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AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EVOLUÇÃO E 
COMPORTAMENTO HUMANO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Leonardo Martins 
 
 
 
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INTRODUÇÃO 
Esta aula aborda um tema que possui aplicação direta no dia a dia: a 
tomada de decisão. Tendemos a acreditar que tomamos nossas decisões com 
base em avaliações racionais e conscientes das situações. Mas será isso 
verdade, ou a evolução imprimiu em nosso cérebro certos vieses que tendem a 
influenciar nossa tomada de decisão? E, uma vez constatado isso, o que pode ser 
feito para nos beneficiarmos desse conhecimento? 
Recordemos também que os vieses de base evolutiva não determinam 
mecanicamente, de modo fatalista, nosso comportamento, pesando também 
nossa subjetividade, nossas diferenças individuais e a cultura em que vivemos. 
Portanto, o que veremos a seguir são tendências gerais, cuja transformação em 
comportamentos concretos é uma questão de probabilidade, entrando também 
em cena a cultura, a psicologia individual e as condições envolvidas em cada 
situação. 
TEMA 1 – AVAREZA COGNITIVA 
Fiel a um dos objetivos maiores deste curso – a quebra de “mitos” populares 
–, começamos com a noção bastante intuitiva e de aparência óbvia, no dia a dia, 
de que tomamos decisões de modo racional e pautado na melhor avaliação das 
evidências. Embora nossas próprias decisões assim o pareçam, basta 
recordarmos as decisões de outras pessoas próximas para perceber que, com 
muita frequência, elas parecem não racionais ou severamente enviesadas por 
algo. Além disso, é bom lembrar, as demais pessoas podem pensar o mesmo 
sobre as suas decisões. 
Diante dessas constatações, é bastante tentador considerar a estupidez 
alheia como responsável tanto por suas decisões não racionais quanto pela 
incompreensão a respeito das nossas – que seriam, efetivamente, ponderadas e 
razoáveis. Embora o nível de inteligência afete as decisões cotidianas, este não é 
o ponto central, já que todos tomamos decisões questionáveis, 
independentemente de nosso nível de inteligência. Além disso, grande parte das 
decisões cotidianas ocorre de modo rápido e um tanto “automático” e 
inconsciente, como se não tivéssemos pensado a respeito. 
Uma parte fundamental da resposta para todos esses enigmas está nos 
chamados vieses cognitivos. Esse conceito diz respeito ao modo tendencioso com 
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que concebemos a realidade, avaliamos evidências e tomamos decisões, das 
circunstâncias mais simples (como calcular se é possível atravessar a rua antes 
que o carro que está vindo nos atropele) às mais complexas (como assumir um 
posicionamento político) (Haselton; Nettle, 2006). 
Embora nossa tomada de decisões certamente sofra influência tanto do 
contexto cultural em que estamos inseridos quanto de nossa subjetividade 
individual, os vieses cognitivos fornecem um alicerce para nossas tomadas de 
decisão, estando em um nível anterior ao da cultura e da subjetividade pessoal, 
como um alicerce aparentemente próprio da espécie humana. Com isso, se tais 
vieses estão presentes na cognição dos seres humanos em geral, temos 
imediatamente de considerar seu aspecto evolutivo (Haselton, Nettle, 2006). 
 
Créditos: Gwoeii/Shutterstock. 
Talvez o ponto de partida mais interessante e eloquente seja um viés que 
acaba por influenciar boa parte dos demais (ou todos eles?), a chamada avareza 
cognitiva (cognitive miser), às vezes também chamada de economia cognitiva 
(Dunn, Risko, 2016). 
Ao longo da história da psicologia, a noção de que humanos adaptam seu 
comportamento para evitar esforços tem sido presente. Já em 1949, George Zipf 
escrevia que “todo o comportamento do indivíduo é sempre motivado pelo desejo 
de minimizar o esforço” (Zipf, 1949, p. 3). Em relação à cognição, essa economia 
de esforço se traduz na busca involuntária e automática por atalhos cognitivos 
para se lidar com a realidade, o que assume diversas formas: 
Quando buscamos explicar algum fenômeno, recorremos primeiramente às 
nossas crenças. Quando determinadas estratégias de solução de problema 
passam a compor o repertório de comportamentos do indivíduo, elas tendem a 
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ser usadas de modo preferencial (mesmo que não sejam tão adequadas ao 
problema da ocasião, em sintonia com o ditado popular “para quem só tem 
martelo, tudo parece prego”). Quando os dados da realidade conflitam com 
nossas crenças, tendemos não a reconfigurar as crenças, mas a ignorar ou 
subestimar a realidade em favor do que já acreditamos. As possibilidades são 
muitas. 
As desvantagens da avareza cognitiva saltam rapidamente aos olhos e 
incluem a potencial inadequação entre os comportamentos e as situações em que 
eles ocorrem, o caráter potencialmente não realista da visão de mundo, a inibição 
da criatividade, a identificação inadequada de ameaças etc. Dessa forma, como 
tais características persistiram na espécie humana? 
Como vimos, o cérebro humano pesa em torno de um quilo e meio, o que 
representa algo próximo a 2% do peso total do corpo. Em contraste a essa ínfima 
proporção representada pelo cérebro na massa corporal, tal órgão consome em 
torno de 20% da energia do organismo (nos dias mais calmos). A grande demanda 
energética do cérebro para controlar diversas funções do corpo e sustentar a 
cognição torna o gasto de energia um ponto central. 
Ao longo do período evolutivo da espécie humana e de seus antecessores 
mais próximos, a obtenção de alimento e de energia era de suma importância. A 
hipótese do cozimento, que vimos anteriormente, ilustra o ponto. A limitação de 
recursos para a obtenção de energia (pois tanto o corpo não absorve energia de 
modo ilimitado quanto as fontes de alimento eram relativamente escassas no 
período evolutivo) tornaram altamente adaptativos os recursos para a economia 
de energia que surgiram por meio de mutações genéticas, selecionando 
naturalmente os genes ligados a isso. 
Assim, a seleção natural nos imprimiu vieses cognitivos que otimizaram um 
funcionamento intelectual que favorecesse a interação dos indivíduos com os 
desafios do meio e do seu próprio organismo, entre eles, o caráter limitado da 
obtenção de energia, disto provém a avareza cognitiva. 
As vantagens adaptativas da avareza cognitiva somente podem ser 
compreendidas se lembrarmos que a seleção natural se fundamenta na 
sobrevivência e na passagem dos genes, não no maior número possível de 
qualidades dos organismos. Apenas como exemplo ilustrativo, há diversos 
animais que são cegos, não porque a visão os prejudicasse diretamente, mas 
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porque tal qualidade, por vezes, representava um desperdício de energia ou 
nunca emergiu na forma de uma mutação a ser selecionada. 
No caso dos vieses cognitivos humanos, as desvantagens na economia de 
energia se mostraram menores do que as vantagens em termos da sobrevivência 
e da transmissão dos genes, tendo importância secundária sua perfeita 
adequação com a realidade. 
Tomemos o exemplo de um viés chamado dispositivo hipersensível de 
detecção de agentes. Apesar do nome um tanto complicado, o processo é 
simples. Trata-se da tendência cognitiva verificada em estudos em diversas 
culturas humanas pela qual as pessoas reconhecem a presença de “alguém” (em 
termos cognitivos, um agente) em quaisquer situações ambíguas em que poderia 
haver alguém (Barret, 2000; Maraldi; Martins, 2017). 
 
Créditos: Alexander Kirch/Shutterstock. 
 
Um exemplo cotidiano bastante comum ocorre quando ouvimos sons 
estranhos em casa à noite e, automaticamente, cogitamosa possibilidade de um 
invasor, quando quase nunca essa é a origem do barulho. Essa nossa 
hipersensibilidade para detectar agentes, mesmo quando não há um, parece ter 
se mostrado adaptativa ao longo do período evolutivo, pois tornava os indivíduos 
mais dispostos a fugir ou a se preparar para o confronto ao menor sinal de que 
algum predador ou rival estivesse por perto. 
Em grande parte das vezes, não deveria haver perigo algum, mas apenas 
o barulho do vento ou de alguma casualidade. Mas, quando de fato havia alguma 
ameaça à espreita, aqueles mais sensíveis a suspeitar da presença de alguém 
tendiam a reagir mais rapidamente e a sobreviver. Por isso, tal viés teria sido 
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selecionado naturalmente, levando-nos a sustos toda vez que vemos um vulto no 
escuro ou ouvimos um som inesperado. 
Note que a frequente desconexão entre a detecção de agentes e a 
presença efetiva deles cobra um preço muito menor que a não detecção de 
agentes quando eles realmente estão por perto. Por isso, a adaptação não tem 
relação direta com a realidade, e sim com a sobrevivência. 
Assim, começamos a vislumbrar a relação entre evolução e tomada de 
decisão: da mesma forma que reagimos automaticamente ao menor sinal da 
presença de alguém no escuro ou a nossas costas e (aparentemente) tomamos a 
decisão de correr ou de nos preparar para lutar. 
Muitas de nossas decisões em outros domínios da vida (da alimentação à 
economia e à política) são reflexos de vieses cognitivos resultantes da seleção 
natural, entre eles, a avareza cognitiva que nos move a processar a realidade por 
meio de atalhos mentais e a tomar as decisões mais rapidamente e com menor 
esforço (mesmo que acabem sendo decisões não racionais). Vimos reflexos disso 
na escolha de parceiros, nos comportamentos de cooperação, nas nossas 
estratégias de solução de problemas etc. Veremos, a seguir, o mesmo aplicado a 
outras áreas. 
TEMA 2 – EVOLUÇÃO E ECONOMIA 
Um dos ramos em que a tomada de decisão deve ser examinada com mais 
cuidado e interesse é o mundo da economia e dos negócios. Decisões nesse 
domínio envolvem em que investir, o que comprar ou vender, que parcerias fazer, 
a quem promover ou demitir etc. Como tais decisões envolvem recursos 
financeiros, empregos e outras tantas questões bastante sérias, imaginamos que 
elas devem ser bem fundamentadas na razão e na lógica. Contudo, os vieses 
cognitivos também se apresentam aqui e ajudam, inclusive, a compreender certas 
inconsistências, entre o que as teorias econômicas clássicas preveem (ou seja, 
um comportamento “racional”) e o comportamento real das pessoas (Rubin; 
Capra, 2012). 
Um dos exemplos mais interessantes está na relação entre perdas e 
ganhos econômicos. As pesquisas mostram que o valor que honestamente 
atribuímos a um produto ou bem quando o compramos é menor do que o valor 
que atribuímos ao mesmo produto quando o vendemos. Isso parece se dever à 
diferença entre adquirir o que não se tem e perder o que se tem. 
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Em termos evolutivos, a perda parece mais importante do que o ganho, o 
que faz sentido quando consideramos que uma atitude conservadora (que busca 
garantir o mínimo para a sobrevivência e preserva o status quo) deve ter sido mais 
útil durante o período evolutivo (Rubin; Capra, 2011). Isso porque, durante o 
período evolutivo, os indivíduos estavam sempre à beira da subsistência 
(Mcdermott; Fowler; Smirnov, 2008). 
Desta forma, quando pensamos na atitude das pessoas em relação ao 
cálculo de ganhos e riscos em investimentos, gastos, compras, vendas e afins, 
temos de considerar esse viés cognitivo favorável à manutenção do status quo. 
Por isso, as pessoas tendem a ser conservadoras nos negócios, embora essa 
propensão varie de pessoa para pessoa e dependa também de sua personalidade 
e da cultura (lembra-se de que os genes estabelecem uma razoável margem de 
possibilidades?). 
Variações dessas mesmas tendências foram observadas também em 
primatas não humanos, como chimpanzés (Brosnan et al., 2007) e macacos 
capuchinhos (Lakshminaryanan; Keith Chen; Santos, 2008), o que reforça o 
caráter evolutivo desses comportamentos e seu surgimento ainda antes do Homo 
sapiens. 
 
Créditos: Phongphan/Shutterstock. 
Por sua vez, as teorias econômicas assumem que as pessoas são egoístas 
e querem maximizar suas vantagens. Contudo, e em sintonia com o que vimos 
anteriormente sobre vieses ligados a comportamentos cooperativos, as pessoas 
estão mais dispostas a colaborar e a agir pelo bem coletivo, mesmo com perdas 
individuais, do que as teorias econômicas tradicionais sugerem (Rubin, Capra, 
2012. Para que esses comportamentos sejam compreensíveis, precisamos 
articular diretamente o que vemos neste texto com aquele sobre cooperação. 
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Embora as teorias econômicas acabem assumindo que as pessoas são 
homogêneas (ou que suas diferenças “se anulam” em torno de uma média com a 
qual possam operar), a heterogeneidade humana acaba afetando suas decisões 
econômicas de modo também associado a aspectos evolutivos. 
Entre os exemplos, mulheres tendem a ser mais avessas a riscos do que 
homens (Croson; Gneezy, 2009), o que podemos pensar como decorrente das 
diferenças razoáveis – conforme vimos antes – entre o número de filhotes 
possíveis e os níveis de cuidado parental de acordo com o sexo. Já em relação à 
idade, homens jovens tendem a correr mais riscos do que homens mais velhos, 
pois os jovens precisam acumular recursos ou status para aumentar a chance de 
acasalamento e emparceiramento. Uma vez mais velhos e com filhotes, eles 
precisam mudar a estratégia e ser mais conservadores, em nome da 
sobrevivência da cria já nascida (Rubin, Capra, 2012). 
Nossos vieses também nos levam a decisões desconectadas da realidade 
devido à nossa dificuldade em lidar com conceitos abstratos desconectados com 
a natureza (em que nossa espécie evoluiu) (Rubin, Capra, 2012). Um dos 
melhores exemplos envolve um teste que você pode ser feito neste momento. 
Considere a seguinte situação: um taco e uma bola custam, juntos, um real 
e dez centavos, e o taco custa um real a mais que a bola. Agora responda o mais 
rápido possível a pergunta: quanto custa o taco e quanto custa a bola? Se você 
respondeu rapidamente que o taco custa um real e que a bola custa dez centavos, 
você errou junto à grande maioria. Se a diferença entre o taco e a bola 
corresponde a um real, o taco custa um real e cinco centavos, e a bola, cinco 
centavos. O erro nesta e em outras questões do gênero se devem ao fato de o 
nosso cérebro avaliar de forma enviesada, econômica (avarenta, como vimos) e 
incompetente em questões econômicas. 
Assim, nossas decisões nesse domínio também tendem a ser irracionais e 
desconectadas da realidade. Nossa dificuldade em lidar com probabilidades e 
com grandes números acaba por influenciar (ainda que não isoladamente) 
diversos domínios da vida, como nosso ilusório medo de voar de avião (algo em 
que a chance de acidente fatal é baixa a ponto de ser desprezível) e nossa 
dificuldade em conceber que certas casualidades podem se dever ao mero acaso 
(como pensar em uma pessoa e receber uma ligação telefônica dela quase 
imediatamente depois). 
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Devido a todos esses vieses, as teorias econômicas se beneficiariam muito 
de considerar o ser humano não como um emissor de comportamentos racionais, 
mas, sim, como uma espécie repleta de vieses derivados da seleção natural e que 
vive em um ambiente para o qual, ao menos em parte, ele não evoluiu. 
TEMA 3 –EVOLUÇÃO E SAÚDE 
Você já deve ter percebido que nosso comportamento em relação à saúde, 
muitas vezes, não acompanha nosso conhecimento. Fumamos e bebemos (e, 
inclusive, começamos a fazê-lo) conhecendo os malefícios associados, fazemos 
sexo sem nos precavermos contra doenças sexualmente transmissíveis, 
alimentamo-nos mal, não nos exercitamos...Os exemplos parecem não ter fim. 
Tais tendências, com variações maiores e menores de acordo com a cultura e 
com a história individual, podem ser observadas em todas as épocas e locais, o 
que sugere a presença de aspectos evolutivos. 
 
Créditos: Spass/Shutterstock. 
O exemplo da alimentação já foi citado anteriormente. Temos a tendência 
a preferir alimentos doces e gordurosos porque eles permitem a obtenção rápida 
de energia, algo bastante útil no período evolutivo marcado por recursos no nível 
da subsistência. Mas, atualmente, em um contexto em que parte de nós não vive 
mais nesse limite, a tendência a consumir alimentos desse tipo se tornou 
desadaptativa, pois nos leva ao acúmulo de gordura, a doenças do coração etc. 
(Buss, 2015; Lopes, 2009). 
No âmbito da tomada de decisão, tendemos ao consumo dessas 
substâncias por esses impulsos inconscientes enquanto, ao mesmo tempo, 
elaboramos justificativas racionais (e inverídicas) que as tornam aceitáveis para 
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nós: “na segunda-feira, eu começarei a dieta”; “eu mereço uma recompensa só 
hoje” etc. Essa tendência é bem discutida pela teoria da dissonância cognitiva 
(Festinger, 1975). 
De forma semelhante, outros comportamentos que não são saudáveis hoje 
possuem evidência de ser reverberações de comportamentos adaptativos no 
período evolutivo (Curtis; Aunger, 2011). Enquanto o controle emocional é 
adaptativo para os indivíduos, pois otimiza sua relação com o ambiente e consigo 
mesmos, e enquanto os recursos para esse fim durante o período evolutivo 
tendiam a ser saudáveis (ou, ao menos, não diretamente prejudiciais), boa parte 
dos meios atuais não o é, como o uso de cigarro e de bebidas alcóolicas, o 
consumismo de bens materiais, práticas sexuais potencialmente de risco etc. 
De forma análoga ao caso da má alimentação, tendemos a criar 
justificativas racionais (e inverídicas) como: o(a) parceiro(a) (que acabamos de 
conhecer) “é sexualmente confiável”, “precisávamos mesmo comprar todos 
aqueles bens”, “minha avó fumou um cigarro por dia e viveu 93 anos”, entre outras 
tantas possibilidades que a criatividade puder conceber. Neste ponto, nossa 
natural dificuldade para lidar com probabilidades também afeta nossas decisões 
em relação à saúde, como no caso da avó fumante e nas concepções não raro 
equivocadas dos políticos sobre medidas de saúde pública. 
Por outro lado, nossas preferências esportivas – que também estão 
associadas à saúde – também possuem bases evolutivas. O nível de testosterona 
afeta a predisposição para esportes e competição, com impactos na saúde. Além 
disso, nossa busca por status social – algo com importância evolutiva de animais 
sociais como o Homo sapiens, como vimos – também acaba por invadir o domínio 
do esporte. Nossa dimensão social afeta até fenômenos, como a conhecida 
vantagem de esportistas em jogar “em casa”, se comparado a seus rivais vindos 
de fora (Wiedemann; Barton, 2012). 
TEMA 4 – POLÍTICA 
Um dos domínios da vida em que a tomada de decisão é mais ressaltada 
e valorizada é a política. Herdeiros da tradição grega, vivemos em uma 
democracia cujo pilar central é a possibilidade de escolha dos cidadãos sobre 
quem deterá o poder nas diversas divisões do Estado. Em outras palavras, um 
dos pilares centrais da política em contextos democráticos é a tomada de decisão. 
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Tendemos a pensar, de forma semelhante ao que vimos em outros 
domínios, que nossas escolhas políticas são racionais e deliberadas com base 
nas propostas de cada candidato e das bandeiras mais gerais que eles defendem. 
Acompanhamos os debates eleitorais, discutimos, buscamos fundamentar nossas 
escolhas. 
Contudo, incontáveis estudos dentro e fora da psicologia evolucionista 
colecionam evidências de que nossas tomadas de decisão também nesse 
domínio tendem a se amparar em processos involuntários, automáticos e não 
racionais, cujas bases podem ser rastreadas até o período evolutivo (Petersen, 
2011). 
 
Créditos: Passakorn Vejchayachai/Shutterstock. 
 
Vimos anteriormente que um dos mais notáveis processos de base 
evolucionista na espécie humana foi justamente o surgimento dos grandes 
grupos, o que requereu o desenvolvimento de complexas habilidades de interação 
social. A política é um dos desdobramentos centrais desse processo, pois ela 
serve para regular as relações humanas em múltiplos níveis. Os diferentes 
interesses precisam ser compatibilizados em prol de um convívio social razoável 
e diferentes grupos precisam conviver em razoável harmonia, o que é ainda mais 
difícil considerando que temos vieses cognitivos específicos que nos levam a 
favorecer quem pertence ao nosso grupo (o chamado viés in-group-out-group; 
Brewer, 1979). 
De modo mais específicos, além de tudo que vimos sobre o “cérebro 
social”, temos de considerar que, enquanto animais sociais, somos sensíveis a 
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certas tendências, entre elas a hierarquização. Nossa cognição nos motiva a 
considerar palatável uma organização social hierarquizada, com cadeias de 
comando. Percebemos isso também em primatas não humanos e, com diferente 
complexidade, em outros animais que possuem, por exemplo, indivíduos “alfa” 
com privilégios reprodutivos e de comando no grupo (Petersen, 2011). 
Ainda somos sensíveis a demonstrações de força e liderança do tipo que 
era importante no período evolutivo, como firmeza de voz e postura, aparente 
coragem, olhar seguro etc. Note que nenhuma dessas características parece, sob 
uma perspectiva racional, imprescindível para que um político governe com 
sabedoria, honestidade e justiça. Mas – recordemos – estamos respondendo a 
impulsos bastante antigos. 
Ao mesmo tempo, especialmente em momentos de crise ou escassez de 
recursos, nosso viés in-group-out-group tende a se manifestar com mais 
intensidade, o que nos ajuda a compreender as reações fortes contra imigrantes, 
especialmente em contextos culturais percebidos pela população como em crise. 
Políticos que dão voz a esse viés têm tido vantagem em eleições recentes em 
diferentes países. Ao mesmo tempo, somos animais de tendência também 
colaborativa, como vimos anteriormente, de modo que o discurso político tocante 
deve buscar não parecer injusto e não cooperativo. 
Como vimos, nossa cognição também é mais sensível a estabelecer 
relações causais diretas e a operar mal com números, proporções e variáveis 
complexas, pois nosso cérebro não evoluiu enfrentando tais nuances no ambiente 
ancestral. Essa é uma das razões pelas quais políticos que propõem soluções 
simples e diretas – independentemente de sua eficácia real – tendem a ter 
sucesso em eleições em qualquer lugar do mundo. 
Note que as diferentes possibilidades de equilíbrio entre essas diferentes 
tendências podem gerar posicionamentos políticos diversos. Esse é um dos 
motivos pelos quais os mesmos vieses cognitivos e tendências evolucionistas 
podem ocasionar tantas ideologias políticas. 
TEMA 5 – CONCLUSÃO 
Pudemos perceber, neste curso, o quanto a tomada cotidiana de decisões 
nos mais diversos domínios se fundamenta em algo mais basal do que a escolha 
racional. Nossa cognição resulta de diversas adaptações evolutivas que afetam 
nossas escolhas em patamar involuntário e automático. 
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Constatamos, entretanto, que, apesar dos importantes conhecimentos 
trazidos à tona, diversas dimensões do comportamento humano que possuem 
alicerce na evolução não puderam ser abordadas, enquanto outros não o foram 
com a merecida profundidade, por questão de espaço. Cada tema visto aqui pode 
ocupar, isoladamente, diversos livros inteiros. 
Como o estudo evolutivo do comportamento humano ainda é relativamente 
recente, diversas descobertas não foram devidamente correlacionadas à seleção 
natural, muitas delas se encontram no campo emergente do chamado “novo 
inconsciente”, que estuda processos cognitivos automáticos nos mais diversos 
domínios da vida. Tivemos oportunidade de nos debruçar sobre diversos deles, 
mas ainda há muito mais a ser visto (com base no que estudamos e aprendemos 
nesta disciplina, recomendamos a leitura de Callegaro, 2009). 
Que a busca do aluno por contornar essas compreensíveis lacunas se una 
aos conhecimentos adquiridos ao longo da disciplina e às referências 
bibliográficas indicadas ao final de cada texto para motivar a continuidade de seus 
estudos. 
 
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CALLEGARO, M. M. O novo inconsciente. Artmed Editora, 2009. 
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