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AULA 1 NOVAS PEDAGOGIAS MUSICAIS Profª Dayane Battisti 2 CONVERSA O objetivo desta aula é fazer uma breve introdução às novas pedagogias da educação musical desenvolvidas na primeira metade do século XX (também conhecidas como métodos ativos, por priorizar o envolvimento ativo dos alunos) e apresentar as ideias e propostas pedagógicas de Émile Jaques-Dalcroze e Edgar Willems – dois pioneiros que influenciaram profundamente outros grandes pedagogos musicais, como Carl Orff e Zoltán Kodály. Juntos, estes educadores formam o que ficou conhecida como a Primeira Geração de Educadores Musicais. Considerando a imensa variedade de contextos em que educação musical pode acontecer, serão apresentadas sugestões de atividades e exercícios baseados em cada uma das pedagogias. A intenção é inspirar cada professor a criar seus próprios exercícios e atividades, de acordo com os recursos disponíveis, e adaptá- los à realidade sociocultural de seus alunos. TEMA 1 – O QUE SÃO MÉTODOS ATIVOS? A denominação “métodos ativos” é utilizada para designar as pedagogias da educação musical que surgiram na primeira metade do século XX, como respostas criativas aos desafios apresentados à época. Essas pedagogias pressupõem o envolvimento ativo dos alunos no fazer musical em vez de privilegiar apenas o ensino técnico-instrumental, como se costumava fazer na época. Figueiredo (2012, p. 85) destaca como ponto comum entre grande parte dessas pedagogias “a revisão dos modelos de ensino praticados em períodos anteriores”. Outra premissa é que todos os indivíduos são capazes de se desenvolver musicalmente, e não apenas os ‘talentosos’, mas para isso seriam necessárias metodologias adequadas. De acordo com Rangel (2006, p. 3), “Método é caminho, é opção por um trajeto até o alcance de objetivos que se sintetizam na aprendizagem”. Apesar de serem chamados de “métodos ativos”, Fonterrada (2008) alerta que nem todos podem ser considerados métodos, mas abordagens ou propostas pedagógicas. As propostas sistematizadas desses educadores foram difundidas e aplicadas no mundo todo, e, apesar de terem sido introduzidas no Brasil entre as décadas de 1950 e 1960, como lembra Fonterrada (2008, p. 120), “muitas dessas abordagens ficaram esquecidas, limitando-se a uns poucos seguidores, via de regra, pertencentes a segmentos educacionais alternativos”. 3 Considerando que os desafios atualmente enfrentados pelos professores de música são diferentes e talvez ainda mais complexos do que do século passado, você pode estar se perguntando: Então, por que estudar pedagogias do século XX? Bem, em primeiro lugar, é importante considerar que as contribuições desses educadores foram fundamentais para a construção das nossas atuais concepções de educação musical. Autores como Mateiro e Ilari (2012), Penna (2012), Fonterrada (2008) e Figueiredo (2012) defendem a importância de revisitar as ideias dos educadores musicais pioneiros e suas propostas sistematizadas, que já foram amplamente utilizadas em diferentes contextos. Revisitá-las, não com intenção de reproduzir fielmente um conjunto de técnicas sem considerar as especificidades do contexto, mas, sim, com o intuito de extrair subsídios para propostas educacionais adequadas à realidade brasileira, buscando compreender de que forma tais propostas podem ocupar espaço na educação contemporânea ou, ainda, utilizando-as como referência para novas abordagens que considerem as especificidades do contexto. Nas salas de aula, os educadores se deparam diariamente com novos desafios, diferentes realidades socioculturais, diversidade de preferências e expectativas e alunos com perfis cada vez mais heterogêneos. É importante, portanto, conhecer o que já foi feito pela educação musical até o momento para poder seguir adiante. Estudar e compreender diferentes pedagogias; identificar as concepções de mundo e de música compatíveis com o que acreditamos e defendemos; estabelecer relações com a nossa própria vivência musical e a dos nossos alunos para então adaptar e aplicar princípios e procedimentos dessas propostas aos contextos educativos nos quais atuamos. TEMA 2 – DALCROZE E A MÚSICA QUE RESSOA NO CORPO, NO CÉREBRO E NO CORAÇÃO Émile Jaques-Dalcroze (1865-1950) foi um compositor e educador musical nascido em Viena, na Áustria, considerado precursor das novas pedagogias da educação musical. De acordo com Fonterrada (2008, p.122), “seu grande mérito, graças à sua observação incessante e à sua intuição, foi propor um trabalho sistemático de educação musical baseado no movimento corporal e na habilidade de escuta”. 4 Dalcroze foi professor de harmonia e solfejo no Conservatório de Genebra durante quase 20 anos. O desenvolvimento de sua pedagogia teve início a partir da percepção da formação incompleta de seus alunos, que não eram capazes de fazer a ligação entre a teoria musical e as sensações auditivas. Naquela época, a teoria musical era geralmente ensinada por meio de abstrações totalmente desconexas das emoções, sensações e experiências dos alunos, e isso resultava em performances mecânicas, sem expressão, entendimento ou sensibilidade (Juntunen, 2016). Dalcroze iniciou, então, um trabalho que integrava as atividades de tocar, escutar e escrever harmonias. Além disso, constatou que os alunos tinham grande dificuldade de cantar e se expressar e, embora fossem capazes de compreender intelectualmente as organizações rítmicas e melódicas, não conseguiam cantar, por falta de controle do aparelho vocal (Fonterrada, 2008). Duas preocupações emergem de seu trabalho: a educação musical sistematizada que integra a música, a escuta e o movimento corporal; e uma preocupação mais ampla e ambiciosa, com intuito de promover a educação das massas por meio da música. Para Jaques-Dalcroze, toda ação artística é também um ato educativo e arte não se restringe à música. Ele estuda com seriedade as diferentes linguagens artísticas. Deseja que os bailarinos conheçam a música, que os regentes de coro compreendam as estruturas das obras executadas e que os músicos compositores conheçam a dança. (Mariani, 2012, p. 31) Madureira e Banks-Leite (2010) narram as dificuldades enfrentadas por Dalcroze na aceitação de seu sistema por parte de colegas e diretores do Conservatório de Genebra. Como exemplo, temos a seguinte situação: para maior conforto, Dalcroze propunha que os exercícios corporais fossem realizados descalços, porém, para a sociedade conservadora do começo do século XX, era considerado um escândalo que as moças de boa família retirassem os sapatos durante as aulas. De acordo com Jaques-Dalcroze (2010), os principais argumentos contra a implantação do seu método defendiam que um músico verdadeiro já deveria possuir naturalmente todas as qualidades, todos os dons para a execução de sua arte, e que o estudo não poderia substituir os dons natos. Essas dificuldades e resistências o levaram a deixar o Conservatório de Genebra em 1910 e a criar e dirigir seu próprio instituto de Rítmica1, primeiro na Alemanha, em 1911, e, posteriormente, de volta a Genebra, em 1915, quando foi 1 Tanto na Alemanha quanto em Genebra, Dalcroze contou com o auxílio de amigos que o apoiaram, inclusive nas campanhas de arrecadação de fundos para inauguração do Instituto. 5 inaugurado o Instituto Jaques-Dalcroze, instituição que funciona no mesmo prédio até os dias atuais (Mariani, 2012). Utilizando-se de caminhos empíricos, Dalcroze defendeu a importância dos movimentos corporais como suporte dos fenômenos intelectuais e afetivos, que anos mais tarde foi reafirmada por pesquisadores das ciências cognitivas. Por meio do movimento do corpo inteiro, a música é sentida, experienciada e expressada; ao mesmo tempo, os movimentossão uma forma de expressar o que os alunos estão ouvindo, sentindo e entendendo. Cada indivíduo tem uma maneira única de se mover, e os movimentos refletem a personalidade e a individualidade de cada um. A pedagogia de Dalcroze tem por objetivo desenvolver habilidades como senso rítmico, audição e expressão espontânea, que, segundo Dalcroze, são vitais para a formação de um músico competente. Além disso, tem como finalidade encorajar a criatividade e a expressão musical, para que os alunos aprendam a confiar e acreditar em suas próprias ideias e criações, ajudando-os a descobrir seu próprio corpo como um expressivo instrumento musical. (Juntunen, 2016). A pedagogia Dalcroze possui três elementos principais:2 • A rítmica – envolve o corpo em movimento rítmico e escuta ativa; • O solfejo – desenvolve melodia e harmonia interna, além de resposta imediata à notação musical; • A improvisação – envolve o espírito de brincar em movimento, com a voz ou com um instrumento. Numa aula de Dalcroze, o instrutor combina esses elementos utilizando jogos rítmicos, músicas, gestos e movimento. O movimento do corpo inteiro no espaço está ligado com a escuta, ao mesmo tempo que são estudados elementos da música (como tempo, ritmo, métrica, frase, forma, polirritmia, dinâmica e harmonia). Simultaneamente, o aluno desenvolve a automação do movimento, trabalhando com materiais e adereços como bolas, baquetas, balões ou garrafas pet, explorando as relações entre tempo, espaço e energia e desenvolvendo a capacidade de criar, interpretar e expressar (Juntunen, 2016). 2 Fonte: 6 TEMA 3 – RESSOANDO NA PRÁTICA Conforme foi comentado no início desta aula, serão apresentadas sugestões de atividades e exercícios inspirados na pedagogia Dalcroze. Importante lembrar, porém, que o objetivo primordial desses exercícios é inspirar os professores a criarem seus próprios exercícios, segundo as necessidades dos seus alunos, seguindo, assim, o desejo do autor dessa pedagogia: Quando aplicada no campo da educação musical, era desejo do próprio Jaques-Dalcroze que, uma vez entendidos os princípios, a Rítmica fosse adaptada às características das crianças de cada país, e que houvesse um interesse do professor pela constante renovação desta. Isso implica adaptá-la, também, às condições sociais e culturais dos alunos. (Mariani, 2012, p. 40) As aulas da pedagogia Dalcroze são geralmente realizadas em grupo, e os alunos se movimentam no espaço seguindo uma música improvisada, tocada, gravada, vocalizada ou, às vezes, sem música nenhuma. Uma grande variedade de músicas pode ser utilizada e estudada por meio de exercícios Dalcroze, como por exemplo, música antiga, clássica, folk, pop, étnica, regional, rock, rap, soul e jazz. Exercícios típicos incluem os de “seguir” (por exemplo, caminhando no tempo de uma música gravada ou seguindo o ritmo da improvisação do professor); de reação rápida (respondendo a um sinal ou mudança na música); de eco e cânone (Juntunen, 2016). Uma ideia essencial da rítmica é de que o músico deve ser capaz de ouvir e responder perfeitamente com seus pés e corpo. Foram desenvolvidos exercícios de reação rápida considerando os aspectos temporais e espaciais do comportamento: antecipação, organização, coordenação e sincronia. 3.1 Exercício de reação rápida Exercício adaptado de Boyarsky (2009), comumente utilizado como exercício de aquecimento. A sala de aula deve ser ampla, e os alunos são aconselhados a vestir roupas confortáveis e podem, inclusive, ficar descalços. Os alunos se espalham pela sala, buscando ocupar todos os espaços, enquanto o professor improvisa ao piano (ou outro instrumento disponível) em diferentes tempos e ritmos locomotores (ver figura a seguir). Os alunos são convidados a seguir as mudanças rítmicas com passos e movimentos corporais e, ao comando do professor (previamente combinado com os alunos, algo como “hop!”, “buh!”, “já!” ou um novo comando criado pelo professor), devem realizar o 7 último movimento que estavam fazendo, só que de trás para frente. As condições em si ensinam os alunos a serem mais conscientes. É possível combinar esse exercício com pausa e “estátua” – os alunos devem cessar o movimento durante as pausas do improviso e ficar parados como uma estátua – dessa forma, se o comando (“já!”) for dado quando os alunos estiverem parados, eles precisam se lembrar para qual direção eles estavam indo quando a música for retomada. Figura 1 – Ritmos locomotores Fonte: elaborado com base em Boyarsky, 2009. 3.2 Contos infantis sonorizados Neste tipo de exercício, as possibilidades são infinitas. Mariani (2012) sugere histórias como Chapeuzinho Vermelho e Chapeuzinho Amarelo3 como exemplos. Para contar a história, podem ser utilizados os ritmos locomotores da Figura 1, criar motivos musicais para cada personagem (utilizando figuras rítmicas, melódicas em diferentes regiões do piano para caracterizar os personagens – por exemplo, um motivo mais agudo para a Chapeuzinho e um motivo na região grave para o Lobo). Utilizar harmonias dissonantes para os momentos de tensão e pausas súbitas para enfatizar o suspense – as pausas ensinam a parar e reiniciar um movimento dentro da pulsação. A turma pode ser dividida em grupos com diferentes funções, por exemplo: um grupo reage ao motivo da Chapeuzinho, saltitando, e outro grupo reage ao motivo do Lobo. Outro exemplo de conto infantil é descrito por Boyarsky (2009) – explorando os elementos de altura e intensidade do som, o professor descreve o cuco tímido que se esconde no meio da floresta e canta “assim”: demonstrar no instrumento um motivo em terça descendente. Todos saem em expedição no meio da floresta para procurar o tímido cuco enquanto o professor improvisa em ritmos locomotores (correndo, andando, pulando, na ponta dos pés). O único meio de encontrar o cuco é ouvindo atentamente o seu canto, e quem ouvi-lo deve apontar 3 História reinventada por Chico Buarque, com ilustrações do cartunista Ziraldo. BUARQUE, C. Chapeuzinho Amarelo. 12. ed. Rio de Janeiro: J. Olympo, 2003. 8 para o alto da árvore. O próximo passo é contrastar agudo e grave: às vezes, o cuco se esconde num arbusto, e quem ouvir o motivo na região grave do piano aponta para um arbusto imaginário. Os alunos adoram os desafios crescentes, e o professor deve sentir quando eles estão prontos para novos desafios no exercício. Em outra variação, os alunos cantam junto com o motivo do cuco ou repetem seu canto em eco, no tempo seguinte. O motivo também pode aparecer em diferentes tonalidades. Boyarsky (2009) alerta que os exercícios devem ser pensados como pequenos quebra-cabeças musicais, mas é preciso ter cuidado para que não induzam ansiedade e competição entre os alunos. 3.3 Canção para focar Uma forma de manter as crianças focadas na aula é utilizar pequenas canções de pergunta e resposta que chamam a atenção e preparam para a próxima atividade. Esse recurso pode ser utilizado em diferentes momentos da aula. A sugestão da figura a seguir é uma adaptação de Boyarsky (2009), em que a linha rítmica foi criada para acomodar a prosódia natural do texto em português, e o professor pode criar sua própria melodia e harmonia para a canção ou, ainda, substituir as palavras da chamada conforme a faixa etária dos alunos (garotas, garotos, moças, moços, todos). Na prática, os alunos respondem à chamada do professor, ao mesmo tempo que batem palmas e acenam positivamente com a cabeça (Sim! Sim! Sim!). Figura 2 – Canção para focar Fonte: elaborado com base em Boyarsky, 2009. Para ter uma ideia visual de como uma aula de Dalcroze acontece na prática, sugerimos assistir ao vídeo indicado a seguir. Desenvolvido pela FIER 9 (Federação Internacional de Professores de Ritmica), o vídeo apresentapequenos trechos de atividades realizadas com os alunos durante as aulas. Vídeo DALCROZE video-clip 5. FIER International Federation of Eurhythmics Teachers, 31 mar. 2015. Disponível em: . Acesso em: 13 abr. 2019. TEMA 4 – WILLEMS E A PEDAGOGIA BASEADA NA EXPERIÊNCIA Edgar Willems (1890-1978) nasceu na Bélgica, mas foi especialmente na Suíça que desenvolveu seu trabalho como pedagogo, e suas ideias causaram grande impacto no ambiente da educação musical da sua época. Depois de um período morando e estudando na França, Willems mudou-se para Suíça e ingressou no Conservatório de Genebra em 1925, aos 35 anos, primeiro como aluno e depois como professor qualificado. Boa parte da sua formação como pianista, improvisador e compositor foi de forma autodidata, e sua pedagogia foi muito influenciada por pensadores de sua época, como Rudolph Steiner, Hans Kayser, Alexandre Denéréaz e, especialmente, Émile Jaques-Dalcroze. As ideias de Willems estão baseadas na conexão psicológica entre música e natureza humana. Ele apresentou analogias entre a música e a vida, fundamentadas na crença de que existe uma ligação entre o ritmo e a vida fisiológica; a melodia e a vida afetiva; e a harmonia e a vida mental (Damaceno, 1990). Quadro 1 – Analogias entre a música e a vida Natureza humana ação sensibilidade conhecimento Material vida fisiológica vida afetiva vida mental espiritual Som vida rítmica vida melódica vida harmônica arte ritmo melodia harmonia Música Fonte: elaborado com base em Damaceno, 1990. 10 Dessa forma, os três elementos fundamentais da música – ritmo, melodia e harmonia – se relacionam com três funções humanas diferentes – ação, sensibilidade e conhecimento. Em sua proposta, Willems dedica-se a dois aspectos: o teórico, que engloba os elementos fundamentais da audição e da natureza humanas, e a correlação entre som e a natureza humana, e o prático, em que organiza o material didático necessário à aplicação de suas ideias à educação musical. Willems estuda a audição sobre três aspectos: sensorial, afetivo e mental, repetindo os três domínios da natureza, que considera essencialmente diferentes entre si: o físico, o afetivo e o mental. (Fonterrada, 2008, p. 138) Ritmo, melodia e harmonia procedem de bases psicológicas intimamente relacionadas à vida. Nessa educação musical, a improvisação e a composição encontram um fundamento natural, e os alunos – não mais presos às formas – têm acesso a um conhecimento mais amplo da música, o que lhes permite entender música de todos os períodos – inclusive a música contemporânea da época e música de diferentes origens étnicas, culturas e países, utilizando-a como um meio de comunicação global (Damaceno, 1990). Estes três elementos se relacionam também com os três aspectos da audição apresentados por Willems: sensorialidade auditiva, sensibilidade afetiva auditiva e inteligência auditiva. Importante destacar que esses aspectos não são fenômenos separados: eles se apresentam simultaneamente e são separados aqui apenas como recurso didático, para uma melhor compreensão. A sensorialidade auditiva representa a base material sobre a qual se assenta a música. Os exercícios trabalham a distinção auditiva dos parâmetros do som (altura, duração, intensidade e timbre), com destaque para a altura e iniciando com distinções que vão do grande para o pequeno – regiões graves, médias e agudas; passando por intervalos mais amplos, como a oitava, e chegando aos mais próximos, como tom e semitom, até chegar a intervalos intratonais. Utiliza jogos de sinos intratonais, diapasões, apitos, flauta de embolo, cordas e diferentes sons e ruídos, alinhando-se à estética da música contemporânea (Fonterrada, 2008). A sensibilidade afetiva auditiva é situada entre a sensorialidade e o intelecto e está relacionada com a resposta afetiva gerada pelos sons. Ele percebeu que a afetividade apresenta questões psicológicas sutis e complexas, que não podem ser compreendidas por meio de análises científicas quantitativas (Carlow, 2015). Esta temática, porém, não é claramente exposta no sistema de Willems, provavelmente pela dificuldade de criar uma sistematização de algo tão subjetivo 11 como a afetividade. Uma sugestão seria trabalhar a percepção de intervalos antes de se utilizar nomes de notas ou intervalos, pedindo para que as crianças descrevam os sentimentos e as sensações que cada intervalo provoca, na percepção individual de cada um (Fonterrada, 2008). A inteligência auditiva é construída sobre os dados das experiências auditivas sensoriais e afetivas e engloba a comparação, o julgamento, a associação, a análise, a síntese, a memória, a imaginação criativa e a escuta interior. As atividades e os materiais propostos (apitos, brinquedos, sinos, xilofones, flautas de embolo etc.) “estimulam tanto o ato da escuta em si quanto o uso de funções matemáticas a ele diretamente relacionadas, como comparar, ordenar, analisar, entre outras” (Fonterrada, 2008, p. 148). A declaração de Willems a respeito do ensino de inteligência auditiva apoia muitas crenças do século XXI sobre o treinamento de habilidades auditivas, especialmente sua visão da importância de cantar na primeira infância, e que o solfejo e a harmonia devem ser praticados auditivamente e não apenas cerebralmente. (Carlow, 2015, p. 97) Para Willems, é importante que a criança primeiro vivencie a música de forma prática para depois tomar consciência e pensar sobre os fatos musicais e teóricos. Neste contexto, o ritmo tem prioridade, mas a melodia é o elemento mais característico da música e, por isso, considerado primaz. Por este motivo, o solfejo e as canções ocupam lugar central no seu método (Parejo, 2012). Outra característica marcante é a não utilização de recursos extramusicais. A associação entre desenhos ou cores com os sons, por exemplo, era vista por Willems com muitas reservas, pois ele acreditava que o subconsciente das crianças não deveria ser sobrecarregado com associações que não valessem para toda a vida (Parejo, 2012). Willems se referia à educação musical como oposta à instrução musical (Carlow, 2015). Foi pioneiro na distinção desses dois termos, apresentando uma visão mais ampla da educação musical e “contribuindo para a superação das visões tecnicistas e mecanicistas que tanto assolaram nossas práticas musicais ocidentais” (Parejo, 2012, p. 105). Em seu método, Willems estruturou a iniciação musical em quatro graus pedagógicos. Os pesquisadores que escreveram sobre sua obra apresentam faixas etárias ligeiramente diferentes para cada grau: alguns defendem que o primeiro grau iniciaria antes dos 3 anos de idade, e outros indicam a faixa etária de 3 a 4 anos. Seguiremos aqui a estruturação apresentada por Parejo (2012, p. 12 105), reforçando que, apesar da faixa etária sugerida para cada grau, sua aplicação é flexível e pode ser adaptada de acordo com a realidade do contexto. • 1º grau: iniciação musical (3 a 4 anos) – revelação dos fenômenos musicais por meio de elementos pré-musicais e musicais; • 2º grau: iniciação musical (4 a 5 anos) – início da codificação simbólica escrita dos elementos vistos no 1º grau; • 3º grau: pré-solfejo e pré-instrumental (5 a 6 anos) – passagem do concreto ao abstrato, aquisição de automatismos de notas e terminologias, desenvolvimento de faculdades criativas (improvisação rítmica e melódica); • 4º grau: solfejo vivo (6 a 7 anos) – início de um programa de educação musical global, envolvendo leitura e escrita musical. Edgar Willems esteve no Brasil em três ocasiões (1963, 1971 e 1972), ministrando cursos nas cidades de Salvador e São Paulo. Também esteve no Rio de Janeiro, em Niterói, Tatuí, Belo Horizonte, Brasília, Ribeirão Preto, São Caetano do Sul, Itabuna e Feira de Santana (Chapuis;Westhal, 1980, citado por Parejo, 2012). Outro ponto importante destacado por Parejo (2012) é que as condições e os recursos materiais e humanos exigidos para a aplicação do método Willems nem sempre são fáceis de se reunir. A metodologia de iniciação musical foi estruturada para se trabalhar com grupos pequenos de alunos, pois dessa forma é possível conhecer a fundo o perfil psicológico de cada um. Isso explica por que não é comum encontrar o método Willems sendo aplicado de forma estrita no Brasil e talvez não seja o método mais adequado à realidade do ensino de música em escolas regulares no Brasil. Um exemplo bem-sucedido de aplicação do método no Brasil é o IEM – Instituto de Educação Musical, na cidade de Salvador – escola da professora Carmen Mettig Rocha, educadora certificada pela Associação Internacional Edgar Willems que ministra cursos de formação no método Willems por diversos estados do Brasil e publicou livros e materiais didáticos sobre o método. Saiba mais Acesse a página do IEM para saber mais a respeito da aplicação do método Willems no Brasil, de materiais didáticos e cursos de formação para educadores musicais. Disponível em: . 13 Para Willems, porém, os princípios são mais importantes que os métodos, como nos explica Damaceno (1990, p. 42): “Willems sugere que os professores sigam princípios ao invés de adotar um método específico. Ele acreditava que os métodos deveriam ser tratados com cautela e que poderiam até ser perigosos. Princípios, pelo contrário, são características permanentes”. O autor continua explicando que esses princípios podem ser descobertos sozinhos ou com ajuda de outra pessoa, mas de alguma forma deve haver um despertar desses princípios vitais por meio das experiências conscientes e inteligentes, o que permite que os alunos e professores criem e ganhem vida (Damaceno, 1990). Que possamos, então, inspirar-nos nos princípios preconizados por Edgar Willems para criar nosso próprio método de trabalho, adaptado e adequado a cada contexto de educação musical em que atuarmos. TEMA 5 – EXPERENCIANDO NA PRÁTICA Além das atividades de audição sob os aspectos sensorial, afetivo e mental, as canções têm um papel fundamental na pedagogia de Willems. No quadro a seguir, Parejo (2012, p. 103-104) fez uma adaptação das canções e de suas finalidades didáticas, conforme o que foi preconizado por Willems: Quadro 2 – Adaptação de canções, de acordo com Parejo 1. Canções populares tradicionais; 2. Canções simples para principiantes – elaboradas sobre palavras e ações cotidianas (Bom dia, Onde está?, Papai, Mamãe, entre outras), compostas na própria aula; 3. Canções que preparam para a prática instrumental – compostas sobre o pentacorde, permitem utilizar os cinco dedos, ao piano. Antes de executar a canção ao instrumento, convém fazer cantá-la com a letra, em seguida em “lá, lá, lá”, depois, transpondo-a para diferentes tonalidades e, finalmente, cantar na tonalidade de Do M com os nomes das notas; 4. Canções de intervalos – têm a intenção de preparar o treinamento intervalar futuro, devem ser cantadas primeiramente com a letra, depois em “lá, lá, lá” e, mais adiante, com os nomes das notas. Os intervalos são apresentados na seguinte progressão: 2ª M e m; 3ª M e m; 5ª e 4ªj; 6ª M e m; 8ªj; 7ª M e m; 5ª dim; 4ª aum; 5. Canções para cantar com mímica – aqui Willems pensa no valor expressivo e plástico das expressões faciais e movimentos corporais; 6. Canções ritmadas – são canções que possibilitam movimentos naturais como embalar, saltar, correr, balançar, trabalhar nuances de velocidade e, mais tarde, bater os tempos e os ritmos. Essas mesmas canções, além de trabalhar o instinto rítmico, muitas vezes preparam a percepção de acordes e harmonias; 7. Canções improvisadas – partem de ritmos corporais ou de palavras ou frases que as crianças gostam de repetir, o professor estará atento para canalizar esses momentos espontâneos. 14 A seguir são apresentados alguns princípios e exemplos de atividades e exercícios que podem ser adaptados e aplicados em diferentes contextos: • É importante que os alunos sejam recebidos de forma afetuosa. Se for uma turma pequena, reserve alguns minutos para ouvir o que cada criança tem a contar sobre sua semana ou o seu dia, de preferência sentados em círculo. Se for uma turma maior, a atividade pode ser resumida em cada um falar uma palavra que represente seu sentimento naquele momento. A relação humana é o foco do início da aula. • A atividade seguinte pode ser de locomoção. Primeiro, peça que os alunos caminhem livremente pela sala. Utilizando um instrumento percussivo, como um pequeno tambor, ou batendo com as mãos sobre uma mesa, dite o ritmo para que os alunos se locomovam pela sala. Utilize pausas súbitas, acelerando e retardando, variações de dinâmica, andamento e figuras rítmicas, para alterar o padrão de movimento. Depois, abra espaço para voluntários ditarem o ritmo de locomoção da turma, permitindo que as crianças também liderem o jogo. • Outra sugestão de atividade envolve o uso de instrumentos e pequenos objetos que produzam diferentes sons. Utilize sinos variados, chocalhos, flauta de embolo, tambores, pandeiros e outros objetos (os instrumentos podem ser fabricados em casa). Num primeiro momento, permita que as crianças explorem livremente os diferentes sons que cada instrumento/objeto produz. Cada criança então escolhe um instrumento e apresenta o som do instrumento para os demais colegas. As crianças devolvem os instrumentos ao centro e viram-se de costas, de modo a não conseguirem visualizar qual instrumento o professor vai escolher para tocar. Quando a criança reconhecer o instrumento que escolheu sendo tocando pelo professor, ela diz: “é meu!”, e todos se viram para conferir. Essa atividade pode ser iniciada com instrumentos e objetos de sons bem distintos, e, nas aulas seguintes, conforme as crianças forem reconhecendo suas particularidades, os instrumentos podem ter timbres mais parecidos. 15 REFERÊNCIAS BOYARSKY, T. Dalcroze Eurhythmics and the Quick Reaction Exercises. The Orff Echo – Winter, 2009, p. 15-19. CARLOW, R. Book Review: WILLEMS, Edgar: Psychological Foundations of Music Education. In: Journal of Historical Research in Music Education, v. 37, n. 1, 2015, p. 94-99. DAMACENO, G. G. Personalities in World Music Education No. 10 – Edgar Willems. Int. J. 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