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Psicologia nas organizações - Unidade 1
3. O Ser Humano em Concepções
Estamos em um contexto educativo e podemos afirmar que o humano é um ser que se educa e educa outro; e esse homem é um ser social que
fala e se comunica e que anda de mãos dadas com a sociedade, de modo que é difícil distinguir quem influencia quem. Entretanto, o homem é
visto de maneiras diferentes nessas duas dimensões desde a Grécia antiga, com os filósofos clássicos, até o renascimento, com Maquiavel, e
mesmo no Renascimento, na Modernidade e na atualidade. Há diversas concepções!
 
Por exemplo, em Atenas se vivia num momento de transição entre uma educação voltada para a guerra e uma Atenas construindo uma
democracia. Diante deste panorama encontramos dois processos educativos e dois tipos de concepções de humano, um seguindo o modelo
do guerreiro e outro despontando do cidadão que participa do “àgora”. Nesse contexto, vivia Protágoras e Sócrates, porém ambos tinham
concepções de humano e pensavam na educação de maneiras diferentes.
 
Se Protágoras (Sofista) não se preocupava com o conhecimento e queria moldar todas as pessoas num mesmo plano; Sócrates por sua vez,
preocupava-se com o conhecimento e com o que possibilitava a ação, ou seja, o saber e fazer prático, coerente. Na sequencia, Aristóteles veio
com a palavra chave “felicidade”, isto é, a vocação do homem é ser feliz, porém, esta felicidade se encontra na sociedade. É a “identidade”
tendo um senso de pertencimento, ou seja, o ideal da felicidade está ligado ao homem como “espécie” ligada ao todo. A felicidade pode até
passar pela individualidade, mas o foco é o todo. A referência é a sociedade e a educação volta-se para a formação deste homem administrada
pelo Estado (todo). Eis outra concepção de humano.
 
Haviam ainda os estoicos focando o homem moral e ético com ação do pensar para a prática. O homem tem como objetivo firmar virtudes e
assegurar a felicidade, pois uma vez conquistada a virtude ele é feliz e não se deixa levar pelas “paixões”, ou seja, livre de qualquer perturbação,
tranquilidade de alma e independência interior. Para os estóicos há a concepção de um homem universal que, segundo eles, é uma questão
natural.
  
Já homem medieval é aquele que conhece, busca informação procurando saber e sendo influenciado. Ele é o centro e todo o seu caminho é
determinante porque é necessário “algo mais”. Ele é o que olha para o alto. O caminho filosófico não é suficiente para chegar a Deus, pois para
Santo Agostinho o Espírito se revela ao homem. A virtude da caridade mantém o homem numa “reta” ordem, ou seja, esta prática é
fundamental e há uma relação de reciprocidade, pois com Deus mantenho uma relação sem anulação. Mas nesse contexto, Santo Tomás é mais
racional. O homem precisa aprimorar sua maneira de ver as coisas, pois tudo está Nele! Se o raciocínio do homem o faz afastar-se da verdade é
sinal que algo está errado com a razão, pois há uma referência a alcançar.
 
Entretanto, no Renascimento há uma ruptura, pois o homem não viabiliza a elevação individual, ou seja, a concepção de homem mudou-se
completamente. Aqui ele é mau por natureza e sua moral é relativa e pragmática, sua ação visa o fim sem pensar nos meios, ou seja, é uma
questão prática de resultado. Se antes existia uma moral normativa aqui acontece o contrário, pois o homem do renascimento deve separar a
moral particular da moral pública/política. A educação é voltada a esse fim e há toda uma conjectura social também.
 
Mas e atualmente, qual a concepção de ser humano. Qual é a sua concepção? A maioria dos pensamentos atuais formulados pela nossa
sociedade são frutos de pensamentos de outrora, problemas que já foram tratados em diferentes épocas voltam a ser tratados em nossa
sociedade atual, mostrando que esses conteúdos possuem excelência muito humana para ser entendido pelo ser humano. Ainda assim a
concepção do homem sempre anda lado a lado com a educação (como meio e meta) e a sociedade apontando um homem idealizado.
 
Logo, concluímos que existem diversas concepções de ser humano, num mesmo período histórico, num mesmo país e até numa mesma
organização de trabalho, e conhecer essas diversas concepções facilitam uma prática profissional.
 
Entre mitos e concepções
16/12/2024, 11:22 Psicologia nas organizações - Unidade 1
https://ava.faculdadeimes.org.br/mod/book/tool/print/index.php?id=31456&chapterid=26156 1/4
Sabemos que a filosofia nasceu de uma ruptura com os mitos, quando antes de questionar a realidade filosoficamente (racionalmente), os
gregos buscaram diversas explicações para o mundo em que vivia nos mitos que, de algum modo, mesmo sem utilizar conceitos racionais,
davam respostas a diversas indagações humanas: por que o mundo existe? Qual o sentido da vida? O que acontece após a morte? Por que
existe o maremoto? Essas questões e outras encontravam nos mitos suas respostas. Os mitos possuem, deste modo, explicações sobre a
existência através de forças divinas, personagens religiosos e as lógicas de sentido da vida.
 
Veja a Fábula de Higino que ajudou na compreensão humana dos romanos antigos, similar à dos hebreus (presente no livro bíblico do Gênesis)
e dos gregos, acerca do ser humano e seu destino:
Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma ideia inspirada. Tomou um
pouco de barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado
pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome
à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado
discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro,
material do corpo da terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo, pediram a Saturno
que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: «Você, Júpiter, deu-lhe o espírito;
receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá,
portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer.
 
A importância de um mito como esse se deve que dele se apreende que o ser humano é ser feito de barro (terra), o que mostra sua fragilidade,
sua precariedade e mortalidade, e por isso, devemos cuidar de nós mesmos, buscar meios que fortaleçam nossa condição frágil.  Que somos
compostos de certo poder, pelo espírito e mente, mas entretanto somos frágeis. Ou seja, mesmo que esse tipo de discurso não seja filosófico
ou científico, fornece um modo de compreensão da natureza do homem.
 
Tais preocupações acompanharam o filósofo Sócrates (469-399 a.C) que se perguntava racionalmente pela essência humana, em termos do que
a diferenciava dos outros seres do mundo: o que faz o ser humano ser quem ele é, diferente do cavalo, da pedra e dos deuses? E ainda: a
essência do homem é aquilo que, se for retirado do ser humano, aniquila sua identidade. Assim, Sócrates e seu discípulo Platão (427-347 a.C.)
tentaram saber qual é a sua essência, qual é o elemento que, se for retirado do homem, destrói sua natureza. Havia nos gregos uma noção de
dinamismo e com a pluralidade dos seres do mundo, e ao mesmo tempo uma noção de essência. Desse modo, os gregos criaram seu modo de
entendimento de quem é o ser humano.
 
Com Platão, os gregos antigos conseguiram encontrar uma resposta para a pergunta: quem é o homem: assim como o mundo possui uma
dimensão transitória e outra permanente, o homem, enquanto um dos seres do mundo, também possui uma dupla dimensão. A dimensão
transitória do homem é o corpo. Através do corpo, os seres humanos sentem os sabores dos alimentos e a espessura dos objetos, por exemplo.
É o corpo, então, que se relaciona com a dimensão transitória do mundo e neste sentido, o corpo humano é o que faz com que o ser humano
seja mortal.
 
Entretanto, Platão entendia que o homem não é somente corpo e que há algo neleque não é transitório: a alma. Nela está o nosso corpo, mas
não se confunde com ele, daí uma dupla dimensão desse ser humano: Se o corpo capta os seres transitórios por meio dos sentidos, a alma
capta a essência eterna das coisas por meio da razão. Isso quer dizer que o nosso corpo capta o transitório, mas nossa razão consegue ir para
além do transitório e captar o que é eterno.
 
Foi assim que os gregos definiram o homem como animal racional, um animal que tem uma dimensão transitória, que nasce, cresce e morre,
mas que diferencia dos animais por ter a razão, por ser constituído de corpo e de alma. Aliás, para Platão essa alma seria imortal e poderia
transmigrar, ou mudar de corpos através dos tempos.
 
De modo diferente dos gregos e romanos antigos, a influência religiosa cristã concebeu o ser humano não somente através da razão, mas a
partir da Bíblia considerada Sagrada Escritura, entendeu o ser humano como um corpo habitado por uma alma, um corpo é transitório e
mortal, e a alma é imortal. Entretanto, surgiu uma ideia singular da natureza humana:
 
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, conforme a nossa semelhança; tenha
ele o domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra
e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de
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Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos,
enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que
rasteja pela terra. (Gênesis 1, 26-28) Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem,
para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com
que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e
bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas
veredas dos mares. O SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra! (Salmo 8, 4-9)
Para o homem medieval, o ser humano é imagem e semelhança de Deus. A grandeza de Deus de algum
modo está presente no ser humano. É neste sentido que o ser humano é a “coroa da criação”.
 
Deste modo, surge uma nova concepção segundo a qual o ser humano é imagem e semelhança de Deus, de modo que a grandeza de Deus de
algum modo está presente no ser humano, tornando-o ser humano a “coroa da criação”.
 
Concepções contemporâneas
Atualmente, segundo filósofos contemporâneos a nossa natureza ou o nosso ser é formado pelas relações sociais em que vivemos. Apesar de
os filósofos gregos, como Aristóteles (384-322 a. C.), terem afirmado que o ser humano é um ser social, eles acreditavam que nós temos uma
essência igual a dos demais seres humanos: somos animais racionais.
 
Esse é o caso de Karl Marx (1818-1883) que demostrou que o nosso ser é formado pelo lugar social que ocupamos e pelo que nós produzimos
nesta mesma sociedade. Se formos pobres, o nosso ser é diferente do ser dos ricos. Do mesmo modo, se somos negros pobres, somos
diferentes dos negros ricos. Quem vive em uma favela do Rio de Janeiro, vê a vida de um modo diferente dos ricos que moram nessa mesma
cidade. Basta pensar que aqueles que vivem nas ruas possuem corpos, doenças, desejos, medos, valores diferentes daqueles que são de classe
média.
 
Por outro lado, Marx mostra que nós nos construímos por meio daquilo que produzimos em nossa sociedade. Se trabalharmos como pedreiro
14 horas por dia, nosso ser será diferente daqueles que são jogadores de futebol e treinam 3 horas por dia. Mas isso não significa que todo
pedreiro seja igual. Se o pedreiro viver em um país rico, como a Alemanha, e tiver boas condições econômicas, ele será diferente de um
pedreiro que mora no Brasil, que precisa trabalhar umas 10 a 12 horas por dia para receber um salário mínimo por mês. Ora, como as
sociedades se transformam, mudam os seres humanos que nelas vivem. Por isso, todo ser humano é histórico: as pessoas se renovam com as
transformações da sociedade e a sociedade muda quando as pessoas a transformam.
 
Outro autor que traz uma concepção desafiadora foi Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise, que demostrou que o ser
humano não é essencialmente racional. Freud mostrou que o que orienta o homem são desejos inconscientes, os quais buscam sempre o
prazer. No entanto, a cultura em que vivemos regula os nossos prazeres. Por exemplo, uma criança deseja andar nua na rua. Os pais,
entretanto, não permitem que ela se comporte desse modo, porque a cultura a sociedade em que eles vivem não permitem que se ande nu nas
ruas. Desse modo, as normas sociais e culturais orientam a maneira como conduzimos os nossos desejos inconscientes. A nossa consciência,
então, é criada através da relação do nosso inconsciente com a cultura da qual fazemos parte.
 
Freud reflete que os nossos desejos inconscientes não vão embora por causa das leis sociais. Independente do modo como pensamos, o nosso
inconsciente muitas vezes deseja o contrário do que aquilo que a nossa consciência diz que deve ser desejado. Por mais que a nossa
consciência diga que não devemos desejar sexualmente pessoas casadas, muitas vezes, inconscien temente, nós as desejamos. Outro exemplo:
sabemos que não podemos comer comidas gordurosas, mas geralmente são os alimentos mais desejados por nós. Isso mostra que todo ser
humano vive uma grande cisão (divisão). Por um lado, somos seres orientados pelos desejos inconscientes, que buscam prazer. Por outro lado,
nossa consciência é for mada pelo modo como assimilamos as normas da nossa cultura e da nossa sociedade. Grande parte das vezes, a nos sa
cultura não permite que realizemos os nossos desejos e, por isso, ficamos frustrados. Orientados pelo inconsciente, não é a razão que nos
determina como pensaram os modernos. Somos seres que desejam e não somente seres que pensam. Nossos pensamentos são orientados
pelos nossos desejos e não o contrário.
  
Tentativas Integrativas de Concepções:
Embora haja diversas concepções de ser humano, há também tentativas de integrá-las em grandes blocos, deste modo podemos classificar em
três principais concepções do homem nas tradições filosóficas: A concepção metafisica, a naturalista, e a concepção histórico-social.
Salientamos que, mesmo que pareçam se contradizer, é possível que se veja nelas uma complementação acerca da complexidade que é o ser
humano.
16/12/2024, 11:22 Psicologia nas organizações - Unidade 1
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A concepção metafisica concebe o homem a partir de uma essência imutável, ou seja, um modelo eterno. Baseada na concepção platónica
(mundo das ideias) qual predominante na Idade Média, mas permanece valida para o pensamento filosófico religioso e teológico. Nessa
concepção se entende que existe um modelo de homem e somos as variações deste modelo. Pode ser considerada ainda, de caráter
“essencialista”.
 
A concepção naturalista foi predominante na Idade Moderna, e é fruto do pensamento de Descartes e Locke. O ser humano é visto como um
ser dualista, ou seja, a partir de um substancia pensante (alma) e outra biológica e corporal. o ser humano se torna um produto de
determinações naturais e não é mais tido como um ser autônomo, capaz de gerir seu próprio destino. É considerada também muito
“antropocêntrica” ou “humanista”.
 
A terceira concepção, a histórico-social, o homem é visto como um processo, valorizado na sua existência pessoal e concreta. Assim, entende-
se o ser humano como alguém ou algo no espaço e no tempo,  marcado pela sua singularidade e capacidade de realização de atividades. O
homem, como processo, é um ser em inacabamento, pois não nascepronto, não se nasce homem. Assim, se tornando um ser social em
convivência.
 
Ocorre que, todo conhecimento produzido em qualquer época, em qualquer área, traz consigo uma clara concepção do homem. Toda arte,
reflexão e ação do homem traz consigo esta enorme questão que não pode ser abandonada sem deixar para traz sem correr o risco de perder
uma grande e exclusiva atividade do homem: que é a capacidade de refletir sobre sua própria essência e existência. Por fim, tem a pergunta
que não se pode calar: por que estamos aqui? Por que fomos criados? Qual é o verdadeiro significado da vida? Como somos constituídos?
Todas essas questões, embora pareçam distantes e pertencentes aos filósofos e psicólogos, permeiam o mundo do trabalho e das
organizações.
 
Agora, vamos pensar na prática!
 
É muito provável que conheças algum teórico famoso da Psicologia e algum conceito que lhe chama muito a atenção. Agora tente refletir
sobre a aplicação desse conceito a sua prática profissional numa empresa ou organização.
 
Todos nós temos diversas concepções de ser humano, mesmo que não sejam sistematizadas e harmônicas entre si. Tente lembrar quais
concepções de ser humanos tens, iniciando com a frase “O ser humano é.....” Agora que fizeste isso, listando tudo que pensas sobre o ser
humano, tente imaginar como seria atuar com esses tipos em sua prática profissional numa empresa ou organização.
 
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