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O Conhecimento de Deus
J. I. Packer
Título original: “Knowing God”
Tradução de Cleide Wolf e Rogério Portela
2a Edição
Editora Mundo Cristão
ISBN: 85-7325-030-5
Digitalizado, Revisado e Formatado por: Skat
www.portaldetonando.com.br/forumnovo/
2
S U MÁRI O
Prefácio . 3
Apresentação 8
Parte i: CONHEÇA O SENHOR
1. O estudo de Deus 11
2. O povo que conhece seu Deus 18
3. Conhecer e ser conhecido 26
4. O único e verdadeiro Deus 36
5. Deus encarnado 44
6. Ele dará testemunho 58
Parte ii: CONTEMPLE O SEU DEUS
7. O Deus imutável 66
8. A majestade de Deus 74
9. Só Deus é sábio 81
10.A sabedoria de Deus e a nossa 89
11.A tua palavra é a verdade 99
12.O amor de Deus 106
13. A graça de Deus 119
14. Deus, o Juiz 130
15. A ira de Deus 139
16. Bondade e severidade 149
17. O Deus ciumento 158
Parte iii: SE DEUS É POR NÓS...
18. O coração do Evangelho 168
19. Filhos de Deus 189
20. Tu, nosso guia 219
21. Estas provações íntimas 233
22. A suficiência de Deus 241
3
PREFÁCIO
Assim como os palhaços almejam representar Hamlet, eu queria escrever um
tratado sobre Deus. Este livro, porém, não chega a tanto, ainda que sua extensão
possa dar essa falsa idéia. Quem pensar assim ficará desapontado. É mais uma
fieira de contas: uma série de pequenos estudos sobre grandes assuntos, muitos
dos quais apareceram na Evangelical Magazine [Revista Evangélica}. Embora
tenham sido escritos como mensagens independentes, são agora apresentados em
conjunto porque englobam uma só mensagem a respeito de Deus e de nossa vida.
É seu propósito prático que explica tanto a seleção como a omissão de diversos
tópicos e seu tratamento.
Em A preface to Christian theology [Prefácio à teologia cristã], John
Mackay1 ilustra dois tipos de interesse nos assuntos cristãos. Para isso usa a
figura de pessoas sentadas na sacada de uma casa espanhola observando quem
passa na rua. Eles podem ouvir a conversa dos transeuntes e mesmo conversar
com eles, podem criticar seu modo de andar, ou discutir a respeito da rua: Como
ela pode existir, ou para onde vai, o que
1John Alexander Mackay (1889-1983). Ministro presbiteriano escocês (nascido em Iver-ness), foi
um missionário ligado à educação (principalmente no Peru, Uruguai e México), presidente do
Seminário Teológico de Princeton e líder ecumênico, proponente da Teologia do Caminho.
4
poderia ser observado de diferentes pontos dela, e assim por diante; mas são
apenas observadores, e seus problemas são teóricos.
Os viajantes, pelo contrário, estão enfrentando problemas, que embora tenham
seu ângulo teórico são essencialmente práticos — problemas do tipo "aonde ir" ou
"como chegar lá", problemas que exigem não apenas compreensão, mas também
decisão e ação.
Observadores e viajantes podem refletir sobre o mesmo assunto, mas seus
problemas diferem. Assim (por exemplo) em relação ao mal, o problema do
observador é encontrar uma explicação que concilie o mal com a soberania e a
bondade de Deus, enquanto o problema do viajante é como vencer o mal e se sair
bem.
Quanto ao pecado, o observador questiona a credibilidade da tendência
humana ao pecado ou da perversidade pessoal, ao passo que o viajante,
conhecendo o pecado por dentro, pergunta que esperança de libertação pode
haver. Ou, em relação à divindade, enquanto o observador da sacada pergunta
como é possível que um Deus seja três, que espécie de unidade pode haver em
três, e como três — que são um — podem ser pessoas, os viajantes querem saber
como poderão mostrar honra adequada, amor e confiança perante as três pessoas
que agora estão unidas no esforço de transportá-los do pecado para a glória.
Poderíamos continuar indefinidamente neste tom, mas este livro é para os
viajantes e é com suas perguntas que ele lida. Foi escrito com a convicção de que
a ignorância sobre Deus — ignorância tanto de seus recursos como da prática da
comunhão com ele — tem relação direta com a fraqueza da igreja moderna. Duas
tendências infelizes parecem ter produzido este estado de coisas.
A primeira tendência é que a mentalidade cristã adaptou-se ao espírito
moderno, ou seja, o que gera grandes idéias humanas e deixa espaço apenas para
pequenos pensamentos sobre Deus. A atitude atual em relação a Deus é deixá-lo à
distância, quando não o nega completamente. A ironia disto é que os cristãos
modernos, preocupados em manter as práticas religiosas em um mundo sem
religião, têm, eles mesmos, permitido que Deus se torne distante.
Pessoas com uma visão mais clara das coisas, percebendo esta situação, são
tentadas a se afastar da igreja, um tanto desgostosas, para buscar a Deus por si
mesmas. Ninguém poderá culpá-las totalmente, pois os cristãos que buscam a
Deus usando, por assim dizer, o lado errado do telescópio, reduzindo-o à
proporção de um pigmeu, não podem esperar concluir seus dias senão como
cristãos pigmeus. As mais esclarecidas querem naturalmente alguma coisa melhor.
Além disso, pensamentos sobre a morte, a eternidade, o juízo, a grandeza da alma
e as conseqüências duradouras das decisões temporais são "ultrapassados" para os
modernistas. O triste é que a Igreja cristã, em lugar de levantar a voz para lembrar
ao mundo o que está sendo esquecido, adquiriu o hábito de também menosprezar
esses temas. Estas capitulações ao espírito moderno são realmente suicidas
quando se referem à vida cristã.
A segunda tendência é que a mentalidade cristã vem sendo confundida pelo
ceticismo moderno. Por mais de três séculos o fermento naturalista da perspectiva
renascentista tem agido como um câncer no pensamento ocidental. Os
5
arminianos2 e os deístas3 do século xvn, assim como os socinianos4 no século
xvi, negavam, em oposição à teologia da Reforma,5 que o controle de Deus sobre
o mundo fosse direto ou total. Desde então,
2Partidários do teólogo holandês Jacó Armínio (1560-1609), cujos escritos foram julgados
postumamente pelo Sínodo de Dort (1618-1619), convocado pela Igreja Reformada Holandesa (da
qual Armínio fora ministro), por negar a doutrina oficial calvinista sobre a predestinação absoluta,
afirmando a incompatibilidade entre a soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.
3Adeptos de uma forma racionalista de explicar o relacionamento de Deus com o mundo.
Costuma-se descrever o conceito deísta segundo a ilustração clássica criada por Nicolau de
Oresmes (séc. xiv) de que Deus seria um "Relojoeiro", que inventou todas as engrenagens do
relógio chamado Universo para trabalhar perfeitamente, deu corda e saiu para tratar de seus
assuntos.
4Seguidores de Fausto Socino (1539-1604) que negavam a divindade de Jesus, a onisciência
divina e ensinavam a morte da alma. São os precursores do que se tornaria o unitarismo (séc. xvii)
e a teologia aberta ou neoteísmo (séc. xx), escola de interpretação bíblica atualizada dos
argumentos de Socino contra a onisciência absoluta de Deus.
5Sucintamente descrita pela expressão "Cinco solas": Sola Scriptura (só a Escritura é a Palavra de
Deus); Solus Christus (só Jesus Cristo salva mediante sua obra expiatória e substitutiva na cruz);
Sola gratia (a salvação é decorrente única e exclusivamente da graça divina, sem nenhum
merecimento por parte da humanidade decaída e pecadora); Sola
fide (a salvação é outorgada só àqueles que têm fé, que também é dom divino) e Soli Deo gloria
(todos os que foram alcançados pela mensagem exclusiva da Palavra de Deus e creram só em Jesus
para a salvação, por terem sido beneficiados por Deus com sua graça e o dom da fé, darão
eternamente glória e louvor exclusivos ao Senhor que os salvou).
6
a teologia, a filosofia e a ciência têm em grande parte se unido para sustentar essa
negativa. Como conseqüência, a Bíblia está sob fogo cerrado, assim como muitos
outros marcos do cristianismo histórico. Os fatos fundamentais da fé são
questionados. Deus se encontrou com Israel no Sinai? Jesus foi mais que um
homem muito espiritual? Os milagres dos Evangelhos realmente aconteceram? O
Jesus dos Evangelhos não será, em grande parte, uma figura imaginária? — e
assim por diante.
E isso não é tudo. O ceticismoquando o vê escarnecido. Quando Barnabé chegou a Antio-quia "vendo a
35
graça de Deus, ficou alegre" (At 11:23), ao contrário do salmista, que escreveu
"Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida" (Sl
119:136). Do mesmo modo, o cristão sente vergonha e tristeza quando se
convence de ter negado seu Senhor (v., p. ex.: Si 51 e Lc 22:61,62), e de tempos
em tempos conhece enlevos de alegria quando Deus de alguma maneira lhe faz
sentir a glória do seu eterno amor com o qual tem sido amado ("vocês estão cheios
de uma alegria radiante que não pode ser descrita com palavras", lPe 1:8; vfl).
Este é o lado emocional e experimental da amizade com Deus. Por mais
verdadeiros que sejam os pensamentos do ser humano sobre Deus, se ele ignorar
essa parte emocional, na realidade, não conhece o Deus que lhe ocupa a mente.
Em terceiro lugar, conhecer a Deus é uma questão de graça. Trata-se de um
relacionamento cuja iniciativa pertence completamente a Deus — como deve ser
mesmo, pelo fato de ele estar tão acima de nós e de termos perdido totalmente
qualquer direito a seu favor por causa de nossos pecados. Nós não fazemos
amizade com Deus; ele se torna nosso amigo levando-nos a conhecê-lo e tornando
seu amor conhecido por nós. Paulo expressa esta idéia da prioridade da graça em
nosso conhecimento de Deus quando escreve aos gálatas: "Mas agora, conhecendo
a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos" (Gl 4:9). O que transparece nesta
frase é a compreensão por parte do apóstolo de que a graça veio primeiro e
permanece fundamental na salvação dos leitores dele. O conhecimento de Deus
era conseqüência de ter Deus tomado conhecimento deles. Eles o conhecem pela
fé porque ele os havia escolhido primeiro pela graça.
"Conhecer", quando usada em relação a Deus, é uma palavra da graça soberana
e mostra que ele tomou a iniciativa de amar, escolher, redimir, chamar e preservar.
Que Deus está perfeitamente consciente a nosso respeito, "conhecendo-nos pelo
avesso" por assim dizer, é com certeza parte do significado, como se vê pelo
contraste entre nosso conhecimento incipiente de Deus e seu perfeito
conhecimento sobre nós em 1Coríntios 13:2; mas não é o significado principal,
pois este realmente surge nas passagens que se seguem:
O Senhor disse a Moisés [...] porque tenho me agradado de você e o
conheço pelo nome (Êx 33:17).
Antes de formá-lo [Jeremias] no ventre eu o escolhi; antes de você
nascer, eu o separei (Jr 1:5).
Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem
[...] e dou a minha vida pelas ovelhas [...] As minhas ovelhas ouvem a
minha voz; eu as conheço [...] jamais perecerão (Jo 10:14,15,27,28).
Aqui o conhecimento de Deus sobre os seus está associado ao propósito da graça
salvadora. É um conhecimento que implica afeição pessoal, ação redentora,
fidelidade à aliança e proteção providencial para os conhecidos de Deus. Em
outras palavras, isto implica salvação, agora e para sempre, como já aludimos
anteriormente.
36
Ser conhecido
Portanto, o que importa realmente, em última análise, não é o fato de que conheço
a Deus, mas uma idéia muito mais ampla está subentendida — o fato de que ele
me conhece. Estou gravado nas palmas de sua mão, e nunca estou longe de seu
pensamento. Todo o meu conhecimento dele depende de sua iniciativa contínua
de me conhecer. Eu o conheço porque ele me conheceu primeiro e continua a
fazê-lo. Ele me conhece como amigo — alguém que me ama muito e cujos olhos
e atenção jamais se afastam de mim. Por nenhum momento seu cuidado me
faltará.
Estamos falando de um conhecimento significativo. Há um conforto
indescritível — o tipo de conforto que nos estimula, seja dito, e não debilita —
em saber que Deus está constantemente atento a mim com amor, e velando por
mim para meu benefício. Há um alívio tremendo em saber que seu amor é
profundamente realista. Cada ponto baseia-se no conhecimento prévio do que há
de pior sobre mim, de modo que agora nada pode desapontá-lo a meu respeito —
como acontece muitas vezes comigo, pois estou sempre me desiludindo sobre
mim mesmo —, nem extinguir sua determinação de me abençoar.
Há, certamente, grande motivo de humilhação em pensar que ele vê tudo o que
há de errado em mim que outros não vêem (e isto me alegra!), e que ele vê mais
corrupção do que eu mesmo vejo em mim (o que, em sã consciência, é bastante).
Há, entretanto, igualmente um grande incentivo para adorar e amar a Deus porque,
por alguma razão inson-dável, ele me quer por amigo, e quer ser meu amigo, pois
entregou seu Filho para morrer por mim a fim de cumprir esse propósito.
Não podemos desenvolver essas idéias aqui, mas sua simples menção já basta
para mostrar como é importante saber não apenas que conhecemos a Deus, mas
que ele nos conhece.
37
o único e verdadeiro Deus
O que a palavra idolatria lhe sugere? Selvagens prostrados diante de um
poste-ídolo? Estátuas com faces cruéis nos templos hinduístas? Danças religiosas
dos sacerdotes de Baal ao redor do altar levantado por Elias? Tudo isto clara e
certamente é idolatria, mas precisamos pensar na existência de formas bem mais
sutis de idolatria.
Veja o segundo mandamento. Ele diz "Não farás para ti nenhum ídolo,
nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da
terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor,
o teu Deus, sou Deus zeloso..." (Êx 20:4,5). Sobre o que este mandamento está
falando?
Se ele estivesse isolado, seria natural supor sua referência à adoração de
imagens de outros deuses além de Jeová — os ídolos da Babilônia, por exemplo,
que Isaías ridicularizou (Is 44:9; 46:1), ou o paganismo do mundo greco-romano
dos tempos de Paulo, sobre os quais ele escreveu em Romanos 1:23-25: "e
trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do
homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes, e répteis [...] Trocaram a
verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em
lugar do Criador...".
Em seu contexto, porém, é pouco provável que o segundo mandamento esteja
se referindo a este tipo de idolatria, pois se assim fosse só repetiria o pensamento
do primeiro mandamento sem lhe acrescentar nada.
Assim, tomamos o segundo mandamento — como tem sido sempre feito —
como indicativo do seguinte princípio (citando Charles Hodge): "... a idolatria
consiste não só no culto a falsos deuses, mas também no culto ao verdadeiro
Deus através de imagens".1
Na aplicação cristã isto quer dizer que não devemos fazer uso na adoração de
nenhuma representação visual ou pictó-rica do Deus triúno, nem das pessoas da
Trindade. O mandamento não se refere ao objeto de nossa adoração, mas à
maneira como esta é feita; nenhuma estátua ou figura daquele que adoramos deve
ser usada como auxílio à adoração.
O PERIGO DAS IMAGENS
38
À primeira vista parece estranho que tal proibição esteja colocada entre os dez
princípios básicos da religião bíblica, pois não vemos, de imediato, muita razão
para isso. Que mal pode haver, perguntamos, se o adorador rodear-se de estátuas e
quadros se eles o ajudam a elevar o coração a Deus?
Acostumamo-nos a tratar o tema sobre se tais objetos devem ser usados ou não,
como uma questão de temperamento e gosto pessoal. Sabemos que muitas pessoas
possuem crucifixos e figuras de Cristo no quarto. Dizem que olhar para esses
objetos ajuda-as a focalizar os pensamentos em Cristo. Sabemos que muitas
pessoas se julgam capazes de adorar com mais liberdade e facilidade em igrejas
cheias desses ornamentos que em igrejas sem eles.
Bem, que há de errado nisso? Que mal esses objetos podem causar? Se as
pessoas os acham realmente úteis, que mais há para dizer? Que propósito há em
proibi-los? Diante dessa perplexidade, alguém poderá sugerir que o segundo
mandamento se aplica apenas a representações imorais ou degradantes de Deus,
tiradas dos cultos pagãos, e a nada
1Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1 239.
39
mais. Mas as palavras do mandamento eliminam tal suposição.Deus diz
categoricamente: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem" para ser
usada em adoração.
Essa afirmação categórica proíbe não apenas o uso de figuras e estátuas
representando Deus como animal, mas também o uso de figuras e imagens que o
representam como a mais elevada criatura que conhecemos — o homem. Proíbe
também o uso de figuras e imagens de Jesus Cristo como homem, embora o
próprio Jesus tenha sido e permaneça homem. Toda figura ou imagem é
necessariamente produzida à "semelhança" do homem ideal, como o imaginamos,
e portanto está sob a proibição imposta pelo mandamento.
Ao longo da história, os cristãos têm divergido a respeito da proibição do
segundo mandamento, de vetar o uso de figuras de Jesus com propósitos didáticos
e instrutivos (por exemplo, na escola dominical). Embora a questão não seja fácil
de resolver, não há dúvida de que o segundo mandamento nos obriga a dissociar a
adoração tanto pública como particular de qualquer figura ou estátua de Jesus,
como de qualquer representação de seu Pai.
Neste caso, que razão há afinal para essa proibição tão ampla? Pela ênfase dada
ao próprio mandamento com as assustadoras sanções ligadas a ele (proclamando o
zelo de Deus, punindo com severidade os transgressores), supõe-se que deve ser
de importância crucial. Mas será realmente?
A resposta é sim. A Bíblia mostra que a glória de Deus e o bem espiritual do
homem estão diretamente ligados ao mandamento. Duas linhas de pensamento se
nos apresentam e juntas poderão explicar amplamente por que este mandamento
deve ser tão enfaticamente destacado. Estas linhas de pensamento não se referem
ao auxílio real ou alegado das imagens, mas à verdade delas. São as seguintes:
1. As imagens desonram a Deus, pois obscurecem sua glória. A semelhança
das coisas celestes (sol, lua, estrelas), terrestres (homens, animais, pássaros,
insetos) e marítimas (peixes, mamíferos, crustáceos) não corresponde exatamente
à semelhança de seu Criador. "A verdadeira imagem de Deus", escreveu Calvino,
"não é encontrada em nenhuma parte do mundo; conseqüentemente [...] sua glória
é profanada, e sua verdade corrompida pela mentira, sempre que ele nos é
apresentado de forma visível [...]. Portanto, projetar qualquer imagem de Deus é
por si só irreverência, porque mediante essa corrupção sua majestade é adulterada,
e ele é representado de modo diferente da realidade".2
O ponto aqui não é apenas que a imagem representa Deus com corpo e
membros, o que na realidade ele não tem. Se fosse apenas esta a base da objeção
às imagens, as representações de Cristo não seriam erradas, mas a realidade é
muito mais profunda. O cerne da objeção às figuras e imagens está no fato de
ocultar inevitável e quase totalmente a verdade sobre a natureza pessoal e o
caráter do Ser divino representado.
Para ilustrar: Aarão fez um bezerro de ouro (isto é, a imagem de um boi). Com
a intenção de manter um símbolo visível de Jeová, o Deus poderoso que havia
tirado Israel do Egito. Não há dúvida de que a intenção era honrar a Deus, criando
40
um símbolo de sua grande força.
Entretanto não é difícil ver que esse símbolo é um insulto a Deus, pois que idéia
de seu caráter moral, justiça, bondade e paciência poderia ser depreendida da
observação de sua imagem retratada por um boi? A imagem de Aarão escondeu a
glória de Jeová.
De modo semelhante, as impressões exteriores geradas pelo crucifixo
obscu-recem a glória de Cristo, pois ofuscam sua divindade, a vitória na cruz e a
realidade do Reino. Ele aponta apenas a fraqueza humana, porém esconde sua
força divina; representa a exatidão da dor, mas não mostra a realidade de sua
alegria e força.
Em ambos os casos o símbolo perde valor pelo que deixa de transmitir. O
mesmo acontece com as outras representações visuais da divindade.
2João Calvino, Harmony of the law, v. 2, http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom04.iii.i.i.html.
41
Não importa o que pensemos a respeito da arte religiosa do ponto de vista
cultural, não devemos olhar para as representações divinas à procura de sua
glória e de estímulo à adoração, pois na verdade sua glória jamais é
encontrada nesses quadros. Por isso Deus acrescentou sobre si no segundo
mandamento a referência "zeloso" e vingador de quem não lhe obedece, pois o
"ciúme" de Deus, na Bíblia, é seu zelo em manter a própria glória, posta em jogo
quando imagens são usadas na adoração.
Em Isaías 40:18, depois de haver declarado vivamente a grandeza
incomensurável de Deus, a Escritura pergunta: "Com quem vocês compararão
Deus? Como poderão representá-lo?". A indagação não espera resposta, apenas o
silêncio reservado. Seu propósito é lembrar o absurdo e a impiedade de pensar que
a imagem modelada necessariamente à semelhança de alguma criatura possa ter
paridade com o Criador.
Esta não é a única razão pela qual somos proibidos de usar imagens na
adoração.
2. As imagens enganam os homens ao projetar idéias falsas a respeito de
Deus. A representação inadequada perverte nossos pensamentos sobre Deus e nos
incute na mente erros de todos os tipos sobre seu caráter e sua vontade.
Ao representar a imagem de Deus na forma de bezerro, Aarão levou os
israelitas a pensar nele como um Ser que podia ser adorado por meio de
devassidão frenética. Conseqüentemente, a "festa dedicada ao Senhor" organizada
por Aarão (Êx 32:5) transformou-se em orgia vergonhosa. Ainda mais, a história
provou com fatos que o uso do crucifixo como auxílio à oração levou o povo a
equiparar a devoção com a meditação sobre os sofrimentos corporais de Cristo.
Isso os tornou mórbidos em relação ao valor espiritual da dor física, impedindo-os
de conhecer o Salvador ressurreto.
Estes exemplos mostram como as imagens falsificaram a verdade divina na
mente humana. Do ponto de vista psicológico é correto afirmar que, se os
pensamentos estiverem constantemente focalizados na imagem ou figura do ser a
quem as orações são dirigidas, você pensará nele e orará a ele conforme a
representação da imagem. Assim, neste sentido você estará "se curvando" e
"adorando" sua imagem. A medida que essa imagem falha em representar a
verdade sobre Deus, você também deixará de adorá-lo em verdade. Esta é a razão
pela qual Deus proíbe o uso de imagens e figuras como auxílio à adoração.
Imagens esculpidas e imagens mentais
A compreensão de que imagens e figuras de Deus afetam nossos pensamentos
sobre ele sinaliza um campo mais avançado da aplicabilidade da proibição do
segundo mandamento. Ele tanto nos proíbe de fazer imagens de Deus como de
criá-las mentalmente. Imaginar pode ser uma infração tão real do segundo
mandamento quanto idealizá-lo mediante o trabalho manual.
Ouvimos muitas vezes expressões como esta: "Eu gosto de pensar em Deus
42
como o grande Arquiteto (Matemático, Artista)". "Eu não penso em Deus como
juiz: gosto depensar nele simplesmente como Pai". Sabemos por experiência
como essas expressões servem de prelúdio à negação de algum ensinamento
bíblico a respeito de Deus. É necessário afirmar com a maior ênfase possível que
quem se considera livre para pensar em Deus como gosta infringe o segundo
mandamento. Na melhor das hipóteses, pode pensar em Deus apenas como
homem — talvez o homem ideal ou um super-homem —, mas Deus não é igual a
nenhum tipo humano. Embora tenhamos sido feitos a sua imagem, não podemos
pensar em Deus de acordo com ela. Pensar em Deus desse modo é mostrar
ignorância a respeito dele, e não conhecimento.
Toda teologia especulativa, baseada em arrazoados filosóficos e não na
revelação bíblica, erra nesse ponto. Paulo nos conta onde termina esse tipo de
teologia: "[...] o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana" (1Co
1:21b). Seguir a imaginação de alguém no campo da teologia é o modo de
manter-se ignorante a respeito de Deus e tornar-se idólatra — o ídolo neste caso
seria a falsa imagem mental de Deus criada pela especulação e imaginação
humanas.
Tendo em vista este fato, o propósito positivo do segundo mandamento
torna-se claro. Negativamente, é uma exortação à adoração e à prática religiosaque desonram a Deus e falsificam sua verdade. Positivamente, ele nos convoca a
reconhecer que Deus, o Criador, é transcendente, misterioso e inescrutável, além
do alcance de qualquer conjectura filosófica. Daí a convocação para nos
humilharmos, ouvi-lo e aprender dele; assim, ele mesmo nos ensinará como é e
como devemos pensar sobre ele.
"Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês", ele nos diz, "nem os
seus caminhos são os meus caminhos [...] Assim como os céus são mais altos do
que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e
os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos" (Is 55:8,9). Paulo
fala do mesmo modo: "Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do
conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os
seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor?" (Rm 11:33,34).
Deus não é parecido conosco. Sua sabedoria, seus objetivos, sua escala de
valores e seu modo de proceder diferem tanto do nosso que não temos
possibilidade de comparar nossos caminhos com os dele nem inferi-los pela
analogia do homem ideal. Não podemos conhecê-lo a menos que ele se pronuncie
e nos fale sobre si mesmo.
Na realidade, ele tem falado. Falou aos profetas e apóstolos — e por meio deles
— e tem falado nas palavras e atos de seu Filho. Mediante sua revelação,
disponível nas Sagradas Escrituras, podemos formar a noção verdadeira sobre
Deus; sem essa revelação jamais conseguiríamos. Parece, portanto, que a força
positiva do segundo mandamento está na exigência de formar nossos conceitos
so-
bre Deus com base em sua santa Palavra, e em
nada mais.
43
Pelo modo como foi enunciado, parece claro ser este o impulso positivo do
mandamento. Tendo proibido a produção e a adoração de imagens, Deus se
declarou "zeloso" ao punir não apenas os adoradores de imagens, mas todos os
que o "odeiam", isto é, quem desobedece a seus mandamentos de forma geral.
Pelo contexto, seria natural e esperada a ameaça apenas aos idólatras; por que
então a ameaça divina é generalizada? Certamente é para percebermos que quem
faz imagens e as utiliza na adoração inevitavelmente extrai delas sua teologia,
incluindo a negligência de todos os pontos da vontade de Deus revelada.
A mente que admite imagens não aprendeu ainda a amar e a ouvir a Palavra de
Deus. Quem espera ser guiado a Deus por imagens feitas pelos homens, materiais
ou mentais, por certo não leva a sério como deveria nenhuma parte de sua
revelação.
Em Deuteronômio 4, o próprio Moisés interpreta a proibição de imagens na
adoração exatamente desse modo, contrapondo a fabricação de imagens à atenção
aos mandamentos e à palavra de Deus, como se ambas fossem mutuamente
excludentes. Ele lembra ao povo que, embora tivessem visto sinais da presença
divina no Sinai, não contemplaram nenhuma representação visível do próprio
Deus, apenas ouviram sua palavra. Moisés os exorta a continuar vivendo como se
estivessem ao pé da montanha, com a própria palavra de Deus ecoando-lhes nos
ouvidos para dirigi-los, e sem nenhuma suposta imagem de Deus para distraí-los.
A idéia é clara. Deus não lhes apresentou nenhum símbolo visível de si mesmo,
mas falou com eles; portanto, agora eles não deveriam procurar símbolos visíveis
de Deus, mas simplesmente obedecer a sua Palavra. Caso se diga que Moisés
estava com medo de que os israelitas tomassem emprestados modelos de imagens
das nações idólatras a sua volta, nossa resposta é sem dúvida positiva. Este é
exatamente o ponto: todas as imagens de Deus feitas pelos homens, sejam
esculpidas ou mentais, são realmente emprestadas do mundo ímpio e pecador, e
com certeza não estão de acordo com a santa Palavra do próprio Deus. Fazer uma
imagem dele é buscar inspiração em recursos humanos e não em Deus; este é
realmente o erro da produção de imagens.
Olhando para o verdadeiro Deus
A questão suscitada por esta linha de pensamento é: Até que ponto estamos
guardando o segundo mandamento? Por certo não temos imagens de bezerros em
nossas igrejas e talvez nem crucifixos em casa (embora possamos ter alguma
figura de Cristo na parede — sobre a qual deveríamos pensar com cuidado
redobrado). No entanto, mas temos certeza de que o Deus que adoramos é o Deus
da Bíblia, o Jeová triúno? Adoramos o único e verdadeiro Deus? Ou nossa
concepção dele demonstra a realidade de não crermos no Deus do cristianismo,
mas em outra divindade professada por muçulmanos, judeus ou testemunhas de
Jeová?
Você talvez se pergunte: Como posso saber? Bem, o teste é este: O Deus da
Bíblia falou através de seu Filho. A luz do conhecimento de sua glória nos é dada
44
na face de Jesus Cristo. Será que olho habitualmente para a pessoa e para a obra
do Senhor Jesus Cristo como a revelação da verdade final sobre a natureza e a
graça de Deus? Vejo todos os propósitos de Deus centralizados nele?
Se fui capacitado para ver isto e, na mente e no coração, ir até o Calvário e
apropriar-me da solução nele encontrada, então posso saber que realmente adoro o
Deus verdadeiro, que ele é o meu Deus e que já desfruto a vida eterna de acordo
com a definição do próprio Senhor: "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3).
Nota adicional (1993)
Ao longo dos anos tenho recebido ininterruptamente cartas afirmando que meu
argumento sobre o uso de imagens com propósitos devocio-nais ou didáticos foi
exagerado. Será?
Três objeções foram levantadas contra ele. Primeira, a adoração a Deus requer
tanto a expressão estética mediante artes visuais quanto a expressão moral cristã
por meio do amor familiar e do amor ao próximo. Segunda, a imaginação é parte
da natureza humana criada por Deus e deve ser santificada e manifestada em vez
de estigmatizada e suprimida em nossa comunhão com o Criador. Terceira,
imagens (crucifixos, ícones, estátuas, quadros de Jesus) aumentam a devoção, que
de outra forma seria enfraquecida.
O princípio da primeira objeção está correto, mas precisa ser aplicado com
exatidão. A arte simbólica pode servir à adoração sob várias formas, mas o
segundo mandamento proíbe todas as representações da imagem de Deus. Se
pinturas, desenhos e estátuas de Jesus — o Filho encarnado — sempre foram
considerados símbolos da perfeição humana pelas culturas que os produziram
(pele branca para os anglo-saxões, pele negra para os africanos e pele amarela
para os asiáticos ou o que quer que seja), em vez da aparência real de Jesus, não
haveria problema. Entretanto, crianças e adultos mais simples podem
considerá-los reais. Portanto, em minha opinião, seria prudente evitá-los.
O princípio da segunda objeção também está correto, mas a maneira bíblica de
aplicá-lo é restringir nossa imaginação visual e verbal à apreciação da história e
do maravilhamento diante dos atos divinos. Isso acontece nos Profetas, Salmos e
no livro do Apocalipse, que não desafiam o segundo mandamento pela criação de
imagens simbólicas ou aparentemente representativas de Deus.
Com relação à terceira objeção, o problema é que tão logo as imagens sejam
tratadas como representações e não como símbolos, elas começam a corromper a
devoção que pretendiam estimular. Dada a dificuldade de escapar dessa
armadilha, a sabedoria aconselha a proceder da forma melhor e mais segura, isto
é, não usá-las. Não vale a pena correr alguns riscos.
45
Deus encarnado
Não é de admirar que pessoas ponderadas achem difícil crer no Evangelho de
Jesus Cristo, pois as realidades ali apresentadas ultrapassam o entendimento
humano. Entretanto é triste ver que muitos tornam a fé mais difícil do que ela é,
encontrando problemas nos lugares errados.
Tome, por exemplo, a expiação. Muitos encontram dificuldade nesse ponto e
questionam: Como podemos crer que a morte de Jesus de Nazaré — um homem
morrendo na cruz romana — tira os pecados do mundo? Como pode essa morte
ter qualquer ligação com o perdão divino para nossos pecados hoje?
Considere ainda a ressurreição, que para muitos é uma pedra de tropeço. Eles
perguntam: Como podemos crer que Jesusressuscitou fisicamente da morte? Na
verdade, é difícil negar que o túmulo estava vazio — mas certamente a
dificuldade em crer que Jesus se levantou dele em um corpo incorruptível é ainda
maior. Não será mais fácil acreditar na teoria de ressurreição temporária depois de
um desmaio ou do roubo do corpo, em vez de na doutrina cristã da ressurreição?
Veja também o nascimento virginal, largamente negado pelos protestantes dos
últimos dois séculos. As pessoas perguntam: como pode alguém crer em tal
anomalia biológica?
E os milagres do Evangelho? Muitos acham neles uma fonte de dificuldades.
Tendo como certo que Jesus realizou curas (é difícil duvidar que ele as tenha feito
devido as evidencias, e de qualquer modo a historia conhece outros curandeiros),
como é possível crer que ele tenha andado sobre as águas, alimentado cinco mil
pessoas ou ressuscitado mortos? Histórias como essas são realmente
inacreditáveis. Com estes e outros problemas similares muitas pessoas à margem
da fé estão hoje profundamente perplexas.
O MAIOR MISTÉRIO
Na verdade, a dificuldade real, o mistério supremo com o qual o Evangelho nos
confronta, não se encontra aqui afinal. Não está na mensagem da expiação da
Sexta-feira Santa, nem na mensagem da ressurreição da Páscoa, mas no Natal
com a encarnação de Deus. A afirmativa cristã realmente estonteante é que Jesus
de Nazaré é Deus feito homem, que a segunda pessoa da Trindade tornou-se o
46
"segundo homem" (ICo 15:47), determinando o destino humano, e o segundo
representante da raça humana, e que ele tomou a forma humana sem perder a
divindade, de modo que Jesus de Nazaré era tão verdadeira e totalmente divino
quanto humano.
Aqui há dois mistérios pelo preço de um — a pluralidade de pessoas na
unidade de Deus e a união da divindade e da humanidade na pessoa de Jesus. É
aqui, no acontecimento do primeiro Natal, que jaz a mais profunda e impenetrável
revelação do cristianismo. "A Palavra tornou-se carne" (Jo 1:14); Deus tornou-se
homem; o Filho divino transformou-se num judeu; o Todo-Poderoso
apareceu na terra como um bebê indefeso, incapaz de outra coisa qualquer
além de ficar deitado, olhar, mexer-se e emitir sons. Alguém que precisou ser
alimentado, trocado e ensinado a falar como qualquer criança.
Não houve ilusão nem embuste nisto. A infância do Filho de Deus foi real.
Quanto mais se pensa sobre isso, mais surpreendente se torna. Nenhuma ficção é
tão fantástica quanto a verdade da encarnação.
Esta é a verdadeira pedra de tropeço do cristianismo. É nela que fracassam
judeus, muçulmanos, unitaristas, testemunhas de Jeová e muitos outros que se
sentem desconfortáveis com as dificuldades mencionadas (nascimento virginal,
milagres, expiação e ressurreição). Por causa da descrença, ou pelo menos da
crença errada a respeito da encarnação, é que geralmente surgem dificuldades em
outros pontos da história do Evangelho. Mas no momento em que a encarnação é
compreendida, as outras dificuldades desaparecem.
Se Jesus tivesse sido apenas um homem piedoso e notável, seria imensamente
difícil crer nós relatos do Novo Testamento sobre sua vida e obra. Mas se Jesus
era a pessoa mencionada na Palavra eterna, o agente do Pai na criação, "por quem
criou igualmente os mundos" (Hb 1:2; tb), não é de admirar que novos atos de
força criadora marcassem sua vinda a este mundo, sua vida aqui e sua partida.
Não é estranho que ele, o autor da vida se levante da morte. Se ele era realmente o
Filho de Deus, é mais surpreendente sua morte que a ressurreição. "Todo este
mistério! Morre o Imortal", escreveu Charles Wesley;1 mas não há mistério
comparável na ressurreição do Imortal.
Se o imortal Filho de Deus realmente se submeteu à prova da morte, não é
estranho que ela signifique salvação para a raça condenada. Uma vez que
tenhamos certeza da divindade de Jesus, torna-se pouco razoável achar
dificuldades em qualquer desses pontos, pois todas as peças se encaixam
perfeitamente. A encarnação é em si mesma um mistério impenetrável, mas dá
sentido a todo o conteúdo do Novo Testamento.
Quem é esta criança?
Os evangelhos de Mateus e de Lucas contam com pormenores como o Filho de
47
Deus veio ao mundo. Ele nasceu do lado de fora de um pequeno hotel, em uma
aldeia pouco conhecida da Judéia, nos grandes dias do
1Ministro anglicano (1707-1788). Compositor de mais de seis mil hinos. Juntamente com seu
irmão John, foram os fundadores de um movimento na Igreja da Inglaterra que daria origem,
posteriormente, à Igreja Metodista. Muito conhecido em seu tempo por suas pregações, que o povo
denominava "trovão e relâmpago".
48
Império Romano. Quando contamos essa história Natal após Natal, em geral a
embelezamos, mas na realidade ela é rude e cruel. A razão de Jesus ter nascido
fora do hotel é que ele estava lotado. Ninguém ofereceu uma cama para a mulher
que estava prestes a dar à luz, de modo que ela teve seu nenê no estábulo e o
deitou em uma manjedoura. A história é contada sem paixão e sem comentários,
mas nenhum leitor atento deixa de se arrepiar com a imagem desumana e
degradante.
Não é, entretanto, para tirar lições de moral que essa história foi registrada
pelos evangelistas. Para eles o ponto principal não está nas circunstâncias do
nascimento (a não ser como cumprimento da profecia, que seria em Belém; cf. Mt
2:1-6), mas em destacar a identidade da criança. A esse respeito o Novo
Testamento revela dois pensamentos. Já os citamos, agora vamos estudá-los mais
detalhadamente.
1. O bebê nascido em Belém era Deus. Mais precisamente e usando a
linguagem bíblica, ele era o Filho de Deus, ou, como a teologia cristã
normalmente diz, Deus, o Filho. Note: o Filho, não um Filho, como João se refere
quatro vezes nos três primeiros capítulos de seu evangelho, a fim de que seus
leitores entendam perfeitamente a singularidade de Jesus. Ele era o Filho
unigênito de Deus (v. Jo 1:14,18; 3:16,18). De acordo com isso, a Igreja cristã
confessa: "Creio em Deus Pai [...] e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso
Senhor".2
Os apologistas cristãos às vezes se referem à afirmação de que Jesus é o
unigênito Filho de Deus como se fosse a resposta final e total a todas as
questões sobre sua identidade. Mas isso dificilmente se dá, pois a própria
expressão suscita diversas perguntas e pode ser facilmente mal-in-terpretada. A
afirmação "Jesus é o Filho de Deus" realmente evidencia a
2Estas palavras do Credo apostólico são proferidas em todos os cultos dominicais de várias
denominações protestantes, como a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Hinário luterano, Porto
Alegre: Concórdia, 1994, 7. ed. p. 20, 38), a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Livro de
oração comum, p. 60), a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (Manual do culto, São Paulo:
Pendão Real, s/d, p. 34), a Igreja Evangélica Reformada no Brasil (Hinãrio: hinos, salmos,
confissões, formas, Jongbloed (Holanda): Comissão de Música da IER, 1998, p. 775) e também
nas perguntas aos batizandos do Manual do culto da Igreja Presbiteriana do Brasil (São Paulo:
Cultura Cristã, 1999, p. 11).
49
existência de dois deuses? O cristianismo é então politeísta como acusam judeus e
muçulmanos? Ou a expressão "Filho de Deus" significa que Jesus, embora
destacado entre as criaturas, não era divino no mesmo sentido que o Pai?
Nos dias da Igreja primitiva, os arianos defenderam essa idéia, e atualmente
unicistas, testemunhas de Jeová, cristadelfos e outros ainda a adotam. Ela está
certa? O que a Bíblia quer dizer quando chama Jesus de Filho de Deus?
Estas questões têm confundido algumas pessoas, mas o Novo Testamento na
verdade não nos deixa dúvidas quan-
to à resposta. Elas foram levantadas e simultaneamente resolvidas pelo apóstolo
João no prólogo de seu evangelho. Parece-nos que ele estava se dirigindo a
leitores tanto de formação judaica quanto grega. Ele escreveu, como diz, a fim de
que "creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenham vida em seu
nome" (Jo 20:31).
Em todo seu evangelho, ele apresenta Jesus como o Filho de Deus. Entretanto,
Joãosabia que a expressão "Filho de Deus" estava corrompida por associações
errôneas na mente de seus leitores. A teologia judaica fazia uso dela como título
para o esperado Messias (humano). A mitologia grega fala de muitos "filhos dos
deuses", super-homens nascidos da união de alguma divindade com seres
humanos. Em nenhum caso a expressão revelava a idéia de um Deus pessoal. Na
verdade essa idéia era completamente excluída em ambas as concepções.
João queria certificar-se de que ao falar sobre Jesus como o Filho de Deus não
seria mal-interpretado, ou seja, que dessem tais sentidos a suas palavras. Ele
queria tornar bem claro desde o início que a filiação assumida por Jesus e
consignada pelos cristãos era precisamente um caso de divindade pessoal, e nada
menos que isso. Daí a razão de seu famoso prólogo (Jo 1:1-18), que é lido
anualmente pela Igreja da Inglaterra como mensagem do dia de Natal, e ela está
correta ao proceder
50
assim. Em nenhum lugar do Novo Testamento a natureza e o significado da
filiação divina de Jesus são tão claramente explicados como aqui.
Veja com que cuidado e decisão João expõe seu tema. Ele não usa o termo
Filho logo nas sentenças iniciais; ao contrário, fala antes da Palavra. Não haveria
perigo de mal-entendido, pois os conhecedores do Antigo Testamento logo se
lembrariam da referência. A Palavra de Deus no Antigo Testamento é sua
expressão criativa, seu poder em ação no cumprimento de seus propósitos.
O Antigo Testamento descreve o pronunciamento de Deus, a real afirmação de
seu propósito, como tendo força em si mesma para realizar o que havia proposto.
Gênesis 1 relata como na criação "Disse Deus: 'Haja' [...] e houve [...]" (Gn 1:3).
"Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus [...]. Pois ele falou, e tudo se
fez" (SI 33:6,9). A Palavra de Deus é, portanto, Deus em ação.
João retoma essa ilustração e prossegue revelando-nos sete aspectos da Palavra
divina:
1. " No princípio era aquele que é a Palavra" (v. 1a). Aqui está mostrada a
eternidade da Palavra. Ele não teve começo quando as outras coisas
começaram; ele era.
2. "Ele estava com Deus" (v. 1b). Aqui a Palavra tem personalidade. O poder que
cumpre os propósitos de Deus procede de um ser pessoal, que está em
relacionamento eterno de amizade viva com Deus (este é o significado da
frase).
3- "... e era Deus" (v. 1b). Aqui está a divindade da Palavra. Embora
pessoalmente distinto do Pai, ele não é criatura; é divino como o Pai. O
mistério com que nos confrontamos neste versículo é o da distinção de pessoas
na unidade de Deus.
4. "E todas as coisas foram feitas por intermédio dele" (v. 3). Eis a Palavra
criando. Ele foi o agente do Pai em todos os atos da criação. Toda a criação foi
feita por meio dele. (Aqui, incidentalmente,está mais uma prova de que ele, o
agente, assim como o Pai, não pertencem à classe das coisas criadas.)
5. "Nele estava a vida" (v. 4a). Vemos nesta frase a Palavra animando. Não há
vida física na criação a não ser por meio dele. A Bíblia responde aqui a questão
da origem e da continuidade da vida em todas as suas formas: a vida é dada e
mantida pela Palavra. As coisas criadas não têm vida em si mesmas, mas na
Palavra, a segunda pessoa da Divindade.
6. "... e esta era a luz dos homens" (v. 4b). Aqui a Palavra revela. Concedendo
vida, ele também dá luz. Equivale a dizer que todo ser humano recebe
intimações de Deus apenas pelo fato de estar vivo em seu mundo, e isso, não
51
menos que o fato de viver, é decorrência da ação da Palavra.
7. "Aquele que é a Palavra tornou-se carne" (v. 14). Aqui está a encarnação da
Palavra. O bebê na manjedoura em Belém não era outro senão a Palavra eterna
de Deus.
E agora, tendo nos mostrado quem e o que a Palavra é — uma pessoa divina,
autor de todas as coisas —, João faz uma identificação. A Palavra, ele nos diz, foi
revelada pela encarnação, para ser o Filho de Deus. "Vimos a sua glória, glória
como do Unigênito vindo do Pai" (v. 14b). Essa identificação é confirmada no
versículo 18, "O Deus Unigênito, que está junto do Pai". Assim João estabelece o
ponto que desejava esclarecer completamente, o que queria dizer ao referir-se a
Jesus como Filho de Deus. O Filho de Deus é a Palavra de Deus; vemos o que a
Palavra é, e assim vemos o que o Filho é. Esta é a mensagem do prólogo.
Portanto, quando a Bíblia proclama Jesus como Filho de Deus, a afirmação é
tomada como asserção de sua divindade pessoal. A mensagem do Natal se baseia
no fato surpreendente de que o menino na manjedoura era Deus.
Mas isto é só a metade da história.
2. O bebê nascido em Belém era Deus feito homem. A Palavra se fez carne:
uma criança, humana e real. Ele não deixou de ser Deus; não era menos Deus
do que havia sido antes, mas passou a ser homem. Ele não era Deus com menos
elementos de divindade, mas Deus e mais tudo o que havia tornado seu ao assumir
a forma humana. O criador do homem sentia agora o que era ser homem. Ele que
criou um anjo que se tornou o Diabo assumia
agora um estado no qual podia ser tentado — na verdade, não podia evitar ser
tentado — pelo Diabo! A perfeição de sua vida humana só seria alcançada por
meio do conflito com o Diabo. A epístola aos He-breus, elevando os olhos para
sua glória ascendente, extrai grande conforto desse fato.
Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos
em todos os apectos [...] Porque tendo em vista o que ele mesmo sofreu
quando tentado, ele é capaz de socorrer aqueles que também estão sendo
tentados. [...] Pois não temos um sumo sacerdote que não possa
compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós,
passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim,
aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de
recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento
da necessidade.
Hebreus 2:17,18; 4:15,16
O mistério da encarnação é impenetrável. Não podemos explicá-lo, apenas
formulá-lo. Talvez nunca tenha sido expresso melhor que nas palavras do Credo
52
atanasiano: "... nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e homem; [...]
Deus perfeito e Homem perfeito [...] Ainda que é Deus e Homem, nem por isso
são dois, mas um único Cristo. Um só, não pela transformação da divindade em
humanidade, mas mediante a recepção da humanidade na divindade".3
Nossa mente não pode ir além disto. O que vemos na manjedoura é, nas
palavras de Charles Wesley: "Nosso Deus reduzido ao tamanho de um palmo
Incompreensivelmente fez-se homem".
Incompreensivelmente. Seremos sábios se nos lembrarmos disto para evitar a
especulação e adorar com alegria.
Nascido para morrer
O que devemos pensar sobre a encarnação? O Novo Testamento não nos incentiva
a quebrar a cabeça com os problemas físicos e psicológicos que surgem, mas
apenas a adorar a Deus pelo amor demonstrado. Foi um ato de grande
condescendência e auto-humilhação. "Pois ele, que por natureza sempre foi
Deus", escreveu Paulo, "não se apegou a seus privilégios como alguém igual a
Deus, mas despiu-se de todas as vantagens, consentindo em ser escravo por
natureza e nascer como homem. E visto claramente como ser humano, humilhou a
si mesmo, levando uma vida de inteira obediência até a morte, e morte como a de
um criminoso qualquer" (Fp 2:6-8; cph). E tudo isso para nossa salvação.
Os teólogos às vezes brincam com a idéia de que a encarnação foi planejada
originária e basicamente com vistas ao aperfeiçoamento da ordem criada, e que
seu significado redentor foi, por assim dizer, uma decisão divina posterior. No
entanto, como James Denney4 corretamente insistiu: "O Novo Testamento nada
fala de uma encarnação não relacionada com o sacrifício [...] Não é Belém, mas o
Calvário o foco da revelação, e qualquer interpretação do cristianismo que ignore
ou negue este fato o deturpa completamente e o desvia do foco".5
O significado crucial do berço de Belém reside na seqüência de passos que
levaram o Filho de Deus à cruz do Calvário, e não podemos
3Hinário luterano, Porto Alegre: Concórdia, 7. ed., 1994, p. 89.
4Professor(1856-1917) e um proeminente estudioso do Novo Testamento. Teólogo da Igreja
Unida Livre da Escócia. 
5The death of Christ, 1902, p. 235.
53
compreender este fato até que o vejamos em seu contexto. Portanto, o texto-chave
do Novo Testamento para interpretar a encarnação não é a declaração de João
1:14 "Aquele que é a Palavra tornou-se e viveu entre nós", mas a afirmação mais
abrangente encontrada em 2Coríntios 8:9: "Pois vocês conhecem a graça de nosso
Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por
meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos".
Aqui se declara não apenas o fato da encarnação, mas também seu significado;
o ato do Filho de Deus de assumir a forma humana nos é apresentado de modo a
mostrar como sempre deveríamos vê-lo — não simplesmente como uma
maravilha da natureza, mas, sim, uma maravilha da graça.
Feito menor que Deus?
Aqui, entretanto, devemos fazer uma pausa e considerar um uso diferente que
alguns fazem de certos textos de Paulo já citados. Em Fili-penses 2:7, a expressão
traduzida por Phillips (na cph) "despiu-se de todas as vantagens" significa
literalmente "esvaziou-se". Será que isto, junto com a declaração de 2Coríntios
8:9 de que Jesus "se fez pobre", não lança alguma luz sobre a própria natureza da
encarnação? Não estará implícita aí certa redução da divindade do Filho ao se
tornar homem?
Esta é a chamada teoria da kenôsis, pois esta palavra em grego significa
"esvaziar". A idéia por trás disso é que para assumir totalmente a forma humana, o
Filho precisou renunciar a algumas de suas qualidades divinas, do contrário não
poderia ter participado da experiência de estar limitado no tempo, espaço,
conhecimento, consciência, que são essenciais à verdadeira vida humana.
Essa teoria foi formulada de diferentes maneiras. Alguns argumentam que o
Filho abriu mão apenas de seus atributos metafísicos (onipotência, onipresença,
onisciência), retendo os "morais" (justiça, santidade, verdade, amor); outros
afirmam que ao se tornar homem renunciou a todos os poderes especificamente
divinos e a sua autoconsciência da divindade, embora, no decurso da vida terrena,
ele a tenha retomado.
Na Inglaterra, a teoria da kenôsis foi esboçada pelo bispo Gore6 em 1889, para
explicar por que nosso Senhor ignorava o que os críticos ilustres do século xix
pensavam saber a respeito do Antigo Testamento. A tese de Gore preconizava que
ao se tornar homem o Filho desistira de seu conhecimento divino de todos os
assuntos, embora mantivesse a infalibilidade divina plena em assuntos morais.
Com relação a fatos históricos, entretanto, ele estava limitado às idéias correntes
dos judeus, aceitando-as sem questionamento, desconhecendo que nem sempre
estavam certas. Daí seu tratamento do Antigo Testamento como verbalmente
inspirado e completamente verdadeiro, e o fato de ter atribuído o Pentateuco a
Moisés e o salmo 110 a Davi, pontos que Gore julgava insustentáveis. Muitos
concordam com Gore neste ponto, procurando uma justificativa para rejeitar a
opinião de Cristo sobre o Antigo Testamento.
Mas a teoria da kenôsis não conseguia manter-se. Em primeiro lugar, por
54
tratar-se de uma especulação à qual os textos citados não dão base alguma.
Quando Paulo falou do Filho se esvaziando e se tornando pobre, o que ele tinha
em mente, como podemos perceber pelo contexto de cada caso, não é desprezo
pelos poderes e atributos divinos, mas a glória e a dignidade divinas: "[...] a glória
que eu tinha contigo, antes que o mundo existisse", como o próprio Cristo afirmou
em sua grande oração sacerdotal (Jo 17:5). As traduções de Phillips, a Autorizada
e a nvi de Filipenses 2:7 são interpretações corretas do significado atribuído por
Paulo. Não há base bíblica para a idéia de o Filho ter se despojado de qualquer
aspecto de sua divindade.
Essa teoria origina também grandes e insolúveis problemas. Como podemos
dizer que o homem Cristo Jesus era completamente Deus se lhe faltavam alguns
atributos da divindade? Como podemos dizer que ele revelou perfeitamente o Pai
se alguns dos poderes e atributos paternos não estavam nele? Mais ainda, se,
como a teoria supõe, a verdadeira humanidade na terra era incompatível com a
divindade não-reduzida,
6Charles Gore (1853-1932) foi ministro da Igreja da Inglaterra e bispo das dioceses de Worcester
(1902-1905), Birmingham (1905-1911) e Oxford (1911-1919).
55
provavelmente a mesma coisa deve acontecer no céu, deduzindo-se que "o homem
na glória" perdeu parte de seus poderes divinos por toda a eternidade. Se, como
diz o n° 2 dos Trinta e nove artigos de religião anglicanos: "[As Naturezas]
Divina e Humana se reuniram em uma Pessoa, para nunca mais se separarem",7
parece que nesta teoria é inegável a idéia de que a divindade do Filho perdeu
alguns atributos irrecuperáveis na encarnação.
No Novo Testamento, porém, parece clara e enfática a onisciência, a
onipresença e a onipotência do Cristo ressurreto (Mt 28:18,20; Jo 21:17; Ef 4:10).
Mas se, em vista disto, os defensores da teoria da kenôsis poderiam negar a
incompatibilidade destes atributos com a verdadeira humanidade no céu, que
razão poderão apresentar para crer na existência dessa incompatibilidade na terra?
Ainda mais, o uso que Gore faz da teoria para justificar os erros atribuídos a
parte dos ensinamentos de Cristo, enquanto mantém a autoridade divina no
restante, não é possível. Cristo declarou em termos compreensíveis e categóricos
que todos seus ensinamentos provinham de Deus: ele não era mais que o
mensageiro do Pai. "O meu ensino não vem de mim mesmo. Vem daquele que me
enviou", "mas falo exatamente o que o Pai me ensinou", "mas o Pai que me
enviou me ordenou o que dizer e o que falar [...] Portanto, o que digo é
exatamente o que o Pai me mandou dizer" (Jo 7:16; 8:28; 12:49,50). Ele se
declarou porta-voz: "lhes falei a verdade que ouvi de Deus" (Jo 8:40).
Em face dessas afirmações, só dois caminhos se abrem: ou aceitamos
e atribuímos total autoridade divina a tudo o que Jesus ensinou, incluindo
suas declarações de inspiração e autoridade do Antigo Testamento, ou as
rejeitamos e discutimos a autoridade divina de seus ensinamentos em todos
os sentidos. Se Gore quisesse realmente manter a autoridade dos ensinamentos
morais e espirituais de Jesus, ele não deveria ter questionado a veracidade de seus
ensinamentos sobre o Antigo Testamento. Se, entretanto, ele estava realmente
determinado a discordar de Jesus sobre o Antigo Testamento, deveria ter sido
coerente e percebido que se os ensinamentos de Jesus não podem ser aceitos como
foram apresentados, não temos obrigação de concordar com Jesus a respeito de
qualquer outra coisa.
7 Livro de oração comum, Porto Alegre: Igreja Episcopal do Brasil, 1950, p. 603.
56
Se a teoria da kenôsis for usada com propósito semelhante ao de Gore,
esclarece até demais: ela prova que Jesus, tendo renunciado ao conhecimento
divino, era falível em todos os pontos e que, ao afirmar serem seus ensinamentos
provenientes de Deus, estava enganando tanto a si mesmo como a nós. Se vamos
manter a autoridade divina de Jesus como mestre, de acordo com suas afirmações,
devemos rejeitar a teoria de kenôsis, ou pelo menos rejeitar esta sua aplicação.
Na realidade, as próprias narrativas do Evangelho apresentam evidências
contra a teoria da kenôsis. É verdade que o conhecimento de Jesus tanto sobre
assuntos humanos como divinos era, às vezes, limitado. Ocasionalmente ele pedia
alguma informação — "Quem tocou em meu manto?", "Quantos pães vocês têm?"
(Mc 5:30; 6:38). Ele declara ignorar o dia marcado para a sua volta tanto quanto
seus anjos (Mc 13:32). Mas outras vezes mostrou conhecimento sobrenatural. Ele
sabia do passado sombrio da mulher samaritana (Jo 4:15). Sabia que quando
Pedro fosse pescar, o primeiro peixe que pegasse teria uma moeda na boca (Mt
17:27). Sabia, sem que ninguém lhe dissesse, que Lázaro estava morto 0o
11:11-13).
Do mesmo modo, de vez em quando Jesus demonstra sua força sobrenatural ao
realizar milagres, curando, alimentando e ressuscitandomortos. A impressão que
se tem de Jesus nos evangelhos não é de abandono completo do poder e do
conhecimento divinos, mas da utilização ininterrupta de ambos, podendo passar
muito tempo sem fazer uso deles. Em outras palavras, a impressão que se tem não
é tanto de redução da divindade, mas de capacidades divinas contidas.
O que podemos pensar desse retraimento? Em termos da verdade
freqüentemente apresentada, em particular no evangelho de João, podemos pensar
certamente na submissão completa do Filho à vontade do Pai. Parte da revelação
do mistério da divindade é que as três pessoas permanecem em uma relação
mutuamente estabelecida. O Filho aparece nos evangelhos não como uma pessoa
divina independente, mas como alguém dependente, que pensa e age apenas sob a
direção do Pai. "O Filho não pode fazer nada de si mesmo", "Por mim mesmo,
nada posso fazer" (Jo 5:19,30). "Pois desci dos céus, não para fazer a minha
vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou" (Jo 6:38). "[...] nada
faço por mim mesmo [...] sempre faço o que lhe agrada" (Jo 8:28,29).
É da natureza da segunda pessoa da Trindade reconhecer a autoridade da
primeira e submeter-se de boa vontade a ela. É por isso que ele se declara Filho, e
a primeira pessoa seu pai. Embora co-igual ao Pai em eternidade, poder e glória, é
natural que ele faça a parte de Filho, e encontre prazer em cumprir a vontade do
Pai. Do mesmo modo é natural à primeira pessoa da Trindade planejar e iniciar as
obras da divindade e à terceira pessoa partir do Pai e do Filho para realizar a
ordem conjunta. Assim, a obediência do Deus-homem ao Pai enquanto estava na
Terra não era um relacionamento novo ocasionado pela encarnação, mas a
continuação, no tempo, do relacionamento eterno entre o Filho e o Pai no céu. No
céu como na terra, o Filho era completamente dependente da vontade do Pai.
Se isto é correto, então tudo fica explicado. Tanto as ações como o
conhecimento do Deus-homem não eram independentes. Assim como não fez
tudo o que podia ter feito, porque certas coisas não eram da vontade do Pai (Mt
57
26:53,54), ele conscientemente não sabia tudo o que deveria saber, mas apenas o
que seu Pai queria que soubesse. Seu conhecimento, assim como todas suas
atividades, estava ligado à vontade do Pai. Portanto, o motivo de desconhecer (por
exemplo) a data de sua volta não era o fato de ele ter desistido do poder de saber
todas as coisas na encarnação, mas porque o Pai não queria que ele tivesse esse
conhecimento enquanto permanecesse na terra, antes da Paixão.
Calvino estava certo ao comentar Marcos 13:32 da seguinte maneira: "até
que ele tivesse cumprido cabalmente sua missão (de mediador), essa
informação não lhe foi dada, mas ele a recebeu depois da ressurreição".8
Assim, a limitação do conhecimento de Jesus deve ser explicada não em termos
da forma da encarnação,
mas com referência à vontade do Pai para o Filho enquanto este se achasse na
terra. Concluímos, portanto, que assim como há alguns fatos nos evangelhos que
contradizem a teoria da kenôsis, não há neles fatos que não sejam explicados mais
claramente sem ela.
Ele se tornou pobre
Percebemos agora o significado para o Filho de Deus de esvaziar-se e tornar-se
pobre. Significa deixar de lado a glória (a kenôsis real); o retraimento voluntá-
rio do poder; a aceitação de dificuldades, isolamento, maus-tratos, malig-nidade,
incompreensão; e finalmente a morte, envolvendo uma agonia tão grande — mais
espiritual que física —, que sua mente quase entrou em colapso ao prospectá-la
(v. Lc 12:50 e a narrativa do Getsêmani). Isso significou o amor mais sublime já
sentido pelos indignos seres humanos, que puderam tornar-se ricos por meio da
pobreza dele.
A mensagem do Natal anuncia a esperança para a humanidade arruinada —
esperança de perdão, de paz com Deus, de glória — porque, pela vontade do Pai,
Jesus Cristo tornou-se pobre e nasceu em um está-bulo, para que trinta anos
depois pudesse ser levantado na cruz. Esta é a mais bela mensagem que o mundo
já ouviu ou ouvirá.
Falamos muito sobre o "espírito do Natal", mas raramente com um significado
maior que contentamento em termos de relações familiares. Mas o que dissemos
torna claro que essa expressão tem na realidade um significado muito mais rico.
Devia significar a reprodução na vida humana da disposição daquele que por amor
a nós tornou-se pobre no primeiro Natal. O próprio espírito natalino devia
caracterizar o cristão o ano inteiro.
8Commentary on Matthew, Mark and Luke, .
58
É para nós vergonha e desonra que muitos cristãos hoje — serei mais
específico: tantos cristãos fundamentalistas e ortodoxos — vaguem por este
mundo no espírito do sacerdote e do levita da parábola do Senhor, vendo a seu
redor as necessidades dos homens, mas (depois de um desejo piedoso e talvez de
uma oração, pedindo que Deus supra as necessidades dessas pessoas) desviam os
olhos e passam, sem parar, para o outro lado. Este não é o espírito do Natal. Não é
também o espírito dos cristãos — e há muitos assim — cuja ambição na vida
parece limitada a construir um belo lar de classe média, fazendo agradáveis
amizades com cristãos de sua classe, criando os filhos nos corretos moldes
cristãos de seu grupo e deixando que indivíduos das subclasses da comunidade,
cristãos ou não, avancem sozinhos na vida.
O espírito natalino não resplandece no cristão esnobe, pois é o espírito das
pessoas que, como seu Mestre, vivem inteiramente dedicadas ao princípio de se
tornar pobres — gastando e sendo gastos — para enriquecer o próximo, dedicando
tempo, esforço, cuidados e interesses para fazer o bem aos outros — e não apenas
para seus amigos — conforme a necessidade do momento.
São poucos os que demonstram esse espírito na essência. Se Deus, por
misericórdia, nos avivar, uma das coisas que ele fará será trabalhar esse espírito
em nosso coração e em nossa vida. Se quisermos um despertamento espiritual em
nós mesmos, uma das primeiras providências seria procurar cultivar esse espírito.
"Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se
fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se
tornassem ricos" (2Co 8:9). "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus" (Fp
2:5). "Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando dilatares o coração"
(Sl 119:32; tb).
59
Ele dará testemunho
"Glória ao Pai", canta-se nas igrejas, "e ao Filho e ao Espírito Santo".
Perguntamos: qual o significado disso? Louvamos a três deuses? Não, louvamos
um único Deus em três pessoas.
Jeová! Pai, Espírito, Filho! Trindade
oculta! Três em um!1
Este é o Deus adorado pelos cristãos — o Jeová triúno. O cerne da fé cristã em
Deus é o mistério revelado da Trindade. Trinitas é uma palavra latina que
significa Trindade. O cristianismo se apoia na doutrina da Trinitas, a Trindade, a
tripersonalidade de Deus.
Algumas pessoas presumem que a doutrina da Trindade, justamente por
inescrutável, seja uma velharia teológica perfeitamente dispensável. A prática
certamente parece refletir essa idéia. O Livro de oração comum da Igreja
Anglicana determina treze ocasiões durante o ano quando o Credo atanasiano, a
afirmação clássica dessa doutrina, deve ser recitado em cultos públicos, mas é raro
que seja usado nessas ocasiões. De forma geral, os clérigos anglicanos nunca
pregam sobre a Trindade, a não ser, talvez, no Domingo da Trindade; os ministros
que não fazem uso do calendário litúrgico e não observam esse domingo especial
nunca falam sobre tal doutrina. O que diria o apóstolo João a respeito de nossa
prática, se estivesse aqui hoje, pois de acordo com ele a doutrina da Trindade é
parte essencial do Evangelho.
1Tradução das palavras iniciais da última estrofe do hino Father of heaven, escrito por Edward
Cooper. A selection of psalms and hymns for public and private use (Uttoexter, Inglaterra: 1805).
60
Nas sentenças de abertura de seu evangelho, como vimos no último capítulo,
João nos apresenta o mistério de duas pessoas distintasna unidade de Deus. Sem
dúvida este é um dos pontos mais profundos da teologia, mas João nos leva
diretamente a ele: "No princípio era aquele que é a Palavra. Ele está com Deus, e
era Deus". A Palavra era uma pessoa em comunhão com Deus, e a Palavra era
pessoal e eternamente divina. Ele era, como nos diz João, o único Filho do Pai.
João define este mistério de um Deus em duas pessoas no início de seu Evangelho
porque sabe ser impossível que alguém entenda as palavras e as obras de Jesus de
Nazaré enquanto não apreender o fato de que Jesus é na verdade Deus, o Filho.
A TERCEIRA PESSOA
Não é apenas essa a intenção de João, porém, ao falar-nos da pluralidade de
pessoas na divindade. Em sua narrativa das últimas conversas do Senhor com os
discípulos, ele menciona como o Salvador, tendo explicado que lhes prepararia
um lugar na casa do Pai, prometeu a dádiva de "outro Consolador" (Jo 14:16; ra).
Repare nessa expressão; ela é rica de significado. Indica uma pessoa também
notável. Um Consolador— a riqueza da idéia é vista pela variedade de
interpretação em diferentes traduções: "Conselheiro" (nvi), "Auxi-liador" (vfl),
"Paráclito" (bj). A idéia de estímulo, apoio, assistência, cuidado e aceitação de
responsabilidade pelo bem-estar alheio, tudo está implícito nessa palavra. Outro
Consolador — sim, porque Jesus foi o primeiro, e a função do outro seria
continuar essa parte de seu ministério. Conclui-se, portanto, que só podemos
apreciar todo o significado das palavras de nosso Senhor ao se referir a
"outro Consolador" quando nos recordamos de tudo o que ele mesmo fez
relacionado ao amor, ao cuidado, à instrução paciente e à preocupação com o
bem-estar de seus discípulos nos três anos de ministério pessoal com eles. "Ele
cuidará de vocês", era o que Cristo realmente queria dizer, "do mesmo modo
como eu o tenho feito". Na verdade, uma pessoa notável!
Nosso Senhor foi além, dando um nome ao novo Consolador. Ele é "o Espírito
da verdade", "o Espírito Santo" (14:17,26). Este nome denota divindade. No
Antigo Testamento, a Palavra de Deus e o Espírito de Deus são figuras paralelas.
A Palavra de Deus é sua voz
todo-poderosa, o Espírito de Deus é seu alento todo-poderoso. Ambas as
expressões se referem ao seu poder em ação. A palavra e o alento de Deus
aparecem juntos na narrativa da criação. "O Espírito [alento] de Deus se movia
sobre a face das águas. Disse [palavra] Deus [...] e houve [...]" (Gn 1:2,3).
"Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo
sopro [alento] de sua boca" (Sl 33:6). João nos diz no prólogo que a Palavra
divina aqui citada é uma pessoa. Nosso Senhor agora nos dá um ensinamento
paralelo, com a finalidade de mostrar que o Espírito divino é também uma pessoa.
E confirma seu testemunho da divindade deste Espírito pessoal chamando-o
santo, como mais tarde faria com o "Pai santo" (17:11).
O evangelho de João nos mostra como Cristo relaciona a missão do Espírito
61
com a vontade e o propósito do Pai e do Filho. Num ponto do evangelho, o
apóstolo afirma que é o Pai que enviará o Espírito, como o Pai enviou o Filho
(5:23,26,27). O Pai enviará o Espírito, diz nosso Senhor, "em meu nome" — isto
é, como agente de Cristo, realizando sua vontade e agindo como seu representante
e com sua autoridade (14:26). Assim como Jesus veio em nome do Pai (5:43)
agindo como representante do Pai, falando suas palavras (12:49), fazendo sua obra
(10:25, cf. 17:12) e testemunhando plenamente sobre quem representava, o
Espírito viria em nome de Jesus para agir no mundo como seu agente e
testemunha. O Espírito "da [para: "do lado do"] parte do Pai" (15:26), assim
como anteriormente o Filho veio "do [para] Pai" (16:27). Tendo enviado seu
Filho eterno para o mundo, o Pai agora o leva à glória e envia o Espírito para ficar
em seu lugar.
Mas este é apenas um modo de ver o assunto. Em outro ponto, João menciona
que o Filho enviará o Espírito "da parte do Pai" (15:26). Assim como o Pai enviou
o Filho ao mundo, também o Filho enviará o Espírito (16:7). O Espírito é enviado
pelo Filho e pelo Pai. Desse modo temos as seguintes formas de relacionamento: 
1. O Filho está sujeito ao Pai, pois foi enviado pelo Pai em seu (do Pai) nome.
2. O Espírito está sujeito ao Pai, pois o Espírito foi enviado pelo Pai em nome do
Filho.
3. O Espírito está sujeito ao Filho e ao Pai, pois é enviado tanto por um como por
outro. (Compare com 20:22: "E com isso, soprou sobre eles e disse: 'Recebam
o Espírito Santo'".)
João assim registra a revelação do Senhor sobre o mistério da Trindade: três
pessoas e um Deus, o Filho realiza a vontade do Pai, e o Espírito a vontade do Pai
e do Filho. O aspecto ressaltado aqui é que o Espírito, que vem aos discípulos de
Cristo "para estar com vocês para sempre" (14:16), vem para exercer o ministério
de consolação em lugar de Cristo. Se antes o ministério de Cristo, o Consolador,
era importante, o ministério do Espírito Santo, o Consolador, dificilmente será
menos importante. Se a obra realizada por Cristo foi importante para a Igreja,
também o é a obra do Espírito.
Divino, mas ignorado
Essa impressão, entretanto, não transparece por meio da leitura da história da
Igreja, tampouco observando a Igreja de hoje.
É surpreendente ver como o ensino bíblico a respeito da segunda e da terceira
pessoas é tratado de modo diferente. A pessoa e a obra de Cristo têm sido, e
62
continuam sendo, assunto de constante debate na Igreja; todavia, a pessoa e a obra
do Espírito Santo são constantemente ignoradas. A doutrina do Espírito Santo é a
Cinderela das doutrinas cristãs. Poucos parecem estar interessados nela. Muitos
livros excelentes já foram escritos sobre a pessoa e a obra de Cristo, mas o
número de livros sobre o Espírito Santo que valem a pena ser lidos pode ser
contado praticamente nos dedos de uma das mãos. Os cristãos não têm dúvidas a
respeito do que Cristo realizou; sabem que ele redimiu a humanidade por meio de
sua morte sacrificial, embora possam divergir entre si a respeito de tudo o que
esteja envolvido nela. No entanto, o cristão comum está completamente no escuro
acerca da atuação do Espírito Santo.
Alguns falam sobre o Espírito de Cristo como se estivessem falando do
Espírito do Natal — como uma vaga pressão cultural que desperta a bondade e a
religiosidade. Alguns pensam no Espírito como o inspirador de convicções morais
dos descrentes, como Ghandi, ou do misticismo teosó-
fico de Rudolf Steiner. Mas muitos, talvez, não pensam de modo algum no
Espírito Santo nem têm nenhuma idéia do que ele faz. Estão praticamente na
mesma posição dos discípulos que Paulo encontrou em Éfeso:"... nem sequer
ouvimos que existe o Espírito Santo" (At 19:2).
É absurdo o pouco interesse e conhecimento sobre o Espírito Santo
demonstrado por quem professa tanta preocupação a respeito de Cristo. Os
cristãos estão cientes da diferença que faria em suas vidas se, por acaso, nunca
houvesse acontecido a encarnação ou a expiação. Sabem que então estariam
perdidos, pois não existiria nenhum Salvador. Mas muitos cristãos não têm
realmente idéia da diferença que faria no mundo a ausência do Espírito
Santo. Não sabem de que modo isso os poderia afetar ou à Igreja. 
Realmente alguma coisa está faltando aqui. Como podemos justificar a
negligência com relação ao ministério do agente enviado por Cristo? Não é uma
grande impostura dizer que honramos a Cristo quando ignoramos, e deste modo
desonramos, quem Cristo nos enviou como seu representante, para tomar seu
lugar e cuidar de nós como ele o faria? Será que não devemos nos concentrar mais
no estudo do Espírito Santo do que temos feito até aqui?
A IMPORTÂNCIA DA OBRA DO ESPÍRITO
Mas a obra do Espírito Santo é realmente importante?
Importante! E tão importante que se não fosse pela ação do Espírito Santo não
haveria Evangelho, nem fé, nem Igreja e nem cristianismo no mundo.
Em primeiro lugar: sem o Espírito Santo não haveria Evangelho nem Novo
Testamento.
Quando Cristo deixou o mundo, entregou sua causa aos discípulos. Deu-lhes a
responsabilidadede ir e fazer discípulos em todas as nações, "E vocês também
testemunharão", disse-lhes no cenáculo 0o 15:27). "E serão minhas testemunhas
[...] até aos confins da terra" foram suas palavras de despedida no monte das
Oliveiras antes da ascensão (At 1:8). Esta foi a tarefa que lhes confiou, mas que
63
tipo de testemunhas seriam? Não tinham sido bons alunos; conseqüentemente não
conseguiam entendê-lo, e não compreenderam seus ensinamentos durante seu
ministério na terra; como poderiam esperar melhorar agora, depois de sua partida?
Não era certo que eles logo estariam misturando a verdade do Evangelho com
uma série de equívocos bem-intencionados, e seu testemunho seria rapidamente
reduzido a uma confusão distorcida e deturpada, embora possuíssem boa vontade?
A resposta a essa pergunta é negativa, porque Cristo enviou o Espírito Santo
para lhes ensinar todas as verdades, livrando-os de erros, recor-dando-lhes as
coisas aprendidas e revelando-lhes o restante do que o Senhor queria ensinar. "[...]
o Conselheiro [...] lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu
lhes disse" 0o 14:26). "Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem
suportar agora. Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a
verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que tiver ouvido" — isto é, o
Espírito lhes esclareceria a eles tudo o que Cristo lhe dissesse, do mesmo modo
como Cristo lhes mostrara as coisas que o Pai queria que ele transmitisse (v. Jo
12:49; 17:8,14) — "e lhes anunciará o que está por vir. Ele me glorificará, porque
receberá do que é meu e o tornará conhecido" (16:12-14). Deste modo "ele
testemunhará a meu respeito" — a vocês, meus discípulos, a quem o enviarei —
"e" — equipados e capacitados pela sua atuação — "vocês também testemunharão
[...]" (15:26,27).
A promessa consistia em que, ensinados pelo Espírito, esses primeiros
discípulos seriam capacitados como porta-vozes de Cristo. À semelhança dos
profetas que no Antigo Testamento começavam seus sermões com as palavras
"Assim diz o Senhor Jeová", no Novo Testamento os apóstolos poderiam, com
igual autoridade, afirmar em seus ensinamentos orais ou escritos "Assim diz o
Senhor Jesus Cristo".
E foi o que aconteceu. O Espírito veio sobre os discípulos e testemunhou-lhes
de Cristo e sua salvação de acordo com a promessa feita. Referindo-se às glórias
desta salvação ("o que Deus preparou para aqueles que o amam"), Paulo escreve:
... Deus o revelou a nós por meio do Espírito [...] porém [...] recebemos
[...] o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que
Deus nos tem dado gratuitamente. Delas também falamos [e ele poderia ter
acrescentado escrevemos] não com palavras ensinadas pela sabedoria
humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito.
ICoríntios 2:9-13
O Espírito testificou aos apóstolos revelando-lhes toda a verdade e inspirando-os a
transmiti-la com toda a fidelidade. Por essa razão temos o Evangelho e o Novo
Testamento. Mas o mundo não teria os dois sem o Espírito Santo.
E isto não é tudo. Em segundo lugar, sem o Espírito Santo não haveria fé, nem
novo nascimento — em resumo, não haveria cristãos.
A luz do Evangelho brilha, mas "O deus desta era cegou o entendimento dos
descrentes" (2Co 4:4), e o cego não reage ao estímulo da luz. Como Cristo
64
explicou a Nicodemos: "Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de
novo" (Jo 3:3; cf. v. 5). Falando por si mesmo e por seus discípulos a Nicodemos
e a toda classe de pessoas religiosas não-regeneradas, à qual Nicodemos pertencia,
Cristo continuou explicando que a conseqüência inevitável da não-regeneração é a
descrença: "[...] vocês não aceitam nosso testemunho" (v. 11). O Evangelho não
produziu neles convicção alguma; a incredulidade os mantinha irredutíveis. O que
aconteceu então? Devemos concluir que é perda de tempo pregar o Evangelho, e
que a evangelização deve ser riscada como um empreendimento sem esperança,
fadado ao fracasso? Não, porque o Espírito habita com a Igreja para dar
testemunho de Cristo. Aos apóstolos, como já vimos, ele se manifestou revelando
e inspirando. Aos outros homens, durante séculos, ele se manifesta iluminando,
abrindo os olhos vendados, restaurando a visão espiritual, capacitando os
pecadores a perceber que o Evangelho é realmente a verdade divina, as Escrituras
são a Palavra de Deus e Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus. "Quando ele [o
Espírito] vier", o Senhor prometeu, "convencerá o mundo do pecado, da justiça e
do juízo" (16:8).
Não devemos pensar que podemos provar a verdade do cristianismo por meio
de nossos argumentos; ninguém, a não ser o Espírito Santo, pela própria obra
poderosa de renovação do coração endurecido, pode provar essa verdade. É
prerrogativa soberana do Espírito Santo de Cristo convencer a consciência das
pessoas sobre a verdade do Evangelho de Cristo; e a testemunha humana de Cristo
deve aprender a basear sua esperança de sucesso não em brilhantes apresentações
da verdade pelo ser humano, mas na poderosa demonstração da verdade pelo
Espírito.
Paulo mostra o caminho. "Eu, irmãos, quando fui ter convosco,
anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou
de sabedoria [...] A minha palavra e a minha pregação não consistiram em
linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder,
para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana e sim no poder de Deus"
(1Co 2:1-5). Os homens crêem quando o Evangelho é pregado porque o
Espírito se manifesta desse modo. Mas sem o Espírito não haveria um só
cristão no mundo.
A RESPOSTA APROPRIADA
Honramos o Espírito Santo ao reconhecer sua obra e confiar nela? Ou o
desprezamos ao ignorar essa atuação e assim desonrar não só o Espírito, mas o
Senhor que o enviou?
Com relação à fé: Reconhecemos a autoridade da Bíblia, o Antigo Testamento
profético e o Novo Testamento apostólico que ele inspirou? Nós o lemos e
ouvimos com a reverência e receptividade devidas à Palavra de Deus? Se não o
fazemos, desonramos o Espírito Santo.
Com relação à vida: Aplicamos a autoridade da Bíblia e vivemos por ela, sem
nos importar com o que possam dizer contra ela, reconhecendo que a Palavra de
Deus tem propósito, não pode deixar de ser verdadeira e que ele manterá sua
65
palavra? Se não o fazemos, desonramos o Espírito Santo, que nos deu a Bíblia.
Com relação ao testemunho: Lembramo-nos de que apenas o Espírito Santo
pelo seu testemunho pode tornar autêntico o nosso? Esperamos que ele o faça e
confiamos que ele o fará, demonstrando realmente nossa confiança, como Paulo o
fez, abstendo-nos de demonstrações de sabedoria humana? Se não agirmos assim,
desonraremos o Espírito Santo. Podemos ter alguma dúvida de que a atual
esterilidade na vida da Igreja é o julgamento de Deus sobre nós pelo modo como
temos desonrado o Espírito Santo? E, neste caso, que esperança podemos ter de
sua remoção, até que aprendamos a louvar o Espírito Santo em nossos
pensamentos, nossas orações e na prática? "Ele testemunhará..."
"Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas."
66
Parte II
Contemple
 O Seu Deus
67
O Deus imutável
Aprendemos que a Bíblia é a Palavra de Deus — lâmpada para nossos pés e luz
para o caminho. Aprendemos que nela encontraremos o conhecimento de Deus e
sua vontade para nossa vida. Cremos nisso tudo, pois o que dizem é verdade.
Tomamos então da Bíblia e começamos a sua leitura. Lemos constante e
conscientemente, pois estamos ansiosos, queremos realmente conhecer a Deus.
Mas, à medida que lemos, ficamos mais e mais confusos. Embora fascinados,
não nos alimentamos. Nossa leitura não nos ajuda, ficamos espantados e, para
dizer a verdade, às vezes deprimidos. Descobrimo-nos questionando se vale a
pena prosseguir com a leitura da Bíblia.
Dois mundos distintos
Qual é o problema? Bem, basicamente é este: A leitura da Bíblia nos introduz em
um mundo bastante novo para nós — o do Oriente Próximo como ele era há
milhares anos, primitivo e bárbaro, agrícola e sem mecanização. Nesse mundose
desenrola a ação da história bíblica. Nele encontramos Abraão, Moisés, Davi e os
demais personagens e observamos como Deus lida com eles. Ouvimos os profetas
denunciar a idolatria e ameaçar com a condenação do pecado. Vemos o Homem
da Galiléia operar milagres, discutir com os judeus, morrer pelos pecadores,
ressuscitar da morte e subir ao céu. Lemos as cartas dos mestres cristãos dirigidas
contra erros estranhos que, tanto quanto sabemos, não existem hoje.
O interesse sentido é intenso, mas tudo nos parece muito distante. Tudo
pertence àquele mundo, não a este; e sentimos como se olhássemos de fora para
dentro do mundo bíblico. Somos simples espectadores, nada mais. Pensamos:
"Sim, Deus fez tudo isso naquela época, e foi maravilhoso para o povo envolvido
na história, mas como isso pode nos afetar hoje? Não vivemos no mesmo mundo.
Como pode o registro das palavras e ações de Deus nos tempos bíblicos, a
narrativa de seu trato com Abraão, Moisés, Davi e os outros, nos ajudar, a nós que
vivemos no século xxi?".
Não podemos ver nenhum ponto de ligação entre esses dois mundos, e por isso
somos tomados pelo pensamento recorrente de que o que lemos na Bíblia não se
aplica a nós. E, como acontece muitas vezes, quando os fatos são emocionantes e
68
gloriosos, a sensação de estar excluídos deles nos deprime consideravelmente.
Muitos leitores da Bíblia vivenciam tal sentimento, mas nem todos sabem
como enfrentá-lo. Alguns cristãos parecem se conformar em seguir adiante,
crendo realmente no registro bíblico, mas não procuram nem esperam para si tal
intimidade e relação direta com Deus, como os homens da Bíblia tiveram. Tal
atitude, muito comum hoje, é na verdade a confissão da incapacidade de ver uma
solução para o problema.
Entretanto, como esse sentimento de distância da experiência bíblica de Deus
pode ser superada? Muitas coisas poderiam ser ditas, mas o ponto crucial é que
esse sentimento de distância é uma ilusão oriunda da busca, em lugar errado,
da ligação entre nossa situação e a de vários personagens da Bíblia. É verdade
que, em termos de espaço, tempo e cultura, tanto eles como a época histórica à
qual pertencem estão bem distantes de nós. Mas a ligação entre eles e nós não se
encontra nesse nível.
A ligação é o próprio Deus. Pois o Deus que eles tiveram é o mesmo Deus de
hoje. Para deixar essa idéia mais precisa, podemos dizer que se trata exatamente
do mesmo Deus, pois Deus não muda de modo algum. Assim, o que devemos
salientar a fim de perder o sentimento de que há um abismo intransponível entre a
posição dos personagens bíblicos e as pessoas de nosso tempo é a verdade da
imutabilidade de Deus.
Não são dois deuses distintos
Deus não muda. Vamos ampliar este pensamento.
1. A vida de Deus não muda. Ele é "desde a antigüidade" (Sl 93:2) "o rei
eterno" 0r 10:10), "incorruptível" (Rm 1:23; ra), "o único que é imortal" (1Tm
6:16). "Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade
a eternidade tu és Deus" (Si 90:2). A terra e o céu, diz o salmista, "perecerão, mas
tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e
serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim"
(Sl 102:26,27); "eu sou o primeiro", diz Deus, "e sou o último" (Is 48:12).
As coisas criadas têm começo e fim, mas isso não se aplica ao Criador. A
resposta que se deve dar à pergunta feita por uma criança: "Quem fez Deus?" é
simplesmente que Deus não teve de ser feito, pois sempre existiu. Ele existe para
sempre e é sempre o mesmo. Deus não envelhece, sua vida não aumenta nem
diminui. Ele não ganha novas forças nem perde a que possui. Não amadurece nem
se desenvolve. Ele não se torna mais forte nem mais fraco, nem mais sábio à
medida que o tempo passa. "Ele não pode mudar para melhor", escreveu Arthur
W. Pink1, "pois já é perfeito; e sendo perfeito não pode mudar para pior"2. A
diferença primordial e fundamental entre o Criador e suas criaturas é que elas são
1Estudioso da Bíblia, nascido na Inglaterra (1886-1952). Foi pastor de algumas igrejas nos
69
Estados Unidos e depois se transferiu para o ministério de ensino bíblico, tornando-se também
escritor. Criou a revista chamada Studies in the Scriptures e escreveu artigos para ela até sua
morte. Era um apreciador da teologia puritana, e pregava seus valores.
2The attributes of God, http://www.pbministries.org/books/pink/Attributes/attrib_07.htm.
Publicado em português com o título Os atributos de Deus (São Paulo: pes).
70
mutáveis e sua natureza admite mudança, ao passo que Deus é imutável e nunca
pode deixar de ser o que é. Isso é expresso no hino:
Crescemos e nos desenvolvemos como folhas na árvore, Murchamos
e perecemos — mas nada muda a ti.3
Tal é o poder da própria "vida indissolúvel" (Hb 7:16) de Deus.
2. O caráter de Deus não muda. Tensão, choque ou lobotomia podem alterar o
caráter de uma pessoa, mas nada altera o caráter de Deus. No curso da vida
humana, os gostos, a perspectiva e o temperamento podem mudar radicalmente.
Alguém gentil, equilibrado, pode se tornar amargo e irritadiço. Uma pessoa de
bom gênio pode se tornar cínica e insensível. Mas com o Criador nada disso
acontece. Ele nunca se torna menos verdadeiro, misericordioso, justo ou melhor
do que sempre foi. O caráter de Deus é hoje, e sempre será, exatamente como era
nos tempos bíblicos.
É instrutivo neste ponto trazer à lembrança as duas vezes em que Deus revelou
seu "nome" no livro de Êxodo. O "nome" de Deus revelado é, por certo, mais que
apenas uma etiqueta, trata-se da revelação do que ele é relativamente ao ser
humano.
Em Êxodo 3 lemos como Deus anunciou seu nome a Moisés: "Eu sou o que
Sou" (v. 14), expressão da qual Yahweh (Jeová, o Senhor) é na verdade uma
forma resumida (v. 15). Esse "nome" não descreve a Deus, declara apenas sua
existência e eterna imutabilidade; uma lembrança à humanidade de que ele tem
vida em si mesmo e de que o que ele é agora será eternamente. Em Êxodo 34,
entretanto, lemos como Deus "proclamou o seu nome: o Senhor" a Moisés
relacionando as várias facetas de seu caráter santo, "Senhor, Senhor Deus
compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que
mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado.
Contudo,
3Palavras retiradas do terceiro verso do hino Immortal, invisible, God only wise, de Walter C.
Smith (Hymns of Christ and the Christian life, 1876).
71
não deixa de punir o culpado; castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus
pais, até a terceira e a quarta gerações" (v. 6 e 7).
Esta proclamação complementa a de Êxodo 3 — ao dizer-nos o que Yahweh é
de fato — e esta complementa aquela ao expressar que Deus é para sempre o que
naquele momento, há três mil anos, afirmou ser a Moisés. O caráter moral de
Deus é imutável. Assim Tiago, numa passagem que trata da bondade e santidade
de Deus, sua generosidade para com os homens e hostilidade para com o pecado,
menciona a Deus como aquele "em quem não pode existir variação ou sombra de
mudança" (Tg 1:17; ra).
3. A verdade de Deus não muda. As pessoas às vezes falam coisas que não
querem dizer de fato apenas porque não conhecem a própria mente. Do mesmo
modo, porque sua visão muda, não raro descobrem a incapacidade de sustentar o
que disseram no passado. Todos nós às vezes temos de anular nossas palavras
porque deixaram de expressar o que realmente pensamos; temos de engolir as
palavras porque a realidade dos fatos as nega.
O discurso do ser humano é instável, mas isso não acontece com as palavras de
Deus. Elas permanecem para sempre como expressões permanentemente válidas
de sua mente e de seu pensamento. Nenhuma situação o induz a anular suas
palavras; nenhuma mudança de opinião lhe requer correção de idéias. Isaías
escreve: "Toda a carne é erva [...] seca-se a erva [...] mas a palavra de nosso Deus
permanece eternamente" (Is 40:6; ra). Do mesmo modo o salmista diz: "A tua
palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus" (Si 119:89) e "[...] todos os
teus mandamentos são verdadeirosa respeito da revelação divina e dos
fundamentos cristãos deu margem ao questionamento mais amplo que abandona
toda idéia da unicidade da verdade, e com isso qualquer esperança de unificar o
conhecimento humano. Assim, é comumente aceito que minhas percepções
religiosas não mantêm relação com meu conhecimento científico das coisas
externas, porque Deus não está "lá fora" no mundo, mas apenas "aqui dentro" na
psique. A incerteza e a confusão a respeito de Deus, características de nossos dias,
são piores que qualquer ataque desde a tentativa da teosofia gnóstica6 de absorver
o cristianismo no século ii.
É comum dizer-se hoje em dia que a teologia está mais forte que nunca, e em
termos de especificação acadêmica, ou na qualidade e quantidade de livros
publicados, isto talvez seja verdade. No entanto, faz muito tempo que a teologia
não se apresenta tão fraca e inábil na tarefa básica de manter a Igreja dentro das
realidades do Evangelho. Há noventa anos Charles Haddon Spurgeon7 descreveu
como "declínio" as vacila-ções observadas então entre os batistas a respeito das
Escrituras, da expiação e do destino humano. Se ele pudesse avaliar o pensamento
6''Conjunto de movimentos religiosos, sincréticos e esotéricos, anteriores à expansão do
cristianismo, marcados pelo profundo apego ao "conhecimento secreto" (gnosis) e que misturavam
misticismo e especulação filosófica. Foi um grande e perigoso adversário do cristianismo,
principalmente quando gerações de cristãos provenientes do paganismo tentaram explicar suas
novas crenças fazendo uso da nomenclatura e da cosmovisão gnóstica.
7"Denominado o "Príncipe dos pregadores" (1834-1892). Nascido em Kelvendon (Grã-Bretanha),
filho e neto de pregadores, Spurgeon foi um pastor batista calvinista que pregava a grandes
audiências os princípios que extraía da teologia puritana. Foi um escritor prolífico e fundou
também um seminário, orfanatos, sociedades assistenciais para diversas causas. Sua influência
estende-se até o dia de hoje por meio de suas pregações e livros, que são impressos e distribuídos
em todos os continentes.
7
protestante a respeito de Deus nos tempos atuais, creio que falaria em
"afundamento"!
"Ponham-se na encruzilhada e olhem; perguntem pelos caminhos antigos,
perguntem pelo bom caminho. Sigam-no e acharão descanso" (Jr 6:16). Eis o
convite deste livro. Não se trata de uma crítica aos novos caminhos, a não ser
indiretamente; pelo contrário, é um chamado direto às sendas antigas, pois "o bom
caminho" é ainda o mesmo.
Não peço que meus leitores pensem que conheço perfeitamente o assunto de
que estou falando. "Aqueles como eu", escreveu C. S. Lewis,8 "cuja imaginação
ultrapassa de longe a sua obediência, estão sujeitos a um castigo justo.
Imaginamos facilmente condições muito mais elevadas que aquelas que realmente
chegamos a alcançar. Se descrevermos o que imaginamos poderemos fazer com
que outros, e nós, acreditemos que na verdade estivemos ali"9 — e desse modo
enganamos tanto aos outros como a nós mesmos.
Todos os escritores e leitores de literatura devocional fariam bem em pesar as
palavras de Lewis. Entretanto, "Está escrito: 'Cri, por isso falei'. Com esse mesmo
espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos" (2Co 4:13); e se o que aqui
está escrito for útil a alguém, do mesmo modo como as minhas meditações
durante este trabalho me ajudaram, esta obra terá então realmente valido a pena.
James I. Packer
8Clive Staples Lewis (1898-1963) foi escritor e estudioso. Nasceu em Belfast, Irlanda. Especialista
em literatura medieval inglesa, escreveu após sua conversão sobre ficção cristã e outros temas
ligados ao cristianismo. Suas obras mais conhecidas são Cristianismo puro e simples e As crônicas
de Nárnia.
9''Os quatro amores, Col. Pensadores Cristãos, 2a. ed., São Paulo: Mundo Cristão, 1986. p. 108.
8
APRESENTAÇÃO
É com entusiasmo que recomendo a leitura desta obra. Embora esta segunda
edição não contemple alterações substanciais, não perde para outros livros
lançados mais recentemente. Desconheço outro escritor que tenha superado a
qualidade teológica e a aplicação prática que J. I. Packer imprime em O
conhecimento de Deus.
Jesus afirma que conhecer a Deus eqüivale à vida eterna, portanto essa deve ser
a prioridade. Esse tema nunca estará "fora de moda", pois não é possível
exauri-lo. Como não tirar proveito de uma leitura tão edificante e informativa!
Embora a designação best-seller não signifique necessariamente que seu autor
escreve muito bem ou que o assunto seja da máxima importância, vemos ambas as
características nesta obra. Com mais de um milhão de exemplares vendidos em
uma dúzia de línguas, O conhecimento de Deus superou minhas expectativas.
Dr. James Packer é escritor talentoso. Possui mente aguda e coração ardente,
qualidades que se destacam em cada página. Teólogos podem ser, às vezes,
complicados e tediosos. Embora detenham extenso conhecimento acadêmico, em
geral não se revelam muito hábeis em desenvolver o tema a que se propõem de
modo a fascinar os leitores. Este, porém, não é o caso de J. I. Packer.
O conhecimento de Deus apresenta profundidade bíblica. Ao analisar diversas
passagens das Escrituras, o dr. Packer tece discussões teológicas visando a
desvelar verdades e pontos de vista antes despercebidos. Acredito que pastores e
mestres da Bíblia aproveitarão muitas páginas deste livro para estimular seus
alunos e suas ovelhas a conhecer melhor a Deus e a sua Palavra.
O conhecimento de Deus apresenta abrangência teológica. Ainda que não se
trate de uma teologia sistemática, recomendo esta obra a todos os estudiosos de
teologia como sua melhor fonte de conhecimento paralelo. Além de reunir muita
reflexão sobre Deus e sua atuação na história, é uma ferramenta de combate
contra a tendência de muitos cursos de seminários de banalizar as verdades
centrais da fé e desestimular a paixão pelo Senhor.
O conhecimento de Deus ajuda a esclarecer doutrinas e práticas muitas vezes
pouco compreendidas e, não raro, permeadas por erros. Muitos pastores e mestres
da Palavra costumam repassar ensinamentos atraentes aos ouvintes sem analisar
consistentemente sua veracidade ou seus fundamentos bíblicos. Para ilustrar a
relevância deste aspecto, basta mencionar a discussão do dr. Packer sobre a
proibição de imagens e o perigo que representam para os cristãos evangélicos.
Utilitarismo e pragmatismo desviam facilmente as igrejas do caminho.
O conhecimento de Deus apresenta-se ainda como fonte de orientação ética
para os que enfrentam dilemas e precisam tomar decisões condizentes com a
santidade. Muitas escolhas e decisões presentes na vida dos cristãos de hoje
jamais foram concebidas pelo povo de Deus de dois mil anos atrás.
Os desafios da modernidade, da vida urbana e do constante bombardeio da
mídia requerem sabedoria. O leitor se sentirá grandemente estimulado ao
acompanhar, por exemplo, o raciocínio do dr. Packer no capítulo 10, A sabedoria
9
de Deus e a nossa, em que se evidencia sua capacidade de contextualizar a Bíblia.
Poderíamos mencionar muitos outros aspectos importantes e interessantes
desta obra mas assim como, creio, a melhor maneira de conhecer uma iguaria é
prová-la, a melhor maneira de conhecer a qualidade superior do livro O
conhecimento de Deus é mergulhar em sua leitura.
A Deus toda a glória!
Dr. Russell Shedd
10
Parte I
Conheça
 O Senhor
11
O estudo de Deus
Em 7 de janeiro de 1855 o ministro da capela da rua New Park começou seu
sermão matinal do seguinte modo:
Já foi dito por alguém que "o estudo adequado da humanidade é o próprio
homem". Não me oponho à idéia, mas creio ser igualmente verdadeiro que
o estudo correto do eleito de Deus é Deus; o estudo apropriado ao cristão é
a divindade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais
poderosa filosofia que possa prender a atenção de um filho de Deus é o
nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus,
a quem chama Pai.
Nada é melhor para o desenvolvimento da mente que contemplar a
divindade. Trata-se[...] tu os estabeleceste para sempre" (v.
151,152). A palavra traduzida por "verdadeiros" no último versículo apresenta a
idéia de estabilidade.
Ao ler a Bíblia, precisamos lembrar, portanto, que Deus ainda cumpre todas as
promessas, ordens, declarações de propósitos e palavras de admoestação
endereçadas aos cristãos do Novo Testamento. Elas não são relíquias de eras
passadas, mas a revelação eternamente válida da mente divina para seu povo, em
todas as gerações, enquanto este mundo existir. Assim como o Senhor mesmo
disse "A Escritura não pode falhar" (Jo 10:35; ra), nada pode anular a verdade
eterna de Deus.
4. Os caminhos de Deus não mudam. Deus lida com os pecadores como fazia
na história bíblica. Ele ainda mostra sua liberdade e poder de distingui-los, agindo
de modo que alguns ouçam o Evangelho enquanto outros não. Leva alguns a
ouvi-lo e a se arrependerem, deixando outros na incredulidade. Ao agir assim,
ensina aos santos que ele não deve misericórdia a ninguém e que é apenas por sua
graça, e não por esforço deles, que os santos encontraram a vida.
Deus abençoa aqueles a quem dirige seu amor de modo que se tornam
humildes, para que toda a glória possa ser apenas sua. Ele odeia os pecados de
seu povo, e usa todo o tipo de sofrimento e dor, quer internos quer externos,
para desviar da transigência e da desobediência o coração das pessoas. Ele
busca a convivência com seu povo e envia-lhe tanto alegrias como tristezas a fim
72
de que deixem de amar a outras coisas para se ligarem inteiramente a ele.
Deus ensina o cristão a valorizar os dons prometidos, fazendo-o esperar por
eles e obrigando-o a orar com insistência para obtê-los, antes que ele os conceda.
Assim, lemos nos registros da Bíblia sobre como Deus lidou com seu povo, e
ainda atua. Seus objetivos e atos permanecem constantes. Nunca, em tempo
algum, ele age em desacordo com seu caráter. Os caminhos do ser humano,
sabemos, são pateticamente inconstantes, mas não são assim os de Deus.
5. Os propósitos de Deus não mudam. "Aquele que é a glória de Israel não
mente nem se arrepende", declarou Samuel, "pois não é homem para se
arrepender" (1Sm 15:29). Balaão dissera o mesmo: "Deus não é homem para que
minta, nem filho de homem para que se arrependa. Acaso ele fala, e deixa de agir?
Acaso promete, e deixa de cumprir?" (Nm 23:19).
Arrepender significa rever uma opinião e mudar o plano de ação. Deus nunca
faz isso; ele não precisa, pois seus planos são baseados no conhecimento e
controle completos de todas as coisas no passado, presente e futuro, de modo que
não pode haver emergências nem desenvolvimentos inesperados que o tomem de
surpresa: "Uma de duas coisas levam a pessoa mudar de idéia e a rever seus
planos: falta de precaução ao antecipar todos os acontecimentos ou falta de
precaução ao executá-los. Mas por ser Deus tanto onisciente como onipotente
nunca precisa rever seus decretos" (Arthur W. Pink).4 "Mas os planos do Senhor
permanecem para sempre, os propósitos do seu coração, por todas as gerações" (Sl
33:11).
O que Deus executa no tempo ele já planejara desde a eternidade, e tudo o que
planejou na eternidade realiza no tempo. Tudo o que, em sua Palavra, ele se
comprometeu a realizar será infalivelmente consumado. Lemos, portanto, sobre a
"natureza imutável do seu propósito", que levará à alegria completa da herança
prometida, e sobre o juramento imutável pelo qual confirmou seu desígnio a
Abraão, o arquétipo do cristão, tanto para a segurança deste como para a nossa
também (Hb 6:17). Isso acontece com todos os planos anunciados por Deus. Eles
não mudam. Parte alguma de seu plano eterno jamais mudará.
É verdade que existem alguns textos (Gn 6:6; ISm 15:11; 2Sm 24:16; Jn 3:10;
Jl 2:13) que falam sobre o arrependimento de Deus. A referência em cada caso é
sobre a anulação do tratamento prévio dispensado a certos homens, como
conseqüência da reação deles a esse tratamento. Mas não há insinuação de que
essa reação não tenha sido prevista, nem que Deus tenha sido tomado de surpresa,
e que ela não estivesse estabelecida em seu plano eterno. Não há mudança alguma
em seu propósito eterno quando ele começa a agir em relação a uma pessoa de
maneira diferente.
6. O Filho de Deus não muda. Jesus Cristo "é o mesmo ontem, hoje e para
sempre" (Hb 13:8), e seu toque ainda possui o antigo poder. Ainda permanece a
verdade de que "ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele,
aproximam-se de Deus, pois vive sempre para
73
4The attributes of God, http://www.pbministries.org/books/pink/Attributes/attrib_07.htm>.
74
interceder por eles" (Hb 7:25). Jesus nunca muda. Este fato é forte consolação
para todo o povo de Deus.
Devemos ser como eles
Onde está então o sentimento de distância e de diferença entre os cristãos dos
tempos bíblicos e nós? Foi eliminado. Baseado em quê? Na imutabilidade divina.
Amizade com ele, confiança em suas palavras, vida pela fé, permanência nas
promessas de Deus, são essencialmente as mesmas verdades para nós hoje como o
foram para os cristãos do Antigo ou do Novo Testamento. Esse pensamento nos
traz conforto à medida que enfrentamos as perplexidades de cada dia; no meio de
tantas mudanças e incertezas da vida neste novo milênio, Deus e seu Cristo
permanência os mesmos — poderosos para salvar.
Mas esse pensamento também traz um desafio penetrante. Se nosso Deus é o
mesmo Deus dos cristãos do Novo Testamento, como podemos justificar nossa
satisfação com uma experiência de comunhão com ele em um plano de conduta
cristã tão inferior ao deles? Se Deus é o mesmo, esta é uma questão que nenhum
de nós pode sofismar.
75
A MAJESTADE DE DEUS
A palavra majestade vera do latim e significa grandeza. Quando atribuímos
majestade a alguém, reconhecemos-lhe a grandeza e expressa-mos-lhe nosso
respeito por isso; daí o tratamento de "sua majestade" a reis e rainhas.
Na Bíblia a palavra majestade é usada para expressar a idéia da grandeza de
Deus, nosso Criador e Senhor: "O Senhor reina! vestiu-se de majestade; [...] O teu
trono está firme desde a antigüidade; tu existes desde a antigüidade" (Sl 93:1,2);
"Proclamarão o glorioso esplendor da tua majestade, e meditarei nas maravilhas
que fazes" (Sl 145:5). Pedro, recordando sua visão da glória real de Cristo na
transfiguração, disse: "nós fomos testemunhas oculares da sua majestade" (2Pe
1:16).
Em Hebreus, a expressão majestade é usada duas vezes substituindo a palavra
Deus: Cristo, ao ascender, sentou-se "à direita da Majestade nas alturas", "à direita
do trono da Majestade nos céus" (Hb 1:3; 8:1). Quando a palavra majestade é
aplicada a Deus, declara-lhe sua grandeza e convida-nos à adoração. O mesmo
acontece quando a Bíblia afirma que Deus está nas alturas e no céu: a idéia aqui
expressa não é que Deus esteja distante de nós, no espaço, mas que ele está muito
acima de nós em grandeza e, portanto, deve ser adorado. "Grande é o Senhor, e
digno de todo louvor" (Sl 48:1); "Pois o Senhor é o grande Deus, o grande Rei [...]
Venham! Adoremos prostrados e ajoelhemos" (Sl 95:3,6). O instinto cristão de
confiança e adoração é muito estimulado pelo conhecimento da grandeza de Deus.
É, no entanto, exatamente esse conhecimento que falta em grande escala aos
cristãos modernos; e essa é a razão de nossa fé tão frágil e nossa adoração tão
débil. Somos filhos do nosso tempo e, embora acalentemos grandes idéias sobre o
ser humano, via de regra temos poucas idéias sobre Deus. Quando alguém na
igreja, sem pensar nas pessoas das ruas, usa a palavra Deus, raramente pensa no
conceito da majestade divina. O best-seller Your God is too small [Seu Deus é
pequeno demais]1 tem um título bem atual. Estamos em pólos diferentes em
relação a nossos ancestrais evangélicos, embora usemos as mesmas palavras em
nossa confissão de fé.
Quando começamos a ler Lutero,2 Edwards3 ou Whitefield,4 e ainda que
aceitemos a mesma doutrina, em pouco tempo nos surpreenderemos pensando se
realmente temos alguma familiaridade com o Deus poderoso conhecido por eles
76
tão intimamente.
Hoje sedá grande ênfase à idéia de que Deus é pessoal, mas esta verdade é
de tal modo enunciada que nos deixa a impressão de que ele é uma pessoa
como nós — fraca, inconveniente, ineficaz e um pouco
1John Bertram Phillips, New York: Macmillan, 1961.
2Martinho Lutero (1483-1546) foi monge agostiniano, doutor em teologia e professor da
Universidade de Wittenberg. Protestou contra a venda de indulgências para financiar a construção
da Basílica de São Pedro em Roma, fixando um documento que continha 95 teses contra essa
prática. Posteriormente excomungado pelo papa, queimou a Bula de excomunhão em praça
pública, rompendo definitivamente com a Igreja Católica. Além de prolífico escritor, contribuiu
para a uniformização da língua alemã ao publicar inicialmente o Novo Testamento e, mais tarde, a
Bíblia toda nesse idioma.
3Jonathan Edwards (1703-1758). Teólogo e filósofo americano, foi presidente do Prince-ton
College. É considerado ainda hoje a mente mais brilhante do cenário religioso dos Estados Unidos.
Ministro congregacional, foi uma das principais figuras durante o Grande Despertamento. Suas
pregações eram impactantes. Um dos sermões mais característicos de sua teologia e aplicação
bíblica é Pecadores nas mãos de um Deus irado.
4George Whitefield (1714-1770) foi um pregador inglês que participou do Grande Despertamento
nos Estados Unidos e do avivamento religioso de sua pátria. Era membro do Clube Santo, criado
pelos irmãos Wesley. Ordenado pela Igreja da Inglaterra, foi posteriormente excluído dos púlpitos
anglicanos devido a seu fervor religioso, passando a pregar ao ar livre. Foi um dos maiores
contribuidores para a criação do posteriormente denominado movimento metodista.
77
patética. Mas não é esse o Deus da Bíblia! Nossa vida pessoal é finita, limitada
em todas as direções: espaço, tempo, conhecimento e poder. Deus, porém, não
tem limites. Ele é eterno, infinito e todo-poderoso. Ele nos tem nas mãos; mas nós
nunca o temos em nossas. Semelhantemente a nós, ele é pessoal; mas,
diferentemente de nós, ele é grande. Em todas as constantes evidências bíblicas
sobre o interesse pessoal de Deus por seu povo, e da bondade, do carinho, da
simpatia, da paciência e da terna compaixão demonstrada para com esse povo, as
escrituras não nos deixam perder de vista a majestade e o ilimitado domínio de
Deus sobre todas as criaturas.
Pessoal e majestoso
Para ilustrar esse ponto não precisamos ir além dos capítulos iniciais de Gênesis.
Desde o começo da história bíblica, por meio da sabedoria da inspiração divina, a
narrativa é feita de modo a inculcar em nós a dupla verdade: o Deus a quem
somos apresentados é pessoal e majestoso.
Em nenhum outro lugar da Bíblia a natureza pessoal de Deus é expressa de
modo tão vivido. Ele delibera consigo: "Façamos" (Gn 1:26). Ele conduz os
animais até Adão para que este os nomeie (22:19). Ele passeia pelo jardim
chamando por Adão (3:8). Ele faz perguntas às pessoas (3:11; 4:9; 16:8). Desce
do céu para ver o que as pessoas estão fazendo (11:5; 18:20). Fica tão desgostoso
com a fraqueza do ser humano que se arrepende de havê-lo feito (6:6).
Representações de Deus como estas são necessárias para nos trazer à mente o
fato de que o Deus com o qual comungamos não é um mero princípio cósmico,
impessoal e indiferente, mas uma Pessoa que vive, pensa, sente, age, aprova o
bem, desaprova o mal e está o tempo todo interessado em suas criaturas.
Não vamos, porém, deduzir por essas passagens que o conhecimento e o poder
de Deus sejam limitados, ou que ele está normalmente ausente, desconhecendo o
que ocorre no mundo, a não ser quando vem especialmente para investigar. Esses
mesmos capítulos destroem tais idéias ao nos defrontar com a grandeza de Deus,
tão vivida quanto sua personalidade.
O Deus do Gênesis é o Criador que trouxe ordem ao caos, criou vida mediante
sua palavra, fez Adão do pó da terra e Eva de sua costela (caps. 1 e 2). Ele é o
Senhor de tudo o que criou. Amaldiçoou a terra e sujeitou a humanidade à morte
física, mudando desse modo seu mundo original perfeito e ordenado (3:17).
Inundou a terra como castigo, destruindo toda a vida, menos os que estavam na
arca (caps. 6 a 8). Confundiu a linguagem das pessoas e espalhou os construtores
de Babel (11:7). Destruiu Sodoma e Gomorra (aparentemente) por uma erupção
vulcânica (19:24). Abraão o chamou com exatidão de "Juiz de toda a terra"
(18:25), e corretamente adotou o nome dado a Deus por Melquisedeque: "Deus
Altíssimo, Criador dos céus e da terra" (14:19-22).
Deus está presente em todos os lugares e observa tudo: o assassinato
perpetrado por Caim (4:9), a corrupção da humanidade (6:5), a penúria de Hagar
(16:7). Com razão Hagar o chamou El Roi— "o Deus que vê", e chamou a seu
78
filho Ismael — "Deus ouve", pois Deus na verdade vê e ouve, e nada lhe
escapa. Ele mesmo se denomina El Shaddai, "Deus Altíssimo", e todas suas ações
ilustram a onipotência proclamada por seu nome. Ele prometeu a Abraão e a sua
mulher um filho quando já tinham noventa anos, e repreendeu Sara por sua
incrédula e
injustificada risada: "Existe alguma coisa impossível para o Senhor?" (18:14).
Não é apenas em momentos isolados que Deus controla os acontecimentos. Toda
a história está sob sua influência. A prova disso está sua predição detalhada do
extraordinário destino que ele se propôs a realizar com a descendência de Abraão
(12:1-3; 13:14-17; 15:13-21 etc). Em poucas palavras, assim é a majestade de
Deus, de acordo com os primeiros capítulos de Gênesis.
Ilimitado
Como podemos formar uma idéia correta da grandeza de Deus? A Bíblia nos
ensina que devemos tomar duas atitudes: a primeira é remover de nosso conceito
de Deus limites que o tornariam pequeno. A segunda é compará-lo com poderes e
forças que consideramos grandes.
Como exemplo do que está envolvido no primeiro passo, veja o salmo 139, no
qual seu autor medita sobre a infinita e ilimitada natureza da presença, do
conhecimento e do poder de Deus em relação ao ser humano. Estamos sempre na
presença de Deus, diz o salmista. Você pode romper relações com as pessoas, mas
jamais poderá fugir de seu Criador: "Tu me cercas, por trás e pela frente [...] Para
onde poderei eu escapar do teu Espírito? Para onde poderei fugir da tua
presença?". Se subir ao céu, se descer ao inferno (isto é, ao fundo da terra), ou se
fugir para o fim do mundo, ainda assim não poderei escapar da presença de Deus
— "lá estás" (v. 5-10). Nem a escuridão, que me esconde da vista humana, poderá
me proteger do olhar divino (v. 11,12).
Como não há limites para sua presença comigo, tampouco há limites para seu
conhecimento a meu respeito. Assim como nunca estou SÓ, também nunca deixo
de ser notado: "Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e
quando me levanto (todas as minhas ações e movimentos); de longe percebes os
meus pensamentos (tudo o que se passa em minha mente) [...] todos os meus
caminhos são bem conhecidos por ti (todos os meus hábitos, planos, idéias,
desejos e a minha vida até agora). Antes mesmo que a palavra me chegue à língua
(falada ou pensada), tu já a conheces inteiramente, Senhor" (v. 1-4).
Posso ocultar dos homens meu coração, meu passado e meus planos para o
futuro, mas de Deus não posso esconder nada. Posso falar de tal modo que as
pessoas ao meu redor formem uma idéia bem diferente do que sou na realidade,
mas nada que eu diga ou faça pode enganar a Deus. Ele vê através de toda minha
reserva e pretensão. Ele me conhece como sou realmente, melhor até que eu
mesmo.
Um Deus de cuja presença e exame eu pudesse me esquivar seria uma
divindade comum e pequena. Mas o Deus verdadeiro é grande e terrível
justamente porque está sempre comigo e seus olhos estão sempre sobre mim.
79
Viver torna-se uma questão impressionante quando se percebe que se passa todos
os momentos da vida sob o olhar e na companhia do Criador onisciente e
onipresente.
Isso, entretanto, não é tudo. O Deus que tudo vê é também poderoso, a fonte do
poder que me foi revelado pela admirável complexidade de meu corpo, criadopor
ele. Diante desta realidade a meditação do salmis-ta se transforma em adoração:
"Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são
maravilhosas!" (v. 14).
Aqui, está, portanto, o primeiro passo para apreender a grandeza de Deus:
compreender como sua sabedoria, sua presença e seu poder são ilimitados. Muitas
outras passagens das Escrituras ensinam a mesma lição, especialmente Jó 38 a 41,
capítulos nos quais o próprio Deus se vale da declaração de Eliú: "Deus está
cercado de tremenda majestade" (37:22; ra), e coloca diante de Jó uma
impressionante exposição de sua sabedoria e de seu poder na natureza. O Senhor
então pergunta a Jó se ele pode igualar tal "majestade" (40:10) e o convence de
que, se não lhe é possível fazê-lo, também não deveria atrever-se a buscar falhas
em como Deus conduz seu problema, que também supera sua compreensão. Mas 
 não podemos nos demorar mais neste ponto.
O INCOMPARÁVEL
Como exemplo do que está envolvido no segundo passo, vejamos o texto de Isaías
40:12 e os versículos seguintes. Aqui Deus fala a pessoas cuja disposição
equipara-se à de muitos cristãos de hoje — desanimados, amedrontados,
intimamente desapontados. Pessoas que por muito tempo lutam contra a maré de
dificuldades. Pessoas que deixaram de crer que a causa de Cristo poderá prosperar
outra vez. Agora veja como Deus, por meio de seu profeta, argumenta com eles.
Veja as obras que eu tenho feito, ele diz. Você poderia fazê-las? Alguém
poderia? "Quem mediu as águas na concha da mão, ou com o palmo definiu os
limites dos céus? Quem jamais calculou o peso da terra, ou pesou os montes na
balança e as colinas nos seus pratos?" (v. 12). Você é bastante sábio e poderoso
para fazer coisas como essas? Mas eu, Deus, o sou, ou não teria de modo algum
feito este mundo. Eis o seu Deus!
80
Agora observe as nações, o profeta continua: as grandes forças nacionais à
mercê de quem vocês acham que estão. Assíria, Egito, Babilônia — vocês têm
medo dessas nações e se preocupam porque seus exércitos e recursos excedem
muito ao que vocês possuem. Considerem, porém, como Deus se coloca em
relação a essas forças poderosas tão temidas por vocês: "Na verdade as nações são
como a gota que sobra do balde; para ele são como o pó que resta na balança [...]
Diante dele todas as nações são como nada; para ele são sem valor e menos que
nada" (v. 15,17). Vocês tremem diante das nações porque são muito mais fracos
que elas, mas Deus é tão maior que as nações que elas não são nada para ele. Eis o
seu Deus!
Agora observe o mundo. Considere seu tamanho, sua variedade e
complexidade; pense nos mais de seis bilhões que o povoam e no vasto céu acima.
Que figuras insignificantes você e eu somos em comparação ao planeta onde
vivemos! Entretanto, que é todo este planeta em comparação com Deus? "Ele se
assenta no seu trono, acima da cúpula da terra, cujos habitantes são pequenos
como gafanhotos. Ele estende os céus como um forro, e os arma como uma tenda
para neles habitar" (v. 22). O mundo nos faz pequenos, mas Deus torna o mundo
pequeno. O mundo é o escabelo sobre o qual ele senta com segurança. Ele é maior
que o mundo e tudo o que nele há; assim toda a fervilhante atividade de seus mais
de seis bilhões de apressados habitantes não perturba mais que o chilreio e os
pulos dos gafanhotos nos afetam durante o verão. Eis o seu Deus!
Veja agora em quarto lugar as grandes personalidades do mundo — os
governantes cujas leis e políticas determinam o bem-estar de milhões; os
pretensos dominadores do mundo, os ditadores e os construtores de impérios que
têm em si o poder de lançar o mundo todo em guerra. Pense em Senaqueribe e
Nabucodonosor; pense em Alexandre, Napo-leão, Hitler. Pense nos líderes atuais.
Você supõe que são essas grandes personalidades que determinam, de fato, o
andamento do mundo? Pense outra vez, pois Deus é maior que todos os grandes
homens do mundo: "Ele aniquila os príncipes e reduz a nada os juizes deste
mundo" (v. 23), ele é, como diz a versão inglesa do Livro de oração comum, "o
único governador dos príncipes". Eis o seu Deus!
Mas ainda não terminamos. Observe, finalmente, as estrelas. Uma das
experiências mais impressionantes que a humanidade conhece é observar as
estrelas, sozinho, em uma noite clara. Nada proporciona maior sensação de algo
remoto e distante; nada mais nos faz sentir tão fortemente a própria pequenez e
insignificância. Nós, que vivemos na era espacial, podemos acrescentar esta
experiência universal ao conhecimento científico dos atuais fatores envolvidos —
milhões de estrelas, bilhões de anos-luz de distância. Nossas idéias vacilam, nossa
imaginação não pode compreender. Ao tentar conceber a insondável profundidade
do espaço, ficamos mentalmente estarrecidos e confusos.
Mas o que é isto para Deus? "Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem
criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial,
e a todas chama pelos nomes. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força,
que nenhuma delas deixa de comparecer!" (v. 26). Deus mostra as estrelas; ele as
colocou no espaço; é seu Criador e Senhor; elas estão em suas mãos, sujeitas a sua
81
vontade. Tal é seu poder e sua majestade. Eis o seu Deus!
Nossa resposta à majestade
Deixemos agora que Isaías nos fale da doutrina da majestade divina fazendo-nos
as três perguntas que ele, em nome de Deus, fez aos israelitas desiludidos e
abatidos.
1. '"Com quem vocês me vão comparar? Quem se assemelha a mim?', pergunta o
Santo" (v. 25). Esta pergunta reprova idéias erradas a respeito de Deus. "Suas
idéias a respeito de Deus são muito humanas", disse Lutero a Erasmo. Aqui
muitos de nós nos desviamos. Nossos pensamentos a respeito de Deus não são
suficientemente grandes; deixamos de reconhecer a realidade de seu poder e de
sua sabedoria ilimitados. Como somos finitos e fracos, pensamos que, em
alguns pontos, Deus também o seja, e achamos difícil crer de modo diferente.
Pensamos em um Deus muito semelhante a nós. Corrija este engano, diz Deus;
aprenda a reconhecer a majestade total de nosso incomparável Deus e Salvador.
2. "Por que você reclama, ó Jacó, e por que se queixa, ó Israel: 'O Senhor não se
interessa pela minha situação; o meu Deus não considera a minha causa?'" (v.
27). Esta pergunta censura os pensamentos errados a respeito de nós mesmos.
Deus não nos abandonou, como jamais abandona ninguém a quem tenha
dedicado seu amor; nem Cristo, o Bom Pastor, jamais perde a direção do
rebanho. É falso e irreverente acusar a Deus de esquecer, desprezar ou perder
interesse pela situação e pelas necessidades de seu povo. Se você tem se
resignado com a idéia de que Deus o abandonou, busque a graça para se sentir
envergonhado. Tal pessimismo derivado da incredulidade desonra
profundamente nosso grande Deus e Salvador.
3. "Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o
Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto" (v. 28). Esta
pergunta repreende nossa morosidade em crer na majestade de Deus. Ele nos
humilhará por causa de nossa descrença. "Qual é o problema?", ele pergunta,
"será que você está pensando que eu, o Criador, estou velho e cansado?
Ninguém jamais lhe contou a verdade sobre mim?".
Muitos de nós merecemos esta censura. Como somos lentos em crer em Deus
como Deus, soberano que tudo vê e é poderoso! Como fazemos pouco da
majestade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! Muitos de nós precisamos
"colocar toda a esperança no Senhor", meditando sobre sua majestade até
renovarmos nossas forças, gravando estas coisas no coração.
82
Só Deus é sábio
O que a Bíblia quer dizer ao afirmar que Deus é sábio? Nas Escrituras a
sabedoria é uma qualidade tanto moral quanto intelectual, é mais que simples
inteligência ou conhecimento, mais que esperteza ou astúcia. Para ser realmente
sábio, no sentido bíblico, a inteligência e a habilidade de uma pessoa devem ser
usadas para um fim útil. A sabedoria é o poder para ver e a propensão para
escolher o alvo melhor e mais elevado, aliadaaos meios corretos para atingi-la.
A sabedoria, na realidade, é o lado prático da bondade moral e, por isso, é
encontrada em plenitude somente em Deus. Só ele é natural, inteira e
invariavelmente sábio. "Sua sabedoria sempre a postos", diz com toda a verdade o
hino sacro. Deus é sábio em tudo o que fez. A sabedoria, como diziam os antigos
teólogos, é sua essência, assim como também o são poder, verdade, bondade —
elementos que formam seu caráter.
Sabedoria: humana e divina
A sabedoria humana pode ser frustrada por fatores circunstanciais que fogem ao
controle do homem sábio. Aitofel, o conselheiro desleal de Davi, deu um sábio
conselho quando insistiu com Absalão para acabar de uma vez com Davi, antes
que este se recuperasse do primeiro choque causado pela revolta do filho.
Absalão, porém, tolamente seguiu outro caminho, e Aitofel, irritado e com o
orgulho ferido, prevendo sem dúvida o sufocamento da revolta e incapaz de
perdoar-se por ter sido tão tolo a ponto de se juntar a ela, foi para casa em
desespero e se matou (2Sm 17).
A sabedoria de Deus, entretanto, não pode ser frustrada como aconteceu com o
"eficiente conselho" (v. 14) de Aitofel, pois está unida à onipotência. Tanto o
poder quanto a sabedoria são essência de Deus. A onisciência governando a
onipotência, o poder infinito dirigido pela sabedoria também infinita, assim é
basicamente a descrição do caráter divino na Bíblia: "Sua sabedoria é profunda,
seu poder é imenso" (Jó 9:4); "Deus é quem tem sabedoria e poder" (12:13); "[...]
grande é em força e sabedoria" (36:5; sbtb); "Tão grande é o seu poder [...] sua
sabedoria é insondável" (Is 40:26,28); "[...] a sabedoria e o poder a ele
pertencem" (Dn 2:20).
83
Essa mesma associação aparece no Novo Testamento: "Ora, àquele que tem
poder para confirmá-los pelo meu evangelho [...] ao único Deus sábio [...]" (Rm
16:25,27). A sabedoria sem o poder seria patética, inútil; o poder sem a sabedoria
seria meramente assustador; mas em Deus a sabedoria ilimitada e o poder
infinito estão unidos, e isso o torna completamente digno de nossa mais total
confiança.
A poderosa sabedoria de Deus está sempre ativa e jamais falha. Todas as obras
de sua criação, providência e graça demonstram isso, e enquanto não virmos nelas
sua sabedoria não teremos uma avaliação caneta. Não poderemos, entretanto,
reconhecer a sabedoria de Deus a menos que conheçamos com que finalidade ele
age. Muitos erram neste ponto. Entendem mal o que a Bíblia diz ao afirmar que
Deus é amor (v. 1Jo 4:8-10). Pensam que ele planeja uma vida livre de problemas
para todos, independentemente de sua condição moral e espiritual. Por isso
concluem que qualquer situação dolorosa ou difícil (doença, acidente, dano, perda
de trabalho, sofrimento de alguém querido) aponta uma falha na sabedoria ou no
poder de Deus, ou ainda em ambos, ou que Deus não existe.
Essa avaliação acerca do propósito de Deus, porém, é um completo engano. A
sabedoria divina não é, e nunca foi, prometida a fim de manter feliz este mundo
caído ou confortar a impiedade. Nem mesmo aos cristãos foi prometida uma vida
fácil, e sim o contrário. Ele tem outros objetivos para a vida neste mundo do que
simplesmente torná-la fácil para todos.
O que Deus pretende, então? Qual é seu objetivo? O que ele almeja? Ao nos
criar, seu propósito era que deveríamos amá-lo e honrá-lo, louvando-o pela
complexidade maravilhosamente ordenada de seu mundo, usando-o de acordo
com sua vontade, e assim desfrutar tanto do mundo quanto de Deus.
Embora o ser humano tenha caído, Deus não abandonou seu propósito inicial.
Ele ainda planeja que uma grande multidão venha a amá-lo e honrá-lo. Seu
objetivo supremo é levá-la a um estado em que o agrade inteiramente e o louve
adequadamente, uma condição na qual Deus seja tudo para ela e juntos se
regozijem continuamente na fruição do amor mútuo — as pessoas se regozijando
no amor salvífico de Deus dedicado a elas por toda a eternidade, e Deus se
regozijando no amor correspondido pela humanidade, manifestado nela por meio
da graça mediante o Evangelho.
Esta será a glória de Deus, e a nossa glória também, em todos os sentidos
expressos por esta palavra. Isso, porém, só será totalmente realizado no mundo
futuro, no contexto da transformação de toda a ordem criada. Enquanto isso,
entretanto, Deus trabalha continuamente para sua realização. Seus objetivos
imediatos são conduzir cada homem e mulher a um relacionamento de fé,
esperança e amor consigo, livrando-o do pecado e mostrando-lhe na vida o poder
de sua graça, defendendo seu povo contra as forças do mal e espalhando por todo
o mundo o Evangelho mediante o qual ele salva.
Para o cumprimento de cada parte desse propósito, o Senhor Jesus Cristo é
fundamental, pois Deus fez dele não só o Salvador dos pecadores, em quem as
pessoas devem confiar, como também o Senhor da Igreja, a quem devem
obedecer. Vimos como a sabedoria divina foi manifestada na encarnação e na cruz
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de Cristo; acrescentaremos agora que é à luz desse complexo propósito delineado
que veremos a sabedoria de Deus em seu trato com o ser humano.
Deus interage com seu povo
As biografias contidas na Bíblia nos ajudarão aqui. Não há ilustrações mais claras
da sabedoria divina organizando a vida humana que as encontradas nas narrativas
das Escrituras. Tome, por exemplo, a vida de Abraão. Ele era capaz de trapacear
vil e repetidamente, chegando a pôr em risco a castidade de sua mulher (Gn
12:10,20). Vemos assim claramente que ele, por natureza, era um homem de
pouca coragem moral e excessivamente preocupado com a segurança pessoal (Gn
12:12,13; 20:11). Era também sensível à pressão; por insistência da esposa teve
um filho com a escrava Hagar, e quando Sara reagiu com recriminações histéricas
contra o orgulho de Hagar por sua gravidez, deixou que a expulsasse de casa (v.
16).
Evidentemente, pois, Abraão não era por natureza um homem de princípios
fortes, e seu senso de responsabilidade era um tanto deficiente. Deus, porém, trata
com sabedoria dessa figura negligente e pouco heróica de modo tal que ele não
apenas cumpriu fielmente seu papel no palco da história da Igreja, como habitante
pioneiro de Canaã, o primeiro a receber a aliança de Deus (v. 17) e pai de Isaque,
a criança-milagre como também se transformou em um novo homem.
A maior necessidade de Abraão era aprender na prática a viver na presença de
Deus, associando a ele todos os acontecimentos da vida e vendo unicamente a ele
como Comandante, Defensor e Galardoador. Esta foi a grande lição que Deus,
com sabedoria, lhe ensinou: "Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo;
grande será a sua recompensa)!" (15:1); "Eu sou o Deus todo-poderoso, ande
segundo a minha vontade e seja íntegro" (17:1). Vezes sem conta Deus
confrontou Abraão até levá-lo ao ponto em que seu coração pudesse dizer como o
salmista: "A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de
estar junto de ti [...] Deus é a força do meu coração e a minha herança para
sempre" (Sl 73:25,26).
À medida que a narrativa prossegue vemos na vida de Abraão os resultados
desse aprendizado. A velha fraqueza ainda aparece de vez em quando, mas a seu
lado emerge uma nova nobreza e independência, o resultado do hábito
desenvolvido por Abraão de andar com confiança na vontade divina revelada,
confiando e esperando nele, curvando-se a sua providência e obedecendo-lhe
mesmo quando suas ordens parecessem estranhas e pouco convencionais. Abraão
se transformou de alguém mundano em um homem de Deus.
Desse modo, ao responder ao chamado divino, deixando sua casa e viajando
por terras que seus descendentes possuirão (Gn 12:7) — repare que ele mesmo
não possuía nada da terra de Canaã além de seu túmulo (Gn 25:9-10) —,
observamos nele uma nova humildade quando se recusa a invocar seus direitos
sobre os do sobrinho Ló (Gn 13:8,9). Percebe-se também uma nova coragem,
quando se decide a ir salvar Ló com apenas 318 homens, contra as forças
85
combinadas de quatro reis (14:14).
Vemos uma nova dignidade quando se recusa a ficar como saque obtido, para
que não parecesse que sua riqueza vinha do rei de Sodoma, e não do Deus
Altíssimo (14:22,23). Observa-se também uma nova paciência quando ele espera
durante 25 anos, desde os 75 até os 100 anos de idade, pelo nascimento do
herdeiro prometido (Gn 12:4; 21:5).
Vemos como ele se tornou um homem de oração, um intercessor persistente,
oprimido pela consciência da responsabilidade pelo bem-estar alheio perante Deus
(Gn 18:23-32). Vemo-lo, afinal, completamente devotado à vontade de Deus, e
tão confiante na sabedoria divina, que de boa vontade se dispõe a obedecer à
ordem de Deus para matar o próprio filho, o herdeiro tão esperado (Gn 22). Quão
sabiamente ensinou Deus sua lição! E como Abraão a aprendeu bem!
Jacó, neto de Abraão, precisou de um tratamento diferente. Jacó era o filho
querido e teimoso de sua mãe, abençoado (ou amaldiçoado) com todos os
instintos oportunistas e amorais de negociante agressivo. Deus, em sua sabedoria,
planejara que Jacó, apesar de ser o filho mais novo, deveria ter a bênção e os
direitos do primogênito (28:13-15); planejara também que Jacó deveria casar-se
com Lia e Raquel, suas primas, e tornar-se o pai dos doze patriarcas, a quem a
promessa seria transmitida (Gn 48,49).
Deus, porém, em sua sabedoria, resolvera também instilar nele a verdadeira
religião. Toda a atitude de Jacó era a de um descrente, e precisava mudar. Jacó
precisava deixar de confiar na habilidade própria para depender de Deus.
Precisava também sentir aversão pela inescrupulosa hipocrisia que lhe era tão
natural. Era necessário, portanto, que Jacó sentisse a própria fraqueza e
tolice, sendo levado a uma falta de confiança tão completa em si mesmo que
deixaria de tentar explorar os outros. Sua autoconfiança devia ser totalmente
destruída. Com paciente sabedoria (por sempre esperar pela hora oportuna) Deus
levou Jacó até o ponto em que pudesse gravar-lhe na alma, de modo indelével e
decisivo, o sentimento de desamparo impotente. É instrutivo rever os passos de
Deus.
Em primeiro lugar, por cerca de vinte anos, Deus permitiu que Jacó agisse
livremente, tecendo uma complexa teia de falsidade e suas inevitáveis
conseqüências — desconfiança mútua, amizades transformadas em inimizades e o
isolamento do impostor. As conseqüências da astúcia de Jacó foram a maldição
divina sobre ele. Quando Jacó roubou a bênção e o direito de primogenitura de
Esaú (Gn 25:29-34; 27:1-40), este (naturalmente) virou-se contra Jacó, que
precisou deixar sua casa às pressas. Foi para a casa de seu tio Labão, tão matreiro
quanto o próprio Jacó. Labão explorou a posição de Jacó e o enganou para
casar-se não apenas com sua linda filha, a quem Jacó queria, mas também com a
outra, feia e de olhos fracos, para quem de outro modo seria difícil encontrar um
bom marido (Gn 29:15-30).
A experiência de Jacó com Labão foi bem amarga, e Deus a usou para lhe
mostrar o sentimento de ser enganado — algo que Jacó precisava aprender se
algum dia tivesse de abandonar seu antigo modo de vida. Jacó, porém, ainda não
estava curado. Sua reação imediata foi pagar na mesma moeda. Ele manipulou tão
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astutamente o rebanho de ovelhas do tio, com tanto lucro para si e prejuízo para
Labão, que este ficou furioso. Jacó sentiu ser mais prudente partir com sua família
para Canaã antes que viesse alguma represália (Gn 30:25—31:55). Deus, que até
então havia suportado a desonestidade de Jacó sem censura, incentivou-o a ir (Gn
31:3, 11-13; cf. 32:1,2,9,10), pois ele sabia o que iria fazer antes do final da
viagem. Quando Jacó partiu, Labão o perseguiu e tornou perfeitamente claro que
nunca mais queria Jacó de volta (Gn 31).
Quando a caravana de Jacó alcançou a fronteira do território de Esaú, Jacó
enviou ao irmão uma mensagem polida contando-lhe de sua chegada. As notícias
recebidas, porém, fizeram-no pensar que Esaú avançava em sua direção com um
exército armado, para vingar-se da bênção roubada vinte anos antes. Jacó ficou
completamente desesperado.
Chegara a hora de Deus intervir. Naquela noite, enquanto Jacó estava sozinho
às margens do rio Jaboque, Deus o encontrou (Gn 32:24-30). Foram horas de
conflito espiritual desesperador e angustiante, e, como pareceu a Jacó, físico
também. Jacó agarrou-se a Deus; ele queria uma bênção, uma certeza do favor e
da proteção divina nessa crise, mas não conseguiu o que buscava. Ao contrário,
tinha cada vez mais vivida a consciência do próprio estado, completo desamparo;
e, sem Deus, totalmente sem esperança. Jacó sentiu naquela ocasião o peso total
de seu procedimento cínico e inescrupuloso, que lhe estava sendo retribuído. Até
aquele momento ele se mostrara autoconfiante, acreditando ser mais que capaz de
enfrentar sozinho tudo o que lhe acontecesse. Agora, porém, sentia sua completa
incapacidade para resolver as coisas e compreendeu claramente que jamais
voltaria a confiar em si mesmo para cuidar da própria vida e criar o próprio
destino. Nunca mais ousaria tentar viver de acordo com sua vontade.
Para que isso ficasse bem claro a Jacó, enquanto lutavam, Deus o aleijou (Gn
32:25), deslocando-lhe a coxa, como lembrete perpétuo, na carne, da própria
fraqueza espiritual e da necessidade da dependência constante de Deus. Pelo resto
de sua vida ele teria de andar apoiado em uma bengala.
Jacó abominou a si mesmo. Pela primeira vez e de todo o coração descobriu-se
a odiar, realmente odiar, sua famigerada astúcia. Ela havia colocado Esaú contra
ele (com toda a razão!), sem falar em Labão; e agora, parecia, levara Deus a não
desejar mais abençoá-lo: "Deixe-me ir...", disse aquele com quem lutava; parece
que Deus pensava abandoná-lo. Jacó, porém, o segurou com firmeza: "Não te
deixarei ir, a não ser que me abençoes" (Gn 32:26).
E, então, finalmente, Deus pronunciou a bênção, pois Jacó estava agora fraco,
desamparado, humilde e dependente o bastante para ser abençoado. "Ele me
abateu a força no caminho", disse o salmista (Sl 102:23; ra). Foi justamente isso o
que Deus fez com Jacó.
Não restara nenhuma partícula de autoconfiança em Jacó, quando Deus
terminou sua obra nele. A natureza da luta de Jacó com Deus e o motivo de ter
"vencido" (Gn 32:28) foi simplesmente seu apego a Deus, enquanto este o
enfraquecia e fazia surgir nele o espírito de submissão e autodesconfiança. Jacó
desejava tanto a bênção de Deus, que se agarrou a ele durante toda a dolorosa
humilhação, até cair o suficiente para que Deus o levantasse, dando-lhe paz e
87
assegurando-lhe que não mais precisava temer Esaú.
É claro que Jacó não se tornou modelo de santo da noite para o dia, ele não foi
totalmente correto com Esaú no dia seguinte (Gn 33:14-17), mas, em princípio,
Deus ganhara sua luta com Jacó, e para o bem. Jacó nunca mais voltou a seus
antigos hábitos. Mancando, aprendeu a lição. A sabedoria de Deus realizara sua
obra.
Outro exemplo em Gênesis: José. Os irmãos do jovem José o venderam como
escravo para o Egito. Traído pela maldosa esposa de Potifar, foi preso, embora
depois tivesse sido elevado a cargos de grande importância. Com que propósito
Deus em sua sabedoria planejou isso? No que concerne a José pessoalmente a
resposta é encontrada no salmo 105:19: "até [...] a palavra do Senhor confirmar o
que dissera".
José estava sendo testado, refinado e amadurecido. Durante o período em que
foi escravo e, depois, na prisão, estava sendo ensinado a conservar-se submisso a
Deus, alegre e bondoso em circunstâncias difíceis, e a esperar pacientemente no
Senhor. Deus muitas vezes usa experiências dolorosas para ensinar essas lições.
No que concerne ao povo de Deus, o próprio José respondeu nossa pergunta ao
revelar sua identidade aos irmãos atônitos: "Mas Deus me enviou à frente de
vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida
com grande livramento. Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas
sim o próprio Deus" (Gn 45:7,8).
A teologia de José era tão firme quanto profundo seu amor. Mais uma vez
somos confrontados com a sabedoria divina dirigindo os acontecimentos da vida
com duplo propósito:santificação pessoal e cumprimento de seu ministério na
vida do povo de Deus. Na vida de José, Abraão e Jacó vemos esse duplo propósito
triunfantemente cumprido.
NOSSO SOFRIMENTO DESCONCERTANTE
Estas coisas foram escritas para ensinar-nos, pois a mesma sabedoria que ordenou
os caminhos trilhados pelos santos de Deus nos tempos bíblicos ainda dirige a
vida do cristão de hoje. Não devemos, portanto, ficar muito abatidos quando
coisas inesperadas, perturbadoras e desestimu-lantes nos acontecem. Qual o
sentido delas? Bem, significam simplesmente que Deus, em sua sabedoria, quer
que cheguemos ao ponto que ainda não alcançamos, e está cuidando para que isso
se realize.
Deus talvez queira fortalecer-nos a paciência, o bom humor, a compaixão, a
humildade ou a mansidão, dando-nos nesse momento alguns exercícios extras
para praticarmos essas graças em situações especialmente difíceis. Talvez ele
tenha novas lições sobre abnegação e autodesconfiança para nos ensinar. Talvez
ele queira anular em nós algumas formas de orgulho e convencimento não
percebidas, ou complacência e ilusões. Talvez seu propósito seja simplesmente
nos chamar para mais perto dele, em comunhão; pois muitas vezes acontece,
como todos os santos bem o sabem, que a comunhão com o Pai e com o Filho é
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mais vivida e doce, e a alegria cristã é maior quando a cruz é mais pesada.
(Lembre-se de Samuel Rutherford!) Ou talvez Deus esteja nos preparando para
alguma forma de atividade de que até o presente não tínhamos noção.
Paulo viu parte das razões das próprias aflições no fato de que Deus "nos
consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que
recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações"
(2Co 1:4). Até o Senhor Jesus "aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu",
e assim foi "aperfeiçoado" para o sumo sacerdócio no ministério de simpatia e
auxílio para com seus discípulos tão atribulados (Hb 5:8,9). Significa que, se por
um lado ele pode nos sustentar e tornar-nos mais que vitoriosos em todas as
dificuldades e problemas, de outro não devemos nos surpreender se ele nos
chamar para seguir-lhe os passos e nos preparar para o serviço aos outros por
meio de experiências dolorosas absolutamente imerecidas. "Ele conhece os
caminhos que toma",1 mesmo que no presente nós não os conheçamos.
Podemos ficar realmente atônitos com as coisas que nos acontecem, mas
Deus sabe exatamente o que faz e o que está por trás de suas ações, ao lidar
com nossos problemas. Sempre, e em tudo, ele é sábio. Veremos isso algum dia,
embora não o possamos ver agora (Jó, no céu, sabe as razões de suas aflições,
embora não pudesse conhecê-las em vida). No entanto, não devemos hesitar em
confiar em sua sabedoria, mesmo quando ele nos deixa na ignorância.
Como poderemos enfrentar essas situações desconcertantes e difíceis, no
entanto, se agora não podemos ver nelas o propósito de Deus? Primeiramente,
aceitando-as como vindas de Deus e perguntando-nos que reações o Evangelho de
Deus requer de nós. Em segundo lugar, buscando a face de Deus especialmente
acerca delas.
Se tomarmos essas duas atitudes, nunca nos veremos completamente no escuro
a respeito do propósito de Deus quanto a nossas dificuldades. Seremos sempre
capazes de pelo menos ver nelas tanta finalidade como Paulo pôde entrever no
espinho na carne (qualquer que fosse). O apóstolo afirma que o espinho veio-lhe
como "um mensageiro de Sata-nás" tentando-o a ter maus pensamentos a respeito
de Deus. Ele resistiu
1Frase do segundo verso do hino In heavenly love abiding, escrito por Anna L. Waring, Hymns
and meditations, 1850.
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a essa tentação e buscou a face de Cristo por três vezes pedindo que o espinho lhe
fosse removido. A única resposta que obteve foi: "A minha graça é suficiente para
você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza".
Ao refletir sobre isso, Paulo percebeu finalmente por que tinha sido tão
afligido: era para mantê-lo humilde, "para impedir que eu me exaltasse por causa
da grandeza dessas revelações". Esse raciocínio e a palavra de Cristo foram
suficientes para ele, e nada mais procurou. Esta foi sua atitude final: "Portanto, eu
me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de
Cristo repouse em mim" (2Co 12:7-9).
Essa atitude de Paulo é um exemplo para nós. Tenham as tribulações do cristão
o propósito ou não de provê-lo para o serviço futuro, elas terão pelo menos a
mesma finalidade do espinho na carne de Paulo: nos foram enviadas para que nos
tornemos e nos mantenhamos humildes, e para nos dar nova oportunidade de
demonstrar o poder de Cristo na vida mortal. Será que precisamos saber mais que
isso sobre elas? Não será isto suficiente para nos convencer de que a sabedoria
divina está nelas? Assim que Paulo percebeu que seus problemas foram enviados
para poder glorificar a Cristo, ele os aceitou como sabiamente ordenados e
regozijou-se com eles. Que Deus nos ajude para que em todas as dificuldades
possamos agir da mesma maneira.
90
A SABEDORIA DE DEUS E A NOSSA
Quando os antigos teólogos reformados se referiam aos atributos divinos,
costumavam classificá-los em dois grupos: incomunicáveis e comunicáveis.
No primeiro grupo colocavam as qualidades insignes da transcendência divina
e mostravam a grande diferença existente entre ele e nós, suas criaturas. A lista
comum era: independência (existência própria e auto-suficiência); imutabilidade
(completamente livre de qualquer mudança, total constância de ação); infinitude
(livre de todos os limites de tempo e espaço, isto é, eternidade e onipresença);
simplicidade (não há nele nenhum elemento conflitante, pois, diferentemente dos
homens, ele não é levado por pensamentos e desejos divergentes). Os teólogos
denominaram estas qualidades incomunicáveis porque são características únicas
de Deus, e o ser humano, justamente por ser humano, não pode partilhar de
nenhuma delas.
No segundo grupo os teólogos reuniram qualidades como espiritualidade,
liberdade e onipotência divinas a seus atributos morais — bondade, verdade,
santidade, justiça etc. Qual foi o princípio dessa classificação? Foi o seguinte:
Quando Deus fez o homem comunicou-lhe qualidades correspondentes a todas
essas. É isso o que a Bíblia diz quando conta que Deus fez o homem a sua
imagem (Gn 1:26) — isto é, que Deus fez o homem um ser espiritual, livre,
agente moral responsável com poder de escolha e de ação, capaz de ter comunhão
com ele e lhe corresponder, sendo por natureza bom, verdadeiro, santo, reto (Ec
7:29), em uma palavra, piedoso.
As qualidades morais pertencentes à imagem divina foram perdidas na Queda;
a imagem de Deus no homem tem sido universalmente desfigurada, pois toda a
humanidade, de um modo ou de outro, desvia-se para a impiedade. A Bíblia,
porém, diz que agora, cumprindo seu plano de redenção, Deus age nos cristãos
para reparar-lhes a imagem arruinada, transmitindo-lhes novamente essas
qualidades. É esse o significado das Escrituras quando dizem que os cristãos são
renovados à imagem de Cristo (2Co 3:18) e de Deus (Cl 3:10).
Entre os atributos comunicáveis, os teólogos incluíram a sabedoria. Assim
como Deus é sábio em si mesmo, ele concede sabedoria aos seres humanos. A
Bíblia fala bastante a respeito do dom divino da sabedoria. Os primeiros nove
capítulos de Provérbios são uma exortação única e constante à busca desse dom.
"O conselho da sabedoria é: Procure obter sabedoria; use tudo o que você possui
91
para adquirir entendimento [...] Apegue-se à instrução, não a abandone; guarde-a
bem, pois dela depende a sua vida" (Pv 4:7,13). A sabedoria é personificada e fala
em causa própria:
Como é feliz o homem que me ouve, vigiando diariamente à minha porta,
esperando junto às portas da minha casa. Pois todo aquele que me
encontra, encontra a vida e recebe o favor do Senhor. Mas aquele que de
mim se afasta a si mesmo se agride; todos os que me odeiam amam a
morte.
Provérbios 8:34-36
Como uma hospedeira, a sabedoria convida os necessitados ao banquete:
"Venham todos os inexperientes!"(Pv 9:4). A ênfase total está na pronta
disposição de Deus de conceder sabedoria (representada aqui como a prontidão da
sabedoria em se dar) a todos que quiserem esse dom e tomarem as providências
necessárias para obtê-lo. Ênfase semelhante aparece no Novo Testamento. A
sabedoria é requerida dos cristãos: "Tenham cuidado com a maneira como vocês
vivem, que não seja como insensatos, mas como sábios [...] Portanto, não sejam
insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor" (Ef 5:15,17),
"Sejam sábios no procedimento para com os de fora [...]" (Cl 4:5). São feitas
orações para que lhes seja concedida a sabedoria para que "... sejam cheios do
pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria [...] (Cl 1:9).
Tiago, em nome de Deus, faz a promessa: "Se algum de vocês tem falta de
sabedoria, peça-a a Deus [...] e lhe será concedida" (Tg 1:5).
Onde se pode obter sabedoria? Que passos são necessários para que uma
pessoa tome posse desse dom? De acordo com as Escrituras há dois
pré-requisitos.
1. Precisamos aprender a reverenciar a Deus. "O temor do Senhor é o
princípio da sabedoria (SI 111:10; Pv 9:10; cf. Jó 28:28; Pv 1:7; 15:33). Não
teremos em nós a sabedoria divina enquanto não nos tornarmos humildes e
ensináveis, nos prostrarmos em temor diante da santidade e soberania de Deus
("Deus grande e temível"; Ne 1:5; cf. 4:14; 9:32; Dt 7:21; 10:17; Sl 99:3; Jr
20:11), reconhecermos nossa pequenez, abandonarmos nossos pensamentos e nos
dispormos a ter a mente sacudida. É lamentável que muitos cristãos passem a vida
inteira com uma disposição de espírito tão orgulhosa e soberba que jamais chegam
a receber a sabedoria de Deus. Por isso a Bíblia diz: "[...] a sabedoria está com os
humildes" (Pv 11:2).
2. Precisamos aprender a receber a palavra de Deus. A sabedoria é
divinamente forjada naqueles que se concentram na revelação divina, e
apenas neles. "Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus
inimigos", diz o salmista, "Tenho mais discernimento que todos os meus mestres".
Por quê? "Pois medito nos teus testemunhos" (Sl 119:98,99).
92
Paulo assim admoesta os colossenses: "Habite ricamente em vocês a palavra de
Cristo [...] com toda a sabedoria [...]" (Cl 3:16). Como podemos nós, pessoas do
século xxi, fazer isso? Impregnando-nos das Escrituras, que, como Paulo disse a
Timóteo (e ele tinha em mente apenas o Antigo Testamento!), são "capazes de
torná-lo sábio para a salvação", pela fé em Cristo e para tornar perfeito o homem
de Deus "para toda boa obra" (2Tm 3:15-17).
Mais uma vez, é temerário que muitas pessoas hoje alegadamente cristãs nunca
aprenderão a sabedoria por falhar em atender suficientemente à Palavra escrita de
Deus. O lecionário do Livro de oração comum de Cran-mer1 (que todos os
anglicanos devem seguir) indica a leitura do Antigo Testamento uma vez por ano
e a do Novo Testamento duas. O puritano William Gouge2 lia regularmente
quinze capítulos por dia. O falecido ar-quidiácono anglicano Thomas C.
Hammond costumava ler a Bíblia toda uma vez por trimestre. Quanto tempo faz
que você leu a Bíblia inteira? Você gasta diariamente com a Bíblia tanto tempo
quanto com os jornais? Como alguns de nós somos tolos! — e permaneceremos
assim pelo resto da vida simplesmente porque não nos preocupamos com o que
deve ser feito para receber o dom divino gratuito da sabedoria.
O QUE A SABEDORIA NÃO É
Que tipo de coisa é, afinal, o dom da sabedoria de Deus? Que efeito produz em
uma pessoa?
Muitos se enganam neste ponto. Podemos tornar bem clara a natureza deste
erro usando uma ilustração. Se você ficar em pé no fim da plataforma de uma
estação, observará o movimento constante de locomotivas e
1Thomas Cranmer (1489-1556), arquidiácono de Taunton, foi favorável ao divórcio do rei
Henrique viii. Em 1533, foi indicado para arcebispo da Cantuária. Sempre será lembrado como o
responsável pela primeira edição do Livro de oração comum, em 1549. Envolvido em assuntos
políticos do reino, acusado de sedição e traição, foi aprisionado na torre de Londres. Sua vida e
morte estão pautadas por declarações e retratações. Morreu queimado por ordem da coroa inglesa.
2William Gouge (1575-1653) foi ordenado ministro aos 32 anos e pastoreou a mesma
congregação durante quarenta anos. Escritor e mestre renomado, foi indicado em 1643, por voto
do Parlamento, para participar da Assembléia de Westminster.
93
trens. Se você gostar de ferrovias, ficará fascinado. Entretanto você poderá apenas
ter uma idéia geral e superficial dos planos gerais que determinam esses
movimentos (o programa de operação estabelecido na tabela de horários,
modificada, se necessário, de minuto em minuto de acordo com o movimento real
dos trens).
Se, entretanto, você tiver o privilégio de ser levado por algum chefe para dentro
da cabine de comando, poderá observar em uma grande parede o diagrama de toda
a linha férrea por cerca de oito quilômetros de distância dos dois lados da estação,
com pequeninas luzes móveis ou paradas nos diferentes trilhos para mostrar ao
sinaleiro apenas com o olhar onde cada máquina ou trem se encontra. Você
poderá observar imediatamente a situação geral pelos olhos dos homens que a
controlam; verá no diagrama por que um trem recebeu um sinal de parada, outro
foi desviado dos trilhos normais e outro, ainda, estacionou temporariamente em
uma linha lateral. O porquê de todos esses movimentos torna-se claro uma vez
que se possa observar a situação geral.
O erro comumente cometido, porém, é supor que esta seja uma ilustração do
que Deus faz quando nos dá sabedoria: em outras palavras, supor que o dom da
sabedoria consiste em uma visão mais profunda do significado e propósito
providenciais dos acontecimentos que se desenrolam ao nosso redor. A
capacidade de ver por que Deus agiu de tal modo em determinado caso, e o que
fará a seguir.
As pessoas pensam que se estivessem realmente andando junto a Deus, de
modo que ele lhes concedesse livremente a sabedoria, estariam, por assim
dizer, na cabine de comando. Descobririam o propósito real de tudo o que lhes
acontece e lhes ficaria claro em todos os momentos como Deus age para que todas
as coisas aconteçam para o bem. Tais pessoas gastam muito tempo debruçadas
sobre o livro da providência, imaginando por que Deus permitiu a ocorrência disto
ou daquilo; se deveriam tomar isso como sinal para deixar de fazer alguma coisa e
começar a agir de outro modo, ou o que devem deduzir disso tudo. Se no final
ficam frustradas, tomam isso como falta de espiritualidade.
Os cristãos que sofrem de depressão física, mental ou espiritual (note, são três
coisas diferentes!) podem ficar quase loucos com este tipo de indagação -inútil.
Porque na realidade é inútil, não tenha nenhuma dúvida a respeito. É verdade que
quando Deus nos dirige pela aplicação de princípios, poderá em alguma ocasião
confirmar tal direção por providências incomuns reconhecidas imediatamente
como sinais comproba-tórios. Mas isto é bem diferente de tentar extrair uma
mensagem sobre os propósitos secretos de Deus mediante todas as coisas
incomuns que nos possam acontecer. Assim, em lugar de o dom da sabedoria
consistir no poder para fazer isso, o que ele de fato pressupõe é nossa
incapacidade consciente para fazê-lo, como veremos a seguir.
Realismo necessário
Perguntamos mais uma vez: Com que finalidade Deus nos outorga sabedoria?
94
Que espécie de dom é esse?
Se me permitem usar outra ilustração sobre transporte, é como aprender a
dirigir. O que interessa quando se dirige é velocidade, reação apropriada aos
estímulos e firmeza de julgamento a respeito da oportunidade oferecida pela
situação. Você não fica se perguntando por que a estrada deveria ser estreita ou
cheia de curvas justamente naquele lugar, nem por que aquele caminhão deveria
estar estacionado onde está, nem por que a senhora (ou o cavalheiro) na frente
dirige como se fosse o dono da estrada. Você apenas tenta ver e tomar a atitude
certa na situação apresentada. O efeito da sabedoria divina é capacitar-nos a fazer
exatamente a mesmacoisa nas situações reais da vida diária.
Para dirigir bem, você deve ficar atento para perceber com exatidão o que está
a sua frente. Para viver sabiamente, você precisa ter uma visão clara e real da vida
como ela é de fato. A sabedoria não combina com ilusões confortadoras, falsos
sentimentos nem com o uso de óculos cor-de-rosa. A maioria de nós vive no
mundo dos sonhos, com a cabeça nas nuvens e os pés fora do chão; nunca vemos
o mundo e nossa vida nele como são de fato. Essa irrealidade arraigada e
pecaminosa é uma das razões de haver tão pouca sabedoria entre nós, mesmo
entre os mais conservadores e ortodoxos. É preciso mais que sã doutrina para nos
curar da irrealidade.
Há, entretanto, um livro na Bíblia expressamente indicado para nos tornar
realistas: o livro de Eclesiastes. Devemos prestar mais atenção a sua mensagem do
que normalmente o fazemos. Vejamos agora, por um momento, qual é essa
mensagem.
0 ensino de Eclesiastes
"Eclesiastes" (título grego correspondente ao hebraico qohelet) significa
simplesmente "o pregador". O livro é um sermão, com um texto ("Que grande
inutilidade! [...]" 1:2; 12:8), exposição de seu tema (caps.
1 a 10) e uma aplicação (11:1—12:7). Muitas das exposições são autobiográficas.
Qohelet se identifica como o "filho de Davi, rei em Jerusalém" (1:1). Não
devemos nos preocupar se isso quer dizer que o próprio Salomão era o pregador,
ou que o pregador pôs seu sermão nas palavras de Salomão como um artifício
didático — como estudiosos tão conservadores como Hengstenberg3 e Edward J.
Young4 têm argumentado. O sermão é certamente salomônico no sentido de que
ensina lições que Salomão teve oportunidades singulares para aprender.
"Que grande inutilidade! diz o mestre. Que grande inutilidade! Nada faz
sentido." Com que espírito e com que propósito o pregador anuncia este texto?
Trata-se da confissão de um cínico amargurado, "um velho homem do mundo,
egoísta e calejado que nada encontrou no final além de triste desilusão" (W. H.
Elliot) e que agora procura compartilhar
3Ernst Wilhelm Hengstenberg (1802-1869). Ministro e teólogo luterano de origem alemã.
95
Devotado principalmente ao estudo da filosofia e da filologia, fez diversas traduções de obras
clássicas para o alemão. Posteriormente, passou a estudar a Bíblia e licenciou-se em teologia pela
Universidade de Berlim, dedicando-se a protestar contra toda forma de racionalismo,
principalmente a respeito da crítica do Antigo Testamento.
4Edward J. Young (1907-1968) foi um destacado estudioso do Antigo Testamento. Lecionou no
Westminster Theological Seminary na Filadélfia (eua) e se tornou o principal acadêmico na área
de hebraico. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores defensores da inerrância
bíblica.
96
conosco a idéia sobre o pouco valor e torpeza da vida? Ou está nos falando como
evangelista, tentando fazer que os descrentes compreendam que é impossível
encontrar a felicidade "debaixo do sol", longe de Deus? Nenhuma das duas é a
resposta, embora a segunda sugestão não esteja tão longe do objetivo quanto a
primeira.
O autor fala como um professor maduro que transmite ao jovem aluno os frutos
de sua longa experiência e reflexão (11:9; 12:1,12). Ele quer levar este jovem
crente à verdadeira sabedoria e protegê-lo para que não caia no engano da "cabine
de comando". Aparentemente o jovem (como muitos depois dele) estava inclinado
a confundir sabedoria com grande conhecimento e a supor que sabedoria se
adquire pelo estudo contínuo (12:12). Ele afirma claramente que a sabedoria,
quando adquirida, o levaria a conhecer as razões das diversas atitudes de Deus no
curso normal da providência.
O que o pregador quer mostrar ao jovem é que a base real da sabedoria é o
reconhecimento sincero de que o curso do mundo é enigmático, que muitos
acontecimentos são inexplicáveis e muitas das ocorrências "debaixo do sol" não
têm nenhum sinal exterior de uma ordem racional e moral para elas.
Como o próprio sermão demonstra, o texto é planejado como advertência
contra a equivocada busca do entendimento, pois apresenta a conclusão
desanimadora a que deve afinal chegar essa busca, se for feita com sinceridade e
realismo. Podemos formular a mensagem do sermão como segue:
Veja (diz o pregador) em que tipo de mundo vivemos. Tire seus óculos
cor-de-rosa, esfregue os olhos e olhe bem e longamente. O que você vê? Vê o
cenário da vida determinado por ciclos periódicos na natureza que parecem não
ter propósito (1:4-7). Vê sua forma fixada por tempos e circunstâncias sobre as
quais não temos controle algum (3:1-8; 9:11,12). Vê a morte chegando para todos,
mais cedo ou mais tarde, e sua vinda não tem relação alguma com nenhum
merecimento (7:15; 8:8). Os homens morrem como os animais (3:19,20), tanto os
bons como os maus, tanto os sábios como os ignorantes (2:14,16; 9:2,3). Você vê
o mal crescendo desmedidamente (3:16; 4:1; 5:8; 8:11; 9:3), os ímpios
prosperando, mas não os justos (8:14).
Ao ver tudo isso, você percebe como a disposição que Deus dá aos
acontecimentos é inescrutável; por mais que queira entender, você não consegue
(3:11; 7:13,14; 8:17; 11:5). Quanto maior for seu esforço para entender o
propósito divino na decorrência normal dos acontecimentos, mais obcecado e
oprimido ficará com a aparente falta de propósito de tudo, e mais tentado ficará ao
concluir que a vida na verdade não tem razão de ser.
Entretanto, uma vez que você tenha concluído que não há de fato
explicação aparente para nada, que "proveito" — valor, lucro, sinal,
propósito — poderá encontrar então em qualquer esforço construtivo (1:3;
2:11,22; 3:9; 5:16)? Se a vida é sem sentido, também não possui valor algum.
Nesse caso, qual a vantagem de trabalhar para criar coisas, desenvolver um
negócio, ganhar dinheiro e até mesmo buscar a sabedoria se nada disso trará
algum benefício (2:15,16,22,23; 5:11)? Se apenas o tornará motivo de inveja
(4:4). Se você não poderá levar nenhuma dessas coisas consigo (2:18-21; 4:8;
97
5:15,16), e o que deixar aqui provavelmente será mal dirigido depois de sua
partida (2:19). Que vantagem há, portanto, em suar e trabalhar tanto? Não deve
todo o trabalho do ser humano ser julgado "inútil (frustração, vazio)" e
equivalente a "correr atrás do vento" (1:14)? — atividade que não tem nenhum
valor em si mesma nem para nós?
É a esta conclusão pessimista, diz o pregador, que a expectativa otimista de
descobrir o propósito divino em todas as coisas finalmente o levará (1:17,18). E é
claro que ele está certo, pois o mundo em que vivemos é por sinal o tipo de lugar
descrito. O Deus que rege tudo se esconde. Raramente este mundo se parece com
um lugar dirigido pela Providência benevolente. Raramente parece haver um
poder racional por trás dele. Repetidas vezes o que é sem valor sobrevive
enquanto o valoroso perece. Seja realista, diz o pregador, enfrente os fatos, veja a
vida como ela é. Você não terá a verdadeira sabedoria enquanto nãc fizer isso.
Muitos de nós precisamos dessa admoestação. Não apenas o nossc conceito é o
da "cabine de comando" a respeito da sabedoria, come sentimos que para a honra
de Deus (e também, embora não digamos isso, por causa de nossa reputação de
cristãos espirituais) é necessário afirmar que já estamos, por assim dizer, na
cabine de comando, aqui e agora, desfrutando das informações internas de como e
por que Deus age de tal e tal maneira. Esta confortadora pretensão se torna parte
de nós. Temos a certeza da capacitação divina para entender todas as suas atitudes
para conosco e para com os que nos rodeiam, e nos sentimoí seguros de ser
capazes de ver rapidamente as razões para tudo o que nos possa acontecer no
futuro.
Então alguma coisa inexplicável e muito dolorosa nos acontece, e nossa alegre
ilusão de participar do conselho secreto de Deus é abalada. Nosso orgulho é
ferido, sentimos o desprezo divino, e a menos que neste ponto nos arrependamos e
humilhemos completamente de nossa antiga presunção, toda nossa vida espiritual
futura pode ser arruinada.
Entre os sete pecados capitais da tradição medievalestava a preguiça {acedia)
— um estado de apatia espiritual obstinada e sem alegria. Há muito disso nos
círculos cristãos modernos. Os sintomas são inércia espiritual pessoal combinada
com crítica cínica sobre as igrejas e ressentimentos desdenhosos pela iniciativa e
empreendimento de outros cristãos
Atrás dessa condição mórbida e mortal não raro encontramos o orgulho ferido
de alguém que pensou saber tudo a respeito de como Deus age e precisou
aprender sobre sua ignorância por meio de uma experiência amarga e
surpreendente. Isto é o que acontece quando não se dá atenção à mensagem de
Eclesiastes. A verdade é que o Deus sábio, para manter-nos humildes e nos
ensinar a andar pela fé, escondeu de nós quase tudo o que gostaríamos de saber a
respeito do propósito providencial que ele realiza nas igrejas e em nossa vida.
Assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é
formado no ventre de uma mulher, também não pode compreender as
obras de Deus, o Criador de todas as coisas (11:5).
98
Mas, nesse caso, o que é sabedoria? O pregador nos ajudou a ver o que ela não é.
Será que nos dará alguma orientação sobre o que é? Na verdade ele pelo menos
nos dá um esboço: "Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos" (12:13).
Confie nele e obedeça-lhe, respeite-o e adore-o, seja humilde diante dele e nunca
diga mais que o necessário e que pretende cumprir quando ora diante dele (5:1-7).
Faça o bem (3:12); lembre-se de que Deus algum dia lhe pedirá contas (11:9;
12:14). Evite então, mesmo em segredo, coisas das quais se envergonhará quando
vierem à luz, no dia do juízo divino (12:14).
Viva no presente, e desfrute completamente sua condição (7:14; 9:7; 11:9); as
alegrias de agora são boas dádivas divinas. Embora Eclesiastes condene a
frivolidade (7:4-6), está claro que ele não se atém à superespiritualidade que é
excessivamente orgulhosa ou "piedosa" para rir ou se alegrar. Busque a graça para
realizar corretamente qualquer coisa que a vida lhe ofereça (9:10) e tenha prazer
nesse trabalho (2:24; 3:12; 5:18; 8:15). Deixe os resultados por conta de Deus;
deixe a avaliação com ele; sua parte é usar todo o bom senso e criatividade a seu
comando para explorar as oportunidades apresentadas (11:1-6).
Esse é o caminho da sabedoria — sem dúvida um dos aspectos da vida de fé.
Qual é a base da sabedoria, o que a sustenta? A convicção de que o inescrutável
Deus da providência é o sábio e gracioso Deus da criação e da redenção.
Podemos estar seguros de que o Deus criador deste mundo tão complexo e
maravilhosamente ordenado, que tirou seu povo do Egito e mais tarde o redimiu
do poder do pecado e de Satanás, sabe o que está fazendo, mesmo que no
momento mantenha a mão oculta. Podemos confiar e nos regozijar nele, mesmo
quando não pudermos discernir seus caminhos. Assim o caminho do pregador
para a sabedoria se resume no que foi expresso por Richard Baxter:
Ó santos, que aqui labutais,
Adorai vosso Rei celestial!
Enquanto adiante avançais,
Cantai algum hino jovial! 
Tomai o que ele vos dá, 
E ao Senhor louvor prestai, 
No dia do bem e do "ai" 
A quem eterna vida há!
O FRUTO DA SABEDORIA
Essa é então a sabedoria com a qual Deus nos torna sábios. Quando a analisamos,
vemos ainda mais a sabedoria do Deus que a concede. Dissemos que a sabedoria
consiste em saber escolher os melhores meios para atingir os melhores fins. A
ação de Deus dando-nos a sabedoria é o modo por ele escolhido para restaurar e
aperfeiçoar o relacionamento entre ele mesmo e o ser humano, que para isso foi
criado. Para que ele nos dá essa sabedoria? Como já vimos, não compartilhamos
seus conhecimentos. Trata-se da disposição para confessar sua sabedoria,
99
apegarmo-nos a ele e viver para ele à luz de sua palavra em meio às dificuldades.
Assim, o resultado do dom da sabedoria é tornar-nos mais humildes, mais
alegres, mais piedosos, mais rápidos em compreender-lhe a vontade, mais
resolutos em realizá-la e menos preocupados (não menos sensíveis, mas menos
confusos) do que ficamos nas situações dolorosas e obscuras que enfrentamos
neste mundo pecaminoso. O Novo Testamento nos fala que o fruto da sabedoria é
a semelhança com Cristo: paz, humildade e amor (Tg 3:17), e a raiz disso é a fé
em Cristo (1Co 3:8; 2Tm 3:15) como manifestação da sabedoria divina (1Co
1:24,30).
Dessa forma, o tipo de sabedoria que Deus espera conceder a quem lhe pedir é
a sabedoria que nos une a ele, que encontrará expressão no espírito de fé e na vida
de felicidade.
Procuremos então tornar nossa busca por sabedoria na procura por essas coisas,
e não frustremos o sábio propósito de Deus negligenciando a fé e a fidelidade a
fim de procurar um tipo de conhecimento que não nos será dado neste mundo.
100
A TUA PALAVRA É A VERDADE
Dois fatos sobre o Jeová triúno são sugeridos, senão realmente afirmados, em
todas as passagens bíblicas. Primeiro: ele é rei — monarca absoluto do universo,
determinando todas suas ocorrências, realizando sua vontade em tudo o que
acontece nele. Segundo: ele fala — proferindo palavras que expressam sua
vontade a fim de que esta seja realizada.
O primeiro tema sobre o governo de Deus foi abordado em capítulos
anteriores. É o segundo tema, a palavra de Deus, que nos interessa agora. O
estudo deste tema aumentará nossa compreensão do primeiro, pois assim como as
relações de Deus com seu mundo devem ser entendidas em termos de sua
soberania, esta deve ser entendida em termos do que a Bíblia nos diz a respeito de
sua palavra.
No curso normal dos acontecimentos, governantes absolutos, como todos os
reis do mundo antigo, falavam regularmente em dois níveis e por duas razões. Por
um lado decretavam normas e leis que definiam diretamente o ambiente —
judicial, fiscal e cultural — no qual seus súditos deveriam viver dali em diante.
Por outro lado, faziam discursos públicos, a fim de estabelecer, tanto quanto
possível, uma ligação pessoal entre eles e seus súditos e extrair deles apoio e
cooperação máximos para todas as realizações.
A Bíblia apresenta a palavra de Deus como tendo um caráter duplo semelhante
a esse. Deus é o rei; nós, suas criaturas, somos seus súditos. Sua palavra se refere
tanto às coisas que nos rodeiam como diretamente a nós; Deus fala para
determinar nosso ambiente e para atrair-nos mente e o coração.
Na primeira associação, a esfera da criação e da providência, a palavra de Deus
toma a forma de uma ordem soberana: "façamos...". Na última conexão, a esfera
na qual a palavra de Deus nos é endereçada pessoalmente, a palavra toma a forma
da torah real (a palavra hebraica traduzida por lei em nosso Antigo Testamento,
que na realidade implica instrução — em todas suas múltiplas formas). A torah
de Deus, o rei, apresenta um caráter triplo: parte dela é lei (no sentido restrito de
o r d e n s
ou proibições, com as sanções incluídas); outra parte é promessa (favorável ou
desfavorável, condicional ou incondicional); outra ainda é testemunho
(informações dadas por Deus sobre si mesmo e sobre as pessoas — seus
respectivos atos, objetivos, naturezas e perspectivas).
101
A palavra que Deus nos dirige diretamente (semelhante à fala real, mas com
muito mais valor) é instrumento não apenas de governo mas também de
comunhão, pois, embora Deus seja o grande rei, não é seu desejo viver distante
dos súditos. Ao contrário, ele nos criou com a intenção de podermos andar juntos
para sempre em um relacionamento amistoso, que só pode existir quando as partes
envolvidas se conhecem mutuamente.
Deus, nosso Criador, sabe tudo a nosso respeito antes que digamos
qualquer coisa (Sl 139:1-4), mas nós nada poderemos saber a seu respeito a
menos que ele nos diga. Aqui está, por conseguinte, outra razão para Deus falar
conosco: não apenas para nos levar a fazer o que ele deseja, mas para poder
conhecê-lo e assim amá-lo. Deus, portanto, nos envia sua palavra tanto em caráter
informativo como invitatório. Ela vem não só para persuadir, mas também para
instruir; ela não apenas nos fez ver o que Deus tem feito e ainda faz, mas também
nos chama à comunhãopessoal com o Senhor, que nos ama.
O Deus que fala
Encontramos a palavra de Deus em suas várias relações nos três primeiros
capítulos da Bíblia. Veja primeiro a história da criação, em Gênesis 1.
Parte do propósito desse capítulo é nos assegurar de que cada item que nos
rodeia foi colocado ali por Deus. O primeiro versículo apresenta o tema exposto
no resto do capítulo — "No princípio Deus criou os céus e a terra". O segundo
versículo apresenta a circuntância dos acontecimentos de modo a mostrar uma
análise detalhada da ação de Deus. Tratava-se de uma situação em que a terra era
vazia, sem vida, escura e totalmente coberta de água. Então o versículo 3 nos diz
como Deus falou no meio desse caos e esterilidade.
"Disse Deus: 'Haja luz'", e o que aconteceu? Imediatamente "houve luz". Mais
sete vezes (v. 6,9,11,14,20,24,26) a palavra criadora de Deus "haja..." foi
pronunciada, e passo a passo as coisas começaram a ser feitas e ordenadas. Dia e
noite (v. 5), céu e mar (v. 6), mar e terra (v. 9) foram separados. Vegetação (v.
12), corpos celestes (v. 14), peixes e aves (v. 20), insetos e animais (v. 24) e
finalmente o ser humano (v. 26) apareceram. Tudo foi feito pela palavra de Deus
(Sl 33:6, 9; Hb 11:3; 2Pe 3:5).
A história, porém, atinge agora outro estágio. Deus fala com o homem e com a
mulher que ele fizera. "Deus [...] lhes disse [...]" (v. 28). Aqui Deus se dirige
diretamente aos seres humanos, e assim começou a amizade entre Deus e eles.
Note as mudanças que vão ocorrendo nas ordens de Deus ao ser humano na
história. A primeira palavra de Deus a Adão e a Eva foi de comando,
convocando-os a cumprir a vocação da humanidade de dirigir a ordem criada.
"Sejam férteis [...] Dominem [...]" v. 28). Segue depois uma palavra de
testemunho ("Eis [...]" v. 29) em que Deus explica que toda vegetação, colheita e
frutos foram feitos para alimentar pessoas e animais. Encontramos, a seguir, uma
proibição com a devida penalidade: "mas não coma da árvore do conhecimento
do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá"
102
(2:17).
Finalmente, depois da queda, Deus se aproxima de Adão e Eva e lhes fala outra
vez, e agora suas palavras são de promessa, favorável e desfavorável. Se, de um
lado, diz que a semente da mulher esmagará a cabeça da serpente, de outro
determina o sofrimento de Eva no parto, o trabalho frustrante de Adão e a morte
certa para ambos (3:15-19).
Aqui, no ritmo destes três curtos capítulos, vemos a palavra de Deus em todas
as relações que ela mantém com o mundo e com o ser humano. De um lado,
determina as circunstâncias e o ambiente do homem, de outro ordena que o
homem obedeça, solicita-lhe a confiança e abre-lhe a mente do Criador. No resto
da Bíblia vemos muitas novas ordenanças de Deus, mas nenhuma outra categoria
de relacionamento entre a palavra de Deus e suas criaturas. Em vez disso, a
apresentação da palavra de Deus em Gênesis 1 a 3 é reiterada e confirmada.
Portanto, a Bíblia inteira declara que todas as circunstâncias e todos os
acontecimentos no mundo são determinados pela palavra de Deus, o Criador
onipotente: "Haja...". As Escrituras descrevem tudo o que acontece como
cumprimento da palavra de Deus, desde alterações climáticas (Sl 147:15-18;
148:8) até a ascensão e o declínio das nações. O fato de que a palavra divina
realmente determina os eventos mundiais foi a primeira lição que Deus ensinou a
Jeremias quando o chamou para profeta: "Veja! Eu hoje dou a você autoridade
sobre as nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para
edificar e plantar" (Jr 1:10).
Mas como poderia ser isso? O chamado de Jeremias não era para que ele se
tornasse diplomata ou alguém poderoso, mas para ser profeta, o mensageiro de
Deus (v. 7). Como poderia um homem sem nenhuma posição oficial, cujo único
trabalho seria falar, ser descrito como juiz das nações indicado por Deus? Apenas
por ter na boca a palavra de Deus (v. 9). Todas as palavras que Deus lhe deu sobre
o destino das nações seriam certamente cumpridas. Para que isso ficasse bem
fixado na mente de Jeremias, Deus lhe proporcionou a primeira visão: '"O que
você vê, Jeremias?' Vejo o ramo de uma amendoeira (shaqed) [...] Você viu bem:
pois estou vigiando (shoqed) para que a minha palavra se cumpra'" (Jr 1:11,12).
Por meio de Isaías, Deus proclamou a mesma verdade desta forma: "Assim
como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a
terra e fazerem-na brotar e florescer [...] assim também ocorre com a palavra que
sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo..." (Is
55:10,11). A Bíblia toda mantém a afirmação de que a palavra de Deus é seu
instrumento executivo em todos os assuntos humanos. A respeito dele e de
ninguém mais, é verdade que o que ele diz acontece. Na verdade, é a palavra de
Deus que governa o mundo e que determina nosso destino.
A Bíblia coerentemente apresenta a palavra de Deus vindo a nós das três
maneiras como foi expressa no jardim do Éden. Às vezes nos chega como lei —
no Sinai, em diversos sermões dos profetas, em muitos ensinamentos de Cristo, na
ordem evangélica para o arrependimento (At 17:30) e para crer no Senhor Jesus
Cristo (1Jo 3:23). Às vezes ela vem como promessa — como na promessa da
posteridade e na aliança feita com Abraão (Gn 15:5; 17:1-8), a promessa de
103
redenção no Egito (Êx 3:7-10), a promessa do Messias (Is 9:6,7; 11:1,2) e do
Reino de Deus (Dn 2:44; 7:14) e no Novo Testamento promessas da justificação,
ressurreição e glorificação para os cristãos.
Às vezes ela vem mais uma vez como testemunho — a instrução divina a
respeito dos fatos da fé e dos princípios da piedade na forma de narração histórica,
argumento teológico, salmo e sabedoria. O fato de o chamado da palavra de Deus
ser para nós absoluto é sempre ressaltado: devemos receber a palavra, confiar
nela e obedecer-lhe porque é a palavra de Deus, o Rei. A essência da
impiedade é a obstinação orgulhosa deste "povo ímpio, que se recusa a ouvir as
minhas palavras" (Jr 13:10). A marca da verdadeira humildade e piedade está em
que a pessoa "treme diante da minha palavra" (Is 66:2).
Verdade absoluta
O que a palavra de Deus requer de nós, no entanto, não depende apenas de nosso
relacionamento com ele como criaturas e súditos. Devemos crer e obedecer, não
apenas porque ele nos diz que o façamos, mas também e primeiramente por ser
uma palavra verdadeira. Seu autor é o "Deus da verdade" (Sl 31:5; Is 65:16),
"cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6). Tua "fidelidade alcança as nuvens" (Sl
108:4; cf. 57:10), isto é, ela é universal e ilimitada. Portanto sua "palavra é a
verdade" (Jo 17:17); "as tuas justas ordenanças são eternas" (Sl 119:160); "tu és
Deus! Tuas palavras são verdadeiras" (2Sm 7:28).
A verdade na Bíblia é primariamente uma qualidade pessoal e só em segundo
lugar propositiva: isso significa estabilidade, confiança, firmeza, fidelidade, a
qualidade da pessoa inteiramente coerente, sincera, realista, que não se deixa
enganar. Deus é tal pessoa. A verdade, neste sentido, é sua natureza, e não há nele
possibilidade de ser qualquer outra coisa. Por isso ele não pode mentir (Tt 1:2;
Nm 23:19; 1Sm 15:29; Hb 6:18). Por isso suas palavras para nós são verdadeiras e
não podem ser nada senão a verdade. Elas são o sumário da realidade:
mostram-nos as coisas como realmente são, e como serão para nós no futuro de
acordo com a atenção que dermos ou não à palavra de Deus.
Vamos estudar um pouco mais esse assunto em duas associações.
1. As ordens de Deus são verdadeiras. "Todos os teus mandamentos são
verdadeiros" (Sl 119:151). Por que eles são descritos dessa forma? Primeiro,
porque têm constância e continuidade como que mostrando o que Deus quer ver
nas pessoas em qualquer época; segundo, porque nos falam da verdade imutável
sobre nossa natureza. Isto é parte do propósito da lei de Deus; ela nos fornece uma
definição prática da verdadeira humanidade. Mostra-nos a finalidade da vida e nos
ensina como ser verdadeiramente humanos e nos adverte contrade um assunto tão vasto, que todos os nossos
pensamentos se perdem em sua imensidão; tão profundo que nosso
orgulho desaparece em sua infinitude. Podemos compreender e aprender
muitos outros temas, derivando deles certa satisfação pessoal e pensando
enquanto seguimos nosso caminho: "Olhe, sou sábio". Mas quando
chegamos a esta ciência superior e descobrimos que nosso fio de prumo
não consegue sondar sua profundidade e nossos olhos de águia não podem
ver sua altura, nos afastamos pensando que o homem vaidoso pode ser
sábio, mas não passa de um potro selvagem, exclamando então
solenemente: "Nasci ontem e nada sei". Nenhum tema contemplativo
tende a humilhar mais a mente que os pensamentos sobre Deus...
Ao mesmo tempo, porém, que este assunto humilha a mente, também a
expande. Aquele que pensa com freqüência em Deus terá a mente mais
aberta que alguém que apenas caminha penosamente por este estreito
globo. [...] O melhor estudo para expandir a alma é a ciência de Cristo, e
este crucificado, e o conhecimento da divindade na gloriosa trindade. Nada
alargará mais o intelecto, nada expandirá mais a alma do homem que a
investigação dedicada, cuidadosa e contínua do grande tema da divindade.
Ao mesmo tempo que humilha e expande, este assunto é
eminentemente consolador. Na contemplação de Cristo existe um bálsamo
para cada ferida; na meditação sobre o Pai, há consolo para todas as
tristezas, e na influência do Espírito Santo, alívio para todas as mágoas.
12
Você quer esquecer sua tristeza? Quer livrar-se de seus cuidados? Então,
vá, atire-se no mais profundo mar da divindade; perca-se na sua
imensidão, e sairá dele completamente descansado, reanimado e
revigorado. Não conheço coisa que possa confortar mais a alma, acalmar
as ondas da tristeza e da mágoa, pacificar os ventos da provação que a
meditação piedosa a respeito da divindade. Para este assunto chamo a
atenção de todos nesta manhã.
Estas palavras, proferidas há mais de um século por Charles Haddon Spurgeon
(que nessa época contava, inacreditavelmente, apenas 20 anos), foram verdadeiras
do mesmo modo como são agora. Elas constituíram o prefácio adequado para uma
série de estudos sobre a natureza e o caráter de Deus.
Quem precisa de teologia?
"Mas, espere um instante", alguém objetará, "diga-me uma coisa, será realmente
necessário estudar isso? Nos tempos de Spurgeon, sabemos que as pessoas
achavam interessante a teologia, mas eu a considero entediante. Por que alguém
precisa hoje em dia perder tempo com esse tipo de estudo que você está
propondo? Com certeza, pelo menos o leigo pode passar sem isso. Afinal de
contas, este é o século xxi e não o xix!".
Uma pergunta justa! Mas acho que há uma resposta convincente para ela. Essa
questão é levantada por alguém que pressupõe claramente a impraticabilidade e a
irrelevância do estudo da natureza e do caráter de Deus para a vida. Entretanto, este é, na
verdade, o projeto mais prático de que alguém poderia ocupar-se. Conhecer a Deus é
crucialmente importante para nossa vida. Do mesmo modo que seria cruel levar de avião
um indígena da Amazônia até São Paulo e deixá-lo, sem nenhuma explicação, sem que
entendesse a língua portuguesa, em plena Praça da Sé, para que ele cuidasse da própria
subsistência; assim também seríamos cruéis conosco se tentássemos viver neste mundo
sem saber nada a respeito do Deus que é dono e Senhor do Universo.
Para quem não conhece a Deus o mundo se torna um lugar estranho, louco, penoso, e
viver nele pode ser decepcionante e desagradável. Despreze o estudo de Deus e você
estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como
se não tivesse nenhum senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia. Deste
modo poderá desperdiçar sua vida e perder a alma.
Ao reconhecer, então, que o estudo de Deus tem valor, preparemo-nos para começar.
Mas, por onde começar?
Obviamente temos de partir de onde estamos. Isto, entretanto, significa sair em meio a
uma tempestade, pois a doutrina de Deus hoje em dia está no centro de uma verdadeira
tempestade. O chamado "debate sobre Deus" com seus refrões surpreendentes: "nossa
imagem de Deus deve desaparecer", "Deus está morto", "podemos recitar o credo, porém
não podemos confessá-lo", está ecoando a nossa volta. Dizem-nos que "dogmatizar sobre
Deus" como os cristãos têm feito ao longo da história é manifestar refinada insensatez e
que o conhecimento de Deus é, na realidade, uma ficção. Os tipos de ensinamento que
professam tal conhecimento são rejeitados como obsoletos: calvinismo,
fundamentalismo, escolástica protestante, velha ortodoxia. Que devemos fazer?
13
Se esperarmos a tempestade passar para depois iniciarmos a jornada, pode ser que
jamais a comecemos.
Minha proposta é a seguinte: Você com certeza conhece a história de O
peregrino, de Bunyan,1 e de como ele tapou os ouvidos e correu gritando: "Vida,
vida, vida eterna", quando sua esposa e filhos o chamaram de volta da viagem que
estava para iniciar. Peço-lhe que feche por um momento os ouvidos para quem diz
não haver caminho algum que leve ao conhecimento de Deus e ande um pouco a
meu lado para verificar por si mesmo. Afinal de contas, só se prova o pudim
comendo-o, e qualquer pessoa que esteja realmente viajando por uma estrada
conhecida não ficará preocupada se ouvir um não-transeunte dizer que tal estrada
não existe.
Com tempestade ou sem ela, vamos começar. Mas como organizaremos nosso
curso?
Cinco verdades básicas — cinco princípios fundamentais do conhecimento de
Deus que os cristãos possuem — determinarão todo nosso programa, como segue:
1. Deus falou aos homens, e a Bíblia é sua Palavra, que nos foi dada a fim de nos
tornar sábios para a salvação.
2. Deus é Senhor e Rei deste mundo; ele governa todas as coisas para sua glória,
mostrando sua perfeição em tudo o que faz, a fim de que homens e anjos
possam louvá-lo e adorá-lo.
3. Deus é Salvador, ativo em amor soberano mediante o Senhor Jesus Cristo para
salvar os crentes da culpa e do poder do pecado, adotá-los como filhos e assim
abençoá-los.
1Pastor e escritor puritano, John Bunyan (1628-1688) foi preso durante doze anos por pregar sem
a autorização da Igreja Anglicana. Era independente, separatista e possuía convicções batistas
acerca do batismo e da Igreja. Enquanto estava aprisionado escreveu sua obra-prima: O peregrino.
14
4. Deus é triúno. Há em Deus três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; e a
obra da salvação é operada pelos três ao mesmo tempo: o Pai propõe a
redenção, o Filho a assegura e o Espírito a aplica.
5. Piedade significa responder à revelação de Deus com confiança, obediência, fé,
adoração, oração, louvor, submissão e serviço. A vida deve ser vista e vivida à
luz da Palavra de Deus. Isto, e nada mais, é a verdadeira religião.
A luz dessas verdades gerais e fundamentais, vamos agora examinar com
detalhes o que a Bíblia nos mostra da natureza e do caráter do Deus sobre o qual
estamos falando. Nossa situação é comparável à dos viajantes que, depois de
estudarem de longe uma grande montanha, andando a sua volta e observando
como domina a paisagem e determina o tipo de região a seu redor, se aproximam
dela, com a intenção de escalá-la.
OS TEMAS BÁSICOS
O que está envolvido nessa escalada? De que temas nos ocuparemos?
Vamos tratar da divindade, as qualidades que separam Deus dos homens e que
marcam a diferença e a distância entre o Criador e suas criaturas, qualidades
como: existência própria, infinitude, eternidade e imutabilidade. Trataremos dos
poderes de Deus: onisciência, onipotência e onipresença. Estaremos envolvidos
com a perfeição divina, os aspectos de seu caráter moral manifestados por seus
atos e palavras: santidade, amor, misericórdia, verdade, fidelidade, bondade,
paciência e justiça. Precisaremos anotar o que lhe é agradável, ofensivo, o que lhe
desperta ira, o que lhe dá satisfação e alegria.
Para muitos de nós, estes termos não são conhecidos, mas nem sempre foi
assim com o povo de Deus. Houve um tempo em que o tema dos atributos divinos
(comoa autodestruição
moral. Trata-se de um assunto de grande importância e que exige muita atenção
nos dias atuais.
Estamos acostumados com a idéia de que nossos corpos são máquinas e que
precisam seguir uma rotina determinada de alimentação, repouso e exercício se
104
quisermos que funcione eficientemente. O corpo está sujeito a perder a capacidade
de funcionamento saudável se abastecido com o combustível errado: álcool,
venenos, drogas, terminando por "engripar" de vez na morte física. O que talvez
tenhamos mais dificuldade para entender é que Deus deseja que pensemos em
nossa alma de modo semelhante.
Como pessoas racionais, fomos criados para ter a imagem moral de Deus, isto
é, nossa alma foi feita para "funcionar" praticando a adoração, a observação das
leis, a fidelidade, a honestidade, a disciplina, o auto-controle e para servir a Deus
e ao próximo. Se abandonarmos essas práticas, não apenas seremos culpados
diante de Deus, mas também destruiremos progressivamente nossa alma. A
consciência se atrofia, o senso de vergonha desaparece, a capacidade de ser fiel,
leal e honesto é destruída, e o caráter se desintegra. Tornamo-nos não apenas
desespera-damente miseráveis, mas somos gradualmente desumanizados. Este é
um aspecto da morte espiritual. Richard Baxter estava certo ao formular a
alternativa, como "Um santo ou um bruto": essa, no final, é a única escolha; e
todos, cedo ou tarde, consciente ou inconscientemente, optarão por uma ou pela
outra alternativa.
Hoje em dia, algumas pessoas sustentarão, em nome do humanismo, que a
moralidade sexual "puritana" da Bíblia é prejudicial para se alcançar a verdadeira
maturidade humana, e que um pouco mais de liberdade torna a vida mais rica. O
nome exato para essa ideologia, em nossa opinião, não é humanismo, mas
brutismo. A lassidão sexual não o tornará mais humano; em vez disso o tornará
menos humano. Ela o brutalizará e dilacerará sua alma. A mesma coisa acontece
sempre que qualquer mandamento de Deus é desrespeitado. Viveremos de forma
realmente humana apenas enquanto estivermos nos esforçando para guardar os
mandamentos de Deus. Não há outro modo.
2. As promessas de Deus são verdadeiras, pois ele as cumpre."... aquele que
prometeu é fiel" (Hb 10:23). A Bíblia proclama em termos super-lativos a
fidelidade de Deus. "... a tua fidelidade (chega) até às nuvens" (Sl 36:5); "A tua
fidelidade é constante por todas as gerações" (Sl 119:90); "grande é a sua
fidelidade!" (Lm 3:23).
Como a fidelidade de Deus se apresenta? Pelo infalível cumprimento de suas
promessas. Ele é o Deus que mantém a aliança; ele nunca engana quem confia em
sua palavra. Abraão provou a fidelidade de Deus, esperando por um quarto de
século, com idade avançada, pelo nascimento do herdeiro prometido, e milhões
mais a têm provado desde então.
Nos dias em que a Bíblia era universalmente reconhecida nas igrejas como "A
Palavra escrita de Deus", entendia-se claramente que as promessas divinas
registradas nas Escrituras eram a base própria, dada por Deus, para toda uma vida
de fé. O modo de fortalecer a fé era se concentrar em determinadas promessas que
se aplicavam às condições do indivíduo. Samuel Clark,1 um puritano moderno
escreveu na introdução de sua obra Scripture promisses; or,
the Christian's inheritance: a collection of the promises of Scripture under their
105
proper heads [Promessas das Escrituras ou a herança cristã: uma coleção de
promessas das Escrituras classificadas por assunto]:
A atenção fixa e constante às promessas e a crença firme nelas poderiam
evitar a preocupação e a ansiedade quanto aos problemas desta vida.
Poderia manter a mente quieta e serena em qualquer mudança e sustentar e
manter nosso espírito decadente sob as diversas dificuldades da vida... Os
cristãos negam a si mesmos os mais sólidos confortos pela descrença e
esquecimento das promessas de Deus. Pois não há situação tão
desesperadora para a qual não exista uma promessa adequada e
perfeitamente capaz de trazer alívio.
O conhecimento total das promessas seria de grande vantagem para a
oração. Com que segurança o cristão pode dirigir-se a Deus em Cristo
quando considera as repetidas afirmações de que suas preces serão
ouvidas! Com que alegria pode apresentar os desejos de seu coração
quando se lembra dos textos onde é prometida a misericórdia! E com que
fervor de espírito e grande fé pode reforçar suas orações apoiando-se nas
promessas feitas graciosamente e que se aplicam a seu caso!
Estas coisas costumavam ser entendidas, mas a teologia liberal, com sua recusa
em identificar as Escrituras escritas com a palavra de Deus, tem-nos
1Destacado estudioso da Bíblia (1684-1750), era descendente de uma longa linhagem de ministros
puritanos. Foi ordenado na Capela Dagnall Lane, freqüentada por muito pastores dissidentes.
Tornou-se conhecido pela dedicação ao ministério e por fundar escolas de caridade para crianças
(que permaneceram em operação por mais de cem anos).
106
privado largamente do hábito de meditar sobre as promessas e de basear nelas
nossas orações, aventurando-nos pela fé na vida diária até aonde as promessas nos
levarão. As pessoas hoje em dia zombam das caixinhas de promessa que nossos
avós usavam, o que não é uma atitude sábia. As caixas de promessas podem ter
sido usadas de modo errado, mas a abordagem das Escrituras e da oração que elas
expressavam estava certa. Trata-se de uma perda que devemos recuperar.
Crer e observar
O que é um cristão? Ele pode ser descrito sob muitos ângulos, mas partindo-se do
que dissemos é claro que resumiremos tudo ao dizer; é alguém que conhece e vive
sob a palavra de Deus. É quem se submete sem reservas à palavra de Deus escrita
no "Livro da Verdade" (Dn 10:21), crê nos ensinamentos, confia nas promessas e
segue os mandamentos. Seus olhos vêem o Deus da Bíblia como seu Pai, e o
Cristo da Bíblia como seu Salvador.
Se você lhe perguntar ele dirá que a palavra de Deus o convenceu de seu
pecado e também lhe deu a garantia do perdão. Sua consciência, como a de
Lutero, é cativa à palavra de Deus, e ele aspira como o salmista a pautar sua vida
de acordo com ela. "Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência
aos teus decretos [...] não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos [...]
ensina-me os teus decretos. Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos [...]
Inclina o meu coração para os teus estatutos [...] Seja o meu coração íntegro para
com os teus decretos" (Sl 119:5,10,26,27,36,80). As promessas estão diante dele
enquanto ora e os preceitos estão à sua frente quando se move entre as pessoas.
O cristão sabe que além de a palavra de Deus ter sido dirigida diretamente a ele
por meio das Escrituras, ela também foi proferida a fim de criar, controlar e
ordenar as coisas que o rodeiam. Entretanto como as Escrituras lhe dizem que
todas as coisas contribuem juntamente para o seu bem, a idéia de Deus ordenar
todas as circunstâncias só lhe traz alegria. Ele é uma pessoa independente, pois
usa a palavra de Deus como uma pedra de toque pela qual testa as diversas idéias
que lhe são apresentadas e não aceitará coisa alguma sem ter certeza da aprovação
das Escrituras.
Por que esta descrição se aplica a tão poucos de nós que professamos ser
cristãos nestes dias? Você terá grande proveito se fizer esta pergunta a sua
consciência e deixar que ela lhe fale.
107
O amor de Deus
A declaração repetida duas vezes por João: "Deus é amor" (1Jo 4:8,16) é um dos
pronunciamentos mais tremendos da Bíblia — e também um dos menos
entendidos. Idéias falsas cresceram à sua volta como uma cerca de espinhos,
ocultando o significado real, e não é tarefa fácil atravessar esse aglomerado de
vegetação mental. Entretanto, quanto maior a dificuldade envolvida maior é a
recompensa quando o verdadeiro sentido desses textos são captados pela alma
cristã. Quem sobe uma alta montanha não reclama do esforço ao contemplar o
cenário que se descortina do topo!
Na verdade, feliz é quem pode repetir com João as palavras da sentença que
precede o segundo "Deus é amor","Assim conhecemos o amor que Deus tem por
nós e confiamos nesse amor" (v. 16). Conhecer o amor de Deus é na verdade o
céu na terra. O Novo Testamento mostra este conhecimento não como privilégio
de uns poucos favorecidos, mas como parte normal da experiência comum do
cristão, algo estranho àqueles cuja espiritualidade é pouco sadia ou malformada.
Quando Paulo diz: "... Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do
Espírito Santo que ele nos concedeu" (Rm 5:5), ele não se refere ao amor de Deus,
como pensava Agostinho, mas ao conhecimento do amor de Deus por nós.
Embora nunca chegasse a conhecer pessoalmente os cristãos de Roma a quem
escrevia, Paulo tinha certeza de que a afirmação seria verdadeira para eles como
era para si mesmo.
Uma torrente de amor
Há três pontos nas palavras de Paulo que merecem ser comentados. Primeiro note
o verbo derramou. Seu sentido literal é "despejou". É a palavra usada no
"derramamento" do Espírito Santo em Atos 2:17,18,33; 10:45; Tito 3:6, sugerindo
fluxo livre e grande quantidade — aliás, uma inundação. Paulo não fala de
impressões vagas e incertas, mas de coisas profundas e irresistíveis.
Em segundo lugar observe o tempo do verbo. Está no perfeito, indicando uma
situação estabelecida como conseqüência de uma ação completa. A idéia é que o
conhecimento do amor de Deus, tendo inundado nosso coração, continua a
enchê-lo agora, como um vale, que uma vez inundado permanece cheio de água.
108
Paulo compreende que todos seus leitores, assim como ele mesmo, viverão na
alegria da forte e permanente certeza do amor de Deus para com eles.
Em terceiro lugar, observe que a instilação desse conhecimento é descrita como
parte do ministério normal do Espírito para. aqueles que o recebem — a todos,
isto é, aos que nasceram de novo, todos os que crêem realmente. Seria desejável
que esse aspecto de seu ministério fosse hoje mais valorizado do que de fato é.
Com uma obstinação tão patética quanto empobrecedora, temo-nos preocupado
hoje com os ministérios extraordinários, esporádicos e restritos do Espírito,
negligenciando os comuns e gerais. Assim, mostramos muito maior interesse
pelos dons de cura e de línguas — dons dos quais, segundo Paulo, nem todos
os cristãos participarão (1Co 12:28-30) — que pelo trabalho normal do
Espírito de conceder paz, alegria, esperança e amor por meio do
derramamento do conhecimento de Deus em nosso coração. Este ministério,
porém, é muito mais importante que o anterior. Para os coríntios, que tinham por
certo que quanto mais falassem em línguas mais alegres e piedosos seriam, Paulo
teve de insistir que sem amor — santificação, semelhança com Cristo — o dom de
línguas não tinha valor algum (1Co 13:1).
Sem dúvida alguma Paulo veria motivo para tal admoestação também hoje.
Será trágico se a preocupação com o reavivamento presentemente manifestado em
muitos lugares se desviar para o beco sem saída de um novo "corintismo". A
melhor coisa que Paulo podia desejar para os efé-sios, no que se refere ao
Espírito, era que ele conseguisse dar continuidade ao ministério de Romanos 5:5
com um poder cada vez maior, levando-os ao conhecimento mais e mais profundo
do amor de Deus em Cristo. Efésios 3:14-19 apresenta muito bem essa idéia:
Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai [...] para que [...] ele os fortaleça
no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espírito [...] para,
juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a
altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o
conhecimento...
Reavivamento quer dizer a ação de Deus de devolver a uma igreja moribunda, de
maneira fora do comum, padrões de vida e experiência cristã estabelecidos pelo
Novo Testamento como inteiramente normais. Não é o desejo ansioso de falar em
línguas (pois, no final das contas, não tem importância alguma o fato de falarmos
línguas ou não) que expressará uma preocupação correta com o reavivamento,
mas sim o desejo ardente de que o Espírito derrame o amor divino em nosso
coração com grande poder. Pois é com isso (ao qual o profundo interesse da alma
no que diz respeito ao pecado é muitas vezes preliminar) que começa o
reavivamento pessoal, e por meio dele o reavivamento na igreja, uma vez
começado, é mantido.
Nosso objetivo neste capítulo é mostrar a natureza do amor divino derramado
pelo Espírito. Com este propósito fixamos nossa atenção na grande afirmativa
joanina de que Deus é amor: em outras palavras, o amor que ele mostra às
pessoas, o qual os cristãos conhecem e no qual se alegram, é a revelação de seu
109
próprio ser interior. Nosso tema nos fará aprofundar no mistério da natureza de
Deus tanto quanto foi possível à mente humana, mais profundamente que nossos
estudos anteriores.
Quando estudamos a sabedoria de Deus, vimos alguma coisa de sua mente;
quando pensamos em seu poder, vimos um pouco de sua mão e de seu braço;
quando consideramos sua palavra, aprendemos algo sobre sua boca, mas agora,
contemplando seu amor, veremos seu coração. Estaremos pisando solo sagrado,
precisamos da graça da reverência para que possamos pisar nele sem pecar.
Amor, Espírito e luz
Dois comentários gerais sobre essa afirmação de João serão úteis agora.
1. "Deus é amor" não é a verdade completa sobre Deus, no que diz respeito à
Bíblia. Esta não é uma definição abstrata, isolada; mas um resumo, da perspectiva
do cristão, do que a revelação feita nas Escrituras nos fala sobre seu Autor. Esta
afirmação pressupõe o resto do testemunho bíblico sobre Deus. O Deus sobre o
qual João fala é o Deus que fez O mundo, que o condenou pelo dilúvio, que
chamou Abraão e fez dele uma nação, que disciplinou seu povo do Antigo
Testamento pela conquista, cativeiro e exílio, que enviou seu Filho para salvar o
mundo, que afastou o Israel incrédulo, que pouco antes de João haver escrito
havia destruído Jerusalém e que um dia julgará o mundo com justiça. Esse Deus,
diz João, é amor.
É errado citar essa afirmação de João, como muitos o fazem, como se ela
levantasse dúvidas sobre o testemunho bíblico da severidade da justiça divina.
Não é possível argumentar que o Deus amoroso não possa também ser o Deus que
condena e castiga o desobediente, pois é precisamente do Deus que age assim que
João está falando.
Se quisermos evitar um mal-entendido a respeito da afirmação de João,
devemos torná-la associando-a com outras duas grandes declarações que
apresentam a mesma forma gramatical encontrada em outros pontos de seus
escritos. Interessante que ambas partiram do próprio Cristo. A primeira está no
evangelho de João. São as palavras de nosso Senhor à samaritana: "Deus é
espírito" (Jo 4:24). A segunda está no começo da primeira epístola. João a
apresenta como resumo da "mensagem que dele (Jesus) ouvimos e transmitimos a
vocês: Deus é luz" (1Jo 1:5). A afirmação de que Deus é amor deve ser
interpretada conforme os ensinamentos destas duas declarações e será útil
fazermos agora um breve estudo delas.
Deus é espírito. Quando nosso Senhor disse isso, ele procurava fazer a
samaritana abandonar a idéia de que havia apenas um lugar adequado para a
adoração, como se Deus estivesse confinado de algum modo a algum lugar.
"Espírito" contrasta com "carne". A idéia central de Cristo era que o homem,
sendo "carne", só pode estar presente em um lugar de cada vez. Deus, porém,
sendo "espírito", não está assim limitado. Deus não é material, não tem corpo,
110
portanto, não fica confinado a um lugar. Por isso (Cristo continua), a verdadeira
condição da adoração aceitável não é estar em Jerusalém, Samaria ou em qualquer
outro lugar, mas o importante é que seu coração seja receptivo e responda à
revelação dele. "Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem
em espírito e em verdade" (Jo 4:24).
O primeiro dos Trinta e nove artigos de religião expressa o significado da
"espiritualidade de Deus" (como dizem os livros) pela asserção bastante estranha
de que ele é "sem corpo, sem partes nem paixões".1 Alguma coisa muito positiva
é expressa por essas três negativas.Deus não tem corpo — portanto, como já dissemos, ele está livre das
limitações do espaço e da distância, e é onipresente. Deus não tem partes — isto
significa que sua personalidade, poderes e qualidades estão perfeitamente
integrados, assim nada nele se altera. Ele "não muda como sombras inconstantes"
(Tg 1:17). Assim, ele é livre de todas as limitações de tempo e dos processos
naturais, e permanece eternamente o mesmo.
Deus não tem paixões — isto não quer dizer que ele seja insensível
(impassível) ou que não haja nada nele que corresponda a nossas emoções e
afeições. Entretanto, considerando que as paixões humanas,
1Livro de oração comum, p. 603.
111
especialmente as dolorosas, como medo, sofrimento, arrependimento e desespero,
são de algum modo passivas e involuntárias, e que surgem por meio de
circunstâncias fora de nosso controle, as atitudes correspondentes em Deus têm a
natureza de escolha voluntária e deliberada, não sendo, portanto, absolutamente
comparáveis às paixões humanas.
Assim, o amor de Deus, que é espírito, não é incerto nem inconstante como o
amor humano. Não é apenas um desejo impotente de coisas que talvez nunca
venham a realizar-se. Ao contrário, trata-se da determinação espontânea de todo o
ser divino em uma atitude de benevolência e benefício,
escolhida livremente e estabelecida com firmeza. Não há inconstâncias nem
vicissitudes no amor do Deus altíssimo, que é Espírito. Seu amor é "tão forte
quanto a morte [...] nem muitas águas conseguem apagar o amor" (Ct 8:6,7).
Nada poderá separá-lo dos que um dia foram por ele alcançados (Rm
8:35-39).
Deus é luz. Fomos informados de que o Deus que é espírito é também luz. João
fez esta declaração atacando certos cristãos professos que haviam perdido o
contato com as verdades morais e diziam que nenhuma de suas práticas era
pecaminosa. A intensidade das palavras de João está no seguinte preceito: "nele
não há treva alguma" (1Jo 1:5). Luz significa santidade e pureza baseadas na lei de
Deus; treva significa deturpação moral e injustiça de acordo com a mesma lei (1Jo
2:7-11; 3:10).
O ponto principal das palavras de João é que apenas quem "anda na luz"
procura ser igual a Deus em santidade e justiça, evita tudo o que não esteja de
acordo com isto, desfruta da companhia do Pai e do Filho. Os que "andam nas
trevas", não importa o que digam de si mesmos, são estranhos a esse
relacionamento (v. 6).
Assim, o Deus-amor é primeiro e acima de tudo luz, e quaisquer idéias
sentimentais a respeito desse amor como ternura indulgente e benevolente, alheios
aos padrões e às idéias morais, devem ser abolidas desde o princípio. O amor de
Deus é santo. O Deus que Jesus tornou conhecido não é indiferente a distinções
morais, mas ama a justiça e odeia a iniqüidade, o Deus cujo ideal para seus filhos
é este: "sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês" (Mt 5:48). Ele
não aceitará em sua companhia qualquer pessoa — por mais ortodoxas que sejam
suas idéias — que não procure a santidade de vida.
Aqueles a quem ele aceita estão sujeitos a uma disciplina enérgica a fim de que
alcancem o que buscam: "pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo
aquele a quem aceita como filho [...] Deus nos disciplina para o nosso bem, para
que participemos da sua santidade [...] Mais tarde, porém, produz fruto de justiça
e paz para aqueles que por ela foram exercitados" (Hb 12:6-11). O amor de Deus é
inflexível, pois expressa a santidade de quem ama e procura a santidade no
amado. As Escrituras não nos permitem supor que, pelo fato de Deus ser amor,
podemos confiar que ele fará feliz quem não busca a santidade, ou que protegerá
seus amados de problemas quando ele sabe da necessidade dessas tribulações para
auxiliar no processo de santificação.
Agora, porém, precisamos fazer um segundo comentário comparativo.
112
2. "Deus é amor" é a verdade completa sobre Deus no que diz respeito aos
cristãos. Dizer "Deus é luz" implica a expressão da santidade de Deus em tudo o
que ele diz e faz. Do mesmo modo, a afirmação "Deus é amor" significa que seu
amor é encontrado em tudo o que ele diz e faz.
O conhecimento de que esta verdade se aplica á nós, pessoalmente, é o
supremo conforto do cristão. Ao crer, descobrimos na cruz de Cristo a certeza de
que somos amados individualmente por Deus: "o Filho de Deus, que me amou e
se entregou por mim" (Gl 2:20). Sabendo disto, podemos aplicar a nós mesmos a
promessa de que "Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam,
dos que foram chamados de acordo com o seu propósito" (Rm 8:28). Não apenas
algumas coisas, repare bem, mas todas as coisas! Cada pequenina coisa que nos
acontece expressa o amor de Deus e ocorre para cumprir o propósito divino para a
nossa vida.
Portanto, pelo que nos concerne, Deus é amor — santo e onipotente amor —
em todos os momentos e em todas as ocasiões de nossa vida. Mesmo quando não
podemos ver a razão e a finalidade da ação de Deus, sabemos haver amor nela e
por trás dela, por isso podemos sempre nos alegrar, mesmo quando, humanamente
falando, as coisas vão mal. Sabemos que a verdadeira história de nossa vida,
quando revelada, provará ter sido um ato de misericórdia do começo ao fim, e
com isso nos alegraremos.
Definição do amor de Deus
Até agora simplesmente delimitamos o amor de Deus, mostrando em termos
gerais como e quando ele opera, mas isto não é suficiente. Perguntamos: O que ele
é em essência? Como devemos defini-lo e analisá-lo? A resposta que a Bíblia
apresenta para essas questões ressalta uma concepção do amor de Deus que pode
ser formulada do seguinte modo:
O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores,
individualmente, por meio do qual, tendo se identificado com o bem-estar
dessas pessoas, entregou seu Filho para ser o Salvador delas, e agora as
leva a conhecê-lo e a desfrutá-lo em uma relação de aliança.
Vamos explicar as partes que constituem essa definição.
1. O amor de Deus é um exercício de sua bondade. A bondade de Deus no
sentido bíblico significa sua generosidade cósmica. A bondade divina, escreveu
Louis Berkhof, é "a perfeição em Deus que o leva a tratar benévola e
generosamente todas as suas criaturas. É a afeição que o Criador sente para com
as suas criaturas dotadas de sensibilidade consciente" (citando Sl 145:9,15,16; Lc
6:35; At 14:17).2 O amor de Deus é a
113
2Teologia sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 68.
114
manifestação suprema e mais gloriosa desta bondade. "O amor", escreveu James
Orr,3 "é, de forma geral, o princípio que leva um ser moral a desejar e a se alegrar
com outro, e alcança sua forma mais elevada em uma amizade na qual cada um
vive na vida do outro e encontra sua alegria em se dar ao outro, recebendo de
volta o extravasamento da afeição do outro em si mesmo".4 Assim é o amor de
Deus.
2. O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores.
Dessa forma, o amor encerra a natureza da graça e da misericórdia. É emanação
divina na forma de bondade, não apenas imerecida, como contrária a qualquer
merecimento, pois os objetos do amor de Deus são criaturas racionais
transgressoras da lei, cuja natureza é corrupta aos olhos dele e merecedoras apenas
de condenação e expulsão final de sua presença.
É admirável que Deus ame os pecadores; entretanto, a realidade é esta. Deus
ama criaturas que se tornaram indignas desse amor. Não havia nada nos objetos de
seu amor que pudesse merecê-lo; nada no ser humano poderia atrair esse amor ou
induzir a ele. O amor entre as pessoas é despertado por alguma coisa encontrada
no amado, mas o amor de Deus é livre, espontâneo, sem causa nem inspiração.
Deus ama as pessoas porque escolheu amá-las — como compôs Charles Wesley:
"Ele nos tem amado, ele nos tem amado, porque queria amar"5 (reprodução de Dt
7:8) —, e nenhum motivo para seu amor pode ser dado, salvo seu bondoso e
soberano prazer.
O mundo greco-romano do Novo Testamento jamais sonharia com tal amor;
atribuía-se muitas vezes a seus deuses a cobiça de mulheres, mas nunca amor por
pecadores.Os autores do Novo Testamento tiveram de usar uma palavra grega
quase nova — agape — para expressar o amor de Deus como eles o conheciam.
3Ministro presbiteriano escocês (1844-1913), um dos mais importantes apologistas dos
séculos xix e xx.
4Hasting's dictionary of the Bible, v. iii, p. 153. 
5Metbodist hymnal, segundo verso do hino 808, .
115
3. O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores,
individualmente. Não se trata de boa vontade vaga e difusa para com todos em
geral e ninguém em particular; ao contrário, por ser função da onisciência
todo-poderosa, sua natureza é particularizar tanto os objetos como os efeitos. O
propósito do amor divino, formado antes da criação (Ef 1:4), envolveu
primeiramente a escolha e a seleção das pessoas às quais ele abençoaria; e em
segundo lugar a relação dos benefícios que lhes seriam concedidos e os meios
pelos quais seriam obtidos e desfrutados. Tudo isto foi assegurado desde o início.
Paulo escreveu aos cristãos tessalonicenses: "Mas nós devemos sempre dar
graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque desde o princípio
[antes da criação] Deus os escolheu [selecionou] para serem salvos [o fim
determinado], mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade [o meio
determinado]" (2Ts 2:13). O exercício do amor de Deus, no tempo, em relação
aos pecadores, individualmente, é a execução do propósito formado por ele na
eternidade, no sentido de abençoar esses mesmos indivíduos pecadores.
4. O amor de Deus pelos pecadores implica sua identificação com o
bem-estar deles. Tal identificação está envolvida em toda espécie de
amor, sendo, na realidade, uma prova para verificar se o amor é genuíno
ou não. Se um pai permanece alegre e despreocupado enquanto o filho
atravessa dificuldades ou se um marido fica impassível diante do deses-
pero da esposa, duvidamos de que haja realmente amor nesse relacionamento,
pois sabemos que quem ama de verdade só fica feliz quando as pessoas queridas
também estão felizes. O amor de Deus pelos homens é desse tipo.
Nos capítulos anteriores destacamos que Deus objetiva em todas as coisas a
própria glória — para que ele seja revelado, conhecido, admirado e adorado.
Esta afirmação é verdadeira, mas incompleta. Precisa ser equilibrada pelo
reconhecimento de que Deus ligou voluntariamente sua felicidade última à das
pessoas porque dedica seu amor a elas. Não é por acaso que a Bíblia fala
freqüentemente de Deus como o Pai amoroso e o Esposo de seu povo. Conclui-se,
então, que pela própria natureza desse relacionamento a felicidade de Deus não
será completa enquanto seus amados não estiverem finalmente livres de
dificuldades:
Até que toda a Igreja de Deus redimida Seja
salva, para não mais pecar.6
Deus estava feliz sem os seres humanos, antes de sua criação. Ele teria continuado
assim se simplesmente tivesse destruído o homem depois do pecado, mas como
vemos ele dedicou seu amor a qualquer pecador, individualmente, e isso significa
que, por sua livre e espontânea vontade, ele não conhecerá a felicidade pura e
perfeita novamente até que tenha levado cada um deles para o céu. Na realidade,
ele resolveu que daquele momento até a eternidade sua felicidade seria
condicionada à nossa.
116
Assim, Deus salva não apenas para sua glória, mas também para sua satisfação.
Isto ajuda a explicar por que há alegria (alegria divina) na presença dos anjos
quando um pecador se arrepende (Lc 15:10), e por que haverá "grande alegria"
quando Deus nos colocar imaculados em sua santa presença no último dia (Jd 24).
Essa idéia ultrapassa nosso entendimento e desafia a fé, mas não há dúvida de
que, segundo as Escrituras, assim é o amor de Deus.
5. O amor de Deus pelos pecadores foi expressa pela dádiva de ser seu Filho
o Salvador deles. Mede-se o amor calculando quanto ele oferece, e a medida do
amor divino é a dádiva de seu único Filho para ser feito homem e morrer pelos
pecadores, e assim tornar-se o único mediador que nos pode levar a Deus.
6Frase do terceiro verso do hino There is a fountain filled with blood, de William Cowper, em
Conyer's collection of psalms and hymns, 1772.
117
Não nos admiramos de que Paulo tenha se referido ao amor de Deus' como
"grande", ultrapassando o conhecimento (Ef 2:4; 3:19). Será que já houve
generosidade mais cara? Paulo argumenta que este dom supremo é, por si mesmo,
a garantia de todos os outros: "Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o
entregou por todos nós, como não nos dará juntamente, e. de graça, todas as
coisas?" (Rm 8:32). Os escritores do Novo Testamento apontam constantemente a
cruz de Cristo como prova cabal da realidade do ilimitado amor divino.
Assim, João, imediatamente após a expressão "Deus é amor", prossegue: "Foi
assim que Deus manifestou seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao
mundo, para pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que
nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou seu Filho como
propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4:9,10). Do mesmo modo em seu
evangelho: "Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito, para
que todo o que nele crer [...] tenha a vida eterna" (Jo 3:16). Paulo também
escreveu: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor
quando ainda éramos pecadores" (Rm 5:8). E encontra a prova de que "o Filho de
Deus [...] me amou" no fato de que ele "se entregou por mim" (Gl 2:20).
6. O amor de Deus pelos pecadores alcança seu objetivo quando "os leva a
conhecê-lo e a desfrutá-lo em uma relação de aliança". O relacionamento
segundo a aliança é aquele no qual as duas partes estão permanentemente
comprometidas uma com a outra em serviço mútuo e dependência (p. ex., o
casamento). A promessa da aliança é aquela na qual um contrato de
relacionamento é estabelecido (p. ex., os votos do casamento).
A religião bíblica tem a forma de um relacionamento baseado na aliança com
Deus. A primeira ocasião em que os termos desse relacionamento foram
esclarecidos aconteceu quando Deus se revelou a Abraão como El Shaddai (o
Deus todo-poderoso, o Deus todo-suficiente) e formalmente lhe deu a promessa
da aliança "para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes" (Gn 17:1-7).
Todos os cristãos, pela fé em Cristo, são herdeiros dessa promessa, como Paulo
diz em Gálatas 3:15-29. O que isso significa? Trata-se, na verdade, de um
repositório de promessas englobando todas. "Esta é a primeira promessa e a
fundamental", declarou o puritano Sibbes,7 "na verdade, é a vida e a alma de
todas as promessas".8 Thomas Brooks,9 outro puritano, dá o seguinte
esclarecimento:
[Isto] é como se ele dissesse: "Você terá uma participação tão verdadeira
em todos os meus atributos, para seu benefício, como eles são meus para
minha glória" [...] "Minha graça", disse Deus, "será de vocês para lhes
perdoar, meu poder será de vocês para protegê-los, minha sabedoria será
para dirigi-los, minha bondade para livrá-los, minha misericórdia para
sustentá-los e minha glória será de vocês para coroá-los". Esta é uma
promessa completa de que Deus seria nosso Deus; nela estão incluídas
todas as coisas. Lutero disse: "Deus meus et omnia" [Deus é meu, e todas
118
as coisas são minhas].10
"Este é o verdadeiro amor para com qualquer pessoa", disse Tillotson,11 "fazer o
melhor possível em relação a ela". Deus procede assim em relação a quem ama —
o melhor possível; e a medida do melhor que Deus pode fazer é a onipotência!
Assim, a fé em Cristo nos leva ao relacionamento que abrange bênçãos
incalculáveis, tanto para agora como para a eternidade.
Amor excelso!
É verdade que Deus é amor para mim como cristão? O amor de Deus é realmente
tudo o que foi dito? Se assim for, surgem algumas dúvidas.
7Richard Sibbes (1577-1635) foi um extraordinário teólogo, pregador e mestre inglês, membro da
Igreja Anglicana, continuamente perseguido por ser adepto do puritanismo. Após sua morte, seus
sermões foram coligidos e impressos e desde então têm influenciadopositivamente muitos cristãos.
8 Works, v. 6, p. 8.
9Ministro não-conformista (1608-1680) e defensor dos princípios do congregacionalismo. Escritor
de livros de caráter devocional.
10 Works, v. 5, p. 308.
11John Tillotson (1630-1694), educado em uma família puritana, foi arcebispo da Cantuária
(Igreja Anglicana). Dedicou-se ao estudo dos escritos patrísticos, especialmente os de Basílio e
Crisóstomo.
119
 Por que eu sempre reclamo e mostro descontentamento diante das
circunstâncias em que Deus me colocou?
 Por que estou sempre desconfiado, atemorizado ou deprimido?
 Por que sempre me permito ficar impassível, formal e pouco dedicado ao
serviço do Deus que me ama tanto?
 Por que permito que minha lealdade se divida, de modo que Deus não tenha
todo meu coração?
João escreveu "Deus é amor" a fim de estabelecer um ponto de ética: "... visto
que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros" (1Jo 4:11).
Será que algum observador poderá aprender pela qualidade e intensidade de amor
que eu mostro aos outros (esposa, marido, família, vizinhos, irmãos da igreja,
colegas de trabalho) alguma coisa sobre a grandeza do amor de Deus por mim?
Medite sobre essas coisas. Examine-se.
120
A graça de Deus
É comum em todas as igrejas denominar o cristianismo a religião da graça. É
truísmo na erudição cristã que a graça, longe de ser uma força impessoal, um tipo
de eletricidade celestial recebida como uma carga de bateria "ligada" aos
sacramentos, seja uma atividade pessoal — Deus atuando com amor em relação
ao ser humano.
Livros e sermões destacam repetidamente que as palavras gregas graça (charis)
e amor (ágape) no Novo Testamento são de uso inteiramente cristão e expressam
bondade espontânea, autodeterminada, antes completamente desconhecidas da
ética e da teologia greco-romana. É comum dizer-se na escola dominical que a
graça é a riqueza de Deus às expensas de Cristo. Entretanto, apesar desses fatos,
parece não haver muita gente em nossas igrejas que realmente creia na graça.
Para ser mais exato, sempre há alguns que acham a idéia da graça tão
irresistivelmente maravilhosa que nunca perdem esse sentimento inicial. A graça
torna-se o tema constante de suas conversas e orações. Escreveram hinos sobre
ela, alguns dos melhores — e é preciso um sentimento profundo para produzir um
bom hino. Eles têm lutado por ela, aceitando zombaria e perda de privilégios, se
necessário, como preço de sua defesa. Como Paulo combateu os judaizantes,
assim Agostinho combateu os pelagianos, e os reformadores o escolasticismo. Os
descendentes espirituais de Paulo, de Agostinho e dos reformadores têm desde
então combatido as doutrinas romanistas e pelagianas. Com Paulo, seu teste- /
munho é: "pela graça de Deus, sou o que sou" (1Co 15:10), e sua regra de vida:
"não anulo a graça de Deus" (Gl 2:21).
Entretanto, muitas pessoas nas igrejas não são assim. Podem falar sobre a
graça, mas ficam só nisso. A concepção que têm da graça não é falsa, na realidade
é inexistente. A idéia não tem significado algum para elas e não toca nem de leve
sua experiência. Fale com elas sobre o sistema elétrico da igreja ou sobre o
orçamento do último ano, e eles reagirão imediatamente, mas fale sobre as
realidades apontadas pela palavra graça, e sua atitude será de respeitosa
estupefação. Não o acusarão de falar bobagens; não duvidarão do valor de suas
palavras, mas não darão importância ao que você diz por se tratar de um assunto
que não os atinge; quanto mais tiverem vivido sem a graça, mais certos estarão de
que a essa altura da vida realmente não precisam dela.
121
Sem o mínimo toque da graça
O que impede, de fato, que muitas pessoas que professam sua crença na graça
realmente creriam? Por que o assunto significa tão pouco mesmo para alguns que
falam muito sobre ela? A raiz do problema parece ser a crença errada sobre as
relações básicas entre o ser humano e Deus — enraizada não apenas na mente,
mas no coração, no nível mais profundo das coisas que não questionamos por
sempre estarmos seguros delas.
Há neste campo quatro verdades cruciais pressupostas na doutrina da graça, e
se elas não forem reconhecidas e sentidas pelo coração torna-se impossível a fé
real na graça divina. Infelizmente o espírito de nosso tempo se opõe a elas. Não é
de admirar, portanto, que a fé na graça seja atualmente uma raridade. As quatro
verdades são:
1. A moral indigna do homem. As pessoas modernas, conscientes de seu
tremendo desenvolvimento científico nos últimos anos, estão naturalmente
inclinadas a ter um elevado autoconceito. Consideram a riqueza material mais
importante que o caráter moral, e no campo moral são resolutamente
autocomplacentes. Pensam que as pequenas virtudes compensam os grandes
vícios e se recusam a aceitar com seriedade a idéia de que existe algo, do ponto de
vista moral, muito errado com eles.
A pessoa tende a rejeitar a consciência culpada, em si e nos outros, como
anomalia psicológica, sinal de doença e aberração mental, em vez de considerá-la
um indicador da realidade moral. O ser humano moderno está assim convicto
de que, apesar de todos seus pecadilhos — bebida, jogo, direção negligente,
libertinagem, mentiras, negócios desonestos, leituras imorais e muitas outras
coisas —, ele é no fundo uma boa pessoa. Então, como os pagãos (o coração do
indivíduo moderno é pagão, não tenha dúvidas sobre isso), eles imaginam Deus
como uma projeção ampliada de si mesmos e acreditam que Deus compartilha sua
autocomplacência. A idéia de que são criaturas caídas e distanciadas da imagem
de Deus, rebeldes insubmissos à lei divina, culpados e impuros aos olhos de Deus,
merecedores apenas de condenação, jamais entra em sua cabeça.
2. A justiça divina retributiva. Os homens e as mulheres de hoje costumam
fechar os olhos para as transgressões durante o máximo de tempo possível.
Toleram-nas nos outros, pois sabem que fariam o mesmo se as circunstâncias
fossem outras. Pais hesitam em corrigir os filhos, professores em punir alunos, e o
público aceita apenas com um murmúrio toda a sorte de vandalismo e
comportamento anti-social. A regra aceita parece ser a de ignorar o mal tanto
quanto possível. Deve-se punir apenas como último recurso, e isso unicamente
quando for preciso evitar que o mal acarrete conseqüências sociais muito graves.
A boa vontade em tolerar e perdoar o mal ao máximo é vista como virtude, ao
passo que viver sob princípios rígidos de certo e errado é censurado por alguns
122
como moral duvidosa.
De acordo com nosso estilo pagão, temos certeza de que Deus pensa como nós.
A idéia de que a retaliação possa ser a lei moral do mundo de Deus e a
manifestação de seu caráter santo nos parece quase fantástica. Seus defensores são
acusados de projetar em Deus seus impulsos patológicos de raiva e vingança. A
Bíblia, no entanto, afirma reiteradamente que a retaliação é um fato tão básico
como respirar.
Deus é o juiz de toda a terra e agirá com justiça, vingando o inocente, se
houver, mas punindo (na linguagem bíblica visitando pecados) os transgressores
da lei (cf. Gn 18:25). Deus não será fiel a si mesmo a menos que castigue o
pecado. E a menos que alguém conheça e sinta a realidade deste fato — os
transgressores devem esperar da parte de Deus nada além de um julgamento justo
— não poderá compartilhar a fé bíblica na graça divina.
3. A impotência espiritual do homem. O livro de Dale Carnegie, Como fazer
amigos e influenciar pessoas,1 tem sido quase uma Bíblia moderna. Uma técnica
completa de relações comerciais foi construída nos últimos anos com base no
princípio de colocar outra pessoa em uma posição tal que lhe seja quase
impossível dizer "não". Isto confirmou nas pessoas de hoje a fé que animava as
religiões pagãs desde tempos imemoriais — a crença de que podemos reparar
nosso relacionamento com Deus colocando-o em situações em que não possa mais
responder de modo negativo. Os pagãos antigos procediam assim, multiplicando
oferendas e sacrifícios; os pagãos modernos procuram fazer o mesmo por meio da
moralidade e da afiliaçãoa uma igreja. Embora admitam sua imperfeição, não têm
dúvidas de que a respeitabilidade adquirida lhes garantirá aceitação divina afinal,
independentemente de suas ações passadas. A determinação bíblica, no entanto, é
como a expressa por Toplady:2
Eu de mim não cumprirei
Nunca, ó Deus, a tua lei,
1São Paulo: Editora Nacional, 1985.
2Augustus Montague Toplady (1740-1778) foi um famoso compositor de hinos, ministro
anglicano e vigário de Broadhembury. Desligou-se da Igreja Anglicana em 1775, mudou-se para
Londres e tornou-se pregador de uma igreja calvinista de língua francesa em Leicester Fields.
Polemista, enfrentou os irmãos Wesleys em batalhas teológicas acerca da doutrina da graça.
Morreu aos 38 anos, de tuberculose.
123
Por mais zelo que tiver, 
Por mais pranto que verter, 
Nada poderei pagar,
— levando à admissão do próprio desespero e à conclusão:
Tu, só tu, me vens salvar.3
"Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à
Lei", declarou Paulo (Rm 3:20). Consertar nosso relacionamento com Deus e
conquistar seu favor depois de tê-lo perdido estão além da capacidade de qualquer
um de nós. É preciso aceitar e curvar-se perante tudo isso antes de poder
compartilhar da fé bíblica na graça divina.
4. A liberdade soberana de Deus. O antigo paganismo ensinava que cada deus
estava ligado a seus adoradores por interesses próprios, pois dependiam dos
serviços e das oferendas deles para seu bem-estar. O paganismo moderno
lembra vagamente um conceito semelhante — Deus é de algum modo
obrigado a nos amar e ajudar, embora nada mereçamos. Este foi o sentimento
expresso pelo livre-pensador francês que morreu murmurando: "Deus perdoará,
este é seu trabalho" (c'est son metier). Mas essa idéia não está bem fundamentada.
O Deus da Bíblia não depende dos seres humanos para seu bem-estar (v. Sl
50:8-13; At 17:25), nem é obrigado a mostrar-nos algum favor depois de termos
pecado.
3Hinário das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil, Jongbloed (Holanda): Ierb, 1998, p.
558.
124
Podemos apenas apelar para sua justiça — e justiça, em nosso caso, significa
condenação certa. Deus não é obrigado a impedir o curso da justiça para favorecer
quem quer que seja. Ele não é obrigado a ter piedade e a perdoar, e se o fizer será
um ato, como dizemos, "de sua livre vontade", e ninguém o obriga a revidar suas
intenções. "Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da
misericórdia de Deus" (Rm 9:16). A graça é livre, no sentido de ser auto-originada
e de proceder de quem poderia concedê-la ou não. Somente quando se percebe
que a decisão do destino de cada indivíduo advém da resolução divina de salvá-lo
de seus pecados, ou não, e que esta é uma decisão que Deus toma caso a caso,
pode-se começar a apreender o conceito bíblico da graça.
NÃO-OBTIDA E NEM MERECIDA
A graça de Deus é o amor demonstrado livremente aos pecadores que se
reconhecem culpados, contrariamente a seu mérito e a despeito de seu demérito. É
Deus demonstrando bondade para com pessoas merecedoras apenas de rigor, e
que não têm motivo algum para esperar outra coisa. Já vimos por que a idéia da
graça significa tão pouco para alguns freqüentadores de igreja, isto é, não
partilham dos conceitos sobre Deus e o homem implícitos nela. Agora precisamos
perguntar por que esse conceito significa tanto para outras pessoas. Não é preciso
ir muito longe para procuar a resposta; na verdade ela transparece em tudo o que
já se afirmou. Assim que o homem se convença de que a descrição apresentada
espelha sua condição e necessidade, o Evangelho da graça do Novo Testamento só
pode entusiasmá-lo, deixá-lo cheio de alegria e surpreso, pois ele nos conta sobre
como nosso Juiz se tornou nosso Salvador.
Graça e salvação estão juntas como causa e efeito: "pela graça vocês são
salvos" (Ef 2:5, 8). "Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os
homens" (Tt 2:11). O Evangelho declara como:
 "Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que
nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" 0o 3:16);
 "Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando
ainda éramos pecadores" (Rm 5:8);
 uma fonte foi aberta, de acordo com a profecia (Zc 13:2), contra o pecado e a
impureza;
 o Cristo vivo clama a todos os que ouvem o Evangelho: "Venham a mim [...] e
eu os aliviarei" (Mt 11:28).
Como Isaac Watts4 colocou em seu hino mais evangélico, se não o mais
sublime, estamos por natureza no mais completo estado de perdição:
Mas há uma voz de graça magnífica 
Vinda da santa Palavra de Deus; 
Ó, vós, pobres pecadores cativos, vinde 
125
E confiai no Senhor.
Minha alma obedece ao chamado soberano
E corre para seu livramento
Eu creio nas tuas promessas, Senhor,
Oh! ajuda-me apesar da minha incredulidade.
À bendita fonte de teu sangue,
Deus Encarnado, vôo
Para lavar minha alma das manchas escarlates
E da tinta forte do pecado.
Um verme culpado, fraco e indefeso, Em
tuas mãos me entrego; Tu és, ó Senhor,
minha justiça, Meu Salvador e meu tudo.5
Quem puder, com sinceridade, fazer suas as palavras de Watts, nunca se cansará
de cantar os louvores da graça.
4Filho de um não-conformista aprisionado duas vezes, Isaac Watts (1674-1748) demonstrou
interesse pela poesia e métrica na infância. Aprendeu latim, grego e hebraico. Anos mais tarde
declinou do convite para ingressar no ambiente acadêmico ligado à Igreja Anglicana e tornou-se,
algum tempo depois, ministro de uma congregação não-conformista. Escreveu centenas de hinos.
5Versos 2 a 5 do hino How sad our state by nature is, em Hymns and spiritual songs, 1707,
126
O Novo Testamento apresenta a graça de Deus em três associações par-
ticulares, cada uma delas uma constante maravilha perpétua para o cristão.
1. Graça como a fonte do perdão de pecados. O Evangelho concentra-se na
justificação, isto é, na remissão de pecados e, como conseqüência, em nossa
aceitação pessoal. A justificação é a transição verdadeiramente profunda da
situação do condenado que espera a sentença terrível para a do herdeiro que
espera uma herança fabulosa.
A justificação se dá pela fé e ocorre no momento em que a pessoa coloca toda
sua confiança no Senhor Jesus Cristo, como seu Salvador. A justificação para nós
é de graça, mas custou muito para Deus, pois o preço foi a morte sacrificial de seu
Filho. Por que Deus "não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos
nós" (Rm 8:32)? Por causa da sua graça. Foi sua decisão de nos salvar que tornou
necessário o sacrifício. Paulo explica bem este ponto:
Sendo justificados gratuitamente [isto é, sem pagar nada] por sua graça
[como conseqüência da resolução misericordiosa de Deus], por meio da
redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para
propiação [que satisfaz a ira divina pela expiação dos pecados] mediante a
[torna-se real para as pessoas por meio da] fé, pelo seu sangue.
Romanos 3:24, 25; cf. Tito 3:7; grifo do autor
Mais uma vez Paulo nos diz que em Cristo "temos a redenção por meio de seu
sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus" (Ef
1:7). A reação do cristão ao contemplar tudo isto — e comparar as coisas como
eram antes e como são agora em conseqüência da graça de Deus manifestada no
mundo — foi expressa maravilhosamente pelo antigo presidente de Princeton,
Samuel Davies:6
6Ministro presbiteriano (1723-1761). Tornou-se pregador itinerante após a morte do filho e da
mulher, em 1747. Em Londres, durante uma viagem para o levantamento de fundos para o Colégio
de Nova Jersey (posteriormente denominado Universidade de Princeton), foi convidado pelo rei
Jorge II para pregar na capela real. Durante a pregação, Samuel Davis pára e dirige-se ao rei:
"Quando o leão ruge, todos os animais da floresta silenciam; quando o Senhor fala, os reis da terra
calam a boca!".
127
Grande Deus de maravilhas! Todos os teus caminho;
Mostram os atributos divinos;
Mas os atos incontáveisda graça perdoadora
Brilham mais que todas as outras maravilhas.
Quem' é Deus perdoador como tu?
Ou quem tem graça tão rica e gratuita?
Perdidos de admiração, com trêmula alegria,
Recebemos o perdão de nosso Deus;
Perdão por crimes de profunda tintura,
Perdão adquirido como sangue de Jesus:
Quem é Deus perdoador como tu?
Ou quem tem graça tão rica e gratuita?
Oh, possa essa graça surpreendente e sem igual,
Este milagre do amor divino,
Encher a ampla terra com grato louvor,
Como enche os coros celestiais!
Quem é Deus perdoador como tu?
Ou quem tem graça tão rica e gratuita?
2. Graça como motivo para o plano da salvação. O perdão é o coração do
Evangelho, mas não a totalidade da doutrina da graça. O Novo Testamento
coloca o dom do perdão divino no contexto do plano da salvação, que
começou com a eleição antes que o mundo existisse e só será completado
quando a Igreja estiver perfeita na glória.
Paulo se refere brevemente a este plano em diversos pontos (v., p. ex., Rm
8:29,30; 2Ts 2:12,13), mas sua observação mais completa está no pará-
grafo profundo, denso — apesar das subdivisões o fluxo dos pensamentos faz dele
um só parágrafo — de Efésios 1:3—2:10. Como era seu costume, Paulo começava
com uma declaração sumária e usava o resto do parágrafo para analisá-la e
explicá-la. A afirmação é esta: "Deus [...] que nos abençoou com todas as bênçãos
espirituais nas regiões celestiais [isto é, no reino das realidades espirituais] em
Cristo" (1:3).
A análise começa com a eleição eterna e a predestinação para a filiação em
Cristo (v. 4 em diante), prossegue com a redenção e a remissão dos pecados em
Cristo (v. 7) e leva à esperança da glorificação em Cristo (v. 11,12) e a dádiva do
Espírito em Cristo para nos selar como propriedade divina para sempre (v. 13,14).
Em seguida, Paulo concentra a atenção no ato poderoso pelo qual Deus
regenera os pecadores em Cristo (1:19; 2:7), em cujo processo os leva à fé (2:8).
Paulo descreve todos esses itens como elementos de o único e grande propósito de
salvar (1:5,9,11), e nos diz que a graça (misericórdia, amor, bondade: 2:4,7) é sua
força motriz (2:4-8); que "as riquezas de sua graça" aparecem ao longo de toda
sua administração (1:7; 2:7), e que o louvor da graça é o objetivo final (1:6,12,14;
128
2:7).
Assim, nós, cristãos, podemos nos regozijar em saber que nossa conversão não
foi simples acaso, mas um ato de Deus originado no plano eterno para
abençoar-nos com o dom gracioso da salvação do pecado (2:8-10). Deus promete
e se propõe a executar o plano todo até o final e, desde que sua realização se dá
pelo poder soberano (1:19,20), nada poderá frustrá-lo. Bem pôde Isaac Watts
exclamar em palavras tão magnificentes e verdadeiras:
Fale de sua maravilhosa fidelidade 
E espalhe pelo mundo o seu poder, 
Cante as doces promessas de sua graça 
E de nosso Deus que tudo faz.
Gravadas como que no bronze eterno 
Brilham as poderosas promessas 
Nem as forças da escuridão podem 
Apagar essas frases eternas.
Sua palavra de graça é forte 
Como a que criou o céu 
A voz que fez surgir as estrelas 
Fala de todas as promessas.7
As estrelas, na verdade, podem cair, mas as promessas de Deus permanecerão e
serão cumpridas. O plano da salvação será levado ao final triunfante; e então a
graça será reconhecida como soberana.
3. Graça como garantia da preservação dos santos. Se existe certeza no
cumprimento do plano da salvação, o futuro do cristão está assegurado. Eu sou e
serei guardado "pelo poder de Deus até chegar a salvação" (IPe 1:5). Não preciso,
portanto, atormentar-me com medo de que minha fé possa falhar: como a graça
me levou à fé na primeira vez, assim me manterá crendo até o fim. A fé, tanto no
início como em seu decurso, é um dom da graça (v. Fp 1:29). Por isso, o cristão
pode dizer com Doddridge:8
Foi a graça que inscreveu meu nome 
No livro eterno de Deus, 
Foi a graça que me deu ao Cordeiro 
Que levou todas as minhas tristezas.
A graça ensinou minha alma a orar 
E a conhecer o amor perdoador 
Foi a graça que cuidou de mim neste dia, E
que nunca me deixará só.9
129
A RESPOSTA APROPRIADA
Nenhuma apologia é necessária para valer-nos tão livremente de nossa rica
herança de "hinos sobre a graça" (infelizmente, mal-representada
7Versos 2 e seguintes do hino "Begin, my tongue, some heavenly theme", em Hymns and Sacred
Songs, 1707.
8Philip Doddridge (1702-1751) foi o caçula entre vinte irmãos. Ministro não-conformista,
pastoreou uma congregação independente em Northampton (Inglaterra). Faleceu em Lisboa
(Portugal), aonde tinha ido recuperar-se de exaustão. Morreu de tuberculose. Compôs cerca de
quarenta hinos.
9Versos 3 e 5 do hino Grace, 'tis a charming sound. Apesar de este hino ter sido composto por
Philip Doddridge, estes dois versos foram escritos por Augustus Toplady.
130
em muitos hinários atuais), pois eles demonstram nossos conceitos de forma
muito melhor que a prosa. Não precisamos também nos desculpar por fazer uso de
mais um deles quando, para finalizar, pensamos um pouco na reação que o
conhecimento da graça divina deveria provocar em nós.
Diz-se que no Novo Testamento a doutrina é a graça, e a ética, a gratidão; e
alguma coisa está errada com qualquer forma de cristianismo que não justifique
essa afirmação na experiência e na prática. Quem entende a doutrina da graça
divina como incentivo à lassidão moral ("a salvação está garantida, não importa o
que eu faça, portanto nossa conduta não influi") está apenas demonstrando que, no
sentido mais literal, não sabe do que fala.
Amor gera amor, e este, uma vez despertado, deseja agradar. A vontade
revelada de Deus é que quem recebeu a graça deve dedicar-se às "boas obras" (Ef
2:10; Tt 2:11,12); a gratidão levará qualquer pessoa que tenha recebido de fato a
graça a agir como Deus requer e a clamar diariamente:
Oh! Quão grande devedor à graça 
Diariamente sou constrangido a ser, 
Deixe que agora a graça como um grilhão Ligue
meu coração transviado a ti!
Inclinado a se desviar,
Senhor, eu sinto isso,
Inclinado a deixar o Deus que eu amo
Toma meu coração, oh, toma e sela-o
Sela-o desde os teus altos céus!10
Você afirma conhecer o amor e a graça de Deus em sua vida? Prove então sua
afirmativa, agindo e orando de acordo com ela.
10Terceiro verso do hino "Come, thou fount of every blessing", de Robert Robinson, em A
collection of hymns used by the Church of Christ in Angel Alley, Bishopgate, 1759.
131
Deus, o Juiz
Você acredita no julgamento divino? Com isto estou perguntando se você crê
no Deus que será nosso juiz.
Muitos, ao que parece, não acreditam. Fale a eles de Deus como Pai, amigo,
ajudador, aquele que nos ama apesar de todas nossas fraquezas, insensatez e
pecado, e seus rostos se iluminam; você estabelece sintonia imediata com eles.
Fale, porém, de Deus como juiz, e eles franzirão a testa e abanarão a cabeça
negativamente. Sua mente se recusa a aceitar essa idéia, pois acham-na repulsiva e
indigna.
Entretanto há poucas coisas na Bíblia mais fortemente destacadasque a
realidade da ação de Deus como juiz. "Juiz" é um vocábulo constantemente
aplicado a ele. Quando Abraão intercedia por Sodoma, uma cidade tomada pelo
pecado que Deus estava a ponto de destruir, clamou: "Não agirá com justiça o Juiz
de toda a terra?" (Gn 18:25). Jefté, concluindo seu ultimato aos invasores
amonitas, declarou: "Nada fiz contra ti, mas tu estás cometendo um erro, lutando
contra mim. Que o Senhor, o Juiz, julgue hoje a disputa entre os israelitas e os
amonitas" (Jz 11:27). "É Deus quem julga" (Sl 75:7); "Levanta-te, ó Deus, julga a
terra" (Sl 82:8). No Novo Testamento o autor de Hebreus fala de "Deus, o Juiz de
todos os homens" (Hb 12:23). Não se trata de mera retórica, a realidade do
julgamento divino é apresentada em todas as páginas da história bíblica.
Deus julgou Adão e Eva, expulsando-os do Jardim e amaldiçoando sua vida na
terra (Gn 3). Deus julgou o mundo corrupto dos dias de Noé enviando o dilúvio
para destruir a humanidade (Gn 6—8). Ele julgou Sodoma e Gomorra,
destruindo-as por meio de uma catástrofe vulcânica (Gn 18,19). Julgou os
egípcios, que dominavam os israelitas, exatamente como havia prometido fazer
(Gn 15:14), mandando contra eles o terror das dez pragas (Êx 7—12).
Deus também julgou os adoradores do bezerro de ouro usando os levitas como
seus executores (Êx 32:26-35). Julgou Nadabe e Abiú por lhe oferecerem fogo
estranho (Lv 10:1-3), bem como Coré, Data e Abirã, que foram engolidos por um
tremor de terra. Deus julgou Acã por roubo sacrílego, eliminado a este e aos seus
(Js 7). Julgou Israel por infidelida-de depois da entrada em Canaã, permitindo que
caísse sob o domínio de outras nações (Jz 2:11-15; 3:5-8; 4:1-3).
Antes de entrar na terra prometida, Deus havia ameaçado banir seu povo como
castigo final para a impiedade, e depois de repetidas admoes-tações feitas pelos
132
profetas, ele os julgou, cumprindo sua ameaça: o reino do norte (Israel) caiu
vítima do cativeiro assírio e o reino do sul (Judá), do babilônico (2Rs 17;
22:15-17; 23:26,27). Na Babilônia, Deus julgou Nabu-codonosor e Belsazar por
impiedade. Ao primeiro foi dado tempo para corrigir sua vida (Dn 4:5,27,34), ao
segundo, não (Dn 5; 5,6,23-38,30).
As narrativas do julgamento divino não estão confinadas apenas no Antigo
Testamento. Na história do neotestamentária, o julgamento cai sobre os judeus por
haverem rejeitado o Messias (Mt 21:43,44; 1Ts 2:14-16); sobre Ananias e Safira
por terem mentido a Deus (At 5); sobre Herodes por seu orgulho (At 12:21); sobre
Elimas por sua oposição ao Evangelho (At 13:8); sobre os cristãos de Corinto,
afligidos por doenças (fatais em muitos casos), por sua irreverência grosseira,
particularmente em relação à ceia do Senhor (1Co 11:29-32). Esta é apenas uma
seleção das muitas narrativas dos atos de julgamento divino contidos na Bíblia.
Quando passamos da história para os ensinamentos bíblicos — a lei, os
profetas, a literatura sapiencial, as palavras de Cristo e dos apóstolos —,
percebemos que o propósito da ação de Deus no julgamento sobrepuja tudo o
mais. A legislação mosaica proveio de um Deus que é justo juiz e que não hesitará
em punir mediante uma atuação providencial direta se seu povo infringir sua lei.
Os profetas acolheram esse tema; na verdade, a maior parte de seus ensinamentos
registrados consiste na exposição e aplicação da lei, e de ameaças de julgamento
contra os impenitentes e os transgressores da lei. Eles gastaram muito mais tempo
proclamando o julgamento que prognosticando o Messias e seu Reino!
Na literatura sapiencial aparece o mesmo ponto de vista: a única cer
teza fundamental subjacente a todas as discussões sobre os problemas
da vida em Jó, em Eclesiastes e em todas as máximas práticas de Provér
bios é que "Deus o trará a julgamento", "Pois Deus trará a julgamento
tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja
mal" (Ec 11:9; 12:14).
As pessoas que não lêem a Bíblia confiantemente nos asseguram de que
quando vamos do Antigo para o Novo Testamento, o tema do julgamento
divino passa para segundo plano. Entretanto, se examinarmos o Novo
Testamento, mesmo superficialmente, perceberemos logo que a ênfase do Antigo
Testamento na ação de Deus como Juiz, longe de ser reduzida, é na realidade
intensificada. Todo o Novo Testamento é dominado pela certeza da chegada do
dia
do juízo universal e pela questão que ele levanta: Como podemos nós, pecadores,
nos reconciliar com Deus enquanto há tempo? O Novo Testamento menciona o
"dia do julgamento", "o dia da ira", "a ira vindoura" e proclama Jesus, o divino
Salvador, como o Juiz indicado por Deus.
O juiz que está à porta (Tg 5:9) "pronto para julgar os vivos e os mortos" (1Pe
4:5), o "justo juiz" que dará a Paulo sua coroa (2Tm 4:8) é o Senhor Jesus Cristo.
"Foi a ele que Deus constituiu juiz de vivos e de mortos" (At 10:42). Deus
"estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do
homem que destinou" (At 17:31), disse Paulo aos atenienses. E aos romanos
escreveu: "no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Cristo
133
Jesus, conforme o declara o meu evangelho" (Rm 2:16).
O próprio Jesus disse o mesmo: "... o Pai [...] confiou todo julgamento ao Filho
[...] Deu-lhe autoridade para julgar [...] está chegando a hora em que todos os que
estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem
ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem
condenados" (To 5:22,27-29). O Jesus do Novo Testamento, que é o Salvador do
mundo, é também o seu Juiz.
Características do juiz
Qual é o significado disso? O que está envolvido na idéia de ser o Pai, ou Jesus, o
juiz? Pelo menos quatro conceitos estão em jogo:
1. O juiz é alguém que possui autoridade. No mundo bíblico, o rei era sempre
o juiz supremo por ser a autoridade maior. Dessa forma, segundo a Bíblia, Deus é
o juiz do seu mundo. Como nosso Criador, ele é nosso dono e proprietário, e tem
o direito de dispor de nós. Ele tem, portanto, o direito de criar leis para suas
criaturas e recompensá-las de acordo com sua atitude, por cumprir ou não essas
leis. Na maior parte dos Estados modernos os Poderes Legislativo e Judiciário são
separados, de modo que o juiz não cria as leis que aplica, mas no mundo antigo
não era assim, e também não é assim com Deus. Ele é o legislador e o juiz.
2. O juiz é alguém que se identifica com o que é bom e certo. O ideal moderno
de que o juiz deva ser frio e imparcial não tem lugar na Bíblia. Espera-se do juiz
bíblico que ame a justiça e a honestidade, que sinta repulsa por todo o mau
tratamento infligido às pessoas por seus semelhantes. Um juiz injusto, que não
tem interesse em ver o certo triunfar sobre o errado, é, de acordo com os padrões
bíblicos, uma monstruosidade. A Bíblia não deixa nenhuma dúvida sobre o amor
divino pela justiça e seu ódio pela iniqüidade, e que o ideal do juiz totalmente
identificado com o que é bom e justo enquadra-se perfeitamente nele.
3. O juiz é alguém com sabedoria para discernir a verdade. No mundo bíblico
a tarefa primordial do juiz é apurar os fatos do caso a ele apresentado. Não há júri;
é sua responsabilidade, e de ninguém mais, interrogar, acariar, detectar mentiras,
penetrar nos subterfúgios e determinar a situação real. Quando a Bíblia mostra
Deus julgando, dá ênfase a sua onisciência e sabedoria perscrutando corações e
descobrindo fatos. Nada lhe escapa. Podemos enganar as pessoas, jamais a Deus.
Ele nos conhece e nos julga como realmente somos.
Quando Abraão se encontrou com o Senhor em forma humana nos carvalhos
de Manre, ele lhe fez entender que estava a caminho de Sodoma para estabelecer a
verdade sobre a questão moral naquela cidade. "Disse-lhe, pois, o Senhor: 'As
acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que
descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Senão,
eu o saberei" (Gn 18:20,21). E sempre é assim, Deus saberá. Seu julgamento
134
corresponde à verdade — a verdade real e moral. Ele julga "o íntimo doshomens", não apenas o exterior. Paulo tem razão ao dizer: "Pois todos nós
devemos comparecer perante o tribunal de Cristo" (2Co 5:10).
4. O juiz é alguém com poder para executar a sentença. Atualmente, o juiz
apenas proclama a sentença, cabendo a outra área do judiciário fazê-la cumprir. O
mesmo acontecia no mundo antigo. Mas Deus é seu próprio executor. Do mesmo
modo como julga e sentencia, ele pune. Em Deus fundem-se todas as funções
judiciais.
Retribuição
De tudo o que foi dito fica claro que a proclamação bíblica da ação de Deus como
Juiz faz parte do que seu caráter evidencia. Confirma também o que se disse antes
sobre sua perfeição moral, retidão, justiça, sabedoria, onisciência e onipotência.
Mostra-nos ainda que a retribuição é o centro da justiça demonstrada pela
natureza de Deus: dar ao ser humano o que merece; pois esta é a essência do
trabalho do juiz. Retribuir o bem com o bem e o mal com o mal é inerente a Deus.
Dessa forma, quando o Novo Testamento fala do julgamento final, sempre o
apresenta em termos de recompensa. Deus julgará todos os seres humanos "de
acordo com o que tenham feito" (Mt 16:27; Ap 20:12). Paulo amplia essa idéia:
[Deus] retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Ele dará vida
eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e
imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que
rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para
todo ser humano que pratica o mal [...] mas glória, honra e paz para todo o
que pratica o bem. [...] Pois em Deus não há parcialidade.
Romanos 2:6-11
O princípio da retribuição é aplicado integralmente a cristãos e não-cristãos:
todos receberão de acordo com suas obras. Os cristãos estão explicitamente
incluídos na seguinte referência de Paulo: "Pois todos nós devemos comparecer
perante o tribunal de Cristo para que cada um receba de acordo com as obras
praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más" (2Co 5:10).
Portanto, a retribuição aparece como expressão natural e predeterminada do
caráter divino. Deus resolveu ser o Juiz de todo indivíduo, recompensando cada
um de acordo com suas obras. A
retribuição é a inescapável lei moral da criação. Deus cuidará para que cada
pessoa, cedo ou tarde, receba o que merece, aqui ou na vida futura. Este é um dos
fatos básicos da vida. E tendo sido feitos à imagem de Deus, sabemos em nosso
íntimo que isso é correto. É assim mesmo que deve ser.
Muitas vezes reclamamos, como faz o criminoso (embora neste caso sem muito
fundamento): "Não há justiça". O problema do salmista que via homens
135
inofensivos serem castigados e os ímpios, "livres dos fardos de todos", prosperar e
ter paz (Sl 73), é repetido constantemente na experiência humana. Entretanto, o
caráter de Deus é a garantia de que tudo o que é errado será endireitado um dia,
quando chegar o "dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento"
(Rm 2:5), a recompensa será justa e nenhum problema de injustiça deste mundo
permanecerá para assombrar-nos. Deus é o Juiz, e a justiça será feita.
Por que, então, ficamos apreensivos com a idéia de Deus como Juiz? Por que
consideramos essa idéia indigna dele? A verdade é que parte da perfeição moral
de Deus é sua perfeição no julgamento. O Deus que não se importasse com
diferençar entre o certo do errado seria um ser bom e admirável? O Deus que não
fizesse distinção entre os monstros da história, os Hitlers e os Stálins (se ousarmos
dar nomes), e seus santos, seria moralmente perfeito e digno de louvor? A
indiferença moral seria a imperfeição divina, e não a perfeição. Portanto, não
julgar o mundo demonstraria indiferença moral. A prova final de que Deus é o Ser
moralmente perfeito, que não fica indiferente às questões do que é certo nem
errado, é o fato de ele ter se comprometido pessoalmente a julgar o mundo.
É evidente que a realidade do julgamento divino deve ter um efeito direto em
nosso modo de encarar a vida. Se soubermos que teremos de enfrentar o
julgamento retributivo no final, não viveremos como o faríamos de outro modo.
Deve-se frisar, porém, que a doutrina do julgamento divino, e em particular a do
julgamento final, não deve ser vista primariamente como um truque para
amedrontar as pessoas a fim de que pareçam íntegras. Ela possui implicações
assustadoras para os ímpios, é verdade, mas seu ponto principal é revelar o caráter
moral de Deus e oferecer significado moral à vida humana. Como escreveu Leon
Morris:
A doutrina do julgamento final [...] destaca a responsabilidade do homem
e a certeza de que a justiça finalmente triunfará sobre todo o mal, que é
parte e parcela da vida aqui e agora. A primeira concede dignidade ao ato
mais humilde, e a última traz tranqüilidade e certeza aos que estão no auge
da batalha. Esta doutrina dá sentido à vida [...] A visão cristã do
julgamento significa que a história se dirige para um alvo [...] O
julgamento defende a idéia do triunfo de Deus e do bem. É impossível
pensar que o conflito presente entre o bem e o mal perdure por toda a
eternidade. O julgamento significa que o mal será eliminado de uma vez
por todas com decisão e autoridade. O julgamento significa que no final a
vontade de Deus será perfeitamente realizada.1
1 The biblical doctrine of judgment, Grand Rapids: Eerdmans, 1960, p. 72.
136
Jesus, o agente do Pai
Nem sempre as pessoas percebem que a autoridade suprema no julgamento final
(apresentada no Novo Testamento), tanto no céu como no inferno, é o próprio
Senhor Jesus Cristo. Acertadamente o ofício fúnebre anglicano se dirige a Jesus
como "o santo e misericordioso Salvador, tu, mais do que notável Juiz eterno".2
Jesus afirmou muitas vezes que no dia em que todos comparecerem perante o
trono de Deus para acolher o resultado permanente e eterno de seu estilo de vida,
ele próprio será o agente do Pai no julgamento, e sua palavra de aceitação ou
rejeição será decisiva. Há muitas passagens referentes a este assunto, dentre as
quais destacam-se: Mateus 7:13-27; 10:26-33; 12:36,37; 13:24-50; 22:1-14;
24:36-25:46; Lucas 13:23-30, 16:19-31; João 5:22-30. A prefiguração mais clara
de Jesus como juiz está em Mateus 25:31-34,41:
Quando o Filho do homem vier [...] assentar-se-á em seu trono na glória
celestial. Todas as nações [isto é, todas as pessoas] serão reunidas diante
dele, e ele separará umas das outras [...] Então o Rei dirá aos que
estiverem à sua direita: "Venham, benditos de meu Pai! Recebam como
herança o Reino" [...] Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda:
"Malditos!, apartem-se de mim para o fogo eterno".
O registro mais claro da prerrogativa de Jesus como Juiz encontra-se em João
5:22,23,26-29:
O Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho, para que
todos honrem o Filho como honram ao Pai [...] o Pai [...] deu-lhe
autoridade para julgar, porque é o Filho do homem [a quem foi prometido
domínio, incluindo-se as funções de juiz, Dn 7:13,14] [...] pois está
chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua
voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida; e os que
fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados.
2The book of common prayer, versão eletrônica .
137
A própria indicação de Deus tornou o ofício de Jesus Cristo inevitável. Ele está no
fim da jornada da vida de todas as pessoas, sem exceção. "Prepare-se para
encontrar-se com o seu Deus, ó Israel" (Am 4:12) foi a mensagem de Amós a
Israel. "Prepare-se para encontrar-se com Jesus ressuscitado" é a mensagem
de Deus hoje ao mundo (v. At 17:31). Podemos ter a certeza de que o verdadeiro
Deus e homem perfeito será um juiz perfeitamente justo.
Indicativos do coração
O julgamento final, como já vimos, avaliará nossas obras, isto é, o que fizemos no
decurso da vida. A relevância de nossos feitos não está em merecer um prêmio da
corte — eles estão muito aquém da perfeição para isso —, mas em indicar o que
há no coração — isto é, a natureza real de cada agente. Jesus dissecerta vez: "...
os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado. Pois
por suas palavras vocês serão absolvidos, e por suas palavras vocês serão
condenados" (Mt 12:36,37).
Qual o significado das palavras que pronunciamos (cuja expressão é, lógico,
uma "obra" no sentido apropriado)? Exatamente este: as palavras mostram o que
você é interiormente. Jesus salientou bem este ponto: "Pois uma árvore é
conhecida por seu fruto [...] como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas?
Pois a boca fala do que está cheio o coração" (v. 33,34). Assim também, na
passagem sobre as ovelhas e os cabritos, é feita uma citação sobre o fato de
alguém ter ou não atendido às necessidades dos cristãos. Qual o significado disso?
Não quer dizer que um modo de agir seja meritório e o outro não, mas que
mediante essas ações pode-se dizer se houve amor a Cristo, procedente da fé, no
coração. (v. Mt 25:34-46.)
Uma vez que tenhamos compreendido que o significado das obras no
julgamento final são indicativos do caráter espiritual, torna-se possível responder
a uma pergunta que tem confundido muitas pessoas. Ela pode ser formulada do
seguinte modo: Jesus disse: "Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me
enviou tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a
vida" (Jo 5:24). Paulo afirmou: "Pois todos nós devemos comparecer perante o
tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por
meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más" (2Co 5:10). Como podemos
juntar estas duas afirmações? Como o perdão gratuito e a justificação pela fé se
enquadram no julgamento pelas obras?
A resposta parece ser a seguinte. Primeiro, o dom da justificação certamente
protege os cristãos de ser condenados e banidos da presença de Deus como
pecadores. Isto aparece na visão do julgamento em Apocalipse 20:11-15, em que,
junto com os "livros" onde estão registradas todas as obras de cada pessoa, é
aberto o "livro da vida". As pessoas cujos nomes estiverem escritos nele não serão
138
"lançadas no lago de fogo", como acontecerá com as demais.
Entretanto, em segundo lugar, a dádiva da justificação não protegerá de modo
algum OS cristãos de serem avaliados como cristãos e de perderem benefícios que
outros desfrutarão se ficar provado que, como cristãos, foram negligentes,
maldosos e destrutivos. Paulo adverte os coríntios de que sejam cuidadosos com o
tipo de vida que construíram sobre o único fundamento, Cristo.
Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras
preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a
trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra
de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá
recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo;
contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo.
1Coríntios 3:12-15
Recompensa e prejuízo significam um relacionamento mais rico ou mais pobre
com Deus, embora atualmente esteja além de nossas possibilidades determinar
como será isso.
O julgamento final também corresponderá ao conhecimento. Todos sabem
alguma coisa sobre a vontade de Deus por meio da revelação geral, mesmo
que não tenham sido instruídos na lei ou no Evangelho, e todos são culpados
diante de Deus por não corresponder ao que sabem. O demérito, porém, é
proporcional ao grau desse conhecimento (v. Rm 2:12; cf. Lc 12:47). Este é o
princípio aqui empregado: "A quem muito foi dado, muito será exigido" (v. 48). A
justiça é evidente neste ponto. O juiz de toda a terra agirá retamente em cada caso.
Sem necessidade de fugir
Paulo se refere ao fato de que todos devemos comparecer diante do tribunal de
Cristo com o "temor ao Senhor" (2Co 5:11), e ele está com a razão. Jesus, o
Senhor, da mesma forma que seu Pai, é santo e puro; nós não somos nem uma
coisa nem outra.
Vivemos debaixo de seus olhos, ele conhece nosso interior, e no dia do
julgamento será feita diante dele a recapitulação de toda nossa vida passada, uma
espécie de revisão. Se nos conhecemos realmente, sabemos que não estamos
qualificados para comparecer diante dele. Que devemos fazer então? A resposta
do Novo Testamento é: clame ao Juiz para que se torne seu Salvador no presente.
Como juiz ele é a lei, mas como Salvador é o Evangelho. Fuja dele agora e
você o encontrará mais tarde como Juiz, e sem esperança. Busque-o agora e você
o encontrará (pois "quem busca acha"), e descobrirá que está à espera do futuro
encontro com a alegria, sabendo que agora "já não há condenação para os que
estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1). Assim:
139
És amparo no viver, 
És consolo no morrer,
Esperança no porvir: 
Tu vieste me remir. 
Rocha eterna, a me salvar, 
Hei de em ti me refugiar!3
3Hinário das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil, p. 558 (último verso).
140
A ira de Deus
A palavra ira significa "um intenso sentimento de ódio ou rancor". Ódio é
definido como "aversão intensa"; rancor é "mágoa guardada por uma ofensa ou
um mal recebido". Assim é a ira. E a Bíblia nos diz que a ira é um dos atributos
divinos.
O hábito moderno na maioria das igrejas é falar pouco sobre esse assunto.
Quem ainda crê na ira de Deus (nem todos o fazem) fala pouco sobre ela, e talvez
pense pouco também sobre isso. Em uma época que se tem vendido
vergonhosamente aos deuses da ganância, orgulho, sexo e egoísmo, a Igreja
apenas emite murmúrios sobre a bondade de Deus, e quase nada enuncia sobre seu
julgamento. Quantas vezes você ouviu falar a respeito disso no último ano. Ou, se
você é ministro, pregou algum sermão sobre a ira de Deus? Quanto tempo faz que
um cristão mencionou diretamente esse assunto no rádio ou na televisão, ou em
pequenos sermões de meia coluna que aparecem em alguns jornais e revistas? (E
se alguém o fizesse, quanto tempo passaria até que alguém lhe pedisse que
escrevesse novamente sobre o assunto?).
O fato é que o assunto da ira divina tornou-se praticamente um tabu na
sociedade moderna, e os cristãos em geral aceitaram essa definição e se
condicionaram a nunca levantar o assunto.
Poderíamos perfeitamente perguntar se essa atitude está correta, já que a Bíblia
se comporta de modo bem diferente. Não é possível imaginar que o julgamento
divino fosse um assunto muito popular; entretanto, os escritores bíblicos se
referem a ele constantemente. Uma das coisas mais impressionantes sobre a Bíblia
é o vigor com que os dois Testamentos destacam a realidade e o terror da ira de
Deus: "Um estudo da concordância mostrará que nas Escrituras há mais
referências à cólera, fúria e ira de Deus do que ao seu amor e bondade".1
A Bíblia afirma que Deus é tão bom para aqueles que confiam nele, como é
terrível para os que não confiam:
O Senhor é Deus zeloso e vingador! O Senhor é vingador! Seu furor é
terrível! O Senhor executa vingança contra os seus adversários, e
manifesta indignação contra os seus inimigos. O Senhor é muito paciente,
mas o seu poder é imenso, o Senhor não deixará impune o culpado. [...]
141
Quem pode resistir à sua indignação? Quem pode suportar o despertar de
sua ira? O seu furor se derrama como fogo, e as rochas se despedaçam
diante dele. O Senhor é bom, um refúgio em tempos de angústia. Ele
protege os que nele confiam [...] expulsará os seus inimigos para a
escuridão.
Naum 1:2-8
A expectativa de Paulo era de que o Senhor Jesus um dia aparecerá "em meio a
chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não
obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição
eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder. Isso
acontecerá no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos" (2Ts
1:7-10).
Essa passagemse chamavam então) eram considerados tão importantes que foram
incluídos nos catecismos ensinados a todas as crianças nas igrejas, e que todos os
membros adultos deveriam saber. Assim, a quarta pergunta de O breve catecismo
de Westminster— "O que Deus é?" — tem a seguinte resposta: "Deus é espírito,
infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça,
bondade e verdade",2 uma declaração que o grande Charles Hodge descrevia
como "provavelmente a melhor definição de Deus que o homem já fez".
Hoje, entretanto, poucas crianças conhecem O breve catecismo de Westminster
e poucos adoradores modernos chegarão a ouvir uma série de sermões abrangendo
a doutrina do caráter divino compararável com o extenso Discourses on the
existence and attributes of God [Discursos sobre a existência e os atributos de
Deus], de Stephen Charnock (1682).3
Poucos também terão a oportunidade de ler qualquer coisa simples e direta a
respeito da natureza de Deus, pois tal tipo de publicação é bem rara atualmente.
Podemos esperar, portanto, que uma exploração do tema acima mencionado traga
15
muitas idéias novas sobre as quais pensar, e muitas novidades para serem
consideradas e assimiladas.
Conhecimento aplicado
Por esta simples razão, antes de começarmos a subir nossa montanha, precisamos
parar e fazer-nos uma pergunta fundamental — pergunta que, na verdade,
devemos fazer sempre que nos dispusermos a estudar qualquer assunto na santa
Palavra de Deus. Essa questão diz respeito a nossos motivos e intenções como
estudantes. É preciso indagar de nós mesmos: Qual o alvo final e a razão de eu
estar ocupando a mente com estas coisas? Que pretendo fazer com o
conhecimento de Deus que vou adquirir? Pois o fato que teremos de enfrentar é
este: A busca por conhecimento teológico como um fim em si mesmo talvez nos
prejudique, tornando-nos orgulhosos e convencidos. A própria magnitude do
assunto nos embriagará e chegaremos a pensar que somos bem melhores e
superiores aos demais cristãos dado nosso interesse no assunto e a compreensão
dele. Olharemos com superioridade para aqueles cujas idéias
2São Paulo: Cultura Cristã, 2001, 6. ed., p. 10.
3Pregador puritano (1628-1680), nascido em Londres, cujo ministério em conjunto com Thomas
Watson em uma congregação presbiteriana em Bishopsgate foi marcado por suas mensagens
tocantes e piedade pessoal. A data da publicação deste sermão indica seu caráter póstumo.
16
teológicas nos pareçam rudes e inadequadas, pondo-as de lado com desprezo. Isso
se conforma às palavras de Paulo aos presunçosos cristãos de Corinto: "O
conhecimento traz orgulho [...] Quem pensa conhecer alguma coisa ainda não
conhece como deveria" (1Co 8:1 b,2).
Preocupar-se em adquirir conhecimento teológico como um fim em si
mesmo, aproximar-se da Bíblia para estudá-la sem nenhum motivo além do
desejo de saber todas as respostas é o caminho direto para o auto-engano
complacente. Precisamos proteger o coração contra essa atitude e orar para que
isso não aconteça.
Como já vimos antes, não pode haver saúde espiritual sem conhecer a doutrina,
mas é igualmente verdadeiro que ela não será alcançada com esse conhecimento,
se for buscado com propósitos errados e avaliado segundo padrões falsos. Deste
modo o estudo da doutrina pode se tornar um perigo para a vida espiritual; e nós
hoje precisamos estar atentos a esse respeito, tanto quanto os antigos coríntios.
"Mas", diz alguém, "não é um fato que o amor à verdade revelada de Deus e o
desejo de saber o máximo sobre isso é normal em toda pessoa que tenha nascido
de novo?". Veja o salmo 119: "Ensina-me os teus decretos", "Abre os meus olhos
para que eu veja as maravilhas da tua lei", "Como eu amo a tua lei!", "Como são
doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel para a minha boca!",
"dá-me discernimento para compreender os teus testemunhos" (v. 12b, 18,97a
,103,125).
Não é verdade que, assim como o salmista, todo filho de Deus quer conhecer o
máximo possível a respeito de seu Pai Celestial? Não é, na verdade, o fato de
termos recebido "o amor à verdade" uma prova de que nascemos de novo? (v. 2Ts
2:10). E também não é justo que procuremos satisfazer ao máximo esse desejo
dado pelo próprio Deus?
Sim, naturalmente que sim. Mas se você se reportar ao salmo 119 verá que o
interesse do salmista em obter conhecimento de Deus não era teórico, mas prático.
Seu desejo supremo era conhecer e comprazer-se no próprio Deus, e considerava
esse conhecimento de Deus um simples meio para alcançar um fim. Ele queria
entender a verdade divina a fim de que seu coração pudesse corresponder a essa
verdade e viver de acordo com ela. Observe a ênfase dada nos primeiros
versículos:
Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem
conforme a lei do Senhor! Como são felizes os que obedecem aos seus
estatutos e de todo o coração o buscam! [...] Quem dera fossem firmados
os meus caminhos na obediência aos teus decretos (v. 1,2,5).
Ele estava interessado na verdade e na ortodoxia, nos ensinamentos bíblicos e
teológicos não como um fim em si mesmos, mas como meios práticos de
aperfeiçoamento da vida e de santidade. Sua preocupação maior estava em
conhecer e servir o grande Deus, cuja verdade procurava entender.
Esta deve ser também nossa atitude. Ao estudar a divindade, nosso alvo deve
17
ser conhecer melhor ao próprio Deus. Nosso objetivo deve ser expandir nosso
conhecimento não apenas da doutrina dos atributos de Deus, mas também do
Deus vivo a quem pertencem esses atributos. Já que ele é o tema de nosso estudo
e nosso ajudador nesta tarefa, deve ser também o fim em si mesmo. Ao
estudarmos Deus, devemos procurar ser conduzidos a ele. A revelação nos foi
dada com esse propósito, e devemos usá-la com essa finalidade.
Meditar sobre a verdade
Como faremos isso? Como podemos transformar nosso conhecimento sobre Deus
em conhecimento de Deus? A regra é simples, mas rigorosa. Devemos
transformar cada verdade aprendida sobre Deus em assunto de meditação diante
de Deus, conduzindo-nos à oração e ao louvor a Deus.
Temos alguma idéia a respeito do significado da oração, mas o que é
meditação? É uma boa pergunta, pois a meditação é uma arte esquecida hoje em
dia, e o povo cristão sofre dolorosamente por ignorar sua prática.
Meditação é o ato de trazer à mente as várias coisas conhecidas sobre os
procedimentos, as peculiaridades, os propósitos e as promessas de Deus; pensar,
deter-se nelas e aplicá-las à própria vida. É a atividade do pensamento santo,
conscienciosamente apresentado diante de Deus, sob seus olhos, com seu auxílio e
como meio de comunhão com ele.
Seu propósito é esclarecer nossa visão mental e espiritual de Deus e deixar que
sua verdade produza um impacto total na mente e no coração do indivíduo. É o
modo de falar consigo mesmo a respeito de Deus e de si próprio; é, na realidade,
um meio de raciocinar consigo mesmo em ocasiões de dúvida e apreensão até
chegar ao claro entendimento do poder e da graça de Deus.
O resultado deve ser nos humilhar, enquanto contemplamos a grandeza e a
glória divinas e nossa insignificância e pecaminosidade, e nos encorajar e
tranqüilizar — "confortando-nos", no velho e forte sentido bíblico da palavra —,
enquanto contemplamos as riquezas insondáveis da divina misericórdia
manifestada no Senhor Jesus Cristo. Estes foram os pontos salientados por
Spurgeon na passagem que citamos no início, e eles são verdadeiros. À medida
que penetramos mais e mais profundamente nessa experiência de sermos
humilhados e exaltados, nosso conhecimento de Deus aumenta, e com ele nossa
paz, força e alegria. Que Deus nos ajude a pôr em uso nosso conhecimento sobre
ele, e que possamos todos, na verdade, "conhecer o Senhor".
18
o povo que conhece
seu Deus
Eu passeava ao sol com um professor que havia perdido efetivamente suas
possibilidades de avanço na carreira acadêmica, por ter entrado em choque com os
dignitários da Igreja a respeito do evangelho da graça. "Mas isso não tem
importância", afirmou, "pois eu conheci a Deus,é suficiente para lembrar que a ênfase de Naum não é peculiar
ao Antigo Testamento. Na realidade, ao longo de todo o Novo Testamento "a ira
de Deus", "a ira", ou simplesmente "ira" são termos quase técnicos para a ação
divina retributiva, qualquer que seja o meio empregado, contra quem o desafiou
(v. Rm 1:18; 2:5; 5:9; 12:19; 13:4,5; lTs 1:10; 2:16; 5:9; Ap 6:16,17; 16:19; Lc
21:22-24 etc).
1Arthur W. Pink, The attributes of God,
.
142
A Bíblia também não nos apresenta a ira de Deus apenas por meio de
declarações gerais como as citadas. A história bíblica, como vimos no último
capítulo, proclama em alta voz tanto a severidade como a bondade de Deus.
Assim como o O peregrino2 pode ser tido como um livro a respeito dos caminhos
que levam ao inferno, a Bíblia poderia ser chamada "o livro da ira de Deus", pois
está repleta de narrativas da retribuição divina, desde a maldição e expulsão de
Adão e Eva em Gênesis 3 até a derrota da Babilônia e o grande tribunal de
Apocalipse 17,18 e 20.
O tema da ira de Deus é claramente usado sem nenhuma inibição pelos
escritores bíblicos. Por que deveríamos senti-la então? Por que nos sentiríamos
obrigados a silenciar sobre o assunto quando a Bíblia trata dele? O que nos deixa
atrapalhados e constrangidos quando surge o assunto, fazendo-nos correr para
abafá-lo, evitando discuti-lo quando nos perguntam sobre ele? O que está por trás
de nossa hesitação e dificuldade?
Não estamos pensando agora em quem recusa a idéia da ira divina por não
estar preparado para levar a sério qualquer parcela da fé bíblica. Ao contrário,
pensamos nos muitos que se consideram "de dentro", crendo firmemente no amor
e na piedade de Deus, na obra redentora do Senhor Jesus Cristo, seguidores
resolutos das Escrituras nos demais assuntos e, no entanto, vacilam quando esta
questão é levantada. Qual o verdadeiro problema neste ponto?
Com o que se parece a ira de Deus
A raiz de nossa infelicidade parece ser a inquietante suspeita de que idéias sobre a
ira sejam de alguma forma indignas de Deus. Para alguns, por exemplo, "ira"
sugere perda do autocontrole, o ato de "ver tudo
2John Bunyan, São Paulo: Mundo Cristão, 1999.
143
vermelho", o que, em parte, se não no todo, é puramente irracional. Para outros,
sugere o furor da impotência consciênte, o orgulho ferido, ou simplesmente mau
gênio. Certamente, dizem, seria errado atribuir a Deus atitudes como essas.
A resposta é: de fato seria, mas a Bíblia não nos pede que façamos isso. Parece
haver aqui um mal-entendido quanto à linguagem antro-pomórfica das Escrituras,
isto é, a descrição das atitudes e emoções de Deus em termos comumente usados
para se referir aos seres humanos. A base dessa prática é o fato de que Deus fez o
ser humano a sua imagem, assim nossa personalidade e nosso caráter são mais
semelhantes à natureza de Deus que qualquer outra coisa conhecida. Entretanto,
quando as Escrituras falam de Deus antropomorficamente, não implica que as
limitações e imperfeições características das pessoas, criaturas pecadoras,
pertençam também às qualidades correspondentes de nosso santo Criador; ao
contrário, tem-se por certo que isso não acontece.
Assim, o amor divino, como a Bíblia o vê, nunca leva Deus a agir insensata,
impulsiva e imoralmente, como seu correlato humano muito freqüentemente nos
leva. Do mesmo modo, a ira de Deus na Bíblia jamais é caprichosa,
auto-indulgente, irritável e moralmente ignóbil, como em geral é a ira humana. Ao
contrário, a ira de Deus é a reação justa e necessária à perversidade moral. Deus
só se ira quando a situação o exige.
Mesmo entre os seres humanos, há o que chamamos indignação justa, embora
talvez seja raramente encontrada. Entretanto toda indignação de Deus é justa. Um
Deus que tivesse tanto prazer no mal quanto no bem seria um Deus bom? Um
Deus que não reagisse contra o mal em seu mundo seria moralmente perfeito? É
claro que não. Pois é exatamente esta reação contra o mal, parte necessária da
perfeição moral, que a Bíblia tem em vista quando fala da ira de Deus.
Para outros então, imaginar sobre a ira de Deus sugere crueldade. Pensam,
talvez, no que se conta sobre o famoso sermão de Jonathan Edwards, Pecadores
nas mãos de um Deus irado, usado para levar ao despertamento a cidade de
Enfield, na Nova Inglaterra, em 1741. Nesse sermão, Edwards, ao desenvolver o
tema de que "os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do
abismo do inferno",3 usou da mais vivida imagem da fornalha ardente para levar
sua congregação a sentir o horror de sua situação e reforçar assim sua conclusão:
"Portanto, todo aquele que está fora de Cristo desperte agora e fuja da ira
vindoura".4
Qualquer pessoa que leu esse sermão saberá que Augustus H. Strong, o grande
teólogo batista, estava certo quando salientou que as imagens apresentadas por
Edwards, embora claramente focalizadas, não passavam de imagens. Ou seja, que
Edwards "não considera o inferno um lugar composto de fogo e enxofre, mas uma
consciência culpada e acusada de falta de santidade e separação de Deus, as quais
são simbolizadas pelo fogo e pelo enxofre".5 Mas isto não satisfaz inteiramente as
críticas feitas a Edwards de que o Deus capaz de infligir uma punição que requer
tal linguagem descritiva deve ser um monstro terrível e cruel.
Isto tem fundamento? Duas considerações bíblicas mostram que não.
Em primeiro lugar, a ira de Deus na Bíblia é sempre judicial, isto é, a ira
144
do juiz aplicando a justiça. A crueldade é sempre imoral, mas a pressuposição
explícita de tudo o que vemos na Bíblia — e no sermão de Edwards com respeito
ao assunto — sobre os tormentos de quem experimentará a plenitude da ira de
Deus é que cada um recebe exatamente o que merece. O "dia da ira", diz Paulo, é
também o dia "quando se revelará o seu justo julgamento. Deus 'retribuirá a cada
um conforme o seu procedimento'" (Rm 2:5,6). O próprio Jesus, que na realidade
tinha mais para dizer sobre este assunto do que qualquer outra figura do Novo
Testamento, salientou que a recompensa seria proporcional ao merecimento
individual.
3São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, s/d, p. 9.
4Ibid., p. 24.
5Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 849.
145
Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele
deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a
conhece e pratica coisas merecedoras de castigo receberá poucos açoites.
A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado
muito mais será pedido.
Lucas 12:47,48
Diz Edwards no sermão já citado: Deus "fará que sofram na medida exata que sua
rigorosa justiça vier a requerer";6 mas é exatamente esse "estritamente exigido
pela justiça", ele insiste, que será tão doloroso para os que morrem na descrença.
Se se perguntar: pode a desobediência ao Criador realmente merecer um castigo
tão grande e doloroso? Qualquer pessoa que já esteja convicta de seu pecado sabe
sem sombra de dúvida que a resposta é afirmativa, e sabe também que aqueles
cuja consciência não foi ainda despertada para considerar, como disse Anselmo,7
"como o pecado é pesado" não estão qualificados para opinar.
Em segundo lugar, a ira de Deus na Bíblia é algo que as pessoas escolhem por
si mesmas. Antes de o inferno ser uma experiência imposta por Deus, é a
condição pelo qual a pessoa optou, afastando-se da luz que Deus faz brilhar em
seu coração para dirigi-lo por si. João escreveu: "quem não crê [em Jesus] já está
condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus". E continuou
explicando: "Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram
as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más" (Jo 3:18,19). É exatamente
isso o que João quer dizer: o ato decisivo da condenação sobre os perdidos reside
no juízo auto-imposto pela rejeição da luz que os alcança em Jesus Cristo e por
meio dele. Em última análise, tudo o que Deus faz subseqüentemente, aplicando a
ação judicial ao descrente, é coma finalidade de mostrar-lhe a conseqüência total
da escolha que fez e levá-lo a senti-la.
6Op. cit., p. 18.
7Anselmo da Cantuária (1033-1109), italiano nascido na Aosta, tornou-se sacerdote e mais tarde
foi feito arcebispo de Cantuária (Inglaterra). Famoso teólogo, filósofo e escritor do século xii.
146
A escolha básica sempre foi e continua sendo simples: responder à intimação
"Venham a mim [...] Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim" (Mt
11:28,29), ou não atendê-la; "salvar" sua vida evitando a censura de Jesus e
resistindo a sua ordem para assumir o controle da mesma ou "perdê-la" negando a
si mesmo, carregando sua cruz, tornando-se discípulo, deixando que Jesus atue
em sua vida como lhe aprouver. No primeiro caso, Jesus nos diz, podemos ganhar
o mundo, mas não tiraremos nenhum proveito disso, pois perderemos a alma,
enquanto, no segundo caso, perdendo a vida por amor a ele, a encontraremos (Mt
16:24-26).
O que significa, então, perder a alma? Para responder a essa pergunta Jesus usa
suas figuras solenes: Geena ("inferno", em Mc 9:47 e em outros dez textos do
Evangelho), o vale fora de Jerusalém onde o lixo era queimado; o verme que não
morre, imagem, ao que nos parece, da dissolução contínua da personalidade
mediante a consciência acusadora; fogo, pela agonizante consciência do desprazer
de Deus; trevas exteriores, pelo conhecimento da perda, não apenas de Deus, mas
de tudo o que é bom e tudo o que torna a vida digna de ser vivida; ranger de
dentes pela autocondenação e repulsa íntima.
Estas coisas são, sem dúvida, terrivelmente sombrias, embora os que estão
convencidos do pecado conheçam um pouco de sua natureza. Tais punições,
contudo, não são arbitrárias, ao contrário, representam o desenvolvimento
consciente rumo à situação que a pessoa escolheu para si. O descrente preferiu ser
independente, sem Deus, desafiando-o, tendo-o contra si, e terá, então, o que
prefere. Ninguém permanecerá sob a ira de Deus a menos que o queira. A essência
da ação divina na ira é dar às pessoas o que escolheram, com todas suas
implicações; nada mais e nada menos. A presteza de Deus em respeitar a escolha
humana em toda a extensão pode parecer desconcertante e mesmo aterradora, mas
é claro que sua atitude aqui é essencialmente justa, e muito diferente do
sofrimento infligido arbitrária e irresponsavelmente — o que consideramos
crueldade.
Precisamos, portanto, lembrar que a chave da interpretação para muitas
passagens bíblicas, no geral majoritariamente figuradas, que mostram o Rei e Juiz
divino agindo contra o ser humano com ira e vingança, está em compreender que
o que Deus faz nada mais é que confirmar o veredicto já proclamado sobre si
mesmos por aqueles aos quais "visitou", tendo em vista o caminho que resolveram
seguir. Isto aparece na narrativa do primeiro ato da ira de Deus para com ser
humano, em Gênesis 3, onde vemos que Adão resolveu por si mesmo se esconder
de Deus e sair de sua presença antes mesmo que Deus o expulsasse do jardim; e
esse mesmo princípio é usado em toda a Bíblia.
A IRA EM ROMANOS
O tratamento clássico dado no Novo Testamento à ira divina é encontrado na
carta aos romanos, que Lutero e Calvino consideravam a porta de entrada da
Bíblia e que na verdade contém referências mais explícitas sobre a ira de Deus
147
que as encontradas nas demais cartas de Paulo. Terminaremos este capítulo
analisando o que esta carta nos diz sobre isso: um estudo que servirá para
esclarecer alguns pontos já estudados.
1. O significado da ira de Deus. Em Romanos a ira de Deus denota sua ação
resoluta na punição do pecado. É tanto a expressão de uma atitude pessoal e
emocional do Jeová triúno quanto é de seu amor pelos pecadores: é a
manifestação ativa de seu ódio à descrença e à perversidade moral. A expressão
ira pode referir-se especificamente à futura manifestação do auge desta aversão no
"dia da ira" (2:5; 5:9), mas pode também se referir aos acontecimentos e processos
atuais da providência nos quais se pode discernir a retribuição ao pecado. Assim,
a autoridade que condena os criminosos é "serva de Deus, agente da justiça para
punir quem pratica o mal" (13:4). A ira de Deus é sua reação ao nosso pecado e "a
Lei produz a ira" (4:15) porque ela incita o pecado latente em nós e multiplica a
transgressão, comportamento que evoca a ira (5:2; 7:7-13). Como reação ao
pecado, a ira de Deus é expressão de sua justiça.
Paulo rejeita, indignado, a sugestão de que "Deus é injusto por aplicar a sua
ira" (3:5). O apóstolo descreve as pessoas "preparadas para a perdição" como
"vasos da ira", isto é, objetos da ira, no mesmo sentido que ele em outra parte as
chama de servos do mundo, da carne e do demônio, "merecedores da ira" (Ef 2:3).
Tais pessoas simplesmente por serem o que são atraem sobre si a ira de Deus.
2. A revelação da ira de Deus. "Porquanto, a ira de Deus é revelada dos céus
contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela
injustiça" (1:18). O tempo do verbo no presente — "é revelada" — implica
manifestação constante, agindo durante todo o tempo; "dos céus", que atua como
contraste ao "Evangelho" nos versículos anteriores, implica a manifestação
universal atingindo quem não foi ainda alcançado pelo Evangelho.
Como se processa a revelação? Ela é impressa diretamente na consciência de
cada pessoa: os que Deus "entregou a uma disposição mental reprovável" (1:28)
para se entregar ao mal entretanto conhecem "o justo decreto, de que as pessoas
que praticam tais coisas merecem a morte" (1:32). Nenhuma pessoa é inteiramente
ignorante sobre o julgamento futuro. Essa revelação imediata é confirmada pela
palavra revelada no Evangelho, que nos prepara para as boas novas falando-nos a
respeito das más notícias do "dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo
julgamento" (2:5).
E isso não é tudo. Aos que têm olhos para ver, os sinais da ira de Deus
aparecem aqui e agora em situações reais da humanidade. Em todas as partes os
cristãos observam um tipo de degeneração agindo constantemente — do
conhecimento de Deus à adoração do que não é Deus, e da idolatria à imoralidade
da pior espécie, de modo que cada geração cria uma nova safra com a "impiedade
e a injustiça dos homens". Neste declínio temos de reconhecer a ação presente da
ira divina, em um processo de rigidez judicial e cancelamento de restrições pelo
qual as pessoas se entregam a suas preferências corruptas e põem em prática, cada
vez mais desinibidamente, a concupiscência de seu coração pecador. Paulo
148
descreve o processo, como ele conhecia a partir da Bíblia e do mundo de seus
dias, em Romanos 1:19-31. As frases principais são: "Deus os entregou à
impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos do seu coração", "Deus os
entregou a paixões vergonhosas", "ele os entregou a uma disposição mental
reprovável" (1:24,26,28).
Se você quer a prova de que a ira de Deus, revelada como um fato em sua
consciência, já está agindo como uma força no mundo, Paulo lhe diria que basta
olhar a seu redor. Você verá a que tipo de coisas Deus entregou os homens. Hoje,
21 séculos após sua carta ter sido escrita, quem poderá desmentir suas teses?
3. O livramento da ira de Deus. Nos três primeiros capítulos de Romanos,
Paulo está preocupado em lançar-nos a pergunta: se "a ira de Deus é revelada dos
céus contra toda impiedade e injustiça dos homens", e "o dia da ira virá", quando
Deus "recompensará cada um conforme as suas obras", como podemos escapar de
tal desastre? A questão nos oprime porque estamos todos "debaixo do pecado";
"Não há nenhum justo, nem um sequer"; "Todo o mundo" está "sob o juízo de
Deus" (3:9,10,19).
A lei não nos pode salvar, pois seu único efeito é estimular o pecado e nos
mostrar como estamos longe de cumprir a justiça. A pompa exterior da
religião também não nos pode salvar, assim como a circuncisão não pode
salvar o judeu. Haverá então algum livramento da ira futura? Existe, e Paulo sabe
disso. "Como agora fomos justificados por seu sangue", Paulo proclama, "muito
mais ainda, por meio dele, seremossalvos da ira de Deus!" (5:9). Sangue de
quem? O sangue de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. E o que quer dizer
"justificado"? Significa ser perdoado e aceito como justo. Como somos
justificados? Pela fé, isto é, pela confiança total na pessoa e obra de Jesus. E como
o sangue de Jesus, sua morte sacrificial, constitui a base da justificação? Paulo
explica isso em Romanos 3:24,25, onde ele fala da "redenção que há em Cristo
Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu
sangue". Que é propiciação? É o sacrifício que afasta a ira pela expiação do
pecado e pelo cancelamento da culpa.
Isto, como veremos mais detalhadamente adiante, é o verdadeiro núcleo do
Evangelho: que Jesus Cristo, pela virtude de sua morte na cruz como nosso
substituto, levando nossos pecados, "é a propiciação pelos nossos pecados" (1Jo
2:2). Entre nós, os pecadores, e as nuvens carregadas da ira divina, levanta-se a
cruz do Senhor Jesus. Se somos de Cristo, pela fé, então estamos justificados pela
sua cruz, e a ira não nos atingirá quer aqui quer no futuro. Jesus "nos livra da ira
vindoura" (1Ts 1:10).
A REALIDADE SOLENE
A verdade, sem dúvida alguma, é que o assunto da ira divina no passado foi usado
especulativa, irreverente e mesmo maldosamente. Não há dúvida de que houve
quem pregasse sobre a ira e a maldição com os olhos secos e sem nenhum
sentimento no coração. O fato de pequenas seitas enviarem com alegria o mundo
149
todo para o inferno, com exceção de si mesmas, com razão desagradou a muitos.
Entretanto, se queremos conhecer a Deus, é vital que enfrentemos a verdade a
respeito de sua ira, não importa quão fora de moda possa estar ou quão forte tenha
sido nosso preconceito contra ela. De outro modo, não entenderemos o Evangelho
que salva da ira, nem a realização propiciatória da cruz, nem a maravilha do amor
redentor de Deus. Nem ainda entenderemos a mão divina na história e sua ação
entre nosso povo. Não saberemos o que pensar sobre o Apocalipse, nem nosso
evan-gelismo terá a urgência imposta por Judas: "a outros, salvem, arrebatando-os
do fogo" (v. 23). Nem ainda nosso conhecimento de Deus ou o culto a ele estará
de acordo com sua Palavra. Escreveu Arthur W. Pink:
A ira de Deus é a perfeição do caráter divino sobre o qual precisamos
meditar freqüentemente. Primeiro, para que nosso coração possa ficar
devidamente impressionado com o ódio divino contra o pecado. Temos a
tendência de dar pouca atenção ao pecado, encobrir sua hediondez,
desculpá-lo; mas, quanto mais estudamos e pensamos no horror que Deus
tem pelo pecado e em sua terrível vingança contra ele, estaremos mais
aptos a compreender sua infâmia. Segundo, criar o verdadeiro temor a
Deus. em nossa alma para que "sejamos agradecidos e, assim, adoremos a
Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso 'Deus é
fogo consumidor'" (Hb 12:28,29). Não podemos servi-lo "aceitavelmente"
a menos que haja "reverência" por sua impressionante majestade e "temor"
por sua justa ira, e tudo fica mais fácil quando nos lembramos
freqüentemente de que "nosso 'Deus é fogo consumidor'". Terceiro, levar
nossa alma ao fervoroso louvor (a Jesus Cristo) por ter-nos livrado da "ira
vindoura" (1Ts 1:10). Nossa presteza ou relutância em meditar sobre a ira
de Deus torna-se um teste seguro para saber se nosso coração está
realmente dedicado a ele.8
Pink está certo. Se quisermos conhecer verdadeiramente a Deus e ser conhecidos
por ele devemos pedir-lhe que nos ensine a considerar a solene realidade de sua
ira.
8
150
Bondade e severidade
"Portanto, considere a bondade e a severidade de Deus", escreveu Paulo em
Romanos 11:22. A palavra-chave neste ponto é o e.O apóstolo explica a relação
entre judeus e gentios no plano de Deus, e acabou de recordar aos gentios que
Deus rejeitara a grande massa de judeus, seus contemporâneos, por sua
incredulidade, enquanto na mesma época levava muitos pagãos à fé salvadora,
como fizera com eles. Paulo chama agora sua atenção para os dois lados do
caráter de Deus que aparecem nesse procedimento. "Portanto, considere a
bondade e a severidade de Deus: severidade para com aqueles que caíram, mas
bondade para com você". Os cristãos de Roma não deviam contar apenas com a
bondade de Deus, nem só com sua severidade, mas considerar as duas em
conjunto. Ambas são atributos, aspectos de seu caráter. Aparecem lado a lado em
todo o processo da graça e, para que se conheça verdadeiramente a Deus, devem
ser juntamente conhecidas.
Papai Noel e o desespero gigante
Desde que Paulo escreveu, creio que nunca houve mais necessidade de explorar
esse ponto que hoje. A confusão e o desnorteamento atuais a respeito do
significado da fé em Deus é quase impossível de descrever. Os homens dizem crer
em Deus, mas não têm idéia de quem seja aquele em quem crêem nem que
diferença pode fazer acreditar nele.
O cristão que quiser ajudar os companheiros que se debatem com o que um
tratado famoso e antigo costumava denominar Segurança, certeza e alegria1 fica
constantemente confuso, sem saber por onde começar. A fantástica mistura de
idéias sobre Deus com que se depara quase o faz perder o fôlego, e ele pergunta:
Como as pessoas puderam chegar a tal confusão? Como ela começou? Por onde
começar para tirá-los dessa situação?
Para essas perguntas há diversos tipos de respostas complementares. Uma delas
é que as pessoas começam a seguir uma forma particular de religião em lugar de
aprender sobre Deus na própria Palavra. Devemos tentar levá-las a esquecer o
orgulho e, em alguns casos, as idéias erradas sobre as Escrituras que originaram
sua atitude, e orientá-las a fundamentar suas convicções daí por diante não em
seus sentimentos, mas no que a Bíblia diz.
151
A segunda resposta é que hoje as pessoas consideram todas as religiões
iguais ou equivalentes e extraem suas idéias sobre Deus tanto de fontes pagãs
como cristãs. É preciso esforçar-nos para mostrar ao povo a singularidade e
finalidade do Senhor Jesus Cristo, a última palavra de Deus ao ser humano.
A terceira resposta é que as pessoas deixaram de reconhecer a realidade de sua
pecaminosidade, o que comunica um grau de perversidade e inimizade contra
Deus sobre tudo o que pensam e fazem. É nosso dever levá-los a reconhecer esse
fato a respeito de si mesmos e assim fazê-los menos autoconfiantes e abertos à
correção pela palavra de Cristo.
A quarta resposta, não menos fundamental que as anteriores, é que as pessoas
têm hoje o hábito de dissociar a idéia da bondade de Deus de
1Referência a um artigo escrito por volta do ano 1900, com o título acima, por George Cutting
(1834-1934).
152
sua severidade. Precisamos procurar demovê-las desse hábito, pois enquanto
persistirem nele o resultado será sempre a descrença.
O hábito em questão, primeiramente aprendido de alguns talentosos teólogos
alemães do século xrx, contagiou todo o protestantismo ocidental. Rejeitar todas
as idéias da ira divina e do julgamento, e presumir que o caráter de Deus,
mal-representado (sem dúvida!) em muitas partes da Bíblia, é realmente de
indulgente benevolência sem nenhuma severidade, é a regra quase sem exceção
entre as pessoas comuns hoje.
É verdade que alguns teólogos, reagindo a esse pensamento, têm tentado
reafirmar a verdade da santidade de Deus, mas seus esforços parecem tímidos e
suas palavras têm caído, na maior parte das vezes, em ouvidos moucos. Os
protestantes modernos não desistirão de sua adesão "iluminada" à doutrina de um
Papai Noel celestial simplesmente porque um Brunner2 ou um Niebuhr3
suspeitam de que a história não seja realmente assim. A certeza de que não há
mais nada a dizer sobre Deus (caso ele exista) além de ser infinitamente paciente e
bondoso é de tão difícil eliminação quanto uma erva daninha. Uma vez que ela
tenha criado raízes, o cristianismo, no verdadeiro sentido da palavra, simples-
mente definhará, pois sua essência é a fé no perdão dos pecados pela obra
redentora de Cristo na cruz.
Partindo da teologia de PapaiNoel, entretanto, o pecado não traz problema
algum e o sacrifício se torna desnecessário. A generosidade de Deus se estende
tanto aos que desobedecem a suas ordens quanto aos que as cumprem. A
2Emil Brunner (1889-1966), teólogo neo-ortodoxo, membro da Igreja Suíça. Acreditava que as
pessoas poderiam conhecer a Deus por meio do que denominava "teologia natural". O foco do
trabalho de Brunner era a ética social.
3Reinhold Niebuhr (1892-1971), o mais proeminente pastor neo-ortodoxo dos Estados Unidos. Foi
professor de teologia no Union Theological Seminary. Acreditava que a teologia cristã era mais
um conjunto de doutrinas humanas que divinas, e que as narrativas bíblicas eram mais míticas que
reais. Além disso, Jesus possuía uma natureza pecaminosa.
153
idéia de que a atitude de Deus para comigo é afetada pelo fato de eu fazer ou não
o que ele diz não tem lugar na mente da pessoa comum. Qualquer tentativa de
mostrar a necessidade do temor na presença de Deus e do tremor diante de sua
palavra é tida por impossível, fora de moda, "vitoriana", "puritana" e "subcristã".
Entretanto, a teologia de Papai Noel porta em si mesma a semente do
próprio colapso, pois não pode fazer frente à realidade do mal. Não foi por
acidente que, ao espalhar-se a crença no "bom Deus" do liberalismo, mais ou
menos no começo do século xx, o assim chamado "problema do mal" (que antes
não era considerado um problema) de repente alcançou notoriedade, como a
principal preocupação da apologética cristã. Isto era inevitável, pois não é possível
ver a boa vontade de um Papai Noel celestial em coisas que causam sofrimento e
destruição, como a crueldade, a infidelidade conjugai ou a morte nas estradas ou
de câncer no pulmão. O único modo de salvar o conjunto da teologia liberal sobre
Deus é dissociá-lo dessas coisas e negar que ele tenha qualquer relação direta com
elas ou controle sobre elas. Em outras palavras, negam sua onipotência e domínio
sobre o mundo.
A teologia liberal tomou esse rumo há uns sessenta anos e as pessoas hoje a
aceitam. Assim ele é visto como um tipo de Deus que tem boas intenções, mas
nem sempre pode afastar seus filhos de problemas e sofrimentos. Quando vêm as
dificuldades não há o que fazer a não ser aceitá-las. Desse modo, por um irônico
paradoxo, a fé no Deus todo-bondade e nada severo leva as pessoas a assumirem
uma atitude fatalista e pessimista diante da vida.
Eis aí, então, uma das encruzilhadas religiosas de nossos dias, levando (como
de um modo ou de outro o fazem) para a terra do "Castelo da Dúvida" e do
"Gigante Desespero".4 Como pode voltar para a estrada certa quem tem trilhado
este caminho? Só aprendendo a relacionar a bondade de Deus com sua severidade,
de acordo com as Escrituras. Nosso propósito aqui é esboçar a essência do
ensinamento bíblico sobre este ponto.
4Figuras encontradas em O peregrino.
154
A BONDADE DE DEUS
A bondade, tanto em Deus como no ser humano, significa o que é admirável,
atraente e digno de louvor. Quando os escritores bíblicos chamam Deus bom, em
geral estão pensando nas qualidades morais que levam seu povo a chamá-lo
perfeito, e em particular na generosidade que os leva a chamá-lo misericordioso e
gracioso e a falar de seu amor. Vamos pensar nisso um pouco.
A Bíblia atesta constantemente a perfeição moral de Deus, como declarado por
suas palavras e pela experiência de seu povo. Quando Deus se colocou junto a
Moisés no Sinai e "proclamou o seu nome [revelou o caráter]: o Senhor [Deus
como o Jeová de seu povo, o soberano salvador que disse de si mesmo "Eu sou o
que sou", na aliança da graça], o que ele declarou foi isto: "... Senhor, Senhor,
Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que
mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado.
Contudo, não deixa de punir o culpado..." (Êx 34:5-7).
Essa proclamação da perfeição moral divina foi executada como cumprimento
de sua promessa de fazer toda a sua bondade passar diante de Moisés (Êx 33:19).
A bondade de Deus, no sentido mais amplo da soma total de suas excelências
manifestadas, se constitui de todas as perfeições específicas aqui mencionadas e
tudo o mais que as acompanha — a fidelidade e lealdade de Deus, sua justiça e
sabedoria infalíveis, sua brandura e paciência e completa suficiência para com
todos os que penitentemente buscam seu auxílio, e sua nobre generosidade
oferecendo às pessoas o sublime destino da convivência com ele em santidade e
amor.
Quando Davi declarou: "Este é o Deus cujo caminho é perfeito" (2Sm 22:31;
Sl 18:30), o que ele quis dizer é que o povo de Deus descobre pela experiência,
como aconteceu com ele próprio, que a bondade de Deus nunca é menor do que
ele afirmou ser. "Este é o Deus cujo caminho é perfeito; a palavra do Senhor é
comprovadamente genuína. Ele é escudo para todos os que nele se refugiam".
Todo o salmo é uma declaração retrospectiva de como Davi havia provado por si
mesmo a fidelidade de Deus a suas promessas e sua suficiência como escudo
protetor. Todos os filhos de Deus que não tenham perdido seu direito inato por
causa da apostasia desfrutam uma experiência semelhante.
(Se você nunca leu esse salmo com muito cuidado, perguntando a si mesmo a
cada instante quantas vezes seu testemunho se iguala ao de Davi, insisto para que
faça isso imediatamente, e depois repita outras vezes de tempos em tempos. Você
descobrirá que essa é uma disciplina salutar, ainda que perturbadora.)
Entretanto, há mais para dizer. Em meio ao aglomerado das perfei-ções morais
divinas, há uma em particular para a qual o termo "bondade" aponta. Trata-se da
qualidade que Deus separou especialmente de todas as outras quando,
proclamando "toda a sua bondade" a Moisés, declarou-se "misericordioso, cheio
de amor e de fidelidade" (Êx 34:6). A qualidade aqui referida é a generosidade, e
quer dizer dar aos outros sem nenhum interesse mercenário, sem limitar-se ao que
o receptor merece, mas indo sempre muito além. A generosidade expressa o
simples desejo de que os outros tenham o que necessitam para ser felizes. É, por
155
assim dizer, o ponto focai da perfeição moral divina, a qualidade que determina
como as outras excelências de Deus devem ser manifestadas.
Deus é "abundante em benevolência" — ultro bônus, como os teólogos latinos
costumavam dizer há tempos, espontaneamente bom, trans-bordante de
generosidade. Os teólogos da escola reformada usam a palavra graça (bondade
imerecida) do Novo Testamento para cobrir todos os atos da generosidade divina,
de qualquer espécie, e assim distinguir a graça comum da "criação, preservação e
todas as bênçãos da vida" da graça especial manifestada no processo da salvação.
O ponto de contraste entre comum e especial é que todos se beneficiam da
primeira, mas nem todos são alcançados pela última. A forma bíblica de fazer esta
distinção seria dizer que Deus é bom para todos em alguns momentos e para
alguns, todo o tempo.
A generosidade de Deus em conceder as bênçãos comuns é louvada no salmo
145: "O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas
[...] Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido
tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos" (v.
9,15,16; cf. At 14:17). O ponto destacado pelo salmista é que, pelo fato de Deus
controlar tudo o que acontece no mundo, cada refeição, prazer, bem, cada réstia de
sol ou noite de sono, cada momento de saúde e segurança, tudo o que sustenta e
enriquece a vida é dádiva divina. E como são abundantes essas dádivas! "Conta as
bênçãos, dize quantas são", diz o coro de um de nossos hinos, e todos os que
começarem realmente a anotar apenas as bênçãos mais comuns logo sentirão a
força da linha seguinte: "Pois verás surpreso quanto Deus já fez".5 Mas as
misericórdias de Deus no plano natural, embora abundantes, são encobertas
pelas maiores misericórdias da redenção espiritual.
Quando os cantores de Israel convocavam o povo para dar graças a Deus
porque "[...] ele é bom; o seu amor dura para sempre"(Sl 106:1; 107:1; 118:1;
136:1; cf. 100:4,5; 2Cr 5:13; 7:3; Jr 33:11), estavam geralmente pensando nas
misericórdias redentoras, como "as obras poderosas" que libertaram Israel do
Egito (Sl 106:2; 136), sua disposição de ter clemência e perdoar quando seus
servos caem em pecado (Sl 86:5) e a disponibilidade de ensinar aos homens seu
caminho (Sl 119:68). A bondade a que Paulo estava se referindo em Romanos
11:22 era a misericórdia de Deus em enxertar os gentios "selvagens" em sua
oliveira; isto é, na comunidade dos salvos, do povo da aliança.
A exposição clássica da bondade divina está no salmo 107. Aqui, para reforçar
seu convite a dar "graças ao Senhor, porque ele é bom", o sal-mista tira
conclusões gerais das antigas experiências de Israel no cativeiro e da necessidade
pessoal dos israelitas e dá quatro exemplos de como as pessoas "Na sua aflição,
clamaram ao Senhor, e ele os livrou da tribu-lação" (v. 6,13,19,28).
A primeira experiência é Deus livrando os indefesos de seus inimigos e
tirando-os da aridez do deserto para conduzi-los a um lar. A segunda é Deus
livrando das "trevas e da sombra mortal" os que por sua rebeldia
156
5Hino n°. 118 do Hinãrio (da Igreja Anglicana), Porto Alegre: ieb, 1962, p. 118.
157
haviam sido levados pelo próprio Senhor nessa condição. A terceira é Deus
curando as doenças daqueles "tolos" que ele próprio havia punido por causa de
sua negligência. A quarta é Deus protegendo os viajantes quando acalmou a
tempestade que poderia afundar seus navios. Cada episódio termina com este
refrão: "dêem graças ao Senhor por seu amor leal e por suas maravilhas em favor
dos homens" (v. 8,15,21,31). O salmo todo é um panorama majestoso da atuação
da bondade divina transformando as vidas humanas.
A SEVERIDADE DE DEUS
O que dizer então sobre a severidade de Deus? A palavra que Paulo usa em
Romanos 11:22 literalmente significa "cortar fora" e denota a retirada decisiva de
sua bondade dos que a haviam rejeitado. Isto nos faz lembrar de um fato sobre
Deus que ele próprio declarou ao proclamar seu nome a Moisés, ou seja, que,
embora fosse "paciente, cheio de amor e de fidelidade", ele "não deixa de punir o
culpado", isto é, o culpado obstinado e impenitente (Êx 34:6,7).
O ato de severidade citado por Paulo foi o de Deus rejeitar a Israel como um
todo — cortando-o da oliveira, da qual ele era o ramo natural —, porque não creu
no Evangelho de Jesus Cristo. Israel havia abusado da bondade de Deus ao
desprezar a manifestação concreta de sua bondade em seu Filho, e a reação de
Deus foi rápida, ele rejeitou Israel. Paulo aproveita essa ocasião para alertar seus
leitores gentios cristãos de que, se eles se desviassem como Israel havia feito,
Deus também os rejeitaria: "... Eles, porém, foram cortados devido à
incredulidade, e você permanece pela fé. Não se orgulhe, mas tema. Pois, se Deus
não poupou os ramos naturais, também não poupará você" (Rm 11:20,21).
O princípio aqui aplicado por Paulo é que por trás de toda manifestação de
bondade divina encontra-se uma ameaça de severidade no julgamento, caso essa
bondade seja desprezada. Se não deixarmos que ela nos conduza a Deus com
gratidão e amor, seremos os únicos culpados quando Deus se voltar contra nós.
Em capítulos anteriores de Romanos, Paulo se dirigiu ao crítico da natureza
humana, autocomplacente e não-cristão, da seguinte forma: "não reconhecendo
que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?" (Rm 2.4). John Bertram
Phillips assim parafraseou corretamente: "tem o objetivo de conduzi-los ao
arrependimento". "Portanto, você, que julga os outros, é indesculpável; pois está
condenando a si mesmo naquilo em que julga".
Deus, porém, tem suportado suas faltas, as mesmas faltas que você considera
dignas de juízo quando as vê em outros, e você deveria mostrar-se muito humilde
e agradecido. Se, no entanto, enquanto estiver criticando outros, deixar de se
voltar para Deus, então "... será que você despreza as riquezas da sua bondade,
tolerância e paciência", "por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado,
você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se
revelará o seu justo julgamento" (Rm 2:1-5).
De modo semelhante, Paulo fala aos cristãos romanos que a bondade de Deus
lhes pertence sob certas condições "[...] desde que permaneça na bondade dele. De
158
outra forma, você também será cortado" (Rm 11:22). É o mesmo princípio em
ambos os casos. Os que se negam a responder à bondade de Deus com
arrependimento, fé, confiança e submissão a sua vontade não podem
surpreender-se ou reclamar se, cedo ou tarde, os sinais da bondade divina forem
retirados, se a oportunidade de se beneficiar deles terminar e vier a retribuição.
Deus, porém, não é impaciente em sua severidade, ao contrário. Ele é "tardio
em irar-se" (Ne 9:17; v.v. ra; Sl 103:8, 145:8; Jl 2:13; Jn 4:2) e "paciente" (Êx
34:6, Nm 14:18; Sl 86:15). A Bíblia fala muito mais sobre a paciência e
clemência de Deus em adiar a merecida condenação a fim de ampliar o dia da
graça e dar mais oportunidade para o arrependimento. Pedro nos lembra como,
nos dias em que a terra estava corrompida e clamando pelo julgamento, mesmo
assim "Deus esperava pacientemente" (1Pe 3:20), uma referência provável aos
120 anos de adiamento ao dilúvio (como parece ter havido) mencionado em
Gênesis 6:3.
Em Romanos 9:22, Paulo nos fala que durante todo o curso da história Deus
"suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a
destruição". Pedro também explica a seus leitores do primeiro século que a razão
de não ter sido ainda cumprida a promessa da volta de Cristo para julgar é que
Deus "é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos
cheguem ao arrependimento" (2Pe 3:9). A mesma explicação provavelmente se
aplica aos dias de hoje. A paciência de Deus dando tempo para o arrependimento
(Ap 2:5) antes que o julgamento finalmente aconteça é uma das maravilhas da
história bíblica. Não é de surpreender que o Novo Testamento destaque a
paciência como virtude e dever cristão. Essa é na verdade parte da imagem de
Deus (Gl 5:22; Ef 4:2; Cl 3:12).
Nossa resposta
Dessa linha de pensamento podemos tirar pelo menos três lições.
1. Apreço pela bondade de Deus. Conte suas bênçãos. Aprenda a não tomar os
benefícios naturais, dons e prazeres como certos, e a agradecer a Deus por todos
eles. Não despreze a Bíblia ou o Evangelho de Jesus Cristo, negligenciando
ambos. A Bíblia nos mostra o Salvador que sofreu e morreu para que os pecadores
pudessem se reconciliar com Deus. O Calvário é a medida da bondade de Deus.
Pense seriamente nisso. Faça a si mesmo a pergunta do salmista: "Como posso
retribuir ao Senhor toda a sua bondade para comigo?". Busque a graça para dar a
mesma resposta dele: "Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do
Senhor [...] Senhor, sou teu servo [...] Cumprirei para com o Senhor os meus
votos..." (Sl 116:12-18).
2. Apreço pela paciência de Deus. Pense como ele o tem tolerado e ainda
continua a fazê-lo, quando grande parte de sua vida é indigna dele e você tem
merecido realmente sua rejeição. Aprenda a maravilhar-se com a paciência divina.
159
Peça a Deus que o ajude a imitá-la em seu relacionamento com os outros. Procure
não provocar mais sua paciência.
3. Apreço pela disciplina de Deus. Ele é quem o sustenta e também a tudo o
que o cerca; todas as coisas vêm dele e você tem provado a bondade divina
todos os dias de sua vida. Essa experiência tem levado você ao
arrependimento e à fé em Cristo? Em caso negativo, você está menosprezando a
Deus e colocando-se sob a ameaça de sua severidade. Se, porém, como disse
Whitefield, ele "põe espinhos em sua cama" é apenas para fazê-lo levantar-se e
buscar misericórdia.
Se você é um verdadeiro cristão, e ele ainda põe espinhos em sua cama, é
apenas para impedir que você caia na complacência e para assegurar que você
"permaneça na sua benignidade", deixando que seu sentido de necessidade o faça
voltar constantemente, buscando sua face, com fé e humildade. Esta bondosa
disciplina,na qual a severidade de Deus nos toca por uns momentos no contexto
de sua bondade, tem a finalidade de impedir que soframos a violência de sua
severidade separada desse contexto. É a disciplina do amor, e assim deve ser
recebida. "Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor" (Hb 12:5); "Foi bom
para mim ter sido castigado, para que aprendesse os teus decretos" (Sl 119:71).
160
O Deus ciumento
"O Deus ciumento" não soa ofensivo? Reputamos o ciúme por defeito, um dos
piores e mais destrutivos que existem; ao passo que Deus, estamos certos, é
perfeitamente bom. Como, então, pode alguém imaginar que haja ciúme nele?
O primeiro passo para responder a essa questão é tornar bem claro que não se
trata de imaginar alguma coisa. Se estivéssemos imaginando um Deus, então é
claro que o descreveríamos apenas com as características que admiramos, e o
ciúme não faz parte do quadro. Ninguém imaginaria um Deus ciumento.
Entretanto, não estamos criando uma idéia de Deus a partir de nossa imaginação,
estamos, ao contrário, procurando ouvir as palavras das Sagradas Escrituras, em
que Deus fala a verdade a respeito de si mesmo. Pois Deus, nosso Criador, a quem
jamais poderíamos descobrir por meio da imaginação, revelou-se. Falou e tem
falado por muitos agentes e mensageiros humanos e, sobretudo, por meio de seu
Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Ele também não deixou que sua mensagem e a
lembrança de seus atos poderosos fossem deturpadas e se perdessem mediante os
processos distorcedores da transmissão oral. Deixou-os registrados de forma
permanente. Na Bíblia — "o registro público" de Deus, como Calvino a
denominava — descobrimos Deus falando diversas vezes de seu ciúme.
Quando Deus tirou Israel do Egito levando o povo para o Sinai,
dando-lhes sua lei e aliança, seu ciúme foi um dos primeiros fatos a respeito
de si mesmo que lhes ensinou. A sanção do segundo mandamento, pronunciado
em voz audível para Moisés nas "tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus" (Êx
31:18), era este: "porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso" (20:5). Mais
tarde, Deus falou a Moisés de modo mais direto: "porque o Senhor, cujo nome é
Zeloso, é de fato Deus zeloso" (34:14).
Por surgir neste ponto, este último versículo é muito significativo, pois o tema
básico do Êxodo, como sempre vemos nas Escrituras, é tornar o nome de Deus
conhecido, sua natureza e seu caráter. No capítulo 3, Deus declarou seu nome
como "Eu Sou o que Sou", ou "Eu Sou" simplesmente, e no capítulo 6, como
"Jeová" ("o Senhor"). Estes nomes se referem a ele como auto-existente,
autodeterminado e soberano. A seguir, no capítulo 34:5, Deus proclamou seu
nome a Moisés dizendo-lhe: o "Senhor" é "compassivo e misericordioso, paciente,
cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a
161
maldade, a rebelião e o pecado...". Este era "um nome" que determinava sua glória
moral.
Finalmente, sete versículos adiante, como parte da mesma conversa com
Moisés, Deus resumiu e completou a revelação declarando-se "Zeloso". Esta
palavra inesperada determina claramente uma qualidade divina que, longe de ser
incoerente com a exposição anterior de seu nome, foi de certo modo o resumo de
tudo. Já que essa qualidade era no verdadeiro sentido "seu nome", era importante
que seu povo a entendesse.
Aliás, a Bíblia fala bastante sobre o ciúme de Deus. Há diversas referências a
ele no Pentateuco (Nm 25:11; Dt 4:24; 6:15; 29:20; 32:16,21), nos livros
históricos 0s 24:19; 1Rs 14:22), nos proféticos (Ez 8:3-5; 16:38,42; 23:25; 36:5-7;
38:19; 39:25; Jl 2:18; Na 1:2; Sf 1:18; 3:8; Zc 1:14; 8:2) e nos Salmos (78:58;
79:5). O ciúme é constantemente apresentado como motivo para agir, seja em ira
seja em misericórdia: "serei zeloso pelo meu santo nome" (Ez 39:25); "Eu tenho
sido muito zeloso com Jerusalém e Sião" (Zc 1:14); "O Senhor é Deus zeloso e
vingador!" (Na 1:2).
No Novo Testamento, Paulo pergunta aos presunçosos coríntios: "Porventura
provocaremos o ciúme do Senhor?" (1Co 10:22), e está provavelmente certa a
tradução da difícil sentença de Tiago 4:5: "o Espírito que ele fez habitar em nós
tem fortes ciúmes?".
A NATUREZA DO CIÚME DIVINO
Perguntamos: qual a natureza do ciúme divino? Como pode o ciúme constituir
virtude em Deus quando é defeito nos humanos? A perfeição divina é motivo de
louvor, mas como podemos louvar a Deus por ser ciumento?
A resposta a essas questões será encontrada se tivermos dois fatos em mente:
1. As declarações bíblicas sobre o ciúme de Deus são antropomorfismos.
Trata-se de descrições de Deus em linguagem extraída da vida humana. A Bíblia
está cheia de antropomorfis-mos: braço, mão, dedo, ouvidos, vista, olfato, ternura,
raiva, arrependimento, riso, alegria e assim por diante. Deus usa esses termos para
automencionar-se porque se trata da linguagem usada em nossa vida pessoal. É o
meio mais correto para comunicar o que pensamos sobre ele. Deus é pessoal,
como nós somos, diferentemente de tudo o mais na criação. De todas as criaturas
físicas, apenas ser humano, foi feito à imagem de Deus. Então, já que nos
assemelhamos a Deus mais que a qualquer outro ser conhecido, é mais
esclarecedor e compreensível que Deus se descreva a nós em termos humanos, em
vez de em qualquer outro meio. Já estudamos este assunto em capítulo anterior.
Quando nos deparamos com os antropomorfismos de Deus, porém, é fácil
enganar-se redondamente. Temos de lembrar que o ser humano não é a medida
de seu Criador e que o fato de usar-se a linguagem por nós conhecida para
referir-se a Deus, não significa que alguma das limitações da criatura
humana esteja nele implícita: conhecimento limitado, poder, previsão, força,
162
consistência ou qualquer coisa desse tipo.
Devemos também lembrar que os elementos das qualidades humanas que
mostram o efeito corruptor do pecado não têm correspondência em Deus. Assim,
por exemplo, sua ira não é a explosão indigna que normalmente caracteriza a raiva
humana — sinal de orgulho e fraqueza —, mas é a santidade reagindo ao mal de
modo moralmente certo e glorioso: "pois a ira do homem não produz a justiça de
Deus" (Tg 1:20). A ira divina é precisamente sua justiça em ação. Do mesmo
modo, o ciúme de Deus não consiste num conjunto de frustração, inveja e
despeito, como geralmente é o ciúme humano; ao contrário, aparece como zelo,
digno de louvor, para preservar alguma coisa muito preciosa. Isto nos leva ao
ponto seguinte.
2. Há dois tipos de ciúme entre os homens, e apenas um deles é defeito. O
ciúme maldoso expressa uma postura: "Eu quero o que você tem, e o odeio por
não ter isso". É um ressentimento infantil que surge da cobiça irrefreável
manifestada por inveja, malícia e atitudes indignas. É terrivelmente poderoso, pois
alimenta e é alimentado pelo orgulho, a raiz de nossa natureza decaída. O ciúme
provoca uma insensata obsessão, que, se tolerada, pode destroçar o caráter antes
firme. "O rancor é cruel e a fúria é destruidora, mas quem consegue suportar a
inveja?" (Pv 27:4), pergunta o sábio. É desse tipo o chamado ciúme sexual, a fúria
cega de um pretendente rejeitado ou substituído.
Existe outro tipo de ciúme: o zelo em proteger de uma relação amorosa ou em
vingá-la quando rompida. Este ciúme também opera na esfera do sexo. Nessa
área, entretanto, não aparece como reação cega do orgulho ferido, mas como fruto
da afeição marital. Como escreveu o prof. Tasker,1 as pessoas casadas "que não
sentem ciúmes com a intrusão de um amante ou um adúltero em seu lar
certamente têm falta de percepção moral, pois a exclusividade é a essência do
casamento".2 Este tipo de ciúme é uma virtude positiva, pois mostra o
entendimento do verdadeiro significado do relacionamento marido-mulher, aliado
ao zelo por mantê-lo intacto.
A lei do Antigo Testamento reconhecia a propriedade de tal ciúme e prescrevia
uma "oferta pelo ciúme" e um ritual de maldição pelo qual o marido, ao julgar que
a esposa fosse infiel e por isso fosse ele possuído pelo "espírito do ciúme",
poderia acalmar a mente de um modo ou de outro (Nm 5:11-31). Nem aqui nem
emoutra referência ao "ciúme" do marido ofendido em Provérbios 6:34 a
Escritura sugere que sua atitude seja moralmente questionável; ao contrário,
descreve a resolução de proteger seu casamento contra um ataque e de agir contra
qualquer um que o viole como uma atitude natural, normal e certa, e ainda como
uma prova de que ele dá à união o valor que lhe é devido.
As Escrituras coerentemente mostram o ciúme divino como deste último tipo,
isto é, como um aspecto de sua aliança de amor por seu povo. O Antigo
Testamento considera união a aliança divina com Israel, envolvendo a exigência
de amor e lealdade ilimitados. A adoração de ídolos e todas as relações
comprometedoras com os idólatras constituíam desobediência e infidelidade, que
163
Deus via como adultério espiritual, provo-cando-lhe ciúme e vingança. Todas as
referências mosaicas ao ciúme divino se referem a alguma forma de adoração
idolátrica; elas incorrem sempre na penalidade do segundo mandamento, citada
anteriormente.
O mesmo acontece em Josué 24:19; 1Reis 14:22; Salmos 78:58 e em
1Coríntios 10:22 no Novo Testamento. Em Ezequiel 8:3, um ídolo adorado em
Jerusalém é chamado "o ídolo que provoca o ciúme de Deus". Em Ezequiel 16,
Deus descreve Israel como sua esposa adúltera, enredada em uma ligação ímpia
com ídolos e idólatras de Canaã, Egito e Assíria e pronuncia a seguinte sentença:
"Eu a condenarei ao castigo determinado
1R.V.G. Tasker, estudioso protestante, especialista em Novo Testamento.
2The epistle of James, p. 106.
164
para mulheres que cometem adultério e que derramam sangue; trarei sobre você a
vingança de sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme provoca" (v.
38; cf. v. 42; 23:25).
Por essas passagens podemos ver claramente o que Deus quis dizer a Moisés
ao denominar-se "zeloso". Ele indicou a exigência de lealdade absoluta e total de
todos a quem amou e redimiu, e que vingaria suas exigências agindo
violentamente contra quem traísse seu amor sendo infiel. Calvino captou bem o
significado dessa idéia quando explicou a sanção do segundo mandamento:
O Senhor muitas vezes se dirige a nós como um marido [...] Assim como
ele desempenha todos os deveres de um marido fiel e verdadeiro, também
requer de nós amor e castidade, isto é, que não prostituamos nossa alma
com Satanás [...] Quanto mais puro e casto é o marido tanto mais
fortemente se sente ofendido quando vê a esposa interessada em um rival;
assim o Senhor, que, na verdade, nos desposou, declara arder em ciúmes
sempre que, negligenciando a pureza de sua santa união, nos corrompemos
pela luxúria; e, especialmente, quando a adoração de sua divindade, que
devia ter sido mantida cuidadosamente, é transferida para outro ou
adulterada com alguma superstição; desse modo não apenas violamos
nossa promessa, mas desprezamos o leito nupcial, dando acesso a
adúlteros.3
Mais um ponto, entretanto, deve ser visto, se quisermos esclarecer realmente este
assunto. O ciúme de Deus por seu povo, como já vimos, está implícito em sua
aliança de amor. Este amor não é
3Institutes II, viii, 18. (Publicado em português com o nome As institutas da religião cristã (São
Paulo: Cultura Cristã).
165
uma afeição transitória, acidental e sem objetivo, mas sim a expressão de um
propósito soberano. O objetivo da aliança do amor divino é que ele tenha um
povo na terra enquanto perdurar a história, e depois disso tenha com ele, na glória,
todos seus fiéis de todas as eras. A aliança do amor é o núcleo do plano de Deus
para o seu mundo. E é à luz do plano total de Deus para o mundo que seu ciúme
deve, em última análise, ser entendido.
O objetivo final de Deus, como diz a Bíblia, possui três partes: vin-dicar suas
leis e sua justiça mostrando sua soberania no julgamento do pecado; resgatar e
remir seu povo escolhido, e ser amado e louvado por ele por seus atos gloriosos de
amor e auto-afirmação. Deus busca o que deveríamos buscar: sua glória nas
pessoas e por meio delas; e é por assegurar este objetivo que ele é ciumento. Seu
ciúme, em todas suas manifestações, é precisamente "O zelo do Senhor dos
Exércitos" (Is 9:7; 37:32; cf. Ez 5:13), para cumprir seu propósito de justiça e
misericórdia.
Assim, o ciúme de Deus o leva, por um lado, a julgar e destruir os infiéis entre
seu povo que caíram na idolatria e no pecado (Dt 6:14,15; Js 24:19,20; Sf 1:18) e
decerto a julgar os inimigos da justiça e da misericórdia onde quer que estejam
(Na 1:2; Ez 36:5-7; Sf 3:8). Por outro lado, o leva a restaurar seu povo depois que
o julgamento nacional os purificou e humilhou (a condenação ao cativeiro, Zc
1:14-17; 8:2; a praga dos gafanhotos, Jl 1). E o que motiva essas ações?
Simplesmente o fato de que ele é "zeloso pelo [seu] santo nome" (Ez 39:25). Seu
nome é sua natureza e seu caráter como Jeová, "o Senhor", governador da história,
guardião da justiça e salvador dos pecadores. Deus quer que seu "nome" seja
conhecido, honrado e louvado.
Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não darei a outro a minha glória
nem a imagens o meu louvor [...] Por amor de mim mesmo, por amor de
mim mesmo, eu faço isso. Como posso permitir que eu mesmo seja
difamado? Não darei minha glória a nenhum outro.
Isaías 42:8; 48:11
Aqui nestes textos está a quintessência do ciúme divino.
A RESPOSTA CRISTÃ
Que sentido prático tem tudo isso para quem professa ser povo do Senhor? A
resposta pode ser dada sob dois tópicos:
1. O ciúme de Deus exige que sejamos zelosos com Deus. Assim como a
resposta ao amor de Deus é nosso amor a ele, também a resposta certa ao seu
ciúme por nós é nosso zelo por ele. Seu interesse por nós é grande, o nosso por ele
também deve ser. O que está implícito na proibição da idolatria encontrada no
segundo mandamento é que o povo de Deus deve ser positiva e apaixonadamente
devotado à sua pessoa, causa e honra. A palavra da Bíblia para tal devoção é zelo,
166
às vezes realmente chamada zelo por Deus. Deus mesmo, como já vimos,
manifesta seu zelo, e os fiéis devem manifestá-lo também.
A descrição clássica do zelo por Deus foi oferecida pelo bispo John Charles
Ryle. Citamos na íntegra:
Na religião, zelo é o desejo ardente de agradar a Deus, realizar sua vontade
e propagar sua glória no mundo de todos os modos possíveis. E um desejo
que nenhum homem sente naturalmente — colocado pelo Espírito no
coração de cada crente quando se converte, mas que alguns sentem com
muito maior intensidade que outros, por isso só eles merecem ser
chamados "zelosos" [...]
O homem zeloso na religião é acima de tudo o homem de uma só coisa.
Não é bastante dizer que ele é fervoroso, sincero, inflexível, enérgico,
cordial, fervoroso em espírito, ele apenas vê uma coisa, preocupa-se com
uma só coisa, vive por uma coisa, é absorvido por ela, e esta coisa é
agradar a Deus. Viva ou morra, tenha saúde ou doença, seja rico ou pobre,
agrade aos homens ou os ofenda, seja sábio ou ignorante, seja culpado ou
elogiado, seja honrado ou envergonhado, nada disso interessa a este
homem zeloso. Ele se inflama por uma só coisa e essa é agradar a Deus e
fazer crescer sua glória. E se for consumido por essa mesma chama, não se
importa, está contente. Sente que, como a lâmpada, foi feito para queimar;
e se for consumido ao se queimar, nada fez além da obra que lhe foi
destinada por Deus. Tal pessoa sempre encontra o alvo para seu zelo. Se
não puder pregar, trabalhar e dar dinheiro, ele clamará, suplicará e orará
[...] Se não puder lutar no vale com Josué, fará o trabalho de Moisés, Arão
e Hur na colina (Êx 17:9-13). Se não puder trabalhar ele mesmo, não dará
descanso ao Senhor enquanto não for levantada ajuda de outro lado e a
obra continue. Isto é o que quero dizer quando falo em "zelo" em
religião.4
Notamos que o zelo é ordenado e comentado nas Escrituras. O cristão deve ser
"zeloso de boas obras" (Tt 2:4; ra). Depois de serem reprovados, os coríntios
foram elogiados por seu "zelo" (2Co 7:11; ra). Elias era "muito zeloso pelo
Senhor, o Deus dos Exércitos" (1Rs 19:10,14) e Deus exaltou seu zelo enviando
uma carruagem de fogo para levá-lo ao céu,escolhendo-o como o representante
da "santa congregação dos profetas"5 para estar com Moisés no monte da
transfiguração e falar com o Senhor Jesus. Quando Israel provocou a ira de Deus
pela idolatria e prostituição, Moisés sentenciou os culpados à morte, e o povo
pôs-se a chorar. Um homem escolheu aquele momento para receber uma
midia-nita em casa, e Finéias, desesperado, quase fora de si, os matou com uma
lança. Deus elogiou Finéias porque "foi zeloso, com o mesmo zelo [...] para que
em meu zelo eu não os consumisse" (Nm 25:11).
Paulo era um homem zeloso, sincero e interiormente dedicado a seu Senhor.
Enfrentando a dor e a prisão declarou: "Todavia, não me importo, nem considero
167
a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a
corrida e completar o
4Practical religion, 1959, p- 130.
5Expressão extraída do hino Te Deum laudamus (Livro de oração comum, Porto Alegre: ieab,
1988, p. 42).
168
ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça
de Deus" (At 20:24).
O próprio Senhor Jesus foi o supremo exemplo de zelo. Observan-do-o
quando purificava o templo, "lembraram-se os seus discípulos de que está
escrito: 'O zelo pela tua casa me consumirá'" (Jo 2:17).
E quanto a nós? O zelo pela casa de Deus e por sua causa nos consome?
Devora-nos? Possui-nos? Podemos dizer como o Mestre: "A minha comida é
fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra" 0o 4:34)? Que
espécie de discipulado é o nosso? Não temos necessidade de orar como o ardente
evangelista George Whitefield, um homem tão humilde quanto zeloso: "Senhor,
ajude-me a começar a começar"?
2. O ciúme de Deus ameaça as igrejas que não são zelosas por ele. Amamos
nossas igrejas; elas têm associações consagradas, não podemos imaginá-las
desagradando a Deus, pelo menos não gravemente. O Senhor Jesus, porém, certa
vez mandou uma mensagem a uma igreja muito semelhante a algumas das nossas,
a complacente igreja de Laodicéia, dizendo à congregação que o zelo deles lhe era
fonte de suprema ofensa. "Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem
quente!". Qualquer coisa seria melhor do que a apática satisfação consigo mesmo!
"Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo
da minha boca [...] seja diligente [zeloso] e arrependa-se" (Ap 3:15,16,19).
Quantas igrejas hoje são sólidas, respeitáveis e — mornas? Qual, então, deve
ser a palavra de Cristo a elas? Que esperança podemos ter a não ser que, pela
misericórdia de Deus, ele, em sua ira, se lembre da misericórdia e encontremos
zelo para nos arrepender? Reaviva-nos, Senhor, antes que chegue o julgamento!
169
Parte III
Se Deus É Por
Nós...
170
o coração do Evangelho
O príncipe Páris havia raptado a princesa Helena de Tróia. Os expedicionários
gregos levaram um navio para resgatá-la, mas foram impedidos no meio do
caminho por um persistente vento contrário. Agamenon, o general grego, mandou
buscar sua filha em casa e em uma cerimônia ofereceu-a em sacrifício para
acalmar a evidente hostilidade dos deuses. Essa ação deu bom resultado, o vento
este começou a soprar e a frota alcançou Tróia sem mais dificuldades.
Esta passagem da lenda referente à guerra de Tróia, que data de cerca de 1000
a.C, reflete uma idéia de propiciação sobre a qual a religião pagã em todo o
mundo e em todas as eras foi construída. A idéia é a seguinte: Há vários deuses;
nenhum deles tem domínio absoluto, mas cada um tem poder para tornar a vida
mais fácil ou mais difícil. O temperamento deles é uniformemente incerto,
ofendem-se com as menores coisas ou sentem ciúmes porque acham que você dá
mais atenção a outros deuses e a outras pessoas, e o modo de impedir que você aja
desse modo é criar circunstâncias que possam feri-lo.
A PROPICIAÇÃO NO PAGANISMO
A única coisa a fazer nesses casos é alegrá-los e acalmá-los com uma oferenda
cuja regra é: quanto maior, melhor. Os deuses são inclinados a suspender sua ação
por qualquer coisa de bom tamanho que se lhes ofereça. São cruéis e sem coração
neste ponto, mas estão com todas as vantagens, então o que se pode fazer? O
sábio se inclina ao inevitável e cuida para que sua oferta seja bem expressiva para
produzir o resultado desejado. O sacrifício humano, em particular, é muito
dispendioso mas eficiente. Assim a religião pagã aparece como um duro
mercantilismo, um modo de negociar com seus deuses e manipulá-los, usando um
astuto suborno. De acordo com a propiciação do paganismo, o aplacar da ira
celestial acontece regularmente como parte da vida, uma das maçantes
necessidades das quais não se pode escapar.
A Bíblia, porém, nos tira de imediato do mundo da religião pagã. Ela
condena totalmente o paganismo como monstruosa distorção da verdade. Em
lugar de um aglomerado de deuses feitos tão claramente à imagem do ser humano
e que se comportam como artistas de cinema, a Bíblia apresenta o único Criador
poderoso, o único Deus verdadeiro, em quem toda a bondade e verdade encontram
171
origem, e para quem todo o mal é abominável.
Em Deus não há gênio mau, caprichos, vaidades nem má vontade. Podia-se
esperar, portanto, que não houvesse na religião bíblica lugar para a idéia da
propiciação. Mas não é isso o que vemos, e sim o contrário. A idéia da
propiciação, isto é, acalmar a ira de Deus por meio de oferendas, é encontrada em
toda a Bíblia.
A propiciação na Bíblia
No Antigo Testamento, ela é a base de todos os rituais prescritos para a expiação
do pecado e da culpa ("expiação pela transgressão" no Antigo Testamento) e para
o dia do sacrifício (Lv 4:1-6:7; 16:1-34). Ela é também claramente expressa em
narrativas como a de Números 16:41-50, onde Deus ameaça destruir o povo por
caluniar seu julgamento sobre Coré, Datã e Abirã: "e Moisés disse a Arão: 'Pegue
o seu incensário e ponha incenso nele, com fogo tirado do altar, e vá depressa até
a comunidade para fazer propiciação por eles, porque saiu grande ira da parte do
Senhor e a praga começou. Arão [...] fez propiciação por eles [...] e a praga
cessou" (v. 46-48).
No Novo Testamento a palavra propiciação aparece em quatro passagens de
importância tão sublime que faremos bem em parar para estudá-las direito.
A primeira é a clássica declaração de Paulo sobre a base lógica da justificação
dos pecadores por Deus.
Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus [...] justiça de
Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos [e sobre todos] os que
crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória
de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da
redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para
propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça.
Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente
cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e
o justificador daquele que tem fé em Jesus.
Romanos 3:21-26
A segunda é parte da exposição em Hebreus da base lógica da encarnação do
Filho de Deus.
Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos
em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel
com relação a Deus, e fazer propiciação pelos pecados do povo.
Hebreus 2:17
A terceira é o testemunho de João sobre o ministério celestial de nosso Senhor.
172
Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo,
o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados.
1João 2:1,2
A quarta é a definição do amor de Deus oferecida por João.
Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou
o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio
dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas
em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos
pecados.
1João 4:8-10
A palavra propiciação tem algum lugar no seu cristianismo? Na fé contida no
Novo Testamento ela é central. O amor de Deus, a encarnação do Filho, o
significado da cruz, a intercessão celestial de Cristo, o caminhoda salvação, tudo
deve ser explicado em termos de propiciação, como vimos nas passagens citadas.
Qualquer explicação que não inclua a propiciação será incompleta e, na verdade,
mentirosa pelos padrões do Novo Testamento.
Dizendo isto, nadamos contra a corrente de muitos ensinamentos modernos e
condenamos, com um só golpe, os pontos de vista de um grande número de
destacados líderes da Igreja moderna. Entretanto, nada podemos fazer. Paulo
escreveu "mas ainda que nós ou um anjo dos céus" — quanto menos um ministro,
bispo, palestrante, professor de faculdade ou autor destacado — "pregue um
evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!" (anátema,
ra, rc; maldito, bv; Gl 1:8). O evangelho que não tem como centro a propiciação é
outro evangelho diferente do pregado por Paulo. As implicações disto não podem
ser evitadas.
Não só propiciação
Entretanto, se você verificar algumas traduções modernas dos quatro textos
citados, verá que a palavra propiciação não aparece. Nas duas passagens de ljoão,
as possíveis traduções serão "reparação pela mancha" de nossos pecados; em outra
parte, algumas versões substituem a propiciação pela idéia de expiação. Qual é a
diferença entre essas duas palavras? A diferença é que expiação significa apenas a
metade do que é a propiciação. Expiação é a ação que tem o pecado como objeto;
denota a cobertura, o afastamento ou a extinção do pecado de modo que ele não
mais constitua barreira à comunhão amigável entre a pessoa e Deus.
Na Bíblia, entretanto, a propiciação denota tudo o que a expiação abrange e
mais a pacificação da ira de Deus. Esta é, de qualquer forma, a opinião mantida
pelos estudiosos cristãos desde a Reforma, quando esses pontos começaram a ser
173
estudados com precisão. Ainda hoje o caso pode se tornar constrangedor.1
No século passado, porém, certo número de estudiosos, especialmente o dr.
Charles Harold Dodd,2 reviveu conceitos socinianos (unicistas do século xvi),
idéia já levantada no início do século xx por Albrecht Ritschl, fundador do
liberalismo alemão, com o propósito de afirmar a inexistência em Deus de algo
como a ira ocasionada pelo pecado humano e, conseqüentemente, a
não-necessidade ou possibilidade de propiciação. O dr. Dodd tem se esforçado
para provar que a palavra propiciação no Novo Testamento não possui o sentido
de acalmar a ira de Deus, apenas denota a extinção do pecado, portanto expiação é
a melhor tradução.
Ele decifra esse caso? Não podemos aqui entrar em minúcias técnicas sobre o
que trata a maior parte da discussão de teólogos, mas de qualquer forma daremos
nosso veredicto no que valer a pena. Dodd parece ter mostrado que esta palavra
não deve significar mais que expiação se o contexto não exigir um significado
mais amplo. No entanto, ele não mostrou que ela não pode indicar propiciação em
contextos onde este significado é exigido. Este é, porém, o ponto crucial: na
epístola aos romanos (para tomar a mais clara e mais óbvia das quatro passagens),
o contexto exige o significado de propiciação, em 3:25.
Em Romanos 1:18, Paulo prepara o terreno para sua declaração sobre o
Evangelho afirmando que "a ira de Deus é revelada dos céus contra toda
impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça". "A ira
de Deus opera de maneira eficiente e dinâmica no mundo dos homens e, por ser
procedente dos céus, o trono de Deus, ela é
1V. Leon Morris, The apostolic preaching of the cross, p. 125-85.
2Charles Harold Dodd (1884-1973) foi um dos mais destacados estudiosos do evangelho de João.
174
ativa".3 No resto de Romanos 1, Paulo salienta a presente atividade da ira de Deus
no endurecimento judicial dos apóstatas assim expresso repetidas três vezes:
"Deus os entregou" (v. 24,26,28).
Em Romanos 2:1-16, Paulo nos confronta com a certeza do "[...] dia da ira de
Deus quando se revelará o seu justo julgamento. Deus 'retribuirá a cada um
conforme o seu procedimento [...] os que [...] rejeitam a verdade e seguem a
injustiça [...] no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus
Cristo [...]'" (v. 5,6,8,16).
Na primeira parte de Romanos 3, Paulo segue com sua argumentação para
provar que todos, judeus ou gentios, estando "debaixo do pecado" (v. 9),
permanecem expostos à ira de Deus tanto na manifestação presente como na
futura. Aqui, então, estamos todos no estado natural, sem
o Evangelho. A ira ativa de Deus é a realidade que mantém o controle final de
nossa vida, quer estejamos conscientes dela quer não. Agora, porém, diz Paulo,
aceitação, perdão e paz são outorgados graciosamente a todos os que até aqui
eram "ímpios" (4:5) e "inimigos" de Deus (5:10), mas que, agora, põem sua fé em
Cristo Jesus, "a quem Deus propôs como propiciação [...] pelo seu sangue". Os
cristãos sabem que "fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por
meio dele, seremos salvos da ira de Deus!" (5:9).
Que aconteceu? A ira de Deus contra nós, tanto agora como no futuro, foi
extinta. Como isso se realizou? Por meio da morte de Cristo, "quando éramos
inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho"
(5:10). O "sangue" — isto é, a morte sacrificial — de Jesus Cristo aboliu a ira de
Deus contra nós e assegurou-nos de que seu tratamento para conosco será sempre
propício e favorável. Daqui por diante, em lugar de mostrar-se contra nós, ele será
por nós, em nossa vida e experiência. O que então indica a expressão "a
propiciação [...] pelo seu
3John Murray, Romanos, São José dos Campos: Fiel, 2003, p. 65.
175
sangue"? Ela expressa, no contexto da argumentação de Paulo, precisamente este
pensamento: que por sua morte sacrificial por nossos pecados, Cristo acalmou a
ira de Deus.
É verdade que há uma geração o dr. Dodd tentou escapar desta conclusão
argumentando que a ira de Deus em Romanos é o princípio cósmico impessoal da
retribuição. Nele a mente e o coração de Deus para com as pessoas não encontra
real expressão. Em outras palavras, a ira de Deus é um processo exterior à vontade
do próprio Deus. Hoje, porém, aumenta o número dos que admitem o fracasso
dessa tentativa. "É inadequado", escreveu R. V. G. Tasker, "referir-se a este termo
(ira) simplesmente como descrição do inevitável processo de causa e efeito no
universo moral, ou como outro modo de se referir ao resultado do pecado.
Trata-se mais de uma qualidade pessoal, sem a qual Deus deixaria de ser
completamente justo e seu amor cairia no plano do sentimentalismo".4 A ira de
Deus é tão pessoal e potente quanto seu amor. O derramamento do sangue do
Senhor Jesus foi a manifestação frontal do amor do Pai para conosco, mas foi
também o impedimento frontal da ira do Pai contra nós.
A ira de Deus
O que é na realidade a ira de Deus propiciada no Calvário?
Não é raiva caprichosa, arbitrária, geniosa e presunçosa que os pa-gãos
atribuíam a seus deuses. Não é também a raiva infantil, pecaminosa, cheia de
ressentimentos, maliciosa que encontramos entre as pessoas. É uma função da
santidade expressa na exigência da lei moral de Deus ("Sejam santos, porque eu
sou santo" — 1Pe 1:16) e da justiça divina, que se expressa nos atos de
julgamento e recompensa: "Pois conhecemos aquele que disse: 'a mim pertence a
vingança; eu retribuirei'" (Hb 10:30).
A ira divina é "a santa reação de Deus contra aquilo que é contrário a sua
santidade", expressando-se por meio de "uma manifestação positiva
4New Bible Dictionary, s. v. "Wrath".
176
do desprazer divino".5 Esta é a justa ira, a reação reta da perfeição moral do
Criador contra a perversidade moral da criatura. A manifestação da ira de Deus ao
punir o pecado está longe de ser moralmente duvidosa, pois isto só seria
verdadeiro se ele não mostrasse sua ira desse modo. Deus não é justo, isto é, ele
não age do modo certo, ele não faz o que se espera de um juiz, a menos que inflija
sobre todo o pecado e maldade o castigo merecido. Veremos dentro em pouco a
argumentação de Paulo sobre este ponto.
DescriçAo da propiciação
Note agora três fatos sobre a propiciação, e como Paulo os descreve.1. A propiciação é obra do próprio Deus. No paganismo, a pessoa propicia
seus deuses, e a religião se torna uma forma de comércio e, na verdade, de
suborno. No cristianismo, entretanto, Deus propicia sua ira mediante a própria
ação. Ele anunciou Jesus Cristo, diz Paulo, para a sua propiciação. Ele enviou seu
Filho, diz João, para ser a propiciação pelos nossos pecados. Não foi o homem a
quem Deus era hostil que tomou a iniciativa de tornar Deus amigável, nem foi
Jesus Cristo, o Filho Eterno, que tomou a iniciativa de transformar a ira de seu Pai
contra nós em amor.
A idéia de que o filho bondoso tenha mudado a mente do pai cruel,
oferecendo-se em lugar do ser humano pecador, não faz parte da mensagem do
Evangelho. Na realidade, trata-se de uma idéia subcristã e mesmo anticristã, pois
nega a unidade da vontade do Pai e do Filho e cai no politeísmo pedindo que
creiamos em dois deuses diferentes. A Bíblia, porém, anula completamente essa
idéia, insistindo na iniciativa divina de extinguir a própria ira contra quem, apesar
de seu demérito, ele amou e escolheu salvar.
A doutrina da propiciação é precisamente essa, que Deus amou tanto os
objetos de sua ira que deu o próprio Filho com a finalidade de, pelo seu
5John Murray, Romanos, p. 64,5.
177
sangue, propiciar a remoção dessa ira. Cristo solucionou de tal modo o
problema da ira que os amados não são mais objeto dela, e o amor pôde
alcançar o objetivo de transformar os filhos da ira em filhos do prazer de
Deus.6
Paulo e João confirmam isto explícita e enfaticamente. Deus revela sua justiça,
diz Paulo, não apenas em retribuição e juízo de acordo com sua lei, mas também
"sem a lei" ao justificar os que crêem em Jesus Cristo. Todos pecaram, entretanto
todos são justificados (resgatados, aceitos, restaurados, reconciliados com Deus)
livre e gratuitamente (Rm 3:21-24). Como foi isso? "Pela graça (isto é,
misericórdia em desacordo com o mérito; amor a quem não era digno dele e,
como diríamos, não-amáveis). Como a graça opera? "Pela redenção" (salvo pelo
resgate) "que há em Cristo Jesus".
Por que para os que crêem nele, Cristo Jesus é fonte, meio e essência da
redenção? Porque, diz Paulo, Deus o estabeleceu como propiciação. A
realidade e a possibilidade da redenção brotam dessa iniciativa divina.
Amar uns aos outros, diz João, é o fator comum na família dos filhos de Deus.
Quem não ama os cristãos não pertence evidentemente à família, pois "Deus é
amor" e concede a todos que o conhecem a natureza predisposta ao amor (1Jo
4:7,8). "Deus é amor", no entanto, é uma fórmula muito vaga. Como podemos ter
uma idéia clara do amor que Deus produzirá em nós?
"Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho
Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele" (v. 9). E isto não
foi feito porque Deus reconheceu alguma devoção real
6John Murray, The atonement, p. 15.
178
de nossa parte, de modo algum. "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos
amado a Deus, mas em que" — em uma situação na qual não o amávamos e não
havia nada em nós que o levasse a fazer outra coisa senão nos destruir e arruinar
por causa de nossa inveterada descrença — "ele nos amou e enviou seu Filho
como propiciação pelos nossos pecados" (v. 10). Por esta iniciativa divina, diz
João, se fazem conhecidos o significado e a medida do amor que devemos imitar.
O testemunho dos dois apóstolos sobre a iniciativa de Deus na propiciação não
poderia ser mais claro.
2. A propiciação foi realizada pela morte de Jesus Cristo. O "sangue", como já
nos referimos anteriormente, é uma palavra que indica a morte violenta infligida a
um animal por ocasião do sacrifício da Antiga Aliança. O próprio Deus instituiu
esses sacrifícios por sua ordem. Em Levítico 17:11, disse: porque "a vida da carne
está no sangue, e eu o dei a vocês para fazerem propiciação por si mesmos no
altar; é o sangue que faz propiciação pela vida".
Quando Paulo nos diz que Deus preparou Jesus para ser a propiciação "pelo
seu sangue". Sua idéia central é que não foi a vida de Jesus, seus pensamentos,
sua perfeição moral nem sua fidelidade ao Pai em si mesmas que extinguiram a ira
de Deus e conseqüentemente nos redimiram da morte, mas o derramamento do
sangue de Cristo na morte. Ao lado dos outros escritores do Novo Testamento,
Paulo sempre aponta a morte de Jesus como a expiação, e a explica em termos de
substituição representativa, o inocente tomando o lugar do culpado, sob o
machado da retribuição judicial.
Podemos citar duas passagens para ilustrar isso. "Cristo nos redimiu da
maldição da Lei." Como? "[...] se tornou maldição em nosso lugar" (Gl 3:13).
Cristo levou a maldição da lei que estava dirigida a nós para que não recaísse
sobre nós. Isto é substituição representativa.
"Um morreu por todos" e por meio da morte de Jesus, Deus estava
"reconciliando consigo o mundo". O que essa reconciliação envolve? "... não
levando em conta os pecados dos homens", mas fazendo com que em Cristo "nos
tornássemos justiça de Deus", isto é, aceitos como justos por Deus. Como foi
possível essa não-imputação? Atribuindo nossas transgressões a outro, para que
assumisse as dívidas. "Deus tornou-se pecado por nós, aquele que não tinha
pecado". Parece então que foi como um sacrifício pelos pecadores, suportando a
pena de morte em lugar deles, que "um morreu por todos" (2Co 5:14,18-21). Isto é
substituição representativa.
A substituição representativa, como meio e modo de expiação, foi ensinada de
forma típica pelo sistema de sacrifícios do Antigo Testamento dado por Deus. Ali,
o animal perfeito que deveria ser oferecido pelo pecado era inicialmente
constituído representante, pelo ato de o pecador colocar a mão sobre a cabeça do
animal, identificando-o assim consigo e a si próprio com ele (Lv 4:4,24,29,33). A
seguir, o animal era morto como substituto de quem o oferecia; o sangue era
espargido "perante o Senhor" e aplicado em um ou nos dois lados do altar no
santuário (Lv 4:6,7,17,18,25,30) como um sinal de que tinha sido efetuada a
expiação, afastando a ira e restaurando a comunhão.
179
Anualmente, no Dia da Expiação, eram usados dois bodes: um era morto do
modo habitual como oferta pelo pecado, e o outro, depois que o sacerdote lhe
impunha as mãos sobre a cabeça, colocando os pecados de Israel "sobre a cabeça"
do animal, pela confissão que ali era feita, era mandado embora para levar
"consigo todas as iniqüidades deles para um lugar solitário" (Lv 16:21,22). Esse
ritual duplo ensinava uma só lição: que pelo sacrifício do substituto
representativo, a ira de Deus é afastada e os pecados são retirados da vista, para
nunca mais atrapalhar nosso relacionamento com Deus. O segundo bode (bode
expiatório) ilustra o que, em termos de tipo, foi realizado pela morte do primeiro
bode. Esses rituais são a base direta dos ensinamentos de Paulo sobre a
propiciação: ela é o cumprimento do modelo de sacrifício do Antigo Testamento
que ele proclama.
3. A propiciação manifesta a justiça de Deus. Paulo diz que longe de originar
dúvidas sobre a moralidade dos meios que Deus usa para lidar com o pecado, a
realidade da propiciação estabelece essa moralidade — explicitamente planejada
para isso. Deus propôs seu Filho para propiciar a ira do Pai, "demonstrando a sua
justiça [...] a fim de ser justo e justifica-dor daquele que tem fé em Jesus" (Rm
3:25,26). O ponto de Paulo é que o espetáculo público da propiciação na cruz foi
uma manifestação não apenas do perdão misericordioso da parte de Deus, mas da
justiça como base para esse perdão.
Tal manifestação era necessária, diz Paulo, "demonstrando a sua justiça [...]
Em sua tolerância [Deus], havia deixado impunes os pecados anteriormente
cometidos". O ponto aqui é que embora os homens tenham sido, desde tempos
imemoriais, tão maus quanto Romanos 1 descreve, Deus em nenhum tempo,
desde o dilúvio, tomou a resolução de tratar publicamente a humanidade como ela
merece. Embora desde o dilúvio as pessoas não tenham sido melhores que seus
pais, Deus não reagiu a sua impenitência, impiedadee eles não". Essa declaração foi
um mero parêntese, um comentário a respeito de algo que eu tinha dito, mas que
me ficou gravado na mente e me fez pensar.
Não creio que muitos de nós possamos dizer com espontaneidade que
conhecemos a Deus. Essas palavras implicam uma experiência definitiva e
verdadeira, à qual, se formos sinceros, temos de admitir que somos ainda
estranhos. Afirmamos isso talvez para dar testemunho e poder contar a história de
nossa conversão como o melhor deles: dizemos que conhecemos a Deus — isto,
afinal de contas, é o que se espera que os evangélicos digam. No entanto, será que
nos ocorreria dizer, sem hesitação, e em referência a acontecimentos particulares
de nossa história pessoal, que realmente conhecemos a Deus? Duvido, pois
suspeito de que para a maioria de nós a experiência de Deus jamais foi assim tão
vivida.
Penso que muitos de nós nem poderíamos dizer com naturalidade que as
decepções do passado e as tristezas do presente, como as vê o mundo, são
irrelevantes quando comparadas ao conhecimento de Deus que viemos a alcançar.
A realidade, porém, é que para muitos de nós elas têm significado real, são nossas
"cruzes" (como as chamamos). Ficamos constantemente entristecidos,
amargurados e apáticos quando nos lembramos delas, o que fazemos com
freqüência. A atitude que mostramos ao mundo é um tipo de estoicismo frio, a
quilômetros de distância da alegria "indizível e gloriosa" que Pedro confiava
estarem sentindo todos seus leitores (lPe 1:8). "Pobres almas", nossos amigos
dizem a nosso respeito, "como têm sofrido" — e é justamente isso o que
sentimos!
Essa tendência para fazer o papel de mártir, porém, não tem lugar na mente de
quem conhece a Deus de fato. Eles nunca se preocupam com o que poderia ter
sido; nunca pensam nas coisas que perderam, apenas nos ganhos. "Mas o que para
mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo", escreveu
Paulo. "Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema
19
grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as
coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado
nele [...] Quero conhecer Cristo [...]" (Fp 3:7-10).
Quando Paulo diz que considera "esterco" tudo o que perdeu, não só
afirma que não dá nenhum valor a essas coisas, mas que tampouco
permanecem constantemente em seus pensamentos. Que pessoa normal passa
seu tempo sonhando nostalgicamente com esterco? Entretanto, é o que na
realidade muitos de nós fazemos, e isso mostra como temos pouco conhecimento
de Deus.
Conhecimento retórico versus conhecimento real
É necessário fazer uma auto-análise sincera neste ponto. Somos, talvez,
evangélicos ortodoxos. Podemos explicar o evangelho com clareza e podemos
sentir o cheiro de doutrina falsa a quilômetros de distância. Se alguém nos
perguntar como os homens podem conhecer a Deus, de imediato apresentamos a
fórmula certa: que chegamos ao conhecimento de Deus mediante Jesus Cristo, o
Senhor, graças à cruz e a sua mediação, confiados nas promessas de sua palavra,
pelo poder do Espírito Santo, por meio do exercício pessoal da fé.
Entretanto, a alegria, a bondade, a liberdade de espírito, que constituem as
marcas de quem conhece a Deus, são raras em nosso meio — mais raras talvez do
que em outros círculos cristãos, onde, se fizermos uma comparação, a verdade do
evangelho não é conhecida com tanta clareza e tão completamente. Aqui também
pareceria que os últimos poderiam ser os primeiros e os primeiros, os últimos. Um
pequeno conhecimento de Deus vale bem mais que um grande conhecimento a
respeito dele.
Para salientar melhor este ponto, quero dizer duas coisas:
1. Pode-se saber bastante sobre Deus sem conhecê-lo muito. Tenho a certeza
de que muitos de nós nunca pensamos realmente nisto. Descobrimos em nós um
profundo interesse pela teologia (que é, por sinal, uma ssunto dos mais fascinantes
e intrigantes — no século xvii era o passatempo de todos os cavalheiros). Lemos
livros de exposição teológica e apologética; aprofundamo-nos na história cristã e
estudamos o credo cristão; aprendemos a descobrir nosso caminho nas Escrituras.
Outros apreciam nosso interesse por essas coisas e somos convidados a dar
nossa opinião em público a respeito de diversas questões cristãs, a dirigir grupos
de estudo, escrever artigos, fazer conferências e geralmente aceitar
responsabilidade, formal ou informal, de agir como mestres e árbitros da
ortodoxia em nosso círculo cristão. Nossos amigos nos dizem como apreciam essa
contribuição e isso nos leva a explorar mais ainda as verdades de Deus, de modo a
podermos atender às exigências que nos fazem.
Tudo isso é muito bom. Entretanto, o interesse em teologia — conhecimento
sobre Deus — e a capacidade de pensar com clareza e falar bem sobre temas
20
cristãos não são o mesmo que conhecer a Deus. Podemos saber tanto quanto
Calvino a respeito de Deus — na verdade, se estudarmos suas obras com
diligência, cedo ou tarde isso vai acontecer —, contudo durante todo o tempo (ao
contrário de Calvino) saberemos bem pouco a respeito de Deus.
2. Pode-se saber bastante sobre piedade sem ter muito conhecimento de Deus.
Isso depende dos sermões ouvidos, dos livros lidos e do círculo de amigos. Nesta
era analítica e tecnológica não faltam livros nas bibliotecas das igrejas, nem
sermões nos púlpitos sobre como orar, testemunhar, ler a Bíblia, dar ó dízimo, ser
um jovem cristão, ser um velho cristão, ser um cristão feliz, tornar-se consagrado,
levar pessoas a Cristo, receber o batismo do Espírito Santo (ou, em alguns casos,
como evitar esse batismo), falar em línguas (ou como explicar satisfatoriamente a
manifestação do Pentecostes) e geralmente como cumprir todo o programa que os
professores em questão associam com a vida do crente. Tampouco faltam
biografias narrando as experiências dos cristãos do passado para nosso exame
atento e interessado.
Independentemente do que se diga sobre a questão, é certamente possível
aprender muito, de segunda mão, sobre a prática cristã. Além disso, se alguém
tiver uma boa dose de senso comum pode fazer uso do que aprendeu para ajudar
cristãos vacilantes, de temperamento menos estável, a readquirir firmeza e
desenvolver o senso analítico quanto a suas dificuldades, ganhando deste modo
para si mesmo a reputação de bom pastor. Entretanto, alguém pode ter tudo isso e
não conhecer realmente a Deus.
Voltamos, então, ao ponto em que começamos. Não está em jogo a questão de
sermos bons em teologia, ou "equilibrados" (palavra horrível e pretensiosa), em
nossa abordagem dos problemas da vida cristã. O caso é este: podemos dizer, com
simplicidade e franqueza, não porque sentimos ser nosso dever como evangélicos,
mas por tratar-se de um fato real, que conhecemos a Deus, e que por esse
conhecimento os despra-zeres que tivemos ou os prazeres que não tivemos, pelo
fato de sermos cristãos, não nos afetam? Se conhecêssemos realmente a Deus,
seria isto o que estaríamos dizendo, e se não o fazemos, significa que precisamos
encarar com mais precisão a diferença entre conhecer a Deus e o mero
conhecimento sobre ele.
Evidência do conhecimento de Deus
Dissemos que quando um homem conhece a Deus as perdas e as "cruzes" deixam
de ter importância; o que ele ganhou simplesmente afasta-lhe da mente essas
coisas. Que outros efeitos o conhecimento de Deus produz nos homens? Várias
partes das Escrituras respondem a esta pergunta apresentando diferentes pontos de
vista, mas talvez a resposta mais clara e direta seja aquela encontrada no livro de
Daniel. Podemos resumir esse testemunho em quatro proposições:
1. Os que conhecem a Deus têm grande força por meio dele. Em um dos
21
capítulos proféticos de Daniel lemos: "o povo que conhece ao seu Deus se
esforçará e fará proezas" (11:32; arc). A versão revista e atualizada diz: "o povo
que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo". No contexto esta definição
inicia com "mas" e faz o contraste entre a atividade do "ser desprezível" (v. 21)
que estabelecerá o "sacrilégioe desobediência às leis por
nenhum ato público de providência desfavorável. Em vez disso, ele "mostrou sua
bondade, dando-lhes chuva do céu, e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes
sustento com fartura e um coração cheio de alegria" (At 14:17).
Esta "remissão" dos pecados sob "a paciência" não era na verdade perdão,
apenas uma dilação do julgamento; contudo, uma dúvida se apresenta. Se, como
acontece, as pessoas praticam o mal, e o "Juiz de toda a terra" continua a
beneficiá-las, pode ele estar tão interessado na moralidade e piedade, na distinção
entre o certo e o errado na vida de suas criaturas, como parecia estar
anteriormente, e como a perfeita justiça exige? Na verdade, se ele permite que os
pecadores continuem impunes, não estará ele mesmo carecendo da perfeição em
seu ofício de juiz do mundo?
Paulo já respondeu à segunda parte desta questão com a sua doutrina do "dia da
ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" em Romanos 2:1-16.
Aqui ele responde à primeira parte dizendo, com efeito, que, longe de Deus estar
desinteressado das questões morais e da justa exigência de retribuição pelo erro,
ele está tão consciente disso que não perdoaria os pecadores — na verdade, creio
que Paulo ousadamente diria não pode — nem absolveria os ímpios a não ser com
180
base na justiça manifestada pela punição. Nossos pecados foram punidos; a roda
do castigo foi virada, o julgamento pela impiedade foi realizado, mas sobre Jesus,
o Cordeiro de Deus, que tomou o nosso lugar. Deste modo, Deus é justo e
justificador dos que crêem em Jesus, "o qual foi entregue por causa das nossas
transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação" (4:25).
Assim a justiça de Deus, o juiz, que é tão vividamente estabelecida na primeira
parte da carta de Paulo, é vista outra vez na doutrina de Paulo sobre como a ira
divina foi anulada. É vital para sua argumentação mostrar que as verdades,
tanto sobre a salvação como sobre a condenação, manifestam a justiça
eqüitativa, essencial e inerente ao caráter divino. Em cada caso, na salvação
dos que são salvos e na condenação dos que se perdem, é feita a retribuição e o
castigo é infligido. Deus é justo e a justiça se cumpre.
A morte de Cristo
O que dissemos até agora pode ser resumido do seguinte modo: O Evangelho nos
fala que nosso Criador se tornou nosso Redentor; anuncia que o Filho de Deus
tornou-se homem "por nossa causa e para nossa salvação"7 e morreu na cruz para
nos salvar da condenação eterna. A descrição básica da morte salvadora de Cristo,
na Bíblia, é como uma propiciação, isto é, como aquilo que anula a ira de Deus
contra nós ocultando de seus olhos nossos pecados. A ira de Deus é sua justiça
reagindo contra a injustiça; ela mostra em si a justiça punitiva. Jesus Cristo,
porém, nos protege do pesadelo da expectativa da justiça punitiva ao tornar-se
nosso substituto, em obediência à vontade de seu Pai e recebendo em nosso lugar
o salário do nosso pecado.
Desse modo foi feita a justiça e os pecados de todos que serão perdoados foram
julgados e punidos na pessoa de Deus, o Filho, e é nessa base que o perdão é
oferecido a nós os pecadores. O amor redentor e a
7Expressão retirada do Credo...
181
justiça punitiva juntaram as mãos, por assim dizer, no Calvário, pois lá Deus se
mostrou "justo e justificador dos que crêem em Jesus".
Você entende isso? Se a resposta for afirmativa, você agora está adentrando o
coração do Evangelho cristão. Nenhuma versão dessa mensagem penetra tão
profundamente como a que declara ser o pecado a raiz de todos os problemas do
ser humano diante de Deus, o que provoca a ira de Deus e a providência básica
que ele tomou para que o ser humano fosse propiciado, o que traz a paz em lugar
da ira. Algumas versões do Evangelho, na verdade, são passíveis de culpa porque
nunca atingiram esse nível.
Todos já ouvimos falar do Evangelho apresentado como resposta triun-fante de
Deus aos problemas humanos — problemas do homem em relação a si mesmo,
com o seu próximo e com o seu ambiente. Bem, não há dúvida de que o
Evangelho realmente nos traga soluções para esses problemas, mas ele o faz
resolvendo um problema bem mais profundo, o mais profundo para o ser humano:
o relacionamento com o Criador. A menos que tornemos claro que a solução dos
primeiros problemas depende da solução deste último, representaremos mal a
mensagem e seremos falsas testemunhas de Deus, pois a meia-verdade
apresentada como completa torna-se falsidade. Nenhum leitor do Novo
Testamento pode deixar de perceber o fato de que ele mostra tudo a respeito de
nossos problemas — medo, covardia moral, doenças do corpo e da mente,
solidão, insegurança, desesperança, desespero, crueldade, abuso de poder e muitos
mais. Porém, do mesmo modo, nenhum leitor do Novo Testamento pode deixar
de perceber que ele também resolve todos esses problemas de um modo ou de
outro, dentro do problema fundamental do pecado contra Deus.
No Novo Testamento, o pecado não é, em primeiro lugar, erro nem fracasso
social, mas rebelião, desafio, afastamento e conseqüentemente culpa diante de
Deus, o Criador. O pecado, diz o Novo Testamento, é o mal básico do qual
precisamos ser libertados e o motivo que levou Cristo a morrer para nos salvar.
Tudo o que aconteceu de errado na vida humana é, em última análise, devido ao
pecado. Nossa condição presente — permanecer no erro em relação a nós mesmos
e ao nosso próximo — não pode ser sanada enquanto não formos retos diante de
Deus.
Não temos espaço aqui para demonstrar que os temas do pecado, da
propiciação e do perdão formam a estrutura básica do Evangelho do Novo
Testamento, mas se nossos leitores quiserem ler Romanos 1 a 5, Gálatas 3,
Efésios 1 e 2, Hebreus 8 a 10, 1João 1 a 3 e os sermões em Atos, penso que
descobrirão que na realidade não há lugar para dúvida alguma sobre este ponto. Se
for feita uma indagação baseada no fato de a palavra propiciação aparecer apenas
quatro vezes no Novo Testamento, a resposta deve ser que a idéia de propiciação
aparece constantemente.
Às vezes a morte de Cristo é descrita como reconciliação, ou pacificação
depois do ódio e da guerra (Rm 5:10; 2Co 5:18; Cl 1:20); às vezes é descrita
como redenção ou pagamento pelo resgate do perigo e do cativeiro (Rm 3:24; Gl
3:13; 4:5; 1Pe 1:18; Ap 5:9); às vezes é apresentada como sacrifício (Ef 5:2; Hb
9:1-10:8); o ato de dar-se a si mesmo (Gl 1:4; 2:20; 1Tm 2:6); levar o pecado (Jo
182
1:29; 1Pe 2:24; Hb 9:28) e derramamento de sangue (Mc 14:24; Hb 9:14; Ap
1:5). Todas essas idéias estão ligadas ao ato de apagar o pecado e restaurar um
relacionamento sem empecilhos entre o ser humano e Deus, como se poderá ver
nos textos mencionados. Todos eles mostram, como fundo, a ameaça da
condenação divina que a morte de Jesus evitou. Em outras palavras, essas são
muitas das figuras e ilustrações da realidade da propiciação, vista de diversos
ângulos. Trata-se de argumentação falsa e superficial imaginar, como muitos
estudiosos infelizmente fazem, que essa variedade de linguagem necessariamente
implica a variação de conceito.
Outro ponto deve ser agora estabelecido. A propiciação não só nos leva ao
coração do Evangelho do Novo Testamento, como nos coloca em posição de
vantagem, de onde podemos observar o interior de muitas outras coisas. Quando
você está no topo de uma montanha, consegue ver toda a região circunvizinha e
tem uma visão muito mais ampla do que se estivesse em outro ponto da área.
Isso também acontece, quando você se coloca no topo da verdade da
propiciação. Consegue ver toda a Bíblia em perspectiva e está em posição de
avaliar os assuntos vitais que não podem ser propriamente compreendidos em
outros termos. Cinco deles serão analisados a seguir: a força motriz na vida de
Jesus, o destino dos que rejeitam a Deus, o presente da paz de Deus, as dimensões
do amor divino e o significado da glória divina. Não há dúvida de que esses
assuntos são de vital importância no cristianismo. Eles só podem ser entendidos à
luz da verdade sobre a propiciação, e isso, creio, não podeterrível" e corromperá com palavras suaves e
lisonjas aqueles cuja lealdade ao Deus da aliança tenha falhado (v. 31,32). Isto nos
mostra que aquele que conhece a Deus toma a atitude de reagir à tendência
antideus que vê operando a seu redor. Não consegue descansar enquanto seu Deus
é desafiado ou desprezado, sente que precisa fazer alguma coisa. A desonra
imposta ao nome de Deus o impele à ação.
É exatamente isso que vemos acontecer nos capítulos de Daniel, onde são
narradas as "proezas" do profeta e de seus três amigos. Eram homens que
conheciam a Deus e, em conseqüência, sentiam-se compelidos, de tempos em
tempos, a posicionar-se ativamente contra as convenções e os preceitos da
irreligião e da falsa religião. Daniel, em particular, mostra-se incapaz de relevar
esse tipo de situação; sente-se obrigado a desafiá-la abertamente. Em lugar de
correr o risco de tornar-se ritualmente impuro ao consumir as iguarias do palácio,
ele insiste em uma dieta vegetariana, para grande consternação do chefe dos
oficiais da corte (1:8-16).
Quando Dario proibiu, sob pena de morte, que fossem feitas orações durante
um mês, Daniel não só continuou orando três vezes ao dia, voltado para
Jerusalém, como também o fazia diante de uma janela aberta, de modo que
qualquer pessoa pudesse ver o que estava fazendo (6:10). Isto me fez lembrar o
bispo Ryle1 inclinando-se para a frente em
1John Charles Ryle (1816-1900), ministro ordenado da Igreja Anglicana, foi indicado em 1880 o
primeiro bispo da recém-criada diocese de Liverpool (Inglaterra). Escritor prolífico de livros de
caráter devocional, suas obras refletem profunda influência puritana. Era extremamente zeloso pela
sã doutrina em uma época em que sua igreja havia posto de lado a própria confissão de fé
denominada Trinta e nove artigos de religião.
22
seu assento na Catedral de São Paulo para que todos pudessem ver que ele não se
virava para o leste na hora do credo! Tais gestos não devem ser mal interpretados.
Não é que Daniel, ou o bispo Ryle, fossem pessoas desagradáveis ou intratáveis
que tivessem prazer na rebelião e só se sentissem felizes se provocassem
acintosamente o governo. Significa apenas que quem conhece seu Deus é sensível
às situações em que a verdade e a honra de Deus são direta ou tacitamente
prejudicadas. Assim, em vez de, por negligência, deixar que tudo continue como
está, força a atenção dos homens para o assunto e procura levá-los a mudar de
atitude — mesmo que possa sofrer algum risco pessoal.
Essa força por Deus não se resume em atitudes públicas, na realidade também
não começa aí. Os homens que conhecem seu Deus são, antes de tudo, homens
de oração, e o primeiro ponto em que seu zelo e sua força para a glória de
Deus são expressos é nas orações. Em Daniel 9, lemos como o profeta, ao
entender "pelas Escrituras" que o tempo do cativeiro de Israel estava chegando ao
fim e compreendendo igualmente que o pecado da nação ainda era tal que poderia
levar Deus a condená-la em vez de ter misericórdia, decidiu-se a buscar a Deus
"com orações e súplicas, em jejum, em pano de
saco e coberto de cinza" (v. 3). Daniel orou pela restauração de Jerusalém com
veemência, paixão e agonia de espírito às quais muitos de nós somos
completamente estranhos.
Ainda mais, o fruto invariável do verdadeiro conhecimento de Deus é a força
para orar pela causa divina — força, na verdade, que só poderá encontrar saída e
alívio da tensão interna quando canalizada em tal tipo de oração. Quanto maior o
conhecimento, maior a energia! Este pode ser um teste para nós. Talvez não
estejamos em posição de realizar atos públicos contra a incredulidade e a
apostasia; talvez sejamos velhos ou doentes, ou de algum modo limitados por
nossa condição física. Todos, porém, podemos orar a respeito da incredulidade e
apostasia que nos rodeia diariamente. Se, entretanto, houver pouca energia nessa
oração e, conseqüentemente, pouca prática, é com certeza o sinal de que ainda
conhecemos bem pouco nosso Deus.
2. Os que conhecem a Deus pensam grandes coisas sobre ele. Não há espaço
suficiente aqui para reunir tudo o que o livro de Daniel nos diz sobre a sabedoria,
o poder e a verdade do grande Deus que comanda a história e mostra sua
soberania em atos de condenação e misericórdia para com indivíduos e nações, de
acordo com sua vontade. É suficiente dizer que não há talvez em toda a Bíblia
outra apresentação mais vivida ou firmada dos muitos aspectos da realidade da
soberania de Deus.
Em face do poder e do esplendor do Império Babilônico, que engolfou a
Palestina, e da perspectiva de outros grandes impérios mundiais que se seguiriam,
minimizando Israel segundo qualquer padrão humano de cálculo, o livro todo
relembra de forma dramática que o Deus de Israel é Rei dos Reis e Senhor dos
Senhores. Lembra também que "os Céus dominam" (4:26); que a mão de Deus
está na história em todos os momentos; que a história, na verdade, não é nada
mais que "sua história", o desdobramento de seu plano eterno, e que o reino
23
triunfante, no final, será o reino de Deus.
A verdade central — que "o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens"
(4:25; cf. 5:21) — foi ensinada por Daniel a Nabucodonosor nos capítulos 2 e 4, e
também a Belsazar no capítulo 5 (v. 18-23), verdade essa que Nabucodonosor
reconheceu no capítulo 4 (v. 34-37) e que Dario confessou no capítulo 6 (v.
25-27). Ela também foi a base para as orações de Daniel nos capítulos 2 e 9 e de
sua confiança ao desafiar a autoridade nos capítulos 1 e 6, e de seus amigos, que
agiram do mesmo modo no capítulo 3. Essa verdade se constituiu na
matéria-prima de toda a revelação que Deus fez a Daniel nos capítulos
2,4,7,8,10,11 e 12.
Deus sabe e prevê todas as coisas, e sua presciência é predestinação. Ele,
portanto, terá a última palavra, tanto na história como no destino de cada homem;
seu reino e sua justiça finalmente triunfarão, pois nem os homens, nem os anjos
poderão opor-se a ele.
Eram esses os pensamentos sobre Deus que tomavam a mente de Daniel, como
testemunham suas orações (sempre a melhor evidência da idéia que o homem tem
de Deus):
Louvado seja o nome de Deus para todo o sempre; a sabedoria e o poder a
ele pertencem. Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os
estabelece. Dá sabedoria aos sábios [...] conhece o que jaz nas trevas, e a
luz habita com ele" (2:20,21,22). Ó Senhor, Deus grande e temível, que
manténs a tua aliança de amor com todos aqueles que te amam e
obedecem aos teus mandamentos [...] Senhor, tu és justo [...] O Senhor
nosso Deus é misericordioso e perdoador [...] O Senhor, o nosso Deus, é
justo em tudo o que faz [...] (9:4,7,9,14).
É assim que pensamos sobre Deus? É essa a idéia de Deus que nossas orações
expressam? Será que essa tremenda consciência de siia santa majestade, perfeição
moral e graciosa fidelidade nos mantém humildes e dependentes, respeitosos e
obedientes, como acontecia com Daniel? Por este teste podemos também medir
quanto ou quão pouco conhecemos a Deus.
3. Os que conhecem a Deus são ousados por causa dele. Daniel e seus amigos
eram homens que aceitavam riscos. Isso não era temeridade. Eles sabiam o que
estavam fazendo, tinham calculado o preço e considerado o perigo. Sabiam qual
seria o resultado de suas ações, a menos que Deus misericordiosamente
interferisse — o que, por sinal, ele fez. Mas isto não os perturbava. Uma vez
convencidos de que sua atitude estava certa e que a lealdade a Deus assim exigia,
como disse Oswald Chambers,2 eles "sorridentes lavavam as mãos quanto às
conseqüências".
"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!", disseram os apóstolos
(At 5:29). "Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum
para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a
24
2Ministro escocês (1874-1917) que veio à fé pela instrumentalidade das pregações de Charles H.
Spurgeon, bastante conhecido por seus escritos devocionais. Sua principal obra é Tudo para ele.
25
corrida", disse Paulo (At 20:24). Era esse precisamente o espírito de Daniel,
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego,e é também o espírito de todos os que
conhecem a Deus. Ainda que possam achar terrivelmente difícil essa
determinação de seguir o caminho certo, uma vez decididos, aceitam-na
ousadamente e sem hesitação. Não lhes importa se outros que pertencem ao povo
de Deus vejam o assunto de modo diferente e não tomem posição com eles
(Sadraque, Mesaque e Abede-Nego foram os únicos judeus que se negaram a
adorar a imagem de Nabucodonosor? Nenhuma das palavras ditas por eles e que
foram registradas sugerem que soubessem do fato ou que ao menos se
importassem com isso. Seu curso de ação estava claro para eles, e isso lhes
bastava). Com este teste podemos também medir nosso conhecimento de Deus.
4. Os que conhecem a Deus têm grande alegria nele. Não existe paz
comparável à da pessoa que tem a mente imbuída da plena certeza de conhecer a
Deus, e de que Deus o conhece. Este relacionamento garante o favor de Deus na
vida, na morte e para sempre.
Esta é a paz da qual Paulo fala em Romanos 5:1: "Tendo sido, pois,
justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo", e cuja
substância ele analisa completamente em Romanos 8:
Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus [...] O
próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos
filhos, então somos herdeiros [...] Sabemos que Deus age em todas as coisas para
o bem daqueles que o amam [...] aos que justificou, também glorificou [...] Se
Deus é por nós, quem será contra nós? [...] Quem fará alguma acusação contra os
escolhidos de Deus? [...] Quem nos separará do amor de Cristo? [...] Pois estou
convencido de que nem a morte nem vida [...] nem o presente nem o futuro [...]
será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso
Senhor (v. 1,16, 17,28,30,31,33,35,38,39).
Esta é a paz que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego conheciam; Essa era a razão
do contentamento e da calma com que firmaram sua posição diante do ultimato de
Nabucodonosor (Dn 3:15): "[...] Mas, se não a adorarem, serão imediatamente
atirados numa fornalha em chamas. E que deus pode livrá-los das minhas mãos?".
A resposta deles (3:16-18) é clássica: "Não precisamos defender-nos diante de
ti" (Sem medo!). "... o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos
livrará das tuas mãos, ó rei" (cortês, mas indiscutível — eles conheciam seu
Deus!). "Mas se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus
deuses" (não importa! Não faz diferença! Vivendo ou morrendo, eles estavam
contentes).
As tuas mãos dirigem meu destino,
Ó Deus de amor, bom é que seja assim! Teus
são os meus poderes,
26
Minha vida, em tudo, eterno Pai, dispõe de mim!
Meus dias sejam curtos ou compridos,
Passados em tristeza ou prazer, Em sombra ou
luz é tudo como queres,
E é tudo bom, se vem do teu querer.
A extensão de nosso contentamento é outro critério pelo qual podemos julgar
se conhecemos a Deus de verdade.
Primeiros passos
Desejamos tal conhecimento de Deus? Então, vejamos duas condições:
Primeiramente, precisamos reconhecer como é pequeno nosso conhecimento
sobre Deus. Precisamos aprender a nos medir, não pelo nosso conhecimento de
Deus, nem pelos dons e pelas responsabilidades que tenhamos na igreja, mas pelo
modo como oramos e por aquilo que vai em nosso coração. Muitos de nós, creio,
não têm idéia de quão pobres somos neste sentido. Peçamos que Deus nos mostre
isso.
Em segundo lugar, precisamos buscar o Salvador. Quando ele estava na terra
convidava os homens a acompanhá-lo; desse modo vinham a conhecê-lo e,
conhecendo-o, conheciam o Pai. O Antigo Testamento registra manifestações do
Senhor Jesus Cristo antes da encarnação, fazendo o mesmo — acompanhando os
homens, como o anjo do Senhor, a fim de que pudessem conhecê-lo. O livro de
Daniel conta dois fatos que parecem ser dois desses exemplos — pois quem era o
quarto homem que "se parece com um filho dos deuses" (3:25), e passeava com os
três amigos de Daniel na fornalha? E quem era o anjo que Deus mandou para
fechar a boca dos leões quando Daniel estava na cova dos leões (6:22)? Embora o
Senhor Jesus Cristo agora não esteja presente em corpo, espiritualmente isso não
faz diferença; ainda podemos encontrar e conhecer a Deus buscando e achando
sua companhia. Os que buscarem o Senhor Jesus até encontrá-lo — pois a
promessa é que se o buscarmos de todo o coração com certeza o encontraremos —
poderão levantar-se diante do mundo para testificar que conhecem a Deus.
27
Conhecer e ser conhecido
Para que fomos feitos? Para conhecer a Deus. Que alvo devemos estabelecer
para nós na vida? Conhecer a Deus. O que é a "vida eterna" dada por Jesus? O
conhecimento de Deus. "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3).
Qual é a melhor coisa na vida, que traz alegria, prazer e contentamento acima
de todas as outras? O conhecimento de Deus. "Assim diz o Senhor: 'Não se glorie
o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza,
mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu
sou o Senhor" (Jr 9:23, 24a).
Das situações em que Deus vê o homem, qual lhe dá mais prazer? O
conhecimento dele. "... quero [...] conhecimento de Deus, mais do que
holocaustos", diz Deus (Os 6:6; ra).
Dissemos muitas coisas nestas poucas sentenças. O ponto que queremos
evidenciar é aquele que aquece o coração de cada cristão, embora o adepto da
religião apenas formal não seja afetado por ele. (Justamente por este fato
evidencia sua condição não-regenerada.) O que dissemos proporciona
instantaneamente o alicerce, a forma e o alvo de nossa vida, além de um princípio
de prioridades e uma escala de valores.
Uma vez que você se convença de que a principal razão de sua estada aqui é
conhecer a Deus, muitos dos problemas da vida se enquadrarão devidamente. O
mundo está cheio de vítimas do mal devastador que Albert Camus1 denominou
absurdismo ("a vida é uma piada sem graça") e da doença que chamaremos "febre
de Maria Antonieta"2 ("nada tem gosto"), já que foi ela que encontrou essa frase
para descrevê-la.
Essas enfermidades prejudicam toda uma vida: tudo de repente se torna um
problema e um aborrecimento, porque nada parece valer a pena. Mas os vermes
do absurdismo e a "febre de Maria Antonieta" são doenças às quais, pela própria
natureza, o cristão está imune, exceto por momentos ocasionais de perturbação,
quando o poder da tentação deforma-lhe a mente; mas estes, graças a Deus, não
duram muito.
O que dá valor à vida é ter um grande objetivo, alguma coisa que prenda nossa
imaginação e conserve nossa fidelidade; e isto o cristão tem como ninguém. Pois
haverá objetivo mais alto, mais exaltado e mais estimulante que conhecer a
28
Deus?
De outro ponto de vista, entretanto, ainda não dissemos muita coisa. Quando
falamos sobre conhecer a Deus, usamos uma fórmula verbal, e as fórmulas são
como cheques, não têm nenhum valor a menos que saibamos como sacá-los.
Sobre o que falamos ao usar a expressão conhecer a Deus? Sobre certo
tipo de emoção? Arrepios na espinha? Um sentimento irreal, como em um sonho?
A sensação de entorpecimento e euforia procurada pelos viciados em drogas? Ou
conhecer a Deus é um tipo de experiência intelectual? Ouvimos vozes? Temos
visões? Pensamentos estranhos começam a passar pela mente? Ou o quê? Estes
assuntos devem ser discutidos especialmente porque, segundo as Escrituras,
trata-se de uma área na qual é fácil ser enganado, e às vezes se pensa conhecer a
Deus quando
1Filósofo de origem argelina (1913-1960), radicado na França. Foi um dos principais proponentes
do existencialismo. Seus livros são marcados pela visão desesperançada e niilista da condição
humana. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957.
2Mulher de Luís xvi, rei da França. De ascendência austríaca (1755-1793), era odiada por muitos
franceses. Conhecida por sua vida regalada e por debochar dos desafortunados, foi guilhotinada
durante a Revolução Francesa.
29
isso não é verdade. Perguntamosentão: que tipo de atividade, ou acontecimento
pode ser propriamente descrito como "conhecer a Deus"?
O QUE O CONHECIMENTO DE DEUS ENVOLVE
Logo de início está claro que "conhecer" a Deus é necessariamente um assunto
mais complexo que "conhecer" uma pessoa, assim como "conhecer" meu vizinho
é mais complexo que "conhecer" uma casa, um livro ou uma língua. Quanto mais
complexo o assunto, mais difícil é obter conhecimento sobre ele. Conhecer algo
inanimado, como o Ben Nevis3 ou o Museu Britânico, é possível mediante a
inspeção e a exploração. Essas atividades, embora exigentes em termos de esforço
concentrado, são relativamente fáceis de descrever.
Quando se trata, porém, de coisas vivas, conhecê-las se torna muito mais
complicado. Não se conhece realmente algo vivo enquanto não se souber, além da
história passada, como costuma reagir e se comportar em certas circunstâncias.
Uma pessoa que diz "Eu conheço este cavalo" normalmente não está indicando
apenas que "já o viu antes" (embora possa ter só esse significado). O mais
provável, entretanto, é que a pessoa queira dizer: "Conheço o comportamento dele
e posso dizer-lhe como deve ser conduzido". Tal conhecimento só ocorre depois
de algum contato anterior com o cavalo, vendo-o em ação e tentando conduzi-lo.
No caso de seres humanos, a situação é mais complicada ainda, porque,
diversamente dos cavalos, as pessoas fazem segredo e não mostram aos outros
tudo o que lhes vai no coração. Poucos dias são suficientes para conhecer
completamente um cavalo, mas você pode passar meses e anos convivendo com
outra pessoa e ainda dizer: "Eu realmente não a conheço bem". Reconhecemos
graus de conhecimento acerca de nossos semelhantes; nós os conhecemos "bem",
"não muito bem", "só nos cumprimentamos", "intimamente" ou "pelo avesso", de
acordo com o grau de abertura deles para conosco.
Assim, a qualidade e a extensão de nosso conhecimento sobre outras pessoas
depende mais delas que de nós. Nosso conhecimento é mais o
3A montanha mais alta da Escócia (Reino Unido), com 1 343 metros.
30
resultado da permissão para que as conheçamos que de nosso esforço nesse
sentido. Quando nos encontramos, devemos dar-lhes nossa atenção e demonstrar
interesse, manifestando boa vontade e nos abrindo de maneira amigável. A partir
desse ponto, entretanto, são as outras pessoas que decidem se vamos chegar a
conhecê-las ou não.
Imagine agora que seremos apresentados a alguém que sentimos ser "superior"
a nós, quer em posição, distinção intelectual, habilidade profissional, santidade
pessoal quer de outro modo qualquer. Quanto mais consciência tivermos de nossa
inferioridade maior será a sensação de que nosso papel é apenas ouvir
respeitosamente e deixar que a pessoa tome a iniciativa da conversa. (Pense em
um encontro com a rainha da Inglaterra ou com o presidente do Brasil.)
Gostaríamos de conhecer pessoas assim importantes, mas sentimos que isso
depende mais da decisão delas que da nossa. Se elas se restringirem ao protocolo,
não poderemos reclamar, ainda que fiquemos desapontados, pois, afinal, não
tínhamos nenhum direito a sua amizade.
Mas se, ao contrário, elas começarem a fazer confidências e a falar
francamente o que pensam sobre assuntos comuns, se nos convidarem para algum
programa particular que tenham planejado e pedir que estejamos
permanentemente disponíveis para esse tipo de colaboração sempre que
precisarem de nós, então nos sentiremos tremendamente privilegiados e nossa
perspectiva mudará completamente. Se a vida até então parecia sem importância e
monótona, não o será mais, agora que essas grandes personagens nos incluíram
entre seus assistentes pessoais. Que grande novidade para transmitir à família — e
uma boa razão pela qual viver!
Respeitadas as diferenças, esta é uma ilustração do que significa conhecer a
Deus. O poderoso e justo Deus disse por meio de Jeremias: "mas quem se gloriar,
glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me..." (Jr 9.24a) — pois conhecer
a Deus é um relacionamento capaz de fazer vibrar o coração humano.
O que acontece é que o Criador todo-poderoso, o Senhor dos Exércitos, o
grande Deus diante de quem as nações são como uma gota no oceano, se
aproxima de você e começa a falar-lhe por meio das palavras e verdades das
Sagradas Escrituras. Talvez você já conheça a Bíblia e as verdades cristãs há
muito tempo, mas não tenham muito significado. Um dia, porém, você desperta
para o fato de que Deus está realmente falando com você — você! — por meio da
mensagem bíblica. Enquanto você ouve as palavras de Deus, sente-se cada vez
mais diminuído, pois Deus lhe fala sobre seu pecado, sua culpa e sua fraqueza,
sua cegueira e sua insensatez e o leva a considerar-se sem esperança e indefeso, e
a implorar por perdão.
Mas isto não é tudo. À medida que ouve, você compreende que Deus está
realmente lhe abrindo o coração dele, tornando-se seu amigo e aceitando-o como
companheiro — segundo a expressão de Barth, um parceiro da aliança. É um fato
desconcertante, mas verdadeiro — o relacionamento em que seres humanos
pecaminosos conhecem a Deus é tal que Deus, por assim dizer, os aceita como
seus assistentes para serem daí por diante seus cooperadores (v. 1Co 3:9) e amigos
pessoais. O ato divino de tirar José da prisão e torná-lo primeiro-ministro do
31
Faraó ilustra o que ele faz com todo cristão: de prisioneiro de Satanás, vê-se
transferido a uma posição de confiança a serviço de Deus. Sua vida é
transformada imediatamente.
A diferença entre sentir orgulho ou vergonha da condição de servo depende
daquele a quem se serve. Muitas pessoas falaram do orgulho de prestar serviços
pessoais a sir Winston Churchill na Segunda Guerra Mundial. Quão maior deveria
ser o orgulho e a glória de conhecer e servir ao Senhor do céu e da terra!
O que então está contido no ato de conhecer a Deus? Juntando os vários
elementos incluídos neste relacionamento, já delineados, podemos dizer que o
conhecimento de Deus envolve inicialmente o ato de ouvir a Palavra de Deus e
recebê-la de acordo com a interpretação do Espírito Santo ao aplicá-la a nós. Em
segundo lugar, prestar atenção à natureza e ao caráter de Deus revelados em sua
Palavra e obra; em terceiro lugar, aceitar seu convite e obedecer a suas ordens e,
em quarto lugar, reconhecer o amor demonstrado por Deus e alegrar-nos nele.
Com isso, o Senhor se aproxima de nós e nos atrai para sua divina companhia.
Conhecer Jesus
A Bíblia complementa essas idéias usando figuras e analogias. Ela nos fala que
conhecemos a Deus como o filho conhece seu pai, a esposa seu marido, o súdito
seu rei e a ovelha seu pastor (estas são apenas quatro das muitas analogias
usadas). Todas mostram a relação em que o conhecedor "procura" aquele que é
conhecido, e este se responsabiliza pelo bem-estar daquele. Isto faz parte do
conceito bíblico de conhecer a Deus; os que o conhecem — isto é, os que ele
permite que o conheçam — são amados e cuidados por ele. Falaremos mais
adiante sobre este assunto.
A Bíblia acrescenta, então, outro ponto: só podemos conhecer a Deus deste
modo, mediante o conhecimento de Jesus Cristo, que é Deus manifestado na
carne: "... não me conhece ...? ... Quem me vê, vê o Pai", "Ninguém vem ao Pai, a
não ser por mim" (Jo 14:9,6). É importante, portanto, que tenhamos bem claro na
mente o que significa conhecer Jesus Cristo!
Para os discípulos que conviveram com Jesus, conhecê-lo era diretamente
comparável ao conhecimento do grande homem de nossa ilustração. Os discípulos
eram simples galileus, sem nenhuma razão especial de interesse por Jesus. Mas
Jesus, o mestre que falou com autoridade, o profeta que era mais do que profeta, o
Senhor que despertou neles crescente respeito e devoção até que o reconheceram
como seu Deus, os encontrou, chamou-os a si, confiou neles e os designou como
seus agentes para proclamar ao mundo o Reino de Deus. "Escolheu doze,
designando-os apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar" (Mc
3:14). Eles reconheceram quem os havia escolhido e chamado de amigos como "o
Cristo, o Filhodo Deus vivo" (Mt 16:16), o homem nascido para ser rei, o
portador das "palavras de vida eterna" (Jo 6:68). O senso de lealdade e privilégio
que este conhecimento trouxe transformou completamente a vida deles.
Quando o Novo Testamento fala que Jesus Cristo ressuscitou, um dos
32
significados desta declaração é que a vítima do Calvário está agora, por assim
dizer, livre. Qualquer pessoa, em qualquer lugar pode desfrutar do mesmo tipo de
relacionamento com ele que os discípulos tiveram durante o tempo em que viveu
entre nós.
As únicas diferenças são estas: primeira, sua presença entre os cristãos não é
física, mas espiritual e, portanto, invisível aos olhos físicos. Segunda, baseado no
testemunho do Novo Testamento, o cristão, desde o início, sabe as verdades sobre
a divindade e o sacrifício de Jesus que os primeiros discípulos foram aprendendo
gradualmente no decorrer dos anos. Terceira, Jesus não fala agora conosco
mediante palavras novas, mas aplica a nossa consciência suas palavras registradas
nos evangelhos, junto com todo o testemunho bíblico a seu respeito.
Conhecer Jesus permanece uma relação definida de discipulado pessoal, como
o foi para os doze quando ele estava na terra. O Jesus que anda pelas histórias do
Evangelho também anda com os cristãos agora, e conhecê-lo significa seguir com
ele, tanto agora como antes.
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz", diz Jesus, "eu as conheço, e elas me
seguem" (Jo 10:27). Sua "voz" é sua afirmação, sua promessa e seu chamado: "Eu
sou o pão da vida [...] a porta das ovelhas [...] o bom pastor [...] a ressurreição"
(Jo 6:35; 10:7,14; 11:25). "... Aquele que não honra o Filho, também não honra o
Pai que o enviou. Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que
me enviou, tem a vida eterna..." (Jo 5:23b, 24a). "Venham a mim, todos os que
estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o
meu jugo e aprendam de mim [...] e vocês encontrarão descanso..." (Mt 11:28,29).
A voz de Jesus é "ouvida" quando sua afirmação é reconhecida, quando cremos
em sua promessa e respondemos a seu chamado. Desse momento em diante, Jesus
passa a ser conhecido como pastor, e os que confiam nele são reconhecidos por
ele como suas ovelhas. "[...] eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida
eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão" (Jo
10:27,28). Conhecer a Jesus é ser salvo por ele do pecado, da culpa e da morte,
nesta vida e na vida futura.
33
Uma questão pessoal
Recordando agora o que foi dito sobre o significado de "que te conheçam, o único
Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste", podemos destacar os
seguintes pontos:
Primeiro, conhecer a Deus é uma questão pessoal, como acontece com
qualquer relacionamento humano. Conhecê-lo é mais que obter conhecimento
sobre ele; é relacionar-se com ele enquanto se revela a você; é ser dirigido por ele
à medida que toma conhecimento de você. Conhecê-lo é uma precondição para
confiar nele ("E como alguém pode ter fé no Senhor se não ouvir falar dele?" [Rm
10:14; vfl]), mas a extensão de nosso conhecimento a seu respeito não pode servir
de medida para a profundidade desse conhecimento.
John Owen4 e João Calvino5 sabiam mais teologia do que John Bunyan ou
Billy Bray,6 mas quem poderá negar que os últimos conheciam seu Deus tão bem
quanto os primeiros? (Os quatro, é claro, eram profundos pesquisadores da Bíblia,
o que vale mais que qualquer conhecimento teológico). Se o fator decisivo fosse o
conhecimento da doutrina, naturalmente os maiores estudiosos da Bíblia
conheceriam a Deus melhor que os outros. Mas não é isso o que acontece; você
pode guardar na mente a doutrina correta, sem jamais provar em seu coração suas
realidades. O simples leitor da Bíblia e ouvinte de sermões cheio do Espírito
4Ministro puritano, nascido em Stadham, Inglaterra (I6l6-1683). Uma das mentes mais brilhantes
de sua época. Dissidente do anglicanismo, serviu como capelão de Oliver Cromwell apesar de sua
simpatia pelas igrejas independentes (mais próximas do con-gregacionalismo). Suas obras mais
famosas são: Por quem Cristo morreu? e A display of arminianism.
5Reformador e teólogo francês (1509-1564), foi o grande condensador do pensamento protestante.
Famoso por suas publicações, das quais se destacam As institutas da religião cristã e seus
comentários bíblicos, Calvino foi ainda o maior defensor da doutrina agostiniana da predestinação.
Aliás, todo o sistema das doutrinas da graça passou a ser designado calvinismo. Foi também o
responsável pela modernização de Genebra (Suíça), cidade na qual ajudou a reformar não só a
Igreja, como o próprio Estado.
6William Trewartha Bray (1794-1868) nasceu em Twelveheads, Inglaterra. Pregador metodista,
famoso por seu estilo pessoal pouco convencional para a época (sempre pregava gritando, pulando
e batendo palmas), não possuía educação formal, e seu ministério se deu entre os trabalhadores de
minas de sua região. Um verdadeiro exemplo de alegria no Senhor e de devoção pessoal a Cristo.
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Santo desenvolverá um relacionamento mais profundo com seu Deus e Salvador
que o estudioso mais erudito que se contenta apenas por estar teologica-mente
correto. A razão disto é que o primeiro entrará em contato com Deus a respeito da
aplicação prática da verdade em sua vida, enquanto o último não terá essa
preocupação.
Segundo, conhecer a Deus é uma questão de envolvimento pessoal que
abrange a mente, a vontade e os sentimentos. Caso contrário, não seria um
relacionamento completo de fato. Para conhecer outra pessoa você precisa
envolver-se com seus interesses, procurar sua companhia e estar pronto a se
identificar com suas preocupações. Sem isso seu relacionamento com ela será
apenas superficial e insípido. "Provem, e vejam como o Senhor é bom", diz o
salmista (Sl 34:8). "Provar", como bem sabemos, é "experimentar" um pedaço de
alguma coisa com a intenção de apreciar o sabor. Um prato pode parecer delicioso
e ser bem recomendado pelo cozinheiro, mas não saberemos suas reais qualidades
enquanto não o provarmos.
Do mesmo modo não conheceremos as reais qualidades de alguém enquanto
não tivermos "experimentado" sua amizade. Os amigos estão, figuradamente,
comunicando sabores um ao outro todo o tempo, seja quando compartilham
atitudes (pense nas pessoas que se amam) seja em relação a interesses comuns. À
medida que abrem o coração um ao outro, pelo diálogo ou pelas ações, um
"prova" as qualidades do outro, na alegria ou na tristeza. Eles se identificaram
com as preocupações mútuas, envolvendo-se, portanto, pessoal e emocionalmente
nelas. Sentem e pensam um no outro. Trata-se de um aspecto essencial do
conhecimento entre amigos, e o mesmo se aplica ao conhecimento do cristão
sobre Deus, o qual, como já vimos, é em si mesmo um relacionamento entre
amigos.
O lado emocional do conhecimento de Deus tem sido constantemente
desestimulado nos últimos tempos, por medo de desenvolver uma introversão
piegas. É verdade que não existe nada mais irreligioso que a religião
ensimesmada. É preciso salientar constantemente que Deus não existe para nosso
conforto, nossa felicidade, nossa satisfação, ou para nos proporcionar
"experiências religiosas", como se isso fosse o mais interessante e importante na
vida.
É necessário também destacar que se qualquer pessoa, baseando-se em
"experiências religiosas", disser: '"Eu o conheço', mas não obedece aos seus
mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele" (1Jo 2:4; cf. v. 9,11; 3:6,11;
4:20).
Mas, apesar de tudo isso, não devemos desprezar o fato de que o conhecimento
de Deus é uma relação emocional, assim como intelectual e volitiva, e não seria
de fato um relacionamento profundo entre duas pessoas se não houvesse emoção.
O cristão é, e deve ser, emocional-mente envolvido nas vitórias e vissicitudes da
causa de Deus no mundo, como os auxiliares imediatos de sir Winston Churchill
estavam envolvidos com as oscilações da guerra.
O cristão se alegra quando Deus é honrado e vindicado e sente profunda
angústia

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