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Eduardo Sterzi
aleijão
este livro foi selecionado pelo programa petrobras cultural
Neste livro, não há ilusões de refúgio ou exílio frente a um mundo
fundamentalmente violento: não apenas as ruas guardam sustos e
ameaças, mas a própria casa apareçe como “território inimigo”.
Nem mesmo a infância ou a família oferecem acolhida: deixou-se
para trás a “prisão do paraíso”, da qual restaram sobretudo cica-
trizes e feridas ainda abertas. Na cena da memória, que é, desde
sempre, também ficção (isto é, reinvenção e comunhão da exper-
iência), as mãos do pai “escondem-se, sanguinárias”. Irmãos se
revelam “exímios no embate dos abraços”. Amigos podem ser
“quase um país”, mas um país inexistente e imprestável. Mesmo o
contato amoroso é aqui – antes, e depois, de tudo – atrito, choque,
desgaste. Aleijão é o nome expressivo, e não isento de ironia, que o
auor encontrou para o que sobrevive a tanto desastre, a tanta dev-
astação – seja isso homem ou livro.
Esta ênfase na negatividade mais funda não nasce de algum gozo
perverso com o mal-estar da civilização contemporânea, mas, sim,
de uma dialética entre poesia e vida visceralmente pensada e en-
genhosamente posta em práica. Se nossas casas, ecoando antigas
moradas romanas, continuam a alertar “cuidado com o cão” (“cave
canem”, como se lê ainda hoje nas ruínas de pompéia), o poeta, de
sua parte, pede, no pórtico deste livro, “cuidado AO cão / que
morde dentro”. Na sutileza da preposição alterada estranhante,
concentra-se a inteligência poética de Eduardo Sterzi. Se por um
lado é preciso precaver-se contra o perigo, por outro talvez
convenha alimentá-lo, já que ele, capurado no poema, pode repres-
entar o momento decisivo de uma antítese radical frente ao real
catastrófico e traumático. Sterzi sabe, com Hölderlin, que “onde há
perigo / cresce também a salvação”. Mas a radicalidade maior do
Aleijão está em deixar esta salvação, ou síntese, para depois do
poema, para depois do livro. Pois esta é uma poesia que, na sua
severa tensão, quer, antes de mais nada, comover: isto é, fazer com
que o leitor se mova consigo, para dentro e para fora do abismo.
4/145
Eduardo Sterzi nasceu em Porto Alegre em 1973 e vive em São
Paulo desde 2001. Seu primeiro livro, Prosa (2001), conquistou o
Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Autor-Revelação em
poesia. É autor também de dois volumes de estudos literários, Por
que ler Dante e a prova dos nove (ambos de 2008), além de ter or-
ganizado Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Cam-
pos (2006). É doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp
e realizou pesquisas de pós-doutorado na Universidade de São
Paulo e na Università degli Studi di Roma “La Sapienza”.
tu és um excremento
tu és um monte de lixo
tu vens para nos matar
tu vens para nos salvar
Canto de investidura real dos Mossi,
segundo René Girard, La violence et le sacré
BEM VINDO, aleijão:
à minha
imagem
foste feito
EM GERME
CUIDADO ao cão
que morde dentro
DE ONDE vim
é podre
e trago
em mim
pedaços
ESTE CADÁVER é nosso
almoço
Qual será a
sobremesa?
A OCASIÃO faz o cão
A escassez define nossos sonhos
Teatro é estarmos nus e não estarmos nus
PRECIPITOU-SE o esquema de fogos
(Não há feridos)
E MESMO O CÉU
é um deserto
COÁGULO
Se manifestamente per le finestre d’una casa uscisse
fiamma di fuoco, e alcuno dimandasse se là dentro fosse
il fuoco, e un altro rispondesse a lui di sì, non saprei
bene giudicare qual di costoro fosse da schernire di più.
DANTE ALIGHIERI, Convivio
es un telar de desdichas
cada gaucho que usté ve
JOSÉ HERNÁNDEZ, El gaucho Martín Fierro
CASA DE DETENÇÃO
Há tempos que eu já desisti
dos planos daquele assalto.
NEI LISBOA, Telhados de Paris
Porto Alegre acabou:
no abraço compulsório; no sonegado. No ponto morto dos dias,
das festas de família. Na tosse compartida, na asfixia. No óxido das
grades. No copo azul, solitário, de boca larga (conforme à sede her-
dada). No piano de teclas áfonas (atraente a cupins). Na enciclopé-
dia de fomes vermelhas (agora canceladas). No embate adiado. No
revólver sufocado. No inexprimido (embora exprimível). No
guardado.
Como escapar ao cárcere
do nome?
Todo retrato é autorretrato, e toda tatuagem. Todo escrito é regis-
tro de gasto, e é desgaste. Crime é silêncio. Fuga é sintaxe. Fogo
fluente de uma cela a outra (de resto, incomunicáveis). Persiste a
memória do desastre. A noite desova cadáveres neste quarto de
outra cidade. Acolhe a ratazana, em véspera de crias. Presume
clareza do espaço abandonado. Acabou. No abraço encardido,
acanhado.
Nasço velho deste abraço.
PRISÃO DO PARAÍSO
ex-
pele o coágulo,
secreta o
espesso
cúmulo de
vida-
e-morte
represado
nunca
suficientemente
limpo, nunca
ex-
pugnado
além da
superfície
fática
conclave de
xícaras,
prisão
do paraíso,
crescer sob
espécie
de árvore: o dito
pelo não
DEVASTAÇÃO
Aquele tronco
arrancado, tempo
inscrito em
círculos de
carne
estrangeira, vizinha
a mim, despenca
em mim.
Assim sepultá-lo, em
mortalha de
vísceras, dobras de
lembra, extrema
carícia.
Aquele tronco, lapso
de árvore,
cariz
da infância, lápis
de escrita
íntima, ferida
ínsita, insígnia
do mortal.
Assim conservá-lo, sacro
caroço
sangrado, nome secreto
gravado no
carnaz
à espera do colapso
final, quando
o que
é vivo, de-
finitivo, vácuo,
vazará.
19/145
PARA FORA D’ÁGUA
uma âncora (pois que
faltam pés)
desce
do corpo à
calçada: na infância,
uma arraia
dança
no aquário;
outra, jamanta,
sangra
arrancada
para fora d’água
– trabalho de arpões
improvisados,
oco
de palavras
(escondem-se,
sanguinárias,
as
mãos
de meu pai)
IRMÃOS [, OU: MAGMA]
Quanta distância
na carne comum:
exímios no embate
dos abraços.
ASSOVIA,
afiador,
assovia:
a lâmina
da infância
cravada
na lembrança.
UIVO de folhas queimadas, meio-
fio cortante: esta nuvem-
luz da infância
levo na garganta.
ENFANT PHARE
De um lado, a família puída, a
mobília entrevada, o
cadeado, o cheiro de
guardado e naftalina.
De outro, a noite corroída, a
saliva ácida: ratos
luminosos, relâmpagos
amestrados.
A BARCA
Incendiou-se a barca
que nos levava ao continente.
Dormíamos
em nossas cabines:
a família
toda morreu.
Era festa
no sono: tão
entretidos,
nem percebemos.
No cais,
à nossa espera,
ninguém: ninguém
deu por nossa falta;
ninguém nos reconheceu.
Outra festa, agora,
na memória
de ninguém.
Não bebemos;
não dançamos.
Berrávamos, silenciosos, nas profundezas.
Ninguém despertou
com nossas vozes.
DE NADA
Foram tantos
que me mataram
Não tenho bocas
para agradecer
AVARIA
de novembro
:
o ar
vermelho
nas covas
labirínticas.
NOVEMBRO
Chego a
dezembro?
Trepido
nos ossos.
BERCEUSE
Remédios têm-me
roído a memória
Às vezes mesmo
esqueço tomá-los
Respondo imprestável
a estímulos vários,
perguntas simples
(Nenhuma simples
bastante)
Temos que
castrar os gatos
(Não há quem
durma)
APAGADO
Tenho meus apagamentos
(Quando foi ontem mesmo?)
(AO CADAFALSO)
Como quem vai
à feira ou sai
de férias
RETARD EN VERRE
“Meus poemas” (ele disse, como quem diz “estou cansado”)
“talvez devesse escrevê-los com porra,
ou água sanitária,
deitando sob
vossos pudicos narizes
o rastro lúcido (não existe o invisível, disto estou seguro)
do que rompe e queima e gera
Mas estou cansado” (agora ele o disse de fato, como quem diz “es-
tou morto,
ninguém percebe, e andar por aí
nestas vestes
me mata de novo e de novo e”) “e
mesmo quando tento pensar
em algo excitante (aquela fuga na tarde, o assalto
abortado) e finjo deixar para trás, sob alguma cama,
o fardo, esquecido,
que me legaram (guardião
dos cacos)
Entenda: estou seco, e nada (nem tente) me arranca deste pacto”
QUANTO MAIS QUENTE
o azedo pensado
a termo – lembro
do cheiro quando
piolhos – desisto a
tempo – em flor
medraz – retine aparente
– mas não seduz –
cadente ao berço
– deslizo o ventre –
matiz fugaz – quanto
mais quente – esquece
a despesa – no
sol solvente a
canção – se assim
não restam nus
ÁTROPO
a tesoura dos ponteiros
agride o fio das horas
A OBRA, O ESCOMBRO
Onde o
meuquarto
no hotel
posto abaixo
na praia do futuro?
QUE DESEJO
esqueci
na árvore
das promessas?
LÁ
Você sabe o que eu quero dizer
quando digo agricultura
ou caminho de volta
ou não há mais lá lá
Falo de para-choques largados
no meio da estrada
De lagartos que põem ovos
e correm pelo pátio
(e correm do pátio)
De atropelamentos e atalhos
Havia um campo de nus
e toalhas que não eram usadas
Qual era mesmo o nome daquela cidade?
FAROL DA SOLIDÃO
[Nunca estive lá]
óxido e saudade
CÂNTAROS
O amargo, de nós depurado,
ao cume,
em cântaros,
regressa:
íngremes
nossos poros,
íngreme
a fala.
FONTE DAS ABELHAS
boa é a água da fonte das abelhas
se eu morasse ali do lado e bebesse sempre daquela água eu seria
feliz
ESCRITÓRIO
O ESCREVENTE
a ranhura da letra
na qual me abrigo
a memória líquida
do corpo inciso
o ir-se hesitante
da seringa
a escória, o ranço
no dizer indeciso
§
a queda-de-asa
no fim do caminho
o gesto da escrita
severo, esquivo
a secura noturna,
a água dos dias
(saturno degusta
seus filhos)
ESCRITÓRIO
cemitério ou
semeadura
insinuam-se
dúbios
a cada
ranhura
§
na letra, na
unha
persevera a
secura
viva do cadáver, sua
astúcia
§
na rota de
cruzes
a pedra do
escrúpulo
dita o
rumo
§
jato
interrupto
fruta ou
furto
tâmara ou
túmulo
44/145
UTRUM DEUS SIT SUBIECTUM HUIUS SCIENTIAE
Uma voz não sei de Quê
de Quando escondido e Onde pouco nítido
pede-me que esqueça
que é forma não formada
Mas não Não caio
na lábia do poema
seu não ter
De Quê nem Porquê
Aqui se faz Aqui
se prega (O que se arrasta sobre as águas e às vezes se afoga?)
É antes uma íngua na fala
uma pedra debaixo da língua
LIÇÃO DE ESCRITA
Não meça
a temperatura: pouco
importa se o corpo
dá-se, agora,
em forma
de colapso.
Esqueça
a máscara tesa
que sequestra o sorriso
por sob
a pele.
Releve
a agulha inclusa
que te paralisa
beijo e protesto.
Reserve
uma hora diária
para afagar tua miséria.
Ou resista:
não vale a escrita.
RETRATOS
[Com o Tarso, antes; e, agora, para o Tarso]
1
mundo mundo
ou país
bloqueado
de onde a poesia,
drástico estrume,
escapa –
recolhe o
tentáculo:
o tempo é
de fezes
2
uma flor desponta
em subsolo (humana,
medrosa): pétala, refém
de sapatos,
afronta
o sol – o asfalto
me veste, estrito
paletó: a argila
o sigilo, o selo
do só
3
sigo,
pressinto
a noite
– corrosiva –
em mim:
tempestade
anulando a
paisagem,
estado
de emergência,
enxurrada
(que não
me leva,
que não
me lava)
4
mãos imundas,
melhor devastá-las:
que o papel receba,
tímida chuva,
partículas suspensas
(mãos
pensas),
o chumbo
dos ares
inspirados
(à sombra esguia
de uma
girafa intolerável)
48/145
5
no quarto
de nus, ferido
e calvo, depois
do assalto –
vigília ou
velório, cabis-
baixo, noite
em falso
6
nas entranhas
desata
o cadarço,
aos pés –
de onde
país
bloqueado,
valsa de mortos,
em curto-
circuito,
vai (não
vai)
7
trouxeste o mapa? por
quais estradas
fugir ao
vasto (devastado)
49/145
coração? toda
estrada é
pedra
sequestrada,
estrago
de ossos,
rumor de
máquina
50/145
(PLANO 100)
O quanto de esquivo no esguio
já rumoreja? O quanto de estigma
no estio, lúcida queima?
O quanto de estilhaço
no bagaço? O quanto de vertigem
no cálice? (na caliça)
O quanto de agulha
no acúmulo? O quanto de esmeril
no abraço?
(O quanto de centelha,
prévia de cinzas, ainda
ferrão?
(O quanto de
sufoco
na fumaça?
(
31 outubro 2002 (e depois)
PERSONAGENS
Eduardo Stenzi
matou-se aos 18.
Não resistiu à “paixão”.
Estava na moda.
Eduardo Strezi,
príncipe dos poetas
desdentados,
afogou-se no Adriático.
Dois ou três amigos seus
derramaram
óleo
no ponto suposto da morte
e deitaram
fogo ao mar.
Eduardo Sperb,
cujo fraque “foi motivo de destaque”
nas colunas sociais,
mal completou um mês de casado.
Denise o deixou por um uruguaio.
Eduardo Strazzi
morreu de tristeza
Assim, pelo menos, suspeita sua mãe,
que, no entanto, não diz a ninguém.
http://www.7letras.com.br/aleijao.html
Edoardo Stronzo,
o idiota da aldeia,
o bobo sem corte,
o filho do delegado: que presente trouxemos para ele
da viagem?
Eduardo Steso
sofria de nanismo severo.
Tentou todos os tratamentos.
Desistiu.
Adoeceu
de outra doença.
Definhou.
Está desenganado.
Eduardo Stesso
sempre foi confundido com seu gêmeo,
Roberto.
Pensou em pintar os cabelos
ou fazer plástica.
Consultou os amigos,
que desaconselharam.
Eduardo Esteves:
assim se chamava o técnico
do time de futebol
do Clube de Regatas.
Era pseudônimo.
Seu nome verdadeiro: Mario Babbo Natale.
Eduardo Stern
dizia-se parente de H. Stern,
“e não muito distante”.
Atormentava os netos com a informação duvidosa e reiterada
53/145
sempre que passava em frente à loja
de Copacabana.
Eduardo Stereo:
previsivelmente, DJ.
Eduardo Stecco,
financista, 53 anos,
diz não saber o que é crise.
No ano passado, enquanto os outros perdiam
na Bolsa, só ele ganhava. Seu segredo?
Não conta a ninguém.
Eduardo Esterco,
brilhante orador,
culto, simpático.
É prejudicado pelo sobrenome, que já tentou mudar.
Eduardo Stretto,
regente da sinfônica de sua cidade,
acredita que nomes condicionam destinos.
Escreveu um livro a respeito, mas não encontrou quem publicasse.
Eduardo Strezzi
recebe frequentemente correspondências
em que o seu nome aparece
com apenas um z
ou, pior, com dois ss.
Eduardo Estéril
tem cinco filho bastardos.
A mulher sabe de dois. Dos outros dois, desconfia. Do último,
nada.
54/145
Edoardo Stento,
engenheiro de Milão,
tem uma casa de campo na Toscana. Está alugada
para um escritor norueguês que
há dois anos
não escreve uma linha, cansado de ser um clichê,
impossibilitado de não o ser.
Eduardo Stenio,
ator, desempenhou magistralmente o papel de Prospero
na última montagem do grupo Qual.
Seu nome foi cogitado para todos os prêmios.
Não ganhou nenhum.
Edoardo Strozzi
é talvez mafioso.
Comenta-se.
Ninguém confirma.
Seja como for,
melhor deixá-lo em paz.
Passa todos os dias
sentado à porta
do “estabelecimento”.
O que é que vendem lá mesmo?
Eduardo Stervi,
homeopata, mudou-se para a Austrália,
onde vive sozinho. Seu sonho é conhecer
a Grande Barreira de Corais.
Pratica o montanhismo.
Eduardo Straz,
perdido que só.
Perdeu tudo o que tinha no bingo.
55/145
A filha não o quer ver nem pintado.
Eduardo Estêncil
espalhou flyers divulgando seus serviços
entre os frequentadores do Espaço Unibanco.
Passaram-se dez dias, e nenhum telefonema.
Eduardo Streb,
filho de alemães,
estuda no colégio canadense.
Aos quinze, fará intercâmbio
e perderá a virgindade.
Eduardo Esterházy
diz ser conde,
mas vive de investimentos
na indústria pornográfica.
Namorou uma atriz
que lhe passou aids.
Ele ainda não sabe.
56/145
POETAS
poetas são todos uns merdas
só pensam em dinheiro
matá-los seria perfeito
não fossem a sujeira e os berros
(O DIA)
então chegou o dia do nojo da poesia
NA TREVA
ya sé no te hace gracia este país
Fito Paez, Un vestido y un amor
À VISTA
sob mudos céus
mede a distância
de uma a
outra
estrela;
suporta a espessura
do silêncio;
renuncia à
noção de
refúgio;
cobre-te, parca,
a noite
dura
§
o intervalo
de prédio
a prédio
é carne
e queda:
como incorporá-lo?
§
prova a maçã
da treva:
a casca tesa,
defesa,
receosamente
violada
§
o corpo, ex-
pulso feto
no escuro:
como
desertá-lo?
61/145
ESTRELA só
sem redor
RINHA
a experiência resumida
(janela, noite, livro)
já não te convém?
a palavra
sem víscera
não convence?
que vença o melhor,
e o melhor
já tem sangue nos dentes
A LUA
é
só mais um canivete
na coleção de armas
brancas.
ÁGUAS
As estacas do sono
fincaram-se aparentes;
turva, a leitura
se desfaz.
Nas águas
rasas
do travesseiro,
proibido pescar.
AQUÁRIO
Mergulha no sono
como quem
num aquário
de águas-
vivas.
SONÂMBULO
Nunca acordar de todo. Deixar –
o dia em diante – um –
sempre – tentáculo
imerso no
sono:
prenúncio de próximo
afogo, pavio
de úmidos estouros,
periscópio às avessas
vasculhando a cegueira.
Nunca acordar:
o ritmo – somente –
deste penhasco:
desviar-se dos
mísseis, preservar o
fígado,fundir-se
– enfim –
ao granito.
MANHÃ CARVÃO, manhã
carnívora:
medo
que a sombra
morda, olhos
abstratos
por sobre o ombro
esquerdo.
A TEMPESTADE assim
se prepara: na espessura
crescente do ar
circundante.
Cada ruído,
de árvore ou
vizinho, ignora
a distância
e nos arranha,
unha de vento
e umidade.
A tempestade assim
nos prepara: agulhas
cadentes virão mais tarde.
NA PAULISTA
Suger triturava safirs per fer blau de vitralls
JOAN NAVARRO
Diamante adverso, em grãos
dissipado; agulhas
rabiscadas
no chuvisco
pela língua dos faróis.
(Forçando a carapaça
de asfalto e
paralisia, lavra
de cadáveres, vulcão
dormido.)
NA MARRA
Para Antonio, em Copacabana
1
o grito
à queima-
roupa, e
nus, de
cócoras,
na esquina,
concílio
de covardes
“¡fecha geral!”
2
túneis, funis;
o mar
combustível
surrando
a avenida;
a mandíbula
das cortinas
metálicas
mascando
o dia-
a-dia
(em baba
e silêncio);
agravo de
sangue,
bolhas de
paralisia
3
“¡sai dessa pedra,
marisco!”
– vivo ou
morto; morto
e vivo –
“¡sai dessa
pedra!”
4
“o crime é o
crime” – “nossa noite é
criminal”
72/145
17h36
A tarde é ouro falso
vazando para o quarto.
O sangue das cobertas,
coagulado, não veda
as janelas. Dormir,
ainda que por um triz,
adianta o morrer: peixe
arpoado pela luz.
MONSTRO
Fujo aos dentes
Garras a
rasgar
Anzóis
Canivetes
Ao refúgio
me estreito
Ouvido à porta
Lá fora
Todos
são estranhos
Febre de vidro
E quebra
Inevitável
Quem sabe o
pouco
Não resta
Disso se
vive ou
Não deixa
rastro
Desperta
Eles são tão
assustadores
Quando nas ruas
se escondem
A casa
caramujo
Permanece o
desabrigo
Onde for
o intruso
O que sou
75/145
TEATRO
na bolsa de incêndios no balão
cadente na balsa dos mortos
ensaiamos nosso moto-
perpétuo o teatro dos cães
no asfalto cobaias
incapazes rasgando
o cobalto a cortina
podrida o – digamos – céu
§
frenético fictício beleléu
que não se ensina
mesmo implorando
o trato o contrato o retrato às raias
do terráqueo rinha de mães
o escasso impõe nosso ex-voto
no altar dos santos tortos
fantoches fazendo chão
ACIDENTE
Nessa caixa
embalado e pronto
para o consumo
no rumo do lixo
Desde criança
adestrado
na prática
do sumiço
Desde carniça
afeiçoado
ao beijo
do abutre
Desmemoriado
de ubre
e placenta
Numa curva
violenta
do ventre
expelido
Descartado
Substituído
Ao sol
que arrebenta
estrebucho
em vozes
A estrela
da manhã
me queima
com seu pavio
Convoco
socorro
em volapuque
Sequer
me ouve
esta sombra
que arrasto
Ninguém
me aplaude
ou reclama
meu corpo
Com licença
estou morto
78/145
RELÂMPAGO
(1)
Sigo imóvel – morto – neste táxi.
Pressinto a arquitetura
de sigilos – de segredos –
desdobrados.
– Desdobrando-se: – no princípio,
o Ato. –
Resisto, na cidade, apesar: –
esquivo, passivo, cativo,
alvo de tanta verruma – de tanta espuma –,
o Enrabado das esquinas, o Enforcado
no espelho, o Triste – o Triste –: o Triste
definitivo –
Resisto – nesta cidade – apesar.
(2)
Esqueço o revólver, desisto
de ir a Santos, despisto
a polícia. Peço 200, 300, 600.
Troco as pernas, escondo os braços.
O tempo me perde, o tempo me deve.
Meus olhos de saponáceo
devolvem terror.
Persigo o céu nas curvas
do Copan:
sequela e resto.
No cemitério, espremo o medo
geométrico, o espanto extremo.
O mel difuso, a canivete.
Irmão de cera, irmão de barro:
irmão
decomposto.
O invés do sol
impresso no rosto.
O que for
me absolve.
Pinocchio te quer
morto.
PERSPECTIVA DO BARRIL
C’est moi dans la poubelle
Mas
onde encontrá-lo?
§ Cultivando (cego,
cambaio) coágulos
de treva na concha
da tarde.
§ O quinto (ou sexto)
dromedário
na fila de pagas:
recurvo, esmagado.
§ No extremo em que o
presépio
desmorona em
precipício: preso à
escarpa, ao
(arame)
íngreme
(farpado).
ANATOMIA
Nunca reparou que os dentes vão quase até os olhos
Que os dentes na verdade começam nos olhos
(e uns como outros choram)
Nunca reparou que os cabelos
encostam nos joelhos
Que o vão da boca é uma catedral
rasgada pelo fogo
Que o sexo é um porão
– fede a cadáveres, tardes subtraídas, perfumes contrabandeados
Que ao fim de muitos corredores
há mais corredores
e uma alegria podre
NINGUÉM LIGA PARA TEUS SAPATOS
Pouco importa que vás não vás
Ainda tens
pés
MEIAS NOVAS
para teus pés. Mas
onde estão
teus pés?
Nem mesmo
pegadas.
MÃO MORTA
ofereço a mão morta
em espetáculo; a mão
cadáver, que dança
involuntária e desengonçada
quando a rua chacoalha;
mão de fantoche ou
de espantalho; apêndice
incômodo (oxalá
descartável) que às vezes
escondo, outras mascaro:
eis que salta do bolso
a mão (por ora) palhaço;
queres apertá-la?
(É TREVA)
(aproveita o
sonho de
pedra)
enquanto
(espasmo de
luz)
é
(soluço de
treva
SANGRA
Agora o tempo
do sangue: o
tempo da
febre.
Canário
esmagado,
ouro
baço,
água
de fezes.
Da fruta
o travo.
NO JARDIM
esta é minha irmã com seus filhos
soltos no jardim quase bichos
é lenta são lentos como as
coisas que ficam e por isso mesmo
choram às vezes
DE UM TEMPO SEM PERDÃO
1 [aneurisma]
graças a deus que deus existe e que
me pôs à prova duas vezes com
essa menina: na primeira, perdeu
um olho; na segunda, agora, quando –
2
não amo ele não, não amo não —
TROVOADAS
Estão de novo arrastando as trovoadas
No andar de baixo minha mãe de pantufas
cuida que se ouça pouco
não mais que o necessário
É tempo de nascer da morte esta fresta
criatura de esgueira
Tebas tem sete portas
que são bocas de mil dentes
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JOGO
depois do primeiro chute
é fácil alguém pergunta
pra que tanta violência
aos poucos vai até
serenando como se
entranhasse a contragosto
a lâmina do sono
suja do próprio sangue
do sangue de outro
aos poucos vai até
afogando no sono
que desce pela garganta
vem dos ouvidos
só pensa
proteger os olhos
proteger a nuca
proteger a têmpora
parece que sorri
à espera do último
que não vem
à espera do próximo
é fácil é só
esquecer
que aquela é
a sua
(só) a sua cabeça
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GUERRA PERPÉTUA
queres que te peguem te castrem?
teu corpo-estandarte
à frente das hostes
no alto?
um dia tudo isso virá abaixo
guerra é guerra mas
é outra também
luxo desejo superstição
cantar
no dia do medo
um hino ao traidor
cavar
a dedo
a cova do senhor
AS ARMAS [, OU: TAMBÉM O SABES]
minha mulher tua irmã foi levada
tua voz me pergunta o que fazer
agora
mas só a voz já também o sabes
não há por que perguntar
as armas nossas armas já estão
no porta-malas
e o carro está no curso
eu dirijo tu mordes o lábio de baixo
não digo e não dizes palavra
conheces conheço a tocaia
de outras datas
sabemos o que nos aguarda
não festa não artifício não alívio
mesmo depois e depois de depois
será doído
ESTRANGEIRO
Nunca estrangeiro o bastante
Segunda-feira, janeiro, ninguém
acorda [porque]
Ninguém dorme
Todos estão mortos
O dragão que os devorou
é um dragão mudo
Mímica e ensaios de fuga no interrogatório
(nenhuma resposta, nunca, satisfatória)
O estrangeiro (nunca o bastante)
traz na carne
(a só
bagagem)
a única lei inflexível
desta cidade:
a lei de um rosto desfeito
a marteladas
CARTA A OUTRO ESTRANGEIRO
Aqui, no verão, é assim:
chove todo dia.
Submerso, aproveito
para o estudo
(quando a leseira
não bate).
Fim de tarde: a mesma,
outra, derrota. O avião
que passa
me fala de outra cidade,
de sóis cadentes,
de uma noite incendiada.
Ignoro a língua
flácida,
seu convite à fuga.
Tento me aferrar a umas poucas duras páginas.
Esqueço, no livro, a palavra
aprendida: lezíria.
1º DE JANEIRO
Areia nos lábios,
na gengiva.
Cansado mas tranquilo.
Alguém diz que haverá dança
na trincheira,
aqui onde estou
e não estou sozinho.
Precipitou-se o esquema de fogos.
Quantos feridos?
TERRA; ÁGUA
um punhado de terra
molhada, sem que eu saiba
se sangue, saliva ou água,
é a forma do silêncio
nessas tardes aguadas
em que a chuva cai reta
TELEFONEMA
nossas conversas já são
boas chuvas
nenhuma palavra dissolve
a expectativa
do dilúvio
grumo
de dúvida
queimando
a garganta
silêncio
de árvore
só fala
o vento
PAÍS
Isso
que chamamos “amigos”
e às vezes perdemosporque o repuxo os carrega
sempre mais para o fundo:
para antes das ondas,
onde dormem os peixes;
para depois da memória,
onde morrem duas vezes
– isso desfaz-se
sombra
que a luz
do farol atravessa.
§
Isso
que é tábua
de solidão
a que nos
agarramos
quando falta o
chão e,
náufragos,
sonhamos com terra
– isso é quase um país.
Mas esse país
não existe. Esse país
não presta.
31 março – 1º abril 2004
100/145
CISMA
Esqueça as palmeiras
e a Rua das Palmeiras
É outro o cenário
UM ANO SÓ DE VERÕES:
em coma, ou
suspenso entre dois
continentes.
Unhas novas, mais fortes,
brotam do corpo
exausto, como enxerto. Mas
não novos dentes.
ROUPAS
ferroados
pela estrela precoce
e pelo crescente
desencaixotamos
nossas roupas
sujas de outra
vida, de outra
paisagem
ITALIENISCHE REISE
Roma está farta de poemas;
Veneza também.
VN
ero calvo
non mi piacevo e pensavo di non piacere
adesso vivo una nuova vita
sono ancora calvo
(ma ora lo so soltanto io)
CONVIVIO
le pecore cieche
l’incendio
il campo nevato
il tesoro trovato dal contadino
ANTES QUE EU POSSA DIZER mais uma vez a palavra pressauro
outro Kennedy morrerá baleado
e sob meus pés
a Terra outra vez como sempre
mover-se-á
inconsciente
no encalço do próprio rabo.
TODO-OUVIDOS
conhecia kafka
a frase
de nicolau primeiro
sobre liérmontov?
“a um cão,
morte de cão”
MERDA, Sérgio, o ano é de merda,
e o século todo não fede
(mal começa) a outra matéria.
DEPOIS DE UMA IDADE todas
as festas são festas de foda
mesmo as que não.
DOIS
VAPOR E CIMENTO
Enquanto deslizo – serpente
metálica – ao longo do arroio,
a proa rasgando o
asfalto, temente apenas
a radares e outros
roedores,
meus olhos se despregam
do fluxo apático
e, de repente,
descobrem, ao fundo,
formações efêmeras
de algodão e
reboco, vapor e
cimento – o assim
chamado “horizonte” –
morrendo em rosa e
cinzento;
poderia ser o fim do mundo,
mas aqueles óculos
mudaram a percepção
de tudo, e ela pôde,
ao meu lado, mesmo
assustada, sorrir,
embora sua fala,
no rapto do instante,
cessasse abrupta, à espera
de alguém – tigre ou
anjo – que, munido
de ferramentas apropriadas,
nos arrancasse
do cerrado cipoal
das ferragens;
poderia ser o fim
do mundo, mas,
hóspede perpétuo
da mais ímpia
masmorra
(onde o chão
morde o teto)
do palácio
gasoso
das lembranças,
fantasio-me liberto,
preso apenas a
um que outro
relâmpago: o prego,
áspero de cimento,
cravado no pé esquerdo;
o primeiro golpe
da adaga (a vítima
sobre a pia,
ao lado de uma
privada); o lustre
de inúteis tentáculos
rebentando no ventre
da sala; tua última
palavra.
113/145
Porto Alegre, 31 dezembro 2002
114/145
RETÂNGULOS
Pequenos animais se formam
de pele e pelo acumulados
nas arestas do quarto,
do pó dos corpos repentinos
no atrito dos abraços.
Como amestrá-los ao espetáculo
da arena extrema de retângulos
flutuantes, superpostos?
se os amantes – invertebrados –
confundem-se aos detritos.
NASCENÇA
Assim
como a forma
(digamos, do poema)
é produto
de desgaste – resto,
portanto; escória
cumulada
na órbita
fraca do gozo
originário –,
assim
teu corpo, exausto
e raro (sangue
do sangue
do poema), nasce
de novo
a cada aniversário.
22 janeiro 2004
LENÇOL
Dormes tão desconhecida
tão perdida e tão mais achada mas só dentro de ti
OUTRA SERPENTE
1
“eu gosto mesmo
é de dançar”,
enquanto (agulhas
na voz) desliza
entre prateleiras
:
neve, carícia,
higiênico
sublime (o
corpo re-
marcado)
:
(canyon
de papelão
e sacos)
2
pedra e onda
variável, contra
as quais me bato,
(dentro) náufrago
119/145
LÍNGUA DE ANJOS
des Schrecklichen Anfang
solitário ofício
de ser anjo
trajando as asas-
cachecol
de arrasto
insuflado ao
coração-
covil da
carne
atento ao
sussurro
insuportável
dos terráqueos
tangente ao
incessante
balbucio
de súplicas,
promessas
surdo (somente)
ao cio
(crescente ao
nível do
grito, da
sirene, do
esmeril)
de outros
anjos
121/145
ENQUANTO
Só sou se sendo sou sido
Não sei o que é ser mulher
o que é ser pedra
nem peixe em fundas águas
Saberei o que é ser homem
talvez um dia no dia
de nossa morte
Não sei o que é ser mulher
ou vidro à prova de balas
Nem o que ela quer
JARDIM DE PEDRAS
1
o corpo extenso
de vidro e vergonha
oferto à janela
somente binóculos
cogitam sequestrá-lo
(o aspecto amnésia
de um jardim de pedras)
como conciliar
distância e desejo
?
2
o amor vegetal
retalhando o baldio
desistente memória
do entulho
calar o nome:
queda
d’água
tornada fio
gás ausente
da luz
3
o corpo numeroso
precariamente
recomposto
à beira
do sono
(o alarme
dos cães)
varado pela noite
como estancar
a dispersão?
124/145
CÃO
É outra a cidade, outro
o desejo cão que late
a noite inteira no pátio.
NÃO É AMOR ainda
enquanto um não cagar
em cima do outro
se não contrabandeou para a cama
seus quatro costados
se não pastou quadrúpede
nos pentelhos
se é o mesmo continente
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LETES
“Como apagar
a memória
de um cheiro
específico?” aquele
da nuca
úmida e
quente
depois
do sexo.
Ela me disse que nunca. Eu
não disse que não.
TERRITÓRIO
[...] il arrive qu’on se fatigue de son propre langage.
Roland Barthes, em entrevista (1977)
TERRITÓRIO
Mesmo o pó dorme, a esta hora,
desprezado
pelo sol. Podes
vagar tranquilo
pelo território inimigo:
tua casa.
Nenhum perigo que as coisas te assaltem
ou te abracem. Os
braços
das cadeiras, como de praxe,
calados. Mal percebes
(êxtase ou cansaço)
a oclusa
cerimônia de coisas
a que não foste
convidado e que,
intruso,
profanas.
ALTO-RELEVO
Contemplo a
gordura
na fôrma
(resquício
do almoço
de ante-
ontem)
sob o
detergente
(cordão
de estrelas)
compondo escamas,
manta de onça, à sombra
da geladeira.
OUTRO CISNE, DE LOUÇA
O cisne, à janela do lavabo,
triste lago azulejado
e seco; as rachaduras
no branco,
estigmas
do voo
rasurado; as asas
inúteis, de louça;
o oco à espera
de vida (vegetal
que seja); o longo pescoço
interrogativo.
NÚMERO
I
plena inquietude nenhuma
serenidade
chora
no céu noturno estivo
no exílio inviável da
altura
dúzia
de gaivotas
II
voo constrito
entre
telhas e estrelas
cápsula de sol
ferindo
o sono compulsório
nenhum pouso ou
repouso
em vasto inimigo céu
ABUTRE, desenho de treva,
tatuagem só rascunho: vulto
que sobre a carne se projeta
e nela emprenha quanto impregna
(porém, de treva). Quer-se interna
voragem, como a do caruncho;
nada – nem as asas – que o impeça:
menos sina quanto tarefa.
MURIQUI
uma quase palavra, muriqui,
forma fantasma
deslocando-se
na mata,
desbasta a
trevura, o mais-que-escuro
coração, as fibras
sombrias
da fala:
companhia
de aflitos;
alegria de bichos –
ATRESSI CON L’ORIFANZ
Ânimo de argamassa
mal-sovada, andaime
de ossos rotos
mal e
mal
sustendo
o bruto corpo
inflável, in-
flamável.
E,
quando,
depois do fogo,
depois do
dilúvio,
a pele
escorchada
entupir
bocas-
de-lobo:
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aperte o passo,
evite a polícia,
esqueça
isso
que eu era.
136/145
L’ELEFANTE DI TORINO CHE POI MORÌ PAZZO
[Daguerreótipo]
Elefante, sim,
mas
de vidro, quebradiço.
ÁGUA-VIVA
Foste ao mar:
não surpreendeste?
Não te assaltou
na carícia de queimar?
Não te aviltou, em trapos,
transparente?
Não te cobrou refúgio
na cova das virilhas,
no cume dos ombros?
Não te alcançou
sorrateira, em golpe
de luz e areia?
Lápis de sol
semeando pegadas.
Mergulho – constante –
de pedra em pedra.
A tarefa
é sem fruto.
TERRENO
Ali, sob a pedra, entre
as
macegas, o
pequeno esqueleto
já sem
o gato:
a pequena morte
campeava,
desavisada,
naquele baldio
das primeiras
punhetas.
FEDE-FEDE
Não mata
que fede
O ANIMAL PEDRA
o animal pedra
– tímido que só –
não respira
repousa
– dia sim –
na treva
◊
MAIS EMBAIXO
de onde vim não vim. sou filho
de outro buraco. entrei
aqui
desavisado. saí
pelo outro lado.
2009 - 2011 © Eduardo Sterzi
Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.
Coordenação editorial
Isadora Travassos
Produçãoeditorial
Cristina Parga
Eduardo Süssekind
Larissa Salomé
Rodrigo Fontoura
Sofia Soter
Sofia Vaz
Caso o seu dispositivo não permita o acesso direto aos audi-
opoemas deste livro,
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ISBN: 978-85-7577-823-4
Viveiros de Castro Editora Ltda.
R. Goethe, 54. Botafogo
Rio de Janeiro, RJ, CEP: 22281-020
Tel. (21) 2540-0076
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