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218 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 
 
Oito poetas brasileiros contemporâneos 
 
 Luci Collini (UFPR) 
 
Apresentação: Caros leitores, apresentamos aqui uma pequena antologia 
que reúne oito poetas de oito lugares diferentes do Brasil. Cada qual com 
seu estilo e temáticas próprias, nos presenteia com seu cantar a apreensão 
do fenômeno poético. São oito vozes ao mesmo tempo impactantes e 
sutilíssimas que vêm a reafirmar a multiplicidade, a intensidade e, 
sobretudo, a qualidade da produção literária atual do nosso País. Oito 
poetas, tanta poesia. E nunca estivemos sós. 
 
Ilustrações: MAURO SCARAMUZZA FILHOii 
219 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
220 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
ANDRÉIA CARVALHO GAVITA* 
 
ÁGUA RASA 
 
plongée: 
a cesta de frutas 
sua digestão de cera na colmeia do zoom 
 
poderia pintar 
azul da prússia e amarelo sião, 
os frutos alinhados: 
soldadinhos de chumbo entre budas de bamiyan 
 
poliglota, 
não sabia 
 
o pincel batizaria a moldura de uma ceia santa, 
doze signos em comunhão 
cromática 
 
eremita, 
não sabia 
 
com a face contorcida de visões 
rasgava o linho cru 
da mordaça sobre os dentes 
e sigilava o alvoroço de uma outra horta 
criando raiz 
letra sobre letra 
 
uma árvore nova 
221 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
edificada sobre a renda branca 
e seu vinho farto de luz 
uma árvore de rosas gigantes 
abocanhadas de nuvens 
suas imensas gargantas 
desdenhando a fome no umbigo 
acrílico 
do mundo 
uma árvore estilhaçada 
 [De Grimório de Gavita] 
 
 
EFEITO JAULA 
 
basílica tundra 
coração nefelibata 
intocado pela vulgaridade 
dos mercados 
 
medita o escuro do quarto 
com olhos de ticiano 
 
fora, a irradiação temperada 
agulhas de ouro cozidas em azul tinto 
dentro, a música ofídica 
da igreja inabalada 
 
acende a vela frente ao corpo 
seu espelho, deus único 
pode ver quem fita sua nuca 
no halo ao redor do pavio 
sua cerca elétrica 
222 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
iluminado de si 
alcança o absoluto 
do prisma 
 [De Grimório de Gavita] 
A MULHER DO RÁDIO 
 
uma garganta humana 
grita a fronteira pantanosa 
de um rosto dissecado no silêncio 
 
isótopos de vento 
circulam a árvore de fios 
do corpo 
a mulher está sobre a ponte 
a mulher talvez pule 
 
corrosiva cabeça, quando salta 
a primeira página 
do jornal: 
a mulher abre suas asas 
de açafrão 
 
talvez a mulher apenas sonhe 
com o universo antiético das pinturas barrocas, 
com uma cantiga de ninar 
no pescoço torneado 
das ampolas 
 [De Grimório de Gavita] 
KARI’BOCA 
 
o oceano lambe-se como um gato 
do mato 
223 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
meus ossos de navio 
trocam a floresta 
por um espelho mercante 
 
mil indígenas assoviam 
dentro das vértebras 
evangelizadas 
 
finjo-me especiaria 
de pó finíssimo 
estátua de colorau 
 
o canto tribal das ondas 
aprende o idioma 
dos marinheiros 
 
deixo que me cortem a língua 
de pajé 
 
cauterizo o choro titânico 
nas águas falantes 
que cobriam a terra 
antes dos mapas 
 
a maré vermelha bebe meu nome 
 [De papel leopHardo] 
 
 
 
 
 
 
224 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
AMAZONA FLÁCIDA 
 
meu unicórnio: faço o que quiser com ele. 
 
eu o planto na dicção dos lamentos 
faço de suas patas delicadas 
meu órgão de barbárie 
pisoteando o pasto como um bode 
expiatório 
eu o lembro nos tios, os 3 
eu o lembro no pai, o primeiro 
no doentio noel, no albino professor de linguística 
e no frade das primeiras descobertas escatológicas, 
nos ameaçando com a torre dos sinos 
penso-o em são sebastião 
pingando suas cachoeiras corpóreas 
no mar de dedaleiras 
 
todos ósseos e escapando pela fronte dos moluscos 
 
e, rainha de uma noite fálica 
flecha de pequenas alturas 
com a agulha de morfina 
no eixo da musculatura lisa 
enfio o chifre da iluminura 
no coração dos reis 
 
não é o amigo imaginário 
que me incita 
é o diabo 
o pobre-diabo 
sem crina, sem cauda 
225 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
sem caduceu 
apenas um crime ereto na projeção do crânio 
partido 
cavalgando a mágica proibida 
de um bestiário 
empoeirado 
 [De papel leopHardo] 
 
LOBOS, TEMPORAIS 
 
tentam me ensinar a correta 
leitura do tarô 
tentam me sabotar 
a astrologia interior 
socam-me um deus 
ensanguentado e plácido 
na embolia gasosa dos cardumes 
 
mas o meu altar é a costa litorânea 
pela pestana de uma catadora de pérolas 
encarando as folhas, 
os arcanos e o falso planetário 
como crosta cuspida pelo oceano 
em colapso de alga e lava 
 
como um cristo andrógino e criogênico 
na periculosidade 
das iguarias marinhas 
levito a cachalote leviatã 
afundando a nadadeira 
no corpo sábio do miserável 
plâncton 
226 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
que a tudo dissolve 
que a tudo crê 
 
em minha roda da fortuna 
quem substancia o barulho dos peixes 
alimentando-se no leite profundo 
é a mãe dágua luminescente, 
o pai estrela de cinco pontas, 
a irmandade irisada em meu cordão 
umbilical 
 
minha memória de escamas 
arrasta a ilha de líricos 
hipocampos 
férteis 
caídos 
esquecidos & siderais 
 [De papel leopHardo] 
 
ESCORPIÃO E ECLIPSE 
 
Impacto deserto é a estrela do dia na retícula eloquente da pestilência interior. Se ela 
sobe, a peste das flores febres, ativada por víscera rancorosa, a mulher-ferrão indaga 
ao lago dos humores: 
A que brilho de fórceps a lua seta apontaria, com seus cornos de anjo que nunca me 
cairá? 
E para si mesma responde, manancial de águas pluviais: 
Lagoas paradas, braços de raízes, farpas de erudição. Se te perseguirem a sombra até 
os confins do mundo, seja verdadeira. Crescente de contorno azulado. Lágrima seca 
fosfórica. Face dourada de tempo ilusório. 
A velha de dentro é imortal, enquanto o universo agoniza ao respirar. Corcova ao peso 
de séculos. 
227 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
Nada me corteja que não seja a luz listrada sob a areia ereta que aceita sua força 
movediça. 
 [De Panfletos de Pavônia] 
 
 
*Andréia Carvalho Gavita - poeta nascida em agosto de 1973, no interior do Paraná. Estudou 
Ciências Biológicas e Produção Multimídia. Reside em Curitiba (PR), onde trabalha na área da 
saúde (farmácia hospitalar). Integra o corpo editorial das revistas digitais de literatura "Zunái" 
e "mallarmargens" e participa do Coletivo Marianas. É autora dos livros A cortesã do infinito 
transparente (Editora Lumme, 2011), Camafeu Escarlate (Editora Lumme, 2012), Grimório de 
Gavita (Maçã de Vidro Edições / Editora Lumme, 2014), papel leopHardo (Bolsa Nacional do Livro 
- Marianas Edições, 2016) e Panfletos de Pavônia (Leonella Editorial, 2017). Cílios Prostíbulos, 
seu sexto livro, serápublicado em 2018 pela Editora Patuá. 
 
 
 CASÉ LONTRA MARQUES 
 
COM MÃOS ESTRANGEIRAS 
 
Com mãos estrangeiras, 
disseminar dissensos dentro da dor; 
com mãos 
improváveis (porque 
quase desfeitas): disseminar 
dissensos 
até atingir o outro 
lado da dor 
— independente 
do movimento. 
 
 [De O som das coisas se descolando] 
 
 
 
228 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
UM ROSTO NASCE EM TORNO DA VOZ 
 
Um rosto nasce em torno da voz, 
embrulho que atiro 
na areia 
ou levo até a água (que lanço da janela ou arrasto 
pela 
calçada); este é o rosto que atrai a cidade, 
os tentáculos 
da cidade — aprimorando, sem 
se satisfazer, os primeiros 
impactos 
da manhã. (Da manhã: desfiada 
sobre 
o asfalto?) Você fala: você suspende 
o oceano 
(e não só a surdez; você 
suspende 
o oceano) movendo o maxilar. 
 [De O que se cala não nos cura] 
 
 
 
NOMEAR OS SONS NA DISSOLUÇÃO 
 
Nomear os sons na dissolução 
conserva 
um pouco das sílabas ofensivamente estendidas 
 
ao 
espanto 
 
229 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
inicial? 
 
quase esqueço 
o 
que responder — enquanto nos arrastam — 
 
até 
o fundo 
 
das retinas: 
 
sustentando (pânico após pânico) 
a 
fabricação da apoteose 
 
— minto — 
 
da 
metamorfose 
 
corporal 
 [De Enquanto perder for habitar com exatidão] 
 
 
POR QUE ESTAS PALAVRAS ATIRADAS À SUPERFÍCIE DA FALA? 
 
Por que estas palavras atiradas à superfície da fala? 
uma 
ave — talvez água — ávida: 
 
concedemos à sonolência 
dos 
230 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
seres 
 
de sono escasso 
 
o rumor 
de uma memória em que 
 
o medo, 
 
a areia, o êxtase, 
a sede, 
o palco compõem 
 
a ponte 
 
para 
outro 
 
descompasso. 
 
 [De Movo as mãos queimadas sob a água] 
 
 
SOU O CORPO QUE FAZ SOMBRA SOBRE O HOMEM QUE MORRE 
 
Sou o corpo que faz sombra sobre o homem que morre, 
o homem não emudecido? 
Sou o corpo que o conclui, no momento 
de sua extinção; 
sou o corpo que o conclui, apesar 
de incapaz 
de alcançar sua precisão? 
231 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
Saberei seguir o eco que nos contorna, no topo 
de uma noite 
instalada nas têmporas? 
 
Recusarei, ainda que jamais persistente, 
o que descrevemos 
como esquecimento receando, no entanto, 
assimilar 
sua lucidez? 
 
Recusarei a raiva — quase nomeada — 
que o sono 
— quando refeito — sequer empalideceu? 
Poderei repousar 
no chão de sua asfixia? 
 
Como delinear 
seu incêndio, dedilhar sua hora? 
 
Como preparar 
a manhã para uma morte já remota? 
 
 [De Saber o sol do esquecimento] 
 
 
NÃO ACOMPANHAMOS A QUEBRA 
 
Não acompanhamos a quebra; mas 
(quase 
mancando) carregamos o deserto 
 
nos dentes — a perda 
232 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
— neste 
campo — será mais que paisagem: 
 
dedicamos o cotidiano 
ao canto 
 
que colhemos nos ecos 
 
de um caos 
 
agora debulhado 
sem 
o menor cuidad 
 [De A densidade do céu sobre a demolição] 
 
 
DURANTE O VIBRAR DAS NARINAS 
 
Durante o vibrar das narinas, adivinho pelo tato 
o hálito salpicado 
no pescoço; a ponta da pupila, tão atenta 
 
quanto um cacto, desmonta o sol de novo simulado 
na dispensa da distração. Aquele inseto 
 
por enquanto concreto alcançará em breve 
o cristal 
da abstração. Mantenho a voz sempre 
 
à vista, silenciando sílabas ao sabor 
da saliva; o suor, perturbadoramente espesso, prorroga 
 
233 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
o percurso pela medula. Um mover 
 
de asas basta para 
clarear 
o pânico instalado 
no pulmão 
como uma falta 
 
exposta. Multiplicaremos 
o tempo 
com violentas maneiras 
de inventar 
a mesma palavra. 
 [De Mares inacabados] 
 
*Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou 
O som das coisas se descolando (Aves de Água, 2017), O que se cala não nos cura (Aves de Água, 
2017), Enquanto perder for habitar com exatidão (Secult/ES, 2015), Indícios do dia (CCSP, 2014), 
Movo as mãos queimadas sob a água (Multifoco, 2011), Saber o sol do esquecimento (Aves de 
Água, 2010), A densidade do céu sobre a demolição (Confraria do Vento, 2009), Campo de 
ampliação (Lumme Editor, 2009) e Mares inacabados (Flor & Cultura, 2008). 
 
 
234 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
235 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
ADRIANA ZAPPAROLI* 
 
O DRAGÃO DE KOMODO 
 
estado de conservação vulnerável o varanus sauropsida — homem 
fêmea que olhava o ornitorrinco laranja com receio-macho: uma besta, o amor 
e seus carinhos. 
 
 
 
 
dragões são dóceis… homens. o dragão endêmico da ilha de flores e tão lagarto e tão 
emboscada e tão estado selvagem. a postura de ovos fêmeas-machos-homens 
 
— são 60 dentes serrilhados que mudam para miúdos centímetros de comprimento. 
 
sua saliva manchada de sangue e uma língua amarela-bifurcada. foi observado 
assustando cervas-homens grávidas com a intenção de que estas abortem os restos do 
feto-macho… 
 
homens-fêmeas-machos… e em pé sobre as suas patas traseiras tendem a 
emboscadas-fêmeas, arrancando grandes pedaços de carne de suas presas-fêmeas-
homens-machos, 
 
tragando-lhes inteiras enquanto seguram o cadáver… 
 
homens-fêmeas… a saliva vermelha lubrifica a comida, batendo o cadáver contra a 
árvore para forçá-lo a descer pela garganta-fêmea, 
 
e regurgita uma massa de cornos-machos-homens, cabelo-fêmea e dentes cobertos de 
uma mucosidade malcheirosa: fêmeas-machos em uma bola gástrica… 
 
236 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
— e com receio roça a cara na estranha aparência, o homem-fêmea, desse mamífero 
macho-ovíparo, venenoso-homem, 
 
com focinho em forma de bico de pato-fêmea, cauda de castor-homem e patas-machos 
alaranjadas... 
 
fêmea-homem que as usa para propulsar-se, para manobrar na água-homem, em 
medo-cisma esquisito-homem-fêmea... 
 
porque o temor tem os olhos negros e as patas alaranjadas... e o amor é macho-fêmea-
homem... feito uma besta de carinho e amor homem-fêmea. macho. 
 
 
 [em O dragão de Komodo] 
 
 
*Adriana Zapparoli é pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas. Como escritora 
possui mais de quinze plaquetes poéticas publicadas no Brasil e no Exterior. Atualmente é 
editora e proprietária da Leonella Ateliê (Campinas, São Paulo) uma empresa voltada para arte 
com foco na publicação de poesia contemporânea experimental em diferentes formatos e em 
pequenas tiragens. 
 
 
 
 FLÁVIO DE ARAÚJO* 
 
HOMEM CONSERTANDO REDE 
[para meu pai] 
 
Homem consertando rede 
agulha na mão 
rede pendurada no prego. 
Homem consertando rede 
pensa na importância do remendo 
imagina que tipo de peixe fugiria 
237 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
por aquele buraco. 
Homem consertando rede 
consertaseu mundo. 
 
Homem sério 
enche a agulha com linha vermelha 
com total habilidade 
espanta o borrachudo 
cospe o náilon mascado 
dá palpites sobre o tempo que tanto acertava. 
Ainda é respeitado quando fala que chove 
quando fala que vai ventar. 
 
Homem consertando rede 
não resmunga a vida 
malha pela falta de peixe 
os grandes barcos de arrasto. 
 
Homem consertando rede 
conta histórias de pescador 
com tamanha sinceridade 
que nem parece pescador. 
 
Homem consertando rede 
parece homem feliz, distante 
vai medindo a braçadas seu silêncio, 
sua vontade de viver. 
 
Homem consertando rede 
e somente agora, para mim, 
meu pai é apenas um homem 
que conserta sua rede. 
238 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
ENQUANTO AS CRIANÇAS DORMEM 
 
Havia medo detrás da porta 
mas não há mais. 
As crianças dormem 
sobre lençóis de linho. 
 
O rangido das cremonas 
e o mundo sem luz alguma das lâmpadas 
são como dias de vento 
balançando as árvores. 
 
Jamais na vida o medo irá tirar 
o momento dos sonhos, não agora. 
 
A sombra do triciclo sem rodas 
projeta um velho de cócoras 
a contar talvez a própria estória. 
O amanhã baterá na janela 
e os móveis terão nitidez. 
Uma sombra se esconderá 
debaixo do tapete cinza. 
Outra, dentro da chaleira. 
Os parentes sacudindo os esqueletos, 
o milho sendo jogado às aves. 
 
Depois, rodeadas à mesa 
as meninas impressionando a todos, 
contando os sonhos 
que não sonharam. 
 
 
239 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
QUINHÃO 
 
À mesa, como num tribunal 
sob o juízo de nossa mãe 
disputávamos, com fervor, 
os melhores pedaços 
da magra galinha. 
 
As irmãs menores, 
cada qual com suas asas, 
balbuciavam qualquer coisa 
de bom 
voando entre os dentes. 
 
O impasse era sempre 
com as coxas. 
Duas 
para três admiradores. 
 
Fora o confronto 
tomei predileção 
por peitos. 
 
O que Freud explicaria 
com a teoria das perdas. 
 
 
AS CRENÇAS INFANTIS 
 
Eu era menino como todos foram ou são 
e sob as barras do manto 
de Santa Tereza Justafé fui criado 
240 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
- mudo de opinião. 
 
Menino descozido de crenças 
mas tradicionalmente religioso 
(rezava aves e pais). 
 
Trocava a água das flores 
rosas brancas e encarnadas contrastavam 
com o local lúgubre 
onde o ranço de velas impregnava 
as fotografias dos enfermos. 
Tudo naquela casa se prostrava 
aos pés de porcelana queimada 
de Santa Tereza Justafé. 
 
Vó Coralina antes de deixar morrer 
o símbolo majesto 
da matriarca que era, 
tinha por desejo supremo 
ser enterrada com a santa 
 
- e foi. 
 
Naquela mesma noite 
arrebentaram-me a boca 
pois como esperavam o consentimento 
de um menino-anjo 
achei que seria muito justo 
que os mortos fossem enterrados 
com seus mortos. 
 
 
241 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
BILHETE SOBRE A CAMA 
 
Eu vou 
não me siga 
eu creio na vida 
tive felicidade 
amores muito pouco. 
 
Vou em silêncio 
como quem não incomoda. 
Vou sem rodeios 
como o trem que não espera. 
 
O que tive devolve 
reparte 
barganha. 
 
O que fiz esqueça 
relembre 
perdoe. 
 
O que fui diga aos outros 
que tentei ser melhor. 
 
Eu vou 
não me siga 
eu creio na vida 
tive felicidade 
amores muito pouco 
cuida do cão. 
 
242 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
Não se mate em saudades, 
com você fica meu abraço 
fica minha saliva em tua boca 
o que sinto é que não posso ficar. 
 
Eu vou 
não me siga 
eu creio na vida 
tive felicidade 
amores muito pouco 
cuida do cão. 
 
 
MULHER AMARGA SEGUINDO CORTEJO 
 
De terço nas mãos e alma compungida 
renega o deus que roubou o marido 
enforcando as contas de madrepérola. 
Reprime o céu belo em azul infinito. 
Roga que sobre o resto de seus dias 
a monção violeta de trevas cubra a noite 
feito manto de lamento. 
O caminhar contido como o andar servil 
de uma pagadora de promessas. 
Andarilha que nega a remissão da paga 
pois não é fé de romeira 
mas descabelo de louca. 
O olhar infeccionado, ardil em pus, 
putrefaz quem o encara. 
Dela fogem todas as raças de cães 
a uivar desembestados. 
Segue sem pestanejar 
243 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
como se não restassem caminhos 
mas a precisão dos passos. 
É notório o choro que balbucia pequeno. 
Prestam-lhe pêsames e se condoem 
pelo fatídico episódio de dor 
porém não há quem não afirme, 
em silêncio, 
a sua preferência pelo morto. 
 
 
O HOMEM QUE PRENDEU A ESTRELA 
 
Com as têmporas repletas de incertezas 
e de andar inexato 
segue trôpego 
o homem com um colar de estrela nas mãos. 
 
Quando voava com as asas dos beijos 
e o coração feito um mineral singular de beleza, 
de cantar fácil 
e que via o riso em tudo 
não enrodilhava nas mãos o colar 
feito algema dos iludidos caminhos da vida. 
 
O colar como um pêndulo 
trespassado pelo longevo fixar 
de seus olhos 
de cor já alterada. 
 
Padece. 
 
E pelo arfar expelido comunga sua tristeza em tudo 
244 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
que o rodeia. 
Pouco importa o mar e seus domínios. 
 
Mira o colar, 
 
logo prende a estrela, 
por entre seus dedos 
de céu. 
 
 
 [Todos os poemas são de Zangareio] 
 
*Flávio de Araújo - Poeta e escritor, filho de caiçaras nativos da comunidade da Praia do Sono 
(Paraty/RJ). Lançou seu primeiro livro, Zangareio pela Editora Selo OFF FLIP. Têm poemas 
vertidos para o inglês e espanhol, publicados em sites, revistas, entre elas Washington Square 
Review, Guernica Magazine, Germina, Algo A Dizer, Jornal de Poesia etc. 
 
 
 
245 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 
 
 MARTA EUGÊNIA DE OLIVEIRA* 
 
 
ENTRE A FLOR E O ESPINHO 
 
Não sou eu que crio os versos, 
não invento poesias, 
é a poesia que se inventa pra mim, 
atormenta meus ouvidos e anuncia 
246 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
seu corpo móvel no papel, 
me manda recados, 
diz que eu preciso é de ócio 
em nome de minha paz. 
E o pão de cada dia que devo percorrer 
 me enche de angústia e ansiedade. 
E a poesia me vence, 
perco a hora, não participo dos ritos, 
ganho sermões maternos. 
 E quando choro, me agradam 
com conselhos do mundo capital. 
Invento remorsos para não magoar os meus. 
As tarefas me cobram cuidados, 
o mundo pede cuidados. 
Mas é a poesia quem cuida de mim. 
 
 
CERTAS COISAS NA JANELA 
 
Meu pai, homem de poucas palavras, 
possuía uma certa ingenuidade cabocla, 
mas nós víamos bússola em seus olhos. 
Lembro-me de suas risadas quando pra ele eu lia 
sobre um auto e uma compadecida. 
Depois, nos lembrávamos de nossa terra. 
 Histórias de João cambão da Costela do Cão 
que passava na rua e a criançada gritava em refrão: 
‘João cambão, Costela do Cão, 
trocou a mulher por um pedaço de pão’. 
Certas coisas sempre voltam quando abro a janela. 
 
 
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Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
UMA NOITE DESSAS 
 
Meus filhos dormem como se nunca 
tivessem “errado”. 
Então, na porta do quarto recai 
sobre mim um verso bem alimentado 
e capaz de grandes feitos... 
Oh, o amor tem as faces rosadas 
de tanto pinote, 
pula os muros porque é moleque 
e compreende as possibilidades de uma flor 
em pleno campo minado. 
Não suporto sozinha dores tão bonitas... 
Por isso me valho dos versos 
para salvar a minha pele de qualquer noite 
do dia que passa por dentro 
da minha história comum. 
 
 
PASSAGEM DE IDA 
 
O Nordeste foi pra São Paulo 
levou a boneca de pano, a colcha de retalhos 
e um bocado de suor... 
 Brincou de “bem-me-quer”, 
separou tantas Marias de tantosJosés 
na chuva da multidão... 
O asfalto é mais forte que o coração, 
 o asfalto que sustenta o medo do sol, 
o peso dos prédios, 
o peso das pontes e a lonjura das almas 
atravessando juntas as avenidas enormes, 
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Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
onde o horizonte é o engarrafamento. 
 
 
DEGRADÉ 
 
A claridade especifica os objetos 
do mundo, 
suas formas vão ressurgindo, 
olhos meninos de susto contente 
desvendando a caixa do brinquedo 
que vai começar a existir. 
As células não reinventam 
seus poderes de expansão? 
Por tantas vezes antigas e noviças, 
os versos se acendem assim... 
Um calor arrecada a minha pele, 
determina a voz do manto, 
esse momento. 
Desmancho paisagens frias, perniciosas, 
adentro em raios das cerebrinas... 
Invento outra vez o que já tive: 
Meu pai mal acordado catando sol no quintal, 
 minha mãe tranquila agindo um café, 
o cheiro de pão dando leste à cozinha. 
Tudo em claro poema pródigo 
esbanjando o meu amor. 
 
 
AFONIA 
 
O chão frio recebe os meus pés 
e eu nem tenho uma garganta agora... 
249 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
O que não sei além do horizonte 
debruça os olhos sobre mim. 
Algumas saudades nunca vão emagrecer... 
Seus chinelos largados no meio da sala, 
sem liturgia 
é parte dessas lembranças. 
Pro sono profundo de todos ela já foi dormir 
e nem pôde levar seus chinelos... 
O que fazer das coisas acordadas que ela me deixou? 
 E é nessa hora da vida que o medo de mim se aproxima 
e uma inapetência pra raios de sol; 
a lua esplêndida de minguância, de suas vestes eu aprendi. 
 
Eu preciso obedecer à poesia, 
ofegante e sem pestanejar 
do mesmo modo de minha infância 
a correr pelas calçadas 
pra chegar depressa com o pacote de pão. 
 
SOBREMESA 
 
Um homem abria a janela 
por motivos de sol 
Crianças gritavam nas bordas da rua 
por motivos de brincadeira 
A mulher espalhava pratos na mesa 
por motivos de alimento. 
E eu como um doce com calda 
por motivos de memória. 
 
 
 
250 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
ARRANJO DE MARGARIDAS 
 
Não, não posso deixar para trás 
os passarinhos do mundo, 
as borboletas batendo a vida nas asas 
sobrevoando o chão inerte. 
Os olhos amarelos das margaridas 
espiam-me atentos... 
A brancura das pétalas 
que simulam um redondo sorriso, 
parece adivinhar os versos, 
onde o instante é o cais... 
Debruçam enfim, as palavras na janela, 
em espelhos olhando pra mim 
e a promessa comprida do dia 
de que me haverá a manhã. 
 
 [Todos os poemas são de 
 
*Marta Eugênia Vim para Arapiraca aos seis anos (nasci na Bahia), trabalho como professora de 
português e literatura em escolas estaduais e sou especialista em linguística. Mas a Literatura é meu lugar favorito 
por isso escolhi fomentar a poética nas salas de aula. 
 
 
 
 GERALDO OLIVEIRA NETO* 
 
PRAÇA SETE 
 
éramos complexos e enfumaçados 
251 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
alugávamos mapas astrais nas praças 
por qualquer trocado formavam-se rodas 
filas indianas e finlandesas vozes multiplicadas 
em muitas consoantes enquanto assobiávamos 
sem culpa alguma; copos d’água 
na maioria das vezes mastigar piscas-piscas 
em pleno meio-dia ao invés de recitar poemas 
era um colorido muito mais sincero do que cinza 
confundíamos espelhos com outros dez espelhos 
cilada desesperada para hipnotizar cachorros e moscas 
certamente nascia errada mais uma forma irônica 
de arrecadar dores dólares olhares e cigarros 
jogados num chapéu entretanto suficiente 
para alimentar em casa nosso jardim 
de plantas carnívoras 
 
DIVA TRASH 
 
você 
e suas drogas exóticas 
fazendo as mesmas caras 
e bocas dando pinta 
de gótica-trevosa 
tipo rainha Elvira 
numa velha mansão 
em Fallwell 
 
“mirror mirror 
on the wall 
who’s the most 
drop dead gorgeous 
one of all” 
 
252 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
já fizemos isso 
diante deste mesmo 
espelho quando fingíamos 
ser parentes próximos 
e vestíamos parábolas 
para além 
destes quartos 
 
sejamos sensatos 
ali do outro lado 
belezas imediatas 
cansam rápido 
e são facilmente 
dizimadas por meia 
dúzia de Medusas 
(que curiosamente menstruam em perfeita sincronia) 
 
SALTIMBANCOS 
o encantador de serpentes em mim cospe enquanto seus répteis barítonos assobiam 
em coro “my cherie amour” a cartomante avisa – garota já faz mais de mês que você 
anda com uma elefanta na barriga o atirador de facas acerta quem estava com o 
molho de chaves das jaulas de três tigres tristes tibetanos o canhão embala à lua o ex-
marido da trapezista míope (que tinha um caso com a mulher barbada) convidam o 
equilibrista de pratos para um casamento grego macacos recitam Maiakovski sob a 
corda bamba a contorcionista búlgara aprimora a técnica do quadradinho de oito (no 
improviso) o poeta traduz pro sânscrito a frágil matemática das roletas-russas a 
família de motociclistas abandona o globo da morte por motivos fascistas 
 
o circo esvazia 
ao lado da máquina 
de algodão doce 
jaz a placa: 
253 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
FALTAM PALHAÇOS 
 
 
ROTA 66 
 
deixamos Los Angeles 
com as pernas entre os rabos 
os que lá ficaram 
queriam esmagar nossos crânios 
tentávamos ser mais fortes 
que dramáticos 
 
sob a tutela de setenta 
anjos histéricos 
caminhávamos estradas 
como se engolidos 
por sedentas serpentes 
 
altivo, à colina 
tudo via o condor daltônico 
 
sob o viaduto (em itálico) 
um singelo letreiro 
latejava 
 
“ninguém é totalmente feliz, 
só de bermuda e cânhamo” 
 
 
TRÊS PEDRAS DE GELO NO WHISKY 
 
acorda pela manhã e ainda está vivo 
254 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
a pele que habita já não te consola 
não houvesse o espelho 
importaria menos com rugas 
algumas coisas foram feitas para sorver 
todo resto é música a ser decantada 
esculpe o vento a não desejar nada 
além do próximo cigarro elétrico 
assume sua impotência perante montanhas 
e a fragilidade do sistema bancário 
busca explicação nas cores da natureza 
sem abrir mão do escuro dos teus óculos 
acredita piamente no próximo 
a tiracolo trazes um bélico arsenal de desconfianças 
nunca visitou Manhattan ainda assim vislumbra o Central Park 
através de filmes dublados 
na falta das narinas respira pela boca 
(tua maior inimiga) 
só entende amor e a poesia 
ao dissolver três pedras 
de gelo no whisky 
 
FERIDA 
 
não tenho a certeza das pedras 
meus pecados ultrapassam qualquer proteção dos totens 
 e ave-marias, dos excessos amontoam-se castigos 
fajutos disfarces do ego raptando recomeços 
inquieto num destes dias nublados 
pedi resgate ao medo 
dos dez amputei dois dedos 
encontrei além da perda uma ferida áspera 
a espera de reparo 
255 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
não consigo chamar de cicatriz 
e por mais que assopre 
a dor é não sentir 
 
 
TERNO ROSA 
 
apenas peço estradas distraídas 
tropeços tramelas 
tocar estrelas estrambólicas 
amarelas 
remá-las depressa 
ou até mesmo 
rimá-las longe do brilho 
transcrito nas estrias naquele 
transtorno extremo de entornar 
estrofes destras 
dentre degredos dispostos 
a travestir traumas (in)versos 
é só então 
de terno rosa em verso e prosa 
retornar rei ao trono 
que nunca foi meu 
 [Todos os poemas são de Sincericídios] 
*Geraldo Oliveira Neto é mineiro, natural de Araxá. Teve seu primeiro livro Escapismo 
publicado pela Editora 7Letras em outubrode 2016. Seu novo livro Sincericídios será publicado 
em 2018 pela editora Patuá. Sua poesia é calcada no som das palavras, sobretudo nas 
repetições voluntárias, nas aliterações & nos jogos de desmonte & remodelagem, parte do 
princípio básico, A Palavra, ou as Palavras. 
 
 
 
 
 
256 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
257 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
MOEMA VILELA* 
 
 
UM AMIGO ESTÁ DIGITANDO UMA MENSAGEM 
 
Antônia, em ânsia, 
se antecipa em 
partir. Antes 
recusar o pouco 
que a ruína da conformação. 
Antes a fome, a imaginação, 
do que esta oferta de carne morta. 
Mas se enfiada até o caroço no desejo de ficar, 
cortar relações é emboscada 
– às raias do amadorismo. 
Como se possível fosse 
morrer ao mundo 
sem depois, 
se atirando no poço 
do elevador. 
Fica, Antônia, 
que todo fim vem 
– naturalmente. 
Não é preciso 
ser impaciente. 
 
 [De Quis dizer e na antologia Mulherio das Letras] 
 
 
 
 
NÃO NÃO ENCONTRÁ-LOS 
 
chego ao prédio e me ocorre examinar 
ali, aquele corredor vazio 
antes do elevador 
onde homens de uniforme depositam 
258 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
em silêncio 
compactos sítios arqueológicos 
nas caixas de correio 
entre livros por encomenda 
disque-entrega de sanduíche 
 
são cidades 
templos 
túmulos 
dobrados até a espessura de folha 
 
devo usar minha chave desta vez? 
aquela pequena, no meio das outras 
antes do barulho pesado da porta do elevador que me rapta 
me leva para longe 
é sempre bom chegar em casa 
 
(e quanto aos sítios arqueológicos 
é crime destruí-los 
mas não não encontrá-los) 
 
 [De Quis dizer] 
 
 
 
LA GARANTÍA 
 
porque soy del paraguay 
preguntam-me las leys del portunhol 
quiem dera las houvesse 
leys en la frontera e felicidá na civilization 
gabaritos para a vida, non só no vestibular 
259 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
onde há anos nos enganam, hacendo ultimos y primeros 
de berdá, pro que importa non hay modelo 
y tampoco hay palabras qui tragam la berdá 
si jo tivesse un pacto con el diablo 
intergalactiko y fronteiriço 
el rey real de la gran gramatica 
lo venderia 
por mijones y mijones de reales 
 
 [De 
 
 
TURIYA AND RAMAKRISHNA 
 
ele inspirou fundo, alongou o braço 
alongou o outro, ajeitou o calção 
dobrou os joelhos, esfregou as mãos 
de cima do banquinho esticou-se todo e mergulhou de ponta 
dentro do copo d’água no centro do palco 
 
o palhaço nunca esquecerá desse show 
quando empurrou os pés no chão até 
o corpo se desaprender e lembrar o impossível 
ele se lembrou 
 
[De 
 
UM CONVITE 
 
o novo Michelangelo é mesmo sensacional e também a transformação existencial e 
política sugerida nesta nova oferta de trabalho que deveria se chamar não trabalho mas 
presente extraordinário e tão bem remunerado com generosidades adicionais como a 
possibilidade de constante doação de roupas de inverno seguida da celebração de 
260 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
estarmos vivos porém à pessoa que arde não faz sentido participar do que não seja o 
segredo da água, você não vai dizer 
vamos pegar um cineminha, veja 
os meus cabelos 
estão pegando fogo 
[De 
 
 
CARAMELO 
com os sapatos calçados 
pela metade 
Basquiat não entra 
na lanchonete sem antes 
bagunçar as promoções da tarde 
no mural de calçada 
ele recomenda fé e patinete 
vende cãibras bem barato 
faz as pessoas comerem bolas de cedo 
em vez de caldo 
e depois pede panquecas 
para derramar na mesa o xarope 
e com o cardápio nivelar a massa 
onde escreverá com a colher 
o rosto da futura namorada 
a garçonete 
conjurada do vir-a-ser 
com os materiais à mão 
xarope de panqueca 
261 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
& olhos de revelação: 
mesmo as pessoas 
mais duras do que mesas 
se rearranjam 
– conhecem alguém, mudam 
de casa, de profissão, perdem 
a perna, ganham crianças 
– se tornam outras 
 [De 
 
 
*Moema Vilela é escritora e jornalista, doutora em Letras pela PUCRS. Autora de Ter saudade 
era bom (Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura, Guernica (Edições Udumbara, 
2017) e Quis dizer (Edições Udumbara, 2017). Publicou contos e poesias em antologias como De 
tudo fica um pouco (Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da 
memória (Edipucrs, 2014), Antologia Um (Edipucrs, 2017), Mulherio das Letras (Costelas felinas, 
2017), entre outras, e também em revistas e jornais digitais e impressos como a Revista Escrita 
(PUCRJ) o Jornal Opção, a Revista Raimundo, o fanzine O Borralho, entre outros. Graduada em 
Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). 
Ministrou cursos e oficinas de ensaio, poesia e conto em Campo Grande, Porto Alegre, Caxias 
do Sul, Pelotas. 
 
 
 VASCO CAVALCANTE* 
SOB SILÊNCIO - 4 POEMAS 
 
no mais, 
ardo em brisas 
 
estanco estrelas 
 
perco trilhas 
 
 aldeias, minhas ilhas 
 
enquanto, 
262 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
um sopro rege a mansidão 
 
 luas, o verbo ancora 
 
 e cala o rio 
 
 a verve 
 
 serpenteia o peixe 
 
 o aço, a rede 
 
no mais, 
 
 adormeço 
 
 o mundo vira 
 
 
 
 [De Sob silêncio] 
 
não há rio sob meus pés, 
espelhos de limo e areia 
 
profundezas 
apagam luzes, 
estrelas 
 
um eco a céu aberto 
retém o limo nas retinas 
 
nada me atém 
nada perdura 
 
sou afeito às utopias 
 
 
 
263 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
 [De Sob silêncio] 
 
 
 
 
sobre o silêncio, não há nada... 
à luz de um poema, sob silêncio, 
 
 mu(n)do 
 
 
 
 
 
 [De Sob silêncio] 
 
 
aos ventos, 
 
 
 sobre as cidades 
 
 moinhos 
 sob a pele 
 
 margens, 
 brisas 
 
 vãos de ruas 
 curvas, becos, praças 
 
 um rio de asfalto 
 asfixia a tarde, 
 entorpece o mundo 
 
 mudo, resplandeço 
 
264 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 desfaço nuvens 
 novelos, vias 
 
 sobre a tarde 
 
 sobrevoando mundos 
 
 
 asfixiado(s) 
 
 
 
 
 
 [De Sob silêncio] 
 
 
REVERSO DOS DIAS - 4 POEMAS 
 
 
uma chave 
espessa 
cor de ouro 
estanca as dores 
do mundo 
 
 
no espelho, 
velas abertas 
fremem ao fulgor 
do Sol 
 
 
no crepúsculo, 
um ranger de asas 
lambe a noite, 
extrai do ventre 
as feridas e se 
esvai, num rompante 
de dores, bálsamos, 
265 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
orgasmos seriais 
 
 
 [De Reverso dos dias]roço 
a ponta da língua 
na lâmina fina 
do céu da tua boca 
 
 
não há mais muro, 
não há mais mundo 
 
 
raso 
fundo 
 
 [De Reverso dos dias] 
 
 
 
 
tua palma, 
 
 
inexatas linhas 
 
vasos 
bifurcam 
no índigo 
véu das 
veias 
 
sobre 
as dunas 
 
 
 vago 
 
266 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
 
nos desvios 
 
 
 pouso 
 
 
 arrefeço 
 sob teus anéis 
 
 
 
 [De Reverso dos dias] 
 
 
 
 
 
uma palavra, 
um cepo oco 
 
 
invento 
sob sua luz, 
um presságio 
 
 
abstraio 
seu cerne, 
seu lúmen 
 
 
cravo em 
sua encosta 
 
 
um poema 
 
 
 
 
 [De Reverso dos dias] 
 
 
267 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
*Vasco Cavalcante, paraense de Belém do Pará, foi um dos fundadores do grupo de poesia 
alternativa "Fundo de Gaveta", ativo de 1981 a 1983. Tem poemas publicados nas revistas 
virtuais “ZUNÁI”, “Mallarmargens”, “Escamandro”, “Marinatambalo”, “Literatura.br”, “Poesia 
Avulsa”, e em várias edições da revista literária "Polichinello". Em 2012 participou, com outros 
12 poetas contemporâneos brasileiros, da plaquete de poemas "Desvio para o vermelho: treze 
poetas brasileiros contemporâneos", lançada pelo Centro Cultural de São Paulo. Em 2016, a 
convite da Fundação Cultural do Pará, participou da antologia Impossível não te ofertar — 
poemas para Max Martins, em homenagem ao poeta Max Martins. Tem dois livros de poesia 
publicados pela Editora Patuá, de São Paulo, Sob Silêncio (2015) e Reverso dos dias (2017). 
 
 
 
 
https://www.facebook.com/polichinello/?fref=mentions
268 
 
Eutomia, Recife, 21(1): 218-268, Jul. 2018 
i Luci Collin, curitibana, é ficcionista, poeta e tradutora. Tem 18 livros publicados entre os quais Querer falar 
(poesia, Finalista do Prémio Oceanos 2015), A palavra algo (poesia, Prêmio Jabuti 2017), Nossa Senhora 
D’Aqui (romance, 2015), A árvore todas (contos, 2015) e A peça intocada (contos, 2017). É Professora do 
Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR. 
E-mail: collinluci@gmail.com 
ii Mauro Scaramuzza Filho é natural de Curitiba (Paraná). Estudou Ciências Biológicas, Artes Plásticas e 
Letras. Tem Doutorado em Literatura e Outras Linguagens pela Universidade Federal do Paraná (2017). 
Nas artes bidimensionais, expressa-se por meio do desenho e da pintura. A temática de suas obras 
concentra-se nas formas da Natureza. 
 
 
mailto:collinluci@gmail.com

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