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Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. 1 doi: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v101i1e-190974 Artigo de Revisão Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da COVID-19 Relationship between ferritin levels and the prognosis of COVID-19 Elson Cavalcante Silva de Sousa Júnior1, Artur Pereira de França Medeiros1, Igor Vasconcelos e Silva1, Rafael de Freitas e Silva2 Sousa Júnior ECS, Medeiros APF, Silva IV, Silva RF. Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da Covid-19 / Relationship between ferritin levels and the prognosis of Covid-19. Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. 1. Discentes da Universidade de Pernambuco. Campus Garanhuns. ORCID: Sousa Júnior ECS - https://orcid.org/0000-0002-1063-343X; Medeiros APF - https://orcid.org/0000-0002-9210-8646; Silva IV - https://orcid.org/0000-0003-2411-198X. E-mail: elson.junior.015@gmail.com, artur-perei- ra@hotmail.com, igorvasc.silva@gmail.com. 2. Docente da Universidade de Pernambuco. Campus Garanhuns. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7343-5986. E-mail: rafael.silva@upe.br. Endereço para correspondência: Elson Cavalcante Silva de Sousa Júnior. Rua Capitão Pedro Rodrigues, 179 – São José, Garanhuns – PE: CEP: 55294310. RESUMO: O elevado nível de ferritina sérica tem sido associado à COVID-19 grave devido à sua estimulação por citocinas relacionadas com o processo inflamatório. Embora este aumento seja esperado, esta revisão propõe analisar o quão elevado o nível de ferritina pode estar relacionado com esta severidade. Nesta linha de pensamento, a hiperferritinemia na COVID-19 poderia ser um importante factor de previsão e outra forma de compreender as complicações da COVID-19 - coagulopatia, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Além disso, esta correlação tem sido vista como uma possível quinta síndrome entre as outras "síndromes hiperferritinêmicas", todas caracterizadas por ferritina sérica elevada; esta é uma comparação e análise pertinente em termos de tratamentos. Palavras-chave: Ferritina; COVID-19; Inflamação; Síndrome do desconforto respiratório agudo; Hiperferritinemia; Tratamentos. ABSTRACT: The high level of serum ferritin has been associated with severe COVID-19 due to its stimulation by cytokines related to the inflammatory process. Although this increase is expected, this review proposes to analyze how high ferritin can be related to this severeness. According to this premise, the hyperferritinemia on COVID-19 could be an important factor of prediction and another way to understand the complications of COVID-19 -coagulopathy, acute respiratory distress syndrome (ARDS). Furthermore, this correlation has been seen as a possible fifth syndrome among the other "hyperferritinemic syndromes", which are all characterized by high serum ferritin; this is an pertinent comparison and analyzation in terms of treatments. Keywords: Ferritin; COVID-19, Inflammatory process; Acute respiratory distress syndrome; Hyperferritinemic; Tratamentos. INTRODUÇÃO A doença do coronavírus-2019 (COVID-19) é uma enfermidade causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2)1, que se tornou uma pandemia com elevado número de mor- tes. Nesse sentido, os marcadores e preditores biológicos se tornaram importantes para que os quadros infecciosos fossem avaliados e tivessem as intervenções devidas. Um desses marcadores é a ferritina - proteína armazenadora de ferro, uma proteína de fase aguda da resposta imune que pode ser uma preditora do quadro do paciente, pois está independentemente associada ao mal prognóstico na COVID-192,3. Desse modo, a ferritina pode predizer o de- senvolvimento da síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), como também a gravidade dessa condi- ção3. Ou seja, serve como mais uma ferramenta para os profissionais de saúde avaliarem a adoção de medidas e 2 Sousa Júnior ECS, et al. Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da Covid-19 de medicações mais incisivas. Ademais, foi demonstrado que a ferritina pode não ser apenas uma consequência da inflamação, mas também ter um protagonismo nela. Nesse viés, ela é colocada como estimuladora da expressão do RNAm das interleu- cinas (IL) IL-1β, IL-6, IL-10, TNF-α, IL-12 - além de au- mentar algumas dessas no compartimento extracelular4. Desse modo, como foi visto que ela tanto é estimulada du- rante a inflamação, quanto pode estimular a produção de citocinas pró-inflamatórias, é de se acreditar que ela ajude a perpetuar o ciclo inflamatório - a exemplo das tempes- tades de citocinas, especialmente na COVID-19 severa. Com isso, é possível analisar a doença pelas duas perspectivas. Na que temos a ferritina como consequ- ência da infecção, ela pode ser vista como preditora e marcadora biológica. Dessa forma, ao perceber a eleva- ção característica de ferritina sérica nos infectados por SARS-CoV-2, pode-se compará-la com a das síndromes hiperferritinêmicas5 - conjunto de quatro condições clí- nicas que tem como sinal comum o alto nível de ferritina – e estabelecer parâmetros e comparações com terapias eficazes a essas síndromes que podem ser relevantes no tratamento de COVID-19. No que tange a essa proteína como perpetuadora inflamatória, demonstra-se como as diferenças entre essa doença e suas semelhantes pode existir. Problemas de coagulopatia em casos severos da COVID-19, por exemplo, são vistos com uma associação entre o D-dímero e a ferritina - o que pode direcionar para o uso de terapias anticoagulantes profiláticas6–8. Nesse contexto, o objetivo principal desse trabalho foi revisar os principais aspectos moleculares e fisioló- gicos da ferritina, que embasam seu uso como marcador prognóstico na COVID-19, além de destacar a possibili- dade da COVID-19 severa se encaixar como “síndrome hiperferritinêmica” e também a responder a tratamentos utilizados nessas síndromes. MÉTODO Para a construção desta revisão de literatura, foram consultadas, entre os meses de junho de 2020 e maio de 2021, as seguintes bases de dados científicas: NCBI/Pub- Med (National Center for Biotechnology), ClinicalTrials. gov e Google Scholar, além das diretrizes NIH (National Institute of Health). Utilizamos os seguintes termos: “COVID-19” combinado com “inflammation”, “cytokine storm”, “he- matology”, “IL-1” ou “IL-6”; “ferritin” combinado com “secretion”, “regulation”, “proinflammatory” ou “COVID 19”; “NRLP3 inflamasome activation” e “ARDS”. Foram incluídos artigos em português ou em in- glês que abordavam: aspectos moleculares da ferritina, como função, estrutura, regulação; SARS-COV-2 e seus mecanismos patológicos, além de manifestações clínicas e laboratoriais da COVID-19; síndromes hiperferritinêmi- cas e tratamentos utilizados nas mesmas. Foram excluídos artigos que não se adequavam em responder o objetivo em escopo e artigos a respeito de outras infecções virais. RESULTADOS Ao realizar a busca para a construção dessa revi- são narrativa, obteve-se cerca de 13833, dentre os quais 69 trabalhos foram selecionados, a partir da leitura do tí- tulo e resumo dos mesmos. Dentre esses, 24 foram prin- cipalmente abordados (Tabela 1) por atenderem a busca pela resposta do objetivo proposto. Tabela 1 - Título e características gerais dos principais artigos alvo presente no estudo Título Autor/ano Periódico Principais resultados Iron regulatory proteins in pathobiology Cairo G, Pietrangelo A. 2000 Biochem J As proteínas reguladoras de do ferro são parte chave no controle homeostase do ferro, atuando como sensores do ferro citoplasmático e controladoras da ferritina e do receptor de transferrina - o que causa elevação ou diminuição da tradução de ferritina. Isso acontece não só em resposta às flutuações do ferro lábil no organismo, mas também a fatores como o estresse oxidativo. Regulation of ferritin genes and protein Torti FM, Torti SV. 2002 Blood A tempestade de citocinas influencia na produçãoe secreção de ferritina de forma direta e indireta respectivamente: as citocinas per si estimulam o processo; as citocinas estimulam a produção de óxido nítrico que, por sua vez, induz a produção de ferritina. New functions for an iron storage protein: the role of ferritin in immunity and autoimmunity Recalcati S, et al. 2008 J Autoimmun A ferritina H tem efeitos imunossupressores - regulação negativa da hematopoiese - em humanos em decorrência da inibição da maturação de células B e supressão da proliferação de células T, por uma modulação da rede citocina-quimiocina. Assim, é demonstrado um complexo formado entre a ferritina H e o receptor de quimiocina CXCR4 que impede a ativação da quinase MAPK, importante no processo de proliferação, diferenciação e migração celular. continua 3 Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. continua Título Autor/ano Periódico Principais resultados Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China Huang C, et al. 2020 Lancet No estudo, o novo coronavírus foi visto por seus principais sintomas como febre, tosse e dispneia, além da criticidade que leva à internação em unidades de terapia intensiva com intervenção ou não de respiradores mecânicos. O acometimento e prognóstico dos pacientes se mostrou relacionado à idade; 59, 7 anos foi a média dos pacientes com COVID-19 severa e 64,6 anos daqueles que não sobreviveram. Na COVID-19 severa, foi notório o dano funcional de órgão, síndrome do desconforto respiratório agudo, dano renal agudo, dano cardíaco, disfunção hepática e suscetibilidade a infecções fúngicas e bacterianas oportunistas. Dysregulation of immune response in patients with coronavirus 2019 (COVID-19) in Wuhan, China Qin C, et al. 2020 Clin Infect Dis A maioria dos casos tinham contagens baixas de linfócitos, contagens altas de leucócitos e aumento da razão neutrófilo-linfócito, bem como baixas contagens de monócitos, eosinófilos e basófilos. Nos casos mais severos, foram encontrados níveis altos de citocinas inflamatórias. Em relação a células T, encontrava-se um número reduzido de células T helper (Th) e de memória, ao passo que a porcentagem de Th imaturas era elevado nos pacientes graves. The trinity of COVID-19: immunity, inflammation and intervention Tay MZ, et al. 2020 Nature Rev Immunol A tempestade de citocinas em resposta à infecção pelo SARS-CoV-2 causa sintomas de sepse que geram uma inflamação descontrolada, a qual é danosa a múltiplos órgãos e é causa de morte em 28% dos pacientes. Essa tempestade é, no estudo, um círculo vicioso (loop): o vírus causa a morte celular por piroptose devidos aos danos; a liberação de citocinas e quimiocinas acontece devido moléculas associadas a danos e padrões de reconhecimento celular serem liberadas com a piroptose; o recrutamento de células brancas, como macrófagos, pela inflamação causada ainda é seguida pela ativação do sistema imune adaptativo; a retroalimentação na tempestade de citocinas associada ao sistema imune agora ativado perdura até a infecção ser debelada. COVID-19 and coagulation: bleeding and thrombotic manifestations of SARS-CoV-2 infection Al-Samkari H, et al. 2020 Blood A incidência de tromboembolismo venoso confirmado foi de 4,8% - 3,1% em pacientes não críticos e 7,6% em pacientes críticos. A incidência de trombose arterial foi 2,8% - 1,2% em pacientes não críticos e 5,6% em pacientes críticos. A incidência de complicações trombóticas no geral do estudo foi 9,5% - 4,7% em pacientes não críticos e 18,1% em pacientes críticos. Na comparação dos parâmetros de coagulação e inflamação, os pacientes que apresentaram complicações trombóticas mostraram altas contagens de D-dímero, fibrinogênio, ferritina, proteína C reativa e pró-calcitonina. No estudo, esses fatores foram entendidos como preditores de complicações. Iron enhances generation of fibrin fibers in human blood: implications for pathogenesis of stroke Lipinski B, et al. 2012 Microsc Res Techn Os íons de ferro divalente alteram a molécula de fibrinogênio, o que acelera a polimerização dos monômeros de fibrina - a fibrina modificada se torna resistente à degradação fibrinolítica Mechanisms underlying FeCl3 - induced arterial thrombosis Eckly A, et al. 2011 J Thromb Haemost O FeCl3 demonstrou passar através da parede do vaso, o que não expõe as camadas mais internas, mas desnuda as células endoteliais e permite o contato entre os componentes da membrana basal e o sangue circulante, podendo iniciar a trombogênese. Serum ferritin as an independent risk factor for severity in COVID-19 patients. Lin Z, et al. 2020 J Infect A meta-análise indicou que altos níveis de ferritina sérica como um fator de risco independente associado ao desenvolvimento de SDRA em pacientes com COVID-19. Tabela 1 - Título e características gerais dos principais artigos alvo presente no estudo continuação 4 Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. Título Autor/ano Periódico Principais resultados C-reactive protein, procalcitonin, D-dimer, and ferritin in severe coronavirus disease-2019: a meta-analysis Huang I, et al. 2020 Therap Adv Respir Dis Demostrado por meta-análise que a proteína C-reativa (PCR), pró-calcitonina (PCT), d-dímero e a ferritina estão associadas pior prognostico de pacientes com COVID-19. Immunosuppressive a ferritina H tem p r o p r i e d a d e s i m u n o s s u p r e s s o r a s , demonstrando inibir a resposta de linfócitos estimulados com anti-CD3. Effects of melanoma-derived heavy-chain ferritin are dependent on stimulation of IL-10 production Christian P, et al. 2001 Int J Cancer A ferritina H tem propriedades imunossupressoras, demonstrando inibir a resposta de linfócitos estimulados com anti-CD3. Ferritin functions as a proinflammatory cytokine via iron-independent protein kinase C zeta/nuclear factor kappa B-regulated signaling in rat hepatic stellate cells. Ruddell RG, et al. 2009 Hepatology Este estudo definiu o papel da ferritina como mediador pró-inflamatório da biologia das células estreladas hepáticas atuando através da via de sinalização NF- kappaB Pro-inflammatory properties of H-ferritin on human macrophages, ex vivo and in vitro observations Ruscitti P, et al. 2020 Scient Rep Mostra a presença de FeH em biópsias de medula óssea de pacientes com Adult-onset Still’s disease (AOSD) complicados com síndrome de ativação dos macrófagos (SAM), enquanto FeL foi a forma predominante no soro desses pacientes Characteristics of inflammatory factors and lymphocyte subsets in patients with severe COVID‐19. Ni M, et al. 2020 J Med Virol Uma resposta pró-inflamatória, particularmente ao nível de IL ‐ 2R, IL ‐ 6, TNF ‐ α e CRP, foi associada a casos graves de COVID-19. A infecção por SARS ‐ CoV ‐ 2 afeta principalmente os linfócitos T, particularmente as células T CD8 +. The hyperferritinemic Syndrome: macrophage activation syndrome, Still’s disease, septic shock and catastrophic antiphospholipid syndrome Rosário C, et al. 2013 BMC Med. Síndromes hiperferritinêmicas são 4 condições clínica caracterizadas por febre, elevada ferritina sérica, atividade hiperinflamatória, tempestade de citocinas, com eventual desfecho de falência múltipla de órgãos COVID-19 gone bad: anew character in the spectrum of the hyperferritinemic syndrome? Colafrancesco S, et al. 2020 Autoimmun Rev O trabalho analisou caraterísticas semelhantes da COVID-19 com a síndromes hiperferritinêmicas, dentre elas: tempestade de citocinas, linfopenia, redução do número e atividade de NK, testes de função hepática anormais, coagulopaitia e hiperferritinemia. Além disso, outras semelhanças encontradas foram: febre, envolvimento de múltiplos órgãos e SDRA Recovery of severely ill COVID-19 patients by intravenous immunoglobulin (IVIG) treatment: a case series Mohtadi N, et al. 2020 Virology Série de casos com 5 pacientesem estado inicial de deterioração clínica da doença que receberam 0,3-0,5g/ kg IVIg por dia e que tiveram desfecho melhorado, sem progressão da doença. Ao realizar a intervenção observou o aumento da saturação de O2 de recuperação do número de respirações ao normal Effect of regular intravenous immunoglobulin therapy on prognosis of severe pneumonia in patients with COVID-19 Xie Y, et al. 2020 J Infect Estudo retrospectivo com 58 pacientes com COVID19 severa que receberam IVIg como terapia adjuvante. Foi observada correlação nos pacientes que receberam a intervenção, em até 48 horas de admissão na UTI, com a redução do uso e ventilação mecânica, diminuição do tempo de hospitalização e redução da mortalidade em 28 dias. Therapeutic plasma exchange in adults with severe COVID-19 infection Khamis F, et al. 2020 Int J Infect Dis Na série de casos, o uso de terapia de troca de plasma em pacientes com COVID-19 severa foi associado com melhores desfechos, como maior índice de extubação, menor mortalidade em 28 e melhora de parâmetros laboratoriais, como redução dos níveis de IL-6. PCR, D-dímero e ferritina. Interleukin-6 receptor antagonists in critically Ill patients with Covid-19 The REMAP-CAP Investigators 2021 N Engl J Med. Nesse ensaio clínico, o uso de anticorpos monoclonais antagonistas do receptor de IL-6 (tocilizumabe ou sarilumabe) em pacientes críticos com COVID-19, recebendo suporte na UTI, melhorou o desfecho dos mesmos, incluindo sobrevivência Tabela 1 - Título e características gerais dos principais artigos alvo presente no estudo continuação continua 5 Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. Título Autor/ano Periódico Principais resultados Tocilizumab in patients admitted to hospital with COVID-19 (RECOVERY): a randomized, controlled, open-label, platform trial Abani O, et al. 2021 Lancet O grupo que recebeu a intervenção com o tocilizumabe tinha maior probabilidade de alta do hospital em 28 dias. Além do mais, dentre os pacientes alocados no grupo intervenção, aqueles que não haviam recebido ventilação invasiva no início do estudo, tinham menor probabilidade de receber ventilação mecânica invasiva ou morrer. Anakinra for severe forms of COVID-19: a cohort study. Huet T, et al 2020 Lancet Rheumatol. Nessa coorte retrospectiva, anakinra reduziu a necessidade de ventilação mecânica invada e mortalidade entre paciente com formas graves de COVID-19 Interleukin-1 blockade with high-dose anakinra in patients with COVID-19, acute respiratory distress syndrome, and hyperinflammation: a retrospective cohort study Cavalli G, et al. 2020 Lancet Rheumatol. Coorte retrospectiva que inclui pacientes com COVID-19, SDRA moderada a grave e hiperinflamação (ferritina ≥900 ng / mL, PCR≥100 mg / L ou ambos) que eram tratados com ventilação não invasiva fora da UTI e que receberam tratamento padrão, o uso de anakinra foi associado a melhora clínica, com atenuação da inflamação sistêmica e melhora progressiva da função respiratória dos pacientes Tabela 1 - Título e características gerais dos principais artigos alvo presente no estudo continuação DISCUSSÃO Ferritina - Aspectos Moleculares A ferritina (FT) é uma proteína fundamental no armazenamento do ferro - armazena até 4500 átomos de ferro férrico – que macrófagos, hepatócitos e células de Kupffer secretam, apesar de sua via secretora ainda não estar totalmente clara9. É composta por 24 subunidades que se dividem em dois tipos: H (heavy) e L (light)10–13. A cadeia pesada é básica e possui atividade ferroxidase – necessária para a captação do ferro, oxida o Fe (II) em Fe (III)10,11; a leve é ligeiramente ácida e auxilia na hidrólise e formação do núcleo férrico11. A proporção entre esses dois tipos varia de acordo com o tecido em que se encontram e pode ser alterada a depender do estágio inflamatório ou infeccioso, além de outros fatores (xenobiótico e estresse oxidativo, por exemplo). Sendo a ferritina H (FTH) aque- la que é composta, em maior parte, pela subunidade H e a ferritina L (FTL) aquela predominantemente composta pela subunidade L10–14. Nesse aspecto, a subunidade L está presente, principalmente, no baço, no fígado e na medula óssea, e a subunidade H se encontra, predominantemente, no coração, rins, placenta e tecido tumoral11,15. Ademais, quando comparada à tecidual, a FT sérica é pobre em ferro, é constituída, majoritariamente, pela subunidade L e suas concentrações podem se alterar de acordo com a raça, sexo e idade. Os valores normais aceitáveis estão entre 30 a 300 ug/L em homens e entre 15 a 200 ug/L nas mulheres16–18. Regulação da proteína No RNAm da ferritina, tanto na cadeia H quanto na L, devido aos elementos responsivos ao ferro (IRE’s), na região 5’-UTR ligam-se as proteínas reguladoras de ferro (IRP’s) para regular sua tradução. Nessa situação, quando os níveis de ferro lábil celular estão baixos, as IRP’s se ligam aos IRE’s da FT e suprimem sua tradução; quando o pool de ferro lábil é alto, essas proteínas reduzem sua interferência no RNAm, o que eleva a produção19. Além do ferro, outros fatores podem interferir na capacidade de ligação das IRP’s ao RNAm. O estresse oxidativo, por exemplo, com a produção de espécies reativas de oxigê- nio (ROS), é capaz de inibir a atividade das IRPs, o que aumenta a produção de FT19. Bem como, modelos em ma- crófagos de roedores mostram que o óxido nítrico (NO), especialmente em sua forma oxidada (NO+), diminui a ligação da IRP-2 ao IRE, dessa forma, eleva, também, a tradução20,21. Mas também, a produção e secreção de FT pode ser aumentada por citocinas, como a interleucina- 1-β (IL-1β), o fator de necrose tumoral-α (TNF-α), IL-1α e a IL-614,22 (em níveis transcricionais, pós-transcricionais e traducionais). Além disso, as citocinas também induzem a produção de NO, o que aumenta a de FT de forma indi- reta14,19,20. Tais evidências demonstram que vias de infla- mação influenciam na expressão da ferritina. Ferritina e imunidade/sinalização Para o papel de molécula sinalizadora, é necessário que haja receptores específicos. Enquanto que vários tipos celulares, como os linfócitos T e B, apresentam receptores para a ferritina H, apenas as células hepáticas apresentam, receptores para ambas as cadeias12. A ferritina L extracelular é reconhecida pelo SCA- RA5, um receptor do tipo scavenger presente na superfí- cie de células humanas dos rins e do baço principalmente. Essa interação pode contribuir para obtenção de ferro por essa célula, pois esse receptor age entregando ferro ao ci- toplasma, onde são ativados IRE’s. Ainda assim, não está resolvido se o SCARA5 é um componente de receptor ferritinêmico único ou uma interação ferritina-scavenger comum23. Em outra mão, somente ferritina extracelular H foi capaz de se ligar, em ratos, ao domínio 2 de imuno- 6 Sousa Júnior ECS, et al. Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da Covid-19 globulina e mucina da família de células T (TIM-2), um receptor. Este, aparentemente, não possui um gene ortó- logo em humanos, apesar disso, o gene TIM-1 humano compartilha algumas funções iguais às dele12,13. A ferritina H pode suprimir a proliferação de célu- las T, e B, além de inibir a diferenciação, migração e tam- bém proliferação das células mieloides. Os mecanismos da realização dessas funções ainda não estão totalmente claros, mas podem participar desse processo: vias de sina- lização para receptores específicos de H-ferritina (como o TIM-2), indução da produção de IL-10 (que atuará re- duzindo a proliferação de células T) ou até mesmo pela down regulation do CD212,13,24. Cabe pontuar que a migração de células imunes e proliferação é conduzida por um sistema de citocinas-qui- micionas e a ferritina H possui um papel relevante nesse processo, pois foi demonstrado que ela pode se ligar ao receptor de quimocina CXCR4, formandoum complexo que impede a sinalização e ativação da MAPK, família que apresenta um importante papel na proliferação celu- lar, diferenciação e migração25. COVID-19 O novo coronavírus, o SARS-CoV-2, faz parte do gênero dos Betacoronavirus, assim como o SARS-COV (responsável pela epidemia da SARS), com o qual com- partilha 79,6% de sequência genômica idêntica26,27. Tal como este último, o SARS-CoV-2 infecta as células do hospedeiro através da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA 2) transmembrana, que funciona como um recep- tor alvo para a proteína spike do vírus26. Essa ligação, que possui afinidade mais alta do que a do SARS-CoV, gera uma cascata de eventos que culminará na endocitose do vírus26–28. Ao entrar na célula do hospedeiro, o patógeno se replica e como parte do seu ciclo, causa danos e morte às células infectadas. Ao que parece essa morte ocorre por piroptose, uma morte inflamatória celular programada, na qual há produção de fatores pró-inflamatórios como a IL- 1β e IL-1828,29. Então, com a piroptose, a célula libera moléculas associadas a danos (DAMP’s) e padrões moleculares as- sociados a patógenos (PAMP’s), que serão reconhecidos pelas células locais e culminarão na indução de inflama- ção, gerando citocinas e quimiocinas28. Assim, conse- quentemente, o vírus ativa o sistema imune inato e há o recrutamento de macrófagos e outras células brancas para conter a infecção, além do mais, as células apresentadoras de antígenos (APC’s) irão ativar o sistema imune adap- tativo. A atuação das células da imunidade, no local da infecção, irá ampliar a produção de citocinas pró-inflama- tórias e quimiocinas, conduzindo a um loop inflamatório de recrutamento e pró-inflamação28,30. Na maioria dos casos, o sistema imune consegue conter a infecção e o loop inflamatório cessa, levando à recuperação do indivíduo. Entretanto, em casos severos, onde a regulação imune falha e há um desbalanceamento do sistema imune, esse ciclo inflamatório pode conduzir à uma tempestade citocinas1,28. Quadro inflamatório Vários achados clínicos indicam a semelhança entre as infecções causadas pelo novo corona vírus e o SARS-CoV e MERS-CoV, como a febre, tosse seca, disp- neia e opacidades bilaterais em vidro fosco nas tomogra- fias computadorizadas (TC) de tórax. Além disso, assim como nesses outros quadros, o nível sérico de citocinas pró-inflamatórias é elevado31. As citocinas atuam em respostas inflamatórias e regulação imune, sendo importantes para a resolução e/ou limitação do processo infeccioso32,33. Porém, quando há uma resposta exacerbada nessa contenção, a alta de citoci- nas pode levar a mais prejuízos teciduais do que mesmo a uma resolução do problema32. A tempestade de citocinas é essa resposta hiperinflamatória descontrolada, produzida pelo sistema imune33. A citocinas IL-1β, IL-1RA, IL-7, IL- 8, IL-9, IL- 10, Fator Estimulador de Colônias de Granulócitos e Ma- crófagos (GM-CSF), IFNγ, o fator estimulador de colô- nias granulocitárias (G-CSF), IP10 (CXCL10), MCP1, MIP1A, e fator de necrose tumoral (TNFα) tiveram o au- mento, quando comparado a adultos saudáveis, detectado inicialmente nos plasmas de pacientes com a COVID-19, por Huang et al.31. O mesmo estudo demonstrou que as citocinas IL-2, IL-7, IL-10, G-CSF, IP10, MCP1, MIP1A, e TNFα eram mais proeminentes em pacientes de UTI do que em pacientes que não precisaram de UTI31. Adicional- mente, um estudo retrospectivo (n = 452) mostrou que as citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-6, TNF-α, a quimio- cina IL-8 e a anti-inflamatória IL-10 possuem níveis mais altos em pacientes com alta severidade do que nos com doença leve34. Aspectos clínicos preditivos e inflamatórios da ferritina Visto que a ferritina, tem sua secreção estimulada pela presença das citocinas inflamatórias IL-1β, TNF-α, IL-1α e a IL-614,22. Como já descrito, a IL-6, IL-1β, TNF-α estão elevadas nos pacientes com a COVID-19, princi- palmente em casos severos31,34. Desta forma, é possível que a ferritina seja uma indicadora de severidade desta patologia, estando intimamente relacionada com o quadro de hiperinflamação. Em uma metanálise de 25 estudos observacionais retrospectivos (n=5350)3, mostrou-se que a proteína C-re- ativa (PCR), pró-calcitonina (PCT), d-dímero e a ferritina estão associadas a um quadro pior, que inclui mortalidade, COVID-19 grave, SDRA e necessidade de cuidados em UTI em pacientes com COVID-19. A ferritina está inde- pendentemente associada a mau prognóstico (pno qual também considera a ferritina como um fator de infla- mação e não somente uma consequência deste processo. Macrófagos humanos foram tratados com ferritina e foi observado o aumento da expressão de genes das citocinas pró-inflamatórias IL-1β, IL-6 e TNF-α, em comparação às células não tratadas. Já nas células tratadas com FTH, houve o aumento significativo da expressão do RNAm de IL-1β, IL-6, IL- 10, TNF-α, IL-12 e NLRP3. Além disso, houve aumento de proteínas intracelulares NRLP3, IL-12 e IL-1β nestes macrófagos (tratados com FTH)4. As duas últimas tam- bém tiveram um aumento significativo da sua expressão no compartimento extracelular. Dessa forma, demonstrou o papel da ferritina na pró-inflamação, especialmente a FTH, ao passar que, a FTL não se mostrou efetiva em de- sencadear a ativação desses fatores inflamatórios4. Vale ressaltar a respeito do aumento do NLRP3, que é um receptor de sinalização do sistema imune inato4. Ele é um receptor de reconhecimento de padrões (PRR) que é ativado a partir do reconhecimento de DAMP’s e PAMP’s, pode sofrer ativação por uma ampla varieda- de de estímulos como infecções fúngicas, bacterianas e virais38,39. A ativação conduzirá à formação do inflamas- somo NRLP3, composto pelo sensor NRLP3, a proteína ASC e a procaspase-1. Assim, esse inflamassomo ativa a caspase-1 que clivará a pró-IL-1β e pró-IL-18, con- duzindo a expressão da forma madura destas, a IL-1β e IL-184,38,39. Após, isso há o desenvolvimento de vários mecanismos inflamatórios, culminando numa morte por piroptose, assim como aquela vista em vírus citopáticos, como o SARS-CoV-24,28. Devido à grande presença de macrófagos na região infeccionada, e, sendo estes um dos principais secretores (fontes) de ferritina9, é provável que a maior parte des- sa proteína venha dessas células. Em outro olhar, o dano celular causado pelo processo infeccioso é um possível protagonista nos altos níveis de ferritina sérica, o que con- diz com seu aumento durante os processos inflamatórios e com o mau prognóstico de doença. Essa ferritina sérica ao sair da célula danificada, libera parte de seu ferro, numa forma não ligada, o que é prejudicial à saúde40. Síndrome do desconforto respiratório agudo Então, com esse aumento exagerado de mediado- res inflamatórios, mais células inflamatórias serão recru- tadas para os pulmões, gerando alta infiltração e dano, que dificultará a hematose32. Comumente, a tempestade de 8 Sousa Júnior ECS, et al. Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da Covid-19 citocinas, no ambiente alveolar, leva ao desenvolvimen- to de lesão pulmonar aguda (LPA). Afinal, as seguintes citocinas pró-inflamatórias (IL-6, IL-8, IL-1 β, GM-CSF, ROS), assim como as quimiocinas (como a CCL2, CCL3, CCL-5, IP-10) contribuem para a SDRA32. A LPA é caracterizada por: infiltrado pulmonar bi- lateral, hipóxia, edema e dano intralveolar, além de infil- tração de neutrófilos e macrófagos (já mencionada). Essa condição pode progredir a uma mais severa (cuja a pres- são parcial arterial de oxigênio/fração inspirada de oxi- gêniofalha respiratória sis- têmica, apresentaram MAS ou desregulação imune. Além disso, já foi registrado em pacientes críticos a presença de anticorpos antifosfolipídios e coagulopatia, semelhantes ao estado de cAPS52. Sendo assim, é interessante buscar e comparar e resultados de terapias, que se mostram efeti- vas para a melhora destas síndromes, para assim, analisar sua eficácia contra a COVID-19 (Tabela 2). 9 Rev Med (São Paulo). 2022 jan.-fev.;101(1):1-12. Tabela 2 - Tratamentos para síndromes hiperferritinêmicas que também se mostraram eficazes na COVID-19 severa (tabela modificada de Rosário. C et al.11) A terapia corticoide é utilizada a fim de diminuir a hiperinflamação desencadeada por estas patologias. Estes fármacos conseguem diminuir a migração de leucócitos para as áreas inflamadas, inibem a vasodilatação e permeabilidade vascular nesses locais, além de modular as células T59. Acredita-se que a maioria desses efeitos anti-inflamatórios se devem à supressão da atividade de genes pró-inflamatórios, como o NF-Kb e AP-159. Os efeitos anti-inflamatórios dos corticoides se mostram importantes aliados na resolução da resposta hiperinflamatória sistêmica apresentada por pacientes com COVID-19 severa, o que leva a adoção dessa terapia internacionalmente53. A IVIg consiste na infusão de um produto, derivado do plasma, rico em imunoglobulinas combinadas de milhares de doadores. É usada no tratamento de imunodeficiências, condições autoimunes/inflamatórias e também já foi relatado seu uso, em modelos humanos, no combate a patógenos54,60,61. A justificativa para sua utilização seria a diminuição do estado inflamatório. Por meio de uma modulação da resposta imune, a IVIg bloqueia várias citocinas pró-inflamatórias, como a IL-6 (alta na patologia da COVID-19), neutraliza auto anticorpos, além de poder expandir as células T regulatórias61. De fato, uma série de casos com 5 pacientes com COVID-19 severa, que receberam 0,3-0,5g/kg de IVIg por dia, mostrou melhora da saturação de O2, das lesões pulmonares e acelerou a recuperação dessas, após a utilização dessa terapia55. Corroborando com o resultado desses casos, em um estudo retrospectivo, Yun Xie et al. revisou 58 pacientes com severa ou crítica COVID-19, que receberam aplicação de IVIg como terapia adjuvante. Nos pacientes em que a IVIg foi aplicada em até 48 horas de admissão na UTI, a terapia foi associada com a redução do uso de ventilação mecânica, diminuir o tempo de hospitalização e até reduzir a mortalidade em 28 dias54. Apesar desses resultados, devido à escassez de melhores e mais amplos estudos, a infusão de IVIg não específica para o SARS-COV-2 ainda não é recomendada para o tratamento da COVID-19 pelo painel de diretrizes Corticosteroides IVIg Purificação de sangue COVID-19 severa +++ 53 ++* 54–56 ++ 56–58 MAS +++ ++ ++ AOSD +++ ++ + cAPS +++ +++ +++ Choque séptico +/- +/- ++ +++ primeira linha de tratamento recomendada na literatura internacional, ++ tratamentos recomendados a partir de série de casos, ++* series de casos que mostram efeitos positivos de sua aplicação, mas as diretrizes de saúde ainda não recomendam devido à escassez de informação, + tratamento usado na prática clínica descrito em relatos de caso, +/- uso controverso na prática clínica do National Institutes of Health (NIH), exceto em ensaios clínicos53. As técnicas de purificação de sangue extracorpóreas são uma alternativa de terapia adjuvante para a diminuição do estado hiperinflamatório, podendo atuar em diferentes alvos, como na redução de PAMP’s, de citocinas pró-inflamatórias, de linfócitos ativados e até mesmo de toxinas dos patógenos62. Dentre dessas técnicas está a terapia de troca de plasma (TPE). Khamis et al.57 reportou, em pacientes com a COVID-19, índices maiores de extubação, menor mortalidade em 28 dias e melhora de parâmetros ventilatórios naqueles (n=11) em que a TPE foi aplicada, em comparação com o grupo controle (n=20), no qual não foi. Além disso, houve a melhora dos parâmetros laboratoriais, com diminuição de ferritina, IL- 6, D-dímero e PCR57. De fato, as terapias de purificação de sangue, especialmente a TPE, podem ser importantes aliadas para a melhora do estado hipercoagulante, redução de citocinas pró-inflamatórias como IL-1, IL- 6, TNF, G-CSF e, até mesmo, para reduzir a disfunção endotelial, que pode ser causada pela infecção, ao auxiliar na estabilização das membranas endoteliais55,57,58,63. Devido na AOSD haver uma superprodução de citocinas pró-inflamatórias, como a IL-1 e IL-6, fármacos anticorpos monoclonais antagonistas aos receptores dessas citocinas têm sido usados no tratamento dessa condição, como, por exemplo, o anakinra e tocilizumabe64,65. Paralelamente, a COVID-19 também (como já mencionado) apresenta uma alta significativa no nível dessas citocinas pró-inflamatórias31,34, que inclusive são importantes para regulação da ferritina, assim como a ferritina pode aumentar a expressão dessas4,37. Sendo assim, ensaios clínicos foram e estão sendo conduzidos com anticorpos monoclonais antagonistas de receptores de IL-1 e IL-6 (NCT04443881, NCT04603742 e NCT04330638) durante a patologia da COVID-19, para avaliar sua eficácia. Dentre os ensaios clínicos randomizados (ECR’s) com o tocilizumabe, a maioria realizada anteriormente não encontrou resultados positivos que favoreciam o uso 10 Sousa Júnior ECS, et al. Relação entre os níveis de ferritina e o prognóstico da Covid-19 de tocilizumabe em pacientes com a COVID-19, exceto o recente REMAP-CAP (n=353)66, onde mostrou melhores resultados pacientes adultos críticos com COVID-19. Nesse estudo, os participantes dos grupos tocilizumabe e sarilumabe (outro anticorpo monoclonal de IL-6) tiveram mais dias livres de suporte de órgãos em comparação com o grupo controle, além da melhora da sobrevida na análise de desfecho secundário66. Apesar desse resultado positivo, a metanálise no estudo do grupo RECOVERY67 desses 8 ECR’s anteriores não mostrou diferença significativa na mortalidade em 28 dias nos pacientes tratados com tocilizumabe, mesmo com a inclusão do REMAP-CAP. Porém, mais recentemente, nesse mesmo estudo do grupo RECOVERY67, foram randomizados 4116 pacientes (maior número amostral de ensaios conduzidos com tocilizumabe até o momento) adultos com hipóxia e inflamação sistêmica, 82% desses pacientes estavam utilizando corticoesteroides sistêmicos. No grupo que recebeu tocilizumabe, houve uma redução significativa na morte em 28 dias em comparação ao grupo que recebeu somente tratamento usual (31% vs 35%; razão de taxas 0,85; intervalo e confiança de 95%, 0,76- 0,94; p=0,0028)67. Além disso, o tocilizumabe também aumentou a probabilidade de alta hospitalar em 28 dias, quando comparado ao grupo controle (57% vs 50%; razão de taxas 1,22; 1,12–1,33; pdo dano celular causado por estes processos, que faz a célula liberar seu conteúdo de ferritina, e essa última, libera parte do seu ferro. Assim, dada à sua capacidade de ser regulada e também estimular a produção de citocinas pró-inflamatórias, é provável que a significativa elevação da ferritina conforme a gravidade da COVID-19 não é somente uma consequência da inflamação, mas também protagonista do processo inflamatório. Levando isso em conta, terapias de anticorpos monoclonais antagonistas de receptores de IL-1 e IL-6, principais citocinas pró- inflamatórias elevadas na COVID-19 e que também regulam e sofrem estimulação pela ferritina, merecem uma melhor atenção. Afinal, o robusto ECR (do grupo RECOVERY) do tocilizumabe mostrou sua eficácia quanto redução de mortalidade, o que o torna um importante aliado terapêutico. Já quanto ao anakinra ainda é necessário ter cautela e aguardar resultados de ensaios clínicos randomizados controlados. Ademais, a semelhança da COVID-19 severa com as síndromes hiperferritinêmicas e boa resposta às terapias aplicadas nessas síndromes, pode agregar possíveis estratégias de melhora de pacientes graves e diminuir o tempo de hospitalização. Por fim, a ferritina e suas propriedades pró-inflamatórias e imunomodulatórias devem ser melhores estudadas, para melhorar o entendimento das consequências de sua elevação e até mesmo, para o desenvolvimento de protocolos e possíveis estratégias terapêuticas. Agradecimentos: Agradecemos ao professor Dr. Rafael de Freitas e Silva pela orientação do nosso trabalho, instruindo-nos pelo cami- nho da produção científica e consumo adequado da ciência. Participação dos autores: Elson Cavalcante Silva de Sousa Júnior: desenvolvimento da ideia principal do texto, coleta de dados, desenvolvimento, redação, revisão e padronização das normas de acordo com a revista. Artur Pereira de França Medeiros: coleta de dados, desenvolvimento, redação, revisão e contextualização do texto. Igor Vasconcelos e Silva: revisão, tradução e formatação do texto. Rafael de Freitas e Silva: orientação do desenvolvimento, revisão e contribuição para a análise de dados. REFERÊNCIAS 1. Shi Y, Wang G, Cai X, et al. An overview of COVID-19. J Zhejiang Univ-Sci B. 2020;21(5):343-360. doi: 10.1631/ jzus.B2000083 2. Lin Z, Long F, Yang Y, Chen X, Xu L, Yang M. Serum ferritin as an independent risk factor for severity in COVID-19 patients. J Infect. 2020;81(4):647-79. doi: 10.1016/j.jinf.2020.06.053 3. Huang I, Pranata R, Lim MA, Oehadian A, Alisjahbana B. C-reactive protein, procalcitonin, D-dimer, and ferritin in severe coronavirus disease-2019: a meta-analysis. 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