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AVANÇOS DO PENSAMENTO FILOSÓFICO E CIENTÍFICO No século XVII, o pensamento filosófico contribuiu para popularizar os avanços do pensamento científico. Para Francis Bacon (1561-1626), por exemplo, a teologia deixaria de ser a forma norteadora do pensamento. A autoridade, que constituía um dos alicerces da teologia, deveria, em sua opinião, ceder lugar a uma dúvida metódica, a fim de possibilitar um conhecimento objetivo da realidade. Para ele, o novo método de conhecimento – baseado na observação e na experimentação – ampliaria infinitamente o poder do homem e deveria ser estendido e aplicado ao estudo da sociedade. Partindo dessas ideias, chegou a propor um programa para acumular os fatos disponíveis e com eles realizar investimentos, a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade. O emprego sistemático da razão, do livre exame da realidade – traço que caracterizava os racionalistas, pensadores desse século, – representou um grande avanço para libertar o conhecimento do controle da religião, da tradição e, consequentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da natureza e da cultura. No século XVIII, enquanto a produtividade industrial alcançava altos níveis, o pensamento social também realizava seus voos rumo a novas descobertas. A pressuposição de que a história da humanidade possui uma lógica passível de ser apreendida abriu novas pistas para a investigação racional da sociedade. Esse enfoque, por exemplo, estava na obra de Vico (1668-1744), para o qual é o homem quem produz a história. Apoiando-se nesse ponto de vista, afirmava que a sociedade podia ser compreendida porque, ao contrário da natureza, ela constituía obra dos próprios indivíduos. Essa postura diante da sociedade, que encontra em Vico um dos seus expoentes, influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume (1711-1776) e Adam Fergusson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e amadurecida por Hegel e Marx. Entre os pensadores franceses desse momento histórico, encontramos um grupo de filósofos que procurava transformar não apenas as velhas formas de conhecimento, baseadas na tradição e na autoridade, mas a própria sociedade. Os iluministas, ideólogos da burguesia, posicionavam-se de forma revolucionária, atacavam com veemência os fundamentos da sociedade feudal, os privilégios de sua classe dominante e as restrições que esta impunha aos interesses econômicos e políticos da burguesia. A intensidade do conflito entre as classes dominantes da sociedade feudal e a burguesia revolucionária levou os filósofos, seus representantes intelectuais, a atacarem de forma impiedosa a sociedade feudal e a sua estrutura de conhecimento, e a negarem a sociedade existente. Combinando o uso da razão e da observação, os iluministas analisaram quase todos os aspectos da sociedade. Os trabalhos de Montesquieu (1689-1755), por exemplo, estabelecem uma série de observações sobre a população, o comércio, a religião, a moral, a família etc. O objetivo dos iluministas, ao estudarem as instituições de sua época, era demonstrar que elas eram irracionais e injustas, que atentavam contra a natureza dos indivíduos e, nesse sentido, impediam a liberdade do homem. Concebiam o indivíduo como dotado de razão, possuindo uma perfeição inata e destinado à liberdade e à igualdade social, e, se as instituições existentes constituíam um obstáculo à liberdade do indivíduo e à sua plena realização, elas, segundo eles, deveriam ser eliminadas. O conhecimento da realidade e a disposição de transformá-la eram, portanto, uma só coisa. O visível progresso das formas de pensar – fruto das novas maneiras de produzir e viver – contribuía para afastar interpretações baseadas em superstições e crenças infundadas, assim como abria um espaço para a constituição de um saber sobre os fenômenos histórico-sociais. A Sociologia possui uma posição peculiar na formação intelectual do mundo moderno. Os pioneiros e fundadores dessa disciplina se caracterizam pela participação mais ou menos ativa nas grandes correntes de opinião dominantes na época, seja no terreno da reflexão e da propagação de ideias, seja no terreno da ação. Conservadores, reformistas ou revolucionários aspiravam fazer do conhecimento sociológico um instrumento de ação. E o que pretendiam modificar não era a natureza humana em geral, mas a própria sociedade em que viviam. Existe, portanto, fundamento razoável para a interpretação segundo a qual a Sociologia constitui um produto cultural das fermentações intelectuais provocadas pelas revoluções industriais e político-sociais, que abalaram o mundo ocidental moderno. Se o pensamento científico sempre guarda uma correspondência com a vida social, na Sociologia, esta influência é particularmente marcante. Os interesses econômicos e políticos dos grupos e das classes sociais – que, na sociedade capitalista são divergentes – influenciam profundamente o pensamento sociológico. Na França, o operário passa a ter uma carteira de trabalho que o submete ao controle da Polícia; na Inglaterra, o operário que deixa seu patrão é passível de ser preso. As condições de trabalho são duras. A jornada é de pelo menos 12 horas e não há férias nem feriados. O trabalho das mulheres e das crianças é a regra. Praticamente começam a trabalhar desde a idade de seis anos. Somente, em meados do século XIX, surge na França e na Inglaterra uma regulamentação para o trabalho da mulher e das crianças. As consequências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento avassalador da prostituição, do suicídio, do alcoolismo, da mortalidade infantil, da criminalidade, da violência, de surtos de epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte da população. MOVIMENTOS SOCIAIS - CRISE URBANA E ESTADO Hélio F.L.N. Gama A efervescência dos movimentos sociais urbanos marca a sociedade capitalista contemporânea. Abordaremos o fenômeno como manifestações contestatórias da ordem social estabelecida – via reivindicações que, num primeiro momento, referem-se aos aspectos organizacionais da cidade – compreendendo a questão urbana mediante análise da lógica estrutural do desenvolvimento capitalista. Em outras palavras, a crise da cidade como matriz dos movimentos sociais urbanos. De acordo com Manuel Castells, em Cidade, Democracia e Socialismo, a crise urbana provém “da crescente incapacidade da organização social capitalista para assegurar a produção, gestão e distribuição dos meios de consumo coletivos necessários à vida cotidiana” (CASTELLS,1980:20) em seus múltiplos aspectos, como a questão dos transportes, saúde, moradia, educação etc. Essa crise não seria uma simples “deficiência” do sistema econômico; antes uma consequência necessária da lógica do sistema capitalista. O crescimento das cidades, nas sociedades capitalistas avançadas, está intimamente ligado à acumulação e concentração do capital monopolista, na medida em que os grandes centros urbanos desempenham duas funções básicas, ou sejam, a de mercado consumidor e de reserva de força de trabalho. No entanto, o desenvolvimento de um verdadeiro complexo econômico-social, que constitui a estrutura urbana, exige a disponibilidade de uma ampla gama de bens e serviços – transporte, saúde, moradia, educação – necessários à reprodução da força de trabalho e à viabilidade do sistema em seu conjunto. Esta é justamente a contradição estrutural, segundo Castells, que provoca a crise urbana. Os serviços requeridos pelo desenvolvimento do modo de produção capitalista não são suficientemente rentáveis para serem produzidos pelo próprio capital, com vista à obtenção de lucro. Daí a crise urbana como crise de serviços coletivos necessários à vida das cidades, a emergência e a natureza das reivindicações dos movimentos sociais e a intervenção do Estado para viabilizar o capitalismo em sua etapa avançada. A INTERVENÇÃO DO ESTADO A intervenção do Estado, portanto, não se constitui um mecanismo regulador neutro aplicadoa um sistema em desequilíbrio. Pelo contrário, na medida em que a tendência histórica nas sociedades capitalistas refere-se ao controle do aparelho de Estado por classes sociais econômica e ideologicamente dominantes, sua ação privilegiará aqueles setores essenciais à viabilização do desenvolvimento do modo de produção capitalista, em detrimento do conjunto dos interesses populares. No entanto, em que pese ser essa a tendência, a intervenção do Estado na questão urbana não é tão simples nem mecânica. Há necessidade de um invólucro da ação estatal, para que ela se apresente à população como “neutra”, acima dos interesses de classes. A forma como ela se apresenta e atua está intimamente ligada à correlação de forças das diversas classes em luta – na medida em que todos os setores da sociedade são atingidos pela ação do Estado como gerente dos serviços públicos estruturadores da vida cotidiana – e à natureza do sistema político dominante. Em uma democracia liberal, o Estado seria mais “sensível” às aspirações populares do que em regimes totalitários, como nas finadas ditaduras militares da América Latina, onde a instrumentalização do Estado pelo capital revelou-se de forma mais clara e ostensiva, bem como a utilização do poder coercitivo repressivo. Portanto, a intervenção do Estado no setor urbano, em vez de superar a crise estrutural que o desenvolvimento capitalista provoca, politiza e globaliza os conflitos urbanos, ao articular diretamente as condições materiais de organização da vida e do conteúdo de classes das políticas do Estado. A intervenção do Estado no tecido urbano das grandes cidades brasileiras ocorre de maneira diferenciada dos meios urbanos dos países centrais. Enquanto nas sociedades capitalistas avançadas a intervenção estatal se faz segundo critérios de não rentabilidade para o capital privado. no Brasil, a decisão é politicamente dependente. Francisco de Oliveira salienta tal aspecto em Seu ensaio: ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA O fenômeno de especulação imobiliária, longe de se constituir em um entrave ao dinamismo do sistema, encaixa-se perfeitamente no plano mais geral do binómio Estado/capital. O ritmo rápido do desenvolvimento urbano está condicionado pelas exigências de reprodução do capital, isto é, do ponto de vista espacial, as necessidades básicas dos trabalhadores — habitação, transportes, equipamentos coletivos, etc — dependem da lógica capitalista de localização e rentabilidade das empresas. Isso porque as variações dos terrenos se explicam, em grande parte, pela proximidade dos equipamentos públicos (ou a expectativa de sua implantação). Como consequência, assiste-se a segregação espacial da classe trabalhadora para a periferia da cidade, em condições de existência precária. Como destaca Sérgio de Souza Lima, em "Processo de urbanização e política urbana" , PRECARIEDADE DOS SERVIÇOS PÚBLICOS No entanto, a precariedade dos serviços públicos urbanos no Brasil, como o de transporte é latente, e tal situação vai engendrar movimentos sociais, por parte da população atingida, que vão colocar em xeque a própria legitimidade do Estado. José Álvaro Moisés e Verena Martinez-Alier, em seu ensaio "A revolta dos suburbanos", analisam as chamadas depredações "espontâneas" dos terminais ferroviários no Rio e São Paulo e orientam suas análises nessa direção, pois, de fato, esses movimentos representam uma clara reação das massas suburbanas diante da deterioração de suas condições de existência. Leia o que dizem esses autores: “Subordinadas ao domínio do Estado, é precisamente na prática da ação direta, mas coletiva, única forma de expressão possível no momento atual, que essas massas populares aprendem os limites e também as possibilidades de sua atuação. Cada explosão espontânea é seguida de controle, pelas forças de repressão; ao mesmo tempo, porém (e talvez por isso mesmo), constitui o ponto de partida para novas ações do mesmo tipo. Dessa perspectiva, a questão de sua espontaneidade se recoloca, mas de forma nova. Na medida que essa espontaneidade viabiliza alguma forma de ação, essas massas começam a experimentar sua própria potencialidade como força social e política. É a sua prática, desorganizada ou não, que coloca para elas a possibilidade de se fazerem presentes, com algum grau de vontade própria, diante do resto da sociedade”. (MOISÉS e MARTINEZ-ALIER, 1978:55) A precariedade das condições de vida das populações periféricas vai ensejar outras formas de manifestações peculiares e ampliar o seu leque de reivindicações (lote, água, luz, esgoto, escolas, postos médicos etc). Podemos notar que todos esses movimentos, explosivos ou não, põem em xeque o desempenho dos detentores dos aparatos estatais encarregados da gestão dos serviços públicos e, em efeito, o próprio Estado e sua natureza histórica de classe. O Estado tem que dar uma resposta imediata às reivindicações e revoltas das massas populares, mas o que ocorre, geralmente, é uma protelação do atendimento dessas necessidades e o emprego dos aparatos repressivos como elementos de persuasão à alteração da "ordem pública" e à política vigente. Nesse momento, cai a máscara ideológica do "Estado acima das classes", de "provedor" do conjunto da nação, e esta percepção da realidade não escapa às massas excluídas, na medida em que as contradições urbanas se tornam agudas e o potencial de contestação e insatisfação aumentam. Castells propõe a “via democrática para o socialismo” como proposta política mais consequente a ser encampada pelos movimentos sociais urbanos na formulação de um projeto político e em alinhamento com outras forças políticas que se batem na luta sindical. E em que consiste a “vida democrática para o socialismo?” Tratar-se-ia de chegar ao poder via os instrumentos que o Estado liberal democrático “burguês” considera legítimos, como o sufrágio universal. Seria a luta pela hegemonia ideológica no seio da sociedade, ou “(...) tomar o poder político para transformar o aparelho do Estado” nas palavras de Santiago Carrilo (apud CASTELLS, 1980:23). Em resumo, “A estratégia do socialismo em democracia consiste, precisamente, em apoiar-se nesses elementos progressistas que existem no Estado democrático (mesmo que sua presença seja hoje em dia subordinada à lógica da classe dominante) para combater e modificar uma estrutura geral dos aparelhos do Estado que carrega, implicitamente, uma série de mecanismos tendentes a desviar o exercício do poder a favor da classe capitalista”. (CASTELLS, 1980:29-30) Ao perceber os movimentos sociais urbanos como produtos da crise urbana segundo a lógica de um sistema social ancorado em valores de mercado, dialeticamente potencializa-se a possibilidade e a necessidade de atuação política e cidadã da sociedade organizada. Assim, apenas radicalizando os conceitos de democracia, cidadania e – por que não? – socialismo como utopia libertária, se faz possível conceber um Estado efetivamente justo, democrático e solidário em nível da concepção, formulação e execução de suas políticas públicas. O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA O que é Sociologia? Quando alguém pergunta "o que é Sociologia", geralmente a resposta obtida é: "o estudo da sociedade". Esta resposta se refere apenas ao significado etimológico da palavra, isto é: sócio = social; log(o) + ia = estudo; portanto, estudo do social. Dessa forma, poucos se lembram de dizer — de início — que se trata de uma ciência. Afirmar que a Sociologia é uma ciência implica dizer que ela possui um objeto de estudos próprio, analisado por meio de determinados métodos reconhecidos como científicos. O objeto de estudos é o problema da investigação que demarca um ramo de conhecimento ou disciplina científica, ou seja, o conjunto de fenômenos especificamente estudados por ela. Assim, se a Sociologia estuda o social, seu objeto é o conjunto dos fenômenos sociais, isto é, os vários aspectos da vida em sociedade e, sendo uma ciência, o conhecimento por ela produzido não se confunde com simples opiniões ou informações que possuímos sobreesse objeto. Deste modo, para que o conhecimento sobre a sociedade seja reconhecido como científico, deve resultar de uma análise cuidadosa, metódica e aprimorada da realidade social concreta. Portanto, podemos dizer que a Sociologia constitui um conjunto de conceitos, de métodos e de técnicas de investigação, produzidos para explicar a vida social, ou, em outras palavras, é o estudo científico da formação, da organização, da manutenção e da transformação da sociedade humana. A Sociologia não se limitou ao estudo das condições de existência social dos seres humanos. De acordo com o sociólogo Costa Pinto (1965), as transformações econômicas e sociais que assinalam a primeira metade do século XIX e o desenvolvimento do método científico noutros setores do conhecimento humano, paralelos à Sociologia, criaram, a esse tempo, as condições práticas e teóricas, históricas e filosóficas, para a organização da Sociologia como disciplina. O momento histórico em que a Sociologia começou a destacar-se como setor especializado de conhecimento, sistematizando-se como ciência, somente pode ser compreendido no quadro que liga a evolução intelectual às condições sociais do fim do antigo regime feudal e ao início da era industrial. Assim, não se pode separar a Sociologia das condições histórico-sociais de existência humana, nas quais ela se tornou intelectualmente possível e necessária. CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA A formação da Sociologia constituiu um acontecimento complexo para o qual concorreram uma conjunção de circunstâncias históricas e intelectuais e determinadas intenções práticas. O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico, que coincide com os derradeiros momentos da desagregação da sociedade feudal e com a consolidação da civilização capitalista. A sua criação não é obra de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenhavam em compreender as novas situações de existência que estavam em curso. (MARTINS, 1982). A Revolução Industrial foi um marco de uma nova era na história da humanidade, pois deu início a uma etapa de acumulação crescente da produção de bens e serviços, em caráter permanente e sistemático, sem precedentes, que ultrapassou o crescimento da produção das fábricas, envolvendo mudanças de ordem cultural, política e social, em uma verdadeira evolução social. A Sociologia surgiu nessa época, com a sociedade industrial, ou melhor, com os seus esboços. Surgiu quando do seu ventre nasceu o proletariado, e essa circunstância, quase sempre esquecida, é de importância decisiva para a compreensão de sua história, de seu método e de seus problemas de hoje. A profunda transformação da estrutura da sociedade ocasionada pela Revolução Industrial levou a mudanças na sociedade rural, com a destruição sistemática da servidão e da organização rural, centralizada na vila e na aldeia camponesa, e a consequente migração da população rural para os centros urbanos. Ela representou o triunfo da indústria capitalista dirigida pela burguesia, que foi pouco a pouco concentrando as máquinas, as terras e as ferramentas sob seu controle, convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores assalariados, sem quaisquer direitos ou garantias trabalhistas. Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalista implicava a desintegração de costumes e instituições, até então existentes, e na introdução de novas formas de organizar a vida social. CRISES ECONÔMICAS Como ressalta Albertine, a Revolução Industrial começou sob a bandeira da liberdade, que tinha um significado particular: permitir aos empresários industriais que se desenvolvessem e criassem novas formas de produzir e de enriquecer. Lutava-se contra os regulamentos, os costumes, as tradições e as rotinas, a fim de submeter a organização da sociedade aos desejos e interesses da burguesia. Progressivamente predominava o grupo dos empresários industriais. O nascimento do capitalismo foi marcado por graves crises econômicas e sociais, que atingiram, inicialmente, a Inglaterra, país onde se iniciou o capitalismo industrial, generalizando-se, em seguida, pela Europa. As primeiras crises sociais do capitalismo inglês evidenciaram problemas sem precedentes no setor rural, de onde os camponeses foram expulsos das terras nas quais trabalhavam há gerações. Os artesãos encontravam-se arruinados pelo crescimento da indústria e encontrava-se instalada uma luta social entre operários e capitalistas. É importante lembrar que grande parte dos operários era constituída por camponeses e artesãos que haviam sido expulsos das terras e das aldeias e amontoavam-se nas cidades em péssimas condições, vivendo em grande promiscuidade. A burguesia os considerava perigosos, embora úteis. A SOCIEDADE COMO OBJETO DE ESTUDO A profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise, ou seja, passava a se constituir em “problema”, em “objeto de estudos”, que deveria ser investigado. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas se preocupavam não eram homens de ciência ou sociólogos que viviam dessa profissão. Eram, antes de tudo, homens voltados para a ação, que desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. Tal fato significa que os precursores da Sociologia destacaram-se entre militantes políticos e entre indivíduos que participavam e se envolviam profundamente com os problemas de suas sociedades. Pensadores como Owen (1771-1851), William Thompson (1775-1853), Jeremy Benthan (1748-1832), só para citar alguns daquele momento histórico, podiam discordar entre si ao julgarem as novas condições de vida provocadas pela Revolução Industrial e as modificações que deveriam ser realizadas na sociedade, mas todos eles concordavam que ela produzira fenômenos inteiramente novos que mereciam ser analisados. O que eles refletiram e escreveram foi de fundamental importância para a formação de um saber sobre o social. A Sociologia constituiu uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela Revolução Industrial. Boa parte de seus temas de análise e de reflexão foi retirada da realidade vigente, como, por exemplo, a situação da classe trabalhadora, o surgimento da cidade industrial, as transformações tecnológicas, a organização do trabalho na fábrica etc. A formação da sociedade capitalista, que era uma estrutura social muito específica, impulsionou uma reflexão sobre a sociedade, suas transformações, suas crises, seus antagonismos de classe. As sociedades pré-capitalistas, bastante estáveis, apresentavam um ritmo lento de mudanças e não destacavam a sociedade como 'um problema' a ser investigado. Gostaríamos de salientar que, embora seja comum fixar o período da Revolução Industrial (supremacia do modo de produção capitalista na Inglaterra) como o compreendido entre meados do século XVIII até período semelhante do século XIX, as transformações econômicas ocorriam no ocidente europeu desde o século XVI, provocando desde essa época profundas modificações na forma de conhecer a natureza e de pensar a realidade. A partir desse período, os pensadores vão paulatinamente substituindo a visão sobrenatural por explicações racionais para os fatos. O uso da observação e da experimentação na exploração dos fenômenos da natureza possibilitava um grande acúmulo de registros dos fatos. Num espaço de cento e cinquenta anos – de Copérnico a Newton – a ciência passou por um notável progresso, mudando, até mesmo, o entendimento da localização do planeta Terra no cosmo. O estabelecimento de relações entre estes fatos ia possibilitando aos homens, dessa época, um conhecimento da natureza que lhes abria possibilidade de controlá-la e dominá-la. SOCIEDADE E SOCIOLOGIA O Homem e a Sociedade Suponhamos que você tivesse a oportunidade de afastar-se da terra para observar como vivem os homens, com um poderoso telescópio. O que você veria? Certamente você pensou em pessoas trabalhando, divertindo-se, desmatando, poluindo o meioambiente, estudando, dentre outros. Ao observar o mundo em sua volta, refletindo sobre seu próprio comportamento, o indivíduo percebe, de imediato, que as pessoas não vivem isoladas umas das outras. Ao contrário, a vida em comunidade implica uma permanente interação entre as pessoas que a compõem. SOCIABILIDADE HUMANA Segundo os cientistas que se dedicam a estudar a evolução da humanidade, o homem sempre viveu em agrupamentos e desenvolveu uma forma de vida comunitária, ainda que singela e primitiva, se comparada com as civilizações contemporâneas. Morando em cavernas ou palafitas, os bandos de caçadores e coletores desenvolveram uma vida social de modo a garantir a sobrevivência da espécie humana. Afinal, "A união faz a força", e foi esta união que permitiu ao homem a sua progressiva evolução, a partir de uma adaptação e atuação sobre o meio ambiente, muitas vezes hostil. Inúmeras pesquisas científicas levaram à conclusão de que é peculiar à natureza humana viver em grupos ou em sociedades. No entanto, algumas espécies animais também vivem em grupos e bandos, como, por exemplo, as formigas e os macacos. O que difere, então, o homem dos outros animais? Se você refletir um pouco, chegará à conclusão de que os homens desenvolveram a capacidade de raciocínio e que, agrupados, produzem cultura, enquanto os outros animais agem e se organizam apenas por instinto de sobrevivência e fatores hereditários. Retomando o exemplo das formigas, vemos que elas têm conservado, por milhões de anos, as mesmas características do seu agrupamento, enquanto os homens, por terem desenvolvido uma vida social e produzido cultura, têm apresentado formas de organização social as mais diversas, variando de tempos em tempos e de região para região. Assim, a vida em sociedade, ou sociabilidade, é indicativa da necessidade que temos de conviver com os nossos semelhantes. Como já afirmava Aristóteles, o homem é um animal político. Qual o sentido dessa célebre afirmação do filósofo grego? O homem, por jamais ter optado pela solidão como uma maneira rotineira de vida, convivendo com outros seres de sua espécie, envolve-se, querendo ou não, nos destinos de seu grupo. A necessidade que ele tem do grupo é uma constante, para sobreviver, propagar e perpetuar a espécie e para realizar-se plenamente como ser humano. Contudo, o homem não teria desenvolvido a sociabilidade humana sem uma característica fundamental na nossa espécie: a comunicação. Sem ela, a vida em sociedade seria impossível, pois os homens não poderiam relacionar-se. Prova disso, está no fato de que, nos primeiros agrupamentos humanos, os grunhidos e os gestos cumpriam a função da comunicação tal como a exercemos hoje. Dos grunhidos e gestos os homens foram desenvolvendo a linguagem, característica singular à espécie humana, pois a diferencia dos outros animais. Enquanto estes herdam, por meio dos instintos, a experiência da vida coletiva de sua espécie, os homens transmitem às novas gerações, por meio da educação pela linguagem, a experiência e os conhecimentos acumulados. Este é precisamente o significado e o papel da cultura de uma comunidade. Portanto, tanto quanto um animal político (social), podemos afirmar que o homem é eminentemente um ser cultural. Quando comumente afirmamos que “o homem não é uma ilha”, o que queremos dizer é que ele não pode ser considerado como um ser isolado, apenas pelas características de sua individualidade, pois ele não vive só, ele se relaciona em sociedade. Desde o momento em que nasce, até a sua morte, o homem depende de seus semelhantes para ser socializado, isto é, para aprender as normas de conduta, valores e comportamentos de vida em sociedade e para assimilar os conhecimentos técnico-científicos acumulados pela humanidade. Esta dependência recíproca gera a solidariedade humana, em seu sentido mais amplo. A roupa que vestimos, a comida que nos alimenta, a casa que habitamos, os utensílios que manuseamos, o trabalho que executamos, tudo, enfim, é fruto da contribuição de nossos semelhantes, da sociedade em que vivemos. A convivência em sociedade é elemento fundamental da vida humana. Compreender-se socialmente, como ator social de uma sociedade complexa, é o requisito necessário para o homem sair de uma posição passiva, acomodada, diante do mundo que o cerca, para uma postura participante, crítica, intervindo na esfera do social para a construção de uma sociedade mais fraterna, na qual as condições sócio-político-econômicas propiciem o desenvolvimento pleno das aptidões individuais. image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.png image13.png image14.png image15.png image16.png image1.png image2.png image3.png image4.png image5.png image6.png