Prévia do material em texto
218 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 Oito poetas brasileiros contemporâneos Luci Collini (UFPR) Apresentação: Caros leitores, apresentamos aqui uma pequena antologia que reúne oito poetas de oito lugares diferentes do Brasil. Cada qual com seu estilo e temáticas próprias, nos presenteia com seu cantar a apreensão do fenômeno poético. São oito vozes ao mesmo tempo impactantes e sutilíssimas que vêm a reafirmar a multiplicidade, a intensidade e, sobretudo, a qualidade da produção literária atual do nosso País. Oito poetas, tanta poesia. E nunca estivemos sós. Ilustrações: MAURO SCARAMUZZA FILHOii 219 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 220 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 ANDRÉIA CARVALHO GAVITA* ÁGUA RASA plongée: a cesta de frutas sua digestão de cera na colmeia do zoom poderia pintar azul da prússia e amarelo sião, os frutos alinhados: soldadinhos de chumbo entre budas de bamiyan poliglota, não sabia o pincel batizaria a moldura de uma ceia santa, doze signos em comunhão cromática eremita, não sabia com a face contorcida de visões rasgava o linho cru da mordaça sobre os dentes e sigilava o alvoroço de uma outra horta criando raiz letra sobre letra uma árvore nova 221 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 edificada sobre a renda branca e seu vinho farto de luz uma árvore de rosas gigantes abocanhadas de nuvens suas imensas gargantas desdenhando a fome no umbigo acrílico do mundo uma árvore estilhaçada [De Grimório de Gavita] EFEITO JAULA basílica tundra coração nefelibata intocado pela vulgaridade dos mercados medita o escuro do quarto com olhos de ticiano fora, a irradiação temperada agulhas de ouro cozidas em azul tinto dentro, a música ofídica da igreja inabalada acende a vela frente ao corpo seu espelho, deus único pode ver quem fita sua nuca no halo ao redor do pavio sua cerca elétrica 222 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 iluminado de si alcança o absoluto do prisma [De Grimório de Gavita] A MULHER DO RÁDIO uma garganta humana grita a fronteira pantanosa de um rosto dissecado no silêncio isótopos de vento circulam a árvore de fios do corpo a mulher está sobre a ponte a mulher talvez pule corrosiva cabeça, quando salta a primeira página do jornal: a mulher abre suas asas de açafrão talvez a mulher apenas sonhe com o universo antiético das pinturas barrocas, com uma cantiga de ninar no pescoço torneado das ampolas [De Grimório de Gavita] KARI’BOCA o oceano lambe-se como um gato do mato 223 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 meus ossos de navio trocam a floresta por um espelho mercante mil indígenas assoviam dentro das vértebras evangelizadas finjo-me especiaria de pó finíssimo estátua de colorau o canto tribal das ondas aprende o idioma dos marinheiros deixo que me cortem a língua de pajé cauterizo o choro titânico nas águas falantes que cobriam a terra antes dos mapas a maré vermelha bebe meu nome [De papel leopHardo] 224 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 AMAZONA FLÁCIDA meu unicórnio: faço o que quiser com ele. eu o planto na dicção dos lamentos faço de suas patas delicadas meu órgão de barbárie pisoteando o pasto como um bode expiatório eu o lembro nos tios, os 3 eu o lembro no pai, o primeiro no doentio noel, no albino professor de linguística e no frade das primeiras descobertas escatológicas, nos ameaçando com a torre dos sinos penso-o em são sebastião pingando suas cachoeiras corpóreas no mar de dedaleiras todos ósseos e escapando pela fronte dos moluscos e, rainha de uma noite fálica flecha de pequenas alturas com a agulha de morfina no eixo da musculatura lisa enfio o chifre da iluminura no coração dos reis não é o amigo imaginário que me incita é o diabo o pobre-diabo sem crina, sem cauda 225 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 sem caduceu apenas um crime ereto na projeção do crânio partido cavalgando a mágica proibida de um bestiário empoeirado [De papel leopHardo] LOBOS, TEMPORAIS tentam me ensinar a correta leitura do tarô tentam me sabotar a astrologia interior socam-me um deus ensanguentado e plácido na embolia gasosa dos cardumes mas o meu altar é a costa litorânea pela pestana de uma catadora de pérolas encarando as folhas, os arcanos e o falso planetário como crosta cuspida pelo oceano em colapso de alga e lava como um cristo andrógino e criogênico na periculosidade das iguarias marinhas levito a cachalote leviatã afundando a nadadeira no corpo sábio do miserável plâncton 226 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 que a tudo dissolve que a tudo crê em minha roda da fortuna quem substancia o barulho dos peixes alimentando-se no leite profundo é a mãe dágua luminescente, o pai estrela de cinco pontas, a irmandade irisada em meu cordão umbilical minha memória de escamas arrasta a ilha de líricos hipocampos férteis caídos esquecidos & siderais [De papel leopHardo] ESCORPIÃO E ECLIPSE Impacto deserto é a estrela do dia na retícula eloquente da pestilência interior. Se ela sobe, a peste das flores febres, ativada por víscera rancorosa, a mulher-ferrão indaga ao lago dos humores: A que brilho de fórceps a lua seta apontaria, com seus cornos de anjo que nunca me cairá? E para si mesma responde, manancial de águas pluviais: Lagoas paradas, braços de raízes, farpas de erudição. Se te perseguirem a sombra até os confins do mundo, seja verdadeira. Crescente de contorno azulado. Lágrima seca fosfórica. Face dourada de tempo ilusório. A velha de dentro é imortal, enquanto o universo agoniza ao respirar. Corcova ao peso de séculos. 227 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 Nada me corteja que não seja a luz listrada sob a areia ereta que aceita sua força movediça. [De Panfletos de Pavônia] *Andréia Carvalho Gavita - poeta nascida em agosto de 1973, no interior do Paraná. Estudou Ciências Biológicas e Produção Multimídia. Reside em Curitiba (PR), onde trabalha na área da saúde (farmácia hospitalar). Integra o corpo editorial das revistas digitais de literatura "Zunái" e "mallarmargens" e participa do Coletivo Marianas. É autora dos livros A cortesã do infinito transparente (Editora Lumme, 2011), Camafeu Escarlate (Editora Lumme, 2012), Grimório de Gavita (Maçã de Vidro Edições / Editora Lumme, 2014), papel leopHardo (Bolsa Nacional do Livro - Marianas Edições, 2016) e Panfletos de Pavônia (Leonella Editorial, 2017). Cílios Prostíbulos, seu sexto livro, serápublicado em 2018 pela Editora Patuá. CASÉ LONTRA MARQUES COM MÃOS ESTRANGEIRAS Com mãos estrangeiras, disseminar dissensos dentro da dor; com mãos improváveis (porque quase desfeitas): disseminar dissensos até atingir o outro lado da dor — independente do movimento. [De O som das coisas se descolando] 228 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 UM ROSTO NASCE EM TORNO DA VOZ Um rosto nasce em torno da voz, embrulho que atiro na areia ou levo até a água (que lanço da janela ou arrasto pela calçada); este é o rosto que atrai a cidade, os tentáculos da cidade — aprimorando, sem se satisfazer, os primeiros impactos da manhã. (Da manhã: desfiada sobre o asfalto?) Você fala: você suspende o oceano (e não só a surdez; você suspende o oceano) movendo o maxilar. [De O que se cala não nos cura] NOMEAR OS SONS NA DISSOLUÇÃO Nomear os sons na dissolução conserva um pouco das sílabas ofensivamente estendidas ao espanto 229 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 inicial? quase esqueço o que responder — enquanto nos arrastam — até o fundo das retinas: sustentando (pânico após pânico) a fabricação da apoteose — minto — da metamorfose corporal [De Enquanto perder for habitar com exatidão] POR QUE ESTAS PALAVRAS ATIRADAS À SUPERFÍCIE DA FALA? Por que estas palavras atiradas à superfície da fala? uma ave — talvez água — ávida: concedemos à sonolência dos 230 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 seres de sono escasso o rumor de uma memória em que o medo, a areia, o êxtase, a sede, o palco compõem a ponte para outro descompasso. [De Movo as mãos queimadas sob a água] SOU O CORPO QUE FAZ SOMBRA SOBRE O HOMEM QUE MORRE Sou o corpo que faz sombra sobre o homem que morre, o homem não emudecido? Sou o corpo que o conclui, no momento de sua extinção; sou o corpo que o conclui, apesar de incapaz de alcançar sua precisão? 231 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 Saberei seguir o eco que nos contorna, no topo de uma noite instalada nas têmporas? Recusarei, ainda que jamais persistente, o que descrevemos como esquecimento receando, no entanto, assimilar sua lucidez? Recusarei a raiva — quase nomeada — que o sono — quando refeito — sequer empalideceu? Poderei repousar no chão de sua asfixia? Como delinear seu incêndio, dedilhar sua hora? Como preparar a manhã para uma morte já remota? [De Saber o sol do esquecimento] NÃO ACOMPANHAMOS A QUEBRA Não acompanhamos a quebra; mas (quase mancando) carregamos o deserto nos dentes — a perda 232 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 — neste campo — será mais que paisagem: dedicamos o cotidiano ao canto que colhemos nos ecos de um caos agora debulhado sem o menor cuidad [De A densidade do céu sobre a demolição] DURANTE O VIBRAR DAS NARINAS Durante o vibrar das narinas, adivinho pelo tato o hálito salpicado no pescoço; a ponta da pupila, tão atenta quanto um cacto, desmonta o sol de novo simulado na dispensa da distração. Aquele inseto por enquanto concreto alcançará em breve o cristal da abstração. Mantenho a voz sempre à vista, silenciando sílabas ao sabor da saliva; o suor, perturbadoramente espesso, prorroga 233 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 o percurso pela medula. Um mover de asas basta para clarear o pânico instalado no pulmão como uma falta exposta. Multiplicaremos o tempo com violentas maneiras de inventar a mesma palavra. [De Mares inacabados] *Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou O som das coisas se descolando (Aves de Água, 2017), O que se cala não nos cura (Aves de Água, 2017), Enquanto perder for habitar com exatidão (Secult/ES, 2015), Indícios do dia (CCSP, 2014), Movo as mãos queimadas sob a água (Multifoco, 2011), Saber o sol do esquecimento (Aves de Água, 2010), A densidade do céu sobre a demolição (Confraria do Vento, 2009), Campo de ampliação (Lumme Editor, 2009) e Mares inacabados (Flor & Cultura, 2008). 234 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 235 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 ADRIANA ZAPPAROLI* O DRAGÃO DE KOMODO estado de conservação vulnerável o varanus sauropsida — homem fêmea que olhava o ornitorrinco laranja com receio-macho: uma besta, o amor e seus carinhos. dragões são dóceis… homens. o dragão endêmico da ilha de flores e tão lagarto e tão emboscada e tão estado selvagem. a postura de ovos fêmeas-machos-homens — são 60 dentes serrilhados que mudam para miúdos centímetros de comprimento. sua saliva manchada de sangue e uma língua amarela-bifurcada. foi observado assustando cervas-homens grávidas com a intenção de que estas abortem os restos do feto-macho… homens-fêmeas-machos… e em pé sobre as suas patas traseiras tendem a emboscadas-fêmeas, arrancando grandes pedaços de carne de suas presas-fêmeas- homens-machos, tragando-lhes inteiras enquanto seguram o cadáver… homens-fêmeas… a saliva vermelha lubrifica a comida, batendo o cadáver contra a árvore para forçá-lo a descer pela garganta-fêmea, e regurgita uma massa de cornos-machos-homens, cabelo-fêmea e dentes cobertos de uma mucosidade malcheirosa: fêmeas-machos em uma bola gástrica… 236 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 — e com receio roça a cara na estranha aparência, o homem-fêmea, desse mamífero macho-ovíparo, venenoso-homem, com focinho em forma de bico de pato-fêmea, cauda de castor-homem e patas-machos alaranjadas... fêmea-homem que as usa para propulsar-se, para manobrar na água-homem, em medo-cisma esquisito-homem-fêmea... porque o temor tem os olhos negros e as patas alaranjadas... e o amor é macho-fêmea- homem... feito uma besta de carinho e amor homem-fêmea. macho. [em O dragão de Komodo] *Adriana Zapparoli é pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas. Como escritora possui mais de quinze plaquetes poéticas publicadas no Brasil e no Exterior. Atualmente é editora e proprietária da Leonella Ateliê (Campinas, São Paulo) uma empresa voltada para arte com foco na publicação de poesia contemporânea experimental em diferentes formatos e em pequenas tiragens. FLÁVIO DE ARAÚJO* HOMEM CONSERTANDO REDE [para meu pai] Homem consertando rede agulha na mão rede pendurada no prego. Homem consertando rede pensa na importância do remendo imagina que tipo de peixe fugiria 237 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 por aquele buraco. Homem consertando rede consertaseu mundo. Homem sério enche a agulha com linha vermelha com total habilidade espanta o borrachudo cospe o náilon mascado dá palpites sobre o tempo que tanto acertava. Ainda é respeitado quando fala que chove quando fala que vai ventar. Homem consertando rede não resmunga a vida malha pela falta de peixe os grandes barcos de arrasto. Homem consertando rede conta histórias de pescador com tamanha sinceridade que nem parece pescador. Homem consertando rede parece homem feliz, distante vai medindo a braçadas seu silêncio, sua vontade de viver. Homem consertando rede e somente agora, para mim, meu pai é apenas um homem que conserta sua rede. 238 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 ENQUANTO AS CRIANÇAS DORMEM Havia medo detrás da porta mas não há mais. As crianças dormem sobre lençóis de linho. O rangido das cremonas e o mundo sem luz alguma das lâmpadas são como dias de vento balançando as árvores. Jamais na vida o medo irá tirar o momento dos sonhos, não agora. A sombra do triciclo sem rodas projeta um velho de cócoras a contar talvez a própria estória. O amanhã baterá na janela e os móveis terão nitidez. Uma sombra se esconderá debaixo do tapete cinza. Outra, dentro da chaleira. Os parentes sacudindo os esqueletos, o milho sendo jogado às aves. Depois, rodeadas à mesa as meninas impressionando a todos, contando os sonhos que não sonharam. 239 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 QUINHÃO À mesa, como num tribunal sob o juízo de nossa mãe disputávamos, com fervor, os melhores pedaços da magra galinha. As irmãs menores, cada qual com suas asas, balbuciavam qualquer coisa de bom voando entre os dentes. O impasse era sempre com as coxas. Duas para três admiradores. Fora o confronto tomei predileção por peitos. O que Freud explicaria com a teoria das perdas. AS CRENÇAS INFANTIS Eu era menino como todos foram ou são e sob as barras do manto de Santa Tereza Justafé fui criado 240 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 - mudo de opinião. Menino descozido de crenças mas tradicionalmente religioso (rezava aves e pais). Trocava a água das flores rosas brancas e encarnadas contrastavam com o local lúgubre onde o ranço de velas impregnava as fotografias dos enfermos. Tudo naquela casa se prostrava aos pés de porcelana queimada de Santa Tereza Justafé. Vó Coralina antes de deixar morrer o símbolo majesto da matriarca que era, tinha por desejo supremo ser enterrada com a santa - e foi. Naquela mesma noite arrebentaram-me a boca pois como esperavam o consentimento de um menino-anjo achei que seria muito justo que os mortos fossem enterrados com seus mortos. 241 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 BILHETE SOBRE A CAMA Eu vou não me siga eu creio na vida tive felicidade amores muito pouco. Vou em silêncio como quem não incomoda. Vou sem rodeios como o trem que não espera. O que tive devolve reparte barganha. O que fiz esqueça relembre perdoe. O que fui diga aos outros que tentei ser melhor. Eu vou não me siga eu creio na vida tive felicidade amores muito pouco cuida do cão. 242 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 Não se mate em saudades, com você fica meu abraço fica minha saliva em tua boca o que sinto é que não posso ficar. Eu vou não me siga eu creio na vida tive felicidade amores muito pouco cuida do cão. MULHER AMARGA SEGUINDO CORTEJO De terço nas mãos e alma compungida renega o deus que roubou o marido enforcando as contas de madrepérola. Reprime o céu belo em azul infinito. Roga que sobre o resto de seus dias a monção violeta de trevas cubra a noite feito manto de lamento. O caminhar contido como o andar servil de uma pagadora de promessas. Andarilha que nega a remissão da paga pois não é fé de romeira mas descabelo de louca. O olhar infeccionado, ardil em pus, putrefaz quem o encara. Dela fogem todas as raças de cães a uivar desembestados. Segue sem pestanejar 243 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 como se não restassem caminhos mas a precisão dos passos. É notório o choro que balbucia pequeno. Prestam-lhe pêsames e se condoem pelo fatídico episódio de dor porém não há quem não afirme, em silêncio, a sua preferência pelo morto. O HOMEM QUE PRENDEU A ESTRELA Com as têmporas repletas de incertezas e de andar inexato segue trôpego o homem com um colar de estrela nas mãos. Quando voava com as asas dos beijos e o coração feito um mineral singular de beleza, de cantar fácil e que via o riso em tudo não enrodilhava nas mãos o colar feito algema dos iludidos caminhos da vida. O colar como um pêndulo trespassado pelo longevo fixar de seus olhos de cor já alterada. Padece. E pelo arfar expelido comunga sua tristeza em tudo 244 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 que o rodeia. Pouco importa o mar e seus domínios. Mira o colar, logo prende a estrela, por entre seus dedos de céu. [Todos os poemas são de Zangareio] *Flávio de Araújo - Poeta e escritor, filho de caiçaras nativos da comunidade da Praia do Sono (Paraty/RJ). Lançou seu primeiro livro, Zangareio pela Editora Selo OFF FLIP. Têm poemas vertidos para o inglês e espanhol, publicados em sites, revistas, entre elas Washington Square Review, Guernica Magazine, Germina, Algo A Dizer, Jornal de Poesia etc. 245 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 MARTA EUGÊNIA DE OLIVEIRA* ENTRE A FLOR E O ESPINHO Não sou eu que crio os versos, não invento poesias, é a poesia que se inventa pra mim, atormenta meus ouvidos e anuncia 246 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 seu corpo móvel no papel, me manda recados, diz que eu preciso é de ócio em nome de minha paz. E o pão de cada dia que devo percorrer me enche de angústia e ansiedade. E a poesia me vence, perco a hora, não participo dos ritos, ganho sermões maternos. E quando choro, me agradam com conselhos do mundo capital. Invento remorsos para não magoar os meus. As tarefas me cobram cuidados, o mundo pede cuidados. Mas é a poesia quem cuida de mim. CERTAS COISAS NA JANELA Meu pai, homem de poucas palavras, possuía uma certa ingenuidade cabocla, mas nós víamos bússola em seus olhos. Lembro-me de suas risadas quando pra ele eu lia sobre um auto e uma compadecida. Depois, nos lembrávamos de nossa terra. Histórias de João cambão da Costela do Cão que passava na rua e a criançada gritava em refrão: ‘João cambão, Costela do Cão, trocou a mulher por um pedaço de pão’. Certas coisas sempre voltam quando abro a janela. 247 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 UMA NOITE DESSAS Meus filhos dormem como se nunca tivessem “errado”. Então, na porta do quarto recai sobre mim um verso bem alimentado e capaz de grandes feitos... Oh, o amor tem as faces rosadas de tanto pinote, pula os muros porque é moleque e compreende as possibilidades de uma flor em pleno campo minado. Não suporto sozinha dores tão bonitas... Por isso me valho dos versos para salvar a minha pele de qualquer noite do dia que passa por dentro da minha história comum. PASSAGEM DE IDA O Nordeste foi pra São Paulo levou a boneca de pano, a colcha de retalhos e um bocado de suor... Brincou de “bem-me-quer”, separou tantas Marias de tantosJosés na chuva da multidão... O asfalto é mais forte que o coração, o asfalto que sustenta o medo do sol, o peso dos prédios, o peso das pontes e a lonjura das almas atravessando juntas as avenidas enormes, 248 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 onde o horizonte é o engarrafamento. DEGRADÉ A claridade especifica os objetos do mundo, suas formas vão ressurgindo, olhos meninos de susto contente desvendando a caixa do brinquedo que vai começar a existir. As células não reinventam seus poderes de expansão? Por tantas vezes antigas e noviças, os versos se acendem assim... Um calor arrecada a minha pele, determina a voz do manto, esse momento. Desmancho paisagens frias, perniciosas, adentro em raios das cerebrinas... Invento outra vez o que já tive: Meu pai mal acordado catando sol no quintal, minha mãe tranquila agindo um café, o cheiro de pão dando leste à cozinha. Tudo em claro poema pródigo esbanjando o meu amor. AFONIA O chão frio recebe os meus pés e eu nem tenho uma garganta agora... 249 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 O que não sei além do horizonte debruça os olhos sobre mim. Algumas saudades nunca vão emagrecer... Seus chinelos largados no meio da sala, sem liturgia é parte dessas lembranças. Pro sono profundo de todos ela já foi dormir e nem pôde levar seus chinelos... O que fazer das coisas acordadas que ela me deixou? E é nessa hora da vida que o medo de mim se aproxima e uma inapetência pra raios de sol; a lua esplêndida de minguância, de suas vestes eu aprendi. Eu preciso obedecer à poesia, ofegante e sem pestanejar do mesmo modo de minha infância a correr pelas calçadas pra chegar depressa com o pacote de pão. SOBREMESA Um homem abria a janela por motivos de sol Crianças gritavam nas bordas da rua por motivos de brincadeira A mulher espalhava pratos na mesa por motivos de alimento. E eu como um doce com calda por motivos de memória. 250 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 ARRANJO DE MARGARIDAS Não, não posso deixar para trás os passarinhos do mundo, as borboletas batendo a vida nas asas sobrevoando o chão inerte. Os olhos amarelos das margaridas espiam-me atentos... A brancura das pétalas que simulam um redondo sorriso, parece adivinhar os versos, onde o instante é o cais... Debruçam enfim, as palavras na janela, em espelhos olhando pra mim e a promessa comprida do dia de que me haverá a manhã. [Todos os poemas são de *Marta Eugênia Vim para Arapiraca aos seis anos (nasci na Bahia), trabalho como professora de português e literatura em escolas estaduais e sou especialista em linguística. Mas a Literatura é meu lugar favorito por isso escolhi fomentar a poética nas salas de aula. GERALDO OLIVEIRA NETO* PRAÇA SETE éramos complexos e enfumaçados 251 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 alugávamos mapas astrais nas praças por qualquer trocado formavam-se rodas filas indianas e finlandesas vozes multiplicadas em muitas consoantes enquanto assobiávamos sem culpa alguma; copos d’água na maioria das vezes mastigar piscas-piscas em pleno meio-dia ao invés de recitar poemas era um colorido muito mais sincero do que cinza confundíamos espelhos com outros dez espelhos cilada desesperada para hipnotizar cachorros e moscas certamente nascia errada mais uma forma irônica de arrecadar dores dólares olhares e cigarros jogados num chapéu entretanto suficiente para alimentar em casa nosso jardim de plantas carnívoras DIVA TRASH você e suas drogas exóticas fazendo as mesmas caras e bocas dando pinta de gótica-trevosa tipo rainha Elvira numa velha mansão em Fallwell “mirror mirror on the wall who’s the most drop dead gorgeous one of all” 252 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 já fizemos isso diante deste mesmo espelho quando fingíamos ser parentes próximos e vestíamos parábolas para além destes quartos sejamos sensatos ali do outro lado belezas imediatas cansam rápido e são facilmente dizimadas por meia dúzia de Medusas (que curiosamente menstruam em perfeita sincronia) SALTIMBANCOS o encantador de serpentes em mim cospe enquanto seus répteis barítonos assobiam em coro “my cherie amour” a cartomante avisa – garota já faz mais de mês que você anda com uma elefanta na barriga o atirador de facas acerta quem estava com o molho de chaves das jaulas de três tigres tristes tibetanos o canhão embala à lua o ex- marido da trapezista míope (que tinha um caso com a mulher barbada) convidam o equilibrista de pratos para um casamento grego macacos recitam Maiakovski sob a corda bamba a contorcionista búlgara aprimora a técnica do quadradinho de oito (no improviso) o poeta traduz pro sânscrito a frágil matemática das roletas-russas a família de motociclistas abandona o globo da morte por motivos fascistas o circo esvazia ao lado da máquina de algodão doce jaz a placa: 253 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 FALTAM PALHAÇOS ROTA 66 deixamos Los Angeles com as pernas entre os rabos os que lá ficaram queriam esmagar nossos crânios tentávamos ser mais fortes que dramáticos sob a tutela de setenta anjos histéricos caminhávamos estradas como se engolidos por sedentas serpentes altivo, à colina tudo via o condor daltônico sob o viaduto (em itálico) um singelo letreiro latejava “ninguém é totalmente feliz, só de bermuda e cânhamo” TRÊS PEDRAS DE GELO NO WHISKY acorda pela manhã e ainda está vivo 254 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 a pele que habita já não te consola não houvesse o espelho importaria menos com rugas algumas coisas foram feitas para sorver todo resto é música a ser decantada esculpe o vento a não desejar nada além do próximo cigarro elétrico assume sua impotência perante montanhas e a fragilidade do sistema bancário busca explicação nas cores da natureza sem abrir mão do escuro dos teus óculos acredita piamente no próximo a tiracolo trazes um bélico arsenal de desconfianças nunca visitou Manhattan ainda assim vislumbra o Central Park através de filmes dublados na falta das narinas respira pela boca (tua maior inimiga) só entende amor e a poesia ao dissolver três pedras de gelo no whisky FERIDA não tenho a certeza das pedras meus pecados ultrapassam qualquer proteção dos totens e ave-marias, dos excessos amontoam-se castigos fajutos disfarces do ego raptando recomeços inquieto num destes dias nublados pedi resgate ao medo dos dez amputei dois dedos encontrei além da perda uma ferida áspera a espera de reparo 255 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 não consigo chamar de cicatriz e por mais que assopre a dor é não sentir TERNO ROSA apenas peço estradas distraídas tropeços tramelas tocar estrelas estrambólicas amarelas remá-las depressa ou até mesmo rimá-las longe do brilho transcrito nas estrias naquele transtorno extremo de entornar estrofes destras dentre degredos dispostos a travestir traumas (in)versos é só então de terno rosa em verso e prosa retornar rei ao trono que nunca foi meu [Todos os poemas são de Sincericídios] *Geraldo Oliveira Neto é mineiro, natural de Araxá. Teve seu primeiro livro Escapismo publicado pela Editora 7Letras em outubrode 2016. Seu novo livro Sincericídios será publicado em 2018 pela editora Patuá. Sua poesia é calcada no som das palavras, sobretudo nas repetições voluntárias, nas aliterações & nos jogos de desmonte & remodelagem, parte do princípio básico, A Palavra, ou as Palavras. 256 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 257 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 MOEMA VILELA* UM AMIGO ESTÁ DIGITANDO UMA MENSAGEM Antônia, em ânsia, se antecipa em partir. Antes recusar o pouco que a ruína da conformação. Antes a fome, a imaginação, do que esta oferta de carne morta. Mas se enfiada até o caroço no desejo de ficar, cortar relações é emboscada – às raias do amadorismo. Como se possível fosse morrer ao mundo sem depois, se atirando no poço do elevador. Fica, Antônia, que todo fim vem – naturalmente. Não é preciso ser impaciente. [De Quis dizer e na antologia Mulherio das Letras] NÃO NÃO ENCONTRÁ-LOS chego ao prédio e me ocorre examinar ali, aquele corredor vazio antes do elevador onde homens de uniforme depositam 258 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 em silêncio compactos sítios arqueológicos nas caixas de correio entre livros por encomenda disque-entrega de sanduíche são cidades templos túmulos dobrados até a espessura de folha devo usar minha chave desta vez? aquela pequena, no meio das outras antes do barulho pesado da porta do elevador que me rapta me leva para longe é sempre bom chegar em casa (e quanto aos sítios arqueológicos é crime destruí-los mas não não encontrá-los) [De Quis dizer] LA GARANTÍA porque soy del paraguay preguntam-me las leys del portunhol quiem dera las houvesse leys en la frontera e felicidá na civilization gabaritos para a vida, non só no vestibular 259 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 onde há anos nos enganam, hacendo ultimos y primeros de berdá, pro que importa non hay modelo y tampoco hay palabras qui tragam la berdá si jo tivesse un pacto con el diablo intergalactiko y fronteiriço el rey real de la gran gramatica lo venderia por mijones y mijones de reales [De TURIYA AND RAMAKRISHNA ele inspirou fundo, alongou o braço alongou o outro, ajeitou o calção dobrou os joelhos, esfregou as mãos de cima do banquinho esticou-se todo e mergulhou de ponta dentro do copo d’água no centro do palco o palhaço nunca esquecerá desse show quando empurrou os pés no chão até o corpo se desaprender e lembrar o impossível ele se lembrou [De UM CONVITE o novo Michelangelo é mesmo sensacional e também a transformação existencial e política sugerida nesta nova oferta de trabalho que deveria se chamar não trabalho mas presente extraordinário e tão bem remunerado com generosidades adicionais como a possibilidade de constante doação de roupas de inverno seguida da celebração de 260 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 estarmos vivos porém à pessoa que arde não faz sentido participar do que não seja o segredo da água, você não vai dizer vamos pegar um cineminha, veja os meus cabelos estão pegando fogo [De CARAMELO com os sapatos calçados pela metade Basquiat não entra na lanchonete sem antes bagunçar as promoções da tarde no mural de calçada ele recomenda fé e patinete vende cãibras bem barato faz as pessoas comerem bolas de cedo em vez de caldo e depois pede panquecas para derramar na mesa o xarope e com o cardápio nivelar a massa onde escreverá com a colher o rosto da futura namorada a garçonete conjurada do vir-a-ser com os materiais à mão xarope de panqueca 261 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 & olhos de revelação: mesmo as pessoas mais duras do que mesas se rearranjam – conhecem alguém, mudam de casa, de profissão, perdem a perna, ganham crianças – se tornam outras [De *Moema Vilela é escritora e jornalista, doutora em Letras pela PUCRS. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura, Guernica (Edições Udumbara, 2017) e Quis dizer (Edições Udumbara, 2017). Publicou contos e poesias em antologias como De tudo fica um pouco (Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da memória (Edipucrs, 2014), Antologia Um (Edipucrs, 2017), Mulherio das Letras (Costelas felinas, 2017), entre outras, e também em revistas e jornais digitais e impressos como a Revista Escrita (PUCRJ) o Jornal Opção, a Revista Raimundo, o fanzine O Borralho, entre outros. Graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Ministrou cursos e oficinas de ensaio, poesia e conto em Campo Grande, Porto Alegre, Caxias do Sul, Pelotas. VASCO CAVALCANTE* SOB SILÊNCIO - 4 POEMAS no mais, ardo em brisas estanco estrelas perco trilhas aldeias, minhas ilhas enquanto, 262 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 um sopro rege a mansidão luas, o verbo ancora e cala o rio a verve serpenteia o peixe o aço, a rede no mais, adormeço o mundo vira [De Sob silêncio] não há rio sob meus pés, espelhos de limo e areia profundezas apagam luzes, estrelas um eco a céu aberto retém o limo nas retinas nada me atém nada perdura sou afeito às utopias 263 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 [De Sob silêncio] sobre o silêncio, não há nada... à luz de um poema, sob silêncio, mu(n)do [De Sob silêncio] aos ventos, sobre as cidades moinhos sob a pele margens, brisas vãos de ruas curvas, becos, praças um rio de asfalto asfixia a tarde, entorpece o mundo mudo, resplandeço 264 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 desfaço nuvens novelos, vias sobre a tarde sobrevoando mundos asfixiado(s) [De Sob silêncio] REVERSO DOS DIAS - 4 POEMAS uma chave espessa cor de ouro estanca as dores do mundo no espelho, velas abertas fremem ao fulgor do Sol no crepúsculo, um ranger de asas lambe a noite, extrai do ventre as feridas e se esvai, num rompante de dores, bálsamos, 265 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 orgasmos seriais [De Reverso dos dias]roço a ponta da língua na lâmina fina do céu da tua boca não há mais muro, não há mais mundo raso fundo [De Reverso dos dias] tua palma, inexatas linhas vasos bifurcam no índigo véu das veias sobre as dunas vago 266 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 nos desvios pouso arrefeço sob teus anéis [De Reverso dos dias] uma palavra, um cepo oco invento sob sua luz, um presságio abstraio seu cerne, seu lúmen cravo em sua encosta um poema [De Reverso dos dias] 267 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 *Vasco Cavalcante, paraense de Belém do Pará, foi um dos fundadores do grupo de poesia alternativa "Fundo de Gaveta", ativo de 1981 a 1983. Tem poemas publicados nas revistas virtuais “ZUNÁI”, “Mallarmargens”, “Escamandro”, “Marinatambalo”, “Literatura.br”, “Poesia Avulsa”, e em várias edições da revista literária "Polichinello". Em 2012 participou, com outros 12 poetas contemporâneos brasileiros, da plaquete de poemas "Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos", lançada pelo Centro Cultural de São Paulo. Em 2016, a convite da Fundação Cultural do Pará, participou da antologia Impossível não te ofertar — poemas para Max Martins, em homenagem ao poeta Max Martins. Tem dois livros de poesia publicados pela Editora Patuá, de São Paulo, Sob Silêncio (2015) e Reverso dos dias (2017). https://www.facebook.com/polichinello/?fref=mentions 268 Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 i Luci Collin, curitibana, é ficcionista, poeta e tradutora. Tem 18 livros publicados entre os quais Querer falar (poesia, Finalista do Prémio Oceanos 2015), A palavra algo (poesia, Prêmio Jabuti 2017), Nossa Senhora D’Aqui (romance, 2015), A árvore todas (contos, 2015) e A peça intocada (contos, 2017). É Professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR. E-mail: collinluci@gmail.com ii Mauro Scaramuzza Filho é natural de Curitiba (Paraná). Estudou Ciências Biológicas, Artes Plásticas e Letras. Tem Doutorado em Literatura e Outras Linguagens pela Universidade Federal do Paraná (2017). Nas artes bidimensionais, expressa-se por meio do desenho e da pintura. A temática de suas obras concentra-se nas formas da Natureza. mailto:collinluci@gmail.com