiências exerçam seus direitos. Dessa maneira, a Resolução 03/2015 institui o Programa de Acessibilidade e Educação Inclusiva para Pessoas com Deficiência (PAEI/UFT), substituindo o NIADI, e implanta a Diretoria de Acessibilidade e Educação Inclusiva vinculada à Reitoria e a Coordenação de Acessibilidade e Educação Inclusiva, nos campi universitários da UFT. Uma das prioridades do Programa é implementar uma Política de Acessibilidade e Educação Inclusiva da UFT que, nesse caso, pode incidir diretamente na vivência dos surdos na Universidade. Essa Política, no entanto, até a escrita deste capítulo, não está claramente definida. Não há, portanto, um texto com diretrizes ou outras informações específicas acerca da acessibilidade e inclusão na UFT, apesar de já serem perceptíveis alguns esforços, como pode ser visto no site oficial da instituição.12 12 Disponível em: https://ww2.uft.edu.br/index.php/ultimas-noticias/26669-uft-destaque-inclusao- -estudantes-e-docentes-com-deficiencia-lanca-campanha. Acesso em: 15 dez. 2020. about:blank about:blank 175 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Outro documento que será considerado nesta seção é a Resolu- ção 26/2018, que institui a Política Linguística da UFT (UFT, 2018b). Dentre os documentos da UFT apresentados até o momento, esse é o único que menciona especificamente o termo “política linguística”. Como apontado na introdução desta pesquisa, a Resolução 26/2018 lista, de maneira geral, algumas diretrizes: Art. 1º A PolíticaLinguística da Universidade Federal do Tocantins tem como diretrizes: I - reconhecimento do acesso ao aprendizado de línguas nos currículos acadêmicos; II - implementação de uma dimensão estratégica institucional que relacione a questão das línguas com os objetivos, missões e identidade da UFT; III - criação de infraestruturas para aprendizagem de línguas, com ampliação de espaços destinados para o acontecimento de aulas, formações pedagógicas, aplicação de exames, entre outros; [...] IX - valorização das trocas acadêmicas e interculturais para a construção distribuída do conhecimento; [...] XVI - implementação de programas e projetos que visem à promoção da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na Universidade e o acesso da comunidade surda a outras línguas, incluindo também o Português como Língua Adicional; [...] XX - colaboração, por meio de ações conjuntas, com a for- mação linguística continuada de profissionais que atuam na área de ensino de idiomas da educação básica, promovendo, assim, o diálogo e a aproximação entre a universidade e as escolas; [...] (grifo nosso). Das diretrizes da Resolução, foram elencadas anteriormente aquelas que se referem a línguas de maneira geral e a que menciona especificamente a Libras. As demais se relacionam, prioritariamen- te, a línguas estrangeiras, com enfoque específico à língua inglesa, 176 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA tendo em vista estratégias de internacionalização da Universidade. No trecho destacado (XVI), quando se menciona sobre o acesso da comunidade surda a outras línguas, pode-se deduzir, portanto, a própria língua inglesa (leitura e escrita) e alguma outra língua de sinais, como a ASL (Língua Americana de Sinais). Todavia, o ensino de língua inglesa para alunos surdos é algo escassamente discutido e, por conseguinte, também pouco difundido e promovido explici- tamente em políticas linguísticas como essa da UFT. O artigo 2º do documento aponta os objetivos da Política Linguística da UFT e, da mesma maneira, buscou-se apresentar aqui aqueles que se referem à Libras e/ou à língua portuguesa para surdos: Art. 2º A Política Linguística da UFT tem como objetivos: I - reconhecer a importância de práticas multilíngues interculturais no contexto de ensino-aprendizagem de línguas na UFT; II - implementar uma dimensão estratégica institucional que relacione a questão das línguas com os objetivos, missões e identidade da UFT; III - criar infraestruturas para aprendizagem de línguas, com ampliação de espaços destinados para o aconteci- mento de aulas, formações pedagógicas, aplicação de exames, entre outros; [...] XII - fomentar ações de ensino, pesquisa e extensão vol- tados para a Língua Portuguesa como Língua Adicional e de Acolhimento; [...] XVI - criar programas e projetos que visem à pro- moção da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na Universidade e o acesso da comunidade surda a outras línguas, incluindo também o Português como Língua Adicional; [...] XX - colaborar, por meio de ações conjuntas, com a formação linguística continuada de profissionais que atuam na área de ensino de idiomas da educação básica, 177 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA promovendo, assim, o diálogo e a aproximação entre a universidade e as escolas. (grifo nosso). É possível perceber algumas relações entre as diretrizes e os objetivos da Política Linguística da UFT. O texto ainda aponta que essas implementações contarão com o apoio dos cursos de Letras e do Centro de Idiomas. E, ainda, que dentre as atribuições da Coorde- nação do Programa Idioma Sem Fronteiras está propor normativas para o fortalecimento da Política Linguística na UFT. A Política Linguística da UFT enfatiza, com clareza, estra- tégias de internacionalização da Universidade e, para isso, tenta estabelecer diversas ações que concernem o ensino e a utilização da língua inglesa em diversos ambientes e situações. Assim, estabelecer que a coordenação do Programa Idiomas Sem Fron- teiras se responsabilize pelas propostas de Política Linguística da instituição, parece ser uma via tendenciosa para que continuem esforços políticos que promovam com mais veemência as línguas estrangeiras, com destaque ao inglês. A internacionalização de qualquer universidade pode ser considerada como um fator de grande relevância, porém as políticas linguísticas que contribuem para esse processo não deveriam apagar as minorias linguísticas existentes. Ao mesmo tempo que o documento fala do reconhe- cimento da “importância de práticas multilíngues interculturais no contexto de ensino-aprendizagem de línguas na UFT”, prioriza a língua inglesa sobre outras línguas, como a Libras e as línguas indígenas. Lima (2018) faz também essa crítica de maneira ge- ral às universidades brasileiras, evidenciando que é intencional a invisibilidade de políticas para surdos na educação superior, deixando clara uma intenção de priorização de políticas públicas “maiores”. Aqui também não é mencionado sobre o ensino de inglês para alunos surdos da Universidade. 178 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Ressalta-se que a justificativa da criação da Política Lin- guística da UFT se deve em decorrência do Decreto 9005/201713 e de Portarias da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Ministério da Educação, conforme aponta o texto da Resolução. Dessa maneira, considerando essas políticas, o incentivo era, de fato, para a internacionalização da universidade e a promoção de línguas estrangeiras. Mesmo tendo em vista o cumprimento de textos políticos de órgãos superiores, é de res- ponsabilidade da UFT atentar-se à sua diversidade linguística, uma vez que possui uma quantidade considerável de alunos indígenas e surdos. Dessa maneira, a Política Linguística da instituição deveria, mais do que citar discretamente a Libras e as línguas indígenas, ser mais incisiva nas estratégias que podem contribuir para que essas línguas ocupem mais espaços e direitos na Universidade. Todavia, pode-se entender que, mesmo que o documento não disponha de muitos detalhes em relação às minorias linguísticas, ele pode abrir oportunidades, tais como a criação de programas e pro- jetos que visem a promoção da Libras e o acesso dos surdos a outras línguas, inclusive à língua portuguesa. De alguma maneira, ações como a do curso de Letras Libras e da Pós-Graduação em Letras, além de cumprir leis federais, coadunam-se com essas diretrizes e, como aponta também o documento, contribuem para a “valorização das trocas acadêmicas e interculturais para a construção distribuída do conhecimento”. O objetivo das críticas em relação à Resolução 26 de 2018, não se refere à importância da internacionalização da Universidade, mas pela seriedade desse documento que é identificado como “Diretrizes da Política Linguística da UFT”. Por carregar já em seu título uma proposta muito abrangente e exigente, acaba não conseguindo contemplar toda a diversidade cultural e linguística existente na 13 Revogado pelo Decreto 10.195 de 2019, mencionado na seção anterior, que trata, dentre di- versos outros assuntos, da criação da Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos. 179 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Universidade. Se, por um lado, poderia existir a possibilidade de ter sido utilizado outro título que priorizasse a internacionalização so- mente, excluindo menções de línguas minoritárias, por outro, graças a essa iniciativa, foi possível discutir e pensar em mais espaços que a Libras pode ocupar na Universidade. Dessa maneira, a Resolução 26 de 2018 abre caminhos para análise, reflexões e mudanças. Comunidades surdas e políticas linguísticas O conceito de colonialismo envolvendo a comunidade surda, segundo Ladd e Lane (2013), foi desenvolvidopor Lane (1992) e estendido por Wrigley (1996 apud LADD; LANE, 2013). O colonia- lismo expresso no âmbito educacional aconteceu pelo Oralismo, isto é “uma ideologia que procura remover todas as características do Ser Surdo do sistema educacional voltado para o Surdo, apagar essas particularidades da sociedade e, na medida do possível, do mundo” (LADD; LANE, 2013, p. 569). As características colonizadoras que perpassam pelos surdos ainda são perpetuadas por médicos, educadores e pesquisadores de diversas áreas. Humphries et al. (2017) mencionam alguns comen- tários online de alguns profissionais acerca do surdo e da língua de sinais. Os autores citam exemplos que podem ser encontrados facilmente na internet, que generalizam afirmações depreciativas sobre os surdos com frases como: “há estudos sobre isso” ou “estudos recentes comprovam”, sem nenhuma referência, de fato, confiável ou outro argumento mais sólido. São comentários pejorativos que também surgem em encontros de pais e profissionais da área da saúde, por exemplo (HUMPHRIES et al., 2017). Alguns estudos sobre políticas linguísticas trazem também discussões como as que se tem feito nesta seção. De acordo com Ricento e Hornberger (1996), muitas abordagens na política lin- 180 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA guística tendem a problematizar a língua como um mecanismo de controle social pelas elites dominantes; eles destacam que todas as políticas linguísticas são ideológicas, embora a ideologia possa não ser tão aparente ou perceptível por aqueles que fazem as políticas ou as cumprem. Um exemplo de ideologia “invisível” na política linguística é dado por Tollefson (1991, p. 10): A política de exigir que todos aprendam uma única lín- gua dominante é amplamente vista como uma solução de senso comum para os problemas de comunicação das sociedades multilíngues. O apelo desta suposição é tal que o monolinguismo é visto como uma solu- ção para a desigualdade linguística. Se as minorias linguísticas aprendem a língua dominante, assim diz o argumento, então elas não sofrerão desigualdade econômica e social. A suposição é um exemplo de uma ideologia, que se refere a pressupostos normalmente inconscientes que passam a ser vistos como senso comum [...] tais suposições justificam políticas exclu- dentes e sustentam a desigualdade. O que Quadros e Campello (2010) defendem corrobora Mig- nolo (2008) a respeito de uma opção decolonial. O movimento do surdo de deixar o lugar de subalterno e assumir posturas decisórias naquilo que vai incidir diretamente nele é mais do que uma ação de resistência, é questionar ideologias de políticas linguísticas há anos impostas, mesmo que, algumas vezes, “invisíveis” (RICENTO; HORNBERGER, 1996). É uma tentativa de mudar uma situação que há mais de um século resulta em violência; é a ação mencionada por Kumaravadivelu (2016), em contraposição ao silenciamento de anos, conforme aponta Holcomb (2010). O argumento apontado por Tollefson (1991) sobre o mono- linguismo como uma solução para a desigualdade linguística, con- tribui para a compreensão de uma forma de colonização liderada 181 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA por aqueles que outrora foram também colonizados, assim como aponta Mignolo (2008). Dessa maneira, mesmo havendo algum subsídio para que a Libras circule no Brasil, a crença de que o surdo só poderá se destacar se dominar a língua portuguesa é um indício de monolinguismo que, aparentemente, quer unificar. Entretanto, isso só demonstra a supressão da língua do outro, a exclusão explí- cita das diferenças, ao invés de resolver algum problema de ordem social. Santos (2016, p. 51) afirma que: a discussão sobre a mestiçagem em causa ser colonia- lista ou descolonizadora é legítima e pertinente, mas a questão fundamental está, pois, no poder constituinte nascido nas ruas, nas lutas que levam ao rompimento da linha abissal e colocam os excluídos no seio do processo constitucional, que, de alguma forma, passa a representar os anseios e as expectativas de uma maioria invisibilizada nas Constituições anteriores. O movimento surdo no Brasil e suas reivindicações ao longo das décadas, ora contando com o apoio da academia e de outros setores da sociedade, vêm não só modificando aos poucos uma realidade de milhares de pessoas, mas fazendo com que assuntos como esses não passem despercebidos por grande parte da população. Aprofundando os resultados das entrevistas As experiências dos surdos na UFT são o ponto de partida para as reflexões que se propõe nesta seção. De acordo com Miccoli (2010, p. 29), a experiência, ao ser narrada, “deixa de ser um acontecimen- to isolado ou do acaso. O processo reflexivo da narrativa oferece a oportunidade de ampliar o sentido dessa experiência e de definir ações para mudar e transformar seu sentido original bem como aquele que a vivenciou”. A autora, no entanto, menciona que, se 182 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA as experiências não são acompanhadas de reflexões conscientes, podem deixar de contribuir para essas mudanças. As experiências revelam também pontos importantes para aqueles que as narram, pois assim, ao narrá-las, abrem oportunidades para melhor explo- rarem conteúdos já vividos, fazendo relações com diferentes acon- tecimentos e podendo apontar novas estratégias para situações que desejam compreender com mais detalhes. Aqui pretende-se apresentar e discutir alguns fatos comuns das trajetórias dos surdos na UFT, ou seja, elucidar algumas proposições indexadas. Jovchelovitch e Bauer (2002) chamam de proposições indexadas os pontos mais concretos das narrativas, como quem faz o que, onde e quando. Para isso, serão apresentados alguns trechos (traduzidos) das falas dos participantes. Ao final de cada trecho, entre parênteses, constará o nome fictício do participante.14 Para começar, um ponto que merece destaque é o que se rela- ciona com as menções positivas ao campus de Porto Nacional em relação à utilização de Libras nas aulas e nas interações de profes- sores e alunos ligados aos cursos de Letras Libras e ao Mestrado em Letras, principalmente. 16 dos 18 participantes mencionaram algo nesse sentido, como por exemplo: No Mestrado em Porto Nacional há a compreensão da importância da Libras e isso transcorre de maneira di- ferente do restante da instituição (Centenário). Em Porto Nacional há uma abertura maior em relação à acessibilidade para os surdos (Mateiros). 14 Nem todos os 18 participantes terão trechos de suas narrativas apresentados neste capítulo pelo (i) grande fluxo de informação obtido; (ii) por haver trechos idênticos entre os participantes e, por esse motivo, foram selecionados aqueles que traziam informações mais objetivas, sem deixar de mencionar no corpo do texto, de maneira geral, que houve opiniões semelhantes; (iii) por alguns abordarem temas muito específicos que, posteriormente, não foram considerados nesta seção. 183 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA No campus onde atuo há uma predominância da língua portuguesa [...] diferente do campus de Porto Nacional, onde me sinto mais confortável para poder me comu- nicar em Libras nas minhas interações informais e para os meus estudos. [...] Há uma comunidade surda muito forte no campus de Porto Nacional (Pedro Afonso). No campus de Porto Nacional há uma flexibilização maior, onde acontece a interação surdo-surdo (Espe- rantina). Outros participantes apresentam comentários semelhantes e corroboram a ideia da importância de um espaço que valorize a lín- gua de sinais. Dessa maneira, mesmo com alguns desafios existentes, como será apresentado posteriormente, o campus de Porto Nacional se apresenta como um lugar favorável à promoção da Libras e da cultura surda. É, portanto, o local da UFTonde a diversidade surda é mais empoderada. Pressupõe-se que atualmente, de Porto Nacional, podem sair ideias e sugestões de implementações de políticas lin- guísticas para toda a Universidade. As menções do encontro surdo- -surdo no campus e a existência de uma forte15 comunidade surda no local, por exemplo, são aspectos muito relevantes e podem revelar que as epistemologias surdas em alguma proporção estão sendo consideradas. Ainda, o fato de 16 dos 18 participantes terem feito referências positivas ao campus de Porto Nacional, pode também reforçar uma experiência coletiva significativa que vai ao encontro das lutas históricas das comunidades de línguas de sinais. Isso, no entanto, não exime o campus de um exame crítico permanente de suas políticas linguísticas. Oito dos alunos do mestrado mencionaram também seus de- safios em relação à língua portuguesa. Mesmo com os esforços do Programa e os elogios anteriormente demonstrados, há ainda algum 15 A palavra forte aqui pode se referir à considerável quantidade de surdos no campus e, como consequência, políticas que valorizem a língua de sinais, os saberes e as perspectivas surdas. 184 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA nível de insatisfação por parte de alguns, como pode ser visto nos trechos abaixo: Houve outros professores que solicitavam atividades aos alunos sem muitas explicações, como por exemplo: “fa- çam um artigo”. E se eu dissesse que tinha dificuldades com a escrita, simplesmente diziam que não poderiam fazer nada. É complicado, pois há os que não entendem a relação do surdo com a língua portuguesa e não se importam com isso (Natividade). Tenho interesse em publicar, mas as informações a esse respeito são muito restritas em Libras, dificultando muito o meu crescimento acadêmico (Alvorada). No momento da leitura de textos em português, por exemplo, apenas pedem para que os surdos leiam sem se preocuparem de fato com aspectos de relação com a língua portuguesa como segunda língua (Nazaré). Todavia, dois desses participantes também fizeram outras afirmações, o que permite entender que os desafios não ocorreram da mesma forma durante todo o processo do Mestrado, como pode ser observado nos excertos abaixo: No Mestrado, quando o professor ministrava a disciplina em Libras, era uma sensação muito positiva, pois era a língua com a qual eu me identificava. Ele sabia da re- lação dos surdos com a língua portuguesa e, portanto, tentava flexibilizar as tarefas, isso foi um aspecto muito positivo (Natividade). No Mestrado tem professores que ministram aulas em Libras. Muitas pessoas de outros estados têm inveja, pois não conseguiram o que conseguimos aqui (Nazaré). 185 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Assim, percebe-se que, apesar das experiências ainda desa- fiantes com a língua portuguesa para alguns dos participantes, há também vivências positivas nesse sentido, que acontecem a partir de uma perspectiva da diversidade do aluno surdo. O pro- fessor (ouvinte) que sabe da relação que o surdo tem com a língua portuguesa,16 é aquele que considera não somente o explícito em sala de aula, mas o que consegue adentrar no que as epistemologias surdas apontam no que diz respeito às línguas orais. Não se trata de bani-las do ambiente educacional, mas apresentar alternativas que vão ao encontro das perspectivas e saberes dos surdos. As narrativas também evidenciaram alguns pontos que concernem os desafios na escrita da pesquisa. Professores e alunos surdos da UFT: proposições não indexadas Para Jovchelovitch e Bauer (2002), as proposições não inde- xadas se referem à análise de conhecimento que é possível ser feita a partir das narrativas dos participantes. Esse conhecimento se refere às teorias, conceitos, aquilo o que é e o que não é aceito pelos entrevistados e se relaciona com os aspectos das proposições indexadas da seção anterior. Para iniciar, portanto, será considerado um excerto da narra- tiva de Dianópolis. A participante menciona acerca de sua visão de organização política da UFT a fim de que favoreça os surdos da instituição e de todo o Tocantins: 16 O português, apesar de ser a língua da maioria dos brasileiros, é ensinado ainda de maneiras questionáveis aos surdos. De acordo com Quadros (1997), o processo de alfabetização de surdos sempre foi baseado no processo educacional de ouvintes e, por isso, os resultados são deploráveis. Diferente de outras minorias linguísticas brasileiras (indígenas, imigrantes e quilombolas), a primeira língua dos surdos não é de modalidade oral, portanto, ao aprender a língua portuguesa, além do desafio de aprender uma outra língua, há também o desconforto de se aprender uma outra língua que possui uma modalidade distinta da sua língua de conforto. Dessa maneira, as relações entre primeira e segunda língua, para os surdos, em seu processo de aprendizagem, se torna ainda mais desafiante. 186 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Talvez seria muito importante ter valores ideológicos bem alinhados nos discursos e textos políticos de ma- neira geral, evitando favorecer somente uma ou outra realidade, mas favorecendo os surdos como um todo e, consequentemente os surdos do Tocantins (Dianópolis). A partir desse excerto da narrativa da participante, pode-se retomar a Resolução 26/2018 que institui as diretrizes de Política Linguística da UFT. Como discutido anteriormente, apesar do con- texto da criação do documento, não há uma compreensão, de fato, de uma política linguística que abarque a diversidade da instituição. As ideologias ali contidas não são suficientes para favorecer aspectos presentes na Surdidade,17 por exemplo. Dianópolis menciona que a UFT não deve favorecer uma ou outra realidade, mas contemplar em seus discursos e textos políticos toda a diversidade surda da ins- tituição. Entendendo a política linguística, dentre outros aspectos, como modos de produção medidos por relação de poder, percebe-se na Resolução 26/2018 algumas características que privilegiam as lín- guas estrangeiras em detrimento das línguas indígenas e de sinais. Como aponta Santos (2016), não há a necessidade de romantizar as contribuições do Sul, nesse caso, das comunidades surdas, mas valorizá-las, pensando em suas contribuições futuras para toda a sociedade. Portanto, essa não é uma discussão que visa a uma ade- quação textual apenas, mas uma luta ideológica em direção a um mundo pós-europeu, onde a Europa passa a aprender com o Sul. É o que Mateiros também menciona em sua narrativa: 17 Ladd (2003) propõe o termo Deafhood, aqui traduzido por Surdidade. O autor explica que o termo deafness (surdez), enquanto uma visão clínica, não contempla a complexidade histórica, social e cultural da comunidade surda, além de ver o surdo como deficiente. Kusters e De Meulder (2013, p. 431) afirmam que Surdidade é uma estratégia de “conscientização através da qual os povos de língua de sinais podem examinar suas próprias experiências, se reem- poderarem e, assim, se engajarem no trabalho de regeneração da comunidade”. As autoras, porém, afirmam que o conceito permanece aberto e dinâmico. 187 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA De maneira majoritária, a língua portuguesa circula na UFT. A Libras é uma língua ainda recente, que ainda não conquistou muito espaço. Espero que futuramente a Libras possa ter uma representatividade maior em relação à língua portuguesa na instituição (Mateiros). Na fala de Mateiros há uma constatação da realidade não só da UFT, mas de todas as universidades brasileiras. Comparada à língua portuguesa, a Libras é de fato uma língua recente no Brasil e, ainda mais, nas universidades. Dessa maneira, naturalmente, a língua portuguesa é a língua dominante nesses espaços. Essa é uma realidade compreensível, masque não precisa ser mantida em todo o tempo e em todos os lugares dessa maneira. Assim, dentro da UFT, podem haver momentos e espaços em que a Libras pode exercer uma influência e poder maior do que a língua portuguesa, como em eventos e disciplinas da área e encontros de surdos. Nesses casos, um texto político não é imprescindível para favorecer esses momentos, mas pode contribuir de alguma maneira. Como apontado por De Meulder e Murray (2017), os surdos e, consequentemente as línguas de sinais, são muitas vezes asso- ciados ao grupo de pessoas com deficiência. A Resolução 28/2018, que trata das políticas linguísticas da instituição, é a política da UFT que menciona a Libras sem relacioná-la a algum aspecto do surdo como deficiente ou em termos de acessibilidade somente, porém não dispõe de muitas informações a respeito. A Política de Acessibilidade e Educação Inclusiva ainda não está bem definida na instituição, dessa maneira, as iniciativas de valorização da Libras e do surdo partem de algum setor ou curso específico, como o Letras Libras. Além disso está presente em editais de seleção, por exemplo, relacionando a leis federais que reservam cotas para pessoas com deficiência e que permitem processos seletivos em Libras. A Reso- lução da UFT de nº 14 de 2017, por exemplo, prevê ações afirmativas nos Programas de Pós- 188 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA -graduação stricto sensu para pretos, pardos, indígenas, quilom- bolas e pessoas com deficiência, incluindo os surdos nesse último grupo. Dessa maneira, percebe-se que as políticas da UFT que se relacionam de alguma maneira aos surdos e à Libras, não possuem um caráter ideológico tão marcado, mas abrem possibilidades para discussões e implementações na área. Considerações finais Os objetivos das políticas da UFT que envolvem a Libras e a língua portuguesa para surdos podem ter princípios diferentes, a depender do texto a ser considerado. São textos apoiados no dis- curso que considera o surdo como deficiente ou que percebem sua diferença linguística e cultural ou, ainda, que não demonstram um posicionamento muito claro, podendo possuir características dos dois primeiros. De maneira geral, o objetivo das políticas existentes na UFT é garantir acessibilidade linguística para os surdos e dis- seminar a língua de sinais. A maneira como esses documentos são elaborados e interpretados, a depender do discurso/ideologia inicial, vai impactar na apropriação e implementação política. O curso de Letras Libras e o Programa de Pós-graduação em Letras, tentam de forma mais direta considerar as perspectivas surdas, seja no processo seletivo ou no decorrer dos cursos, isto é, buscam valorizar a Libras em todo o processo educacional, bem como a cultura e as epistemologias surdas. Alguns resultados práticos dessas políticas foram evidenciados pelos participantes neste capítulo, sejam aqueles que estão obtendo sucesso, sejam os que estão sendo vistos ainda como desafios. Esse discurso que valoriza as comunidades de língua de sinais e as entende como minoria linguística e cultural, nem sempre é perceptível na UFT. A resolução que cria o PAEI, por exemplo, mesmo que não institua, de fato, uma política de acessibilidade, traz termos como “defici- 189 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ência” e “inclusão”, sem muitas reflexões. Dessa maneira, não há uma clareza desse discurso político, no entanto, com base no que Lodi (2013) afirma sobre a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva de 2008, há certa obscuridade no discurso e uma falta de diálogo com as comunidades surdas em sua construção. Já nas diretrizes de Política Linguística da UFT, como são poucas as menções acerca da Libras de maneira direta, pode-se entender que há uma tentativa de valorização da Libras, mas ainda de maneira muito sutil. A UFT é uma universidade com menos de 20 anos de existência. O estado do Tocantins completou em 2022, 34 anos. Considerando os números, é uma história recente, mas os esforços para que o es- tado e a universidade fossem criados remontam há muitos anos. Até que a Libras fosse reconhecida oficialmente em 2002, foi também um grande percurso, todavia não foi o suficiente. Mencionando um excerto da narrativa de Mateiros: “os surdos precisam reivindicar sempre, não há descanso”. Pelo que se pode perceber, será essa a trajetória da UFT: um trabalho constante pela luta dos direitos das pessoas surdas. Apesar de ser uma universidade com poucos anos de fundação, ou talvez por isso mesmo, já possui avanços consideráveis em relação às políticas linguísticas que se relacionam aos surdos, o que pode sugerir que os próximos anos, acompanhados de reflexão e ação, sejam ainda mais promissores. Referências BATTERBURY, S.; LADD, P.; GULLIVER, M. Sign language peoples as indigenous minorities: implications for research and policy. Environment and planning, v. 37, p. 2899-2915, 2007. D.O.I.: 10.1068/a388 BRASIL. 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Figura 1 – Ordem implicacional de ocorrência de termos para cores de línguas faladas Fonte: traduzido de Berlin e Kay (1969, p. 259). 196 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA É importante salientar que Berlin e Kay estabeleceram critérios para determinar se uma dada língua conta ou não com um termo básico para as 11 cores apresentadas na Figura 1. Para os autores, a palavra para cor deve ser monolexical, ou seja, seu significado não pode ser previsível a partir de suas partes. Com isso, os autores eliminam do rol dos termos básicos para cores formas derivadas por sufixação ou composição como, por exemplo, ‘amarelado’ ou ‘azul-piscina’, respectivamente. Além disso, eles excluem também hipônimos, ou seja, palavras que remetem a um subtipo de uma cor, por exemplo, a palavra inglesa crimson ‘vermelho escuro’ e palavras para cores empregadas de forma restrita, por exemplo, ‘loiro’. Por último, os empréstimos linguísticos também são excluídos. O modelo para as relações implicacionais entre termos básicos paracores de Berlin e Kay (1969) sofreu alterações em trabalhos pos- teriores. Esse novo modelo, apresentado na Figura 2, foi reverberado por Witkowski e Brown (1977). Como se pode ver na referida figura, duas diferenças principais em relação ao modelo original dizem respeito ao fato de que (i) a ordem de alguns termos foi atenuada por conta das várias exceções observadas nas línguas do mundo e (ii) o termo para ‘cinza’ está fora da ordem implicacional, uma vez que foi atestado em diversos sistemas linguísticos em diferentes ordens. Figura 2 – Reformulação da ordem implicacional de ocorrência de termos para cores de línguas faladas Fonte: traduzido de Witkowski e Brown (1977, p. 52). 197 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Estudos sobre cores nas línguas de sinais mostram que esses universais implicacionais parecem válidos para elas também. Além disso, eles mostram que cores básicas são expressas por sinais na- tivos, enquanto cores menos básicas, por sinais híbridos, formados por empréstimo de letras do alfabeto manual combinadas com elementos da língua sinalizada. Há ainda poucos estudos trans- linguísticos sobre o tema (WOODWARD, 1989), logo este trabalho objetiva contribuir com este campo. O presente trabalho tem por objetivo realizar um estudo com- parativo de sinais de cores em Libras com as de outras línguas de sinais. Nossos objetivos específicos são (i) categorizar os termos para cores como nativos ou empréstimos e, no caso dos primeiros, classificá-los em relação à sua iconicidade e (ii) determinar, com base em Woodward (1989), o perfil tipológico das línguas de sinais da amostra em relação aos termos de cores com destaque à Libras. Revisão de literatura Woodward (1989) traz, em sua pesquisa, uma comparação de termos para cores em 10 línguas de sinais. A seleção dessas línguas levou em conta a inexistência de afiliações históricas/genéticas, já que considerar línguas de um mesmo grupo poderia mascarar a diversidade tipológica. Analisando essas dez línguas com base no modelo de Berlin e Kay (1969), Woodward observou que em alguns casos, como na ASL, há uma pequena quantidade de termos nativos para cores e uma grande incidência de empréstimos linguísticos da língua falada majoritária na constituição desses itens lexicais. O autor observou ainda casos como a língua de sinais indiana, em que a quantidade de termos nativos para a designação de cores é maior (Figura 3). 198 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 3 – Termos para cores em 10 línguas de sinais Fonte: traduzido de Woodward (1989, p. 149). Na Libras, tomando como referência o estado de Pernambuco, especificamente sua capital, Recife, Brito (2010 [1995], p. 166) ob- servou que “quase todos os termos básicos para cores [nessa língua] são empréstimos linguísticos; não são termos nativos”. Dessa forma, à primeira vista, a Libras se assemelharia tipologicamente à ASL e não à língua de sinais indiana. Sinais nativos se caracterizam como aqueles que foram criados pela comunidade surda sem interferência da língua majoritária oral e que apresentam uma relação de motivação – iconicidade – entre sua forma e aspectos visuais ou motores associados a seu referente. Klima e Bellugi (1979) foram os primeiros a estudar a iconicidade nas línguas de sinais. Segundo os autores, essa propriedade pode 199 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA ser observada no sinal TREE ‘árvore’ da ASL, cujos aspectos formais (imagem B), como se pode ver no exemplo na Figura 4, remetem a aspectos de seu significado (imagem A). Precisamente, a mão de apoio remete ao solo, o antebraço, ao tronco da árvore e a mão, aos galhos da árvore. Figura 4 – Correspondência entre aspectos imagéticos do conceito “árvore” e o sinal que o representa em ASL Fonte: Taub (2004, p. 29). Embora sinais nativos nas línguas de sinais sejam majoritaria- mente icônicos, é incorreto achar que a língua de sinais é universal, pois cada cultura elege aspectos diferentes de um mesmo significado para representar. Como exemplo, Klima e Bellugi (1979) citam os diferentes sinais para ‘árvore’ na ASL, na língua de sinais dinamar- quesa e na língua de sinais chinesa (Figura 5). Figura 5 – Sinal “árvore” em três línguas de sinais diferentes Fonte: Klima e Bellugi (1979, p. 21). 200 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Em outras palavras, embora todos os sinais da Figura 5 sejam nativos em suas respectivas línguas e icônicos, cada um deles re- presenta aspectos diferentes do conceito ‘árvore’: na ASL, a árvore como um todo; na língua de sinais dinamarquesa, o contorno da copa e do caule, excluindo o solo; e, por fim, na língua de sinais chinesa, apenas a espessura do tronco. Já os sinais não nativos, ou seja, formados por empréstimos da língua oral majoritária, ainda que apresentem alguma iconici- dade relacionada ao significado expresso, fazem ao mesmo tempo referência à forma gráfica da palavra correspondente na língua majoritária. Adam (2012) reporta que há influência da língua falada majoritária não apenas pela escrita, mas também pela oralidade e que os empréstimos linguísticos de uma língua sinalizada podem se apresentar de diferentes formas. Entre elas está a soletração manual ou datilologia de palavras da língua oral, a inicialização (substituição de uma configuração de mão nativa por outra que no alfabeto manual remete à primeira letra da palavra da língua oral), a oralização (articulação silenciosa ou não da palavra da língua oral concomitantemente à produção de um sinal) e os calques (traduções literais). O autor ainda cita a incorporação de gestos da comunidade ouvinte como um outro tipo de empréstimo linguístico. Conforme observado por Woodward (1989), a maior parte dos sinais que designam cores na ASL são considerados empréstimos linguísticos, uma vez que sua formação incorpora uma letra do alfabeto manual para, por meio dela, fazer referência à inicial da palavra em inglês. Isso pode ser observado nos sinais YELLOW ‘amarelo’ e GREEN ‘verde’, formados, respectivamente, pelas letras manuais Y e G (Figura 6). 201 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 6 – Sinais YELLOW ‘amarelo’ e GREEN ‘verde’ da ASL Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021)1. Como dito anteriormente, o presente trabalho objetiva (i) ca- tegorizar os termos para cores como nativos ou empréstimos e, no caso dos primeiros, classificá-los em relação à sua iconicidade e (ii) determinar, com base em Woodward (1989), o perfil tipológico das línguas de sinais da amostra em relação aos termos de cores com destaque à Libras. Material e métodos Foi realizada uma busca das 11 cores – preto, branco, vermelho, verde, amarelo, azul, marrom, laranja, roxo, rosa e cinza, no site Spread the Sign. Foram levantados 413 sinais de cores de diferentes línguas de sinais, precisamente, entre 25 e 39 línguas. Esses dados foram categorizados da seguinte forma: primeiramente, foram separados os sinais em que não parecia haver letras do alfabeto manual, portanto, nativos, daqueles em que essa presença pôde ser identificada, daí seu tratamento como empréstimos linguísticos. No caso dos nativos, ainda foram subdivididos os dados em relação à sua possível motivação ou iconicidade. Além disso, foi criada uma categoria para os casos em que a classificação anterior não foi pos- sível, ou seja, casos em que havia dúvidas quanto à motivação. A classificação para quatro dessas línguas (língua de sinais argentina, 1 Disponível em: https://www.spreadthesign.com/pt.br/search/. Acesso em: 25 de out de 2021 https://www.spreadthesign.com/pt.br/search/ 202 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA língua gestual portuguesa, língua de sinais britânicae língua de sinais grega) foi checada informalmente por meio de consulta via plataforma Zoom, com um de seus usuários: surdos – no caso das três primeiras línguas, e ouvinte – no caso da última. Os dados coletados foram convertidos em formato de gráficos e mapas. Os primeiros foram usados para mostrar a frequência das subcategorias de iconicidade translinguisticamente, bem como das outras categorias: empréstimos e dúvidas. Os últimos foram em- pregados para mostrar a distribuição geográfica das subcategorias relativas à iconicidade. Por fim, com base em Berlin e Kay (1969) e Woodward (1989), as línguas foram classificadas de acordo com seu conjunto de sinais nativos e resultantes de empréstimos linguísticos, objetivando com isso verificar qual o perfil tipológico da Libras. Resultados e discussão À primeira vista, há no site Spread the Sign, sinais de 42 lín- guas sinalizadas. Uma análise mais cuidadosa revela, no entanto, que há, na verdade, 39 línguas, pois a língua de sinais indiana e a língua de sinais bielorrussa são incluídas duas vezes e os Sinais Internacionais (SI) não são considerados como uma língua natural da mesma forma que a ASL e a Libras, por exemplo. Sendo assim, neste trabalho, concentro-me em dados de 39 línguas sinalizadas, destacadas no Quadro 1 e no mapa-múndi da Figura 7. 203 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Quadro 1 – Quadro linguístico – línguas de sinais Fonte: Fischer (2021, p. 26). Figura 7 – Mapa linguístico – línguas de sinais Fonte: Fischer (2021, p. 27). A busca das 11 cores – preto, branco, vermelho, verde, amarelo, azul, marrom, laranja, roxo, rosa e cinza – no referido site resultou em 413 dados. Como mostra a Tabela 1, há discrepância no número de línguas identificadas no site, no número de línguas analisadas e no número de sinais, porque não foi possível encontrar sinais de algumas cores para todas as línguas e foram identificadas variantes lexicais para uma mesma cor em uma mesma língua. 204 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Tabela 1 – Dados referentes aos sinais de cores das línguas analisadas Fonte: Fischer (2021, p. 27). Cores preta e branca Coletamos 42 sinais para a cor preta de 37 línguas. Esses sinais foram subdivididos em sinais nativos, 29, e empréstimos linguísticos (letras), 5 (Gráfico 1a). Os sinais nativos, por sua vez, foram subdi- vididos nas seguintes subcategorias: ‘não ver’, ‘cabelo’, ‘sobrance- lha’, ‘pele’ e ‘barba’ (Figura 8). Dentre estes, como se pode ver no Gráfico 1b, predominam os sinais da subcategoria ‘não ver’, com 12 ocorrências. Em segundo lugar, estão os realizados no cabelo, com 8 ocorrências. As demais subcategorias foram menos frequentes: 4 na sobrancelha, 3 na pele e 2 na barba. 8 sinais foram incluídos no grupo ‘dúvidas’ e aguardam um estudo mais aprofundado para que se possa revelar a motivação de sua forma. 205 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 8 – Subcategorias dos sinais para a cor preta Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 1 – Iconicidade lexical da cor preta Fonte: Fischer (2021, p. 28). Por meio da indicação no mapa-múndi de cada subcategoria dos sinais que designam a cor preta um padrão curioso se manifes- tou em relação aos sinais cuja motivação está aqui sendo traduzida como ‘não ver’. Observa-se na Figura 9 uma concentração de línguas que usam formas desse tipo na Europa, em países próximos. Mais estudos são necessários para saber se isso é uma coincidência ou resultado do contato linguístico. 206 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 9 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor preta Fonte: Fischer (2021, p. 29). Para a cor branca, foram coletados de 36 línguas 46 sinais. Esses sinais foram divididos em nativos, 29 sinais, e empréstimos, 2 (Gráfico 2a). Os sinais nativos foram subcategorizados como rela- cionados a um babado (roupa), à pele, à cor do dente, à neve, à barba, à cor do leite e à cor de um lenço de bolso (Figura 10). Dentre estes citados, predominam os sinais relacionados à cor do babado de uma roupa, 7, e à cor da pele, 7, seguidos por aqueles relacionados à cor do dente, 6. As demais subcategorias são formas menos frequentes: 4 relacionados à neve, 3 à barba, 1 à cor do leite e 1 à cor de um lenço de bolso. Somam-se a estes 15 sinais cuja motivação não nos pareceu clara e que, portanto, demandam mais estudos (Gráfico 2b). 207 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 10 – Subcategorias dos sinais para a cor branca Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 2 – Iconicidade lexical da cor branca Fonte: Fischer (2021, p. 30). Diferentemente dos sinais para a cor preta, observa-se uma dispersão geográfica das subcategorias (Figura 11). Mais estudos são necessários para determinar se há alguma conexão entre as línguas que exibem o mesmo padrão ou identicar possíveis fontes para essa coincidência. 208 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 11 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor branca Fonte: Fischer (2021, p. 31). Cor vermelha Das 34 línguas consideradas para a cor vermelha, foram co- letados 36 sinais, os quais foram divididos em nativos: 32 sinais; e empréstimos linguísticos: 1 sinal (Gráfico 3a). Os sinais nativos foram subdivididos, com base na sua aparente motivação, em duas subcategorias: ‘lábio’ e ‘bochecha’ (Figura 12). A primeira foi a mais frequente, incluindo 27 sinais. A segunda, por sua vez, incluiu apenas 5 sinais. Para 3 sinais não foi possível identificar motivação para sua forma (Gráfico 3b). Figura 12 – Subcategorias dos sinais para a cor vermelha Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). 209 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Gráfico 3 – Iconicidade lexical da cor vermelha Fonte: Fischer (2021, p. 32). A indicação no mapa-múndi das línguas que usam sinais que fazem referência ao lábio ou à bochecha, mostra, no caso da pri- meira subcategoria, que ela não está restrita à Europa, mas aparece também nas Américas e na Ásia (Figura 13). A concentração na Eu- ropa poderia ser fruto do contato linguístico. Mais pesquisa se faz necessário para determinar se é o caso e as razões para a presença dessa mesma motivação em outras regiões do planeta. 210 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 13 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor vermelha Fonte: Fischer (2021, p. 32). Cor amarela Foram coletados 45 sinais para a cor amarela de 34 línguas. Esses sinais foram categorizados como: nativos, 9; e empréstimos linguísticos, 18 (Gráfico 4a). Os sinais nativos, por sua vez, foram subcategorizados como sendo relacionados ao cabelo, 3, à pele, 3, à remela, 2, e ao dente, 1 (Figura 14). 18 sinais não apresentaram uma motivação clara (Gráfico 4b). Figura 14 – Subcategorias dos sinais para a cor amarela Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). 211 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Gráfico 4 – Iconicidade lexical da cor amarela Fonte: Fischer (2021, p. 33). No mapa-múndi (Figura 15), pode-se observar que os sinais que possuem relação com a subcategoria ‘cabelo’ são utilizados na região Sul da Europa, próxima ao Oriente Médio. Quanto à subca- tegoria ‘pele’, os sinais são utilizados nos países Índia e Paquistão. Mais pesquisas são necessárias para identificar a existência de conexão entre essas línguas ou de outras possíveis razões para a semelhança entre elas. Figura 15 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor amarela Fonte: Fischer (2021, p. 34). 212 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIçãoLINGUÍStIcA Cores verde e azul Foram coletados 36 sinais para a cor verde de 32 línguas. Desses 36 sinais, 10 são nativos e 14, empréstimos linguísticos (Gráfico 5a). Os nativos foram subclassificados como ‘escarrar’, ‘grama’, ‘arroz’ e ‘catarro’ (Figura 16). O Gráfico 5b mostra que predominam os sinais relacionados a ‘escarrar’, 6, sendo as demais subcategorias menos frequentes. Ele mostra também que 12 sinais foram incluídos na categoria ‘dúvidas’, por não apresentarem uma motivação clara. Figura 16 – Subcategorias dos sinais para a cor verde Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 5 – Iconicidade lexical da cor verde Fonte: Fischer (2021, p. 35). 213 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Os sinais relacionados a ‘escarrar’, como se pode ver no mapa- -múndi (Figura 17), se concentram na Europa, e em países vizinhos. A motivação desses sinais pode advir de contato linguístico entre esses mesmos países, mas pesquisas mais aprofundadas são neces- sárias para a confirmação dessa hipótese. Figura 17 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor verde Fonte: Fischer (2021, p. 35). Já em relação à cor azul, foi possível coletar 47 sinais de 39 lín- guas. Tais sinais foram classificados como nativos, 10, e empréstimo linguístico, 26 (Gráfico 6a). Os sinais nativos, por sua vez, foram subdivididos em quatro subcategorias relacionadas à sua aparente motivação: ‘água’, 4, ‘céu’, 2, ‘olho azul’, 2, e ‘veia’, 2. 11 sinais foram incluídos na categoria ‘dúvidas’, pois não pudemos identificar uma motivação para sua forma (Gráfico 6b). 214 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 18 – Subcategorias dos sinais para a cor azul Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 6 – Iconicidade lexical da cor azul Fonte: Fischer (2021, p. 36). Já o mapa-múndi da Figura 19 mostra uma dispersão das sub- categorias de motivação para os sinais que significam ‘azul’, com exceção da subcategoria ‘olho azul’, na região escandinava. 215 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 19 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor azul Fonte: Fischer (2021, p. 37). Cores marrom, laranja, rosa e roxo Foram coletados 36 sinais de 32 línguas para a cor marrom. Esses sinais foram divididos em 14 sinais nativos e 5 empréstimos linguísticos (Gráfico 7a). As subcategorias de motivação identifica- das entre os sinais nativos fazem referência a ‘moer café’, ‘bigode’, ‘chocolate’, ‘henna na mão’ e ‘pele’ (Figura 20). Dentre estes, os sinais relacionados à ação de ‘moer café’ foram os mais frequentes. O Gráfico 7b mostra também que para 17 sinais não foi possível identificar uma motivação. Figura 20 – Subcategorias dos sinais para a cor marrom Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). 216 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Gráfico 7 – Iconicidade lexical da cor marrom Fonte: Fischer (2021, p. 38). Já no mapa-múndi (Figura 21), observa-se que a subcategoria ‘moer café’ se concentra em países europeus vizinhos. Mais estu- dos são necessários para saber se isso é um resultado do contato linguístico. Figura 21 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor marrom Fonte: Fischer (2021, p. 38). A análise da cor laranja contou com 28 línguas, das quais 30 sinais foram coletados e subdivididos em nativos, 15, e emprésti- 217 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA mos linguísticos, 9 (Gráfico 8a). De acordo com a Figura 22, entre os nativos, as subcategorias de motivação identificadas foram: ‘espremer laranja apenas com a mão’, a mais frequente, ‘casca de laranja’, ‘espremer laranja com espremedor’, ‘laranja’ e ‘pegar laranja na laranjeira’ (Gráfico 8b). 6 sinais não apresentam motivação clara e, por isso, foram incluídos na subcategoria ‘dúvida’. Figura 22 – Subcategorias dos sinais para a cor laranja Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 8 – Iconicidade lexical da cor laranja Fonte: Fischer (2021, p. 39). 218 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Pelo mapa-múndi, observa-se que a subcategoria ‘espremer laranja apenas com a mão’ se encontra mais presente em países das Américas (Figura 23). Figura 23 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor laranja Fonte: Fischer (2021, p. 40). Em relação à cor roxa, foram coletados 26 sinais de 25 línguas. De acordo com a Figura 24, esses sinais foram subdivididos em sinais nativos, 4, e empréstimos linguísticos, 15 (Gráfico 9a). Os sinais nativos, por sua vez, foram subdivididos em apenas duas subca- tegorias: ‘olho roxo’, reunindo 4 sinais, e ‘dúvidas’, abrangendo 7 sinais (Gráfico 9b). Figura 24 – Subcategorias dos sinais para a cor roxa Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). 219 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Gráfico 9 – Iconicidade lexical da cor roxa Fonte: Fischer (2021, p. 41). Quanto ao mapa-múndi, os 3 sinais da subcategoria olho roxo estão na região escandinava e o quarto sinal, na Turquia, próximo ao Oriente Médio (Figura 25). Figura 25 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor roxa Fonte: Fischer (2021, p. 41). 220 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A análise dos sinais referentes à cor rosa abrangeu 31 línguas e se baseou em 33 sinais. Esses 33 sinais foram divididos em sinais nativos, 11, e empréstimos linguísticos, 15 (Gráfico 10a). A análise dos sinais nativos resultou na subdivisão destes em quatro sub- categorias: ‘bochecha’, ‘lábio’, ‘flor’ e ‘cor chamativa’ (Figura 26). Dentre estes, 6 sinais remetem à bochecha; 3, ao lábio; 1, à flor e 1 à cor chamativa. 7 sinais não puderam ser classificados, pois não apresentam motivação aparente (Gráfico 10b). Figura 26 – Subcategorias dos sinais para a cor rosa Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 10 – Iconicidade lexical da cor rosa Fonte: Fischer (2021, p. 42). 221 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA No mapa-múndi (Figura 27), os sinais referentes à bochecha se concentram em países vizinhos da Europa. A motivação desses sinais pode advir de contato linguístico. Mais estudos são necessá- rios para confirmação dessa hipótese. Figura 27 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor rosa Fonte: Fischer (2021, p. 43). Cor cinza A análise de sinais referentes à cor cinza abrangeu 36 sinais de 34 línguas. Estes foram categorizados em nativos, 9, e empréstimos linguísticos, 11 (Gráfico 11a). Os sinais nativos foram subdivididos com base na referência a que fazem: ‘céu nublado’, ‘pó’ e ‘pele’ (Fi- gura 28). Dentre tais sinais, predominam os que fazem referência ao céu nublado, 4, o qual é seguido pelas demais subcategorias, ‘pó’, 3 e ‘pele’, 2. Para 16 sinais a motivação não nos pareceu clara (Gráfico 11b). 222 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 28 – Subcategorias dos sinais para a cor cinza Fonte: baseada no site Spread the Sign (2021). Gráfico 11 – Iconicidade lexical da cor cinza Fonte: Fischer (2021, p. 44). Quanto à indicação no mapa-múndi (Figura 29), essas 3 sub- categorias também estão presentes em países vizinhos, sugerindo ter havido contato linguístico entre suas línguas de sinais. Porém, como nos outros casos, aponta-se aqui a necessidade de mais es- tudos para confirmar essa hipótese. 223 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Figura 29 – Mapa linguístico da iconicidade lexical da cor cinza Fonte: Fischer (2021, p. 44). A partir dessas análises, construímos o Gráfico 12, no qual mostramos a incidência de sinais para cores nativos e formados por empréstimo nas línguas da nossamestrado defendida em abril de 2015 que teve por objetivo analisar os critérios adotados pelas políticas públicas no que tange à construção e elaboração do currículo na educação de surdos. Observando se esse instrumento está em consonância com a cultura surda e com a forma de ler e perceber o mundo do sujeito surdo. 23 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA permanência do aluno surdo no espaço educacional não significa garantir a participação concreta deste estudante na escola. Se o currículo de uma instituição não prioriza a língua de sinais como língua de instrução do surdo, não assegura uma compreensão visual dos conteúdos mediados, o surdo não é oficialmente aluno, não pertence ao espaço escolar, apenas está na escola (OLIVEIRA, 2015). Para Candau (2002), a escola arquitetada em conformidade com a igualdade, ordenada como processo de padronização de um ensino e de uma cultura comum a todos, se contrasta com a diversidade. Diversidade compreendida sob o assentimento de identidades di- versas que oportunizam processos pedagógicos distintos os quais devem ser reconhecidos e praticados fundamentando a diversidade como gênese substancial para a edificação da equidade, ou seja, da deferência ao direito do outro de maneira real e legítima. O percurso metodológico de acordo com Bravo (1991) é basilar para o desenvolvimento de um estudo qualitativo, visto que a meto- dologia estabelece os procedimentos do pesquisador como sujeito investigativo. Geralmente, a maneira de vivenciar as interações está relacionada à forma como um fenômeno social é tratado. No contexto educacional a escolha por determinado caminho de pes- quisa necessita ser vinculada às especificidades e objetivos a serem pesquisados como também às perspectivas para o desenvolvimento da investigação. Uma harmonia entre o conjunto de informações e a concretização da pesquisa deve ser construída. Os recortes anali- sados na pesquisa de mestrado (OLIVEIRA, 2015) foram subtraídos dos seguintes dispositivos legais: (i) Declaração de Salamanca; (ii) Artigo 26 da lei 12.796 que altera a Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional; (iii) Política de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusi- va - Documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria Ministerial nº 555, de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria nº 948, de 09 de outubro de 2007; (iv) Inciso C Artigo 24 do 24 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Decreto 6.949 de 25 de agosto de 2009 que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York em 30 de março de 2007. As políticas educacionais analisadas na pesquisa para elabo- ração da dissertação de mestrado, atravessaram em circunstâncias diversas meu percurso profissional na área educacional como tradu- tora e intérprete de língua de sinais, e como professora de surdos. A seleção dos recortes feitos nos dispositivos legais buscou construir um novo olhar sobre o lugar do currículo e sua função nesses dis- positivos numa perspectiva socioantropológica. Buscar a relevância e consistência em uma análise documental, requer leitura árdua dos documentos a fim de serem bem definidos os recortes. A conduta e postura do pesquisador requer intenção e habilidade estudiosa pois, a seleção do material, estudo e apresen- tação do material analisado é um processo ordenado, extenso, com nexo, delicado e dinâmico. Cabe ao investigador associar o ato, a palavra, a situação ao contexto para não se perder o significado. (SANTOS, 2000). Este texto se atentará à análise no recorte feito na Declaração de Salamanca realizada entre os dias 07 e 10 de junho de 1994, em Salamanca, na Espanha, contido na seção II. Linhas de Ação em Nível Nacional Política e Organização onde é preconizado: Políticas educacionais deveriam levar em total consi- deração as diferenças e situações individuais. A impor- tância da língua de sinais como meio de comunicação entre os surdos, por exemplo, deveria ser reconhecida e provisão deveria ser feita no sentido de garantir que todas as pessoas surdas tenham acesso à educação em sua língua nacional de sinais. Devido às necessidades particulares de comunicação dos surdos e das pessoas surdas/cegas, a educação deles pode ser mais adequada- mente provida em escolas especiais ou classes especiais e unidades em escolas regulares (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994). 25 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Este documento foi resultado de uma propensão internacio- nal que estabeleceu a educação inclusiva, da qual, tem sua gênese responsabilizada aos movimentos de direitos humanos que des- pontaram nas décadas de 1960 e 1970. A Declaração de Salamanca, principia de forma concreta a discussão em torno da diversidade quando sugere que todos têm direito à educação. Discorrer sobre políticas públicas educacionais e de educação de surdos reivindica neste texto uma exígua retrospectiva da edu- cação brasileira com o intuito de buscar a reflexão acerca dessas políticas e sua ingerência na educação de surdos e na construção do currículo. Memórias do INES: a educação de surdos e o currículo A educação formal no Brasil colônia foi de responsabilidade da igreja católica, mais precisamente dos jesuítas que fundaram dois colégios, um na Bahia e outro em São Paulo. A educação tinha foco na catequização dos indígenas. O objetivo primeiro era difundir a fé católica. O sistema educacional jesuíta se desenvolveu à medida que ia se expandindo a colonização portuguesa no Brasil. Por duzentos anos, os jesuítas foram os responsáveis pela educação formal no Brasil e a educação na colônia era diferente da educação dada na metrópole. O objetivo era doutrinar o outro, indígena, seguindo os preceitos católicos (ZOTTI, 2004). O marquês de Pombal, com aspirações iluministas contrárias à proposta pedagógica dos jesuítas, e com o apoio da Coroa Por- tuguesa, extrai o direito dos jesuítas de ensinar em Portugal. O objetivo de Pombal era tornar o ensino laico e servindo aos inte- resses da Coroa Portuguesa. Contudo, houve uma lacuna no ensino educacional português em decorrência da falta de uma infraes- trutura adaptada e professores especializados, pois, a instrução 26 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA em Portugal, sempre ficou a cargo dos religiosos supracitados. A alternativa foi estabelecer aulas régias avulsas que tinham por objetivo preencher as lacunas deixadas pelos colégios jesuítas. Entretanto, na colônia, os religiosos continuaram seu trabalho catequético e educacional. A população abastada da colônia, re- alizava os estudos subsequentes na Europa enquanto a maioria, excluída, ficava à margem (AZEVEDO, 1996). Com a chegada da fa- mília real portuguesa ao Brasil em 1808, foram feitos investimentos na educação. Dom João VI criou a Academia Militar e a Academia da Marinha, as Escolas de Medicina e de Direito, a Biblioteca Real e o Jardim Botânico. Todavia, a educação continuava a servir a elite que aqui residia. A educação para a maioria da população continuava proscrita (ROMANELLI, 2001). Segundo Azevedo (1996), após a Independência do Brasil, o Decreto imperial, Primeira Lei Geral de Educação no Brasil, datada do dia 15 de outubro de 1827, estabeleceu a criação de escolas de primeiras letras e a criação de escolas de meninas. De acordo com o Decreto, era necessário para os meninos ler e escrever, fazer as quatro operações matemáticas, noções de geometria, gramática da língua nacional, princípios da moral cristã e da religião católica. Para as meninas, a educação de prendas domésticas. Em 12 de agosto de 1834, o Ato Adicional, abre espaço para uma atenção ao ensino básico. A verba destinada à educaçãoamostra. Como se pode ver, os sinais para a cor vermelha são os que mais se caracterizam como icônicos de maneira universal, enquanto os da cor azul são os que mais se apresentam como formados a partir de emprésti- mos linguísticos. 224 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Gráfico 12 – Incidência de sinais nativos e formados por empréstimos para cores nas línguas da amostra por cor Fonte: Fischer (2021, p. 45). Com base nesses resultados, construímos o Quadro 2, que identifica, para cada língua analisada, quais cores são expressas por meio de sinais nativos ou resultantes de empréstimos linguísticos. O objetivo do quadro foi facilitar a comparação entre essas línguas e a Libras. 225 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Quadro 2 – Incidência de sinais nativos e formados por empréstimos para cores nas línguas da amostra por língua Fonte: Fischer (2021, p. 46). 226 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Dado que há variação regional nos sinais para cores na Libras, para compará-la às línguas listadas no Quadro 2, escolhemos como referência a cidade de Curitiba, onde são utilizados os sinais apre- sentados na Figura 30. Como se pode ver no Quadro 3, na região escolhida, são usados sinais nativos para expressar desde a cor preta até a cor azul, além das cores laranja e rosa. Para as cores marrom, roxa e cinza são empregados sinais resultantes de empréstimo linguístico do português. Figura 30 – Sinais para cores usados na cidade de Curitiba Fonte: Fischer (2021). Quadro 3 – Resultados, acerca da iconicidade lexical com cores na cidade de Curitiba Fonte: Fischer (2021, p. 47). Sendo assim, em comparação às línguas analisadas, percebe- -se que em relação à expressão de cor a Libras usada na cidade de Curitiba não se assemelha tipologicamente às línguas de sinais apresentadas no modelo de Woodward (1989). 227 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Considerações finais O presente trabalho investigou a iconicidade lexical presen- te em sinais que designam cores em diferentes línguas de sinais. Assim como Klima e Bellugi (1979), os resultados reforçam que as línguas de sinais não são universais, como incorretamente algumas pessoas ainda pensam. Como mostramos, mesmo que sinais para uma mesma cor sejam considerados icônicos em diferentes línguas, eles não são idênticos entre si. A coincidência nas formas e na motivação entre línguas de sinais diferentes não pôde ser explorada aqui, mas hipotetizo que ela decorra do contato linguístico entre línguas usadas em regiões geograficamente próximas ou historicamente relacionadas. Con- sidero ainda a existência de outras motivações. Como mostramos em relação à cor vermelha, dos 36 sinais analisados, 27 remetem a essa cor por meio do apontamento aos lábios. Essa coincidência deve ser fruto não necessariamente do contato linguístico, mas do fato de esse mesmo recurso para a referência à cor vermelha estar disponível para surdos, independentemente de sua origem e cultura. Apesar disso, como mostramos, nem todos os sinais aparen- temente icônicos são transparentes, tanto que criamos a categoria ‘dúvidas’ para incluir os sinais cuja motivação não nos pareceu clara. Conforme apontamos, a análise desses casos requer mais informa- ções históricas – origem e/ou transformação do sinal ao longo do tempo –, sociais e culturais, que provavelmente motivaram estes termos sinalizados. Por fim, com os resultados obtidos, observamos também que as cores mais básicas – preto, branco, vermelho – são majoritaria- mente expressas por meio de sinais nativos em oposição a cores menos básicas como roxo e rosa, expressas em sua maioria por sinais resultantes de empréstimos linguísticos. Esse achado reforça 228 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA a generalização feita por Woodward (1989). Além disso, observa- mos que a Libras usada na cidade de Curitiba, especificamente em relação aos termos para cores, não se assemelha tipologicamente às línguas de sinais apresentadas no modelo de Woodward (1989). Referências ADAM, R. Language contact and borrowing. In: PFAU, R.; STEINBACH, M.; WOLL, B. (orgs.). 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Se assumirmos que os significados – tal como preconiza a pragmática, a sociolinguís- tica e as correntes interacionistas dos estudos da linguagem – não são exclusivos ao sistema linguístico, mas também constituídos nas estruturas culturais, nas interações sociais, no aqui e agora de cada ato de fala, assumimos igualmente a descomunal diversidade linguística em território nacional. São constitutivos dessa diversidade os contrastes dialetais e a confluência de línguas, sejam elas nacionais ou de grupos de imi- grantes. Em alguns contextos, o contato entre línguas e variedades é ainda mais evidente, tal como é o caso das regiões de fronteira, 230 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA contexto contemplado neste capítulo. Roraima forma a tríplice fronteira: Brasil, Venezuela e Guiana, e sua população é formada pela diversidade linguística e sociocultural de migrantes brasilei- ros, de nordestinos à sulistas, pelas culturas e línguas indígenas, assim como pelas culturas e línguas de imigrantes, especialmente venezuelanos. Com tantas diferenças fixando moradia em Roraima, as línguas orais (além do português, mais de uma dezena de línguas indígenas e as línguas de imigrantes, como espanhol e inglês, por exemplo) e sinalizadas são constitutivas do complexo contexto sociolinguístico do estado. As fronteiras presentes neste contexto transcendem as marcações territoriais, pois são fronteiraspública não atendia às reais ne- cessidades educacionais das províncias. Como resultado, as escolas públicas não ofereciam a mesma qualidade de ensino primário que as poucas escolas particulares sediadas na Corte. No ano de 1837, é criado na Corte, o Colégio Pedro II, instituição de referência dos estudos secundários, dividido em oito séries, abordando os estudos literários, história, ciência e línguas. Em meio a essa discrepância educacional, para uns o melhor, para outros as sobras, em 1855, Ernest Huet, professor surdo francês, ex-aluno do Instituto para Surdos de Paris, vem ao Brasil a convite 27 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA de D. Pedro II e apresenta ao imperador a proposta de criação de uma instituição de ensino para surdos. “Seria desejável que se encontrasse um campo adjacente ao estabelecimento, e bastante vasto, para poder encer- rar todas as espécies de culturas. Eu, não me associei com M. De Vassimon por falta de meios, e porque eu não tinha o local apropriado para as minhas visões. Espero a sanção de nossa obra pelo estado, propondo-me a pedir ao Governo a concessão de um terreno suficiente, de fá- cil cultura com respeito à idade e a fraqueza das crianças, no qual será erigido um estabelecimento monumental para a glória nacional, como o reino glorioso de Vossa Majestade” (ROCHA, 2009, p. 28). Segundo o documento, os gastos com a instituição seriam de responsabilidade do império e a instituição seria particular com con- cessão de bolsas e subvenção da coroa. Para Huet, uma instituição particular com recursos oriundos do governo era mais eficaz. Para ingressar na instituição, o aluno teria que ter entre sete e dezesseis anos e estar vacinado. No programa de ensino proposto por Huet, o conteúdo ministrado continha no currículo as seguintes disci- plinas: (i) Doutrina Cristã; (ii) Língua Portuguesa; (iii) História do Brasil; (iv) Geografia; (v) Escrituração Mercantil; (vi) Aritmética; (vii) Linguagem Articulada (ROCHA, 2009). Apesar de Huet comungar das ideias do abade L’Epée que foi o percussor na educação de surdos franceses em que a metodologia de ensino priorizava a língua de sinais como língua de instrução, o primeiro currículo do Instituto contemplava a disciplina de Lingua- gem Articulada que seria o treinamento da fala para os alunos que tinham facilidade para desenvolvê-la. A supremacia da língua oral sobre a língua de sinais no Brasil data desde a proposta apresentada por Huet à D. Pedro II. 28 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Em abril do mesmo ano, Huet solicita outro espaço para a ins- tituição, pois, a escola de surdos se encontrava nas dependências do colégio de M. Vassimon e tinha que se submeter às regras de horário desta instituição. Nessa solicitação, Huet recorda que, no ano de 1855, ele havia solicitado à Câmara dos Deputados a criação do Instituto Imperial dos Surdos-Mudos. Tendo o aval do imperador para a criação do Instituto, Huet solicita a cessão de trinta bolsas. Uma comissão foi formada a pedido do imperador D. Pedro II para acompanhar as atividades do instituto. No dia 03 de junho de 1856, os membros da comissão, o marquês de Olinda, o marquês de Monte Alegre, o conselheiro de Estado José da Silva, o padre Joaquim Fer- nandes Pinheiro e o marquês de Abrantes determinam a efetivação do Instituto de Surdos-Mudos. Um ano e meio após a efetivação do Instituto, a Lei 939 de 26 de setembro determina a subvenção do império para o Instituto (ROCHA, 2009). Entraves econômicos e disciplinares no Instituto, no ano de 1859, ocasionaram divergências entre o marquês de Abrantes e Huet (BRASIL, 1898). O professor francês após um curto período, solicita exoneração do cargo de presidente da comissão e deixa a direção do Instituto no dia 13 de dezembro de 1861. Há registros de que após a saída de Huet da direção do Instituto, ele foi para o México fundar uma escola de surdos (ROCHA, 2009). Segundo a autora, com a saída de Huet, o Instituto ficou sob a guarda do frei João do Monte do Carmo. No ano de 1862, Dr. Manoel de Magalhães chega ao Brasil e assume a direção do Instituto. Fernando Torres, ministro do Império no ano de 1868, solicita ao chefe da Seção da Secretaria de Estado, Dr. Tobias Barreto um relatório das atividades do Instituto. O relatório diagnosticou que o Instituto havia se transformado em asilo para surdos. Não havia ensino. Manoel de Magalhães é afasta- do da direção e Dr. Tobias assume o comando do Instituto e fica no cargo até 1896, ano de sua morte. Dr. Tobias, efetiva, durante sua gestão, o ensino profissionalizante no currículo do instituto. Para 29 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Dr. Tobias, não era objetivo do Instituto formar homens letrados. Uma linguagem que possibilitasse ao surdo se relacionar na socie- dade deveria ser o objetivo do Instituto. A comunicação, segundo o diretor do Instituto, permitia ao surdo sair do isolamento. Para Dr. Tobias, a linguagem a ser ensinada poderia ser, Escripta e vocal artificial. A preferência entre estas duas linguagens é o ponto que se debate as duas escolas da Europa, a allemã e a francesa. [...] basta-me dizer que a linguagem escripta é fácil tanto para o surdo-mudo congênito, como ao acidental [...] (ROCHA, 2009, p.41). Ao se referir às duas escolas: francesa e alemã, Dr. Tobias evidencia as diferenças de ensino entre ambas. A escola francesa defendia que o ensino ao surdo deveria ser feito na língua de sinais e, essa língua ensinada aos surdos. A escola alemã, por sua vez, defendia o ensino através da língua oral, da fala. Ressalta-se aqui que, a Libras – Língua Brasileira de Sinais – é de origem francesa. Huet ensinou a língua de sinais francesa aos surdos brasileiros e o aluno do Instituto, Flausino José da Costa Gama, registrou através de iconografia, os sinais franceses. Dr. Tobias, via nos sinais a forma predileta de comunicação entre os alunos, pois, através dela, os surdos manifestavam seus sentimentos (ROCHA, 2009). No ano de 1880, em um congresso de educação de surdos realizado na cidade de Milão, Itália, foi recomendada uma políti- ca educacional de ensino que priorizasse o ensino da fala oral na educação de surdos em detrimento da língua de sinais: o oralismo. Essa metodologia educacional surgiu na Alemanha em meados do século XVIII e defendia a reabilitação auditiva do surdo. A disci- plina de Linguagem Articulada passa a ser obrigatória no currículo da educação de surdos e, em vários institutos de surdos na Europa, Canadá e Japão. No Brasil, Dr. Tobias não via a necessidade de fazer o surdo falar, mas sim ensiná-lo uma profissão. Com o falecimento 30 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA do Dr. Tobias em 1896, o professor Joaquim Borges Carneiro assu- me interinamente a direção do Instituto e volta com a cadeira de Linguagem Articulada no ensino dos surdos. Em fevereiro de 1897, o Dr. João Paulo de Carvalho toma posse como diretor. A ênfase do ensino tem foco no desenvolvimento da fala. Os demais conteúdos ficam marginais (ROCHA, 2009) No Instituto, a língua de sinais estava viva nas conversas entre os estudantes surdos e alguns professores. O Decreto 9.198/1911, em seu artigo de número 09, instituía no currículo, o método oral puro no ensino das disciplinas. Após três anos de implantação desse método, os resultados não eram satisfatórios. Custódio Martins, diretor do Instituto, solicita ao governo a possibilidade de adap- tações no currículo de ensino aos surdos. No ano de 1925, com o Decreto 16.782, tornam o Instituto de Surdos-Mudos e o Instituto Benjamim Constant (instituição para pessoas cegas) à classe de estabelecimentos profissionalizantes com cursos de sapataria e encadernação. (ROCHA, 2009). As gestões seguintes no Instituto continuaram a priorizara fala na educação de surdos. No entanto, a língua de sinais era parte dos estudantes surdos que ali estudavam. Na gestão de Ana Rímoli de Faria Dória, primeira mulher à frente do Instituto, a fala, a leitura labial e o treinamento auditivo, eram estratégias consideradas linhas da metodologia de ensino oralista e, ganham força no currículo. Em decorrência disso, Ana Rímoli inicia um trabalho para mudar o nome do Instituto, uma vez que o surdo não era mudo, ele se expressava oralmente. Em junho de 1957, a partir da Lei 3.198, assinada por Clóvis Salgado, ministro da educação, e por Juscelino Kubitscheck, Presidente da República, o Instituto passou a ser Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES (ROCHA, 2009). As memórias do INES nos apresentam um currículo com o pro- pósito de clinicar os surdos. Torná-los o mais semelhante possível 31 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA às pessoas que ouviam e falavam. A construção do conhecimento não era o objetivo. A normalização, sim. O INES buscou ao longo de sua trajetória se adequar a políticas educacionais que sempre des- consideraram as especificidades surdas. Nesse processo, se deparou com várias situações de conflito. Discordâncias que construíram a história de uma instituição referência para a comunidade surda brasileira que lutou e luta por uma educação que eleja a Libras como caminho da produção do conhecimento e ainda, hoje, experiencia desentendimentos internos em relação a práticas pedagógicas que desconsideram a Libras e a cultura dos surdos. A Declaração de Salamanca foi um recurso legal que contribuiu com a luta da co- munidade surda por uma educação que considerasse sua língua e cultura. O INES, contudo, levou décadas para autenticar a diferença cultural e linguística dos surdos. A Declaração de Salamanca e o Currículo na Educação de Surdos O documento desenvolvido na Conferência Mundial sobre Educação Especial, na cidade de Salamanca, na Espanha, no ano de 1994, tem sustentação na Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada na cidade de Jomtiem, Tailândia, em 1990. O propósito da Declaração é o de viabilizar diretivas e orientações acerca de políticas e procedimentos educacionais. Em Minas Gerais, a presença de alunos surdos em escolas públicas estaduais se deu no ano de 1996, dois anos após a conferência na Espanha, e fui a profissional contratada para ser a intérprete de língua de sinais dos alunos surdos, experienciando, assim, a prática curricular com esses estudantes. O trecho da Declaração de Salamanca contido na seção II. Li- nhas de Ação em Nível Nacional Política e Organização, menciona sobre “classes especiais” e/ou “escolas especiais”. Essas expressões surgiram a partir da preocupação com alunos que frequentavam a 32 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA escola, mas não eram favorecidos pelos ensinamentos. Alfred Binet (1857-1911) e Theodore Simon (1872-1961) realizaram pesquisas sobre a aferição da inteligência em crianças francesas medindo o desenvolvimento do intelecto conforme a idade cognitiva, resultan- do numa ideia de separação entre crianças normais e anormais de acordo com as capacidades intelectivas. (KASSAR, 2011). O exercício de reconhecimento de estudantes normais e anormais era pedido ao docente com o objetivo de compor salas de aulas uniformes. Segundo Rocha (1979), dois estudos capitais para a educação dos anormais foram publicados no ano de 1910 no Brasil. A obra de Clemente Quaglio intitulada Educação da Inteligência Anormal no Brasil, e o trabalho de Basílio Guimarães denominado Tratamento e educação das crianças anormais de inteligência. Para Basílio de Magalhães era propício a interação entre as crianças independen- te de suas diferenças cognitivas devido a aspectos econômicos e emotivos (MAGALHÃES, [s.d.] apud KASSAR, 2011). Mesmo com documentos comprovando a presença de matrículas de estudantes com deficiências em escolas públicas e particulares privadas já no final do século XIX, é aceitável afirmar que no Brasil, a estruturação de espaços educacionais especializados, e a organização de institui- ções especializadas foi o caminho pedagógico ratificado para este público (KASSAR, 2011). A educação especial foi formada como uma área de atividade singular, frequentemente destituída de diálogo com a educação regular. A fragmentação foi efetivada no aparecimento de um con- junto coexistente de educação, pois o acolhimento de estudantes com deficiência transcorreu de maneira decisiva em espaços dis- tintos dos outros estudantes. Assim, a Declaração de Salamanca se apresenta, pretensamente, como uma política para todos, mas, desprovida de análises das situações educacionais excludentes. Ao orientar que, “[...] Devido às necessidades particulares de comunica- ção dos surdos e das pessoas surdas/cegas, a educação deles pode ser 33 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA mais adequadamente provida em escolas especiais ou classes especiais e unidades em escolas regulares” (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, grifo nosso). A possibilidade aparentemente apresentada na Declaração, é a compreensão das características linguísticas e culturais dos surdos e a indicação de escolas especiais ou salas especiais e unidades re- gulares. Neste trecho nos deparamos com a concepção da Educação Especial como linha de pensamento clínico em relação aos surdos e surdo-cegos. Para Ladd e Lane (2013), os surdos são contemplados pelo modelo social apresentado nas políticas educacionais. Porém, os surdos entendem que estas políticas não consideram a verdadeira condição de ser surdo e de encontrar-se na escola como surdo. As políticas educacionais devem abarcar aquilo que emerge das ex- periências dos surdos e não os categorizá-los (OLIVEIRA, 2020). A orientação de que a educação de surdos e surdocegos também pode ser realizada em escolas regulares tem a finalidade de manifestar a inclusão educacional para este público no qual, no mesmo Do- cumento, se reconhece que as diferenças e situações individuais deveriam ser consideradas. Se há uma necessidade particular de comunicação entre os surdos, isto quer dizer, a forma de aprender e apreender do surdo se dá pelo viés visual, a língua de sinais é o meio de aprendizagem que indica as teias formadoras dos sujeitos surdos. As experiências visuais dos surdos evidenciam o lugar do surdo no mundo. A língua é excepcionalmente pontual no encon- tro e reconhecimento do sujeito, porque pela língua situações são simbolizadas e expostas (OLIVEIRA, 2015). [...] na medida em que os sujeitos ressignificam seus lugares, eles têm acesso aos critérios organizadores das diferenças de lugares [...] não discriminar lugares implica negar a pertinência do sujeito ao simbólico, onde um se diferencia do outro em função do lugar que cada um ocupa nessa relação. Neste caso, a proposta da 34 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA declaração de Salamanca se apresenta para amortecer e sufocar conflitos e/ou revoltas oriundas do processo histórico que constituiu simbolicamente a diferença de lugares ocupados (ANDREOZZI, 2006, p.59-60). Uma política educacional necessita assegurar e celebrar o lugar da diferença. Tratar sobre a educação de surdos numa perspectiva de espaço que a língua de sinais ocupa é dialogar com relações políticas estabelecidas que procuram normalizar os surdos, sua cultura e identidades. É insólito pensar num espaço educacional em que uma língua não se encontre instruindo estudantes e docentes em decorrência da prática da linguagem. A demanda é política. A educação de surdos requer uma escola na qual a língua e o cur- rículo proporcionem que os surdos se tornem sujeitos políticos. (OLIVEIRA, 2015). A Declaração de Salamanca é o primeiro documento edu- cacional que versa sobreos surdos e surdocegos reconhecendo a diversidade linguística e cultural deste coletivo. Ainda assim, suas orientações a respeito do currículo apresentam afirmações que podem ser contestadas. Ao recomendar que, O currículo deveria ser adaptado às necessidades das crianças, e não vice-versa. Escolas deveriam, portanto, prover oportunidades curriculares que sejam apropria- das à criança com habilidades e interesses diferentes. Crianças com necessidades especiais deveriam receber apoio instrucional adicional no contexto do currículo regular, e não de um currículo diferente. O princípio regulador deveria ser o de providenciar a mesma edu- cação a todas as crianças, e também prover assistência adicional e apoio às crianças que assim o requeiram (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994). 35 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Currículo não se adapta. Este instrumento pedagógico, social e político, segundo Freire (1980), deve ser organizado coletivamente e de maneira democrática, assegurando deste modo a atuação e a reflexão dos sujeitos que compõem o processo educacional. Se o currículo necessariamente precisa ser atravessado por métodos e conteúdo, da mesma forma deve ser assegurada a possibilidade de participação para proposições, reflexões e modificações no currí- culo a partir da prática reflexiva e crítica de quem faz o processo educacional diário, permanentemente respeitando o lugar do outro. Desse modo, para o conjunto de conhecimento ser assimilado pelos alunos é necessário envolvê-los (GIOVEDI, 2006). De que jeito uma instituição educacional adapta o currículo? Provê oportunidades curriculares adequadas aos estudantes com habilidades diversas num currículo comum a todos? Se o espaço educacional precisa se ajustar ao estudante, o caminho não é escolas especiais, salas especiais, escolas regulares, currículos adaptados. Não é retirar o estudante de um lugar e colocar em outro. A ausência do envolvimento dos estudantes na construção dos seus lugares ne- cessita contemplar a concepção de pertencimento, de fazer parte. Só nos sentimos pertencentes a um determinado espaço se este espaço nos representa, se é significativo estar nele (ANDREOZZI, 2006). O currículo para dizer da língua e da cultura surda não pode ser uma “colagem” de um currículo elaborado tendo como modelo uma metodologia que preza o oral e o auditivo. O importante não é saber qual conhecimento será mediado e sim saber para quem é o porquê de determinado conhecimento ser mediado. O saber, o conhecimento não são dados; são construídos de forma crítica (APPLE, 2006). Construir conceitos acerca do currículo na educação de surdos, desconsiderando a especificidade linguística e cultural surdas, seu olhar sobre si mesmo, sobre a educação, é contribuir para que adaptações perpetuem no currículo das escolas, e que a exclusão se torne algo comum, inerente à educação. A Declaração de 36 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Salamanca carrega no seu cerne uma exclusão velada da diferença apesar de reconhecê-la. O currículo da educação de surdos requer uma organização visual, compreensão da história cultural dos surdos como esfera de saber, com possibilidades ímpares de produção de conhecimento, nas manifestações sociais, lutas e políticas. As narrativas surdas apresentam-se como caminho no qual a língua de sinais, a cultura e as normas dos surdos são inscritas pelo próprio sujeito. A grade curricular deve construir vias pedagógicas que viabilizem a conexão de conteúdos e ações embebidas na língua de instrução dos surdos, a língua de sinais (OLIVEIRA, 2015). A Declaração de Salamanca, percussora da Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva demonstra uma hipo- crisia pedagógica e política ao acobertar orientações educacionais estabelecidas pelo mercado que na realidade não está disposto a mudar. A educação de surdos é campo fecundo para várias ações educacionais propagando novas estratégias educacionais das quais originam excluídos e, isto ocorre devido à “aplicação” de práticas salvadoras na escola e na sociedade, retratando a exaltação da di- ferença como algo exótico. Como amostra podemos citar a visibili- dade recente que a Libras adquiriu no atual governo federal (2022). Visibilidade entendida na perspectiva da excentricidade e não na compreensão de política pública e do direito linguístico dos surdos. Ações educacionais e sociais devem ser construídas sob a égide de ações afirmativas e não de exposição meramente tokenista.2 É basilar que o currículo na educação de surdos seja construído sob o ponto de vista de uma pedagogia visual discorrendo a forma e estrutura da língua de sinas, sobre a história cultural do povo surdo, assegurando dessa forma o reconhecimento da língua de sinais como língua de aprendizagem. Ao exprimir um pensamento na língua de 2 Ação que objetiva a inclusão simbólica de minorias, com a finalidade de produzir a represen- tação de que esses coletivos estão sendo apresentados de maneira equitativa. 37 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA sinais, o discurso nesta língua, se utiliza de uma perspectiva visual que não pode ser na mesma sincronia que uma língua oral auditiva e vice-versa (QUADROS, 2003). As políticas asseguram-se como táticas com foco no direito para grupos específicos marcados pela diferença. A posição des- tes grupos é compreendida como desprotegida socialmente, por causa de uma história marcada pela exclusão. O entendimento das políticas inclusivas como caminho apontado na luta por direitos civis, sociais e políticos, tem como finalidade enfrentar qualquer forma de preconceito e discriminação que impossibilite o ingresso à igualdade de possibilidades e condições na busca pela atenuação da desigualdade social (MOREIRA; SILVA, 2014). Os Movimentos Surdos têm lutado histórica e culturalmente por uma educação que priorize a língua de sinais como língua de ensinamento e concomitantemente a isso, lutam pela aprendizagem escolar sem reduzir a língua de sinais a um recurso de acessibilidade na construção do conhecimento historicamente inscrito na língua portuguesa. É essencial que haja o conhecimento político do ser surdo como marca cultural, reivindicado pelo direito linguístico de aprender e apreender na língua de sinais. A lei 14.191/2021 que incorpora a educação bilíngue de surdos como modalidade regular de ensino é uma conquista do povo surdo e surdocego brasileiro idealizada desde 1999 quando da realização do V Congresso Latino- -Americano de Educação Bilíngue para surdos em Porto Alegre, no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS nos dias 20 a 24 de abril de 1999. O movimento de Surdos elaborou um documento que dissertava sobre “A educação que nós Surdos queremos”. A partir desta data, o Movimento Surdo deslocou suas ações para a educação bilíngue de surdos. Educação que abarca a visualidade surda e as narrativas surdas. O currículo deve dizer do seu povo, de quem vai se beneficiar dos conteúdos organizados neste mecanismo pedagógico. 38 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Considerações finais As memórias educacionais do INES reforçam o pensamento clínico retratado na Declaração de Salamanca quando o currículo incorpora o treino de fala e a política educacional concebe uma educação para todos desconsiderando a história dos que são con- siderados “todos”, que é diferente. O termo “todos” não abraça a diversidade, mas sim, a desconsidera. Um currículo concebido na diferença compreende que na educação de surdos o papel e o lugar das línguas envolvidas no processo pedagógico decorrem elegendo a língua de sinais como meio instrucional de aprendizagem, o por- tuguês escrito no prisma de segunda língua, e os demais conteúdos mediados na língua de sinais e pela língua de sinais.O alicerce da educação de surdos é a visualidade, é a língua de sinais. Aprendemos com o que está ao nosso redor, com os nossos pares. A escola é o espaço farto para promover transformações sociais políticas e culturais. A produção de conhecimento que acontece na sala de aula requer um estudo acurado e labiríntico. Sem tais estu- dos, corre-se o risco de perseverar a ascensão de modelos únicos de currículos que ignorem a diversidade. Os anseios de envolvimento e participação democrática, direitos civis e, questões sociais, estão enlaçadas no espaço escolar. (LOUTZENHEISER; MOORE, 2011). A escola deve atentar para situações em que a relação social e cultural garanta o acesso à língua de sinais, pois o processo educa- cional se dá mediante interação linguística. Quando a criança chega na escola sem uma língua sistematizada, é essencial que o trabalho seja voltado para o processo de aquisição de linguagem tendo como interlocução a língua de sinais. Com a língua e, por meio dela, as relações sociais fundam os comportamentos de como ser e agir, isto é, a constituição do sujeito. 39 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA Quando o sujeito surdo é levado a conviver apenas com uma comunidade ouvinte, sem contato com outros surdos, sua surdez tende a ser ocultada e depreciada. O estigma de deficiente agrava-se a cada dificuldade que essa pessoa irá encontrar para se igualar com o ouvinte. É importante que o surdo se mantenha integrado em sua comunidade, se relacione com seus pares, sem se isolar da comunidade majoritária. O objetivo dessa interação é a constituição da identidade surda, de se aceitar como uma pessoa normal, com potencialidades e limitações, apenas surda. Para que o surdo possa reconhecer sua identidade surda é importante que ele estabeleça o contato com a comunidade surda, para que realize sua identificação com a cultura, os costumes, a língua e, principalmente, a diferença de sua condição. Por inter- médio das relações sociais, o sujeito tem possibilidade de acepção e representação de si próprio e do mundo, definindo suas características e seu comportamento diante dessas vivências sociais. De acordo com Souza (1998), a partir do momento em que os surdos passaram a se reunir em escolas e associações e se constituíram em grupo por meio de uma língua, passaram a ter a possibilidade de refletir sobre um universo de discursos sobre eles próprios, e com isso conquistaram um espaço favorável para o desenvolvimento ideológico da própria identidade (DIZEU; CAPORALI, 2005, p. 593). A interação social e cultural, o estar com o outro igual é fundamental para a constituição da identidade surda. O contato surdo-surdo, na coletividade, para a construção das regras e prin- cípios surdos, e os modelos surdos, são referência para as crianças surdas. A criança surda edificará sua realidade social ao descobrir a si mesma através da comunicação, por meio das relações com o outro, ela se percebe e se descobre com o outro, seu par, firmando assim, a diferença entre as pessoas inseridas em seu espaço. 40 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: LINGUÍStIcA ApLIcADA, EDUcAção E DEScRIção LINGUÍStIcA A língua de sinais é uma vitória ascendida no direito linguís- tico para a educação de surdos e persevera como bandeira de luta. Paradoxalmente, as políticas públicas educacionais repetidamente mantêm os surdos na visão clínica da surdez e continuam com o discurso arraigado no pressuposto da deficiência e negando a língua de sinais como meio e fim das interações sociais, políticas, culturais e científicas. Quando o currículo não incorpora as minorias culturais e busca silenciar essas minorias, adquire uma estratégia camuflada de exclusão. As políticas educacionais devem reconhecer e garantir que na educação de surdos a constituição e produção do sujeito surdo devem ter o seu olhar, o seu modo de ser, ver e compreender o mundo. As experiências visuais, a língua, as histórias culturais do povo surdo devem compor o currículo reconhecendo a diversidade como ganho, como um caminho propício ao aprendizado e que assegure ao outro a construção do conhecimento tendo por base uma língua e uma cultura que lhe permita expressar o que sente, o que vê e o que deseja. Referências ANDREOZZI, M. L. Educação Inclusiva: fracasso escolar da educação na modernidade. Educação e Subjetividade, ano 1, n. 2, p. 43-75, 1º sem. 2006 APPLE, M. W. Ideologia e currículo. Tradução de Vinícius Figueira. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. Rio de Janeiro/Brasília: UFRJ/UNB, 1996. 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