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EDITORA: 1º EDIÇÃO - 2020 | SÃO PAULO/ SP TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Editora: 1º EDIÇÃO - 2020 | SÃO PAULO/ SP TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO � SUMÁRIO: CAPÍTULO 1: TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO �������������������� 3 CAPÍTULO 2: AVALIAÇÃO MULTIDISCIPLINAR E ADAPTAÇÃO CURRICULAR PARA ALUNOS COM TGD ������������������������������� 39 CAPÍTULO 3: ESTÍMULO E ESCOLARIZAÇÃO DE ALUNOS COM TGD �������������� 57 CAPÍTULO 4: DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE ��������������������������� 67 CAPÍTULO 5: ALTAS HABILIDADES/ SUPERDOTAÇÃO ������������������������������� 83 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ������������������������������������� 102 – 3 – CAPÍTULO 1: TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO – 4 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO 1�1 Caracterização: aspectos sociais, físicos, biológicos e educacionais Segundo VASQUES (2012) o diagnóstico dos transtornos globais do desenvolvimento tem uma história ainda recente e com- plexa. A classificação dos transtornos mentais teve início fim do XVII e inicio do sec. XX. Emil Kraepelin (1856 – 1926) foi o primeiro a classificar as doenças mentais conhecidas na época em um “Tratado de psiquiatria”. Emil Kraepelin Fonte: http://altmentalities.wordpress.com/2011/02/08/ Em 1913, Karl Jaspers publicou sua obra “Psicopatolo- gia geral”, que até os dias atuais ainda serve de base para exa- mes diagnósticos. – 5 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Karl Jaspers Fonte: http://www.friedenspreis-des-deutschen- -buchhandels.de/445722/?aid=537628 Outra grande contribuição para a compreensão dos trans- tornos mentais de uma forma geral foi dada por Sigmund Freud (1856 – 1939), que laçou em 1900 seu livro “Interpretação dos sonhos”, revelando a existência do inconsciente, a importância dos sonhos e do desenvolvimento da psicossexualidade infantil. Sigmund Freud Fonte: http://www.veteranstoday.com/2013/12/24/ sigmund-freud-psychoanalysis-and-the-war-on-the-west/ O autismo, hoje considerado um dos Transtornos globais do desenvolvimento, era classificado até então como uma psicose in- fantil. (BELISÁRIO FILHO e CUNHA, 2010). – 6 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO São considerados portadores de TGD pela Política Nacional de Educação Especial “aqueles que apresentam alterações quali- tativas das interações sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e re- petitivo.” (BRASIL, 2008). De acordo com a Resolução n ° 4, de 2009 que institui as diretrizes operacionais para o atendimento educacional especiali- zado na educação básica, são considerados alunos com TGD: “(...) alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desinte- grativo da infância (psicoses) e transtornos inva- sivos sem outra especificação.”(BRASIL, 2009) A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Pro- blemas Relacionados com a Saúde, frequentemente designada pela sigla CID (em inglês: International Statistical Classifica- tion of Diseases and Related Health Problems), publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), visa padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde. Foi publicado pela primeira vez em 1948 e sua versão eletrônica é atualizada anualmente desde 2000. Os transtornos globais do desenvolvimento encontram-se definidos no CID-10, como um (OMS, 2003): “[...] grupo de transtornos caracterizados por alterações qualitativas das interações recíprocas – 7 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO e modalidades de comunicação e por um reper- tório de interesse e atividades restrito, estereoti- pado e repetitivo. Estas anomalias qualitativas constituem uma característica global do funcio- namento do sujeito, em todas as ocasiões.” O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – DSM, publicado Associação Americana de Psiquiatria (Ameri- can Psychiatric Association - APA), teve sua 1ª edição 1952, também tem como objetivo a classificação nosológica oferecendo para profissionais da área da saúde mental um manual que lis- ta as diferentes categorias de transtornos mentais e os critérios para diagnosticá-los. Os TGD no DSM-IV são classificados como Transtornos Invasivos do Desenvolvimento e tem como caracterís- ticas (APA, 2002): “[...] um comprometimento grave e global em diversas áreas do desenvolvimento: habili- dades de interação social recíproca, habilidades de comunicação ou presença de estereotipias de comportamento, interesses e atividades. Os pre- juízos qualitativos que definem essas condições representam um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo.” Os TGD em geral se manifestam nos primeiros anos de vida e frequentemente estão associados com algum grau de Retardo Men- tal ou com outras condições médicas gerais como anormalidades – 8 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO cromossômicas, infecções congênitas e anormalidades estruturais do sistema nervoso central (APA, 2002). Ambas as classificações, do CID-10 e do DSM-IV, apontam a existência da desordem de algumas funções do desenvolvimento infantil como característica principal dos transtornos do desenvol- vimento, embora apresentem entidades clínicas diferenciadas. No CID-10 os Transtornos globais do desenvolvimento são descritos no capítulo V que compreende todos os Transtornos mentais e comportamentais. Tabela 1-1: Comparação de entidades clínicas dos Transtornos globais do desenvolvimento (CID-10 e DSM-IV-TR) TGD no CID-10 TGD no DSM-IV-TR Autismo Infantil Transtorno autista Síndrome de Rett Transtorno de Rett Outros transt. desintregativos da infância Transtorno desintregativo da infância Síndrome de Aspeger Transtorno de Aspeger Transt. global do desenvolvimento sem outra especificação – TGD SOE Transt. global do desenvolvimento sem outra especificação – TGD SOU (incluindo autismo atípico) Autismo atípico --------- Transt. com hipercinesia associada a retardo mental --------- Outros transt. globais do desenvolvimetno --------- Fonte: RAMOS, 2012 A causa dos quadros dos TGD é multifatorial dependendo de fatores genéticos e ambientais. As estatísticas mais recentes, realizadas em várias partes do mundo, referem prevalência dos TGD como sendo de 1:160 indivíduos, também apontam que esses transtornos afetam mais os meninos na proporção de 4 meninos para 1 menina. (SCHWARTZMAN, 2010). – 9 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO De acordo com RAMOS (2012) o modelo primordial utili- zado pelos diversos estudiosos para a compreensão dos Transtor- nos globais do desenvolvimento centra-se no conceito de espectro do autismo, que inclui transtorno autístico (autismo), transtorno de Asperger, transtorno desintegrativo da infância, e transtorno global ou invasivo do desenvolvimento sem outra especificação. O Espectro Autista é um contínuo, não uma categoria única, e apresenta-se em diferentes graus. Há, nesse contínuo, os Trans- tornos Globais do Desenvolvimento e outros que não podem ser considerados como Autismo, ou outro TGD, mas que apresentam características no desenvolvimento correspondentes a traços pre- sentes no autismo. (BELISÁRIO FILHO e CUNHA, 2010). Os transtornos do espectro autista surgem antes dos três anos de idade e apresentam um conjunto de sintomas que pressu- põem um desvio no curso normal do desenvolvimento. Os transtornos do espectro autista têm em comum (PON- TES, 2014): ● O comprometimento da interação social recíproca; ● O comprometimento da comunicação verbal e não verbal; ● Manifestação de comportamentos repetitivos e estereoti- pados, variando desde as formas mais graves até as for- mas mais leves. – 10 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-1: Tríade do espectro autista Fonte: http://ueevboim.blogspot.com.br/2010/12/o- -que-sao-pea-perturbacoes-do-espectro.htm “Os três sintomas principais, que são uma espé- cie de marcadores para apresença do autismo, são: prejuízo grave do desenvolvimento de interações sociais recíprocas, prejuízo grave do desenvolvi- mento da comunicação - não só a linguagem fala- da, mas também expressões faciais, gestos, postura corporal, etc. E, finalmente, ocorre uma importante limitação da variabilidade de comportamentos, de modo que as pessoas com autismo não podem fazer muitas coisas. Eles não conseguem mudar seu pa- drão de comportamento de acordo com a situação social, sempre vão se comportar à sua maneira: serão sempre eles mesmos e não mudarão de acor- do com as demandas sociais ou o ambiente social. Todos concordam que esses sintomas devem estar presentes para que um diagnóstico seja feito e que os problemas devem ser muito importantes.”(GILLBERG, 2005) – 11 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO GILLBERG (2005) afirma que a deficiência no cam- po social pode ser observada através da manifestação clí- nica dos seguintes sintomas: ● Falha no contato visual nas interações sociais; ● Falha no desenvolvimento de interações com crianças da mesma idade ou ausência de brincadeiras sociais; ● Falta de reciprocidade sócio emocional ou falta de empatia; ● Ausência de procura espontânea de compartilha- mento prazer. Pode-se verificar que na forma mais grave dos transtornos do espectro autista existe isolamento e a indiferença às pessoas. Uma forma mais atenuada pode ser vista naqueles que não procu- ram espontaneamente o contato social, mas aceitam ser procura- dos sem oferecer resistência. Nesses casos, há a busca de contato social de forma inadequada e unilateral. Além disso, pode-se ob- servar uma pobreza na capacidade de aprender as regras mais sutis da interação social e falta de empatia. (PONTES, 2014). PONTES (2014) lista uma série de comportamentos que servem como sinais de alerta em relação aos sintomas da pertur- bação da interação social nos Transtornos do espectro autista, são eles: ● Não sorrir socialmente; ● Preferir brincar sozinho; ● Não pedir algo que deseja, pegando sozinho o que quer, mostrando assim muita independência; ● Apresentar pouco contato com o olhar; ● Viver em seu próprio mundo e ignorar as pessoas que o cercam; ● Não mostrar interesse em outras crianças. – 12 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-2: O comportamento social no espectro autista Fonte: SOUZA, 2010. CUNHA (2012) aponta nesses transtornos a alteração da função executiva do pensamento, que permite a utilização de estra- tégias adequadas para se alcançar um objetivo e está diretamente relacionada à capacidade humana de antecipar, planificar, con- trolar impulsos, inibir respostas inadequadas, flexibilizar pensa- mento e ação. Esta função do pensamento é fundamental para o enfrentamento de situações-problema, de situações novas, para a condução das relações sociais, para o alcance dos objetivos ou para a satisfação de necessidades e alcance de propósitos, em diferentes contextos, sempre que esteja presente uma intenção, um objetivo ou uma necessidade a ser atendida. – 13 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Em relação à comunicação GILLBERG (2005) res- salta os seguintes sintomas: ● Ausência ou dificuldades na linguagem falada; ● Falha para manter conversação; ● Discurso repetitivo, incluindo a ecolalia (repetição de pa- lavras ou frases). PONTES (2014) listou uma série de comportamentos que servem como sinais de alerta em relação aos sintomas da perturba- ção da comunicação nos Transtornos do espectro autista, são eles: ● Não responder ao próprio nome; ● Não conseguir dizer o que quer; ● Atraso na linguagem; ● Não atender ordens; ● Aparentar ser surdo algumas vezes; ● Não apontar, nem acenar tchau; ● Falar poucas palavras ou não falar. Em relação ao comportamento em geral GILLBERG (2005) ressalta os seguintes sintomas: ● Preocupação circunscrita a um interesse especial; ● Dependência compulsiva de rotinas; ● Estereotipias motoras; ● Preocupação com partes de objetos. Nos transtornos do espectro autista a atenção pode estar cir- cunscrita a um interesse especial ou ficar compulsivamente ligadas a determinadas rotinas, e há a necessidade de que aquela rotina seja seguida no mesmo horário do dia, exatamente no mesmo local e com as mesmas pessoas. (GILLBERG, 2005). – 14 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO PONTES (2014) também listou uma série de comporta- mentos que servem como sinais de alerta em relação aos sintomas da perturbação do comportamento nos Transtornos do espec- tro autista, são eles: ● Apresentar crises de raiva; ● Apresentar comportamento hiperativo, opositivo e não cooperador; ● Não saber como brincar com brinquedos; ● Andar na ponta dos pés; ● Se interessar demasiadamente por determinados objetos; ● Gostar de enfileirar objetos; ● Mostrar muito sensibilidade a determinadas textu- ras ou sons ● Apresentar movimentos estranhos e/ou repetitivos. – 15 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-3: Sintomas do espectro autista Fonte: http://www.lincabrasil.com.br/autismo.htm Existem alguns filmes que ilustram com maestria o transtorno do espectro autista, como: Rain Men (1988); – 16 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Meu filho, meu mundo (1979); Missão Especial (2004), en- tre outros. Figura 1-4: Filmes – espectro autista Fonte: http://www.google 1.1.1 Autismo Segundo BELISÁRIO FILHO e CUNHA (2010) o termo autismo foi utilizado pela primeira vez em 1911, por Bleuler, tendo como principais características a perda de contato com a realidade e consequente dificuldade ou impossibilidade de comunicação. Em 1943 o Dr. Leo Kanner descreve o autismo em seu artigo “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”. Em 1944, Hans Asper- ger escreve um artigo com o título “Psicopatologia Autística da Infância”, onde também descreve as características do autismo. Atribui-se tanto a Kanner como a Asperger a identificação do au- tismo, como entidade clínica (MELLO, 2007). Autismo é um dos transtornos globais do desenvolvi- mento, caracterizado por alterações presentes antes dos três anos de idade, com impacto múltiplo e variável nas áreas de – 17 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO comunicação, interação social, aprendizado e capacidade de adap- tação (MELLO, 2007). Todas as características anteriormente definidas no Trans- torno do espectro autista são sintomas que podem ser apresenta- dos nessa entidade clínica. Geralmente descreve-se o portador de autismo como alguém que vive em um mundo próprio, alheio os demais, apresentando assim dificuldades de relacionar até com sua própria família. Tabela 1-2: Autismo Fonte: BELIZÁRIO e CUNHA, 2010 Segundo a ASA (Autism Society of American) indiví- duos com autismo exibem pelo menos metade das características listadas na tabela abaixo: ● Pouco ou nenhum contato visual; ● Aparente insensibilidade à dor; ● Preferência pela solidão, recusa colo ou afagos e apresen- ta modos arredios; ● Inapropriada fixação em objetos e na rotação dos mesmos; ● Perceptível hiperatividade ou extrema inatividade; ● Ausência de resposta aos métodos normais de ensino; ● Insistência em repetição, resistência à mudança de rotina; – 18 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO ● Não tem real medo do perigo (consciência de situações que envolvam perigo); ● Procedimento com poses bizarras; ● Ecolalia (repete palavras ou frases em lugar da lingua- gem normal); ● Age como se estivesse surdo; ● Dificuldade em expressar necessidades - usa gesticular e apontar no lugar de palavras; ● Acessos de raiva - demonstra extrema aflição sem ra- zão aparente; ● Irregular habilidade motora - pode não querer chutar uma bola, mas pode arrumar blocos. Em relação às causas do autismo MELLO (2007) afirma que: “As causas do autismo são desconhecidas. Acredita-se que a origem do autismo esteja em anormalidades em alguma parte do cérebro ain- da não definida de forma conclusiva e, provavel- mente, de origem genética.Além disso, admite-se que possa ser causado por problemas relaciona- dos a fatos ocorridos durante a gestação ou no momento do parto.” – 19 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-5: Símbolo do Dia Mundial da Conscientização do Autismo Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Dia_Mundial_de_Conscientiza%C3%A7%C3%A3o_do_Autismo Figura 1-6: Cartaz do Dia do autismo no Brasil Fonte: http://www.revistaautismo.com.br/diamundial – 20 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO De acordo com estudos recentes o autismo é 4 vezes mais frequente em pessoas do sexo masculino e incide igualmente em famílias de diferentes raças, credos ou classes sociais. O diagnóstico de autismo é feito basicamente através da ava- liação do quadro clínico, pois não existem testes laboratoriais es- pecíficos para a detecção do autismo. Raramente o diagnóstico conclusivo é feito antes dos 24 me- ses (MELLO, 2007). Além dos critérios diagnósticos estabelecidos pelo CID-10 e pelo DSM-IV a aplicação de um inventário ou questionário junto aos pais pode ajudar o médico a entender melhor o quadro clínico apresentado. No Reino Unido, é bastante utilizado o CHAT (Che- cklist de Autismo em Bebês), desenvolvido por Baron-Cohen, Allen e Gillberg, 1992, que é uma escala de investigação de autismo que pode ser aplicado em crianças aos 18 meses de idade. Apre- senta um conjunto de nove perguntas a serem feitas aos pais com respostas tipo sim/não. O tratamento e o prognóstico do autismo são tão variáveis quanto são variáveis às manifestações clínicas dos sintomas. Não existe cura para o autismo, embora o tratamento possa produzir benefícios significativos e duradouros. O tratamento adequado é realizado em função das características particulares de cada in- divíduo e deve levar em consideração a existência ou não de ou- tros transtornos. Não há medicação específica para o autismo, mas outros problemas associados podem demandar uma medica- ção particular. “O autismo intriga e angustia as famílias nas quais se impõe, pois a pessoa portadora de autis- mo, geralmente, tem uma aparência harmoniosa – 21 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO e ao mesmo tempo um perfil irregular de desen- volvimento, com bom funcionamento em algumas áreas enquanto outras se encontram bastante comprometidas.” (MELLO, 2007) O indivíduo com autismo pode apresentar ao longo do tempo diversos graus de comprometimento da cognição e linguagem, va- riando desde o retardo mental e linguístico severo até os níveis de desenvolvimento normal dessas competências. (PONTES, 2014). A família e a escola têm um papel primordial no tratamento do autismo. Em primeiro lugar a família precisa ser orientada a respeito do autismo e de todas as possibilidades de tratamento e mudança do quadro clínico. É importante também que a família busque o apoio para lidar com essa realidade, pois a angústia e outras emoções não elaboradas podem intervir em qualquer for- ma de tratamento. A escola também necessita desse conhecimento e apoio para que junto com a família possam oferecer constante- mente oportunidades de socialização para o autista ajudando-os a lidar com suas dificuldades nas áreas da comunicação e interação social, aprendizado e capacidade de adaptação. No dia 2 de abril é comemorado o Dia Mundial de Conscien- tização do Autismo. Essa data foi criada pela ONU no fim de 2007, iniciando a campanha em 2 de abril de 2008. Desde então, várias organizações de diferentes países realizam eventos nessa data. – 22 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO 1.1.2 Síndrome de Rett Andreas Rett identificou, em 1966, uma condição caracteri- zada por deterioração neuromotora em crianças do sexo feminino com um quadro clínico bastante singular. A prevalência da doença está estimada entre 1:10.000 e 1:15.000, atingindo apenas a popula- ção feminina, sendo uma das causas mais frequentes de deficiência mental severa que afeta esse sexo (SCHWARTZMAN, 2002). A doença evolui em estágios de forma previsível (MERCA- DANTE; GAAG e SCHWARTZMAN, 2007): 1. Estagnação precoce: Dos 6 aos 18 meses, caracteri- zando-se pela estagnação do desenvolvimento, desacele- ração do crescimento do perímetro cefálico e tendência ao isolamento social. 2. Rapidamente destrutiva: Entre o primeiro e o tercei- ro ano de vida, com regressão psicomotora, choro imo- tivado, irritabilidade, perda da fala adquirida, compor- tamento autista e movimentos estereotipados das mãos. Podem ocorrer irregularidades respiratórias e epilepsia. 3. Pseudoestacionária: Entre os dois e dez anos de ida- de, podendo haver certa melhora de alguns dos sintomas como, por exemplo, o contato social. Presença de ataxia (falta de coordenação de movimentos muscula- res voluntários e de equilíbrio), apraxia (perda da habilidade para executar movimentos e gestos precisos), espasticidade (aumento do tônus mus- cular), escoliose (desvio da coluna vertebral) e bru- xismo (ranger os dentes de forma rítmica durante o sono). Podem ocorrer episódios de perda de fôlego, – 23 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO aerofagia (engolir ar em excesso enquanto fala ou come), expulsão forçada de ar e saliva. 4. Deterioração motora tardia: Inicia-se em torno dos dez anos de idade, com desvio cognitivo grave e lenta pro- gressão de prejuízos motores, podendo levar a necessida- de do uso de cadeira de rodas. Figura 1-7: Portadora de síndrome de Rett Fonte: www.mimundorett.com Tabela 1-3: Síndrome de Rett Fonte: BELIZÁRIO e CUNHA, 2010 – 24 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO A sobrevida na Síndrome de Rett pode ser limitada em de- corrência de quadros infecciosos. “Outro fator que pode limitar tanto a qualidade de vida como o tempo de sobrevida, consiste nos problemas respiratórios crônicos decorrentes de problemas secundários à escoliose, que pode chegar a comprometer seria- mente a expansão pulmonar.” (SCHWARTZMAN, 2002). 1.1.3 Síndrome de Asperger A Síndrome de Asperger é considerada como uma forma brand de autismo, diferente desse, quem tem Asperger não apresenta comprometi- mento intelectual e retardo cognitivo. “Por isso os primeiros sinais e sin- tomas do distúrbio costumam ser ignorados pelos pais, que os atribuem a características da personalidade da criança.” (PEREIRA, 2013). De acordo SONZA (2010) muitos portadores da Síndrome de Rett possuem QI acima dos índices normais, apresentando ha- bilidade verbal muito desenvolvida, com um vocabulário amplo, diversificado e rebuscado. “Os sinais e sintomas da síndrome de Asperger podem aparecer nos primeiros anos de vida da criança, mas raramente são valorizados pelos pais como algo negativo, especialmente se as manifes- tações forem leves. A grande maioria dos diagnós- ticos da síndrome de Asperger é feita a partir da fase escolar, quando a dificuldade de socialização, considerada a característica mais significativa do distúrbio, manifesta-se com maior intensidade, juntamente com o desinteresse por tudo que não se relacione com o hiperfoco de atenção.”(PEREIRA, 2013) – 25 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Quando adultos, podem ter problemas com a empatia e mo- dulação da interação social (BELIZÁRIO e CUNHA, 2010). Tabela 1-4: Síndrome de Asperge Fonte: BELIZÁRIO e CUNHA, 2010. Segundo GARCIA (2012) a Síndrome de Asperger é mais comum no sexo masculino. E já foi identificada em indivíduos que são considerados os maiores gênios da humanidade, como Eins- tein, Newton, Van Gogh e Bill Gates. Figura 1-8: Famosos portadores de síndrome de Asperger Fonte: www.google.com 1.1.4 Transtorno Desintegrativo da infância A característica essencial do Transtorno Desintegrativo da Infância de acordo com o DSM-IV é uma regressão pronunciada – 26 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO em múltiplas áreas do funcionamento, após um período de pelo menos 2 anos de desenvolvimento aparentemente normal, mani- festado pela presença de comunicação verbal e não-verbal, rela- cionamentos sociais,jogos e comportamento adaptativo apropria- dos à idade. Outro critério diagnóstico é a perda clinicamente significa- tiva de habilidades já adquiridas (antes dos 10 anos) em pelo menos duas das seguintes áreas: ● Linguagem expressiva ou receptiva; ● Habilidades sociais ou comportamento adaptativo; ● Controle intestinal ou vesical; ● Jogos; ● Habilidades motoras. Além disso, é constatado o prejuízo qualitativo em pelo me- nos duas das seguintes áreas (APA, 2002): ● Interação social (por ex., prejuízo nos comportamen- tos não-verbais, fracasso para desenvolver relaciona- mentos com seus pares, falta de reciprocidade social ou emocional); ● Comunicação (por ex., atraso ou ausência de linguagem falada, incapacidade para iniciar ou manter uma conver- sação, uso estereotipado e repetitivo da linguagem, falta de jogos variados de faz-de-conta; ● Comportamento (padrões restritos, repetitivos e estere- otipados de comportamento, interesses e atividades, in- cluindo estereotipias motoras e maneirismos). – 27 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Tabela 1-5: Transtorno Desintegrativo da infância Fonte: BELIZÁRIO e CUNHA, 2010 1.1.5 Transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação De acordo com CUNHA (2014) o diagnóstico de Transtor- no global do desenvolvimento sem outra especificação somente é dado quando não são satisfeitos os critérios diagnósticos para os demais transtornos do desenvolvimento global. Ocorre um prejuízo severo no desenvolvimento de uma das seguintes áreas: ● Interação social recíproca; ● Habilidades de comunicação verbal e não-verbal; ● Comportamentos, interesses e atividades estereotipados. – 28 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Tabela 1-6: Transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação Fonte: BELIZÁRIO e CUNHA, 2010 1�2 Os alunos com TGD e políticas públicas Os alunos com deficiência, transtornos globais do desen- volvimento e altas habilidades/superdotação são o público alvo da Educação Especial que “se organizou tradicionalmente como atendimento educacional especializado substitutivo ao ensino co- mum.” (BRASIL, 2008). Em 1961, o atendimento educacional às pessoas com defici- ência passou ser fundamentado pelas disposições da Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024/61, que aponta o direito dos “excepcionais” à educação, que deve ser realizado pre- ferencialmente dentro do sistema geral de ensino. A Constituição Federal de 1988; o Estatuto da Criança e do Adolescente instituído pela Lei nº. 8.069/90; e outros documentos como a Declaração Mundial de Educação para Todos (1990) e a Declaração de Salamanca (1994), passaram a influenciar a formu- lação das políticas públicas para uma educação inclusiva. Em 1996 foi publicada a lei nº 9.394 estabelecendo as novas diretrizes e bases da educação nacional. A educação especial é en- tendida nessa lei como a modalidade de educação escolar oferecida – 29 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO preferencialmente na rede regular de ensino, para os alunos com deficiência, TGD e altas habilidades ou superdotação. Também prevê que o atendimento educacional feito em classes, escolas ou serviços especializados, será realizado sempre que não for possível a integração desses alunos nas classes comuns de ensino regular em função de suas condições específicas (BRASIL, 1996). Em 2001 foi publicada a Política Nacional de Saúde Mental que assegura os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e dispõe sobre a necessidade de proteção das mesmas. “Artigo 1º - Os direitos e a proteção das pesso- as acometidas de transtorno mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orienta- ção sexual, religião, opção política, nacionalida- de, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu trans- torno, ou qualquer outra.” (BRASIL, 2001) O Programa Educação Inclusiva foi criado em 2003, pelo Ministério da Educação, visando transformar os sistemas de en- sino em sistemas educacionais inclusivos, promovendo um amplo processo de formação de gestores e educadores para garantir “o di- reito de acesso de todos à escolarização, a organização do atendi- mento educacional especializado e a promoção da acessibilidade” (BRASIL, 2008). – 30 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO “A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva tem como objetivo assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtornos globais do desen- volvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garan- tir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais ele- vados do ensino; transversalidade da modalida- de de educação especial desde a educação infantil até a educação superior; oferta do atendimento educacional especializado; formação de profes- sores para o atendimento educacional especiali- zado e demais profissionais da educação para a inclusão; participação da família e da comunida- de; acessibilidade arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e informação; e articulação intersetorial na implementação das políticas públicas.” (BRASIL, 2008) De acordo com os dados do Censo Escolar/2006 entre 1998 e 2006, houve um crescimento de 640% das matriculas em esco- las comuns (inclusão) e de 28% em escolas e classes especiais. (BRASIL, 2008). – 31 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-9: Dados do Censo Escolar/2006 Fonte: BRASIL, 2008. O artigo 1º da Resolução nº 4 de 2009, que institui as dire- trizes operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, obriga os sistemas de ensino a matricular os alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas classes comuns do ensino re- gular e no Atendimento Educacional Especializado (AEE), que deve ser ofertado em salas de recursos multifuncionais ou em cen- tros de Atendimento Educacional Especializado da rede pública ou de instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos. Sendo que o AEE deve ser realizado no turno in- verso da escolarização, não sendo substitutivo às classes comuns. O AEE tem como função “complementar ou suplementar a formação do aluno por meio da disponibilização de serviços, re- cursos de acessibilidade e estratégias que eliminem as barreiras para sua plena participação na sociedade e desenvolvimento de sua aprendizagem.” (BRASIL, 2009). “Os professores comuns e os da Educação Espe- cial precisam se envolver para que seus objetivos – 32 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO específicos de ensino sejam alcançados, compar- tilhando um trabalho interdisciplinar e colabora- tivo. As frentes de trabalho de cada professor são distintas. Ao professor da sala de aula comum é atribuído o ensino das áreas do conhecimento, e ao professor do AEE cabe complementar/suple- mentar a formação do aluno com conhecimentos e recursos específicos que eliminam as barreiras as quais impedem ou limitam sua participação com autonomia e independência nas turmas co- muns do ensino regular.” (ROPOLI, 2010) De acordo com as Diretrizes Operacionais da Educação Es- pecial para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, publicada pela Secretaria de Educação Especial - SEESP/ MEC, em abril de 2009, o Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola deve contemplar o AEE como uma de suas dimensões. São atribuições do professor do Atendimento Edu- cacional Especializado (BRASIL,2009): ● “Identificar, elaborar, produzir e organizar serviços, re- cursos pedagógicos, de acessibilidade e estratégias consi- derando as necessidades específicas dos alunos de forma que funcione como um plano visando eliminar as dificul- dades encontradas; ● Organizar o tipo e o número de atendimentos aos alunos na sala de recursos multifuncionais;● Acompanhar a funcionalidade e a aplicabilidade dos re- cursos pedagógicos e de acessibilidade na sala de aula – 33 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO comum do ensino regular, bem como em outros ambien- tes da escola. Sendo que o professor de sala de aula deve informar e avaliar juntamente com o professor do AEE se os serviços e recursos estão garantindo participação do aluno nas atividades escolares. ● Orientar professores e famílias sobre os recur- sos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno, em especial a tecnologia assistiva, tais como: as tecnologias da informação e comunicação, a comunicação alternativa e aumentativa, a informática acessível, o soroban, os recursos ópticos e não ópticos, os softwares específicos, os códigos e linguagens (como Brai- le e Libras), as atividades de orientação e mobilidade, de forma a ampliar habilidades funcionais dos alunos, pro- movendo autonomia e participação.” 1�3 A formação dos alunos com TGD: teorias e práticas É indispensável contar com salas de apoio e professores es- pecializados para que a inclusão de alunos com TGD na escola re- gular seja realizada com êxito. O primeiro passo para a inclusão desse aluno consiste na avaliação feita pelo professor do AEE, en- volvendo várias áreas do desenvolvimento: imitação, performance cognitiva, cognitiva verbal, coordenação olho-mão, percepção, co- ordenação motora grossa e fina (BRASIL, 2003). Não é fácil a tarefa de iniciar o processo de inclusão de uma criança com necessidades educacionais especiais associadas ao autismo ou TGD de uma forma geral, na sala de aula comum. “A sensação é de que a criança apenas se recusa a interagir com o professor e a aprender qualquer coisa proposta por ele.” Mas na – 34 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO verdade faltam a essas crianças habilidades para a aprendizagem, centradas na tríade de dificuldades presentes na criança com au- tismo: comunicação, interação social e uso da imaginação. A crian- ça autista, por ter deficiência na interação social, precisa de ajuda para interagir com o professor e socializar-se. (BRASIL, 2003). “No nível da sala de aula e das práticas de ensino, a mobilização do professor e/ou de uma equipe escolar em torno de uma mudança edu- cacional como a inclusão não acontece de modo semelhante em todas as escolas. Mesmo haven- do um Projeto Político Pedagógico que oriente as ações educativas da escola, há que existir uma en- trega, uma disposição individual ou grupal de sua equipe de se expor a uma experiência educacional diferente das que estão habituados a viver.”(ROPOLI, 2010) A inclusão escolar tem início na educação infantil, e é justa- mente na infância que se desenvolvem as bases necessárias para a construção do conhecimento e para o seu desenvolvimento glo- bal, seja a criança “normal” ou portadora de TGD. Quanto mais precoce a intervenção educacional para crianças com TGD, maior será a oportunidade que elas terão em seu desenvolvimento, em- bora essas possibilidades de desenvolvimento sejam distintas para cada criança. “A inserção dessas crianças na creche deve ser cuidadosamente planejada por que: a criança – 35 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO tem problemas de interação social que não se re- solvem simplesmente por estar cercada de outras crianças; a criança não aprende por exploração do ambiente ou por observação voluntária, e o tempo é um elemento crucial e irreversível.”(BRASIL, 2003) A Política Nacional de Educação Especial na Pers- pectiva da Educação Inclusiva ressalta que: “Nessa fase o lúdico, o acesso às formas dife- renciadas de comunicação, a riqueza de estímu- los nos aspectos físicos, emocionais, cognitivos, psicomotores e sociais e a convivência com as diferenças favorecem as relações interpessoais, o respeito e a valorização da criança.”(BRASIL, 2008) Há basicamente seis áreas que devem ser trabalhadas a fim de se estimular e desenvolver competências nas crianças portadoras de TGD: socialização, linguagem (emissão e compreensão), cognição, cuidados próprios, motricidade. (DUARTE, 2012). Segundo DUARTE (2012) a aprendizagem dos portadores de TGD se dá através de uma abordagem vivencial. Assim, todos os momentos e ambientes devem ser utilizados como objetos de es- tudo. Na Escola, primeiro deve ser explorada a própria sala de aula e depois os demais ambientes. A autora ressalta que é fundamental – 36 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO dar importância ao que mais agrada a criança para se iniciar um trabalho de adaptação/familiarização professor X aluno, garantin- do assim o estabelecimento de um relacionamento mínimo onde possa ocorrer a aprendizagem. “Os alunos com TGD costumam procurar pessoas que sirvam como ‘porto seguro’ e encontrar essas pessoas na escola é fundamental para o desenvolvimen- to.” Nesse sentido cabe ao professor identificar os potenciais dos alunos, estimular sua autonomia e assim conquistar a confiança da criança. Nesse sentido é preciso levar em conta que a rotina diária é muito importante para os alunos com TGD, assim ela não deve ser alterada, pois qualquer mudança na rotina pode ter reflexos no comportamento da criança. (LOPES, 2005). A tendência da maioria dessas crianças é de ficar preso em repetições infindáveis. “O professor deve ter consciência de seu papel, compreendendo que é por meio do aprendizado que a criança pode adquirir consciência do mundo e dela própria, e que esse aprendizado passa pelo desenvolvimento da comunicação.” Para tanto é importante estabelecer um sistema de comunicação com as crianças portadoras de TGD. (BRASIL, 2008). As crianças com TGD tem maior facilidade de relacionar com o universo concreto do que com o de ideias abstratas, assim um sistema de cartões ou figuras pode constituir-se em recurso fundamental no desenvolvimento da comunicação. Por exemplo, realizar o planejamento das atividades de rotina com figuras que representem essas atividades, dá à criança familiaridade e previ- sibilidade em relação a essas atividades, proporciona segurança e reduz a ansiedade. (DUARTE, 2012). – 37 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Figura 1-10: Cartões de comunicação Fonte: http://www.assistiva.com.br/ca.html Os sentimentos e emoções devem ser trabalhados com mui- to cuidado visando uma melhor interação tanto com o professor quanto com os demais alunos. “O primeiro passo é ajudar essa criança a se organizar e se desenvolver, para que ela possa relacionar-se consigo mesma, perceber que existe alguma consistência em seus gostos e que há coi- sas que a agradam e coisas que a desagradam. O próprio caminho do desenvolvimento cognitivo é o caminho do desenvolvimento da consciência.”(BRASIL, 2008) – 38 – TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO As atividades devem ser estruturadas e organizadas de for- ma que as crianças consigam realizá-las. Como exemplos de elementos de apoio à organização e estrutura podemos citar o uso de: ● Referências: pequenas orientações possíveis de serem compreendidas pela criança com indicações visuais de onde colocar a mão, o pé, o copo, o prato, etc.; ● Limites: barreiras físicas para delimitar a direção do mo- vimento da criança. Por exemplo, podemos colocar cordas limitando o espaço no qual a criança deve andar; ● Contadores: moedas ou pedras coloridas que ajudem a criança a contabilizar o número de repetições de determi- nada atividade, dando uma indicação visual da duração da atividade. ● As crianças com TGD também possuem dificuldade no estabelecimento das relações de causa e consequência e necessitam de ferramentas de apoio para desenvolver essa habilidade, como por exemplo, através do aprendiza- do das comparações (BRASIL, 2008). A educação de crianças portadoras de TGD é uma experiên- cia única e que exige muito do educador, que deve sempre manter uma postura de calma e continência diante das possíveis crises ou problemas apresentados por essas crianças. Compreendero por- tador de TGD em sua individualidade é o primeiro passo para que esse trabalho tenha bons resultados. Não é fácil, mas é muito gratificante vivenciar o que é possível na educação dessas crianças tão especiais.