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GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Reconhecer a natureza biogeográfica brasileira. > Identificar os propósitos da biogeografia. > Traçar as tendências biogeográficas do território. Introdução Compreender a complexidade e a biodiversidade de um país com um grande território como o Brasil não é uma tarefa simples. A biogeografia, portanto, é a área que estuda a distribuição geográfica dos seres vivos através do tempo, e que busca compreender os padrões e os processos de sua organização espacial. Neste capítulo, você vai reconhecer a natureza biogeográfica brasileira, iden- tificar os propósitos da biogeografia e traçar as tendências do território. Além disso, você estudará conceitos elaborados por autores relacionados à biogeografia. Natureza da biogeografia A geografia é uma ciência que tem como principal objetivo o estudo da or- ganização dos processos espaciais que ocorrem na superfície terrestre, considerando os fatores físicos, biológicos e humanos e a interação entre eles. A biogeografia, como parte integrante da ciência geográfica, se ocupa com os mesmos objetivos, porém com algumas características específicas, se concentrando na tentativa de explicar a origem, a evolução, a dispersão e a Biogeografia brasileira Eduardo Samuel Riffel distribuição da vida na superfície da Terra. Em decorrência disso e diante das inúmeras definições, pode-se afirmar que a biogeografia trata de uma área do conhecimento científico que se fundamenta no estudo da distribuição, da adaptação e da explicação dos seres vivos, sejam vegetais ou animais, e nos diversos lugares da superfície terrestre. Deve-se destacar, no entanto, que a biogeografia assume uma conotação espacial diferente de outros setores do conhecimento sistematizado próxi- mos a ela, como a biologia, a botânica, a zoologia, a agronomia, a ecologia. Conforme Camargo (1998), o foco de um estudo biogeográfico será sempre voltado para a abordagem espacial. Segundo essa ideia, compete ao bioge- ógrafo abordar a manifestação vital (homens, animais e vegetais) por meio dos fatos distributivos que contribuem para a interpretação da variação da biota nos mais diferentes lugares do planeta (CAMARGO, 1998). Essa análise espacial associada à geografia permite que o biogeógrafo dê as explicações necessárias e pretendidas no seu estudo com originalidade. A seguir, veja alguns conceitos elaborados por autores relacionados à biogeografia e a seu objeto de estudo (VITTE; GUERRA, 2010). � A biogeografia é o estudo da repartição dos seres vivos na superfície terrestre e a análise de suas causas (MARTONNE, 1954). � A biogeografia estuda a repartição dos seres vivos na superfície dos continentes e as causas dessa repartição no espaço e no tempo (FU- RON, 1961). � A biogeografia estuda os organismos vivos, as plantas e os animais na superfície do globo, em sua repartição, em seu grupamento e em suas relações com os outros elementos do mundo físico e humano (ELHAI, 1968). � A biogeografia pesquisa as razões da distribuição dos organismos, das comunidades vivas e dos ecossistemas nas paisagens, países e continentes do mundo (MUELLER, 1976). � A biogeografia estuda as interações, a organização e os processos espaciais, dando ênfase aos seres vivos — vegetais e animais — que habitam determinado local: o biótopo, onde constituem geobiocenoses (TROPPMAIR, 2008). Biogeografia brasileira2 O conceito trazido por Troppmair (2008) foca na discriminação entre a subdivisão da ciência geográfica e o conjunto de disciplinas do conhecimento de cunho ecológico — os propósitos e o campo de atuação do biogeógrafo. A análise espacial como categoria de análise geográfica incide para a inves- tigação das interações e da organização das diferentes formas de vida em um ponto da superfície terrestre. Esta unidade de interação e organização é denominada geobiocenose, que consiste em um sistema inter-relacionado da flora e da fauna em uma determinada extensão espacial (terrestre e aquática), onde se realizam as necessidades vitais (VIADANA, 1992). Conforme os conceitos apresentados, deve-se atentar para as ordens de escala nos estudos biogeográficos, pois além da espacialidade (lugares, regiões, continentes e o próprio planeta), considera-se também a escala do tempo, visto que, por exemplo, nos estudos que se mostram revestidos da interpretação a considerar origem, evolução e dispersão das espécies (vegetais e animais), também é necessário considerar a sua localização temporal em termos geológicos. Em relação à biogeografia brasileira, o trabalho do geógrafo Aziz Ab’Sáber se destaca na tentativa de diferenciar áreas do território brasileiro que apre- sentam certa similaridade em suas características ambientais. A partir disso, o geógrafo elaborou o conceito de domínios morfoclimáticos e fitogeográficos, que são áreas com ordem de grandeza territorial significativa, que recobrem boa parte do território brasileiro e que apresentam similaridade nos aspectos relacionados a feições de relevo, tipos de solos, formas de vegetação e con- dições climato-botânicas. No Brasil podem ser identificados seis diferentes domínios paisagísticos, além de faixas de transição localizadas, entre eles: domínio amazônico, domínio do cerrado, domínio da caatinga, domínio dos mares de morros, domínio das araucárias e domínio das pradarias (Figura 1). Biogeografia brasileira 3 Figura 1. Domínios morfoclimáticos do Brasil. Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias (2020, documento on-line). Biogeografia e geossistemas Segundo Troppmair (2008), a biogeografia estuda as interações, a organização e os processos espaciais com ênfase nos seres vivos (biocenoses) que habitam determinado local — o biótopo. A partir dos ecossistemas, cabe ao biogeógrafo compreender o geossistema, composto pela interação espacial entre os ecossistemas naturais e os sistemas ambientais criados pelo homem. O geossistema compreende um espaço que se caracteriza pela homogenei- dade dos seus componentes, suas estruturas, fluxos e relações que, integrados, formam o sistema do ambiente físico onde há exploração biológica. Biogeografia brasileira4 Propósitos da biogeografia Para atingir seus objetivos, a biogeografia se divide em fitogeografia e zoo- geografia. A fitogeografia trata da investigação distributiva dos vegetais, enquanto a zoogeografia trata da investigação distributiva dos animais. Em uma análise geral dos estudos biogeográficos, os estudos fitogeográficos encontram-se mais desenvolvidos do que os zoogeográficos. Isto se deve à maior facilidade e disponibilidade das técnicas e de recursos materiais exigidos em uma investigação sistematizada centrada nas plantas. Segundo Camargo (1998), é evidente que o estudo dos animais apresenta maiores dificuldades em função de sua extrema mobilidade e de hábitos exclusivos de vida. Também o pequeno porte e a pouca capacidade asso- ciativa dos nossos animais, aliados ao hábito noturno de grande número de espécies, dificultam muito o estudo de suas características e distribuição. Para o autor, o estudo da vegetação realizado pelo geógrafo se reveste de valor em virtude da expressão que a cobertura vegetal imprime à paisagem, pois constitui um componente de fácil observação na superfície terrestre. Em função das conexões com o clima, relevo, solo e hidrografia, a vegetação assume fisionomias únicas, que permitem interpretações bem fundamentadas por parte dos fitogeógrafos. Em razão de seus propósitos, a biogeografia possui diversos desdobra- mentos; Vitte e Guerra (2010) descrevem alguns deles a seguir. � Florística/faunística: área que estuda a distribuição geográfica e as causas de ocorrência de determinada espécie vegetal ou animal em um dado espaço. Por exemplo, a presença do Caryocar brasiliensis (Figura 2) nos extensivos dos chapadões da área core no domínio dos Cerrados, localizados na Região Central brasileira; ou ainda a presença do Astyanaxbimaculatus em hidrotopos represados das bacias hidro- gráficas do Sudeste brasileiro. Nos dois exemplos, pode-se inclusive delimitar a amplitude territorial de ocorrência das espécies, ou, ainda, os fatores limitantes para as respectivas dispersões. Biogeografia brasileira 5 Figura 2. Ocorrência de Caryocar brasiliensis (pequi) no cerrado brasileiro. Fonte: Kuhlmann (2020, documento on-line). � Sociológica: também subdividida em fitossociológica e zoossociológica, diz respeito ao estudo das espécies vegetais e animais que participam de uma biocenose, como, por exemplo, a atual distribuição dos mangues com a respectiva fauna, ao longo dos litorais da América do Sul, África e Sudeste Asiático e seus táxons equivalentes. Na atualidade, com o desenvolvimento de técnicas e métodos interpretativos fundamentados em especial na palinologia dos manguezais, inúmeros cientistas elabo- raram fortes argumentos na identificação de espécies angiospermas que pioneiramente desenvolveram tolerância à salinidade, evoluindo para espécies que caracterizam o exotismo das formações vegetais que constituem os mangues (VANNUCCI, 1999). Estudos neste nível procuram explicar as questões de como espécies de plantas e animais ocorrem e participam em determinada mata, lago ou, ainda, andares de vegetação em áreas da superfície terrestre. � Histórica: pesquisa as causas da atual distribuição, a diferença e a extinção de espécies da flora e da fauna. A título de ilustração, pode-se citar a distribuição dos fósseis da megafauna pleistocênica na Amazônia Ocidental, nos terrenos quaternários dos estados do Acre e de Ron- dônia. Uma excelente pesquisa a respeito da extinção da megafauna pleistocênica foi desenvolvida por Ranzi (2000) e teve como propósito o registro dos mamíferos que habitaram a Amazônia Ocidental durante o Pleistoceno Superior, com a finalidade de contextualizar esse grupo Biogeografia brasileira6 faunístico na história da biota amazônica. Troppmair (2008) afirma que essa área específica da biogeografia abriga respostas às seguintes questões: como se deu a evolução da espécie X na América do Sul? Por que a espécie Y da África não ocorre no continente americano? Quais foram as áreas de refúgio e as causas da extinção de determinadas espécies da avifauna na Neutrópis? � Fisionômica: trata especificamente das formas de vida, ou seja, da expressão singular no mosaico da paisagem, e isso tanto em relação às formações vegetais como também ao micromodelado do relevo terrestre, por meio da ação de alguns grupos faunísticos, caso típico dos murundus, ou termitários, que infestam enormes extensões do território brasileiro, feitos pelas saúvas e termitas. As indagações que ocorrem para esta modalidade de investigação biogeográfica podem ser: a vegetação é aberta ou densa? Arbórea, arbustiva ou rasteira? Quais formações vegetais resultam deste fato? Responder a questões como essas auxiliam biogeógrafos a definir uma tipologia específica para a cobertura vegetal do Brasil Central, como campo limpo, campo sujo, campo cerrado e cerradão, e podem contribuir para a criação de unidades de preservação para este sutil domínio paisagístico do território brasileiro. � Econômica: investiga a apropriação, o valor e o aproveitamento de diferentes espécies vegetais e animais, em benefício da sociedade, sem, contudo, comprometer a fisiologia da paisagem. Atualmente, em virtude da biopirataria — principalmente na Amazônia —, exige do biogeógrafo condutas que passam necessariamente pela ética e moral e, na forma evidente, por concepções filosóficas que alicercem novas posturas de pensar e agir sobre a preservação dos mais diversificados biomas. � Regional: trata do fator distributivo de plantas e animais em diferen- tes regiões ou geossistemas que integram o mosaico da paisagem. Um exemplo de estudo dessa área é o que resultou no modelo dos domínios morfoclimato-botânicos em território brasileiro, com o es- tabelecimento de suas respectivas áreas cores e seus corredores de transição (AB’SÁBER, 1977). O reconhecimento das potencialidades paisagísticas brasileiras veio a corroborar o conceito de que as uni- dades de preservação devem ser delimitadas, reunindo no mínimo dois ou três domínios. � Médica: consiste na investigação sistematizada da distribuição e as causas da ocorrência de pragas e moléstias que, neste caso em parti- cular, tem a contribuir no grave problema da proliferação da dengue e Biogeografia brasileira 7 da febre amarela, cujos vetores se propagam nos ambientes aquáticos, localizados no campo ou na cidade. Pesquisas bem conduzidas apa- recem em Lacaz, Baruzzi e Siqueira Júnior (1972), com considerações a respeito dos fatos essenciais de geografia física do Brasil e a relação com alguns problemas de patologia humana. Além de movimentos migratórios, doenças infecciosas e parasitárias e outros temas como zoonoses, protozooses, helmintíases, viroses, riquetsioses, cabe lem- brar que a biogeografia médica se estende aos estudos da propagação de pragas que afetam a produção agrícola. � Evolucionária: realiza o estudo dos seres vivos e as condições geoe- cológicas que incidem para a evolução por meio da seleção natural. Estudos recentes nesta área têm demonstrado casos de especiação em tempo real. Como, por exemplo, o fato de que, em levantamentos efetuados na América Central Continental e Insular e no Sudeste bra- sileiro, o Lebiste reticulatus apresenta diferenciação na gama de cores e quantidades de pintas sobre o corpo em função da maior ou menor pressão de seus predadores e do ambiente aquático em que vive, que pode ou não promover a sua proteção de ataques. Este processo traz, como consequência, diversidade nos padrões de cores e pintas no corpo do peixe, evidenciando diferenciações na mesma espécie ao longo de um mesmo canal fluvial. Endemismo O endemismo está relacionado à região geográfica que compreende a distribuição de uma ou mais espécies que não ocorrem em nenhum outro lugar. Por isso, quando uma espécie ocorre em apenas uma região se diz que ela é endêmica daquela região. Ainda, endemismo não deve ser confundido com o conceito de centro de origem, que está relacionado ao dispersionismo. Tendências biogeográficas Os biogeógrafos foram os primeiros entre os geógrafos a perceber a dinâmica integrada dos componentes paisagísticos, tais como estrutura geológica, clima, solo, relevo, vegetação e hidrografia, e isso sem incidir para avaliação isolada e individualizada do espaço geográfico. Dessa forma, os biogeógrafos Biogeografia brasileira8 deram início a novas tendências no seu campo específico de estudo, funda- mentados em uma visão holística ou de conjunto, que proporcionou grande progresso na produção biogeográfica e na própria geografia. Pode-se dizer que a gênese da biogeografia, estabelecida como um corpo de ideias sistematizadas em tempos modernos, reside principalmente nos esforços de pesquisadores que se dedicaram ao estudo distributivo dos seres vivos nos séculos XVIII e XIX, quando surgiram figuras como Lamarck, Humboldt, Darwin, Wallace, que firmaram princípios sobre o centro de origem, dispersão das espécies, formas de vida e conexões com o mundo físico e biológico. Posteriormente, pesquisadores postularam o princípio da vicariância, que consiste na especificação e no fator distributivo dos seres vivos como resul- tado das condições de excepcionalidade, advindas de mudanças ambientais globais, principalmente aquelas que envolvem a tectônica de placas e que desencadeiam novos desenhos a respeito da espacialidade vital na superfície terrestre. Espacialidade está configurada nas quatro dimensões pertinentes ao espaço geográfico, incluindo o tempo geológico e histórico. Ou seja, a vicariância constitui um dos mecanismos evolutivos no qual a biogeografia ou a distribuição geográfica de uma espécie ancestral é fragmentada em duas ou mais áreas, devido ao aparecimento das barreiras naturais,sejam quais forem a sua gênese ou configuração. Atualmente, a visão evolucionária assume grande prestígio e relevância para os que se dedicam a esse complexo e interessante estudo sistematizado, denominado biogeografia. Sendo assim, a biogeografia pode ser admitida, futuramente, como a ponte unificadora entre a geografia física e a geografia humana, a ter como maior preocupação o estudo do homem e seus diferen- tes ambientes e o entendimento de como o mundo se humaniza, agindo e transformando a natureza, sem, contudo, desprezar o espaço que a biota ocupa neste planeta. Endemismo no território brasileiro: caso da Ilha da Queimada A Ilha da Queimada Pequena e Queimada Grande é uma unidade de conservação brasileira protegida pelo Instituto Chico Mendes (ICMbio), e é considerada uma área de grande interesse ecológico por conter uma biodiver- sidade curiosa. A área recebe os nomes populares Ilha das Cobras — por ser habitada por uma grande concentração de cobras jararaca — e Queimada Grande devido às queimadas que os antigos pescadores (que desembarcavam para descansar) Biogeografia brasileira 9 faziam para afastar as cobras. Hoje em dia, a ilha é uma área restrita apenas para pesquisadores e profissionais ambientais. A jararaca ilhoa (Bothrops insularis) infelizmente está na categoria de cri- ticamente ameaçada de extinção. Por ser isolada na ilha, a espécie endêmica se desenvolveu de maneira diferente das que estão no continente. Não tendo uma presa terrestre, como pequenos mamíferos (roedores), a cobra começou a subir nas árvores atrás de aves, tornando a caça mais difícil. Assim, a adaptação no novo habitat fez com que seu veneno ficasse mais forte para abater a presa mais rápido, além do mimetismo com a vegetação da ilha para se camuflar e do hábito diurno para atrair as aves. Dessa forma, pode-se identificar a jararaca ilhoa como um exemplo de adaptação de vida selvagem, ao modificar a sua alimentação e as suas técnicas de camuflagem para obter sua presa. Fonte: Schulz (2019). Referências AB’SÁBER, A. N. Potencialidades paisagísticas brasileiras. 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