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1 Módulo 1.2 - Introdução a Terapia de Esquemas Prof.ª Me. Camila Alves de Amorim Psicóloga e especialista em Análise do Comportamento Formação em Terapia de Esquemas (Wainer e pelo NYC Institute for Schema Therapy). Doutoranda e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) Prof.ª Me. Isabella Wada e Pucci Psicóloga e especialista em Neuropsicologia (USF e CRP) e em Terapia Cognitivo comportamental (PUCPR) Formação em Terapia de Esquemas (Wainer e pelo NYC Institute for Schema Therapy). Doutoranda e Mestre pela Universidade de São Paulo (USP) INTRODUÇÃO O conceito de apego, desenvolvido por John Bowlby e Mary Ainsworth (1991), é fundamental para entender as dinâmicas emocionais que influenciam o comportamento humano. Bowlby argumenta que a qualidade das relações formadas na infância, especificamente com os cuidadores, molda as expectativas e comportamentos nas relações futuras. O apego seguro, por exemplo, está associado a um desenvolvimento emocional saudável, enquanto estilos de apego inseguro podem resultar em dificuldades nas interações sociais e na regulação emocional. Esse entendimento é especialmente relevante no contexto da Terapia do Esquema (TE), abordagem terapêutica desenvolvida por Jeffrey Young no final da década de 1980. Essa abordagem terapêutica integra princípios da Terapia Cognitivo- Comportamental (TCC) com ênfase nos esquemas emocionais que se formam a partir das experiências de apego na primeira infância. A Terapia do Esquema busca ressignificar esses padrões, proporcionando um espaço seguro 2 onde o paciente pode explorar suas emoções e experiências passadas. Técnicas como a reestruturação cognitiva e técnicas vivenciais são utilizadas para ajudar os indivíduos a confrontar de modo empático e modificar esses padrões disfuncionais (Young et al., 2008). Portanto, a combinação das teorias de Bowlby sobre apego e a abordagem terapêutica de Young revela a importância das experiências na infância para o desenvolvimento emocional e dos padrões de relacionamento. O reconhecimento de como os estilos de apego influenciam a vida adulta podem favorecer a construção de vínculos mais saudáveis e satisfatórios ao longo da vida. Assim, a integração desses conceitos não apenas enriquece a compreensão da psicologia humana, mas também oferece ferramentas práticas para a transformação pessoal e emocional (Bowlby, 1990; Young et al., 2008). OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM GERAL DO MÓDULO ● Reconhecer os principais conceitos da Teoria de Apego (TA) e como os diferentes estilos de apego influenciam na formação de padrões relacionais e comportamentais ao longo da vida. ● Compreender as características principais dos esquemas iniciais desadaptativos (EIDs) e como eles se desenvolvem ao longo da vida. ● Identificar os principais objetivos e conceitos da Terapia de esquema (TE). 1. Bases da Teoria do Apego e Estilos de Apego A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e ampliada por Mary Ainsworth, explora como os vínculos emocionais formados na infância influenciam o desenvolvimento emocional e os relacionamentos ao longo da vida. O apego é a conexão emocional profunda que se desenvolve entre um cuidador e uma criança nos primeiros anos de vida, servindo como base para a formação de expectativas e padrões de pensamento e compreensão do mundo no futuros (Ainsworth & Bowlby, 1991). Com base na análise de seus estudos, Bowlby (1990) observou que tanto os bebês humanos quanto os de outros 3 mamíferos apresentam um comportamento comum: eles buscam evitar o afastamento de seus cuidadores, pois a proximidade com a figura de apego é fundamental para garantir sua proteção e sobrevivência. Harlow (1958) inseriu em seu laboratório alguns experimentos com modelos animais, utilizando filhotes de macaco. O autor descreveu a experiência de separação de filhotes de macaco com suas mães, resultando em comportamentos impulsivos e dificuldades no desenvolvimento de habilidades sociais no futuro. O principal experimento do autor consistia em apresentar a filhotes de macaco, privados de sua mãe biológica, duas mães substitutas. Uma delas era uma mãe confeccionada em pano, sendo macia e mais similar à penugem de uma mãe biológica. A segunda mãe consistia em uma mãe de arame, sem o revestimento em pano. Alguns filhotes recebiam alimentação da mãe de pano e outros eram alimentados pela mãe de arame. No final do experimento, todos os filhotes permaneciam mais tempo com a mãe de pano (mesmo aqueles que eram alimentados pela mãe de arame). Esse experimento contribuiu para o entendimento do apego como uma necessidade primordial no início da vida. As necessidades fisiológicas (tais como sono e alimentação) são relevantes para o desenvolvimento, mas parece que apenas tais necessidades sendo atendidas não seja suficiente para um desenvolvimento saudável do indivíduo. 4 Figura 1. Experimento de privação maternal realizado por Harlow (1958). Outros autores continuaram os estudos sobre a teoria do apego, a fim de compreender como a relação de apego e afeto entre os filhotes de animais e suas mães poderia se assemelhar à relação de apego entre bebês humanos e seus cuidadores principais. A fim de exemplificar quais são as reverberações de impactos da relação de apego entre os seres humanos, Mary Ainsworth (1978) também realizou experimentos nesse sentido. A autora se debruçou sobre a compreensão do apego nos primeiros anos de vida dos bebês. A partir de um experimento conhecido como "Situação Estranha", foi possível mapear diversos comportamentos de mães e seus bebês. Nesse experimento, inicialmente a criança e suas mães ficavam dentro de uma sala com alguns brinquedos disponíveis, posteriormente as crianças eram temporariamente separadas de seus cuidadores e, em alguns momentos, apresentadas a pessoas estranhas (desconhecidas), o que permitiu observar suas reações em diferentes situações. A pessoa estranha era a própria autora e pesquisadora. Ainsworth observava a interação dos bebês com a mãe, com os brinquedos e com a pesquisadora ao longo do experimento, até que em certo momento, a mãe se retirou da sala - deixando os bebês a sós com a pessoa desconhecida. Nesse momento, diversas reações foram percebidas nos bebês. Enquanto alguns bebês exploram o ambiente e os brinquedos deixados para trás; outros bebês seguiam a mãe demonstrando angústia e protestando contra a separação com exagero, ou até mesmo algumas crianças choravam frente à ausência da mãe e, logo após, se entretinham com algum estímulo específico na sala. As diferentes reações dos bebês forneceram pistas sobre a forma que eles experimentam o desenvolvimento do apego. Uma vez que a figura de apego sai da sala, os bebês alternaram entre se sentirem, por exemplo, corajosos e curiosos em relação ao ambiente (após adequado protesto frente à separação); protesto demasiado sobre a separação; e pouca oposição frente à separação e interesse pelos objetos e pessoas na sala (Ainsworth, 1978). 5 Figura 2. Frame da gravação do experimento “A situação estranha” A análise dos resultados deste estudo possibilitou a identificação de diferentes estilos de apego, que se referem a padrões comportamentais recorrentes que uma pessoa pode adotar em seus relacionamentos interpessoais. Os principais estilos de apego são: seguro, ambivalente/ ansioso e o evitativo. Posteriormente Ainsworth (1978) ampliou sua teoria, incluindo um quarto tipo de apego, o apego desorganizado, presente principalmente em crianças que foram vítimas de abusos ou então de negligência extrema. Os diferentes estilos de Apego são: ● Apego Seguro: crianças com apego seguro confiam que seus cuidadores estarão disponíveis e serão capazes de responder às suas necessidades nos momentos de estresse. Elas se sentem confortáveis explorando o ambiente e voltam para seus cuidadores em busca de segurança caso haja algum incômodo. Nesse estilo de apego, as crianças não se sentem amedrontadas de modo exacerbadofrente à separação, pois entendem que o mundo é um lugar a ser explorado com curiosidade. No experimento de Ainsworth (1978), observou-se que crianças com esse estilo de apego conseguiam explorar o ambiente na presença da mãe. 6 Embora ficassem incomodadas com sua ausência, recebiam-na de forma calorosa quando ela retornava. Além disso, buscavam o contato físico com amãe para aliviar a angústia sentida durante a separação. ● Apego Ambivalente/Ansioso: crianças com apego ambivalente ou ansioso podem sentir que seus cuidadores não estão consistentemente disponíveis, e isso ocorre devido a situações repetidas em que a criança demonstrou as suas necessidades mas os cuidadores cuidadores não foram suficientes ao suprir-las As crianças podem demonstrar comportamentos de clamor e necessidade excessiva de proximidade, já que a resposta dos cuidadores tende a ser inconsistente. No experimento da "Situação Estranha" (Ainsworth, 1978), crianças com esse tipo de apego mostraram pouca exploração do ambiente na presença da mãe e demonstraram grande angústia com sua ausência. Quando a mãe retornava, as crianças apresentavam comportamento ambivalente, permanecendo próximas, mas resistindo ao contato. Ainsworth sugeriu que essa dinâmica possivelmente refletia um atendimento inconsistente por parte dos cuidadores, alternando entre momentos de apoio e de falta de resposta, o que gerava instabilidade no vínculo. ● Apego Evitativo: crianças com apego evitativo tendem a minimizar a necessidade de proximidade com seus cuidadores, mostrando autossuficiência e evitando a intimidade emocional, muitas vezes em resposta a cuidadores que são insensíveis ou rejeitantes. Esses são comportamentos típicos de crianças que suportaram estresse demasiado no início da vida, e aprenderam que não importa o quanto demandem, o ambiente não será sensível a elas. No experimento da "Situação Estranha" (Ainsworth, 1978), crianças com esse estilo de apego brincavam de maneira tranquila e tinham pouca interação com seus cuidadores. Elas exibiam baixa aflição ao serem separadas da mãe e não demonstravam desconforto na presença de estranhos, chegando a ignorar a mãe quando esta tentava obter sua atenção. 7 ● Apego Desorganizado: crianças com apego desorganizado podem exibir comportamentos confusos ou contraditórios em relação aos cuidadores, muitas vezes devido a experiências de cuidado imprevisível ou traumático. É típico de vivências de abuso físico, sexual ou negligência extrema no início da vida. A criança tende a se comportar de modo ansioso e impulsivo, uma vez que não sabe se o cuidador será carinhoso ou abusivo - ou mesmo se ele irá proteger a criança de um possível abusador (Ainsworth & Bowlby, 1991). No experimento da "Situação Estranha" (Ainsworth, 1978), crianças com esse tipo de apego apresentavam comportamentos confusos ao lidar com a separação da figura de apego, demonstrando impulsividade e expressões de bravura ou confusão. Elas exibiam uma combinação de padrões de apego evitativo e ambivalente, indecisas sobre se deviam se aproximar ou evitar os cuidadores. Segundo Cortina e Marrone (2003), esse estilo de apego além de estar frequentemente relacionado a experiências de abuso e maus-tratos, podem posteriormente resultar no desenvolvimento de transtornos mentais. A formação do apego é influenciada por uma variedade de fatores sendo eles nos âmbitos individuais, relacionais e contextuais (Bronfenbrenner, 1996) e podem influenciar como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros ao longo da vida, uma vez que essa forma de se relacionar tendem a ser internalizadas e generalizadas em situações futuras semelhantes (Ainsworth et al., 1978). O Apego seguro está geralmente associado a relacionamentos saudáveis e habilidades interpessoais robustas, enquanto apego ambivalente/ansioso, evitativo ou desorganizado pode levar a desafios emocionais e relacionais (Ainsworth & Bowlby, 1991). Na vida adulta, há uma tendência a buscar relacionamentos que reflitam o vínculo inicial com as figuras de apego da infância, o que fortalece esses modelos internalizados (Sperling & Berman, 1994). 8 2. Terapia do Esquema: O que são e quais são os esquemas? Na Terapia de Esquema (TE), os esquemas são padrões duradouros e generalizados de pensamento que se desenvolvem durante a infância e a adolescência e que influenciam como interpretamos e respondemos às experiências ao longo da vida. Eles são formados a partir das nossas interações iniciais com os cuidadores e moldam nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo (Young et al., 2008). A TE contempla os aspectos discutidos na TCC clássica no manejo de pacientes refratários e caracterológicos. Porém, acrescenta uma série de questões relevantes, tanto em termos de funcionamento da personalidade quanto em termos de processos inconscientes de manutenção e hereditariedade da estrutura de identidade do indivíduo. A estrutura da personalidade dentro da perspectiva da terapia dos esquemas é compreendida a partir de influências do temperamento (base genética herdada) e também tendências comportamentais, afetivas, cognitivas e motivacionais que sofrem efeitos do ambiente a partir das interações com o meio (Young et al., 2008). O temperamento é compreendido como base que irá determinar as tendências de funcionamento do indivíduo, sendo este um determinante biológico da personalidade. O temperamento também irá influenciar a quantidade ideal de necessidades emocionais básicas do sujeito em cada um dos 5 domínios descritos na TE. Por isso, a depender do temperamento, uma pessoa poderia requerer mais necessidades emocionais de apego no início de sua vida do que um irmão com temperamento diferente, por exemplo (Young et al., 2008). 9 Figura 3. Influências sobre as necessidades básicas e EIDs desenvolvidos Na tabela abaixo, é possível encontrar os cinco domínios postulados pela TE, tendo cada domínio uma tarefa desenvolvimental diferente (relacionadas às necessidades emocionais básicas). É importante ressaltar que, uma vez que a necessidade emocional relacionada ao domínio não tenha sido atendida de forma satisfatória, Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs) relacionados podem vir a se desenvolver no decorrer da trajetória do sujeito. Ao todo foram postulados 18 esquemas, sendo cada um deles relacionado a sua respectiva necessidade emocional (ou tarefa evolutiva) e seu domínio esquemático: Domínio esquemático Tarefa evolutiva EIDs associados 1º domínio : Desconexão e Rejeição Conexão e pertencimento Abandono, privação emocional, defectividade, desconfiança e abuso, isolamento social 10 2º domínio: Autonomia e desempenho prejudicados Senso de autonomia e desempenho adequados Fracasso, vulnerabilidade, dependência e emaranhamento 3º domínio: Limites prejudicados Limites realistas Autocontrole e auto disciplina insuficientes e grandiosidade 4º domínio: Direcionamento excessivo para o outro Validação emocional e respeito aos seus desejos e aspirações Subjugação, auto sacrifício e busca de aprovação 5º domínio: Supervigilância e Inibição Espontaneidade e Lazer Inibição emocional, padrões inflexíveis, negativismo e Postura punitiva Tabela 1. Domínios esquemáticos, tarefas evolutivas e EIDs associados Os 18 Tipos de Esquemas Iniciais Desadaptativos são possuem diferentes cognições relacionadas, porém, todos eles trazem conteúdos relacionados à percepção negativa de si, dos outros/do mundo ou do futuro. Abaixo serão melhor descritos os EIDs e quais são os domínios dos quais fazem parte. No Domínio de Desconexão e rejeição, o esquema de Abandono/instabilidade consiste na percepção de que as outras pessoas são instáveis e indignas de confiança. A pessoa tende a sentir e pensar que pessoas importantes para ela irão a abandonar a qualquer momento, e não estarão presentes em momento de ligação emocional e necessidade de suporte. O esquema de Desconfiança/abuso consiste na expectativa de que outraspessoas são malvadas e podem causar danos, humilhações e prejuízo. Erros cometidos por outras pessoas tendem a ser percebidos como cruéis e intencionais. O esquema de Privação emocional consiste na expectativa de que o desejo de ter um grau satisfatório de apoio emocional não será satisfeito pelos outros, por isso, não se deve esperar por cuidados, empatia ou proteção de outras pessoas. O esquema de Defectividade/vergonha consiste no sentimento de que a pessoa é falha, mau, indesejada ou inadequada, e que não merece o 11 amor de outras pessoas importantes. O esquema de Isolamento social/alienação se caracteriza pela sensação de que se está isolado do resto mundo, sendo diferente de outras pessoas e não pertencendo a nenhum grupo social (Young et al., 2008). No Domínio de Autonomia e desempenho prejudicados, o esquema de Dependência/incompetência se relaciona com a ideia de que se é incapaz de dar conta das responsabilidades da vida sem suporte e orientação de um terceiro. O esquema de vulnerabilidade ao dano ou à doença consiste no medo e desespero frente à possibilidade de que uma catástrofe iminente irá acontecer e não há nada que se possa fazer para impedir. O esquema de Emaranhamento/ self subdesenvolvido é caracterizado pelo envolvimento emocional e intimidade em demasia com uma ou mais pessoas consideradas próximas ou importantes, sendo considerada difícil a vida social típica sem a presença dessas pessoas. Por fim, o esquema de Fracasso consiste na ideia de que a pessoa fracassou, fracassa e fracassará inevitavelmente, acreditando que conquistas não serão atingidas emmomento nenhum (Young et al., 2008). O Domínio de Limites prejudicados é composto pelo esquema de Arrogo/Grandiosidade e Autocontrole/autodisciplina insuficientes. O primeiro esquema faz menção à ideia de que a pessoa é superior aos outros, é passível de receber privilégios e vantagens que outras pessoas não merecem e que regras não se aplicam a si, mas sim às demais pessoas do mundo. No segundo esquema, a dificuldade ou recusa em usar do autocontrole e tolerância à frustração é típica, sendo um desafio se limitar em termos de expressão de impulsos e vontade (Young et al., 2008). No Domínio de Direcionamento para o outro, o esquema de Subjugação se caracteriza pela submissão demasiada ao controle e vontade dos outros, via de regra para não sofrer retaliação. O esquema de Auto-sacrifício consiste no foco excessivo no bem estar e satisfação das necessidades de outras pessoas, sendo estas uma prioridade em detrimento do bem estar do próprio sujeito. No esquema de Busca de aprovação/busca de reconhecimento, o sujeito possui ênfase excessiva na obtenção de validação e aprovação de outras 12 pessoas, colocando em xeque o próprio desejo e suas próprias ambições para receber o reconhecimento de terceiros (Young et al., 2008). Por fim, o Domínio de Supervigilância e Inibição consiste no esquema de Negativismo/pessimismo, sendo caracterizado pelo foco demasiado em aspectos negativos, tais como sofrimento, morte, imprevistos, perdas e decepções. O esquema de inibição emocional se caracteriza pela inibição excessiva de ação, sentimentos e comunicação de modo espontâneo, via de regra para evitar julgamento alheio e desaprovação vinda de outras pessoas. No esquema de Padrões inflexíveis / postura punitiva exagerada, a pessoa possui a crença de que se deve fazer um grande esforço para conquistar um padrão internalizado de sucesso, sendo estes tipicamente associados com um alto desempenho, muitas vezes para evitar críticas. O último esquema deste domínio seria o de Postura punitiva, consistindo na ideia de que as pessoas devem ser punidas e castigadas com severidade e dureza quando cometem erros, mesmo que seja por estarem aprendendo. Essa rigidez se aplica a outras pessoas mas também ao próprio sujeito (Young et al., 2008). 3. Os principais objetivos da Terapia do Esquema e algumas técnicas O principal objetivo de Jeffrey Young com a proposta da Terapia de Esquemas foi amplificar os resultados obtidos com a Terapia Cognitivo-Comportamental tradicional. Enquanto a TCC parece ter resultados com pacientes do Eixo I, a TE parece auxiliar pacientes mais cronificados e caracterológicos, típicos do Eixo II. A TE busca ajudar os indivíduos a desenvolver uma visão mais equilibrada e saudável de si mesmos e das suas relações, tendo uma vida mais leve (Young, 2015). Em termos de objetivos específicos, um atendimento em TE visa trabalhar para diminuir a força e latência de esquemas disfuncionais, a fim de fortalecer padrões mais adaptativos e realistas de enxergar aos outros e ao mundo, a si mesmos e ao futuro. É discutido com o paciente que não é possível “apagar a memória” ou excluir experiências vividas, principalmente aquelas que 13 são mais desagradáveis e por vezes traumáticas - por motivos evolutivos, o ser humano tem maior tendência a armazenar memórias afetivas desagradáveis. Contudo, é possível diminuir a intensidade de tais memórias, bem como diminuir a frequência com que estas lembranças são ativadas - é o que se chama na TE de “cura esquemática”. A fim de atingir estes objetivos, o terapeuta pode utilizar de técnicas terapêuticas para promover experiências emocionais que desafiem e modifiquem a valência de esquemas mais antigos e desadaptativos. Estas técnicas são conhecidas como “técnicas vivenciais”, sendo categorizadas principalmente pelo alto nível de envolvimento do paciente e do terapeuta, uma vez que se propõem a trabalhar desta maneira. As técnicas vivências objetivam trazer à memória do paciente as situações de maior desconforto, a fim de que a emoção sentida na lembrança possa ser ativada novamente e, uma vez que estiver à tona, seja possível ser cuidada e reparentalizada. A prática de reparentalização, por exemplo, é utilizada para fornecer aos pacientes experiências emocionais corretivas a partir do estabelecimento pelo terapeuta de uma atitude simbólica da "figura parental saudável". Isso significa dizer que o terapeuta assume atitudes de validação, apoio e carinho de modo a oferecer aos pacientes necessidades emocionais de cuidado que não foram supridas de forma adequada durante a infância. Ao entender melhor a sua condição e quais foram os motivos pelos quais a pessoa chegou a esse funcionamento, os pacientes se sentem mais empoderados e capazes de tomar decisões informadas sobre sua própria vida. Nesse momento, a TE utiliza o conceito de “fortalecimento do adulto saudável”. A psicoeducação visa promover a autonomia do paciente, encorajando-o a se tornar um agente ativo em seu processo de desenvolvimento (objetivo a longo prazo da TCC e da Terapia de Esquemas) (Beck, 2013). A psicoeducação pode ser aplicada para contextos diversos, além de sessões de psicoterapia individual. Em contextos de educação, ademais em grupos, a psicoeducação tem se mostrado como aliada importante para atingir objetivos diferentes. Não existe trabalho com a TE sem antes, por exemplo, 14 realizar psicoeducação sobre os diferentes tipos de esquemas e modos com o paciente. A psicoeducação, segundo Judith Beck (2013), é uma técnica de psicoterapia que combina princípios da terapia cognitivo-comportamental (TCC) com a educação do paciente sobre suas condições psicológicas. O objetivo é fornecer informações claras e acessíveis para que os indivíduos compreendam melhor seus problemas emocionais e comportamentais, aplicando o conceito à sua própria vida e realidade. A psicoeducação pode ajudar os pacientes a entenderem a natureza de seus transtornos, como funcionam os sintomas e quais são os fatores que contribuem para sua manutenção. Além de fornecer informações, essa técnica cognitiva ensina habilidades práticas para lidar com emoções e situações desafiadoras a partir da compreensão do paciente de como uma condição acontece em sua vida. Os pacientes aprendem a identificar pensamentos automáticos disfuncionais e a substituí-los por alternativasmais saudáveis (pensamentos alternativos) (Beck, 2013). É possível também ensinar habilidades de enfrentamento e estratégias de resolução de problemas para lidar melhor com os desafios e melhorar o bem-estar emocional dos pacientes. Esse aspecto é possível pois a TE é uma terapia derivada da TCC - ou seja, também se propõe a ser educativa. Através do processo colaborativo, é possível fortalecer estratégias de enfrentamento mais saudáveis, negociando com os modos de enfrentamento que provocam alívio a curto prazo, mas trazem prejuízos e perpetuação dos esquemas a longo prazo (Young, 2015). Em síntese, a TE utiliza uma variedade de técnicas, incluindo técnicas típicas da terapia cognitivo-comportamental (tais como questionamento socrático e role-play), técnicas de imagem e intervenções baseadas na relação terapêutica. O tratamento busca modificar esquemas disfuncionais, melhorar a regulação emocional e promover padrões de relacionamento mais saudáveis, uma vez que as necessidades básicas não atendidas são identificadas e o 15 terapeuta pode se dedicar a fornecer ao paciente aquilo que faltou durante seus primeiros anos de vida (Young, 2015). RESUMO ● A Terapia do Esquema (TE), que combina princípios da terapia cognitivo-comportamental com a análise de esquemas emocionais formados na infância. ● O conceito de apego, desenvolvido por John Bowlby e Mary Ainsworth, destaca a importância das primeiras relações infantis com cuidadores na formação de comportamentos e expectativas em relações futuras. Os principais estilos de apego são: apego seguro, apego ambivalente/ansioso, apego evitativo e apego desorganizado. ● Os esquemas são padrões duradouros e generalizados de pensamento que se desenvolvem durante a infância e a adolescência e que influenciam como interpretamos e respondemos às experiências ao longo da vida. Eles são formados a partir das nossas interações iniciais com os cuidadores e moldam nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo (Young et al., 2008). ● Os esquemas são formados a partir de necessidades emocionais que não foram suficientemente atendidas durante a infância e adolescência. Ao todo foram identificados 18 esquemas, sendo cada um deles relacionado a sua respectiva necessidade emocional (ou tarefa evolutiva) e seu domínio esquemático. ● A psicoeducação, segundo Judith Beck (2013), é uma técnica de psicoterapia que combina princípios da terapia cognitivo-comportamental (TCC) com a educação do paciente sobre suas condições psicológicas. O objetivo é fornecer informações claras e acessíveis para que os indivíduos compreendam melhor seus problemas 16 emocionais e comportamentais, aplicando o conceito à sua própria vida e realidade. MATERIAL COMPLEMENTAR Sugestões de Vídeos: ● Teoria do Apego: https://www.youtube.com/watch?v=NcTjW6-jyVE ● Você sabe o que é, e qual a origem da Terapia do esquema?: https://www.youtube.com/watch?v=kZqpbBjpSlI&list=PLn22fzyzzmWi_kdk DXSSre-t-R-__445L ● Playlist Conheça os 5 domínios esquemáticos: https://youtube.com/playlist?list=PLn22fzyzzmWh_8Y9KQX8RuCp7iB2t2gZ U&si=m7nhP5i_nDvUEfvH Sugestões de Leituras: ● Teoria do Apego: https://artmed.com.br/artigos/teoria-do-apego-a-influencia-dos-primeiros- vinculos-no-desenvolvimento-humano ● Conheça os 18 tipos de esquema: https://isabellawada.com.br/conheca-os-18-esquemas-iniciais-desadaptati vos-eids/ ● Souza, A. J. M., Freire, A. I., de Souza, F. B. M., & De Araujo, E. G. (2020). Revisitando a hipótese de Bowlby: teoria do apego, maturação neuroendócrina e predisposição para psicopatologias. Research, Society and Development, 9(11), e3579119895-e3579119895. ● Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York: Basic Books. REFERÊNCIAS Ainsworth, M. D. S., & Bowlby J. (1991). Na ethological approach to personality development. American Psychologist, 46, 331-341. https://www.youtube.com/watch?v=NcTjW6-jyVE https://www.youtube.com/watch?v=kZqpbBjpSlI&list=PLn22fzyzzmWi_kdkDXSSre-t-R-__445L https://www.youtube.com/watch?v=kZqpbBjpSlI&list=PLn22fzyzzmWi_kdkDXSSre-t-R-__445L https://youtube.com/playlist?list=PLn22fzyzzmWh_8Y9KQX8RuCp7iB2t2gZU&si=m7nhP5i_nDvUEfvH https://youtube.com/playlist?list=PLn22fzyzzmWh_8Y9KQX8RuCp7iB2t2gZU&si=m7nhP5i_nDvUEfvH https://artmed.com.br/artigos/teoria-do-apego-a-influencia-dos-primeiros-vinculos-no-desenvolvimento-humano https://artmed.com.br/artigos/teoria-do-apego-a-influencia-dos-primeiros-vinculos-no-desenvolvimento-humano https://isabellawada.com.br/conheca-os-18-esquemas-iniciais-desadaptativos-eids/ https://isabellawada.com.br/conheca-os-18-esquemas-iniciais-desadaptativos-eids/ 17 Ainsworth, M. D. S. (1968). Object relations, dependency, and attachment: A theoretical review of the infant-mother relationship. Child Development, 40, 969-1025. Ainsworth, M. (1978). Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation. Hillsdale, NJ: Erlbaum. Harlow, H. F. (1958). The nature of love. American psychologist, 13(12), 673. Beck, J. S. (2013). Terapia Cognitiva-Comportamental: teoria e prática. 2ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 413 p Bowlby, J. (1990). Apego: a natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes. Young, J. E., Klosko J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre : Artmed. Young, J. E. (2015). Terapia de esquemas. Desclée de Brouwer.