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AULA 6 EVOLUÇÃO E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Leonardo Martins A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 2 INTRODUÇÃO Esta aula aborda um tema que possui aplicação direta no dia a dia: a tomada de decisão. Tendemos a acreditar que tomamos nossas decisões com base em avaliações racionais e conscientes das situações. Mas será isso verdade, ou a evolução imprimiu em nosso cérebro certos vieses que tendem a influenciar nossa tomada de decisão? E, uma vez constatado isso, o que pode ser feito para nos beneficiarmos desse conhecimento? Recordemos também que os vieses de base evolutiva não determinam mecanicamente, de modo fatalista, nosso comportamento, pesando também nossa subjetividade, nossas diferenças individuais e a cultura em que vivemos. Portanto, o que veremos a seguir são tendências gerais, cuja transformação em comportamentos concretos é uma questão de probabilidade, entrando também em cena a cultura, a psicologia individual e as condições envolvidas em cada situação. TEMA 1 – AVAREZA COGNITIVA Fiel a um dos objetivos maiores deste curso – a quebra de “mitos” populares –, começamos com a noção bastante intuitiva e de aparência óbvia, no dia a dia, de que tomamos decisões de modo racional e pautado na melhor avaliação das evidências. Embora nossas próprias decisões assim o pareçam, basta recordarmos as decisões de outras pessoas próximas para perceber que, com muita frequência, elas parecem não racionais ou severamente enviesadas por algo. Além disso, é bom lembrar, as demais pessoas podem pensar o mesmo sobre as suas decisões. Diante dessas constatações, é bastante tentador considerar a estupidez alheia como responsável tanto por suas decisões não racionais quanto pela incompreensão a respeito das nossas – que seriam, efetivamente, ponderadas e razoáveis. Embora o nível de inteligência afete as decisões cotidianas, este não é o ponto central, já que todos tomamos decisões questionáveis, independentemente de nosso nível de inteligência. Além disso, grande parte das decisões cotidianas ocorre de modo rápido e um tanto “automático” e inconsciente, como se não tivéssemos pensado a respeito. Uma parte fundamental da resposta para todos esses enigmas está nos chamados vieses cognitivos. Esse conceito diz respeito ao modo tendencioso com A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 3 que concebemos a realidade, avaliamos evidências e tomamos decisões, das circunstâncias mais simples (como calcular se é possível atravessar a rua antes que o carro que está vindo nos atropele) às mais complexas (como assumir um posicionamento político) (Haselton; Nettle, 2006). Embora nossa tomada de decisões certamente sofra influência tanto do contexto cultural em que estamos inseridos quanto de nossa subjetividade individual, os vieses cognitivos fornecem um alicerce para nossas tomadas de decisão, estando em um nível anterior ao da cultura e da subjetividade pessoal, como um alicerce aparentemente próprio da espécie humana. Com isso, se tais vieses estão presentes na cognição dos seres humanos em geral, temos imediatamente de considerar seu aspecto evolutivo (Haselton, Nettle, 2006). Créditos: Gwoeii/Shutterstock. Talvez o ponto de partida mais interessante e eloquente seja um viés que acaba por influenciar boa parte dos demais (ou todos eles?), a chamada avareza cognitiva (cognitive miser), às vezes também chamada de economia cognitiva (Dunn, Risko, 2016). Ao longo da história da psicologia, a noção de que humanos adaptam seu comportamento para evitar esforços tem sido presente. Já em 1949, George Zipf escrevia que “todo o comportamento do indivíduo é sempre motivado pelo desejo de minimizar o esforço” (Zipf, 1949, p. 3). Em relação à cognição, essa economia de esforço se traduz na busca involuntária e automática por atalhos cognitivos para se lidar com a realidade, o que assume diversas formas: Quando buscamos explicar algum fenômeno, recorremos primeiramente às nossas crenças. Quando determinadas estratégias de solução de problema passam a compor o repertório de comportamentos do indivíduo, elas tendem a A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 4 ser usadas de modo preferencial (mesmo que não sejam tão adequadas ao problema da ocasião, em sintonia com o ditado popular “para quem só tem martelo, tudo parece prego”). Quando os dados da realidade conflitam com nossas crenças, tendemos não a reconfigurar as crenças, mas a ignorar ou subestimar a realidade em favor do que já acreditamos. As possibilidades são muitas. As desvantagens da avareza cognitiva saltam rapidamente aos olhos e incluem a potencial inadequação entre os comportamentos e as situações em que eles ocorrem, o caráter potencialmente não realista da visão de mundo, a inibição da criatividade, a identificação inadequada de ameaças etc. Dessa forma, como tais características persistiram na espécie humana? Como vimos, o cérebro humano pesa em torno de um quilo e meio, o que representa algo próximo a 2% do peso total do corpo. Em contraste a essa ínfima proporção representada pelo cérebro na massa corporal, tal órgão consome em torno de 20% da energia do organismo (nos dias mais calmos). A grande demanda energética do cérebro para controlar diversas funções do corpo e sustentar a cognição torna o gasto de energia um ponto central. Ao longo do período evolutivo da espécie humana e de seus antecessores mais próximos, a obtenção de alimento e de energia era de suma importância. A hipótese do cozimento, que vimos anteriormente, ilustra o ponto. A limitação de recursos para a obtenção de energia (pois tanto o corpo não absorve energia de modo ilimitado quanto as fontes de alimento eram relativamente escassas no período evolutivo) tornaram altamente adaptativos os recursos para a economia de energia que surgiram por meio de mutações genéticas, selecionando naturalmente os genes ligados a isso. Assim, a seleção natural nos imprimiu vieses cognitivos que otimizaram um funcionamento intelectual que favorecesse a interação dos indivíduos com os desafios do meio e do seu próprio organismo, entre eles, o caráter limitado da obtenção de energia, disto provém a avareza cognitiva. As vantagens adaptativas da avareza cognitiva somente podem ser compreendidas se lembrarmos que a seleção natural se fundamenta na sobrevivência e na passagem dos genes, não no maior número possível de qualidades dos organismos. Apenas como exemplo ilustrativo, há diversos animais que são cegos, não porque a visão os prejudicasse diretamente, mas A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 5 porque tal qualidade, por vezes, representava um desperdício de energia ou nunca emergiu na forma de uma mutação a ser selecionada. No caso dos vieses cognitivos humanos, as desvantagens na economia de energia se mostraram menores do que as vantagens em termos da sobrevivência e da transmissão dos genes, tendo importância secundária sua perfeita adequação com a realidade. Tomemos o exemplo de um viés chamado dispositivo hipersensível de detecção de agentes. Apesar do nome um tanto complicado, o processo é simples. Trata-se da tendência cognitiva verificada em estudos em diversas culturas humanas pela qual as pessoas reconhecem a presença de “alguém” (em termos cognitivos, um agente) em quaisquer situações ambíguas em que poderia haver alguém (Barret, 2000; Maraldi; Martins, 2017). Créditos: Alexander Kirch/Shutterstock. Um exemplo cotidiano bastante comum ocorre quando ouvimos sons estranhos em casa à noite e, automaticamente, cogitamosa possibilidade de um invasor, quando quase nunca essa é a origem do barulho. Essa nossa hipersensibilidade para detectar agentes, mesmo quando não há um, parece ter se mostrado adaptativa ao longo do período evolutivo, pois tornava os indivíduos mais dispostos a fugir ou a se preparar para o confronto ao menor sinal de que algum predador ou rival estivesse por perto. Em grande parte das vezes, não deveria haver perigo algum, mas apenas o barulho do vento ou de alguma casualidade. Mas, quando de fato havia alguma ameaça à espreita, aqueles mais sensíveis a suspeitar da presença de alguém tendiam a reagir mais rapidamente e a sobreviver. Por isso, tal viés teria sido A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 6 selecionado naturalmente, levando-nos a sustos toda vez que vemos um vulto no escuro ou ouvimos um som inesperado. Note que a frequente desconexão entre a detecção de agentes e a presença efetiva deles cobra um preço muito menor que a não detecção de agentes quando eles realmente estão por perto. Por isso, a adaptação não tem relação direta com a realidade, e sim com a sobrevivência. Assim, começamos a vislumbrar a relação entre evolução e tomada de decisão: da mesma forma que reagimos automaticamente ao menor sinal da presença de alguém no escuro ou a nossas costas e (aparentemente) tomamos a decisão de correr ou de nos preparar para lutar. Muitas de nossas decisões em outros domínios da vida (da alimentação à economia e à política) são reflexos de vieses cognitivos resultantes da seleção natural, entre eles, a avareza cognitiva que nos move a processar a realidade por meio de atalhos mentais e a tomar as decisões mais rapidamente e com menor esforço (mesmo que acabem sendo decisões não racionais). Vimos reflexos disso na escolha de parceiros, nos comportamentos de cooperação, nas nossas estratégias de solução de problemas etc. Veremos, a seguir, o mesmo aplicado a outras áreas. TEMA 2 – EVOLUÇÃO E ECONOMIA Um dos ramos em que a tomada de decisão deve ser examinada com mais cuidado e interesse é o mundo da economia e dos negócios. Decisões nesse domínio envolvem em que investir, o que comprar ou vender, que parcerias fazer, a quem promover ou demitir etc. Como tais decisões envolvem recursos financeiros, empregos e outras tantas questões bastante sérias, imaginamos que elas devem ser bem fundamentadas na razão e na lógica. Contudo, os vieses cognitivos também se apresentam aqui e ajudam, inclusive, a compreender certas inconsistências, entre o que as teorias econômicas clássicas preveem (ou seja, um comportamento “racional”) e o comportamento real das pessoas (Rubin; Capra, 2012). Um dos exemplos mais interessantes está na relação entre perdas e ganhos econômicos. As pesquisas mostram que o valor que honestamente atribuímos a um produto ou bem quando o compramos é menor do que o valor que atribuímos ao mesmo produto quando o vendemos. Isso parece se dever à diferença entre adquirir o que não se tem e perder o que se tem. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 7 Em termos evolutivos, a perda parece mais importante do que o ganho, o que faz sentido quando consideramos que uma atitude conservadora (que busca garantir o mínimo para a sobrevivência e preserva o status quo) deve ter sido mais útil durante o período evolutivo (Rubin; Capra, 2011). Isso porque, durante o período evolutivo, os indivíduos estavam sempre à beira da subsistência (Mcdermott; Fowler; Smirnov, 2008). Desta forma, quando pensamos na atitude das pessoas em relação ao cálculo de ganhos e riscos em investimentos, gastos, compras, vendas e afins, temos de considerar esse viés cognitivo favorável à manutenção do status quo. Por isso, as pessoas tendem a ser conservadoras nos negócios, embora essa propensão varie de pessoa para pessoa e dependa também de sua personalidade e da cultura (lembra-se de que os genes estabelecem uma razoável margem de possibilidades?). Variações dessas mesmas tendências foram observadas também em primatas não humanos, como chimpanzés (Brosnan et al., 2007) e macacos capuchinhos (Lakshminaryanan; Keith Chen; Santos, 2008), o que reforça o caráter evolutivo desses comportamentos e seu surgimento ainda antes do Homo sapiens. Créditos: Phongphan/Shutterstock. Por sua vez, as teorias econômicas assumem que as pessoas são egoístas e querem maximizar suas vantagens. Contudo, e em sintonia com o que vimos anteriormente sobre vieses ligados a comportamentos cooperativos, as pessoas estão mais dispostas a colaborar e a agir pelo bem coletivo, mesmo com perdas individuais, do que as teorias econômicas tradicionais sugerem (Rubin, Capra, 2012. Para que esses comportamentos sejam compreensíveis, precisamos articular diretamente o que vemos neste texto com aquele sobre cooperação. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 8 Embora as teorias econômicas acabem assumindo que as pessoas são homogêneas (ou que suas diferenças “se anulam” em torno de uma média com a qual possam operar), a heterogeneidade humana acaba afetando suas decisões econômicas de modo também associado a aspectos evolutivos. Entre os exemplos, mulheres tendem a ser mais avessas a riscos do que homens (Croson; Gneezy, 2009), o que podemos pensar como decorrente das diferenças razoáveis – conforme vimos antes – entre o número de filhotes possíveis e os níveis de cuidado parental de acordo com o sexo. Já em relação à idade, homens jovens tendem a correr mais riscos do que homens mais velhos, pois os jovens precisam acumular recursos ou status para aumentar a chance de acasalamento e emparceiramento. Uma vez mais velhos e com filhotes, eles precisam mudar a estratégia e ser mais conservadores, em nome da sobrevivência da cria já nascida (Rubin, Capra, 2012). Nossos vieses também nos levam a decisões desconectadas da realidade devido à nossa dificuldade em lidar com conceitos abstratos desconectados com a natureza (em que nossa espécie evoluiu) (Rubin, Capra, 2012). Um dos melhores exemplos envolve um teste que você pode ser feito neste momento. Considere a seguinte situação: um taco e uma bola custam, juntos, um real e dez centavos, e o taco custa um real a mais que a bola. Agora responda o mais rápido possível a pergunta: quanto custa o taco e quanto custa a bola? Se você respondeu rapidamente que o taco custa um real e que a bola custa dez centavos, você errou junto à grande maioria. Se a diferença entre o taco e a bola corresponde a um real, o taco custa um real e cinco centavos, e a bola, cinco centavos. O erro nesta e em outras questões do gênero se devem ao fato de o nosso cérebro avaliar de forma enviesada, econômica (avarenta, como vimos) e incompetente em questões econômicas. Assim, nossas decisões nesse domínio também tendem a ser irracionais e desconectadas da realidade. Nossa dificuldade em lidar com probabilidades e com grandes números acaba por influenciar (ainda que não isoladamente) diversos domínios da vida, como nosso ilusório medo de voar de avião (algo em que a chance de acidente fatal é baixa a ponto de ser desprezível) e nossa dificuldade em conceber que certas casualidades podem se dever ao mero acaso (como pensar em uma pessoa e receber uma ligação telefônica dela quase imediatamente depois). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 9 Devido a todos esses vieses, as teorias econômicas se beneficiariam muito de considerar o ser humano não como um emissor de comportamentos racionais, mas, sim, como uma espécie repleta de vieses derivados da seleção natural e que vive em um ambiente para o qual, ao menos em parte, ele não evoluiu. TEMA 3 –EVOLUÇÃO E SAÚDE Você já deve ter percebido que nosso comportamento em relação à saúde, muitas vezes, não acompanha nosso conhecimento. Fumamos e bebemos (e, inclusive, começamos a fazê-lo) conhecendo os malefícios associados, fazemos sexo sem nos precavermos contra doenças sexualmente transmissíveis, alimentamo-nos mal, não nos exercitamos...Os exemplos parecem não ter fim. Tais tendências, com variações maiores e menores de acordo com a cultura e com a história individual, podem ser observadas em todas as épocas e locais, o que sugere a presença de aspectos evolutivos. Créditos: Spass/Shutterstock. O exemplo da alimentação já foi citado anteriormente. Temos a tendência a preferir alimentos doces e gordurosos porque eles permitem a obtenção rápida de energia, algo bastante útil no período evolutivo marcado por recursos no nível da subsistência. Mas, atualmente, em um contexto em que parte de nós não vive mais nesse limite, a tendência a consumir alimentos desse tipo se tornou desadaptativa, pois nos leva ao acúmulo de gordura, a doenças do coração etc. (Buss, 2015; Lopes, 2009). No âmbito da tomada de decisão, tendemos ao consumo dessas substâncias por esses impulsos inconscientes enquanto, ao mesmo tempo, elaboramos justificativas racionais (e inverídicas) que as tornam aceitáveis para A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 10 nós: “na segunda-feira, eu começarei a dieta”; “eu mereço uma recompensa só hoje” etc. Essa tendência é bem discutida pela teoria da dissonância cognitiva (Festinger, 1975). De forma semelhante, outros comportamentos que não são saudáveis hoje possuem evidência de ser reverberações de comportamentos adaptativos no período evolutivo (Curtis; Aunger, 2011). Enquanto o controle emocional é adaptativo para os indivíduos, pois otimiza sua relação com o ambiente e consigo mesmos, e enquanto os recursos para esse fim durante o período evolutivo tendiam a ser saudáveis (ou, ao menos, não diretamente prejudiciais), boa parte dos meios atuais não o é, como o uso de cigarro e de bebidas alcóolicas, o consumismo de bens materiais, práticas sexuais potencialmente de risco etc. De forma análoga ao caso da má alimentação, tendemos a criar justificativas racionais (e inverídicas) como: o(a) parceiro(a) (que acabamos de conhecer) “é sexualmente confiável”, “precisávamos mesmo comprar todos aqueles bens”, “minha avó fumou um cigarro por dia e viveu 93 anos”, entre outras tantas possibilidades que a criatividade puder conceber. Neste ponto, nossa natural dificuldade para lidar com probabilidades também afeta nossas decisões em relação à saúde, como no caso da avó fumante e nas concepções não raro equivocadas dos políticos sobre medidas de saúde pública. Por outro lado, nossas preferências esportivas – que também estão associadas à saúde – também possuem bases evolutivas. O nível de testosterona afeta a predisposição para esportes e competição, com impactos na saúde. Além disso, nossa busca por status social – algo com importância evolutiva de animais sociais como o Homo sapiens, como vimos – também acaba por invadir o domínio do esporte. Nossa dimensão social afeta até fenômenos, como a conhecida vantagem de esportistas em jogar “em casa”, se comparado a seus rivais vindos de fora (Wiedemann; Barton, 2012). TEMA 4 – POLÍTICA Um dos domínios da vida em que a tomada de decisão é mais ressaltada e valorizada é a política. Herdeiros da tradição grega, vivemos em uma democracia cujo pilar central é a possibilidade de escolha dos cidadãos sobre quem deterá o poder nas diversas divisões do Estado. Em outras palavras, um dos pilares centrais da política em contextos democráticos é a tomada de decisão. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 11 Tendemos a pensar, de forma semelhante ao que vimos em outros domínios, que nossas escolhas políticas são racionais e deliberadas com base nas propostas de cada candidato e das bandeiras mais gerais que eles defendem. Acompanhamos os debates eleitorais, discutimos, buscamos fundamentar nossas escolhas. Contudo, incontáveis estudos dentro e fora da psicologia evolucionista colecionam evidências de que nossas tomadas de decisão também nesse domínio tendem a se amparar em processos involuntários, automáticos e não racionais, cujas bases podem ser rastreadas até o período evolutivo (Petersen, 2011). Créditos: Passakorn Vejchayachai/Shutterstock. Vimos anteriormente que um dos mais notáveis processos de base evolucionista na espécie humana foi justamente o surgimento dos grandes grupos, o que requereu o desenvolvimento de complexas habilidades de interação social. A política é um dos desdobramentos centrais desse processo, pois ela serve para regular as relações humanas em múltiplos níveis. Os diferentes interesses precisam ser compatibilizados em prol de um convívio social razoável e diferentes grupos precisam conviver em razoável harmonia, o que é ainda mais difícil considerando que temos vieses cognitivos específicos que nos levam a favorecer quem pertence ao nosso grupo (o chamado viés in-group-out-group; Brewer, 1979). De modo mais específicos, além de tudo que vimos sobre o “cérebro social”, temos de considerar que, enquanto animais sociais, somos sensíveis a A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 12 certas tendências, entre elas a hierarquização. Nossa cognição nos motiva a considerar palatável uma organização social hierarquizada, com cadeias de comando. Percebemos isso também em primatas não humanos e, com diferente complexidade, em outros animais que possuem, por exemplo, indivíduos “alfa” com privilégios reprodutivos e de comando no grupo (Petersen, 2011). Ainda somos sensíveis a demonstrações de força e liderança do tipo que era importante no período evolutivo, como firmeza de voz e postura, aparente coragem, olhar seguro etc. Note que nenhuma dessas características parece, sob uma perspectiva racional, imprescindível para que um político governe com sabedoria, honestidade e justiça. Mas – recordemos – estamos respondendo a impulsos bastante antigos. Ao mesmo tempo, especialmente em momentos de crise ou escassez de recursos, nosso viés in-group-out-group tende a se manifestar com mais intensidade, o que nos ajuda a compreender as reações fortes contra imigrantes, especialmente em contextos culturais percebidos pela população como em crise. Políticos que dão voz a esse viés têm tido vantagem em eleições recentes em diferentes países. Ao mesmo tempo, somos animais de tendência também colaborativa, como vimos anteriormente, de modo que o discurso político tocante deve buscar não parecer injusto e não cooperativo. Como vimos, nossa cognição também é mais sensível a estabelecer relações causais diretas e a operar mal com números, proporções e variáveis complexas, pois nosso cérebro não evoluiu enfrentando tais nuances no ambiente ancestral. Essa é uma das razões pelas quais políticos que propõem soluções simples e diretas – independentemente de sua eficácia real – tendem a ter sucesso em eleições em qualquer lugar do mundo. Note que as diferentes possibilidades de equilíbrio entre essas diferentes tendências podem gerar posicionamentos políticos diversos. Esse é um dos motivos pelos quais os mesmos vieses cognitivos e tendências evolucionistas podem ocasionar tantas ideologias políticas. TEMA 5 – CONCLUSÃO Pudemos perceber, neste curso, o quanto a tomada cotidiana de decisões nos mais diversos domínios se fundamenta em algo mais basal do que a escolha racional. Nossa cognição resulta de diversas adaptações evolutivas que afetam nossas escolhas em patamar involuntário e automático. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail:sabrinakufner96@ gm ail.com 13 Constatamos, entretanto, que, apesar dos importantes conhecimentos trazidos à tona, diversas dimensões do comportamento humano que possuem alicerce na evolução não puderam ser abordadas, enquanto outros não o foram com a merecida profundidade, por questão de espaço. Cada tema visto aqui pode ocupar, isoladamente, diversos livros inteiros. Como o estudo evolutivo do comportamento humano ainda é relativamente recente, diversas descobertas não foram devidamente correlacionadas à seleção natural, muitas delas se encontram no campo emergente do chamado “novo inconsciente”, que estuda processos cognitivos automáticos nos mais diversos domínios da vida. Tivemos oportunidade de nos debruçar sobre diversos deles, mas ainda há muito mais a ser visto (com base no que estudamos e aprendemos nesta disciplina, recomendamos a leitura de Callegaro, 2009). Que a busca do aluno por contornar essas compreensíveis lacunas se una aos conhecimentos adquiridos ao longo da disciplina e às referências bibliográficas indicadas ao final de cada texto para motivar a continuidade de seus estudos. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 14 REFERÊNCIAS BARRETT, J. Exploring the natural foundations of religion. Trends in Cognitive Sciences, v. 4, n. 1, 2000, p. 29-34. BREWER, M. B. In-group bias in the minimal intergroup situation: a cognitive- motivational analysis. Psychological bulletin, v. 86, n. 2, p. 307, 1979. BROSNAN, S. F. et al. Endowment effects in chimpanzees. Current Biology, v. 17, n. 19, p. 1704-1707, 2007. BUSS, D. Evolutionary psychology: the new science of the mind. Psychology Press, 2015. CALLEGARO, M. M. O novo inconsciente. Artmed Editora, 2009. CROSON, R.; GNEEZY, U. Gender differences in preferences. Journal of Economic literature, v. 47, n. 2, p. 448-74, 2009. CURTIS, V.; AUNGER, R. 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