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AULA 5 NOVAS PEDAGOGIAS MUSICAIS Profª Dayane Battisti 2 CONTEXTUALIZANDO Seguindo a linha de experimentos sonoros e improvisação, a compositora e educadora alemã Gertrud Meyer-Denkmann apresentou uma proposta com o objetivo de ampliar a capacidade de percepção e sensibilidade artística dos alunos. Seu livro Experiments in sound: new directions in musical education for young children foi traduzido para o inglês por Elizabeth e John Paynter, em uma adaptação para as escolas inglesas. Assim como Meyer-Denkmann, o compositor e educador John Paynter também propunha e defendia um fazer musical criativo, com ouvidos abertos para a música nova e as novas possibilidades sonoras, além da integração da música com outras áreas artísticas. Nos temas 1 e 3 desta aula, abordaremos as ideias e propostas pedagógicas de cada um desses autores, e, no Tema 5, abordaremos a relação entre suas ideias e outros educadores da segunda geração. Nos temas 2 e 4 traremos experimentos inspirados nas ideias desses educadores para aplicação em sala de aula. TEMA 1 – EDUCAÇÃO QUE NÃO SUBESTIMA O ENTENDIMENTO DAS CRIANÇAS 1.1 Instrumentista, compositora e educadora musical alemã Gertrud Meyer-Denkmann (1918-2014) viveu em Oldenburg, na Alemanha, e durante os seus 96 anos de vida desenvolveu trabalhos como compositora, pianista, musicóloga e educadora musical. Iniciou seus estudos de piano aos 7 anos de idade, e aos 15, concluiu o curso de órgão. Contrariando a vontade de seu pai, foi a Bremen para estudar música no Conservatório, concluindo sua formação superior na década de 1940. Sua formação a habilitou a atuar como organista, regente de coro e pedagoga musical. Além disso, atuou como pianista (Souza, 2012). Conviveu de perto com renomados compositores, fazendo música, experimentos musicais e discutindo. Entre eles, John Cage, Morton Feldman, Mauricio Kagel, David Tudor, Karlheinz Stockhausen e outros compositores responsáveis por moldar a estética da nova música nos anos 1960 e 1970. Essas amizades e a convivência modificaram sua atitude perante a vida, sua forma de 3 pensar e sua música, além de influenciar também suas atividades de educação musical (Meyer, 2014). Gertrud Meyer-Denkmann ministrou cursos em diversos países, como Holanda, Suíça, Suécia, Grécia, Inglaterra, Portugal, Índia e Estados Unidos. Na Alemanha, deu aula em conservatórios e universidades em Düsseldorf, Colônia, Bremen e Oldenburg. No Brasil, as poucas menções ao seu trabalho aparecem em publicações de Jusamara V. Souza – professora do Departamento de Música da UFRGS que realizou seu mestrado e doutorado em Bremen e teve oportunidade de conhecer Meyer-Denkmann pessoalmente e assistir aos seus concertos –, ou em publicações que citam Souza como referência, por ser a única fonte em português a respeito dessa pedagogia (Schicke, 1997; Souza, 2012). 1.2 Obra pedagógica fundamental de Meyer-Denkmann Meyer-Denkmann começou a dar aulas particulares muito cedo, e sempre se interessou pela didática da música. Ela ficava incomodada, porém, com a forma com que os livros didáticos se referiam às crianças, como se elas fossem bobas e incapazes de compreender conceitos mais complexos, subestimando a capacidade de entendimento delas. Em função disso, passou a desenvolver sua própria forma de trabalhar, utilizando uma abordagem experimental e interdisciplinar. Publicou seu primeiro livro em 1970 (Experiments in sound: new directions in musical education for young children), depois de ter buscado por quatro anos uma editora disposta a lhe dar uma oportunidade. Por não seguir as normas convencionadas pela sociedade e apresentar ideias à frente de seu tempo, era considerada uma pensadora transversal (Schicke, 1997). Saiba mais A Universidade de Oldenburg mantém um website com informações biográficas, textos, publicações, fotos e diversos materiais relacionados a Gertrud Meyer-Denkmann. O site está em alemão, mas é possível habilitar a ferramenta de tradução do navegador (veja as configurações avançadas do Google Chrome) para o português e navegar facilmente pelas abas da página. Disponível em: . Em 1977, esse mesmo livro (considerado como sua obra fundamental) foi traduzido e adaptado para as escolas inglesas por Elizabeth e John Paynter (Souza, 2012). O pressuposto presente no livro é que as crianças anseiam por se http://www.gmd.uni-oldenburg.de/index.html 4 expressar livre e espontaneamente, por meio de sons e ruídos. O que acontece, muitas vezes, com as severas restrições impostas em sala de aula – onde as crianças devem apenas seguir às regras ditadas pelo professor, sem questionar –, é que esse tipo de ensino frequentemente acaba levando à uma falta de imaginação e compreensão interna, o que dificulta a educação musical em uma fase posterior (Standford, 1978). Nessa obra, Meyer-Denkmann argumenta que as crianças pequenas aprendem por meio da experimentação e que essas experiências manipulativas proporcionam o encontro com as possibilidades do som. Dessa forma, elas ampliam seus horizontes sonoros, desenvolvendo uma consciência musical que permite apreciar tanto a música contemporânea quanto a música de outros períodos (Standford, 1978). 1.3 Princípios pedagógicos Sua concepção pedagógico-musical é apoiada nas novas teorias do desenvolvimento e da psicologia infantil de seu tempo, e tem por objetivos: • Intensificar a capacidade de percepção e sensibilidade artística; • Promover a autorrealização no campo das relações sociais e individuais; • Desenvolver a capacidade criadora e o pensamento crítico-produtivo; • Preparar para uma diferenciação crítica e consciente do repertorio musical (Meyer-Denkmann, 1970, citada por Souza, 1991, p. 59). Walker (1984b) apresenta o seguinte trecho, extraído do capítulo introdutório do livro de Meyer-Denkmann, como um forte argumento em defesa do ensino de música experimental nas escolas: “Muita ênfase em cantar e em jogos musicais, pode impedir o aprendizado da criança. Oferecer apenas atividades com o rótulo ‘adequado para crianças’ subestima suas aptidões” (Meyer-Denkmann, 1977, citada por Walker, 1984b, p. 77). Segundo a compositora, é muito mais provável que a consciência musical das crianças seja desenvolvida se, em vez de ouvir música educacional de baixa qualidade nas aulas de música, elas possam ser encorajadas a criar sua própria música, guiadas pelo professor nos princípios musicais, aprendendo auditivamente e por meio de notação musical (Walker, 1984b). Ao deixar que as crianças produzam suas músicas, inventem novos instrumentos e novos jeitos de lidar com instrumentos tradicionais, Gertrud Meyer-Denkmann desenvolve uma concepção de educação musical, focada em processos musicais em grupo e processos 5 “libertadores” de experimentação sonora que se apresenta com um extraordinário potencial metodológico criativo para se trabalhar na aula de música (Souza, 2013, p. 197). Podemos perceber que a autora prefere utilizar os conceitos de ações experimentais ou experimentos sonoros em vez do conceito de improvisação, que poderia trazer uma conotação mais de produto do que de processo. Ainda assim, sua concepção desenvolve habilidades que são essenciais para a improvisação (Souza, 2012). A variedade de possibilidades de expressar sons e falas, consoantes e vogais, ruídos, sons mistos e tons introduzidos com o mesmo peso, corresponde não apenas à vivência natural e à necessidade de expressão espontânea de uma criança, mas também conduz, se introduzida com sentido, a uma maior diferenciação sonora. Além disso, esse ampliado campo da audição e expressão possibilita, desde o início, o contato com um novo material sonoro da música contemporânea (Meyer-Denkmann, 1970, citada por Souza, 2012, p. 231-232). Os procedimentos libertadoresde experimentação sonora incluem desde gritos, barulhos, ruídos, livres movimentos até mesmo a destruição de materiais. A autora defende que “essas ações experimentais, realizadas precocemente, contribuiriam não apenas para a ampliação do campo da audição, mas também ampliariam a área vocal e desenvolveriam, com isso, a fantasia sonora produtiva dos alunos” (Souza, 2012, p. 233). Vídeo No vídeo disponível em , é possível ver Meyer- Denkmann em ação, executando uma peça experimental com sons eletrônicos ao vivo em um piano de cauda. Nessa abordagem didática abrangente que propõe a ausência de limitações no fazer musical, a música deve ser vivenciada em todos os seus aspectos, sem receio de confrontar as crianças com música complexa. Simplificar demais os conteúdos para que sejam apropriados para crianças significa subestimar sua capacidade de absorção e aprendizagem. Isso não significa que uma aula com crianças pequenas não requeira uma necessária elementarização, mas isso pode ser feito sem perder de vista uma formação musical objetiva. Para Meyer-Denkmann, o elementar é “um princípio de estrutura básico, que também é, ao mesmo tempo, fundamental e complexo” (Meyer- Denkmann, 1970, citada por Souza, 2012, p. 232). Uma questão fundamental no https://www.youtube.com/watch?v=rb5rCY0RRck 6 nível elementar diz respeito à introdução da notação musical (Meyer-Denkmann, 1970, citada por Souza, 2012, p. 232). “A introdução a notação musical é, dentro de seu modelo, um aspecto muito importante. Ela utiliza da pré-notação, onde as crianças desenham sinais e símbolos inventados por elas mesmas. Aos poucos ela introduz a notação absoluta de altura e duração” (Souza, 1991, p. 59). É importante reforçar que as ideias de Meyer-Denkmann estavam alinhadas com os avanços das ciências afins, como a psicologia e a estética do período, tanto na concepção de educação musical com crianças pequenas quanto no que dizia respeito aos movimentos sociopolíticos e econômico que buscavam fomentar a educação pré-escolar como uma solução para qualificar a educação oferecida nas escolas (Souza, 2012). TEMA 2 – AÇÕES SONORAS NA PRÁTICA Mesmo considerando as dificuldades presentes no cenário da educação musical brasileira, Souza (2012) acredita que as ideias de Meyer-Denkmann são aplicáveis à realidade do Brasil, tanto em contextos escolares quanto não escolares, sendo aplicáveis também às diferentes faixas etárias. Antes de apresentar sugestões de experimentos sonoros, destacamos alguns pontos levantados por Souza (2012) que devem ser considerados antes de iniciar a prática: • os experimentos sonoros não devem ser treinados ou dirigidos, mas desenvolvidos a partir das reações do próprio grupo; • as atividades podem ser gravadas e reproduzidas para que as crianças as ouçam e avaliem; • deve-se levar em conta como os sons se comportam uns em relação aos outros: por imitação ou contraste, se aproximando ou se opondo, enfim, o que um som tem a ver com o outro – se eles se transformam, se adensam, se diluem, ou se eles se misturam; • é possível realizar uma ação sonora aberta, sem regras fixas, na idade pré- escolar; • para fins de comparação, escutar trechos de composições que tenham estruturas musicais semelhantes; 7 • podem ser utilizados tanto os instrumentos tradicionais – madeira, corda e percussão – quanto qualquer objeto que possa produzir algum som – cocos, garrafas, bambus, balões, latas, copos etc.; • quando se utiliza instrumentos musicais, cada instrumento deve considerado, primeiramente, como fonte sonora. Isso significa que o objetivo não é buscar sons belos e perfeitos, mas, sim, explorar as diferentes possibilidades de produção sonora que cada instrumento oferece; • nessa concepção, o foco não está no instrumento, e o interesse maior está nos comportamentos em relação à produção sonora. 2.1 Experimento sonoro com balões Essa atividade foi inspirada nas proposições de Araldi e Fialho (2011), que sugerem a utilização de balões como instrumentos musicais, o que permite trabalhar conteúdos musicais, elementos do som (timbre, duração, intensidade, altura, densidade) e da música (instrumentação, ritmo, melodia/harmonia, dinâmica, expressão e outros). Vídeo Como fonte de inspiração a respeito das possibilidades sonoras de um balão, sugerimos que você assista ao vídeo do youtuber Andrew Huang, que faz uma releitura da música 99 red ballons utilizando apenas balões vermelhos. Disponível em: . A atividade se inicia com uma exploração livre do balão como fonte sonora. Sugira ações como percutir, beliscar, arranhar, bater, esticar e soltar, encher e esvaziar, ações com o balão vazio, cheio, esvaziando, dando espaço para que a turma explore vastamente as possibilidades sonoras. Em seguida, cada aluno deve escolher um dos sons e apresentar para a turma. A partir dos sons apresentados, forme pequenos grupos com base na proximidade das características sonoras, como se fossem naipes de uma orquestra. A forma como o som é produzido pode ser um critério para organizar os naipes, por exemplo, naipe de sons arranhados, naipe de sons beliscados, naipe de sopro, naipe de percussão, e assim por diante. Posicione os grupos de forma que todos possam enxergar o maestro (que, em um primeiro momento, pode ser o professor; na sequência, alunos voluntários https://www.youtube.com/watch?v=aZND9dApFKU 8 podem guiar a atividade). O maestro rege a orquestra de balões, sinalizando a entrada de cada naipe, e manipula andamento, ritmo, pulso, contraste, intensidade e pausas súbitas. É possível trabalhar o conceito de densidade, demonstrando o contraste entre os momentos de tutti (quando todos tocam) e os momentos em que apenas um naipe está tocando. Explore momentos de pulso definido e outros momentos sem nenhum compromisso com a métrica. Enfim, a ideia é motivar a busca por possibilidades sonoras e efeitos inusitados 2.2 Criação coletiva e registro visual Depois de longa experimentação, com diferentes maestros guiando as reações sonoras dos alunos, organize com eles uma peça musical que tenha começo, meio e fim. Aproveite para trabalhar a forma, nomear as partes como A, B, C, definir qual parte será repetida e qual será a ordem em que serão executadas. Crie, juntamente com os alunos, símbolos para cada ação sonora. Observe e discuta com eles as características de cada som. Por exemplo, um determinado som é produzido ao beliscar um balão. É um som curto e forte e alguém sugere que seja representado por um triângulo. Outro aluno sugere que o som seja repetido quatro vezes, então pode-se desenhar quatro triângulos para representar essa ação sonora desse naipe específico. O mais importante nessa etapa é que as sugestões, discussões e decisões partam dos alunos. O professor atua como um mediador, acolhendo as sugestões, podendo registrá-las no quadro, além de incentivar e auxiliar a turma a concluir a peça. Para inspirar as composições, pode-se contar uma história, criar climas, pensar em cenários e os diferentes sons relacionados a eles, por exemplo, o campo ou a cidade, ou ainda usar motivos puramente musicais e desenvolvê-los durante a peça. Outra sugestão é utilizar as cores dos balões e relacioná-las a diferentes sonoridades ou naipes. O importante é que os alunos criem um registro visual, uma espécie de partitura, de modo que possam escrever, ler e reproduzir sonoramente as ideias que criaram. TEMA 3 – SOM E SILÊNCIO NA EDUCAÇÃO MUSICAL John Frederick Paynter (1931-2010) foi um compositor e educador musical reconhecido internacionalmente, principalmente pelo trabalho desenvolvido nas 9 escolas inglesas e por suas ideias inovadoras para a educação musical. Sua família era de origem humilde e,embora não muito musical, sua mãe o encorajou a estudar piano desde criança. Graças às suas habilidades musicais, obteve bolsa de estudos na escola Emanuel School e, em 1952, graduou-se no Trinity College of Music. Depois de prestar serviço militar, iniciou sua carreira como professor generalista no Ensino Fundamental, em que também dava aulas de música para as séries iniciais. Teve papel fundamental na reestruturação do currículo britânico nas décadas de 1970 e 1980, a partir do qual o acesso às aulas de instrumento foi ampliado. Assim, o número de grupos de música de câmara e de orquestras juvenis fora do horário escolar aumentou, e os professores passaram a ouvir e dar mais importância às composições das crianças. Em 1969, iniciou sua carreira acadêmica no Departamento de Música da Universidade de York, na Inglaterra. Durante 25 anos foi editor da Cambridge University Press e, juntamente com Keith Swanwick, foi editor do British Journal of Music Education, entre 1964 e 1997. (Salaman, 2010; Mateiro, 2012) Hoskyns (2011b) observa que um dos fatos mais impressionantes a respeito de John Paynter é que ele era um excelente professor em todos os sentidos. Não de uma forma chamativa ou vistosa, mas discretamente despretensiosa, e essa atitude inspirou muitos de seus alunos a se tornar professores. “Muitos colegas e amigos já comentaram sobre como ele era capaz de adentrar uma classe, tanto de crianças como de adultos, e com poucas e calmas palavras, fazer com que todos se concentrassem em fazer música juntos e refletir profundamente sobre o que estavam fazendo” (Hoskyns, 2011b. p. 31). Como educador, Paynter inspirava as pessoas a pensar por conta própria. Ele não deixou um método de ensino de música nem um de pesquisa acadêmica; o que ele fazia era levar o estudante a questionar sua própria forma de pensamento e a desenvolver maneiras de proceder (Hoskyns, 2011a). Além de excelente educador e músico, Paynter foi um grande pensador e escritor. Seu processo de escrita era sempre muito cuidadoso e levava um longo tempo, enquanto ele buscava a melhor forma de expressar seus pensamentos. Demonstrava o mesmo cuidado com a escrita de seus orientandos, sendo considerado também um excelente editor, ao qual praticamente nada escapava em termos de gramática e sintaxe (Hoskyns, 2011a). A principal preocupação de Paynter era descobrir até que ponto os alunos de todas as idades seriam capazes de se expressar e se divertir por meio de 10 experimentação musical, composição e improvisação, e de que forma esses produtos musicais gerados poderiam ser avaliados. O trabalho que desenvolveu nas escolas inglesas, nesse sentido, resultou na publicação do livro Sound and Silence (1970), que escreveu juntamente com Peter Aston (Salaman, 2010). Publicou diversos livros e artigos, dentre os quais destacamos o já citado Sound and Silence (1970); Hear and Now (1972); e Sound and Structure (1992), que além de serem seus livros mais conhecidos, descrevem os princípios básicos de sua proposta pedagógica. Sound and Silence (1970) é um livro bastante prático, mas ao mesmo tempo está repleto de valores filosóficos que serviram de catalisador para mudanças que aconteceram nas aulas de música. No livro, os autores desenvolveram uma abordagem que demanda dos professores habilidades de escuta refinadas, disposição para explorar música contemporânea e música de períodos anteriores, constante busca por ideias para composição, além de desenvolver suas próprias respostas criativas para a turma (Glover, 2011). Como explica Mateiro (2012, p. 261), “Hear and Now é um livro sobre a música contemporânea nas escolas”, nele são apresentadas inúmeras possibilidades que a música contemporânea oferece para a educação musical. O autor “ressalta a imaginação, a ênfase no indivíduo e o material disponível como aspectos fundamentais no processo educacional em desenvolvimento durante o século XX” (Mateiro, 2012, p. 261). No livro Sound and Structure (1992), Paynter “apresenta uma organização baseada em elementos em rede para o ensino de música nas escolas, em contraposição ao conteúdo linear” encontrado nos métodos de outros educadores musicais (Ferreira, 2014, p. 485). O autor “estimula a invenção (ver as coisas com outros olhos) e a imaginação (apresentar as coisas de outras formas), habilidades necessárias à atividade de composição” (Mateiro, 2012, p. 268). Esclarece também que não se trata de experimentos sonoros sem finalidade; o aluno precisa compreender que há um objetivo a ser alcançado: a criação de uma composição musical (Ferreira, 2014). Pode-se dizer que o livro Sound and Structure, publicado em 1992, surge como uma continuidade do livro anterior Sound and Silence (1970). Paynter novamente argumenta em favor da criatividade como a base para o currículo de música e sustenta sua filosofia já defendida há vinte anos, reafirmando que a música é uma arte criativa em todas as suas formas, ou seja, em sua composição (inventar), execução (interpretar) e audição (refazer a música dentro de nós mesmos) (Mateiro, 2012, p 262). 11 O pensamento de Paynter “fundamenta-se nas ideias educativas características do início do século XX, tendo como alicerce pedagógico os princípios de liberdade, descoberta e individualidade” (Mateiro, 2010, p. 9). Glover (2011) acrescenta que o grande desafio do trabalho educacional de Paynter é que, em sua abordagem, o professor deveria se aproximar da música criada pelos alunos em uma relação de compositor para compositor. Isso causava grande conflito em função da formação de grande parte dos professores de música no final dos anos 1960, que era fortemente pautada em performance. Para muitos professores, a composição era uma atividade totalmente desconhecida e os compositores eram vistos como figuras muito distantes. Quanto essa realidade mudou – ou não – nos dias de hoje, fica como uma questão para reflexão; o fato é que o trabalho de Paynter causou uma revolução no curso da educação musical escolar ao tratar a música das crianças como parte válida da cultura contemporânea, que merece ser ouvida, explorada, valorizada e entendida. Para Paynter, a composição, a escuta criativa, a introdução da música contemporânea nas escolas e a integração da música com outras áreas artísticas são aspectos essenciais à educação musical. Seu ponto de partida é a técnica de composição e, em consequência, o desenvolvimento da capacidade criativa do aluno (Mateiro, 2010, p. 9). Ele esperava que os alunos ouvissem e trabalhassem como compositores, reagindo aos materiais brutos, mas sempre refletindo e sentindo como músicos. Paynter insistia na interdependência entre criatividade e habilidades, e mantinha as mais altas expectativas para que professores e alunos desenvolvessem tanto uma quanto a outra (Glover, 2011). Pitts (2011, p. 33) acrescenta que “na educação musical, isso significa que todas as crianças deveriam ter a chance de desenvolver seu máximo potencial, e que todos os professores deveriam ser encorajados a ensinar com convicção”. Ao mesmo tempo, ele esperava que suas propostas pudessem “inspirar o planejamento dos professores de música e/ou outras áreas, tanto para criar novas possibilidades quanto para adaptar as atividades às mais diversas situações educacionais” (Mateiro, 2012, p. 260). O modelo de Paynter apresenta uma importante alteração no modo de compreender a educação musical. No lugar do procedimento em linha, presente nos métodos da primeira metade do século XX, o compositor adota um procedimento em rede. “Outro indício dessa mudança, que pode ser considerada paradigmática, é a proposta de organização do trabalho em forma de projetos, 12 que podem durar uma, duas ou mais aulas, a depender da complexidade da proposta e da atuação dos alunos envolvidos” (Fonterrada, 2008, p. 190). TEMA 4 –A MÚSICA CRIATIVA NA SALA DE AULA Em diversos momentos, Paynter reforça que a descrição dos projetos e as atividades apresentadas em suas obras não devem ser encaradas como um curso passo a passo. Na realidade, elas fazem parte de um registro das experiências do autor, como uma série de apontamentos de aulas. Sua intenção, ao apresentar os projetos e tarefas, é que os professores criem, por si próprios, uma linha de atuação, desenvolvendo outros projetos adequados às suas próprias circunstâncias (Paynter, 2000). A atividade apresentada a seguir é um resumo de um projeto de composição a partir de um haikai (pequeno poema surgido no Japão). O objetivo da proposta é propiciar aos alunos o contato com as possibilidades de criação e experimentação musical, como parte do desenvolvimento de suas habilidades musicais. O livro Toda Poesia (2013), de Paulo Leminski, por exemplo, reúne séries de poemas curtos que podem ser utilizados em uma atividade como essa. Escolhemos um dos quarenta clics em curitiba (Leminski, 2013, p. 17): Ruas cheias de gente. Seis horas. Comida quente. Caçarolas. Paynter apresenta diversas formas de utilizar pequenos textos como material para composição, que podem ser abarcados por dois caminhos principais: criação de uma linha melódica para o texto ou utilização de frases e ideias presentes nas palavras do texto para dar forma (estrutura) a uma peça. Nesse exemplo, seguiremos o segundo caminho. A atividade foi pensada para alunos a partir de 8 anos de idade, mas pode ser adaptada para outras faixas etárias. Forme grupos de quatro a seis alunos para que cada grupo crie sua própria composição sobre o mesmo texto. O ideal é que cada grupo possa trabalhar em um ambiente diferente, para que possam criar sem se influenciar pelas ideias do grupo vizinho. No caso de todos os grupos terem que trabalhar dentro da mesma sala, pode-se dar textos diferentes para cada um. 13 O primeiro passo é ler o poema em voz alta e pensar em imagens e sons a que essas ideias remetem. Se o grupo possui instrumentos musicais, pode fazer experimentos buscando captar e executar todas as informações sonoras que as ideias do texto possam sugerir. Caso não possuam instrumentos, podem fazer o mesmo experimento com efeitos vocais, percussões corporais ou qualquer objeto que esteja ao seu alcance (mesa, lápis, apontador, a espiral de um caderno etc.). Por exemplo, pense primeiro em sons a que a palavra rua remete. É importante que os integrantes do grupo apresentem sugestões, experimentem como cada som poderia soar – forte, fraco, curto, longo, crescendo, decrescendo etc. Quais são as características desse som? Em que instrumento ou objeto soa melhor? Que tipo de emoções esse som transmite? Por que esse som faz pensar em rua? E se pensarmos na frase Ruas cheias de gente, esse som poderia fazer parte? Que outros sons poderiam representar a frase? Como formar uma frase que faça sentido musical com esses sons? Essa frase será repetida em outro momento da peça ou aparecerá uma única vez? Como esses sons podem ser representados graficamente? Que símbolos e/ou figuras podem ser utilizados? Siga o mesmo procedimento com as demais frases e palavras do poema. As crianças precisam ter liberdade para experimentar, questionar e tomar suas próprias decisões em conjunto com os integrantes do grupo. O professor apenas medeia a atividade, podendo fazer algumas perguntas que apontem uma direção, caso o grupo esteja com dificuldades. A composição deve ter início, meio e fim, mesmo que seja uma peça de curta duração; a atividade pode durar mais de uma aula, caso necessário. Ao final dessa etapa, cada grupo apresenta sua composição e sua partitura, enquanto os outros grupos escutam atentamente. Após cada apresentação, os grupos ouvintes avaliam as composições apresentadas: quais critérios de organização puderam ser percebidos na obra? Como a execução se relaciona com a partitura? O que escutaram, em termos de ideias musicais? Os grupos ouvintes podem eventualmente fazer perguntas ao grupo executante e comentar o que mais gostaram na composição e o que acharam que poderia ter sido feito de diferente. TEMA 5 – EXPERIMENTOS SONOROS NA EDUCAÇÃO MUSICAL As décadas de 1960 e 1970 foram particularmente frutíferas para a educação musical mundial. A música na escola começou a se tornar menos um 14 exercício de musicologia, teoria e história e avançar rumo a uma prática que envolvia composição, improvisação e repertório para além da música de concerto de tradição europeia. Na aula anterior, aprendemos sobre o trabalho realizado por Koellreutter no Brasil e por Schafer no Canadá. Nesta aula, estudamos sobre as realizações de Meyer-Denkmann na Alemanha e John Paynter na Inglaterra. Assim como os educadores da primeira geração, esses educadores tinham como pressuposto a ideia de que a educação musical era um direito de todos e não deveria ser privilégio apenas de alguns. Enquanto a “primeira geração” de educadores preocupou-se em fazer a criança desenvolver habilidades de escuta, incentivou o movimento corporal e trabalhou suas habilidades de intérprete, como cantores ou instrumentistas, na segunda parte do século XX a preocupação deslocou-se do âmbito da performance para o da composição. Essa tendência provocou a necessidade de exploração de formas alternativas de notação musical, bem próximas dos modos de notação contemporâneos (Fonterrada, 2008, p. 196-197). Com o objetivo de encorajar as abordagens experimentais e conexões com a nova música, a Universal Editions, de Viena, publicou uma série de livros voltados para a didática da música contemporânea que visava o desenvolvimento da criatividade musical, colaborando com a expansão desse movimento. Entre esses títulos, encontram-se os livros de Lilli Friedemann (1967), Gertrud Meyer- Denkmann (1970, 1972), John Paynter e Peter Aston (1972), Raymond Murray Schafer (1969), George Self (1967), entre outros. “Para os autores, a publicação desses materiais tratava, em primeiro lugar, de conscientizar os alunos para as composições contemporâneas, os experimentos sonoros e a improvisação” (Souza, 213, p. 196). Em linhas gerais esses modelos têm alguns pontos em comum: sensibilização perante a realidade sonora; desenvolvimento da capacidade criativa e de comunicação através da experimentação livre; descondicionamento musical, libertação de modelos pré-concebidos; utilização de um repertório amplo; e utilização de outras formas de notação musical. Uma outra característica, já no aspecto social, é que eles proporcionam a participação de todos, em grupo ou isoladamente, e dentro das possibilidades musicais de cada indivíduo (Souza, 2013, p. 196). Mateiro (2012, p. 247) faz uma observação pertinente: “curiosamente, não são os professores de música, mas os compositores que lideram esse movimento do ensino de música nas escolas”, e esse é outro ponto em comum entre os educadores da segunda geração: todos são também compositores. 15 Ressalta-se que esses autores não eram os únicos interessados na orientação da educação musical para a música nova. Havia uma série de professores de música que também colecionavam suas primeiras experiências com princípios de composição e improvisação utilizados na música de vanguarda (Souza, 2013, p. 197). Outro ponto, em consonância com a ideia de que a educação musical deve ser um direito de todos, é que muitas das atividades propostas por esses educadores não exigem conhecimento prévio de música, conforme detalha Fonterrada (2008, p. 197). Na segunda metade do século, pode ser identificado um grupo de compositores preocupados em fornecer a alunos, com pouca ou nenhuma experiência em escrita tradicional de música, obras especialmente planejadas para serem executadas em sala de aula, que não exigem conhecimento de teoria da música ou habilidadesem performance para que sejam realizadas (Fonterrada, 2008, p. 197). FINALIZANDO Nesta disciplina, buscamos apresentar alguns dos principais representantes das novas pedagogias musicais, mas com a sincera intenção de inspirar a busca que vai além dos nomes aqui apresentados. Como nos lembra Fonterrada (2008, p. 205), “existe um corpo considerável de propostas em educação musical em países latino-americanos” que merece pesquisa aprofundada para que se torne conhecido. Entre seus autores, destacamos o trabalho da notável educadora argentina Violeta Gainza, que também foi idealizadora do Fórum Latino-Americano de Educação Musical (Fladem). Saiba mais Para mais informações a respeito do Fladem, incluindo cursos, eventos e publicações, acesse o site do Brasil, disponível em: . Acesso em: 10 jul. 2019. Sugestão de leitura No livro Música e educação (2015), há um capítulo escrito pela educadora Violeta de Gainza, no qual ela aborda as características da improvisação nos vários níveis da formação musical. O texto está disponível na íntegra em: . No que se refere ao Brasil, além dos já mencionados Villa-Lobos e Koellreutter, estudaremos as ideias de José Eduardo Gramani e Lucas Ciavatta na próxima aula. https://www.fladembrasil.com.br/ https://musicaeinclusao.files.wordpress.com/2015/09/livro-na-integra.pdf 16 REFERÊNCIAS 99 Red Balloons: played with red balloons. Andrew Huang, 9 set. 2014. Disponível em: . Acesso em: 10 jul. 2019. ARALDI, J.; FIALHO, V. M. Sfuuuuu! Schiiii! Bum! Ploft! Balões na aula de música. Música na Educação Básica, v. 3, n. 3, p. 42-55, 2011. Disponível em: . Acesso em: 10 jul. 2019 ELEKTRONISCHE musik made in Oldenburg: GMD. wolfgangmartinstroh, 11 jun. 2015. Disponível em: . Acesso em: 10 jul. 2019. FERREIRA, T. T. Por uma educação musical rizomática: estudo sobre o livro Sound and structure de John Paynter. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE PÓS- GRADUANDOS EM MÚSICA (SIMPOM), 3., 2014, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, SIMPOM, 2014. Disponível em: Acesso em: 10 jul. 2019. FONTERRADA, M. T. O. 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