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DO SEVERINOA invocação aos Mestres dos Reinados no Além deve termi- nar à meia-noite, quando as almas sa- em para vigiar a. Terra. Vajucá, Cova de Salomão, Ju- remal, Canindé, e Fundo do Mar, são as moradas dos Espíritos do sertão nordestino. E trazidos pela cha- ve mágica, pelo poder dos cachimbos fuma- centos, pelo som ás- pero do maracá, estes espíritos de guerreiros e flechadores vem ao No que é a mais antiga prática de magia secreta no Brasil, residem as crenças mais variadas, os mais misteriosos amuletos e seus pra- ticantes conhecem as rezas mais fortes para "fechar o corpo", pa- ra "amansar um ini- migo" ou para curar doenças do corpo e da alma. Mestra Flor, "casa- menteira" ensina nes- ta obra DO a pre- parar um patuá certo e seguro de amarra- ção. Mestre Tabatin- ga, caboclo-brabo, re- velas como fabricarSeverino Cavalcante FEITIÇOS DO CATIMBO S I R ORAPRONOBIS T A V L A S R E T A M EDITORA ECOÍndice Introdução 7 Capitulo I Os Mestres da 11 Reis e Feiticeiros As Aldeias do Além II a Bebida dos Guerreiros 19 Os da Bebida diabólica - As Ervas de Capitúlo III o Som que Chama os Espíritos 29 Oração a Malunguinho Mestre Carlos, o mais Amado dos Mestres Mestra Flor Cantiga de Zé Pelintra Capítulo IV A Medicina do Sertão 37 Reza para Invocar a Força das Ervas, das e dos Frutos - Curandeiros, Rezadores e Raizei- ros Oração para Encontrar Coisas ou Bichos Perdidos - Garrafadas Famosas Oração Forte Contra Mau-Olhado Capítulo V Os Ritos dos Curandeiros 45 As Aldeias dos Bruxos mais Perigosos - As Linhas e as Rezas para Fechar o Corpo - Tupã, Linha Maior Caruará Tabatinga - A Benção das Raízes Capítulo VI A Defumação Medicinal 53 Reza para Defumação - Oração para as Sete 5Reais Oração para a Salva dos Mestres da Prin- Aldeias Oração para a Bebida Reza cesa Oração Forte para Fechar o Corpo para Olhado Capítulo VII 59 As Doenças Mágicas da Maria do Balaio Poder da A Dança como Forma de Magia A do de Dança Mestre Juremeiro A Dança da Criação Mundo Capítulo VIII 63 A Cabala de Rei Herom Os Ensinamentos de Rei Herom o Ubim Feiticeiros Um Pajé Cabalístico Oração Con- tra a Inveja e as Assombrações Capítulo IX o à Luz do Espiritismo Cristão 69 Um Revolucionário da Espiritualidade A Defumação à Luz do Racionalismo A Função da Guiné e da Arruda - e Amuletos e Outras Superstições - to com cobras - o Caminho da Felicidade Capítulo X 75 Flagelação, o Castigo dos Deuses A Lei das Matas - Os Perigos do Cabulismo Os das Matas A Iniciação dos ro- fanos Os Castigos dos que erraram Capítulo XI o Emprego dos Sonhos, Como Adivinhação, nos Ca- 85 A História dos Sonhos Interpretação de Mes- tre Alonso da Casa Amarela Quando o Juru- pari aparece nos Sonhos que é a Religião dos Pajés Toré - Os Linhos dos Caboclos - Pesquisas em Autênticos Catimbós liografia 95 6Introdução catimbó é a mais antiga prática de ria secreta no Brasil. Pouco conhecido pelo grande público, que tem Umbanda e ao Candomblé, o catimbó iantem-se fechado, indiferente ao sincretismo re- ligioso, aos novos mitos e tabus. Na tradição popular, catimbó significa cachim- bo, objeto indispensável ao funcionamento da "me- sa", isto é, da sessão coletiva. Os catimbozeiros são marginalizados, verda- deiros bruxos antigos, vivendo, em nossa era, nos sertões nordestinos. Nas noites de lua, ocultos em suas palhoças sertanejas, os catimbozeiros sopram suas "fuma- isto é, dão seguimento às práticas mágicas e primitivas exatamente iguais às que faziam no sé- culo XVI, pela transplantação da Magia Negra eu- ropéia para terras brasileiras. catimbó não aceita mudanças, não dispensa os amuletos, os filtros para seduzir homens e theres e as práticas macabras. Rezadeiras, mestres de orações fortes, curan- deiros, raizeiros, são os personagens dos exorcism 7do Eles passearão pelas páginas deste li- vro mostrando seu mundo de crenças, poderes ne- gros, magia antiga. Os mestres do Além, moradores nos reinados do espaço sem fim, tais como Vajucá, Tigre, Jure- mal e Fundo do Mar são os deuses e demos do ri- tual de catimbó e das "fumacas" para bem e pa- ra o mal. São eles que dominarão as páginas de "FEITIÇOS DO CATIMBÓ" e ensinarão a você, leitor, as ervas para curar enfermidades, a prepa- de amuletos, as rezas para quebrar feitiço e mau-olhado. Mestre Xaramundi, Mestra Angélica, Tabatinga, Carlos, Iracema e Rei Herom serão seus companheiros nesta viagem pelos e tor- tuosos caminhos da feiticaria, do bruxedo, das plantas dos bruxos (alucinógenos), mas também pelas trilhas da esperança imortal. SEVERINO CAVALCANTE 8ESTA CRUZ MILAGROSA, USADA NOS CA- TIMBÓS, QUASE DESCONHECIDA PELO GRAN- DE PÚBLICO, DEVE SER FEITA EM co- mo a de Caravaca - uma cruz cabalística que evita a peste, a doença e atrai o dinheiro e a feli- cidade. S I R ORAPRONOBIS T A V L A R E T A M 15 letras que formão a hástea da Cruz re- presentão quinze Mistérios do Rozário de Maria Santíssima, a saber: cinco gozozos, cinco dolorozos e cinco gloriozos; e as dez letras que formão o braço os dez Mandamentos da Lei de Deus. Todo aquele pois, que diariamente com devoção e fé rezar o Rozário de Maria, e observar os Mandamentos de Deus, não tema, que o cólera seja fatal." Este trecho, em português arcaico, foi recolhi- do por Câmara Cascudo e Eduardo Campos e im- presso em 1862, em Fortaleza, pelo jornal "O SOL".CAPÍTULO I Os Mestres da catimbó praticado no nordeste é bem dife- rente do candomblé, do Xangô e da Umbanda. Não possui, como os cultos acima referidos, uma hierarquia sacerdotal, ou uma iniciação. Não há também vestimentas especiais, nem instrumen- tos sagrados, a não ser o maracá, usado pelos mes- tres, exatamente como o faziam OS pajés das tribos brasileiras. O maracá é um objeto sacro, indispen- sável ao rito da "fumaça", ou melhor, à sessão letiva. Outro objeto importantíssimo é o cachimbo ou marca, usado pelos Mestres do Além para defumar e trabalhar na magia. O catimbozeiro sopra fornilho, dirigindo o fumo pelo tubo. Este traba- lho é chamado, como dissemos anteriormente, fumaça. Qualquer fumaça para o bem ou fumaça as direitas deve ser feito às segundas, quartas e sex- tas. E, para o mal, ou fumaça às esquerdas, às ter- ças, quintas e sábados. Aos domingos não é dia de pois, afirmam os catimbozeiros, é o dia de descanso dos Mestres dos Reinos Encantados. 11mestre é o chefe do sendo o ritual que comumente pratica, exatamente igual à feiti- primitiva. O catimbó nasceu no século XVI, quando veio da Europa a prática de Magia Negra, trazida pelos colonos portugueses, acostumados a um catolicismo mesclado de crendices, de restos de religiões O Santo Ofício, na Bahia, no ano de 1591, já denunciava esta prática chamando os que dela participavam de "filhos do Diabo", bruxos, feiticeiros. Em Pernambuco, mais ou menos por vol- ta de 1600, também os sacerdotes inquisidores des- cobriram os catimbozeiros em suas práticas maca- bras, em suas mesas, com chaves encantadas e ca- chimbos fumacentos. Orações fortes, preparação de amutetos, invo- cações e exorcismos são constantes no bruxedo do sertão. Estudaremos todo o poder destes magos ca- boclos, destes feiticeiros mulatos, e mostraremos a você, leitor, uma visão estranha do mundo mágico do sertanejo. As invocações chamam os Mestres do Além pa- ra "baixarem" e trazerem cura e boa sorte para os homens. Ao baixar das entidades invocadas são en- toadas as suas "linhas", ou melodias particulares e características de cada Mestre, e que revelam a sua vida terrena. Os mestres são famosos e conhecidos. Quando a medicina falha, ou o poder aquisitivo dos serta- nejos não permite que consultem médicos, lá estão 12os catimbozeiros, receitando ervas, preceitos, ben- zendo feridas, rezando e praticando a medicina po- pular e mágica, que sempre existiu e sempre exis- tirá. Mestre Carlos é um dos mais famosos. Angé- lica e Zé Pelintra também. Manicoré, Maria do Ba- laio, Maria Redonda, e outros, formam os deuses, os demos, mitos, principais. Não há uma mitolo- gia propriamente dita, uma hierarquia divina, e sim, uma mistura de e de práticas má- gicas. REIS E ESPÍRITOS FEITICEIROS Rei Herom é um soberano selvagem. É chama- do de curador. Sua característica é que procura dou- trinar os assistentes da mesa de catimbó. É católi- co, apaziguador. Cura especialmente doentes de pe- le, feridas, e se assemelha à Obaluaê, na essência de sua personalidade mítica. Deve ser um mito nas- cido pelas histórias medievais, contadas de boca em boca pelos colonos europeus. Suas lendas são como as do Rei Artur e seus cavaleiros andantes. Mestre Carlos é o rei dos mestres catimbozei- ros; é bebedor e só trabalha com sua garrafa ao la- do. É popularíssimo, estrábico e ciumento. Quan- do viveu na Terra era branco, criado em cidade po- bre. 13Bom-Florar é um mestre casamenteiro. Ajuda as moças casadoiras. É outro que gosta da cachaça, e trabalha na "mesa" sempre com a garrafa ao la- do. E muito querido pelos sertanejos. Mestre Xaramundi. Curador, raizeiro, procura descobrir a doença e derrubá-la com ervas escolhi- das, e fumaça de cachimbo. Anabar. É uma do Rio Negro. Ajuda em casos amorosos e em problemas de família. Iracema. Cabocla, rainha da Tanema. É bela, morena e vivia nas tribos brasileiras. É muito ama- da pela gente da "fumaça" às direitas. Este é um pajé velho, amazônico e raizeiro famoso. Entre os catimbozeiros afirma-se que cura quase todas as doenças. Suas receitas va- mos dar em outro capítulo. Mestre Pequeno. Este é característico do catim- bó de Pernambuco. É curandeiro também. Possui rezas fortes e faz amuletos poderosos. Mestre Manoel Cadete. Rei do Vajucá. Tem to- da uma corte de mestres a seguí-lo. Possui dons be- néficos e curadores. Mestra Angélica. É especialista em doenças fe- mininas, parteira e protetora das mulheres casa- das. Muito querida entre as rezadeiras, que a invo- cam freqüentemente. Manicoré. Típico pajé amazônico, curador, só é chamado para tratar de feridas brabas, doenças 1difíceis. um dos mais antigos mestres do catim- bó. É amado e respeitado. Mestre Indígena, pajé, apresenta todas as características do indígena brasileiro. O próprio nome indica a origem indígena, pois é o no- me de um dos maiores deuses da mitologia tupi. Mestre Pajé amazônico, guerreiro, ven- cedor de batalhas mágicas. Trata de casos desespe- rados, complicados. Tabatinga. É o rei dos feiticeiros. Indígena, su- mamente perverso. Só é chamado para trabalhos para o mal. Usa arco e flecha para matar, aprisio- nar e quando chega na sessão apaga todas as velas. No escuro, a incorporação deste feiticeiro é impres- sionante. Lembra as bruxarias antigas, as festas de magia negra medievais. Vivendo isolado, na tre- va, Tabatinga ao chegar na mesa dá logo o grito de posse da sessão. Tabatinga só tem um compa- nheiro, chamado José Pereira, que não tem linha e chegando no catimbó grita ofensas contra Deus. Quando vivo, José Pereira matou pai, matou mãe, matou madrinha, padrinho, mulher e cinco filhos. É um espírito trevoso, mau e só faz "fumaça às esquerdas". Temido nos que, quando sentem que ele pode se aproximar, botam trave, is- to é, fazem rezas de empecilho, para não deixá-lo incorporar.Principe da Jurema. Feiticeiro seriissimo, ama- do pelo povo, coroado nas matas e bené- fico, carinhoso, mas imponente. Pai Joaquim. Preto velho, dizem que veio da que, quando chega nas sessões, vem dançan- do alegremente. Trabalha com agulha nos olhos de morcego. É verdadeiramente um bru- XO negro. Pajé, mora no Rio Verde. Vive dentro dágua. É um espírito das águas, qual ninfas e ne- reidas ou netunos. combatedor de feitiço. Suas orações são para quebrar mironga, aliviar contra males nascidos da Magia e da É dos mais antigos pajés do é querido pela gente do sertão e sempre invocado às segun- das, quartas e sextas. Zinho. Feiticeiro, só com cachimbos (marcas) enormes. Tanto trabalha para a direita como para a esquerda. Quando zangado usa um punhal, chamado SATANAS, e faz magia negra e diabólica. Gosta de atrair os espíritos de ciganos ruins para fazer ou para saber o Mas não é muito temido, pois amolece com facili- dade, dizem catimbozeiros. Outros mestres famosos são Luis dos Montes, Antônio Tirano, Malunguinho, Inácio de Oliveira, Faustina, famosa protetora das moças virgens, aclamada pelas donzelas quando sentem o peri- go por perto. Ainda temos João Pinavaruçu, e 16As Meninas da Saia Verde, semelhantes aos erês do candomblé e das caboclinhas da Umbanda. Um dos feiticeiros mais aclamados pelos va- queiros, quando perdem novilhos, ou dos marginais, quando fogem da polícia, é Tanguri-Pará, mestre caboclo do Rio Madeira. AS ALDEIAS NO ALÉM Os mestres do espaço habitam reinados no in- finito. Doze aldeias fazem um reinado e cada aldeia tem três mestres. Neles, nos reinados infindos, há cidades douradas, florestas verdes e iluminadas, serras cor de prata, onde cantam as jandaias, rios e casas. Os reinados são: Vajucá, Tigre, Canindé, Urubá, Juremal (concepção semelhante a Jurema ou Macaía, da Umbanda), Fundo do Mar (como o dos candomblés) e Josafá (influência bíbli- ca). Alguns chamam o reinado do Fundo do Mar por TANEMA, onde Iracema é a rainha e senhora. Os mais maravilhosos são o do Juremal e Vajucá. A população destes reinados é imprevisível. Caiporas e Sacis moram no Jurema; Iaras, ondinas, Nanã Gie, ninfas caboclas, santas, como Madalena, mo- ram no Fundo do Mar. Feiticeiros e bruxos habi tam Canindé. Tigre é morada de raizeiros e peri- gosos mestres. Os mestres vivos têm poderes intermináveis, maviosos, mas há uma maneira de perdê-los ou 17de diminuir estes poderes. É a seguinte: se mes- tres praticam sempre o mal, ou são pederastas, ou ladrões, vão se tornando sem as forças espirituais. Os outros catimbozeiros perdem as forças pela mes- ma razão, afirma o povo sertanejo. Todos os ca- timbozeiros têm uma característica: usam uma se- mente por baixo da pele, espécie de quisto roxo, que marca todos os feiticeiros do sertão. É a pedra fetal dos bruxos portugueses. Impressiona esta mar- ca roxa. Hoje há alguns catimbós que possuem al- guns personagens sem este toque mágico, mas, para a maioria, esta marca é imprescindível. A possessão pelos mestres das aldeias do espa- bem simples. Não há um aparato, como nos candomblés e na Umbanda. E para que o espírito vá embora, parta para o seu mundo no espaço, no Juremá ou no fundo do mar, basta que um mestre chegue perto do possuído e diga, batendo na sua testa: TRUFÁ RIA. Ou então: TRUNFEI! TRUN- No mundo fantástico dos em meio à fumaça dos cachimbos, ao fanatismo, às bebidas fortes, há um filão de esperança, uma ansiosa es- pera de melhoria, tanto de saúde, como de bom agouro. E é esta esperança, este sonho, que faz com que o catimbó não se extinga, não desapareça en- tre os moradores das casas de sopapo, nos casebres de sapé. 18CAPÍTULO II Cauim, a Bebida dos Guerreiros Estamos num catimbó no meio do mato. Um a um os mestres vivos surgem para "abrir mesa", is- to é, fazer uma sessão com os espíritos do além. termo "abrir mesa" é bem conhecido pelos candom- blecistas e é oriundo das reuniões antigas, entre os colonos portugueses, em suas terras de origem, Nas aldeias de Portugal, onde os costumes mouros e as reminiscências pagãs formavam o catolicismo po- pular, era comum "abrir mesa" para invocar falan- ges do mundo dos mortos. Na ocasião, botavam-se cartas, lia-se pelas linhas da mão, rezava-se para conseguir a fortuna. Como o nasceu da transposição da bru- xaria européia para o Brasil, logicamente o termo "abrir mesa" foi instintivamente conservado. Mas, continuemos: É noite. Os catimbozeiros, vagarosamente, pe- netram no local onde há a mesa destinada à magia. Esta já está preparada: há a princesa (bacia de louça) ; duas velas de cera (chamadas de bugias), 19às vezes uma vela negra, para fumaça às esquerdas ou trabalhos de magia negra, e uma imagem de Santo Antônio, o santo mais aceito pelos magos brasileiros. Esta imagem fica dentro da bacia bran- ca. Também aparecem em primeiro plano, aliás, as marcas ou cachimbos de cabo longo e a marca-mes- tra que é uma cabacinha chocalhante. Há também um crucificado sem a cruz, uma chave de aço, vir- gem de uso, para as imantações. A chave de aço é usada para abrir as fechá-las e fechar o corpo contra feitiços. Os perfumes das ervas misturados ao fumo dos cachimbos enchem a sala de vibrações. Os mestres começam a baixar, um a um, "acostando" em seus médiuns. As "bugias" são acesas. Não é permitido acen- der a vela diretamente e sim através de pedacinhos de papéis que se colocam na mesa, para esse fim. Os cigarros (como os de ZÉ PELINTRA) também se acendem desta maneira. As cuias de cauim passam de mão em mão. Um a um os catimbozeiros vão se encharcando de cauim cachaça e ficam em estado ideal às práticas de feitiçaria. O cauim é a força para abrir corpo e deixar o mestre entrar. 20DA BEBIDA DIABÓLICA O nome cauim é de origem indígena. Era a be- bida dos pajés. Cada gole de cauim, ou melhor, de cachaça brava com e frutos cheirosos é um passo que o feiticeiro dá para o além. A cada gole a embriaguez toma conta do catimbozeiro e ele en- tra num estado perfeito a macabras incorporações, a prodigiosas loucuras. A bebida e as drogas feitas de ervas, quer usa- das em forma de fumo, ou misturadas no álcool, são comuns a todas as formas de bruxaria e tam- bém a muitas seitas tradicionais. As cuias limpas, com a cachaça misturada a ervas aromáticas, são a bebida dos deuses e demos do sertão mágico, são como néctar dos gregos ou o vinho dos hebreus. Cauim é vida, calor, fortuna, disse-me um mestre e afirmou: beba, dona moça. Esta é a poderosa infusão mestres. O charuto ou MUSSUI também não é de fumo comum. Leva erva para fortificar a sessão. E esta erva, nada mais é do que uma droga poderosa, uma forma de entrar em transe forcado. Um alucinógeno. A embriaguez toma conta dos chefes ou mes- tres e dos auxiliares, espécies de médiuns secundá- rios. Os mestres vão baixando e os espíritos da ca- atinga, os rezadores que já aprenderam lá nos rei- nados a curar feridas e preparar remédios vão en- costando e tomando a magia impossível de resis- 21tir. Vi quando os mestres enfiavam agulhas em sa- pos, amarravam morcegos. Maria do Balaio, beben- do sem parar garrafadas e cauim, rezava espinhe- la e moleza, até a meia-noite. Zé Pelintra, Zé Ma- landro, Cabocla Jurema e Maria Redonda bebiam também. Charutos e cachimbos na boca, elas balhavam na magia pesada e puxavam rezas an- tigas, geralmente incompreensíveis. uma espécie de velha mãe d'água, incorporou, também, num homem mulato, em per- feito estado de embriaguez, mas que ficou firme nas pernas na hora da incorporação. Zé Pelintra só che- ga pra beber, sem cauim ele não vem. Chega sem- pre dançando, dando rasteiras. Malunguinho, feiticeiro malévolo, chegou à meia-noite em ponto. Trabalhou com a cabeça no chão, com panos pretos. Tomou duas garrafas de cauim de uma vez. Ele só trabalha para mal e seu feitiço, afirmam, ninguém desmancha. Pai Joaquim, espírito de negro velho, trabalha também bebendo sua cachaça. É um bruxo autên- tico, que retorna de seu mundo estranho e sem luz, para as mesas do catimbó. Ele trabalha com mor- cegos e bichos Faz a ORAÇÃO DA CABRA PRETA. Esta oração feita à mera-noite., dizem, pode atrair o demo. (*) (*) Vide esta oração no livro SÃO CIPRIANO CAPA PRETA, da Editora Eco. 22Outro beberrão é TABATINGA, rei dos ritos feiticeiros. Este bruxo, que possui milhares de súditos em seu reinado de trevas, bebe sem parar. Só trabalhando no escuro, para ele são apagadas as bugias, ele faz odiosas provocações. Adora as tre- vas, não aceita o bem. Não gosta que peçam da bom. Mas, um dos maiores bebedores de cauim é ZI- NHO, feiticeiro que em vida era mestre de catimbó, e agora, depois de morto, baixa em espírito (dizem os crentes) nas fumaças. Ora faz o mal, ora faz o bem, como exus da Umbanda. Dá e tira, mas só trabalha com cauim ao lado. Vira cuias e cuias uma atrás da outra. POSSUI A FAMOSA CHAVE DE QUE ABRE TODOS PORTÕES EN- CANTADOS DO ESPAÇO. Esta chave é mágica, co- mo as varinhas das bruxas, o círculo mágico dos al- quimistas negros e dos diabólicos feiticeiros. Zinho chefia a linha dos ciganos, ou espíritos que conhecem a maneira de prever o futuro. Ele é aclamado quando baixa nos médiuns sertanejos. A assistência fica muda de espanto quando, usando sua chave mágica, começa a abrir portões dos reinados do espaço. E, um a um, chegam na sessão espíritos de gitanos, de cartomantes e quiromantes mentirosas, trazidos pela passagem mágica, que há entre um mundo material e outro alegórico, os dos reinados astrais. 23cauim vira a mesa. Em breve ninguém se en- tende mais. Até brigas corporais entre mestres eu assisti. Os espíritos que chegaram foram inimigos em vida e luntaram corporalmente, até sangrarem corpos de seus médiuns. Frutos da bebedeira e da alucinação? Ou fases degradantes do mediunis- mo sem doutrina? Zinho, com seu punhal chamado Satanás, já cortou muita gente em vida e continua cortando, materializado nas fumaças às esquerdas ERVAS DE SATA Muitas ervas e raízes usadas pelos mestres e adeptos dos catimbós são produtoras de alucinações. E, ao usá-las, o iniciado perde a sensação de tem- po, e entra em viagens. As cores, para eles, tornam- se brilhantes, os ruídos são modificados, a música provoca visões coloridas, pequenos e distantes sons tornam-se perfeitamente audíveis, as partes do pró- prio corpo não parecem pertencer ao experimen- tador, mas a outrem. Um detalhe na coloração da pele, ou uma sim- ples dobra na roupa, pode provocar a concentração exagerada e longa, e, neste instante, os assistentes imaginam que os mestres vagueiam pelos campos do Juremal ou pelas cidades submersas da Ta- nema. 24Cogumelos também fazem parte dos secretos conhecimentos dos E, como todos sabem, cogumelos são alucinógenos, em quase sua totali- dade. OS COGUMELOS SAGRADOS aparecem em todas as religiões antigas, mesmo os primeiros cris- tãos não deixaram de ser influenciados por como afirma J. Alegro, baseado nos manuscritos do Mar Morto. Gordon Wasson, grande especialista em cogu- melos perigosos, fez uso do peiote, cacto que pro- duz a mescalina, e provou que os índios da região mexicana usavam-no em todos os ritos secretos. Nossos índios também conheciam o poder dos cactos. Os pajés usavam cogumelos nas práticas invocatórias e entravam em transe mediúnico, con- versavam com as estrelas, com a lua, a amada Jaci. E, logicamente, como os nordestinos fundi- ram conhecimentos europeus com indígenas nos ritos da "fumaça" e das "marcas", aí estão nova- mente os mestres entrando em transe, viajando pelas regiões nebulosas da mente humana. Os adoradores dos cogumelos, com suas rezas, lá estão entre os iniciados na magia do sertão. Maria Rosália, rezadeira, usava um tipo de cacto para tirar a dor de todos os que a procuravam sentindo dores violentas. O que era este cacto se não uma planta dos bruxos, uma droga poderosa? 25Dentre catimbeiros que usavam ervas e cac- tos antes do ritual conversei com Mestre Paulo de Juazeiro que descreveu sua sensação de "viagem": Uma torrente de fogo subiu pela minha garganta. Invadiu minha cabeça. Senti-me enve- nenado, morrendo. E me vi no purgatório. Vi o demo, o tinhoso, me espetando, de longe, e chamei por Mestre Carlos." Logo, estas declarações só vêm provar a teo- ria mencionada. A mente deste iniciado estava ex- citada pelo poder da droga, e o mestre do sertão foi ao próprio purgatório.. A tradição popular não mente quando chama estas ervas de erva dos feiticeiros, pois todas as plantas que gozam de propriedades venenosas ou narcóticas receberam este nome através dos tem- pos. Plínio nos conservou o nome de um grande número destas ervas, indicadas em receitas absur- das, das quais ele próprio mostrou freqüentemen- te a sua importância e seu perigo. Essas compo- sições mágicas da Idade Antiga eram, ora estupe- facientes, ora ungüentos gozando de propriedades narcóticas. Hesuchius, grande historiador, nos en- sina que os antigos evocavam às vezes HÉCATE, com a ajuda de ervas e pomadas que provocavam alucinações, e OS iniciados acreditavam ver a deusa da noite. As tribos selvagens da América faziam uso de beberragens e a fim de obte- 26rem visões e profecias, de descobrirem objetos per- didos, e de entrarem em comunicação com os es- píritos. Os negros recorriam à sua água de fetiche. Os usavam o haxixe e ainda o fazem, continuadamente. haxixe, afirmam os adorado- res de Alá, provoca visões divinas principalmente as do patamar do céu. No Egito, os sacerdotes de Amon usavam drogas para modificar a inteligên- cia e entrar em transe mediúnico. Algumas destas ervas eram para fazer cantar, outras para previ- são, outras para dançar a dança de SETH ou de ANUBIS e em todo o Oriente usavam-se, mesmo en- tre os budistas, unções para provocar semelhantes visões fantásticas. Dentre as substâncias usadas para provocar delírio e contacto com os deuses, conhecemos: a datura estramônia, o acônito, o heléboro, a bela- dona (muito usada nos a mandrágora, a papoula, o ópio, o piripiri. (*) Assim, mesmo errando, estes feiticeiros do ser- tão repetem as mesmas experiências de todos os sacerdotes antigos, medievais e até dos gurus mo- dernos. Ver a obra "A cura pelas plantas", de A. G. Fossat. 27CAPÍTULO III Som que Chama os Espiritos O maracá, instrumento de som usado pelos pajés brasileiros, é a arma dos Mestres da Jurema, para chamarem os espíritos à sessão de fumaça. O maracá é por demais conhecido também no toré, na pajelança, e em vários ritos populares e sertanejos brasileiros. O maracá é mbaracá dos guaranis. Os mes- tres balançam os maracás chamando os caboclos. O som dos sinos, sinetas e campanas é usado desde a Idade Média, pois acreditam os crentes que este som pode fazer o mal afastar-se. Por isso perma- nece o uso dos maracás nos cerimoniais religiosos. Ao som dos maracás são entoadas as cantigas para chamar os espíritos. Mestre Malunguinho é invocado desta forma: Malunguinho, ó Malunguinho Caboclo índio real Com as forças de seu maracá 29E do nosso Pai Celestial Abre as portas que eu te mando Sete pedras imperiais Com a força de Nosso Pai Celestial E imediatamente reza-se, pedindo a este espí- rito catimbeiro para abrir as portas dos reinos do Além. ORAÇÃO A MALUNGUINHO Malunguinho, tu que és o dono da chave que abre caminhos, os portais do Reino, eu te peço, abra meus caminhos, ajuda-me a caminhar e eu te darei uma vela de cera, pedindo a Deus que o ajude também em sua caminhada. O maracá soa, com toda a sua poderosa força mágica, no instante em que é feita esta invocação. Malunguinho é uma espécie de sacristão desta missa mágico-folclórica realizada nas caatingas. E os caboclos os donos da terra, lá estão saravando e invocando os seus antigos deuses da lua, do sol e das matas. Outros sons, dolentes, que fazem um apelo à mente coletiva da gente do sertão, são assim: 30MESTRE CARLOS, MAIS AMADO DOS MESTRES Vinde, vinde, vinde, flor da noite Reluzindo por todas as mesas Rei, rei, rei Mestre Carlos, vem trabalhar Meia hora de relógio Licença me queiram dar! Mestre Carlos é bom mestre Que aprendeu sem se ensinar, Três dias levou caído Na raiz do juremá, Quando ele se levantou, Foi pronto pra trabalhar Trunfando na mesa escura, Na sua mesa real. Mestre Carlos fuma "marcas" grandes, cheias de fumo picado misturado a alfazema e resinas cheirosas. Trabalha geralmente para o bem. Não se mistura com catimbozeiros perigosos, malvados. Reza espinhela caída, terçol, amarelidão, receita carne de onça, saião e agrião. 31CAIPORA vem do mato, Trazendo os filhotes perdidos Igual a estes filhotes Eu quero ser recolhido Ora viva quem vem de dentro do mato Para flechar e ajudar a gente do mato Esta cantiga é para Caipora, tapuinha traves- sa, pequena, acreditam que só tenha o tamanho de um dedo. Quando chega nas sessões, vem pulando, dando cambalhotas, trepando e virando com as per- nas para cima. É flechadora. A origem deste mito é logicamente a indígena. Caipora nasceu das estórias aborígenas, contadas em volta das fogueiras. Para conhecer este mito ve- ja o livro "AS SETE GIRAS DE EXU", de Maria Helena Farelli, onde há toda a mitologia africana, indígena e as crenças católicas dos colonos portu- gueses. MESTRA FLOR flor, flor flor da juremá Eu sou a Mestre Flor Que os meus irmãos venho salvar 32Espírito feminino. É casamenteira. Quem de- sejar que ela ajude em um caso amoroso entrega lhe uma flor, e Mestra Flor benze a rosa e lha resti- tui. O dono ou dona da flor manda entregar à pes- soa amada, e basta que esta pessoa em questão cheire a rosa (dizem os crentes) e imediatamente fique apaixonada. O modo de preparação e a reza para este FIL- TRO DE AMOR, recolhido na Paraíba, é o seguinte: "Primeiro, invoca-se Mestra Flor. Mesmo que não se esteja numa sessão de pode-se fa- zer a invocação. E depois se diz o seguinte: EU, ATRAVÉS DA FORÇA DO AMOR E DE MESTRA FLOR, VOU DAR A ESTA ROSA TODA A VIBRA- ÇÃO DE AMOR QUE SINTO POR FULANO (OU FULANA) E AO ME VER, DEPOIS DE EU MAN- DAR ENTREGAR ESTA RODA, FULANO (OU FU- LANA) FICARÁ PERDIDO DE AMOR POR MIM." Esta invocação foi receita ou encantamento feito por uma catimbozeira, para uma jovem que vinha de longe, para pedir ajuda para seu caso de amor. E, bebendo Jurema (cachaça com mel e ervas) a chefe do catimbó procedeu da maneira acima descrita. Realmente é cheio de encantamento, crendices, mundo dos E, secretamente, desde seu 33surgimento, no século XVI, o a mesa da Ju- rema, continua a espalhar seu poder mágico, en- tre os nordestinos e sertanistas. O som dos a música de são interessantes e já foram alvo de estudos por Luís da Câmara Cascudo, Mário de Andrade e outros pesquisadores brasileiros. O efeito dessas melodias lerdas ou desses ritmos batidos violentamente não é religioso ou mágico. Mas, não é também fisioló- gico, dinamogênico exclusivamente, Este som DEI- XA A CRIATURA NUMA ESPÉCIE DE DISPONI- BILIDADE Isso é o essencial, o princípio da função-mágica da música. A música, neste caso, age como um estupefaciente. Violenta o ser fisi- co, tirando-o de sua normalidade e por isso deixa-o numa verdadeira disponibilidade moral. Com o som repetitivo, o indivíduo, não apenas perde grande parte de sua individualidade, daqui- lo que ele exclusivamente, e só ele, como volta forma primária dos seres humanos a que Lé- vy Bhuhl caracterizou chamando de "mentalidade primitiva". Assim, ele deixa de lado grande parte da sua faculdade de reação intelectual. A música torna-o maleável, dominável. Com o som lerdo, batido, outras vezes violento, indivíduo não reage, não recolhe os fatos que es- tão se passando para compará-los. 34É assim facilmente manejado, orientado pelo líder (o dono do maracá, o mestre). Estando dispo- nível, volteia, dança, como um bêbado que pratica ações sem saber o porquê. Aí está a importância psíquica das melodias, do fumo em excesso, dos incensos, das ervas, dos erós do candomblé, das abluções mágicas da feiti- No momento em que o ser físico está neste es- tado de disponibilidade moral.é que começa o traba- lho do mestre, do pajé, do pai-de-santo. Magicamente o mestre manobra a assistência, outros médiuns da sessão, conduzindo-os com o poder de seu maracá, de suas ladainhas caboclas, de seus linhos. maracá e sua música na feitiçaria são tão im- portantes que sem eles não haveria sessão, não se alimentaria a mesa da Jurema, não viriam do Além Carlos, Severinos, Marias do Balaio, e Zés Pelintra CANTIGA DE ZÉ PELINTRA Zé, quando for para a lagoa Toma cuidado com o balanço da canoa Zé, faça tudo o que quiser Mas não maltrate o coração desta mulher 35Esta cantiga já penetrou na Umbanda, nas gi- ras dos Compadres. É alegre, contagiante, um sam- rasgado, que faz com que todos cantem e dan- cem também. Cantigas como esta fazem a alegria das ses- e são o incentivo para que o catimbó continue a existir. 36CAPÍTULO IV A Medicina do Sertão O pajé fumava charutos de tauari e defumava os homens da tribo. Com seu maracá, temível e procurado, penetrava os ouvidos dos clientes, cha- mava as iaras e as Esses dois objetos eram a base da medicina mágica das tribos brasileiras. Mas, o mestre ou chefe do catimbó usa, principal- mente, a erva para curar. Com as ervas, as raízes e os frutos, o mestre enfrenta a morte, a doença crônica. A picada de inseto, a queimadura de garta de fogo, a ferroada da arraia, a mordida da serpente, encontram imediatas soluções nas reza- delas e curas dos invocadores dos chefes dos Reinos no Além. O mestre conhece filtros invisíveis, ingre- dientes botânicos, berundangas. Imuniza qualquer sujeito de dentada de jararaca, de cascavel, de su- rucucu, de coral. Trata de ferida com folha de aninga, reumatismo com a folha de rins com folha da sacaca, belida com a cinza de jarama- caru, beriberi com a raiz da muirapuama, gangre- na com o talo de aningapara, dor de olhos com a raiz do dor ciática com o sumo do mururé. 37peito dcente cura com o leite de anani, luxação com a pasta da macacacipó, inflamação com a en- trecasca da sucuba, obstrução com o leite de ucu- uba, tuberculose com a raiz do tajá-membéca, dor de ouvido com o trevo roxo dissolvido em leite de peito, congestão com a raiz da abutua, icterícia pre- ta com a casca do cajueiro, hérnia com o miolo de cuia, sezão com a raiz moléstia de mulher com a folha de jauaraissica. E, neste mundo de er- vas, de raízes que só ele conhece, está a medicina mais querida pelos nordestinos, que fogem do mé- dico, e preferem a proximidade da reza, da erva se- creta e certeira da benzedura. REZA PARA INVOCAR A FORÇA DAS ERVAS, DAS RAÍZES E DOS FRUTOS mãe natureza, verdadeira mãe do homem, tu que produzes todo o verde da Terra, que alimen- tas os animais, desde o menor ser, até o rei dos ani- mais, tu que fazes jorrar as cachoeiras, correr os rios, matizar-se o ar com o perfume dos frutos, tu que és forte e deves ser respeitada, eu a ti peço, dá- me a erva certa para curar enfermidades, dá-me o poder de usar as folhas certas e de fazer bem e acurar os enfermos." Oração colhida em Crato, de um raizeiro bem falante, que era também farma- cêutico e rezador. 38de Máscara Waurá, para festa do peixe Máscara Waurá, para a festa do peixe entre os índios. Enfeitava um catimbó, em Juazeiro do Norte. Ela encarna o poder sobrenatural. Era o meio usado pelo índio para aproximar-se das forças di- vinas. 38CURANDEIROS, REZADORES E RAIZEIROS Há três diferentes "doutores" do povo: curan- deiro, raizeiro e rezador. O curandeiro é o mais co- mum, pois ele é o verdadeiro feiticeiro da gente do sertão. Com suas receitas da flora, suas garrafa- das, o curandeiro assemelha-se aos bruxos antigos. curandeiro emprega de preferência garrafa- das cujo veículo principal é o álcool, por ser forte para dar alento enganatório ao enfermo, no mo- mento de sua ingestão. Esse tipo de garrafada mui- tas vezes lança o doente numa prostração muito séria. Receita também meizinhas compostas de raí- zes e outras plantas medicinais, empregadas em muitos casos com êxito. O curandeiro geralmente afirma ter o corpo fe- chado, desde criança, ou simplesmente se anuncia curado de cobra, sabendo receitas e orações que fa- vorecem a terceiros idênticas imunidades. mes- tre curandeiro Zezito do Açaí afirmou que curava tudo, mesmo as doenças mais difíceis, como mordi- da de cobra, doenças de mulher e tísica. Realmen- te não se pode comprovar esta afirmação. O rezador é outro tipo deste mundo de crendi- ces e medos. Ele destaca-se do curandeiro pelo po- der de suas orações. É servido por uma poderosa força de sugestão favorecida pela situação de fra- queza física do enfermo, e pelo respeito que sa- be infundir. Torna-se famoso pelas orações e prá- 40ticas mágicas com que trata as enfermidades que acometem os animais sendo capaz de "curar pelo rastro" uma rês que tenha desaparecido do curral, perdida na caatinga imensa. Ele emprega de prefe- rência neste caso a oração do VAQUEIRO SILEN- CIOSO. ORAÇÃO PARA ENCONTRAR COISAS OU BICHOS PERDIDOS Esta é a reza do Vaqueiro silencioso ou mis- É feita ao meio-dia, na hora do sol forte, que "clareia tudo que é perdido". A reza é a seguin- te: "O poderoso vaqueiro das caatingas, das pra- darias sem fim. Eu te peço, que, junto com as al- mas boas dos boiadeiros, me encontre (fata-se o que foi perdido) imediatamente, pois eu tenho mui- ta precisão de encontrar novamente este objeto ou este animal." Reza-se a seguir três Salve-Rainhas. E acende-se uma vela para as almas dos vaqueiros. O sertanejo crédulo conta como os bichos lar- gam a bicheira dos animais caindo mortos ao chão após a reza do Mestre rezador do catimbó e conta como encontrou uma rês perdida após esta oração. O raizeiro, apesar de estar mais próximo do curandeiro, difere deste. É bastante curioso dos as- suntos da nossa farmacopéia, considerando os remédios chamados "da natureza", ou "do mato", melhores do que os dos médicos verdadeiros, os de 41laboratórios. Muitas vezes o raizeiro confunde-se com o curandeiro, e na pessoa do mestre ou chefe do as duas personalidades fundem-se nu- ma só. chefe da mesa da Jurema é sempre nhecedor de raízes e ervas e mais adiante, nesta obra, vamos dar toda a relação das ervas, frutos e rezas usados pelos chefes das sessões de mesa ou fumaças às direitas. O raizeiro vende defumadores, cestas de cipó, cachimbos, cordas, esteiras, cascas de árvore, fo- lhas secas. Dentre as ervas raízes as mais co- muns são: patchuli, mutamba, jurema, sete-san- grias, jurema-branca, jurubeba, manjerona, ve- lame. GARRAFADAS FAMOSAS Garrafada para curar tosse brava (colhida no sertão da Paraíba): Jurubeba (quatro dedos da raiz que se crienta para o nascente) ; manjerioba (as sementes da va- gem mais alta do pé) ; mangueira (sete folhas me- nores, cortadas ao meio e pisadas na ; ve- lame (raspa da raiz) égua screnada (o bastante para encher uma garrafa de meio-litro); aguar- dente (um caneco) ; cheiro de limão (suco da cas- ca) e mel queimado. 42Junta-se tudo numa garrafa de litro que deve ficar bem arrolhada. Encosta-se a garrafa de bo- ca virada para baixo, num canto da sala, e deve- se deixar lá por quatro dias seguidos. No quinto dia está pronta para beber. E deve ser tomada pela manhã, em jejum, duas colheres. Disse Mestra Voluntária que é "tiro e queda" para a tosse forte e gripe renitente. Esta garrafada é famosa e receitada por de- zenas de mestres catimbozeiros. Siá Aninha, de Juazeiro do Norte, falecida há alguns anos, já em idade avançada, bebia várias garrafas de jurema e usava pendurado ao pescoço um rosário, onde amarrava vários raminhos de arruda. Beijava sempre a cruz quando ventava forte ou os pagos cortavam céu. Em pagamento pela tra- balheira na mesa da Jurema pedia uma criação (cabra de preferência) e cereais. Raramente re- cebia dinheiro pelas rezas ou defumações. Quan- do incorporava Maria Redonda, preta-velha, colo- cava ao pescoço um longo rosário de capim-santo. Tinha fama de bruxa ou feiticeira e não era mui- to querida. Apesar disso, todos a procuravam em horas de perigo ou doença. Dona Chiquinha (Fortaleza) vivia até poucos anos atrás. Mestra famosa, rezadeira, curava feri- das e mil e uma doenças, sabendo de cor rezas for- tes e Sua oração principal registro, para que os leitores a analisem: 43ORAÇÃO FORTE CONTRA MAU-OLHADO "_ Com Deus eu te tiro, mau-olhado grosso, com Santa Bárbara eu te afasto gente ruim, que quer me destruir. Eu peço ao meu anjo de guarda que afaste de mim a má fama, as doenças ruins e os olhos graúdos de bicho ou gente." Assim, leitores, vemos que curandeiro, a re- zadeira, o mestre das fumaças, existem e são or- ganismos vivos, forças latentes entre a vida e morte das populações rurícolas do E, mesmo com o desenvolvimento atual da região, não desapareceram, pois o povo não se adaptou ainda à moderna medicina. O catimbozeiro, o curandeiro, existem, e quase sempre, necessariamente, como ajuda e solução. 44CAPÍTULO V Os Ritos Dos Curandeiros As paredes da pequena casa na beirada do rio estavam cheias de objetos estranhos um couro de crocodilo, um bonecos de barro, figas de madeira, uma imagem de Padre Romão, um enorme cocar e muitas outras coisas que da- a impressão de que naquele local seria realiza- do um ritual fantástico e primitivo. Mulheres e crianças estavam sentadas pelo chão silenciosas, enquanto os homens, do lado de fora, fumavam e conversavam discretamente. De repente, todos levantaram-se e cobriram, com reverência, os olhos. Pai Pajé chegava e iria iniciar seu diálogo com os reis do Além para aju- dar seus fiéis. Aqui, neste rito proibido do só o che- fe, o feiticeiro, pode incorporar. Não é como na Um- banda que todos os médiuns "trabalham". mestre aqui é chamado de PAI É um ti- po meio curandeiro, meio adivinho e meio maca- bro. Exerce com doce e mística tirania a sua influ- 45ência sobre os demais. Ele é um lider, um rei, em seu mundo. dos espíritos do fundo do mar, dos rios, das matas, ele ouve as vozes dos animais, os pios agourentos da noite, e explica a cada par- ticipante o que eles querem saber. Seu fascínio é Vestido com alpercatas de couro, calças de saco desbotadas, um rosário de contas pretas pendurado ao pescoço, e raízes secas amarradas num cordão à cintura, ele, realmente impressiona. Trabalho com couro de jacaré, pele de onças, unhas de defunto, terra de cemitério. Qual o seu poder real? Qual o seu que, inabalá- vel, atravessa gerações? AS ALDEIAS DOS BRUXOS MAIS PERIGOSOS Pai Pajé "trabalha" com mestres da aldeia maior do REINADO DE TIGRE. Lá só moram espíritos perigosíssimos, brabos seres negros, dota- dos de forças negativas. E os que se entregam a estes espíritos maus têm que fazer na pele um quisto roxo, como a pedra fetal dos magos medie- Tragando seu charuto de ervas mal cheirosas, Pai Pajé chama por TARUATA, que só trabalha com cobras. Este flechador FURA O OLHO DA COBRA, para atingir a pessoa que se quer matar ou ferir. Chega a COMER PEDAÇOS DE COBRA 46CRUA, BEBENDO SEU CAUIM. Em vida, afirma Pai Pajé, foi discípulo de Antônio Tirano, sangui- nário e matador de crianças. Já não é chamado, pois derruba a própria mesa dos "trabalhos". Antônio Caboclinho é feiticeiro do Reinado do Juremal. É pagão, só trabalha em confusão. É guia também de Pai Pajé. Por isso, por seu caráter bri- gão, só vem para causas de dinheiro enrolado, e para fazer alguma com os que estão pre- sentes. Se bate com vários espíritos, já brigou com o Príncipe da Jurema, com a Tapuia, com a Cai- pora, com Mestre Carlos. Às vezes, chega a vir tão enraivecido que joga facas afiadas em direção aos participantes. Mas, para abrir a mesa, Pai Pajé invoca a for- ça de e de Rei Herom. A seguir, mandou que seu ajudante entrasse. Um velhinho bem vestido, mas de alpercatas de couro, com um chapéu de vaqueiro à cabeça, pediu licença e foi até ao meio da sala: Sou Chiquinho de Santana, meu mestre foi Manoel, afamado curador. Minhas orações são rezas fortes e antigas. Satanás não pode comigo, porque estou protegido pela força de Manoel Re- zador de Santa Vamos ter fé, que hoje va- mos curar a todos. Todos sairão daqui felizes e sa- dios, na fé de Padim." 47AS LINHAS E AS REZAS PARA FECHAR O CORPO Pai Pajé afirma que com suas rezas pode evi- tar toda a sorte de desgraças, livrar o indivíduo de facada, de tiro, de intrigas, da prisão, fechando-lhe corpo. Ter o corpo fechado é coisa desejada pelos desordeiros, que, quando isso julgam obter, fazem em torno disto grande divulgação. Assim, a cren- dice cresce em torno do mestre que sabe fechar o corpo. Assim, Pajé começou a sessão da mesa das "MARCAS" fazendo um trabalho de fechar o cor- po de um mulato forte que era o primeiro da fila e aguardava ser chamado para os trabalhos. E a invocação que foi feita pelo feiticeiro foi a seguinte: - Salvai a Santa Helena Na hora do meio-dia. Chegou Senhor Meu Jesus Cristo e per- guntou: Helena, aonde vais? Seguir os passos dos nossos inimigos? Eu you seguir os passos dos meus inimi- gos. Para Jesus e além Que armas levas contigo para guerrear? Santíssimo Coração e a Virgem Maria As cinco chagas de Cristo, Sua Paixão e Morte E assim venço a todos os inimigos 48E, com um pouco de ervas cheirosas, o mestre cruzou o corpo, agora fechado do cliente Outra oração comum para fechar o corpo é a de São Jorge. Mas, realmente, qual o seu valor má- gico? Ninguém o pode responder totalmente! E, a seguir, cantando a linha de Tupã, foi cha- mado consulente. TUPA, LINHA MAIOR Tupã, Que sublime santo pajé Que no mundo mostras O Mestre que és! leva, atende, ó A sua fama, ererê leva, atende, ó Mostra o Guaraci quem és. Os assistentes respondem: CARUARA Nesta mata tem flores Tem os olhos de Nossa. Senhora Tem os pés de São Benedito São Benedito que nos valha nesta hora 49O ajudante respondeu: TABATINGA Tabatinga foi para a mata, Ele foi fazer um feitiço, Tabatinga olha lá, Tabatinga cuide disso! Com toda a força da sugestão coletiva, a assis- tência estava totalmente dominada pelo Pajé. Pro- vando esta afirmativa, uma senhora caiu em tran- se. Pajé chegou-se e disse: "Ela precisa de um aformoseamento. E you tirar o demo do corpo dela." A tal senhora humildemente aquiesceu. E dei- tou-se ao chão. Pajé incorporou Antônio Cabocli- nho e dançou batendo pés no chão, repetindo: Sai dai Não venha mais cá. Sai daí Curupira, e não venha mais cá, com a fé de São Ma- laquias, de Marcos e Manso, eu te amanso e te pren- do, eu te rendo e embaraço." A cena é chocante, primitiva, e mostra o que pode acontecer quando se entregam os sentidos a uma mania, que é a de "exorcisar". Nada é mais deprimente do que observar como a assistência fi- ca alegre, dominada, totalmente guiada, irracional, nas mãos de pessoas como Pai Pajé... 50A assistência, de mãos dadas, reza unida: Padim Ciço me socorra Uma meizinha me dê Não me deixe padre Cícero Remédio de mato me dê Me dê um do rio ou do matagal A DAS RAÍZES Os remédios do mato, afirma Pajé, são melho- res que os do doutor. São cheios de "sustança", por- que vêm da natureza. Assim, you ver o que cada um tem e ir receitando: A senhora alí tem que tomar saião com leite, pois tem fraqueza de peito. A outra tem que tomar erva cidreira... e assim sucessivamente vai recei- tando. Vejam, como é estranha a medicina do ser- tão! Lá fora a noite ia alta, quase meia-noite, hora em que tem que se terminar a sessão. E, para findar ritual de curandeirismo, todos deram a mão e fize- ram a CRUZ MILAGROSA desenhada no chão. Es- ta cruz é composta de quinze letras, que formam a hástea da cruz, representando os quinze mistérios do rosário. braço horizontal da cruz tem 10 letras, que representam os 10 mandamentos de Moisés: Es- ta cruz tem poderes mágicos, dizem feiticei- ros. é desconhecida, rara, só os iniciados no ca- 51a usam. Pela primeira vez vamos entregá-la conhecimento do grande público: I R ORAPRONOBIS T A V L A S R E T A M 52CAPÍTULO VI A Defumação Medicinal No fornilho do cachimbo dos mestres são colo- cados pedaços de folha de jurema, tabaco, alecrim, incenso, mirra. Aceso o cachimbo, é colocado ao con- trário na boca do Na boca, coloca fornilho e sopra, fazendo a fumaca sair pelo canu- do (cânula) do "gaito". O cachimbo, ou marca, é a base da defumação. A defumação é feita principalmente da des- ta para os pés, depois o braço direito, a seguir o es- querdo, parando mais tempo na esquerda, por on- de entram os espíritos negativos. Vira-se o defumado e faz-se a defumação pela frente, da ca- beça aos pés. Em algumas sessões, tanto de pajelança como de toré, como de chefe pega a criatura a ser exorcisada e dá três puxões nas mãos, para baixo, afastando os espíritos ruins. Ao defumar a pessoa é necessário que ela este- ja e ela deve também desmanchar os ca- belos. as sapatos são chamados pelos caboclos do 53

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