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20/03/2023, 15:07 Intermediação entre as respostas inata e adaptativa
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Intermediação entre as respostas inata e
adaptativa
Imunologia
1. Introdução
Vimos anteriormente a imunidade inata e aprendemos como seus componentes celulares
funcionam. Entretanto, quando falamos de ativação das células NK, mencionamos que uma das
suas vias de ativação ocorria pela redução/ausência de moléculas do MHC classe I na superfície da
célula infetada por vírus. Mas, o que é o MHC? Neste Tópico, vamos abordar em detalhes estas
moléculas, que são necessárias para a apresentação de antígenos aos linfócitos T. Também vamos
descrever as células apresentadoras de antígeno, que estão envolvidas na ativação de um subtipo de
linfócito T, os linfócitos T CD4. Portanto, vamos inicialmente falar sobre o processamento de
antígeno e sua apresentação para os linfócitos T.
2. Regras gerais do processamento de
antígeno
Até o presente momento, falamos muito de MHC, mas sem dar detalhes de sua estrutura e fisiologia
dentro das células. Isto se fez necessário porque há vários detalhes que não podem ser abordados
no início da disciplina porque, como você pode notar, já introduzimos os conceitos de muitas
moléculas. Portanto, vamos falar das moléculas classe I e classe II do MHC neste Tópico, mas,
antes, precisamos estabelecer alguns parâmetros para que a relevância destas moléculas na
resposta imune possa ser entendida.
Inicialmente, precisamos assimilar que os antígenos reconhecidos pelos linfócitos T são, na
verdade, peptídeos de proteínas que foram previamente processadas e apresentados por
outras células que tinham esta capacidade. Estas células são denominadas células apresentadoras
de antígeno (ou “Antigen-Presenting Cells”, APCs). Entretanto, quando analisamos o teor do
reconhecimento, na verdade, dentro desta sequência de aminoácidos que forma o peptídeo, o
receptor da célula T (ou “T Cell Receptor”, TCR) de fato reconhece apenas poucos
aminoácidos daquela sequência. Esta especificidade chega ao ponto de diferenciarmos uma célula
T da outra através dos seus TCRs, onde a mudança de apenas um aminoácido do peptídeo faz com
que ele deixe de ser reconhecido pelo primeiro clone e passe a ser reconhecido pelo segundo clone
de célula T. De qualquer modo, fica claro aqui que os linfócitos T só reconhecem os peptídeos
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apresentados pelas APCs do indivíduo onde estas células T foram geradas; ou seja, há
uma restrição ao reconhecimento de peptídeos apresentados pelas próprias moléculas do
MHC do organismo, que é conhecido como restrição ao próprio.
Perfeito! Então, já sabemos que os linfócitos/células T reconhecem apenas peptídeos que são
apresentados via MHC. Mas, ainda há mais detalhes: há duas classes de proteínas do MHC
chamadas de classe I e classe II. Elas estão envolvidas na apresentação de peptídeos para
subclasses de linfócitos/células T. As células T CD4 reconhecem peptídeos apresentados via
MHC classe II, enquanto as células T CD8 via MHC classe I. Usualmente, as células T CD4
reconhecem peptídeos derivados do processamento de proteínas extracelulares, enquanto
células T CD8 reconhecem peptídeos do processamento de proteínas presentes no citosol da
célula. Porém, há alguns clones de células T (por exemplo, células NKT) que reconhecem lipídios
ou glicolipídios apresentados pela molécula CD1, que é não-polimórfica (com pouca variação) e
semelhante à molécula MHC classe I. Mas, estas células estão presentes em menor número e não
são responsáveis pelos mecanismos predominantes de homeostase da resposta imune dentro do
organismo. Portanto, nós vamos focar nas moléculas MHC classe I e II neste Tópico. Há mais um
detalhe que será novamente mencionado neste Tópico: a expressão de MHC classe I e classe II não
é idêntica nas células do nosso organismo. A expressão de MHC classe I ocorre em todas as
células nucleadas; já a expressão de MHC classe II ocorre apenas numa categoria de células
denominadas “células apresentadoras de antígeno”, as células que vamos descrever a seguir.
Interação entre célula apresentadora de antígeno e célula T CD4.
3. As células apresentadoras de antígeno
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As células apresentadoras de antígeno (APCs) têm a capacidade de processar e
apresentar os peptídeos de proteínas nas suas moléculas do MHC. Elas desempenham duas
funções muito importantes na ativação de linfócitos T: 1) Processam os antígenos a
serem apresentados; 2) Fornecem o segundo sinal para ativação das células T
(coestimulação). A apresentação de antígeno é aumentada pela exposição aos produtos
microbianos, que são reconhecidos via TLRs, por exemplo. Quando isso acontece, as APCs
expressam moléculas coestimuladoras, produzem citocinas e podem também expressar
receptores de quimiocinas, estas últimas levando-as aos locais de infecção, amplificando
a apresentação de antígenos às células T do local. Diferentes tipos de células podem
exercer a função de APC para ativar células T naïve ou efetoras. Entre as células que são
reconhecidas dentro da categoria de APC profissionais (APCs que expressam MHC classe II e
moléculas coestimuladoras), encontramos macrófagos, células B e células dendríticas
(DCs). Macrófagos, pela sua localização tecidual, são bons para apresentar antígenos às
células T CD4 auxiliadoras diferenciadas (efetoras), durante a fase efetora da imunidade
mediada por células. As células T CD4 efetoras produzem, então, IFN-γ que, por sua vez, ativa
macrófagos, que produzem mais radicais livres e matam os micróbios. Células B estão
localizadas nos órgãos linfoides e apresentam antígenos às células T auxiliadoras (helper)
durante a resposta imune humoral. Graças às citocinas produzidas pelas células T, as células
B se ativam, produzem anticorpos e podem trocar o tipo de classe de anticorpo produzido.
As células dendríticas (DCs), que expressam a molécula CD11c na sua superfície, estão
presentes nos órgãos linfoides e nos epitélios da pele e gastrointestinal, nas vias
respiratórias e no interstício da maior parte dos órgãos parenquimatosos. Possuem
projeções citoplasmáticas que se assemelham a dendritos, podem ser divididas em
subtipos, de acordo com a expressão de alguns marcadores de superfície, e cada subtipo pode
exercer funções distintas durante a resposta imune. A dificuldade em definição dos subtipos
se encontra na plasticidade das DCs, pois as características atribuídas a um subtipo podem
ser modificadas de acordo com o ambiente que estas se encontram ou com a resposta imune
em vigor. Contudo, pode-se assumir que existem três subtipos principais: DC mieloides,
plasmacitoides e linfoides. Mieloides são as DCs “clássicas” ou “convencionais”, pois
foram as primeiras a ser identificadas e podem ser diferenciadas de monócitos circulantes.
São as mais numerosas nos órgãos linfoides e geradas na medula óssea, de onde saem e
povoam lentamente os tecidos. Após encontro com os micróbios, ativam-se e migram para
os linfonodos drenantes, onde iniciam a ativação de linfócitos T. DC plasmacitoides
lembram morfologicamente os plasmócitos, adquirindo a típica morfologia de DCs quando
ativadas. Seus precursores são encontrados no sangue e estão presentes em pequenos
números nos tecidos. As DCs linfoides expressam CD8α na sua superfície e são derivadas
de precursores mieloides. De maneira geral, DCs mieloides são CD11b “high” (alta
expressão de CD11b) e são as principais células indutoras de respostas T, DCs plasmacitoides
são B220 highe são importantes na defesa contra vírus, e DCs linfoides (também
chamadas DCs mieloides CD8-positivas) expressam CD8 e são as melhores em realizar a
apresentação cruzada de antígenos (cross-priming). As DCs também podem ser divididas
de acordo com seu estado de ativação em imaturas e maduras, onde as primeiras estão
localizadas nos tecidos e, após ativação, tornam-se as segundas que migram para os linfonodos
drenantes. Células de Langerhans estão presentes na epiderme e possuem longos processos
citoplasmáticos, que acabam por ocupar 25% da superfície da epiderme, apesar de
constituírem apenas 1% das células da epiderme. Sua função básica é captura,
processamento e transporte de antígenos da pele ao linfonodo drenante. Contudo, isto
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pode ocorrer mesmo na sua ausência. Os antígenos que são drenados da pele, mucosas ou
trato respiratório são levados pelos vasos linfáticos, ou pelas APCs residentes nestes
tecidos, até o linfonodo drenante, onde são apresentados às células T CD4. Antígenos que
caem na circulação são processados no baço. DCs que captam o antígeno na pele/derme,
maturam e migram para o linfonodo drenante, concentrando-se na região paracortical, área
cheia de células T. Nestes locais, as DCs expressam os peptídeos das proteínas do micróbio
que fagocitaram e também as moléculas coestimuladoras aos linfócitos T. Esta apresentação
leva à ativação da resposta imune celular. Portanto, as DCs são as APCs mais efetivas
para ativação de células T, pois estão localizadas estrategicamente nos pontos de
entrada dos micróbios, expressam receptores que promovem a captura destes micróbios,
assim como receptores que promovem a sua ativação, migram preferencialmente para a
zona rica em células T do linfonodo e expressam altos níveis de moléculas
coestimuladoras (quando maduras). Finalmente, DCs podem fagocitar antígenos de
células tumorais ou infectadas por vírus e apresentá-los via MHC classe I, processo
chamado de apresentação cruzada (“cross-presentation”), pois geralmente antígenos
fagocitados são apresentados via classe II. Conforme mencionamos anteriormente, é importante
lembrar que todas as células nucleadas expressam MHC classe I e, portanto, podem
apresentar antígenos virais ou tumorais as células T CD8.
Portanto, sabemos agora que há células especializadas na apresentação de antígenos para as células
T CD4 ou T CD8. Agora, vamos aprender em detalhes as estruturas das moléculas que têm sido
muito citadas: as moléculas do MHC.
Célula B e a apresentação de antígenos.
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Célula Dendrítica.
4. O complexo principal de
histocompatibilidade (MHC)
A descoberta do Complexo principal de histocompatibilidade (MHC) ocorreu quando
cientistas estavam estudando a genética dos transplantes. Para estes estudos, houve a necessidade
de se desenvolver camundongos isogênicos (geneticamente idênticos) e que são alogênicos entre
linhas distintas. Então, enxertos de pele entre camundongos da mesma linhagem eram aceitos e,
entre linhagens distintas, rejeitados. Portanto, havia genes que estavam envolvidos na
compatibilidade de transplantes de tecidos entre indivíduos, ou genes de histocompatibilidade.
Para identificar os loci envolvidos nestas respostas, foram criados, por cruzamentos entre duas
linhagens isogênicas, camundongos congênicos, sendo que apenas um locus do genoma era distinto
entre as linhagens parentais; todos os outros loci eram idênticos. Nos camundongos, o locus
identificado estava no cromossomo 17 (em humanos, estão localizados no braço curto do
cromossomo 6), contendo um grupo de genes para antígenos do sangue chamado “antígeno II” e,
portanto, esta região foi chamada histocompatibilidade-2, ou H-2. Como apenas ocasionalmente
ocorria recombinação dentro do locus H-2, isso indicava que os genes dentro deste locus estavam
muito próximos uns dos outros. Existem genes homólogos aos do MHC de camundongos em
todas as espécies de mamíferos. Contudo, para que os genes do MHC fossem descritos como genes
que controlavam a resposta imune (genes da resposta imunológica, Ir), foram necessários outros 20
anos depois dos experimentos com transplantes de tecidos. Experimentos foram realizados em
camundongos e cobaias, nos quais foi verificada a existência de genes dentro do locus do MHC que
controlavam a habilidade de produzir anticorpos contra polipeptídios. Portanto, o MHC possui
genes que traduzem para moléculas que diferem na sua habilidade de ligar e apresentar peptídeos.
Destes experimentos, chegaram à conclusão que as células T reconhecem uma estrutura
tridimensional que é composta pela associação peptídeo mais o MHC. Os genes do MHC que
estavam envolvidos na rejeição a tecidos denominados H-2K, H-2D e H-2L (em camundongos),
“Human Leukocyte Antigen” (HLA)-A, HLA-B e HLA-C (em humanos), e todos fazem parte do
grupo de genes classe I do MHC. Já os genes que pertenciam ao grupo Ir dos camundongos (I-A e I-
E) e seus homólogos humanos (HLA-DR, HLA-DP e HLA-DQ) foram agrupados na classe II de
genes do MHC. Portanto, o locus do MHC é composto por dois tipos de genes (classe I e classe II),
que apresentam grande polimorfismo dentro da população, e são expressos em codominância. As
moléculas do MHC classe I estão presentes em todas as células nucleadas do indivíduo, enquanto as
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MHC classe II estão expressas, maioritariamente, em células apresentadoras de antígeno. O
conjunto de alelos do MHC presente em cada cromossomo é denominado haplótipo do MHC. Em
humanos, como são heterozigotos, há dois haplótipos do MHC. Em camundongos isogênicos, há
apenas um haplótipo. A estrutura básica das moléculas do MHC é composta por uma fenda ou sulco
mais externo, onde se deposita o peptídeo e, na sequência, domínios similares aos domínios das
imunoglobulinas, domínios transmembranar e citoplasmáticos; estes dois últimos ancoram a
molécula do MHC à superfície da célula. Na região da fenda, encontra-se a região polimórfica do
MHC, contendo aminoácidos que variam entre diferentes alelos de MHC, que estão próximos da
região de ligação ao peptídeo. A fenda é formada pela região amino-terminal das moléculas do
MHC, composta por duas α–hélices, localizadas sobre uma estrutura β–pregueada de aminoácidos.
A região não-polimórfica de domínios “Ig-like” (ou semelhantes aos domínios das
Imunoglobulinas) do MHC contém os sítios de ligação aos co-reptores CD4 ou CD8 das células T.
As moléculas classe I consistem em duas cadeias de polipeptídios ligados não-covalentemente, a
cadeia α (3 segmentos) e a β -microglobulina. Os aminoácidos dos dois primeiros segmentos
amino-terminais da cadeia α (α1 e α2) se distribuem espacialmente para formar uma estrutura β-
pregueada que sustenta duas α-hélices, formando, então, uma fenda fechada nas extremidades,
onde se depositará o peptídeo. Como a fenda é fechada, apenas peptídeos com 8 a 11 aminoácidos
podem se alojar. Os segmentos 1 e 2 são polimórficos, contendo aminoácidos distintos a cada um
dos alelos. O segmento α3 dobra-se para formar um domínio “Ig-like”, sua sequência de
aminoácidos é conservada entre todas as moléculas de classe I e é nesta região que se ligam as
moléculas CD8. Finalmente, a cadeia α possui uma porção transmembranar e citoplasmática que
ancora a molécula a superfície da célula. O gene para a cadeia β -microglobulina está localizado
fora do locus do MHC e tem uma estrutura tridimensional similara um domínio da Ig. Para a
correta montagem do MHC classe I, é necessária a presença do peptídeo e da cadeia β -
microglobulina. Em linhagens de camundongos não-isogênicos (outbread) e em seres humanos,
são expressas 6 moléculas MHC classe I distintas. As moléculas MHC classe II são formadas por
duas cadeias polipeptídicas, α e β, e ambos os genes estão localizados dentro do locus do MHC. Os
segmentos amino-terminais mais externos (α1 e β1) se dobram para formar uma estrutura
tridimensional muito similar aos segmentos α1 e α2 do MHC classe I. Portanto, o segmento α1
dobra-se formando uma estrutura β-pregueada e uma α-hélice, assim como o segmento β1 e,
juntos, formam, então, a fenda onde se ligará o peptídeo. Novamente, é nesta fenda que se
encontram os resíduos polimórficos do MHC. Como esta fenda é feita a partir de dois domínios em
cadeias distintas, as extremidades deste sulco são abertas, acomodando peptídeos maiores. Os
segmentos α2 e β2 enovelam-se em estruturas “Ig-like” e não são polimórficos. Ao segmento β2 se
liga a molécula CD4 da célula T. Finalmente, as cadeias possuem uma porção membranar e
citoplasmática que as ancoram na superfície da célula. As moléculas do MHC têm capacidade de se
ligarem a diversos tipos de peptídeos, ao contrário das ligações BCR/TCR com seus antígenos. Cada
molécula do MHC tem apenas 1 peptídeo depositado em sua fenda, mas esta molécula tem
capacidade para acomodar vários tipos de peptídeos. Portanto, basta ao peptídeo possuir alguns
aminoácidos que possibilitem sua ancoragem dentro da fenda para que sejam apresentados. Uma
vez expressas na superfície da célula, as moléculas do MHC têm uma vida relativamente longa, de
horas a dias, otimizando as chances de contato entre APCs e células T. Como a conformação
estrutural e a presença de alguns aminoácidos em certas posições do peptídeo bastam para que este
possa ocupar a fenda e suas cavidades, pode ocorrer a apresentação de peptídeos que são próprios
ao organismo. Mais ainda, como é essencial para estabilidade do MHC a presença do antígeno,
todas as suas moléculas estão a apresentar peptídeos próprios, mesmo antes de uma infeção. Ou
seja, quando pensamos na expressão das moléculas do MHC, devemos imaginar que as células
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estão a expressar MHCs com peptídeos de proteínas do nosso próprio corpo (peptídeos próprios) e,
quando ocorre a infecção, gradualmente, estas moléculas de MHC são substituídas por novas
moléculas, que agora passam a expressar o peptídeo do agente agressor (peptídeos não-próprios).
Após esta substituição dos peptídeos próprios pelos não-próprios, é que células T que reconhecem
estes peptídeos entram em ação. Neste caso, quando as células T reconhecem o antígeno
apresentado pelas APCs, estão a reconhecer alguns aminoácidos do MHC, conferindo restrição ao
MHC, enquanto o reconhecimento de outros aminoácidos do peptídeo é responsável pela
especificidade da resposta ou ligação do TCR. O locus do MHC contém os genes para classe I, classe
II e uma série de outros genes que estão envolvidos na apresentação antigênica, como TAP, assim
como genes para proteínas do sistema complemento e algumas citocinas (TNF-a e linfotoxina).
Finalmente, algumas citocinas, como interferons, TNF-a, linfotoxina, atuam nas células,
aumentando a expressão de moléculas do MHC. Algumas destas citocinas (IFN-γ) levam à
produção de fatores de transcrição, que se combinam à CIITA (proteína ativadora da transcrição de
classe II) e, portanto, levam à transcrição dos genes classe II do MHC.
Agora, sabemos que a estrutura destas moléculas do MHC podemos aprender quais são as vias
intracelulares que estão envolvidas desde a captura do antígeno até a apresentação de um de seus
peptídeos nestas moléculas do MHC.
Representação esquemática das moléculas MHC classe II e classe I.
5. Biologia celular do Proc
Processamento do antígeno
O processamento de antígenos endocitados (ou seja, que vêm de fora da célula) ocorre da
seguinte maneira: a internalização de micróbios ou proteínas é dependente do
reconhecimento de estruturas presentes nestes micróbios, ou de receptores para
anticorpos ou complemento, ou mesmo pela própria expressão de anticorpos na
superfície de células B que internalizam proteínas. Uma vez internalizadas nas células B, estas
proteínas localizam-se em endossomos, enquanto micróbios fagocitados se localizam
em fagossomos. A fusão do fagossomo com lisossomo produz o fagolisossomo. Dentro dos
endossomos (que também se fundem aos lisossomos, formando endossomos tardios) e
fagolisossomos, as proteínas sofrem proteólise, ou seja, são degradadas em peptídeos
por enzimas que funcionam em pH ácido (entre 4.5 e 5). As proteases mais abundantes
são as catepsinas, que quebram as proteínas em regiões tiol (grupamento R-SH) e resíduos
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aspárticos. As moléculas do MHC classe II, quando o animal não está infectado, expressam
peptídeos gerados de proteínas presentes no meio extracelular. As cadeias α e β do
MHC (iremos discuti-las mais adiante) são sintetizadas no retículo endoplasmático
granular (REG) e, após sua síntese, uma proteína não-polimórfica estará associada a elas,
chamada cadeia invariante. Esta cadeia impede a ligação de peptídeos presentes no REG
à fenda do MCH classe II. Do REG, as cadeias do MHC classe II são exportadas ao Golgi e,
depois, aos endossomos tardios. A cadeia invariante também é importante neste
direcionamento da vesícula exocítica ao endossomo tardio. Nos endossomos tardios, a
cadeia invariante é quebrada em apenas um local, gerando um peptídeo de 24
aminoácidos (chamado Class II-Associated Invariant-chain Peptide, CLIP), que permanece na
fenda do MHC classe II. Os endossomos tardios possuem uma molécula chamada H-2M (em
humanos, HLA-DM) que retira o CLIP e facilita a adição de outro peptídeo na fenda do
MHC classe II. Como as cadeias do MHC classe II só estão estáveis se o peptídeo estiver
bem assentado em sua fenda, somente aquelas que se encontram neste estado
sobreviverão o tempo suficiente para serem expostas na superfície da APC. As moléculas H-
2M (ou HLA-DM) não são expressas na superfície da APC. Como o MHC classe II está
continuamente a ser expresso, o número de moléculas a carregar peptídeos idênticos é
muito reduzido. Contudo, estima-se que com apenas 100 moléculas a expressar o mesmo
peptídeo já seja o suficiente para levar à ativação da célula T. Pelas tolerâncias central e
periférica, células T autorreativas são eliminadas ou suprimidas.
Já o processamento de antígenos presentes no citossol das células se inicia pela degradação
de proteínas que estão presentes nesta porção da célula. Estas proteínas são as próprias
proteínas celulares ou proteínas geradas por vírus e micróbios que penetraram no citoplasma
da célula. Por exemplo: listeriolisina é uma enzima produzida pela bactéria L. monocytogenes
que permite o escape da bactéria do fagossomo para o citosol. As proteínas
mutadas/super-expressas de tumores também podem ser apresentadas por esta via.
O processo de digestão das proteínas do citosol começa no proteosoma, organela citoplasmática
composta por diversas proteases. As proteínas a serem degradadas recebem vários
polipeptídios de ubiquitina, que são reconhecidos na entrada do proteosoma. Nesta
região, as ubiquitinas são removidas das proteínas, que são, então, linearizadas e
rosqueadas para dentro do proteosoma. Quando as células são ativadas por IFN-γ, ocorre
expressão de duas outras proteínas que se juntam ao proteasoma, LMP-2 e LMP-7, tornando o
proteosoma maior e capaz de gerar peptídios de 6 a 30 aminoácidos, com aminoácidos
básicos ou hidrofóbicos na região carboxi-terminal.Isto é necessário para futura inserção
destes peptídeos na fenda do MHC classe I. Os peptídeos são transportados do citosol para
dentro do REG via complexo TAP (Transporter-associated with Antigen Processing), que têm
expressão aumentada após estímulo com IFN-γ. Este transporte é dependente de ATP e as
TAP-1 e TAP-2 transportam preferencialmente os peptídeos contendo aminoácidos
básicos ou hidrofóbicos na região carboxi-terminal. As TAPs estão ligadas não-
covalentemente às moléculas classe I do MHC via a proteína tapasina. Quando as moléculas
do MHC classe I são sintetizadas, seu dobramento correto é mantido por chaperonas,
como calnexina e calreticulina. Estas recém-sintetizadas moléculas estão vazias e à espera
que um peptídeo ocupe a fenda. Isto acontece após redução do tamanho do peptídeo ligado a
TAP via a aminopeptidase ERAP. Uma vez formado o complexo MHC classe I mais o
peptídeo, a molécula do MHC classe I passa pelo Golgi e é levada até a superfície da célula via
uma vesícula exocítica.
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Até este ponto, já aprendemos sobre as células apresentadoras de antígeno, como são as estruturas
das moléculas classe I e II do MHC e como os peptídeos são inseridos nas suas fendas. Para
encerrarmos este assunto, falta apenas compreender a relevância biológica da apresentação de
antígenos.
Células apresentadoras de antígeno.
Apresentação via MHC classe I e reconhecimento pela célula T CD8.
6. Relevância biológica da apresentação de
antígenos via MHC
A apresentação de antígenos às células T é um ponto fundamental de controle para a correta
ativação das células T helper (CD4+) ou T citotóxicas (CD8+). Ou seja, dependendo da classe do
MHC em que o peptídeo é apresentado, ocorrerá o direcionamento do tipo de célula T a ser
ativada que, por sua vez, pode levar à ativação e amplificação da resposta imune (células T CD4+)
ou à destruição das células infectadas com vírus ou células tumorais (células T CD8+). A
imunogenicidade (capacidade de induzir ativação da resposta imune) dos antígenos
proteicos, portanto, será determinada pelas moléculas do MHC, uma vez que apenas os
peptídeos ou epítopos que são capazes de se ligar fortemente a fenda do MHC (epítopos
imunodominantes) serão capazes de ativar alguns clones de células T.
Apesar de não detalharmos a apresentação de antígenos não-proteicos via moléculas CD1,
é interessante mencionar que pode ocorrer o reconhecimento de antígenos lipídicos ou
glicolipídicos por células T, apesar deste reconhecimento ser uma exceção à regra de
reconhecimento de peptídeos pelas células T. As únicas células que são capazes de reconhecer estes
tipos de antígenos são as células NKT quando estes antígenos lipídicos (Ex.: componentes da
parede celular de micobactérias) são apresentados via moléculas não clássicas do MHC classe I
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chamadas CD1. Estas moléculas CD1, quando sintetizadas no REG, capturam lipídios
intracelulares e são enviadas à superfície da célula. Em seguida, são endocitadas e,
quando estas vesículas se fundem aos endossomos contendo lipídios de micro-
organismos, as moléculas CD1 capturam estes novos lipídios e passam a expressá-los na
superfície celular. As células NKT, após o reconhecimento destes antígenos, podem produzir
citocinas que contribuem para a ativação da resposta imune.
Ativação de células T helper e sua atuação.
7. Conclusão
Neste Tópico (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2015), aprendemos conceitos essenciais que servem de
ponte entre a imunidade inata e a imunidade adquirida. Pela compreensão de como a apresentação
de antígenos proteicos ocorre, via moléculas do MHC presentes nas células apresentadoras de
antígenos, podemos inferior qual subtipo de linfócito T será ativado e como/qual a resposta imune
adaptativa será montada. Estes serão os assuntos dos demais tópicos da nossa disciplina.
8. Referências
ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H. H.; PILLAI, S. Imunologia Celular e Molecular. 8a Edição
ed. [s.l.] Elsevier Inc., 2015.
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