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20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 1/10 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa Imunologia 1. Introdução Vimos anteriormente a imunidade inata e aprendemos como seus componentes celulares funcionam. Entretanto, quando falamos de ativação das células NK, mencionamos que uma das suas vias de ativação ocorria pela redução/ausência de moléculas do MHC classe I na superfície da célula infetada por vírus. Mas, o que é o MHC? Neste Tópico, vamos abordar em detalhes estas moléculas, que são necessárias para a apresentação de antígenos aos linfócitos T. Também vamos descrever as células apresentadoras de antígeno, que estão envolvidas na ativação de um subtipo de linfócito T, os linfócitos T CD4. Portanto, vamos inicialmente falar sobre o processamento de antígeno e sua apresentação para os linfócitos T. 2. Regras gerais do processamento de antígeno Até o presente momento, falamos muito de MHC, mas sem dar detalhes de sua estrutura e fisiologia dentro das células. Isto se fez necessário porque há vários detalhes que não podem ser abordados no início da disciplina porque, como você pode notar, já introduzimos os conceitos de muitas moléculas. Portanto, vamos falar das moléculas classe I e classe II do MHC neste Tópico, mas, antes, precisamos estabelecer alguns parâmetros para que a relevância destas moléculas na resposta imune possa ser entendida. Inicialmente, precisamos assimilar que os antígenos reconhecidos pelos linfócitos T são, na verdade, peptídeos de proteínas que foram previamente processadas e apresentados por outras células que tinham esta capacidade. Estas células são denominadas células apresentadoras de antígeno (ou “Antigen-Presenting Cells”, APCs). Entretanto, quando analisamos o teor do reconhecimento, na verdade, dentro desta sequência de aminoácidos que forma o peptídeo, o receptor da célula T (ou “T Cell Receptor”, TCR) de fato reconhece apenas poucos aminoácidos daquela sequência. Esta especificidade chega ao ponto de diferenciarmos uma célula T da outra através dos seus TCRs, onde a mudança de apenas um aminoácido do peptídeo faz com que ele deixe de ser reconhecido pelo primeiro clone e passe a ser reconhecido pelo segundo clone de célula T. De qualquer modo, fica claro aqui que os linfócitos T só reconhecem os peptídeos 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 2/10 apresentados pelas APCs do indivíduo onde estas células T foram geradas; ou seja, há uma restrição ao reconhecimento de peptídeos apresentados pelas próprias moléculas do MHC do organismo, que é conhecido como restrição ao próprio. Perfeito! Então, já sabemos que os linfócitos/células T reconhecem apenas peptídeos que são apresentados via MHC. Mas, ainda há mais detalhes: há duas classes de proteínas do MHC chamadas de classe I e classe II. Elas estão envolvidas na apresentação de peptídeos para subclasses de linfócitos/células T. As células T CD4 reconhecem peptídeos apresentados via MHC classe II, enquanto as células T CD8 via MHC classe I. Usualmente, as células T CD4 reconhecem peptídeos derivados do processamento de proteínas extracelulares, enquanto células T CD8 reconhecem peptídeos do processamento de proteínas presentes no citosol da célula. Porém, há alguns clones de células T (por exemplo, células NKT) que reconhecem lipídios ou glicolipídios apresentados pela molécula CD1, que é não-polimórfica (com pouca variação) e semelhante à molécula MHC classe I. Mas, estas células estão presentes em menor número e não são responsáveis pelos mecanismos predominantes de homeostase da resposta imune dentro do organismo. Portanto, nós vamos focar nas moléculas MHC classe I e II neste Tópico. Há mais um detalhe que será novamente mencionado neste Tópico: a expressão de MHC classe I e classe II não é idêntica nas células do nosso organismo. A expressão de MHC classe I ocorre em todas as células nucleadas; já a expressão de MHC classe II ocorre apenas numa categoria de células denominadas “células apresentadoras de antígeno”, as células que vamos descrever a seguir. Interação entre célula apresentadora de antígeno e célula T CD4. 3. As células apresentadoras de antígeno https://cead.uvv.br/conteudo/wp-content/uploads/2019/06/AULA_imu_top03_img02-768x576.jpg 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 3/10 As células apresentadoras de antígeno (APCs) têm a capacidade de processar e apresentar os peptídeos de proteínas nas suas moléculas do MHC. Elas desempenham duas funções muito importantes na ativação de linfócitos T: 1) Processam os antígenos a serem apresentados; 2) Fornecem o segundo sinal para ativação das células T (coestimulação). A apresentação de antígeno é aumentada pela exposição aos produtos microbianos, que são reconhecidos via TLRs, por exemplo. Quando isso acontece, as APCs expressam moléculas coestimuladoras, produzem citocinas e podem também expressar receptores de quimiocinas, estas últimas levando-as aos locais de infecção, amplificando a apresentação de antígenos às células T do local. Diferentes tipos de células podem exercer a função de APC para ativar células T naïve ou efetoras. Entre as células que são reconhecidas dentro da categoria de APC profissionais (APCs que expressam MHC classe II e moléculas coestimuladoras), encontramos macrófagos, células B e células dendríticas (DCs). Macrófagos, pela sua localização tecidual, são bons para apresentar antígenos às células T CD4 auxiliadoras diferenciadas (efetoras), durante a fase efetora da imunidade mediada por células. As células T CD4 efetoras produzem, então, IFN-γ que, por sua vez, ativa macrófagos, que produzem mais radicais livres e matam os micróbios. Células B estão localizadas nos órgãos linfoides e apresentam antígenos às células T auxiliadoras (helper) durante a resposta imune humoral. Graças às citocinas produzidas pelas células T, as células B se ativam, produzem anticorpos e podem trocar o tipo de classe de anticorpo produzido. As células dendríticas (DCs), que expressam a molécula CD11c na sua superfície, estão presentes nos órgãos linfoides e nos epitélios da pele e gastrointestinal, nas vias respiratórias e no interstício da maior parte dos órgãos parenquimatosos. Possuem projeções citoplasmáticas que se assemelham a dendritos, podem ser divididas em subtipos, de acordo com a expressão de alguns marcadores de superfície, e cada subtipo pode exercer funções distintas durante a resposta imune. A dificuldade em definição dos subtipos se encontra na plasticidade das DCs, pois as características atribuídas a um subtipo podem ser modificadas de acordo com o ambiente que estas se encontram ou com a resposta imune em vigor. Contudo, pode-se assumir que existem três subtipos principais: DC mieloides, plasmacitoides e linfoides. Mieloides são as DCs “clássicas” ou “convencionais”, pois foram as primeiras a ser identificadas e podem ser diferenciadas de monócitos circulantes. São as mais numerosas nos órgãos linfoides e geradas na medula óssea, de onde saem e povoam lentamente os tecidos. Após encontro com os micróbios, ativam-se e migram para os linfonodos drenantes, onde iniciam a ativação de linfócitos T. DC plasmacitoides lembram morfologicamente os plasmócitos, adquirindo a típica morfologia de DCs quando ativadas. Seus precursores são encontrados no sangue e estão presentes em pequenos números nos tecidos. As DCs linfoides expressam CD8α na sua superfície e são derivadas de precursores mieloides. De maneira geral, DCs mieloides são CD11b “high” (alta expressão de CD11b) e são as principais células indutoras de respostas T, DCs plasmacitoides são B220 highe são importantes na defesa contra vírus, e DCs linfoides (também chamadas DCs mieloides CD8-positivas) expressam CD8 e são as melhores em realizar a apresentação cruzada de antígenos (cross-priming). As DCs também podem ser divididas de acordo com seu estado de ativação em imaturas e maduras, onde as primeiras estão localizadas nos tecidos e, após ativação, tornam-se as segundas que migram para os linfonodos drenantes. Células de Langerhans estão presentes na epiderme e possuem longos processos citoplasmáticos, que acabam por ocupar 25% da superfície da epiderme, apesar de constituírem apenas 1% das células da epiderme. Sua função básica é captura, processamento e transporte de antígenos da pele ao linfonodo drenante. Contudo, isto 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 4/10 pode ocorrer mesmo na sua ausência. Os antígenos que são drenados da pele, mucosas ou trato respiratório são levados pelos vasos linfáticos, ou pelas APCs residentes nestes tecidos, até o linfonodo drenante, onde são apresentados às células T CD4. Antígenos que caem na circulação são processados no baço. DCs que captam o antígeno na pele/derme, maturam e migram para o linfonodo drenante, concentrando-se na região paracortical, área cheia de células T. Nestes locais, as DCs expressam os peptídeos das proteínas do micróbio que fagocitaram e também as moléculas coestimuladoras aos linfócitos T. Esta apresentação leva à ativação da resposta imune celular. Portanto, as DCs são as APCs mais efetivas para ativação de células T, pois estão localizadas estrategicamente nos pontos de entrada dos micróbios, expressam receptores que promovem a captura destes micróbios, assim como receptores que promovem a sua ativação, migram preferencialmente para a zona rica em células T do linfonodo e expressam altos níveis de moléculas coestimuladoras (quando maduras). Finalmente, DCs podem fagocitar antígenos de células tumorais ou infectadas por vírus e apresentá-los via MHC classe I, processo chamado de apresentação cruzada (“cross-presentation”), pois geralmente antígenos fagocitados são apresentados via classe II. Conforme mencionamos anteriormente, é importante lembrar que todas as células nucleadas expressam MHC classe I e, portanto, podem apresentar antígenos virais ou tumorais as células T CD8. Portanto, sabemos agora que há células especializadas na apresentação de antígenos para as células T CD4 ou T CD8. Agora, vamos aprender em detalhes as estruturas das moléculas que têm sido muito citadas: as moléculas do MHC. Célula B e a apresentação de antígenos. https://cead.uvv.br/conteudo/wp-content/uploads/2019/06/AULA_imu_top03_img03-768x768.jpg 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 5/10 Célula Dendrítica. 4. O complexo principal de histocompatibilidade (MHC) A descoberta do Complexo principal de histocompatibilidade (MHC) ocorreu quando cientistas estavam estudando a genética dos transplantes. Para estes estudos, houve a necessidade de se desenvolver camundongos isogênicos (geneticamente idênticos) e que são alogênicos entre linhas distintas. Então, enxertos de pele entre camundongos da mesma linhagem eram aceitos e, entre linhagens distintas, rejeitados. Portanto, havia genes que estavam envolvidos na compatibilidade de transplantes de tecidos entre indivíduos, ou genes de histocompatibilidade. Para identificar os loci envolvidos nestas respostas, foram criados, por cruzamentos entre duas linhagens isogênicas, camundongos congênicos, sendo que apenas um locus do genoma era distinto entre as linhagens parentais; todos os outros loci eram idênticos. Nos camundongos, o locus identificado estava no cromossomo 17 (em humanos, estão localizados no braço curto do cromossomo 6), contendo um grupo de genes para antígenos do sangue chamado “antígeno II” e, portanto, esta região foi chamada histocompatibilidade-2, ou H-2. Como apenas ocasionalmente ocorria recombinação dentro do locus H-2, isso indicava que os genes dentro deste locus estavam muito próximos uns dos outros. Existem genes homólogos aos do MHC de camundongos em todas as espécies de mamíferos. Contudo, para que os genes do MHC fossem descritos como genes que controlavam a resposta imune (genes da resposta imunológica, Ir), foram necessários outros 20 anos depois dos experimentos com transplantes de tecidos. Experimentos foram realizados em camundongos e cobaias, nos quais foi verificada a existência de genes dentro do locus do MHC que controlavam a habilidade de produzir anticorpos contra polipeptídios. Portanto, o MHC possui genes que traduzem para moléculas que diferem na sua habilidade de ligar e apresentar peptídeos. Destes experimentos, chegaram à conclusão que as células T reconhecem uma estrutura tridimensional que é composta pela associação peptídeo mais o MHC. Os genes do MHC que estavam envolvidos na rejeição a tecidos denominados H-2K, H-2D e H-2L (em camundongos), “Human Leukocyte Antigen” (HLA)-A, HLA-B e HLA-C (em humanos), e todos fazem parte do grupo de genes classe I do MHC. Já os genes que pertenciam ao grupo Ir dos camundongos (I-A e I- E) e seus homólogos humanos (HLA-DR, HLA-DP e HLA-DQ) foram agrupados na classe II de genes do MHC. Portanto, o locus do MHC é composto por dois tipos de genes (classe I e classe II), que apresentam grande polimorfismo dentro da população, e são expressos em codominância. As moléculas do MHC classe I estão presentes em todas as células nucleadas do indivíduo, enquanto as 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 6/10 MHC classe II estão expressas, maioritariamente, em células apresentadoras de antígeno. O conjunto de alelos do MHC presente em cada cromossomo é denominado haplótipo do MHC. Em humanos, como são heterozigotos, há dois haplótipos do MHC. Em camundongos isogênicos, há apenas um haplótipo. A estrutura básica das moléculas do MHC é composta por uma fenda ou sulco mais externo, onde se deposita o peptídeo e, na sequência, domínios similares aos domínios das imunoglobulinas, domínios transmembranar e citoplasmáticos; estes dois últimos ancoram a molécula do MHC à superfície da célula. Na região da fenda, encontra-se a região polimórfica do MHC, contendo aminoácidos que variam entre diferentes alelos de MHC, que estão próximos da região de ligação ao peptídeo. A fenda é formada pela região amino-terminal das moléculas do MHC, composta por duas α–hélices, localizadas sobre uma estrutura β–pregueada de aminoácidos. A região não-polimórfica de domínios “Ig-like” (ou semelhantes aos domínios das Imunoglobulinas) do MHC contém os sítios de ligação aos co-reptores CD4 ou CD8 das células T. As moléculas classe I consistem em duas cadeias de polipeptídios ligados não-covalentemente, a cadeia α (3 segmentos) e a β -microglobulina. Os aminoácidos dos dois primeiros segmentos amino-terminais da cadeia α (α1 e α2) se distribuem espacialmente para formar uma estrutura β- pregueada que sustenta duas α-hélices, formando, então, uma fenda fechada nas extremidades, onde se depositará o peptídeo. Como a fenda é fechada, apenas peptídeos com 8 a 11 aminoácidos podem se alojar. Os segmentos 1 e 2 são polimórficos, contendo aminoácidos distintos a cada um dos alelos. O segmento α3 dobra-se para formar um domínio “Ig-like”, sua sequência de aminoácidos é conservada entre todas as moléculas de classe I e é nesta região que se ligam as moléculas CD8. Finalmente, a cadeia α possui uma porção transmembranar e citoplasmática que ancora a molécula a superfície da célula. O gene para a cadeia β -microglobulina está localizado fora do locus do MHC e tem uma estrutura tridimensional similara um domínio da Ig. Para a correta montagem do MHC classe I, é necessária a presença do peptídeo e da cadeia β - microglobulina. Em linhagens de camundongos não-isogênicos (outbread) e em seres humanos, são expressas 6 moléculas MHC classe I distintas. As moléculas MHC classe II são formadas por duas cadeias polipeptídicas, α e β, e ambos os genes estão localizados dentro do locus do MHC. Os segmentos amino-terminais mais externos (α1 e β1) se dobram para formar uma estrutura tridimensional muito similar aos segmentos α1 e α2 do MHC classe I. Portanto, o segmento α1 dobra-se formando uma estrutura β-pregueada e uma α-hélice, assim como o segmento β1 e, juntos, formam, então, a fenda onde se ligará o peptídeo. Novamente, é nesta fenda que se encontram os resíduos polimórficos do MHC. Como esta fenda é feita a partir de dois domínios em cadeias distintas, as extremidades deste sulco são abertas, acomodando peptídeos maiores. Os segmentos α2 e β2 enovelam-se em estruturas “Ig-like” e não são polimórficos. Ao segmento β2 se liga a molécula CD4 da célula T. Finalmente, as cadeias possuem uma porção membranar e citoplasmática que as ancoram na superfície da célula. As moléculas do MHC têm capacidade de se ligarem a diversos tipos de peptídeos, ao contrário das ligações BCR/TCR com seus antígenos. Cada molécula do MHC tem apenas 1 peptídeo depositado em sua fenda, mas esta molécula tem capacidade para acomodar vários tipos de peptídeos. Portanto, basta ao peptídeo possuir alguns aminoácidos que possibilitem sua ancoragem dentro da fenda para que sejam apresentados. Uma vez expressas na superfície da célula, as moléculas do MHC têm uma vida relativamente longa, de horas a dias, otimizando as chances de contato entre APCs e células T. Como a conformação estrutural e a presença de alguns aminoácidos em certas posições do peptídeo bastam para que este possa ocupar a fenda e suas cavidades, pode ocorrer a apresentação de peptídeos que são próprios ao organismo. Mais ainda, como é essencial para estabilidade do MHC a presença do antígeno, todas as suas moléculas estão a apresentar peptídeos próprios, mesmo antes de uma infeção. Ou seja, quando pensamos na expressão das moléculas do MHC, devemos imaginar que as células 2 2 2 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 7/10 estão a expressar MHCs com peptídeos de proteínas do nosso próprio corpo (peptídeos próprios) e, quando ocorre a infecção, gradualmente, estas moléculas de MHC são substituídas por novas moléculas, que agora passam a expressar o peptídeo do agente agressor (peptídeos não-próprios). Após esta substituição dos peptídeos próprios pelos não-próprios, é que células T que reconhecem estes peptídeos entram em ação. Neste caso, quando as células T reconhecem o antígeno apresentado pelas APCs, estão a reconhecer alguns aminoácidos do MHC, conferindo restrição ao MHC, enquanto o reconhecimento de outros aminoácidos do peptídeo é responsável pela especificidade da resposta ou ligação do TCR. O locus do MHC contém os genes para classe I, classe II e uma série de outros genes que estão envolvidos na apresentação antigênica, como TAP, assim como genes para proteínas do sistema complemento e algumas citocinas (TNF-a e linfotoxina). Finalmente, algumas citocinas, como interferons, TNF-a, linfotoxina, atuam nas células, aumentando a expressão de moléculas do MHC. Algumas destas citocinas (IFN-γ) levam à produção de fatores de transcrição, que se combinam à CIITA (proteína ativadora da transcrição de classe II) e, portanto, levam à transcrição dos genes classe II do MHC. Agora, sabemos que a estrutura destas moléculas do MHC podemos aprender quais são as vias intracelulares que estão envolvidas desde a captura do antígeno até a apresentação de um de seus peptídeos nestas moléculas do MHC. Representação esquemática das moléculas MHC classe II e classe I. 5. Biologia celular do Proc Processamento do antígeno O processamento de antígenos endocitados (ou seja, que vêm de fora da célula) ocorre da seguinte maneira: a internalização de micróbios ou proteínas é dependente do reconhecimento de estruturas presentes nestes micróbios, ou de receptores para anticorpos ou complemento, ou mesmo pela própria expressão de anticorpos na superfície de células B que internalizam proteínas. Uma vez internalizadas nas células B, estas proteínas localizam-se em endossomos, enquanto micróbios fagocitados se localizam em fagossomos. A fusão do fagossomo com lisossomo produz o fagolisossomo. Dentro dos endossomos (que também se fundem aos lisossomos, formando endossomos tardios) e fagolisossomos, as proteínas sofrem proteólise, ou seja, são degradadas em peptídeos por enzimas que funcionam em pH ácido (entre 4.5 e 5). As proteases mais abundantes são as catepsinas, que quebram as proteínas em regiões tiol (grupamento R-SH) e resíduos 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 8/10 aspárticos. As moléculas do MHC classe II, quando o animal não está infectado, expressam peptídeos gerados de proteínas presentes no meio extracelular. As cadeias α e β do MHC (iremos discuti-las mais adiante) são sintetizadas no retículo endoplasmático granular (REG) e, após sua síntese, uma proteína não-polimórfica estará associada a elas, chamada cadeia invariante. Esta cadeia impede a ligação de peptídeos presentes no REG à fenda do MCH classe II. Do REG, as cadeias do MHC classe II são exportadas ao Golgi e, depois, aos endossomos tardios. A cadeia invariante também é importante neste direcionamento da vesícula exocítica ao endossomo tardio. Nos endossomos tardios, a cadeia invariante é quebrada em apenas um local, gerando um peptídeo de 24 aminoácidos (chamado Class II-Associated Invariant-chain Peptide, CLIP), que permanece na fenda do MHC classe II. Os endossomos tardios possuem uma molécula chamada H-2M (em humanos, HLA-DM) que retira o CLIP e facilita a adição de outro peptídeo na fenda do MHC classe II. Como as cadeias do MHC classe II só estão estáveis se o peptídeo estiver bem assentado em sua fenda, somente aquelas que se encontram neste estado sobreviverão o tempo suficiente para serem expostas na superfície da APC. As moléculas H- 2M (ou HLA-DM) não são expressas na superfície da APC. Como o MHC classe II está continuamente a ser expresso, o número de moléculas a carregar peptídeos idênticos é muito reduzido. Contudo, estima-se que com apenas 100 moléculas a expressar o mesmo peptídeo já seja o suficiente para levar à ativação da célula T. Pelas tolerâncias central e periférica, células T autorreativas são eliminadas ou suprimidas. Já o processamento de antígenos presentes no citossol das células se inicia pela degradação de proteínas que estão presentes nesta porção da célula. Estas proteínas são as próprias proteínas celulares ou proteínas geradas por vírus e micróbios que penetraram no citoplasma da célula. Por exemplo: listeriolisina é uma enzima produzida pela bactéria L. monocytogenes que permite o escape da bactéria do fagossomo para o citosol. As proteínas mutadas/super-expressas de tumores também podem ser apresentadas por esta via. O processo de digestão das proteínas do citosol começa no proteosoma, organela citoplasmática composta por diversas proteases. As proteínas a serem degradadas recebem vários polipeptídios de ubiquitina, que são reconhecidos na entrada do proteosoma. Nesta região, as ubiquitinas são removidas das proteínas, que são, então, linearizadas e rosqueadas para dentro do proteosoma. Quando as células são ativadas por IFN-γ, ocorre expressão de duas outras proteínas que se juntam ao proteasoma, LMP-2 e LMP-7, tornando o proteosoma maior e capaz de gerar peptídios de 6 a 30 aminoácidos, com aminoácidos básicos ou hidrofóbicos na região carboxi-terminal.Isto é necessário para futura inserção destes peptídeos na fenda do MHC classe I. Os peptídeos são transportados do citosol para dentro do REG via complexo TAP (Transporter-associated with Antigen Processing), que têm expressão aumentada após estímulo com IFN-γ. Este transporte é dependente de ATP e as TAP-1 e TAP-2 transportam preferencialmente os peptídeos contendo aminoácidos básicos ou hidrofóbicos na região carboxi-terminal. As TAPs estão ligadas não- covalentemente às moléculas classe I do MHC via a proteína tapasina. Quando as moléculas do MHC classe I são sintetizadas, seu dobramento correto é mantido por chaperonas, como calnexina e calreticulina. Estas recém-sintetizadas moléculas estão vazias e à espera que um peptídeo ocupe a fenda. Isto acontece após redução do tamanho do peptídeo ligado a TAP via a aminopeptidase ERAP. Uma vez formado o complexo MHC classe I mais o peptídeo, a molécula do MHC classe I passa pelo Golgi e é levada até a superfície da célula via uma vesícula exocítica. 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 9/10 Até este ponto, já aprendemos sobre as células apresentadoras de antígeno, como são as estruturas das moléculas classe I e II do MHC e como os peptídeos são inseridos nas suas fendas. Para encerrarmos este assunto, falta apenas compreender a relevância biológica da apresentação de antígenos. Células apresentadoras de antígeno. Apresentação via MHC classe I e reconhecimento pela célula T CD8. 6. Relevância biológica da apresentação de antígenos via MHC A apresentação de antígenos às células T é um ponto fundamental de controle para a correta ativação das células T helper (CD4+) ou T citotóxicas (CD8+). Ou seja, dependendo da classe do MHC em que o peptídeo é apresentado, ocorrerá o direcionamento do tipo de célula T a ser ativada que, por sua vez, pode levar à ativação e amplificação da resposta imune (células T CD4+) ou à destruição das células infectadas com vírus ou células tumorais (células T CD8+). A imunogenicidade (capacidade de induzir ativação da resposta imune) dos antígenos proteicos, portanto, será determinada pelas moléculas do MHC, uma vez que apenas os peptídeos ou epítopos que são capazes de se ligar fortemente a fenda do MHC (epítopos imunodominantes) serão capazes de ativar alguns clones de células T. Apesar de não detalharmos a apresentação de antígenos não-proteicos via moléculas CD1, é interessante mencionar que pode ocorrer o reconhecimento de antígenos lipídicos ou glicolipídicos por células T, apesar deste reconhecimento ser uma exceção à regra de reconhecimento de peptídeos pelas células T. As únicas células que são capazes de reconhecer estes tipos de antígenos são as células NKT quando estes antígenos lipídicos (Ex.: componentes da parede celular de micobactérias) são apresentados via moléculas não clássicas do MHC classe I https://cead.uvv.br/conteudo/wp-content/uploads/2019/06/AULA_imu_top03_img06-768x442.jpg 20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa https://ceadsaladeaula.uvv.br/conteudo.php?aula=intermediacao-entre-as-respostas-inata-e-adaptativa&dcp=imunologia&topico=3 10/10 chamadas CD1. Estas moléculas CD1, quando sintetizadas no REG, capturam lipídios intracelulares e são enviadas à superfície da célula. Em seguida, são endocitadas e, quando estas vesículas se fundem aos endossomos contendo lipídios de micro- organismos, as moléculas CD1 capturam estes novos lipídios e passam a expressá-los na superfície celular. As células NKT, após o reconhecimento destes antígenos, podem produzir citocinas que contribuem para a ativação da resposta imune. Ativação de células T helper e sua atuação. 7. Conclusão Neste Tópico (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2015), aprendemos conceitos essenciais que servem de ponte entre a imunidade inata e a imunidade adquirida. Pela compreensão de como a apresentação de antígenos proteicos ocorre, via moléculas do MHC presentes nas células apresentadoras de antígenos, podemos inferior qual subtipo de linfócito T será ativado e como/qual a resposta imune adaptativa será montada. Estes serão os assuntos dos demais tópicos da nossa disciplina. 8. Referências ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H. H.; PILLAI, S. Imunologia Celular e Molecular. 8a Edição ed. [s.l.] Elsevier Inc., 2015. https://cead.uvv.br/conteudo/wp-content/uploads/2019/06/AULA_imu_top03_img07-768x768.jpg